O futuro do carnaval
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 09/06/2008 18:08
Nasci num dia de carnaval. Quando era criança, meus pais me fantasiavam e me levavam para brincar num coreto perto da minha casa. Carnaval e aniversário sempre se misturavam, fazendo do carnaval uma grande comemoração e da minha comemoração um grande carnaval! Em casa, ficava vidrada na tv, assistindo aos desfiles. Não tive a oportunidade que muitas crianças têm hoje de brincar desfilando nas escolas mirins. Mas, agora, sempre desfilo ao lado delas na Estrelinha da Mocidade, escola com a qual, pelo terceiro ano consecutivo, tenho o prazer de colaborar.
Em 2007, tive a honra de ser presidente da Estrelinha. Por isso, posso falar deste universo ainda desconhecido. A construção do carnaval de uma escola Mirim é tão trabalhosa quanto a de uma escola de samba adulta. Procedimentos como escolha de enredo, de samba-enredo, ensaios etc em nada diferem dos da "escola-mãe". Pude observar a competição (salutar, diga-se de passagem) entre a criançada. Muitas com um veio artístico precoce e um comprometimento de quem, como a criança que escolheu seu time de futebol influenciado pela família, herdou o amor ao carnaval daqueles que as levaram para se integrarem a uma escola mirim.
A escola mirim não é apenas diversão, mas também trabalho social - e bota trabalho nisso, ufa! É onde as "escolas-mãe" também contribuem com sua comunidade, tirando parte da criançada das ruas, oferecendo cursos, criando uma identidade interpessoal e revelando novos talentos, além de muitas outras atividades. Talvez muitos não saibam, mas as crianças, para desfilar, têm de estar matriculadas na escola, o que se torna um incentivo a mais para que elas estudem.
Na sexta-feira de carnaval acontece a abertura oficial do carnaval carioca, com o desfile das escolas mirins. O Rei Momo e sua Corte Real, após receberem das mãos do prefeito do Rio de Janeiro a chave da cidade, encaminham-se para a Marquês de Sapucaí, onde então, simbolicamente, abrem a Passarela do Samba.
O desfile começa cedo, por volta das 17h. É um dia de intensa movimentação na cidade, principalmente no Centro do Rio, devido aos preparativos para o carnaval. Há pessoas que vão viajar, há as que brincarão o carnaval em outros locais, longe de toda a multidão que estará assistindo, ao vivo, aos desfiles. Com isso, a atenção com as crianças fica dobrada.
A organização do desfile fica por conta da AESM-RIO (Associação das Escolas de Samba Mirins), à qual dezessete agremiações são afiliadas. Cada escola desfila, nos trinta minutos estipulados, com número de componentes que varia de 1000 a 2000 crianças. Todas as crianças desfilam com um crachá pendurado no pescoço, e nele constam os dados sobre ela e sobre seu responsável. A parte "adulta" da escola se faz presente organizando o desfile e tomando conta dos pequeninos.
Realmente é um dia mágico, pois a abertura oficial do carnaval começa com a pureza e a beleza das crianças. Elas não concorrem entre si, isto é: não existe 1º, 2º lugar e etc.
É emocionante ver um "pequenino" ou "pequenina" sambando, ou tocando como "gente grande". Este é o nosso Brasil, de artistas natos, de pessoas que nascem com a cultura à flor da pele, principalmente o carioca, pois nasce no berço do samba.
As crianças parecem ensinar aos mais velhos como se comportarem num desfile, porque dão um show de espontaneidade e alegria de viver. A pureza que vem da alma contagia a avenida e nos inunda de emoção, fazendo com que "gente grande" volte a se sentir criança novamente. Bem, ao menos é assim como me sinto... Feliz como uma criança... Hum... Deu uma saudade danada agora do carnaval... É assim mesmo. Para quase tudo a saudade dá e passa, mas, para os amantes do carnaval, nunca passa; na quarta-feira de cinzas já estamos com saudade de novo! Ah... Carnaval... Contagiante, emocionante, envolvente......
Enfim, neste universo das coisas boas da escolas mirins, existem também suas dificuldades. Não poderia deixar de mencionar a falta de apoio do poder público, e o não engajamento de empresas que fundem seus interesses com o social. As escolas mirins são uma grande oportunidade de diminuir este distanciamento social existente. Por intermédio delas, seria possível atender uma enorme quantidade de crianças que estão fora do extrato social, criando condições de inclusão social. Este trabalho, infelizmente, ainda não mereceu a atenção devida dos diversos setores da sociedade. Com isso, as escolas mirins são obrigadas a fazer um grande esforço que, na verdade, não são percebidos por muita gente, até mesmo da grande mídia. Na verdade, para grande mídia, carnaval só acontece domingo e segunda. Mas isso já é outro assunto.
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