Uma ode ao amor e ao horror

Eduardo Frota | Eduardo Frota | 18/03/2011 09h19

Muita gente vai se surpreender com Não me abandone jamais. Ventilado como um drama envolvendo jovens amantes, o filme vai muito além. Trata, na verdade, de um tema espinhoso e perturbador - ainda que cuidadosamente preparado para não deixar seu peso ofuscar o seu lirismo.

O fio condutor da história é um triângulo amoroso entre três pessoas que se conhecem desde a infância, quando eram alunos de um bucólico e aparentemente tranquilo internato no interior da Inglaterra. Porém, o argumento que dá corpo ao filme do diretor Mark Romanek, baseado no fantástico livro do escritor japonês Kazuo Ishiguro, consegue uma proeza: mistura drama, romance, suspense e até ficção científica de forma arrebatadora.

O roteiro tem início na década de 50, quando o espectador é informado sobre o aumento na expectativa de vida dos seres humanos graças aos avanços das pesquisas sobre transplantes de órgãos. Em menos de 20 minutos de projeção, uma professora resolve contar aos alunos que o fato deles serem "especiais", adjetivo largamente utilizado pelos diretores do internato, não passa de um eufemismo. A revelação provoca uma reviravolta na vida dos protagonistas. E aos poucos, o tal eufemismo vai dando lugar a uma história incrivelmente densa e bastante perturbadora, capaz de deixar a plateia boquiaberta.

A direção de Romanek tem lá seus vícios estilísticos. Abusa de certos clichês, como longos closes em objetos inanimados, música tristonha e uma narração em off que explica demais o argumento. A belíssima fotografia e o figurino caprichado ajudam a dar um tom de pesar ao filme. A atuação do trio principal é irretocável. Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley se doam integralmente aos seus personagens.

Não me abandone jamais é uma história de amor que esconde uma discussão existencialista pertinente, colocando em xeque vários conceitos éticos e morais.

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