Beatriz, Leandro e Felipe
Soares Júnior | Soares Júnior | 30/07/2010 08h30
Quatro minutos e 59 segundos bem gastos. Este é o tempo que se leva para ouvir a magistral gravação de Milton Nascimento para Beatriz, canção de Edu Lobo e Chico Buarque. O registro que tenho é do álbum em que estão reunidas as músicas da dupla feitas para teatro.
A sutileza da parte mais aguda da melodia ter a palavra céu e a mais grave ter a palavra chão é coisa de gênio. Milton Nascimento em forma faz da homenagem às atrizes um hino. Mas um hino sem tom marcial ou de exaltação, sim o resumo de uma trajetória de prazer, dor, riso, aplausos e incertezas.
Uma amiga que é pianista tinha uma senha. Quando ela queria medir o "grau de sensibilidade" de alguém (se isso é possível) ela tocava Beatriz. A música não faz sucesso em videokês, por exemplo. É necessário ter uma extensão vocal privilegiada, o que não é para amadores. Ah, ainda tem o trocadilho da letra Be (do verbo ser em inglês) e atriz.
Quem não conhece, deve tentar descobrir. Quem gosta, ouça novamente. Quem conhece e não gosta, bem, esse não passaria no teste de sensibilidade da minha amiga.
***
Gostaria de responder ao leitor Ricardo, que comentou o post "Alonso X Massa: os dois lados estão errados". Em primeiro lugar, quero agradecer o privilégio da leitura deste espaço. Em seu comentário ele acentua que Felipe Massa é uma pessoa de caráter. Quero enfatizar que concordo com o leitor. Acrescento que em nenhum momento falei do caráter do piloto da Ferrari, só enfatizei que para mim (perdão, mas blog=opinião) ele perdeu a gana de vitórias. Sobre caráter, falei mal do Fernando Alonso, que para mim é um escroque.
Quanto à opinião do Ricardo dizendo que o Massa ganha milhões para receber ordens, eu uso textualmente o comentário do leitor Marcio: "Ô Senna, encosta aí que o Prost tá mais rápido. Valeu, obrigado, desculpa qualquer coisa". Seria mais fácil o Senna voltar prá Toleman, do que fazer isso".
***
A perspectiva do ataque do Flamengo é Leandro Amaral. Espero que o martírio o tenha feito repensar a vida. A primeira saída dele do Vasco para o Fluminense pareceu-me anti-ética. Vamos ver como ele se comporta na Gávea, dentro e fora de campo.
***
Continuo torcendo por Joanna Marins. Essa é a minha parte. A da polícia é descobrir se houve maus tratos. A da própria Joanna é lutar pela vida.
Caso Joanna Marins: vamos ao que interessa
Soares Júnior | Soares Júnior | 29/07/2010 08h00
Joanna Cardoso Marcenal Marins está no CTI há mais de uma semana. De acordo com a informação de parentes, o coração e os órgãos estão recuperando as funções. No entanto, a menina continua em coma e respira com a ajuda de aparelhos. O estado dela ainda é muito grave, mas os parentes continuam em oração.
A tia materna revela o estado de espírito da família: "Nós somos evangélicos, à luz da medicina é muito difícil, mas a gente sabe que Deus pode operar um milagre". O caminho da recuperação de Joanna é incerto. A família diz que se a cura é uma estrada de mil quilômetros, a pequena deu apenas os primeiros passos. "Só o fato dela não piorar, já é uma melhora". Os médicos dizem que é muito cedo para afirmar se haverá sequelas.
Como foi informado em um dos muitos comentários postados no texto anterior, a juíza Cláudia Nascimento Vieira da 5ª Vara de Família de Nova Iguaçu permitiu a presença no hospital de André Marins, pai de Joanna.
André esteve algumas vezes na clínica em Botafogo. O pai ficou menos de 10 minutos nas visitas. Obviamente, tendo em vista o clima entre eles, Cristiane e André não se falaram
A família materna de Joanna nega que a menina tomasse remédios controlados desde os sete meses. Parentes de Cristiane ressaltam que André conhece o pediatra que acompanha a menina, e poderia ter sido informado se houvesse algo de anormal com a criança.
Na semana passada Cristiane Marcenal Ferraz esteve na Decavi, Delegacia da Criança e Adolescente Vítima. Lá, a mãe reiterou o depoimento que Joanna foi entregue ao pai em bom estado de saúde.
Aliás, este repórter viu um documento da 5ª Vara de Família de Nova Iguaçu, datado de 26 de maio, assinado por Cristina Segheto Rodrigues, responsável pelo expediente naquele dia. Lá, estava a escrito que Joanna aparentava estar bem cuidada e trouxera seus pertences pessoais.
Neste momento, a situação de Joanna é a seguinte: briga pela vida como só uma menina de 5 anos com muita força vital pode fazer Essa luta, depende dela. Quanto a suspeita de maus tratos, a responsabilidade de apurar é da polícia.
Para os que acreditam o melhor a fazer é rezar, orar, mandar energia. Independentemente do credo, a vida da menina é o mais importante.
Alonso X Massa: os dois lados estão errados
Soares Júnior | Soares Júnior | 27/07/2010 12h28
O domingo marcou minha separação da Fórmula 1. A saga começou com Nelson Piquet, vice-campeão em 1980. No ano seguinte, ele foi campeão, fato que se repetiu em 83 e 87. Imaginem uma criança louca por esportes que via o Brasil fracassar no futebol. A válvula de escape era com as vitórias do Piquet, infelizmente um vascaíno, mas, paciência, excelente piloto.
Depois veio o Senna. Formidável dentro da pista, meio chato fora delas, mas ele vencia e eu ficava feliz. Nas três primeiras copas que acompanhei efetivamente, o Brasil perdeu, mas em compensação, um piloto brasileiro era campeão no ano seguinte. Assim foi com Piquet em 83 e 87 e o Senna em 91.
Depois da Tamburello veio a fase Barrichello. Rima paupérrima e trágica. Repentinamente, fomos rebaixados para segunda divisão da F1. No entanto, por gostar de corridas, me conformava em ver o talento do Michael Schumacher, apesar de em algumas oportunidades, o alemão demonstrar o deplorável sentimento de vencer a qualquer custo.
Achei que com o Massa, a normalidade voltaria. Nunca o achei com categoria suficiente para se equiparar a Piquet, Sena ou Emerson. No entanto, via no seu olhar um "instinto assassino" que faltava a Barrichello. Domingo, vi que me enganei. O vermelho da Ferrari parece esmaecer a gana dos pilotos brasileiros. Ganhar um bom salário é tudo. Se a FIA fosse séria, a Ferrari perderia os pontos da corrida, mas não é. A impunidade que, subservientes, pensamos ser uma praga nacional, é uma doença em outras plagas.
O pior é ver estampado no espanhol AS a seguinte manchete: "Lambança de Massa enfeia vitória de Alonso". É a versão midiática daqueles pais que passam a mão na cabeça dos filhos. Essa a mentalidade que norteia um pai na hora de pagar R$ 10 mil a dois bandidos vestidos com a farda da PM.
Fernando Alonso é um daqueles príncipes mimados a quem tudo é permitido. Um mal caráter, um escroque, cínico. Infelizmente é o piloto mais talentoso da safra atual. Ma scomo ele não é o Schumacher, não preciso perder min has manhãs de domingo vendo piltos sem fibra, escravos das grandes montadoras.
No mais, estou decepcionado com o Barrichello, ou melhor, com o Felipe Massa.
***
Eu erro e acerto como todos no planeta. No entanto, ao ter um blog, fico mais exposto. Exposição que, aliás, não me incomoda. Após ler minhas opiniões e meus artigos vocês verão minha assinatura. Não recorro a pseudônimos ou nomes incompletos.
Caso Joanna Marins: a segurança da infância no CTI
Soares Júnior | Soares Júnior | 24/07/2010 19h30
No dia 26 de maio, Joanna sentou no colo de Cristiane e mexeu num cordão que a mãe tinha no pescoço. Nele, havia as fotos dos três filhos. A criança pegou a sua, colocou para trás e disse à mãe: "agora você só tem dois filhos". Cristiane e Joanna se abraçaram, a mãe negou com veemência a ideia da criança e ela partiu.
Logo depois, acompanhada pelo padrasto, Joanna Cardoso Marcenal Marins foi entregue ao pai, André Rodrigues Marins, na 5ª Vara de Família da Comarca de Nova Iguaçu. No laudo assinado por Cristina Segheto Rodrigues, responsável pelo expediente naquela data, Joanna aparentava estar bem cuidada e trouxera seus pertences pessoais.
Cerca de dois meses depois, a menina de 5 anos trava uma luta pela vida no CTI de uma clínica infantil, em Botafogo, Zona Sul do Rio. Joanna está em coma, respirando com auxílio de aparelhos. Os médicos chegaram a divulgar que ela tivera morte cerebral. No entanto, o diagnóstico não se confirmou. A tia materna disse: "A bichinha é forte, a situação é muito grave. São uns 400 degraus para subir, ela subiu dois, mas subiu".
A menina tem um edema extenso na cabeça, o que é o grande obstáculo que enfrenta para sair do coma. Ela tem marcas de queimadura nas nádegas e perto das axilas, além de um corte no pé. A polícia acredita que Joanna foi vítima de maus tratos.
Os pais da menina se conheceram no começo dos anos 2000 na Igreja Batista do Recreio, que frequentavam. Namoravam há cerca de um ano, quando Cristiane descobriu que estava grávida. Logo depois, o relacionamento acabou.
Joanna nasceu em 20 de outubro de 2004. Logo depois a mãe entrou com um pedido de pensão e visitação na 1ª Vara de Família de Nova Iguaçu. De acordo com a decisão, André poderia visitar Joanna aos sábados de 9 às 11h. No primeiro ano, ele cumpriu o acordo. Mas depois ele ficou um ano sem dar notícias. Parentes de Cristiane contam que a família sempre ficava na expectativa se ele entraria em contato em alguma data como Dia dos Pais ou Natal.
André Marins reapareceu em 2006 e fez visitas regulares à filha. No entanto, em outubro de 2007, um problema aconteceu. Após uma saída com o pai, Joanna apresentou hematomas e um arranhão nas costas. Cristiane levou a menina ao Instituto Médico Legal de Nova Iguaçu e a delegacia da cidade abriu uma investigação, mas nada aconteceu.
Depois se seguiu mais um período de ausência do pai até dezembro de 2009, isto é, pouco mais de dois anos. Quando reapareceu, André estava com a polícia e foi ao prédio de Cristiane. Os porteiros avisaram que ela estava viajando.
Em janeiro de 2010, Cristiane foi chamada ao Fórum de Nova Iguaçu. Ela foi ouvida por uma psicóloga. Durante a sessão, Cristiane diz ter sido mal tratada pela psicóloga. Como forma de se resguardar, ela prestou queixa na Corregedoria do Fórum de Nova Iguaçu. Pelo lado materno apenas Cristiane foi ouvida, enquanto pelo lado de André foram ouvidos ele próprio, a atual mulher, o pai e a mãe dele.
Nesse laudo, é sugerida a reversão da guarda.
Enquanto se travava esta disputa, Cristiane se mudou para Campos do Jordão. Mandou um telegrama para avisar ao pai, no entanto a mensagem voltou e ela fez constar do processo que tentara comunicar a mudança. Entre março e abril, André esteve duas vezes na cidade paulista e viu a filha.
Em maio, a Justiça do Rio reverteu a guarda de Joanna, sem a visitação da mãe por causa da síndrome de alienação parental, quando um dos progenitores induz a criança a perder contato e não reconhecer o outro. A reversão da guarda foi concedida em meio ao ano escolar, quando a menina estava em processo de alfabetização.
Chegamos então a julho de 2010. Uma pessoa que se identificou como amiga de André ligou para um dos hospitais de Campos do Jordão, onde Cristiane Marcenal Ferraz atua como cardiologista. A pessoa disse que Joanna estava mal e que a médica deveria ver a filha.
Cristiane falou com o pai da menina que disse: "sua filha está morrendo, venha". Ao chegar na clínica, no Rio, André não estava. Presentes no local o pai dele, a tia, a promotora Maria Helena Rodrigues Biscaia, que, de acordo com os parentes maternos de Joanna, é mulher do deputado federal Antonio Carlos Biscaia.
Desde então há um plantão de amigos na frente do hospital. André esteve no primeiro dia e quando tentou voltar foi rechaçado pelos parentes maternos da menina. Não mais voltou. A juíza da 5ª Vara de Família de Nova Iguaçu, Cláudia Nascimento Vieira, devolveu a guarda de Joana à mãe.
Cristiane não sai do hospital. A todos que vão visitar a filha ela pede orações. Se mostra forte, mas quando chega alguém mais próximo, desaba. Depois recobra o espírito e segue na sua vigília.
Há muitas perguntas a serem respondidas nesta história. Por exemplo, o motivo para os longos períodos de ausência de André Rodrigues Marins. Mesmo assim o serventuário da Justiça do Rio conseguiu a reversão da guarda da criança. Que motivos tão contundentes teriam sido apresentados para a decisão da Justiça pela concessão da guarda ao pai? Que fim levou a investigação sobre as possíveis agressões que Joana sofrera em 2007?
Vale ressaltar que as suspeitas começaram quase três anos antes de Joanna travar esta guerra incerta pela vida. A sociedade, a família e a Justiça precisam se conscientizar da importância de assegurar o direito à vida do menor e interpretar corretamente sinais que podem anteceder uma tragédia.
Quanto custa matar alguém
Soares Júnior | Soares Júnior | 23/07/2010 11h50
O DETRAN vai abrir dois processos contra os motoristas envolvidos na morte de Rafael Mascarenhas. De acordo com reportagem de Cláudio Motta, no Globo, a soma das duas multas, as quais eles estão sujeitos, chega a R$ 1.528. Além disso, eles podem perder a habilitação suspensa por um ano.
Filosoficamente o crime de matar é incomensurável, mas pecuniariamente não é um negócio assim tão ruim. Um jovem com o padrão de consumo presumível dos atropeladores é de R$ 150, por noitada. Para recuperar o prejuízo é só deixar de sair em 10 ocasiões. Um sacrifício que vale a pena pela impunidade.
Outro aspecto particular desta história é o tempo que estes rapazes poderão ter a habilitação suspensa, um ano. Uma legislação mais severa deveria fazer com que esses dois só voltassem a dirigir pelo menos 5 anos depois. Assim mesmo, mediante exames psicológicos. Devolver a carteira sem uma avaliação prévia pode fazer com que em 12 meses se repita uma tragédia como a de Rafael Mascarenhas.
Aos 4 anos meu filho mordeu a melhor amiga dele na creche. Ao voltar para a casa, fiz com que ele ligasse para a amiguinha e pedisse desculpas. Logo depois, falei com a mãe da menina e pedi perdão também. O repreendi e coloquei na "geladeira" um brinquedo. Como aquela tinha sido a primeira ocorrência daquele tipo, dei-lhe um voto de confiança. Três anos já se passaram e ele não voltou mais com anotações na caderneta por bater em alguém.
Procuro fazê-lo entender que contará com a minha compreensão e meu amor, mas que não passarei a mão em sua cabeça nos seus erros. Espero que as lições de agora ele leve para a vida toda. Às vezes acho que exagero, mas não quero criar um "príncipe" a quem tudo é permitido.
Quando jovens de classe média agrediram uma empregada doméstica na Barra, o pai de um deles disse: "calma, ele é só uma criança". Essa declaração mostra como podemos distorcer a formação de caráter de uma pessoa.
Se comprovada, a conivência do pai do rapaz que atropelou é deplorável. Mandar o carro para o lanterneiro para ser desamassado mostra o quanto se pode errar na educação de um filho. A deformação ou a "cegueira" deve fazer com que esse homem diga: "calma, ele é só uma criança". No entanto, esse ato "infantil" valeu uma vida, é bom que ao deitar no travesseiro, isso não seja esquecido.
Apagões e boa música
Soares Júnior | Soares Júnior | 22/07/2010 08h00
Nem precisou dar meia-noite para que a carruagem rubro-negra virasse abóbora. Os deuses do futebol têm complacência com times medíocres, mas o time da Gávea está exagerando.
O pífio segundo tempo contra o Avaí confirmou os piores temores da torcida. Não há peças de reposição e o time vai se contentar com a vaga na Sul Americana. Val "poia" Baiano não pode ser solução do ataque do time de maior torcida do país. Honestamente, espero que não passemos pelo susto da briga para não cair.
***
Em abril de 1995, abriu no Humaitá uma casa noturna, o Ballroom. A temporada de abertura foi com Paulo Moura e orquestra, tocando para que os dançarinos da Cia Aérea de Dança se apresentassem.
Inaugurada numa correria danada, com muitas gambiarras, a noite de estreia prometia. Quando a música comia solta, um apagão. Acabou a luz, acabou o som. Sabe qual foi a reação do Maestro Paulo Moura, estrela do espetáculo? Sentou-se no banquinho e esperou que os técnicos resolvessem a sobrecarga de energia.
A luz voltou e o maestro continuou com categoria o que o afogadilho para a abertura da casa interrompera. Paulo Moura, estrela na melhor acepção do termo. Foi brilhar em outro lugar. Na certa deve estar rolando um tremendo som com outros amigos no andar de cima, como Rafael Rabello e Wilson Simonal.
***
Vuvuzelas na madrugada do Humaitá. Com os resultados da rodada de quarta-feira, só posso acreditar que seja a comemoração de um torcedor do Atlético-GO passando férias na cidade.
***
Depois da trágica morte de Rafael Mascarenhas vamos ver como as autoridades de trânsito vão atuar preventivamente para evitar outras desgraças. Num país de legislação severa, esses dois imbecis que batiam "pega" no túnel só entrariam num carro no banco do carona, depois de cumprir uma temporada na cadeia.
Uma tragédia e seus culpados
Soares Júnior | Soares Júnior | 21/07/2010 12h17
Dificilmente faço um elogio sem dizer "porém". Na verdade, acho que nunca o faço. É quase um comportamento sociopata. Alguns exemplos: O dia lindo, o sol escaldante na praia, porém a claridade me impede de abrir os olhos totalmente. O "porém" daquela tarde perfeita está ali.
Não pensem que sou indulgente com meus filhos. Com eles é a mesma coisa, nos desenhos, nas provas, nas notas, por exemplo. Alguns dirão que isso será um "prato cheio" para o analista deles no futuro, no entanto, isso é mais forte do que eu.
Acho que este comportamento evoluiu depois que comecei a trabalhar com produção de eventos e de show. Nunca mais sentei para desfrutar uma apresentação sem pensar na luz, no cenário, entre outros aspectos. O mesmo acontece quando leio jornais e revistas, escuto rádio ou vejo televisão.
Penso então na cobertura da morte de Rafael Mascarenhas. Quem o conhecia diz que ele era um cara legal, que fazia coisas normais de um jovem da idade. Tinha uma banda de rock, teve emprego como vendedor temporário em loja de roupa e andava de skate.
Os órgãos de imprensa se preocuparam em ressaltar a tragédia que se abateu sobre a atriz Cissa Guimarães. No entanto, algumas questões ficaram no ar. A primeira pergunta que me veio à cabeça é sobre a falha no bloqueio que permitiu que dois irresponsáveis pudessem bater um "pega" dentro do túnel interditado. A explicação de que os dois motoristas conseguiram acessar a outra pista por uma ligação entre as galerias do Túnel Zuzu Angel só acentua a falha na interdição do túnel.
Outro aspecto me chamou atenção. A Prefeitura proíbe que pedestres, ciclistas e skatistas passem no local nos momentos em que a via está fechada. No entanto, há vídeos na Internet com jovens praticando manobras na rampa do Túnel Acústico. Se é proibido, deveria haver uma fiscalização das autoridades de trânsito para coibir a galera do skate. Rafael Mascarenhas estava no lugar errado, na hora errada.
No entanto, isso não faz dele culpado pela própria morte. Esta é do irresponsável que usou o carro como se fosse uma arma. Acelerando irresponsavelmente numa via interditada. Outra parte de responsabilidade deve ser debitada na conta das autoridades responsáveis pela via que não fizeram um bloqueio eficaz para os veículos nem para impedir as manobras dos skatistas.
Outra tragédia urbana
Soares Júnior | Soares Júnior | 16/07/2010 14h55
Inacreditável esta história do menino de 11 anos que morreu ao ser atingido por uma bala perdida na sala de aula. É daquelas tragédias que puxam os pés da gente para o chão. É a lembrança árdua de que há muita a coisa a fazer na cidade olímpica.
A polícia estava em operação no Morro da Pedreira e só a perícia poderá determinar de onde partiu a bala que feriu mortalmente a criança. Uma coisa é fato, o menino estava onde deveria estar na manhã de uma sexta-feira, na sala de aula. Uma ação policial articulada poderia suspender as aulas, por exemplo.
Outra medida importante poderia ser o revestimento das paredes e janelas das escolas que funcionam em áreas de risco. O certo é que escola é lugar de vida, de descortinar horizontes. Não pode ser palco de uma tragédia que extermina os sonhos no momento em que eles começam a amadurecer.
E caminhamos assim com nossas mazelas, uma criança encontrando a morte na sala de aula, bueiros funcionando como minas terrestres e postes prestes a cair. Ah, nossas lamas insalubres! fazemos questão de escondê-las no armário da área de serviço. No entanto, elas passam por debaixo da porta e chegam ao mármore da sala de estar.
O quê será dessa família que enviava o filho para se formar melhor e agora busca a criança num caixão?
JB: o extermínio de uma tradição
Soares Júnior | Soares Júnior | 14/07/2010 13h58
Eu quis ser jornalista para trabalhar no Jornal do Brasil. A única dúvida que tive sobre a profissão que queria seguir era entre ser super heroi e jornalista. Quando percebi que Clark Kent só tinha um, decidi pelo ofício que exerço, ou melhor, que vivo.
Sempre quis trabalhar naquele imponente prédio. Chamava atenção ali tanto para quem chegava, quanto para quem saía do Rio. O JB era o lugar mágico em que escreviam Villas-Boas Corrêa, Carlos Castello Branco, Carlos Drummond de Andrade, Zózimo, João Saldanha e tantos outros.
Nasci no começo dos anos 70 e o Jornal do Brasil era o a fonte de informação dos progressistas, dos que faziam oposição ao regime militar. Meu pai me ensinou a ler jornal e os amigos da família se assustavam como um garoto bem novo começava a aventura diária lendo a coluna do Castelinho e o Informe JB, em vez de procurar a seção de quadrinhos.
Ao chegar à idade adulta, percebi que aquele jornal da minha infância/adolescência não existia mais. As grandes grifes como Zuenir, Veríssimo e Xexéo mudaram de endereço. O JB definhou, acumulou dívidas impagáveis e instituiu um calendário de pagamento em que o mês passou a ter 50 ou 60 dias.
A diminuição do JB foi ruim para o jornalismo do Rio de Janeiro. O Globo deixou de ter uma concorrência e o mercado perdeu postos de trabalho importantes, por exemplo. Por mais eufêmica que seja a fala dos administradores, a ida para a Internet é um fracasso administrativo.
O fim da edição em papel do JB é a morte de um pedaço do Rio. É o apagar completo de uma memória que já desvanecia.
Entretenimento X prestação de serviço
Soares Júnior | Soares Júnior | 13/07/2010 09h00
Todo mundo só fala do caso Bruno. Isso pode ser ilustrado no encerramento de uma reportagem no Globo de domingo. Nela, a repóter escreveu que há duas semanas o goleiro não perde uma primeira página. A frase mostra a dimensão da cobertura que se é dada à conspiração macabra em que o atleta está enredado.
Tamanha repercussão provoca os óbvios exageros na cobertura. Um deles gostaria de ressaltar. Na reportagem que foi ao ar no Jornal Hoje na segunda, dia 12 de julho, foram apresentados diálogos que Eliza Samúdio teve por intermédio de redes sociais com algumas pessoas. As conversas estavam arquivadas no computador da ex-amante de Bruno. Ao levar ao ar a matéria, Sandra Annemberg e Evaristo Costa apresentaram os diálogos. Num arremedo de interpretação, que caberia mais no falecido Linha Direta, com aquele crédito de "simulação" do que num jornal factual como o Hoje.
Além disso, para cobrir as imagens da matéria, uma pessoa digitava num teclado e os caracteres iam aparecendo na tela do computador. O procedimento pareceu mais um artifício de dramaturgia do que um recurso de edição de telejornalismo. Caímos na questão do simulacro.
Vamos a um assunto que por vezes habita este espaço, a transformação do jornalismo em espetáculo. A abordagem usada no jornal da Rede Globo é sutil, mas passa por esse caminho dramatizar o fato. Mal comparando é o que acontece em maior escala no Programa Patrulha da Cidade, que vai ao ar na Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Insisto que na Patrulha, o recurso é usado à exaustão, enquanto que na reportagem do telejornal da Globo foi um aspecto sutil.
Meu temor é que a mistura de entretenimento com prestação de serviço resulte num monstro feio e superficial.
Só para fazer justiça. A cobertura da TV Globo está intensa, com alguns escorregões, mas está informativa. No entanto, outras emissoras estão errando feio na mão. Estes programas vespertinos com comentaristas sobre o caso são de doer.
***
Ok, me rendo. O Central da Copa é um bom programa. É entretenimento, é moderno e o Tiago Leifert é a cara da atração. Ele conseguiu deixar até o pernóstico camisa 9 do Corinthians um cara legal.
Acho que tudo começou nos Regis Rosing, chegou ao Tadeu Schimdt e desaguou no Tiago Leifert. É o velho clichê da mudança inexorável do mundo. Não vou ficar aqui de tio ranzinza. O programa tem exageros, mas como tudo que é novo causa estranheza. Pelo menos é uma tentativa. Além disso, a reação do conselho editorial deste blog (meus estagiários) é super positiva.
A consagração do futebol "armandinho"
Soares Júnior | Soares Júnior | 11/07/2010 19h53
A Espanha venceu e mostrou quem é a grande "amarelona" da história das Copas: a Holanda. A arbitragem foi tão ruim que o "carniceiro" Van Bommel encerrou o torneio sem ser expulso. Quando o assunto é violência, o camisa 6 da seleção holandesa não fica nada a dever ao Felipe Melo. A diferença é que ele tem grife e o camisa 5 da seleção do Dunga, não.
Por falar em amarelar, se eu fosse dirigente da Federação de futebol da Holanda, trocava o uniforme. O laranja é, digamos assim, um amarelo derivado. Uniforme amarelo só deu certo com o Brasil. A vitória da Espanha é a consagração do futebol "armandinho", tanto que o gol do título foi de um exímio representante do gênero. Iniesta gosta mais de tocar e dar passes do que de definir. Só que na hora do gol, ele estava tão livre, que traiu os instintos e mandou um balaço para dentro. O título ficou em boas mãos.
Algumas curiosidades da Copa da África: até a vitória espanhola, a Argentina de 1978 tinha sido a última campeã a perder um jogo na campanha; com a derrota holandesa, a seleção brasileira de 1970 continua sendo a única a ter 100% de aproveitamento nas eliminatórias e na fase final da Copa; e por último, só em 1962, quando 6 jogadores terminaram na ponta da tábua de artilheiros, há um equilíbrio tão grande na disputa pela chuteira de ouro da Copa. David Villa (ESP), Sneijder (HOL), Fórlan (URU) e Muller (ALE) fizeram cinco gols no mundial. Pelos critérios de desempate, a revelação alemã levará o prêmio.
Acabou a Copa, volta o Brasileirão. Ataque de Val Baiano e Vinícius Pacheco, ai meus sais!
***
Mais uma coisa. É uma macabra piada pronta o fato do homem acusado de estrangular Eliza Samúdio ser ex-integrante da polícia mineira. Para quem não entendeu, a explicação é a seguinte: dava-se o nome de "polícia mineira" aos policiais que faziam extorsão de dinheiro dos bandidos, além de participar de grupos de extermínio. Vem daí o nada elogioso verbo "mineirar".
***
Repórter enviada a Belo Horizonte para a cobertura do Caso Bruno. Ao dar o retorno para o chefe de reportagem, ela explica o motivo pelo qual o trabalho está parado naquele dia. Um dos responsáveis pelas investigações iria se casar. E os outros? Eram convidados da festa, ora.
Dores e delícias de ter um nome diferente
Soares Júnior | Soares Júnior | 09/07/2010 17h57
Como é sexta-feira, resolvi me ocupar de um assunto mais ameno, a epopeia de ter um nome diferente. É duro se chamar Creso da Cruz. Tanto é, que profissionalmente escolheram que eu me chamasse Soares Júnior. Creso é o meu nome e nunca o estranhei. No entanto, desde que as letras passaram a ter algum significado para mim, soletro meu nome para facilitar o serviço do interlocutor.
Bom, sou Júnior, portanto, há um Creso da Cruz sênior. Sim, meu pai carregou o nome que é uma piada pronta por 85 anos. Quando partiu há 13 anos, deixou a brincadeira para mim. Somando seus 85 com os meus 39, dão 124 anos para o escárnio geral. Então antes que você pense em dizer "ah, Cruz Creso", lembre que alguém que tenha conhecido a mim ou ao meu pai já fez a piadinha.
Eu conheço outros indivíduos que se chamam Creso. Por exemplo, o avô de uma amiga tinha o meu nome. No entanto, o caso que mais me chamou atenção se deu quando eu fui buscar meu diploma na UFRJ. Meu amigo Alexandre Caroli estava comigo e não me deixa mentir.
Dirigi-me à Secretaria para buscar o documento e falei com a funcionária: "meu nome é Creso". Ela retrucou: "qual deles"? Quando olhei a lista, vi 16 homônimos. . Foi o dia em que me senti como um "Pedro", um "Alexandre" ou um "João".
O nome diferente já me valeu situações engraçadas. Algumas. Certa feita ao ser anunciado na casa de uma pessoa que fui visitar ouvi o porteiro dizer:"o Sr. Cresmo vai subir". Porta de boite, aquela música alta e invariavelmente meu nome vinha Clésio, Crelson, Clécio, Krezium e outras variações. Além dessas, tem aquela já relatada neste blog em que até o Tim Maia tirou um sarro comigo.
Uma vez trabalhei num show do João Nogueira. Com bom humor, ele disse que gostou do meu nome e que valia até um samba. Pena que não saiu da brincadeira e não pude tirar esta onda.
Trabalhando num show do Ivan Lins descobri que o homem que lhe ensinou a soltar pipa na Tijuca se chamava Creso. Fizemos contas e constatamos que infelizmente não foi meu pai o professor dele.
Uma adorável senhora de 94 anos, que é madrinha de consagração da minha filha não consegue acertar meu nome de jeito nenhum. Ela só me chama de Creysson. Isso muito antes do personagem ser eternizado pela turma do Casseta & Planeta.
A mais recente se deu na porta de um restaurante. Fui ao ritual de sempre. Pedi uma mesa para 10 pessoas. A moça da porta perguntou meu nome. Respondi. Ela não anotou na hora. Mais alguns minutos e ela refez a pergunta, novamente disse meu nome. A resposta dela me deixou atônito: "é com v"? Eu disse que não e nem conferi o que ela escreveu na comanda.
Página infeliz de uma história
Soares Júnior | Soares Júnior | 08/07/2010 12h26
Bruno conseguiu a principal manchete dos jornais no mesmo dia em que o assunto predominante deveria ser a definição de quem vai disputar a final da Copa do Mundo. O pior é que nada para ele tem a ver com o que acontece dentro das quatro linhas.
O goleiro destruiu sua carreira, não importa o curso deste caso. Ele não tem condições de atuar como um atleta profissional em clube algum. Quem vai querer se associar a uma pessoa com um caso tão rumoroso nas costas. Sempre é necessário lembrar que para Bruno ser legalmente culpado é necessário ter uma condenação judicial. No entanto, todos os dados levantados dão a impressão de numa conspiração macabra. Parece história apelativa de filme sobre submundo do crime. Um homem poderoso que tem uma série de asseclas dispostos a fazer tudo para preservar o capo.
Se o clube rescinde o contrato de atletas que faltam treinos, porque não terminar de vez o vínculo com o jogador. O Flamengo está omisso, Bruno era o capitão do time, num desvario, um diretor já disse que ele teria para o clube uma importância similar a de Rogério Ceni para o São Paulo.
O pior é ver Bruno dizendo que o caso pode acabar com suas chances de disputar a Copa de 2014. Seria o caso de alguém próximo a ele dizer-lhe que este pode ser o menor dos males a atingi-lo. É um caso de egoísmo e alheamento da realidade.
A opinião pública já escolheu o vilão da história, no entanto há uma coisa que me deixa apreensivo. A polícia mineira me parece estar cedendo aos holofotes provocados pelo caso.
Bruno parece neste momento uma coleção de clichês. Ídolo com pés de barro, oferecendo ao público uma interpretação cruel do caso. A sabedoria popular pontifica, "diga-me com quem andas e te direi quem és".
A passos largos para jogar a vida fora
Soares Júnior | Soares Júnior | 06/07/2010 18h39
Sinceramente gostaria de falar de futebol, da movimentada partida entre Holanda e Uruguai. Preferiria usar este espaço para dizer aos supersticiosos que a escrita se confirmou: toda vez que Holanda e Brasil se enfrentaram em Copas do Mundo, o vencedor chegou à final. No entanto o caso Bruno não deixou.
Este adolescente ouvido pela polícia encontrado na casa do goleiro do Flamengo pode ter trazido dados estarrecedores às investigações. A se confirmar o conteúdo do depoimento, em que o menor diz que Eliza Samúdio está morta, Bruno pode estar envolvido na pior encrenca da sua vida. Claro que o goleiro pode dizer que nada sabia da ação de pessoas próximas a ele para "resolver" o problema Eliza, aliás, a ignorância dos fatos já foi usada com álibi na história brasileira.
No entanto, tudo parece ir contra Bruno, as pessoas são ligadas a ele, o carro dele tinha pertences da moça desaparecida e manchas de sangue (que ainda não se sabe de que são), o sítio dele é tido como possível palco do crime. É absolutamente chocante que alguém com a vida próspera e um futuro garantido possa ter se deixado enredar num caso tão rumoroso quanto este.
Na parte do depoimento divulgada pela polícia, o jovem diz ter dado uma coronhada em Eliza, mas que ela não morreu por isso. Se ele sustenta que ela não morreu da pancada com o revólver, das duas uma, ou ele mente ou sabe o que provocou a morte da jovem.
Vou recuar um pouco no caso, se ficar provado que Bruno deu substâncias abortivas para que Eliza não completasse a gravidez, choca-me a insensibilidade da direção do futebol rubro-negro em dar a faixa de capitão a uma pessoa assim. Caso fique provado que Bruno participou do desaparecimento e possível morte da modelo, é mais estarrecedor ainda.
Obviamente, o caso ganhou muita projeção e a polícia conduz as investigações, pressionada para obter resultados. Por tudo dever ser divulgado com todo cuidado e responsabilidade. Não podemos condenar a priori, mas as coisas como estão fazem com que a opinião pública já tenha escolhido o vilão neste episódio. Em nada ajuda a visão distorcida da realidade apresentada por Bruno ao proferir a sentença: "quem nunca saiu na mão com mulher"? Agora, é com a polícia.
Nome aos bois
Soares´Júnior | Soares Júnior | 05/07/2010 11h06
Deixa ver se entendi. Depois da forma como Dunga conduziu a seleção brasileira na Copa do Mundo, o presidente da entidade reclama que o técnico não soube lidar com a imprensa e que deveria entender o mundo além do ambiente interno do time.
Ricardo Teixeira está em seu sexto mundial, realisticamente, a Era é mais Teixeira do que Dunga. Seis copas e cinco técnicos depois o presidente não deduziu qual seria a marca de Dunga no comando do time?
A omissão da CBF nesta Copa foi impressionante, aliás esta é uma característica da diretoria. Demitir sem consideração profissional é modus operandi. Leão foi demitido após uma Copa das Confederações, sem aviso prévio, mesmo com a garantia que num eventual fracasso no torneio, não teria maiores consequências.
O que fez CBF naquele lamentável episódio da agressão verbal de Dunga ao jornalista Alex Escobar? Nada. Agora a entidade tira o corpo fora. Vamos parar de bater no técnico Dunga apenas, vamos virar as baterias também para o responsável por sua contratação: Ricardo Teixeira.
O nome preferido da entidade é Luiz Felipe Scolari. É engraçado e, muitas vezes, desalentador ter boa memória. A seleção de 2002 foi questionadíssima. Por exemplo, na fase de preparação perdemos pela primeira vez na história para Honduras. Além disso, o clamor a favor de Romário era imenso. O técnico jogou tudo contra a banca, levou Ronaldo e deixou o Baixinho no Brasil. Apostou e venceu. Se Ronaldinho Gaúcha não acerta aquele chute espírita contra a Inglaterra, em vez da unanimidade de agora, Scolari seria submetido ao linchamento de Dunga.
Dunga não é uma pessoa que os jornalistas gostem (eu pessoalmente não nutro nenhuma simpatia por ele). É antipático, irônico e o que fez com o Escobar na Copa, foi inclassificável. No entanto, vamos repartir esta culpa por todos. Ricardo Teixeira, em primeiríssimo lugar, depois hierarquicamente. Dunga, que convocou mal e não pensou em opções para mudar o jogo; Jorginho, que ajudou o técnico na viagem paranóica do patriotismo e reclusão; Felipe Melo e sua visão distorcida sobre o que é conduta esportiva; Júlio Cesar, o melhor goleiro do mundo, que falhou num momento capital. Kaká, Luiz Fabiano e Robinho, que por diferentes motivos, não apresentaram na Copa o que deles se esperava.
Debitar apenas na conta de Dunga a desclassificação parece-me revanchismo.
Sínteses vertiginosas da vida
Soares Júnior | Soares Júnior | 03/07/2010 09h20
O pênalti cometido por Suarez no último lance de Gana e Uruguai foi um ato heroico. Muito diferente de outros lances em que jogadores usaram "hands" em vez do "foot". Por puro reflexo, o atacante de ofício, salvou a Celeste como um goleiro. Não foi um ato para ludibriar a arbitragem, foi o extremo desespero para salvar o time no último instante.
O célebre gol feito com a mão pelo genial Maradona foi um ato para burlar as regras do jogo, sei que muitos amigos discordam, mas para mim foi uma cafajestagem. O atacante uruguaio não, ele resolveu apostar no imponderável, trocando o gol certo pela remota possibilidade do adversário perder a cobrança na marca fatal.
Acompanhar a saída de Suarez do campo aos prantos foi tocante. A reação dele após o jogador ganês errar a cobrança foi um desses momentos que resumem a vida vertiginosamente. O desespero virou êxtase em poucos segundos.
No Sportv, Marcelo Barreto chamou o episódio de épico. Na "resenha telefônica" com meu amigo Alexandre Caroli, ele me lembrou que esse é daqueles jogos para contar aos netos.
O pênalti de Gyan era o lance mais importante da história africana nas Copas do Mundo. Outro daqueles momentos de síntese de uma trajetória. O excelente atacante correu em direção à bola como se carregasse o peso de um continente. O olhar dele não era temeroso. Era a expressão do adolescente ao ver a primeira onda realmente grande no mar de Ipanema sem a mão do pai para ajudar.
O atacante fez a cobrança. Por obra e graça da "deusa" tecnologia foi possível ver seu olhar atordoado acompanhando a trajetória da bola após explodir no travessão.
O que se viu depois foi a ressurreição uruguaia. Aquilo que aconteceu ontem deve ficar registrado como uma das grandes epopeias futebolísticas, tal qual a "Batalha dos Aflitos" ou virada do Vasco na MERCOSUL de 2000. A diferença que o êxito uruguaio se deu no palco maior do futebol mundial.
Depois de calar os Bafana Bafana na fase de classificação, o Uruguai continuou sua tradição de visitante sem cerimônias. A celeste promoveu um Maracanazzo em dois tempos na África do Sul, sem o título como em 50, mas muito mais globalizado.
***
Se eu fosse um bom editor de final cut, procuraria o áudio do narradro de Pato Branco, aquele do "puta que pariu pra fora" e colocaria imagem do Gyan batendo o pênalti. Alguém em Gana deve ter narrado o lance daquele jeito.
O que poderia dar errado deu
Soares Júnior | Soares Júnior | 02/07/2010 18h43
Eu defendi o Dunga desde o início da Copa. Talvez influenciado pelo papel que ele teve em 94, a Copa da minha vida. Outro motivo, foi a visão pragmática de que o futebol mudou e que o capitão do tetra a dominava esta concepção. Da lista final dele, só lamentei a ausência do Ganso. No entanto, eu acreditava.
Há alguns dias eu exalto a lucidez deste time. Só que foi exatamente o que faltou na hora da decisão. O time se perdeu depois do gol de empate da Holanda. É, a laranja desbotou em relação a alguns times da história deles, no entanto a desbotada do amarelo, do azul, perdão, foi maior no segundo tempo.
É injusto culpar apenas a expulsão do Felipe Melo. Quem já exerceu função de chefia sabe que falhas como a cometida pelo volante são debitadas da conta do responsável pela escalação dele. Todos avisaram ao técnico o que poderia acontecer, infelizmente aconteceu. O volante revelado pelo Flamengo mostrou do que é capaz, um passe magistral para o gol de Robinho, um gol contra e a falha de marcação no Sneijder, no segundo da Holanda.
Kaká, Luis Fabiano e Robinho não corresponderam na segunda etapa. Apenas Lúcio e Juan jogaram o que se esperou deles. Até o brilhante Julio César falhou no momento em que não poderia.
O pior foi o choro convulsivo do meu filho quando o fraquíssimo juiz japonês apitou o fim do jogo. Aliás, o pior não, o melhor. Pois ao explicar a ele que aquilo era apenas um jogo de futebol e que nada mudará nas nossas vidas por causa da derrota, confortei meu coração.
Daqui a quatro anos, a festa acontece por aqui e se Deus quiser, vamos estar eu ele lá. Tomara que aconteça um final mais feliz que o de hoje. Decididamente, como profeta, não tenho futuro algum.
***
Eu não me lembro de já ter presenciado algo tão sensacional como o final da partida entre Gana e Uruguai. Gyan carregou o peso de um continente nas costas e mandou na trave a vitória histórica. Coube a "Louco" Abreu, que nada fez com a bola rolando, bater o último pênalti de maneira magistralmente irresponsável. Depois de 40 anos, a Celeste volta a uma semifinal de Copa.
O Primeiro e o Segundo Reinados
Soares Júnior | Soares Júnior | 01/07/2010 09h14
As gerações Romário/Dunga e Ronaldo/Rivaldo deixaram os brasileiros mal acostumados. A gente se esquece, mas é muito difícil vencer a Copa do Mundo. Vamos lembrar o exemplo dos outros integrantes do clube dos campeões.
A Itália ganhou o campeonato em 1934 e 1938. Depois demorou 44 anos para vencer outro e mais 24 para chegar ao quarto título. Na demora entre o bi e o tri da azurra, Mussolini foi enforcado, Hitler assombrou a Europa e foi liquidado e o mundo foi dividido com o Muro de Berlim. Considerando-se que 10 anos é uma boa idade para acompanhar com atenção o que acontece numa copa um cidadão precisaria ter no mínimo 86 anos para ter acompanhado os quatro triunfos italianos.
A Alemanha surpreendeu o mundo ao derrotar a Hungria de Puskas em 54, Vinte anos depois, em casa, conseguiu o segundo título batendo a Holanda de Cruyff e outros 16 anos para se vingar da Argentina de Maradona que a derrotara em 86. Fritz Walter (54), Beckenbauer (74) e Mathauss (90) foram os anti-herois que derrotaram Puskas, Cruyff e Maradona. Nesta Copa em que já presenciamos a ironia do destino no jogo entre Alemanha e Inglaterra fica a pergunta: Será Schweinsteiger o antípoda do Messi?
E o que dizer dos nossos vizinhos do Mercosul? O Uruguai largou bem ganhando duas das quatro primeiras Copas, no entanto a última conquista já faz 60 anos. A Argentina também tem duas conquistas, 78 e 86, mas a fila já dura 24 anos.
França e Inglaterra, com um título cada, são as seleções do quase. Não é aconselhável colocá-las como palpites de campeãs nos bolões que você participar.
O Brasil pode realizar em 2010 um feito importante. De 1930 a 1970, isto é 40 anos, o país levantou o caneco três vezes. Caso o selecionado de Dunga chegue ao título, serão três títulos no período de 40 anos.
As gerações Pelé/Garrincha e Pelé/Tostão tiveram o aproveitamento de 33% em 40 anos, já a Era pós 70, em que querendo ou não, Dunga é um dos símbolos desta era, terá 30% dos títulos. (a diferença de percentual se explica por não ter havido Copa do Mundo em 42 e 46). Um homem de 62 anos acompanhou conscientemente os títulos conquistados pelo Brasil.
Caso venha o título de 2010, pode acontecer um empate técnico entre o futebol plástico brasileiro e o futebol prático brasileiro. Talvez daqui a 40 anos vejamos que a cisão entre o estilo do primeiro Brasil que dominou o mundo e o pragmatismo do "Segundo Reinado" seja menos profunda do que julga nossa vã filosofia. Poderá soar tão absurda como hoje consideramos a passeata promovida pela MPB contra as guitarras elétricas promovida na década de 1960. Nos anos rebeldes quem gostava de samba não devia gostar de rock. Hoje gosto dos dois sem dramas e patrulhas.
O plástico time de 82 provocou em mim as primeiras lágrimas esportivas de tristeza, o prático time de 94 lágrimas esportivas de alegria. Nenhuma copa conquistada pelo Brasil foi de segunda categoria. Como canta Falcão, do Grupo O Rappa: "Eu quero ver gol, não precisa ser de placa, eu quero ver gol.
No entanto, para que as estatísticas citadas se realizem é preciso passar pela Holanda, é difícil, mas é possível.
Metáforas músico-futebolísticas
Soares Júnior | Soares Júnior | 30/06/2010 11h16
O compositor Fernando Brant pergunta em um trecho da música "Beijo Partido": "onde está a rainha que a lucidez escondeu"? Acho que esse questionamento pode ser feito ao técnico Dunga. Nessa metáfora futebolística, a rainha seria a volúpia com que o Brasil atacava. O improviso e a ginga que havia na bola do brasileiro. Acho que a rainha se mudou para a fronteira mais ao sul. Lógico que neste momento gostaria que Messi e Tevez tivessem nascido do lado de cá da fronteira.
Não, esse texto não será uma lamentação sobre a gestão Dunga na seleção. Em minha opinião, o pragmatismo do técnico é a lucidez escondendo a rainha. E o ponto que quero defender é o seguinte: o time de Dunga é acima de tudo, lúcido. Dificilmente corre risco e parte desesperadamente ao ataque.
A lucidez é chata, é careta, mas pode ser um caminho para vencer. Também não estou dizendo que o futebol bonito e o lúcido não podem se completar. Acredito apenas que no time do Dunga esses ingredientes não vão se encontrar. Dos 8 melhores times da Copa, só vejo na Alemanha a capacidade de juntar as duas características.
Não é otimismo exagerado, ou cegueira de torcedor. O Brasil é favorito contra a Holanda, pelo simples fato de ser um time melhor. Vejo no estilo desta Holanda semelhanças com o Brasil de Dunga. Um time mais lúcido do que lúdico.
Quando penso no sistema de Dunga lembro de outra música da turma mineira. Em "Nuvem cigana", de Lô Borges e Ronaldo Bastos, Milton Nascimento canta: "Se você dançar eu danço com você (...) eu danço o que você dançar". A seleção brasileira é um time que joga o necessário.
***
Agora vem o Betão para á Gávea? Espero que o Fla 2010 não seja uma triste refilmagem de Vasco 2008.
Tropeçar na sorte
Soares Júnior | Soares Júnior | 29/06/2010 12h53
O Dunga é um cara de muita sorte. Andando pelas ruas da vida tropeçou no time titular do Brasil para a Copa. A movimentação no formado por Daniel Alves, Kaká, Ramires e Gilberto Silva foi a melhor dos últimos tempos. A lamentar a suspensão de Ramires. Tem gente defendendo contra a Holanda um meio formado Kaká, Robinho, Daniel Alves e Gilberto, com Nilmar e Luis Fabiano na frente. Bem, aí o técnico não seria o Dunga.
A Holanda é difícil, o Sneijder e o Robben jogam muito, estou pessimista. Acho que o Brasil vence só de 2 a zero. Não adianta, time que ataca demais o Brasil toma aquela ferroada.
Dunga e repórteres não se estranharam na coletiva de depois do jogo. Este armistício foi espontâneo ou negociado? O bom é que evita constrangimentos para todos. Agora tem cada perguntinha "levanta a bola" que é de doer. Sem querer provocar uma guerra federativa, mas o sotaque das perguntas é bem característico.
***
O Flamengo acertou ao afastar o goleiro Bruno do elenco até que esse rumoroso caso do desaparecimento da ex-namorada se esclareça. Não pode haver nenhum tipo de dúvida sobre o caráter de alguém que é ídolo de milhões de pessoas. Meu filho quando vai para o gol no futebol diz que é o Bruno. Por esse motivo eu "censurei" (calma, só mudei de canal) a televisão nos momentos de reportagem sobre o caso.
O melhor para o goleiro é que o caso se esclareça o quanto antes. Se essa moça desaparecer de vez, Bruno terá sobre pescoço a guilhotina da dúvida. As pessoas não devem ser condenadas a priori, mas com sua controvertida personalidade, o jogador atrai os piores olhares.
Em contrapartida, a polícia tem que apresentar mais provas e menos impressões pessoais. Não simpatizo com a pessoa do Bruno, mas a delegada deve resistir à tentação da publicidade. A notoriedade do investigado é um chamariz de holofotes.
Umas ou algumas coisas sobre MJ
Soares Júnior | Soares Júnior | 28/06/2010 09h16
Meu amigo Alexandre Carauta odeia efemérides. Ele sempre diz que tem que "jogar pra a frente", isto quer dizer no jargão jornalístico, que devemos buscar o que aquele evento pode ter alterado alguma coisa no presente. Pois bem, faz um ano que o Twitter deu uma surra nos meios de comunicação convencionais. A rede social anunciou a morte de Michael Jackson enquanto TVs, rádios e jornais colocavam um inacreditável "parece que Michael Jackson morreu". Depois disso tivemos a intromissão desta ferramenta na seara da imprensa tradicional, vide a repercussão da campanha "Cala a boca Galvão", que estimulou dois jornais estrangeiros a explicá-la.
Pronto, atendi meu amigo, agora vamos falar do "Rei do Pop". A Rede Globo exibiu num horário absolutamente impróprio (após o Fantástico) o documentário "This is it". Na produção de Kenny Ortega, não há melancolia, pedofilia ou polêmica. Tem Michael Jackson no melhor lugar em que viveu, no palco. Tem muita luz, muito brilho e o que poderíamos chamar de "consciência pop". O documentário sobre os ensaios daquela que teria sido a última turnê do astro, mostra que Michel Jackson tinha os cálculos precisos para chegar aos corações e mentes de audiência.
A prova deste dom está em frases soltas no filme, palavras que podem ser tratadas como "encíclicas pop" de MJ. Ao orientar os músicos na execução de um arranjo ele diz: "quero que as pessoas ouçam a música como é no disco". Em outra oportunidade ele explica à equipe: "eles (o público) querem experiências maravilhosas e escapismo, (...) deem tudo de si".
O filme é a prova da inexorável passagem do tempo. Ao ver MJ ao lado dos dançarinos, isso fica evidente. Provavelmente, muitos começaram a carreira inspirados em Jackson. Eles nunca serão o que Michael foi, mas hoje o superam largamente.
A época de Copa do Mundo inspirou-me uma comparação. A situação do astro com seus dançarinos é mais ou menos a de Maradona e os jogadores da Argentina. Messi e Cia nunca serão dom Diego, no entanto, atualmente, podem decidir em campo, a Maradona resta a condução do espetáculo.
Voltando ao filme, a coreografia de "Billie Jean" me despertou uma sensação. O velho cantor recorre a truques vocais que o amparam, além disso, o dançarino faz os passos que o levam à zona de conforto. O som e os movimentos ainda têm momentos belos, mas no todo, são arremedos da deslumbrante performance de outrora.
O Michael Jackson de "This is it" usa mais os braços do que as pernas. Ele é indulgente com os erros dele e da equipe. Mais de uma vez usa a frase "é por isso que a gente ensaia". Os momentos de tietagem explícita de músicos, dançarinos e produtores são respondidos com um quase tímido "Deus abençoe vocês". O final ecológico é chatinho e cafona, num resumo do que foi MJ nos últimos anos.
Mesmo passado um ano de sua morte, a ausência do astro é algo impensável. Jackson habita um lugar destinado aos ídolos atemporais. Prova disso é que minha filha de quatros anos inventa uma letra para cantar "Thriller". Além disso, ela já falou que as avós encontraram MJ no céu. Se for verdade, minha mãe e minha sogra estão ouvindo boa música por lá.
Mais uma que se vai
Soares Júnior | Soares Júnior | 26/06/2010 00h21
Adoro cerimônias de passagem. Independentemente do que elas representem. Ao longo da vida são várias. A passagem da primeira paixão para a primeira cantada. O êxito e o fracasso na empreitada por aquela conquista também representam a passagem.
A cura da primeira desilusão amorosa com uma nova pessoa também faz parte destes ritos. Neste momento encerro mais um ciclo. É assim todo final de período. Dou aula há oito anos, o que representa um período equivalente ao curso de duas universidades. O que para muitos é um alívio, para mim vem misturado um luto. Eu me despeço dos alunos com os quais vivi bons momentos durante quatro meses. Posso passar por eles nos corredores e os cumprimentos serem cordiais, mas a relação cúmplice termina. É sempre a mesma coisa, mas eu não aprendo. Sinto saudade dos alunos.
Ao fim de todo período de aula peço a eles uma coisa: divirtam-se e tenham prazer nos projetos que empreenderem. Desde a profissão escolhida ao relacionamento amoroso que se envolverem.
A minha disciplina é sobre rádio, mas o que espero que eles entendam fundamentalmente é que a profissão deles deve ser exercida 24 horas por dia, se alguém pretende trabalhar menos tempo, é melhor desistir.
***
O Dunga é um cara sortudo, se o Brasil jogar meia pataca chega à final.
Bom fim de semana!
Os bolões e a macheza
Soares Júnior | Soares Júnior | 23/06/2010 10h16
Meu desempenho pífio nos dois bolões que me inscrevi são o golpe na minha auto-estima. O pior é que num deles, a liderança é feminina. Estou com menos da metade dos pontos da líder. As quatro primeiras posições são ocupadas por meninas. Elas invadiram mais um espaço restrito dos homens.
A Marianna, por exemplo, acertou o 1 a 1 entre Eslováquia e Nova Zelândia. nem o Lédio Carmona que lidera o bolão do Sportv deve ter colocado esse resultado. Os métodos de algumas para o êxito nas apostas é pouco ortodoxo: uma olhada no álbum da Copa para ver se os jogadores são bonitinhos. Antes que haja uma patrulha sexista, os métodos não foram fruto da minha imaginação, foram revelados pelas próprias meninas.
O macho fica quatro anos discutindo ininterruptamente futebol para provar a sapiência superior em períodos como esse. Essas meninas intrusas, que às vezes precisam ser informadas sobre o que é impedimento, resolvem vencer nos bolões. Injustiça! O bolão de Copa deveria ser a comprovação maior de que nossos cérebros foram preparados para acompanhar o velho e violento esporte bretão.
Como não entendo nada de futebol, resolvi perguntar à Marianna quem será o campeão. Ela apostou no Brasil. Isso me tranquilizou, foi minha aposta também. Estaremos certos?
***
Descobrimos que a seleção brasileira poderia estar pior. Era só ser treinada pelo Domenech. Quanta grosseria pode comportar um coração? Descobrimos ontem quando o desarvorado técnico francês se negou a cumprimentar Carlos Alberto Parreira. A fina ironia do treinador da África do Sul foi uma boa resposta a este imbecil.
Agora doeu no calo
Soares Júnior | Soares Júnior | 21/06/2010 12h23
A cada 28 anos o calendário se repete. A Matemática dos múltiplos de 7 explica a coincidência. Voltemos, então, à copa de 82. Nela, a Itália brigou com a imprensa de seu país e resolveu não falar com ninguém, o resultado já sabemos. A tragédia do Sarriá foi a parte brasileira da epopéia azurra. Essa atitude italiana ganhou a Copa? Um não peremptório para a pergunta. O que fez a diferença foi um time forte, com jogadores muito bons como Zoff, Scirea e Paolo Rossi. A Itália tinha uma equipe aplicada taticamente e implacável na marcação. Uma vez ouvi o Luis Mendes dizer que a seleção brasileira de 82 era ótima com a bola no pé, mas deficiente sem a pelota. Por tanto, os italianos foram melhores.
A reclusão da equipe de Dunga não vai fazer ganhar ou perder o título na África do Sul. O que vai resolver é se Luis Fabiano e Kaká continuarem o processo de recuperação. Outro aspecto decisivo é se a defesa vai ficar atenta o jogo todo e se o Felipe Melo não vai perder a cabeça.
A decisão da Itália em 82 foi diferente da postura adotada agora. Em 2010 o Brasil tem jogadores com discursos ensaiados, porém civilizados. O que não acontece com o técnico da seleção. Dunga é paranóico e rancoroso. É necessário entender a liturgia para ocupar o cargo que de quatro em quatro anos chega a ser mais importante do que o de presidente. Vencedor e pragmático, Dunga não conseguiu entender a importância de dar informações aos jornalistas. Vendo o Canal Livre, na TV Bandeirantes, ouvi uma sábia sentença do Joelmir Betting: "Técnico de futebol e político que reclamam da imprensa são como marinheiros que reclamam do mar".
A atitude de Dunga foi inaceitável, mas a reação da maior emissora do país pareceu-me um pouco tardia. O técnico da seleção é grosseiro com jornalistas há muito tempo. Ouvindo os comentários durante as partidas sentia, pode ser que erroneamente, que o nome do técnico era poupado nas transmissões da Globo. No entanto, acredito que a partir da grosseria de ontem, a cobertura ganhe um tom mais ácido com os achaques do mal humorado que dirige a seleção.
Não gostaria de ser amigo do Dunga, pessoas com este instinto beligerante me causam repulsa. No entanto, dentro de campo, pelo menos por enquanto, os resultados dele são incontestáveis. Não será o mau gênio e a absoluta inabilidade que demonstra ao tratar com o público que vão desmerecer seu desempenho profissional.
A história e a ironia
Soares Júnior | Soares Júnior | 18/06/2010 08h50
A vida é feita de finas ironias, resta-nos a diversão e a curiosidade contidas nelas. Vejamos a Copa do Mundo. A primeira grande atitude a contrariar a ética esportiva do torneio pode vitimar a França. No caso de um empate entre Uruguai e México vai obrigar o pessoal da terra do croissant a voltar mais cedo para casa. Logo a França, que só está na copa graças a um erro crasso de arbitragem na partida contra a Irlanda.
A maior tristeza da Copa até o momento foi ocasionada pelo Uruguai. Liderada por Diego Furlan, a Celeste Olímpica derrotou os Bafana Bafana e silenciou as vuvuzelas. A ironia histórica reside no fato que daqui a menos de um mês faz 60 anos do Maracanazzo, a traumática derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa de 50. Decididamente, os habitantes da ex-província Cisplatina não primam pelos bons hábitos como visitantes.
***
Um amigo falou que exagerei nas críticas que fiz ao Vesgo por ter se metido no ao vivo da Glenda Koslovski. A melhor reação foi da repórter da TV Globo, que pelo Twitter, agradeceu ao humorista pela intervenção. Continuo não concordando com a atitude dele, mas pode ser coisa de velho rabugento.
***
Durante uma aula sobre a história da narração esportiva no rádio, mostrei aos meus alunos o áudio da final de 1970. O ufanismo e a sofreguidão no grito de gol do Jorge Curi causaram espanto e riso neles. O discurso do narrador, que é um dos maiores da história do rádio, é o retrato de uma época. Todo momento, ele enfatizava que aquela fora uma vitória da pátria, era o Brasil do "Ame-o ou deixe-o".
Abria uma tela na minha cabeça para pensar na Copa de 2010. Um morador de Berna, nascido há 50 anos, encarou como um feito de sua pátria quando um atacante nascido em Cabo Verde vazou a defesa espanhola. A nação suíça venceu aquele jogo contra os espanhóis, ou apenas um time que representava o país conseguiu o triunfo? A resposta a esta pergunta pode terminar quão sadia é a relação de um país com o esporte.
Meu país está aqui, com seus problemas, dores e virtudes. O time que está África do Sul é apenas parte dele, não a transmutação dele. Espero que dirigentes, comissão técnica e políticos pensei corretamente na questão. Não quero viver num país em que ao final de uma vitória esportiva, haja o pronunciamento em cadeia nacional do excelentíssimo Sr. Presidente da República, como aconteceu em 1950.
Humor nada inteligente
Soares Júnior | Soares Júnior | 16/06/2010 10h43
Existe um princípio entre os repórteres que cobrem o dia a dia nas ruas do Rio de Janeiro, respeitar o trabalho do colega. É um manual de redação não escrito, mas funciona assim. Os fotógrafos tem um jargão que é "já fez a foto, sai", os repórteres de rádio pedem "estou ao vivo" e os colegas facilitam o acesso do seu telefone à boca do entrevistado. Salvo em situações de extremo stress ou absoluta falta de possibilidade, o acordo é cumprido.
Além de camaradagem, é também o princípio da "transmutação" que se resume ao seguinte: "eu já estive, vou estar ou quero estar no seu lugar". Como diz um amigo, o "mundo é redondo" e a furada de olho que você der hoje, pode voltar contra seu globo ocular amanhã.
Isto posto, acho que a aparição do repórter Vesgo no link da repórter Glenda Koslovsky foi um desses momentos infelizes do programa. A repórter entrevistava um menino em Johanesburgo, antes da partida do Brasil. Nisso o integrante da trupe da REDE TV entra no quadro. No RJ-TV têm dois "papagaios de pirata" que aparecem nas entradas ao vivo. A entrada em quadro do "repórter" Vesgo (entre aspas propositalmente) se assemelha mais a um exibicionismo idiota do que a uma metalinguagem televisiva, algo como "falar mal do sistema por dentro".
É diferente do quadro que um dos integrantes consegue entrar no Big Brother Brasil. Foi uma brincadeira que acabou prestando um serviço ao telespectador, dando uma visão diferente do reality show. A mistura humor jornalismo é feita com muito, mas bota muito nisso, mais inteligência pelo CQC. Com uma ou outra exceção, o Pânico já deu. Menos mal que a própria Glenda levou na boa a palhaçada do rapaz.
***
A "poderosa" Costa do Marfim vai tirar o timeco do Dunga da Copa. Calma, gente, a vitória poderia ter sido melhor, mas fazer um prognóstico pessimista pelo que os times apresentaram na primeira rodada é precipitado. Na minha modestíssima opinião, o time não foi bem como o mal humorado treinador quer fazer acreditar, nem tão mal que a degola é fato consumado.
Só não gostei da lembrança que o último gol de um lateral-direito foi na Copa de 86. Aquela segunda ida ao México não foi nada boa para o futebol brasileiro.
A estreia em três tempos
Soares Júnior | Soares Júnior | 15/06/2010 17h28
Fiz uma proposta experimental a mim mesmo. Escrever uma crônica do jogo em três tempos. A cronologia do sofrimento do torcedor. Vamos ao texto:
O Brasil entrou em campo neste momento e a expressão no rosto do Dunga me emocionou e assustou. Uma pessoa com três copas no currículo naquele momento algo indefinível.
Os olhos diziam tantas coisas indecifráveis, que me emocionei. A paixão é de todos, a vitória também. A derrota é toda debitada de uma só pessoa. Pessoa física e jurídica do técnico da seleção. Acho que o indecifrável no olhar de Dunga é o peso de tomar decisões que fazem com que 190 milhões de pessoas chorem, sorriam e comemorem. Não vou apelar para um sensacionalismo barato, mas tomara que o Brasil vença mais essa Copa. É efêmero, mas tão intenso o momento do título.
***
Acabou o primeiro tempo. Começo a acreditar que essa história do grupo está saindo do campo das palavras e entrando na grama verde. Com exceção do Robinho, ninguém arrisca uma jogada individual. Luis Fabiano e Kaká não sabem o que fazer na cancha. São muitos operários, mesmo o número 10, que é um pop star calça demais as sandálias da humildade. O Brasil está tão estranho que o Felipe Melo não fez falta no primeiro tempo.
Sensacional é não ver um carro circular na Rua Humaitá durante o intervalo do jogo. Isso me lembra aquela música do Milton Nascimento e do Fernando Brant, "País do Futebol", aquela que diz "Brasil está vazio na tarde de domingo, olha o sambão aqui é o país do futebol".
***
O jogo acabou, ufa! Kaká correu mais um pouco no segundo tempo e fez dois gols. Numa daquelas bobeiras do futebol os norte coreanos ainda conseguiram empatar. É, podem falar o que quiser, mas o Elano foi o nome do jogo. Deu o passe para o Maicon. Robinho e o lateral da Inter de Milão também jogaram razoavelmente. Espero que a partir do próximo jogo, Luis Fabiano jogue o que se espera dele.
Dois a um foi magro, mas pelo que jogaram Portugal e Costa do Marfim, saldo de gol não deve ser problema para a classificação do seleção do Dunga.
Futebol Latino
Soares Júnior | Soares Júnior | 14/06/2010 09h44
Eu adoro assistir aquelas coisas "trash", lixo mesmo. Tanto é assim que um amigo me deu no aniversário um livro que ensina você achar no youtube o melhor do pior. Tenho como profissão de fé, mostrar aos meus estagiários o clipe Amigo fura olho, do Latino. Um primor de coisa ruim. Acho que levo muito a sério esse negócio de não me levar a sério.
Batalhando contra minha lesão entre a sacra e a lombar, conseguida graças ao meu ofício como repórter, fazia uma compressa de água quente e assistia TV. Vendo o Central da Copa, na Rede Globo, vejo meu futuro estagiário sentado na primeira fila do programa. Até aí, nada demais. No entanto teve um momento em que os participantes tinham que fazer uma tabelinha de cabeça. Qual não foi minha surpresa quando meu futuro estagiário trocou bola justamente com o... Latino.
Como só vai começar a trabalhar em julho, ele ainda não passou o ritual de iniciação de ouvir amigo fura-olho. Nem sei se ele vai achar tanta graça assim, na verdade é uma piada interna que gostaria de dividir com vocês. Em tempo, adoro assistir Libero Sim, uma paródia feita em cima de uma cena de High School Music. Como dia um amigo meu, provoca tanto riso que é capaz de curar paciente terminal.
***
O Central da Copa levou o jornalismo esportivo ao grau de entretenimento. Análises sérias, saber se o time joga no 3-5-2, 4-3-3, essas coisas são para outros canais. Ali é a farra da garotada. É aquela tendência de tirar os programas esportivos dos guetos do público alvo, na verdade é uma tentativa de aumentar o alvo. Tem gente que não gosta de esporte, mas adora o Tiago Leifert. Eu não gosto do estilo, vivo tendo "vergonha alheia". No entanto, sou velho e posso não entender os novos tempos do jornalismo televisivo.
***
Foi tão indigente o futebol nos primeiros jogos, que teve gente com sentimentos quase lúbricos pelo futebol da Alemanha. Sem um pingo de patriotismo na crença A seleção do Dunga vai ser campeã. Minha dúvida é se isso vai ser bom para o futebol brasileiro. A vitória de uma filosofia centralizadora e adepta ao confronto.
Começou a farra do violento esporte bretão
Soares Júnior | Soares Júnior | 11/06/2010 21h51
Esta é a primeira Copa do Mundo em que tenho um blog. Por isso vou poder fala o quiser sobre as partidas. É tão bom não ter censura. O técnico Carlos Alberto Parreira vibrou como se fosse o Felipão na partida de abertura da Copa. Eu até achei que a África do Sul seria beneficiada pela arbitragem. Tal como boa parte das previsões levianas, foi o contrário. Houve um pênalti de manual que o juiz do Uzbequistão não marcou.
Pensei na vibração do Parreira e lembrei-me de um fato: esta é a primeira vez que ele comanda o time da casa numa Copa, por si só, isso deve mexer com a cabeça de qualquer um, mesmo a de alguém veterano como treinador brasileiro. Para mim houve uma grande surpresa no primeiro dia do campeonato. A Jabulani foi menos maltratada na partida entre África do Sul e México do que no confronto dos campeões Uruguai e França.
Com a evolução das regras deveria existir uma que tirasse pontos dos times que realizassem peladas como a do segundo jogo do dia. Tenho esperanças que Holanda, Espanha e Argentina me façam lembrar porque sou tão apaixonado por futebol. Do Brasil quero apenas o título, se esse time de operários conseguir mostrar futebol bonito, é lucro.
***
A semana começou com o Flamengo escalando a seleção do mundo, um time com Riquelme e Ronaldinho, treinado pelo Felipão, era o Hepta garantido. Terminamos a semana com Felipão praticamente acertado com o Palmeiras, Emerson Sheik nas Laranjeiras e perdemos até o "cracaço" Jobson, que esnobou o maltratado manto sagrado. Zico, começa logo.
***
Maria Gadu é uma artista de bom gosto, pode-se perceber na escolha de repertório. No entanto, o que mais me chama atenção é a sua onipresença. Como exemplo, a relação dela com a MPB FM. Num fim de semana a jovem cantora se apresenta no Central Park, no primeiro show internacional promovido pela emissora. Na outra, ela se apresenta no clube Mauá, de São Gonçalo. É o que podemos chamar de uma artista com ecletismo a toda prova.
Fora isso é interessante o investimento que a MPB FM faz na plataforma internet. Um show fora do país só é possível para a divulgação da rádio fora da radiodifusão tradicional. É o chamado "Rádio sem onda" como diz meu amigo Marcelo Kischinhenvsky.
Que joguinho gostoso
Soares Júnior | Soares Júnior | 10/06/2010 17h23
Waka waka à parte, a Copa promete. Estou participando de dois bolões. No primeiro já dei meus palpites, Brasil campeão, Itália, vice e Robinho artilheiro. Não adianta, fui abduzido por um patriotismo otimista. Agora é "pra cima deles".
Minha aluna Ana Carol Diniz ressaltou que vai ser uma pena dizer para os filhos dela que a o Brasil foi campeão com passes de Josué para Elano. Fazer o quê, foi assim que o Dunga quis, a nós, resta a torcida.
Gostaria de entender o motivo de entrevistar o presidente Lula antes da Copa. Houve uma saraivada de críticas quando o avião passou lá antes de ir à África do Sul, no entanto, O Esporte Espetacular foi entrevistá-lo. Lula tem notório saber tático e técnico sobre o assunto? Depois o acusam de misturar política e esporte...
A graça da vida são as contradições. No Brasil quando a Ditadura aproveitou o Tri no México para dar um tom triunfalista ao regime, foi condenado pela esquerda (diga-se de passagem com toda razão). Já no filme Invctus, é mostrada a história de que um evento esportivo serviu para começar a secar feridas étnicas, políticas e sociais. É mais um tapa naquelas pessoas que tem pensamentos absolutos e não sabem relativizar.
Por fim, África do Sul e México para abrir uma Copa do Mundo tão especial é complicado. Que santa Jabulani rogue por nós e não seja muito maltratada. Boa Copa a todos!
Também sobre Soares Júnior
Beatriz, Leandro e Felipe
30/07/2010 08h30
Caso Joanna Marins: vamos ao que interessa
29/07/2010 08h00
Alonso X Massa: os dois lados estão errados
27/07/2010 12h28
Caso Joanna Marins: vamos ao que interessa
Soares Júnior | 29/07/2010 08h00
Beatriz, Leandro e Felipe
Soares Júnior | 30/07/2010 08h30


