Fotografias, memórias e diploma (I)
Soares Júnior | Soares Júnior | 23/06/2009 13:15
Como o I do título sugere, tratarei do mesmo tema nos dois próximos textos. Rico e extenso tema, meu amigo Paulo Araújo. Vamos à apresentação clássica. Paulinho tem 46 anos, três filhos, um neto e uma união cúmplice e amorosa com Luciana, há mais de 20 anos. Paulinho tem 30 anos de carreira, por trás das lentes de uma máquina fotográfica. Só no jornal o Dia, Paulo tem 25 anos. Bacharel em Teologia, ele realizou há uma semana um grande sonho. Entregou sua monografia para a conclusão do curso de Jornalismo.
Fui professor do Paulo em três disciplinas, aluno aplicado, chegava com olheiras e um indefectível sorriso. Não negava ajuda aos companheiros de turma e tinha sempre uma boa história na ponta da língua, que deixava os intervalos de aula muito mais engraçados.
Quando me deparei com Paulinho numa aula, sexta à noite, de 21 às 23 horas, não acreditei. Eu já o conhecia há muito tempo, das coberturas em favelas, delegacias e carnavais.
Pois é, mesmo tendo mais de 20 anos de carreira numa grande redação, Paulo não desistiu do sonho de conseguir o diploma. Até a terça-feira, 16 de junho foi um longo caminho. Ele ingressou na faculdade em 1983, nesses 26 anos,ele entrou e saiu da universidade algumas vezes. Além das dificuldades de criar os filhos, ainda teve que enfrentar um chefe que dizia que fotógrafo não precisava estudar. Ainda bem que o Paulinho não ouviu.
No dia 17 de junho, portanto o dia seguinte após a defesa da monografia, Paulinho acompanhou a decisão do Supremo de acabar com a obrigatoriedade do diploma. No jornal, o comentário sarcástico: "Só esperaram você acabar a faculdade para o diploma cair, que pé frio".
De azarado, Paulinho nada tem. Ele sobreviveu a uma queda de helicóptero.
Com uma equipe, Paulo foi cobrir a retirada ilegal de areia na Região dos Lagos. Superprodução, repórteres, helicóptero, aventura. Ao chegar num determinado ponto de extração, o piloto fez um pouso rápido. Os repórteres saltaram. Com a inseparável máquina ao lado, Paulinho demorou um pouco. Pensando já terem partido todos, o piloto voltou a decolar, Paulinho no meio do caminho caiu. Resultado: quebrou os dez dedos dos pés. Se azarado fosse, não poderia ter contado a história: "Quando estava caindo, fiquei com medo da hélice de trás".
Imperdíveis são as histórias em favelas. Neste texto vou contar uma só. Há muito tempo, quando jornalistas ainda podiam entrar nas comunidades, ele foi fazer uma matéria na Rocinha. O código era o seguinte: o motorista piscava duas vezes o farol e os traficantes permitiam a entrada.
Naquele dia Paulinho não teve muita sorte. Os códigos foram seguidos, porém ele se deparou com um dos "soldados" trincado, como se diz na gíria. O bandido pediu que Paulo se aproximasse, a surpresa não foi agradável: "o cara botou a pistola na minha boca e disse que estava 'bolado' comigo. Eu tive ânsia de vômito e não podia falar nada. Quando o chefe da quadrilha chegou tirou a arma da minha boca e quase quebra meu dente".
Ser professor me deu oportunidade de conhecer este grande personagem. Por isso fiquei muito feliz, quando tocou meu telefone e eu ouvi: "Soares, é o Paulinho, defendi a monografia, vou me formar". Parabéns Paulo pela decisão de se aperfeiçoar e de não ter escutado aquele chefe que dizia que fotógrafo não precisa estudar. Na próxima coluna, mais histórias do meu amigo Paulo.
Até breve.
A receita de um diploma
Soares Júnior | Soares Júnior | 18/06/2009 18:32
Meu filho Pedro adora meu molho de cachorro quente. Além das óbvias presenças de cebola e sal e molho de tomate, coloco leite e açúcar. Dá uma consistência e um sabor legal. Posso ser um bom chef. Tenho opinião sobre tudo, com um bom curso de extensão em Direito, devo poder ser juiz. Por exemplo, banqueiro pego pela Polícia Federal envolvido e corrupção deve ir para cadeia, não é ministro?
A sociedade como um todo acaba de ser punida pela decisão do Supremo Tribunal Federal de acabar com a obrigatoriedade do diploma para a profissão de jornalismo. Com todo respeito aos chefs, mas o molho mal feito acaba com a reputação dele mesmo, do restaurante e provoca uma intoxicação alimentar. A má formação do jornalismo pode prejudicar a população e não só alguns estômagos.
Em certa ocasião, eu exaltava o talento do jogador Roger (Secco). Ficava impressionado com o talento dele com a perna esquerda. Tricolor militante, Mauro Silveira me disse uma frase que adotei como mantra: Talento é apenas um dos aspectos que compõem o bom profissional.
Sou jornalista formado, agradeço aos mestres que me fizeram "viajar" na universidade. Meu orientador, Paulo Roberto Pires, meu professor de Radiojornalismo, Fernando Mansur, além dos outros que me fizeram crescer tecnicamente antes de enfrentar o mercado de trabalho.
Acredito na faculdade como o local de construção do pensamento, quando estou na sala de aula, brigo contra os que querem se tornar "apertadores de parafuso". Fiquei decepcionado ao ouvir Boris Casoy dizer que a decisão é boa, pois a exigência do diploma para jornalista é como se só pudessem ser escritores quem têm diploma. O típico raciocínio tacanho daqueles que acreditam que jornalismo só se aprende na redação. A gente também aprende lá, minha experiência de vida comprovou.
Soro da verdade na TV
Soares Júnior | Soares Júnior | 17/06/2009 00:09
Agradeço aos grandes professores que tive e que tenho na carreira. Com Marco Antonio Monteiro aprendi o mito fundador: rádio é hábito e prestação de serviço. Com o Alexandre Caroli, que o senso de observação do repórter e os personagens são fundamentais para a história. De Mauro Silveira, a lição foi para "entrevistar" o repórter depois que ele chega da rua. Segundo ele, o olhar de fora pode ajudar na hora de encontrar o importante da matéria. Com Luciano Garrido, a necessidade que o repórter tem de ser esperto e versátil. De Sidney Rezende, aprendi que para ser notado no ar você deve encontrar seu estilo. Com Mariza Tavares, descobri como encontrar pautas escondidas nos jornais. Giovanni Faria enfatizou a importância da escolha das palavras. Aprendi que não devemos usar líder se a referência for a um bandido e que militância é a capacidade de militar e não os simpatizantes de um partido político. A estes devemos chamar de militantes. Deste contato com Giovanni vem o infortúnio de reler meus textos com olhos cada vez mais críticos.
O longo parágrafo introdutório é para falar do significado das palavras. Acompanhei atentamente a reportagem sobre as declarações do traficante Juan Carlos Abadia. Fiquei absorto em meus pensamentos pela escolha do termo revelações. Entendo que revelar é contar uma verdade, um fato fidedigno.
Após estar envolvido na morte de 300 pessoas, claro que Abadia pode ter engolido um soro da verdade e resolvido contar o que sabe sobre relações obscuras entre policiais e bandidos. Não sejamos inocentes de dizer que as tentativas de extorsão que Abadia diz ter sofrido não são inverossímeis, mas dizer que são "revelações" parece-me envernizar as declarações do traficante.
Antes que digam que fui contra a matéria, quero deixar clara minha posição. Acredito que função do jornalista tendo um material como esse nas mãos é publicar. Com todas as ressalvas que são acusações que precisam de comprovação. Em alguns momentos, isto pode não ter ficado claro na reportagem, por causa do uso do verbo revelar.
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Muita gente me ajuda para continuar na caminhada profissional. Não posso esquecer da Ermelinda e o seu senso de urgência, Marco Aurélio Lisan e seu dom do improviso, Carolina Morand e a precisão cirúrgica no que faz e da embocadura da Silvana Maciel quando o assunto exige uma pegada popular. Luiz André Ferreira é uma máquina de produzir, era assim na Rádio Bandeirantes de São Paulo, na CBN, e também ao longo da sua carreira profissional.
Mais um que se junta ao time. Aliás, que time! Jacqueline, Roxane, Luiz André. Quem freqüenta o site do Sidney está bem servido
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Não consegui ser Machado e este texto revela mais uma de minhas influências. O primeiro parágrafo é livremente inspirado em "Paratodos", do Chico Buarque...
Até a próxima!
Quem é a Rita?
Soares Júnior | Soares Júnior | 08/06/2009 22:59
Estou lendo "O crime do restaurante chinês" livro de Boris Fausto. Logo no início, ele explica que a partir dos anos 1970, os historiadores italianos Carlo Ginzburg e Giovanni Levi e o francês Le Roy Ladurie foram precursores de um conceito chamado micro-história. O objetivo é reduzir a escala de observação do historiador, a fim de apreciar ações humanas e significados.
Bom, vou reduzir ainda mais a escala de observação. Imagine caro leitor (presunçosamente, me senti um Machado de Assis na última frase) a cena. Uma mulher de aproximadamente 60 anos está em frente a uma casa no Jardim Botânico. Passo tranquilamente por ela e ouço a seguinte frase: "Puta que pariu, a Rita é prostituta, que merda"!!!
Surpreso, olho para trás e vejo a mulher sentada no batente da porta com a cabeça entre as pernas. Algumas perguntas rondam minha cabeça desde então, as principais são: a) quem é Rita? b) o que leva uma pessoa a ter essa conversa pelo interfone?
Dividi a angústia da dúvida com algumas pessoas. Os mais pragmáticos me disseram que a mulher é uma louca conhecida no bairro e que aquele fora apenas mais de seus delírios. Invoco o noveleiro da minha alma para dizer que esta é a explicação mais sem graça. Outros me deram hipóteses mirabolantes, como por exemplo: a mulher toca o interfone e pergunta pela Rita. Do outro lado, a voz metálica emenda, ela não está porque é prostituta e aí se dá a resposta intrigante.
Mal me recuperei da revelação sobre a atividade de Rita, deparo-me com outro desafio ao cotidiano. Olho pela janela da minha área de serviço e um homem caminha pelo beiral de um telhado. O espaço era pequeno e ele andava com maestria a 12 metros do chão. A queda seria morte certa. Ele andava de um lado para o outro. Com medo que aquilo fosse alucinação chamei a moça que trabalha lá em casa como testemunha. Direta, ela atalhou: "É maluco".
Ele andou sem demonstrar afetação. Parecia um desafio à morte, ou um homem que acabara de descobrir que a Rita era prostituta. Vá saber.
Caso você, meu nobre leitor, tenha uma idéia sobre as dúvidas que me atormentam, não se iniba, deixe sua versão.
A vida segue com alguns andando por telhados, outros tendo segredos descobertos. Outros se despedem de pessoas queridas com fotos, músicas e lembranças de um sorriso.
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Acho que chegou o momento dos corações descansarem e de tentar recompor os pedaços de vida que foram se perdendo no caminho. Um texto mais leve foi a contribuição, pequena é verdade, do escriba contra o astral ruim.
As flechas perdidas durante o voo
Soares Júnior | Soares Júnior | 02/06/2009 00:32
Eu iria começar meu texto brincando com o fato de ter feito aniversário e atravessado meu inferno astral. No entanto, diante do desaparecimento do avião da Air France, desisto de qualquer brincadeira.
Eu conhecia uma das pessoas que estavam no AF 447. Ela não era minha amiga, mas por essas coisas da vida, duas pessoas muito queridas eram próximas a ela. A última vez que a vi foi na véspera do meu aniversário do ano passado. Por conta da aula numa turma de concurso, encontrei com Adriana e conversamos rapidamente.
Tragédias não mandam sinais de quem serão suas vítimas. São pessoas comuns que por uma loteria ao contrário, encontram a fatalidade. No caso em questão, fatalidade travestida de silêncio e escuridão da noite.
Na queda do avião da TAM, em 2007, também conhecia uma das vítimas. Por coincidência, não era meu grande amigo, mas muito íntimo de uma querida amiga. Sentei em mesas de bar com os dois, ri entre chopps e comidas que aumentaram meu colesterol.
Penso na dor profunda da mãe de minha personagem. Não consigo mensurar a dor que atravessa seu peito. Posso falar da minha. Durante eternos cinco minutos meu filho ficou perdido na praia. A bruma de desespero fez com que eu sentisse um vazio e a culpa de não ter feito tudo. Ele voltou e o cuidado ficou redobrado. Mas, e essa mãe? Ela não tinha mais o que fazer. Acredito na desgastada imagem que filhos são flechas que lançamos no mundo. Ela já fizera o lançamento. O que pode um simples arco fazer para que a flecha não caia no fogo?
No meio da tarde de angústia, um homem chega ao hotel da Barra dizendo que ligou para o celular de um dos passageiros. Segundo o relato, o aparelho tocou e a ligação não caiu diretamente na caixa postal. Confusões da telefonia ou milagre?
O tempo passa e não há sinais, não há destroços. A emoção diz que se não há morte, há vida. A razão, com o estofo da opinião dos analistas, diz que se não há vida, há morte. Cérebro e coração dialéticos, como a vida e a morte. O avião sumiu do radar. Aqui de baixo, o arco acompanha a flecha, até que ela também fique invisível.
Arco no armário, mãe na cama, cabeça no travesseiro rezando. O jeito é fechar os olhos para fazer do sonho, o local do reencontro.
Minhas dores, minhas histórias
Soares Júnior | Soares Júnior | 25/05/2009 21:52
Fui a um casamento no sábado. A lei seca e a responsabilidade paterna fizeram com que não desfrutasse do bom vinho, do cachorro engarrafado e da cerveja. Desta forma pude rir muito com a degradação da sobriedade dos meus amigos, dentre eles o noivo, acometido por um sentimento de amor profundo à humanidade ao final da festa.
Por ter muito assunto para colocar em dia e muitos e saudosos amigos para reencontrar fiquei em pé a maioria do tempo. No dia seguinte o resultado da noite mal dormida. Dores nas costas e a constatação da inexorável passagem do tempo. Pior, ressaca sem um decigrama de bebida alcoólica no sangue.
Injusto colocar apenas na conta do tempo a dor nas minhas costas. Agosto, mês em que as campanhas eleitorais começam a esquentar. Fui mais cedo para a Cinelândia. Anthony Garotinho deixara o governo com alto índice de popularidade e se lançava numa campanha à presidência. Observei a chegada de vários militantes, ônibus chegando de vários lugares do interior do estado.
O espetáculo estava marcado para cinco da tarde. Meus colegas de outras redações começaram a chegar por volta das quatro. Fomos "encarcerados" no cercadinho da imprensa. Garotinho chegou e fizemos a entrevista.
Dentro em breve o estouro da boiada. O palanque começou a encher. Um gênio da engenharia tentou facilitar o acesso tirando o guarda-corpo da escada. Quase acontece um acidente.
Estávamos escalados eu e a intrépida repórter Simone Lamim para a matéria. Eu faria a parte do ex-governador e ela a da candidata Rosinha Garotinho. Programaço, sexta à noite, Cinelândia, tendo o privilégio de ouvir Elymar Santos e Rosinha cantando "Olha como foi bacana te encontrar de novo".
O palanque cheio, nisso a repórter Luciana Nunes Leal, do Estado de São Paulo, dirige-se a mim e diz: já pensou se esse palanque cai. Bem caros leitores, a dúvida virou profecia e esta, realidade. Menos de um minuto depois a estrutura cedeu.
Os que estudaram física compreendem facilmente que devido à fórmula P=mg, a queda demorou menos de um segundo. No entanto, lembro-me de tudo, até da preocupação em cair com os braços balançando, na ilusão de me proteger de algo que pudesse cair em cima de mim.
Levantei e corri para a escadaria da Câmara Municipal. Arfando, liguei para o estúdio aos berros pedindo para entrar no ar. Entrei no ar e fiz o pior flash, do ponto de vista técnico, da minha vida. Como uma metralhadora, despejei o que estava acontecendo.
Depois de entrar no ar fiquei preocupado por não ter notícias da Simone. Por sorte ela não caiu. Simone ligou para o nosso chefe Mauro Silveira preocupada comigo, ele a tranquilizou, dizendo que eu estava bem, pois entrara havia pouco no ar.
Dois dias depois, o assessor de um candidato me ligou perguntando como eu estava e dizendo que ficou extremamente angustiado com o meu flash. Sabe que foi o melhor elogio que recebi, pois angústia era exatamente o que sentia ao entrar no ar.
Após a queda, me dei conta de uma região chamada sacra-lombar, na minha coluna. Tenho uma pequena lesão nela por conta da aventura. Nos dias de um esforço um pouco maior, como o de sábado, a dor me lembra quedas, passagens do tempo e boas histórias.
Até a próxima!!!
Os angolanos e as perguntas inconvenientes
Soares Júnior | Soares Júnior | 18/05/2009 22:56
Sol forte, devia ser janeiro naquela manhã de sábado. A gente sempre
acha que os dias são mais bonitos quando você está de plantão. A semana
já fora movimentada. Uma guerra de quadrilhas deixara mortes e medo na
favela Nova Holanda, na Zona Norte do Rio.
A ação tinha sido ousada. Bandidos usaram um caminhão baú e invadiram a comunidade, trocando o comando paralelo do local. Havia ausência do Estado, mas era uma época menos insegura para incautos repórteres que participavam da cobertura da nossa mal-disfarçada guerra urbana.
A inevitável suíte para aquele caso era uma incursão pela Nova Holanda. No entanto, aquela incursão tinha um ingrediente novo. Uma das linhas de investigações da polícia apontava para a ação de angolanos nas ações do tráfico. De acordo com essa versão, eles vinham do país africano e atuavam como mercenários a serviço das quadrilhas de traficantes. Além disso, eles ensinavam táticas de guerrilha aos bandidos cariocas, coisa que infelizmente tinha know how de sobra, tendo em vista a tempestuosa situação social que viviam nossos irmão do outro lado do Atlântico.
Era uma informação importante que precisava ser confirmada. Quem tem mais de cinco minutos de profissão sabe que confirmar algo assim requer fontes, um trabalho de investigação. Jornalismo investigativo sério.
Estávamos ali, andando por vielas apertadas. Dentro do possível a Nova Holanda recobrava a normalidade. Biroscas abertas, crianças soltando pipa, alguns homens jogando carteado. Estranhos ao ambiente, nós continuávamos. Repentinamente, uma colega resolve inventar a roda. Estávamos longe da polícia, distantes da saída da favela. Ela se dirige aos homens que jogavam cartas em frente ao bar e dispara: "vocês viram angolanos pela comunidade?"
Espanto nos olhos dos jogadores, misto susto e de medo entre os jornalistas. Claro que os moradores disseram que não sabiam de nada. Nisso, um amigo que trabalha numa emissora de TV emenda: "Vou embora, não vou ficar aqui para levar tiro por causa de pergunta imbecil". Partimos em retirada, sem saber dos angolanos.
A missão de perguntar é inerente da nossa profissão, mas a responsabilidade deve nortear todas as nossas ações. Fico me perguntando se algum guerrilheiro angolano estivesse acompanhando nossos passos, o que poderia ter acontecido.
Encontrei a repórter algumas vezes depois, mas graças a Deus, pelo nosso bem em locais menos inapropriados para perguntas inconvenientes.
***
Ela uma repórter combatente, ele um repórter obsessivo. Se olharam, se conheceram e se apaixonaram. Foi um prazer trabalhar com os dois e ver o começo da jornada. Agora começam os sonhos, os projetos e o caminho para lua. Parabéns Bruno e Simone.
A infâmia dos trocadilhos
Soares Júnior | Soares Júnior | 11/05/2009 21:32
Tenho implicância com a correção política. Odeio também trocadilhos infames. Não sei o que é pior. Um sábio amigo disse que a correção política está acabando com os palavrões. Você pode condena-los na novela, na boca dos seus filhos, mas perdoem-me, na conversa informal P´s. FDP´s e afins são praticamente imprescindíveis.
Esse confesso nariz-de-cera é para falar sobre uma inacreditável propaganda que vi num outdoor. O atentado ao bom gosto está na Rua Humaitá, quase esquina com a Macedo Sobrinho.
O quadro: Dois pés de couve com a seguinte legenda. Couves Gêmeas, um ataque de delícia do Hortifruti. É inacreditável, essa campanha com títulos fazendo trocadilhos com títulos de novela teve seus acertos, mas a escorregada é inaceitável.
Foram três mil pessoas mortas num ataque sem precedentes. Talvez em 100 anos os historiadores dêem ao 11 de Setembro de 2001 o mesmo peso da queda de Constantinopla e da Revolução Francesa, marcos arbitrários, mas emblemáticos de mudanças de época..
Acho que nós os responsáveis por mensagens públicas deveríamos pensar no peso que nossas palavras ganham. Há trezentas mil piadas infames, elas proliferam a cada novo acontecimento trágico. Poderia lembrar de todas numa conversa de bar, com bastante chopp e sem volante depois.
Isso me lembrou um caso muito comentado nas rádios do Rio de Janeiro. Há diferentes versões, mas a mais conhecida é a seguinte:
Trágico dia na história da cidade. Na virada de 88 para 89 o barco Bateau Mouche naufraga no litoral carioca. Mais de 60 mortos, dentre eles a maravilhosa atriz Iara Amaral.
O repórter deu a notícia na emissora. O comunicador ouviu e num ataque de semnoçãozisse (neologismo) disse algo como: "morreu, mas é ano novo é festa". O intrépido operador completou o serviço colocando nas carrapetas a canção que diz "É doce morrer no mar, nos braços de uma sereia".
Há diferentes relatos sobre o fato, mas a versão é ótima. Vocês me dirão que eu deveria ter cuidado de apurar, mas é um "causo" e nenhum nome foi dito, portanto...
Eu devo estar ficando velho. Será que estou ficando politicamente correto? Seria um triste fim.
Até a próxima.
Andando pelo passado
Soares Júnior | Soares Júnior | 04/05/2009 23:52
Tive que empreender uma caminhada pelas ruas de Botafogo. Fui da General Polidoro à rua Humaitá. Era hora do rush e um táxi demoraria tanto quanto a atividade aeróbica. Pus-me a caminhar.
Passei pelas calçadas que um dia foram minhas nas madrugadas, nas voltas da faculdade ou da praia. A Mena Barreto é uma grande adversária para os veículos automotores. Na esquina da Real Grandeza com Visconde Silva vi um imóvel abandonado. Ali funcionava a Pizzaria Calabresa, que foi um entreposto para várias domingueiras.
Apesar do investimento no pólo gastronômico de Botafogo, sinto que faltou deslocar o eixo até a Visconde Silva, bares abandonados, calçadas esburacadas. De novo, lançamentos imobiliários, um com o vício telemarketício (neologismo): "Você vai estar morando aqui em janeiro".
Deu nostalgia. No dia que a Princesa Diana morreu, eu estava de plantão. Meu horário era às 5 da manhã, na Rua do Livramento. Com bom senso, a Rádio Tupi mandava buscar em casa as pessoas que trabalhavam neste horário. No dia m questão tive que passar pela Visconde Silva. Era uma ferveção, pois havia um conjunto de bares que era chamado de baixo gay, com bastante preconceito em algumas bocas.
Era impossível passar na rua, toda tomada, bares funcionando, e o povo no maior agito. O carro da Tupi passando e a galera gritava. Atravessar o quarteirão quase fantasma teve em mim a angústia que o primeiro arqueólogo teve ao se deparar com uma cidade maia abandonada. (OK, menos). Quanta gente se conheceu ou quantas salivas foram trocadas, ou ainda, quantos romances de vida inteira tiveram a duração de um olhar, de um flerte ou coisa assim.
Era um tempo bom, dividir com a Mirella um frango assado, aprender com o Feres a melhor maneira de tratar uma matéria em rádio popular e lembrar do meu pai. Era tudo um aprendizado, com o Jonas, foi que as matérias para o Sentinelas deveriam ter até 38 segundos. Com o Jairo, que a segunda é feira e não "fêra".
Acho que a melancolia deste texto se deve a proximidade do meu aniversário. O tempo passa e a gente vai vendo que o mundo é redondo. Por exemplo, quando dei aula para o Thiago na faculdade. Dei uma gelada, pois o pai dele foi meu primeiro professor numa redação. Com a lusitana girando, começo a dar aulas para os filhos de alguns rostos do passado.
Em casa me deparo com o passar apressado dos ponteiros quando meu filho me diz antes da disputa de pênaltis: "Vai começar aquele friozinho na barriga". Há pouco tempo o filho era eu. A diferença era que se sentia, meu pai não transparecia o frio na barriga.
Em tempo, Mengo!!!!!!
Anúncio fúnebre e histórias interrompidas
Soares Júnior | Soares Júnior | 28/04/2009 00:22
Eu sei que pode parecer filosofia de botequim, mas numa viagem de táxi pensei. Uma das coisas certas na vida é que você não vai ler seu obituário. Ah, por favor, claro que isso se aplica a pessoas normais e não ao Raul, na inacreditável novela Caminho das Índias.
Por isso, o fato a seguir intrigou-me sobremaneira. (resolvi usar sobremaneira pois no último texto usei "peguete", não quero ser acusado de preguiça pelos que me lêem). O anúncio fúnebre era mais ou menos assim: "Florzinha, deveríamos estar comemorando seus 70 anos, mas agora só restam saudades, muitas saudades. I wish you were here, assinado, J".
Levantei vários questionamentos. O primeiro pragmático: se Florzinha morreu por qual motivo o anúncio. Tentei transcender para entender o mistério. O cara faz uma homenagem cifrada, usa um enigmático "J." para falar com alguém que não pode ler a homenagem? Vamos fazer conjecturas a respeito de Florzinha e J.
Minha principal hipótese: Florzinha era casada, tinha três filhos. O casamento morno sofreu um abalo ao conhecer J. Os dois se olharam pela primeira vez passeando em Londres. Como os filhos já estavam crescidos, ela resolveu tirar férias. J era um homem maduro e ao encontrar aquela mulher não resistiu. Mesmo por volta dos 50 anos tiveram uma aventura adolescente, com direito inclusive a um show do Pink Floyd no estádio de Wembley. Este é o motivo da citação ao clássico da banda.
Tudo bem, não fui original, peguei emprestado um pedaço do roteiro de "Pontes de Madison", filme de Clint Eastwood, com ele e Meryl Streep.
O que levou J a publicar seu amor? A crença que qualquer que seja o "plano" em que Florzinha se encontrar ela vai ler aquela mensagem e saber que o amor não acabou. Sei que são inúmeras as possibilidades, mas tenho um espírito noveleiro, como bem diz minha amiga Carla Rodrigues, por isso não admito outra hipótese que não seja a de uma história de amor, maduro e proibido.
Repentinamente na viagem de táxi entre o Humaitá e Gávea veio a mim a angústia de J ao perder Florzinha. Pensei em quantas vezes os dois devem ter firmado o compromisso que contariam a todos o sentimento que os tomava por dentro.
Há quanto tempo Florzinha morreu? J deve estar ainda tão ressentido pela perda que a tentativa de aplacar o sofrimento foi o anúncio cifrado, publicado na seção de obituários do jornal, num dia de outono no Rio de Janeiro.
Na verdade fico preocupado com J, pois pragmaticamente, Florzinha já cumpriu a lida, com dores e amores.
Infelizmente esta vai ser para mim uma história sem final, pois jamais saberei as identidade de J e Florzinha. Parece-me sem fim também para J.
Neste mundo em tudo passa rápido, a história de J e Florzinha é mais uma conversa daquelas que você escuta na condução e abandona, pois está na hora de descer.
Até a próxima.
Furadas de olho
Soares Júnior | Soares Júnior | 23/04/2009 18:28
Toda vez que como a gordura da picanha, meu fígado cobra a fatura. Neste momento me sinto traidor de órgão tão importante para minha sobrevivência. Já que resolvi dar um tempo nas minhas aventuras alcoólicas, resta-me os prazeres da carne. É, furei o olho do meu fígado.
Para quem não sabe o que esta expressão quer dizer, se isso é possível no ano da graça de 2009, fura-olho nada mais é do que o ato de trair.
Escrevendo nos dias de hoje, Machado de Assis poderia no prefácio de Dom Casmurro, dizer algo como: A eterna dúvida é se Capitu e Escobar furaram ou não o olho de Bentinho.
Tem um clipe no youtube, que sempre que quero me divertir inconsequentemente eu assisto. É só digitar "amigo fura-olho Latino". Numa visão pós-moderna e misturada podemos dizer que foi a conversa que Bentinho deveria ter com Escobar, caso você seja daqueles que acreditam na traição. Não é genial como a obra do Bruxo, mas é diversão sem precisar pensar muito. Perdoem-me esta mistura Machado/Latino, eu sei que é heresia.
Uma das melhores furadas de olho que tenho notícia, aconteceu no mundo musical. O caso me foi contado pela vítima. O(a) algoz não estava por perto para dar sua versão. Para que minha consciência não fique toda se ardendo, não direi nomes.
A vítima era um músico que achou a sorte grande ao compor um mega hit. Era daquelas músicas que você estava ouvindo numa estação e girava o botão (pista da idade da música) ela estava lá também.
Na esteira do sucesso ele e a cantora que transformara a música em sucesso caíram na estrada. Excursões pelo país todo. Numa capital do sul do país, ele achou que aquele era seu ano da sorte. Uma loura escultural olhava para ele. Do palco à platéia o flerte corria solto.
Ao fim do show, o previsível. A gata se aproximou e o cara teve um pensamento que só meninos são capazes de entender: "vou me dar bem".
Quando tudo se encaminhava para que ele só corresse para o abraço, toca a campainha no quarto de hotel. A cantora apareceu pedindo um cigarro e dizendo que estava sem sono e perguntou se podia ficar. A concordância foi compulsória, pois ele não teria coragem de naquele momento contrariar a patroa.
Na frente da vítima começou o caminho da agulha em direção ao globo ocular.
- Gostou do show? - perguntou a cantora
- Achei o máximo - derretendo-se a fã
- Tô com os vídeos da turnê, quer ver agora?
- Claro.
Com aquela crueza de que acaba de puxar o tapete com satisfação, a cantora arremata: "tchau amigo".
No dia seguinte quando o rapaz contava a um colega de banda o acontecido, ele se depara com a realidade dos fatos.
A quase peguete descia as escadas de cabelos molhados num clima com a cantora.
Resignado ele conclui a história: "Pelo menos elas moraram juntas por seis meses, não foi coisa de uma noite só".
É melhor assim ou a eterna dúvida de Bentinho?
Cartas para essa seção.
P.S.
Que coisa antiga!!!!
O perigo de prometer e não entregar
Soares Júnior | Soares Júnior | 16/04/2009 12:19
Há erros que nos ensinam mais do que acertos. Um traficante estava preso na Polinter, no centro e alguns comparsas tentaram resgatá-lo. Eles usaram um caminhão e granadas. Na manhã seguinte fui fazer o que o jargão jornalístico classifica como "suíte", a continuação da matéria.
Agentes do esquadrão antibombas estavam analisando os fragmentos do explosivo. Fui lá fazer as tradicionais perguntas e ele contou: "Os bandidos usaram uma granada defensiva na tentativa de resgate". Com urgência que o rádio pede entrei no ar e falei: "Para tentar resgatar o bandido da Polinter, os bandidos usaram uma granada defensiva...". Pouco tempo depois, toca o telefone. O chefe de reportagem da CBN na época, Alexandre Caroli, me pergunta: "Você sabe o que é uma granada defensiva?"
Eu não sabia. Ele então me disse que o nosso diretor de jornalismo, Agostinho Vieira, ligara pouco antes perguntando, pois ficara curioso. Resultado, voltei ao policial e pedi uma explicação sobre o que era uma granada defensiva. Aprendi naquele dia que ao explodir a granada defensiva, solta alguns pinos. O importante é que se ela cair do seu lado, não sobra nada. Informado sobre a diferença das granadas, aprendi que na prática que não se pode prometer o que não se pode entregar.
Os seguidos problemas nas barcas e nos trens me fazem pensar que tudo é um problema de prometer o que não pode entregar. No entanto, o que aconteceu na estação Madureira com funcionários da Supervia batendo nos passageiros é uma vergonha.
A empresa demitiu quatro funcionários identificados. No entanto, discordo da demissão. Uma das primeiras coisas que aprendi ao assumir a chefia de reportagem na CBN, é que se o repórter cometesse um erro, a culpa não era só dele, já que fazia parte de uma equipe. Afinal, a apuração errada comprometeria a credibilidade de toda a emissora. Então, os pés e mãos que encostaram violentamente os passageiros são a realização de uma metáfora de descaso. Descaso que começa em salas refrigeradas e chega numa estação lotada em horário de pico.
Prometer sem ter o que entregar é um tipo de descaso.
O rádio do meu filho e outras histórias
Soares Júnior | Soares Júnior | 08/04/2009 01:11
Meu filho pediu um rádio de aniversário. Isso mesmo, não foi um videogame. Terminamos o almoço de domingo e corremos para casa para ver o Fla-Flu. Eu corri e liguei a televisão, ele ligou o rádio. Fiquei orgulhoso e espantado com a resposta: "quero ouvir o jogo". Enquanto a gente ouve rádio, a mente constrói várias histórias e ele adora criar histórias.
Peço perdão pela demora entre um post e outro. Terminou o verão e fiquei um pouco mais triste. Além disso começou a temporada de fungadas, tosse e espirros aqui em casa. Até setembro acontece um revezamento de narizes escorrendo. Agora, por exemplo, é a minha vez.
Andar na rua sempre é um combustível para mim. Desde pequeno gosto de inventar histórias andando pela rua. Mais que observar, gosto de interpretar expressões e jeitos de andar. Chego a concluir fragmentos de conversa. Acho que meu filho tem a quem puxar (expressão batida, mas escrita com indisfarçável orgulho).
Cena carioca observada neste chuvosos e calorento outono. Esquina das ruas Coelho Neto e Pinheiro Machado, em frente ao campo do Fluminense um homem vende amendoim torradinho no sinal. Como diria meu amigo Edson Mauro, o detalhe é que vale e neste caso, o detalhe é que ele traja um alinhado terno bege. A imagem é tudo.
Outra cena que me chamou atenção. Parado no sinal da Jardim Botânico com Maria Angélica vejo três cachorros em desabalada carreira, com as coleiras ao vento. Logo depois vem um homem tentando alcança-los. Essa é uma daquelas histórias que a gente observa na rua e não sabe o fim. Como tenho um cachorro, gostaria que o final tivesse o bípede abraçado aos três cães.
Cachorros me lembram uma história que não é minha e por isso não darei nomes. Repórter entrevista presidente da Cedae ao vivo. Nisso, um desinibido cachorro que passeava na Lagoa resolve fazer da perna da respeitável profissional um poste. Na maior classe ela encerra a entrevista e dá um jeito de secar a barra da calça.
Esse texto foi um exercício de desenferrujamento (neologismo). Melhor do que dizer que fiquei olhando para o papel e escrever sobre isso. Isto é uma pequena idiossincrasia (consegui usar esta palavra).
No mais, que meu filho continue ouvindo rádio e espalhe entre os amiguinhos esse hábito.
Até a próxima.
O medo bateu na porta da minha casa
Soares Júnior | Soares Júnior | 23/03/2009 23:42
O medo bateu na porta da minha casa, mas eu não estava lá. No entanto, a dura face do medo se mostrou à minha família. Tiros e operações policiais não são novidades aos meus ouvidos, mas a partir desta segunda, fazem parte do repertório de temores do meu filho mais velho, como se pode perceber no desenho que ilustra esta coluna.
No meio da tarde um telefonema da minha mulher me alcançou no trabalho: "Está tudo bem, mas ligaram da creche, pedindo para buscar a Clara, pois estão ouvindo tiros do Tabajara".
Saí do trabalho pensando que a atitude da escola era excesso de zelo, pois a Ladeira dos Tabajaras fica em Copacabana e a creche na Fonte da Saudade. Excesso de zelo ou não, não iria pagar para ver e apoiei integralmente a atitude da direção.
Ao chegar à Rua Bogari, a movimentação era surpreendente. A rua é de subida e no larguinho ao final da ladeira vi a movimentação de policiais. Perguntei a um porteiro o que havia acontecido. Ele me disse que a polícia subiu atirando para pegar bandidos que fugiam do Morro dos Tabajaras.
O quadro então começou a ficar muito mais sombrio do que o esperado. Ao chegar à creche encontrei a diretora ainda trêmula. Minha filha de três anos estranhou o horário que cheguei para pega-la. "Papai, é muito cedo". Dei qualquer resposta que pais dão quando querem enrolar e fui conversar com a diretora.
"A polícia subiu atirando, eu e mais três pessoas nos atiramos no chão. Um dos pais estava no largo no momento do tiroteio e teve que se esconder atrás dos carros". Tudo isso me foi dito discretamente, para que as crianças não percebessem o terror que acabara de acontecer.
Uma amiga que mora na área disse que ficou sentada no chão do apartamento com as duas filhas até que a situação se acalmasse. Na minha casa, a moça que trabalha me disse: "Parecia uma guerra, o tiro parecia que estourava do lado da gente, tive medo até de ir na varanda". Um dos porteiros do prédio reiterou a sensação de medo.
O desenho começou a ser concebido num pedido de meu filho à minha mulher: "Posso brincar no play com o papai?" A resposta de minha mulher foi que lá era um lugar aberto e que hoje não era um bom dia para brincar. Ela contou tudo o que tinha acontecido, mas que eu já havia buscado a Clara e já estava em casa. Ele chorou e perguntou se tinha acontecido algo com a gente e se poderia voltar para casa. As respostas de minha mulher o tranquilizaram, mas o medo se externou neste desenho.
Sei que há crianças que na idade dele (5 anos) já viram coisas muito piores e violentas, mas quando é perto da gente, o cisco dói diferente. Agora ele conhece o medo de gente grande. Um irônico obrigado aos que permitiram que os traficantes conseguissem todo esse poder de fogo.
No mais, é torcer para que ele tenha bons sonhos e que os fantasmas tenham sido exorcizados neste desenho.
Medos e lembranças
Soares Júnior | Soares Júnior | 16/03/2009 19:02
Todo mundo se depara com alguma dificuldade no seu dia-a-dia. A minha é fazer baliza na ladeira quando deixo minha filha na escola. Saio de casa e subo a rua já pensando na manobra que terei pela frente. Às vezes o carro fica torto, em outras a calota se aproxima mais do que o recomendável no meio-fio, enfim, acontece o mais variado repertório de barbeiragens.
Um dia me enrolei tanto para estacionar, que não teve jeito. Confessei a dona da escola que fazer baliza é um dos meus fantasmas. No entanto o medo é antigo. Data da minha primeira prova prática para tirar carteira.
A habilitação para dirigir foi uma coisa tardia em minha vida. Minha mulher dizia que era um absurdo não ter carteira de habilitação com 30 anos. Uma amiga já dissera uma vez que não dirigir era uma espécie de analfabetismo.
Diante da pressão, fui resolver a lacuna. Ao me matricular na auto-escola, descobri que teria um novo vestibular pela frente. Fui às aulas e depois do número necessário fiz a prova. Aos 30 anos, era o mais velho da sala. Arrebentei e gabaritei o teste teórico. O pessoal da auto-escola me festejou e disse que a prática seria moleza.
Como trabalhava de manhã na rádio, pedi para trocar de horário e avisei o motivo. Eu estava preparado. Sabia de cor a posição que as balizas deveriam estar no espelho. Passar marcha e soltar a embreagem sem sobressaltos. Minha certeza era tal, que o instrutor disse: "faz primeiro para passar confiança para molecada".
Vamos contar a história de diferentes ângulos. Primeiro o da minha mulher. Ela me olhou sair do carro logo após a baliza e perguntou: "agora é assim, faz a baliza e sai do carro?" A resposta não poderia ser pior: "Sai nada, ele foi reprovado".
Agora, do meu ângulo. Entrei no carro confiante, mas no momento em que coloquei o cinto de segurança, um joelho começou a bater no outro. Tinha que colocar o carro na baliza e sair novamente. Comecei a manobra, mas quando percebi, estava com metade do carro fora da vaga. O examinador mandou que eu repetisse a manobra, obviamente. Preciosos pontos foram perdidos ali. Ao tentar estacionar o carro pela segunda vez, derrubei a baliza, isso mesmo, não foi uma encostadinha, derrubei mesmo, sem sutileza. Ao pobre funcionário do Detran, restou me reprovar.
Na rádio, fui recebido com uma irônica salva de palmas. Um amigo gritou: "pode avisar para Rioluz que não precisa mais colocar borracha nos postes".
Tal qual uma fênix, ressurgi para refazer o teste. Passei pela baliza com louvor. Desta vez fiz tudo diferente, fui o último a fazer o teste e não avisei ninguém. Passada esta etapa, pensei: "agora é só andar com o carro para frente". A segunda examinadora entrou e eu fui andar com o carro. Ela refreou meu ímpeto: "você vai partir sem que eu coloque o cinto? Menos um ponto".
Fiquei assustado, e ela continuou: "Tire os pés da embreagem." A ocasião me deixou com o raciocínio binário, tirei o pé da embreagem, mas não coloquei o carro em ponto morto. Tragédia, o motor morreu. Sadicamente ela respondeu: "Menos um ponto."
Em menos de 30 segundos já perdera dois dos três pontos que poderia descartar. Minha prova foi perto do autódromo. Emburrada, meu capitão Nascimento de saias mandou que eu partisse. No retorno, o primeiro problema. Hesitei em sair, uma fila de carros com candidatos a motorista se formou atrás de mim. Saí na marra, com a moça me pressionando. Na reta pensei estar tranquilo, primeira, segunda e ... primeira novamente. O carro quase "empinou" como um cavalo selvagem. A examinadora se desesperou: "Você não tem a mínima condição de fazer a prova, menos um ponto. Encoste para trocar o examinador".
Ao entrar no acostamento, encontrei uma via esburacada e o carro começou a pular como pipoca. A moça saiu do veículo bufando. Ao passar minha ficha para a colega, gesticulava bastante. A outra examinadora entrou no carro e disse: "você deixou minha amiga nervosa". Assenti. Calmamente, ela me orientou: "primeira, segunda, terceira. Ponha a seta, olhe no espelho".
Pensei estar tudo tranquilo, quando repentinamente, uma blitz da Polícia Militar bem no meio da minha prova. Não acreditei, no entanto, meu anjo da guarda, travestido em examinadora do Detran, manteve minha calma e passamos por mais esse obstáculo. Na reta de chegada ela ainda rogou: "não faça nenhuma besteira aqui, para que eu não tenha que te reprovar".
Tive um final feliz, no entanto, toda vez que vou fazer uma baliza lembro da minha reprovação.
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Assisti ao Altas Horas neste sábado. Estavam lá, o onipresente Ronaldo, Tadeu Schmidt, O Rappa e Moraes Moreira. E por falar em lembranças, o que terá pensado Ronaldo ao ouvir "Ferro na boneca", sucesso dos Novos Baianos, cantado por Moraes durante o programa?

























