Gosto quando a nossa paixão pelo samba deixa de ser apenas um sentimento intangível e se torna algo concreto, com resultados práticos. Nos últimos dias tem sido assim, pelo menos no que me diz respeito.
No sábado de manhã fui ao Centro Cultural Cartola para dar minha colaboração ao curso de capacitação de gestores culturais em escolas de samba, que se estenderá aos sábados ao longo dos meses de agosto, setembro e outubro. O Centro Cultural Cartola é hoje um atuante Pontão de Cultura, por conta das ações de salvaguarda decorrentes do registro das matrizes do samba no Rio de Janeiro como patrimônio cultural do Brasil, ocorrido em 2007. Muita coisa boa está sendo feita em termos de pesquisa, recrutamento e organização de acervo, além de cursos e eventos. E nós, sambistas, temos que ter muito orgulho de que uma instituição privada sem fins lucrativos, gerenciada por sambistas, esteja conseguindo fazer tanto pelo nosso samba.
Sabe lá o que é encontrar uma sala lotada de gente de todas as idades, de todas as etnias, de todas as procedências que se dispôs a usar todos os sábados (manhã e tarde) durante três meses para aprender um pouquinho do que são as escolas de samba e outras agremiações carnavalescas? Fiquei muito contente e emocionada, porque não estão ali para obter título ou para passar o tempo, são realmente pessoas interessadas e apaixonadas, que vão se juntar a essa legião cada vez maior de admiradores e cultores do nosso samba.
De lá saí para atender ao convite da Associação Carnavalesca Infiéis para participar do evento Mulheres Bambas do Samba. Eu estava arrebentando de orgulho, como vocês podem imaginar. Quem sou eu para estar num evento com esse nome? Tudo começava com a exibição do filme Batuque na Cozinha, de Anna Azevedo, seguida de uma roda de conversa. Adorei este nome: simétrico à expressão roda de samba, tem mais informalidade do que mesa-redonda ou debate.
Não conhecia o CEDIM - Conselho Estadual dos Direitos da Mulher. É um espaço adorável, organizado, acolhedor. O filme é excelente, retrata com fidelidade o universo feminino numa quadra de escola de samba (no caso, a Portela) e é um documento precioso do samba em nosso tempo. E também amei estar entre mulheres realizadoras e animadas, com uma bagagem cultural de peso, como é o caso de Dona Maria Moura, bem-humorada matriarca do samba, mulheres que têm muito a dizer e gostam de ouvir e debater.
Ontem foi dia de ir ao Centro Cultural Banco do Brasil para o terceiro encontro do seminário Carnaval: que festa é essa?, cujo título, "O chão do samba", aponta para a presença de duas mulheres-maravilhas que venceram o desafio de se fazerem respeitar num universo em que a mulher é às vezes encarada de forma distorcida e equivocada.
Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor, e Nilce Fran, coordenadora da Ala de Passistas da Portela, duas lindas mulheres que têm em comum o envolvimento com projetos sociais ligados ao samba, nos fizeram rir muito com suas histórias, mas na verdade puseram na mesa vários assuntos sérios. Um deles foi abordado já na abertura pelo mediador Aydano André Motta, que é também o curador do seminário: o descaso no tratamento dos sambistas, que se dedicam ao samba e não têm remuneração condigna nem reconhecimento. Outro, muito atual, diz respeito à ocupação do posto de rainha de bateria por pessoas estranhas à comunidade de passistas, provocando da carismática Nilce um comentário conformista: "Não vejo o caminho para consertar isso", embora reafirmando que as escolas de samba não precisam de celebridades para provar sua importância. Enfim, uma conversa descontraída e divertida, mas que deu margem a muita reflexão e até a momentos de pura emoção.
Desculpemas
Membro SRZD desde 07/08/2011
18/08/2011 23:24:20
...grande mestra em todos lugares que a senhora citou também estava, exceto o Centro Cultural Cartola que oferece um belo curso mas pode oferecer mais. No CCBB faltou muito a ser falado, foi pessimamente mediado. O mal das rainhas de bateria também assola sua escola de coração. E aí defenderá seu presidente Átila?




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