Mais que uma vinícola: um mito
Dionísio Chaves | Blog de Baco | 18/07/2008 11:15:00
Na última quarta-feira tive o prazer de participar de uma bela degustação da importadora Mistral, realizada no restaurante Mr. Lam, no Jardim Botânico. A degustação foi dos vinhos produzidos pela bodega Veja Sicilia, Alión, Pintia da Espanha e Oremos, da Hungria, todas pertencentes à família Álvarez. A grande surpresa é que a degustação foi apresentada pelo diretor de enologia das Bodegas, Xavier Ausás.
Na primeira vez que estive com Xavier na Bodega Veja Sicilia em 2000 foi uma experiência inesquecível. Na época eu estava com o sr. Eugênio Branco, proprietário da Quinta do Portal, na região do Douro, Portugal, e com Oliveira Figueiredo, grande jornalista e um dos melhores críticos de vinhos de Portugal. Infelizmente foi à última vez que estive com o Sr. Oliveira, pois no ano seguinte ele faleceu. Guardo até hoje com muito carinho o livro que ele nem chegou a publicar. Saudades...
Mas vamos às boas lembranças. Como estava com duas pessoas influentes no mundo do vinho, nossa recepção foi extremamente calorosa e com uma bela degustação: uma vertical de Vega Sicilia. Participar desta degustação foi uma experiência única! Porque além de muito prazer, eu estava desfrutando de uma das maiores lendas da história no mundo do vinho, ao lado de grandes amigos e mestres na arte de degustar.
Dois anos mais tarde estive novamente na bodega e ao meu lado estava meu mestre e mentor Célio França Alzer, professor da associação brasileira de sommelier. Eu poderia dizer que o professor Célio foi sem dúvida alguma a minha maior inspiração no mundo do vinho, pois suas aulas eram extremamente prazerosas, seu conhecimento era indiscutível e sua didática, simplesmente fantástica. Ao chegar à bodega fomos recebidos por Mercedes Ausás, enóloga, irmã e assistente de Xavier. Celio e eu ficamos impressionados com a forma poética de ela nos explicar a filosofia dos vinhos ali produzidos. E mais uma vez fizemos uma bela degustação dos vinhos que ainda estavam nas barricas e de algumas safras já engarrafadas.
Na última quarta feira, vi minhas lembranças passarem a todo o tempo e elas aumentavam a cada garrafa de vinho servido.
Começamos provando um vinho branco seco da Hungria, o Tokaji Mandolás, produzido com a uva Furmint, das safras de 2005 e 2006. Os Tokaji mais famosos são os doces do tipo Aszú, principalmente os de três, quatro, cinco e seis puttonyos (mosto não fermentado de uva botrytizada) e o célebre Essência, este produzido em anos excepcionais somente a partir de uvas botrytizadas. Quanto maior o número de Puttonyos, maior o percentual de açúcar. O Mandolás da safra de 2006 estava mais fresco e com aromas de flores brancas e frutas exóticas. O de 2005 estava com uma tonalidade mais evoluída, nariz mais complexo lembrando a manga, mel de acácia, brioche e caramelo. Na boca era intenso, persistente, muito equilibrado, elegante e com uma excelente profundidade. Em seguida passamos para o Pintia, produzido na região de Toro, Espanha. A família Alvarez comprou a bodega Pintia em 1997, mas o primeiro vinho a ser comercializado foi o da safra de 2001. Entre os degustados das safras de 2004 e 2005, preferi o primeiro, pois se apresentava com uma estrutura mais equilibrada, aromas mais envolventes e complexos, ainda agressivo devido sua jovialidade, mas era fácil perceber que será um vinho que atingirá a maturidade em mais 5 anos.
Continuando essa orgia, demos início, na minha opinião, à degustação dos vinhos tintos mais elegantes e complexos. Começando com o Alión de 2002 e 2004, ambos excelentes. Destaque para o primeiro que apresentava uma tonalidade vermelho granada, típico de vinhos que estão na maturidade. No nariz, estava complexo, com notas de tostados, chocolate, especiarias e tabaco. Na boca, era macio, equilibrado, fundo de boca longo e sedoso.
A cada momento o silêncio ia aumentando, pois o Vega ainda estava por vir. Então tivemos a prova do Valbuena 5 año reserva, que amadurece cinco anos na adega antes de ir para o mercado, sendo três anos e meio na madeira e um e meio em garrafa. Entre as safras de 2003 e 1998, fiquei com o segundo, pois encontrava-se em um momento melhor de apreciação devido ao tempo de envelhecimento em garrafa. Chegado o grande momento: provar a maior lenda da Espanha, o famoso Vega Sicilia Único Grand Reserva das safras de 1995 e 1998. Ambos fabulosos, porém o de 1995 estava excepcional, digno de ser degustado de joelhos, um dos melhores vinhos que provei este ano. Todos os tintos foram produzidos por basicamente Tempranillo, porém, de acordo com a safra, utilizando pequenos percentuais de Cabernet Sauvignon, Merlot e, às vezes, Malbec.
Simplesmente, fantástico!!!
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