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Sidney Rezende

Sidney Rezende

ATUALIDADE. Jornalista, diretor do SRZD e um dos profissionais mais inovadores do país.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



25/07/2016 17h51

Antes canguru do que 'mico'
Sidney Rezende

Quem costuma assistir às minhas palestras já enjoou com a repetição do conceito de qualidade que ouvi de Carlos Salles, ex-presidente da Xerox Brasil: "fazer certo, rápido e da primeira vez". Bingo.

Nós, brasileiros, movidos pela crença de que no finalzinho as coisas se ajeitam, não estamos nem aí para qualidade e muito menos para inovação. Em tempo: "inovar não é exatamente ter ideias novas, mas abandonar as velhas".

Por aqui, a Polícia senta o porrete em estudante e professor. A Guarda Nacional é barrada por milicianos e chama a PM local para dar-lhe proteção. E o ministro da Justiça bate no peito orgulhoso que mandou prender um criador de galinhas e um empacotador de supermercado como possíveis terroristas.

Eu ligo para o laboratório para marcar consulta e, a pedido da atendente, começo a listar cada exame que pretendia fazer. Em dada altura, sem entender direito a letra da médica, soletro e digo o que me parece. A moça diz seca: "desconheço. Próximo!". Eu peço ajuda e ela altera a voz e me destrata. Sem que eu dissesse absolutamente nada mais.

Viajo por uma companhia aérea que não despacha minha mala. Chego ao destino com a roupa do corpo e tenho que me virar. O funcionário da empresa se julgou no direito de dizer: "o senhor não é o único. Não se aborreça, isso acontece constantemente". Hein?

A equipe da Austrália chega para se acomodar na Vila Olímpica do Rio, e encontra privadas entupidas, o assoalho similar a de um chiqueiro, a fiação exposta com direito a choques disponíveis aos interessados a qualquer hora do dia ou da noite. E o prefeito da cidade solta a pérola: "estou quase botando um canguru para pular na frente deles".

A chefe da delegação estrangeira foi quase britânica: "não precisamos de Canguru, precisamos de um encanador". Eu acrescentaria: de um pedreiro, um eletricista, um contador, um conselheiro do Tribunal de Contas, um juiz do Supremo e, em caso de superfaturamento, um presídio para enjaular os responsáveis por eventuais desvios de uma obra que custou R$ 2,9 bi hoje reduzida a um mico mundial.

Para um país combalido em sua educação, saúde e segurança, não é surpresa saber que respeito e qualidade não são mesmo nossa praia. Se ainda tivéssemos cangurus por aqui, a vida teria um pouco mais de charme. Por enquanto, nada disso tem graça nenhuma.


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18/07/2016 13h07

Eliakim Araújo, um brasileiro
Sidney Rezende

A morte prematura de Eliakim de Araújo é uma tristeza. Um homem que dedicou sua vida ao nosso ofício sem nunca deixar de olhar com afeto para o Brasil e os brasileiros. A fraternidade entre nós era reforçada por temos um amigo em comum, Dinoel Santana, que deve estar muito triste hoje. Como eu. E os fãs de Eliakim.

Eliakim Araújo. Foto: ReproduçãoCerta vez, escrevi aqui no blog sobre minha admiração por Sérgio Chapelin, outro colega nosso, e citei a brilhante equipe de profissionais que dignificaram a extinta Rádio Jornal do Brasil AM.

Fiz apenas uma singela lembrança aos colegas que me antecederam e que eu jamais consegui alcançá-los em competência. Muito menos em biografia a serviço do país.

Eliakim, elegante, me mandou uma mensagem em que incluía sugestões de correção. Todas elas perfeitas, precisas, concisas e justas. Eliakim era um profissional assim: correto e em busca da correção. E corajoso também. De qualidade.

Veja o que ele me enviou particularmente:

Sidney, obrigado pela referência ao meu nome da excelente matéria sobre o Chapelin. Realmente foi um privilégio pertencer àquela equipe. Peço apenas que corrija para Orlando de Souza, o profissional (já morto) que vc cita como Oswaldo de Souza. Outra coisa: Majestade era o apelido carinhoso dado ao Jorge da Silva, pela maneira polida como tratava a todos. O Jorge morreu quando já estava na TV Globo e apresentava o telejornal do fim de noite. Aliás,morreu a caminho da emissora, depois de passar mal no Túnel Rebouças.
Abs e sucesso cada vez maior,
Eliakim

Relendo este e outros textos do seu universo fica nosso reconhecimento e condolências à família que com ele compartilhou sua inteligência e brasilidade patriótica.


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18/07/2016 12h31

Sucesso nos talk shows de Itaperuna e Barra Mansa
Sidney Rezende

A mesa que discute tributação no Encontro Regional do Mapa Estratégico do Comércio, da Fecomércio, é uma das mais frequentadas e polêmicas do road show que percorre os principais polos de desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro.

Veja abaixo as fotos:

 



13/07/2016 09h21

Os empresários e a importância da comunicação
Sidney Rezende

Muito obrigado aos líderes e empresários do estado do Rio de Janeiro que me possibilitaram falar sobre a minha visão sobre a comunicação e a importância das empresas tratarem este setor como prioritário nas organizações.

Sidney Rezende. Fotos: Renata Mello 



11/07/2016 13h26

Não queremos patrulhas ideológicas
Sidney Rezende

No final dos anos 70, recém-chegado à universidade, a minha geração estava totalmente envolvida com a abertura política, a volta da democracia, do estado de direito e a recuperação da liberdade suprimida nos anos anteriores. Vivíamos a efervecência de um período de construção de um novo modelo para o país.

Eu me lembro como se fosse hoje o cineasta Cacá Diegues defendendo um ideário que a imprensa intitulou "combate às patrulhas ideológicas". O que era isso? Cacá se rebelava contra grupelhos ideológicos ou religiosos que tinham por objetivo impor seus ideais à sociedade, munindo-se de discursos, pressão através da mídia, protestos e reivindicações autoritárias. Como se todos tivessem que rezar por uma mesma cartilha. Uma vigilância constante contra aqueles que pensassem fora da caixa. O famoso enquadramento.

Como queríamos que o Brasil trilhasse o caminho da liberdade, não cabia aceitar imposições como aquelas. "Abaixo as patrulhas ideológicas!", gritávamos. A esquerda - que também era chegada a uma patrulha - teve que se aquietar e buscar outros caminhos. Ainda bem.

Eis que estamos em 2016, em pleno século XXI, e as patrulhas ideológicas e religiosas estão de volta. O presidente Michel Temer é questionado nas suas crenças ao ponto de ele ter que vir a público se explicar. Não deveria precisar fazer isso.

Turma da Mônica Jovem. Foto: ReproduçãoA quadrinista Petra Leão, umas das roteiristas da Turma da Mônica Jovem, sofreu ameaças pelas redes sociais por causa de uma frase dita por Mônica na edição 94 da revista. "Meu corpo, minhas regras! Podem discutir e debater até cansar...", disse nossa personagem mais querida eternizada pelo empreendedor Maurício de Sousa.

O quadrinho mexeu com os brios dos conservadores. O site "Comunique-se" reproduz parte da repercussão: "De acordo com o Nexo Jornal, a narrativa com a sentença em questão aborda se Mônica deveria ou não usar aparelho nos dentes. A protagonista usa as palavras no momento em que se mostrava irritada, contrária à intromissão dos amigos sobre sua decisão pessoal. Na internet, diversas mensagens acusam Petra e a publicação de fazerem parte de uma "doutrinação esquerdista", além de pedir a demissão da profissional do quadro da Maurício de Sousa Produções.

Leitores de blogs radicais de direita pedem pelotão de fuzilamento para quem pensa diferente; e banimento de jornalistas que eles "julgam" comunistas. Já chegaram ao desplante de exigir demissão de alguns para que fossem encontrados na sarjeta sem trabalho para o sustento das suas famílias. Uma verdadeira caça às bruxas.

As patrulhas de esquerda de 1978 têm tudo a ver com as patrulhas conservadoras de hoje. Ambas são autoritárias, descompensadas e atuam a serviço do atraso. Chegou a hora das pessoas sensatas do país darem um basta neste avanço do pensamento intolerante.

O grave é os jovens de hoje não perceberem que estão subtraindo seu futuro falseando o presente. Quando se retira a liberdade de pensamento e expressão, se está maculando o desenvolvimento das pessoas e da própria nação. Inovar não é só ter ideias novas, mas abandonar as velhas. Abandonemos o retrovisor.



07/07/2016 09h33

Palestra para o Terceiro Setor
Sidney Rezende

Foi uma honra ter participado do encontro com pessoas do chamado Terceiro Setor que patrocinam, investem o seu tempo e se dedicam a causas sociais que o próprio Estado não consegue realizar. Fui convidado pela Agência do Bem para falar da importância de uma pauta social positiva neste momento de crise e instabilidade que o país atravessa.

Só para contextualizar, a Agência do Bem é uma organização que já atua na área há algum tempo. No ano passado, ela completou 10 anos. Tem como principais projetos as Escolas de Música e Cidadania e a Orquestra Nova Sinfonia, além de, dos últimos três anos para cá, ter ampliado e muito seu trabalho em rede, atuando em parceria com outras organizações e, consequentemente, estando presente em um número crescente de comunidades do Rio de Janeiro.

Além da apresentação da Orquestra de jovens, o evento no Hotel Copacabana Palace contou com o discurso do presidente da ONG, Alan Maia, e a minha palestra logo a seguir. 

Nós discutimos novas formas de sensibilizar a sociedade, empresários e as autoridades a apostarem em entidades sérias e não "tamboretes" que se servem de recursos públicos para desvios criminosos.

Palestra de Sidney Rezende durante evento da Agência do Bem. Fotos: Lina Reis

Fotos: Lina Reis



26/06/2016 16h26

O Brasil está doente e não fazemos nada
Sidney Rezende

Neste mês, estive em Natal, São Paulo, Uberlândia (MG), Catalão (GO) e Teresópolis (RJ). Estarei esta semana em Boa Vista, capital de Roraima, Itaperuna, interior do Rio, e Recife, em Pernambuco. Por onde passo, digo o que penso e tenho consciência que gero, em alguns, desconforto. Mas também percebo o desejo de mudança de rumo por parte da maioria.

No Tribunal de Justiça do Rio, me detive na crítica à burocracia jurídica e comentei que não me parecia ponderado encontrarmos nas instalações do evento para qual fui convidado para palestrar elevadores privativos para juízes, onde um ascensorista ali permanecia em horário integral para fazer apenas três ou quatro viagens. Enquanto a fila para os demais mortais se esparramava além do saguão. E pedi justificativa para a existência de bar e restaurante exclusivos para desembargadores. Eles não gostaram.

Na ABI, Associação Brasileira de Imprensa, falei de empreendedorismo, da perseguição do Império ao Barão de Mauá, genial empresário brasileiro. Frisei a farsa de pensar que ser empreendedor é fácil num país oligárquico como o nosso. E comentei o quanto era importante o desenvolvimento não dependente do Estado. Os meus colegas jornalistas torceram os seus narizes. 

Numa gigante empresa pública, eu me opus ao modelo de concursados que podem mais que a própria direção. Era notório a existência de quebra de autoridade. Fui hostilizado. Uma moça escreveu para mim: "seja homem e seja concursado"(?!). A direção, dócil, aceita esta anomalia que confunde com direito adquirido, e, simplesmente, nada administra, e cada centavo do contribuinte vai, bovinamente, para o ralo.

Fui dizer que a mídia não pode disseminar a manipulação como prática natural e fui defenestrado. Para mim, informações "boas" ou "ruins" devem ser dadas, desde que... sejam notícia.

Poderia cansar o leitor com uma lista de outras verdades inconvenientes. Estamos anestesiados, simples assim. Dizemos uns aos outros que não suportamos ver os desmandos, roubos, monopólio, violência, o poder centralizador de poucos sobre muitos. Mas o que temos feito concretamente para mudar esta realidade? Pouco. Muito pouco. Aparentemente, a maioria está contente com o subdesenvolvimento, embora, em palavras, o repudiem.

O ácido escritor, ensaísta, deísta e filósofo iluminista francês François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, estava amargando seus últimos dias e o seu confessor tentou "salvá-lo" do que imaginava ser "calvário do porvir":

- Por que o senhor não abandona os seus demônios e o diabo?

Voltaire respondeu com humor e pragmatismo:

- Estou prestes a morrer e não é hora de arrumar mais inimigos.

Não pretendo arrumar mais inimigos dos que eu já tenho. Mas nossa letargia está levando o país ao abismo definitivo, pelo menos enquanto nossa geração existir.

Pelos puros e anjos que não nasceram, pensem comigo:

"No Brasil, há aproximadamente 14 milhões de analfabetos absolutos e um pouco mais de 35 milhões de analfabetos funcionais, conforme as estatísticas oficiais". A afirmação do economista da UnB Vicente Vuolo é cruel.

A enciclopédia conta que "analfabetismo funcional é a incapacidade que uma pessoa demonstra ao não compreender texto simples. Tais pessoas, mesmo capacitadas a decodificar minimamente as letras, geralmente frases, sentenças, textos curtos e os números, não desenvolvem habilidade de interpretação de textos e de fazer operações matemáticas. Também é definido como analfabeto funcional o indivíduo maior de quinze anos possuidor de escolaridade inferior a quatro anos letivos".

Um professor de uma turma de meninos e meninas entre 10 e 12 anos de uma escola da Baixada Fluminense me disse que a maioria não sabe ler e muito menos escrever. Uma outra também me contou que, na periferia de São Paulo, onde dirige uma escola, 35% dos alunos são criados pela avó, porque pais e mães seguiram seus caminhos pessoais. E os filhos que geraram não estavam nos seus planos.

É comum crianças apreendidas, confinadas em abrigos - e lá permanecem por um bom tempo - não receberem uma visita sequer. Nem dos jornalistas que vivem exigindo a redução da maioridade penal, mas não frequentam os infernos concernentes aos pobres. Onde está a responsabilidade dos "responsáveis"?

O Brasil perde R$ 197 bilhões por ano com violência no trânsito. Esse é o impacto econômico provocado pela morte de 43 mil pessoas e dos 525 mil casos de invalidez permanente resultantes de colisões e atropelamentos. O cálculo refere-se à interrupção da atividade produtiva como resultado da incapacidade de trabalho. Esses dados fazem parte do estudo Estatísticas da Dor e da Perda do Futuro: novas estimativas, do economista Claudio Contador, diretor do Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (CPES), da Escola Nacional de Seguros. E por que dirigimos como ogros?

Os jornalistas Victor Martins, Diego Amorim e Carolina Mansur fizeram uma reportagem que é para sentar na calçada e chorar. "Todos os anos, cerca de R$ 1 trilhão, o equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina, é desperdiçado no Brasil. Quase nada está imune à perda. Uma lista sem fim de problemas tem levado esses recursos e muito mais. De cada R$ 100 produzidos, quase R$ 25 somem em meio à ineficiência do Estado e do setor privado, a falhas de logística e de infraestrutura, ao excesso de burocracia, ao descaso, à corrupção e à falta de planejamento".

Em quatro anos, o número de processos movidos por erro médico que chegaram ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) cresceu 140%. Em 2014, 626 ações foram encaminhadas à corte sobre o tema. Em primeira instância, o número é muito maior.

No Brasil, quarto maior produtor mundial de alimentos, 50% do estoque se perde na cadeia de distribuição.

Levantamento feito pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) diz que a automedicação é praticada por 76,4% dos brasileiros. Entre os que adotam essa prática, 32% têm o hábito de aumentar as doses de medicamentos prescritos por médicos com o objetivo de potencializar os efeitos terapêuticos.

Como posso, diante de tudo isso, ficar aqui no meu lugar de braços cruzados? Os caras lá em cima, em Brasília, não estão nem aí para o Brasil real. Eles sequer sabem a realidade do povo brasileiro.

E, você, o que está fazendo concretamente para melhorar o nosso país?


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22/06/2016 07h57

Saiba o que direi hoje sobre o Brasil na palestra da UFF
Sidney Rezende

Este texto é para ressaltar a importância da inteligência reunida em torno da Universidade Federal Fluminense. Antes, peço sua paciência para contextualizar.

A extinta Rádio Jornal do Brasil AM entrou para a história. Ela conseguiu reunir até meados dos anos 90 os melhores profissionais do segmento do país. O Grupo Jornal do Brasil erigiu uma estrutura de elegância editorial jamais superada por qualquer outro concorrente. Eu tive a honra de trabalhar lá.

A bem da verdade, somente me integrei à equipe da JB anos mais tarde quando ela já vivia um lento processo de decadência. Registre-se que meus antecessores eram gente do naipe de Eliakim Araújo, Majestade, Sergio Chapelin, Alberto Curi, Orlando de Souza. Profissionais brilhantes.

Além da equipe qualificada, havia uma postura de dignidade rara na imprensa brasileira. Em 1982, no clima de retorno dos exilados pela ditadura e no respiro dos ares da anistia, a JB, como a chamávamos, tornou-se cidadela contra a tentativa de manipulação eleitoral no Rio de Janeiro denominada "Caso Proconsult".

Era uma manobra que visava anunciar inicialmente o resultado das urnas favoráveis ao candidato ao governo do estado Moreira Franco em detrimento à apuração das zonas eleitorais que tendiam ao candidato do PDT Leonel Brizola. Se na zona sul tinham mais votos pró-Moreira, era nesta região que o eleitor tomava conhecimento primeiro. Com isso, Moreira largou na frente e com larga vantagem contra os adversários. Era uma empulhação. Um crime eleitoral.

Na concepção dos golpistas da época, à medida que Moreira aparecesse na frente, os trabalhistas iriam admitir a derrota mais facilmente. E, aos poucos, deixariam de fiscalizar as demais urnas. E como o processo não era eletrônico abria-se margem para a eventualidade dos votos de Brizola - em papel - serem subtraídos. O desaparecimento de urnas era uma realidade. Não deu certo. E, entre outras coisas, porque a Rádio JB fazia uma apuração paralela e constatou que havia caroço debaixo daquele angu. Os números não fechavam com que o TRE anunciava e a mídia transmitia. Só restou à JB informar a verdade. E denunciou.

Ao término do primeiro Governo Brizola, em 1986, egresso da Rádio Roquette Pinto, onde os denunciantes do Proconsult se abrigaram depois de serem demitidos da Rádio Jornal do Brasil, sou convidado para ser repórter de política da Rádio JB, colaborador, e depois apresentador titular do programa de entrevistas "Encontro com a Imprensa".

Graças ao brilhante trabalho de Clarisse Abdala, para nosso infortúnio falecida precocemente, fizemos daquele espaço uma referência de espaço plural e democrático. Quem de importante não deu entrevista para nós?

Cinco anos depois, sentindo-me numa zona de conforto, decido buscar novos desafios e tentei introduzir jornalismo all news numa rádio chamada Alvorada, ligada na época aos donos do extinto Banco Real. Não deu certo. Permaneci na JB. E, já determinado a sepultar definitivamente a ideia de levar notícias para FM, conheço Wellington David, da rádio Panorama, emissora que funcionava na frequência da atual Rádio MPB FM e, fisicamente, no município de Nilópolis, na Baixada Fluminense. Uma rádio de excelente potência, com programação musical contemporânea de primeira. Pequenina, mas tudo de qualidade.

David foi corajoso e aceitou que eu levasse nosso pessoal e comandasse os trabalhos ao lado de craques do jornalismo como Ricardo Bueno, Marco Antonio Monteiro, Nicolau Maranini, Patrícia Maurício e os jovens Elisa Mendes de Almeida, Adriana Pavlova, Paula Muller e Weden Alves. Não posso esquecer o brilhante trabalho feito por Marcos de Oliveira de madrugada. Vivemos ali a primeira experiência de jornalismo em FM da História do Brasil. Foi um retumbante sucesso. Desde o primeiro mês, batemos os poderosos de sempre: Globo e Tupi. Incomodou a concorrência.

Um pouco antes da estreia, aí que entra a UFF na história, fui convidado para dar uma palestra onde a plateia ficava num círculo, ao estilo Roda Viva. Eu fiquei em pé, fiz minha preleção e, em seguida, respondi perguntas diretas. Não era um clima amigável, pois existia uma certa hostilidade no ar. Os estudantes altamente politizados - o que a direita chamara de esquerdistas radicais (!?) - não aceitavam que eu tivesse deixado a briosa emissora Jornal do Brasil e fosse montar numa rádio pequena e que, segundo eles, pertenceria a bicheiros, um projeto "sem consequência".

Uma nota de esclarecimento: Wellington David - dono da rádio - é filho de um dos irmãos do presidente de honra da Beija Flor, Anisio Abraão David, já famoso na época. Isto era um fato. E, por isso, havia elementos que justificavam, em parte, a ira dos estudantes. Embora, em respeito à história, Wellington tivesse à frente desta rádio completamente independente das atividades da família. Era um projeto pessoal, e jamais confundiu, interferiu, boicotou, influiu ou o que fosse na condução editorial que impusemos lá. Nós trabalhamos com independência.

"Panorama Brasil", o primeiro jornalistico do rádio brasileiro, era democrático, plural, aberto para todas as visões da época e com craques do jornalismo brasileiro. Sempre acreditei neste modelo de jornalismo.

Só para se ter ideia do nível da nossa equipe, colaboraram conosco regularmente: Hermeto Paschoal, Jânio de Freitas, Dalmo Dallari, Maria Lucia Dahl, Ricardo Noblat e outros.

Depois do bate bola com os estudantes da UFF, após explicar minhas intenções, ser apertado mais do que bagaço de laranja, eu fui aplaudido de pé. Uma das maiores emoções da minha vida. Essa medalha, os antigos alunos da UFF me deram.

Eis que o destino, precisamente hoje à noite (22/6), às 19h, me reconduz à mesma UFF para debater as perspectivas do país no cenário atual. O que dizem os organizadores é que há um "novo" governo que começa com os vícios, pecados e pessoas representantes do que existe de mais arcaico e nocivo em nossa tumultuada história republicana. Diante desta moldura é que me encontrarei lá ao lado de outros jornalistas e cientistas sociais. A minha impressão é que o ambiente será bem mais ameno, por mais tensa que possa ser, se comparado com aquela pós-ditadura que narrei aqui. Embora o país esteja numa crise muito pior do que a do primeiro governo civil eleito diretamente, o do Collor.

Para debater e analisar este tema, o encontro contará com as presenças do cientista político Bernardo Kocher, da historiadora Gizlene Neder, do superintendente de comunicação social da Universidade Federal Fluminense (UFF), professor Afonso Albuquerque, como mediador.

O debate terá transmissão ao vivo, em tempo real, e as perguntas poderão ser enviadas para o e-mail [email protected]

Mas o que eu falarei desta vez? Eu pretendo reforçar o nosso papel social neste momento delicado da vida brasileira. Principalmente de que forma e caminhos seguir. E discutir como deslocar o eixo da responsabilidade do destino do país do governo central, interino, para outro credenciado nas urnas a fazer as mudanças reais que o Brasil necessita. E jogar luz sobre o que nos cabe fazer em meio a este imenso latifúndio.

Conto com a sua participação. Se não puder comparecer à UFF, em Niterói, que, pelo menos, prestigie à distância através das mídias digitais.

Palestra UFF. Foto: Divulgação


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19/06/2016 17h03

Jô Soares: o melhor
Sidney Rezende

Serei óbvio. Os dias de frio são bons para muita coisa: namorar, tomar vinho, comer fondue, ficar debaixo das cobertas, ver um filme ou ler um bom livro. E a lista não acaba. 

Em casa neste fim de semana, depois de dias entre um aeroporto e outro, ocupei meu tempo escrevendo sem parar. E, para descansar, naveguei pela internet para ver as novidades. Comecei pelos youtubers, como Chico Rezende. Depois, as atrações internacionais e as entrevistas do "The Noite", com Danilo Gentili - talento da nova geração do talk show nacional -, e passei mais tempo revendo as clássicas de Jô Soares, um dos artistas mais completos do Brasil. E é sobre este último que gostaria de dedicar as linhas de hoje.

Não existe uma alma na Terra que não saiba que o tempo encurta nossa caminhada. Um jovem, ao volante, no alto dos seus 18 anos, só pensa em acelerar o carro. Um ser maduro, aos 70 anos, sabe que não pode, não deve e que não é prudente correr. Ele cuida com carinho dos anos que lhe restam. Saber viver é regar cada segundo da existência que nos falta.

José Eugênio Soares nasceu assim com o nome mais comprido. Tornou-se Jô Soares por anos - e até atingiu o estrelato desta maneira. Mas foi no talk show que passou a ser corriqueiro chamá-lo simplesmente de Jô. Tudo o que fez na vida, fez bem. Humorista, comediante, apresentador de televisão, escritor, dramaturgo, diretor teatral, ator, músico e pintor. 

No "SBT", Jô abriu as portas para a consagração de um modelo - do qual Danilo Gentili hoje se sustenta - que, copiado da TV americana, com ele ganhou um molho pessoal e brasileiro.

O divertido Batoré disse ao Jô que um artista se realiza quando tem a oportunidade de ser entrevistado por ele. É verdade. E não só artistas. Sentei naquele sofá duas vezes. Da primeira, ele já me recebeu no ar com um agrado que soou paternal: "Você está bonitinho". Eu estava esportivo, diferente do âncora engravatado daqueles tempos. Fui com o Francisco, meu filho, e, ao invés de um bloco, saí de lá com dois. Foi uma sensação de alegria e felicidade. Para mim foi consagrador.

No ano passado, fui convidado novamente. E a minha participação foi um fracasso. Deu tudo errado. Eu não era um homem feliz por dentro, e tudo o que dizia não repercutia junto à plateia. Faltou química. E a responsabilidade foi minha. Assumo. Só minha. Afável, Jô, como sempre, fez a parte dele com a qualidade que lhe é peculiar. 

Há 10 anos, havia verdade, pureza e extraordinária alegria por contar que estava fundando o site (SRZD) e que nele pretendia levar aos leitores algo novo. Na segunda entrevista, o que seria motivo para falar do meu mais recente livro, eu fiquei perdido em querer agradar e, artificial, caí na vala comum. Mas o Jô, não. Ele era o mesmo grande artista de sempre. As gags certas e as tiradas inteligentes em que mesmo quando as coisas não estão bem para o entrevistado, ele salva.

Entre uma entrevista e outra, Jô Soares foi agredido por reacionários, lembra-se? Patrulhado pelos ignorantes que andam soltos por aí, aqueles que pregam a violência e a fúria contra os outros, Jô tirou de letra.

Tem uma cena do filme Z, de Costa Gavras, que gosto muito, em que o político democrata interpretado por Yves Montand, hostilizado por ativistas de direita, passa pela multidão enfurecida. E ele, altivo, caminha de cabeça erguida e as pessoas simplesmente abrem um clarão para ele passar. Isso chama-se autoridade. Jô tem autoridade e está na história da comunicação brasileira.

Só para atualizarmos o Brasil de hoje, quero registrar que andamos mais carrancudos e injustos. Atacar Jô Soares é atacar nosso patrimônio. É como atacar Chico Buarque, Paulinho da Viola ou a memória de Jorge Amado, Ariano Suassuna e Jamelão, por exemplo.

Jô tem classe, nível intelectual, cultura sólida e uma folha de serviços invejável para este país. E, graças à internet, está eternizado o que ele já realizou e que serve de manual de conduta para as novas gerações.

Este texto é para dizer ao Jô que é um privilégio compartilhar o mesmo tempo dele. E para que ele não nos deixe distantes da sua enorme sabedoria. Jô, continue na TV, escreva mais livros, dirija mais espetáculos, continue emitindo com liberdade suas opiniões e faça como os jovens: se reinvente. Saia de onde está e exercite a sua imaginação infinita.

Jô, talvez não escrevesse isso nos dias de calor tórrido, mas quando o frio cruel se aproxima, aquele que é cenário perfeito para gente namorar, tomar vinho, comer fondue, ficar debaixo das cobertas, ver um filme ou ler um bom livro, é hora de mandar um alô para quem a gente quer bem. 

Sidney Rezende e Jô Soares. Foto: Reprodução


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17/06/2016 22h37

A realidade tributária brasileira
Sidney Rezende

Estive hoje no evento Mapa do Comércio, realizado pela Fecomércio, em Teresópolis (RJ). Lá, falei sobre "A realidade tributária brasileira".

Nas fotos abaixo, eu com Rafael Lima, Cheryl Berno e uma das organizadoras do evento.  

Sidney Rezende em evento Mapa do Comércio, em Teresópolis (RJ). Fotos: Divulgação



12/06/2016 20h15

Osmar Prado: profissão, ator
Sidney Rezende

Há muito tempo que quero escrever sobre Osmar Prado. Chegou a hora. Antes, vamos contextualizar a razão de reverenciar este brilhante profissional. 

Osmar Prado. Foto: Divulgação

Os discretos, elegantes, reservados e avessos aos refletores estão em baixa no Brasil. Quem está no palco são ladrões, canalhas, egoístas e as subcelebridades. A empulhação grassa na Pátria. 

E este é o ambiente propício para zika, aedes aegypti e os reacionários de cepa violenta. O pulo do gato é que os discretos e reservados, quando competentes, são as luzes que iluminam o ambiente. E, como em toda a sociedade, referências indispensáveis. É com eles que aprendemos a respirar melhor.

Osmar Prado. Foto: DivulgaçãoHá um ano foi ao ar no Canal Viva - reprisado neste domingo - o programa "Grandes Atores", com Osmar Prado. Mas somente hoje, por acaso, me foi possível assistir a metade da edição, mas o suficiente para reconhecer a extraordinária dimensão deste artista discreto, elegante, reservado e totalmente apaixonado por seu ofício.

Osmar Prado raramente está - como mereceria - nos espaços jornalísticos dedicados aos astros das telenovelas, embora seja um dos gigantes da sua área de atuação. E não é por sua culpa, em absoluto. Pedro Paulo Rangel, Laura Cardoso e José Dumont também têm mídia menor do que seus talentos. 

A imprensa dedicada ao entretenimento é que precisa mudar seus conceitos. E rápido.

Osmar Prado prestou um depoimento profundo, denso e que deveria ser exibido em todas as escolas de formação de atores do Brasil. Foi emocionante sua lembrança do período em que se desentendeu com um executivo da Globo e pediu para sair da novela "Renascer" e, então, seu personagem precisou morrer na trama. Não era o que estava programado pelo autor. Foi uma das narrações mais comoventes que já assisti. 

Ao atribuir uma passagem vivida por Mario Lago durante a ditadura Vargas, Prado lembrou que uma das maiores humilhações de um homem íntegro é quando alguém bate no seu rosto. "Não se bate na cara de um homem digno", diz o ator. Ele lembrou esta passagem, porque por sua sugestão é que seu personagem na novela, quando está injustamente numa cela, recebe um desses tapas, o que o leva ao suicídio. 

Osmar Prado. Foto: DivulgaçãoEm 2013, o entrevistado descobriu um câncer na garganta, e, por isso, um ano depois, sobressaiu aquela cicatriz do lado esquerdo do seu rosto e que ficou tão marcante nas cenas de "Amores Roubados".  

"Quando o [José Luiz] Villamarim me convidou, eu estava com a gaze da primeira cirurgia", disse. E sobre a doença, ele confessa que pensou no que poderia acontecer com sua vida: "É bom viver, mas tem o momento de morrer. Tenho certeza que eu encararia legal, procuraria fazer da minha vida a melhor possível. Isso tudo me deu muita força... Para entender a importância e a desimportância da nossa trajetória. O que vale e o que não vale. O que é fútil e o que não é. E o privilégio que tenho de estar nessa profissão desde criança, em que posso trabalhar e atuar com todos esses sentimentos: o da morte, o da vida". 

Este texto singelo é para tentar de alguma forma estimular os discretos e competentes a entenderem que eles sempre serão nossas bússolas, mesmo que aproveitadores façam a sua festa com a ajuda de desmiolados. Um dia isso acaba.


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08/06/2016 09h11

Princípios e Ética
Sidney Rezende

Serei direto e sincero. Como sempre. Depois de divulgado pelo Palácio do Planalto para a imprensa de Brasília, no início da noite desta terça-feira, nos chegou o documento oficial da Caixa Econômica Federal cancelando a publicidade destinada ao SRZD, aprovada para o ano de 2016. Este relacionamento comercial existe de forma contínua desde 2012. Entre as empresas públicas, e não são muitas, a Caixa era o nosso principal patrocinador. 

Como, até ontem, não tínhamos recebido a oficialização de outros rompimentos, preferimos nos silenciar para que nosso eventual pronunciamento fosse fundamentado em fatos.

Já nos chegaram rumores que o Governo Federal ordenou que todos os outros anúncios vindos de empresas públicas sejam proibidos de veiculação no nosso portal, que no último dia 23 de maio completou 10 anos.

À Caixa, gostaríamos de agradecer o profissionalismo e a seriedade no trato da coisa pública. Sempre republicana, a empresa jamais insinuou ou sinalizou com qualquer pedido que maculasse a ética no cuidado com o centavo do contribuinte.

Austera, a Caixa sempre exigiu resultados. Tínhamos metas de audiência. A cobrança sempre foi rigorosa. Após a prestação de contas mensal dos milhões de visualizações, tanto as agências de publicidade representantes da Caixa quanto a própria instituição sempre foram severas no cumprimento dos acordos comerciais. Nunca houve "moleza" e nem gostaríamos que fosse diferente. Foi uma honra lidar com gente honesta deste quilate.

É importante para nós esclarecermos os nossos princípios aos que não nos conhecem. E, também, nossa visão para o Brasil nesta área de comunicação tão preciosa para a democracia no país.

O ideário de boa prática jornalística que defendemos há mais de 30 anos não mudará por mais cruéis que sejam as pressões. Não negociamos nossas convicções. E, para o país, é bom que existam meios de comunicação com pensamento plural que represente todos os setores da vida brasileira. É um exercício que vemos com alegria quando compartilhado pelas autoridades, empresários, trabalhadores, militares e profissionais liberais. 

O pensamento único e o investimento centrado nos mesmos grupos não são bons, nem para eles, além de ser um risco para a democracia.

A nossa forma de trabalhar é tudo sobre a mesa, às claras, franca, leal e de alto nível. E, se não bastasse, rigorosamente honesta. 

Aqui no SRZD ninguém "mama das tetas do Estado", "subtrai dinheiro público", "participa de fraude para auferir ganhos pecuniários" e muito menos caminhamos na estrada que dissemina a vingança, o ódio ou o rancor. Não achamos digno. Simples assim.

Aqui também não somos partidários ou "simpáticos" a "A" ou "B", não privilegiamos alguns em detrimento de outros. 

SRZD faz Jornalismo. Assim mesmo, com "J" maiúsculo. Nos orgulhamos muito dos nossos repórteres, colunistas, colaboradores e prestadores de serviço.

A quem ainda duvidar, reafirmamos que cada centavo dos nossos patrocinadores é investido no site para o pagamento de salários dos funcionários e funcionamento da nossa estrutura. Ela é complexa. Dos anúncios, tiramos o nosso sustento.

Praticamos jornalismo isento, plural, que respeita a forma do outro pensar, ouvindo todos os segmentos. Sempre fomos assim...

Tornamo-nos, não por acaso, uma das vozes respeitadas pelo público. Veja o exemplo da cobertura do Carnaval do Rio, São Paulo e todo o Brasil todos os dias do ano. O SRZD é reconhecido até pelos seus concorrentes pelo trabalho que realiza. E nós também sabemos respeitá-los. 

Quando um site como o nosso consegue atrair grandes patrocinadores, abre portas para outros do mesmo porte. Faz sentido não termos compromisso com partido político algum.

Jornalismo não existe para destruir reputações e, por isso, a indignação quando da existência de perseguições políticas ou ideológicas. Perversidade não faz parte do nosso manual de conduta.

Aqui não mentimos para envenenar a cabeça de desinformados que, de boa fé, leem algo e acreditam que aquilo seja real.

O nosso modus operandi é mais modesto. É realizar nosso ofício com dignidade. 

Por isso, leitor, contamos com você, que compartilha da nossa essência e da nossa ética na crença de que dias melhores virão. E nunca, jamais, em tempo algum, o mal vencerá o bem. E nem a mentira vencerá a verdade.


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04/06/2016 13h23

Muhammad Ali vira lenda
Sidney Rezende

Pessoas incríveis - acima da média - tornam-se referências em vida e lendas após a sua morte. Muhammad Ali é uma destas. E isto acontece por dois motivos únicos: são excelentes no que fazem e deixam sua marca corajosa na história.

Meu irmão Renato me despertou para o boxe ainda menino. Ele era fã - e o é até hoje - de Éder Jofre, nosso maior pugilista. E eu também.

Renato ressaltava a importância do pai e técnico de Éder, Kid Jofre, na brilhante carreira do atleta brasileiro. Ele repetia uma história que levei para a vida.

Numa determinada luta, Éder, exausto, prestes a pedir para o pai jogar a toalha e assumir a derrota, parecia não ter mais forças para retornar. Kid Jofre olhou nos olhos trôpegos do filho e, imperativo, vaticinou: "Você vai lá, acaba com ele e vença essa luta."

Éder se levantou do corner, buscou suas últimas forças e nocauteou o adversário.

Foi assim quase sempre, menos em dois confrontos contra o japonês Masahiko Fighting Harada. Esta foi a maior frustração de nosso brilhante pugilista.

Não faz muito tempo, Lyoto Machida, campeão do UFC na sua categoria, ainda invicto, foi nocauteado pela primeira vez e perdeu o título mundial. No hospital para onde foi levado, machucado e magoado com a derrota, teve força interior para nos oferecer uma lição de vida: "agora sou um lutador completo, pois conheço a derrota".

Voltando a Muhammad Ali. Ele venceu muitas lutas e também foi derrotado como Éder e Lyoto. Foi um dos mais brilhantes campeões da história do boxe. Fora do ringue povoou a cabeça de jovens como eu que sempre admiraram pessoas com coragem de enfrentar poderosos.

Muhammad Ali. Foto: Divulgação

Renato e eu ficávamos hipnotizados diante da TV para assistir às lutas de Muhammad Ali. Foi assim contra Joe Frazier, em 1971, quando nosso herói perdeu. Cada um levou para casa a bolsa de US$ 2,5 milhões.

Torcemos muito para Ali recuperar o cinturão que lhe foi arrancado, porque ele havia se recusado a lutar no Vietnã. Mas Frazier foi melhor.

Em duas lutas incríveis, que também assistimos, em 1974 e 1975, nosso ídolo botou as coisas no lugar e venceu convincentemente.

Outra luta incrível foi contra o George Foreman em 30 de outubro de 1974 pelo título dos pesados, em Kinshasa, Zaire. Muhammad Ali venceu por nocaute. Numa luta que Foreman era tido como favorito.

Foreman, sete anos mais novo, havia conquistado o cinturão na temporada anterior, derrubando Joe Frazier seis vezes em dois rounds. Ali, que "bailava" nos ringues para achar o adversário e não ser encontrado, contra Foreman fingiu estar apanhando, e mais tarde aproveitou-se da exaustão do oponente o nocauteou com soco certeiro.

Nada venceu Ali, nem as derrotas na sua área de trabalho, nem o enfrentamento de peito aberto aos racistas, muito menos as autoridades que jogaram os Estados Unidos numa guerra insana, muito menos a doença de Parkinson que o perseguiu por anos a fio.

Ali foi maior do que tudo isso e por isso começa hoje sua nova trilha: a de lenda.

Se tudo o que escrevi nas linhas acima não se confirmar, pelo menos ele fez feliz dois brasileirinhos que saíram de um mesmo ventre, do mesmo sangue. E que dormiram muito tarde para assistir à arte de um homem corajoso que no seu ofício - e turbinado por seu talento - tornou-se instrumento contra a opressão que até hoje parece bicho solto por aí.

E ainda nos ensinou que é possível vencer o que nos aparenta impossível.


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02/06/2016 11h47

O principal erro de Michel Temer e por que Dilma pode voltar
Sidney Rezende

Uma parcela da sociedade não quer o PT no poder, Lula e nem a volta de Dilma. O interessante é que, entre estes, há um contingente em crescimento que também não quer Michel Temer e o PMDB no Planalto. A paciência destes brasileiros está se esgotando. Mas onde está o problema central com o atual Governo?

Há uma exaustão com a corrupção "generalizada", má administração e desgaste dos chamados políticos "tradicionais" que mandam no país há mais de 30 anos. O anseio por mudança não morreu.

Volta a ser real a possibilidade de grandes manifestações públicas também no período dos Jogos Olímpicos. O povo certamente dará um recado nítido de insatisfação para que tenha ressonância internacional. A imprensa mundial estará em peso no Rio de Janeiro. E a antiga capital do Brasil será, mais uma vez, o palco central da irritação do cidadão.

Boa parte dos brasileiros não reconhece Michel Temer como presidente legítimo. De nada adiantará grandes meios de comunicação forjarem a falácia do "governo eficiente" X "governo perdulário". O risco da perda da credibilidade de quem fizer isso é real.

A lentidão do Supremo Tribunal Federal no julgamento de questões cruciais e as constantes citações em gravações de políticos dizendo que têm "trânsito" com ministros do STF contaminam a isenção indispensável deste poder da República. O comportamento do ministro Gilmar Mendes, sem reprimendas dos seus pares, pode agravar a forma pura como vemos a atuação dos juízes da mais alta corte. O cultivo do status de pop star de alguns ministros não convém com o perfil low profile que se espera de magistrados.

Outra pedreira. O deputado Eduardo Cunha dá as cartas às claras. É outro problema que parece insolúvel e está cutucando com vara curta o cidadão brasileiro. A persistir este escárnio de impunidade, anote aí, enfrentaremos desfechos imprevisíveis.

Mas voltemos ao tema deste artigo: o que há de errado com Temer?

O presidente interino prometeu ministério de notáveis e ofereceu à nação o que temos aí. O prometido é muito diferente do oferecido. Em política, o eleitor detesta quando não se entrega o que foi combinado.

O time de Temer parece refúgio de suspeitos da Lava-Jato. Só citados, sete. E, para complicar, o líder do governo na Câmara, André Moura (PSC-SE), é réu em três ações penais. E envolvido numa tentativa de homicídio, além de suspeito de desvios do petrolão. E, em 21 dias, dois ministros já deixaram o governo que prega no seu slogan "ordem e progresso". O que se diz não é o que se faz.

Os ministros não têm sido felizes em suas aparições públicas. E, para piorar, são obrigados a assistir aliados serem hostilizados nas ruas, aeroportos, praia e outros ambientes de convivência pública.

A comunicação do Governo precisa se ajustar. O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, é visto enviesado pelo Ministério Público depois que defendeu mudanças nas regras para escolha do procurador-geral da República.

O mesmo acontece entre educadores depois que o ministro Mendonça Filho escolheu como interlocutor para sua pasta o ator pornô Alexandre Frota, que lhe foi oferecer sugestões para "melhorar" o ensino no país.

O atropelo em acabar e depois retornar com o Ministério da Cultura. A possível desmontagem do Iphan, a forma de trato dado à EBC, a escolha equivocada do presidente do IPEA e a desmontagem de áreas ditas como "aparelhadas" só somam contra o Governo e não a favor. A flecha se voltará, como bumerangue, contra o peito dos que os petistas chamam de "golpistas".

O enfrentamento às causas históricas defendidas por mulheres, índios, negros e trabalhadores é um outro problema. A forma arrogante como o ministro José Serra trata a política externa também não ajuda a apaziguar os ânimos. O desprestígio internacional do Governo é algo sério.

O ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP-PR), já chegou ao posto dizendo que o tamanho do Sistema Único de Saúde (SUS) deveria ser reduzido no futuro dado à falta de dinheiro. O destino incerto de programas indispensáveis como o Samu e a Farmácia Popular assustam usuários e servidores que prestam serviços a eles.

Os religiosos, especialmente católicos, estão aborrecidos com a defesa do ministro do Turismo Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) pela legalização de "todos os tipos de jogos de azar".

Por tudo isso e pelo que não foi listado, a volta da presidente Dilma Rousseff não é mais uma miragem. Ela foi afastada por 55 votos favoráveis e 24 contra. Foram três ausências e 1 abstenção. Para que o impeachment se consuma e se homologue a cassação, serão necessários 54 votos.

Embora a política pareça canalizar para novas eleições sem Dilma e sem Temer.

Mas a pergunta central deste texto não foi respondida. E será agora. O maior erro de Michel Temer é não ter feito um governo de conciliação nacional. Uma condução que unisse o que todos os brasileiros mais querem: seriedade, honestidade, probidade e compromisso com o país. Ao botar para dentro de casa uma chibarrada, ele está ficando sem espaço para andar. Temer e seus aliados flertam com a vingança e o ódio. Temer esquece que não pode dizer que tudo o que foi feito até hoje por Lula e Dilma está errado se ele próprio estava lá como vice-presidente. Por que não pediu para sair antes?

E quando for a hora de se anunciar novas fases da operação Lava-Jato, os caciques do PMDB sabem que não terão muito para onde ir. O Palácio ficará pequeno. E o Legislativo ouriçado. A hora do povo está chegando.


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02/06/2016 08h12

Minha participação na MPB FM no Dia da Imprensa
Sidney Rezende