Blogueiro escreve comovente post de despedida do SRZD

Soares Júnior | Soares Júnior | 21/10/2010 09h00

Minha filha adormeceu no meu colo esta semana. Naquele estágio pré-embriaguez proporcionado pelo sono, ela me disse: posso dormir um pouco na sua cama e muitíssimo na minha depois. Eu concordei.

Quando comecei a escrever neste espaço em junho de 2008, ela tinha dois anos e não imaginava falar muitíssimo. Foram 27 meses nos quais escrevi o que bem quis. Minhas histórias, histórias dos outros, coisas engraçadas e tristes.

Falei da minha falta de inspiração e da imperfeição dos meus textos. Sempre contei com a compreensão do Sidney Rezende, além de total liberdade editorial. Manifestei-me em assuntos nos quais nossas opiniões eram diferentes e não tive o mínimo sinal de censura. Obrigado, Sidney, pelo espírito democrático e pela tolerância com o diferente.

Estou deixando o SRZD por causa de novos desafios profissionais. Após três anos de "diáspora", estou de volta ao Sistema Globo de Rádio. Vou realizar um antigo sonho de trabalhar diretamente na "Rádio Globo", a emissora que despertou em mim, há mais de 30 anos, o amor pelo rádio.

Minhas novas atribuições tomam um tempo que impossibilita me dedicar devidamente ao blog. Não seria honesto com os leitores e com o Sidney, que me franqueou este importante espaço.

Aqui pude sofrer e comemorar com o meu Flamengo. Expressar saudade, amor e indignação.

Despedi-me de amigos que partiram e saudei estrelas que chegavam. Vibrei com o primeiro gol do meu filho na escolinha e lembrei-me dos meus pais, que já se foram. Desnudei-me várias vezes e deixei aqui um pedaço da minha vida.

Obrigado a todos pelo privilégio da leitura, pela paciência com este escriba, que um dia na infância quis ser Superman e Pedrinho, na adolescência sonhou ser a mistura de Machado, Drummond e Nelson Rodrigues. No fim, a realidade o transformou num vira-lata da prosa sem verso algum.

Até Breve!

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Todos os homens erram, até o Zico

Soares Júnior | Soares Júnior | 29/09/2010 23h07

Zico não é Deus. O próprio Arthur Antunes Coimbra insistia em dizer isso e fugir da pecha como o "coisa ruim" foge da cruz. No entanto, nós os abençoados pelo que ele fez com os pés, persistíamos na alcunha.

A pior coisa que poderia acontecer com o Zico é o que ocorre neste brasileiro. Um time sem inspiração, jogadores que reclamam de ser substituídos, treinadores inexperientes, contratações equivocadas. Um rosário de coisas erradas que os crédulos só confiam em São Judas Tadeu para resolver.

Confiavam no Zico, mas o dirigente está muito distante do jogador. O diretor de futebol não pode dizer que demitiu o treinador por causa da torcida, Nem permitir que chefes de facções entrem no vestiário para conversar com o elenco. O Deus da Gávea não poderia permitir coisas que os mortais faziam.

Depois da inacreditável "tirada de reta" que o "comandante" rubro-negro protagonizou, não há clima para que ele permaneça na Gávea. Faz parte do pacote da chefia que você é responsável pelos erros de seus subordinados. Dizer que "não faz gol contra" é se eximir. O Jean só foi (mal) escalado por decisão do professor, então é deplorável se esquivar de responsabilidade.

No mais, por uma daquelas manobras do destino o Flamengo escapou mais uma vez de entrar na zona do rebaixamento. Como um apaixonado torcedor, espero que o Brasileirão 2010 seja triste para o Fla apenas por marcar a falibilidade do "nosso Deus". Que não venha junto a mácula da segunda divisão.

Vade retro!!!

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Olhando o jogo

Soares Júnior | Soares Júnior | 28/09/2010 16h39

Aprendi com um amigo a olhar o "jogo" sem paixões políticas. Não tenho mais 18 anos, comícios e declarações bombásticas não me mobilizam tanto. Hoje em dia choro por coisas mais importantes, como minha filha cantando a balada de uma pobre viúva que está na dúvida com quem deveria se casar.

Despido desta emoção é que penso em algumas coisas. Este negócio das centrais sindicais fazerem um manifesto contra alguns órgãos de imprensa pareceu-me um tremendo tiro no pé. Esse discurso de censura e controle da mídia assusta um eleitor mais escolarizado.

Gostaria apenas de fazer uma reflexão sobre o controle da mídia. Escrevo há dois anos num site que cada vez mais aumenta o número de leitores. Nunca houve qualquer coisa parecida com censura neste espaço. Expressei todas as opiniões que quis. Houve discordâncias, algumas vezes fui até acusado de parcial, mas as críticas e elogios ficaram expostos nos comentários da mesma forma.

O parágrafo de cima é para dizer que acho que chegamos a um ponto em que esse ameaçador controle não pode existir. Os blogs, as redes sociais não vão permitir qualquer surto autoritário. Estamos num período de maturidade democrática, então falar em controle da mídia pode ser apenas uma tática do medo.

Por outro lado, o PT tem uma especial predileção por tornar as eleições emocionantes. O caso Erenice é mais um dos fatos que confirmam esta tendência. Minha querida e saudosa mãe falava que "quem fala demais dá bom dia a cavalo". José Dirceu na Bahia saiu das sombras e falou demais. Ele deveria ser o primeiro a entender que sua presença tira mai s do que atrai votos. Ele foi demonizado no escândalo do mensalão e para o eleitor médio é vilão.

Graças a algumas trapalhadas da campanha petista chegamos à reta final sem saber se haverá segundo turno. No entanto, o comportamento da candidatura do PSDB tornou possível o seguinte pensamento: ou Dilma vence, ou Dilma perde. Não é obviedade, é apenas a constatação de que o resultado das urnas depende mais dos atos governistas do que das estratégias da oposição.

Quando o exercício físico não é tudo

Soares Júnior | Soares Júnior | 27/09/2010 14h32

Andar na Lagoa pode representar um golpe na auto-estima. O primeiro aspecto ruim é constatar que você é o mais novo daqueles que só caminham. O joelho e os milhares de gramas acima do meu peso não permitem que entre nessa onda de corredor.

Tenho amigos que tinham uma vida tão sedentária quanto a minha que agora tão por aí completando a meia-maratona. Outra coisa ruim é perceber que diâmetro efetivo da minha barriga é o maior na minha faixa etária de atuação. Quis a ironia do destino que justamente na minha geração os quarentões tivessem a consciência de malhar e praticar exercícios.

O ippon nas minhas aspirações esportivas se deu na altura do heliponto da Lagoa. Caminhava num ritmo forte, quando de repente fui ultrapassado por duas mulheres. Elas caminhavam freneticamente e colocavam a conversa em dia. Olhei para as duas, a mais nova aparentava uns 50 anos. A mais velha não tinha menos de 70. Tinha o corpo magro. As pernas eram um pouco mais grossas que meus braços. Tinha aquela postura quem em algum momento da vida uma brisa bateu e arqueou o corpo. Para melhorar a cena, levava um guarda-chuva da mesma forma que os soldadinhos de chumbo transportam a espingarda.

E como dizia o narrador esportivo Jorge Cury, "passaram de passagem" por mim e abriram distância. Diminuí o ritmo constatando que jamais terei vitalidade para acompanhar aquelas duas. Mergulhei numa comiseração interna e nem lembro bem como as pernas me levaram para casa.

Despertei do transe quando notei o assoreamento do canal da Rua General Garzon. O personagem de Tom Hanks no filme "Náufrago" viveria tranquilamente na faixa de terra que se formou no canal.

Como faz meses que o local está assoreado cabe a pergunta. Será que os responsáveis desistiram da General Garzon como eu de participar da maratona Rio 2016?    

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Haverá manifestação por Joanna Marcenal Marins em Copacabana neste domingo

Soares Júnior | Soares Júnior | 26/09/2010 10h01

Acabo de receber a notícia que tentaram sabotar a manifestação que parentes da menina Joanna Marcenal Marins vão fazer em Copacabana. Está mantido o ato, será às 16 horas no posto 2 em Copacabana. Qualquer informação diferente dessa é uma tentativa de atrapalhar, tentar fazer com que o caso Joanna caia no esquecimento.


Só pode ser sabotagem entrar no blog, deixar um comentário dizendo que não haveria o ato e ainda assinar como nome de Cristiane Marcenal. A quem interessaria desmobilizar a manifestação? Tenho um palpite que pode ajudar nas investigações. Achem quem tentou e depois descubram porque esta pessoa tem vontade que o caso não seja lembrado.

Os parentes vão fazer uma caminhada reivindicando justiça. Teoricamente, isso deveria envolver todas as partes que sentiram a tragédia que se abateu sobre a menina. Este caso é polêmico, nas vezes anteriores que cuidei do assunto fiquei impressionado com o debate travado nos comentários. Agora essa, foi jogo sujo sabotar a caminhada pela orla de Copacabana.

Joanna não voltará, a família e sociedade querem uma satisfação. Outros casos vão se repetir se esse também ficar impune. Polícia e Poder Judiciário, há respostas que precisam se encontradas, há culpados soltos por aí.

 

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Esquecemos de Joanna Marcenal Marins

Soares Júnior | Soares Júnior | 25/09/2010 21h53

É ruim, mas é recorrente: o jornalismo é muitas vezes superficial. Vivemos de episódios, a manchete de hoje, some da primeira página amanhã e desaparece no terceiro dia. Alguns casos são menos efêmeros, somem em duas semanas.

Este "nariz-de-cera", que só espaços personalistas como blogs permitem, é para falar mais uma vez do caso de Joanna Marcenal Marins. São passados 43 dias desde que a criança morreu. O caso cumpriu seu destino no mundo volátil e meteórico de nossos dias. Ficou em destaque por uma semana e sumiu. Sigilos, nepotismo e manobras eleitoreiras varreram-no do noticiário.

Nesse tempo descobrimos que existem mais falsos médicos em clínicas do Rio do que poderia esperar Hipócrates. Um deles atendeu Joanna e pode ter participação na tragédia que se abateu sobre a vida da menina. No entanto, isso não resolve o caso.

Neste domingo, os parentes maternos fazem uma manifestação na Praia de Copacabana. Os familiares reclamam que passado mais de um mês da morte de Joanna, não há resultado do laudo do IML sobre as marcas que poderiam caracterizar maus tratos à criança.

A falta de resultados pode encaminhar mais esse caso para a impunidade. Há uma menina morta, uma família destruída e o culpado, ou culpados não foram levados às barras da lei.

A sina de Joanna parece continuar mesmo depois de sua partida. A justiça e a polícia mostram-se morosas para com ela. O mais importante, a vida de uma criança de 5 anos, foi perdido. Cabe ás autoridades policiais e judiciárias dar uma resposta à família e à sociedade.

 

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Erenice Guerra, o contrapeso e a bala de prata

Soares Júnior | Soares Júnior | 16/09/2010 21h33

Quando o balão vai subir, os responsáveis pela manobra jogam os pesos fora. Isso faz com que objeto voador ganhe altura e possa seguir sua trajetória. A decisão do presidente Lula teve a destreza do piloto do balão. Erenice Guerra se transformou num contrapeso incômodo e foi jogada para fora do cesto.

No episódio do suposto dossiê sobre a família de Fernando Henrique Cardoso, seu nome já emergira das sombras. Como a opinião pública não prima pela memória, ela foi esquecida. Virou sucessora de Dilma Rousseff e teve que sair por acusações nada republicanas.

Erenice Guerra foi retirada, do mesmo cargo do qual José Dirceu fora atirado após o escândalo do Mensalão.  Ou ainda como Palocci, na quebra do sigilo do caseiro Francenildo. Esta é a forma de operação do presidente Lula, inconvenientes jogados para fora.

Numa primeira análise, o caso é um prato cheio para a candidatura Serra. Erenice era braço-direito de Dilma e poderia ser finalmente a "bala de prata" contra a candidata petista.

No entanto, intriga-me a folha corrida do denunciante. O homem já foi condenado por receptação de mercadoria roubada e dinheiro falso. Além do que, apresentou uma versão que certa vez quis se filiar ao PSDB, mas não sabe se o processo foi finalizado.

Claro que comprovadas as denúncia de tráfico de influência, a ex-ministra deve ser condenada. Porém, todo e qualquer fato que surge agora sempre vem contaminado com a conotação política. Com um pouco de perspicácia, dá para perceber quem está ao lado de quem  na cobertura dos fatos. Enquanto isso, o nível da campanha rasteja e assuntos como as reformas política e da Previdência são tangenciados, sem aprofundamento.

As pesquisas dirão se o "Erenicegate" vai afetar o voo de brigadeiro alçado por Dilma Rousseff rumo à vitória no primeiro turno.  Ou se uma vez mais, o bem estar social percebido pela grande maioria da população vai blindar a mãe do PAC.

 

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Carta ao Rafael

Soares Júnior | Soares Júnior | 16/09/2010 14h27

Rafael, apesar do seu futuro provavelmente vascaíno, você já chegou me trazendo alegrias. Por causa da sua chegada, fui poupado de ver o Flamengo sofrer para derrotar a "potência prudentina".

Daqui a sete anos você vai ver as mensagens que eu e seu tio deixamos na gravação da sua chegada. Tentamos evitar palavrões, mas o adiantado da hora não permitiu.

Você será um cara surpreendente. Seus pais não sabiam se você chegaria no dia 15, ou 16.  Tal qual o Toró, que salvou a nação rubro-negra em cima da hora, você resolveu ser um dos últimos do dia 15, em vez de ser um dos primeiros do dia 16. Eram 23h54, quando você decidiu mostrar o seu rosto.

Algumas coisas que cercaram sua estréia. Primeiro: você deveria chegar daqui a duas semanas, mas resolveu que a "placentinha" das 3 da tarde não era suficiente. Outra: quando seu pai conversou com o obstetra, descobriu que era dia do aniversário de 84 anos da mãe do médico. Quando chegou o anestesista, a revelação que a mãe dele completava 81 anos naquele dia. As duas estavam abençoando você.

A julgar pela longevidade das pessoas que nasceram no seu dia, você vai chegar tranquilamente a 2101 e acompanhar a virada para o século 22. Quem sabe em Copacabana, onde eu, seu pai Márcio, sua mãe Ticiana, sua tia torta Ana Cláudia e muitos amigos passamos para o século 21.

Saúde, paz, amor e sorte nessa estrada que você ainda nem engatinha. Ver a chegada de alguém ao mundo só renova o amor que temos pelos nossos filhos, os filhos de nossos amigos e por todos.

É uma oportunidade de esquecer a acidez, o pessimismo e lembrar das jornadas que começam, dos sabores que ainda virão e que a vida é muito mais do que podemos expressar.

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Água de coco armada

Soares Júnior | Soares Júnior | 14/09/2010 17h31

A rua nos surpreende com histórias quase ficcionais. Essa que vou contar não aconteceu comigo, fiquei sabendo durante um cafezinho na sala dos professores. Uma de minhas nobres colegas tomava uma inocente água de coco no calçadão de Copacabana.

Uma mulher idosa naquelas cadeiras de roda motorizada, que parecem até com motocicletas se aproximou. Como não havia lugares disponíveis, minha companheira de trabalho abriu um espaço para que a idosa pudesse também saborear uma "aguinha" de coco ao entardecer.

A senhora começou a puxar assunto. Em pouco tempo a mulher já havia revelado que era pensionista de um governo estrangeiro e que morava sozinha no bairro. Quando a professora minha conhecida perguntou se ela não tinha medo da violência em Copacabana, veio a resposta surpreendente.

Dentro da cestinha que carregava junto ao guidão da cadeira de rodas a mulher carregava uma pistola. O espanto diante de tal revelação despertou também um temor na minha colega. A senhora ainda se vangloriava de que arma era de prata e brilhante.

As duas se despediram, mas eu fiquei pensando em várias opções de desdobramento do caso. Por exemplo, a velhinha poderia puxar a arma para alguma bicicleta que impedisse o seu caminho e o faria o condutor fugir apressado. Outra hipótese é de que numa eventual demora no momento m que o trânsito demorasse a fechar, ela puxaria a arma e forçaria a parada dos carros e seguiria no asfalto.

Na prática o que me instigou foi a posse de uma arma por parte de uma mulher que tem coragem de fazer confissões surpreendentes durante um contato trivial com alguém que ela nunca vira. Já que o estatuto do desarmamento foi derrubado em plebiscito, é necessário tirar as armas de bandidos e de pessoas que não têm a menor condição de usá-las. 

 

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Daqui a pouco vai começar nova procura por técnico na Gávea

Soares Júnior | Soares Júnior | 09/09/2010 17h07

Tenho a impressão que o Silas já perdeu o controle do grupo do Flamengo. Sei que três partidas não deveriam servir como parâmetro, mas a reação de Corrêa no banco e a declaração de Ronaldo Angelim no intervalo deram-me esta impressão.

O volante trocado aos 19 minutos do primeiro tempo não conseguia olhar para o campo. Já o veterano zagueiro disse que o time não podia se desorganizar taticamente. O flerte do rubro-negro com a zona do rebaixamento é uma realidade. Pegar o rápido time do Vitória pode ser a entrada no grupo do desespero. Depende do que fizer o Atlético Mineiro contra o Vasco.

Deivid está fazendo a mesma coisa que o Val Baiano, isto é, nada. Diogo pode queimar minha língua, mas não parece valer o que o Flamengo pagou por ele. O chute na trave pode mascarar a indolência do comportamento de Léo Moura na partida. Errou passes que não podia e ainda tomou um cartão amarelo no fim que o tirou da partida do fim de semana. Juan não acerta um cruzamento há umas duas temporadas e Renato Abreu não disse ao que veio.

A conta realista do torcedor é fazer contas para mais 24 pontos no returno, assim escapa da humilhação suprema. O jogador Zico não merece que o Flamengo caia para a segunda divisão, mas o dirigente parece ratear. O Galo foi corajoso ao descer do pedestal e se expor como um simples mortal. No entanto, a situação está pedindo mais.

Palpite pessimista, mas infelizmente viável. Mais duas derrotas e Silas vai estar "na pista" como Rogério Lourenço e Andrade.

Tudo é uma questão de referência

Soares Júnior | Soares Júnior | 08/09/2010 12h38

Achei até que demorou, mas a campanha da candidata do PT, Dilma Rousseff, começou a explorar mais fortemente o fato de ela ser mulher.  Não sei julgar a eficácia da estratégia, acho que a questão é ultrapassada. Tive uma mãe-leoa e chefes mulheres, além disso, minha mulher, minha filha e cinco irmãs aproximam-me do universo feminino. Claro, nem ouso dizer que entendo, pois, há uma incompatibilidade de gênero. Mesmo o Chico Buarque, nosso embaixador nas questões femininas, apenas tangencia a compreensão dos problemas das mulheres.


Foi interessante notar que o presidente Lula foi escalado para bater no candidato tucano. O nome de José Serra não é citado, mas o presidente falou do "nosso adversário". Minha dúvida é se Serra vai partir para o confronto. Bater no que alguns chamam de "Lula-Cícero-Vargas" pode ser a debacle da campanha do PSDB. Outro aspecto que me chama atenção na campanha é que acreditar numa Dilma sensível e maternal é tão fácil quanto na simpatia e jovialidade do Zé tucano.


Marina e os artistas na TV despertam em mim lembranças da mobilização de 89 em torno de Lula. O problema é que a campanha verde parece-me adolescente. O jogo é pesado demais, às vezes tenho dúvidas se ela aguenta o tranco.


                                        ***


Eu e minha mania musical. Pensei em Ideologia do Cazuza: "Meus herois morreram de overdose, meus inimigos estão no poder".  A situação descrita pelo poeta poderia ser pior: era só mudar a frase para "Meus herois viraram inimigos e agora estão no poder".  Herois ou inimigos é apenas uma questão de referencial. Em muitas oportunidades depende da faixa etária que se tem quando faz o julgamento.

Não combinaram com os russos

Soares Júnior | Soares Júnior | 07/09/2010 01h22

Se eu fosse um consultor de carreiras, eu aconselharia a profissão do momento: traficante de cadeirinhas para carro. O artigo é um dos mais procurados na minha faixa etária. Percorri dois shoppings atrás da "parada".

Consegui depois de encomendar numa grande cadeia de lojas. A entrega acontece em oito dias úteis. Mas a odisséia é interessante. Na primeira loja, a óbvia primeira negativa. Com um sorriso nos lábios o vendedor me disse que não estavam aceitando encomendas, pois não havia prazo de entrega. O mesmo se repetiu em outros seis estabelecimentos, até que a loja aceitasse.

Meus filhos são os bens mais preciosos que tenho, tanto que não dá nem para pensar em valores. Fico apenas com uma dúvida, se a lei é tão indispensável assim, por qual motivo os veículos de transporte escolar ainda não estão obrigados a usar?

Esqueceram de combinar com os "russos", isto é, com as fabricantes de cadeirinha. O problema é com as crianças maiores, para os mais novos a dificuldade diminui.

Então fica o conselho, quer aproveitar um negócio de ocasião, venda cadeirinhas de carro para pais desesperados.

                                             ***

Cena fictícia, mas plenamente plausível. Vou pegar emprestada a hipótese levantada pelo meu amigo Paulo Alberto:

Vinte e dois de maio de 2013, você comprou o setor b-11, cadeira 35. O objetivo é ver Flamengo e Americano pelo Campeonato Carioca. Chegando lá, há um torcedor ensandecido, empunhando a bandeira de uma torcida organizada. O que você faz? Conversa com o cidadão ponderadamente para que ele faça o obséquio de sair do seu lugar? Senta em outro lugar que está disponível? Vai embora e nunca mais volta ao estádio?

A cultura "maracaniana" vai precisar passar por mudanças. Torcidas organizadas e lugares marcados são incompatíveis na situação atual. Os responsáveis pelo new-maraca vão ter que agir.

                                       ***

Tudo foi nostalgia no Maracanã. Lembrar da primeira vez que vi meu time campeão, no estádio. Ver meu filho cantar as musiquinhas, aplaudir e roer as unhas por causa do futebol arrancou discretas lágrimas desta manteiga-escriba. Agora, só amor de pai para aturar banheiro sujo, empurra-empurra na hora do intervalo e a inoperância ofensiva do Flamengo. Honestamente, minha conta é de mais 26 pontos no segundo turno. Este ano já foi. O negócio é não cair.

A melhor música que cantei que não é minha

Soares Júnior | Soares Júnior | 03/09/2010 13h03

Pensei em fazer um exercício musical diferente. É assim: escolher uma música em que o grande compositor só entra como intérprete. Algo como "a melhor a música que cantei que não é minha", que dá título a esta coluna.

Minha lista começa com a interpretação irreparável que Milton Nascimento faz de "Beatriz". Às vezes tenho a impressão que apenas Milton, em forma, é capaz de alcançar a extensão vocal necessária para interpretar a canção de Edu Lobo e Chico Buarque.

A segunda é a interpretação encantadora que Chico Buarque faz na nostálgica "O Caderno" de Toquinho e Mutinho. Acho que nesta canção tem a frase que pode ser a introdução de conversa entre um pai e o filho adolescente. "A vida se abrirá num feroz carrossel e você vai rasgar meu papel".

A terceira é Caetano Veloso cantando "Sonhos" de Peninha.  A música parece dele. Essa música tem também a frase que pode retratar o começo de muitos amoré:"Tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo, de repente eu me vi assim, completamente seu".

Caetano está também na quarta da minha lista. A composição é "Lua e estrela"´de Vinícius Cantuária. A música  ficou tão "Caetana" que um desavisado que procurar no Google erraria na pesquisa. "Lua e estrela" é um retrato de um Rio pós- ressaca do desbunde. "quem sabe eu te encontro de noite no Baixo" pode ser dita tranquilamente a um furtivo amor de tarde até hoje.

Essa é a minha lista. Quem quiser contribuir, aumentando-a, é só mandar.

                                                    ***

Carolina mostrou o rostinho nesta quinta, dia 2 de setembro. Parabéns Duda e Cris pela chegada dela. Uma vida iluminada, certamente a espera.

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A recenseadora, o ascensorista e os fragmentos superficiais da vida

Soares Júnior | Soares Júnior | 02/09/2010 00h40

A recenseadora do IBGE, responsável pelo meu edifício, passou por uma saia justa. Ao perguntar, num dos apartamentos, qual era a raça do dono da casa, foi convidada a se retirar. A pessoa, que ela não identificou, obviamente, disse que não responderia aquela pergunta absurda e convidou a moça a se retirar.

Fiquei pensando no que poderia motivar tal reação. Por qual motivo alguém se irritaria ao ser perguntado sobre raça? Notem bem, estamos no século 21, a nação mais poderosa do mundo é governada por um negro e temos há oito anos um presidente saído das camadas mais populares da sociedade. Mesmo assim encastelado nos apartamentos da classe média, ainda reside um sentimento profundo.

A recenseadora que fez a entrevista da minha casa é psicóloga. Quase pedi a ela uma explicação profissional para a atitude do meu vizinho. Ao me fazer a mesma pergunta, ressabiada pela experiência anterior, ela até titubeou. Disse para ela que eu sou tão misturado, que não havia opção, mas escolhi uma delas. A entrevista continuou depois, para a tranquilidade dela.

Para se irritar com a pergunta étnica, a pessoa deve estar mal resolvida com a situação. Pragmaticamente, a gente vira número logo depois da entrevista. Não mostramos fotos ou documentos durante a visita, portanto, todas as perguntas podem ser respondidas sem constrangimentos.

Em cinco minutos o recenseador faz perguntas íntimas e triviais e depois vai embora. Ele sabe bastante sobre a vida do entrevistado. Depois, tem que ir a outra residência para saber um pouco mais. Tudo vai para um palm top. Será que no fim do dia ele se lembra de alguma coisa que perguntou? Ou sobrenomes, rendas e etnias se misturam na sonolenta volta para casa?

Já que descobre pedaços da vida das pessoas, o recenseador deve se sentir um pouco como o ascensorista no elevador. Ouve muitos fragmentos de conversa, mas não consegue concluir nenhuma história. No entanto, num dia desses vi um ascensorista mudar esta lógica. Ele colocou uma nota falsa de R$ 100 no chão. O homem se divertiu quando uma das pessoas fez uma cena para pegar a nota do chão. Ele prestou atenção em detalhes de como o rapaz se abaixou, fingiu amarrar o sapato e guardou a nota. Depois contava aos íntimos que entravam no elevador o êxito de sua experiência antropológica. Pelo menos naquele momento, uma das histórias dele se concluiu.

Não é função da recenseadora se envolver com os objetos da pesquisa. No entanto, sua presença me fez refletir em quantas vezes exerci o jornalismo fazendo perguntas que se tornariam apenas Estatística. Ou ainda, quantas oportunidades perdi de me aprofundar em histórias pelo simples fato de que elas passaram, eu as reportei e peguei outros casos para levar ao público.

Este texto tenta exorcizar minha crise contra a superficialidade que assola os fatos, as coisas e as pessoas.

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Adeus, JB

Soares Júnior | Soares Júnior | 31/08/2010 04h00

Hoje o jornalismo do Rio fica mais triste. Circula neste dia 31 de agosto a última edição impressa do Jornal do Brasil. Para milhões de íntimos, JB. Os atuais administradores do veículo estão numa campanha de convencimento que a migração total para a Internet é comparável à revolução que o diário de Nascimento e Britto fez nos anos 60.

Não é bem assim que a banda toca. Para se ter uma idéia, é preciso haver um programa para publicação das matérias no site. Até ontem (30/08), a maioria dos jornalistas não tinha sido treinada. O jornal postou na grande rede uma espécie de protocolo de intenções com 50 itens. Lá, há uma conversa de JB sustentável e de poupar árvores que parece uma desculpa esfarrapada.

O problema é que a morte do veículo estava anunciada, e essa história de ir para a Internet cheira um pouco a improvisação. Reengenharia, adequação parecem eufemismos para demissões e diminuição.

Nenhuma hegemonia é positiva, com a saída de cena do JB, o público leitor fica cada vez mais com apenas uma opção de jornal. Nem o Globo deve gostar dessa solidão. A falta de concorrência costuma fazer mal. Faltam desafios, gatos engordam. Durante muitos anos o JB representou o contraponto, a visão diversa. Esta publicação pálida, não por culpa dos profissionais que lá atuam, deixou de provocar repercussões como outrora.

O Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro pretende acionar na justiça a direção do jornal para dar alguma garantia aos profissionais demitidos com o projeto "100% digital". Mais uma ação judicial que se junta às milhares que se acumulam na justiça trabalhista, contra o que foi o JORNAL DO BRASIL.

 

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Perdido do outro lado da Ponte

Soares Júnior | Soares Júnior | 30/08/2010 10h07

Acho que Niterói é um buraco negro no espaço. Nada contra a aprazível cidade que já foi capital do Estado do Rio de Janeiro. O problema é com o GPS do meu cérebro. Lembro-me que todas as vezes que substituí o Genilson Araujo no Helicóptero, torcia para que nada acontecesse no trânsito do outro lado da Baía de Guanabara.

Eu decorei os acessos à ponte e dava a melhor opção para o motorista, quando tinha alguma. Um amigo que mora lá diz que um dia vai acontecer um acidente na Ponte e que os moradores de Niterói serão resgatados em seus carros três dias depois. Outro sempre dizia que ir para o Rio de carro na sexta-feira é coisa de amador.

Por uma daquelas coincidências da vida, tive dois aniversários em Niterói no mesmo dia. Preparei-me psicologicamente para enfrentar meus traumas. A chegada no primeiro compromisso foi menos difícil. Não houve congestionamentos, me perdi um pouquinho, mas para reencontrar o caminho passeei na orla de Icaraí, que tem uma belíssima vista.

Encerrada a primeira etapa do tour niteroiense, dirigi-me para a outra festa. O segundo compromisso era em Piratininga, meus estagiários que moram por lá preveniram-me que era distante. Intrépido, entrei no carro e fui em direção ao desconhecido. Para começar, as ruas não coincidiam exatamente com o que eu havia colado do Google Maps. Meu anfitrião me disse para não confiar cegamente na ferramenta, pois a lógica de Piratininga desafiava as inovações tecnológicas. Para minha suprema humilhação, tive que ligar para o dono da festa solicitando o resgate. Um detalhe indispensável para o entendimento da situação. O número 597 da rua em que mora meu amigo é do lado do 1330. Só para deixar claro que a culpa não é só minha.

A festa foi ótima. Tinha uma galera que tocava músicas antigas, chorinho, tudo ao som de cavaquinhos, pandeiros e saxofone. A comida da melhor qualidade e as pessoas interessantes. O lugar amplo era um paraíso para os meus filhos. Eles brincaram bastante, apesar do certo receio que tiveram dos gatos da casa.

Na volta, dei carona para os pais do anfitrião. Conheço a família há mais de 20 anos, mas me dei conta que nunca havia dirigido para o casal e senti um pouco o peso da responsabilidade. Coloquei seu Rufino no banco da frente, ao meu lado. Dona Balbina foi atrás com minha mulher e as crianças.

Estava começando a epopéia da volta para casa. Vamos ao lead, num caminho que deveria levar no máximo 40 minutos, levei uma hora e quarenta. Como isso aconteceu é o que veremos a seguir.

Fui bem até uns 15 minutos de viagem, mas numa bifurcação sem sinalização fui para o lado errado. Sem conhecer os lugares que as placas indicavam fui seguindo até que uma placa sinalizava Itacoatiara. Dona Balbina no banco de trás deu o alerta, "Devia ser São Francisco e Icaraí". Peguei um retorno para tentar voltar.  Dirigi numa estrada longa e escura até que numa praça vi uma moça com a camisa do Fluminense parada. Abri o vidro e perguntei: "Moça, como faço para pegar a Ponte"? Ela me respondeu, mas quando começou a falar não era propriamente uma moça. Com a voz um pouco em falsete a pessoa me respondeu que tinha que voltar. Ao me despedir falei: "obrigado, irmão". Acho que tentando me desculpar pelo primeiro erro. Educadíssimo (a), abençoou-me com um "vá com Deus".

Retomei o caminho da luz, quer dizer do Rio. Só que havia mais uma bifurcação. Parei num posto e perguntei ao frentista se aquele era o caminho para a Ponte. Numa prova de que aquela noite prometia, fui surpreendido com a reação do homem. Ele não sabia!

Pensei, "como assim"! Achei que todo mundo em Niterói soubesse chegar na Ponte. Um motorista que abastecia, socorreu-me, dando as indicações.

Ao deixar os pais do meu amigo em casa depois de 100 minutos perdido na Região Metropolitana do Rio, seu Rufino cumprimentou-me dizendo que sou um motorista muito calmo. Agradeci o elogio, pedi mil perdões pelo tempo gasto. O pior disso tudo, é que nem sei por onde andei quando estava perdido.

 

 

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Comentários sobre a campanha eleitoral de rádio no Rio de Janeiro

Soares Júnior | Soares Júnior | 27/08/2010 09h12

Ouvindo os programas de rádio na campanha eleitoral do Rio de Janeiro, acho necessário destacar algumas coisas. O programa do candidato à reeleição, Sergio Cabral tem uma pegada popular. A escolha do comunicador Clóvis Monteiro indica nesta direção. Monteiro é identificado com o público da rádio Tupi, que atua no segmento mais identificado como "povão".

É a estética do que antigamente se classificava como "universo AM", de um tempo em que essa divisão era mais esquemática do hoje em dia. Há conversas entre Clóvis e Cabral, além da participação de repórteres e muito povo-fala. É possível perceber também a estratégia de interiorização da campanha de Cabral. Com o ex-governador Anthony Garotinho fora da corrida pelo Palácio Guanabara, os eleitores do antigo Estado do Rio parecem ter encontrado um novo "fiel depositário das suas esperanças". Mesmo sem um candidato competitivo do clã Garotinho, a estratégia da campanha de Cabral é a da comparação com a administração anterior, reconhecendo no homem forte do PR o adversário a ser controlado. Cabral usa também o cabo eleitoral-mor do país, o presidente Lula. Um erro na minha modesta opinião foi ter aposentado o bom jingle "Pra ficar legal".

Por sua vez, Anthony Garotinho tenta o milagre da transmutação que o presidente Lula parece ter conseguindo no plano federal. A vinheta do programa já explicita a estratégia: "Garotinho é Peregrino", em seguida a voz de Garotinho endossa o candidato. O Rio Maravilha pintado por Cabral é posto de outra forma. Com menos dinheiro e menos tempo, a campanha Garotinho/Peregrino tenta desconstruir Cabral, e pelo o que as pesquisas vão demonstrando, o recurso não se mostra eficaz.

A campanha de Fernando Gabeira, do PV, segue a chamada "estética de FM". Uma locutora faz as perguntas para Gabeira, que responde com calma e num tom "mais para baixo".  Os verdes mantiveram o jingle "O Rio de Gabeira", que pega e até meu filho de 7 anos cantarola. No entanto, a calma de Gabeira pode ser confundida com parcimônia ou falta de combatividade. No primeiro dia de propaganda depois do caso de São Conrado, faltou agilidade ao programa do Partido Verde. O assunto foi abordado superficialmente. Quando tentou voltar ao tema, no programa seguinte, a campanha de Cabral já conseguira prepara um bom programa de defesa. Apesar de ser apoiado por dois candidatos à Presidência, os nomes de José Serra e Marina Silva não têm sido mencionados na campanha de Gabeira.

Na disputa das vagas pelo Legislativo o destaque fica para o inacreditavelmente ruim spot sobre o pró-jovem, iniciativa do PT. Na peça há um inverossímil diálogo de um casal, que a filha é beneficiada pelo programa. O Partido dos Trabalhadores, sempre tão competente nos seus programas, desta vez mandou a bola na bandeirinha de escanteio.

 

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O bom e o ruim da operação em São Conrado

Soares Júnior | Soares Júnior | 23/08/2010 12h40

A euforia e o mundo de faz de conta que às vezes pensamos do Rio caem por terra quando fatos como os de sábado acontecem.  Um amigo perguntou entre surpresa e ironia se aquela tinha sido a primeira vez que o Intercontinental fora invadido. De fato, ao constatar que na hora em que precisaram os bandidos entraram no hotel, dá sensação de impotência.

As obras do PAC na Rocinha podem ser um começo, mas ao que parece, as Unidades de Polícia Pacificadora estão fazendo simulados em outras comunidades. O vestibular é a Rocinha. A inteligência empregada em outras UPP’s deve ser ampliada numa ocupação na maior favela da Zona Sul carioca.

Na guerra da Rocinha entre Lulu e Dudu, em 2004, estive na favela algumas vezes. Numa delas, travei um diálogo que pode ilustrar alguns problemas para atacar questão.  Conversava com o comandante do batalhão do Leblon na época. Estávamos numa área descoberta, usada por uma empresa como garagem dos seus ônibus. Notei uma movimentação na mata e perguntei ao policial se eram bandidos. Ele respondeu que sim. Perguntei se estávamos seguros ali, ele me disse que sim, pois os bandidos sabiam que se atirassem nos jornalistas, a situação deles iria piorar. Fiquei preocupado, pois a minha segurança dependia do bom senso dos bandidos.

Bom senso que faltou ao bando que invadiu o hotel. Pelos relatos do jornal, um deles teria argumentado que entrar no hotel era burrice, pois os encurralaria. O número de mortes poderia ter sido bem maior. No entanto, o estrago na imagem da cidade é incalculável. Sorte carioca que a escolha da sede de 2016 aconteceu há quase um ano. Se fosse agora, seria um obstáculo a mais para a candidatura brasileira.

O secretário Beltrame parecia sereno. Disse uma coisa tranquilizadora, não vai mudar o que acha certo por causa de um episódio. Ruim foi descobrirmos que no lugar da entrevista de um governador, recebemos a nota do candidato ao governo. Em momentos de tensão para os moradores do Rio, é necessária a presença do responsável final pela segurança. Aparecer só nos bons momentos é fácil. Vale a máxima do religioso na hora do casamento: "na saúde, na doença, na alegria e na tristeza".  

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Música e esporte

Soares Júnior | Soares Júnior | 20/08/2010 13h26

Como é sexta-feira resolvi pensar em coisas leves. Toda vez que penso em frivolidades, músicas chegam à minha mente. Acho que sou um arremedo de Mário Fofoca. Para os que nasceram depois da Copa de 86, a explicação é a seguinte. Mário Fofoca foi criado por Cassiano Gabus Mendes para a novela Elas por elas, depois virou seriado, filme e ressurgiu na nova versão de Ti-ti-ti. O genial personagem de Luis Gustavo cantava as mulheres com letras de música. Ele olhava a amada e dispara: "Às vezes você me azucrina, me entorta a cabeça...", em outra ocasião dizia: "não dá mais pra segurar, explode coração".

Claro que é questionável a eficácia do método, mas sempre procuro paralelos musicais em situações do dia a dia. Por exemplo, quando vejo um relacionamento começar, penso que ele almeja ser o terceiro a chegar na música Terezinha, de Chico Buarque, aquele que chega do nada  e se instala feio um posseiro dentro do coração dela.

Quando vejo casais que ficaram juntos muito tempo e decidem romper, é inevitável pensar em Eu te amo, de Tom e Chico. Principalmente naquela frase: " Se na desordem do armário embutido, meu paletó enlaça o teu vestido e o meu sapato ainda pisa no teu".

Um casal que se encontra numa idade madura me faz lembrar Cazuza, em Todo amor que houver nessa vida: "Eu quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida".

Volto a Chico Buarque quando vejo aquelas pessoas performáticas em que o comportamento sempre me parece ambíguo. A lembrança é de um trecho de Ela faz cinema: "Quando ela mente, não sei se ela deveras sente o que mente para mim".  A música fala de uma mulher, mas essa característica é comum dos dois gêneros.

Para encerrar meu tour musical penso em Andre Dória, de Renato Russo, toda vez que quebro a cara ao não planejar alguma coisa: "Às vezes parecia que era só improvisar, que o mundo então seria um livro aberto. Até chegar o dia em que tentamos ter demais, vendendo fácil o que não tinha preço".


                                                             ***

Com Deivid e Diogo o Flamengo pode brigar pela Libertadores. Título é muito difícil. O problema é que antes deles estrearem tem o Atlético-PR, na Arena da Baixada. Previsão de choro e ranger de dentes.

 

Nascer e morrer muitas vezes

Soares Júnior | Soares Júnior | 19/08/2010 16h50

Ver fotos antigas desperta em mim um sentimento ambíguo. Olhar uma imagem de 10, 15 anos atrás dá um misto de vergonha alheia, constrangimento próprio e nostalgia. Pensar nas roupas que usávamos, no corte de cabelo e nas idéias que tínhamos é uma oportunidade de refletir no caminho que traçamos até ali.

É óbvio que o tempo é inclemente em alguns aspectos. Ladeiras ficam mais íngremes, por exemplo. Outra característica é o medo servindo de filtro ao ímpeto. Alguns chamam isso de sabedoria, outros de processo de "encaretamento", mas na verdade é apenas o inexorável passar do tempo.

A leitura de um texto da Marcela Capobianco no blog Cena Seguinte, me inspirou a pensar quando lancei um olhar inteligente sobre a minha existência. Só para explicar, ela cita um trecho do livro Meu nome não Johnny. Lá, a juíza que cuidava do caso mandou uma carta para João Estrela na prisão. No texto a magistrada dizia que a gente nasce quando joga um olhar inteligente sobre a nossa existência.

Fiquei apreensivo, pois não conseguia lembrar quando, ou se alguma vez, fiz esta reflexão. Acho que nunca lancei esse tal olhar inteligente. Não é uma tese contrária a defendida no livro, é apenas um outro tortuoso caminho do pensamento. Acho que nasci diversas vezes. Uma delas foi quando eu quis ser o super homem e me sobrou a profissão do Clark Kent. Outra foi quando eu percebi que apesar de ser afinado, nunca seria um "band leader", para citar Jorge Ben(jor).

Nasci em outras oportunidades, por exemplo ao casar e ter meu filhos. Inclusive no primeiro, eu tive um princípio de pânico. Foi quando minha querida e saudosa sogra deixou-nos sozinhos com o Pedro. Pensei no Ira: "se meu filho nem nasceu, eu ainda sou um filho". Naquele momento nascia um pai, sem a mínima idéia do que aquilo representaria.

Acho que nasci muitas vezes, no entanto, isso não representou necessariamente a morte de algo em mim. Apesar das primeiras rugas aparecendo e os cabelos deixando de ser tão fartos, sinto-me uma criança em muitas horas. Deve ser de família. Minha mãe aos 71 anos disse que se olhava no espelho e via a menina de 17 anos.

 

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Joanna Marins: a bola está com os homens da lei

Soares Júnior | Soares Júnior | 16/08/2010 22h52

Olho para os meus filhos enquanto eles dormem. Em muitas oportunidades eles estão com um sorriso no rosto. Pode parecer estereotipado, mas acho que consigo imaginar o que provoca aquela expressão. Ele pode estar pensando num jogo de futebol, ou num prato de sushi de salmão, já que é meu filho. Ela, num vestido rosa de princesa.

Não sei quando os objetos destes sonhos vão se transformar, mas espero que essa transformação ocorra com sabor de descoberta e de aventura.

Joanna Marins não terá essa oportunidade. Lembro da história que ouvi da ocasião de sua despedida de Cristiane Marcenal. Na ocasião, a filha disse que a mãe a partir dali só teria duas filhas. Um grande amigo disse-me uma vez que filhos são flechas que lançamos no mundo. Acho que Joanna não chegou a ser lançada. No campo das metáforas talvez a melhor imagem fosse de um cometa. Rápido e belo.

Vamos aos fatos que a polícia deve buscar respostas. A menina tinha sinais de maus tratos, de acordo com os investigadores. Além disso, foi atendida por um falso médico num hospital particular na Barra da Tijuca. O assunto deve ser esgotado. Não pode cair no esquecimento. O drama dos dias de luta pela vida no CTI do hospital acabou da forma que mais se temia, porém esta era a mais provável.

Pelos comentários deixados em textos anteriores, os lados envolvidos lançaram-se em trocas de acusações, mas este escriba vai se ater aos fatos. O primeiro, eu vi o documento da 5ª Vara de Família da Comarca de Nova Iguaçu. No laudo assinado por Cristina Segheto Rodrigues, responsável pelo expediente naquela data, Joanna aparentava estar bem cuidada e trouxera seus pertences pessoais. Além disso, segundo a polícia, os sinais de maus tratos datam de um período de 40 dias, período em que a menina estava sob a guarda de André Marins. Não são declarações tendenciosas, como andaram comentando por aqui, são informações da polícia. Repito, o bastão está com os "homens da lei". Eles devem esclarecer o que houve.

A pior batalha já foi perdida, Joanna não estará fisicamente com a família no dia 20 de outubro, dia que completaria 6 anos. Ela será apenas uma bela, porém dolorida lembrança. Em vez de sonhar, ela agora será objetos dos sonhos.

Lembro que a primeira vez que chorei numa matéria foi vendo duas crianças sendo retiradas sem vida dos escombros de um desabamento. Aquela imagem me assombra, por antinatural. O ciclo da vida deve ser os filhos enterrando os pais, não os olhos maternos inundados pela imagem do seu anjo se despedindo para sempre.

O texto é melancólico porque não há poesia, humor, graça ou beleza na morte de uma criança. Existe apenas luto na alma.

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Adeus, Joanna Marins

Soares Júnior | Soares Júnior | 13/08/2010 19h22

Acabou a luta de Joanna Marcenal Marins. Ela morreu nesta sexta-feira, 13 de agosto. A menina ficou quase um mês em coma num hospital em Botafogo, Na Zona Sul do Rio. O corpo será levado Para o IML. O enterro deve acontecer no cemitério Jardim da Saudade, Edson Passos, na Baixada Fluminense.

Joanna morreu e agora a polícia está com uma série de perguntas para buscar respostas. O que mais importava nesta história era a própria menina. Palavras como enterro, IML e morte não devem combinar com uma criança de 5 anos. Infelizmente, a realidade é assim mesmo.

A pequena resistiu, chegou a contrariar as expectativas dos médicos que atenderam. No entanto, o edema no cérebro era muito forte e Joanna teve uma parada cardíaca e não conseguiu continuar o caminho da recuperação.

A dor de perder um filho é indescritível. Nesse momento as orações devem ser para que os parentes de Joanna tenham força para superar esta perda. Vá em paz, Joanna. E que se a polícia concluir que houve maus tratos, que os culpados sejam condenados e paguem pela crueldade de acabar com uma vida.

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Programa Casé, filme imperdível

Soares Júnior | Soares Júnior | 13/08/2010 09h00

Ao ser entrevistado para o documentário sobre Ademar Casé, o compositor Braguinha já tinha o olhar um pouco perdido. O registro é do ano 2000, o compositor de jóias como "Carinhoso" já contava com a idade de 93 anos. No entanto, a câmera de Estevão Ciavatta foi sensível para flagrar um momento em que Braguinha balançava os braços. Ele regia uma música silenciosa. Companheira de muitos anos, a mulher dele interrompeu a entrevista e falou "lá vai ele cantar a música que eu não gosto". Na sequência, Braguinha canta a canção a qual a mulher se referira.

O olhar perdido a que me referi, dá lugar a uma expressão malandra e sedutora. Braguina morreu aos 99 anos em 2006, acho que um dos segredos da longevidade foi ter a música na cabeça.

O documentário Programa Casé é programa obrigatório para quem gosta e quer entender a história da comunicação eletrônica no Brasil. O diretor, Estevão Ciavatta, é marido de Regina Casé, neta de Ademar. O destaque dado a Braguinha é um exemplo de que ele escapou de da armadilha de fazer um filme familiar, um culto à personalidade do radialista.

O diretor ficou 10 anos no projeto e conseguiu fazer um panorama do rádio e por conseqüência do Brasil nas décadas de 30 e 40, mesmo com a dificuldade para coletar o material. Ademar Casé tem um papel fundamental na história do rádio brasileiro. Para se ter idéia do que ele representou, eram atrações de seu programa, ao mesmo tempo, Noel Rosa, Carmem Miranda e Francisco Alves.

No programa dele nasceu o primeiro jingle e a primeira radionovela. No ar, Casé era inventivo, longe dos microfones era um incansável negociante, que conseguiu por intermédio da venda de comerciais mudar os rumos de uma vida que parecia destinada ao anonimato.

Quando viu que o rádio perdia força, Casé foi para a televisão, onde também alcançou o sucesso, com programas que marcaram época no veículo, como por exemplo, Noite de Gala.

No filme, um dos entrevistados é José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. Boni diz que a TV brasileira é filha do circo, do teatro e do rádio, diferentemente da TV americana, que veio do cinema. Nesse momento, o homem, que foi um dos responsáveis pelo êxito da Rede Globo, ressaltou que a TV no Brasil deve o ritmo que tem a Ademar Casé.

Durante um debate com estudantes da PUC, Estevão explicou a opção estética de não "recuperar" as imagens mais antigas. Transportando para o universo radiofônico, o efeito semelhante ao daquele ruído da agulha no velho LP de 78 rotações, que deixam as gravações irresistíveis.

O documentário Programa Casé vai ser lançado em 14 salas do país no dia 3 de setembro. É um daqueles filmes que resgatam o rádio e a história do país. Conhecendo o que fomos, entendemos melhor como somos. Além disso, podemos tentar melhorar o que seremos.

 

O importante é preservar a vida

Soares Júnior | Soares Júnior | 12/08/2010 11h11

Uma das vezes que mais fiquei envolvido como drama dos personagens de uma reportagem foi no naufrágio da P-36, na Bacia de Campos. No mês de março de 2001, a plataforma teve uma explosão e afundou depois de uma longa tentativa para salvá-la. Onze pessoas morreram no naufrágio. Minha angústia era a ideia de que os 11 foram para o fundo do mar em um caixão de aço.

Essas famílias jamais conseguiram enterrar seus parentes, além da forma abrupta como essas mortes vieram, há também a falta da indispensável "cerimônia do adeus". A matéria tem um significado especial para mim, pois logo após de chegar de Macaé, minha mãe partiu.

Depois de tentar uma liminar para continuar operando a P-33, a Petrobras vai parar. A empresa negou o problema e depois voltou atrás, ainda bem. No entanto, na reportagem do jornal o Globo, um personagem diz que há vazamentos nas tubulações e grades de proteção deterioradas. Problemas semelhantes foram encontrados na P-36, há quase 10 anos.

Depois da P-36, do desastre ambiental na plataforma da BP, no Golfo do México, como a empresa ainda corre o risco de operar com uma plataforma em condições ruins. Há um consenso na humanidade de que o mais importante é poupar vidas e o meio ambiente.


                                                       ***

Claro que voto em alguém, mas não vou declarar aqui por diversos motivos, o principal é porque este espaço não é para fazer proselitismo a favor de A, B ou C. Feita esta ressalva, gostaria de manifestar uma opinião. A falta de transparência no caso da P-33 desperta em mim o temor de que a empresa ache inconveniente tratar de problemas nessa época do ano.

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Pelo resgate do rádio

Soares Júnior | Soares Júnior | 10/08/2010 12h44

O Rio de Janeiro recebe esta semana mais um esforço para valorização do Rádio. Trata-se da publicação Rádio em Revista, publicação capitaneada pelo radialista Ruy Jobim. Com mais de 20 anos de estrada, com passagem por emissoras como Globo FM e Paradiso, Jobim é um amante do rádio e luta pela sua valorização.

Dentre as iniciativas está a Escola de Rádio que ensina os vários ofícios que um profissional pode exercer numa emissora. Rádio em Revista chega num momento em que o veículo precisa se adaptar às novas tecnologias e procura encontrar espaço entre os mais jovens.

Uma das publicações mais importantes que já existiram no Brasil foi a Revista do Rádio, que tinha seções fixas como "Os mexericos da Candinha", que traziam bastidores da Nacional, Mayrink Veiga e outros ícones da Era de Ouro. A Revista do Rádio foi uma espécie de precursora de títulos como Caras e Quem.

Rádio em Revista é um resgate deste foi o primeiro veículo eletrônico de comunicação a entrar nos lares brasileiros e reuniu a família na sala para rir, se informar ou se emocionar.

A publicação terá distribuição gratuita em universidades, emissoras e produtoras de áudio e vídeo.

Bem-vinda, boa sorte e vida longa a mais essa saga do rádio.

                                                                          ***

Parece que a propina no caso do atropelamento de Rafael Mascarenhas é mais grave do que a morte em si. Pelo menos é o que parece, já que os policiais estão presos e o motorista que atropelou o músico continua solto.

 

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O nosso melhor projeto

Soares Júnior | Soares Júnior | 08/08/2010 02h06

Passa da meia-noite e já é Dias dos Pais. Escrevo no quarto, pois meus filhos me proibiram de ir à sala. Eles fizeram alguma surpresa que só poderei ver na manhã deste domingo. Acabo de beijar a testa de cada um e dizer que os amo.

Um amigo, daqueles que não são irmãos apenas por um pequeno detalhe genético, mandou um vídeo em que flagrava o momento da chegada ao berçário da minha filha. Do lado de fora, meu filho olhava a irmã e dizia que eu estava com cara de bebezão com aquela roupa verde que a gente põe para acompanhar o parto.

Tive um nó na garganta. Para os que me conhecem há muito tempo, nó na garganta não é propriamente uma raridade na minha vida. Com a consciência de quem registrava um momento histórico, meu amigo teve a preocupação de em um minuto e 39 segundos gravar quem estava presente e as impressões deles.

Penso em quem estava ausente na chegada da Clara. Meus pais e minha querida sogra. Como é segundo domingo de agosto, vou me ater ao velho Creso, de quem herdei o nome e uma mania de tentar ver humor em quase tudo.

Quando nasci, meu pai tinha 59 anos e meio. Filho único e temporão, só poderia me chamar Creso também. Além da provecta idade, ele tivera poliomelite, pois era quase da idade do Sabin, portanto, não havia vacina. Ele levou a perna mais curta pelo resto da vida. Sofreu com mal de Parkinson e ficou os últimos 10 anos de vida sem poder andar.

Só vou dar um aviso, esse não é um texto melancólico. Ele era extremamente bem humorado. Foi o confidente mais fiel do filho adolescente, ensinou-lhe dominó e contou muitas, mas muitas histórias. A ponto de durante uma aula no curso pré-vestibular, o professor que falava sobre Era Vargas perguntar se o filho havia vivido aquele período.

Poucos dias antes de partir, já cansado, ele resolveu me pregar a última peça. Como sempre fazia, fui ao quarto dele perguntei como estava. Ele não me respondeu. Perguntei se ele estava me reconhecendo. Ele fez que sim com a cabeça. Perguntei a ele quem eu era. Ele me disse: "o Barão do Santo Cristo". Olhei frustrado e respondi: "Pai, você não me reconhece mais". No que ele rebateu: "Ué, você não está trabalhando na Rádio Tupi? Ela não fica no bairro do Santo Cristo? Então?". Deu uma gargalhada com a pouca força que ainda tinha. Foi só para mostrar que o espírito não envelheceu.

 Acho que ele enlouqueceria em conhecer o Pedro e a Clara. Numa daquelas coincidências da vida, o Pedro nasceu num dia 4 como ele, e a Clara no mês dele, outubro.

Entre 1997 e 2003 o segundo domingo de agosto era uma lacuna. Então veio o Pedro, depois a Clara. Desde então são cores, sonhos, risos e amor na data. Angustia-me não conseguir descrever o sentimento que me toma quando olho meus filhos. É carinho, é orgulho, é amor, é prazer. Há medo também. Sentimento advindo da enorme responsabilidade de perpetuar a espécie.

Do pai que tive, ao pai que me tornei, espero fazer o melhor para eles. Sei que erro muito, mas acerto também. Sei que os amo demais. Espero ser para eles a metade do que meu pai foi para mim, em generosidade, amor e compreensão.

Aos meus amigos pais, toda sorte e amor para os seus filhos, eles são o nosso melhor projeto, a nossa melhor obra, a melhor música, o melhor canto. Filhos são misturas e dádivas que perpetuam a  união de duas pessoas.

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Punição merecida

Soares Júnior | Soares Júnior | 06/08/2010 12h38

Não acho exagerada a punição de Dado Dolabela pelo episódio com Luana Piovani. A impunidade é força motriz de muitos atos. Não adianta, o ser humano é complacente com os próprios atos. Apesar de não ser um pessimista, sou obrigado a concordar com o personagem principal do filme Tudo vai dar certo, de Woody Allen. Não lembro a reprodução literal da frase, apenas o sentido. É algo assim, o que se pode esperar do ser humano, quando inventamos descargas automáticas por não confiarmos na capacidade dele em acionar a manual ao usar o banheiro.

É preciso acabar com a permissividade à agressão, principalmente às mulheres e crianças. Obrigar um ator famoso a dormir na cadeia por ter agredido uma mulher pode ser "pedagógico". Sempre falo com meus filhos que ao partir para a agressão física, eles vão perder a razão em qualquer disputa.

É preciso reprimir a cultura da violência. Não foram poucas as vezes que ouvi comentários sobre o caso Bruno que pareciam justificar a monstruosidade. Tímidos, é verdade, alguns diziam que ela mereceu por se envolver com homem casado. Para outros ela se deu mal por ser uma "Maria Chuteira". E assim vamos nós, repetindo um padrão de comportamento nocivo para a boa vida.

Outro dia peguei um táxi e comecei a conversar com o motorista. Ao passar pela sede do Flamengo o assunto Bruno veio à tona. Após a óbvia desaprovação aos atos de que o goleiro é acusado, ele cometeu uma inconfidência. Ao comentar aquela declaração emblemática do Bruno "quem nunca saiu na mão com uma mulher", meu condutor confessou que ele já havia batido na companheira.

Em todo o relato, ele deixava claro que  só havia batido de ter sido arranhado e acusado injustamente de ter "dado em cima" da mulher do vizinho. Ele disse que ela o provocou e ele teve que dar "um tapa" nela.

Confesso ter ficado desconcertado com revelação tão íntima, meio brincando, meio falando sério eu disse que aquilo poderia dar cadeia. Depois da sentença que puniu Dado Dolabela, talvez meu interlocutor naquela insólita viagem pense duas vezes antes de bater de novo na mulher, ou pelo menos não vai sair contando por aí. O pior de tudo, contudo nada pode ser feito, é que o homem achava que tinha razão.

 

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A falta que você me faz

Soares Júnior | Soares Júnior | 05/08/2010 14h57

Hoje eu saí procurando você pelos sambas do Buarque. Não encontrei e tentei achar algum rastro pelas melodias do Edu Lobo. A busca permaneceu. Recorri a São Aldir, mas perdão pelo infame trocadilho, continuou tudo um Blanc só.

Há muito tempo, escrever não é mais o desafio de uma folha de papel em branco. Agora temos a tela, que chama e cobra o compromisso de deixá-la preenchida. Tela, que para o pintor é fiel depositária de uma expressão artística, para esse humilde escriba é apenas um forma de se manifestar. 

Manifestação cercada de utopia e frustração. Utopia de começar a escrever o melhor texto da sua vida. A frustração chega quando se constata que ainda não foi dessa vez. Acho que o problema de ler muito e ouvir muita música é ter a impressão de tudo que você quer escrever, algum dos seus ídolos já expressou.

Vem daí uma confusão de citações filosóficas, além dos fragmentos de músicas e poemas. Tudo formando um caldo grosso, de difícil digestão. Apesar de tudo isso, há dias em que a mente está vazia, que você só pensa no que deveria pensar.

Hoje eu queria que alguém "emulasse" um texto para mim. Não entendeu o termo, eu também não sabia até ontem. "Emular", se entendi direito, é quando você consegue de um segundo computador executar funções de uma primeira máquina.

Hoje você, inspiração, não veio me visitar. Tenho certeza que amanhã, não falta.

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Um agradável exercício de tolerância

Soares Júnior | Soares Júnior | 03/08/2010 00h14

Hoje é dia de recomeçar. A grande vantagem de dar aulas é esse clima de novidade a cada novo semestre. Já me perguntaram como eu consigo ficar dando aula por seis horas seguidas. Não há receita. É tudo diversão.

Estar no meio de uma apuração intrincada é um grande barato. Ver o seu trabalho ter algum tipo de repercussão é inebriante. No entanto, a minha cachaça é estar numa sala de aula, trocando experiências com as pessoas.

Às vezes fico até culpado. Sinto como se sugasse da juventude dos alunos um antídoto para retardar a minha velhice. É quase como o personagem de David Bowie no maravilhoso filme "Fome de Viver". Quem não viu deve dar uma conferida, muito melhor que esses vampirinhos melosos que arrastam multidões ao cinema.

Mesmo com quase uma década dentro da sala de aula, há sempre um friozinho na barriga. Ele não passa, ainda bem. São novos nomes, novos rostos. São várias histórias, várias realidades que se juntam. Sabe um caleidoscópio, é assim que me sinto quando encontro novas pessoas no começo das aulas. Todo dia giro a roda para ver que quadro vai se formar.

Na sala de aula já aprendi com meus alunos quem era Stephanny, linda e absoluta, vi uma hilária paródia de High School Musical, além da impressionante saga do "Amigo Fura Olho" vivida pelo Latino.

Adoro dar aula, pelo exercício de tolerância para se relacionar com tantas pessoas ao mesmo tempo.

                                                 ***

Às vezes penso que algumas pessoas não sabem ler. Ou melhor, interpretam o que querem. Paciência. Culpados, quem acha é a polícia, depois a Justiça os julga. Notem bem, não há nomes, nem acusações.

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Frases para esquecer

Soares Júnior | Soares Júnior | 02/08/2010 08h30

Hoje quero ocupar este espaço com algumas frases. Elas não precisam estar concatenadas. O objetivo é escrever várias delas e jogá-las aos poucos que me dão privilégio da leitura.

"A fidelidade é cômoda. Ela atende seu celular sem sustos e pode ter a senha do seu e-mail sem problema" - Essa frase é uma forma pragmática de encarar um relacionamento. É uma acomodação pela lei do melhor esforço. É cínica, mas pode mascarar algo que autor não quer enfrentar. Ele pode não estar mais chamando tanta atenção assim no mercado.

 "Estar na pista é um sinal que a gente ainda pode rodar" - Essa é a velha história de tentar ver o lado positivo dos fatos. É brincar de Poliana num mundo pós-moderno, com linguagem de sábado à noite.

 "A angústia da sexta-feira do guerreiro" - Um amigo já definiu o último dia da semana assim.  Sabe quando você chega em casa morto, com dor de cabeça, mas sabe que precisa sair. A esta obrigação dá-se o nome de angústia do guerreiro. O pior é o saldo que se tira dessas ocasiões. As pessoas não admitem, mas na maioria das vezes, as pessoas normais voltam com derrotas no fim da noitada.

"Não levar a sério demais os elogios que nos fazem, assim não precisamos acreditar demais nas críticas maldosas" - Para um geminiano temporão, essa é uma das mais difíceis de seguir.

"Todo cantor desafina, a diferença está em desafinar com classe" - Acho que esta frase e a anterior se completam. É o reconhecimento que se desequilibrar faz parte da realidade da bailarina. Quando você se leva a sério demais sofre muito com as quedas e as desafinadas inerentes ao ato de viver.

"Divirta-se sempre. Quando a diversão acaba, não vale a pena continuar no trabalho, no jogo, no namoro, nem nada" - Frase auto-explicativa.

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Na verdade me lembrei destas frases para esquecer que no ataque do meu time joga um cara chamado Cristian Borja. Esquecer que a esta altura estaria tirando um sarro com a cara dos meus amigos vascaínos. Escrever as frases aí de cima impediram que eu descesse para a calçada e gritasse "Eu odeio o Borja". Vejam bem, meu ódio é esportivo. Gostaria que ele não ficasse nem no banco de reservas nos próximos jogos.

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Como é possível perceber, eu morreria de fome como escritor de livros de auto-ajuda. Honestamente, não consigo pensar que aquelas frases saiam sem que autor tenha um sorriso cínico nos lábios. Falta-me o talento e o cinismo.

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28/09/2010 16h39