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Artista plástico baiano cai nas graças de documentaristas nova-iorquinos

Vagner Fernandes | Vagner | 04/01/2010 13:22

Artista Artista plástico dos mais badalados no Brasil, o baiano Bel Borba (acima, de frente) é tema de documentário assinado pelos cineastas americanos André Costantini e Burt Sun. A dupla registra, em Salvador, a delicadeza do processo criativo de Bel, que tem como marca registrada os belos mosaicos de azulejos que enfeitam paredes e muros da capital baiana. 'Esse documentário me tem proporcionado refletir sobre minha obra e revisitar o meu acervo, desde telas a vídeos. É como se estivesse fazendo um balanço de décadas de trabalho', sintetiza Bel.

Para dar início às filmagens, Costantini e Sun partiram do envolvimento do artista plástico com a pintura de aeronaves da Aero Star. As intervenções nesses dois bimotores modelo Islander irão render uma exposição no Hangar da companhia aérea, no Aeroporto de Salvador. Os aviões já voam entre Salvador, Morro de São Paulo e Barra Grande.

'Bel reúne qualidades ímpares em obras sofisticadas, produzidas com materiais simples', destaca Burt Sun, diretor criativo da Opera Boston e consultor de mídia para várias instituições culturais, como o American Repertory Theatre, na Universidade de Harvard.
Para dar asas à imaginação no trabalho com as aeronaves, Bel lançou mão de tinta automotiva com verniz fixador, técnica para que as pinturas resistam por mais tempo aos desgastes naturais. 'Tive cuidado como se estivesse tatuando uma pele', resume. A primeira aeronave ganhou desenhos de uma águia e de uma baleia, em alusão ao belo percurso que faz sobre a Baía de Todos os Santos. Já a segunda apresenta um peixe dentro da água que, ao mesmo tempo, alça voo.



Lonas Culturais: a 'vingança' de Jandira

| Vagner | 08/12/2009 15:05

A reportagem do Segundo Caderno do jornal O Globo de hoje veio ratificar o que escrevi na estreia de meu blog há cerca de três meses: a ideia de licitar as lonas culturais colocaria o projeto, de vez, no buraco. Não deu outra. Há nove meses sem ver a cor do dinheiro para a administração dos espaços, os atuais gestores são deixados de lado (em meio a um processo licitatório) e cobrados a prestar contas pelo subsecretário de Integração e Projetos Especiais da Secretaria de Cultura, Mário Del Rei. "Assumimos o compromisso e vamos pagar. Mas tudo isso tem que passar pela Controladoria. Vamos arcar com os nossos compromissos, mas tudo tem que ser feito dentro da lei, com a apresentação dos comprovantes de gastos", disse o subsecretário a O Globo . Há algo errado. Como alguém pode ter feito gastos sem ter recebido? Como prestar contas de um dinheiro que não chegou às administrações das lonas? A secretária municipal de Cultura, Jandira Feghali, e seu porta-voz empurram neste momento para a Controladoria descascar o pepino que eles plantaram e colheram.

É evidente que a secretária Jandira não está preocupada com políticas culturais que favoreçam comunidades da periferia. É notório que nunca esteve disposta a dialogar com os atuais gestores para discutir a melhoria de um projeto que é sucesso. É fato que não gosta de se ver pressionada a resolver questões que interessam à população das Zonas Norte e Oeste. Secretária Jandira leva a cabo ainda o conceito de se fazer política no sentido raso que o termo sugere, ou seja, o do 'toma lá da cá', 'eu te dou um quilo de cimento e 100 tijolos para construir o seu barraco e você me dá voto'. Cultura não se trata desta forma. Ela ainda não atentou para o fato de que é titular de uma pasta que tem como meta promover e discutir políticas culturais. E que radicalismo, nesse caso, não leva a nada.

Ninguém tem de ser eterno em cargos, mas sou adepto do clichê 'de que em time que se ganha não se mexe'. A secretária não pensa desta forma e quer fazer valer a sua autoridade para provar (sabe-se lá a quem) que mexeu nos 'grupos' das gestões anteriores. A secretária carrega o ranço da sede de vingança dos velhos políticos brasileiros. Pode estar dando certo, mas 'como não são da minha turma' degola, manda rumo à guilhotina. E para mostrar que tudo está sendo feito dentro da legalidade nada melhor do que uma licitação.

A proposta já havia sido implementada em outros espaços da Rede Municipal de Teatros. Deu errado. Com as lonas, agora, o mesmo acontece. Não precisa ter o dom da clarividência de Patricia Arquette em 'Medium' para sentir de longe o 'cheiro' da confusão. Novamente, o bolo solou. Além de liberar os pagamentos atrasados, a Controladoria deveria abrir uma auditoria, em caráter de urgência, para avaliar a legalidade desse processo licitatório do projeto Lonas Culturais. A pedra foi cantada e ninguém deu bola. A hora é já.



Gil conecta Realengo em banda larga

| Vagner | 07/12/2009 17:02

Antes de partir para turnê na Europa, Gilberto Gil esteve na lona que batizou com seu nome em Realengo para um encontro com o coordenador do espaço, Vicente de Paula. Impressionado com a conservação e programação do local, o ex-ministro não conversou: autorizou a compra de roteador para que crianças e jovens que moram nos arredores da lona tenham acesso gratuito à internet. Está todo mundo conectado agora em banda larga. Como diz Gil: 'o povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe'.



Madonna coloca o Brasil na sola dos pés

| Vagner | 14/11/2009 00:13

Desde que Madonna chegou ao Rio não se fala em outra coisa no Brasil. Numa nova jogada de marketing, ela consegue atrair os flashes e põe a multidão na sola dos pés. Madonna é poderosa. Ela arruma a 'cama' e coloca todo mundo para deitar com ela. Uma verdadeira suruba midiática, milionária, que deixa para trás marqueteiros do primeiro time.

Montada em um alazão pós-adolescente, lá vai a loura chorando por migalhas junto aos ricaços brasileiros em busca de um dinheirinho para um projeto social. Todo mundo abre o cofre. Eike Batista faz a material girl chorar ao liberar uma módica quantia que chega aos sete dígitos, como narrou o jornalista Roberto D'Ávila, um dos privilegiados a brindar com champanhe e sashimi a doação. Ninguém ali tomou guaraná Convenção ou Tobi, comeu aquele churrasquinho de alcatra comprada nos supermercados Guanabara ou saboreou um egg-X (eggcheeseburger) prensado, repleto de ervilha, maionese e batata palha.

Luciano Huck vai para o Twitter e diz que uma Madonna é 'gente boa, simples'. Angélica faz coro ao marido e frisa que a popstar é 'brasileiríssima'. O governador Sérgio Cabral abre as portas do Palácio e coloca batedores da Polícia Militar para escoltá-la dentro do Mercedes refrigerado. O helicóptero que foi detonado no Morro dos Macacos por traficantes já faz parte do passado. O negócio agora é decolar amparado pelas turbinas siliconadas da estrela norte-americana.

O Réveillon na Praia de Copacabana promete não ser mais o mesmo depois de 2011, quando Madonna deverá brilhar mais do que a tradicional queima de fogos. As Olimpíadas de 2016 provavelmente não terão como ponto alto apresentações dos artistas da terra nativa. Já anunciaram que vão importar Madonna para apimentar a festa. Só nos resta saber se ela terá fôlego para suas performances ao som de Like a virgin . Estará com quase 60, uma sexagenária praticamente.

Madonna é 'gente boa'. Papo furado. Se o fosse teria retirado da própria conta bancária o dinheiro para sustentar um projeto social no Brasil sem recorrer aos milionários do Terceiro Mundo. Madonna é 'simples'. Mentira. Ninguém sobe morro de salto alto 'grifado' e óculos escuros Chanel (ou seria um Prada? ou Dior?), não manda fechar restaurante para jantar e não interdita portaria de hotel para entrar e sair. É um acinte.

De tudo isso, a mim só ficou a seguinte impressão: o complexo de inferioridade do brasileiro ainda é tão gritante que somos capazes de tirar o manto de Nossa Senhora Aparecida para colocá-lo numa popstar travestida de Maria Madalena. Jesus? Psshiiiiiiii!!!. É melhor deixar o filho de Deus fora dessa história.



Área destruída pelas chuvas, Tinguá foi 'cantada' por Clara Nunes. Registro inédito é descoberto

Vagner Fernandes | Vagner | 12/11/2009 15:16

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Recebi recentemente uma preciosidade da ex-jogadora de basquete do Botafogo e da Seleção Brasileira, Neuci Ramos da Silva. É o registro da gravação de Clara Nunes defendendo uma canção chamada 'Tinguá ' (em homenagem à bela reserva biológica da Baixada Fluminense), que nos últimos dias tem sofrido em decorrência das fortes chuvas.

A gravação foi realizada no II Festival Fluminense da Canção Popular, em 1968, em Niterói, no Estádio Caio Martins e encontrava-se inédita. Agora, após 41 anos, foi descoberta pela Neuci, autora da música, que mexendo em seus arquivos encontrou o registro. Durante a pesquisa para o livro 'Clara Nunes: guerreira da utopia', biografia da artista de minha autoria, ela havia comentado comigo sobre o episódio. Finalmente, achou a fita e me deu de presente. É um primor! Vou encaminhar ao prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias. Tinguá é uma área pertencente a Nova Iguaçu e passa por maus bocados devido às enxurradas que provocaram três mortes.

Que no futuro, a bela canção seja adotada como hino da região. Ouçam acima que beleza:



'Noitada de Samba' do Teatro Opinião é resgatada em documentário

| Vagner | 09/11/2009 00:12

Os aclamados e bem frequentados encontros de bambas que sacudiram às segundas-feiras, nos fins da década de 1970, no Teatro Opinião, são tema do documentário 'Noitada de samba'. O longa resgata a história do projeto idealizado por Jorge Coutinho e Leonides Bayer de levar para a Zona Sul intérpretes e compositores dos morros e subúrbios cariocas. Praticamente sem registro na bibliografia recente sobre a história da música brasileira, a 'Noitada de samba' reunia nomes como Cartola, Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Martinho da Vila, Rosinha Valença, Moreira da Silva, Paulinho da Viola, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Beth Carvalho, Xangô da Mangueira, Elza Soares, entre tantos outros.

Em fase de edição, o filme, com produção de Cély Leal e patrocínio da Petrobras, conta com depoimentos de Elton Medeiros, Ademilde Fonseca, Walter Alfaiate, Conjunto Nossa Samba, Noca da Portela, Délcio Carvalho, Gisa Nogueira, Baianinho, além de jornalistas, produtores e historiadores, entre eles Maurício Sherman, Moacyr Andrade, Jesus Chediak e Lygia Santos. O projeto contempla ainda a restauração do curta-metragem 'Noitada de samba', de Carlos Tourinho e Clóvis Scarpino, rodado nos anos 70, com imagens inéditas.



Alguém acredita em Carolina Dieckmann, Claudia Raia e Thiago Lacerda?

| Vagner | 08/11/2009 21:07

Alguém acredita que Carolina Dieckmann, Taís Araújo e Giovanna Antonelli vestem roupas das Lojas Marisa?

Alguém acredita que 'La Dieckmann' bebe refresco em pó Gula Fruts? Segundo a atriz, em sua casa todos tomam o refresco, principalmente o sabor morango com vitamina C, que faz parte do café da manhã de seus filhos. O site da Gulozitos Alimentos explica que 'tudo isso facilitou a integração da atriz com os gestores da empresa'.

Alguém acredita que Angélica usa Óleo de Amêndoa Paixão e escova os dentes com creme dental Sorriso?

Alguém acredita que Claudia Raia pinta o cabelo com Cor & Ton, da Niely? O site da companhia garante que a garota-propaganda está usando atualmente a nuance 6.7, cor de chocolate.

Alguém acredita que Thiago Lacerda usa tênis Tryon?

O mercado publicitário já não é mais o mesmo. Sei não, mas no caso do Gula Fruts, as 'mulheres-frutas', como Melancia, Moranguinho, Pêra, Uva e por aí vai, fariam mais sucesso, certamente!



'Ben, o rato assassino' ataca na Praça 15

| Vagner | 06/11/2009 15:45

Sempre fui fã das séries antigas. E, nos últimos tempos, vivo à caça daquelas baboseiras que marcaram minha geração. Frequentador da Feira da Praça 15, aos sábados, me deparei, semana passada, com uma banca repleta de Dvd's com o melhor do passado: Da 'Mulher biônica', com Lindsay Wagner, a 'Poderosa Isis', estrelada por Joanna Cameron, essas nunca editadas oficialmente no mercado brasileiro.

Lá, encontrei um grupo de colecionadores de séries e filmes raros. Muitos estão na internet, vendem ou trocam suas preciosidades virtualmente. Outros atacam na feira com o produto na mão. Se você tiver algo raro a troca está estabelecida. Caso contrário, pode coçar o bolso e desembolsar no mínimo R$ 15 por Dvd. Como cada série não tem menos do que cinco, você acaba na penúria após meia-hora. O clássico 'Terra de Gigantes' completo, por exemplo, tem 16 Dvd's. Um derrame na conta bancária!

O jogo é duro. Mas a tentação é grande, sobretudo pelo requinte com que os colecionadores apresentam seus produtos: boxes coloridos, capinha em papel couchê brilho 120g e o melhor de tudo... áudios remasterizados. Vou explicar: o cara tinha guardada uma infinidade de VHS da série gravada da TV com a dublagem original. Depois comprou o box importado. Para colocar em prática seu preciosismo e fazer inveja à classe casou a dublagem com a imagem do box 'made in USA'. Perfeito! 'Não é pirataria', garantem.

De fato, na maioria das vezes a intenção de quem lança mão do artifício não é comercial. Querem mesmo se exibir e trocar suas 'relíquias' por outros produtos. Eles não aceitam os boxes com redublagem, que estão sendo lançados no mercado brasileiro. A loucura é tanta que vi dois desses colecionadores em busca de algo quase impossível, segundo relataram. Estavam atrás de 'Ben, o rato assassino' dublado. Para quem não lembra é o filme que tem como canção-tema a música 'Ben', com Michael Jackson. Acharam legendado. Não servia. Eles queriam a versão dublada, exibida inúmeras vezes na 'Sessão da tarde', da TV Globo. E posteriormente no SBT.

A outra 'pepita' da qual corriam atrás era a série 'Pinocchio' (também conhecida como Pinocchio japonês), que foi ar entre as décadas de 70 e 80 na extinta TV Tupi e depois na Record. Encontraram. Mas também não servia. A dupla desejava a versão com dublagem original, a que Pinocchio chama Gepetto de 'vovozinho'. O boneco sofre nesta série. Até fogo tocam em Pinocchio. Na que estava em exposição numa banca da Praça 15, Pinocchio chama Gepetto de 'papai' e as cenas grotescas em que o boneco come o pão que a diabo amassou foram cortadas. Era a nova versão da série, editada e redublada. Essa história me contagiou. Até porque tanto 'Pinocchio' quanto 'Ben' foram marcos. Desde então não paro de procurar o rato assasino e a tal série (ou algum capítulo) com dublagem original. Se alguém os tiver, me avise. A gente negocia!



'Alô, alô Therezinha' não faz rir; faz chorar

| Vagner | 03/11/2009 02:13

Abelardo Barbosa está de volta. Ressurgiu no centro midiático, ganhando novos admiradores desde que o documentário 'Alô, alô Therezinha' foi lançado no Festival do Rio. O longa entra, agora, em circuito comercial. Quem conheceu Chacrinha pela TV até vai achar divertido quando ouvir a ex-chacrete Vera Furacão declarar que levou Chico Buarque bêbado para a cama e não foi 'comida' pelo compositor. Quem conviveu com ele certamente não. Não convivi com Chacrinha, mas não achei graça. Assistia com frequência aos seus programas, fascinado com a anarquia que imprimia à TV brasileira, dividindo a intelectualidade babaca, driblando os milicos repressores, 'andando' para os padrões estéticos. Em Chacrinha, o belo e o feio jamais rivalizaram. Preto virava branco, pobre se transformava em rico, gordo em magro, puta em gatinha Zona Sul, bacalhau era flor, Abacaxi, Oscar e buzina, borrifador de perfume importado.

Com a simplicidade de um comum trabalhador brasileiro e a inteligência de um acadêmico (mesmo sem nunca ter pisado numa universidade), conseguiu criar um conjunto próprio de signos que revolucionou a comunicação no Brasil. Saussure faria a festa. Nelson Hoineff, diretor do documentário, não faz. Ridiculariza, vulgariza, empobrece, simplifica.

Em vez de jogar os holofotes sobre a obra, a genialidade do personagem e discutir sua importância para a comunicação no país, pauta-se pela exposição dos que ajudaram a construir a história da figura mítica. Coloca Índia Potira dentro de um chafariz e a exibe em nu frontal. Põe um fã na cama de Rita Cadillac para entrevistá-la com perguntas grotescas e beijar-lhe a bunda. Especula sobre possíveis amantes do apresentador, incluindo chacretes e até Clara Nunes. Revela a fragilidade emocional de ex-calouros, fazendo graça com a desgraça.

'Alô, alô Therezinha' é uma costura de depoimentos de ex-chacretes e ex-calouros em evidente estado de decadência. Não faz rir, faz chorar. Não reverencia, ignora. Não revela, omite. As declarações mais contundentes vêm de My Boy, o sonoplasta que Chacrinha alçou ao 'estrelato' com seu eterno 'ok, my boy'. 'Às vezes, dava vontade de matá-lo. Não era fácil conviver com ele', revela.

O homem irreverente, debochado, com cara, pinta e boca de palhaço, que escrachava geral e saciava a fome de suas macacas de auditório com cachos de banana, enlouquecia os que o rodeavam no cotidiano com seus rompantes, suas manias, seus dilemas. Era humano. O documentário não revela o José Abelardo Barbosa de Medeiros, o polêmico pernambucano da cidade de Surubim. Privilegia as aventuras sexuais das ex-chacretes em uma série de depoimentos sem fundamentação para um roteiro que se propõe biográfico. 'Alô, alô Therezinha' apenas entristece com closes da ex-boazuda Fátima Boa-Viagem, fritando peixe na cozinha de um restaurante do interior do estado, recebendo constrangida o 'carinho' de um fã que anuncia, aos gritos, ter sido ela o motivo de sua paudurescência quando adolescente.

'Alô, alô Therezinha' não limpa a boca-de-cena para Chacrinha balançar a pança, buzinar a moça, comandar a massa e dar a ordem no terreiro. Pelo contrário: faz dele um mero coadjuvante.



Elza Soares brilha, aos 72 anos, ao lado Farofa Carioca

Vagner Fernandes | Vagner | 18/10/2009 20:43

Tudo e mais um pouco já foi dito sobre Elza Soares. Não é novidade que sua voz não envelhece e que, aos 72 anos, mantém forma física impressionante. No fim de semana, a cantora ratificou o posto de estrela de primeira grandeza da MPB numa dupla de jornada de apresentações pela Zona Oeste.

Sábado, lotou a Lona Gilberto Gil, em Realengo, apesar da chuva. Neste domingo, aportou na quadra da Mocidade Independente, em Padre Miguel. Elza será madrinha de bateria da agremiação no carnaval de 2010. Na Gilberto Gil, ao lado do Farofa Carioca, ela arrancou aplausos consecutivos em cena aberta. Botas pretas salto 15 até o joelho, blusa frente única e microshort jeans. Figurino de 'cocota', de gatinha, para brilhar ao lado do não menos excepcional Mário Broder, novo vocalista do Farofa egresso do Funk'n'Lata. Mário supera - e muito - Seu Jorge à frente da banda. Ninguém tem dúvida disso.

Um showzaço, primoroso, pontuado por um repertório bem selecionado, arranjos impecáveis. Amparada pela garotada da Z.O., Elza brincou. Atacou de 'A carne' ('A carne mais barata do mercado é a carne negra...'); reverenciou a saudosa Célia Cruz com um 'azúcar' no final de 'Vendedor de bananas', de Jorge Benjor, em ritmo de mambo; saudou a escola de samba de Padre Miguel com 'Salve a Mocidade!'. Elza continua um furacão e esse encontro da artista com o Farofa Carioca merece (e como merece!) registro em CD e DVD.



Beija-Flor, Portela e Mocidade têm tudo para escolher os melhores sambas de 2010

| Vagner | 11/10/2009 02:03

No carnaval deste ano, Beija-Flor, Portela e Mocidade ficaram mordidas com suas colocações. Beija-Flor porque não foi campeã. Portela porque perdeu o vice para a Beija por um décimo. E Mocidade porque quase foi parar no Grupo de Acesso em decorrência de um desfile que já começou errado com abre-alas em chamas e carnavalesco atropelado pela alegoria. Pois para o carnaval de 2010, as três prometem brigar feio. Nenhuma delas ainda elegeu o samba que defenderá na avenida. Mas quem ouviu os concorrentes de cada uma sabe do que falo. Há sambas de excelente qualidade que vão dar trabalho às coirmãs se forem eleitos. A Beija, que vai 'dissecar' a história de Brasília na Sapucaí, tem um particularmente extraordinário assinado por Picolé da Beija-Flor, Serginho Sumaré, Samir Trindade, Serginho Aguiar, Dison Marimba e André do Cavaco. É samba quente, naquele estilão da escola de Nilópolis, com frases e versos enormes, mas dois refrões de pegada forte. É pra nego sambar rasgado. Fora os detalhes de construção, idéia do enredo muito bem amarrada, coisa de profissional. Depois reclamam quando a Beija-Flor ganha. Ela simplesmente leva a sério o processo de industrialização que tomou conta do carnaval carioca por conta das próprias escolas mesmo.

A Portela também não fica atrás. Sou portelense e não escondo isso de ninguém. Mas não é só por esse motivo que destaco a safra da azul-e-branco. É porque tem samba bom de verdade. O de Serginho Procópio é uma potência. Pode não ter a riqueza poética que os portelenses mais exigentes gostariam de exaltar na avenida. Mas é um grande samba. No ano passado, fui convidado para integrar o júri na final. Votei no samba vencedor, de Ciraninho, Scafura e cia. Mas para 2010 Serginho Procópio merece levar. A Portela vem com um enredo pautado pela abstração, o que dá margem a infinitas possibilidades de criação pelos carnavalescos. Tem gente que diz que não é enredo, é 'tema'. E que todo o blá-blá-blá da sinopse se resume em... 'Tecnologia'. Mas o Salgueiro, no ano passado, também levou um 'tema' para a avenida e sagrou-se campeão. O 'enredo' só tinha uma palavra: 'Tambor'. A vermelho-e-branco tijucana levou. E todo mundo aplaudiu, porque foi merecido. Como também foi merecido, aliás, a posição da Mocidade.

Até hoje ouço muitos defenderem que a Mocidade deveria ter descido e não o Império. Vi tudo de perto e também concordo. Mas faço uma ressalva: a Mocidade desfilou brigando apesar dos problemas. O Império passou pela Sapucaí 'sorrindo' confiante no belo samba-enredo reeditado. Deu no que deu. A Mocidade brigou para não cair. O Império caiu porque não brigou. A verde-e-branco de Padre Miguel está engasgada. E um dos sambas que prometem ir 'pras cabeças' vai esquentar a briga em 2010 se for o escolhido, de fato. É de autoria do trio J. Giovanni, Zé Glória e Hugo Reis. Lembra os áureos tempos da escola, em que a ironia inteligente fazia parte do cardápio dos seus compositores. O refrão: 'Meu coração vai disparar, sair pela boca/ Não dá pra segurar, paixão muito louca/ Luz independente me leva pro céu/ Sou Mocidade sou Padre Miguel' é para levantar a autoestima da comunidade. E pode reconduzi-la ao ranking paradisíaco do Grupo Especial. Tudo a ver com o seu enredo para 2010 e a sua história no carnaval.



Roque Ferreira não precisa de 'chancela'

| Vagner | 10/10/2009 02:34

Nascido em Nazaré das Farinhas, o compositor Roque Ferreira virou a atração da semana. Motivo: Maria Bethânia selecionou várias canções do conterrâneo para os discos 'Tua' e 'Encanteria'. Há coisas que realmente são esquisitas no nosso país. Precisou que Bethânia 'chancelasse' Roque Ferreira para ele virar notícia dos principais jornais do Brasil? Peralá, Roque foi lançado por Clara Nunes em 1979. Dois anos depois a própria Clara ainda gravaria do autor 'Coração valente'. A seguir, seria a vez de Roberto Ribeiro, João Nogueira, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Elton Medeiros e tantos outros. Essa gente toda gravou Roque. Um dos maiores sucessos de Zeca Pagodinho, 'Samba pras moças', é de Roque. O primeiro disco de Roque 'Tem samba no mar' é uma preciosidade. Lançado em 2004 pelo selo Quelé, uma parceria Acari Records e Biscoito Fino, o cd foi produzido por Luciana Rabello e veio recheado de canções de Roque em parceria com o poeta-bamba Paulo César Pinheiro. O disco? Está fora de catálogo. Certamente agora o relançarão. Roberta Sá já avisou (contam que antes de Bethânia já havia avisado) que seu próximo cd será dedicado a Roque Ferreira. Vou te contar...



Bethânia, uma unanimidade?

| Vagner | 10/10/2009 02:04

Maria Bethânia está de volta. Dois novos álbuns na praça com tudo a que tem direito. A Biscoito Fino investe. Bethânia agradece. E o público também. Ainda que se depare com a velha história dos preços escabrosos impostos pela Biscoito aos revendedores, quem gosta compra. Eu desembolsei R$ 37,99 por cada CD numa loja do centro do Rio. Não me arrependi, mas também não me surpreendi com os novos registros de Bethânia. São bons. Só. Desde 'Maricotinha' que Bethânia não lança algo, de fato, emocionante. Claro, crítico algum fala mal de Maria Bethânia. Ela é uma unanimidade no meio e fora dele. É uma das que alçaram o posto de estrela da MPB (com toda justiça!) e ninguém ousa tecer qualquer comentário incisivamente desfavorável, porque tem de ficar 'bem na fita'. Bethânia é e continuará a ser uma estrela, mas ultimamente seus trabalhos contemplam em excesso suas memórias afetivas, num movimento cíclico que, quando se chega na metade do cd, a gente tem preguiça de ouvir o restante. Pelo menos comigo tem sido assim. Muitos concordam. Mas ninguém fala. É Maria Bethânia!



Clara Nunes é DVD de Ouro!

Vagner Fernandes | Vagner | 24/09/2009 00:47

Lançado há nove meses, o Dvd que reúne os musicais de Clara Nunes para a TV Globo é um dos mais vendidos da EMI, a primeira e única gravadora da cantora mineira de Caetanópolis, que morreu em 1983 em decorrência de um choque anafilático.

De acordo com a EMI, as vendas já ultrapassam a marca das 28 mil cópias comercializadas. Hoje em dia, artistas abocanham Dvd de Ouro com 25 mil vendidos. Pouco? Mas não é mesmo! Em um mercado no qual a pirataria se tornou banalidade é um feito e tanto para nossos cantores atingirem tais números.

Grandes nomes da MPB não chegam lá. Tem gente do primeiro time que sai com módicos 10 mil Cd's e/ou Dvd's de tiragem em época de lançamento de trabalho. Mais adiante, nos deparamos com o álbum sendo vendido a R$ 9,90 nas Lojas Americanas.

Mesmo após 26 anos de morte, Clara continua a encabeçar o ranking das estrelas da MPB que mais movimentam a indústria fonográfica. Os números desse primeiro Dvd póstumo mostram que ela está mais viva do que nunca.

 



Jandira vai licitar as lonas culturais

Vagner Fernandes | Vagner | 16/09/2009 19:57

O melhor, mais popular e acessível dos projetos culturais da prefeitura do Rio agoniza em praça pública. Falo das Lonas Culturais. E a secretária de Cultura do município, Jandira Feghali, "tá luka", tipo aquela cantora que impregnou nossos ouvidos há exatos seis anos com o hit "tô nem aí". Sim, secretária Jandira "tá nem aí".

"Tá nem aí" para renovar o contrato, vencido desde março, com os grupos e associações que administram esses espaços. "Tá nem aí" para reabrir aqueles que ela própria interditou no início do ano, ao lado de agentes da Defesa Civil, numa linda ação midiática. "Tá nem aí" para dialogar sobre possíveis medidas que venham gerar a auto-sustentabilidade das lonas, já que o município, até hoje, só liberou a verba que o governo anterior sentenciou num contrato prorrogado de última hora, expirado há cinco meses. Secretária Jandira "tá nem aí".

Agora, Jandira Feghali decidiu promover um novo "viradão" na cidade: vai licitar as lonas, abrir concorrência pública para a gestão dos espaços que, reunidos, formam hoje o mais consistente e bem-sucedido projeto do segmento no Rio. Claro, como todo político, Jandira não pode ver ações independentes, oriundas das comunidades da periferia, darem certo. Vai burocratizá-las com a justificativa de melhorar a administração. Tem tudo para dar errado.

As lonas ocupam terreno cedido pela prefeitura e recebem da secretaria de cultura subsidio mensal para a manutenção e o funcionamento. Eis o motivo por que secretária Jandira dará o tiro de misericórdia e enterrará a proposta inicial do projeto Lonas, que é o de permitir aos representantes das comunidades a gestão das "tendas", independentemente de vínculos com partidos políticos que encabeçam a administração municipal. Secretária Jandira não está contente. Quer jogar as lonas na mesma areia movediça da burocracia que já "atolou" outros espaços culturais do município.

É preciso esclarecer os fatos para não haver dúvidas: tudo começou quando um grupo de ativistas culturais de Campo Grande solicitou à prefeitura a doação de uma daquelas lonas verdes e brancas que foram instaladas no Aterro do Flamengo durante a ECO 92. Estavam todas abandonadas no Riocentro. Como o povo tem sede de cultura, foi lá e pediu na cara-de-pau uma "tendinha" para abrigar ações culturais em "Big Field". Deu certo! Depois vieram as lonas culturais Hermeto Pascoal, em Bangu, e a Gilberto Gil, em Realengo. Em seguida, a idéia se proliferou pela cidade. Hoje, são dez lonas espalhadas por áreas carentes do Rio. Cada uma ganha R$ 22 mil mensais de subsídio do município. Com isso (e mais nada), paga-se funcionários, luz, som, telefone, professores de oficinas (extras) gratuitas de arte para crianças e idosos e ainda todas as despesas de espetáculos, que incluem transporte de artistas, alimentação e, às vezes, hotel. Tem artista tão boa praça que fica até em MOTEL na periferia (por R$ 20 o período) para dar uma descansada no intervalo entre a passagem de som e o início do show. Tudo em nome da arte, por amor à arte, por respeito ao público. Será que secretária Jandira sabe disso? Provavelmente, não.

Cachê de artista é pago com percentual da bilheteria. Se der público, ótimo. Se não der, ele sai de mãos abanando. Muitos já deixaram lona com R$ 100, R$ 200 no bolso. Outros com nada, porque tiveram de pagar os integrantes da banda que o acompanhavam. Faz parte do jogo. É assim que funciona. E quem fatura em mídia é a prefeitura, mais precisamente a secretaria de Cultura. Não é justo. E é por isso, que vários cantores, atores e bandas estão se recusando a participar do projeto. Não querem pagar para trabalhar. Não estão errados. Marisa Monte, madrinha da Lona Cultural Carlos Zéfiro, em Anchieta, nunca mais deu às caras. Caetano Veloso, que apadrinhou a Lona Cultural "Terra", em Guadalupe, idem. O único que ainda crê no projeto e na responsabilidade social nele contida é Gilberto Gil, que empresta o nome ao espaço em Realengo.

O fato é que as indefinições e percalços administrativos por que passam a s lonas têm afastado empresas patrocinadoras e atravancado a certificação de projetos junto ao Ministério da Cultura. Óbvio. Ninguém quer botar dinheiro em propostas de espaços ligados ao município, cravados de pepinos. Tem lona "suja no SPC". Tem lona que teve o telefone cortado. Tem lona que ficou sem luz. E, outras (para não dizer todas), com dificuldades financeiras para a manutenção. É mais fácil interditar. Vai reabrir quando? Às vésperas da próxima eleição municipal em 2012? Que saudades da Helena Severo!

"Esse imbróglio todo precisa chegar ao fim. Está mais do que claro que a secretária precisa decidir: ou quer dar continuidade ao projeto ou não quer. Ou mantém as lonas abertas ou fecha todas de uma vez. Espaço cultural de periferia não pode ser tratado como instrumento de barganha política. Lona não pode servir de palanque para deputados, vereadores e secretários de quaisquer pastas; lona não pode ter os portões abertos ao público gratuitamente apenas uma vez por ano durante o viradão cultural à paulista, lona não pode se converter em cenário para flashes e holofotes em ações da Defesa Civil.

Quem construiu a história das lonas foram as comunidades e não os políticos. Como é que se licita administração de espaços culturais de periferia? Quem sagrar-se-á vencedor? A Fundação José Sarney com toda sua experiência em projetos e ações culturais? Os diretores de ONGs mascaradas que lançam mão de pobres e favelados para "encher as burras?" Os presidentes de Associações de Moradores, comprometidos até a alma, em decorrência dos favores alcançados junto aos representantes do Legislativo e do Executivo? Ou empresas-produtoras do naipe da Time For Fun, que deu um verdadeiro show de (des)organização quando trouxe Madonna para o Brasil?

Cada comunidade tem suas peculiaridades e necessidades que só os que convivem nela, e atuam de forma responsável e consciente, conhecem bem. Não se licita, secretária Jandira, grupos de gestão cultural nessas condições. Seria a mesma coisa que querer licitar um show de Zeca Pagodinho. Só existe um no mercado. Que tantos gestores culturais existem na cidade, especializados em lonas, a ponto de se abrir concorrência pública? Como é que se licita a gestão de lona? Sim, porque em toda licitação vence aquele que consegue oferecer a melhor relação custo x benefício. No caso das lonas, ganhará uma delas (ou todas) os que propuserem realizar o maior número de ações culturais pelo menor preço? Ou seja, se o município subsidia os espaços com R$ 22 mil mensais, quem apresentar proposta para administrá-los por R$ 1 mil leva!

Os grupos de gestão das lonas culturais não são como empresas de laticínio que fornecem alimentos para merenda escolar ou empreiteiras que constroem vias expressas. Se as lonas tornaram-se referência cultural na cidade (e foram aclamadas em Paris, diga-se de passagem) agradeça a esses administradores que lá estão, cortando um dobrado para mantê-las atuantes. Se a secretaria de Cultura não tem mais como subsidiar o projeto Lonas, porque vai destinar toda a verba para os 'viradões', que deixe então a boca-de-cena desses espaços. Que ceda pelo menos o chão para que cada comunidade encontre os caminhos da auto-sustentabilidade, ainda que precise passar o pires nos sinais de trânsito das ruas da periferia. Melhor do que ficar padecendo sob as arbitrariedades políticas que descaracterizam, a cada dia, um projeto-referência após 16 anos de funcionamento.



Vagner Fernandes

Vagner Fernandes

Carioca, vagner fernandes é jornalista, escritor, pesquisador e pós-graduado em jornalismo cultural, com uma carreira que cobre quase duas décadas de reportagens e comentários de cultura no Brasil. Já trabalhou em mídia impressa, rádio, televisão e internet, tendo passagens por Bloch Editores, O Globo, Rádio JB, Jornal do Brasil, Vogue e L'Officiel. Tem 37 anos e mora no Rio.

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