
Tudo começou há cinqüenta anos. Os rapazes eram muito novos, moravam todos ali em Ramos e tinham em comum a paixão pelo carnaval. Eram filhos de sambistas e partilhavam também o respeito pelas tradições espirituais da religião de seus pais. Os da família Nascimento - Ubirajara, Ubiracy e Ubirany - juntaram-se aos da família Oliveira - Walter, Sereno e Chiquita - e aos da família Espírito Santos - o grupo de Aymoré -, para brincar o carnaval. Primeiro foram as alas Homens da Caverna e Chapeuzinho de Palha. Depois virou um bloco, o Cacique Boa Boca. Tudo ali na região da Leopoldina, uma brincadeira sem pretensões, coisa de 200 pessoas.
Logo depois, em 1961, a coisa fica mais séria, cresce, incorpora as meninas (irmãs, amigas, namoradas e esposas, mas ainda se restringe à sua região. É o Cacique de Ramos que está nascendo!
Em 1962, a ousadia do primeiro desfile, como bloco de embalo, no centro da cidade proporciona o primeiro confronto com o rival Bafo da Onça, mais antigo e mais numeroso. Resultado: o Cacique se viu acuado, obrigado a recuar para a calçada e dar passagem ao gigante que se aproximava.
No ano seguinte, na esteira do sucesso do samba Água na boca, de Agildo Mendes, a popularidade do Cacique de Ramos levou ao centro cerca de três mil componentes. Era a forra: o Cacique fez o Bafo encostar para lhe dar passagem. Daí pra frente o sucesso sem precedentes conseguiu reunir sete mil foliões, algumas vezes precedidos por batedores da polícia, graças ao prestígio e à imensa capacidade de articulação política de Ubirajara Félix do Nascimento, que se tornou conhecido como Bira Presidente.

No poder há cinqüenta anos, não tem oposição. Líder incontestável, sua legitimidade vem, dentre outras razões, da certeza de que ocupar a presidência do bloco é uma missão, à qual não pensa em se furtar. Uma de suas mais importantes conquistas foi a quadra do bloco, na Rua Uranos, 1.326, que se tornou um pólo cultural da maior importância, transcendendo de muito o carnaval.
Na nova quadra, a partir da década de 1970, foi possível organizar atividades sociais, como as partidas de futebol que terminavam em samba, os pagodes ao ar livre, à sombra das famosas tamarineiras do pátio. Por ali passaram muitos grandes nomes de nossa música: Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, João Nogueira, Jovelina Pérola Negra, Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Sombrinha e muito mais gente.
Foi também a partir desses pagodes que se articulou o grupo Fundo de Quintal, onde permaneceu por décadas a tríade caciqueana mais famosa: Bira, Ubirany e Sereno. Foram inúmeros LPs gravados, depois CDs e DVDs, shows pelo país e no exterior e a tremenda responsabilidade de haver desencadeado uma verdadeira revolução na maneira de tocar e cantar samba, inclusive com nova instrumentação: o tantã, o repique de mão e o banjo com braço de cavaquinho foram criações do grupo, bossas que não comprometeram a fidelidade ao modelo de samba herdado de seus pais, bambas do bairro do Estácio.
Em outubro de 2009 o Cacique de Ramos foi considerado patrimônio cultural imaterial do Rio de Janeiro. Em setembro de 2010 a legalização da posse da quadra e sua inauguração após reforma deram início aos festejos do Cinquentenário. Este ano a Câmara dos Deputados do Rio concedeu ao bloco a Medalha Tiradentes, em cerimônia no dia 9 de maio. Paralelamente a Estação Primeira de Mangueira anunciava a homenagem ao Cacique de Ramos em seu enredo para o carnaval de 2012.
E ontem Bira, Ubirany e Sereno estiveram na sede do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro para gravar o depoimento do Grêmio Recreativo Cacique
de Ramos na série Depoimentos para a Posteridade. Com a colaboração do jornalista João Pimentel, foram quase quatro horas de muitas risadas, sinceridade, irreverência, emoção e até protesto, em que os fatos que narrei acima foram mais uma vez lembrados. É bom constatar que os rapazes ainda estão novos e capazes de esculpir "com mãos de alegria o seu carnaval", como dizem os inspirados versos do saudoso Luiz Carlos da Vila em seu samba Doce refúgio. Viva o Cacique de Ramos!
Tuninho Cabral
Membro SRZD desde 11/04/2009
03/09/2011 14:43:14
Zappa: Com certeza seu recado chegará os ouvidos desses três bambas do samba. Viva o Cacique de Ramos, que espera sua visita. Viva o SAMBA!
Zappa
Membro SRZD desde 16/04/2009
02/09/2011 19:39:37
“Toda aquela gente hoje é coroa, pois o tempo não perdoa e vai em frente... Toda aquela gente namorou, cantou e sambou no Cacique de Ramos...” Diz a letra do samba. Saí no cacique de quartoze aos vinte e oito anos e só parei quando me casei e como toda aquela rapaziada, estou também na expectativa do carnaval 2012 da Mangueira. Vamos ver que bicho vai dar! Imperiana Rachel e ANTONIO CARLOS S CABRAL, proponham ao trio Bira, Birany e Sereno, que nem que seja em pout pourri, que o Fundo grave aqueles sambas que marcaram as décadas de sessenta e setenta, sem esquecer o sucesso “Canto de Paz” de autoria do Mendes. Saudações!
Antonio Carlos S Cabral
Membro SRZD desde 11/04/2009
02/09/2011 16:16:38
VIVA O SAMBA! VIVA O CACIQUE DE RAMOS! Linda! Emocionante! Essa história maravilhosa do nosso querido Cacique de Ramos resumida com toda a propriedade e veracidade por essa grande Escritora, Professora, Pesquisadora, Imperiana e conhecedora profunda de Samba e Carnaval, RACHEL VALENÇA. Muito obrigado, Rachel, em nome da Nação Caciqueana, da Diretoria e de Bira Presidente, de todos os componentes e simpatizantes do Cacique de Ramos. Aquela tarde de 31/08/2011 no MIS RJ ficará eternizada em nossas mentes, graças ao belo trabalho do jornalista João Pimentel e de Rachel Valença (do Império e do Cacique). VIVA O CACIQUE DE RAMOS! VIVA O SAMBA!
Desculpemas
Membro SRZD desde 07/08/2011
02/09/2011 15:05:14
...mestra que texto maravilhoso! Relmente aqui no Rio roda de samba, pagode e afins é antes Cacique e pós Cacique...Eles reinventeram uma nova forma. Mas que não dará um bom desfile na Mangueira, não vai dar!!!




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