Pista!

Rachel valença | Rachel Valença | 05/07/2011 14h51

O meu penúltimo texto neste espaço mereceu um simpático comentário do Ulisses Corrêa Duarte, que acabou ficando sem resposta, porque a motivação para escrever sobre a ameaça aos barracões das escolas do Acesso me desviou da minha intenção de falar um pouco, a propósito desse comentário, sobre o carnaval de Uruguaiana.  

O carnaval de Uruguaiana tem como evento central o desfile das escolas de samba e sua principal característica, diferentemente de tantos outros, que copiam o do Rio de Janeiro, é ser quase tão antigo quanto o nosso. As primeiras escolas de samba da cidade datam do final da década de 1940, início dos anos 50. Foram fundadas por fuzileiros navais transferidos para lá para patrulhar nossa fronteira líquida. A nostalgia do carnaval os levou a criar tão longe daqui escolas de samba que com o passar dos anos adquiriram suas próprias características e despertam paixões tão acirradas que, após tumultos e confusão, foi necessário "importar" julgadores isentos para pôr fim às desconfianças e acusações mútuas.

A maior curiosidade do carnaval de Uruguaiana é que ele acontece "fora de época", ou seja, duas semanas depois da data oficial. Graças a isso é que nos é possível participar. E é com muita curiosidade que a gente verifica a intensa participação da população no carnaval. Somos abordados nas ruas e questionados de forma simpática mas apaixonada. Todos têm sua escola do coração e a passarela, mais extensa que a nossa, fica lotada.

Outra peculiaridade é que cada escola se apresenta duas vezes, tendo, assim, oportunidade de reparar os erros que porventura cometer no primeiro desfile. E é curioso verificar que às vezes a ala que faltava aparece no segundo dia, mas pode também desaparecer uma que havia desfilado. E até um carro alegórico que foi julgado no primeiro dia pode faltar no segundo.

Ser julgadora do desfile das escolas de samba de Uruguaiana tem sido para mim um prazer enorme e uma oportunidade de refletir sobre os quesitos, só que do outro lado do balcão. Santo Deus, a primeira vez que julguei, em 2008, achei a tarefa muito angustiante e fui tomada pelo terror de cometer injustiças. Mas ao longo dos anos o grupo foi se firmando e a coisa é feita com tanto capricho que foi ficando mais fácil.

Na comissão julgadora convivo com gente que gosta de samba e de carnaval, que conhece o assunto porque o vivencia 365 dias por ano. Embora a gente não troque impressões durante o desfile, fico muito fortalecida pelo fato de estar cercada de pessoas que, cada um na sua especialidade, sabem o que estão fazendo. Confesso que me comove ver a seriedade com que a tarefa é executada, ainda que o clima seja de alegria, de piada, de convívio sadio e ameno.

O que não quer dizer que a gente não se desentenda eventualmente, porque não é fácil botar todo mundo na linha e conciliar interesses. Mas a exaustiva atividade é entremeada de momentos muito agradáveis de histórias narradas e cantorias de sambas que, como diz a propaganda da tevê, não têm preço...

De volta ao Rio eventualmente nos encontramos para confraternizar e conversar sobre os momentos mais interessantes, e nunca falta assunto. Há cerca de um mês dei por mim num bar no Flamengo entoando um antigo samba da Estácio de Sá, Langsdorf, delírio na Sapucaí, de 1990, que vários colegas do corpo de jurados de Uruguaiana adoravam tanto quanto eu. Me digam uma coisa: onde é que eu ia arranjar um grupo como este? O carnaval de Uruguaiana nos uniu, me fez conhecer gente nova, me fez rever velhos amigos, me fez reconsiderar antigas desavenças e me deu a certeza de que é possível ser justo e isento no julgamento, quando se trabalha com paixão e de boa-fé.

Comentários (6)

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Rachel Valença

11/07/2011 13:06:05

Mas quanta gente simpática e querida escreveu aqui por conta do carnaval de Uruguaiana. Amigos como Marcelo Pacífico, excelente profissional com quem trabalhei na Comunicação do Império Serrano, Mônica Araújo, que conheço da São Clemente há mais de 20 anos, e o jovem historiador e pesquisador Vinícius Natal, que sempre me honra com sua presença neste espaço. Além, é claro, dos leitores que ainda não conheço: a aprovação deles, não contaminada pela amizade, me alegra e envaidece. Ivan, já ouvi mutas referências ao carnaval de Vitória. Tomara que possa conhecê-lo em breve.

Monica Araujo

11/07/2011 09:51:02

Raquel, a séculos não visito o SRZD e hoje ao retornar a leitura dos textos que agradpavel notícia, você é colunista, que bom , que aquisição maravilhosa do site.... Parabéns mesmo que tardio, estarei presente aqui sempre. Monica Araujo (Familia D'Ojuara)

Vinícius Natal

Membro SRZD desde 13/07/2011

08/07/2011 13:50:45

É impressionante o crescimento do carnaval de Uruguaiana, onde algumas escolas passariam facilmente no nosso Grupo de Acesso A. Boa pedida para quem gosta de carnaval, e ficou com o gostinho de "quero mais" da quarta de cinzas.

Marcelo Pacífico

06/07/2011 13:35:41

Rachel, vc está fantástica e eu não perco uma coluna sua, pq tem sido um aprendizado para todos os sambistas. É muito bom falar não só do nosso carnaval, mas principalmente de outras manifestações que acontece como em Uruguaiana que a cada ano cresce muito mais.Me orgulho muitopor ter sido comandado durante 4 anos no glorioso Império Serrano e estarei sempre torcendo por ti. Um milhão de beijos e saudações imperianas rumo ao Grupo Especial!!!

Ivan Silva Junior

05/07/2011 17:55:08

Olá Rachel. Gosto muito dos seus comentários. Parabéns. Gostaria que voce acompanhasse também, o carnaval de Vitória-ES. O desfile de nosas Escolas é uma semana antes do carnaval oficial. Muitos do RJ conhecem o nosso desfile. Um Abraço Ivan

Torcedor Pilarense

Membro SRZD desde 05/07/2011

05/07/2011 16:47:16

Prezada Rachel, Tenho imenso prazer em ler seus textos. Eles são soborosíssimos! É fascinante esse seu jeito de contar histórias e de fazer ponderações. Tenha a certeza de que eu aprendo muito com esse seu trabalho aqui no SRZD/Carnaval. Parabéns! Forte abraço.