Saudade: Pedro Ernesto, Marcos Tamoio e Negrão

José Carlos Netto | José Carlos Netto | 22/10/2011 13h46

No exato momento em que várias escolas de samba sofrem com o Carandiru, e em todo entorno do Caís do Porto, é salutar recordar políticos da antiga que muito somaram em favor de agremiações de grande ou pequeno porte.

Políticos, que antes de mais nada, tinham a percepção das coisas do samba e conheciam até mais de perto gente do samba, fico estupefato ao tomar conhecimento de que uma turba de policiais Guarda Municipal e até cães amestrados invadiram, no último dia 07/10, aquele local com uma única finalidade: expulsar as escolas de samba com suas tralhas.

O pretexto pode ser até nobre. A prefeitura precisa do espaço para alavancar as obras do "Porto Maravilha", tendo em vista os jogos da Copa do Mundo de 2014 e posteriormente os Jogos Olímpicos de 2016.

O JCN riscou que seria nobre a motivação. Mas acontece que as agremiações que ocupam o Carandiru não têm nenhum local aonde ir. Para desalojar alguém é preciso ter um local para abrigar o desalojado. Na rua é que não pode ficar.

Só que a prefeitura da cidade não pensou e tampouco cuidou desse detalhe. O resultado é que com o Carnaval às portas, ninguém é de ninguém lá pelas bandas do Carandiru.

Nem mesmo RENASCER DE JACAREPAGUÀ, que agora está na elite do samba, vai escapar da expulsão. O certo seria tal escola de samba ir para a Cidade do Samba e ocupar o seu barracão, conforme determina o regulamento da LIESA.

Ocorre que a prefeitura anunciou que as obras nos barracões incendiados estariam prontas num curto período de tempo. Não é bem isso que está acontecendo. As citadas obras estão sim, caminhando a passos lentos, e só sabe Deus se acabarão antes do Carnaval.

Escolas de samba como Unidos do Viradouro, Acadêmicos do Cubango e Acadêmicos de Santa Cruz, que embora não ocupem o Carandiru, vão ter que sair de seus barracões em função da ação judicial ganha pela Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto.

O JCN não possui procuração de tais escolas e muito menos é advogado das mesmas. Mas me sinto no dever de prestar a minha solidariedade as prejudicadas. Até porque a prefeitura já sabia do tamanho do problema há séculos. Se  não tomou nenhuma providência prática e direta foi porque não quis ou faltou competência para tal. Coisa muito comum no Poder Público.

O prefeito Eduardo Paes é um administrador bem intencionado, não tenho dúvida alguma.  Porém, quando o assunto é samba ele escolhe muito mal os seus conselheiros e assessores. Agora, tardiamente é que a Prefeitura está anunciando que essas escolas de samba estão de mudança para um terreno alugado de 6 mil metros quadrados no bairro do Caju.

Resta saber se esse bendito terreno fica dentro ou próximo do Cemitério do Caju. E tem mais. Será que as escolas de samba vão ter de fazer obras no local para adaptar seus barracões? E a escola de samba Unidos do Viradouro não vai para Carandiru-Cemitério, que o honrado Eduardo Paes acaba de criar no Bairro do Caju. Vai ficar no antigo barracão da Porto da Pedra e está acabado.

Pelo menos assim informa o cidadão Moysés A. Coutinho Filho, o popular Zezo, poderoso diretor da LESGA.  

Enquanto isso, Reginaldo Gomes, presidente da LESGA, garante já ter em mãos um mega projeto para construir uma Cidade do Samba II, seria na Avenida Brasil no espaço do restou  de uma antiga metalúrgica. Segundo o presidente são 20 mil quadrados, espaço mais do que suficiente para construir barracões para todas as escolas dos Grupos A e B da LESGA. Palmas para Reginaldo Gomes. O seu problema aparentemente está resolvido.

Mas como ficarão as escolas de samba da Associação das Escolas da Cidade do Rio De Janeiro? Será que todas elas caberão no Carandiru do Caju?

Para o local, onde o prefeito está despachando as agremiações, só irão  escolas de samba do Grupo B, que por ventura estão em barracões no Carandiru do Santo Cristo.

E ainda vai ficar difícil e complicado saber que onde as escolas de samba elas vão tirar dinheiro para as referidas obras, que naturalmente e forçosamente terão que realizar no galpão do Eduardo Paes.

Como já risquei é uma primazia para prefeitura ajudar o samba. Estariam todos nós batendo palmas pela construção dessas novas quadras se não fosse pequenos detalhes. Poucos são os políticos, que na história do Carnaval da cidade do Rio de Janeiro, tiveram participação somatória em favor do samba e das escolas de samba em si.  

Existem políticos merecem a nossa glorificação, acima de tudo por suas participações pessoais e envolvimento direto com as escolas de samba e o sambista num todo. Os açodados vão gritar logo César Maia, Luís Paulo Conde, e até Eduardo Paes, que acaba de criar o seu Carandiru II.

Nada disso. Tais políticos, os quais estou me referindo, são de gerações passadas.

Na época em que fazer algo pelas escolas de samba era coisa de maluco. Época em que o Poder Público fazia de tudo e as escolas de samba só entravam com o corpo, os sambistas, é claro.

Hoje é mole. A LIESA faz tudo sozinha e a Prefeitura ainda leva um bom carvão de tudo que entra no desfile da Marquês de Sapucaí.

Tenho acompanhando noticiário dando conta que a Prefeitura está construindo novas quadras para essa e aquela escola de samba. Novidade? Claro que não. Na década de 70, quando prefeito da cidade, o saudoso Marcos Tito Tamoio da Silva construiu de uma só tacada seis quadras com cobertura e tudo mais para escolas que tinha terrenos próprios.

O pranteado Marcos Tamoio não escolheu, para a sua obra, somente escola de samba medalhão. Pelo contrário. Escolas de porte menor foram selecionadas. Em Cima da Hora, União da Ilha do Governador e Unidos de Lucas foram aquinhoadas por essa benesse do então prefeito MT.

E não pensem que foi obra eleitoreira. O Dr. Marcos Tamoio nem sequer compareceu em nenhuma das inaugurações e tampouco foi pedir votos em tais escolas de samba, pois nunca foi candidato a nada vezes nada.

Os mais afoitos vão bradar de imediato: E o César Maia não construiu a Cidade do Samba?  E o Luís Paulo Conde não abriu as burras da prefeitura e distribuiu verbinhas a granel para as escolas de samba?  

E o Eduardo Paes não está construindo novas quadras?

O JCN calmamente responde: Tudo isso tem um preço. Esse preço faz parte justamente do preço do jogo político - eleitoreiro. Uma espécie de jogo de caipira.   

E tem mais: leve-se em consideração que a Prefeitura da cidade corre uma boa sacolinha do montante arrecadado pelas escolas de samba para organizar o desfile na Marquês de Sapucaí.

É o caso, como já dizia minha vovozinha: dá com uma mão e tira com a outra.

Tudo isso é mencionado em função da minha eterna fobia de saudosista. Nada contra os prefeitos citados. O caso é que essa minha sina me faz lembrar coisas que presenciei ou acompanhei através de jornais antigos e livros. Citei políticos, que em épocas distintas governaram o Rio de Janeiro. Tempo em que as escolas de samba não tinham o apogeu de hoje.

E mais lá atrás o samba em si, era marginalizado e o sambista visto como gente de classe inferior. E até mesmo alcunhado de marginal.

Na década de 30, o médico Pedro Ernesto Baptista, foi prefeito da cidade por dois períodos distintos. O samba começava engatinhar nos seus primórdios, nos morros e favelas do Rio Janeiro.

Quando se falar em escola de samba era crime, ele sempre  preferia estar com gente do samba que com outra coisa qualquer.

Existem alguns registros e até fotos em livros, onde o saudoso PEB aparece junto de Cartola, e vários sambistas, em pleno Buraco Quente ao pé do Morro de Mangueira.

Foi o Dr. Pedro Ernesto o primeiro grande incentivador dessa longa caminhada das escolas de samba.

Isso ainda na década de 1930, quando a Ditadura Vargas estava em pleno apogeu no Brasil. O Dr. Pedro Ernesto um lídimo percussor das nossas escolas de samba. Honra e mérito para ele. Por isso mesmo, Pedro Ernesto ganhou daquele samba de antanho várias e várias homenagens, inclusive  virando enredo em algumas escolas ou tendo o seu nome exaltado em vários sambas.

Em sua homenagem, a Câmara de Vereadores instituiu a Medalha Pedro Ernesto, galardão máximo para quem soma algo para a nossa sofrida cidade. Vários sambistas já receberam essa bendita homenagem em função de suas participações nas escolas de samba.

Doutor Francisco Negrão de Lima, mineiro de Nepomuceno, foi inicialmente Prefeito do Rio de Janeiro, quando a cidade ainda era o Distrito Federal (1956 / 1958).  

Já naquela época, o popular Doutor Negrão era chegado a uma boa birita e ao bom samba.

Consta que o doutor Negrão (já então como chanceler) foi o responsável até pela exibição que a Portela fez para Duquesa do Kent nos jardins do Palácio do Itamaraty.  

Os mais antigos ainda devem lembrar que Negrão de Lima foi o cicerone de uma grande comitiva de diplomatas, liderados pelo então embaixador americano, que visitou o samba da Portela, juntamente com o cineasta Walt Disney, na sede onde hoje é a Portelinha.

Além do mais, foi ele o responsável pela criação de órgãos governamentais, antes da RIOTUR, para a organização do chamado Carnaval de Rua, incluindo os desfiles das escolas de samba. Do Excelentíssimo Embaixador Francisco Negrão de Lima do tenho duas pequenas histórias. Uma totalmente hilária e outra da mais pura seriedade política.

Carnaval de 1966. O desfile na Avenida Presidente Vargas, que já estava atrasado como hábito, fica mais prejudicado ainda quando desaba na cidade um terrível temporal.

Como o Doutor Negrão - já então governador da cidade - estado da Guanabara - não havia chegado para abrir o desfile, coisa que ele não abria mão de jeito algum, ninguém se movia sob aquele temporal. Eis que o serviço de som da PV anuncia então a chegada do senhor governador. Só que ninguém conseguia descobrir onde estava o governador.

De repente, não mais do que de repente, eis que abrindo caminho pelo meio da pista alagada cumprimentando esse e aquele sambista, surge o Doutor Negrão de Lima protegido apenas por uma capa e um guarda chuva.

O lance foi que o motorista do carro do Palácio Guanabara, não sabia onde deixar o governador. Na dúvida ele rumou para Presidente Vargas, mas no sentido oposto a do início do desfile. Sem perder a sua famosa fleuma britânica, Negrão de Lima apeou do carro na esquina da Rua Regente Feijó (final do desfile).

Depois resolveu ir andando pela pista de desfile como se fosse ele um tipo qualquer.

E assim foi até o seu palanque que ficava próximo da Avenida Rio Branco.

E lá chegando, o simpático governador, apenas ordenou:  " Podem começar.  Desta vez foi o governador que atrasou o desfile "

Assim era o Doutor Negrão de Lima.

A outra historinha do Doutor Negrão de Lima é simplesmente mais do que hilária. E só poderia ter acontecido na quadra da nossa querida Mangueira.

Ele, o Negrão de Lima, governador  da cidade - estado, era figurinha carimbada nos ensaios da gloriosa. Sempre acompanhado de sua esposa, a senhora Ema Negrão de Lima.

A Mangueira, na época desse fato, tinha como presidente o seu Juvenal Lopes, o popular Nanau da Mangueira.

Como locutor oficial da escola, este JCN convocou o escriba Milton Silva, que na época trabalhava no periódico Ultima Hora sucursal de Niterói para auxiliar no boca de ferro. Culto ao extremo e mais erudito ainda, o Milton criou um estilo próprio de apresentar o ensaio da velha Manga. Ele recitava  trechos de poesias de poetas brasileiros e até estrangeiros (Castro Alves, Bilac, Drumond, Fernando Pessoa e Camões quase sempre).

Porém o seu forte eram os seus slogans de efeito que a todo instante mandava ao microfone. Um dos seus preferidos dizia assim:

- As mulheres devem ser tratadas com carinho, muito carinho.

Na mesma frase emendava um nome qualquer.

Geralmente um diretor da escola ou de algum visitante.

Sábado de calor infernal na cidade. Eis que aparece em Mangueira o senhor governador Francisco Negrão Lima, impecavelmente trajado num terno de linho branco S -120 e sapato bicolor e o seu famoso chapéu gelô.

O seu Juvenal, já prevendo as peripécias do Milton no microfone me chama e avisa:   -
- Tome cuidado com o seu locutor. Não vai deixar fazer brincadeira com governador.

Fui ao Milton e acertei que com o governador não haveria brincadeiras no microfone. Ele entendeu e o ensaio prosseguiu normalmente.

Mas o Milton gostava de esquentar a garganta com o famoso leite - de -onça que era servido na quadra. E naquela altura a sua garganta já estava quente ao extremo.

Lá pelas tantas, já um tanto que chamuscado, ele manda bem alto no boca  de ferro.

- Atenção Excelentíssimo Senhor Embaixador Francisco Negrão Lima. mui digno governador do Estado da Guanabara, atenção!

O Doutor Negrão imaginando que fosse alguma séria fez com o polegar o sinal de positivo.

O Milton então foi fundo:

- As mulheres, doutor Negrão, devem ser tratadas com carinho, muito carinho!

O doutor Negrão mais uma vez levantou o polegar repetindo o sinal de positivo.

O Milton então emendou de prima: Mas se a Dona Ema (mulher do Negrão) errar pau nela.

O seu Juvenal Lopes quase infartou e só se acalmou quando o próprio Negrão de Lima, ás gargalhadas,  entrou na parada:

- Calma Juvenal se as suas cabrochas podem levar pau quando erram, por que se poupar a Dona Ema?

Era assim o Doutor Negrão de Lima.

Comentários (4)

Rubem da Silva Moreira Neto

Membro SRZD desde 04/07/2011

01/11/2011 17:37:04

muito boa essa do final da mulher do governador,chorei de rir.parabéns pelo blog.

cristiano marinho

Membro SRZD desde 28/10/2011

28/10/2011 14:46:38

caro amigo, conhecedor de tudo sobre o carnaval carioca, boa matéria,parabéns p-elo feito amigo.o nosso carnaval do ano seguinte esta atrasado.

Zappa

Membro SRZD desde 16/04/2009

24/10/2011 17:56:15

Eduardo Paes, atual alcaide da cidade, foi secretário de César Maia e como seu chefe também não se importa com o chamado carnaval popular. Para o prefeito, carnaval significa reprimir ambulantes, mijões e criar regras impeditivas aos blocos do centro e da zona sul conjuntado a certa associação intitulada “SEBASTIANA” que diz representar os blocos e ser “Independente”, mas que só faz servir a prefeitura e seus propósitos e aí tome repressões disfarçadas em carros de som com volume reduzido, horário de desfiles, cadastro disso e daquilo... Contrapondo a ideia secular, que carnaval é significação de liberdade e direito de festejar a vida, pois se assim não fosse não seria carnaval, mas sim dias de finados. Excelente texto! Me fizestes relembrar os saudosos Zé Carlos Rego e Waldinar Ranulfo (este último foi meu vizinho em Quintino) Zé, alguma coisa concreta precisa ser feita com relação as escolas chamadas “Grupo de Acesso” a Renascer, estreante no especial, não merecia viver este momento. Saudações!

Desculpemas

Membro SRZD desde 07/08/2011

23/10/2011 22:47:17

...que belas histórias! Escreva um livro mestre!!! Se fosse hoje em dia o Bozo,que adora aparecer para autoridades e celebridades, ia mandar uns traficas dar uma lição no Milton!!!