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Boas histórias devem ser contadas

Soares Júnior | Soares Júnior | 02/07/2008 13:51

Às vezes preocupo-me com alguns comentários que ouço.' São aqueles do tipo: "este programa deveria ser proibido" ou a imprensa não deveria saber tantos detalhes das investigações". Feridos no que acreditam ser a moral e os bons costumes, alguns bradam essas barbaridades.

Nunca é demais lembrar que regimes de exceção adoram amordaçar a imprensa livre e aniquilar veículos que sejam contra os seus cânones. A liberdade de imprensa e o estado de direito são prerrogativas de um país que se julga democrático. Não é errado que o jornalista tenha acesso à informação. Ele e o veículo para que trabalha  devem ter responsabilidade no momento de divulgar o conteúdo. Por exemplo, são totalmente dispensáveis detalhes mórbidos de como ficaram braços e pernas das vítimas da queda de um avião, ou como ficou o rosto de uma pessoa atingida na cabeça por uma bala perdida.

Há formas de contar boas histórias sem comprometer os envolvidos. A que se segue é uma destas. Além disso, serve para mostrar como em muitas oportunidades a justiça tem que se ocupar de casos peculiares que aumentam consideravelmente o volume de processos sob responsabilidade dos juízes. E por falar em responsabilidade, os nomes reais não serão divulgados, para evitar qualquer constrangimento.

Jovildo tinha 60 anos e morava numa cidade no interior do estado do Rio. Ele possuía duas casas. Uma delas estava vazia. Nilcéia ficara viúva, tinha pouco menos de 40 anos e oito filhos. Sem condições de criar as crianças, ela pediu para ocupar a casa vazia. O homem aceitou a oferta da viúva. Com o tempo Nilcéia resolveu compensar Jovildo com favores sexuais. As coisas caminharam bem até que Jovildo morreu.

O homem não tinha herdeiros e casa ficou para o irmão dele. A família estava sem sorte, pois o irmão faleceu pouco depois. O imóvel foi parar nas mãos da cunhada de Jovildo. Pouco importava que ela se dava bem com Jovildo, ela tinha direito ao imóvel ocupado por Nilcéia. Como resolver o entrevero familiar? Justiça.

A cunhada entra com uma ação de despejo alegando que Nilcéia estava devendo o aluguel. No entanto não havia contrato de locação. Nilcéia e Jovildo tinham um acordo verbal. Começa a audiência e a cunhada está exaltada, falando alto. Ela chegou a interromper o depoimento de Nilcéia.

A juíza se irritou e repreendeu duramente a cunhada. Nesse momento ela desmai8a. Confusão no plenário, acode a cunhada, chama a ambulância...Quando chegam os médicos a cunhada acorda e relutaem ir ao hospital. A juíza endurece o jogo. A cunhada se desesperou e saiu correndo da sala de audiência. Charivari formado.

Depois de algum tempo a cunhada volta com uma testemunha de que Nilcéia tinha um acordo de locação com Jovildo. A tese era de que Nilcéia pagava o aluguel com favores sexuais.

A defesa de Nilcéia se aproveitou disso e afirmou que não tinha havido quebra de contrato de locação. Pois com a morte de Jovildo, Nilcéia não poderia mais efetuar o pagamento. Se esse argumento foi relevante ou não, o fato é que Nilcéia continua na casa.

Na minha modesta opinião, direito em muitas oportunidades é um mundo de ficção. Tudo bem, juízes, promotores, defensores e advogados também dizem isso do jornalismo.

Ficção ou realidade, tanto nós quanto eles devemos trabalhar sem censura para que as instituições funcionem melhor no país.

Até a próxima.


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Postado por:high school musical cover (011)9590-3197 | 10/07/2008 14:29:28

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Postado por:Carla Tavares | 07/07/2008 19:51:14

É Professor Soares, realmente boas histórias devem ser contadas, e como deve haver histórias como essas por ai, tratadas como um mero número processual, que são "RESOLVIDOS" friamente sem qualquer preocupação com os envolvidos. E assim tb ocorre no jornalismo uma frieza quase sanguinária nos fatos relatados. Liberdade de imprensa sim, mas com responsabilidade. um abração, bom fim de semana e até a próxima.

Postado por:Paulo Araújo. | 05/07/2008 16:23:54

Boas histórias devem ser contadas Esta crônica é sensacional !!! E vem mostrar a realidade de nossa justiça, por mais ficciosa que pareça ser ser. E como diz uma máxima jurídica: Lex dura Lex (A Lei é dura mas é Lei). Mas como julgar uma causa desta ??? A verdade é que tanto nós, jornalistas, quanto aos magistrados temos que ter liberdadepara criar, interpretar e julgar as instituições. Somente assim preservaremos a manutenção de um Estado democrático. Estamos juntos, caro amigo e irmão Soares Jr.

Postado por:Renata A Devecchi | 05/07/2008 14:13:00

Nilcéia é uma mulher de sorte...kkkkkkkkkkkk Bom final de semana!!! beijos

Postado por:Marco Grillo | 04/07/2008 19:04:42

Boas histórias devem ser contadas, e nisso você é mestre né Soares. Suas histórias são imbatíveis! Abraços

Postado por:Cristiana Richard | 03/07/2008 16:00:33

Acredito que o bom senso e equilíbrio seja o melhor caminho para que uma nação funcione bem. Seja no direito, jornalismo ou em qualquer área. E para isso, qualquer tipo de censura deve ser repudiada e combatida. Até o próximo.

Postado por:Laura Machado | 02/07/2008 15:24:55

Soares, como advogada e ex-estagiária da Defensoria posso garantir q casos peculiares realmente sobrelotam a justiça, mas alguns rendem boas matérias nas páginas de jornais. Concordo tanto o mundo jurídico qto o da informação devem ter condições de trabalhar s censura e é ainda pior qdo a censura parte do próprio judiciário como no episódio recente da decisão de multa p os veículos de imprensa por publicarem entrevistas com pré candidato a prefeitura em SP. Mas nem todos os jornais tem esta citada responsabilidade na hora de publicar seus conteúdos infelizmente alguns fazem de tudo para vender não se preocupando com questões éticas... Deve ser esta 1 das razões p surgir algumas formas de censura.... Aguardo o próximo. Bj

Soares Junior

Jornalista desde 1996. Depois de passagens pela TV Bandeirantes e Rádio Tupi ingressou na rádio CBN. Durante os 9 anos no Sistema Globo de Rádio, ele apresentou e redigiu O Globo no Ar, fez cobertura aérea de trânsito, ancorou e foi chefe de reportagem. Soares Júnior é professor da PUC e da Escola de Rádio.