Na sala de casa, no plenário do tribunal
Soare Júnior | Soares Júnior | 04/02/2010 11:22
Ligado no Big Brother Brasil, o espectador pode assistir Pedro Bial discutir com Angélica sobre as preferências sexuais da jornalista mineira. Numa festa, o assumidamente gay Serginho dá um "selinho" no transformista Dicésar. O programa que é desprezado por muita gente séria vai prestando um serviço à tolerância pela escolha de alguém. A "odiada" Tessália comentava com o namoradinho Michel: "os gays são os grandes favoritos dessa edição".
Já Elenita, a encrenqueira mor desta edição, tem a maior comunidade da internet pela defesa dos direitos dos gays. É ótimo que as pessoas conheçam opiniões e atitudes destas pessoas que nem sempre puderam frequentar nossas salas.
A diferença entre essa edição e a vencida por Jean é que naquela, o professor baiano foi discriminado. Isso acabou fortalecendo seu nome e o levou ao cobiçado prêmio. A tolerância na casa é prática até do lutador Marcelo Dourado, que mesmo cometendo alguns deslizes verbais, tem ótimo relacionamento com os três integrantes "coloridos" do BBB.
Pois bem, quando tudo parecia desanuviar a intolerância sexual, o general Raymundo de Cerqueira Filho disse que os gays só devem ser aceitos nos quartéis se mantiverem a opção sexual em segredo. O que deixa a declaração mais grave é que ele foi indicado para uma vaga no Superior Tribunal Militar. O festival de absurdos continuou com o general dizendo que a tropa não respeita comandantes homossexuais.
Haverá execração e defesas acaloradas às declarações do general. Vamos tentar entendê-las. Se um general que vai ter posto no STM dá uma declaração como essa, há respaldo. Quem chega a tal posto hierárquico não chega sem força política. Provavelmente, ele deu voz a um sentimento profundo que corre nos quartéis, vide o caso da prisão dos ex-sargentos Laci Araújo e Fernando de Figueiredo. Os dois assumiram uma relação amorosa.
Seguimos numa toada engraçada com programas de televisão ensinando que independentemente da orientação sexual que as pessoas tenham, elas são normais. Já as Forças Armadas dão sinais de intolerância, que em nada é parecido com o lema do "Braço Forte, mão amiga". Como diz um pensador político do país: " O Brasil não é para iniciantes".
Para ficar na história
Soares Júnior | Soares Júnior | 31/01/2010 23:23
Onde você estava na noite de 31 de janeiro de 2010? Se for amante de futebol e não esteve no Maracanã, algo faltou na sua carreira de torcedor. Há mais de 30 anos acompanhando as linhas tortas do nobre esporte bretão, poucas vezes vi dois tempos tão distintos numa partida de futebol.
Para vocês terem ideia do fanatismo que permeia a mente gestora deste texto, estive na final do campeonato de juniores de 99, em Moça Bonita. Sob a inclemente temperatura de 40 graus, acompanhei um nada emocionante 0 a 0.
Perdão pelos que clamam pela objetividade jornalística, mas precisava destes dois primeiros parágrafos para acalmar, colocar a bola no chão e começar a falar do jogo. Na minha humilde opinião, teve um jogo que terminou 3 a 1 para o Fluminense e outro que foi 4 a 0 para o Fla. No fina,l o placar marcou 5 a 3 para o Hexacampeão brasileiro.
Cheguei com meu amigo Miguel nas arquibancadas brancas. Um espaço que ensina a todos ques torcedores de outro time são adversários e não inimigos. Sentamos mais perto da torcida tricolor, o que para as minhas superstições, não era auspicioso. A nossa frente, um tricolor fanático que rodava a camisa como uma hélice e cantava todas as músicas.
Por um pedido da minha mulher, não fui trajado à caráter, ela teve medo do clima nada festivo de algumas ocasiões fora do Maracanã. Por meu distanciamento nos primeiros minutos, o tricolor chegou a pensar que eu comungava de sua paixão. Dúvida dirimida aos 13 minutos do primeiro tempo, quando Diguinho enfiou a bola para Alan e o Fluminense fez 1 a 0. Quando o homem pulou e se voltou para trás, eu estava parado com aquele ar de ter sido apunhalado.
O Flamengo em nada lembrava o time que há pouco menos de dois meses varrera o país com uma onda vermelha e preta. Depois da parada técnica, Numa falha da defesa rubro-negra, Alan entra na área e é derrubado por Angelim. Pênalti convertido por Conca. Dois a 0 e a tragédia encaminhada. Naquele instante parecia que o Flamengo só faria o gol de bola parada. Pênalti em Juan, Adriano tira a invencibilidade da defesa tricolor no campeonato. Mas não deu tempo de comemorar. Cássio aproveita mais uma trapalhada da defesa do time da Gávea e faz 3 a 1.
No intervalo liguei para casa e falei com meu filho de 6 anos. Ele chorava e eu disse para ele relaxar, ver outra coisa na TV. O time das Laranjeiras sobrava e dava "olé". Incrédulo e pessimista comentei com Miguel que se o tricolor ficasse apenas no 3 a 1, seria lucro. Dividimos biscoitos, refrigerantes com o tricolor da fileira da frente. Pensei que Andrade poderia colocar o rápido e jovem Vinícius Pacheco no lugar do ainda fora de forma Pet.
O Tromba, que entende muito mais do riscado do que eu, fez essa e ainda colocou Willians no lugar de Fernando. O Flamengo armou uma verdadeira blitz. Aos 7 minutos Vagner Love e Kléberson, aos 8 empataram a partida.
Quando a torcida parecia aliviada, o tresloucado Álvaro foi expulso. Mas o Flamengo tem Adriano, que se levar o futebol à sério, é nome certo na África do Sul. O time da Gávea melhorou com a saída do zagueiro. Andrade mostrou ousadia para vencer o jogo.
Ao tirar Fierro para entrada de David, o técnico resistiu à tentação de tirar um homen de frente e se fechar. Um lúcido Vagner Love fez uma triangulação com Vinícius Pacheco e o Imperador desempatou. Parecia impossível, mas futebol é assim. O quinto do Fla, terceiro de Adriano, só coroou a epopéia de que Hércules se orgulharia.
Um menino de três anos assistia ao jogo no colo do pai, olhou para mim assustado. Devolvi o olha e disse: "Flamengo é isso!". Ok, eu chorei no quinto gol. Ao fim da partida, bati no ombro do tricolor e disse, "valeu". Provavelmente nunca mais o verei, mas ele, eu, Miguel e o menino no colo do pai presenciamos uma apoteose. Alguns tristes, outros felizes, mas aqueles 60 mil que estiveram no Maracanã saíram cada vez mais apaixonados pela imprevisibilidade do futebol.
Rio 2022
Soares Júnior | Soares Júnior | 28/01/2010 12:14
Brasília não deu certo. É longe de tudo, seco e um convite ao distanciamento das cobranças da população. Aproveitando esses 50 anos da inauguração, deveríamos instituir a cidade como um museu. Avenidas monumentais, prédios imensos. Tudo ali não é para uma escala humana. Homenagearíamos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa e voltaríamos para o Rio de Janeiro.
O Rio já vai sediar as Olimpíadas de 2016, a final da Copa do Mundo de 2014. Minha idéia agora é que nos 200 anos da Independência, a capital voltasse para a cidade maravilhosa.
Há inúmeras vantagens no fato da capital voltar para o Rio. Vamos a duas: deputados e senadores não trabalhariam apenas de terça a quinta. Sexta e segunda também seriam dias de trabalho para os políticos.
Outra é que Brasília poderia ser devolvida ao estado de Goiás. Desta forma, pouco adiantaria a influência do Joaquim Roriz. No máximo ele seria um deputado federal. Como são 513, suas "qualidades" se diluiriam. Sem falar no fato que a Câmara Distrital de Brasília, a do Leonardo Prudente, poderia se transformar numa Câmara de Vereadores.
Claro que não me esqueci de falar do Arruda. Uma dúvida que sempre me atormenta é como as pessoas embarcaram na aventura de recuperação pública do ex-senador. Ele violou o painel do Senado, isso por si só já é motivo para a biografia política ficar manchada permanentemente. Deram outra chance, viu no que deu.
A volta à Belacap representaria a reparação de um erro histórico, mas isso fica para a próxima.
P.S. Na maioria das vezes que a arrogância nos faz tropeçar, está por trás o fato de nos levarmos a sério demais. O que é brincadeira deve ser tratado como brincadeira.
***
O egoísmo humano e a ganância me surpreendem. Cruzeiros chegando aos paradisíacos hotéis do Haiti me chocam. Como rir e brincar distante 100km de uma cova à céu aberto.
Tragédias urbanas e políticas
Soares Junior | Soares Júnior | 17/01/2010 17:16
Muito boa reportagem sobre a exploração de menores travestis na edição do Globo de domingo. É uma tragédia, que Chico Otávio e Tatiana Farah jogam luz. É uma tragédia social porque é a exploração infantil, além de ser um tema tabu por causa da questão do homossexualismo.
Acho que a matéria é esclarecedora, assim como parece ser a tese de mestrado do assistente social Alan Loiola. O loteamento das calçadas para que elas possam trabalhar, me chamou atenção de um aspecto. Pelo texto, um terço do valor do programa vai para o travesti e dois terços para a cafetina. No entanto, para poder "lotear" o espaço público, algum tipo de conivência espúria deve haver.
Os "donos" do que é público, que cobram para conceder facilidades, fazem parte das redes que exploram e ultrajam a qualidade de vida nas grandes cidades. É mais uma metástase desta doença urbana.
Nestas férias (o que explica esta longa ausência deste espaço virtual) ouvi uma história inverossímil, mas que pode explicar a mentalidade de muitos. Tentava comprar uma cerveja numa barraca na praia. Pelo revezamento era meu dia de beber, minha mulher ficou no refrigerante. No entanto, o vendedor demorou a me atender pois contava a dois embevecidos turistas a maneira como ele escondeu um dinheiro que achou na praia. Segundo o relato, as notas voavam por causa de uma forte rajada de vento e vieram em sua direção. A narrativa era de como ele fez para esconder o dinheiro. Em nenhum momento ele pensou em devolver a quantia, que seria de inacreditáveis US$ 3 mil. Desisti da bebida e fiquei sem o fim da saga.
É a impunidade compulsória, num lugar em que "as imagens não falam por si" e no qual se prega "vista grossa" para que as obras para a Copa de 2014 e Rio 2016 não atrasem.
***
Acho inacreditável que tenha alguém questionando a ajuda brasileira ao Haiti. Não foi Deus quem esqueceu o país caribenho, foram os homens. Tragédia dentro da tragédia, a morte de Zilda Arns, que construiu a vida para se lembrar das pessoas.
***
Saber o que aconteceu ajuda a entender o momento atual. Além disso, pode impedir a repetição de alguns erros, erros que muitas vezes estão na trilha do caminho mais fácil. No entanto, o revanchismo, obviamente, deve ser rejeitado.
***
No último texto esqueci de citar a chegada do Cosmo, da Ítala e do Marcelo. Imperdoável.
***
Por falar em retrospectiva, galho de Arruda combina com óleo de peroba facial?
Minha retrospectiva 2009
Soares Júnior | Soares Júnior | 31/12/2009 16:53
Vou fugir dos balanços das décadas. Contrariando os grandes jornais, os colunistas bem mais importantes e até um certa preferência das pessoas em considerar os anos terminados em 9 como os do fim da década, vou me ater ao que aprendi na escola. As décadas terminam com os zeros se transformando em 1.
Por pensar em zeros, vou começar tratando do Sean Goldman. Já cansei de dizer que direito é um "mundo de faz de conta" e por mais absurdas que pareçam algumas decisões judiciais, devemos respeitá-las, pois a alternativa a falta de direito é a barbárie. No entanto, é impossível não pensar que a decisão na letra fria da lei não foi muito justa depois do anúncio que o pai, David Goldman, vai pedir U$ 500 mil como ressarcimento pela batalha para ter o filho de volta. Outro absurdo no caso foi a estranha relação que uma das grandes empresas de comunicação dos EUA teve com o pai. Feio, realmente muito feio. Continuo achando que o cara é pai e tem direito de ter a guarda do menino, mas que essa história de pedir indenização reforça as suspeitas de que o tal David é esquisito, reforça.
***
Fui a uma festa de 12 anos e as meninas sabiam a coreografia de "Thriller", os meninos, com a coordenação motora pior, arriscavam arremedos de "moonwalk". A morte ressuscitou o Michael Jackson e quem gostava dele deixou de ter vergonha disso.
***
Perdão aos eternos otimistas. O ano do futebol carioca só foi bom por causa do Flamengo. Vasco, Fluminense e Botafogo não fizeram mais que a obrigação. Fui ao Maracanã ver o "Jogo das Estrelas". O Adriano perdeu pelo menos dois gols feitos. Na primeira que o Romário recebeu, deu um corte no Carlos Germano e tocou do outro lado. Zico e Romário juntos, esta era a dupla dos meus sonhos. Sem entender muito, meu filho de seis anos me perguntou se eu estava triste durante o jogo. Eu expliquei que o choro era de alegria e saudade.
***
Rio cidade olímpica, a priori é bom. Vamos ver se nossas autoridades e nós cidadãos faremos nossa parte para que os jogos tenham êxito. Cada vez que vejo um bueiro entupido por causa de lixo, um cruzamento fechado no rush ou alguém acessando twitter da Lei Seca para saber onde há blitz, me pergunto se é possível.
***
Luiza e Helena, da Letícia e do Luiz, Luiza, da Ticiana e do Márcio, Davi, do Cristian e da Alice, Stela, da Izabela e do Antonio. Todos vocês são bem-vindos neste louco mundo. Cada vez mais aquecido, no mau sentido, nem por isso mesmo, menos sedutor. Muitas aventuras amores e descobertas a todos.
Feliz 2010.
Multa para pedestres
Soares Júnior | Soares Júnior | 20/12/2009 16:33
Acho que no dia que começarem a multar os pedestres, o trânsito pode melhorar. Refiro-me ao trânsito na ciclovia da Lagoa. A receita para não se aborrecer é pedalar às 6 e meia da manhã. Depois disso é garantia de aborrecimento.
São incontáveis os acidentes dos quais escapei ao tentar manter algum hábito saudável nesta vida vivida com muito colesterol. Não vou particularizar, falarei de algumas situações que já devem ter irritado alguns de vocês, adeptos ao transporte em cima das "magrelas".
Exemplo clássico número 1. Você está pedalando pelos lados da Epitácio Pessoa. Nas proximidades da descida do viaduto de Rebouças, a pista da ciclovia fica estreita. Justamente lá, as pessoas resolvem se espalhar. Opções: a) passar por cima; b) gritar alôôôô; c) equipar sua bicicleta com a mais potente corneta ou d) frear a bicicleta, voltar para casa e admitir que não vai dar.
Exemplo clássico 2. Pessoas passeando com os amáveis cãezinhos com a coleira comprida. Em vez de levar seus adoráveis animais na "rédea" curta deixam que os "bilus" fiquem à vontade, eles atravessam a pista. Já fui vítima e testemunhei acidentes. Bicicleta no chão e um proprietário de cachorro reclamando da falta de cuidado do ciclista.
Exemplo clássico 3. A proliferação destas equipes de corrida. Há atletas em potencial, gente que dá para o gasto e aqueles que por mais que corram não vão chegar a lugar nenhum e tampouco atingir forma física alguma. É aquela romaria, uniformes laranjas, azuis, amarelinhos e que tais.
Não tem jeito, no meio da corrida, aquele desesperado que tenta coordenar respiração e passadas vai para o meio da pista e tenta ultrapassar o proprietário de cães com a coleira comprida. A você, pobre ciclista, resta a máquina de teletransporte, a cristã habilidade de levitar sobre as águas ou frear a bicicleta e dar um tempo no seu esforço.
Ah, os ciclistas que andam nas pistas da praia fechadas aos domingos também deveriam ser multados, mas encaro como uma vingança pelos maus tratos na Lagoa. Não disse que é uma vingança justificável, que fique bem claro.
Já pensei até numa faixa a mais para os ciclistas, construída com o concreto que vai sobrar da demolição da perimetral, mas aí como alertou minha mulher, compraria briga com ambientalistas.
Reconheço-me ranzinza e exagerado, mas se os pedestres respeitassem os ciclistas, seriam mais respeitados por eles.
No mais, vi um rato morto boiando na Lagoa, na altura da Fonte da Saudade. Não estavam despoluindo as águas da Rodrigo de Freitas? Claro que um rato morto pode não ser culpa do poluição, pode ter sido apenas vítima de mergulho com fim trágico.
Uma vez tia Célia, sempre tia Célia
Soares Júnior | Soares Júnior | 07/12/2009 20:55
Era dia 6 de dezembro de 2009. Uma data especialíssima. Tenho uma família em que a longevidade é uma marca registrada, mas pela primeira vez fui a um aniversário de 99 anos. A tia Célia é a matriarca da família da minha mulher. Apesar da provecta idade, ela conserva uma memória impressionante. Quando começaram os cumprimentos, dois meninos gêmeos foram falar com ela. De bate-pronto ela emendou: vocês fazem aniversário amanhã. A prodigiosa memória continuava em forma
Tia Célia me adotou e eu a ela. Projeto muitas coisas na sua figura, tendo em vista que ela nasceu apenas 10 meses antes do meu pai. Pois bem, eis que a comemoração foi marcada para um hotel na Barra da Tijuca. Qual não foi minha surpresa, quando descobri que era o local da concentração do Flamengo.
Sou tão supersticioso, que alguns amigos dizem que eu deveria ser botafoguense. Como acredito que superstição é uma espécie de profissão "b" do torcedor, desconsidero a provocação.
Sentado a duas cadeiras da aniversariante vejo passar pelo lobby do hotel o séqüito rubro-negro. Nesse momento penso: hoje é um dia tão especial, que é impossível que o título escape. Dona Ruth, aos 79 anos, não se intimidou e foi ao aniversário da amiga com a camisa do Flamengo na bolsa.
Só uma coisa insistia em atormentar meus pensamentos. O Flamengo nunca havia vencido o Brasileiro no ano em que se consagrara campeão estadual. Em 80, o campeão carioca foi o Fluminense; em 82, o Vasco; em 83, o Fluminense, em 87 e 92, o Vasco novamente.
Deixei a Tia Célia e corri para casa. Antes, ela me deu um beijo e me desejou boa sorte. O bom das pessoas que me conhecem mais intimamente é respeitar esta obsessão por futebol. Minha mulher suporta o meu trocar frenético de canais para acompanhar as diferentes mesas redondas.
Ritualísticamente, sentei sozinho na sala. Começou o jogo e aquele time apático. Quando o Grêmio fez 1 a 0 pensei: a bovina vai chafurdar. No entanto, imponderável entrou em campo. Airton, a quem muito xinguei neste mesmo certame, ganhou na raça, Adriano se aproveitou do corpanzil e David empatou. O nó da garganta apertou mais.
Começa o segundo tempo e de repente, estávamos em terceiro lugar. Novamente o imponderável,.Pet bate e o escanteio e Angelin acerta a cabeçada. 2 a 1. Fora um gol inacreditavelmente perdido, o Grêmio desistiu da partida.
Acabada a peleja, eu, minha mulher e meus filhos vestimos o manto e fomos comer uma pizza para comemorar. Fui encontrar outra família rubro-negra, que por razões profissionais não posso dizer quem era. Falei com outros amigos jornalistas, que também não posso revelar. Todos felizes e lembrando que acabara a fila.
Agradeço a Tia Célia por ter me dado a oportunidade de entrar no jogo antes das cinco da tarde. Não militava no jornalismo nos outros títulos e por isso nunca acompanhara o pré-jogo como no dia 6.
No mais, ainda dependemos daquela geração do Mundial para os grandes saltos. Em 92, Júnior foi o último em campo, Andrade começou a trajetória no banco comandando o time.
Celebração ao Rádio
Soares Júnior | Soares Júnior | 27/11/2009 12:56
Não adianta reclamarem, vou jogar às favas a objetividade, o assunto aqui é paixão. Dos 8 aos 15 anos eu só ia para cama ouvindo rádio. Era assim, uma garrafa de fanta uva gelada e ouvido na "caixinha". Minha paixão por televisão foi posterior, mas primeiro e insubstituível foi minha paixão pelo rádio.
Sou capaz de cantar dois jingles que muitos talvez nem lembrem. Por exemplo, "Roberto Figueiredo, com muito amor" ou "É Gilberto Lima, É Gilberto Lima, alô Rio, alô". Desde cedo apaixonado pelo nobre esporte bretão, adorava ouvir Paulo Giovanni e Afonso Soares falando de futebol no "Não perca a esportiva". Ouvir o "Bom dia do Haroldo de Andrade" remete à infância. Lembro-me do choque que sofri ao saber da morte de Valdir Vieira e de Gilberto Lima, já citado.
Não falo do apogeu radiofônico dos anos 50, falo do fim dos anos 70 e começo dos 80. Aos leitores mais novos aviso, já havia TV à cores, Manoel Carlos já fazia novela e o Flamengo era o grande time do país. ( como se vê, as coisas parecem não ter mudado).
O motivo deste imenso "nariz-de-cêra" é para homenagear meu amigo Ruy Jobim e seu "quarto" filho: a Escola de Rádio. A quarta-feira, 25 de novembro de 2009 tem que ficar marcada como o dia em que a auto-estima do rádio voltou. Foi realizada a primeira edição do prêmio Escola de Rádio. Pessoas apaixonadas pelo rádio se dirigiram ao Teatro Carlos Gomes para celebrar essa "religião".
O grande homenageado da noite foi Luiz Mendes. O gaúcho com mais de 60 anos de profissão ganhou o troféu Haroldo de Andrade. Chamar o Mendes de mestre já virou lugar comum. Para render minha homenagem fico com o testemunho da minha mulher. Luiz Mendes caminhava com o auxílio de uma bengala, ao pronunciar a primeira palavra, ela se virou para mim e encantada disse: "que vozeirão bonito, ela não envelheceu".
Não envelheceram nem Luiz Mendes, nem o rádio e nem a paixão que esse veículo desperta. Além de Mendes, Francisco Barbosa e Luis Santoro, havia jovens como Tino Júnior, da Beat 98, Viviane Tenório, da FM O Dia, ou os geniais e irreverentes rapazes do Rock Bola.
Aos incrédulos que apregoam a morte do rádio, as 400 pessoas da platéia e a baixa faixa etária dela servem como resposta. Obrigado Ruy, sua companheira de luta, Cris, pela oportunidade de cultuar um velho e grande amor: o RÁDIO.
A história se repete na Unesa
Soares Júnior | Soares Júnior | 24/11/2009 17:06
A reportagem de Sabrina Pirrho e Caio Barbosa sobre a facilidade de ingresso na Universidade Estácio de Sá, joga luz sobre o problema da precariedade do ensino em diversos locais. Não só os professores, mas também os alunos são fundamentais para uma instituição.
Em instituições públicas como a UFRJ, a entrada no curso de Arquitetura e Urbanismo exige uma prova de Habilidade Específica. O aluno deve ter noção de espaço, forma e traço. Para a faculdade de Teatro, a UNI-Rio promove uma específica que muitos consideram tão ou mais difícil que o exame escrito.
A nota de corte sendo 3 reforça, infelizmente, o preconceito que se tem da Unesa; aquele provérbio "pagou, passou" . Se há pouco mais de 5 anos um analfabeto foi aprovado, a classificação de alguém que escreve "amasonia" e "protejer" mostra que pouca coisa parece ter mudado na instituição. Como ex-professor da Unesa, posso testemunhar que tive muitos alunos bons, mas que realmente era inacreditável que alguns estivessem lá.
Outro aspecto que merece atenção é: qual a funcionalidade de um curso que tem apenas um inscrito? Não há seleção, não há intercâmbio de ideias e portanto, nada justifica sua existência.
A Universidade Estácio de Sá deve se pronunciar, diferentemente do que fez, por exemplo, quando uma aluna foi atingida no seu campus. O gigantismo não deve deixar as instituições impessoais, principalmente uma que se pretende de ensino.
Novelas e futebol
Soares Junior | Soares Júnior | 10/11/2009 14:10
Fernanda era mãe solteira. Ela tivera Salete com o músico Téo, que por estas circunstâncias da vida, era de família rica e podia depender menos da arte e mais da herança patrimonial. Num dia normal do Leblon, bandidos trocam tiro e a moça é atingida por uma bala perdida. Diferentemente das tragédias da cidade, esta estava prevista. Fazia parte da trama de "Mulheres Apaixonadas" de Manoel Carlos. Aquela cena criou polêmica, tanto que várias notas em colunas de jornal ou cartas de leitores pediam que o roteiro fosse mudado. O argumento é que a imagem do Rio ficaria arranhada com o episódio. Por causa da comoção criada, a CBN, mesmo não sendo uma rádio com ênfase nesta faixa de entretenimento acompanhou a mobilização. O autor manteve o roteiro para descontentamento de alguns. Fernanda não teve o comportamento esperado pela sociedade e fui punida.
Novelas entram na casa da gente, participam do jantar, das discussões, enfim da rotina. É claro que na minha geração muito mais do que nas atuais, mesmo assim ainda estão presentes.
É, mais uma vez disfarçado de vida como ela é, Manoel Carlos pune aqueles personagens que tem comportamentos transgressores. O acidente da personagem de Aline Moraes em "Viver a vida" transforma Helena numa grande perdedora. Ao obrigar que a enteada mimada fosse no ônibus com as outras modelos, a personagem de Taís Araújo vai levar uma culpa indescritível pelo resto da trama.
Esta parte da novela voltou a me lembrar "Mulheres apaixonadas". O personagem de Helena Ranaldi era o de uma professora que se envolvia com um aluno adolescente. Muitos acreditam que esta abordagem inovadora e corajosa, no entanto, ao fim da trama o garoto morreu e a professora ficou grávida dele. Claro que alguém pode dizer que foi bonito, pois o amor deu frutos. Perdão pelo ponto de vista pragmático, mas na verdade os personagens transgressores foram punidos. Além de carregar as lembranças e a culpa por ter envolvido o aluno numa trama que resultou na sua morte, ela ainda seria mãe solteira, o que mesmo no século 21 é uma "barra" em qualquer aspecto, seja emocional, seja financeiro.
O personagem de José Mayer se apaixonou por uma mulher quase da idade da filha dele. Já a Helena vivida por Taís cometeu o pecado de embarcar nesse amor. No capítulo da última quinta-feira deu-se o acidente que todos sabiam que iria acontecer. Na sexta estava na lanchonete de um condomínio no momento em que o médico perguntou a Luciana se ela poderia se levantar e ela respondeu que não. A expressão nos olhos de quem acompanhava o capítulo era de apreensão e angústia. Era um clima descontraído, mas naquele momento todos se compadeceram do drama da bela jovem. Teve gente lembrando de entes perdidos tragicamente e a noite se transformou.
O que me preocupa é o sinal que isso mais uma vez pode passar. Em uma novela a professora que se envolve com o aluno engravida e o rapaz morre. Na outra, a madrasta que tem quase a idade da filha do marido briga com ela. Como consequência, a mais jovem tem um acidente e fica paraplégica.
***
Espero não ter que passar pela sensação de alívio que a torcedor vascaíno viveu no último fim de semana. Estádio cheio, apoio frenético, papel esperado da torcida de um clube das tradições do Vasco. Correndo o risco de ser o chato da vez, gostaria de destacar alguns pontos.
O primeiro é que disputando com potências como Atlético Goianiense, Guarani e Figueirense, o Vasco não fez mais do que sua obrigação. Outro aspecto a destacar é que no jogo da redenção o time de São Januário enfrentou um time que improvisou um goleiro durante 30 minutos e não chutou.
Fora de campo teve uma outra coisa que me chamou atenção. Na maioria das vezes que televisão mostrava a festa da torcida, aparecia uma faixa que dizia: Eurico, segunda divisão, a História não perdoa. Obrigado Dinamite. Esta faixa mostrada à exaustão durante a festa no gramado, pareceu-me um ajuste de contas com o ex-presidente, não só da torcida organizada como da mídia.
Para continuar o assunto, preciso fazer uma ressalva. Sou Flamengo e tenho todas as razões apaixonadas para odiar o Eurico. Ele dizia que o prazer dele era vencer o meu time, manobrava na Federação na nada saudosa era Eduardo Viana.
Voltando ao assunto, o clube herdado por Roberto Dinamite estava em oitavo lugar e no prazo de seis meses ele não conseguiu ajeitar a nau para que o Vasco não caísse. Em dezembro de 2008, o presidente era ele, portanto seria insultar a inteligência colocar toda a culpa da queda na gestão Eurico. Por essa lógica, Vanderlei Luxemburgo ou Cuca serão campeões se Palmeiras ou Flamengo conquistarem o brasileiro.
Conheço vascaínos esclarecidos que não embarcaram no frenesi da vitória, afinal ela era obrigatória. Bem-vindo Vasco, espero que os seus erros sirvam para ensinar os co-irmãos e eles não passem pela humilhação de disputar a série B.
Terra de Noel ou Bagdá
Soares Júnior | Soares Júnior | 20/10/2009 10:37
Três jovens com idades entre 20 e 30 anos foram vítimas inocentes da guerra do Rio. Sinceramente, se a cena do helicóptero abatido tivesse sido no dia primeiro de outubro, seriam necessários uns 10 marqueteiros ingleses para ver se o Rio não seria eliminado na primeira rodada de votação.
As chamas do helicóptero são o nosso choque de realidade. Não há só festa por essas paragens. São Sebastião, o santo guerreiro, vai ter que ser acionado. Não é exagero pensar em Bagdá quando um helicóptero despenca do céu abatido por um armamento de guerra.
Há incansáveis perguntas nessas horas. A primeira é: como essas armas chegam aqui? Outra é: o quê ainda precisa acontecer? Como ainda saem da prisão ordens como a da invasão do Morro dos Macacos?
Alguns aspectos parecem claros, pelo menos na opinião deste humilde escriba. A primeira é que a impunidade e a permissividade de alguns integrantes da Polícia do Rio deixaram digitais no gatilho da arma que atingiu o helicóptero. Você que faz vista grossa, leva "bola" do traficante ajudou a matar seus companheiros de farda. Para sorte da população do Rio, a polícia é uma instituição séria em sua imensa maioria, pois se os bandidos travestidos de policiais fossem em grande número, estávamos perdidos. No entanto, sendo poucos ainda causam grande estrago.
Na morte dos jovens, mais um aspecto assustador. Os parentes e amigos terem que transportar os mortos do local onde ocorreram os assassinatos, desfazendo a cena do crime. As autoridades têm que ir lá e providenciar a retirada dos corpos, não a família já ultrajada, arrasada e desorientada ter que fazer o serviço. O caso me lembrou outra cena aterradora. A do pai que levou o corpo do filho num carrinho de supermercado, do local da morte até a porta de uma delegacia.
Um leitor escreveu para este blog dizendo que os jogos olímpicos nos dariam um prazo para dar certo. Concordo plenamente, só que sete anos são um tempo exíguo para mudanças profundas. É bom que os responsáveis pela organização não percam tempo. Cidadania e segurança são fundamentais para o êxito da Rio 2016, algo que faltou nos assuntos tratados neste artigo.
Até a próxima.
Selvageria no trânsito da Gávea
Soares Júnior | Soares Júnior | 16/10/2009 08:11
A cena foi a seguinte: Praça Santos Dumont, na Gávea, por volta das 4 da tarde desta quinta-feira, 15 de outubro. Um taxista atravessou o veículo em frente a um ônibus da Linha 583 e começou a discutir. Ele alegava que o ônibus o impedira de entrar para a agulha que dá acesso ao Leblon. A discussão se desenrolava, quando o motorista do ônibus desceu para tirar satisfações. Neste momento, ele ainda foi alertado pela trocadora: não desça, "ele vai te bater".
A profecia se concretizou, o taxista, já um homem maduro, mas ainda forte espancou o motorista do ônibus. Desesperada, a trocadora desceu para defender seu colega, mas também foi agredida com bofetadas e empurrões pelo homem do táxi.
Algumas pessoas que passavam pela rua ficaram chocadas e apartaram a briga. O taxista, da cooperativa Horto Táxi, saiu do local. Sem condições de prosseguir a viagem, o motorista teve que encostar o ônibus. As pessoas desceram, mas mesmo atrasados, muitos foram ajudar o homem agredido.
Triste crônica de uma cidade que nesta sexta-feira completa duas semanas de regozijo por se tornar sede olímpica. Não satisfeito em ter que pensar na fiscalização das muitas promessas anunciadas, temos que nos preocupar com pessoas como este taxista, totalmente despreparado para servir ao público.
Uma classe honesta, com diversas reivindicações justas, não pode deixar que cidadãos como este, sigam impunemente. Os olhos que testemunharam a agressão não são de um jornalista, mas de um cidadão indignado e por isso ao anotar a placa não teve certeza da ordem dos números, por isso não vou dar a placa completa.
Serei responsável, pois a sorte pode virar madrasta e eu assinalar a placa errada e prejudicar um trabalhador íntegro. No entanto a cooperativa é esta mesma. Uma vez, entrevistando mestre Zuenir Ventura, ele me disse uma coisa óbvia, mas que nos recusamos a aceitar. A violência não está apenas em guetos ou em favelas "inexpugnáveis". Está também em vários lugares frequentados pela classe média. Vivemos em muitos casos a cultura da violência. Se a alimentarmos, o efeito bumerangue acontece e ela bate na sua porta.
Instituição séria, a Horto Táxi informa no seu site na internet que funciona desde 1997, e que partindo de um ponto na Rua Pacheco leão, no Jardim Botânico se expandiu e, atualmente, está em todo território nacional, atuando com uma frota de 120 veículos. Essa expansão é prova de que o trabalho foi com gente séria, então este humilde escriba tem certeza que ela não deixará que um descontrolado que fecha um ônibus para discutir no trânsito e bater nas pessoas, no meio da tarde, leve pelo menos uma advertência.
Largamos mal
Soares Júnior | Soares Júnior | 10/10/2009 19:10
Tive um chefe que tinha a expressão citada acima na ponta da língua. A sentença era proferida quando o repórter errava o lead, quando um release vinha com algo mal escrito, ou quando o dia começava com algo dando errado.
Gostaria de usar a mesma frase para falar sobre o recuo da Prefeitura do Rio sobre a licitação do carnaval 2010. Menos de uma semana depois da cidade ganhar o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016 e o prefeito volta atrás e adia a licitação do carnaval. Largamos mal. Por qual motivo fazer um alvoroço para anunciar que a prefeitura faria uma licitação para cuidar do nosso maior patrimônio cultural e depois declarar não haver tempo para que o processo tivesse o andamento exigido pelo Tribunal de Contas do Município?
Se o carnaval, festa organizada todos os anos, teve essa guinada, o que esperar da organização das olimpíadas. Um leitor deste humilde blog disse, é bom constatarmos que agora temos um prazo para dar certo. O nosso voluntarioso, disposto e jovem prefeito deve então arregaçar as mangas. Os festejos de Momo não têm a ver com os jogos olímpicos, ainda bem, pois a prefeitura pode provar que o pessimismo deste escriba é exagerado.
***
O amadurecimento vem para o ser humano de várias formas. Acho que o meu começou quando eu parei de achar que o João Gilberto era apenas um cara superestimado, que cantava pelo nariz. É meu caro leitor, eu já achei o João Gilberto chato, mas depois eu percebi a precisão, a afinação e a simplicidade.
Essa percepção me veio quando tive calma para ouvir. Parei, respirei e entendi. Claro que a gente não precisa envelhecer para entender coisas que estavam sempre ali, como diz Caetano "surpreenderá a todos não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto, quando terá sido o óbvio".
Enquanto consigo, estou fazendo uma catequização "buarquiana" no meu filho de seis anos. Ouvíamos a música Paratodos durante o caótico congestionamento no Centro do Rio. Logo após ouvir o começo da música, "o meu pai era paulista, meu avô pernambucano, o meu bisavô mineiro, meu tataravô, baiano, meu maestro soberano, é Antonio Brasileiro", ele me pergunta o que é soberano. Eu explico e acrescento que o Antonio Brasileiro é o Tom Jobim. Aí ele me vem com a pérola: "Pai, ele chamou o Tom Jobim de Brasileiro, porque ele é soberano, brasileiro acima de tudo, e combinava com os estados que ele falou antes".
Ouvindo a música há mais de 15 anos, nunca havia percebido a sutileza. Foi preciso que meu filho, numa fase em que eu sou o todo-poderoso que pode ensinar tudo, para me dar uma lição. Sempre é tempo de aprender. Depois ele fez uma manha e eu voltei ao "pedestal" paterno. Tomara que ele seja bom de largada.
***
Obama agraciado. O Nobel se rendeu ao marketing!
Rio, aqui é o lugar
Soares Júnior | Soares Júnior | 02/10/2009 17:37
Um amigo meu teve um diálogo interessante com a mulher quando acabou a eleição presidencial de 2002: "OK, o Lula venceu, mas agora tira o plástico do carro, pois temos que cobrar dele como se estivéssemos na oposição".
Tenho um pensamento análogo em relação à vitória brasileira na eleição para escolher a sede da olimpíada de 2016. Fala-se em R$ 14 bi de investimentos e a criação de 120 mil empregos. Estes números dão a magnitude da vitória brasileira, mas há aspectos a ressaltar.
Teremos que tirar o "plástico do carro", fiscalizar e cobrar. Vitórias como essa, costumam vir acompanhadas pela lógica de que "o fim justifica os meios". Tivemos uma cobertura em muitos veículos ufanista, parecendo que os veículos de comunicação eram integrantes do Comitê Olímpico Brasileiro.
Foi uma vitória em que os aspectos econômicos e políticos andaram lado a lado com as especificações técnicas do caderno de encargos. Foi dado ao Brasil um voto de confiança, mas agora vem a grande responsabilidade.
Portanto, nossos dirigentes não podem ter um pensamento triunfalista e totalitário de que os veículos que divulgarem atrasos no cronograma das instalações olímpicas, ou estouro no orçamento não podem ser tratados como criminosos que odeiam o país.
Temos problemas sérios no esporte brasileiro. A vitória do Rio tem a marca da obstinação de Carlos Arthur Nuzman, homem competente, que costuma se exaltar ao ser indagado sobre coisas desagradáveis. O escriba aqui já enfrentou a ira carlista ao perguntar se a violência no Rio poderia atrapalhar as pretensões da cidade, que naquela época postulava sediar os jogos de 2012.
Nossas confederações têm dirigentes que se eternizam nos cargos, como é o caso do próprio Nuzman, no comando do COB desde 1995. Evidentemente que pedir a ele que deixe o cargo logo agora, ao conseguir a vitória de sua vida, é estranho. Ele teria a sina de Moisés, que retirou os judeus do Egito, mas não viu a Terra Prometida.
Rio 2016, mais do que uma pretensão, uma realidade. Para diminuir o tom cáustico e dar vazão ao lado comemorativo, temos agora a chance de investir em educação, qualificação de mão-de-obra e no turismo. Por isso tudo, encerro com as palavras de Gilberto Gil, ministro de estado por um tempo, mas mestre na arte da escrita: "O melhor lugar do mundo é aqui e agora". Viva o Rio.
Ao vivo e a cores na Tijuca
Soares Júnior | Soares Júnior | 28/09/2009 18:53
Vou contar uma história que fala sobre responsabilidade na divulgação dos fatos. Por volta de meio-dia chega à redação uma notícia dando conta que um acidente numa escola da Zona Norte deixou duas crianças mortas. O caso era tristemente inusitado. O motorista de um caminhão de lixo deu ré, perdeu o controle do veículo e derrubou o muro de uma escola municipal. Era hora do recreio e duas crianças foram feridas mortalmente.
Um dos integrantes da chefia moto contínuo emendou entra no ar. Era momento de passagem de turno um colega argumentou que era melhor esperar mais um pouco. Ainda não havia a identificação dos mortos. O outro ponderou que todos estavam dando a informação sem a identificação. Seguiu-se um diálogo civilizado, mas um pouco mais ríspido entre ambos. Só foi dada a informação quando os mortos tiveram os nomes conhecidos.
O argumento vencedor foi que havia pelos menos 100 responsáveis por crianças naquela escola. A informação das mortes era importantíssima, no entanto sem a identificação, não seria a prestação de um serviço, mas o começo de uma crise de pânico para os outros pais.
Lembrei dessa história ao ver as imagens do resgate de uma vítima que estava em poder de um assaltante na Tijuca. As televisões mostraram o exato momento em que o major Busnello acertou a cabeça do bandido e o matou.
Não era ficção, era real, a bala atingiu aquele bandido e ele morreu. Desde a morte da professora Geisa Firmo Gonçalves, no 174, não lembro de cena tão forte. Os que me conhecem sabem a aversão que tenho a qualquer tipo de censura, mas só me questiono se era necessário mostrar aquilo. Foi a transmissão de uma morte ao vivo e a cores. Valeu a pena mostrar?
Vamos aprofundar mais um pouco o tema. Fiquei assustado com a reação das pessoas após o ocorrido. Claro que vibrei ao saber que a refém tinha escapado bem, mas perdão, não fiquei nada feliz com a morte do bandido. Aplaudir pareceu, parafraseando o que disse uma amiga, um ataque de charles bronsismo (eu e meus neologismos).
Fiquei estarrecido com uma declaração do comandante do Batalhão da Tijuca, coronel Fernando Príncipe. Ao lembrar do sequestro do 174, ele usou uma metáfora futebolística. O policial comparou a morte de uma refém ao pênalti perdido pelo Zico na Copa de 86.
Perdão coronel, na minha humilde opinião, o senhor foi muito infeliz nas palavras.No dia daquele Brasil e França eu fui a uma festa junina depois, bebi e agüentei o escárnio dos torcedores do outros times já que o Galo era rubro-negro. No dia seguinte ao caso do 174, o que eu vi na creche em que trabalhava a Geisa, em nada parecia com a ressaca por uma derrota esportiva, tudo era dor e tristeza.
***
Soares Júnior também no Twitter: www.twitter.com/cresosoares
Descalça no meio dos carros
Soares Júnior | Soares Júnior | 21/09/2009 23:22
Gostaria de me ufanar com a possível escolha do Rio de Janeiro como cidade olímpica. No entanto há coisas que me saltam aos olhos e me jogam no bloco dos chatos. Ela era uma daquelas pessoas que você não consegue definir a idade. Poderia estar bem próxima de completar 30 anos e estar muito maltratada pela vida, ou perto dos 50 anos e por uma dádiva da natureza ter sido poupada das rugas.
Objetivamente, ela andava pela Avenida Presidente Vargas descalça. A saia era de um surrado jeans e a blusa de lã desfiada. Sem o auxílio de uma progressiva, o cabelo remetia ao indefectível estilo Black Power dos anos 60/70.
Não havia glamour, nem bolsa família. Ela atravessava entre os carros, sem se importar. O carro importado da frente freou um pouco mais forte e ela seguiu seu caminho. Seremos uma cidade olímpica? O que fazer com aquele "incômodo ser descalço?"
Aí vamos ao aprazível domingo. Enquanto assistíamos a uma demonstração de respeito religioso na parte luminosa do Rio, do lado que Chico Buarque descreve como sendo aquele em que "a luz é dura e a chapa é quente", bombeiros resgatavam seis corpos na mata do Morro do Juramento. De acordo com os moradores, pode haver mais mortos por causa da guerra do Rio.
E o que falar do documentário "Dançando com o Diabo", do cineasta Jon Blair. Não me venham com o discurso vazio de que esse filme pode fazer mal à imagem da cidade no exterior. O que mancha a cidade é o desprezo para resolver essa intrincada equação social. O carro importado, de quase cem mil reais, que quase atropela a indigente descalça na principal avenida do centro da cidade.
Gostaria de ver nas manchetes: Rio Cidade Olímpica, mas honestamente, seria muito mais bonito não ler que um pai reconheceu pelas roupas o filho, como um dos mortos numa guerra sem vencedor.
***
Para continuar em Chico Buarque, participei de um evento que me lembrou outra frase: "Quando ela mente, não sei se ela deveras sente o que mente para mim".
Vocês podem me encontrar também no Twitter no endereço: www.twitter.com/cresosoares
Até a próxima.
Estava demorando
Soares Júnior | Soares Júnior | 12/09/2009 23:17
A Folha de S.Paulo e a Rede Globo de televisão divulgaram comunicados restringindo o uso de blogs, twitter e outras redes sociais pela Internet. A Grande Rede democratizou uma máxima de Assis Chateaubriand: "Quer ter opinião, tenha um jornal".
O blog surgiu como algo pessoal. As empresas jornalísticas enxergando a possibilidade da expansão na plataforma de internet começaram a incentivar que seus profissionais alimentassem esta nova ferramenta. Parece-me que tentar represar opiniões nessa altura do campeonato é enfrentar ondas havaianas com pranchinhas de isopor.
Com forte lobby das empresas de comunicação caiu a exigência do diploma de jornalismo (sei que estou ficando repetitivo, é a idade), gostaria de lembrar que ao universalizar a profissão vai ficar cada vez mais difícil controlar "opiniões indevidas" expressadas nesta ferramenta. Um exemplo disso foi o caso citado na última coluna sobre o twitter do Fluminense que falou mal de um jogador.
No fim de semana do feriado prolongado fui na bela e fria Curitiba participar de um congresso de comunicação, o Intercom. Fui participar e ouvir o que os pesquisadores da áreas estão pensando sobre diversas questões, como por exemplo, a convergência de mídia.
Na palestra de abertura do evento foi com o sociólogo francês Dominique Wolton. Ele teorizou que a comunicação é o ato de negociar, de tentar convencer o outro do nosso ponto de vista. Wolton ressaltou que há uma enorme diferença entre comunicar e informar. De minha parte blogs, twitter e outras redes sociais da internet podem significar o espaço para essa comunicação. Pois neles é possível ter uma resposta instantânea do efeito daquele texto ou notícia, sem esperar pelos relatórios de uma empresa de call center, ou da carta de leitores do jornal.
Se comunicar é negociar, é convencer o outro de um ponto de vista, não emitir opiniões na internet acaba sendo impossível. Apenas com um controle draconiano, os grandes grupos de comunicação poderão ter um controle total sobre o que escrevem seus jornalistas na grande rede. Viveríamos um Big Brother, sem a competência do Bial apresentando, mas com o tom apocalíptico original de "1984" do escritor George Orwell.
Entre a cozinha e a sala de aula
Soares Júnior | Soares Júnior | 03/09/2009 09:06
Começaram a surgir os primeiro efeitos do fim da exigência do diploma de jornalismo. Segundo reportagem publicada no site Comunique-se, a Facamp (Faculdade de Campinas) do interior de São Paulo não vai oferecer o curso de jornalismo em 2010. Antes que comecem a dizer que é menos uma instituição caça-níqueis, é bom saber que a Facamp conseguiu conceito 5, o melhor na avaliação do Enade em 2006. Além disso no ranking divulgado pelo Ministério da Educação, a instituição de ensino surge como a 12ª melhor universidade do país.
É preocupante que um lugar que consiga esta eficiência na formação dos alunos desista do curso de jornalismo. Quando se fecha um balcão de negócios travestido de faculdade é bom, mas a sentença do ministro Gilmar Mendes e da Corte Suprema pode ferir de morte a boa formação de profissionais.
Um caso ocorrido com Fluminense é exemplar. Há algumas semanas durante o jogo do tricolor com o Vitória o twitter do clube disparou: "O Ed Carlos é horrível". Depois a assessoria do clube explicou que no momento, as mensagens estavam sob responsabilidade de uma pessoa da informática, sem um jornalista.
O uso do twitter como um instrumento jornalístico pode levar a uma ambiguidade. É uma rede de relacionamentos, mas há muita notícia rolando por lá. No caso do clube, me parece ser um canal de divulgação, por isso, não ter um jornalista responsável, pode desencadear numa situação desconfortável como essa.
Uma das teclas mais batidas nas faculdades de jornalismo é a da responsabilidade com o que se vai divulgar. Acompanhei o drama por um descuido com a responsabilidade na divulgação de um conteúdo. Um experiente editor fechava um radiojornal. Ele viu a notícia de um seqüestro de um empresário na internet. Sem pedir a confirmação aos apuradores, colocou a notícia no jornal. Depois que a informação entrou no ar, o próprio seqüestrado ligou dizendo que não era verdade.
Na verdade, o seqüestro ocorrera um ano antes e por algum defeito que só os "deuses informáticos" podem explicar, a página exibida estava com o atraso de um ano. A emissora sofreu um desgaste com o episódio, ao ter que, na edição seguinte, desmentir a informação. O jornalista quase perdeu emprego.
"Shit Happens", ensinou a mãe do Forrest Gump, mas as coisas podem ser piores se a formação dos profissionais for capenga, ou simplesmente, não existir.
Também estou no twitter no endereço: www.twitter.com/cresosoares. Lá, inspirado pelo Gilmar Mendes, dou receita de rosbife e guloseimas, além de compartilhar outros assuntos.
As roubadas e os ET´s
Soares Júnior | Soares Júnior | 21/08/2009 01:51
Quem trabalhou em algum veículo de imprensa, sabe que há uma instituição em que fica clara a máxima de Assis Chateaubriand: quer ter opinião, tenha um jornal. A instituição é a matéria recomendada, rec, para os íntimos. Em alguns órgãos cumprir esta pauta é tão necessário que ela ganha a alcunha de obrigatória (obrig, para os mais íntimos ainda).
Sabe a coruja dos livros do Harry Potter. O chefe manda aquela coruja fumegante e emenda; é rec. Nessa, vai peça de teatro da filha da tia do dono, exposição da amante do cunhado, para ficar nas reportagens de cultura e nos interesses familiares.
Um grande amigo passou por uma de outro mundo, trocadilho infame, mas a história é boa. Congresso de Ufologia no musical distrito de Conservatória, em Valença, no Sul Fluminense.
Esta "rec" tinha outra característica, era uma autêntica roubada. Ela se definia como uma verdadeira "entubada" (outra do jargão de redação). O encontro aconteceria num sábado, com o agravante de não ser o plantão da criatura.
A vítima relata que a primeira dificuldade foi contar a namorada. "Fui falando logo: 'vou viajar com a outra'. Ela se assustou e eu contei que viajaria no sábado para fazer uma reportagem sobre o encontro de ufologia". A velha tática de mostrar que a vida poderia ser pior.
Isso me lembrou um conto do livro "As mentiras que os homens contam", do Luis Fernando Veríssimo. Numa delas o cara teve o pneu furado, a aliança caiu num bueiro. Ele chegou em casa e disse que perdera a aliança quando saía com amante. A diferença é que o personagem do Veríssimo não contava a verdade, pois a mulher não acreditaria.
Voltando à terra da seresta, o intrépido repórter ouviu versões surpreendentes, como a que Jesus era um alienígena e que o homem é descendente de extraterrestres. Os ufólogos acreditam em algumas conspirações. Uma das boas teorias é que seriados como Arquivo X fazem parte de uma estratégia do governo americano para preparar os americanos para a verdade.
O evento terminaria com uma vigília de observação na bela noite de Conservatória. O local não foi escolhido por acaso, o distrito é um dos que têm mais ocorrências de Ovni´s, objetos voadores não identificados.
Ele não participou da vigília nem avistou Ovni´s. Antes que eu sofra alguma patrulha, não acredito, nem desacredito, prefiro o exemplo bíblico de São Thomé, aquele do "ver para crer".
Minha experiência com ET´s foi mais terrena. Voltava de Florianópolis de ônibus há quase 20 anos. Para enfrentar as 18 horas de viagem, levei um clássico dos que acreditam em alienígenas: "Eram os deuses astronautas?".
Por ser num horário extra, o ônibus estava vazio, com 8 pessoas. Acabamos numa grande social. Uma menina que acabara de participar de um concurso de beleza virara objeto de cobiça dos integrantes masculinos da trupe.
Num determinado momento, um dos pretendentes viu o livro e comentou com a moça: "Você acredita em ET´s?". Ela não entendeu, ele continuou a investida. "Há pesquisas que indicam que os alienígenas vieram para a Terra e inseminaram algumas mulheres. Você não reparou que as novas gerações têm mais facilidades com computadores". Diante daquele "papo-brabo". Fui dormir.
Ao parar em Curitiba saí para aquela esticada. O cara se aproximou e disse: "Vou pegar essa mulher". Analisei criticamente o cara e concluí para mim, "Vai pensando". Na madrugada, em algum ponto entre Curitiba e São Paulo ouço aquela respiração característica. É, ele conseguiu.
De manhã, ele estava abraçado com ela, de soslaio me fitou. Sentia-se vitorioso. Ele parecia Shrek, ela, a Fiona sem feitiço. Fico intrigado até hoje quais teriam sido as palavras mágicas para o êxito da empreitada. Desconfio que ele se proclamou um ET.
Pais e filhos
Soares Júnior | Soares Júnior | 11/08/2009 12:17
Vinte e oito de julho de 1997. O então ministro do Meio Ambiente Gustavo Krause tinha participado de um evento no Rio de Janeiro. Apesar da ECO-92, clima era assunto com menos interesse do que hoje em dia, vide a expectativa que a possível candidatura à presidência da ex-ministra Marina Silva provoca nos meios políticos.
Era uma daquelas pautas chatas, em que o desafio era manter o gravador a um distância segura do entrevistado para que a qualidade de sonora saísse boa. Com toda a honestidade, minha boa memória apagou o que pudesse ter dito Gustavo Krause naquele dia.
Fui para a redação da Rádio Tupi, na Rua do Livramento, como se fosse um dia qualquer. Sentei em um dos terminais e executei todas as tarefas do dia gravar para uns três programas e deixar uma edição com texto e sonora para uso no jornal.
Por volta das seis da noite, meu chefe Roberto Feres, com o tom de voz grave, me chama e me faz uma proposta inusitada. Oferece-me um carro da rádio para me levar em casa. Ele disse que uma das minhas irmãs tinha ligado avisando que meu pai não estava bem.
Numa salada familiar que fazia de mim ao mesmo tempo caçula e filho único, fiquei assustado com o que me esperava. Saímos do prédio no bairro da Saúde e ao passar pela Praça Tiradentes, minha amiga Samanta Lima, hoje repórter da Folha de São Paulo, fez sinal para o carro, achando que era um veículo que a levaria à redação.
Ela entrou no carro eu expliquei a situação e ela preferiu continuar no veículo. Ao chegar encontrei minha mãe e uma ambulância na porta de casa. Ao sair correndo para dentro de casa encontrei minha mãe e perguntei para onde meu pai fora levado. Singela, atordoada e com muita fé, ela me respondeu: "para o céu".
Corri e vi meu pai repousando, com os olhos fechados e o corpo inerte. A temperatura no corpo de alguém que se vai é inexplicável e inesquecivelmente fria.
Em 25 de março de 2001, um plantão de domingo nem chegou a começar. Nos três primeiros meses do ano, minha mãe passa muito tempo sendo internada em hospitais por problemas cardíacos. Naquela manhã de domingo eu tinha plantão. Quem está nessa estrada sabe que a rendição de um companheiro no fim de semana é sagrada, sendo considerado pecado mortal o atraso superior a 10 minutos.
Pelo telefone acompanhei a operação para que minha mãe fosse internada naquela manhã. Por um daqueles inevitáveis problemas com operadoras de plano de saúde, minha mãe saiu de uma ambulância em Botafogo para ser atendida no bairro do Irajá.
Fiquei monitorando a chegada dela pelo telefone da redação. Falei com o médico que a atendeu, ele disse que a paciente havia chegado com um quadro grave, agravado pela demora em chegar ao hospital. O médico desligou o telefone. Insistentemente liguei e ele não me atendeu. Passados mais 10 minutos, ele atendeu e me deu a notícia de uma forma nada sutil: "ela obitou".
No segundo domingo de agosto, Pedro e Clara se esconderam atrás de uma barricada de travesseiros, me fizeram uma surpresa e me deram presentes. A profissão me fez não estar com os meus no último momento. Ainda bem que os nascimentos costumam ser mais previsíveis que as mortes. Assim pude estar com meus filhos no primeiro instante.
Chorei muitas vezes lembrando disso e não foi diferente escrevendo este texto.
Perdão pela linguagem desabrida, mas afinal um blog também pode ser confessional.
O amor também dá informações desencontradas
Soares Júnior | Soares Júnior | 30/07/2009 16:18
Informações de parentes na porta do hospital devem ser filtradas. A proximidade, a vontade da melhora, ou mesmo outro tipo de interesse podem nublar o que eles contam aos repórteres. Como disse meu companheiro de twitter, Arnaldo Branco, desde Tancredo não se via tanta notícia desencontrada sobre um convalescente como o ocorrido com Felipe Massa. Foi uma torrente de notícias desencontradas. Felipe se recupera e não teremos no almanaque nacional mais uma tragédia envolvendo um "herói da velocidade". De todo coração, melhor assim.
Plantões de fim de ano são propícios aqueles acontecimentos que mudam a lógica do noticiário. Só para recordar alguns, o naufrágio do Bateau Mouche e a queda do alambrado de São Januário numa decisão de campeonato brasileiro. Preparava-me para degustar uma gordurosa e nada saudável lasanha naquele sábado. Na minha frente, Ermelinda Rita apurava com seu jeito elétrico. Os que a conhecem sabem exatamente do que falo. Toca o telefone e a informação: Cássia Eller foi internada numa clínica em Laranjeiras. É, não consegui dar uma garfada no almoço. Isso era nada, perto do que estava por vir.
Cheguei ao hospital e, obviamente, não contei com a boa vontade do hospital. De qualquer forma, consegui a confirmação que a cantora estava lá. Olhei para um homem e intuí que ele estava com Cássia. Por sorte, era o empresário. Perguntei o que acontecera. Ele me disse que ela tivera uma indisposição gástrica, mas que estava bem, tomando plazil na veia.
Havia um "não-texto" nas suas palavras. Olhos vermelhos e demonstração de ansiedade não casavam com o que a expressão corporal transparecia.
Logo depois de mim, chegaram os repórteres de outros veículos de imprensa. O plantão seguia modorrento, contávamos piadas e fazíamos planos para o reveillon, com as limitações do trabalho. O hospital nada falava, do empresário as mesmas palavras. Tudo tão calmo, que uma das repórteres fez a unha no salão em frente à clínica.
Num determinado momento, resolvi entrar na clínica. Aproveitando a presença de um jornalista uma mulher começou os protestos. Disse que por causa de Cássia no CTI, ainda não tinha visto a mãe. Outras pessoas aproveitaram e também reclamaram.
Liguei para a redação que apesar do silencia da clínica, eu bancava a informação. Depois da informação divulgada, a porta do hospital lotou. O empresário me interpelou por ter dado a informação. Eu disse que estava ali para apurar e ele novamente se dispôs a dar entrevista. Na coletiva, perguntei se Cássia cantaria no reveillon na Barra. Num exercício de otimismo, ele disse que sim. O fim da história, todos já sabem.
O ceticismo salvou-me de ignorar uma notícia. Se tivesse ouvido o empresário da cantora, teria deixado o plantão. Por não ser cético em relação a minha profissão, acho importante um jornalista jogando luz sobre um fato público. Oh, busca por se equilibrar em pilares sem estabilidade. Alguns dirão que o estado de saúde naquele momento não dizia respeito a ninguém. Como admirador de Cássia Eller, rechaço esta opinião.
Ah, tenho certeza que o empresário que me deu as informações desencontradas só queria o bem da Cássia, ele não era, absolutamente, um vilão.
Péssimo tratamento no UCI
Soares Júnior | Soares Júnior | 21/07/2009 13:14
Programa de férias. Dia chuvoso, a solução se meter num shopping para ir ao cinema. Aos seis anos, meu filho é fã de Hannah Montana. Confesso, que diante das opções essa não me desagradou.
O primeiro problema, apenas um cinema está exibindo o filme. UCI Nova York 9, no New York City Center, na Barra da Tijuca. São férias, pensei, tenho tempo. Lancei-me na intrépida aventura na segunda chuvosa.
Ao chegar, o primeiro problema. Uma fila de intimidar. Olhei para o Pedro e sua expressão me passou confiança para continuar. Além do que dividindo as atenções com Harry Potter e Era do Gelo 3, a chance de chegar ao guichê com ingressos para Hanna Montana era grande.
Ingressos na mão, munidos de pipoca e refrigerante, nos acomodamos. Começaram os tormentos. A sessão estava marcada para 17h30. Às 17h42, como a luz do salão não apagara, começaram alguns corinhos de "começa, começa, começa". Comentei com meu filho que deveríamos ficar quietos e esperar. Nesse momento uma senhora levanta-se, vira-se em direção à cabine de projeção e começa pedir o dinheiro de volta.
Incríveis 26 minutos depois do horário previsto para o início da sessão, apareceu um funcionário da UCI e explicou o motivo da demora. Uma lâmpada não estava acendendo. Seis minutos depois volta o mesmo funcionário e avisa: "o filme vai ser startado'. Uma mulher na fileira da frente me pergunta o que ele disse. Eu faço a tradução rasteira: "vai começar". Falamos IU CI AI (UCI), estávamos no New York City Center, por qual motivo o funcionário deveria usar o verbo começar. Os não-cosmopolitas são implicantes.
Filme começado, esqueço as sessões do Paissandu e do velho Estação. Ali o espírito é que um amigo meu usa para películas comerciais: Cinema é a maior diversão. Chego a rir de algumas cenas, com vergonha, admito, me diverti. Até o momento dos créditos. Eram 19h42 e começariam os créditos. Quando me preparava para matar a curiosidade sobre os créditos dos atores, das canções, a interrupção brusca. As luzes do salão se acenderam. Fomos "tocados" da sala. Os funcionários nos indicaram a saída de emergência. Descemos seis lances de escada. Qual não foi minha surpresa, quando saí no subsolo do estacionamento. Depois da desconsideração do atraso com uma satisfação tardia, não tive o direito de sair no mall do shopping ( vamos continuar com os estrangeirismos). Irritado com aquele que tratamento de gado, procurei a administração do cinema. Fui atendido com extrema educação pelo gerente.
Expliquei o ocorrido e ele me pediu desculpas. O gerente afirmou que apuraria o que houve. Ele ainda tentou um gentil contra-ataque, dizendo que das 119 pessoas que assistiram à sessão, apenas eu reclamara. No que fui firme, pois por não reclamar é que vemos dinheiro de escola e saúde desviado para contas nada republicanas.
UCI, vinte e seis minutos de atraso para explicar o retardo de uma sessão e cortar os créditos no fim da exibição é uma daquelas desconsiderações que só acontecem por falta de mobilização do consumidor.
Por dever jornalístico avisei que este blog trataria deste tema, e que se a empresa quisesse, teria espaço para responder.
No próximo texto, conto algumas coisas inusitadas que já me aconteceram numa sala de projeção.
O filme do Simonal é imperdível, já o camisa 9...
Soares Júnior | Soares Júnior | 09/07/2009 17:08
Wilson Simonal foi o segundo maior cantor do Brasil. O Miele, que entende muito mais que eu, acredita que ele foi o maior. Modestamente, discordo, Para mim, o Tim Maia dos anos 70, é imbatível. Vejam bem, não estou falando de fama ou disco vendido. O quesito aqui é voz, e meu ouvido, não privilegiado, me faz bradar, Wilson Simonal era um artista bárbaro.
Quem não viu o documentário em cartaz, tem a obrigação cultural de ver um típico representante de "música de negão" em ação. Depois da redescoberta do Simonal, falaram de como ele era um showman, de como ele ficou na crista da onda e toda a sua marra. Humildemente, gostaria de ressaltar outro aspecto: como ele era instintivo. Quando ele canta Shadow of your smile com a Sarah Vaughan é impressionante. O que em outros artistas é cara de sofrimento e dor, nele é prazer, suavidade e ginga.
Viva a música de Simonal, Tim Maia, Erlon Chaves, Black Rio, entre outros, que nos libertaram da timidez e jogaram nossos "esqueletos" nas mais desvairadas pistas de dança.
A Elis Regina cantou nas Olimpíadas do Exército e foi execrada por isso. Foi execrada pelo Pasquim também, mas conseguiu mostrar de que lado estava, visitando a Rita Lee na cadeia e gravando de forma sublime o hino da Anistia, O bêbado e a equilibrista.
Marrenta e talentosa como Simonal, Elis conseguiu, por uma série de fatores ressuscitar do "Cemitério dos mortos-Vivos" que o Pasquim a condenara. Mas vamos falar de música, e neste aspecto discordo de Rita Lee que numa letra de música diz que o Simonal era chato. É a história do "que seria do amarelo, se todos gostassem do azul".
Uma coisa me deixou angustiado no filme. Simonal morreu em 2000, passados 29 anos do seu mergulho no inferno. Em 2005, a equipe do documetário entrevistou o contador envolvido na confusão. E daquele homem veio uma das maiores repreensões ao papel da imprensa no caso: -Ninguém nunca ouviu minha versão.- Que a imprensa não tivesse ouvido na época, pode ter algum tipo de desculpa, por exemplo, a repressão. No entanto, o cantor morreu 15 anos após a abertura do regime e nesse tempo, nenhum jornalista pensou em fazer uma entrevista com o contador. Ficamos mal na foto.
Acho que a democracia brasileira teve inimigos piores que Simonal e sua fanfarronice.
***
Estava assistindo ao Bem, amigos e ouvi algo inacreditável: que o presidente Lula estaria indicando empreiteiras para a construção do Centro de Treinamento do Corinthians. Sua majestade, o camisa 9 disse. O apresentador, os jornalistas todos com salamaleques e risadinhas tentaram tirar mais alguma coisa. Mas aquele clima de conversa entre amigos, às vezes impede perguntas mais incisivas. Beleza, é futebol, é esporte, mas é grave que o presidente indique empreiteiras para a construção do CT do Corinthians. Depois de defender o presidente do Senado, acho que o governo deveria explicar como é este papo de presidente e empreiteiras. Só para a gente não achar que o privado coração roxo do presidente esteja deixando de ser republicano, na melhor definição do termo.
É o caso de ver se na Itália o Berlusconi faz algo parecido pelo Milan, clube do qual é Proprietário e não torcedor.
O pior é saber que para interpretar pesquisas também não é necessário diploma. Oh camisa 9, deixa para os institutos de pesquisa as declarações sobre quem tem a maior torcida.
Vou parafrasear o Romário, esse sim um gênio: o camisa 9 é um poeta com o sapato na boca.
Fotografias, memórias e diploma (II)
Soares Júnior | Soares Júnior | 07/07/2009 09:19
Perdão leitores deste espaço, tive alguns problemas e não pude continuar narrando as aventuras do fotógrafo Paulo Araújo, mas agora retomo a saga do meu amigo. Hoje vou falar de incursões dele por alguns morros, sentindo de perto o som, o cheiro, o medo e o barulho da guerra cotidiana da Bela, mas combalida cidade de São Sebastião.
A primeira aconteceu quando o traficante Meio Quilo, dono do tráfico no Morro do Jacarezinho tinha um busto em sua homenagem. Já era perigoso para um profissional de imprensa entrar numa comunidade, mesmo assim lá foram Paulo e o repórter Rodolfo de Bonis para dar esse flagrante.
Imaginem a cena, Paulinho e Rodolfo em um pagode no Jacarezinho esperando que membros da comunidade os levassem para fazer a foto do busto. No entanto, digamos assim, a localidade era um campo minado para Rodolfo.
Um homem que era líder comunitário e compositor no local tinha privilegiado a concorrência em detrimento de Rodolfo, que por sua vez, fez uma reportagem apontando alguns "podres" do homem.
Alta noite já se ia, quando adentra o pagode o desafeto do repórter. Ele vai direto a Rodolfo e emenda: "o jogo está um a zero para você, mas hoje eu vou empatar". Rodolfo não se fez de rogado: "Não vou deixar você empatar não".
Paulinho sentiu que a "batata" estava prestes a entrar no forno, tal a hostilidade com que passaram a ser tratados.
- Falei com Rodolfo para sairmos correndo. Quando os caras deram bobeira começamos a correr. Tinha um córrego e pensei, vou seguir o curso da água, para sair lá embaixo. Deu certo - Vinte anos depois, Paulinho relembra com um misto de orgulho e alívio.
Outra foi com o jornalista Tim Lopes. Eles fizeram uma reportagem sobre as brigas entre facções que aconteciam em bailes funk, realizados em algumas comunidades. Vários repórteres que tentaram fazer a cobertura apanharam. Partiu do próprio Tim a indicação para que Paulinho fizesse o registro. O jeito para não repetir o insucesso dos colegas foi inventar um órgão de imprensa especializado no ritmo. Paulo conseguiu se infiltrar portando um crachá falso de uma publicação paulista.
Bacharel em Teologia, Paulinho ainda encontra tempo para ser missionário em comunidades carentes. Usando sua lábia, ele conseguia com que os traficantes permitissem o trabalho de evangelização. No entanto, em uma das comunidades ele teve que deixar a congregação as pressas.
Ele foi reconhecido como fotógrafo de um órgão de imprensa e passou a ser presença indesejada no local.
O que mais impressiona é que por trás de todas as histórias, mesmo as que ele esteve literalmente na reta do tiro, é acompanhada de um sorriso. Bom, essa foi a minha homenagem a esta doce figura.
Até a próxima.
Fotografias, memórias e diploma (I)
Soares Júnior | Soares Júnior | 23/06/2009 13:15
Como o I do título sugere, tratarei do mesmo tema nos dois próximos textos. Rico e extenso tema, meu amigo Paulo Araújo. Vamos à apresentação clássica. Paulinho tem 46 anos, três filhos, um neto e uma união cúmplice e amorosa com Luciana, há mais de 20 anos. Paulinho tem 30 anos de carreira, por trás das lentes de uma máquina fotográfica. Só no jornal o Dia, Paulo tem 25 anos. Bacharel em Teologia, ele realizou há uma semana um grande sonho. Entregou sua monografia para a conclusão do curso de Jornalismo.
Fui professor do Paulo em três disciplinas, aluno aplicado, chegava com olheiras e um indefectível sorriso. Não negava ajuda aos companheiros de turma e tinha sempre uma boa história na ponta da língua, que deixava os intervalos de aula muito mais engraçados.
Quando me deparei com Paulinho numa aula, sexta à noite, de 21 às 23 horas, não acreditei. Eu já o conhecia há muito tempo, das coberturas em favelas, delegacias e carnavais.
Pois é, mesmo tendo mais de 20 anos de carreira numa grande redação, Paulo não desistiu do sonho de conseguir o diploma. Até a terça-feira, 16 de junho foi um longo caminho. Ele ingressou na faculdade em 1983, nesses 26 anos,ele entrou e saiu da universidade algumas vezes. Além das dificuldades de criar os filhos, ainda teve que enfrentar um chefe que dizia que fotógrafo não precisava estudar. Ainda bem que o Paulinho não ouviu.
No dia 17 de junho, portanto o dia seguinte após a defesa da monografia, Paulinho acompanhou a decisão do Supremo de acabar com a obrigatoriedade do diploma. No jornal, o comentário sarcástico: "Só esperaram você acabar a faculdade para o diploma cair, que pé frio".
De azarado, Paulinho nada tem. Ele sobreviveu a uma queda de helicóptero.
Com uma equipe, Paulo foi cobrir a retirada ilegal de areia na Região dos Lagos. Superprodução, repórteres, helicóptero, aventura. Ao chegar num determinado ponto de extração, o piloto fez um pouso rápido. Os repórteres saltaram. Com a inseparável máquina ao lado, Paulinho demorou um pouco. Pensando já terem partido todos, o piloto voltou a decolar, Paulinho no meio do caminho caiu. Resultado: quebrou os dez dedos dos pés. Se azarado fosse, não poderia ter contado a história: "Quando estava caindo, fiquei com medo da hélice de trás".
Imperdíveis são as histórias em favelas. Neste texto vou contar uma só. Há muito tempo, quando jornalistas ainda podiam entrar nas comunidades, ele foi fazer uma matéria na Rocinha. O código era o seguinte: o motorista piscava duas vezes o farol e os traficantes permitiam a entrada.
Naquele dia Paulinho não teve muita sorte. Os códigos foram seguidos, porém ele se deparou com um dos "soldados" trincado, como se diz na gíria. O bandido pediu que Paulo se aproximasse, a surpresa não foi agradável: "o cara botou a pistola na minha boca e disse que estava 'bolado' comigo. Eu tive ânsia de vômito e não podia falar nada. Quando o chefe da quadrilha chegou tirou a arma da minha boca e quase quebra meu dente".
Ser professor me deu oportunidade de conhecer este grande personagem. Por isso fiquei muito feliz, quando tocou meu telefone e eu ouvi: "Soares, é o Paulinho, defendi a monografia, vou me formar". Parabéns Paulo pela decisão de se aperfeiçoar e de não ter escutado aquele chefe que dizia que fotógrafo não precisa estudar. Na próxima coluna, mais histórias do meu amigo Paulo.
Até breve.
A receita de um diploma
Soares Júnior | Soares Júnior | 18/06/2009 18:32
Meu filho Pedro adora meu molho de cachorro quente. Além das óbvias presenças de cebola e sal e molho de tomate, coloco leite e açúcar. Dá uma consistência e um sabor legal. Posso ser um bom chef. Tenho opinião sobre tudo, com um bom curso de extensão em Direito, devo poder ser juiz. Por exemplo, banqueiro pego pela Polícia Federal envolvido e corrupção deve ir para cadeia, não é ministro?
A sociedade como um todo acaba de ser punida pela decisão do Supremo Tribunal Federal de acabar com a obrigatoriedade do diploma para a profissão de jornalismo. Com todo respeito aos chefs, mas o molho mal feito acaba com a reputação dele mesmo, do restaurante e provoca uma intoxicação alimentar. A má formação do jornalismo pode prejudicar a população e não só alguns estômagos.
Em certa ocasião, eu exaltava o talento do jogador Roger (Secco). Ficava impressionado com o talento dele com a perna esquerda. Tricolor militante, Mauro Silveira me disse uma frase que adotei como mantra: Talento é apenas um dos aspectos que compõem o bom profissional.
Sou jornalista formado, agradeço aos mestres que me fizeram "viajar" na universidade. Meu orientador, Paulo Roberto Pires, meu professor de Radiojornalismo, Fernando Mansur, além dos outros que me fizeram crescer tecnicamente antes de enfrentar o mercado de trabalho.
Acredito na faculdade como o local de construção do pensamento, quando estou na sala de aula, brigo contra os que querem se tornar "apertadores de parafuso". Fiquei decepcionado ao ouvir Boris Casoy dizer que a decisão é boa, pois a exigência do diploma para jornalista é como se só pudessem ser escritores quem têm diploma. O típico raciocínio tacanho daqueles que acreditam que jornalismo só se aprende na redação. A gente também aprende lá, minha experiência de vida comprovou.
Soro da verdade na TV
Soares Júnior | Soares Júnior | 17/06/2009 00:09
Agradeço aos grandes professores que tive e que tenho na carreira. Com Marco Antonio Monteiro aprendi o mito fundador: rádio é hábito e prestação de serviço. Com o Alexandre Caroli, que o senso de observação do repórter e os personagens são fundamentais para a história. De Mauro Silveira, a lição foi para "entrevistar" o repórter depois que ele chega da rua. Segundo ele, o olhar de fora pode ajudar na hora de encontrar o importante da matéria. Com Luciano Garrido, a necessidade que o repórter tem de ser esperto e versátil. De Sidney Rezende, aprendi que para ser notado no ar você deve encontrar seu estilo. Com Mariza Tavares, descobri como encontrar pautas escondidas nos jornais. Giovanni Faria enfatizou a importância da escolha das palavras. Aprendi que não devemos usar líder se a referência for a um bandido e que militância é a capacidade de militar e não os simpatizantes de um partido político. A estes devemos chamar de militantes. Deste contato com Giovanni vem o infortúnio de reler meus textos com olhos cada vez mais críticos.
O longo parágrafo introdutório é para falar do significado das palavras. Acompanhei atentamente a reportagem sobre as declarações do traficante Juan Carlos Abadia. Fiquei absorto em meus pensamentos pela escolha do termo revelações. Entendo que revelar é contar uma verdade, um fato fidedigno.
Após estar envolvido na morte de 300 pessoas, claro que Abadia pode ter engolido um soro da verdade e resolvido contar o que sabe sobre relações obscuras entre policiais e bandidos. Não sejamos inocentes de dizer que as tentativas de extorsão que Abadia diz ter sofrido não são inverossímeis, mas dizer que são "revelações" parece-me envernizar as declarações do traficante.
Antes que digam que fui contra a matéria, quero deixar clara minha posição. Acredito que função do jornalista tendo um material como esse nas mãos é publicar. Com todas as ressalvas que são acusações que precisam de comprovação. Em alguns momentos, isto pode não ter ficado claro na reportagem, por causa do uso do verbo revelar.
****
Muita gente me ajuda para continuar na caminhada profissional. Não posso esquecer da Ermelinda e o seu senso de urgência, Marco Aurélio Lisan e seu dom do improviso, Carolina Morand e a precisão cirúrgica no que faz e da embocadura da Silvana Maciel quando o assunto exige uma pegada popular. Luiz André Ferreira é uma máquina de produzir, era assim na Rádio Bandeirantes de São Paulo, na CBN, e também ao longo da sua carreira profissional.
Mais um que se junta ao time. Aliás, que time! Jacqueline, Roxane, Luiz André. Quem freqüenta o site do Sidney está bem servido
****
Não consegui ser Machado e este texto revela mais uma de minhas influências. O primeiro parágrafo é livremente inspirado em "Paratodos", do Chico Buarque...
Até a próxima!
Quem é a Rita?
Soares Júnior | Soares Júnior | 08/06/2009 22:59
Estou lendo "O crime do restaurante chinês" livro de Boris Fausto. Logo no início, ele explica que a partir dos anos 1970, os historiadores italianos Carlo Ginzburg e Giovanni Levi e o francês Le Roy Ladurie foram precursores de um conceito chamado micro-história. O objetivo é reduzir a escala de observação do historiador, a fim de apreciar ações humanas e significados.
Bom, vou reduzir ainda mais a escala de observação. Imagine caro leitor (presunçosamente, me senti um Machado de Assis na última frase) a cena. Uma mulher de aproximadamente 60 anos está em frente a uma casa no Jardim Botânico. Passo tranquilamente por ela e ouço a seguinte frase: "Puta que pariu, a Rita é prostituta, que merda"!!!
Surpreso, olho para trás e vejo a mulher sentada no batente da porta com a cabeça entre as pernas. Algumas perguntas rondam minha cabeça desde então, as principais são: a) quem é Rita? b) o que leva uma pessoa a ter essa conversa pelo interfone?
Dividi a angústia da dúvida com algumas pessoas. Os mais pragmáticos me disseram que a mulher é uma louca conhecida no bairro e que aquele fora apenas mais de seus delírios. Invoco o noveleiro da minha alma para dizer que esta é a explicação mais sem graça. Outros me deram hipóteses mirabolantes, como por exemplo: a mulher toca o interfone e pergunta pela Rita. Do outro lado, a voz metálica emenda, ela não está porque é prostituta e aí se dá a resposta intrigante.
Mal me recuperei da revelação sobre a atividade de Rita, deparo-me com outro desafio ao cotidiano. Olho pela janela da minha área de serviço e um homem caminha pelo beiral de um telhado. O espaço era pequeno e ele andava com maestria a 12 metros do chão. A queda seria morte certa. Ele andava de um lado para o outro. Com medo que aquilo fosse alucinação chamei a moça que trabalha lá em casa como testemunha. Direta, ela atalhou: "É maluco".
Ele andou sem demonstrar afetação. Parecia um desafio à morte, ou um homem que acabara de descobrir que a Rita era prostituta. Vá saber.
Caso você, meu nobre leitor, tenha uma idéia sobre as dúvidas que me atormentam, não se iniba, deixe sua versão.
A vida segue com alguns andando por telhados, outros tendo segredos descobertos. Outros se despedem de pessoas queridas com fotos, músicas e lembranças de um sorriso.
*****
Acho que chegou o momento dos corações descansarem e de tentar recompor os pedaços de vida que foram se perdendo no caminho. Um texto mais leve foi a contribuição, pequena é verdade, do escriba contra o astral ruim.
As flechas perdidas durante o voo
Soares Júnior | Soares Júnior | 02/06/2009 00:32
Eu iria começar meu texto brincando com o fato de ter feito aniversário e atravessado meu inferno astral. No entanto, diante do desaparecimento do avião da Air France, desisto de qualquer brincadeira.
Eu conhecia uma das pessoas que estavam no AF 447. Ela não era minha amiga, mas por essas coisas da vida, duas pessoas muito queridas eram próximas a ela. A última vez que a vi foi na véspera do meu aniversário do ano passado. Por conta da aula numa turma de concurso, encontrei com Adriana e conversamos rapidamente.
Tragédias não mandam sinais de quem serão suas vítimas. São pessoas comuns que por uma loteria ao contrário, encontram a fatalidade. No caso em questão, fatalidade travestida de silêncio e escuridão da noite.
Na queda do avião da TAM, em 2007, também conhecia uma das vítimas. Por coincidência, não era meu grande amigo, mas muito íntimo de uma querida amiga. Sentei em mesas de bar com os dois, ri entre chopps e comidas que aumentaram meu colesterol.
Penso na dor profunda da mãe de minha personagem. Não consigo mensurar a dor que atravessa seu peito. Posso falar da minha. Durante eternos cinco minutos meu filho ficou perdido na praia. A bruma de desespero fez com que eu sentisse um vazio e a culpa de não ter feito tudo. Ele voltou e o cuidado ficou redobrado. Mas, e essa mãe? Ela não tinha mais o que fazer. Acredito na desgastada imagem que filhos são flechas que lançamos no mundo. Ela já fizera o lançamento. O que pode um simples arco fazer para que a flecha não caia no fogo?
No meio da tarde de angústia, um homem chega ao hotel da Barra dizendo que ligou para o celular de um dos passageiros. Segundo o relato, o aparelho tocou e a ligação não caiu diretamente na caixa postal. Confusões da telefonia ou milagre?
O tempo passa e não há sinais, não há destroços. A emoção diz que se não há morte, há vida. A razão, com o estofo da opinião dos analistas, diz que se não há vida, há morte. Cérebro e coração dialéticos, como a vida e a morte. O avião sumiu do radar. Aqui de baixo, o arco acompanha a flecha, até que ela também fique invisível.
Arco no armário, mãe na cama, cabeça no travesseiro rezando. O jeito é fechar os olhos para fazer do sonho, o local do reencontro.
Minhas dores, minhas histórias
Soares Júnior | Soares Júnior | 25/05/2009 21:52
Fui a um casamento no sábado. A lei seca e a responsabilidade paterna fizeram com que não desfrutasse do bom vinho, do cachorro engarrafado e da cerveja. Desta forma pude rir muito com a degradação da sobriedade dos meus amigos, dentre eles o noivo, acometido por um sentimento de amor profundo à humanidade ao final da festa.
Por ter muito assunto para colocar em dia e muitos e saudosos amigos para reencontrar fiquei em pé a maioria do tempo. No dia seguinte o resultado da noite mal dormida. Dores nas costas e a constatação da inexorável passagem do tempo. Pior, ressaca sem um decigrama de bebida alcoólica no sangue.
Injusto colocar apenas na conta do tempo a dor nas minhas costas. Agosto, mês em que as campanhas eleitorais começam a esquentar. Fui mais cedo para a Cinelândia. Anthony Garotinho deixara o governo com alto índice de popularidade e se lançava numa campanha à presidência. Observei a chegada de vários militantes, ônibus chegando de vários lugares do interior do estado.
O espetáculo estava marcado para cinco da tarde. Meus colegas de outras redações começaram a chegar por volta das quatro. Fomos "encarcerados" no cercadinho da imprensa. Garotinho chegou e fizemos a entrevista.
Dentro em breve o estouro da boiada. O palanque começou a encher. Um gênio da engenharia tentou facilitar o acesso tirando o guarda-corpo da escada. Quase acontece um acidente.
Estávamos escalados eu e a intrépida repórter Simone Lamim para a matéria. Eu faria a parte do ex-governador e ela a da candidata Rosinha Garotinho. Programaço, sexta à noite, Cinelândia, tendo o privilégio de ouvir Elymar Santos e Rosinha cantando "Olha como foi bacana te encontrar de novo".
O palanque cheio, nisso a repórter Luciana Nunes Leal, do Estado de São Paulo, dirige-se a mim e diz: já pensou se esse palanque cai. Bem caros leitores, a dúvida virou profecia e esta, realidade. Menos de um minuto depois a estrutura cedeu.
Os que estudaram física compreendem facilmente que devido à fórmula P=mg, a queda demorou menos de um segundo. No entanto, lembro-me de tudo, até da preocupação em cair com os braços balançando, na ilusão de me proteger de algo que pudesse cair em cima de mim.
Levantei e corri para a escadaria da Câmara Municipal. Arfando, liguei para o estúdio aos berros pedindo para entrar no ar. Entrei no ar e fiz o pior flash, do ponto de vista técnico, da minha vida. Como uma metralhadora, despejei o que estava acontecendo.
Depois de entrar no ar fiquei preocupado por não ter notícias da Simone. Por sorte ela não caiu. Simone ligou para o nosso chefe Mauro Silveira preocupada comigo, ele a tranquilizou, dizendo que eu estava bem, pois entrara havia pouco no ar.
Dois dias depois, o assessor de um candidato me ligou perguntando como eu estava e dizendo que ficou extremamente angustiado com o meu flash. Sabe que foi o melhor elogio que recebi, pois angústia era exatamente o que sentia ao entrar no ar.
Após a queda, me dei conta de uma região chamada sacra-lombar, na minha coluna. Tenho uma pequena lesão nela por conta da aventura. Nos dias de um esforço um pouco maior, como o de sábado, a dor me lembra quedas, passagens do tempo e boas histórias.
Até a próxima!!!





















