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Uma dúvida atroz

Lula Branco Martins | Lula | 26/06/2008 19:06

Fui a uma reunião outro dia. De um grupo de profissionais. Juntos, eles tocam um projeto. Não sou o líder. Longe disso. Sou apenas um dos participantes. Bem. O projeto está crescendo. Existem muitos envolvidos. Há um tempo, fez-se uma festa de comemoração pelos resultados. Foi boa. Já se pensa em outra festa, na próxima. Mas agora ela seria num lugar maior, para mais pessoas. Talvez mil. Aí alguém falou: "O risco é a coisa crescer demais; será um problema se for muita gente. Vai descaracterizar, vamos perder o controle."

Há duas semanas, fiz um texto, aqui, quase tão misterioso quanto este. Falava, nas entrelinhas, mas revelo agora, de uma escola pequena, chamada Delírio da Zona Oeste. Dizia, naquela coluna, que dias atrás havia batido um papo com integrantes da diretoria, e que elas (eram mulheres) insistiam em me provar que "o verdadeiro carnaval está lá no Grupo D, na Intendente".

Escrevi sobre isso, levantei opiniões, questionei a informação e fiz, enfim, digressões. Faltou dizer, naquela coluna, que elas querem mais é subir. Fazem força para serem campeãs. Não vêem a hora de chegar ao C e depois ao B (e, conseqüentemente, à Sapucaí) e já falam até em, quem sabe um dia, pegar um Acesso A, projeto maior para os primeiros anos da década de 10.

Ué? Então o que isso quer dizer? Que querem mais é deixar para trás o "verdadeiro carnaval"? Que se renderam? Não. Quer dizer que querem crescer e, uma vez a escola crescida, quem sabe levar consigo, dentro do espírito de cada componente, o "verdadeiro carnaval", para onde quer que se vá.

Pensei nisso naquela reunião da semana passada. Uma empresa, ou um grupo, ou um órgão, ou um clube, ou uma associação, mesmo uma família, o que seja, mal ou bem acaba passando sempre pela fase da dúvida atroz: crescer demais e acabar se descaracterizando; ou manter raízes e uma certa humildade em detrimento da notoriedade, da fama, da expansão?

Não sei. Não tem certo e errado nessa. Mas reflito muito sobre a questão.

Será que um dia alguém do Salgueiro pensou: "Estamos explodindo, é melhor segurar a onda". Será que alguém em Nilópolis anda questionando: "Quase 50 alas não é demais, não?" Sei lá.

Como diria um amigo: é uma dúvida atroz, que não sai de nós.


Até


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Postado por:Cláudio | 27/06/2008 23:25:25

Sempre o que cresce ganha fama e perde sua autenticidade. O Brasil ainda é pequeno em desenvolvimento. Nossa sociedade não está acostumada. No Carnaval, o crescimento é sinônimo de fugir das tradições.

Postado por:GLORIOSO | 27/06/2008 17:49:16

Em qualquer circunstância,é melhor sobrar do que faltar,rs,rs,rs...o problema é que enquanto em baixo,todos são humildes,de acordo com que a escola sobe,sobem os saltos,se afastam e se esquecem de suas raízes.

Postado por:Pedro Ayres | 26/06/2008 23:36:23

Dúvida atroz, fatalmente. Mas vou ficar nos exemplos recentes. A Vila Isabel - que também se modificou. Modificou para melhor, não há dúvida - ao menos no carnaval S.A, no qual todas estão e não querem sair. Três desfiles seguidos com um conjunto alegórico belíssimo, uma estrutura administrativa eficiente e um renascimento político na Liga - apesar da sacanagem que foi a posição de 2008. Mas e a Vila tradicional? A escola de baluartes, a simplicidade, o feitiço? Bem...todo sábado, antes dos ensaios, tem Velha Guarda tocando na quadra vazia...Depois vem Gustavo Lins e a multidão já delira.Vá lá que o Tinga sempre manda uma Ivete Sangalo no meio dos sambas. Mas não sei, a Vila ainda tem cheiro de samba. Só deve cuidar para não exagerar e explodir.... O caso do Salgueiro, citado na coluna. O Salgueiro explodiu...virou caquinho. Desfiles vergonhosos, no ápice da descaracterização. Milhares de componentes fantasmas, com bala pra uma fantasia de 600 paus e sem ginga para cantar um refrão decente.Quadra lotada para tocar tudo, menos samba. De uns três anos para cá, pelo menos, mudanças gritantes. A escola está reencontrando as suas raízes, deixadas para trás desde a tal "explosão". Encontrou um parceiro forte para reconstruir sua imagem política e...vai voltando a competir no carnaval. No dia em que a Delírio da Zona Oeste chegar à elite, muitos irão sentir a perda das tradições. Mas não dá para negar que, a cada vez que leventar um título, a comunidade irá cantar feliz...como foi a da Vila em 2006...e como está amadurecendo para ser a do Salgueiro.

Postado por:Cassius | 26/06/2008 23:04:15

Eu acho que a questão é um pouco diferente. Não é de querer ou não vencer, mas, sim, de saber se manter. E uma manutenção que supera as condições frias de uma tabela de pontuação. Todavia, acho alguns comentários, até certo ponto, preconceituosos - sim, isso é possível - com as "grandes", ou seja, com quem vai ao Sambódromo e se diverte lá e não na Intendente ou no Acesso B, por exemplo. Parece que só as "sofridas" mantiveram a 'essência' (seja lá o que isso for) do Carnaval e faz o pessoal 'reviver outros carnavais'. Tudo se transforma; posso até estar falando bobagem por ser novo, mas acho que dentro de cada escola você saberá, por instinto emocional carnavalesco, se de boa vontade, quando os componentes estão com a tal 'essência'. E não necessariamente isso parte da posição ou do dinheiro da escola (''ah, quem tem demais em quantidade, perde em qualidade'' - blargh, ditado ultrapassado), porém é lógico que haverá um pouco mais de contrastes nas ditas "grandes". O que falta é saber conviver e tirar o máximo de tais, sem deixar a nostalgia de lado DEPOIS, mas DURANTE as passagens das escolas. Quanto às escolas, cada uma tem de saber manter sua velha guarda, seus encontros, mesmo que com as pessoas de sempre, sambistas, enfim, para sobreviverem ao atropelamento comercial que está e sempre estará, queiramos ou queiramos.

Postado por:Denise (São Clemente) | 26/06/2008 20:49:26

Acho que quem quer disputar um carnaval seja em que grupo que for, quer ganhar e não perder. No mínimo, se manter. Se vc não almejar algo melhor na frente, vai ficar sempre uma sensação de impotência. E nossos devaneios é que nos carrega pra frente. Acho que toda escola que desfila na Intendente, por mais dura que seja a realidade dessas escolas, sonham um dia serem reconhecidas pelos trabalhos e almejarem melhores colocações. Não vejo problema nisso e nem vejo que esse crescimento seja incompatível com manter suas raizes e prestigiar a comunidade.

Postado por:jorge lopes | 26/06/2008 20:45:12

Crescer? Sim, é bom crescer. É do ser humano, essa vontade. Não há mal nenhum em estar na Intendende Magalhães e pensar no Especial. Afinal, há o orgulho de ver o trabalho, como se fosse feito por "formiguinhas", que se juntam e vão fazendo um grande trabalho-desfile-espetáculo. Dentro de cada " formiguinha", é certo, há o amor ao Carnaval. Ainda que nunca cheguem à Sapucaí, as "formiguinhas carnavalescas", têm dentro de si esse amor pela dança, pelo canto, pela beleza, que se transformam em alegria, em prazer, em felicidade... E o cansaço? Ninguém fica cansado. Ficam tristes logo após o término do Carnaval. Mas, ano que vem, tem mais. E o sonho de chegar à Sapucaí não morre, pois, ano a ano, as "formiguinhas" procuram colocar um Carnaval melhor na rua. E começa tudo de novo.

Postado por:paul | 26/06/2008 19:56:39

A densidade humana em uma escola de samba, seja por doações de fantasias, seja por ganhos financeiros, ganhos na comunidade, por oferecimento de camisetas a pessoas sem o menor comprometimento com a escola, muitos diretores , é perverso, denso e tenso. Um grande número de desfilantes, que correm contra o tempo, contra a performance, contra o samba. Diretores de alegorias a beira de um ataque de nervos, os mestres de baterias acelerando, acelerando, a complexidade estrutural da harmonia diante dos enlouquecidos participantes, as hierarquias das belas mulheres (todas modelos???) que se apresentam em um espetáculo único de libertinagem para uma plátéia repleta de avidez. O objetivo de tudo isso? - a possibilidade ilimitada de sonhar que: "a minha escola será campeâ". Triste associação do tempo em 80 minutos de espetáculo que ocupa a avenida com alguns milhares componenetes. É a racionalidade dominante de que quanto mais, melhor.

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