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Rachel Valença

Rachel Valença

Carioca, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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23/06/2011 11h26

O moderno e o tradicional
Rachel Valença

Este título foi tirado da primeira estrofe de um antigo samba de Martinho da Vila, Quatro séculos de modas e costumes, com que a Unidos de Vila Isabel desfilou em 1968. Ele me veio à cabeça nesta terça, no Centro Cultural Banco do Brasil, no segundo encontro do evento "Carnaval, que festa é essa?", cujo tema era O ritmo do carnaval.

No palco se reuniam o tradicional, representado pelo veterano Monarco, e o moderno, na pessoa do compositor André Diniz, representante de uma geração de sambistas mais pragmáticos, para dizer o mínimo. Entre os dois o escritor e pesquisador Luiz Antonio Simas, que por conhecer do riscado deu ele próprio uma importante contribuição ao debate, com intervenções pertinentes e criativas.

O interessante é que os palestrantes assumiram seus papéis com convicção, ou seja, Monarco recordou o passado, com menção inspirada ao genial Silas de Oliveira, no que toca ao samba enredo, e a inúmeros excelentes sambas de terreiro, depois chamados sambas de quadra e hoje desaparecidos como gênero. Sambas nascidos no seio das escolas, pois passavam pelo crivo, por exemplo, do exigente Natal, que proibia a execução na Portela daqueles que reconhecesse como coisa de fora. "Isso é do rádio", fulminava.

Cuidadosamente Monarco evitou emitir qualquer opinião ou juízo de valor sobre a atualidade. Só lamentou as mudanças verificadas, com justificada nostalgia de um tempo em que quem decidia a disputa de samba enredo eram as pastoras.

André Diniz, por seu turno, deu à plateia uma visão muito clara e realista do que significa fazer samba na atualidade. Ouvindo-o, a gente chega à conclusão de que vida de compositor não é nada fácil. A começar pela fragilidade dos enredos: "é difícil fazer samba sobre cabelo", suspira ele. Ou sobre o que se convencionou chamar de CEP (cidade, estado e país). Em contrapartida, os ganhos já não são mais astronômicos, como na década de 1980. Há escolas de samba que ficam com 60% dos direitos do samba. Reclamar com quem? E não é apenas isso que incomoda, mas também o andamento em que o samba é executado e a qualidade da gravação.

Outra questão incômoda é o processo de escolha do samba em cada escola. A parceria que não levar torcida é cortada, independentemente da qualidade do samba. Mas também pode acontecer de a parceria levar 30 ônibus e perder para um amigo do presidente ou da primeira dama.  A frase que resume as queixas é contundente: no circo da disputa, o compositor é o palhaço.

Igualmente incômoda é a falta de clareza dos critérios de julgamento do samba no desfile, que nunca foram debatidos com a comunidade de compositores das escolas de samba. O formato quase obrigatório hoje, duas partes, um refrão entre elas e outro no final parece ser uma fórmula infalível, mas, segundo André, cabe aos compositores modificar isso, como lutar para que do processo de escolha só participe quem efetivamente pertence à escola, sem torcida de aluguel.

À pureza de Monarco, que nunca faria samba para concorrente da sua Portela e que se reporta a um tempo em que havia "uma solidariedade bonita no samba", esperava-se opor, na pessoa de André Diniz, a frieza e o profissionalismo dos "escritórios" de fazer samba. O que se viu foi um sambista que tem uma reflexão sobre o que faz, sobre o papel das baterias e harmonias no andamento do samba, sobre a participação às vezes pouco respeitosa de alguns intérpretes, que tomam liberdades com o samba, e sobre o que classificou como a colaboração da transmissão da Rede Globo para a decadência do espetáculo.

Acima de tudo ali estavam dois sambistas apaixonados por suas escolas, em busca de uma solução para o impasse que vive o samba enredo na atualidade. Se Monarco opta por se afastar de disputas, André Diniz lamenta uma realidade que leva os compositores a "se organizarem" em parcerias (parceria organizada seria uma eufemismo para o termo "escritório"?), embora não gostem disso.

Este segundo encontro do evento foi marcado por uma maior participação do público, bem mais à vontade e mais motivado para o debate do que no encontro de maio. Só é preciso um pouco de cuidado para que a participação improvisada e desorganizada da plateia não descambe para confusão e prejudique os que lá foram interessados em ouvir as personalidades anunciadas no programa.


Comentários
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    29/06/2011 19:04:08KELISMembro SRZD desde 05/07/2011

    ANDRÉ DINIZ DA VILA FALOU NO SITE CARNAVALESCO- Para finalizar, um processo que se aproxima e gera muita reclamação nas agremiações: a escolha do samba-enredo. Expert no assunto, pois é multicampeão na Vila Isabel, André revelou o que acha. - Estou cansado de ver ônibus de torcida, pagar cerveja e todo esse processo. Na minha opinião, a escola deveria se fechar, colocar só as alas de comunidade lá dentro e definir qual samba levará para a Avenida. No circo das disputas de samba o compositor é o grande palhaço.

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    26/06/2011 20:41:53ZappaAnônimo

    O sustentáculo real das escolas ressume-se ao samba e bateria. Os demais quesitos apenas servem como componentes de desfile e justo por isso, estas referências deferiam possuir avaliações de julgamento diferenciadas. Se no passado os chamados carnavalescos, adaptavam seus enredos aos sambas, hoje o compositor é quem precisa adaptar sua criação aos inventivos e confusos temas. Escola de samba virou sinônimo de comércio. Os sambas que até a década de setenta eram melódicos e de fácil assimilação, com o status de show que os desfiles ganharam tornaram-se apenas detalhe. Se hoje, os direitos autorais não são mais tão generosos como eram e mesmo assim grupos são montados apenas para compô-los, imaginem se tivessem a mesma leitura econômica de antes. A liga inegavelmente foi uma benesse paras as escolas, sempre exploradas economicamente, mas a mesma liga acabou por criar vínculos que geram dinheiro é verdade, mas aprisionam as agremiações, como por exemplo, a exclusividade de transmissão da Globo. A cultura intitulada ?escola de samba? está sob ameaça. Seu sentido exato de existência foi invadido e é preciso uma tomada de posição geral para deter o processo deteriorativo que estão transformando as escolas em super espetáculos teatrais, musicais, circenses, qualquer coisa, menos de samba. Saudações!

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    24/06/2011 09:09:58Ulisses Corrêa DuarteMembro SRZD desde 14/10/2011

    Olá Raquel. Estive no carnaval fora de época em Uruguaiana neste ano, e como pesquisador e mestrando (antropologia/Ufrgs), tive contato, e conheci, muitas pessoas do júri carioca que estiveram por lá realizando seu trabalho (lá no River Hotel). Eu escrevo um artigo sobre o que observei por lá - e me surpreendi - com a bela festa na fronteira do Brasil com a Argentina. Acho que não chegamos sequer a conversar. Mas depois que cheguei em Porto Alegre, descobri que perdi a oportunidade de trocar uma ideia com a autora de 'Carnaval: para tudo se acabar na quarta-feira", um dos livros que estará na minha bibliografia de revisão para a dissertação. De qualquer forma te mando um grande abraço aqui do sul, e saiba que estou lendo sua coluna semanalmente. Te parabenizo belas ótimas memórias, estórias e crônicas sobre o carnaval carioca. Até mais!

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    24/06/2011 07:14:18Carlos Alberto MachadoAnônimo

    Os sambas ruins são resultado de alguns fatores:1- a insistência em colocar a sinopse no samba não há melodia que aguente tanta letra...2 o som péssimo da avenida mixado só com a voz do puxador,encobrindo o coro da escola,prejudicando harmonia ,evoluçao e priorizando alegorias e efeitos cênicos,muitas vezes pouco carnavalescos.3 a fórmula de torcidas pagas e a falta de coragem de dirigentes na escolha do melhor samba,preferindo o mesmo samba manjado ,com roupagens levemente diversas.

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    24/06/2011 04:36:53Vinícius NatalMembro SRZD desde 13/07/2011

    Pena que não pude ir ao encontro...Mas enquanto não houver uma articulação dos próprios sambistas para se mudar nosso carnaval, temo que o modelo de disputas de samba continue o mesmo. Será que realmente há essa vontade de mudança, ou é cômodo para determinados compositores viverem com a premiação dos direitos de arena e transmissão? E para as escolas,que lucram com torcida e cerveja em suas quadras? A questão é muito mais profunda que parece! É preciso que os próprios sambistas - desde os diretores do alto escalão até os próprios compositores que reclamam desse modelo atual, mas jogam nas mesmas regras- saibam o rumo que querem para o carnaval: utilizá-lo com propósito financeiro ou como lazer, diversão e paixão? Cabe a nós a decisão.

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