Fui convidado para julgar os sambas de enredo do carnaval virtual. Carnaval Virtual? Isso, não conhece ainda? É uma brincadeira muito séria de internautas apaixonados por carnaval. Eles promovem desfiles que acontecem nos computadores com enredo, samba-enredo e desenhos de fantasias e alegorias. Já existem até ligas dissidentes, com campeonatos distintos e CD com os sambas de enredo gravados em estúdio com qualidade profissional.
Parece coisa de maluco. E é. Coisa de maluco por carnaval. Pessoas, quase todas ainda muito jovens, que na sua maioria não têm acesso - pelos mais diferentes motivos - ao ciclo de produção das escolas de samba reais. São aficcionados pela nossa cultura que sentem a necessidade de criar, inventar, participar de alguma forma.
Para alguns existe até a esperança de que o desfile virtual sirva como plataforma para o aparecimento ou aperfeiçoamento de seu talento. Dali podem surgir novos cantores, compositores, figurinistas, carnavalescos, etc.
Também há casos em que tudo é encarado com uma simples e gostosa brincadeira - uma maneira de satirizar o próprio carnaval. A sátira, aliás, é a marca registrada desta folia computadorizada. Quase todos os enredos abordam temas que dificilmente se encaixariam numa escola real. É neste ponto que pretendo me fixar.
Por ser uma grande brincadeira o desfile virtual toca em pontos politicamente incorretos, usa expressões que seriam consideradas vulgares e transforma até as experiências pessoais de seus organizadores em tema. Tem enredo sobre homossexualidade, sobre prostituição, sobre o diabo e até sobre a samambaia.
Estes assuntos são tratados de forma direta nas letras dos sambas, mostrando uma aproximação muito grande com a linguagem popular, usada no dia a dia pelo carioca. Não há preocupação com beleza poética, mas sim com a transmissão de uma mensagem da forma mais clara e irreverente possível.
Não estou aqui defendendo que as escolas do "mundo real" vão tão fundo. Isto causaria uma reação contrária gigantesca. Mas enxergo a necessidade de uma maior aproximação dos temas e das letras dos sambas de hoje em dia com a realidade da população.
A falta de identificação com os enredos e a dificuldade na compreensão das mensagens dos sambas são fatores que ajudam a afastar o grande público das nossas agremiações, outrora tão populares. Poucos são os que entendem a letra de um samba-enredo completamente sem a ajuda de uma sinopse ou de um dicionário de termos indígenas ou africanos.
Talvez as escolas virtuais possam estar contribuindo no sentido de mostrar que é possível reaproximar o samba-enredo do linguajar do povo. Não que o samba deva chegar ao ponto do funk, que apela para todo tipo de baixaria. Mas é importante repensar o caminho que está sendo trilhado, no sentido de distanciar o carnaval do grande público.
Muita gente há de renegar as escolas virtuais. Os mais sábios, entretanto, hão de entender que o mundo muda a cada minuto e que só sobreviverá quem respeitar, procurar entender e se adaptar às novidades que se apresentam. O carnaval virtual poderá ainda sugerir ou ditar outros caminhos para o carnaval real na medida em que é feito por apaixonados pelo samba "de verdade", pessoas que pensam e refletem sobre a nossa cultura. Não é inteligente subestimá-los.