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25/01/2013 12h42

Na Intendente Magalhães se faz samba também!
Thiago Lacerda

O verdadeiro carnaval do povão acontece na Estrada Intendente Magalhães onde trinta e sete escolas de samba neste carnaval de 2013 desfilarão com o propósito de representarem dignamente a sua comunidade na avenida. Estamos falando de agremiações que carecem de atenção tanto do poder público quanto da grande mídia carnavalesca.

Longe de desfilarem no Palco Maior do Samba, as escolas dos Grupos B, C e D se esmeram a cada ano para fazerem bonito. Não há a ostentação característica do Grupo Especial. Na Intendente Magalhães o carnaval é feito a base do amor, empenho e esperança. O dinheiro é pouco e por isso o lema é trabalhar com o que se tem e com o que se pode. A criatividade é a alma do negócio.

As dificuldades enfrentadas são transformadas em garra ao tocar da sirene de início de desfile. As lágrimas que correm no rosto de muitos componentes que por lá desfilam representam a vitória de colocarem o carnaval na rua. A emoção transmitida por cada escola é fruto do árduo e incansável trabalho da preparação do desfile.

Visitando um dos galpões onde várias escolas destes grupos preparam o carnaval encontramos o "pessoal" da Mocidade Unida do Santa Marta com as mãos na massa no preparo de sua alegoria para o próximo desfile. Já na quase madrugada de sexta feira o ritmo de trabalho era frenético. Poucas horas de sono e muitas horas de barracão resumem os últimos dias destes incansáveis artistas que trabalham arduamente em busca da vitória.

A Mocidade Unida do Santa Marta conta com uma comissão de carnaval que é responsável pela elaboração do desfile da escola. A comissão que é encabeçada pelo experiente carnavalesco Eduardo Gonçalves conta também com um grupo jovem que se mostra muito empenhado na preparação do carnaval. São eles: Leonardo Bora, Vinicius Natal, Gabriel Haddad, Rafael Gonçalves, Vitor Saraiva e Fábio Fabato.

O enredo da escola para 2013 é "Dona Marta mexe o caldeirão da Pantera". Leonardo Bora comenta que o enredo "é a visão da comunidade sobre a própria comunidade". A idéia é mostrar ao público um pouco do dia a dia das pessoas que moram na comunidade do Santa Marta, em Botafogo. Para Rafael Gonçalves a expectativa é que os componentes da escola se identifiquem com a proposta do enredo. A escola desfilará na terça feira de carnaval pelo Grupo D na Estrada Intendente Magalhães.

Segundo Vitor Saraiva, outro participante da Comissão de Carnaval, o que mais o incomoda é a questão do pouco reconhecimento que é dado ao trabalho que é realizado por essas escolas. Há pouca atenção dada pela imprensa aos desfiles dos Grupos B, C e D. Os noticiários de carnaval se resumem ao que se passa na Marquês de Sapucaí.

Inegavelmente as escolas de samba destes grupos merecem todos os elogios por manterem acesa a chama do verdadeiro carnaval - mesmo com a pouca visibilidade que é dada a elas. O lema é não esmorecer. A ideia é manter sempre hasteada a bandeira do samba. Independente do grupo o importante é defender as cores do seu pavilhão e levar as alturas o nome de sua comunidade. Todo componente de escola de samba merece tratamento igual - seja do Grupo D ou do Especial. O sentimento de cada folião independe do grupo em que sua escola desfila.

O carnaval é um tempo especial. No rufar dos tambores, passado, presente e futuro se entrelaçam na avenida. A vitalidade dos jovens rejuvenesce a memória dos mais experientes renovando as escolas de samba através dos anos. A experiência dos mais antigos ensina aos mais jovens o valor e o respeito às tradições do samba. Cada sambista se torna um elo nesta interminável corrente de alegria que une diferentes gerações em um mesmo ideal: o amor ao samba.

E é este amor ao samba que move e dá forças para que as escolas se superem na preparação do seu carnaval. Enquanto existir velha guarda, ala das baianas e ala das crianças nas nossas agremiações haverá sempre sambistas ensinando e aprendendo. E, com isso, a história do nosso carnaval continuará sendo escrita por muitos e muitos anos. E que em 2013 seja escrito mais um capítulo de vitórias para as nossas agremiações e, em especial, para as guerreiras que abrilhantarão mais uma vez os desfiles na Intendente Magalhães.


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23/01/2013 15h05

Balanço Geral dos ensaios técnicos
Thiago Lacerda

Os ensaios técnicos para o carnaval de 2013 vão chegando ao fim. À exceção da Unidos da Tijuca, todas as outras escolas de samba já realizaram os seus ensaios na Marquês de Sapucaí. Desta forma me antecipo em dizer que o balanço final destes ensaios foi bastante positivo. Vivemos nesses quase dois meses momentos de muita emoção. As escolas, de um modo geral, surpreenderam a todos.

O carnaval de 2013 desde o momento da escolha dos enredos vem sendo visto a "olhos tortos" por muitos sambistas e amantes do carnaval. Por isso a expectativa criada para o próximo carnaval é inferior com relação à dos últimos anos. Além disso, os problemas políticos e financeiros de algumas escolas contribuíram ainda mais a este certo desinteresse.

O nível das apresentações das escolas nos ensaios técnicos deste ano foi bastante alto. A qualidade de alguns ensaios reavivou de forma positiva a expectativa com relação aos desfiles. Alguns momentos marcantes que tivemos a oportunidade de presenciar na Avenida atiçaram a curiosidade e o interesse de muitas pessoas. As escolas mais uma vez surpreenderam e mostraram toda a sua força.

O que pude constatar é que neste ano as escolas foram mais organizadas e desfilaram mais soltas. Observei em muitas alas das diversas escolas componentes mais livres para brincar. O canto de muitas escolas melhorou consideravelmente com relação aos ensaios dos outros anos. A boa qualidade dos desfiles surpreendeu muitas pessoas que estavam incrédulas com relação ao próximo carnaval.

Nesta coluna vou expor os dez momentos que, em minha opinião, marcaram estes ensaios para o carnaval de 2013. Não vou classificá-los como ordem de preferência. Apenas vou enumerá-los para melhor organizar o texto.

1 - A emoção, a garra, o canto e a entrega de cada componente da Unidos de Vila Isabel e da Beija Flor de Nilópolis figura como um dos momentos de maior destaque dos ensaios técnicos. Literalmente as duas escolas fizeram chover na Sapucaí. Não há palavras que defina o quanto de espetacular foram os seus desfiles em seu conjunto. Indiscutivelmente foram dois ensaios espetaculares que merecem os mais sinceros e intensos aplausos.

2 - A evolução e o canto das baianas do Acadêmicos do Salgueiro encantou a todos que estavam na Marquês de Sapucaí. As premiadíssimas baianas da vermelha e branca da Tijuca deram uma aula de apresentação. Vestidas com uma indumentária branca e prata feita especialmente para o ensaio só serviu para abrilhantar ainda mais a bela apresentação da ala.

3 - As duas baterias da Mangueira deram o que falar! Opiniões divergentes a parte, inegavelmente a ousadia proposta pela verde e rosa foi aprovada pelo grande público que lotou a Marquês de Sapucaí. As arquibancadas foram ao delírio com a escola. O ensaio da Mangueira fomentou muita curiosidade para sabermos como será a apresentação da escola na Segunda Feira de carnaval.

4 - O samba da Vila Isabel merece um tópico a parte. Sem dúvidas este samba é a grande obra do carnaval de 2013. No ensaio realizado pela Vila Isabel no último domingo o samba foi um dos grandes responsáveis para o sucesso do desfile realizado. O samba já nasceu com ares de clássico. Não há quem não comente sobre a beleza deste samba que cumpre todos os pré-requisitos para entrar na história como um dos melhores sambas de enredo de todos os tempos.

5 - A apresentação de Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro mostrou toda a maturidade deste jovem casal que a cada ano vem conquistando o seu espaço. Não há dúvidas com relação a qualidade de suas apresentações. Muita sintonia, elegância e suavidade na dança. No ensaio técnico da Imperatriz os dois "arrancaram" muitos aplausos da arquibancada. Arrepiante!

6 - O canto da Mocidade Independente de Padre Miguel surpreendeu a todos que assistiram ao ensaio. Apesar da bateria da escola ter desfilado muito no início, os componentes não se acomodaram e mostraram que estão afiados com relação ao canto do samba. Salve o canto da Mocidade!

7 - Falar da bateria de Mestre Ciça é, como se diz na gíria popular, "Chover no molhado". A apresentação foi IMPECÁVEL. As ousadas paradinhas e a precisão do ritmo deram força para um bom desempenho do samba do Acadêmicos do Grande Rio na avenida. Tal fato impulsionou a escola a uma boa evolução e a um bom canto. Não há como não destacar a Bateria Invocada da Grande Rio.

8 - O samba do Império da Tijuca mostrou toda a sua força no ensaio técnico da escola. Os compositores Samir Trindade, Araújo, Alexandre e Tião Pinheiro acertaram em cheio na composição da obra que canta e conta o enredo "Negra, pérola Mulher". A escola desfilou solta, alegre e feliz.

9 - A apresentação de Selminha Sorriso e Claudinho foi espetacular. Debaixo de um temporal o casal dançou e bailou como se a pista estivesse seca. Sem dúvidas foi o casal mais ovacionado durante os ensaios na Sapucaí. Os aplausos sinceros de cada folião que assistia ao desfile das arquibancadas mostra o quanto os dois são amados e respeitados. Espetacular!

10 - Quero destacar também o jovem casal de Mestre Sala e Porta Bandeira da Estácio de Sá: Alcione e Daniel Werneck. A Porta Bandeira Alcione dançou tão garbosamente defendendo o seu pavilhão que me levou a arrepios inesperados. O Mestre Sala Daniel cortejou tão elegantemente sua dama que parecia levitar na Sapucaí. É tão bom quando podemos ver dois jovens com uma dança tão segura, leve e elegante. Parabéns Estácio de Sá! Parabéns Daniel e Alcione!

Esses foram os dez momentos que mais me impressionaram durante os ensaios técnicos de 2013. Queria saber dos leitores o que mais eles poderiam destacar e compartilhar sobre os ensaios já realizados. Vamos debater e mostrar as nossas expectativas para o próximo carnaval.

E agora que venha a Unidos da Tijuca e encerre com chave de ouro o período dos ensaios técnicos!!!!!

Leia também:

- A importância dos ensaios técnicos


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17/01/2013 15h22

São Clemente e Fábio Ricardo
Thiago Lacerda

É sempre muito gratificante vermos o amadurecimento e o crescimento profissional de um grande artista do nosso carnaval. Sem dúvidas o carnavalesco Fábio Ricardo vem se destacando nos últimos anos pela qualidade dos seus carnavais apresentados. Desde que assumiu sozinho uma escola de samba como carnavalesco - isso aconteceu na Acadêmicos da Rocinha em 2008 - os amantes dos bons desfiles tiveram a oportunidade de conhecer este novo talento que a cada ano nos surpreende pelo bom gosto de seus figurinos e alegorias.

Os seus três carnavais pela Acadêmicos da Rocinha primaram pela qualidade plástica irretocável aliando luxo e criatividade que impressionou e conquistou tantos amantes do bom carnaval . A São Clemente foi a escola que abriu as portas para que este carnavalesco pudesse mostrar o seu trabalho no Grupo Especial. E desde então a escola de Botafogo vem crescendo gradativamente em qualidade plástica em seus desfiles.

Uma das grandes expectativas para o próximo carnaval é saber como a São Clemente passará pela Avenida. Quem acompanha os trabalhos na Cidade do Samba nota o quanto o carnaval da preta e amarela de Botafogo está grandioso e de bom gosto. O conjunto de alegorias, com o capricho peculiar do carnavalesco, se destaca como um dos melhores entre todos os barracões. As fantasias seguem o perfil do enredo: leves, coloridas e de fácil entendimento.

Uma característica bastante positiva do carnavalesco Fábio Ricardo é que ele soube escolher para a São Clemente enredos alegres, leves e criativos. Quando o carnavalesco consegue adaptar um tema ao perfil da escola a perspectiva da realização de um grande desfile é muito grande. A escolha de um bom tema é um ponto que pode ajudar na conquista de um bom resultado. É tudo muito mais fácil quando se tem o componente apoiando a sua escola.

O enredo de 2013 - "Horário Nobre" - é um dos mais interessantes do próximo carnaval. O tema é bastante popular que o torna de fácil assimilação a todos que estarão acompanhando a São Clemente na Sapucaí. Quem não ficará atento ao desfile tentando descobrir as novelas e os personagens que passarão pela avenida? Ponto positivo para a escola que conseguiu fugir dos temas patrocinados que em sua maioria são pouco atrativos ao grande público.

Nada seria possível se Fábio Ricardo não tivesse por trás uma diretoria que lhe desse todas as condições para a realização do seu trabalho. Assim como a cada ano o carnavalesco vem amadurecendo e apresentado trabalhos mais competentes a São Clemente também tem crescido em qualidade. É uma escola que ano a ano vem se organizando e se estruturando fortemente. Ela vem também reconquistando muitos dos seus componentes que estavam afastados e atraindo novos que empolgados pelo momento da escola vem se juntando aos que já compunham o time. O resultado de tudo isso é o crescimento da agremiação que a cada ano vem ganhando o seu espaço entre as escolas do Especial .

O fato é que este "casamento" entre São Clemente e Fábio Ricardo deu muito certo. Poucas são as vezes que temos a oportunidade de ver uma sintonia tão perfeita entre um novo carnavalesco e uma escola de samba. Que este "casal" ao final desta novela: "carnaval de 2013" tenha um final muito feliz! Sorte ao Fabinho e a São Clemente!


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10/01/2013 14h15

A importância dos ensaios técnicos
Thiago Lacerda

Há alguns anos os ensaios técnicos têm se tornado um grande momento do pré-carnaval carioca. Para as escolas de samba é uma oportunidade de analisar sobre a viabilidade de levar para a avenida as novidades planejadas. Para o público a oportunidade é a de conhecer os enredos e os sambas de cada agremiação.

O público que começou a lotar neste último final de semana as arquibancadas da Marquês de Sapucaí é um dos grandes beneficiados com a realização dos ensaios. Aos que não poderão estar no dia dos desfiles oficiais por conta dos altos preços dos ingressos é uma ótima oportunidade de ouvir a bateria das escolas ao vivo e assistir aos desfiles, mesmo sem fantasias e alegorias.
Sem dúvidas os ensaios técnicos têm reaproximado de forma relevante o grande público das escolas de samba. Há alguns anos atrás era notório enxergar o desinteresse de muitas pessoas que acompanhavam aos desfiles. Os altos preços e as grandes mudanças ocorridas nos desfiles podem ser considerados como algumas das causas desta falta de interesse. Por ser um evento gratuito e por sempre haver um clima de paz e muita alegria as pessoas têm aparecido numa quantidade cada vez maior para curtir os ensaios na Marquês de Sapucaí.

As agremiações têm a possibilidade de avaliar o desenvolvimento de cada segmento. Os mestres de bateria podem abusar de suas paradinhas e analisar o rendimento de cada uma delas. No último domingo tanto a Mocidade Independente quanto a União da Ilha aproveitaram muito bem o ensaio. Os seus respectivos mestres brincaram de fazer bossas e saíram da avenida consagrados pelo público.

Assim como os mestres de bateria, os casais de mestre sala e porta bandeira e os coreógrafos das comissões de frente têm uma excelente oportunidade de avaliar o efeito de suas coreografias e a qualidade de seu desenvolvimento na avenida. Aos intérpretes uma ótima oportunidade de acertar o andamento perfeito para o desfile.

Nos anos anteriores as escolas do Grupo Especial ensaiavam pelo menos duas vezes (apenas algumas escolas abdicavam deste direito). Este ano o carnaval será logo nos primeiros dias de fevereiro e, desta forma, há menos datas disponíveis para que as escolas possam ensaiar mais vezes. Por isso os ensaios deste ano passam a ter uma importância ainda maior por ser a única oportunidade das agremiações avaliarem o desempenho de cada segmento.
Inegavelmente uma boa atuação no ensaio técnico é um grande motivador para que a escola cresça ainda mais em qualidade até o dia do desfile. Porém é bom lembrar que é na avenida que tudo é avaliado. Não adianta ter um desempenho espetacular nos ensaios e o mesmo não ocorrer no dia do desfile oficial. Na verdade o ensaio técnico é uma ótima oportunidade das escolas avaliarem a funcionalidade de algumas estratégias que serão utilizadas no desfile oficial.
O mais legal dos ensaios é o descompromisso com a competição. Embora haja a avaliação do desenvolvimento de alguns segmentos de cada agremiação nos ensaios ainda podemos ver os componentes soltos para sambar, cantar e se soltar. Não há as pesadas fantasias que muitas vezes os impedem de brincar com mais soltura. Não há tempo e nem correria. É um desfile onde, de fato, o componente pode fazer tudo que talvez no dia do desfile não tenha a oportunidade.

Deste final de semana até o dia 03 de fevereiro onze escolas de samba ainda desfilarão na Marquês de Sapucaí. Fica a dica para que todos compareçam aos ensaios e possam curtir os sambas, as baterias e brincar junto com os componentes de cada agremiação de forma a fazer deste pré-carnaval carioca ainda mais "quente" e empolgante.

Leia também:

- Liesa divulga nome dos julgadores para o Carnaval 2013


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28/11/2012 14h35

Portela
Thiago Lacerda

Portela cheia de encantos.
Encantos que vêm de Paulo da Portela, Paulinho da Viola, Zé Ketti, Tia Vicentina, Tia Doca e Clara Nunes.
Portela de Natal, Dodô, Vilma e de tantos outros nomes que construíram a história do samba desta cidade
Portela, inspiração de tantas canções que tocam os corações dos poetas e dos simples foliões.
Não à toa tem a Águia como símbolo
Esta ave que representa o poder, a força, a nobreza e a coragem.
A Portela é tudo isso... Ela é soberana!
Natal dizia que todo portelense tem um pouco de Águia - e ele estava certo.
Na verdade todo sambista tem um pouco de Portela dentro de si também.
E quando a Portela não está bem, o mundo do samba também não está...
Portelenses e sambistas de verdade: Chegou a hora da volta por cima!
A palavra é a união
Pra reconstruir o vosso lar
É hora de dar bilhete azul para a tristeza
E tomar atitudes para que todos possam ver novamente a verdadeira Portela brilhar
Àquela Portela que um dia o poeta escreveu que nunca viu coisa mais bela
Do pavilhão que representa a Majestade do Samba
É Incrível! Fantástico! Extraordinário!
O talento de tantos bambas portelenses que escreveram com muito amor a história desta escola.
E esta linda história não pode ser manchada por aqueles que não têm o mesmo amor
O amor do portelense pela Portela é muito mais que amor!
E esse portelense sempre foi um menino sonhador!
E o sonho desse menino portelense hoje é o de ver a sua Águia livre dos que a impedem de alçar voos cada vez maiores
Voos de vitória!
Nada mais bonito do que a alegria do portelense
Vaidoso, majestoso e soberano que é.
Sonha novamente em ver a verdadeira Portela passar
Àquela Portela que é canto de alegria no ar!
Aquela Portela que não é de brincadeira e que faz o povo delirar!
Madureira precisa novamente sonhar!
Os sambistas, portelenses ou não, suplicam por mudanças!
O desejo é que o Sol volte a brilhar e anuncie
Um futuro mais feliz!


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05/11/2012 08h37

Até quando?
Thiago Lacerda

Até quando as escolas de samba do Grupo de Acesso serão reféns dos barracões sem infraestrutura que as impede de construírem com dignidade o seu carnaval?

As dificuldades enfrentadas por estas escolas já vêm de muitos anos. A promessa por melhorias é anual, mas para a maioria delas ainda sem muito sucesso.

A precariedade destes barracões que são galpões ocupados da Companhia das Docas é assustadora. Os dirigentes, carnavalescos e os que trabalham na construção destes desfiles são verdadeiros heróis. Quem não conhece estes espaços não imagina o quanto é sofrido a construção das alegorias e fantasias.

Não há condições básicas de trabalho.

Devido à revitalização da Zona Portuária o temor das escolas de samba de perderem estes barracões vem tirando o sono de muitos presidentes e dirigentes. Apesar de todos os problemas que enfrentam estes são os únicos espaços que possuem para fazer o carnaval. Algumas escolas já tiveram que abandonar alguns barracões e "vão se virando como podem" para conseguirem novos lugares.

O fato é que nesta última semana fomos surpreendidos mais uma vez com a notícia de um incêndio que consumiu os barracões da Unidos do Porto da Pedra, Flor da Mina do Andaraí e Alegria da Zona Sul. É triste sabermos que materiais para a construção dos desfiles foram perdidos. Os chassis queimados não têm mais como serem reaproveitados. As máquinas que também foram perdidas somam a um prejuízo ainda maior.

As precárias condições destes barracões propiciam para que incidentes como o da última semana ocorram com frequência. O fato é que providências devem ser tomadas para que essas escolas tenham um mínimo de dignidade para que possam construir seus carnavais. O prefeito Eduardo Paes anunciou a construção da Cidade do Samba 2 na região de São Cristóvão e Benfica para os próximos anos. Depois deste último incêndio fica mais evidente a urgência deste novo espaço para as escolas dos Grupos de Acesso.

Como sambista e amante do carnaval fica o meu pedido para que os órgãos públicos olhem com mais carinho para estas escolas e procurem sanar estes problemas que a cada ano ganham proporções maiores. A estrutura do carnaval carioca é incompatível com alguns barracões que as escolas dos Grupos de

Acesso estão submetidas a se alojar. Não há mais condições destas escolas trabalharem nestes espaços. Por isso a construção da Cidade do Samba 2 é de fundamental importância como uma das soluções cabíveis para a resolução deste problema. As escolas de samba de todos os grupos merecem serem tratadas com muita dignidade. Cada agremiação tem sua história, identidade e sua importância imprescindível para o engrandecimento do carnaval carioca - independente de grupo - e, por isso, são merecedoras de uma melhor atenção.

- Veja fotos do barracão da Alegria da Zona Sul após o incêndio


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25/10/2012 12h14

A primeira impressão dos sambas de 2013 do Grupo Especial
Thiago Lacerda

Nesta coluna faço a minha primeira análise dos sambas do Grupo Especial para o carnaval de 2013. Vale lembrar que eu não sou compositor e não tenho o conhecimento técnico dos nossos mestres que se consagraram como vencedores em suas respectivas escolas. As minhas observações de cada obra estão baseadas no meu gosto pessoal como um admirador e apaixonado por samba enredo e pelas escolas de samba.

Vale ressaltar que meu principal objetivo foi o de valorizar os pontos positivos de cada obra. Eu tratei com muito respeito e com muito carinho nas minhas análises cada samba enredo escolhido. Procurei também não comparar nenhum samba enredo escolhido com sambas que não foram vencedores em suas disputas.
Por último quero parabenizar aos compositores que são verdadeiros mestres! Pela qualidade de alguns enredos ficava difícil acreditar que deles sairiam bons sambas. Salve os compositores das nossas escolas de samba que a cada ano nos surpreendem e contribuem tanto para o crescimento do carnaval carioca.

Salgueiro

Foi com "Banca, Moral e respeito" que o samba da parceria de Marcelo Motta, João Ferreira, Gê Lopes e Thiago Daniel se consagrou vencedor no Acadêmicos do Salgueiro. É uma composição de fácil assimilação e que conquistou cada torcedor salgueirense que acompanhou o seu desempenho durante a disputa. A escola "abraçou" a obra e está muito feliz com a escolha realizada. Sem dúvidas é um samba de boa qualidade.

A letra do samba é bem objetiva ao que se propõe. Os compositores não optaram por construir uma letra mais rebuscada utilizando-se de mensagens subliminares. Os versos "Vêm cá meu bem", "Se vacilar" e "cair na rede" aproximam a letra de uma linguagem mais popular. E pelo fato de ainda possuir uma melodia muito boa e bem construída faz do samba do Salgueiro muito alegre e "pra cima" - utilizando uma "gíria carnavalesca" bem comum.

O refrão principal é forte e tem a "cara" do Salgueiro. O orgulho de ser salgueirense é enaltecido e isso é muito bom. Os compositores tiveram a felicidade de construir uma letra que mistura esse orgulho salgueirense com o tema que será contado pela escola. Além desse ponto muito positivo, o refrão cumpre o seu papel que é o de levantar e mexer com os brios do componente.
O samba enredo do Salgueiro para o carnaval de 2013 atende com muita competência a proposta do enredo. E, em minha opinião, a partir do momento que o samba é bem aceito pela sua comunidade ele tem todas as condições de ter um bom rendimento na avenida e garantir o sucesso da escola.

Imperatriz

A parceria de Me Leva, Gil Branco, Tião Pinheiro, Drumond e Maninho do Ponto mais uma vez se consagra na Imperatriz Leopoldinense. Embora o samba não tenha o mesmo potencial das últimas obras vencedoras da parceria, ele consegue cumprir a proposta do enredo com muita qualidade.

Há dois pontos que considero como muito positivos no samba da escola. O primeiro é o refrão do meio que possui uma melodia muito gostosa e que leva o componente a brincar e cantar por ser de fácil assimilação. Vale lembrar que houve uma alteração na letra deste refrão. Originalmente o primeiro verso era "Siriá... Carimbó... Na ciranda eu rodei". A escola modificou a letra para "Siriá... Carimbó... Marujada eu dancei". A melodia não sofreu mudanças consideráveis.

O outro ponto positivo que considero é a parte final da segunda do samba em que os compositores foram muito felizes em letra e, principalmente, na melodia quando abordam a religiosidade do Círio de Nazaré. Os versos "Oh! Mãe... Senhora... sou teu romeiro/ A ti declamo em oração / Oh! Mãe mesmo se um dia a força me faltar/ A luz que emana desse teu olhar/ Vai me abençoar!" merecem destaque por conseguirem transmitir a emoção e a devoção do povo paraense pela Nossa Senhora de Nazaré.

O samba que começou a disputa de forma descreditada cresceu no decorrer de suas apresentações e conquistou os responsáveis pelo carnaval da Imperatriz Leopoldinense. A contratação de Wander Pires que vai dividir o microfone com Dominguinhos do Estácio é a aposta para que o rendimento do samba corresponda ao que a escola espera para o seu desfile.

Inocentes

A parceria vencedora na caçulinha do Grupo Especial foi a de Billy, Dominguinhos, Ildo, J.J Santos, Juarez e Mará. A Inocentes de Belford Roxo apostou num samba mais melodioso para a difícil missão de abrir os desfiles do carnaval de 2013.
Particularmente gosto muito da primeira do samba que possui passagens melódicas bonitas e que nos chama a atenção. A melodia dos versos "E... as sete confluências concluir/ Peço água tranquilas para seguir/ Para a Deusa do vento proteção" merece destaque e dá uma grande qualidade a obra. É uma passagem muito gostosa do samba enredo!

O refrão principal é simples, mas cumpre bem o seu papel. Os versos "Meu Oriente é você/ Vim mostrar o meu valor" são daqueles que a melodia fica "grudada" na mente e que volta e meia nos "pegamos" cantarolando.
A expectativa agora é para vermos como o samba ficará nas vozes de Wantuir e Thiago Brito. Acredito que bem trabalhado pelos dois intérpretes o samba tem tudo para fazer bonito na Sapucaí e abrilhantar ainda mais o desfile da Inocentes.

Mangueira

O primeiro samba do Grupo Especial escolhido foi o da verde e rosa. Os compositores Lequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalho foram os autores vencedores de um dos grandes sambas para o carnaval de 2013.

A letra consegue traduzir perfeitamente o enredo "Cuiabá: Um paraíso no Centro da América". A história é contada verso a verso de forma natural - sendo bem linear ao tema proposto - e com uma inegável qualidade. Com toda certeza a letra deste samba é "uma poesia dedicada a Cuiabá".

A melodia segue o exemplo da letra e apresenta bonitas passagens que enriquece ainda mais a qualidade da obra. Os versos "Cidade formosa... Verde... Rosa / Teu nome reluz, Vila Real do Bom Jesus" e o início da segunda "Em cada lugar, um "causo" que o povo contou / Em cada olhar, na arte um poema brilhou..." possuem passagens melódicas gostosas e dão um destaque bastante positivo ao samba.

Os refrões, em minha opinião, merecem destaque. Acima de tudo eles são, como se diz na gíria popular, de "pegada". São refrões que dão uma força ainda maior ao samba e contribuirão certamente para o canto mais forte da escola.
Numa primeira análise vejo este samba da Estação primeira de Mangueira como uma grande obra do carnaval de 2013. Vamos aguardar para vermos como será a evolução dele no CD, ensaios técnicos e no desfile. De qualquer forma acredito muito na força e no potencial deste samba.

São Clemente

A escola preta e amarela da Zona Sul resolveu fazer a junção de duas obras para o próximo carnaval. O refrão principal e a segunda do samba da obra de Gabriel Mansilha se juntou com a primeira do samba e refrão do meio da obra de Nelson Amatuzzi, Victor Alves, Floriano do Caranguejo, Beto Savana, Guguinha e Fábio Portugal.

O samba enredo da escola conta de forma muito irreverente o tema "Horário Nobre". A escola manteve para o ano de 2013 a irreverência que tanto fez sucesso no carnaval passado. Em minha opinião a São Clemente vem seguindo um caminho muito positivo com os temas e os sambas escolhidos e, com isso, se firmando de forma muito convincente no Grupo Especial.

A letra do samba segue a linha brincalhona. As tiradas em alguns versos são interessantes na tentativa de cativar o público e seus componentes. "Segura a peruca, Perpétua", "Viúva Porcina sambando igual a mulata" e todo o refrão do meio são versos que sintetizam essa busca da escola por uma obra mais popular, brincalhona, festeira e solta. Em minha opinião essa proposta pode ajudar a São Clemente a conquistar um excelente resultado.

A melodia do samba segue a proposta da letra. É bem carnavalesca e muito gostosa para se cantar e desfilar. O ponto alto é a boa "sacada" do refrão do meio que inegavelmente contagia a quem ouve. Tem sido bem recebido pelas pessoas que já ouviram o samba. Agora vamos aguardar a gravação do CD para ouvirmos melhor o ajuste melódico da passagem de um samba para outro. Sorte a escola!

Portela

A parceria de Wanderley Monteiro, Luis Carlos Máximo, Toninho do Nascimento e André do Posto 7 é a responsável pela composição de uma das melhores obras do carnaval de 2013. Como um amante do samba enredo fica difícil fazer um comentário à altura da qualidade desta composição. A potencialidade deste samba é algo indescritível. O fato é que o samba conquistou o portelense que cantará com muito orgulho um pouco da história do bairro de Madureira.

Não há como não identificar a alma do carioca em cada verso e em cada passagem melódica do samba. A obra que já nasceu com ares de sucesso promete ser um dos grandes atrativos para o próximo carnaval. Os compositores conseguiram captar a essência do enredo com maestria.

A melodia é malandreada. É gostosa. É carioca, suburbana... É de Madureira! A letra do samba possui passagens de rara beleza. A emoção é um dos pontos altos do samba. Os versos "Que Madureira é muito mais que um lugar/ É a capital de um sonho que me faz sambar" sintetizam o enredo de forma genial.
Podemos dizer que é um samba completo. Na voz de Gilsinho tem tudo para se tornar mais um grande sucesso. As mudanças ocorridas na junção de refrões e na modificação de uma palavra na letra do samba não comprometem a beleza da obra. Agora é aguardar e "abrir a roda" que Madureira vai chegar com muita força para o carnaval de 2013 em busca de um grande resultado.

Vila Isabel

A Vila Isabel a cada ano nos surpreende com obras que já nascem com ares de épicos. A cada ano os compositores vencedores da escola reinventam o modo de escrever samba e se destacam pela ousadia. No ano passado a escola trouxe o canto e o contra canto e foi um sucesso. Para o próximo carnaval a parceria de André Diniz, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Tonico da Vila e Leonel mais uma vez surpreendem.

O samba é lindo. Além de todas as suas qualidades o samba enredo para o próximo carnaval inova mais uma vez. A grande sacada do samba de 2013 é o jogo das palavras plantar e colher dentro de um mesmo refrão.

FESTA NO ARRAIÁ,
É PRA LÁ DE BOM
AO SOM DO FOLE, EU E VOCÊ
A VILA VEM PLANTAR
FELICIDADE NO AMANHECER

FESTA NO ARRAIÁ,
É PRA LÁ DE BOM
AO SOM DO FOLE, EU E VOCÊ
A VILA VEM COLHER
FELICIDADE NO AMANHECER

A solução acima que parece simples tem um resultado majestoso. A ideia é genial e o refrão tem uma força incrível. É muito gratificante termos a felicidade de poder acompanhar a escolha de uma obra como a da Vila Isabel para o próximo carnaval. Esta composição é a prova de que o samba está mais vivo do que nunca. E que Nelson Sargento tem muita razão quando diz que o "samba agoniza mais não morre".

A letra do samba cumpre seu papel de contar o enredo com rara categoria. Impecável em todos os momentos. Os desenhos melódicos incríveis dão uma qualidade indescritível a obra. Os dois refrões são arrebatadores. Podemos dizer que é um samba perfeito. O componente da Vila Isabel desfilará mais uma vez com um grande samba enredo. Indiscutivelmente a azul e branca do bairro de Noel é um dos grandes celeiros de bamba e do bom e legítimo samba!!!

Grande Rio

A parceria de Mingau, Junior Fraga, Deré, Mingauzinho e Neto foi a vencedora na tricolor de Caxias. O samba da Acadêmicos do Grande Rio surge como uma grata surpresa para o próximo carnaval.

O samba enredo da Grande Rio caracteriza-se por ser, acima de tudo, bem alegre. Os compositores conseguiram transformar um enredo aparentemente denso em um samba de fácil assimilação. Inegavelmente é uma obra em que o componente terá facilidade de cantar e brincar com muita desenvoltura na avenida.

A letra do samba é simples, mas consegue traduzir em seus versos o que o enredo se propõe a contar. É um samba que se caracteriza por versos pequenos e objetivos. Não há espaço para passagens que tenham mensagens subliminares. É um samba "pra frente" e gostoso de escutar.

A parceria buscou utilizar-se de uma linguagem mais popular. O refrão principal é um exemplo claro desta simplicidade. Os versos "Vem cá, me dá, o que é meu, é meu" é um convite a um canto forte. O intérprete Nego que vem ajudar Emerson Dias no carro de som tende a dar ainda mais qualidade ao samba. Sinceramente tenho a sensação que este samba pode proporcionar um bom desfile a Grande Rio.

União da Ilha

A parceria de Ginho, Júnior, Vinícius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra foi a grande vencedora na União da Ilha do Governador. Talvez a grande zebra das disputas. A vitória deste samba se tornou surpreendente para alguns torcedores já que ele foge as características da Ilha. Porém tal fato não o faz inferior a outras obras que a escola já levou para a Marquês de Sapucaí.

O samba da União da Ilha para o carnaval de 2013 será um grande desafio para a escola. Particularmente eu gosto do samba. Ele caracteriza-se por uma melodia mais rebuscada com bonitas passagens que dão uma inegável qualidade a obra. O desafio a que me refiro é com relação ao componente da Ilha estar acostumado a cantar sambas com uma letra mais solta e de melodias fáceis e brincalhonas.

A letra do samba é bem construída e conta com muita competência o enredo da escola que é uma homenagem a Vinicius de Moraes. O enredo da Ilha não é inédito e os compositores foram muito felizes de criarem uma obra com características próprias fugindo aos bons sambas que já passaram na Avenida em homenagem ao nosso grande compositor.

Uma das minhas maiores expectativas é ver como o samba vai render no período pré-carnaval na voz do grande Ito Melodia. Eu acredito que este samba pode surpreender. Ele tem qualidade e isso o condiciona a render um bom resultado. Talvez algumas críticas feitas ao samba tenham sido muito cruéis. Todos nós amantes do carnaval somos um pouco União da Ilha e por isso torço muito pelo sucesso do samba e da escola.

Mocidade

Um dos pontos positivos da vitória da parceria de Jefinho Rodrigues, Jorginho Medeiros, Marquinho Indio, Domingos PS, Moleque Silveira e Gustavo Henrique é que ele teve uma boa aceitação pela comunidade da escola. Esse é o primeiro passo para o sucesso de qualquer samba na Avenida.

A letra consegue traduzir com muita naturalidade esse elo de rock com samba. O refrão do meio merece destaque por conseguir com êxito fazer essa gostosa mistura. É muito legal essa junção de "pandeiro e guitarra" em um dos versos.

Melhor ainda é a exaltação ao seu próprio baticumbum como àquele que não existe mais quente. Essas tiradas dos compositores são fantásticas, pois mexem com o brio do componente. Gosto muito disso.

A melodia do samba é correta. As passagens melódicas têm qualidade para sustentar com muita competência o desfile da verde e branca de Padre Miguel. O samba enredo dá a bateria boas condições de realizar bossas que podem surpreender. A boa relação do samba com a bateria poderá proporcionar a escola uma boa evolução e um bom canto.

O desfile da Mocidade para o próximo carnaval é aguardado com muita expectativa pelo grande público. O enredo que contará a história do Rock in Rio trará uma grande mídia a escola e a presença de grandes artistas e cantores atrairá ainda mais os olhares curiosos de todos que assistirão ao desfile. O samba enredo representará muito bem a escola na avenida. Em minha opinião ele não deixa a desejar em nada a expectativa criada pelo enredo.

Beija Flor

O samba enredo da Beija Flor para o carnaval de 2013 tem a "cara" da escola. É um samba que foi feito com o "jeitinho" que a comunidade nilopolitana gosta. A parceria de J. Veloso, Ribeirinho, Marquinho Beija-Flor, Gilberto, Silvio Romai e Dilson Marimba que tem a participação de Claudio Russo e Miguel conseguiu com muito êxito cativar os torcedores da escola.

É um samba que cumpre com todos os pré-requisitos possíveis para que a escola tenha um ótimo resultado. A letra é extensa - do jeito que a escola gosta - e tem como sua principal qualidade a competência de conseguir traduzir o enredo de forma espetacular. Os versos são bem elucidativos e contam passo a passo o desenvolvimento do tema sem enrolar.

Os dois refrões são fortes. São passagens que possibilitam um canto ainda mais forte. Na minha modéstia opinião o refrão do meio merece destaque. É muito gostosa a melodia dos versos "É o bonde que vai, carruagem que vem/ Na viagem que traz o amor de alguém/ Indomável corcel, alazão da Coroa/ Troféu da nobreza, estrela que voa" e tem tudo para empolgar ainda mais os seus componentes.

Sem dúvidas a Beija Flor de Nilópolis levará para a Avenida um bom samba enredo. É um samba alegre, pra cima e feliz! A comunidade da escola apoiou a escolha do samba enredo e isso o faz ter ainda mais força para desempenhar o seu papel na Marquês de Sapucaí.

Unidos da Tijuca

O samba enredo da Tijuca tem no refrão principal como o seu ponto alto. Ele é de fácil assimilação e alegre. Os versos "Metade do meu coração é Tijuca/ A outra metade é Tijuca também" mexem com o brio do componente e promete ser um dos grandes momentos do desfile da campeã do carnaval. 

Sem dúvidas a parceria de Julio Alves, Totonho, Dudu e Elson Ramires conseguiu com muita competência compor um samba que tenha o perfil da Unidos da Tijuca dos últimos desfiles. É um samba que atende a proposta da escola. O potencial dele é muito grande e tem totais condições de proporcionar mais um grande desfile a escola.

A melodia merece destaque. A primeira do samba possui passagens melódicas muito bonitas como a dos versos "Seres, magia do meu carnaval/ Pela floresta surge um olhar/ Mistérios que bailam no ar/ Tijuca querida, razão da minha vida".

O refrão do meio também é muito bem construído e gostoso de cantar.
O samba enredo possui uma boa qualidade e tem muitas condições de crescer ainda mais com os ensaios que a escola fará até o carnaval. Sem dúvidas a Unidos da Tijuca estará muito bem representada em busca de mais um título do carnaval carioca.


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16/10/2012 10h29

Sambas 2013: Mangueira, São Clemente e União de Jacarepaguá
Thiago Lacerda

As escolas de samba já começaram a definir os hinos que levarão a Marquês de Sapucaí para o carnaval de 2013. O fato é que apesar de parte dos enredos para o próximo ano serem alvo de muitas críticas os compositores mostraram mais uma vez a capacidade de se reinventarem. As obras escolhidas até o momento inegavelmente apresentam uma boa qualidade e a expectativa para o próximo carnaval melhora bastante.

As análises que serão feitas dos sambas escolhidos ficarão restritas somente a eles. Não pretendo fazer uma análise das disputas nas quadras, pois infelizmente não pude estar presente em todas as escolas e seria injusto eu fazer uma análise mais detalhada de algumas escolas e não podendo fazer de outras. Por isso irei me ater somente a obra escolhida sem referências a outras obras que não foram vencedoras.

Por último quero parabenizar aos compositores que são verdadeiros mestres! Pela qualidade de alguns enredos ficava difícil acreditar que deles sairiam bons sambas. Salve os compositores das nossas escolas de samba que a cada ano nos surpreendem e contribuem tanto para o crescimento do carnaval carioca.

Mangueira

O primeiro samba do Grupo Especial escolhido foi o da verde e rosa. Os compositores Lequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalho foram os autores vencedores de um dos grandes sambas para o carnaval de 2013.
A letra consegue traduzir perfeitamente o enredo "Cuiabá: Um paraíso no Centro da América". A história é contada verso a verso de forma natural - sendo bem linear ao tema proposto - e com uma inegável qualidade. Com toda certeza a letra deste samba é "uma poesia dedicada a Cuiabá".

A melodia segue o exemplo da letra e apresenta bonitas passagens que enriquece ainda mais a qualidade da obra. Os versos "Cidade formosa... Verde... Rosa / Teu nome reluz, Vila Real do Bom Jesus" e o início da segunda "Em cada lugar, um "causo" que o povo contou / Em cada olhar, na arte um poema brilhou..." possuem passagens melódicas gostosas e dão um destaque bastante positivo ao samba.

Os refrões, em minha opinião, merecem destaque. Acima de tudo eles são, como se diz na gíria popular, de "pegada". São refrões que dão uma força ainda maior ao samba e contribuirão certamente para o canto mais forte da escola.

Numa primeira análise vejo este samba da Estação primeira de Mangueira como uma grande obra do carnaval de 2013. Vamos aguardar para vermos como será a evolução dele no CD, ensaios técnicos e no desfile. De qualquer forma acredito muito na força e no potencial deste samba.

São Clemente

A escola preta e amarela da Zona Sul resolveu fazer a junção de duas obras para o próximo carnaval. O refrão principal e a segunda do samba da obra de Gabriel Mansilha se juntou com a primeira do samba e refrão do meio da obra de Nelson Amatuzzi, Victor Alves, Floriano do Caranguejo, Beto Savana, Guguinha e Fábio Portugal.

O samba enredo da escola conta de forma muito irreverente o tema "Horário Nobre". A escola manteve para o ano de 2013 a irreverência que tanto fez sucesso no carnaval passado. Em minha opinião a São Clemente vem seguindo um caminho muito positivo com os temas e os sambas escolhidos e, com isso, se firmando de forma muito convincente no Grupo Especial.

A letra do samba segue a linha brincalhona. As tiradas em alguns versos são interessantes na tentativa de cativar o público e seus componentes. "Segura a peruca, Perpétua", "Viúva Porcina sambando igual a mulata" e todo o refrão do meio são versos que sintetizam essa busca da escola por uma obra mais popular, brincalhona, festeira e solta. Em minha opinião essa proposta pode ajudar a São Clemente a conquistar um excelente resultado.

A melodia do samba segue a proposta da letra. É bem carnavalesca e muito gostosa para se cantar e desfilar. O ponto alto é a boa "sacada" do refrão do meio que inegavelmente contagia a quem ouve. Tem sido bem recebido pelas pessoas que já ouviram o samba. Agora vamos aguardar a gravação do CD para ouvirmos melhor o ajuste melódico da passagem de um samba para outro. Sorte a escola!

União de Jacarepaguá

"Dos Barões do Café a Cidade Universitária, Vassouras ouro verde do Brasil" é o enredo que a União de Jacarepaguá desfilará no carnaval de 2013 pela Série A. O samba enredo para o próximo carnaval são dos compositores Alexandre Valle, James Bernardes, Ivanísia, Neyzinho do Cavaco, Girão, Mariano Araújo e Jorge Buccos.

A verde e branco mais uma vez vai levar para a Sapucaí um samba de boa qualidade. A letra conta o enredo de forma correta cumprindo o que determina o quesito samba-enredo.

A melodia merece um maior destaque. A linha melódica do refrão do meio é bem construída e contagiante - "Na capoeira, fui batizado, paranauê/ Dando meu jongo, nesse gingado, maculelê/ Do arraiá de Sinhá a fé que vem dos terreiros/ Sou o retrato desse povo brasileiro".

Outra passagem melódica bem interessante do samba está na sua segunda parte: "Se ontem a negritude deu o seu suor/ A juventude sonha um sonho bem melhor/ Um brinde a prosperidade". Estes versos também têm uma linha melódica interessante e merece um destaque.
O sábado de carnaval será aberto pela União de Jacarepaguá que levará um bom samba para a Avenida. Parabéns aos compositores!


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27/09/2012 13h34

Receita de Bolo
Thiago Lacerda

O que é um samba-enredo correto? Existe uma métrica ideal na construção de um samba enredo para um desfile de escola de samba? Navegando pelos sambas concorrentes para o carnaval de 2013 vejo que o ato de compor está passando por mudanças significativas, deixando de ser receita de bolo e criando novas - ou retomando antigas - formas.

Vamos pensar: Como estamos acostumados a ouvir um samba? Primeira parte de 8 à 10 linhas, refrão do meio de 4 linhas, segunda parte do samba de 8 à 10 linhas, e refrão final com 4 linhas. Pronto, essa é a métrica do samba-enredo mais utilizada pelos compositores nos últimos anos.

Isso está tão habitual ao compositor que a primeira ação ao olhar a letra de um samba concorrente para análise- geralmente para se colocar defeito - é contar as linhas! Se tiver mais de 28, está muito grande! Se tiver menos de 26, está muito pequeno!

Não estou dizendo que essa forma de fazer samba está errada. Não, ela não está. Mas é uma "receita de bolo", e daqueles que estamos carecas de comer na casa da vovó. Quase todas as parcerias preferem compor seus sambas utilizando este formato.

Seria falta de criatividade e competência? De forma nenhuma! Porém ser "diferente" na construção de um samba enredo pode ser muito arriscado. Alguns compositores têm certo medo de inovar e de serem eliminados precocemente da disputa por conta disso.

Poucos são os que furam esse bloqueio sem medo de sair do lugar comum. Por exemplo, as parcerias de Eduardo Medrado sempre trouxeram sambas com variações melódicas interessantes e refrões fora dos moldes usuais. Martinho da Vila, não se deixou render à esse modelo e na contramão dos sambas engessados compôs "Noel, o Poeta da Vila", com refrão de uma linha só: "Tem a energia da nossa Vila Isabel". Mestre é mestre!

E quem não subiu a ladeira com a Portela no carnaval de 2012? A parceria de Wanderlei Monteiro e Luiz Carlos Máximo trouxe um samba avesso aos moldes atuais, gerando um "Efeito Pelô" na forma de compor. Um samba com três refrões, frases curtas e de fácil memorização. A comunidade bateu o pé - há quem duvidasse do sucesso do samba durante as disputas - e levou o samba para a avenida. Sucesso pronto!

Nas disputas de samba para o carnaval de 2013 já percebemos a influência do "Efeito Pelô" portelense. Foi um samba enredo que inegavelmente conquistou a todos e caiu na boca do povo. Tal fato abriu caminhos inspirando e encorajando aos compositores em buscar o "novo" para o próximo carnaval. E isso é muito bom!

A própria parceria de Wanderlei Monteiro para o carnaval de 2013 veio com um samba na mesma linha do sucesso anterior, fora dos padrões dos sambas engessados que teimamos em nos acostumar; na Viradouro, o grupo de Felipe Filósofo trouxe três refrões, um deles de uma linha só, e a parceria de Gilberto Gomes também foi pelo mesmo caminho, trazendo um refrão de uma linha, e incluindo o famoso "ô ô ô", que se bem usado pode ser um elemento positivo para o desfile; a parceria de Thiago Lepletier, na Alegria da Zona Sul trouxe um refrão final com duas linhas, na intenção de empolgar o público; o consagrado André Diniz, em seu samba para a Vila Isabel, utilizou a alternância no refrão final de "plantar/colher"; Arlindo Neto no Império Serrano, seguindo a mesma linha do pai Arlindo Cruz em 2012, criou um refrão também com os recursos de duas linhas e do "ô ô ô", curto e de fácil memorização. Enfim, cito alguns exemplos, mas não se esgota neles os sambas que seguiram essa linha para 2013. 

Deixo claro que não sou músico e nem pretendo ser. Sou sambista, e como tal, me cansa ouvir tantos sambas iguais ano após ano, e me entristece ver que o samba enredo deixou de ser gênero que toca em rádios de grande circulação para se "esconder" nos guetos das escolas de samba.

Também quero colocar que indiscutivelmente existem sambas de enredo dentro da "receita de bolo" que são obras de qualidade e que merecem todos os nossos elogios. Porém há outros modelos que podem surtir efeitos maravilhosos também. Não existe uma forma exclusiva para se construir um samba enredo. A liberdade de criação é essencial para que novas obras de qualidade sejam construídas cada vez mais - ano a ano. Engessar em apenas um modelo torna tudo igual e, muitas vezes, chato e repetitivo.

Senhores presidentes, não tenham medo se um samba for muito diferente do que vocês estão acostumados a ouvir. Isso não quer dizer que o samba seja ruim. Ponderem e ouçam as suas comunidades. Não existe uma receita de bolo na criação de um samba enredo.

Senhores compositores, arrisquem, ousem, pois o diferente é o que pode marcar e entrar para a história. Desamarrem as correntes do comum e sejam diferentes, não tenham medo de serem vocês mesmos, pois assim, vocês serão a própria essência do samba.


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14/09/2012 11h41

O novo desafio de Lucinha Nobre e Rogerinho
Thiago Lacerda

Indiscutivelmente Lucinha Nobre e Rogerinho formam um dos casais de Mestre Sala e Porta Bandeira mais completos do carnaval carioca. Não há como negar o talento desta dupla que a cada ano nos surpreende mais por conta da beleza de suas apresentações.

Há alguns dias atrás todos foram pegos de surpresa com a saída de Lucinha Nobre e Rogerinho da Portela. O casal desfilou por três anos na Majestade do Samba e por lá sempre conquistaram notas máximas. E mesmo no ano de 2011 quando a azul e branco de Madureira não foi julgada o casal recebeu honrosos elogios dos julgadores do quesito em suas justificativas.

No carnaval de 2013 Lucinha Nobre e Rogerinho terão um grande desafio pela frente: desfilar na Inocentes de Belford Roxo, escola estreante no Grupo Especial. Historicamente é sabido que a primeira escola a desfilar enfrenta grandes dificuldades quando falamos em avaliação dos julgadores.

Independente da qualidade do desfile é fato que o rigor dos avaliadores com as escolas que ascendem de grupo é bem maior.

Infelizmente o "peso da bandeira" é um caso ainda a ser superado pelos julgadores. É nítido que em certas ocasiões há um certo "receio" de se dar nota máxima para a primeira escola a desfilar. Poucas notas dez são dadas para as agremiações que vêm do Grupo de Acesso.

A ida de Lucinha Nobre e Rogerinho para a Inocentes de Belford Roxo será uma prova real para observarmos como será a avaliação dos julgadores com relação a apresentação deste talentoso casal. Vindos de sucessivas notas máximas pela Portela por conta de apresentações espetaculares o que se espera é que na tricolor de Belford Roxo o resultado seja o mesmo.

O carnaval de 2013 nos reserva essa expectativa de vermos Lucinha e Rogerinho na escola estreante do Grupo Especial. A contratação feita pela Inocentes de Belford Roxo traz uma curiosidade grande com relação a como eles serão avaliados. Será interessante observarmos se no quesito Mestre Sala e Porta Bandeira o "peso da bandeira" influencia diretamente nas notas dadas pelo júri oficial. Caros leitores, o que vocês acham? Será que Lucinha e Rogerinho, se continuarem dançando como nos últimos anos, conseguirão as notas máximas que vêm recebendo ultimamente?

O meu desejo é que, independente de pavilhão, os julgadores avaliem o que observarem de forma justa. Sei que não há como fazermos um pré-julgamento antes mesmo dos desfiles ocorrerem, mas é interessante pensarmos o quanto esta contratação nos faz refletir sobre as dificuldades enfrentadas por uma escola estreante no Grupo Especial. Que o próximo carnaval nos reserve boas surpresas. Boa Sorte a Inocentes de Belford Roxo e ao consagrado casal Lucinha Nobre e Rogerinho!

Leia também:

- Lucinha Nobre e Rogerinho tem nova casa: Inocentes de Belford Roxo


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03/09/2012 17h23

O Rio de cá luxo e riqueza, o Rio de lá...
Thiago Lacerda

Todo historiador é um eterno admirador de fatos do passado. O tríplice problema do tempo, do espaço e do homem constitui a matéria da memória - já dizia o antropólogo Lerou Gourhan. Falar da memória de uma sociedade é contar um pouco de sua história e poder mostrar aos jovens um pouco da essência do seu espaço, do seu lugar. E o historiador utiliza-se muitas vezes destes fatos do passado para fazer discussões acerca de temas que muitos pensam que são do nosso presente (e que na verdade não são!). Hoje revendo fotos antigas do Rio de Janeiro me deparei com algumas que mostravam um pouco do carnaval carioca da década de 50 e, a partir daí, nasceu a ideia de escrever esta coluna.

É fantástico perceber que muitas discussões do passado são atuais quando falamos de carnaval carioca. Um dos grandes debates que a cada ano ganha grandes proporções é para saber o porquê do povo não estar inserido na maior festa popular que é o desfile das escolas de samba. Volta e meia nos deparamos com a pergunta: "- Os desfiles são planejados para quem?" E a resposta é sempre a mesma: "- Para os turistas e para a elite, é claro".

O fato é que este debate é antigo e falsamente pensamos que o problema é atual. Não vou entrar em debate sobre a história do carnaval carioca - essa não é a idéia - mas é interessante vermos que na década de 50 os grandes Bailes do Theatro Municipal ficavam restritos a elite brasileira, a artistas e estrangeiros que por lá passavam as noites para cair na folia. Enquanto isso o povo ficava do lado de fora do Theatro acompanhado a chegada destes privilegiados.
A multidão acompanhava atentamente cada pessoa que chegava ao baile. A foto é de 1954. Nela percebemos o quanto a população se aglomerava para poder assistir a um dos maiores eventos carnavalescos da época. A intenção era poder ver os artistas e poder admirar as mais belas fantasias e os trajes elegantes dos homens e das mulheres que eram sempre muito bem produzidos. A Cinelândia era tomada pelos curiosos que iam para lá para poder curtir - mesmo do lado de fora - um pouco da festa.

O debate fica atual quando nos deparamos com o povo assistindo aos desfiles das escolas de samba no viaduto São Sebastião. São espaços e tempos diferentes, mas com a mesma realidade. Os altos preços dos ingressos e das fantasias alijam o povo de poder curtir na Marquês de Sapucaí o desfile de sua agremiação. A saída é admirar aos desfiles por cima do viaduto - na brecha entre uma arquibancada e outra.

A intenção destas pessoas que ficam em cima do viaduto é poder admirar as mais belas fantasias e carros alegóricos, os artistas que desfilam nas escolas e poder torcer, mesmo que de longe, pelo sucesso de sua escola de samba. O fato é que as realidades se encontram mesmo quando falamos de dois períodos distintos da história do carnaval carioca.

O povo, que não tem nada de bobo, tem sempre uma saída para se divertir. Seja hoje ou na década de 50 o carioca sempre deu o seu jeitinho para não perder seus dias de folia. E é no carnaval de rua que ele extravasa e brinca seu carnaval sem qualquer tipo de restrição. Na rua todos são iguais. Não há viadutos ou grades que impeçam as pessoas de ocupar qualquer tipo de espaço destinado e reservado aos mais privilegiados. Não há distinção de raça, classe social ou etnia. A única regra é poder brincar, brincar e brincar.

O fato é que o carnaval de rua no Rio de Janeiro a cada ano vem crescendo e ganhando um espaço de destaque. Os blocos arrastam multidões pelas ruas com o único objetivo de levar alegria a todos que acompanham. O Cordão da Bola Preta é um sucesso e não há quem fique parado ao som do "Quem não chora não mama". As manhãs de sábado de carnaval na Avenida Rio Branco a cada ano recebe mais admiradores. Por lá passam milhares de pessoas que desfilam com suas fantasias extravasando sua alegria. Ricos e pobres em perfeita harmonia provando que há espaço para que todos participem de um mesmo evento.

A exclusão de boa parte da população de poder acompanhar mais de perto o desfile das escolas de samba vem causando um crescente desinteresse pelo evento. Os que antigamente acompanhavam os desfiles hoje preferem viajar ou curtir o carnaval de rua por não terem condições de arcar com as despesas de poder assistir as escolas de samba na Marquês de Sapucaí. O efeito disso é a cada ano termos arquibancadas mais frias pelo excesso de pessoas que não estão inseridas ao contexto da festa.

O tema abordado parece batido, mas não podemos esquecer a realidade em que vivemos. A memória (fotográfica) nos mostrou o quanto a exclusão de boa parte da população de eventos carnavalescos não é um problema atual. A reflexão que fica é o quanto seria tão mais atraente se todos pudessem ter acesso aos bailes, às quadras das escolas de samba e aos desfiles de forma igual - assim como nos blocos de rua. Talvez seja utópico pensar, mas seria tão mais interessante o congraçamento de todas as classes em todos os espaços e festas carnavalescas. Enquanto isso não acontece vou juntando o meu dinheiro no "porquinho" para comprar os ingressos para o próximo carnaval na Marquês de Sapucaí.



22/08/2012 10h50

A difícil tarefa de um compositor
Thiago Lacerda

Sem dúvidas compor um samba enredo não é tarefa para qualquer um. Os compositores das escolas de samba têm a difícil missão de traduzir em versos a história que será contada na avenida pela sua agremiação. E vencer uma disputa de samba requer muito mais do que ser autor de uma grande obra. O fato é que o processo de escolha de um samba enredo não é tão simples como muitos imaginam. Por isso não basta apenas ter talento para compor, é preciso montar uma boa equipe para dividir as tarefas e os gastos (que são altíssimos!) para chegar com força na disputa.

- Clique aqui para ouvir os sambas que estão na disputa para o Carnaval 2013

Vida de compositor não é fácil. O primeiro desafio é propriamente o da criação de sua obra. A letra tem a obrigação de contar o que o enredo da escola se propõe de forma criativa. Os desenhos melódicos devem encaixar aos versos criados de forma a facilitar o canto dos componentes. Sem dúvidas a parte da criação de um samba enredo é a mais difícil de todas. Nesse momento o talento dos compositores é primordial. Não há dinheiro que compre o talento. Ele é um dom e ponto.

Após muitos riscos, rabiscos e discussões sem fim o samba enredo é criado. O segundo passo importante é o de dar vida à obra. A gravação do samba enredo em estúdio é fundamental para que todos tenham uma positiva primeira impressão. Por isso é nessa fase que os gastos começam a ganhar grandes proporções. Contratar um bom intérprete é importante para que se tenha uma boa qualidade de gravação.

Depois das intermináveis horas de estúdio é chegada a hora da divulgação das obras ao grande público. Os sites de carnaval recebem os sambas para disponibilizarem em primeira mão. Outra forma de divulgação são os cd´s que são distribuídos para amigos, diretores de escolas e para tantas outras pessoas. O desejo para que a recém-obra criada caia no gosto popular é o primeiro passo de incentivo para o início da disputa.

É na quadra que a disputa começa pra valer. E também é nessa hora que os gastos atingem a valores incalculáveis. Os bons intérpretes são contratados a peso de ouro por alguns compositores. E o palco não se resume apenas ao intérprete oficial. Temos também os intérpretes de apoio, cavaquinistas e violonistas. O sucesso de cada apresentação depende muito da qualidade dos cantores e do talento dos músicos que compõe o grupo.

Não podemos esquecer-nos da boa e velha política. E ela é muito importante! Estar bem politicamente com a escola também é um fator crucial para que o objetivo seja alcançado. São muitos pré-requisitos para estar em condições de vencer uma disputa de samba. E isso nos faz pensar se realmente certos pontos dentro deste processo são realmente importantes para que a melhor obra seja escolhida.

O fato é que muitas das vezes a escolha do samba não atinge a expectativa dos torcedores e, principalmente, dos compositores. Nem sempre a melhor obra vence e tal fato acaba levando a uma desmotivação natural para muitos compositores de talento. O processo de escolha de samba enredo deve ser revisto. Hoje um compositor de talento sem recursos para competir não tem a menor chance de vencer. Muitas das vezes um bonito samba acaba sendo cortado prematuramente por conta dos compositores não poderem arcar com os altos custos de uma disputa.

A situação passa a ser preocupante, pois é notória a diminuição de sambas que hoje concorrem nas escolas de samba. Muitos compositores simplesmente desistiram de compor. Outros simplesmente se juntam a outros compositores numa parceria poderosa para que a concorrência não seja grande ou mesmo para dividir seus custos de forma mais acessível. Tal fato faz com que menos obras de qualidade entrem nas disputas. E o leitor poderia argumentar: Mas o importante não é ter pelo menos um bom samba em cada disputa independente da qualidade dos outros sambas?

Sim, o importante é que se tenha um grande samba e que o mesmo seja escolhido. Porém tal situação tem tornado as disputas de samba chatas e, muitas das vezes, óbvias. A magia das disputas em que ficávamos na dúvida em saber qual obra seria escolhida por uma determinada escola vem a cada ano se perdendo. Além disso, as escolas acabam perdendo público por conta de um crescente desinteresse no processo de escolha do samba enredo.

Não tenho a solução para esse caso. Apenas penso que o processo de escolha de samba enredo deva ser revisto. Não podemos ter bons compositores parados por não terem condições de bancar uma disputa. Vejo que muitos compositores acreditam que levar uma grande quantidade de torcida para a quadra ou soltar fogos podem fazer de sua obra campeã independente de sua qualidade. Será que isto está certo? Como reverter essa situação? O fato é que muitas coisas devem ser pensadas para que as disputas voltem a ser mais interessantes. Essa coluna é em homenagem aos verdadeiros compositores das nossas escolas de samba que a cada ano superam todas as dificuldades de uma disputa.


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27/07/2012 10h53

Obrigado, Oswaldo!
Thiago Lacerda

Oswaldo Jardim: carnavalesco, ator, engenheiro e cenógrafo. Um homem com diversas qualidades e competente em todas elas. Tinha sempre o dom da palavra e era dono de uma inteligência rara. Seduzia a todos com suas histórias, ideias e trabalhos. Sem dúvidas foi um homem a frente do seu tempo. Oswaldo trabalhou como assistente de Arlindo Rodrigues na extinta TV Manchete como cenógrafo e foi apresentador por muitos anos dos Concursos de Fantasia do Hotel Glória. Porém foi no carnaval que seu nome ganhou fama e passou a ser reconhecido pelo seu talento.

Considerado o Rei da Espuma o carnavalesco Oswaldo Jardim impressionava pela sua habilidade em trabalhar com uma estética diferente em suas fantasias, esculturas e adereços. Independente dos temas abordados os carnavais criados por Oswaldo tinham uma característica estética peculiar. Os trabalhos com a espuma faziam dos seus carnavais sempre lúdicos. Assistir um desfile criado pelo Rei da Espuma era como folhear um livro infantil e dar asas a imaginação. 

Seu primeiro ano como carnavalesco foi em 1986 na Estácio de Sá. A escola prestou uma homenagem a Grande Otelo com o enredo "Prata da Noite". Foi um grande desfile. A vermelha e branca do Morro de São Carlos teve como destaque as suas alegorias. Abusando do bom gosto e pelo uso do neon o crescimento em qualidade estética da escola era aparente. Apesar do 10º lugar o carnaval de 1986 nos mostrava o nascimento de um grande talento que mais tarde encantaria a todos os admiradores do bom carnaval.

Em 1989 no Império Serrano Oswaldo Jardim apresentou mais um grande trabalho. Dessa vez o homenageado foi Jorge Amado. Suas fantasias e alegorias deram um colorido especial na já manhã de terça feira de carnaval. A estética era bem simples, mas de muito bom gosto, criativa e, acima de tudo, muito carnavalesca. Indiscutivelmente foi um belo desfile. A escola veio leve, solta e com um enredo muito bem desenvolvido, mas que por ter desfilado após o histórico Ratos e Urubus da Beija Flor infelizmente o Império Serrano não recebeu a atenção merecida nem da imprensa e muito menos dos jurados que deram a escola apenas o 10º lugar.

Em 1990 na Unidos do Jacarezinho o carnavalesco desenvolveu o enredo "Iuru Pari - a voz da Mata" pelo Grupo de Acesso. O enredo era sobre uma lenda indígena que defendia a preservação da natureza. A escola neste ano abusou do colorido e do bom gosto estético. Vinda do Grupo Especial, a Unidos do Jacarezinho mostrou uma maturidade de desfile muito superior a apresentada no ano anterior. Neste desfile Oswaldo Jardim mostrou definitivamente a que veio pelo seu trabalho impecável. Para quem já assistiu este desfile fica evidente algumas semelhanças estéticas com o "Dono da Terra" feito por Oswaldo na Unidos da Tijuca em 1999. A escola rosa, branco e verde ficou com a 5º colocação do Grupo de Acesso.

Com o enredo "Tá na Mesa Brasil" o Rei mandou convidar todos os seus "súditos" para um grande banquete na Sapucaí. O carnavalesco Oswaldo Jardim apresentou um cardápio para todos os gostos. Abusou da criatividade e trouxe nos carros um colorido todo especial. O destaque foi para o grande abre-alas acoplado cheio de esculturas de espuma que representavam todos os tipos de frutas e comidas, com destaque, para o Pavão, símbolo da escola, com sua cauda decorada com abacaxis. O carro representava a recepção do Rei Momo para o grande banquete que seria servido durante o seu desfile. A escola ficou com a 8ª colocação sendo, até então, a melhor conquistada pela Unidos da Tijuca no Grupo Especial.

E em 1992,continunando na escola do Borel, Oswaldo Jardim mergulhou nas águas da Baía de Guanabara para fazer o seu carnaval. Tendo a difícil missão de desfilar após a campeã Estácio de Sá a Unidos da Tijuca realizou um grande desfile. O carnavalesco desenvolveu o enredo misturando história, defesa da ecologia, realidade social tudo temperado com muito bom humor dentro de um planejamento sério, mas com o objetivo de ver uma Unidos da Tijuca, acima de tudo, carnavalesca e alegre. A escola abriu o desfile com os caramujos em sua comissão de frente - inegavelmente uma comissão brincalhona dando o que seria o tom carnavalesco do desfile. O destaque ficou por conta das alegorias criativas, bem acabadas, coloridas e carnavalescas. A transformista Rogéria no carro do Cassino e o carro da farofada na Ilha de Paquetá, que encerrou o desfile, deram o tom carnavalesco do desfile. Oswaldo arrebentou!

Em 1993 e 1994 Oswaldo Jardim foi responsável por desenvolver o carnaval da Unidos de Vila Isabel. Foram dois carnavais inesquecíveis. Em 1993 com o enredo "Gbalá - Viagem ao Templo da Criação" o carnavalesco fez um desfile histórico. A abertura da escola foi impactante. A comissão de frente com os guardiões do Templo e o abre-alas em tons rosados com a grande Coroa da escola girando garbosamente mostraram uma Vila Isabel imponente e majestosa. O 2º carro do surgimento do homem do barro é um marco na história do carnaval carioca. E só um gênio como Oswaldo poderia ser o Criador de uma alegoria como àquela. O carnaval de 1993 mostrou uma nova Vila Isabel - forte, empolgante, bonita e marcante. A escola do bairro de Noel ficou na maior parte da apuração figurando entre as quatro primeiras colocadas, mas caindo para o 8º lugar após a leitura dos quesitos Mestre Sala e Porta Bandeira e Comissão de Frente. Apesar do resultado mediano vale ressaltar o grande trabalho do carnavalesco Oswaldo Jardim

Já em 1994 a Vila Isabel apresentou o enredo "Muito prazer! Isabel de Bragança e Drumond Rosa da Silva, mas pode me chamar de Vila" em homenagem ao seu bairro de origem. A escola apresentou dificuldades financeiras e ainda foi atingida por um incêndio que queimou boa parte das suas fantasias - inclusive as da comissão de frente. Apesar de todos os obstáculos a Vila Isabel deu um banho de alegria, canto e evolução! O carnavalesco realizou um trabalho leve, simples, mas de muito bom gosto.

O destaque ficou por conta do carro do bonde - onde a sua frente um grande bloco contagiou a Sapucaí - e o último carro da escola que representava o Morro dos Macacos - um carro com casas feitas de espumas coloridas onde o carnavalesco procurou mostrar de forma muito carnavalesca e lúdica um pouquinho da essência da escola. O resultado foi um 9º lugar.

Em 1995 Oswaldo voltou a trabalhar na Unidos da Tijuca e apresentou o enredo "Os nove bravos do Guarani" em homenagem a Carlos Gomes. O trabalho estético da escola foi maravilhosamente bem realizado. O destaque ficou por conta das alegorias que apresentaram uma estética diferente. A ideia do carnavalesco foi a de apresentar o enredo com uma estética de desenho animado. Por isso, apesar do enredo sério, a escola foi alegre, criativa, colorida e com muito alto astral. Infelizmente por problemas sérios de evolução, conjunto e harmonia a escola amargou uma colocação ruim ficando com a 12ª colocação.

Em 1996 e 1997 Oswaldo Jardim foi responsável pelo carnaval da Estação primeira de Mangueira. O enredo de 96 "Os tambores da Mangueira na Terra da Encantaria" contou um pouco das lendas do Maranhão. E foi lindo! O carnavalesco levou o seu bom gosto peculiar a verde e rosa. Uma nova Mangueira desfilava na manhã de terça feira de carnaval. O destaque ficou por conta das alegorias da escola onde Oswaldo brincou de fazer carnaval. As esculturas em espuma, coloridas e grandes deram um toque especial ao desfile da escola. O resultado foi um 4º lugar que seria a melhor colocação da escola desde 1988 - quando a escola ficou com o vice-campeonato.

Em 1997 Oswaldo apresentou o enredo "O Olimpo é verde e rosa". Contando um pouco da história das Olimpíadas e fazendo uma propaganda para que os Jogos Olímpicos de 2004 fossem realizados no Rio de Janeiro a Mangueira não conseguiu realizar um grande desfile como o do ano anterior. Apesar disso a escola ficou com a terceira colocação. Vale ressaltar o bom trabalho de fantasias nos primeiros setores da escola e de algumas alegorias que retrataram os Jogos na antiguidade.

Em 1998 novamente na Unidos da Tijuca Oswaldo Jardim apresentou o enredo "De Gama a Vasco, a epopeia da Tijuca" em homenagem aos 100 anos do Clube Vasco da Gama. Indiscutivelmente foi um trabalho de bom gosto e com todas as características peculiares do carnavalesco: alegre, colorido, criativo e bonito. Apesar disso a escola amargou a penúltima colocação. Muitos dizem que o rebaixamento foi político. Não vamos entrar neste mérito. O que podemos afirmar é que as notas levadas pela escola nos quesitos pláticos definitivamente não foram justas.
Já em 1999 Oswaldo Jardim deu a volta por cima e apresentou o inesquecível "O Dono da Terra" pela Unidos da Tijuca.

A proposta da escola foi a de exaltar a cultura e os costumes indígenas. Viajando pelo conto das lendas indígenas e pelos mistérios das matas a escola do Borel realizou um dos seus maiores desfiles de toda a sua história, mesmo competindo pelo Grupo de Acesso. A Tijuca simplesmente foi arrasadora! Com uma estética surpreendente e um samba histórico a escola foi unânime! Resultado: O campeonato com notas 10 em todos os quesitos! Foi um volta triunfante da escola a elite do carnaval carioca.

No ano de 2000 o carnavalesco realizou o seu último trabalho pela Unidos de Vila Isabel novamente apresentando um enredo sobre a temática indígena - "Eu sou índio, eu também sou imortal!". Por conta do seu debilitado estado de saúde Oswaldo Jardim não conseguiu realizar um trabalho como o planejado. Apesar disso Oswaldo conquistou o Estandarte de Ouro de "Personalidade do Carnaval".

Infelizmente Oswaldo Jardim veio a falecer anos depois, mas deixou um legado de trabalhos que somente os gênios do carnaval foram capazes de realizar. Os amantes dos grandes enredos, da criatividade e do bom gosto plástico sentem saudades deste artista único que tanto engrandeceu o carnaval do Rio de Janeiro. Hoje Oswaldo não está entre nós, mas os seus grandes desfiles ficarão eternamente guardados em nossas memórias. Por isso deixo um carinhoso: Obrigado, Oswaldo!


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11/07/2012 19h28

Salve Fernando!
Thiago Lacerda

Se muitos têm saudades de ver aqueles desfiles antigos, que a memória já falha quando há tentativa de recordação, puderam matar as saudades no Cine Debate Tupinicópolis, promovido pelo Centro Cultural Cartola no último sábado.

Ficou clara a emoção nos olhos de muitas baianas que compareceram, em Chiquinho Pastel - atual Chiquinho do Babado, que na época era um "faz tudo" da escola, como ele mesmo se denominou - e dos demais convidados.

Ficou evidente também a estética arrojada e única de Fernando Pinto naquele carnaval de 87. Era impressionante como ele conseguia estar à frente de seu tempo naquele ano, e é mais impressionante ainda, ao rever o desfile, o quanto esse desfile e esse artista ainda estão a frente do nosso tempo. Talvez não devamos classificá-los em temporalidade alguma. Fernando Pinto foi único.
Eduardo Gonçalves, também presente na mesa, destacou a pouca importância dada ao acabamento das alegorias que ele tinha. Era o conceito pelo conceito. E alguém vai negar que era um carnaval digno de 10 com todos aqueles índios de patins?

Seria então, nosso modelo de julgar carnaval hoje que até um paetê fora de lugar gera a perda de um campeonato?

Fato é que os julgamentos estão cada vez mais técnicos. Julgamos simétrico-foliões, em fileiras perfeitas, programados para cantar o samba do ano.
Olhar um desfile de 1987 e olhar um desfile de hoje causa uma impressão estranha. Um incômodo interessante, positivo.

Vê-se que muito da espontaneidade pode ter se perdido, ao passo que muita coisa também se modificou. A mudança é inevitável, mas cabe a nós nunca deixarmos morrer a verdadeira essência do carnaval: a alegria.

O que Fernando Pinto diria disso tudo? A resposta de Eduardo Gonçalves veio:

"Estaria rindo disso tudo. Pegaria um patrocínio e faria um grande deboche na cara de todo mundo. Estaria brincando".

Salve Fernando Pinto! Salve tupinicópolis!


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26/06/2012 09h00

Que passado nós queremos?
Thiago Lacerda

Uma das grandes características de todo sambista é contar e cantar a saudade dos carnavais de outrora. Que poder é esse que o passado exerce sobre nós que nos impede muitas vezes de enxergar o que é belo no carnaval dos dias de hoje? É inquestionável a qualidade dos bons sambas e desfiles que tivemos no passado. Porém, hoje, no presente, temos provas claras de que, apesar de tudo, o samba "agoniza, mas não morre". Os sambas de 2012 da Portela e da Unidos de Vila Isabel nos dão a certeza de que o samba ainda tem o poder de construir ainda bons capítulos em sua história.

A década de 80 foi riquíssima para a história das escolas de samba. O país passava por uma grande metamorfose: a abertura política deu asas para que vôos mais altos fossem alcançados. Foi uma época de enredos que fizeram história e de sambas que clamavam por transformações por um Brasil melhor. Foram tantas emoções que passaram na avenida que fica impossível relatar todos os desbundes que marcaram uma fase de ouro nos desfiles das escolas de samba.

Hoje lembramos com muito carinho dos carnavais da década de 80. Porém é interessante constatar a existência, na época, de muitas críticas a este carnaval que hoje recordamos com saudade. Quem não se lembra do grande enredo de 1990 da São Clemente - "E o samba sambou" - que cantava "a saudade dos grandes carnavais" e fazia uma grande crítica à comercialização que vinha ganhando espaço nas agremiações? Pensam que parou por aí? Não. A Unidos da Ponte em 1987 com o seu enredo "G.R.E.S SAUDADE" cantou a: "Saudade, lembrança e herança dos antigos carnavais." O passado que queremos hoje é esse que foi alvo de tantas críticas dos sambistas daquele tempo?

O tema fica mais interessante quando lemos nos jornais antigos que a saudade cantada na década de 80 já era alvo de críticas nas décadas de 60 e 70. As constantes inovações trazidas pelas escolas de samba foram sempre recebidas com muitas dúvidas pelos sambistas. O bicho papão chamado Beija Flor acalorou os debates na década de 70 sobre os rumos das escolas de samba. O crescimento do número de componentes nas agremiações e os sambas que vinham perdendo sua verdadeira essência também foram assuntos bastante comentados pelos analistas de carnaval.

Em 1982 o Império Serrano apresentou a crítica mais contundente com relação aos rumos do carnaval. Com um samba enredo histórico a escola da Serrinha foi implacável ao questionar as super escolas de samba S.A que com suas super alegorias escondiam cada vez mais muita gente bamba. O desfile da verde e branco foi um marco na história das escolas de samba. Inegavelmente fez muita gente começar a refletir sobre os novos caminhos que estavam sendo traçados pelas agremiações. Talvez hoje seja impensável fazermos qualquer crítica mais contundente aos desfiles dessa época. Porém é importante entendermos que não existe um modelo engessado na preparação de um desfile de escola de samba. As inovações estarão sempre sendo buscadas. O fato é que cada sambista vai ter seu modelo ideal de desfile. Por isso é tão difícil chegarmos a um consenso.

Há inúmeros exemplos na história do nosso carnaval de críticas contundentes aos novos modelos de desfiles adotados. As novidades nem sempre são bem recebidas pelos sambistas. Por isso que me pergunto: Que passado nós queremos? Talvez para um jovem de 30 anos a década de 80 seja a dos sonhos. Para um sambista de 50 anos a década de 70 é àquela da consagração e para os que já estão na velha guarda carnaval bom é àquele anterior aos anos 60. Cada um tem seu ideal de carnaval. Possivelmente daqui a 20 anos os adolescentes de hoje vão lembrar com muita saudade dos sambas da Vila e da Portela de 2012 e clamarão: "Carnaval bom é o do início do século. Não se faz mais sambas como antigamente" E a pergunta que fica é: Estarão eles errados?


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