Há dias vem-se falando de um assunto muito importante e ao qual não se tem dado, a meu ver, a devida dimensão: as mudanças no sistema de rebaixamento das escolas dos grupos de acesso.
No Grupo Especial, onde a ideia surgiu, é hoje um fato consumado: das 14 agremiações para as quais foram construídos, com dinheiro do contribuinte, 14 barracões na Cidade do Samba, restam 12 no grupo. Sinceramente, as razões apresentadas para essa carnificina não convencem. Sete escolas desfilando numa noite é bastante razoável, fazem o espetáculo mais bonito e variado sem ser exaustivo, como era no tempo em que tínhamos dez e até doze no mesmo dia. Mas ninguém se incomoda muito com isso, e o contribuinte não parece contrariado com o fato de os barracões que pagou terem uso diferente do planejado.
Agora a ideia chega à Associação das Escolas de Samba, que pretende a partir do ano que vem impor às agremiações dos grupos C, D e E a lei do cão, com rebaixamento de seis escolas por ano. Uma das alegações é a melhoria da qualidade do espetáculo. Ai, meu Deus, até lá se fala em espetáculo! Ai de nós que queremos apenas samba, ou principalmente samba... Outra é que dessa forma os dirigentes seriam obrigados a se empenhar mais, não se acomodarem.
Francamente, quem não está a fim de se empenhar, quem deseja se acomodar, não vai ser dirigente de escola de samba do grupo D ou E. Porque quem é de samba bem sabe os enormes sacrifícios necessários para botar na Avenida - aqui em sentido simbólico de qualquer lugar de desfile - uma dessas escolas. Coisa de louco! Não há dinheiro, não há crédito, não há componente, não há mídia. E quando perguntam por que então há pessoas empenhadas nisso, a explicação que me dou está na força da cultura.
Se não acreditam na força da cultura, vou responder com argumentos já batidos e muito usados por mim em palestras e debates: há quase cem parcerias disputando samba na Mangueira e é fácil entender por quê: dinheiro, fama, mídia, muita coisa. Mas por que há disputa acirrada nessas pequenas escolas? Uma delas anuncia 19 composições concorrentes! O que procura um compositor que deseja ter seu samba escolhido no grupo E? A resposta está na cultura: fazer samba e participar do ritual de escolha é a cultura tanto em Mangueira quanto em Ricardo de Albuquerque. E essa é a beleza e a riqueza do samba, que muitos não conseguem ou não querem enxergar.
Levar um carro do barracão da Cidade do Samba para a Marquês de Sapucaí obedece hoje a uma logística espetacular, com o apoio público, com reboques, motores e equipes profissionais. Já deslocar uma alegoria de um barracão precário lá Deus sabe onde até a pista da Intendente Magalhães é tarefa para abnegados. Nessa hora ninguém se lembra de invejar o pobre dirigente, há quatro noites sem dormir, suado, rasgado, endividado. Por que então ele permanece? Pela força da cultura. A cultura que está nele como uma segunda pele e que o empurra para adiante.
O assunto dá margem a muitos enfoques e aguardo as opiniões de vocês, leitores, para prosseguir nele. Mas antes de encerrar, quero botar na mesa mais um dado que considero fundamental: para pôr em vigor esta chacina cultural, espero que a Associação das Escolas de Samba também tenha um plano de reformulação dos critérios de julgamento e de escolha de julgadores. Porque, se muitas agremiações hoje rebaixadas foram vítimas de uma sucessão de erros de seus dirigentes, há algumas que se enfraqueceram por rebaixamentos injustos, resultado de julgamentos equivocados, de boa ou má-fé, mas equivocados.
Antes de decidir mudar o destino de dez agremiações que deixariam de ser escolas de samba, é preciso pensar na lisura e na qualidade desse julgamento que terá resultado tão radical.
Desculpemas
Membro SRZD desde 07/08/2011
07/08/2011 21:50:21
Sugiro transformar os C/D/E em um grupo somente. A diferença entre elas é pouco e ninguém cairia mais e nem acabaria nenhum escola. Receberia as últimas do B e subiria as ganhadoras deste Grupão.
lopes
Membro SRZD desde 07/07/2011
02/08/2011 19:44:23
Alo RACHEL ,antes de dar o meu pitaco a respeito desse "GENOCIDIO "(ATE 2014 ,CAINDO 6 DO GRUPO E E SUBINDO 1 BLOCO COMO ESCOLA TEMOS POSSIVELMENTE O DESAPARECIMENTO DE 15 ESCOLAS QUE DESFILAM HOJE ATE 2014 ) eu gostaria de fazer uma pergunta que acho fundamental e vc pode me responder pois ja fez parte de diretoria de escola samba.EM NOME DOS CEUS,POR QUE TEMOS 3 LIGAS DE ESCOLAS DE SAMBA NA CIDADE QUANDO O RACIONAL INDICA A NECESSIDADE DE APENAS 1 PARA ADMINISTRAR TUDO ?????? PODER ??? POLITICA ???? POR QUE NAO APENAS 1 PARA ADMINISTRAR TODOS OS GRUPOS ?????? Qualquer que seja a resposta obrigado .
Rachel Teixeira Valença
Membro SRZD desde 05/05/2011
02/08/2011 18:52:17
Obrigada, Torcedor Pilarense, por mais esta participação. E saudações carnavalescas ao Marcos Paulo, sempre benvindo. Concordo com você: na hora do inchaço, ninguém brecou. Era só querer virar escola e pronto! Quanta escola inventada apareceu e desapareceu, e quanta escola inventada ainda anda por aí... Elas acabam ocupando o espaço de outras, "de verdade". Muita coisa está errrada, e eu sempre me pergunto se há vontade de consertar, ou se, sob a aparência de conserto, não se vai fazer ainda mais barbaridade.
Marcos Paulo S Freitas
Membro SRZD desde 02/08/2011
02/08/2011 17:13:36
Fala, Rachel. Bela discussão. A intenção da RIOTUR e Associação parece não ser das mais nobres e parece que não estão preocupados com a cultura, somente com a questão financeira. Mas coloco pontos para reflexão: você não acha que houve um inchaço de escolas, com muitos blocos se transformando em escolas, alguns vislumbrando receberem mais dinheiro? Isso também não foi ruim para a cultura da cidade, pois bloco é uma coisa, escola é outra? Há locais na cidade que não comportariam 1 escola e têm 2 ou 3, ou mais. Esse crescimento não ajudou a fazer com que a prefeitura tomasse tal atitude? Abraços, MP.
Torcedor Pilarense
Membro SRZD desde 05/07/2011
02/08/2011 13:52:55
Concordo plenamente com você, Rachel. Julgo exageradas as mudanças no sistema de rebaixamento das escolas de samba dos grupos de acesso. Escolas de samba não podem virar blocos. Quem entende e gosta de carnaval sabe (ou, pelo menos, deveria saber) que blocos e escolas de samba têm conceitos e práticas bem diferentes. Não entendo como podem supor que sendo rebaixadas a blocos as escolas terão condições de se reestruturar para, um dia, voltarem a desfilar sob a égide de "escolas de samba". Também discordo veementemente dos critérios relativos à promoção de apenas uma escola ao grupo que está acima do seu. No caso do Grupo Especial, discordo ainda da não participação da campeã do Acesso A no chamado desfile das campeãs; eis outra medida sem sentido, além de desrespeitosa e preconceituosa. Na minha opinião, o público dos desfiles de carnaval deveria ter uma participação no julgamento das escolas. Há tanta tecnologia circulando por aí... E nossos dirigentes já são escolhidos em urnas eletrônicas há algum tempo! Quem substancia o carnaval é o povo e justamente o povo não está sendo ouvido no que tange ao julgamentos dos desfiles.




Comentários (5)