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Rachel Valença

Rachel Valença

Carioca, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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15/07/2011 12h51

Tempo de sinopses
Rachel Valença

Quem gosta de samba e acompanha a vida das escolas de samba não pode se queixar de tédio. O desfile é em fevereiro, raramente no início de março. Mas o calendário de atividades se desenrola ao longo do ano e temos, sucessivamente, a partir de março, a distribuição dos profissionais pelas agremiações - popularmente conhecida como troca-troca -, em seguida eleições em algumas agremiações, depois especulações sobre enredos e patrocínios. Em junho e julho começam a aparecer as primeiras sinopses de enredos.  

Para quem, como eu, adora samba-enredo, esse momento é muito importante, porque a sinopse é a ponte entre carnavalescos e compositores. De muito tempo para cá estou convencida da importância de uma boa sinopse para a criação de um bom samba-enredo. Pois é fundamental que os compositores entendam o desdobramento e o enfoque do enredo, e principalmente que esse enredo toque sua alma, despertando a inspiração.

Sim, eu ainda acredito na inspiração. Embora a técnica que reduziu as parcerias a escritórios seja hoje uma realidade, eu me recuso a acreditar em um processo tão burocrático quanto o nome escritório sugere. Samba-enredo é arte e como tal não pode prescindir de inspiração. Então, é fundamental que a sinopse tenha um quê de poesia, que não seja estritamente a narrativa de uma sucessão de fatos e conceitos.

A dificuldade reside exatamente no fato de que a grande maioria dos carnavalescos tem familiaridade com a expressão plástica e não com a expressão verbal. Sendo artistas plásticos, sua linguagem é visual, ou seja, se comunicam pelo que criam e mostram, não por palavras. Seu pensamento não é em geral lógico-discursivo. Felizmente, porque senão o espetáculo seria chatíssimo. O problema é que a sinopse se faz com palavras, tal como o samba-enredo. E o carnavalesco, salvo honrosas exceções, não transita bem no reino das palavras

Atingir a medida certa e o equilíbrio nem sempre é fácil. Clareza é fundamental, mas uma sinopse excessivamente lógico-discursiva pode gerar sambas pouco criativos. O outro extremo, uma sinopse muito criativa mas distante do factual pode confundir a cabeça dos poetas, ainda mais porque hoje em dia há enredos muito bizarros, muito afastados do cotidiano deles e do nosso também...

Talvez em virtude dessas dificuldades, tornou-se comum atualmente a terceirização da elaboração da sinopse: ou o próprio carnavalesco tem em sua equipe alguém capaz de traduzir em palavras o que lhe passa na cabeça, ou a própria escola conta com um Departamento Cultural que assume a tarefa. E há casos até de contratação de um "fazedor de sinopse" profissional (ou quase).

Na minha modesta experiência de carnaval, tive a felicidade de trabalhar com carnavalescos muito preparados, capazes não apenas de desenvolver de forma inteligente enredos seus ou enredos de terceiros, mas até de verbalizá-los com clareza e emoção em sinopses que ajudaram os compositores a criar com sucesso. Eram, além disso, pessoas muito abertas ao diálogo, que aceitavam sugestões e observações e as incorporavam com gosto e sem vaidade. Destaco especialmente Rosa Magalhães e Paulo Menezes, que me proporcionaram prazer e aprendizado ao acompanhar sua inteligente criação.

Estamos em meados de julho e já tive acesso às sinopses de oito escolas do Grupo Especial. Cinco ainda não foram divulgadas, tanto quanto estou informada. Para que os compositores disponham de cerca de um mês para criar, acho que já seria hora de termos todas elas, já que a disputa costuma durar dois meses e as finais acontecem em outubro. Por isso, até o final de julho creio que já contaremos com todas elas e vamos voltar ao assunto para comentá-las.


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Comentários
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    24/07/2011 18:17:48JOSE VIDALMembro SRZD desde 24/07/2011

    PORTO DA PEDRA IRÁ REEDITAR PARA O CARNAVAL DE 2012 UM SAMBA DA BEIJA FLOR! É UMA PENA.

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    16/07/2011 16:55:35DeniseMembro SRZD desde 08/04/2009

    Gosto de ler sinopses. Fico imaginando o que pode vir no desfile e o que se passa na cabeça de quem a escreveu. Acho que os sambas poderiam ser mais descompromissados com a sinopse e se ater apenas ao tema central. Nem tudo que está na sinopse, necessariamente, deveria ir para o samba, mas somente o espírito de que se pretende mostrar. Nosso carnaval é muito criativo. Até em enredos péssimos, jogados goela abaixo dos carnavalescos, eles tendem a buscar inspiração e apresentam uma ótima sinopse.

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    15/07/2011 19:10:15ZappaMembro SRZD desde 16/04/2009

    Rachel ao ler seu texto me reportei ao passado, quando compor um samba-enredo era apenas produzir uma obra musical. Um passado em que primeiro compunha-se e só então o carnavalesco, identificado à época nas agremiações como “ARTISTA” desenvolvia seu trabalho e talvez em decorrência deste processo tão objetivo, os sambas eram harmoniosos e imortais, mas os chamados artistas, depois da ascensão de Joãozinho Trinta ganharam notoriedade e se tornaram “CARNAVALESCOS” e ascenderam de forma tão contusa, que em muitas agremiações são mais importantes que a própria escola. Hoje com os enredos patrocinados e mais a soberba dos agora carnavalescos e a imposição contratual via mídia televisiva, compor um bom samba é coisa rara e se não bastasse estes reveses, em 2010, o presidente da Vila Isabel Moisés, sem nenhuma cerimônia anunciou bem antes da apresentação dos sambas concorrentes no enredo exaltativo a Noé Rosa, que seria Martinho da Vila o vencedor. Na Viradouro a chamada “ARMAÇÃO” chegou ser tão acintosa, que o compositor Gustavo Clarão, hoje presidente da agremiação, venceu seis anos consecutivos com sambas que nem os componentes da escola lembram sequer os refrões. Quem dera Rachel, a contextualização das escolas e seus sambas ainda fosse como em sua dissertação, quem dera os julgamentos e avaliações fossem justas e a melhor composição sempre vencesse. Hoje é complicadíssimo, impossível compor sambas harmoniosos como no passado, diante de sinopses débeis e monetaristas, que estabelecem o seguinte absurdo temático aos compositores: “Sob a Crueldade dos Bandeirantes o Cacique Tibuci Rei Maior no Alto-Araguaia fez das Terras do Vambutis, o Ponto de Equilíbrio Entre os Deuses e a Floresta” Saudações!

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    15/07/2011 18:53:06Juan AntonioMembro SRZD desde 17/03/2010

    Três observações: 1- Jamais sairá um excelente samba de um péssimo enrêdo! 2- Um excelente enrêdo, exige uma excelente sinopse (vide Imperatriz 2012) 3- Os sambas de escritório serão "tecnicamente" perfeitos, porém, jamais apoteóticos (faltará o coração na criação)

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