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Raul Diniz

Raul Diniz

Formado em publicidade e artes plásticas e com 27 anos de trabalhos nos barracões das escolas de samba, se tornou um dos mais prestigiados carnavalescos. Além de passagens por grandes agremiações, contabiliza conquistas de campeonatos e premiações importantes como o troféu "Sambista de Ouro" em 1994, da Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas e o título de melhor carnavalesco de São Paulo do século XX, prêmio conferido por 80 pessoas da comunidade do samba em 1999.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



20/02/2014 15h47

A magia do Carnaval acaba no desfile. Ano que vem tem mais !
Raul Diniz

Está chegando o Carnaval e o ritmo é frenético em todos os setores das escolas para que tudo aconteça dentro do projeto e dos ensaios combinados entre os vários setores.

A passarela é o palco iluminado onde artistas anônimos vão dar a sua parcela participativa ao delírio dos carnavalescos.

É lá que os sonhos se materializam através de fantasias, canto e ritmo.

Sambódromo do Anhembi. Foto: José Cordeiro - SPTuris

Nem tudo é tranquilo...

Os momentos que antecedem o Carnaval são uma loucura, todos os envolvidos nos quesitos ficam com os nervos a flor da pele, pois as cobranças são muitas.

Durante os ensaios, alegria. A quadra é o grande ponto de encontro para confraternizações, onde cada um, a seu modo, se mostra, se fantasia.

Existem coisas difíceis de administrar, principalmente quando há diferenças na forma de pensar e estas mexem com a vaidade dos dirigentes, diretores e componentes. Nestes casos os conflitos são inevitáveis e as competições nem sempre são saudáveis entre os que dirigem e os que são dirigidos.

Quando as discussões acrescentam, toda a escola ganha, porém, quando as divergências carregam o tom da valorização do ego pessoal, o que não é raro, a intermediação de um líder é fundamental para harmonizar o ambiente. Diminuir o atrito e fazer com que todos lutem pela mesma bandeira, mesmo com pensamentos distintos.

Durante meses, os diretores, artistas anônimos e componentes fazem de tudo para surpreender a si mesmos e fazer historia na memória, não só dos que vão julgar, como também dos que assistem e participam do desfile. A cabeça dos responsáveis está a prêmio, eles tem que buscar a perfeição a qualquer custo.

Depois do transporte das alegorias é na concentração que vem o trabalho mais delicado, esculturas e adereços que não puderam ser montados dentro do barracão, pela própria fragilidade ou pelo tamanho, tem que ser agora incorporados à alegoria, fazendo desta um cenário ainda maior.

Quando os elementos alegóricos sofrem algum dano, a perda de pontos pode ser fatal. Nesse cenário, o carnavalesco e sua equipe vivem uma neurose inquietante com os últimos detalhes para que tudo corra dentro do planejado, enquanto muitos se divertem sem se dar conta que estão em uma disputa onde só será campeão quem cometer menos erros.

O Carnaval é o ambiente onde se produz loucuras geniais. É um grande caldeirão onde uma grande mistura de pessoas faz uso desse tipo de expressão para camuflar, mascarar, reprimir, recalcar e até em alguns casos, resolver seus problemas.

Essa manifestação magnífica, essa alquimia carnavalesca, faz o sonho se tornar realidade.

Porém, toda a magia do Carnaval acaba no desfile.

Ano que vem tem mais...



23/05/2013 00h00

SRZD, sete anos falando de samba e de sambistas
Raul Diniz

Olá, amigos sambistas, durante os quase trinta anos que participei do Carnaval de São Paulo, só tomava conhecimento das notícias e os acontecimentos do mundo do samba através das poucas informações que saíam durante o mês da folia de momo.

Havia uns poucos sambistas heroicos que lutavam com unhas e dentes para passar as escassas informações da maior festa popular aos amantes da folia, mas mesmo com toda a luta, o que se tinha era muito pouco.

Hoje as coisas mudaram para melhor. O meu amigo e xará Raul Machado foi chegando devagar e sem barulho na quadra de ensaios com muito talento e vontade para se comunicar com os sambistas. Sei como é difícil falar das coisas do samba, porque de um modo geral no meio são bem vindas as glorias e aos elogios, as críticas não são aceitas jamais. O Raul, esse grande comunicador, tem se saído muito bem fazendo seu trabalho com muita competência e seriedade na última década.

Foi através dele que recebi o convite para integrar o SRZD, um dos melhores sites de notícias do Brasil. Hoje, tenho orgulho em fazer parte do time de colunistas do SRZD, onde me sinto muito honrado de poder escrever neste mundo complexo que é o Carnaval. Gostaria de poder estar mais presente na coluna relembrando meus momentos de carnavalesco, mas o tempo que tenho é muito escasso.

Meus parabéns ao Sidney Rezende por manter com maestria este espaço e sua equipe por prestar o grande serviço de manter informados todos os sambistas e componentes que amam suas escolas de coração.

Obrigado por enriquecer e divulgar esse grande espetáculo, além de alimentar a todos, amantes ou não do Carnaval, com noticias sérias e fidedignas.



22/05/2013 10h14

Criação: onde o sonho se transforma em realidade!
Raul Diniz

Foto: Divulgação

Após uma breve pausa nos bastidores das escolas de samba, depois de um longo ano, as criações começam a ganhar vida novamente. Chega o momento em que as escolas repensam algumas ideias que não deram certo, ou aprimoraram outras para poder evoluir em um novo projeto.

Para isso existe a figura do carnavalesco, o profissional que cria e organiza o desfile da agremiação que o contrata.

Sua função é de suma importância durante todo o processo de criação que culmina com o desfile.

Tudo que acontece durante a passagem da escola tem a sua participação, mesmo o mais simples detalhe não deve e não pode passar despercebido, pois é nos detalhes que se ganha ou perde um campeonato.

O carnavalesco tem uma grande responsabilidade no resultado final, as suas ideias iniciais vão influenciar todo o desenvolvimento da escola desde a escolha do tema de enredo até o momento em que entra na passarela.

É do tema que sairão, através da sua mente criativa, todos os quesitos que serão julgados: o samba, as fantasias, as alegorias, o show da comissão de frente, o deslumbre dos destaques e os eventuais acessórios visuais que reforçarão a ideia proposta inicialmente no enredo.

Só que para montar esse show deslumbrante, o carnavalesco esbarra em vários limites que interferem nas suas propostas, além do variado público atento, curioso e cobrando bons resultados, ele deve prestar especial atenção aos prazos,  as verbas disponíveis e aos profissionais que estão ao seu comando.

Ter facilidade de administrar ideias e trabalhar no sentido coletivo com os demais setores da escola é imprescindível para obter um bom resultado.

Foto: Acervo Pessoal - Raul Diniz

É muito importante que ele tenha os pés bem plantados no chão e saiba conduzi-los a fim de transpor os percalços que virão durante a preparação de um novo espetáculo, só dessa forma poderá ganhar o respeito e a admiração de todos e semear as suas ideias, para que prosperem e deem frutos.

O Carnaval que se expressa de diferentes modos nas mais diversas culturas, é o maior laboratório de miscigenação de ideias, objetivos e gostos, no que diz respeito ao conceito de beleza visual pelo qual se manifesta.

Rendo minha homenagem a todos os carnavalescos que iniciam mais um ano de duro trabalho, que nem sempre são reconhecidos.

Pensar grande ou pequeno dá o mesmo trabalho, vá em frente com suas ideias e criações. A sorte está lançada!


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16/04/2013 00h20

O 'show business' chamado Carnaval
Raul Diniz

Foto: DivulgaçãoPara ganhar um Carnaval, mais precisamente falando, um concurso de escolas de samba, é preciso um bom samba, que todos saibam a letra, cantem, que tenham samba no pé e sejam capazes de empolgar a passarela e acima de tudo muita criatividade.

Mas o que está atrás deste grande espetáculo é o visual rico e deslumbrante, a grandiosidade das alegorias, o luxo das fantasias e o excesso de regras que tornam o desfile burocrático e sem graça.
 
Foi-se o tempo que as agremiações ousavam utilizando materiais alternativos do cotidiano para finalizar seus trabalhos. O que
se vê hoje nos desfiles, salvo poucas exceções, são muitas releituras repetitivas, esculturas que se multiplicam em cima de uma alegoria para preencher espaço.
 
O que falta na maioria das vezes é bom senso na hora da criação, fator fundamental para dar corpo ao desfile, capaz de liberar a espontaneidade dos componentes, para deixarem de ser meras marionetes ao longo da passarela e desta forma conseguir o grande diferencial das demais escolas concorrentes.

O desfile das escolas de samba há muito tempo vem se tornando um show dirigido, previsível e monótono, onde o importante é estar tudo muito arrumadinho para que o jurado de uma boa nota e agradar o patrocinador, para que fique satisfeito com a sua marca apareça com destaque na televisão durante a transmissão.

Ganhando o carnaval, a escola de samba fará mais shows ao largo do ano, terá mais viagens e assim conseguirá mais recursos além dos oficiais, para o ano seguinte.

Começa tudo de novo!

Já começou a ser construído mais umgrande 'show business' chamado Carnaval, antes uma grande festa popular.


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12/03/2013 16h22

Eduardo Basílio: o professor!
Raul Diniz

Foto: Departamento Cultural - Rosas de OuroDurante minha vida de carnavalesco, não poderia deixar de homenagear um dos maiores presidentes com o qual tive o prazer de trabalhar. Eduardo Basílio, mais conhecido na época como "Professor".

Rápido nas ideias e sempre enxergando mais além, dizia: "vamos por este caminho que vai dar certo", palavras sábias e noção de futuro admirável porque era sempre o melhor caminho a seguir. Concluíamos que, ele sempre tinha razão. Inteligente, irônico às vezes, amigo e sempre brincalhão, não tomava nenhuma decisão sem estar absolutamente seguro do que fazia. 

Durante os sete anos em que estivemos juntos, nem tudo foi um "mar de rosas". Nos dois primeiros anos de convivência, tivemos alguns desencontros de idéias carnavalescas que resultaram numa saída inconveniente, mas que no final, acabaram em um bi-campeonato para a Rosas de Ouro em 1990 e 1991.

Nos cinco anos que se seguiram à minha volta para a escola, formamos uma parceria perfeita e ainda cultivamos muito a afinidade a nível pessoal. Os objetivos profissionais no tocante a administração do Carnaval, fluíam com muita harmonia. Definir ideias e buscar soluções para a condução dos projetos propostos para a Roseira passaram a ter uma cumplicidade ímpar.

Foto: Acervo Pessoal - Raul Diniz

Para que tudo funcionasse bem, o "Professor" envolvia as pessoas em suas idéias geniais, de forma tal, que a participação dos demais dirigentes na execução dos projetos, era perfeita, criando em cada um, uma carga de responsabilidade e uma atmosfera agradável, fazendo com que a engrenagem funcionasse bem e sem atritos.

Fizemos grandes Carnavais juntos e digo com convicção. Raramente Basílio se equivocava. Ele dizia sempre: "O importante é fazer o melhor que podemos. Ser campeão do Carnaval é consequência".

A nossa convivência era cheia de surpresas. Ele tinha um bom humor contagiante. Para tudo tinha uma piada engraçada, até quando havia um problemão para resolver.

Falante e divertido, conduzia a sua escola com a muita tranquilidade e maestria, fazendo com que as pessoas se unissem em harmonia e união.

Lembro-me dos impagáveis churrascos dos aniversariantes do mês, da sopa que mandava fazer aos componentes após os vários shows externos ou dentro da quadra e também quando tinha vontade de comer alguma coisa diferente, sem mais nem menos, promovia um evento interno e convidava a galera da escola para acompanhar, tudo na maior descontração. Estes eventos gastronômicos terminavam sempre em samba e festa.

Foto: Acervo Pessoal - Raul Diniz

Lembro também de quando ele me telefonava convidando para sair não dizia o motivo e o local de destino. Quando eu chegava para o encontro, dizia como uma criança que está fazendo algo errado: "Vamos balançar o queixo?". Era para comer alguma coisa que tinha vontade. Quase sempre um sanduíche de mortadela, antes ou depois dos ensaios gerais da escola. De vez em quando, chegavamos mais cedo na quadra só para ir ao "Bar do Turcão" comer um churrasquinho ou então nas barracas da parte externa da quadra para saborear um sanduíche de pernil.

Também tínhamos momentos de atritos e divergências por conta dos problemas internos normais na preparação do desfile, como a definição do tema,  escolha do samba, fantasias, barracão e com o pessoal que trabalhava no cotidiano da agremiação.

Sempre preocupado com a escola, Basílio não deixava passar nada sem ter controle total. Desde nos menores detalhes ou nas tarefas mais importantes, conduzia a agremiação como uma grande empresa de entretenimento. Com sua liderança e visão inovadora, fazia que o relacionamento da entidade com as demais escolas, fosse o mais satisfatório possível.

Lógico que não dá para conduzir uma grande escola sozinho. Havia uma ampla equipe que o auxiliava na direção. Não citarei nomes para assegurar-me de não esquecer ninguém.

Foto: Acervo Pessoal - Raul Diniz

Para realizar projetos grandiosos é fundamental ter uma equipe comprometida e ao mesmo tempo com capacidade para resolver problemas, buscar soluções e criar oportunidades. Isto a Rosas de Ouro tinha e tem na figura da sua filha Angelina Basílio, atual presidente.

Hoje lendo as notícias do Carnaval e acompanhando de longe os desfiles, fico feliz pelo sucesso do desempenho da Rosas de Ouro. Tenho a satisfação de afirmar que a Angelina Basílio conduz com galhardia e segurança o bastão que seu pai, Eduardo Basílio, com tanto amor e firmeza, levando a Rosas ao rol das grandes agremiações de São Paulo.

Para finalizar, gostaria de desejar o melhor para todos os componentes, dirigentes e simpatizantes dessa grande escola onde tive a honra e o privilégio de levar para a passarela do samba em Carnavais memoráveis e onde passei momentos inesquecíveis em minha vida.

Um grande abraço a toda a família da "Sociedade Rosas de Ouro"!

Foto: Acervo Pessoal - Raul Diniz


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19/07/2012 12h04

Samba se aprende na escola com quem sabe mais: Juarez da Cruz!
Raul Diniz

Foto: DivulgaçãoMinha trajetória no Carnaval começou por acaso na escola de samba Prova de Fogo, quando alguns amigos me convidaram para pintar uns letreiros. Depois dos letreiros vieram algum carros, uma coisa aqui, outra ali e acabei me envolvendo com os demais trabalhos para o desfile. Como a sede da escola era muito pequena, muitas coisas eram feitas na própria rua do bairro. Naquela ocasião, em 1981, eu não tinha a menor noção do que era montar um desfile de escola de samba, não sabia sequer onde, como ou quando atuar.

Escrevia o tema, desenhava os figurinos, tocava na bateria e fazia até samba-enredo. Aos poucos fui percebendo que cada segmento tinha a sua importância e que é fundamental ter o conhecimento de todos os setores para poder entender o conjunto, no entanto, há que buscar uma especialização. Não se pode fazer tudo, afinal o sucesso depende do grupo, e o grupo é a somatória de cada um na sua área. 

No ano seguinte comecei a participar das reuniões. Num determinado momento, em um dos encontros com a direção, me candidatei para desenhar os figurinos. Um personagem que estava sentado a mesa me olhou meio enraivecido e me deu uma folha de caderno, uma caneta e mandou-me fazer um desenho, ali na hora. Tudo bem. Fiquei um pouco estarrecido, mas fui em frente no que propunha e fiz lá um desenho qualquer. Todos olharam e aprovaram meu teste, pois realmente foi uma prova de fogo. Hoje tem um tom folclórico, mas na época em 1981, era complicado um paulista e além de tudo morador do bairro, se candidatar a um cargo na qual a maioria das ideias vinham de fora. 

A Prova de Fogo sempre teve bons batuqueiros e grandes amigos de infância que participavam da escola eram meus amigos. Muitos me perguntavam se eu gostaria de ir para uma grande escola de samba. Na época eu não tinha muita certeza se devia, pois tinha outras prioridades.

Fui então um dia, levado a uma reunião na escola de samba Mocidade Alegre para ser apresentado ao presidente. Depois de ficar um bom tempo ouvindo o que se passava, o Sr. Juarez da Cruz pediu para que me apresentasse aos demais. Meio sem jeito falei o que fazia e me candidatei ao cargo de carnavalesco. Ele me perguntou quanto eu queria para fazer o trabalho. Eeu disse nada. Ele então respondeu que eu tinha que receber alguma coisa, "aqui não pode ser de graça" disse ele. Foi então que acordamos em cinco mil cruzeiros pelo trabalho.

Na verdade para mim até então, criar e desenhar figurinos e alegorias era um hobby. Eu não sabia que pagavam para isso. Foi nesse momento que realmente começou minha escolha por fazer Carnaval. 

Já tinha participado de dois Carnavais no acesso, mas ainda aprendendo como carnavalesco, tinha curiosidade de saber como funcionava uma escola de samba no grupo principal. Comecei então, a freqüentar os ensaios de finais de semana para observar como ocorriam as atividades.

As velhas baianas, que um dia foram passistas, ensinavam as jovens como sambar e se apresentar corretamente em público. Os casais de mestre-sala e porta-bandeira davam seu toque de experiência para os que estavam iniciando, enfim, na escola todos tinham uma função como o próprio nome diz escola de samba, que tinha e deveria continuar tendo por objetivo formar novos componentes para a agremiação.

O patrimônio de uma escola esta nos seus componentes, sem formação de base é impossível formar um bom plantel.

Foto: DivulgaçãoO meu aprendizado inicial foi fantástico, pois tive o prazer e o privilégio de ter como mestre o Sr. Juarez da Cruz, presidente da Mocidade Alegre. Foi ele quem me ensinou a dar os primeiros passos pela vereda de como ser um carnavalesco de uma grande escola de samba.

Foi uma época muito importante para mim. Aprendi coisas simples e importantes, desde como fazer um chapéu com papelão, caixa de ovos, capim barba de bode, coisas naturais e objetos do cotidiano, até como montar adereços, que serviam para incrementar e enriquecer o visual das fantasias da época.

Orientado pelo presidente e com o apoio de sambistas importantes da escola, montei meu primeiro Carnaval no especial com toda a estrutura que corresponde. Apresentação do enredo, montagem do roteiro, conhecimento de harmonia, enfim como preparar uma escola para um bom desfile.

Um momento marcante e enriquecedor, desde começo de aprendizado, foi a fabricação das alegorias. Lembro que íamos todas as tardes, quase noite, ao pavilhão do Anhembi trabalhar nos carros. As escolas não tinham  barracões de alegorias. Era tudo feito no improviso, desde a criação até a conclusão final, as ideias surgiam junto com materiais que eram descobertos nos lugares mais inusitados, como no lixo, nos desmanches ou depósitos de ferro velho. Conseqüentemente a decoração se transformava em cada momento. Era muito enriquecedor esse processo criativo de associação com o que havia disponível.

Os carros alegóricos eram todos construídos sobre estruturas de madeira. Eram usadas vigas robustas para suportar o peso e umas pequenas rodas de ferro. A estrutura era pouco resistente, por isso não havia a possibilidade de grandes construções e a quantidade de destaques também tinha que ser reduzida, embora muito mais frágeis que os atuais, o espetáculo visual era grande na época. Não havia a limitação de quantidade para as alegorias, o que ajudava muito a leitura do enredo. Para enriquecer mais o visual e acoplar mais leitura, utilizava-se tripés e os quadripés. 

Com o Sr. Juarez da Cruz mantive uma relação muito próxima e divertida. Sempre que ele chegava ao pavilhão trazia consigo além, de um saquinho de frutas, normalmente uvas, uma nova ideia para uma alguma alegoria. Eu como bom aprendiz, assimilava tudo e juntando todas as informações com a minha criatividade, ia a cada nova experiência, descobrindo uma maneira cada vez melhor para seguir em frente.

O trabalho no pavilhão do Anhembi foi uma escola. Em cada canto havia uma agremiação fazendo o seu trabalho. Era como hoje a Cidade do Samba. Todos juntos para um mesmo fim. Fazer a melhor alegoria do desfile era a meta. Não havia o profissionalismo nem a variedade de materiais pré-fabricados que há hoje, logo era necessário usar o cérebro e criar o melhor com o que havia disponível.

Samba se aprende e eu aprendi, convivendo e tendo como mestre o presidente Juarez da Cruz, um grande sambista e administrador. Sempre muito paciente, ele me ensinou como funcionavam as coisas dentro e fora de uma escola de samba. A este sambista, o meu mais profundo agradecimento e respeito pelo grande legado ao Carnaval de São Paulo. Com os ensinamentos que obtive deste imortal, aprendi não só a montar alguns bons desfiles como também a me posicionar como sambista e amante do maior teatro ao ar livre do mundo que é o Carnaval.

"É muito importante que ao entrar em uma quadra, procure um sambista com mais experiência e com o devido respeito, lhe peça orientação de como fazer o certo, independente do setor que deseja atuar. É errado e muito feio achar que já sabe tudo de Carnaval. No samba, quanto mais se vive mais se aprende, mesmo os que estão no topo sempre descobrem algo novo.Ninguém entra em uma escola de samba pronto e nem se qualifica pela internet."

Raul Diniz 

Foto: Assessoria - Mocidade Alegre


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27/06/2012 12h23

Gaviões da Fiel: coisa boa é para sempre
Raul Diniz

Foto: Acervo Pessoal - Raul DinizTudo começou em 1990 quando fui convidado a fazer parte de uma grande torcida chamada Gaviões da Fiel para realizar o meu primeiro projeto para o Carnaval do grupo de acesso. O enredo escolhido para o desfile de 1991 foi "A Dança das Horas", com uma abordagem focada na história do relógio e o corre-corre das pessoas com o avanço dos ponteiros.

Foi um grande desafio transformar uma imensa torcida apaixonada pelo Corinthians na grande escola de samba que é atualmente.

Afortunadamente encontrei pessoas amigas e com muita vontade imensa em transformar o Carnaval Paulistano em um grande show com uma maior visibilidade dentro e fora da cidade de São Paulo.

Para uma torcida que já tinha experiência em desfilar como bloco carnavalesco, faltava só a oportunidade para ascender a outra categoria. Foi então que um grupo de amigos se juntou com um único objetivo, fazer da torcida que já cantava e sambava nos estádios, numa grande escola de samba capaz de levar a alegria e entusiasmo para a passarela. Estavam lá Luis Carlos, Ernesto, Roberto Carlos, Biro-Biro, Norimar, Darcivan, Miranda, Wilsão, Robertinho Daga, sem esquecer da Marcinha, uma das poucas mulheres que ajudavam a manter erguida a bandeira do Carnaval além de muitos outros abnegados torcedores, todos sob o comando assertivo do presidente Dentinho e sua diretoria. Com o comprometimento e empenho de todos e com o apoio de toda nação alvinegra, o gosto pelo Carnaval se aflorava a cada instante.

Nada foi fácil. A verba era pequena, o local pouco adequado para fazer as alegorias e fantasias e tudo era novo para mim e para eles. No entanto, havia uma vontade imensa de realizar o projeto. Lembro que a primeira vez em que entrei na quadra da escola, senti uma energia tão forte ao ver os componentes vibrando pelo Corinthians e pensei: "se conseguirmos levar este entusiasmo para a passarela dos desfiles entraremos com meio título ganho".

O tempo foi passando e as etapas para o desfile foram sendo executadas com as dificuldades inerentes a uma agremiação ainda em formação. Naquela época, nem todos os componentes da torcida apoiavam o Carnaval. Muitos queriam se divertir nos estádios sem se comprometer com as regras que o Carnaval exige.

Aos que apoiavam e não tinham conhecimento dos quesitos que seriam julgados, nós da comissão nos prontificamos a explicar através de palestras, os principais detalhes dos critérios de julgamento para todos os setores da escola. A finalidade era elucidar o maior número possível de dados, estatísticas e informações sobre o desfile, além de reforçar a importância dos ensaios para realizar um bom desfile.

Além do trabalho de formação ainda tínhamos as atividades no barracão. Falando em barracão, deixo aqui minha saudosa homenagem a todo o pessoal que trabalhou comigo. Poderia citar nomes, mas como posso esquecer alguns, por isso prefiro agradecer de uma maneira geral. Debaixo de um viaduto com altura máxima de cinco metros, perto da estação Barra Funda, começamos a confeccionar os nossos oito carros alegóricos que não eram grandes, mas tinham qualidade.

Recordo que a mão de obra que tínhamos não era especializada. O trabalho era feito por pessoas formadas dentro do próprio barracão. Os que tinham alguma habilidade ou pequena noção de arte carnavalesca eram aproveitados nos trabalhos das alegorias e fantasias. Com isso formamos muitos profissionais que devem estar até hoje exercendo o que aprenderam na prática.

Durante os ensaios os componentes da torcida se aproximavam do trabalho que fazíamos dentro da quadra e também no barracão de alegorias. Essa somatória de componentes fazia crescer em cada um a vontade de subir do acesso ao grupo especial das escolas de samba de São Paulo.

Com alguns contratempos, mas com muita gana e um belo samba composto pelo Grego e muito bem interpretado pelo Ernesto Teixeira, conquistamos o campeonato no grupo de acesso. Foi a grande conquista de todos os envolvidos no projeto, pois lutamos contra a falta de dinheiro, falta de um lugar adequado para trabalhar com as alegorias, ausência de mão de obra especializada e contando apenas com o pequeno apoio da torcida na época. Vencemos e a desconfiança de alguns caiu por terra.

Houve também uma passagem que não esqueço jamais. Quando os integrantes da bateria da escola comandada pelo mestre Robertinho Daga receberam as fantasias e perceberam que as mesmas não estavam adequadas para o desfile, simplesmente resolveram desfilar sem a indumentária que fazia parte da roupa. Os batuqueiros foram para a passarela com o peito nu e apenas uma fita de luto no braço em menção ao falecimento de um componente ocorrido dias antes. Isso mostra que o que vale é a gana e a garra do sambista.

Ser campeões no grupo de acesso nos deu mais vontade de crescer. O entusiasmo e a vontade de avançar com novos projetos para os Carnavais seguintes aumentaram consideravelmente. A meta traçada foi buscar o campeonato do grupo especial.

Com muita fé, garra e criatividade, a escola foi conquistando seu espaço junto a outras grandes agremiações que faziam parte na elite do samba paulistano. Sempre com enredos leves e de fácil entendimento para os que nos assistiam, fomos crescendo e ganhando respeito como escola de samba.

Havia consenso geral de alcançar o topo pouco a pouco e o planejamento da comissão de Carnaval era o de conquistar o título no grupo especial em cinco anos de desfile.

Foto: Marcelo GuireliUm trabalho feito com solidez, estrutura, dedicação e somando ainda muita garra, só podia levar a conquista dentro do prazo.

Os trabalhos para a conquista do título inédito de 1995 deram-se após um segundo lugar que julguei injusto no ano anterior com o enredo, "A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente".

Este vice-campeonato contou com um desfile maravilhoso. Depois de uma madrugada onde todas as escolas desfilaram molhadas, o céu de abriu e o dia iluminou-se para receber a Gaviões na passarela depois de uma madrugada onde todas as escolas desfilaram debaixo de uma forte chuva.

Quando chegou o nosso momento de desfilar, abriu-se resplandecente o sol com seus raios cálidos para banhar de luz toda a nação corintiana. Com um samba inesquecível do poeta Grego e Magal, ficamos na segunda colocação. Embora tivéssemos merecido colocação melhor, o resultado foi satisfatório em relação ao planejamento traçado.

Na imagem abaixo, outro momento marcante. Em sinal de protesto pelo resultado do Carnaval de 1994, os componentes desfilaram com o rosto pintado. Foi uma forma de fazer uma manifestação diante do título que não opinião de muitos sambistas seria da escola. Na foto, estou ao lado do intérprete Ernesto Teixeira e do poeta Grego.

Foto: Raul Machado - SRZD

Passada a frustração, iniciou-se um novo projeto para o Carnaval de 1995. Lembro que a escolha do enredo foi muito disputada. Havia vários temas em pauta, mas como o ano marcava o aniversário de 25 anos de fundação do Grêmio Gaviões da Fiel, vários componentes da torcida queriam participar com essa temática específica. Apresentei algumas ideias, mas o que eles queriam era falar do Corinthians e do aniversário do Grêmio. Confesso que fiquei muito preocupado com tanta disputa na escolha de um tema, até que me ocorreu a idéia de falar das coisas boas que ficam para sempre guardadas na lembrança desde quando crianças e ao mesmo tempo podíamos também homenagear o aniversário da torcida. Nascia então o "Coisa boa é para sempre."

Aprovado pela diretoria e pela comissão de Carnaval, tive que pensar rápido na defesa do tema escolhido. A princípio não tinha nenhum texto, somente a idéia. Tive que fazê-lo de improviso, mas tudo saiu bem. No dia seguinte ao da escolha do tema, comecei a escrever e a elaborar o visual que pretendia para o desfile. Tinha em mente um desfile alegre e bastante colorido, sem utilizar a cor verde é claro.

Por falar em cor verde, o fato de não utilizá-la na escola teve passagens marcantes que hoje são divertidas de lembrar. Uma delas, a de uma das fantasias do Carnaval anterior que havia folhas de tabaco verde como adereço. Os componentes da torcida não gostaram nada. Como eu não tinha conhecimento destes detalhes sobre a não utilização da cor no desfile, fiquei com cara de paisagem diante dos integrantes. Quando voltei ao barracão no dia seguinte, as folhas estavam todas pintadas de dourado e assim foi.

Foto: Acervo Pessoal - Raul DinizO Carnaval de 1995 foi um momento inesquecível na minha vida.

Foi fantástico trabalhar com pessoas que faziam parte integralmente do projeto, desde o presidente Dentinho até o mais simples componente da escola. A energia na quadra de ensaios contagiava a todos desde a torcida até os visitantes.

Era tão forte a vontade de ser campeão que o espírito de comprometimento parecia estar em todos, desde os criadores e idealizadores do projeto, até seus executores e parceiros que trabalhavam no barracão.

Uma das coisas que me marcou e emocionou muito foi quando ainda estavamos montando a escola na concentração e o povo nas arquibancadas já cantava o nosso samba antes mesmo da entrada da escola na avenida. Foi uma sensação maravilhosa. Era possível sentir a cumplicidade do público e ver também os componentes chegando para o desfile, sorridentes, motivados e felizes com uma recepção tão calorosa.

A energia que brotava a cada dia durante as fases do trabalho foi trazida pelos componentes na passarela. A escola desfilou tranquila, alegre, com o preto e branco bastante colorido e com um samba antológico que até os dias de hoje é lembrado pelos amantes de um bom samba-enredo.

Durante o desfile, passando diante das arquibancadas me senti satisfeito pelo trabalho que fomos capazes de realizar durante todo o ano, mesmo com todas as dificuldades que tivemos que transpor ao longo da execução do projeto.

Após a apuração, o resultado oficial: Gaviões da Fiel - campeã do Carnaval 1995!

- Clique aqui para ouvir o samba

Foto: Acervo Pessoal - Raul Diniz

São Paulo parou para dar passagem e aplaudir de pé ao surgimento de uma das maiores escolas de samba do Carnaval paulistano, a torcida que se transformou na grandiosa Escola de Samba Gaviões da Fiel.

A minha maior vitória como carnavalesco depois de passar por tantas adversidades foi fazer a fiel gritar "É Campeão" como se fosse um gol do Corinthians nos estádios.

Termino dizendo que gostaria muito de voltar a ver a Gaviões da Fiel desfilar como antigamente, com um enredo leve, descontraído e com bastante alegria, bem de acordo com a sua imensa torcida quando está festejando as atuações do Timão.

"Avante Fiel", não deixe morrer a alegria que contagia que invade e que ilumina. Volte a levar para a passarela o vôo rasante do Carnaval de 1995. Para lembrar e não esquecer jamais:

Coisa boa é para sempre!


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22/03/2012 01h37

Carnaval: a doce alegria da vitória e a amarga desilusão da derrota
Raul Diniz

Foto: Walber Silva

O Carnaval paulistano de 2012 já terminou. Mais um ano de muita dedicação e esforço de sambistas apaixonados, com o sonho de ser o melhor da folia, além de almejar um bom emprego. 

Passada a maratona carnavalesca, já se começa a pensar em uma nova jornada de trabalho para preparar mais um desfile grandioso e quem sabe, conquistar o título que ficou adiado ou buscar mais um campeonato. 

Nos bastidores das agremiações, a frenética mudança de profissionais, conhecida como "dança das cadeiras", já está a todo vapor. São inúmeras mudanças de cargo entre os artistas do Carnaval que não corresponderam as expectativas dos dirigentes e também surgem propostas com melhores condições de trabalho ou mesmo convites para novos desafios.

Quem foi bem e conseguiu mostrar competência em seu quesito, está teoricamente tranquilo esperando para começar o seu novo show, mesmo que em muitos casos esteja na corda bamba, pois apesar do bom desempenho, as deficiências observadas durante os ensaios ou no próprio desfile, acabam deixando naturalmente estes profissionais vulneráveis ao "troca-troca".

As escolas que apresentaram problemas, não conseguiram boas notas ou não alcançaram o objetivo principal, certamente passam por transformações. Também é importante destacar que existem profissionais, que por algum motivo, se consideram "imprescindíveis" dentro das entidades, apresentando sempre uma desculpa para justificar seu desempenho insatisfatório, muitas vezes, acusando ou culpando terceiros pela sua incompetência.

Infelizmente neste meio, assim com em outros, existem pessoas despreparadas. São os "pseudo-sambistas" que se acham superiores, escondem-se atrás de uma máscara de artista, mas na verdade são embusteiros e apenas prejudicam os verdadeiros sambistas que fazem realmente a coisa acontecer.

As mudanças são inevitáveis. Troca-se tudo o que não correspondeu as expectativas no desfile principal, ou seja, as notas baixas nos quesitos ditam as regras para a continuação ou não  de determinados profissionais dentro das quadras ou dos  barracões. Muitas vezes até a própria personalidade influi na troca ou dispensa das pessoas que não agradam aos que estão no comando de uma escola de samba

Depois da "dança das cadeiras", os que ficam começam os preparativos para mais um espetacular reinado de momo.  O carnavalesco doidão "queima" o cérebro procurando soluções inovadoras para o novo projeto. São muitas as ideias e projeções que visarão surpreender os concorrentes, sofisticando cada vez mais o espetacular show visual do maior espetáculo da Terra.

Em nosso próximo texto, continuarei comentando algumas das ações que acontecem após o desfile de uma escola de samba.


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17/02/2012 14h11

Harmonia: Onde poucos trabalham e muitos se divertem
Raul Diniz

Foto - SPTurisMuito bem, imagine depois de tanto trabalho e tantos desencontros a difícil tarefa que é deixar uma escola de samba preparada para o desfile. Escolhe-se o enredo, fazem-se os protótipos das fantasias para produção. Enfrenta-se uma dura escolha do samba que será cantado na avenida, ensaios de canto, dança e bateria, sem contar o que está no barracão, peças imensas que completam o cenário do desfile, os gigantescos carros alegóricos acoplados e com movimentos nem sempre práticos, enfim, uma doidice. Tudo isso, envolve dezenas de pessoas que no final serão dirigidos por personagens de suma importância neste processo: os diretores de harmonia.

Os diretores de harmonia são peças fundamentais no desfile. Eles fazem com que tudo funcione de acordo com uma planilha preparada pelo diretor de Carnaval, juntamente com o carnavalesco e a direção da escola. Depois de definidas as diretrizes, é importante que os diretores estejam bem preparados para que tudo funcione perfeitamente. Em muitos casos, algumas escolas colocam diretores mal preparados para exercer essa função de vital importância, pessoas alheias ao planejamento, embora eleitas pela direção, que nada fazem a não ser passear pela avenida dando ordens completamente fora de sintonia com os verdadeiros responsáveis pelo desfile. Nesses casos, o trabalho de um ano inteiro pode ser jogado fora, quer por negligência ou pura falta de conhecimento.

Os que estão envolvidos no trabalho procuram seguir a risca o combinado, mas sempre se deparam com o pseudo-entendido, aquele que só aparece dias antes do desfile principal, cheio de razão, querendo mudar todo o planejamento de um largo ano de trabalho.

A função do diretor de harmonia, que nem sempre é reconhecida, começa dentro da quadra de ensaios e chega até o desfile final. Ele faz com que todos os componentes cantem em sintonia com o puxador de samba acompanhado pela bateria. Encarrega-se da correta ocupação do espaço correspondente a cada componente, dentro de cada ala e da fluidez contagiante do "cantar o samba", que ajuda ao bom andamento da escola e por conseqüência auxilia a harmonia durante a passagem da escola na passarela.

A responsabilidade dos diretores de harmonia dentro da escola é muito maior do que parece, eles tem que observar, além do mencionado, todos os detalhes das fantasias que os componentes trazem, porque, na maioria das vezes os diretores de alas ocultam problemas, trocam os materiais apresentados nos pilotos, tiram adereços, deixam falhas de acabamento, às vezes sem calçados adequados ou diferentes, deturpando a representação inicial. Os diretores têm ainda que observar a harmonia musical da escola, o carro de som, a sincronia do canto e bateria, o posicionamento dos casais de Mestre Sala e Porta Bandeira, se a comissão de frente está completa, se os destaques dos carros alegóricos estão posicionados nos seus devidos locais, se os efeitos propostos funcionarão perfeitamente, se o tempo de desfile está cronometrado com o tamanho da escola.

Nem sempre, o que se ensaia dentro de uma quadra, funciona corretamente na pista de desfile. Dependendo do clima que os diretores de harmonia transmitem aos componentes, podem transformar um projeto genial em uma apresentação catastrófica. Os ensaios de coreografias determinados aos componentes que não correspondem ao andamento do desfile, a falta de sincronização do canto com a bateria, fazem com que a escola tenha um desfile desencontrado, à conseqüência perda de pontos importantes. Enfim, qualquer descuido, significa muitos pontos perdidos que podem ser a consolidação do campeonato ou um terrível rebaixamento para o grupo de acesso.

Outra tarefa importante que faz parte da responsabilidade da harmonia é a retirada das gigantescas alegorias da concentração já com todos os cenários montados e posicioná-las na cabeceira da pista já com a escola em andamento no seu esquenta. Cuidar delas durante o desfile e estar preparado para qualquer eventualidade que possa ocorrer.

Depois de tudo ao término do desfile, terão ainda que reposicionar as alegorias fora da pista, retirar seus componentes, abaixar as talhas e empurrar os carros até o local de dispersão onde ficarão aguardando o resultado da apuração para saber se a escola desfila de novo, ou se volta ao barracão onde foram construídos.

O quesito Harmonia em um desfile nota 10

O julgamento do quesito harmonia considera um desfile nota 10 quando a escola é perfeita na igualdade do canto e a manutenção de sua tonalidade com o intérprete da escola, do início ao fim do desfile formando um grande coral, transmitindo a todos os componentes e espectadores, alegria, descontração, entusiasmos e externando felicidade. Mantendo o espaço entre as alas e alegorias, sem a penetração de uma na outra ou abrir claros durante a passagem da escola.

É também importante que na escola, durante a sua evolução, os componentes desfilem tranqüilos sem correria ou retrocesso para tampar os buracos que ficam em função de uma ala que evolui mais rápido que a seguinte. Essa evolução tem que ser marcada com criatividade, empolgada pelo samba e pela vibração contagiante transmitida pela bateria, mantendo o espetáculo animado e coeso mesmo que haja algum problema com o sistema de som.

São considerados normais os espaços deixados entre os casais de mestre-sala e porta-bandeira, comissão de frente e alas ou grupos com coreografias especiais devidamente ensaiadas para a apresentação durante o desfile da escola. O buraco deixado pela bateria deve ser preenchido pela ala que vem atrás obedecendo ao critério que foi determinado pela direção de harmonia, bateria e o diretor de ala, tem que haver bom senso e cuidado para não extrapolar, pois isso terá um efeito dominó em todo o conjunto.

Um bom diretor de harmonia deve ser educado com os componentes, não tocar em hipótese alguma no desfilante, ter extremo bom senso, prever os possíveis erros, focar na assertividade e estar seguro em suas decisões. Vejam quão duras é a posição da harmonia que deve ter todas as qualidades já mencionadas, não ganha nada pelo que faz e às vezes é julgado pelos erros de uns poucos que chegam despreparados, sem conhecimento do projeto do Carnaval e tem mais autoridade de quem está o ano todo planejando um desfile perfeito.

Fica aqui minha homenagem a todos os diretores de harmonia

Não dançam como um mestre-sala, mas, tem conhecimento do quesito e como será julgado, não cantam como o intérprete oficial, mas sabem quando está fora de tom, não tocam como um ritmista, mas ouvem uma bateria atravessada, não são estilistas, mas observam uma fantasia mal feita. Muitos acham que é bonito olhar dentro de uma quadra de ensaios uns homens de branco dando ordens, mal sabem que para ser bom tem que estar sempre presente nas decisões diárias que serão tomadas para ser o campeão.

Parabéns a todos os diretores de harmonias que trabalham onde muitos se divertem. Bom Carnaval a todos!

Raul Diniz


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07/02/2012 10h30

Barracão: Onde o sonho se transforma em realidade
Raul Diniz

Foto - Raul Machado - SRZDO que é um barracão de alegorias? É o palco iluminado onde artistas trabalham para dar vida ao delírio dos carnavalescos. Gigantescos e cobiçados, os barracões guardam os segredos que encantam, emocionam, surpreendem e ficam na memória dos espectadores do Carnaval.

É onde começa e termina o trabalho para abrilhantar uma festa que dura exatamente o tempo dos nossos sonhos da folia. No barracão, tudo acontece!

Tudo começa com a leitura do enredo, as idéias começam a surgir no interior do galpão. É lá que se materializam as alegorias de uma escola de samba, onde o sonho começa a se tornar uma realidade. É um palco de artistas anônimos, que transformam seus conhecimentos na confecção dos gigantescos carros alegóricos que desfilam na passarela. É uma grande equipe de ferreiros, escultores, pintores, carpinteiros, eletricistas, costureiras, aderecistas, decoradores, e dezenas de outros profissionais e aprendizes de artistas que trabalham para dar vida ao delírio deslumbrante do carnavalesco.

Durante meses, num esforço sem parar, esses artistas desconhecidos fazem de tudo para surpreender e fazer história na memória dos que assistem e amam o Carnaval. Às vezes, não é possível realizar o que está no papel ou na cabeça do criador. Isto por dois motivos básicos: primeiro pela questão financeira, e o segundo e não menos importante, o da idéia impossível de executar. 

No processo criativo é muito comum ocorrer mudanças na alegoria, quer por motivos resultantes do próprio processo de criação, onde vários artistas somam idéias à inicial, ou por vezes conflitam com elas, quer por fatores externos que pouco ou nada têm haver com a idéia inicial. O show de criatividade que os artistas empregam na decoração dos carros, nos adereços e fantasias, provém de materiais inimagináveis que se transformam em alegorias deslumbrantes aos olhos dos espectadores. Estes, são os operários da alegria, trabalhando no anonimato eles transformam muitas vezes lixo no luxo que os carros alegóricos apresentam na passarela.

Mas nem tudo é tranquilo, existem coisas difíceis de administrar, principalmente quando há diferenças de pensamentos que mexem com a vaidade dos artistas. Surgem conflitos e competições nem sempre saudáveis entre os criadores. Quando as divergências surgem no sentido de acrescentar, o trabalho ganha em qualidade, porém, quando as divergências carregam o tom da valorização do ego pessoal, a intermediação do carnavalesco é fundamental para equilibrá-las, senão o trabalho perde em qualidade, em produtividade e em eficácia. Há também situações alheias ao entorno do barracão, quando algum integrante de escola, acredita que pode, sem ter conhecimento, criticar e muitas vezes dificultar o trabalho dos profissionais. Os envolvidos no projeto precisam estar seguros do que pretendem apresentar aos dirigentes, só assim serão capazes de satisfazer suas expectativas, porque na maioria das vezes, essas pessoas que tem muito poder dentro da agremiação, entendem pouco, ou nada, do que esta sendo executado. Todo o conjunto envolve uma gama infinita de profissionais das mais diversas áreas, além de uma diversidade de materiais, e só quem é do ramo sabe o que se pretende para fazer com que o cenário fique mais interessante, atraente e cativante.

Um carro alegórico tem que começar por uma sólida estrutura de ferro, depois forrado com madeira para poder em seguida receber os materiais de acabamento, forração com tecidos, adereços e as esculturas. Além da montagem, há que pensar e ter muito cuidado com a saída do barracão, pois, na maioria das vezes a altura final das alegorias não é a mesma durante o transporte ao local de concentração. É muito importante observar o trajeto, checar as alturas e larguras para não ter problemas. Os acidentes costumam ser comuns no transporte, ocasionados na sua maioria por falta de planejamento. É preciso avaliar o trajeto por onde circulam esses carros, desde seus barracões até a área da concentração.

É na concentração que vem o trabalho mais delicado. Esculturas e adereços que não puderam vir montados, pela própria fragilidade, ou pelo tamanho, tem que ser agora incorporados à alegoria, fazendo desta um cenário ainda maior. Todo cuidado é pouco, há sempre riscos eminentes, quer por quebra de alguma obra, ou por utilização de alguns materiais como a solda, pois o perigo de incêndio está sempre presente. A preocupação com a segurança das pessoas que desfilarão nos locais determinados na alegoria, que pulam e dançam a mais de cinco metros de altura ou em alguns casos com fantasias gigantes a mais de 10 metros, é tema de constante inquietude por parte do carnavalesco, que busca sempre associar segurança e bem estar com beleza e glamour. Só assim haverá a certeza de um desfile perfeito.

Esse quesito é responsável por muita perda de pontos. Durante o desfile não pode haver nada que não esteja dentro do projeto, materiais ou objetos estranhos serão penalizados pelos jurados. Imagens religiosas também não são permitidas, dessa forma os carnavalescos precisam ter muito cuidado e evitar o seu uso.

O barracão é o espaço onde se fabrica loucuras geniais. É um grande caldeirão onde uma mistura de profissionais e amadores utilizam todo tipo de material em uma alquimia carnavalesca.

Barracão: Onde coisas inimagináveis se transformam no brilho luxuoso das alegorias e fantasias do Carnaval... É onde o sonho vira realidade!


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17/01/2012 21h53

Vista a "fantasia", tirando da ideia o que falta no bolso
Raul Diniz

Foto - SPturisSe você está deprimido, não está no auge da alegria. Se o Carnaval que se aproxima tem tudo para não ser bacana como imaginou e se as coisas não estão do jeito que deveriam ser e se nada está bem, não importa, é você quem deve mudar!

Vista uma fantasia, tome um cálice de alegria e caia na folia.
 
A imaginação é uma boa oportunidade para as pessoas aprenderem mais a respeito delas mesmas. Ao longo da história, o Carnaval sempre foi uma forma de denúncia contra aos maus tratos, preconceitos e opressão.

Quando chegava o Carnaval, o  povo expressava o seu descontentamento com ironia e gozação, fantasiados de personagens em que queriam denunciar de uma forma zombeteira.
 
Nos desfiles das escolas de samba, como no teatro, a fantasia é uma arte que mostra uma cena com criatividade para narrar ou explicar um enredo. De modo geral, a fantasia dá vida, aguça a imaginação de quem a veste e de quem assiste ao desfile, atento a tudo.

Um observador inquieto, capaz de captar em detalhes o que a escola propõe dentro do quesito fantasia.
 
Carnavalescos, estilistas, costureiras, bordadeiras e aderecistas trabalham duro para materializar as cenas que serão compostas por várias alas ou em figurinos especiais que descrevem a ideia central. 
 
Foto - SPTurisNão importa o tema, pode ser folclórico, histórico, lendas, abstrato ou uma ideia pouco convencional. A partir daí, o criador tem a incumbência de apresentar um visual fantástico onde as pessoas que vêem, se deleitam durante o desfile e o visual se transforma em um conjunto mágico de cores, luz e movimento.
 
Nos dias de hoje, a fantasia carnavalesca, teoricamente popular, tem novas características plásticas que dão um ar especial aos desfiles das escolas.

Antes eram criadas com poucos recursos disponíveis, muito simples, com roupas adaptadas, tingidas e enfeitadas de forma ingênua. As peças eram confeccionadas em cetim decoradas com alguns espelhos ou lantejoulas pregadas espaçadamente nas fantasias dos foliões. Nas cabeças levavam chapéus de palha, alguns forrados com cetim e algumas penas de galinha para dar um visual melhor. Velhos tempos, onde era preciso criar, como dizia um antigo tema apresentado: tira da cabeça o que não tem no bolso.
 
Com o tempo, foram surgindo novidades, novos tecidos e materiais decorativos para serem aplicados nas roupas. Com isso, os artistas foram evoluindo em suas criações. As fantasias crescem em tamanho e ousadia.

Com as novas formas e volumes e utilizando materiais até então inusitados como o vacum-forming, armações de arames, fios de lantejoulas e tecidos importados, as escolas enriquecem o seu visual e tendo como resultado o gigantismo dos desfiles atual.
 
Mas como tudo tem seu preço, os custos e o peso das fantasias aumentaram, perdeu-se a espontaneidade dos componentes na busca por um desfile super organizado com as alas encurraladas na passarela.

Foto - SPTurisInfelizmente o visual ficou um pouco padronizado e caro para o componente. Antes um folião, hoje um cliente dos diretores de ala.
 
O julgamento do quesito fantasia é feito analisando alguns critérios básicos, tais como: A criatividade, a necessidade de buscar em cada criação um novo elemento capaz de surpreender, o que ela representa dentro da contextualização do enredo, o bom gosto na perfeita utilização das cores e aplicação dos materiais, a riqueza em que o visual transmite nos adereços que compõem as peças, enriquecendo o visual do conjunto durante o desfile na passarela, sem esquecer de que uma fantasia
criativa, contextualizada, rica visualmente, perde todo o seu glamour se não tiver um impecável acabamento.
 
Além de todas as observações anteriores, o julgador necessita um crivo especial para poder perceber a uniformidade nas vestimentas, não podendo aparecer nada que seja diferente entre as diversas fantasias. Todos os detalhes devem ser observados, calçados, meias, shorts, sutiãs, chapéus, óculos etc.
 
O Carnaval ta aí, a passarela é sua. 

Escolha a escola da sua preferência.

Vista a fantasia, incorpore o seu personagem.

Cante, pule e dance com alegria.

Caia na Gandaia!

Bom desfile!


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03/01/2012 00h18

"Enredo. Onde a coisa mais difícil é simplificar as idéias."
Raul Diniz

Foto - Acervo Raul DinizEm primeiro lugar, agradeço ao meu amigo Raul Machado pelo convite.

Espero poder dar algumas idéias do que aprendi durante meus quase 30 anos criando e montando Carnavais na cidade de São Paulo.
 
A nossa idéia inicial foi a de montar de uma maneira geral, os principais aspectos de um desfile de uma escola de samba, abordando em cada texto um quesito de julgamento.

Vamos estrear este nosso espaço falando da idéia de um Carnaval. Vamos falar de enredo.

"Enredo. Onde a coisa mais difícil é simplificar as idéias."
 
Partindo de uma história, fato, biografia, um tema abstrato, ou patrocinado, cria-se um tema emocional ou artístico do que se pretende mostrar em um desfile de escola de samba.

O esqueleto narrativo de um enredo bem calçado e com idéias bem desenvolvidas e claras, facilita o desenvolvimento de um bom samba-enredo, que é fundamental para a clareza na interpretação do tema e bem como na criação artística do desfile.
 
Como em uma obra teatral, o enredo tem que relatar os fatos em uma seqüência lógica e temporal, isso é o que dará sustentação ao desfile da escola de samba, quando se juntam todas as peças criadas durante a preparação do show.

Sustentando o conjunto de idéias ligadas entre si que fundamentam a qualidade do enredo.
 
O criador da idéia e todas as pessoas que trabalham na materialização do tema, sempre esperam poder passar o que de melhor tiram do enredo apresentado.

Também os artistas que trabalham na execução das fantasias ou alegorias, se utilizam do enredo para realçar as idéias do carnavalesco ou da equipe que tem a responsabilidade de dar vida a proposta apresentada e enriquecer o visual na passarela, onde serão avaliados e receberão a resposta do público durante a sua apresentação.
 
Enfim, o ideal da materialização de um bom enredo é organizá-lo de maneira a mostrar inicialmente seus personagens, quebrar depois essa apresentação criando uma idéia genial dentro da proposta, dando maior ênfase na narrativa do tema e finalmente, dar uma solução final de encerramento.
 
Claro ! Tudo com muita criatividade, bom gosto e comunicação geral com o público.
 
Enredo, a coisa mais difícil de fazer é simplificar as idéias.
 
Na próxima vez, abordaremos outro quesito.


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