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DVD: "At The Apollo" (Arctic Monkeys) - Um show digno de cinema

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 04/01/2009 13:52

DVD:

Quando foi anunciado que o vídeo que registra o derradeiro show da última turnê do Arctic Monkeys, realizado em Manchester, seria exibido nos cinemas, muita gente estranhou. Afinal de contas, apesar de ser uma das melhores bandas surgidas nos últimos tempos, o Arctic Monkeys ainda está bem distante dos Rolling Stones, banda que justifica uma temporada nos cinemas, ainda mais com um registro dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese.

Mas uma rápida olhada em "At The Apollo", o tal vídeo da banda de Alex Turner, já é o suficiente para descobrir o porquê de um lançamento cinematográfico com tanta pompa e circunstância. Contando com direção de Richard Ayoade e fotografia de Danny Cohen, apesar de se tratar de um mero registro de um concerto, o filme tem tomadas impressionantes. O cuidado foi tão grande que, em alguns momentos, é possível se sentir em cima do palco com o Arctic Monkeys. E o mais bacana é que o diretor não se utilizou de recursos esdrúxulos tão em voga em vídeos que trazem registro de shows de rock.

Tudo em "At The Apollo" é muito sutil, de modo que as câmeras conseguiram retratar com precisão a essência de um espetáculo de rock. Nada daquelas imagens rebuscadas metidas a "mudernas", que o diretor Blue Leach tanto insiste nos vídeos do R.E.M.. Nada da grandiloqüência que até renomados diretores como David Mallet costumam escorregar. Nada de imagens "que podem causar desconforto em pessoas sensíveis" como os DVDs de Paul McCartney que apresentam dez tomadas diferentes por segundo...

No DVD do Arctic Monkeys, o que se pode ver são imagens classudas que - por que não? - um grande show de rock pode proporcionar, mesmo sendo do Arctic Monkeys, tão conhecido pelas suas canções rápidas, executadas a toque de caixa, no melhor estilo "dez tomadas diferentes por segundo".

Acompanhando as belas imagens, surgem as canções que o Arctic Monkeys gravou em seus dois álbuns de estúdio. De "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not", primeiro álbum do grupo, lançado em 2006, entraram "The View Trom The Afternoon", "I Bet You Look Good On The Dancefloor", "Fake Tales Of San Francisco", "A Certain Romance", entre outras. Já do segundo disco, "Favourite Worst Nightmare", canções como "Brianstorm" (a primeira do show), "Fluorescent Adolescent", "This House Is a Circus", "If You Were There, Beware" (faixa de encerramento) e "505" entraram no repertório. Ou seja, tudo bem parecido com os grandes shows que o grupo de Shefield fez no Tim Festival de 2007.

Musicalmente, qualquer DVD do Arctic Monkeys, já seria um grande lançamento. O grupo, se não tem muita frescura em cima do palco, usando cenários discretos e figurinos no estilo "vou passear no shopping", mostrou que soube ter frescura na hora certa. Afinal de contas, é o DVD que vai perpetuar um grande show para a eternidade.

O Arctic Monkeys provou que uma grande banda não é feita somente com grandes canções e palcos megalômanos. Não é à toa que seus discos são sempre indicados ao Mercury Prize, e o seu vocalista lançou um dos grandes álbuns de 2008 em um mero projeto paralelo (The Last Shadow Puppets).

E o nível de "Arctic Monkeys At The Apollo" é a prova de que essa banda vai muito longe. Tomara!

Em seguida, a primeira faixa do DVD, "Brianstorm".

Cotação: ****1/2


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CD: "Tá Tudo Mudando" (Zé Ramalho) - O Bob Dylan da Paraíba

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 02/01/2009 11:52

CD:

Apesar de tão geograficamente distantes, Zé Ramalho e Bob Dylan têm muita coisa em comum. Até simplificando um pouco, podemos dizer que Zé Ramalho é a versão tupiniquim de Bob Dylan. A jornalista Ana Maria Bahiana, em texto escrito no encarte de "Zé Ramalho Canta Bob Dylan - Tá Tudo Mudando", mostra bem essa proximidade: "A possibilidade de um paraibano de Brejo da Cruz ter algo em comum com um judeu norte-americano das planícies geladas do meio-oeste pode parecer insólita até que se realiza que ambos compartilham um profundo amor pela palavra cantada".

E esse é exatamente o ponto de convergência entre Ramalho e Dylan: a palavra cantada. Assim como o trovador norte-americano, o trovador brasileiro sempre teve como principal característica letras com longas narrativas que são praticamente faladas, ao invés de cantadas. Assim, se a gente tem um "Chão de Giz", eles têm "Don't Think Twice It's Alright"; se cantamos "Avôhai" com uma naturalidade tão distinta que fez da canção um grande sucesso popular, os norte-americanos fizeram o mesmo com "Like a Rolling Stone".

E, que tal se o nosso trovador vertesse para o português as letras e incorporasse os elementos sonoros brasileiros nas canções de seu colega norte-americano? Nossa, jogada de gênio! Como ninguém nunca havia pensado nisso antes?

Zé Ramalho demorou 30 anos para concretizar o seu ambicioso projeto. E, talvez, esse tenha sido o momento certo. O paraibano já tem cacife necessário para se aventurar em um projeto que pode causar muita controvérsia entre os dylanescos de plantão. E, como Zé Ramalho já imaginava (ou deveria imaginar), "Tá Tudo Mudando", realmente, tem tudo para causar muita controvérsia.

Musicalmente, em praticamente todo o álbum, o cantor paraibano se sai muito bem. Se Bob Dylan usa e abusa dos elementos sonoros descobertos em seus heróis como Woody Guthrie e Odetta, Zé Ramalho verte com maestria as canções para a sonoridade de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Na maioria das vezes, especialmente em "Como Uma Pedra a Rolar" e "If Not For You", as coisas funcionam muito bem. A primeira ganhou uma discreta sanfona de Dodô Moraes, enquanto a segunda se transformou em um xote, com uma percussão bem brasileira. A canção, a única cantada em inglês poderia ser uma bela trilha sonora de uma festa junina no meio-oeste norte-americano... "Batendo na Porta do Céu" ganhou uma versão bem diferente da gravada em "Antologia Acústica" (1997). A letra mudou pouco, mas a sonoridade, mais puxada para o frevo, ficou bem melhor, a ponto de a gente se esquecer da letra que insiste em um chato "bate, bate, bate na porta do céu". Outra que, musicalmente, também se sobressai é a faixa-título, na qual Dodô Moraes manda muito bem mais uma vez.

Em outros momentos de "Tá Tudo Mudando", Zé Ramalho preferiu não se arriscar tanto. "O Homem Deu Nome a Todos Animais" e "Negro Amor" (versão para "It's All Over Now, Baby Blue") são dois exemplos. A primeira apresenta uma sonoridade por demais convencional, enquanto a segunda tem uma letra já bem conhecida, de autoria de Caetano Veloso e Péricles Cavalcante, e já gravada por Gal Costa e pelos Engenheiros do Hawaii. A letra é interessante, mas destoa um pouco da concepção de ineditismo do trabalho.

Mas voltando aos bons momentos do álbum, "Mr. do Pandeiro" foi outra que se transformou completamente, vertendo-se em um rápido coco, nos seus segundos finais. A letra, que chega até a citar Jackson do Pandeiro ("Hey Jackson do Pandeiro, toque para mim! / E entre as canções desta manhã / Eu poderei te seguir"), é um dos grandes achados do disco. Mas, em outros momentos, a necessidade de Zé Ramalho em atualizar as letras, acaba soando um pouco "over". Esse é o caso de "Rock Feelingood" (versão para "Tombstone Blues", na qual Zé Ramalho faz uma miscelânea poética que chega até o filme "Tropa de Elite" ("O Tropa de Elite / Mostrou a classe média / Como sendo responsável / Por essa grande tragédia / Pois compra a sua droga / E financia a violência").

Entretanto, em "O Vento Vai Responder", Zé Ramalho foi genial ao substituir as "balas de canhão" pelas "balas perdidas" ("Quantas mais balas perdidas voarão / Antes de desaparecer?"). Um pequeno detalhe, assim como tantos outros, que prova que "Tá Tudo Mudando" apesar de arriscado, é um belo disco.

Abaixo, um vídeo ao vivo de "Tá Tudo Mudando", com direito a Robertinho do Recife na guitarra, que, aliás, foi um dos produtores do álbum, ao lado de Ramalho e de Otto Guerra.

Cotação: ***1/2


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CD: "Prospekt's March" (Coldplay) - Por que existem sobras de estúdio?

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 31/12/2008 11:11

CD:

Se sobra de estúdio fosse realmente boa, não seria sobra. O Coldplay, mesmo lançando um dos melhores álbuns de 2008, prova que a frase está correta. "Prospekt's March", EP com oito faixas, lançado recentemente pela banda, com as sobras de "Viva La Vida Or Death And All His Friends", com a exceção de apenas uma faixa, prova porque as demais não entraram no tão aclamado disco do Coldplay lançado em junho.

Tudo bem... Nem o fã mais ardoroso do Coldplay esperava que "Prospekt's March" trouxesse oito músicas do mesmo nível de seu antecessor. Mas a grande verdade é que, apesar da boa vontade da banda em agradar aos seus fãs, o Coldplay forçou a barra para preencher os 27 minutos do EP.

Assim como no disco original, o Coldplay usou mais uma pintura do francês Eugene Delacroix para ilustrar a capa de "Prospekt's March". Dessa vez, a escolhida foi "A Batalha de Poitiers". Se o conteúdo de "Viva La Vida Or Death And All His Friends" justificava uma capa tão especial, o desse novo EP, não faz jus à pintura que o embala.

A primeira faixa de "Prospekt's March" ainda dá a falsa impressão de que o EP possa vir a ser um "Viva La Vida II". "Life In Technicolor ii", musicalmente, é idêntica à sua irmã-gêmea "Life In Technicolor", lançada no álbum anterior. O acréscimo da letra, no mesmo estilo de "arrependimento amoroso" que o Coldplay tanto gosta (vide "Trouble" e "The Scientist"), mostra que Chris Martin está compondo bem melhor ("Oh, love, don't let me go! / Won't you take me where the streetlights glow? / I can hear it coming / I can hear the siren sound / Now my feet won't touch the ground").

Mas as faixas seguintes não mantêm o mesmo pique. A instrumental "Postcards From Far Away", de apenas 48 segundos, não deveria nem ser considerada uma faixa avulsa em um EP que já conta com somente oito canções. Outras duas que enchem lingüiça são "Lost+", um remix da "Lost" original de "Viva La Vida", só que com a (dispensável) participação especial de Jay-Z; e "Lovers In Japan (Osaka Sun Mix)", que quase não tem diferença do original country-eletrônico do álbum anterior.

De resto, o Coldplay apresenta "Glass Of Water", um pop-rock que, se não chega a ser ruim, se estivesse em "Viva La Vida", seria a faixa mais fraca do álbum. Seguindo a mesma receita de acoplar uma sonoridade épica no decorrer da canção, o Coldplay não alcança o mesmo resultado do disco anterior. Não à toa, virou "sobra de estúdio". O mesmo acontece com "Rainy Day", na qual Chris Martin e seus companheiros arriscam uma sonoridade mais eletrônica. Entretanto, as cordas (provavelmente sintetizadas) deixam a canção muito embolada, e a mistura, definitivamente, não funciona.

A sonolenta "Prospekt's March" vai fazer muita gente sentir saudades de "Trouble" ou "Life Is For Living". E a derradeira "Now My Feet Won't Touch The Ground" (cujo título foi roubado de um verso de "Life In Technicolor ii") é uma balada acústica que conta com alguns elementos eletrônicos, que até que funciona bem. Mas, ao lado da faixa de abertura, ainda é muito pouco para justificar o lançamento de "Prospekt's March". As duas faixas poderia muito bem ter sido lançadas em algum single, que o resto não faria falta.

E antes que eu seja metralhado pela ira dos fãs do Coldplay, peço que leiam a resenha que publiquei no meu antigo blog sobre o álbum "Viva La Vida Or Death And All His Friends". Aliás, acho que essa é a grande falha de "Prospekt's March"... Suceder um álbum tão grandioso não deve ser tarefa fácil. As pessoas acabam esperando demais...

Em seguida, a canção "Life In Technicolor ii".

Cotação: **1/2

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DVD: "The Red Piano" (Elton John) - Uma prévia do que vamos ver...

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 29/12/2008 17:58

DVD:

Um show de Elton John não tem muito erro. Sempre com a sua banda afiada, ele despeja umas duas dúzias de sucessos e todos vão felizes para casa. E desde 2004, milhares de turistas que freqüentam Las Vejas já voltaram felizes para casa. O compositor britânico já está há quatro anos em cartaz no Caesars Palace com o seu show "The Red Piano". Durante o espetáculo - adivinha? -, Elton John apresenta grandes sucessos, com a sua banda afiada e um cenário super-espalhafatoso. Mais uma vez, não tem erro... Ainda mais com Elton John se sentindo em casa no verdadeiro "reino da fantasia"...

Para celebrar o sucesso da turnê, Elton John lançou um DVD com o registro de uma dessas apresentações. A gravadora Universal, que de boba não tem nada, se apressou em colocar nas lojas brasileiras o tal DVD para preparar o público para os shows que acontecem por essas terras em janeiro do ano que vem.

"The Red Piano" é bem diferente de "Elton 60", vídeo lançado por Elton John em 2007. No show de Las Vegas, Elton John resolveu "jogar para a platéia", com um show repleto de sucessos, bem diferente do concerto de Nova York, no qual ele comemorava 60 anos de idade e mostrava diversas canções obscuras de sua carreira. Se "Elton 60" é mais completo, "The Red Piano", com certeza, vai agradar mais aos fãs que esperam pelos sucessos mais previsíveis.

E sucessos previsíveis não faltam no DVD. Desde a abertura com "Bennie And The Jets" até o encerramento com "Your Song", Elton John faz a festa com canções mais lentas, como "Rocket Man", "Tiny Dancer", "Daniel", "Candle In The Wind" e "Don't Let The Sun Go Down On Me", e outras mais animadas, como "Philadelphia Freedom", "Pinball Wizard", "The Bitch Is Back", "I'm Still Standing" e "Saturday Night's Alright For Fighting".

São quase duas horas da mais pura diversão, que ainda é completada pelo cafona cenário, idealizado por David LaChapelle, cheio de cores, neon, balões, bonecos gigantes, além de uma cereja, um batom, um cigarro e um sorvete de casquinha em tamanho de "Itu"... Ah, claro, o imenso piano vermelho também está lá, absoluto... Ou seja, tudo no melhor estilo Elton John: brega, espalhafatoso, cafona e divertidíssimo...

As coisas chegam a ser tão surreais, que, nos primeiros acordes de "Saturday Night's Alrigh For Fighting", parte do público invade o palco, para dançar e bater palminhas, comportadamente, ao lado do piano de Elton John. Bem que a produção dos shows no Brasil poderia liberar essa invasão na Praça da Apoteose. Mas, pensando bem, não sei se daria muito certo, não... Afinal de contas, e com a graça de Deus, estamos bem distantes do reino da fantasia de Las Vegas...

Além dos sucessos de sempre, o DVD ainda conta com duas canções menos conhecidas da carreira de Elton John. "Answer In The Sky", pérola perdida do álbum "Peachtree Road" (2004) e "Believe", que fez relativo sucesso quando do lançamento do disco "Made In England" (1995) dão um relativo aspecto de "novidade" ao lançamento.

Mas, mesmo assim, é muito pouco. O repertório do DVD, apesar de seus mais de 90 minutos de duração, ficou restrito a apenas 14 canções do show, que, originalmente, ainda conta com sucessos como "Goodbye Yellow Brick Road", "I Guess That's Why They Call It The Blues", "Sorry Seems To Be The Hardest Word" e "Someone Saved My Life Tonight", todas limadas do vídeo.

Apesar disso, o espectador, provavelmente, não vai se importar. Ainda mais se for imaginar que, dentro de poucos dias, estará assistindo, ao vivo, o show de Elton John e seu vermelhíssimo piano.

Acompanhando o show principal, ainda há um DVD extra com um documentário sobre a temporada em Las Vegas. Não chega a ser ruim, mas teria sido mais interessante se a Universal optasse por incluir um CD com o áudio das faixas do show, como feito na Europa.

Logo abaixo segue o vídeo de "Believe", extraído do DVD "The Red Piano".

Cotação: ***1/2

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CD: "808s And Heartbreak" (Kanye West) - O Kanye é pop

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 28/12/2008 15:24

CD:

Com o ano já quase no final, uma coisa pode ser dita com toda a certeza: "808s & Heartbkeak", novo trabalho de Kanye West, é o álbum mais controvertido de 2008. Muitos adoraram, muitos odiaram e ninguém disse que o disco é mais ou menos (o que não impediu do disco ter estreado em primeiro lugar na parada da Billboard e de ter vendido quase meio milhão de cópias nos Estados Unidos, em apenas uma semana)...

A crítica também ficou bastante dividida com "808s & Heartbreak". O USA Today deu quatro estrelas (em um total de quatro) ao álbum. O The Times classificou o disco como "perfeito" e ainda o chamou de "triunfal". O Washington Post publicou que o lançamento de Kanye West é "o melhor álbum do ano". E o rigoroso The Observer concedeu quatro estrelinhas ao álbum, em um total de cinco.

Por outro lado, o New York Times espinafrou o CD ao dizer que "Mr. West não pode cantar, e será sob essa perspectiva que o disco será lembrado no futuro". O Allmusic também não deixou barato. Foram apenas duas estrelas em cinco e, de quebra, disse que "808s & Heartbreak" pode "ter efeitos terapêuticos para as pessoas que tenham se separado recentemente".

A piadinha sobre separação pode ser explicada. Pouco antes de entrar em estúdio para gravar o álbum, West perdeu a sua mãe (que morreu em uma mesa de cirurgia) e terminou a sua relação de oito anos com a namorada. Talvez esses fatos tenham sido decisivos para o rapper (?!?) mudar tanto musicalmente quanto poeticamente. Ou você já imaginou um dia ouvir West cantar coisas como "My friends showed me pictures of his kids / And I could show him was pictures of my cribs / He said his daughter got a brand new report card / And all I got was a brand new sports car". O coração de Kanye West amoleceu mesmo?

E essa prova dos nove ainda pode ser tirada em canções sentimentais como "Coldest Winter" e "Heartless" ("In the night I hear em talk / The coldest story ever told / Somewhere far along this road / He lost his soul / To a woman so heartless"), escritas por conta da separação, e "Hey Mama", para a sua falecida mãe ("Hey Mama, I wanna scream so loud for you, cuz I'm so proud of you / Let me tell you what I'm about to do / I know I act a fool but, I promise you I'm goin back to school"). West ainda coloca no divã, ou melhor, no álbum, a sua relação com a fama, na faixa "Welcome To Heartbreak".

Mas o que mexeu mesmo com os fãs de Kanye West não foram as letras, mas sim a sonoridade de "808s & Heartbreak". Egocêntrico pela própria natureza, Kanye West decidiu que não quer ser mais conhecido somente como rapper. O hip-hop e o rap foram para as cucuias, e a sua onda agora é ser pop. Dessa forma, esqueça o que você ouviu em "The College Dropout" (2004), "Late Registration" (2005) e "Graduation" (2007).

Nesse seu quarto álbum, o rapper, ops!, o artista pop usou e abusou da bateria eletrônica Roland TR-808 (daí o nome do álbum) e do auto-tune, um programa de estúdio usado para afinar e mudar a sonoridade da voz. Musicalmente, as suas novas canções estão com a cara da música dance dos anos 80 ("Paranoid", por exemplo) e do synthpop ("Robocop"). E isso é uma mudança muito drástica para um artista tão cheio de raízes e com um público tão fiel quanto Kanye West. Aliás, a paixão do artista norte-americano pelo auto-tune nasceu quando ele trabalhou em remixes para canções de Lil Wayne e de Young Jeezy.

Abre parêntese: "808s & Heartbreak foi gravado durante duas semanas no Hawaii, cujo código de área é 808. Mas Kanye West jura que isso em nada tem a ver com o título do álbum. Fecha parêntese.

O canto falado típico de West foi trocado para um canto melódico, com a sua voz repleta de efeitos. "Bad News" (que conta com um sampler de "See Line Woman", de Nina Simone) talvez seja o exemplo mais gritante do álbum, assim como "Love Lockdown" e "Coldest Winter", ambas cheias de tambores tribais, que chegam até a lembrar um pouco o... Radiohead! A faixa de abertura, a minimalista "Say You Will", é outra que vai causar estranhamento nos fãs mais antigos de West, que devem achar que o "heartbrake" do título significa a separação do artista com o hip-hop.

"Amazing", com a participação de Young Jeezy, é a que mais lembra o Kanye West de outrora. Já Lil Wayne, outro que participou, foi na onda mais pop do colega, em "See You in My Nightmares", que apesar de seu tom sombrio, típico de West, não tem nada a ver com o material antigo do rapper.

Quem assistiu à apresentação da ópera-rap "Glow In The Dark", em outubro passado no Tim Festival pode ter presenciado um dos últimos shows do "rapper" Kanye West. "808s & Heartbreak" não é pior nem melhor do que os álbuns anteriores de West. É apenas diferente. E só esse motivo já é o suficiente para causar uma discussão eterna entre seus fãs.

Se Kanye West acertou ou errou, só o tempo vai dizer...

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Abaixo, o videoclipe do single "Love Lockdown".

Cotação: ***1/2


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CD: "O Coração do Homem-Bomba (Volume 2)" (Zeca Baleiro) - Um Baleiro (um pouquinho) mais sério

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 26/12/2008 15:26

CD:

Zeca Baleiro demorou um tempão para lançar um álbum de inéditas, e, quando chegou a hora, o compositor maranhense arriscou logo com 27 gravações divididas em dois volumes. "O Coração do Homem-Bomba - Volume 1" saiu há uns três meses, e agora é a vez do Volume 2, que já está nas lojas via MZA. Para quem já havia gostado do primeiro volume, uma boa notícia: o novo disco consegue ser superior ao primeiro. Soando mais hermético, "O Coração do Homem-Bomba - Volume 2" mostra um Zeca Baleiro mais afiado poética e musicalmente.

No release distribuído a imprensa (comum aos dois álbuns), Baleiro afirma: "Antes que me perguntem, este não é um disco "conceitual"'. É um amontoado de canções acumuladas ao longo de alguns anos - umas novíssimas, outras nem tanto e algumas ainda tiradas do baú e recicladas. Os temas são diversos - amor, solidão, saudade, sedução, loucura, crônicas deste tempo tecnológico e cínico. Há ritmos e levadas vários - reggaeton, ragga, funk e soul brazucas, rock, ie-ie-iê, repente, ska, samba-funk, etc".

No primeiro volume, de fato, havia uma mistura maior de ritmos, mas, até pelo fato de ser mais constante musicalmente, o volume 2 consegue ser mais agradável e superior. O bailão do primeiro disco deu lugar a canções mais introspectivas, que lembram o seu último álbum de inéditas, "Baladas do Asfalto & Outros Blues", de 2005.

A banda (Os Bombásticos) dos dois volumes é a mesma que vem acompanhado o compositor há alguns anos. Formada por Adriano Magoo (teclados e acordeon), Fernando Nunes (baixo), Tuco Marcondes (violão e guitarra) e Kuki Stolarski (bateria e percussão), ela oferece a cama perfeita para Baleiro se deitar e destilar a sua poesia não muito convencional, que varia do grotesco ao romântico.

A primeira faixa do CD, "Era", segundo Baleiro, uma "balada que exalta a esperança em tempos desesperados" já apresenta bem a idéia desse segundo volume. A metaleira do primeiro disco foi substituída por uma sonoridade com ênfase em um instrumental mais básico, acompanhado por uma letra mais introspectiva ("Era dia de ação de graças / Na praça todo mundo riu / Não entendo bem que graça / Que acham num mundo que ruiu").

Na segunda faixa, "Tevê", o tom mais pop é substituído por uma "levada de reggae germânico e pitadas de cabaré" (palavras do próprio Zeca Baleiro). Entretanto, as letras permanecem (um pouco mais) sérias: "Olhando a estrela azul / Um quadro a cintilar / Vendendo ilusões / A quem não pode pagar / E a vida a passar".

O cordel-pop "Você Se Foi" lembra os melhores momentos do cantor maranhense do álbum "Pet Shop Mundo Cão" (2002), enquanto "Datena da Raça" mistura uma letra bem-humorada (como Baleiro sabe fazer muito bem) com algo mais sério ("Tanta dor na vida / Da dor se duvida / O sangue a ferida / É que dão ibope").

E Baleiro continua misturando ritmos (embora em uma proporção menor do que no primeiro volume), como na excelente "Débora", que, segundo o maranhense, é um "reggae egípcio", mas passa muito perto de seus sucessos mais populares que tocaram no rádio. "Trova Ao Cair da Tarde" é outra que pode se transformar em um hit em potencial. Já "Na Quitanda" tem uma levada africana que, de acordo com o compositor, foi inspirada em "Pata Pata", de Miriam Maqueba, que, aliás, é citada na letra. O pesadíssimo reggae "Tacape" conta com o sampler de "Carcará", de João do Vale, conterrâneo de Zeca Baleiro. O bumba-meu-boi também é lembrado por Baleiro em "Boi do Dono".

"I'm Nobody", que mistura bandolim com acordeon e conta com a participação especial da cantora Vanessa Bumagny, foi musicada em cima de um poema de Emily Dickinson. A canção é uma das que mais se destaca no álbum, com uma levada meio Beatles, meio country, ou, como preferiu Baleiro, com "um clima de luau havaiano". Outra que se destaca é o trava-línguas "Pastiche", que já merece o título de uma das melhores letras de 2008: "Tive uma oficina de desmanche / No carnaval saio na tribo apache / Fiz uma ponta no filme "A Revanche" / Contracenei com a Irene Ravache".

Na balada "Como Diria Odair" (com uma sonoridade puxada propositalmente para uma estética mais brega), Baleiro presta homenagem a um de seus ídolos, Odair José, autor dos célebres versos "felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes", nos quais a letra é inspirada.

"Samba de Um Janota Só", segundo Baleiro, um "pequeno manifesto pleno de atitude contra o excesso de atitude", também tem uma sonoridade mais inspirada nos cantores brega-românticos dos anos 70, com um trompete não muito discreto de Nahor Gomes. E quando a gente pensa que a viagem acabou, ainda tem a faixa-bônus "Eu Detesto Coca Light", um cordel composto em parceria com Chico César: "Eu detesto George Bush desde a guerra do Kuwait / Não quero que tu te vás, mas se tu queres ir, vai-te / Quero adoçar minha sina que viver tá muito diet / Da nação é cocaína mesmo quando chamam bright / Gosto de você menina, mas detesto Coca Light".

Lá no finalzinho do release do disco, Baleiro escreveu: "Este disco não tem "conceito". É um disco de música popular, a boa e velha música popular brasileira. Espero que baste". Quando escrevi a resenha do primeiro volume, eu a terminei com a seguinte palavra: Bastou! Agora podemos dizer que bastou duas vezes!

Abaixo, o videoclipe da faixa "Trova Ao Cair da Tarde".

Cotação: ****

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DVD: "Snakes And Arrows Live" (Rush) - Um ao vivo bem-vindo

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 25/12/2008 14:56

DVD:

O Rush é daquele tipo de banda que pode ser criticada pelo fato de lançar muitos álbuns ao vivo. Mas também é aquele tipo de banda que pode ser elogiada porque, as mais das vezes, os seus trabalhos gravados em cima do palco, são sempre muito bons, o que justifica a grande quantidade de lançamentos. O CD duplo "Snakes & Arrows Live", sétimo ao vivo da banda, lançado em abril passado, foi considerado, de cara, como um dos melhores do trio canadense.

Está certo que se não tinha o vigor de "Exit... Stage Left (1981) e "Live In Rio" (2003), a gravação de "Snakes & Arrows Live" é a melhor de um disco ao vivo do Rush até agora. O áudio está simplesmente sensacional, bem como o seu diversificado repertório, que privilegia praticamente todas as fases da carreira da banda.

Gravado ao vivo na Ahoy Arena de Roterdã, na Holanda, e dirigido por Pierre e François Lamoureux, o DVD, que conta com quase três horas de duração, prima pela excelência, tanto na questão do áudio, quanto nas imagens. O mago François Lamoureux, como sempre, fez um excelente trabalho. O som é límpido, e nem parece uma gravação ao vivo, bem diferente do "Live In Rio". Mas isso também se explica pelo fato de a platéia holandesa, além de ser menos numerosa, não ser tão animada quanto a brasileira. Tudo bem que o emocionante acompanhamento do público em "YYZ" no show do Rio, não está presente nessa gravação na Holanda, contudo, para os puristas esse ao vivo acertou por ter ficado no meio-termo entre a frieza da platéia alemã de "R30" (2005) e a animação dos cariocas.

Em "Snakes & Arrows Live", a banda canadense apresenta um belo roteiro, com canções de quase todos os discos lançados na sua carreira. Assim, grandes sucessos como a já citada "YYZ" (a última do roteiro), "Tom Sawyer", "Limelight" (a primeira), "Mission", "Distant Early Morning" e "The Spirit Of Radio" estão todos presentes. Outras surpresas, que não chegaram a fazer muito sucesso, também comparecem, como "Circumstances" (do disco "Hemispheres", de 1978) e "Witch Hunt", que foi pescada de "Moving Pictures", lançado em 1981.

Já do último trabalho de estúdio, "Snakes & Arrows", a banda tocou nove faixas, entre elas, "Spindrift", "Workin' Them Angels", "The Main Monkey Business" e a balada instrumental "Hope". O álbum, elogiado bastante pela crítica, no entanto, encontrou certa frieza da platéia holandesa, que parecia estar mais preocupada em ouvir os velhos clássicos do Rush.

E, nos clássicos, o público holandês se portou da forma da forma como deve ser durante a gravação de um DVD, o que proporcionou belas tomadas de imagens. Além da platéia, os Lamoreux privilegiaram bastante o modo de os músicos do Rush tocarem. A edição chega à beira da perfeição nesse sentido. Ou seja, se estiver rolando um belo solo de baixo, a câmera estará praticamente dentro do instrumento de Geddy Lee. O mesmo acontece com os ótimos solos de guitarra de Alex Lifeson, e, claro, nos de bateria de Neil Peart.

O DVD triplo, que já saiu no Brasil, vem embalado em luxuoso formato digipack. Além do espetáculo completo filmado em Roterdã, "Snakes & Arrows Live" traz mais quatro faixas ("Ghost Of a Chance", "Red Barchetta", "The Trees" e "2112 / The Temples Of Syrinx") gravadas ao vivo em Atlanta, nos Estados Unidos, durante um dos últimos shows da "Snakes & Arrows Tour".

Para o fã mais casual do Rush, talvez o DVD "Live In Rio" (2003) ainda seja imbatível, pelo fato de trazer um show mais animado em um local (Estádio do Maracanã) mais familiar aos brasileiros. Mas para o fã do Rush mais aficionado, que quiser ter, realmente, o melhor DVD lançado pelo trio (em termos de som e edição de imagens) até então, a pedida é "Snakes And Arrows Live".

Em seguida o vídeo da canção "The Spirit Of Radio", extraída do DVD.

Cotação: ****1/2

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CD: "Natal Bem Brasileiro" (Vários Artistas) - Papai Noel verde-e-amarelo

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 23/12/2008 20:55

CD:

Lá fora, é muito comum artistas lançarem álbuns com temática natalina. Já aqui no Brasil, o feito é mais raro e, mesmo quando acontece, o gosto musical é sempre duvidoso. Simone e Roupa Nova, por exemplo, já gravaram o deles, composto, basicamente, por canções em inglês vertidas para o português. Ou seja, não há essência alguma de um Natal verdadeiramente brasileiro nesses álbuns, que se limitam a copiar o que já foi feito trocentas vezes no exterior, e com resultado bem inferior.

Para sanar essa ausência no mercado discográfico brasileiro, a gravadora Biscoito Fino colocou nas lojas o CD "Natal Bem Brasileiro", no qual diversos artistas da nossa MPB interpretam canções bem distantes do "White Christmas", do "Jingle Bells" ou do "Happy Xmas". Para "Natal Bem Brasileiro", o produtor Thiago Marques Luiz pescou canções genuinamente brasileiras, grande parte desconhecida pelo grande público. E o resultado, na maior parte das vezes é satisfatório.

No release do CD, o próprio Thiago Marques explica a seleção de faixas: "Quando pensei nesse projeto não podia imaginar que teria surpresas tão boas já no processo de pesquisa de repertório. Sabia do "Boas Festas" (do Assis Valente), agora na voz de Maria Bethânia; do "Natal das Crianças", (do saudoso Blecaute), com novo registro de Jane Duboc; do "Velhinho", que João Dias gravou originalmente e que Dominguinhos, agora, ao regravá-la para este disco, lembrou que esta música o acompanha desde o seu comecinho na Rádio Nacional. Foi uma falha muito grande a música brasileira não ter ganho, até hoje, um disco especial, como este, com seu autêntico cancioneiro natalino".

As letras trazem um pouco do espírito natalino para a realidade brasileira, como na música "Véspera de Natal", de Adoniran Barbosa, e que ganhou interpretação de Marcos Sacramento ("Eu me lembro muito bem / Foi numa véspera de Natal / Cheguei em casa / Encontrei minha nega zangada, a criançada chorando / Mesa vazia, não tinha nada"). Ou então em "O Velhinho", de Otávio Filho, cantada por Dominguinhos ("Botei meu sapatinho / Na janela do quintal / Papai Noel deixou / Meu presente de Natal / Como é que Papai Noel / Não se esquece de ninguém / Seja rico ou seja pobre / O velhinho sempre vem!").

E não foram só as letras que ganharam um sabor brasileiro neste álbum. Diversos gêneros musicais do país estão representados em "Natal Bem Brasileiro". Da sanfona de "Cartão de Natal" (raridade do repertório de Luiz Gonzaga e Zé Dantas), com interpretação de Elba Ramalho, passando pelo samba "Feliz Natal, Papai Noel", de Martinho da Vila e que ganhou uma das melhores versões do disco, com a ótima voz de Zezé Motta, até uma marchinha de carnaval de Assis Valente ("Recadinho de Papai Noel", cantada por Wanderléa), o repertório mostra que as canções de Natal podem ir muito além daquela já cansativa sonoridade norte-americana tão copiada nos nossos calorosos trópicos.

Algumas outras canções, que podem ser consideradas mais "tradicionais" também estão presentes no álbum. Maria Bethânia, por exemplo, com um arranjo brejeiro de Jaime Além, dá nova vida ao clássico "Boas Festas", de Assis Valente ("Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel / Bem assim, felicidade / Eu pensei que fosse / Uma brincadeira de papel"). A cantora Célia também dá conta do recado ao interpretar "Meu Menino Jesus", do repertório de Roberto e Erasmo Carlos.

"Velho Amigo", linda parceria de Vinícius de Moraes e Baden Powell, ganhou uma solene versão de Olivia Hime, enquanto Leila Pinheiro e Francis Hime trocam figurinhas em "Natal", outra do Poetinha que, apesar da letra "desatualizada" ("Mil e novecentos / E cinqüenta e três / Anos são peremptos / Dessa meninez"), é um dos grandes destaques do álbum. E o mesmo Vinícius de Moraes encerra esse "Natal Bem Brasileiro", com o seu tristíssimo "Poema de Natal" ("Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre / Para a participação na poesia / Para ver a face da morte / De repente nunca mais esperaremos... / Hoje a noite é jovem; da morte, apenas / Nascemos, imensamente"), acompanhado pelo violão de Toquinho.

Pensando bem, taí uma bela trilha-sonora para a noite de hoje...

Abaixo, a canção "Cartão de Natal", de autoria de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, e interpretada por Elba Ramalho.

Cotação: ***1/2


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CD: "A Arte do Barulho" (Marcelo D2) - Ainda a procura da batida perfeita

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 21/12/2008 17:12

CD:

Logo que "A Arte do Barulho" saiu, há algumas semanas, a crítica se apressou em afirmar que Marcelo D2 acabara de gravar o seu "disco roqueiro". Mas apenas uma audição nesse novo trabalho do ex-Planet Hemp, é o necessário para se dizer que "A Arte do Barulho" não é um disco de rock. Pelo contrário. É um trabalho no qual Marcelo D2 usa exatamente a mesma fórmula vencedora de seus trabalhos anteriores.

Para começar, o produtor do disco, Mario Caldato Jr., é o mesmo dos dois álbuns de estúdio anteriores de D2 ("A Procura da Batida Perfeita", de 2003, e "Meu Samba É Assim", de 2006). Além disso, e principalmente, você já imaginou um artista como Marcelo D2 gravar um disco de rock?

Mas se você tiver dúvidas acerca da sonoridade de "A Arte do Barulho", o próprio Marcelo D2 explica na faixa "Pode Acreditar": "Eu vou atrás da batida também / Vou pôr o rap no samba / Vou muito mais além! / Eu vou no rock, eu vou no funk / É hip-hop, atitude punk! / Não entendeu? A gente te explica". Não precisa explicar, D2. As doze faixas do álbum são o suficiente.

Essa mistureba a qual o próprio artista se refere pode ser conferida ao longo de todo o álbum. A faixa de abertura, que leva o mesmo título do disco, é a prova de que "A Arte do Barulho" tem todos esses estilos que D2 cantou, e, por isso, não difere em nada dos seus trabalhos anteriores (e isso não é uma crítica). Com exceção da guitarra mais vigorosa de Alexandre Vaz, o resto continua lá, como as percussões, os scratchs e o jeito rappeado de D2 cantar.

Intocável também permanece o bordão "Vamos fazer barulho", que é repetido constantemente durante o álbum. As letras também continuam muito parecidas (e isso, mais uma vez, não é uma crítica). Sempre muito grandes, D2 volta a insistir no cansativo tema da maconha, na mesma "Pode Acreditar" ("Dois moleques ali sentados / Tramando contra o mundo e fumando um baseado / Falar de gueto, lutar contra quem? / Chegar com pé na e não dar mole pra ninguém / Imagina só o fim da repressão / Você falar de maconha e de liberdade de expressão"), mas ao mesmo tempo, tem rasgos de originalidade ao citar as suas referências na ótima "Oquêcêqué" ("Vou repetir o que o Aragão falou / Respeite quem soube chega onde a gente chegou / Uns querem dinheiro outros só querem emprego / Eu vou tipo Tim Maia / O que eu quero é sossego").

O mais interessante (e diferente) é a grande quantidade de participações especiais em "A Arte do Barulho". A cantora Cláudia (que fez sucesso no início dos anos 70) é resgatada com a sua voz sampleada em "Desabafo", a melhor faixa do álbum. A faixa sampleada é "Deixa Eu Dizer", de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza. Só o fato de ter apresentado Cláudia a uma nova geração de fãs, já faz com que "A Arte do Barulho" mereça ser escutado com muita atenção. Realmente, a quantidade de referência de Marcelo D2 é imensa. E o mais bacana é que ele não escorrega em clichês baratos.

Além de Cláudia, Marcelo D2 contou com a participação de outro veterano. Marcos Valle dá o seu recado no Fender Rhodes na faixa "Afropunk No Valle do Rap", que, apesar de curtinha, é uma das mais deliciosas de "A Arte do Barulho". Além dos veteranos, D2 conta com a ajuda de uma nova geração de artistas, como Seu Jorge (nem tão nova geração assim), que empresta sua voz ao "laiá laiá" de "Pode Acreditar"; Roberta Sá leva a sua leveza à "Minha Missão" que acaba soando um pouco cansativa; Thalma de Freitas manda muito bem em "Ela Disse", que também conta com Fernandinho Beat Box; e Mariana Aydar parece um pouco fora de seu território no nervoso rap "Fala Sério!".

Stephan Peixoto, filho de D2 volta a participar da obra do pai em "Atividade na Laje". O garoto, mais velho, está cantando bem melhor, mas que a graciosa "Lodeando" é muito mais simpática, ah, isso é.

Na faixa-título, Marcelo D2 explica o propósito de seu trabalho: "Não posso, não me acomodo, me orgulho da obra que fiz / Ser o melhor ou pioneiro, essas merdas eu nunca quis / Quero cumprir minha missão que é música de verdade / Que venha do coração sem dó, sem piedade". Talvez esse seja o motivo de D2 não se preocupar muito em mudar. E quer saber? Faz ele muito bem. Melhor se repetir e fazer música que venha do coração do que fingir ser o que não é, apenas para vender mais disco. O mercado de música já está cheio de gente assim, e não precisava de mais um.

Logo abaixo segue o videoclipe da faixa "Desabafo", presente no álbum "A Arte do Barulho".

Cotação: ****

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CD: "Intimacy" (Bloc Party) - A morte ou o renascimento?

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 20/12/2008 14:58

Intimacy (Bloc Party)

"Intimacy", novo álbum do Bloc Party, tem causado reações extremas entre os fãs da banda. Uns dizem que o disco representa a morte prematura do Bloc Party; outros insistem que "Intimacy" é o trabalho mais original do conjunto de Kele Okereke, um verdadeiro renascimento. Difícil ter uma atitude tão radical, a partir do momento em que o Bloc Party convocou os produtores Paul Epworth (responsável pelo álbum de estréia da banda, "Silent Alarm") e Jacknife Lee (que pilotou o sucessor "A Weekend In The City"). No final das contas, tudo o que a banda quis foi juntar o que de melhor poderia oferecer em cada um dos dois primeiros álbuns em um terceiro.

Dessa forma, "Intimacy", apesar de possui uma sonoridade mais eletrônica e experimental, e letras mais pessoais (bem distantes da politização, às vezes, muito chata dos álbuns anteriores), nada mais é do que o Bloc Party em sua essência. As influências (The Cure, The Jam, Smashing Pumpkins, Radiohead, The Smiths, Pixies, Joy Division, entre outras) permanecem as mesmas, e a originalidade de uma das melhores bandas surgidas nos últimos tempos, também. Para resumir, "Intimacy" combina o rock mais cru de "Silent Alarm" com as texturas sonoras mais elaboradas de "A Weekend In The City", acrescidas de elementos eletrônicos.

O baterista Matt Tong definiu bem essa relativa mudança da banda em "Intimacy". "Eu acho que o novo material terá uma textura sonora mais diluída do que o último disco. Acredito que a terceira encarnação em estúdio do Bloc Party seja um pouco parecida com a crueza do primeiro disco, acrescida de uma certa experiência", afirmou.

A faixa "Trojan Horse" é um exemplo dessa nova sonoridade do Bloc Party, ao misturar as raivosas guitarras às batidas eletrônicas. Pode ser, realmente, um pouco diferente dos trabalhos anteriores do Bloc Party. Mas quem conhece minimamente a banda vai sacar que a sua essência está lá. É, mais ou menos, como se o pós-punk estivesse se encontrando com a eletrônica moderna do final dos 00. "Talons", "One Month Off" e "Halo" são outras três canções que seguem essa mesma direção, embora a terceira esteja bem mais puxada para o Bloc Party de "A Weekend In The City".

Mas, tirando essas canções, o Bloc Party parte para um campo mais eletrônico em "Intimacy". A primeira faixa do álbum, "Ares", com sua bateria acachapante, guitarras nervosas e sons de sirene, é uma que vai deixar muita gente achando que o álbum do Prodigy saiu mais cedo. "Flux" é outra que segue o mesmo caminho mais puxado para a eletrônica. Já "Mercury", apesar de menos nervosa que as anteriores, mostra um Bloc Party testando novas possibilidades. De certa forma, pode-se dizer que a canção segue um estilo parecido com "National Anthem", canção gravada pelo Radiohead em "Kid A".

E já que falamos no Radiohead, mais especificamente em "Kid A", algumas canções de "Intimacy" são tão experimentais que, em alguns momentos, chegam a lembrar o antológico álbum da banda de Thom Yorke. As minimalistas "Signs" (a melhor do álbum, que conta com sinos e um melotrom, no melhor estilo Sigur Rós) e "Biko" (não é a de Peter Gabriel) são as canções mais bem trabalhadas do álbum. E não vai ser estranho se o Bloc Party, em seu próximo álbum, partir para um caminho mais minimalista, como fez o Radiohead.

"Better Than Heaven" e a épica "Ion Square" (musicada a partir do poema "I Carry Your Heart With Me", de E. E. Cummings) são outras duas canções que merecem destaque em "Intimacy". A primeira, praticamente dividida em duas partes bem diferentes, dá a impressão que a banda quer deixar claro a transição entre a sua sonoridade mais tradicional puxada para o rock com a eletrônica. Já a segunda mistura todas as referências oitentistas da banda, o que acabou deixando a canção com uma cara meio "New Order". Mas isso não é uma crítica, eis que o Bloc Party soube ser original ao atualizar os elementos eletrônicos.

"Intimacy" não é melhor nem pior do que "Silent Alarm" ou "A Weekend In The City". É apenas diferente. E o Bloc Party se saiu bem ao explorar novas sonoridades e não perder a essência. Só resta saber qual rumo tomará o próximo trabalho do grupo. Várias estradas diferentes foram pavimentados nesse "Intimacy"...

Logo abaixo segue o videoclipe do single "Talons".

Cotação: ****

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CD: "Recomeço" (Virgínia Rodrigues) - Será que agora vai?

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 18/12/2008 17:32

CD:

Quando Virgínia Rodrigues surgiu em 1998, com o excelente álbum "Sol Negro", os fãs de Música Popular Brasileira imaginavam que uma grande cantora estava surgindo para ficar. Acertaram em parte. De fato, uma grande cantora estava surgindo. Mas, infelizmente, não foi para ficar. Os álbuns seguintes, "Nós" (2000) e "Mares Profundos" (2004), ambos muito bons, acabaram não acontecendo. E o público (pelo menos grande parte) acabou esquecendo quem era aquela cantora maravilhosa que havia surgido no final da década de 90, apadrinhada por Caetano Veloso.

Agora, quatro anos após o lançamento de seu último trabalho, Virgínia Rodrigues ressurge com o álbum "Recomeço", seu primeiro álbum pela gravadora Biscoito Fino. Assim, como os álbuns anteriores, o novo trabalho da cantora é muito bom, mas resta saber se Virgínia Rodrigues, de fato, "acontecerá" agora. Tudo bem que o estilo da cantora, mais camerístico, não é lá tão popular para cair nas graças do povo (o seu último disco foi lançado, simplesmente, pela gravadora clássica Deutsche Grammophon), mas que ela merecia um destaque maior aqui no Brasil, merecia... Enquanto isso lá fora, a cantora se apresenta nas principais casas de espetáculo do mundo, como o Carnegie Hall, o Hollywood Bowl e o Royal Albert Hall de Londres.

Em "Recomeço", a cantora é acompanhada pelo arranjador e pianista Cristóvão Bastos. O bom gosto musical é irrepreensível. Virgínia Rodrigues junta em "Recomeço" composições de Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Sueli Costa, Edu Lobo, Antonio Carlos Jobim, José Maria de Abreu, Dolores Duran, entre outros, que ganham a sua interpretação tão única, que vai de Billie Holiday a Jessye Norman, passando por Elizeth Cardoso.

O piano de Cristóvão Bastos é o único acompanhamento para a voz de Virgínia Rodrigues, que canta um repertório basicamente composto por canções que falam sobre amor. Entre os destaques do álbum estão "Beatriz" (Edu Lobo / Chico Buarque), "Estrada Branca" (Tom e Vinícius), "A Noite do Meu Bem" (Dolores Duran) e "Todo o Sentimento", composição de seu arranjador ao lado de Chico Buarque.

A primeira vista, a pergunta é inevitável: Mais um disco com músicas de Chico, Vinícius e Tom Jobim? A resposta pode ser sim (o repertório, realmente, esbarra um pouco na previsibilidade), mas também pode ser não, se levarmos em conta a originalidade das interpretações.

A originalidade é tanta, que mesmo canções gravadas anteriormente (e imortalizadas) por outros artistas, como "Alma" (por Simone), "Canção de Amor" (por Elizeth Cardoso e, mais tarde, Caetano Veloso) e "Boa Noite, Amor" (por Francisco Alves), ganham nova vida na voz de Virgínia Rodrigues.

E que "Recomeço" simbolize o verdadeiro recomeço de Virgínia Rodrigues. Ter uma gravadora como a Biscoito Fino, certamente, representa um grande lastro para a cantora alcançar um público maior no país. Que essa chance não seja desperdiçada...

Cotação: ****

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CD: "Circus" (Britney Spears) - E a Britney voltou a ser a Britney...

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 16/12/2008 18:25

CD:

Dizem que "Circus", novo álbum de Britney Spears representa um retorno da cantora a boa forma. Besteira! O melhor álbum lançado por Britney foi "Blackout" (2007) exatamente no momento em que passava pela maior barra pesada de sua vida. Não que Britney Spears precise se passar por louca para gravar um bom disco, mas a verdade é que em "Blackout", ela fugiu de certas convenções que regem a indústria do disco norte-americana.

Já "Circus" representa tudo o que as famílias norte-americanas curtem. Da capinha fofa, apresentando a cantora com cara de boa menina às letras que não dizem nada, "Circus" é tão arrumadinho e perfeitinho quanto um show de Madonna. Obviamente, os norte-americanos aprovaram e Britney vendeu mais de meio milhão de cópias de "Circus", somente na primeira semana de vendas nos Estados Unidos. Certamente a sua turnê será um sucesso fenomenal (só na O2 Arena, em Londres, a cantora norte-americana já tem oito show agendados) e, se Britney não voltar a ser uma porra-louca, ela finalmente começa a tomar as rédeas da situação para se tornar a futura Madonna.

Pronto. Era tudo o que a sua gravadora e os seus fãs queriam. Inovar um pouco como a cantora fez em "Blackout"? Para quê? Melhor seguir a receita de como construir fenômenos pop descartáveis e está tudo certo. Dessa forma, a cantora retoma a sua carreira "interrompida" a partir da previsibilidade do álbum "In The Zone" (2003). Afinal de contas, Karl Marx já descansa em paz há muito tempo, assim como o Muro de Berlim.

Não se sabe se aquela garota virgem que visitou o Brasil em 2001, fazendo playback e usando a bandeira dos Estados Unidos como cenário, realmente tomou jeito. Mas, pelo que se pode ouvir em "Circus", tudo indica que sim. Cercado por produtores maravilhosos, Britney Spears, se segue uma burocrática receita, pelo menos, criou algumas canções interessantes. A faixa-título é o melhor exemplo. Produzida por Dr. Luke e Benny Blanco, a cantora mostra que, se ainda não tem 50 anos como Madonna, tem muita gente boa ao seu redor.

Outros que mandam bem na produção é a dupla The Outsyders, que dá um sopro de originalidade na faixa de abertura (e primeiro single) "Womanizer", que tem uma abertura sensacional cheia de sintetizadores e resgata o pop-urbano do álbum anterior. "Circus", que vem em seguida, dá a esperança de que o álbum é melhor do que "Blackout". Mas é só chegar a vez da terceira faixa, a balada insossa "Out From Under", que a gente se lembra daquela velha Britney Spears que já vendeu mais de 90 milhões de cópias de discos e que, em 2002, foi eleita pela Forbes a celebridade mais poderosa do mundo. A produção dessa faixa é de Guy Sigsworth, que mostrou que se dá melhor ao lado de Alanis Morissette. A chatérrima "My Baby" é a prova definitiva. Talvez Sigsworth não tenha se convencido de quão diferentes são as suas duas pupilas.

"Kill The Lights", a faixa seguinte, é a melhor do CD. Lendo o encarte, dá para entender o motivo. A canção foi produzida por Danja, o mesmo responsável pelos melhores momentos de "Blackout". "Blur" (que tem um quê de "Early Mornin'") é outra que conta com Danja, e, apesar de não ser tão boa quanto a anterior, ainda assim, com a sua original batida, é uma das melhores do álbum. De quebra, a sua letra destoa um pouco da temática "fofa" de "Circus", ao falar de excessos etílicos.

"Unusual You" e "Radar" ganham a assinatura da dupla Bloodshy & Avant (que também trabalhou em "Blackout"). A primeira se destaca pelo tom retrô que caiu muito bem com a cantora. Já a segunda não chega a ser um grande destaque de "Circus", mas até que fecha o álbum de maneira razoável.

"If You Seek Amy", apesar da bobajada que é a letra, acaba sendo um dos grandes momentos de "Circus", graças à sua contagiante batida eletrônica. Já "Mmm Papi", produzida pelo Let's Go To War é uma das coisas mais chatas gravadas por Britney, com uma letra bem fraca e uma sonoridade muito datada. Por sua vez, as faixas "Mannequin", a oitentista "Shattered Glass" e, em especial, "Lace And Leather" põem "Circus" de volta aos trilhos. Esta última, com uma boa levada de baixo e uma sonoridade puxada para o soul, é uma das boas sacadas do álbum, apesar de muito parecida com as coisas que Madonna andou fazendo no final da década de 90. Ponto para a produção do quarteto Lukasz Gottwald, Benjamin Levin, Frankie Storm e Ronnie Jackson.

"Circus" não é um álbum ruim. Pelo contrário, em termos de produção não fica nada a dever a "Hard Candy", de Madonna. Mas que a Britney Spears de "Blackout" é muito mais interessante, ah, isso é...

Logo abaixo segue o videoclipe de a faixa-título de "Circus".

Cotação: ***


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CD: "Mallu Magalhães" (Mallu Magalhães) - Nem tanto ao norte, nem tanto ao sul

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 14/12/2008 12:14

CD:

O álbum de estréia de Mallu Magalhães pode ser analisado sob dois pontos de vista. Primeiro: a cantora de 16 anos, que bombou na Internet tem talento e fez um disco que, se fosse lançado por uma gringa, seria a oitava maravilha do mundo. Segundo: a menina mimada que se acha o último brigadeiro da bandeja grava um disco copiando suas referências e, pior de tudo, em inglês.

Nem tanto ao norte, nem tanto ao sul. Mallu Magalhães tem talento e isso é fato, ainda mais levando-se em conta a sua idade. Por outro lado, a cantora também não é a salvação do pop nacional - no momento, é apenas um fenômeno hype - e nem é certo que faça sucesso no próximo verão. Excluindo esses dois extremos, a única conclusão a que se pode chegar com o seu álbum de estréia é que ele é gostoso de se ouvir.

Mallu Magalhães cercou-se de gente muito boa para gravar o seu primeiro álbum, a começar pela sempre eficiente produção de Mario Caldato Jr., que soube dosar bem as influências de Bob Dylan e de Johnny Cash com algo mais moderno para o padrão pop brasileiro. A banda que acompanha Mallu também é muito boa, em especial o guitarrista Kadu Abecassis e o baixista Thiago Consorti. Para garantir, o álbum ainda foi mixado em Los Angeles, embora, hoje em dia, levando-se em conta os ótimos estúdios no Brasil, isso só sirva como grife.

Apesar das canções agradáveis e de a voz de Mallu soar "fofa" (até demais além da conta), um defeito logo fica evidente nesse álbum. Das suas 14 faixas, 12 são cantadas em inglês. Se Mallu Magalhães quis parecer "muderna" com isso, o resultado acabou ficando como uma espécie de "paga pau" aos gringos. Paciência, Mallu ainda tem tempo para descobrir Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Vinícius de Moraes...

Mas o álbum tem um ponto a seu favor. Para quem esperava 14 "Tchubarubas", Mallu Magalhães mostra que aprendeu muita coisa entre a sua estréia na Internet e a gravação desse CD. Apesar de "Get To Denmark" ainda parecer um pouco com o hit que explodiu na Internet, Mallu soa muito mais adulta (mesmo aos 16 anos) em faixas como a cool "Sualk" e a "mais-dylanesca-impossível" "It Takes Two To Tango".

Em outros momentos, Mallu surpreende, em especial na faixa de abertura "You Know You've Got", uma espécie de folk-country-soul-rock que remete até um pouquinho ao estilo musical de Amy Winehouse. A "mais-johnny-cashiana-impossível" "Don't You Look Back", cheia de banjos, escaletas e gaitas, também é outra que se sobressai, apesar da relativa falta de originalidade.

As duas faixas em português, por incrível que pareça, são algumas das mais fracas do disco de estréia de Mallu Magalhães. "O Preço da Flor", com a sua letra bem mediana e uma sonoridade arrastada demais, mostra porque a cantora insiste tanto em gravar em inglês. E "Vanguart", apesar de musicalmente melhor, tem uma letra dispensável ("Ah, se eu tivesse fotografado / s'eu tivesse m'entregado / ao mundo sobrenatural / Eu seguiria o realejo / Desenharia o qu'eu vejo / No meu cereal". A bem da verdade, suas letras (nas quais alguns vão querer encontrar traços de genialidade) ainda deixam a desejar (o que é natural por conta de sua idade), e, em inglês, pouca gente vai prestar atenção. Não é verdade?

O melhor a se fazer é ouvir o primeiro álbum de Mallu Magalhães como uma coleção de faixas agradáveis. Se a cantora é realmente o gênio que muita gente insiste em dizer (ou se vai durar apenas um verão), só o tempo vai dizer. E isso, ela tem de sobra...

Logo abaixo segue o videoclipe de "Tchubaruba".

Cotação: ***

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CD: "Only By The Night" (Kings Of Leon) - Mais roqueiros e mais inspirados

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 13/12/2008 11:56

CD:

"Ao mesmo tempo que esse álbum será mais roqueiro, estamos retomando as nossas raízes do sul dos Estados Unidos." Essa frase dita pelo baixista Jared Followill, pouco antes do lançamento de "Only By The Night", explica bem a proposta do novo disco de seu grupo.

O Kings Of Leon, banda formada em 2000, por três irmãos e um primo, no Tennessee, antes do lançamento de "Only By The Night", já tinha três álbuns na bagagem. "Youth and Young Manhood" (2003), "Aha Shake Heartbreak" (2004) e "Because Of The Times" (2007), alçaram o conjunto ao estrelato, com canções como "Molly's Chambers", "The Bucket" e "On Call". O sucesso fez com que o grupo logo fosse convidado a abrir shows do U2, Pearl Jam, e até mesmo, Bob Dylan.

Entretanto, algo muito curioso acontece na carreira do Kings Of Leon. Apesar de ser uma banda norte-americana, os Followill encontram muito mais sucesso na Inglaterra do que em seu país. Para provar isso, basta analisar as resenhas publicadas em grandes publicações dos dois países. A Pitchfork Media norte-americana deu nota 3,8/10,0, enquanto a PopMatters reprovou o disco com 2,1/10,0, e a JustPressPlay deu nota 4,0 em um total de 10,0. Já na Inglaterra? Bem, por lá, a história é bem diferente. O The Observer deu a nota máxima ao álbum, enquanto a Virgin Media tascou-lhe 4,5 em um total de 5,0. O disco também foi nomeado como o melhor de 2008, pela revista inglesa Q.

Nos Estados Unidos, "Only By The Night" estreou na quinta posição da parada da Billboard. Na semana seguinte, já estava em 20º. Na Inglaterra, o álbum entrou de cara no primeiro posto da parada local. Realmente é muito difícil encontrar explicação para isso. Talvez seja porque os britânicos se interessem mais por bandas de rock, enquanto os norte-americanos dêem mais atenção para os seus rappers e para cantoras descartáveis como Beyonce e Britney Spears. Mas isso seria objeto para um trabalho sociológico. Então, deixemos pra lá...

Mas, ao que parece, o Kings Of Leon já se contentou com essa rejeição dos americanos. E sem abrir concessões, faz o seu trabalho de forma digna, como pode ser observado em "Only By The Night", que contou com a produção de Angelo Petraglia e Jacquire King.

E, conforme Jared Followill disse, o Kings Of Leon realmente está mais roqueiro, e bem distante das canções de "Youth and Young Manhood". "Closer", a faixa de abertura de "Only By The Night", é um exemplo de que a banda está soando mais pesada, mais rock n' roll, no sentido estrito da palavra, lembrando um pouco as bandas dos anos 70 com uma ponte para o My Morning Jacket (essa sim, adorada pelos norte-americanos). Com guitarras rascantes e um vocal duro e pesado, "Closer" é realmente algo bem novo para a obra do Kings Of Leon. Nela, é possível ver bem a influência que os encontros com o Pearl Jam causaram na banda.

"Crawl" não difere nem um pouco da anterior, e ganha mais força com a letra paranóica, provavelmente reflexo dos problemas com drogas e álcool do vocalista e guitarrista Caleb Followill. Inclusive, ele chegou a afirmar que os efeitos causados pela medicação estavam lhe ajudando a escrever as melhores canções de sua carreira.

Em "Sex On Fire", a melhor do álbum (e primeiro single, que chegou ao primeiro lugar das paradas britânica e australiana), as coisas clareiam um pouco, com uma sonoridade mais alegre, com alguns ecos dos primeiros trabalhos da banda. "Use Somebody" é outra que dificilmente não fará sucesso. Também mais puxada para o pop, sem o muro de guitarras das duas faixas iniciais, que, de certa forma, podem causar certo estranhamento aos fãs mais tradicionais do grupo.

Mas a partir de "Manhattan" (que tem uma bela linha de baixo), o Kings Of Leon retorna mais para o rock, assim como em "Notion", que aliás, lembrou bastante o Black Crowes, e a ótima "Be Somebody", que deixa o seu refrão ("Given a chance, I'm gonna be somebody / If for one dance, I'm gonna be somebody / Open the door, it's gonna make you love me / Facing the floor, I'm gonna be somebody") grudado na cabeça.

Um outro lado que o Kings Of Leon mostra em "Only By The Night", e era um pouco desconhecido em sua obra, é a de canções com uma sonoridade mais soturna (ou "dark", para ser mais direto). A faixa de encerramento, "Cold Desert", bem como "I Want You" e a ótima "Revelry", chegam até a lembrar, por mais absurdo que seja, as bandas "góticas" dos anos 80, como The Cure e Echo & The Bunnymen.

Talvez isso explique o título do álbum...

"Only By The Night" está sendo indicado na categoria de melhor álbum de rock do próximo Grammy, e a faixa "Sex On Fire" concorrerá como melhor performance de rock e melhor música de rock.


Logo abaixo segue um vídeo ao vivo da faixa "Sex On Fire", no programa de Jools Holland.

Cotação: ***1/2

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CD e DVD: "Samba Social Clube" (Vários Artistas) - A Buena Vista brasileira

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 11/12/2008 19:52

CD e DVD:

O Buena Vista Social Clube, que reuniu os principais músicos cubanos, todo mundo conhece. Agora, saiu aqui no Brasil, o Samba Social Clube, reunindo a nata de nosso samba. O nome veio de um programa de rádio da MPB FM, que faz grande sucesso no Rio de Janeiro. Definitivamente, a proposta é ótima. Mas é inegável que essa idéia de projetos de samba, que nasceu lá nos anos 90, com o finado "Casa de Samba", e ganhou continuidade com o "Cidade do Samba", idealizado por Zeca Pagodinho, e que teve direito a CD e DVD no final do ano passado, já está um pouco desgastada.

Se os dois projetos anteriores eram centrados em duetos de artistas para velhos clássicos do samba, este Samba Social Clube não difere muito. A única diferença é que não há duetos. Nele, cada artista é responsável pela interpretação de algum velho (ou nem tanto) sucesso do samba. Não tem como ser ruim ouvir feras como Beth Carvalho, Jorge Aragão, Dona Ivone Lara, bem como artistas da nova geração, como Roberta Sá, interpretarem clássicos de João Bosco, Candeia, Haroldo Lobo e Elton Medeiros. Mas é impossível negar que a fórmula já desgastou.

Como não poderia deixar de ser, Zeca Pagodinho abre o CD. Não tem jeito, qualquer projeto desse tipo, que reúne vários artistas, Zeca está presente. A sua presença, logicamente, é sempre muito bem-vinda, mas que o desgaste é latente, ah, isso é. De qualquer forma, o sambista acerta em cheio na sua interpretação para "É Preciso Muito Amor" (de Noca da Portela e Tião de Miracema). A letra, aliás, é sob medida para a sua voz: "É preciso muito amor para suportar essa mulher / Tudo que ela vê numa vitrine ela quer / Tudo que ela quer tenho que dar sem reclamar / Porque senão ela chora / E diz que vai embora, ô, diz que vai embora".

Com relação à "velha guarda", além de Zeca Pagodinho, merecem destaque também o Grupo Fundo de Quintal (com a divertidíssima "Assassinaram o Camarão", de Zere e Ibraim), Jorge Aragão (que arriscou, e se deu bem, com o "Mar Serenou", sucesso de Candeia que foi imortalizado por Clara Nunes), Luiz Melodia (que mostrou que o seu disco de sambas "Estação Melodia" lhe fez muito bem, com "Tristeza", de Haroldo Lobo e Niltinho Tristeza) e Dona Ivone Lara, que interpretou a sua (em parceria com Herminio Bello de Carvalho) "Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço". Alcione, por sua vez, poderia ter se saído melhor com outra canção. A escolhida, "Mormaço", de João Roberto Kelly, não ficou a altura da voz da Marrom.

Mas nem só da "velha guarda" vive "Samba Social Clube". Alguns grandes nomes da nova geração também brilham. E os melhores exemplos disso são Roberta Sá (com o clássico "Pressentimento", de Herminio Bello de Carvalho e Elton Medeiros) e Teresa Cristina, que, ao lado de seu Grupo Semente, fez bonito em "Tristeza Pé No Chão", de Armando Fernandes.

Ainda que um pouco fora da praia do samba, Fernanda Abreu fez o seu samba-funk em "Salve a Mocidade", música de Luiz Reis, já gravada por Elza Soares; e Lenine não disse muito ao que veio em "Esperanças Perdidas", de autoria de Délcio Carvalho e Adeilton Alves.

Além do CD, foi lançado o DVD, que conta com seis faixas a mais. Dudu Nobre, Casuarina e Almir Guineto ficaram restritos ao vídeo. Mas a maior perda do CD foi ter ficado sem o encontro de Nelson Sargento com Mauro Diniz, na canção "Velhas Companheiras", de Monarco. Sem dúvidas, esse foi um dos melhores momentos do show.

Uma pena, porque todas as 20 canções do DVD caberiam tranqüilamente no CD. Depois as gravadoras não sabem porque, a cada dia que passa, vendem menos...

Logo abaixo segue o vídeo de "Pressentimento", sucesso de Elton Medeiros e Herminio Bello de Carvalho, interpretado por Roberta Sá. Tal vídeo está presente no DVD.

Cotação: ***1/2

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De todas as coisas que perdi, a que me faz mais falta é a minha mente."

STEVEN TYLER, vocalista do AEROSMITH