Arquitetura da Fé
Claudia Ferraz* | Fé | 11/06/2008 08:04
Que motivos proporcionaram uma mudança na arquitetura religiosa das catedrais ao longo desses dois mil anos? O historiador suíço Jacob Burckhardt definia os estilos como "expressões de uma época" afirmando que aquilo que nos permite compreender essas mudanças são os elementos sociais, econômicos e políticos de um determinado período da historia do homem.
No século XII temos o aparecimento de um novo estilo na França, o Gótico que proporcionou grandes transformações no modo de construir as catedrais católicas. O estilo anterior era o Românico com suas grossas paredes de pedras e poucas aberturas para o exterior, com aparência robusta essas igrejas do primeiro milênio depois de Cristo serviram também como lugar de abrigo contra sucessivas invasões de povos hostis. O novo estilo nasceu na Igreja de Saint Denis em Paris com um objetivo teológico e estético concebido por um abade francês, Surger e a idéia de Deus ser luz. Surger concebia a igreja como o espaço sagrado de materialização dessa luz. Para o historiador Erwin Panofvsky havia uma disputa teológica entre razão e fé que levou: "os pensadores dos séculos XII e XII empreenderam uma tarefa que jamais constara claramente das preocupações de seus predecessores... a tarefa de firmar uma paz duradoura entre a fé e a razão" (Arquitetura Gótica e Escolástica, ed. Martins Fontes).
A nova estética juntou o pensamento de São Tomás de Aquino onde a Fé não era comprovada só pelo intelecto mas de um ajustamento entre a coisa e o intelecto e o ordenamento sistemático da escolástica que tinha criado um mecanismo onde tudo tinha que ser explicado, ordenado e dividido em seções, capítulos, etc. Numa tentativa de racionalizar a própria religião. Na sua revolução estética, o abade Surger reuniu a idéia um conhecimento adquirido pelos sentidos serem uma espécie de razão, com o pensamento neoplatônico de uma luz divina e com o "principio de transparência" que tornava Deus compreensível ao entendimento humano, para criar uma forma estética católica cujo programa imagético da catedral representaria todo o conhecimento teológico cristão como também o conhecimento das ciências e da moral.
O aparecimento dessas grandes estruturas de pedra e vidro colorido deveu-se a possibilidade histórica de novas técnicas de construir que retirava do corpo principal do edifício todo o peso estrutural jogando-o para as estruturas laterais. A diferença neste novo modo de construir está na substituição das grossas e baixas paredes de pedra por altos e grandes vitrais contendo a iconografia cristã. Ao impacto sensorial experienciado pelos fiéis ao verem os vitrais invadidos pela luz solar era adicionado à sensação de grandeza e infinitude de Deus.
Não podemos ignorar que essa mudança estética só foi possível graças a diversos fatores como o estabelecimento de um comércio entre os povos europeus e os povos orientais fortalecendo uma classe comerciante, os burgueses, e criando paralelo ao sistema feudal o sistema capitalista. Ao intercambio teológico através dos concílios que permitiram a chegada de escritos filosóficos gregos importantes e que estavam esquecidos pelo ocidente, a fundação das universidades medievais, o aparecimento de novas ordens medicantes e a crescente invenção de artefatos a partir da ciência. E o mais interessante neste século é a importância das Cruzadas como modo de intercambio entre essas diferentes culturas.
O estilo Gótico se impôs rapidamente e em cem anos alcançou o cenário internacional sendo sucessivamente ressuscitado até o século XX. No Rio de Janeiro temos alguns exemplos do Neogótico nas igrejas Nossa Senhora Imaculada Conceição em Botafogo e a primeira Catedral Presbiteriana no Centro. Esses edifícios religiosos mantêm uma boa fidelidade com o estilo do século XII.
* artista plástica, professora História da Arte
Postado por:Inez Sores | 12/06/2008 15:15:32
Achei bastante interessante o texto,pois nos dá uma visão resumida do surgimento do estilo Gótico e sua utilização nos templos.


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