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Delírio esquizofrênico

Lula Branco Martins | Lula | 12/06/2008 17:50

Delírio existe de verdade e é um cão. Mas é mentira que ele seja esquizofrênico. Não. Ele é apenas manco.

Esquizofrênico, por sua vez, se trata de um adjetivo. E, aqui neste texto, quem será taxado de esquizofrênico é o carnaval, não o cachorro. A união das duas palavras, porém, me soou legal, ficou bacana, e só por isso elas foram juntas para o título.

Daqui a pouco falo mais do Delírio.

E também sobre esquizofrenia.

Tenho 17 anos de jornalismo, 15 deles no JB, um jornal da Zona Sul, como diriam os reducionistas, e até com certa razão. Sendo assim, no tempo em que estive por lá cobrindo os desfiles das escolas de samba, o foco das reportagens se concentrava tão-somente no Grupo Especial. Leia-se elite. Entenda-se glamour. Uma vez ou outra, negociando-se muito com a chefia, nós repórteres conseguíamos emplacar uma pauta sobre o Grupo A, espécie de segunda divisão do carnaval. Acabei um dia sendo promovido a editor, e aí eu negociava comigo mesmo, ficou tudo mais fácil. Mesmo assim, bem sabia que não teria o mínimo sentido encher as páginas do Jornal do Brasil com matérias sobre os grupos B, C, D ou E. Se assim o fizesse, o diretor da Redação, que lá na hierarquia estava acima de mim, certamente iria me cobrar explicações imediatas. Havia de se ter bom senso.

Anos se passaram. Saí oficialmente do dia-a-dia da mídia impressa. Professor universitário, eu estou, portanto, fora do circo. E, de longe, olho o estado das coisas. Constato que apenas os tablóides de 50 centavos às vezes, às vezes, às vezes, abrem suas páginas para o quarteto B-C-D-E. Já os jornalões importantões vão mesmo de Especial. E de A, aqui e ali.

Alguém me disse uma vez, aliás, vários me disseram várias vezes: esqueça o domingo, esqueça a segunda, pois o verdadeiro carnaval desfila é no sábado, nas escolas do A, com mais garra, com menos compromisso, com mais raiz, mais autenticidade, aquela ladainha toda. Acreditei nisso até anteontem.

Pois, por causa do trabalho de anos a fio na Sapucaí, de colete de imprensa no peito e caneta na mão, nunca tive como ir aos desfiles da Intendente Magalhães. Estive lá apenas duas vezes, mas de passagem, rapidamente, sem um olhar profissional mais atento. E eis que nesta semana dividi uma mesa de bar, por horas, com pessoas da diretoria de uma escola pequenininha, dessas que às vezes estão no C, ou no D, até no E, e que chegam, durante meses, a deixar de existir. Sim, fecham as portas. Depois voltam à vida, sabe-se lá como.

Puxa, elas me contaram muitas histórias. Histórias bonitas, de garra, de luta, de entrega total a uma causa. O que no fundo pareciam querer me mostrar? Que o verdadeiro carnaval não está no Grupo Especial. E nem no Grupo A, como eu acreditava até então. O verdadeiro carnaval estaria nos grupos C e D. Pois lá na Intendente se alguém desfila é porque gosta realmente da coisa, e não porque quer aparecer ou porque tem outros objetivos escusos. Pode ser. Mas fico pensando que, se no boteco houvesse alguém de alguma escola do E, ah, logo falaria que estão todos errados, e que o verdadeiríssimo carnaval só se vislumbra no E.

As letrinhas da Aescrj acabam aí, mas a imaginação é algo livre e pode ir além. E, assim, se pensarmos numa situação limite, o privilégio do verdadeiro carnaval seria certamente reivindicado pelo Grupo H, depois pelo Grupo P, até chegarmos ao Grupo Z. Grupo Z, bem entendido, eu, ou você aí, vestido de pirata tocando tamborim sozinho na varanda, desfilando para lá e para cá, sem holofote, sem mídia e sem jurado, mas ainda assim querendo ganhar seja lá o que for, sonhando subir ao Grupo Y.

A honra do monopólio daquilo que seria o verdadeiro carnaval não tem vencedores. Esta luta é vã e esbarra na profissionalização do evento. Profissionalização que parece ser o cerne, e enfim eu chego à palavra, de uma esquizofrenia, de um disparate, de uma falta de nexo. Senão vejamos: qual é o verbo mais atrelado ao conceito de carnaval? É o verbo brincar. Carnaval se brinca. E quem brinca faz farra, algazarra, e cai, e grita, e erra, e zoa, todo esse tipo de atitude que em nada mais é parecido com o que se vê nos desfiles de agora, especialmente na Sapucaí. O carnaval virou uma festa esquizofrênica: é uma brincadeira, mas vale décimos; é alegre, mas tem que ser sério senão a escola cai e o patrocínio acaba; é todo mundo bêbado, mas o diretor de harmonia vai brigar se a as fileiras da ala se desalinharem; é dispersão e contrição ao mesmo tempo; é bem-humorado na ala das bonecas, mas mal-humorado na comissão de frente de movimentos ultramarcados. Para usar o termo da moda na medicina, o carnaval é bipolar.

À mesa, me emocionei ouvindo relatos sobre o esforço do pessoal que dirige a pequena escola. Fantasias feitas de TNT; via-crúcis pelos mercadinhos do bairro para pedir cola, grampo, pano, tudo e qualquer coisa; roupas de segunda mão emprestadas por agremiações vizinhas; dinheiro do próprio bolso para fazer uma alegoria de dez tostões; quadra simples; samba-enredo sem CD; e, compondo perfeitamente a imagem deste quadro de pobreza e dificuldades, um cachorro mascote que manca de uma perna e que se esconde no banheiro quando a bateria começa a tocar, pois fica com medo. Um vira-lata chamado Delírio.

Parabéns a todos os vira-latas do carnaval. A festa até pode estar um tanto esquizofrênica, mas se é carnaval dentro da gente, creio que ainda há solução.


Até!