Sou carnavalesco fresco, e até certo ponto invejoso. Sabe aquela inveja que faz a gente querer melhorar, mas sem destruir o objeto da inveja? Pois é, essa aí.
A Band transmitiu Parintins.
Não, eu não queria estar no lugar do Milton Cunha. Não queria ser ele comentando, no ar-condicionado, ao lado do enjoadamente ufanista José Luiz Datena, comendo de graça e assistindo ao espetáculo bem de frente, recebendo imagens de dez câmeras diferentes, dez ângulos distintos, e com toda aquela mordomia. A inveja não é essa.
A inveja também não é das alegorias da festa de lá. Aqueles bichos mexem, sim, mas não vejo tanta graça nisso. Maior esforço do mundo, um monte de operário lá dentro da coisa, e o resultado? Um boneco de onça que fica se parecendo não com uma onça, mas com um boneco de onça. Prefiro as nossas alegorias. Claro, quando as nossas alegorias são criativas.
A inveja tampouco é da música. As toadas são muito bonitas e, para um sujeito do Sudeste, como eu, soam diferentes. É uma batida que não existe por aqui. As melodias, contudo, se tornam, com o passar da noite, repetecos sonoros. E as letras se esforçam para roçar na poesia, mas por vezes escorregam no piegas. O nosso combalido samba-enredo tem mais vibração. Óbvio que tudo isso é relativo, e tem a ver com o ouvido de quem está analisando o tema. Alguém amazônico certamente não veria diferenças relevantes de estilo de samba de uma Imperatriz para o de uma Beija-Flor, de uma Tijuca para uma Mangueira. Mas tem, né... Ainda tem.
Se eu invejo as mulheres de lá? Olha, aqui tem mais mulher. A abundância é maior, e no Rio todo mundo fica mais pelado, né? Mas as de lá me parecem, olhando cá de longe, pela tela, tão mais verdadeiras... Índias de cabelão, aquele sorriso onde cabem 32 dentes, e todas elas cantando! Cantando! Que diferença de umas rainhas daqui que nem sabem o refrão dos nossos sambas... Taí, fico mesmo um pouco chateado de não ver por aqui as mulheres lindas do carnaval de Parintins.
Mas a inveja mesmo, a grande inveja, é o povo.
O povo. O povo. Aquelas arquibancadas parecem estar vivas. E na verdade as milhares de pessoas, que ali estão, estão. A participação do público em Parintins é algo que não se vê por aqui. Aqui é o contrário. Nossas arquibancadas no Sambódromo só ficam vendo, como diria o outro, a banda passar. Isso sem falar naquele setor de turistas, gringos que pedem autos uma da manhã e vão embora. Fica aquela arquibancada vazia, e um monte de desvalidos lá fora, se babando para entrar.
O carnaval de Parintins, do boi azul contra o outro, vermelho, para muitos é sempre igual e um tanto repetitivo, pois conta as mesmas histórias toda vez. É. Pode até ser. Fica meio dejá-vu. Mas alguma magia existe por lá, magia essa que está faltando por aqui.
Sabe o que acontece? Sabe por que lá tem magia?
É que lá o povo está junto. E por isso é uma festa. Festas são assim.
Aqui, com o povo quieto e sem cantar, e isso talvez aconteça pela decadência dos sambas, a coisa parece ser apenas um desfile, e não uma festa.
Quer desfile mesmo? Gosta de desfile? Acorde cedo no 7 de Setembro. É quando se tem um desfile ao pé da letra. Mas a Sapucaí não deveria ser a avenida de um desfile, e sim o palco de uma festa.
Inveja de Parintins.
Até!