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CD: "Pelo Sabor do Gesto" (Zélia Duncan) - Zélia transformada em Zélia

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 04/07/2009 11:52

CD:

Zélia Duncan tem o costume de se transformar em outras. Ela pode ser a sambista tradicional de "Eu Me Transformo Em Outras" (2004), pode ser uma Mutante ou ainda dar novos ares à carreira de Simone em uma turnê... Não importa. A marca de qualidade da cantora de Niterói está sempre presente em qualquer um desses casos.

Mas o melhor mesmo é quando Zélia Duncan se transforma em Zélia Duncan. Os seus álbuns sempre chamam a atenção, com as suas ótimas canções embaladas em uma produção de primeira linha e a sua voz marcante. Zélia lançou álbuns importantes, como "Zélia Duncan" (1994), "Acesso" (1998), "Sortimento" (2001) e "Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band" (2005). Mas, verdade seja dita, nenhum dele é superior a "Pelo Sabor do Gesto", o novo trabalho da cantora.

Assim como já fizera em "Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band" (produzido por Christiaan Oyens, Bia Paes Leme e Beto Villares), "Pelo Sabor do Gesto também teve a sua produção dividida. Villares voltou a se unir à cantora, dessa vez dividindo a batuta com o "Pato Fu" John Ulhoa. Cada um produziu sete faixas. E o mais bacana - e diferentemente de "Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band" - é que o novo álbum de Zélia Duncan encontra uma uniformidade incrível entre suas canções. Um Álbum com "A" maiúsculo, do início ao fim.

Em "Pelo Sabor do Gesto", Zélia Duncan nunca soou tão moderna. E o responsável por esse toque de modernidade foi o produtor John Ulhoa, que injetou uma sonoridade - bem parecida com a da sua banda Pato Fu, e com a empregada no álbum "Onde Brilhem os Olhos Seus", de Fernanda Takai e também produzido por ele - que deu novas cores ao estilo de Zélia Duncan. Duvida? Ouça a faixa "Tudo Sobre Você" (composta por Zélia e por John), certamente a melhor canção lançada esse ano no Brasil, até agora.

John Ulhoa também manda muito bem na faixa de abertura, "Boas Razões", que ganhou um clima de filme de suspense, enfatizado pela deliciosa sanfona do ótimo Marcelo Jeneci. E a participação especial de Fernanda Takai dá um charme especial à canção que, aliás, poderia estar presente em qualquer álbum do Pato Fu. "Telhados de Paris", de Nei Lisboa, é outra das faixas mais interessantes de "Pelo Sabor do Gesto". A voz suave de Zélia Duncan e o metalofone de brinquedo tocado por John Ulhoa dão um clima lúdico à canção. John ainda é responsável pela produção de "Ambição" (composta por Rita Lee, e com uma vibração mais roqueira), da singela faixa-título ("Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor / Carinho sem querer me cansa e me dói / Se o amor vem pra ficar, faz tudo mais bonito / Me basta ter na mão e o corpo tem razão") e da levinha acústica "Aberto".

Já com relação às faixas produzidas por Beto Villares, nelas não há essa assinatura tão marcante quanto à de John. E isso não é uma crítica. A sua produção pode ser considerada mais "cool" e minimalista. "Todos os Verbos" e "Sinto Encanto" são dois bons exemplos dessa sonoridade diferenciada, mas que, ao final, acaba combinando muito bem com o trabalho de John Ulhoa nas outras faixas. "Os Dentes Brancos do Mundo" (dos irmãos Paulo Sérgio e Marcos Valle) e "Se Eu Fosse" (parceria de Zélia ao lado de Dante Ozzetti) são duas músicas que descem mais suaves, assim como "Se Um Dia Me Quiseres" (composta a quatro mãos por Zélia e Por Zeca Baleiro) e "Duas Namoradas", de autoria de Itamar Assumpção, como já é costume nos discos da cantora de Niterói.

Enfim, "Pelo Sabor do Gesto", certamente, estará presente em qualquer lista dos melhores discos lançados em 2009. E é muito bom saber que uma artista que já fez de tudo um pouco, ainda é capaz de surpreender. Tomara que Zélia Duncan seja apenas Zélia Duncan por muito tempo...


Cotação: *****

Abaixo, a música "Tudo Sobre Você":



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD e DVD: "Soul Live" (Seal) - Nem a voz justifica...

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 02/07/2009 11:21

CD e DVD:

Seal sempre foi um artista em mutação. Desde a sua estreia em 1990, quando estourou com "Killer" e "Crazy", Seal mostrou ser um ótimo compositor de temas dançantes ou de baladas, além de ter um das vozes mais agradáveis da música pop nos últimos 20 anos. A sua última ideia, no entanto, pode ser considerada uma das menos felizes de sua carreira. A gravação de um álbum repleto de covers do soul ("Soul", lançado no ano passado) era algo que Seal não precisava. Tudo bem... As canções são ótimas e a voz de Seal é maravilhosa, mas a impressão que ficou é a de que "Soul" era um álbum feito com o único intuito de vender, assim como aqueles melancólicos songbooks que Rod Stewart andou gravando.

Se Seal (ainda) não se animou a gravar um volume 2 de "Soul", ele foi bem rápido ao colocar nas lojas "Soul Live", pacote que agrega CD e DVD com o registro de algumas canções de sua última turnê. São 11 faixas no CD, sendo que 9 já faziam parte do disco de estúdio originário. As duas restantes são as mais que previsíveis "Kiss From a Rose" e "Crazy", com versões bastante próximas às originais.

Tudo o que já foi comprovado no CD de estúdio, vem à tona novamente nesse ao vivo, que, se não fosse o DVD, poderia ganhar o título de lançamento mais dispensável do ano. "If You Don't Know Me By Now" (de Kenneth Gamble e Leon Huff) ainda soa anêmica se comparada à imbatível gravação do Simply Red. "Stand By Me" (clássico de King, Lieber e Stoller) continua "over" com um arranjo de cordas grandioso demais.

Por sua vez, "Here I Am (Come And Take Me)", de Al Green, que era a melhor faixa do álbum de estúdio, ficou melhor ainda ao vivo, sendo, fácil, o grande destaque do CD e do DVD. Pena que a deliciosa "It's Alright" (de Curtis Mayfield) e "I'm Still In Love With You" (de Al Green e Al Jackson), que também eram dois dos melhores momentos do CD de estúdio, tenham ficado de fora desse ao vivo, em detrimento de, por exemplo, "People Get Ready", cuja versão muito gospel demais ficou bem aquém da definitiva gravada de Rod Stewart.

De qualquer forma, o DVD, com ótimas imagens do show, pode fazer com que o pacote valha a pena para o fã. Além das 11 músicas do CD ao vivo, o vídeo ainda traz versões acústicas de "If You Don't Know Me By Now", "A Change Is Gonna Come" e "It's a Man's Man's Man's World". Nessas três versões, Seal é acompanhado pelo produtor David Foster. Talvez sejam os melhores momentos do DVD. Ou seja, muito pouco para compensar um investimento de, em média, R$ 75,00.

Depois os artistas e as gravadoras não sabem o porquê das pequenas vendas...


Cotação: **1/2

Em seguida a música "Knock On Wood", gravada ao vivo em um festival na França:



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD: "Sacos Plásticos" (Titãs) - Padronização desnecessária

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 30/06/2009 11:02

CD:

A capa do novo álbum dos Titãs, "Sacos Plásticos", mostra um daqueles típicos manequins de vitrines de lojas de roupa. Dentro do encarte, ao invés de fotos dos cinco integrantes da banda, há fotos de mais manequins. Todos absolutamente iguais. E é essa a sensação que fica de "Sacos Plásticos", um álbum que, em sua essência, soa repetitivo, fruto da padronizada produção de Rick Bonadio.

Uma pena, porque - isso é verdade - na maior parte das 14 faixas do álbum é possível sentir a veia de uma banda que ainda pode ser chamada de uma das mais importantes do Brasil. E esse "detalhe" já pode ser sentido logo na faixa de abertura do álbum, "Amor Por Dinheiro", que, se não fossem as enjoadas programações eletrônicas de Bonadio (que chegam a beirar o exagero em outras faixas como "Agora Eu Vou Sonhar", "Múmias" e "Quanto Tempo"), poderia ser considerada uma das grandes músicas do então quinteto. A letra, composta por Sérgio Brito e Tony Bellotto, não poderia ser mais "titã": "Acima dos homens, a lei / E acima da lei dos homens / A lei de Deus / Acima dos homens, o céu / E acima do céu dos homens / O nome de Deus / E acima da lei de Deus / O dinheiro!".

"Antes de Você", composta e cantada por Paulo Miklos, é uma boa canção, mas com uma sonoridade, digamos, "teen" demais para funcionar com os Titãs. Talvez teria mais a ver com bandas produzidas por Bonadio, como NX Zero, Fresno ou CPM 22. A faixa-título, por sua vez, é Titãs puro, da música a letra, e mostra o quanto o álbum poderia ter sido bom, se produzido de uma maneira menos burocrática.

"Porque Eu Sei Que É Amor", "Deixa Eu Sangrar" e "Quem Vai Salvar Você do Mundo?", todas as três com cordas gravadas nos Estados Unidos, são as baladas de "Sacos Plásticos". A primeira, cantada por Paulo Miklos, tem tudo para tocar nas rádios, enquanto a segunda e a terceira (ambas na voz de Sérgio Britto) parecem ter sido gravadas para suceder "Epitáfio" e "Enquanto Houver Sol".

A funkeada e eletrônica "Problema" lembra os Titãs de "Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas" - ela foi composta por Miklos, Arnaldo Antunes e Liminha -, mas o resultado ficou aquém do clássico disco de 1987. "Deixa Eu Entrar" é a melhor faixa de "Sacos Plásticos", um rock direto, sem eletrônica e que foi composto por Bellotto, Britto e Andreas Kisser. Como seria bom se o álbum seguisse esse estilo em suas 14 faixas... A faixa de encerramento, o reggae "Nem Mais Uma Palavra", também sem eletrônica, é outro destaque. Pena que aí já tenha ficado tarde demais...

E a melhor conclusão que se pode tirar após a audição de "Sacos Plásticos" é que, ao contrário do que diz a letra de "Múmias", música para a alma faz falta sim.


Cotação: ***

Em seguida a música "Amor Por Dinheiro", ao vivo no programa "Altas Horas":



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD: "Big Whiskey And The Groogrux King" (Dave Matthews Band) - O pop experimental que pode dar certo

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 25/06/2009 11:45

CD:

Se você entrar no site da Dave Matthews Band, ficará impressionado com a quantidade de CDs ao vivo que a banda disponibiliza para os seus fãs, através da (ótima) série "Live Trax". A banda lança - fácil, fácil - quatro álbuns ao vivo por ano, que fazem a alegria dos fãs mais malucos. E não é para menos, eis que a DMB, assim como Bob Dylan, vive na estrada, sem intervalos, em uma espécie de "Never Ending Tour".

Entretanto, com relação aos discos de estúdio, a Dave Matthews Band tem dado intervalos cada vez maiores entre seus lançamentos. Verdade seja dita, apesar de toda qualidade técnica da banda (como os cariocas tiveram a oportunidade de presenciar no ano passado, com um show que ultrapassou os 200 minutos de duração), os últimos trabalhos de estúdio de Dave Matthews e seus companheiros têm deixado muito a desejar.

E, após a primeira faixa do álbum, "Grux" (na verdade um belo solo de saxofone do falecido LeRoi Moore), a canção "Shake Me Like a Monkey" dá a (falsa) impressão de que "Big Whiskey And The Groogrux King" seguirá o estilo pop-elétrico que a banda iniciou a partir de "Everyday" (2001). Sim e não... A verdade é que quem já se acostumou com os últimos álbuns de estúdio da banda não terá do que reclamar, ainda mais pelo fato de tal canção ser uma prévia de um trabalho muito, mas muito superior aos discos gravados na tal "fase elétrica" da banda.

A falsa impressão dada por "Shake Me Like a Monkey" é logo posta de lado com a faixa seguinte "Funny The Way It Is", primeiro single de "Big Whiskey And The Groogrux King" - aliás, a título de curiosidade, Groogrux era o apelido de LeRoi Moore, que tem a sua imagem desenhada na capa pelo próprio Dave Matthews. A canção não deixa de ter o lado mais pop da DMB. Contudo, ela é mais melodiosa e acústica, lembrando os trabalhos da banda nos anos 90. Tal música talvez seja a melhor do novo álbum, que estreou na primeira posição da Billboard.

"Lying In The Hands Of God" também possui uma coloração acústica e vocais suaves de Dave Matthews. Uma mostra de que a banda pode soar pop, mas não apelativa como em alguns momentos de seus trabalhos anteriores. Até mesmo em uma canção como "Why I Am" (segundo single do álbum), mais elétrica e pop (e com uma letra doidíssima), pode ser identificada a típica assinatura DMB dos anos 90, assim como "Dive In", melodicamente bonita e semelhante a "The Space Between". "Spaceman", que tem um quê de rural, é outra que se destaca na boa sofra de "Big Whiskey And The Groogrux King". Paralelamente, "Alligator Pie" segue estilo parecido, com elementos country, intensificados pelo violino elétrico de Boyd Tinsley e uma espécie de banjo.

Nesse novo trabalho, a DMB aproveitou para gravar algumas das canções mais pesadas de seu repertório. São os casos das graves "Squirm" e "Seven". Boas canções, mas longe de serem as melhores do álbum. Apesar delas, o conjunto norte-americano optou por terminar o álbum de forma mais lenta, com "Time Bomb" (que, entretanto, fica pesadíssima no final). As duas últimas, "Baby Blue" (lenta e orquestrada, com uma letra tão romântica que causa até estranhamento) e "You & Me" (também lenta e romântica) mostram que a banda de Dave Matthews é melhor em canções mais lentas e introspectivas do que nas mais pesadas.

Mas o mais importante é que em "Big Whiskey And The Groogrux King", a Dave Matthews Band conseguiu dosar o seu lado mais experimental e acústico dos discos do início de carreira, com o seu estilo mais elétrico dos últimos trabalhos. Isso não significa que "Big Whiskey And The Groogrux King" seja o melhor álbum da banda, mas, certamente, é o melhor por ela gravado nos anos 00.

Cotação: ****

Abaixo segue um vídeo de "Funny The Way It Is" gravado ao vivo na edição do New Orleans Jazz And Heritage Festival desse ano:



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD: "Rock 'n' Roll" (Erasmo Carlos) - Quando os dinossauros ainda nos surpreendem

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 23/06/2009 11:11

CD:

Basta ler o título de seu novo álbum para chegarmos à conclusão de que Erasmo Carlos gravou um álbum de "rock 'n' roll". Sim! Alguma novidade? Certamente, não... Erasmo é uma das figuras mais importantes do rock brasileiro, e isso ninguém duvida. Basta colocar para rodar todos aqueles clássicos que fizeram as jovens tardes de domingo de nossos pais, para que qualquer dúvida seja dissipada. Fato é que, goste-se ou não, a Jovem Guarda foi um estilo (ou, para alguns, um movimento musical) que pavimentou o rock no Brasil. Ponto final.

"Rock 'n' Roll" é o primeiro álbum de inéditas de Erasmo Carlos desde "Santa Música", que saiu em 2004. A bem da verdade, e apesar de títulos tão díspares, os dois discos seguem estilos parecidos, com uma sonoridade puxada para o rock e letras inteligentes, com a típica assinatura do Tremendão. A diferença é que "Rock 'n' Roll" soa mais hermético, bem acabado e um pouco mais corajoso, ainda mais se levarmos em conta o leque de parceiros que assina canções com Erasmo. Sozinho, ou com Nelson Motta, Chico Amaral, Nando Reis ou com o produtor Liminha, as 12 faixas do disco descem muito bem. A banda que acompanha Erasmo também dá conta do recado. E não poderia ser diferente, tendo em vista os nomes de Dadi, Cesinha, João Barone, Alex Veley e Liminha.

E já que o título do álbum é "Rock 'n' Roll", a faixa de abertura, "Jogo Sujo", dá uma prévia de tudo o que será encontrado nele: rock de boa qualidade com letras inteligentes. E isso não é pouco. Já "Cover" tem uma letra engraçadinha ("Sou um cover que imito até o meu autógrafo / Diferente de tantos de norte a sul / Covers de Roberto ou de Elvis / Michael Jackson, Beatles e Raul", e ainda finaliza: "Cover / Eu sou meu cover / Cover, cover de mim") e uma sonoridade em um estilo rock mais tradicional, puxada no piano de Alex Veley. "Chuva Ácida", por sua vez, é um rock-balada que lembra muito algumas canções de Lulu Santos. Não por acaso, o parceiro de Erasmo em tal canção é Nelson Motta.

Em "Olhar de Mangá", uma espécie de continuação do clássico "Mulher", Erasmo cita os nomes de dezenas de mulheres, como Bibi Ferreira, Maria Bethânia, Lady Dy, Xuxa, Rita Lee, Madonna e - veja só! - Marge Simpson, "todas com os olhos de pidona", segundo o eterno Tremendão. Por sua vez, "Noite Perfeita" é Skank puro, provavelmente fruto da parceria de Erasmo com Chico Amaral, um dos compositores mais presentes nos álbuns da banda mineira. E já que estamos falando de "rock 'n' roll", não há como não falar do principal instrumento desse gênero musical. "A Guitarra É Uma Mulher" ("No carnaval, você sumiu / Sem notícias nem recado / Você não vê porque não quer / A guitarra é uma mulher") é uma bonita homenagem de Erasmo à guitarra. Ou seria à mulher? Podem decidir...

As parcerias com Nando Reis, "Um Beijo É Um Tiro" e "Mar Vermelho", certamente, são as duas faixas mais pesadas do álbum, mostrando que, de fato, o ex-baixista dos Titãs não está mais roqueiro somente em seu álbum "Drês". E chega a ser impressionante notar como qualquer parceria acaba funcionando muito bem no álbum. Talvez seja pelo simples fato de Erasmo ser uma das matrizes do rock brasileiro. Tudo o que veio depois, de certa forma - e para o bem ou para o mal - acabou bebendo em sua fonte. Não tem jeito...

"Noturno Carioca", mais uma parceria com Nelson Motta, é a mais lenta do álbum, uma espécie de valsa-rock. A metalinguagem de "Encontro às Escuras" é uma das mais interessantes e inteligentes de "Rock 'n' Roll": "Humilde eu disse mestre me desculpe / Eu não sou pintor / Não sei se você sabe na verdade eu sou compositor / Ao invés de tintas e pinceis / Eu tenho um violão / E pra eternizar uma mulher / Eu faço uma canção". Mas se Erasmo sabe ser romântico, o oposto também é verdadeiro. "Celebridade", cuja letra fala de uma mulher que "pôs um piercing no umbigo, tatuou cupido no bumbum", mostra a faceta sarcástica de Erasmo. Mais uma ótima faceta, diga-se de passagem.

E "Rock 'n' Roll" é mais um ótimo trabalho de Erasmo Carlos. A prova de que ele ainda pode surpreender. E como é bom ser surpreendido por artistas como Erasmo Carlos...

Cotação: ****

No vídeo abaixo, Erasmo fala um pouquinho sobre "Rock 'n' Roll":



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD e DVD: "Pode Entrar" (Ivete Sangalo) - "Descontração" baiana

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 20/06/2009 11:11

CD e DVD:

A proposta até que é interessante: gravar uma espécie de disco ao vivo dentro de um estúdio na casa da artista. Levando-se em conta que a artista em questão é a baiana Ivete Sangalo, as coisas têm tudo para ficar mais divertidas. Mas não é bem isso o que acontece em "Pode Entrar", novo projeto da cantora, que abarca CD e DVD, com a chancela do Multishow, que vem tomando, a cada dia que passa, o lugar que já foi da MTV nesse tipo de lançamento.

Apesar de Ivete Sangalo tentar passar um tom descontraído ao projeto, no final das contas, é tudo engessado demais. A sensação do "ao vivo" vai por água abaixo logo na primeira canção do CD e do DVD. "Balakbak", com todo o seu jeitão de hit para explodir no Carnaval, é artificial demais para ter sido gravada ao vivo (e finalizada) em um ambiente tão intimista. O mesmo acontece com "Na Base do Beijo". Como se não bastasse a artificialidade das músicas, a edição do DVD, que reveza imagens de estúdio com externas (em praias!), cansa um pouco, passando a impressão de um videoclipe sem fim.

Mas, verdade seja dita, nesse "Pode Entrar", Ivete mostra uma preocupação maior em ir além da axé-music que a consagrou. Os momentos são poucos, mas válidos. "Eu Tô Vendo" é um bom exemplo, com um arranjo mais bem elaborado, e uma letra menos tola do que o costumeiro. A cantora baiana também manda bem ao ressuscitar "Brumário", ao lado de seu compositor, Lulu Santos. Apesar do andamento axé, a canção, que é uma delícia de qualquer maneira, desce bem. (Aliás, Lulu poderia aproveitar a onda e voltar a cantar essa canção em seus shows...). Outro destaque de "Pode Entrar", e certamente a sua melhor música, é "Teus Olhos", de Marcelo Camelo, com participação especial do Hermano. A canção é a prova de que Ivete Sangalo é bem melhor cantando uma boa música do que berrando "tira o pé do chão" - embora, certamente, a maioria de seus fãs não pense assim.

E a diferença entre as composições fica ainda mais latente ao lado da balada pasteurizada "Agora Eu Já Sei". "Meu Maior Presente" não fica muito longe do estilo (ruim) da anterior. Ivete Sangalo ainda dá uma forcinha para a irmã Mônica San Galo em "Completo", cuja letra dispensa comentários: "O céu e o mar, a lua e a estrela / O branco e o preto, tudo se completa de algum jeito / Homem, mulher / A faca e o queijo, o incerto e o perfeito / Tudo se completa de algum jeito".

"Oba Oba" é outra cuja letra chama a atenção: "Ganhou meu coração / Quando dançou comigo / Aí eu me entreguei / Você virou meu vício". O seu refrão também é bom para "tirar o pé do chão": "Oba, oba, oba, oba / Ai ai ai ai ai ai". Os fãs vão adorar... Por sua vez, a funkeada "Viver Com Amor" e o reggae "Vale Mais" (esta em dueto com Saulo Fernandes) são alguns dos melhores momentos de "Pode Entrar".

Três músicas de Carlinhos Brown fecham o pacote do CD e DVD. A agitada e oriental "Cadê Dalila" conta com a típica assinatura de Brown. A balada-rock "Quanto Ao Tempo" (dueto de Ivete com Brown) ficou bem longe da boa gravação dos Paralamas do Sucesso, em seu último álbum "Brasil Afora". Para finalizar, "Muito Obrigado Axé", com a voz de Maria Bethânia, ficou bonita, com o acompanhamento de um quarteto de cordas. Essa gravação até que soou mais natural. Pelo visto, no final das contas, Bethânia foi a que mais pareceu se divertir na gravação.

Cotação: **

Em seguida, a canção "Na Base do Beijo", que faz parte do CD e do DVD:



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD e DVD: "Flight 666" (Iron Maiden) - Iron Maiden de perto

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 18/06/2009 11:34

CD e DVD:

"O Poderoso Chefão", "Forrest Gump", "De Volta Para o Futuro", "Pulp Fiction", "Guerra Nas Estrelas"... Que nada! O fã do Iron Maiden já tem o seu filme predileto. E o nome dele é "Flight 666", um documentário que mostra a intimidade da banda durante a "Somewhere Back In Time Tour", que passou duas vezes pelo Brasil.

E para a alegria dos fãs brasileiros, o país está bem representado no DVD, com imagens dos shows em São Paulo e Curitiba, durante a primeira perna (que não passou pelo Rio de Janeiro) da turnê. Um dos personagens mais interessantes pescados nesse documentário também é brasileiro. Trata-se de um pastor que tem 162 tatuagens do Iron Maiden e se diz o fã número 1 da banda. De quebra, o seu filho se chama Steve Harris. O filme também mostra uma pelada dos músicos do Iron com participação dos colegas do Sepultura.

Mas não é só o Brasil que está bem representado na turnê. Apesar de o documentário, em alguns momentos, possuir um tom bajulador, com frases "de efeito" como "essa é a turnê mais ambiciosa da história do rock", o roteiro é interessante, mostrando as andanças de Bruce Dickinson & Cia pelos quatro cantos do planeta. "Flight 666" passa pela Índia, Austrália, Japão, Estados Unidos, México, Costa Rica (que a banda descreve como "uma tribo no meio da selva"), Colômbia, Brasil, Argentina, Chile e Porto Rico.

O roteiro é linear, de modo que o filme começa no momento exato em que o avião decola pela primeira vez para a turnê que terá 23 shows em apenas 45 dias. O primeiro destino é a Índia, um país onde os integrantes são recebidos como verdadeiros rockstars. Aliás, vale ressaltar aqui uma interessante observação de um dos documentaristas: "Embora lute para conseguir ser tocada nas rádios britânicas, a banda enche estádios no mundo todo". Brasileiros e indianos sabem muito bem disso.

O mérito de "Flight 666" é mostrar a banda em sua total intimidade. Ensaios, coletivas de imprensa, as piadas nas vans após os shows, as brincadeira nos aviões... Os problemas de uma longa turnê também são enfrentados no documentário, como a difícil adaptação de fuso-horário, ou uma infecção que o baixista Steve Harris contraiu na Índia, e ainda uma singela bolinha de golfe que atingiu o braço do baterista Nicko McBrain, e quase colocou a turnê em risco.

Aliás, os momentos de folga também são mostrados. Se Adrian Smith gosta de relaxar jogando tênis, Nicko e Dave Murray são adeptos do golfe. Outros momentos curiosos também vêm à tona, como a passagem da banda pelo Japão, país em que existem "26 pessoas para pendurar uma cortina preta e 94 para colocar um carpete", conforme diz (ou brinca) um dos integrantes da banda. "O Japão é ótimo", finaliza com razão.

Além do documentário, o lançamento em DVD de "Flight 666" traz um disco extra que deveria vir em todos os outros documentários de música. Nele, o fã pode encontrar o show completo da "Somewhere Back In Time", sem cortes. Ou seja, as músicas que estão cortadas no documentário aparecem inteirinhas no disco bônus, com som DTS e imagens sensacionais. No repertório da apresentação (que tem cada música filmada em uma cidade diferente, sendo que "Heaven Can Wait" foi em São Paulo, e "The Clairvoyant", em Curitiba), o Iron Maiden reviveu a "World Slavery Tour", que aconteceu em 1984/85, com canções como "Aces High", "Revelations" e "The Number Of The Beast", além de algumas mais recentes (mas nem tanto assim), como "Moonchild", "Wasted Years" e "Fear Of The Dark".

Cotação: ****1/2

Abaixo, a música "Run To The Hills", do DVD "Flight 666":



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



DVD: "Dentro do Mar Tem Rio" (Maria Bethânia) - Antes tarde do que nunca

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 16/06/2009 11:25

DVD:

Ultimamente, Maria Bethânia é uma das artistas que mais lança DVD com registro de seus shows. "Brasileirinho", "Omara Portuondo e Maria Bethânia", "Tempo Tempo Tempo Tempo", "Maricotinha Ao Vivo"... Sorte dos fãs, que têm a oportunidade de rever e guardar alguns dos espetáculos mais importantes da Música Popular Brasileira. "Dentro do Mar Tem Rio" não é o show mais recente da cantora baiana, mas, certamente, é um dos mais esperados em DVD. Nesse espetáculo, que estreou no final de 2006, Bethânia divulgou os discos em que cantava as águas, mais especificamente o mar ("Mar de Sophia") e o rio ("Pirata").

O CD duplo ao vivo com a íntegra de uma apresentação registrada no Canecão, no Rio de Janeiro, já havia sido lançado em 2007. O DVD, por sua vez, correu o risco de nunca ver a luz do dia. A história de sua gravação é confusa. Os shows que aconteceram no Canecão, em agosto de 2007, foram filmados, mas Bethânia não teria gostado do resultado. Em dezembro, a cantora repetiu a gravação no Citibank Hall, em São Paulo. E é a gravação dessa apresentação que está presente no DVD, na íntegra, e sem extras.

O DVD traz todas as músicas e poesias recitadas no show, divididas em 36 faixas. Quem é fã de Maria Bethânia já está careca de saber o quanto "Dentro do Mar Tem Rio" é bom. Fica difícil destacar os melhores momentos em um roteiro que beira à perfeição. Da abertura com "Canto de Nanã" (Dorival Caymmi) ao encerramento que mistura um velho samba da Portela ("Das Maravilhas do Mar Fez-se o Esplendor de Uma Noite") a frevos de Caetano Veloso e marchinhas de carnaval, Bethânia passeia pelas suas águas ("O Marujo Português", "Eu Que Não Sei Quase Nada do Mar"), religião ("Francisco, Francisco", "Meu Divino São José"), a seca do Nordeste ("Asa Branca"), e, como não poderia faltar, velhos sucessos românticos, como "Gostoso Demais" e "Sábado em Copacabana". Na época da turnê, esta última canção caiu na boca do povo por conta da abertura da novela "Paraíso Tropical", de Gilberto Braga.

Para costurar o roteiro, Maria Bethânia incluiu diversos trechos de poesias, passando por Sophia de Mello Breyner, Guimarães Rosa e, claro, Alvaro de Campos, responsável pelo ponto alto do espetáculo com o atual "Ultimatum" ("E tu Brasil? / Blague de Pedro Álvares Cabral / Que nem te queria descobrir / ... / Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores / Para quererem deixar de trabalhar").

Quanto ao veto inicial de Maria Bethânia em lançar o DVD, após a primeira olhada, ele se torna, de certa forma, incompreensível. A direção de Andrucha Waddington é correta, e as imagens traduzem bem o que foi o show "Dentro do Mar Tem Rio". Mas agora, cá para nós, mesmo que realmente houvesse problemas de direção de imagens, isso não seria suficiente para ofuscar a beleza do espetáculo.

E a pergunta que não quer calar: será que Bethânia não se animaria a fazer mais alguns shows de divulgação do DVD? O seu público iria adorar relembrar o belo espetáculo "Dentro do Mar Tem Rio"... E seria ótimo também se Bethânia lançasse em DVD o show "Imitação da Vida", de 1995. O espetáculo foi gravado pela Rede Bandeirantes, e a Biscoito Fino marcaria um golaço se colocasse esse registro nas lojas. De preferência, na íntegra.

Cotação: *****

Em seguida, a canção "Sábado em Copacabana", extraída do DVD:



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD: "Medium, Rare And Remastered" (U2) - Sobras aquém de Bono e companhia

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 13/06/2009 11:10

CD:

Costumam dizer que se sobra de estúdio fosse bom, não seria sobra. Na maioria das vezes, deve-se dar razão a quem diz essa frase, apesar de sempre haver uma exceção ou outra por aí. "Medium, Rare & Remastered", infelizmente, não chega a ser uma exceção - apesar do quê, sobras de estúdio de uma das principais bandas do mundo nunca podem ser consideradas dispensáveis.

O CD duplo não está sendo vendido nas lojas convencionais. Ele pode ser baixado facilmente em qualquer site de troca de arquivos pela internet, mas a cópia física somente pode ser adquirida com a compra da assinatura anual do site oficial do U2, que dá direito ao acesso a material exclusivo da banda (vídeos principalmente), bem como à prioridade na hora do perrengue de comprar ingressos para os shows na Europa e nos Estados Unidos. Preço: 50 dólares. E a quem interessar possa, o CD demora de 15 a 20 dias para chegar ao Brasil, e não são cobradas taxas alfandegárias adicionais.

Mas a verdade é que o tal CD de sobras está bem longe de dar uma ideia do U2 em seus melhores momentos. De um modo geral, as 20 faixas do CD duplo soam apenas razoáveis, com poucos momentos brilhantes que fizeram o nome da banda irlandesa.

O primeiro disco é composto basicamente por sobras de estúdio de "All That You Can't Leave Behind" e "How To Dismantle An Atomic Bomb". Do primeiro, destaca-se "Love You Like Mad", com um belo trabalho de guitarra de The Edge, e que poderia estar presente no álbum original - mesmo que fosse a sua pior faixa. Já de "How To Dismantle...", além da balada (no estilo épico costumeiro dos irlandeses) "Smile", vale a pena dar uma escutada nas versões alternativas de "All Because Of You" e "Sometimes You Can't Make It On Your Own". Se a primeira soa mais crua, a segunda ganhou uma guitarra mais forte de The Edge. Mas, no final das contas, ainda bem que essa versão foi dispensada do álbum original lançado em 2004.

Curiosas também as faixas "Beautiful Ghost / Introduction To Songs Of Experience" e "Jesus Christ", sobras dos álbuns "The Joshua Tree" e "Rattle And Hum", respectivamente. A segunda, uma espécie de "rockabilly-gospel" é a faixa mais interessante de "Medium, Rare & Remastered".

O segundo CD, por sua vez, traz faixas menos raras. As quatro primeiras ("Saturday Night", "Trash, Trampoline And The Party Girl", "Angels Too Tied To The Ground" e "Wave Of Sorrow"), inclusive, já fazem parte das recentes edições comemorativas dos discos "Boy", "October", "War" e "The Joshua Tree". As demais foram retiradas de lados B de singles dos discos "All That You Can't Leave Behind" e "How To Dismantle An Atomic Bomb", como "Always", "Fast Cars" e "Neon Lights", todas mais do que conhecidas pelos fãs da banda irlandesa.

Enfim, "Medium, Rare & Remastered" não chega a ser um grande álbum de sobras, mas vale como curiosidade. Ainda mais se levarmos em consideração o fato de que o disco duplo não é vendido nas lojas de CD. Ou seja, quem garantir o seu agora, daqui a alguns anos, terá uma raridade na prateleira. Se é que quem escuta música hoje em dia ainda se liga nessas coisas...


Cotação: ***

Abaixo, a canção "Smile", uma das sobras de "How To Dismantle An Atomic Bomb":


 
***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD: "Drês" (Nando Reis) - Romântico e roqueiro

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 11/06/2009 11:20

CD:

O título do CD é estranho. E os fãs também poderão estranhar, em um primeiro momento, as canções de "Drês", novo álbum de Nando Reis e Os Infernais. Não, não se preocupe. O ex-Titã não mudou a sua sonoridade drasticamente. Pelo contrário: a essência continua a mesma. As letras, na maioria das vezes, seguem o estilo romântico, e a maior parte das músicas está calcada no violão de Nando Reis. Então, por que pode haver estranhamento? Simples, "Drês" é o álbum mais pesado da carreira de Nando. Isso não é uma crítica, nem um elogio. Apenas a constatação de que há diferenças entre esse "Drês" e "A Letra A" (2003) e "Sim e Não" (2006).

Levando-se em conta essa mudança, Os Infernais podem mostrar que estão mais infernais do que nunca. A boa banda formada por Carlos Pontual (guitarra), Alex Veley (teclados), Felipe Cambraia (baixo) e Diogo Gameiro (bateria) mantém o mesmo nível dos álbuns anteriores, provando que merece ter o seu nome estampado na capa do álbum. Se no início de sua carreira solo - principalmente quando ainda fazia parte dos Titãs - Nando Reis ainda transitava em diferentes estilos musicais, hoje é possível dizer que ele tem uma estética musical própria, ainda que a sonoridade possa mudar um pouco de disco para disco.

A pegada mais roqueira de "Drês" já pode ser encontrada na faixa de abertura "Hi, Dri!" - uma das três canções escritas por Nando para a sua ex-namorada, Adriana. Mas, ao mesmo tempo em que o rock come mais solto, a veia romântica também é latente: "Enquanto houver luz os meus olhos / Não vão parar de procurar os olhos seus". A faixa-título também é bem roqueira, com uma sonoridade com ênfase nas guitarras, assim como "Mosaico Abstrato", que possui uma das melhores letras de Nando Reis.

E como os filhos nunca podem ser esquecidos, depois de Sebastião e Zoe, agora é a vez de Sophia ser homenageada na confessional "Só Pra So" ("Me assusta tão igual que somos / Você costura a minha sombra / Eu só queria nessa vida / Aprender, saber te amar"). Mas a maior presença nesse "Drês" é a de Adriana, e que serve como referência em "Driamante" (um country-rock cheio de sopros, com a assinatura característica de Nando Reis, no estilo do álbum "A Letra A"), "Drês" e a já mencionada "Hi, Dri!". A família também comparece em "Conta", que Nando escreveu em homenagem a sua falecida mãe vítima de câncer ("Nesse dia, o dia em que eu perdi minha mãe / Eu me dei conta que eu estava só por minha conta / Mesmo tendo o meu pai, que eu amo / A minha conta não se fecha"), assim como já acontecera em "Meu Aniversário", faixa presente em seu álbum de estreia, "12 de janeiro" (1995).

A música de trabalho do disco, "Ainda Não Passou" - que conta com metais e cordas, em um bonito arranjo de Lincoln Olivetti - ainda que não fale (pelo menos diretamente) de algum familiar, faz menção a uma dolorosa separação amorosa, naquele melhor estilo que Nando já havia decupado em "Mesmo Sozinho" ou "N". O folk-country zeppeliano "Pra Você Guardei o Amor", que conta com a participação especial da cantora Ana Cañas, é outra canção que tem tudo para ser mais um daqueles sucessos arrasa-quarteirão de Nando.

E apesar do tom roqueiro de "Drês" (embora ao final da audição do CD, tal constatação nem seja tão evidente assim), o álbum é encerrado com "Baby, Eu Queria", uma das baladas mais bonitas e pungentes de Nando Reis: "Não quero deixar / Que a tristeza / Inunde o meu coração / Prefiro chorar / Com a certeza / De que essa paixão / Me fez / Um homem melhor / Depois de você". Pois é... Pensando bem, e ainda levando-se em conta o fato de Nando ter sido baixista de uma das maiores bandas de rock do Brasil, "Drês" é apenas Nando Reis em sua essência. E isso já é muito bom.

Cotação: ***1/2


Abaixo um vídeo amador com a música "Ainda Não Passou":



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD e DVD: "Não Se Apague Esta Noite" (Flavio Venturini) - Um bom recomeço

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 09/06/2009 11:19

CD e DVD:

Flavio Venturini escreveu no texto de apresentação do CD/DVD "Não Se Apague Esta Noite" que vive um "recomeço". Após a doença nos ossos que o deixou praticamente parado no ano passado, Venturini ressurge, novo em folha, com um projeto bem diferente para os padrões da indústria fonográfica brasileira. De fato, o projeto pode até ter o seu lado mais retrospectivo, mas não há mofo. Longe disso.

"Não Se Apague Esta Noite" está recheado de canções inéditas, bem como de músicas antigas, muitas delas praticamente esquecidas do repertório de Flavio Venturini. E, para quem já está imaginando um projeto ao vivo, gravado em cima de um palco, com o público berrando pelos sucessos do 14 Bis, engana-se. Nesse novo projeto, Venturini se dividiu entre o palco e a sua própria casa. Mais mineiro, impossível.

No novo disco, Flavio Venturini olha mais para frente do que para trás. Sim, há canções antigas - inclusive uma d'O Terço -, mas nada que soe muito óbvio. Até mesmo a canção pescada do repertório do 14 Bis, "Romance", não fez sucesso na época do seu lançamento, bem como foi gravada após a saída de Venturini da banda. Uma ótima sacada, ainda mais levando-se em conta que o 14 Bis vai, de fato, voltar, no ano que vem .

Além de cantar músicas inéditas ou obscuras, Venturini também se mostrou liberal na escolha dos músicos da sua banda, os jovens (e bons) Arthur Rezende (bateria e voz), Ricardo Fiúza (teclados), Aloísio Horta (baixo) e Kadu Viana (guitarra, violão e voz). E os convidados especiais também parecem ter sido escolhidos a dedo, principalmente as três cantoras, que fugiram um pouco da obviedade. Marina Machado mostrou que é uma das melhores cantoras da atualidade, ao acompanhar Venturini na difícil "Noites Com Sol". Mart'nália deu frescor a "Pierrot", e Luiza Possi não comprometeu "Beija-Flor", embora seja a mais fraca das convidadas. De resto, Toninho Horta, Cláudio Venturini, o pianista André Mehmari e, claro, Milton Nascimento, que divide o microfone com o anfitrião em "Música".

A turma mineira do Clube da Esquina também é homenageada logo na faixa-título do projeto. Pescada do emblemático "disco do tênis", de Lô Borges, "Não Se Apague Esta Noite" ganhou uma versão mais pop, no melhor estilo de Flavio Venturini. Ficou bonito. "Criaturas da Noite", canção da época d'O Terço, escrita em parceria com Luiz Carlos Sá, é outra que foi repaginada, em uma versão piano e voz. O início da carreira solo do músico mineiro também é relembrado com a canção "No Trem do Amor", gravada originalmente em "Andarilho de Luz", segundo disco solo de Venturini.

Mas, como já dito, "Não Se Apague Esta Noite" não chega a ser um projeto somente retrospectivo. Há canções inéditas também, e a primeira delas, a otimista "Mantra da Criação (parceria com Ronaldo Bastos), é uma das melhores, ao misturar referências da sonoridade de O Terço com algo mais atual. "Recomeçar", uma bela homenagem a Paul McCartney, além de ser um dos destaques do álbum, funciona como chave de leitura desse novo projeto do compositor mineiro.

E que a noite de Flavio Venturini ainda fique acesa por um bom tempo. Pelo menos o tal recomeço já foi um ótimo primeiro passo.

Cotação: ***1/2

Abaixo, a música "O Melhor do Amor":



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim

 



CD e DVD: "Multishow Ao Vivo" (Rita Lee) - Um "Picnic" dividido com o público

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 02/06/2009 11:25

CD e DVD:

O último álbum de inéditas de Rita Lee, "Balacobaco", saiu em 2003. Depois dele veio o "MTV Ao Vivo" (2004), no qual a cantora paulista repassou a sua carreira com a presença de alguns convidados. Agora, após um intervalo de cinco anos, eis que surge Rita Lee novamente com um álbum... ao vivo! Algum problema? Não. Primeiro motivo: "Picnic" é o seu melhor show em muitos e muitos anos. Segundo motivo: Rita Lee já está naquele patamar que somente o fato de subir a um palco para cantar todas aquelas canções que todos sabemos de cor, já deve ser comemorado. Lógico que se ainda sair um "Balacobaco" da vida, melhor. Mas talvez isso não seja o mais importante.

E "Multishow Ao Vivo" traz muitos desses sucessos que todos sabemos de cor. De "Flagra" até o encerramento com "Lança-Perfume", Rita Lee passeia pela sua carreira, revezando velhos sucessos, inéditas e canções que estavam praticamente esquecidas. A ressurreição de "Cor de Rosa Choque", por exemplo, talvez seja a maior sacada do repertório. E a sua junção à pesadona "Todas as Mulheres do Mundo" é a amostra de inteligência para a construção de um roteiro de show - algo que, aliás, falta a muitos artistas.

O mais bacana desse "Multishow Ao Vivo" é o frescor que é conferido às canções antigas. Se você é daqueles que não agüenta mais ouvir "Flagra" ou "Saúde", não se preocupe. Se as novas versões não fogem muito das originais, elas são o suficiente para trazer ao ouvinte novas experiências. O arranjo mais roqueiro de "Saúde" vai deixar um monte de gente feliz, pode ter certeza. O arranjo mais "soft" de "Ovelha Negra" também foi um acerto. Até mesmo porque a ovelha negra não deve ser mais tão negra assim... Pena que na edição de imagens do DVD, pouco apareça os telões, que mostravam as capas de todos os discos lançados por Rita Lee em sua carreira durante "Ovelha Negra". No show, esse momento é especialmente arrepiante.

Além dos sucessos que não poderiam deixar de estar presentes, "Multishow Ao Vivo" traz algumas surpresas bem interessantes. A versão de "O Bode e a Cabra", que já fez parte da turnê "Yê Yê Yê de Bamba" (2002), foi finalmente liberada por Yoko Ono (ou Yokokô, como Rita Lee, carinhosamente, se refere a ela no DVD) e está presente no álbum. A canção, que transporta "I Want To Hold Your Hand" a uma festa junina é um dos pontos altos do álbum. "Vingativa", do repertório das Frenéticas, é outra que funciona bem, principalmente no DVD, com as hilárias imagens de Rita Lee ao lado de sua dançarinas/vocalistas. Já o medley tropicalista, que junta "Baby", "Panis Et Circenses", "Domingo no Parque", "Bat Macumba" e "Alegria Alegria", se não preenche a falta de outras canções dos Mutantes no projeto, pelo menos serve para lembrar que Rita Lee foi uma das principais expoentes do movimento tropicalista. E isso não é pouca coisa...

Já as inéditas "Se Manca" e "Insônia" soam apenas protocolares dentro de um projeto essencialmente retrospectivo. A primeira é um rock interessante, mas que não acrescenta muita coisa a obra de Rita Lee. Já a "rumba-psicodélica" "Insônia" funciona melhor. "Tão", que já havia sido lançada no Box de DVDs "Biograffiti" (2007), desce melhor, com a sua letra simples e divertida.

Mas certamente quem assistiu o show "Picnic" não deve estar muito preocupado com músicas inéditas. Os sucessos de Rita Lee acabam falando mais alto. Tão alto que geraram, repita-se, o segundo trabalho ao vivo da cantora. Mas se agora vier mais um "Balacobaco" da vida, pode ter certeza que ninguém vai reclamar.

Cotação: ****

Em seguida, o vídeo de "Vingativa", extraído do DVD:



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD e DVD: "Ivan Lins e The Metropole Orchestra" (Ivan Lins) - Um "ao vivo" diferente

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 30/05/2009 12:25

CD e DVD:

"Ih, lá vem o Ivan Lins novamente com um disco ao vivo!" Se você pensou dessa forma quando viu o título do novo disco do compositor carioca, você acertou. Aliás, acertou e errou. "Ivan Lins & The Metropole Orchestra" é, de fato, um álbum ao vivo. Mas um trabalho ao vivo diferente dos outros. Para começar, o disco foi gravado em Amsterdã - até aí, nada demais -, e ainda conta com a participação do compositor e arranjador Vince Mendoza (que já trabalhou com Joni Mitchell e Bjork) conduzindo a orquestra. Nada mal...

E também não pense você que Ivan Lins aproveitou a oportunidade para fazer um álbum no estilo "grandes sucessos ao vivo". De forma nenhuma. De grande sucesso mesmo, só "Começar de Novo". O resto são dez composições (todas de Ivan, com exceção de "O Fado", de Paulo de Carvalho e Dulce Pontes) como "Arlequim Desconhecido", "Daquilo Que Eu Sei" e "A Gente Merece Ser Feliz". Espécies de lados-B, mas nem por isso piores do que os seus sucessos.

No encarte do CD, Ivan Lins explicou como nasceu esse seu novo - na verdade, nem tão novo assim - projeto. "Numa conversa por telefone, o Vince [Mendoza] mencionou que fazia, anualmente, projetos com uma excepcional orquestra holandesa, de quase 70 figuras, chamada Metropole Orchestra. Então contei ao Vince que eu vinha, todo ano, recebendo convidados dessa orquestra para um concerto juntos e que nunca conseguíamos acertar uma data. O Vince disse que trataria do assunto. E assim foi."

Fundada em 1945, a Metropole Orchestra é regida por Mendoza, que já se apresentou ao lado de artistas como Charles Aznavour, Shirley Bassey, Stan Getz, Pat Metheny e Dionne Warwick. E a parceria de Ivan com Mendoza começou em 2006, quando se apresentaram juntos pela primeira vez. Dois anos depois, a dose foi repetida em Amsterdã. E é o registro dessa segunda apresentação que aparece em "Ivan Lins & The Metropole Orchestra", lançado na semana passada pela Biscoito Fino.

Outros convidados também fizeram parte do projeto, como o cantor português Paulo de Carvalho, a cantora holandesa Trijntje Oosterhuis e o guitarrista Leonardo Amuedo, que já tocava na banda de Ivan Lins. Paulo de Carvalho divide os vocais com Ivan em "O Fado", que ganha contornos jazzísticos. Já Trijntje Oosterhuis manda muito bem em "Let Us Be Always" e "Art Of Survival". O saxofonista italiano Stefano di Battista participa de "Lua Soberana", a única faixa do álbum que foi gravada na primeira apresentação, ainda em 2006 - o saxofonista não participou do show de 2008.

Esse "Ivan Lins & The Metropole Orchestra" pode, de certa forma, ser comparado ao álbum "Milton Nascimento & Belmondo" , no qual Milton, ao lado dos irmãos franceses Belmondo, criou novos arranjos para alguns de seus sucessos. Ambos os discos soam como uma tentativa dos artistas se adequarem de forma inteligente ao mercado fonográfico brasileiro, tão ávido de discos ao vivo recheados de sucessos. Os clássicos podem (e devem) sempre ser revisitados. E as coisas ficam bem mais interessantes quando eles o são da forma que fizeram Milton Nascimento e Ivan Lins.

Cotação: ***1/2

Em seguida, um vídeo amador de "Arlequim Desconhecido", filmado no show em Amsterdã:



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD e DVD: "Live From Madison Square Garden" (Eric Clapton And Steve Winwood) - Melhor do que o original

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 28/05/2009 10:38

CD e DVD:

Se você ainda tem o prosaico costume de comprar um CD, por favor abra o encarte de "Live From Madison Square", álbum que reúne Eric Clapton e Steve Winwood. A foto dos dois músicos e de mais três integrantes da banda abraçados logo após o show, na página dupla central do encarte, pode funcionar como um resumo do CD e do DVD. Os sorrisos estampados nos rostos de Clapton e de Winwood traduzem exatamente o que foram as três apresentações ora imortalizadas em DVD e CD duplos.

Os dois músicos eram integrantes da banda Blind Faith, fundada em 1969, e que durou apenas um álbum, lançado no mesmo ano. "Blind Faith", o disco, chegou a alcançar o topo da parada de discos da Billboard por duas semanas. O disco continha faixas que hoje podem ser chamadas de clássicas, como "Can't Find My Way Home", "Presence Of the Lord" e "Hard To Cry Today".

Logicamente (quase) todas essas canções fizeram parte dos shows, que aconteceram em fevereiro do ano passado - faltou "Sea Of Joy"! Até mesmo porque foram os primeiros shows "completos" de Clapton e Winwood juntos desde a dissolução do Blind Faith. Tirando essas apresentações no Madison Square Garden, a dupla havia se juntado apenas para rápidas canjas em shows beneficentes para o projeto Crossroads, de Eric Clapton.

Acompanhados por Willie Weeks (baixo), Chris Stainton (teclados) e Ian Thomas (bateria), Clapton (guitarra) e Winwood (teclados e guitarra) desfiam algumas canções do álbum do Blind Faith, bem como outras músicas de artistas como J. J. Cale, Jimi Hendrix, Buddy Miles, Otis Rush e Robert Johnson. A dupla também apresenta músicas de seus outros projetos, como o Traffic, de Winwood, que gerou "Glad". E mesmo correndo o risco de ser apedrejado pelos fãs, arrisco dizer que o resultado final desse "Live From Madison Square Garden" é melhor do que o disco do Blind Faith. O som está mais bem gravado e, claro, nada como 40 anos a mais de experiência para as coisas ficarem ainda melhores.

Um dos grandes momentos do CD é a dobradinha "Little Wing" e "Voodoo Chile", ambas de Jimi Hendrix. Tudo bem, a versão de "Little Wing", apesar de belíssima, não chega a ser tão arrasadora quanto a de Stevie Ray Vaughan ou a do próprio Hendrix. Mas chega ser emocionante o dueto de Clapton com Winwood. Já em "Voodoo Chile", as coisas já mudam de figura. A longa versão de mais de 16 minutos de duração certamente deixaria Jimi Hendrix satisfeito. Aliás, a título de curiosidade, Steve Winwood tocou o órgão Hammond B3 na versão original de estúdio, gravada por Jimi Hendrix no álbum "Electric Ladyland".

E por falar em Jimi Hendrix, vale destacar a canção "Them Changes", escrita pelo baterista Buddy Miles, que fazia parte da Band Of Gypsys, de Hendrix. O músico morreu no dia do segundo show de Clapton e Winwood (26 de fevereiro de 2008), e a música foi executada em sua homenagem. (Na verdade, a canção já fazia parte do repertório original do show. Reza a lenda que Miles, na véspera de morrer, teria ouvido a canção através de um telefone celular, durante a primeira apresentação de Clapton e Winwood.)

Citar maiores destaques aqui seria mais do mesmo. "Had To Cry Today" (excelente performance!), "Presence Of The Lord" (especialmente bonita), "Double Trouble" (o grande blues do álbum), "After Midnight" (bem mais interessante do que a versão original de estúdio gravada por Clapton), "Georgia On My Mind" (aquela mesma, de Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell), "Can't Find My Way Home", "Cocaine"... Tudo com grandes solos de guitarra de Clapton (que também está cantando muito bem), os teclados Hammond de Winwood... É, não tinha mesmo como haver erro...

Com relação ao DVD, vale destacar a sua ótima edição de imagens. Nada de cortes frenéticos e imagens de casais dançando na platéia. Acertadamente, o diretor de imagens privilegiou os músicos e seus instrumentos. Nada além disso. E nem precisava. A qualidade de imagem também é muito boa, assim como o som estéreo ou DTS. Além do show, o DVD (também duplo) traz entrevistas, bastidores e três músicas extras que não estão no CD, incluindo uma boa versão de sete minutos de "Crossroads".

Cotação: *****


Em seguida, o vídeo "Can't Find My Way Home", extraído do DVD:



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim



CD e DVD: "21st Century Breakdown" (Green Day) - Ópera-rock?

Luiz Felipe Carneiro | Resenhas | 26/05/2009 12:01

CD e DVD:

O Green Day gostou mesmo dessa história de ópera-rock. Depois do lançamento de "American Idiot" (2004), o trio californiano ressurge com "21st Century Breakdown" que, aliás, assim como seu antecessor de estúdio, estreou na primeira posição da parada da Billboard. Com quase 70 minutos de duração, o novo trabalho da banda, que teve a produção de Butch Vig, é dividido em três atos: "Heroes and Cons", "Charlatans and Saints" e "Horseshoes and Handgrenades". O álbum conta a história do casal jovem Christian e Gloria e suas esperanças com relação ao novo século.

Lógico que há muitas críticas ao governo de George W. Bush, em canções cheias de referências ao descrédito das pessoas com relação aos políticos. E nem mesmo Obama é poupado. Billie Joe Armstrong, em entrevista a Rolling Stone, no início desse ano, disse que "muitas pessoas nasceram em um período infeliz, a era George W Bush. Agora há um otimismo com o Obama, mas tomem cuidado. Não vejam esse cara como uma resposta às suas orações".

Essa crítica aos políticos é um sinal de que o Green Day cresceu. Também pudera. Se o fã quiser um novo "Dookie", melhor procurar uma nova banda. Passados 15 anos, Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool resolveram fazer trabalhos mais complexos - e nem por isso melhores - e conceituais. Gravado entre 2008 e 2009, na Califórnia, o oitavo álbum de estúdio da banda chega a ser mais denso (e menos divertido) do que "American Idiot" (2004). A verdade é que o tempo passou, o que não impede de que o fã ainda encontre algumas reminiscências dos anos 90, com toda aquela estética sonora adolescente que fez a fama da banda.

Mas, ao mesmo tempo em que o fã pode encontrar algo como a enérgica "Horseshoes And Handgrenades" (que poderia estar em qualquer álbum dos anos 90 do Green Day), "21st Century Breakdown" traz baladas como "Last Night On Earth" (a banda deve ter ouvido muito Beatles ultimamente) ou canções com letras extremamente pessimistas como a faixa-título, que chega a decretar que "my generation is zero".

Não que uma canção seja melhor do que a outra. Mas o que acontece é que em projetos desse tipo - no estilo ópera-rock - o resultado, em alguns momentos, soa um pouco instável. Se até mesmo "Tommy" (do The Who), o pai das óperas-rock, tem lá os seus deslizes, imagina se "21st Century Breakdown" também não teria. Preencher 70 minutos de música em 18 faixas não é para qualquer um. E para o Green Day, as coisas ficam ainda mais difíceis, tendo em vista que a banda cresceu tocando canções de punk rock com três minutos de duração.

Por mais que o baixista Mike Dirnt tenha falado algumas vezes, que "as canções dialogam entre si como 'Born To Run' [de Bruce Springsteen]", pode-se dizer que houve um certo exagero do músico. "21st Century Breakdown" pode ser uma coleção de canções - boas (como "Viva La Gloria!"), médias (como "East Jesus Nowhere", que, no seu início, chega a lembrar de longe, alguma coisa do White Stripes) e ruins (como "Know Your Enemy", que mais parece aquelas músicas de comédias americanas cheias de "nerds" que ficam babando pela loiraça de biquíni amarelo na praia) -, mas nada além disso.

Talvez a crítica mais sensata (e insensata ao mesmo tempo) que foi publicada até agora acerca de "21st Century Breakdown" seja a do jornal britânico The Times. O jornal classificou o álbum como uma "obra-prima" pelo fato de ter "conseguido atingir a sua ambição". De fato, o Green Day atingiu a sua ambição de construir uma ópera-rock (assim, como já houvera feito em "American Idiot"). Por outro lado, atingir uma ambição não significa que o resultado seja bom. E "21st Century Breakdown", apesar de ter os seus bons momentos, está muito longe de ser uma obra-prima.

Cotação: **1/2


Abaixo, uma prévia do álbum, com um trechinho de cada faixa:



***** Ótimo
**** Muito Bom
*** Bom
** Regular
* Ruim


Pelo Sabor do Gesto (Zélia Duncan) Soul Live (Seal) Sacos Plásticos (Titãs) Big Whiskey And The Groogrux King (Dave Matthews Band) Rock 'n' Roll (Erasmo Carlos) Pode Entrar (Ivete Sangalo) Flight 666(Iron Maiden) Dentro do Mar Tem Rio (Maria Bethânia) Medium, Rare And Remastered (U2) Drês (Nando Reis) Não Se Apague Esta Noite(Flavio Venturini) Multishow Ao Vivo (Rita Lee) Ivan Lins e The Metropole Orchestra (Ivan Lins) Live From Madison Square Garden (Eric Clapton And Steve Winwood) 21st Century Breakdown (Green Day) It's a Blitz (Yeah Yeah Yeahs) Roadsinger (Yusuf) Multishow Ao Vivo (Vanessa da Mata) Together Through Life (Bob Dylan) Sounds Of The Universe (Depeche Mode) Donatural (João Donato) Milton Nascimento e Belmondo (Milton Nascimento) Live 1969 (Simon And Garfunkel) Juntos (Legião Urbana e Os Paralamas do Sucesso) Fork In The Road (Neil Young) War Child Heroes (Vários Artistas) MTV Ao Vivo (Arlindo Cruz) 50 (Marvin Gaye) Grace / Wastelands (Peter Doherty) Zii e Zie (Caetano Veloso) Ten - Special Edition (Pearl Jam) Glasvegas (Glasvegas) Sugar Mountain - Live At Canterbury House 1968 (Neil Young) The Paris Concert (Living Colour) Yes (Pet Shop Boys) Invaders Must Die (The Prodigy) Três Meninas do Brasil (Jussara Silveira, Teresa Cristina, Rita Ribeiro) Unplugged... And Seated (Rod Stewart) Years Of Refusal (Morrissey) Live At The Sydney Opera House (Burt Bacharach) Samba Social Clube 2 (Vários Artistas) Tonight(Franz Ferdinand) 4:13 Dream (The Cure) A História dos Novos Baianos e Outros Versos (Moraes Moreira No Line On The Horizon (U2) Working On a Dream (Bruce Springsteen) Ciranda Mourisca (Alceu Valença) Little Joy (Little Joy) Live Parc Des Princes (Mika) Live At The Matrix 1967 (The Doors) Live At Wembley Stadium (Foo Fighters) That Lucky Old Sun (Brian Wilson) Idolize Yorself - The Very Best Of (Billy Idol) O Pequeno Burguês (Martinho da Vila) Ao Vivo (Celso Fonseca) Live At The Royal Albert Hall (Erasure) Performing This Week... (Jeff Beck) Déjà Vu Live (Crosby, Stills, Nash And Young) Tribute to Bobby (Mick Hucknall) The Motown Years (Michael Jackson And Jackson 5) Covers (James Taylor) Fleet Foxes (Fleet Foxes) The Sound Of The Smiths (The Smiths) 40 Anos de Música (Toquinho e MPB4) Dear Science (TV On The Radio) Nosso (Paula Toller) Soul (Seal) É Tempo de Amar (Zé Renato) The Seldom Seen Kid (Elbow) Os Bossa Nova (Carlos Lyra, Roberto Menescal, Marcos Valle e João Donato) At The Apollo (Arctic Monkeys) Tá Tudo Mudando (Zé Ramalho) Resenhas - 2008 808s And Heartbreak (Kanye West) Prospekt's March (Coldplay) The Red Piano (Elton John) O Coração do Homem-Bomba (Volume 2) (Zeca Baleiro) Natal Bem Brasileiro (Vários Artistas) Snakes And Arrows Live (Rush) A Arte do Barulho (Marcelo D2) Intimacy (Bloc Party) Circus (Britney Spears) Mallu Magalhães (Mallu Magalhães) Only By The Night (Kings Of Leon) Samba Social Clube (Vários Artistas) Perfect Symmetry (Keane) Infinito Ao Meu Redor (Marisa Monte) La Plata (Jota Quest) Day And Age (The Killers) Chinese Democracy (Guns n' Roses) Tell Tale Signs - Rare And Unreleased 1989-2006 (Bob Dylan) Off With Their Heads (Kaiser Chiefs) Intimidade (Lô Borges) Live At Shea Stadium (The Clash) Live In Gdansk (David Gilmour) Black Ice (AC/DC) Live At Montreux 2005 (Beth Carvalho) Especial MTV - Estação Melodia Ao Vivo (Luiz Melodia) The Cosmos Rocks (Queen + Paul Rodgers) Live Santa Monica 72 (David Bowie) Samba Meu (Maria Rita) The Block (New Kids on the Block) Ponto de Partida (Sérgio Ricardo) Dig Out Your Soul (Oasis) Queridos Amigos (Vários Artistas) Álbum Branco (Vários artistas) King of Pop - Brazilian collection (Michael Jackson) Estandarte (Skank) That Lucky Old Sun (Brian Wilson) Uma prova de amor (Zeca Pagodinho) Forth (The Verve) Álbum Musical 2 (Francis Hime) Chapter 9 (Ed Motta) Cazuza - Box Discografia Completa (Cazuza) Labiata (Lenine) Death Magnetic (Metallica) Sou (Marcelo Camelo) Stay positive (The Hold Steady)