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Rachel Valença

Rachel Valença

Carioca, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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30/06/2011 10h17

Cidade do Samba II
Rachel valença

Em 2005, quando a Cidade do Samba foi inaugurada, o Império Serrano ocupou, sob as bênçãos de São Jorge, o barracão nº 7. Lá foram preparados os desfiles de 2006 e 2007. A escola foi rebaixada e o então vice-presidente de carnaval deixou a diretoria. A opção do presidente Humberto foi me deslocar de meu posto de vice cultural para a área de carnaval. Coube a mim, portanto, comandar a saída da escola do paraíso da Cidade do Samba para o antigo barracão da Vila Isabel, gentilmente cedido.  

O dia dessa mudança foi um dos mais tristes da minha vida e tudo que passamos pode se resumir numa imagem: o carro abre-alas, com o símbolo maior do Império Serrano, ao tentar caber no novo habitat, bateu. A coroa se quebrou. Minhas lágrimas naquele momento não eram pelo prejuízo material: faríamos uma nova coroa. Era a simbologia desse acidente que me fazia chorar.

Em 2008, após meses de duras provações, fomos campeões do Grupo de Acesso, ocasionando nova mudança - dessa vez de volta ao barracão nº 7, cheios de animação e esperança. Mas o rebaixamento, para mim até hoje incompreensível, no carnaval de 2009 nos tirou novamente o nirvana e dessa vez foi a União da Ilha, que acabara de subir, que nos cedeu seu barracão. Em três anos de vice-presidência de carnaval comandei três mudanças, sempre com o total apoio de minha maravilhosa equipe de bravos imperianos.

Tudo isso foi dito apenas para respaldar a minha opinião sobre o absurdo abismo que se criou entre as escolas do especial - que eram 14 à época da construção da Cidade do Samba e depois encolheram para 12, sem que o motivo jamais tenha sido explicado. Por que 14 barracões abrigam apenas 12 escolas? - e as demais existentes na cidade, aliás muito mais do que 12.

Nunca vi por parte do poder público qualquer manifestação acerca das péssimas condições em que as escolas dos grupos de acesso preparam seu carnaval. E no entanto os seus desfiles são a fonte de tudo, é de sua cultura que se alimenta o espetáculo das do Grupo Especial, delas é que saem carnavalescos, coreógrafos, intérpretes e casais de mestre-sala e porta-bandeira para as grandes escolas. E há casos até em que a cobiça de uma poderosa pelo mestre de bateria de alguém influencia o resultado... Bem, deixa pra lá.

Sintomaticamente, o lugar em que se localizam os barracões das escolas do Acesso foi apelidado de Carandiru. Todos nós sabemos o que isso significa. O que pode ser pior do que Carandiru? Nada. Era o que eu achava até esta semana, quando começam a circular notícias de que as escolas estão sendo despejadas do Carandiru. Diante disso, tive de mudar de ideia: pior do que Carandiru é não ter nada.  

Pasmem: no Rio de Janeiro, cidade que deve ao seu carnaval não apenas a notoriedade e o prestígio, mas bons negócios, turismo em alta e geração de emprego, as escolas de samba são enxotadas como cães vadios. Desculpem a crueza da imagem, mas ela é fruto da minha perplexidade, da minha indignação: a prefeitura considera abandonados os galpões da Cia. Docas, mas lá estão escolas de samba de vários grupos, que são invisíveis para os que estão no poder. Como se fazer carnaval fosse privilégio de 12 escolas.

Não sei por que as escolas de samba devem ficar fora do Porto Maravilha. Para tornar os barracões polo de interesse cultural e até turístico não é preciso o luxo da Cidade do Samba. Mas é fundamental que o poder público se sinta responsável por um espetáculo que é criado com grande sacrifício e que é, mais que lazer, cultura, a cultura do povo de uma cidade, de um estado (há escolas de samba de municípios vizinhos incorporadas à festa).

Se o Porto Maravilha pretende se tornar um espaço de cultura, de turismo, de lazer, as escolas de samba não farão feio ali e poderão conviver com vilas olímpicas e outras exigências de um momento passageiro - Olimpíadas e Copa do Mundo -, mas que, a exemplo do que aconteceu em outras cidades do mundo, deve deixar frutos mais perenes ou duradouros para a população.


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Comentários
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    06/10/2011 08:31:44Luana velasquesAnônimo

    Acho um veradeira vergonha a cidade do samba,os barracões pegaram fogo tem 7 meses,e até agora nada foi feito. Pricipalmente a renascer se encontra trabalhando no carandirú,sem espaço apropriado para desenvolver seu carnaval. Atenção liesa se os barracões não ficaram pronto,cabe a vcs arrumarem um lugar decente para a renascer trabalhar. Afinal é uma escola que agora pretençe ao grupo especial. Façam alguma coisa. O carnaval está uma bagunça.

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    11/09/2011 21:43:34Luna LealAnônimo

    é Rachel , você sabia que das 68 escolas de samba que existem na Pequena áfrica , 56 serão desalojadas . Não somente o carandiru , mas muitas algumas mirins, grupos de acesso . Não existe um projeto em resposta a essas remoções . Mas a zona portuária está se mobilizando, existe o Fórum Comunitário do Porto, ele está se estruturando , estamos na luta e a sociedade civil nem se quer tem noção. Vamo atentar meu povo!

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    03/07/2011 08:31:12DeniseMembro SRZD desde 08/04/2009

    Concordo com tudo que vc diz. Independentemente de tb achar que cabem 14 escolas no Especial para ocupar os 14 barracões, as demais escolas de samba dos grupos de Acesso tem de ter barracoes em outro canto da cidade. Em relação ao Império Serrano, estou torcendo para que ele, em breve, ocupe o seu barração na Cidade do Samba. Como o de número 7 está com a Grande Rio, quem sabe um dos novos barracões renascidos da Cinza dê sorte ao nosso querido Império Serrano.

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    02/07/2011 18:46:30ZappaAnônimo

    Quando ouvi pela primeira vez o nome LESGA e sua proposição de independência como bandeira, imaginei que seria um projeto objetivo tal qual o que criou a LIESA, mas logo surgiram os primeiros embates e com eles a clara constatação que havia problemas gerenciais, o que ficou evidenciado neste carnaval 2011, quando a Acadêmicos do Cubango se insurgiu contra o resultado oficial que posicionou a escola de Niterói em quarto lugar e fez literalmente seu presidente Pelé acusar toda a diretoria da liga do acesso de ?quadrilha organizada? Estou usando esta desagradável ocorrência, que só serviu para descreditar a LESGA, porque para mim a Liga das Escolas de Samba do Grupo de Acesso, nunca foi objetiva com relação ao problema ?barracões? Nunca foi contundente e cobrou uma solução real do poder público, quando esta ação deveria ser uma das suas prioridades. Organizar organogramas de desfiles não tarefa difícil, mas resolver questões como esta dos barracões do acesso e mais a revitalização da zona portuária é outro papo e aí cadê a LESGA? Saudações!

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    01/07/2011 10:41:14Vinícius NatalMembro SRZD desde 13/07/2011

    Rachel falou tudo sobre a situação das escolas do acesso no Carandiru. Mais que o descaso com o espaço físico, exite o descaso com o "humano", o sambista que serve de base para existir o espetáculo do especial.

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    01/07/2011 06:06:35carlos alberto machadoAnônimo

    só para lembrar Sra Erica,2009 foi o ano em que a Mocidade desfilou com aquele enredo misturando Guimarães Rosa com Machado de Assis ,com um samba ruim e o carro abre-alas mais feio que já vi na Sapucaí . O Império teve erros,mais na concepção da releitura do enredo,a meu ver equivocada e na confecção da fantasia de algumas alas,que foram cortadas logo após o carnaval.Foi sofrível,mas certamente não foi a pior e por isso não mereceu o rebaixamento. O artigo se refere à disparidade de condições entre escolas do especial e do acesso A. Parabéns Rachel pel blog.

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    30/06/2011 17:57:33Rachel Teixeira ValençaAnônimo

    Lembro-me claramente, Erika. Como não esqueço o desempenho das co-irmãs, que a ética me impede de criticar publicamente. Do Império Serrano ninguém esquece nada nem perdoa nada. Com as demais há sempre benevolência e um silêncio complacente... Não quero parecer fanática, mas às vezes dói.

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    30/06/2011 12:22:44ERIKA OLIVEIRAAnônimo

    **** SE LEMBRAR

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    30/06/2011 12:21:13ERIKA OLIVEIRAAnônimo

    "Mas o rebaixamento, para mim até hoje incompreensível, no carnaval de 2009" KKKKKK ESSA DECLARAÇÃO SÓ PODE SER UMA PIADA. TENTE SE LEMBRE DO TAMANHO DOS CARROS E DAS FANTASIAS E ASSIM COM CERTEZA IRA COMPREENDER.

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    30/06/2011 10:30:08leonardo ferreiraAnônimo

    excelente texto, que expressa muito bem, o sentimento de quem realmente gosta de carnaval e acima de tudo ama as escolas de samba , sejam elas de que grupo for, ao contrario das nossas "autoridades", que so pensam no grupo especial, por favor olhem para as demais, pelo menos com um pouco mais de carinho e atencao que merecem.

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