SRZD



Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



02/02/2016 18h01

Vida longa para os ensaios técnicos!
Rachel Valença

Acabaram, no último domingo, os ensaios técnicos de 2016. Mesmo animada com a proximidade do carnaval, fiquei melancólica. Porque, num certo sentido, o carnaval não promete tanta animação quanto tivemos na Sapucaí nas últimas semanas. Se por um lado o carnaval nos garante fantasias, alegorias, coreografias completas, tudo prontinho e bacana, a ele faltam algumas características que me alegram muito.

Em primeiro lugar, o componente que ali está (e que às vezes nem estará no dia do desfile principal) se diverte muito. Usa bermuda, camiseta e tênis ou outro sapato confortável. Mesmo em alas em que se improvisa um ou outro adereço, isso não chega a comprometer a alegria de brincar. A bateria é a principal beneficiária dessa regra: nada de punhos, golas, palas ou botas. Uma delícia. As baianas se enfeitam com maior ou menor capricho, mas nada daquele exagero que nossos carnavalescos criam para elas carregarem. As passistas sobem no salto, mas com cada roupinha leve e linda que dá gosto! E o casal que conduz o pavilhão evolui com graça e facilidade, mesmo não se descuidando do visual.

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

Ah, se o carnaval fosse assim... Mas isso não é o principal. O que mais encanta é a participação do público. Gente que adora samba, que nem em sonhos teria condições de assistir ao desfile em boa localização, se apropria alegremente das frisas e arquibancadas e aproveita tudo. Observei no último domingo, após o encerramento do desfile, famílias que continuaram sentadinhas nas frisas, saboreando sua cerveja, felizes de estar ali e sem pressa de ir embora.

Esse é o verdadeiro público das escolas de samba. O público que grita o nome do seu vizinho ao vê-lo passar no cortejo, como grita o nome das celebridades com admiração e orgulho de vê-las de perto. Mas que grita também o nome de ídolos nossos, como Maria Helena e Chiquinho, ovacionados no ensaio da Imperatriz Leopoldinense. Gente que canta o samba de sua escola, e também o samba de outra escola, se ele consegue emocioná-lo. Que torce e vibra e não se cansa antes do final do ensaio, que não é o "espetáculo" em que o desfile se tornou, mas é algo muito caro ao coração desse povo, porque é antes de tudo cultura.

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

E tanto é verdade que é cultura que nele está presente um fator fortíssimo da trajetória das escolas: a competição. O ensaio técnico não tem nota, não tem julgamento, não tem ranking, não tem campeão. Ninguém jamais impôs como condição às escolas que fizessem camisetas especiais, que levassem elementos alegóricos ou que paramentassem as alas de maior visibilidade para participar de algo singelo, que era apenas um ensaio no espaço em que a festa ocorreria. Mas o desejo de superar as concorrentes, a competição, a rivalidade - elementos presentes desde a origem das escolas - falaram mais alto.

Se dependesse de mim, o ensaio técnico, como instituição, não acabaria nunca. Ele se manteria como é, sem cobrança de ingressos, sem exigências e complicações. Ele se tornou um verdadeiro carnaval, que se desdobra nos fins de semana ao longo dos meses que antecedem a data oficial do calendário, dando ao componente oportunidade de usufruir mais uma vezinha a alegria de pisar aquele chão sagrado, palco de nossas emoções, e oferecendo a quem assiste a chance de apreciar sem custo algo muito divertido e bonito de ver.

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


1 Comentários | Clique aqui para comentar

19/01/2016 19h42

Os demônios de cada um
Rachel Valença

Pra frente é que se anda. Ou, traduzindo em verso tão caro aos sambistas, "a missão do homem é evoluir". Mas às vezes um fato insignificante nos obriga a voltar no tempo, mesmo que para sofrer mais um pouquinho lembrando o que nos afligiu e desgostou.

Há menos de um ano, ao relembrar aqui neste espaço o carnaval de 2008 do Império Serrano, em que tremendos sacrifícios foram recompensados com a vitória, não mencionei o fato de que a carnavalesca abandonou a concentração, irritada, xingando, reclamando da falta de condições materiais e dizendo que não iria acompanhar aquele "lixo". Foi de casa que ela assistiu o Império ser campeão.

Por que me calei, no texto de abril, sobre este detalhe? Márcia Lage é uma profissional de carnaval, em atividade, e achei que a divulgação de uma atitude impensada não acrescentaria nada à minha narrativa. Não me considero uma pessoa negativa, destrutiva. Pelo menos me esforço para falar do que é bom e esquecer o que é ruim.

No dia da vitória, Márcia Lage foi à quadra e no palco reverenciou de joelhos a escola campeã. A quadra lotada a tudo assistiu.

Fotos: Divulgação

A carnavalesca foi mantida pela escola, quis fazer a reedição do samba de 1976, mas dando ao enredo nova leitura e novo título. Tudo lhe foi concedido. Se faltaram recursos, isso se deveu à situação financeira da escola, jamais a qualquer contestação de seu projeto. Que grande ideia sua deixou de ser realizada por falta de recursos? Nossa organização também deixava a desejar, reconheço. Amadores, não assalariados, nos dividíamos entre o trabalho no barracão e nossa vida profissional. Mas, no tocante à organização, a carnavalesca não ajudava muito.

Poupo os leitores do relato minucioso dos problemas enfrentados naqueles meses, mas posso garantir que não era a gestão do barracão a única responsável pelos problemas surgidos. Para resumir, cito a dificuldade da carnavalesca de aceitar opiniões diferentes da sua, a pouca dedicação ao barracão, por conta de seus compromissos domésticos, mas, sobretudo, a instabilidade de seu humor.

Conheço Renato Lage desde 1983, quando chegou ao Império Serrano. Sempre tivemos afinidades e um relacionamento cordial, ao qual se acrescentou de minha parte, com o passar dos anos, grande admiração profissional. Por esta razão, nessa nova etapa de trabalho no Império, a partir de 2008, as portas da minha casa sempre estiveram abertas ao casal e tive com Márcia um bom entendimento. Por isto, passei a ser sempre chamada ao barracão, a qualquer hora, para acalmar seus frequentes ataques de fúria.

Foto: Divulgação

Socos nas paredes, gritos, palavrões, exigências descabidas para refazer coisas que estavam aceitáveis, caprichos de toda ordem, a necessidade de mostrar a todo momento quem era que mandava... Eu jamais viria a público trazer esses episódios já sepultados, e outros que nem ouso reproduzir, se não fosse sua infeliz ideia de atirar no Império Serrano em recente entrevista. Por que isso? A menos de vinte dias do carnaval, uma carnavalesca do grupo especial não tem assunto mais momentoso para abordar numa entrevista? Desculpe a franqueza, mas apontar defeitos nas escolas por onde andou parece uma justificativa para, seja por que motivo for, nunca ter conseguido deslanchar uma carreira solo. Foi daí talvez que lhe veio a palavra desanimado, com que tenta descrever o Império Serrano.

Foto: DivulgaçãoO imperiano pode ser acusado de tudo, menos de desanimado. Como bem define o Dr. Carlos Alberto Machado, que lá está há muitos anos, o Império Serrano é uma escola em que o fracasso sobe à cabeça: quanto mais apanhamos, mais crescemos. Não falta contingente, não falta animação, não falta baiana, não falta ritmista nem compositor de talento. Exportamos mestre-sala e porta-bandeira, passista, intérprete e muito mais. Há tantos anos na Série A, continua a mesma grande escola de samba. "Pouca coisa não vai me jogar no chão", já dizia o inesquecível samba-enredo de 1992.

Não deixarei sem resposta as palavras dessa carnavalesca, da mesma forma como reagi, anos atrás, às palavras impensadas do puxador Anderson Paz sobre nossa escola, proferidas na quadra de uma coirmã. Enquanto tiver voz, vou responder a todas as tentativas covardes de apequenar uma escola que é um dos maiores monumentos culturais desta cidade, infelizmente acima da compreensão de gente despreparada.

Uma pessoa que, ao terminar o carnaval de 2009, sentada ao meu lado na festa de entrega do Estandarte de Ouro, no Canecão, por três vezes me pediu perdão (assim mesmo, com esta palavra) devia ter consciência de que havia muito a ser perdoado. Dentro e fora do barracão, dentro e fora da Avenida. Tudo perdoado. Logo depois, li nos jornais sua contratação pela Mangueira. Raiva? Não. Alívio.

Na Mangueira não ficou muito tempo, um ou dois meses, creio. Vá lá saber as razões... Não vêm ao caso. Sou mulher e já vivi muito. Não tenho muita coisa de que me orgulhar nesta vida, à exceção da maravilhosa família que criei. Mas posso garantir que cheguei até aqui pelo que sou. Não vivo à sombra de ninguém e por isso aprendi que o maior patrimônio que se pode acumular é a amizade e o respeito de quem nos cerca. Amizade e respeito se conquistam.

Não me agrada nem um pouco ter de escrever essas palavras, ou, como diz a carnavalesca, "visitar o meu lado demoníaco". Mas, para defender o Império Serrano de críticas sem fundamento e sem veracidade, também sou capaz de visitar o meu. Ainda não viram nada.

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


19 Comentários | Clique aqui para comentar

12/01/2016 11h11

Feliz 2016, com muito samba bom
Rachel Valença

Ao menos em um aspecto não há dúvida de que o ano que se inicia será bem melhor que o anterior: estamos comemorando, em 2016, uma das melhores safras de sambas de enredo dos últimos anos. Apesar da mesmice na programação visual e na produção do disco, vale a pena tê-lo, porque o conjunto de obras ali reunido tem uma qualidade compensadora.

Comecemos pelo que há de melhor: o samba de enredo da Imperatriz Leopoldinense, uma joia rara de título longo, que prova que de onde menos se espera... pode vir alguma coisa. O enredo sobre Zezé de Camargo e Luciano, convenhamos, não é glorioso, mas o samba de Zé Catimba e parceiros o redimiu. Nem as vozes enjoadas da primeira passada conseguem comprometer a beleza da melodia e da letra. E logo chega a segunda passada, com a bonita interpretação de Marquinhos Art?Samba, confirmando a pujança desse gênero musical que insiste em nos surpreender.

Surpresa maravilhosa é também o samba do Salgueiro. Gente, o que é aquele refrão final? É de ressuscitar múmia, coisa de louco... Já no início, prudentemente, se pede licença ao povo da rua e entre lua e estrelas a descrição da indumentária do malandro, de chapéu, terno de linho e sapato bicolor, nos mostra a ginga de um mestre-sala que corteja as madrugadas. Vem a força do refrão do meio e depois a riqueza melódica de um passeio que culmina por uma surpreendente mensagem de paz, precedida do belo verso "Quem me protege não dorme". Não há mais dúvida: lá vem Salgueiro!

Foto: Reprodução de Internet

Tal qual a Imperatriz, a Unidos da Tijuca tem também um samba limonada: de um enredo amargo, extraiu um bonito samba. Com citação quase explícita ao samba anterior da escola, é a melodia rica e dolente que chama para si a atenção do ouvinte, que quase esquece os lugares-comuns a que a letra recorre. É um samba bonito, que honra as assinaturas ilustres que leva.

Ilustres são também os nomes que assinam o samba de enredo da Vila Isabel, terra de poetas. E não decepcionam a grife Vila Isabel. No samba se misturam folguedos e palavras de ordem de forma harmônica e emocionante. A alegria da gente sofrida, a beleza de uma cultura que é resistência, acho que a mistura de tudo isso deixaria Miguel Arraes feliz.

Ter num mesmo disco quatro obras dessa qualidade já nos deixaria apaziguados com o gênero samba de enredo. Mas não para aí. Portela e Mangueira também capricharam e nos proporcionam momentos de alegria e emoção. Nas asas da águia protagonista, uma lição de autoconfiança, indo também buscar em citações de sambas do passado ("nas asas da poesia", "abre a janela pro mundo que Paulo criou") a força necessária para acrescentar a seu pavilhão mais uma estrela. Mangueira consegue trazer um samba que mescla a força e a doçura da homenageada no ótimo enredo. Não falta poesia, não falta misticismo, não falta força, tudo em boa medida. Anima o componente, agrada aos analistas e é uma delícia para cantar e sambar. O estreante Ciganerey, com a difícil tarefa de substituir insubstituíveis, se sai mais do que bem, prenunciando um bom desfile.

A Beija-Flor também se sai a contento no processamento de seu enredo em samba. Um enredo sem maiores encantos vira um samba de boa qualidade. O refrão do meio é a parte mais impregnada da tradição da escola, o que nos dá a sensação de algo muito familiar ao ouvido. Mas a segunda parte, que se segue a ele, é forte, muito mais em melodia do que em letra, para desembocar no refrão final, autorreferenciado, perdendo precioso espaço para descrever o enredo (ou não há tanto assim a descrever?).

Sete bons sambas, sem dúvida. Mais da metade do disco. Lucro para quem ouve. Dos cinco restantes, os de São Clemente e Estácio de Sá são perfeitamente passáveis, só não podendo ser ouvidos muitas vezes seguidas, porque geram monotonia e a sensação de mesmice. A Mocidade Independente, que tem um bom enredo, na minha opinião não foi feliz na escolha do samba, mas se fizer um grande carnaval, quem sabe se salva?

Grande Rio e União da Ilha confirmam a máxima de que sinopses fracas geram sambas fracos. Não é todo dia que os milagres acontecem. Seria esperar demais dos seus protetores dos sambistas. Mas estamos no lucro, com uma safra muito boa e a sensação de que nem tudo está perdido.

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


2 Comentários | Clique aqui para comentar

17/12/2015 19h23

Eu só queria entender...
Rachel Valença

Há coisas que eu vou morrer sem entender. Uma delas é por que a Liesa, que representa todas as escolas do Grupo Especial, não defende os interesses de todas de forma igualitária. Exemplo: acaba de ser anunciado que a Rede Globo, que tem contrato de exclusividade de transmissão do desfile das escolas de samba, não transmitirá ao vivo o desfile de quatro agremiações filiadas à Liesa.

Só para entender: em quê Estácio, União da Ilha, Vila Isabel e Salgueiro diferem das demais oito? Se a transmissão do desfile é negociada entre a Liesa e a Globo, que interfere até no horário de início da festa, por que motivo nossa Liga permite que quatro de suas filiadas sejam tratadas como mercadoria de segunda classe, com seu desfile compactado em 20 minutos?

Foto: Reprodução de Internet

Bem sabemos o enorme sacrifício que as escolas de samba vêm fazendo, em meio a uma reconhecida crise, para proporcionar ao público um espetáculo à altura das expectativas. Não é novidade, também, que a transmissão representa para a maioria das pessoas a única possibilidade de assistir ao desfile, já que os preços dos ingressos são incompatíveis com orçamentos combalidos. Se a poderosa Rede Globo não se interessa em transmitir o desfile todo, por que motivo negocia exclusividade? É simples. Porque sabe que, se outra emissora transmitir, sua programação será preterida. Assim foi, no passado, quando a Rede Manchete e a TVE tinham coberturas que davam um banho na Globo. Enquanto não detonou essas transmissões, a Globo sossegou.

Convenhamos: além de muita arrogância, é um desrespeito ao carnaval e ao samba do Rio de Janeiro. A tradução literal desse gesto é: "Eu tenho dinheiro, eu posso pagar, é meu direito não transmitir. Pago para que ninguém possa assistir!".

Que a Rede Globo pense e aja assim não me surpreende. O que não posso entender é por que as escolas de samba, por intermédio de sua entidade representativa, aceitam isso? Lembro-me dos debates a que assistimos durante o evento Carnavália-Sambacon deste ano. Num deles, numa mesa em que se tratava justamente da transmissão, quando severas críticas foram feitas à Globo, o presidente Jorge Castanheira, sempre educado, afirmou: "A Globo não é um mal, é uma grande parceira das escolas de samba". Desculpe, presidente, com todo o respeito pergunto: não é um mal para quem? Salgueiro, Estácio, Vila Isabel e União da Ilha, será que também a consideram parceiras?

Creio que quando fazemos um contrato de concessão, não levamos em conta apenas valores, pensamos na qualidade do serviço que será prestado. Na hora da assinatura, não se impõe como condição a transmissão da íntegra do espetáculo? Não se prevê uma multa por escola que deixe de ser transmitida? Afinal, quais os interesses que a Liesa defende, os da Globo ou os das suas filiadas, de todas elas? Há muito tempo percebo que não são os interesses do público em geral que ela defende, mas já nos acostumamos a isso. Mas trair os interesses das próprias escolas que a compõem já é demais.

Pelo visto, não há cláusulas que nos protejam de tamanho desrespeito. Só nos resta protestar com todas as forças e mostrar que não foi em vão a luta de Paulo da Portela, de Candeia e tantos outros para que o samba fosse respeitado.

Leia mais sobre o assunto:

- Desfiles da Estácio, Vila, Ilha e Salgueiro não serão transmitidos na TV

- Medo? Sobre a não transmissão: escolas evitam falar sobre o assunto

- Cultura popular rendida: desfiles de escolas tradicionais fora da TV

- Carnaval 2016: transmissão atravessada

 

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 



27/11/2015 12h03

'O Mago das Cores'
Rachel Valença

Desde 1966, o Museu da Imagem e do Som vem registrando depoimentos de vultos marcantes de nossa cultura. Hoje, são mais de mil depoimentos gravados: antigamente em áudio, hoje em áudio e vídeo. O que muita gente não sabe é que a série Depoimentos para a Posteridade abriga preciosos documentos de sambistas, que ajudam a reconstituir a fantástica trajetória do gênero.

Lá João da Baiana, Ismael Silva, Natal da Portela e muito mais gente nos relatam fatos curiosos, heroicos, pitorescos, comoventes. Material indispensável para entender como se formaram e como evoluíram as escolas de samba cariocas.

Foto: Caru Ribeiro

Mas o samba não é só passado. Ele está vivíssimo e urge documentá-lo. Daí os Depoimentos para a Posteridade continuarem a registrar, ao lado de gente de teatro, cinema, TV, dança, música popular e clássica, literatura, artes visuais, também depoimentos de pessoas que na atualidade fazem Carnaval. Ano passado lá esteve Rosa Magalhães. Esta semana foi a vez do veterano Max Lopes gravar seu depoimento. Engraçado, denso, emocionante e muito importante.

Desde sua estreia na pequena Unidos de Lucas em 1976, obrigado a lidar com uma escola ainda convalescente de uma fusão desastrada entre Aprendizes de Lucas e Unidos da Capela, totalmente carente de recursos, Max aprendeu a conviver com a adversidade, mas sem perder jamais a alegria. Sem ela, não há Carnaval. Seu relato mescla a sujeira, a pobreza, a precariedade dos barracões da fase heróica das escolas de samba a histórias engraçadas, picantes e irreverentes, que seu inquebrantável bom humor guardou por tantos anos.

Em meio a tudo isso, muitos assuntos importantes foram tratados: em que medida o carnavalesco deve se envolver na escolha do samba de enredo; como lidar com a questão do patrocínio, que, se dá ao artista mais recursos para pôr em prática suas ideias, em compensação muitas vezes cerceia sua criatividade com a imposição de enredos absurdos, como o da Mangueira em 2005; a eventual necessidade de dialogar com o poder paralelo que tenta dominar algumas das comunidades em que se faz samba; e até a importância da iluminação para a beleza de um carro alegórico. O que fica patente é quão vária e absorvente é a atividade de um carnavalesco.

Foto: Caru Ribeiro

A este tijucano de família avessa ao samba, ex-aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, que deu seus primeiros passos no Carnaval como passista no Salgueiro, e que foi, como tantos outros, aprendiz do mestre Fernando Pamplona, nunca faltou coragem para enfrentar dificuldades de toda ordem.

O que salta aos olhos é uma incrível capacidade de convencer os que o cercam de suas ideias: ritmistas que se recusam a usar certa indumentária ou determinada cor, presidentes que teimam em não enxergar o caminho a seguir ou o samba a escolher, e tantas outras situações que se repetem no cotidiano das escolas. Max foi corajoso e inovador ao ousar mexer e brincar com as sagradas cores da Estação Primeira, escola em que fez dez Carnavais, sagrando-se por duas vezes campeão (1984, o supercampeonato, e 2002). A coragem lhe valeu o título de Mago das Cores.

Afora esses dois títulos, foi campeão pela Imperatriz Leopoldinense com "Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós", deixando em segundo o antológico "Ratos e urubus" de Joãosinho Trinta. Curioso que, desse desfile, o carro de que fala com mais entusiasmo não é do espetacular cavalo que todos guardamos na memória, mas sim o da águia, símbolo da República, que tanto mexeu com os brios portelenses...

Até mesmo os episódios mais dolorosos, como o do enredo Lamartiníada, que preparava para o Salgueiro para o Carnaval de 1979 e que acabou migrando para a Imperatriz em 1980, mas com outro título e outro carnavalesco - episódio que o afastou do Carnaval, desgostoso, por alguns anos - não são narrados com ressentimento. Só com emoção e uma lágrima furtiva. Max está de bem com a vida. Fala com orgulho de tudo que sua arte lhe deu: além de bens materiais, a alegria de trabalhar em equipe e de poder dividir com outros aquilo que aprendeu. E conta que gosta de desfilar fantasiado, no meio da escola. Segundo ele, na hora do desfile o carnavalesco não faz falta.

Sabe que ele tem razão? O que anda fazendo falta não é carnavalesco mostrando seu poder e sua sabedoria: é o amor ao Carnaval, a alegria de brincar, de participar, de se fantasiar, de sambar no pé. Tudo que Max Lopes mostrou ter de sobra.

Foto: Caru Ribeiro

- Confira outros textos da blogueira Rachel Valença

- Clique aqui e leia tudo sobre o Carnaval carioca

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?


1 Comentários | Clique aqui para comentar

04/11/2015 13h55

Encantadora e feliz
Rachel Valença

Estou devendo aos meus leitores um relato da final de samba da Imperatriz, acontecida há uns 15 dias. Mas andei enrolada, a ponto de ter sido chamada de arrogante por um pesquisador que me pediu ajuda pelo Facebook e eu demorei dois dias para responder. Falta-me tempo, muito tempo.

Em falta, sobretudo, com os torcedores da Imperatriz, em especial com o muito querido Marcos Paulo, meu informante fiel, há anos, sobre todas as eliminatórias de sambas da escola de Ramos. Suas análises são perfeitas e isentas. Na hora de escolher um samba para torcer, ele se deixa levar única e exclusivamente pela qualidade: não tem amigo, não tem parente, não tem política. A ele só interessa um bom samba pra sua escola.

Parceria de Zé katimba. Foto: SRZD-Cristiane Moraes.

A final da Imperatriz foi a última da agenda 2016. Talvez por isso, estava muito cheia. Todo mundo parecia querer se despedir dessa etapa tão agradável e tão marcante do Carnaval, que é a escolha de sambas. Não é por acaso que vem gente de fora do Rio nessa época só para participar de umas três ou quatro finais. O chamado "mundo do samba" compareceu em peso à Imperatriz. Dava a sensação agradável de quadra cheia, mas não inviável. E eu me senti numa quadra de escola de samba.

Como é bonito ver uma quadra de escola de samba! Para quem é do tempo em que o centro da quadra era o espaço das pastoras e ninguém ousava invadi-lo, foi emocionante apreciar a evolução dos segmentos no centro da quadra: baianas, velha-guarda, uma harmonia atuante, coisas que, em finais de disputa de samba de enredo nas escolas do Especial, se tornaram raridade.

O único senão, para mim, foi a iluminação. Uma luz de boate, que nada tem a ver com o samba, mas que deve agradar aos modernos. Vá lá! Se é indispensável fazer concessões, que seja à iluminação. Porque o repertório foi impecável, começando pelo samba exaltação "Rainha de Ramos" ("Quem não sabe o que é o amor/ Não sabe o que é ser feliz"), passando pelos belos sambas antigos da escola e chegando aos mais recentes, com grande adesão do público presente.

Um capítulo à parte foi a apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira, pois era a estreia do mestre-sala Rogerinho na escola. Muito bom o seu entrosamento com a porta-bandeira Raphaela, que usava um figurino country, muito de acordo com o enredo. E tudo sob as bênçãos dos imortais Maria Helena e Chiquinho, que deram seu show, para mostrar que não perderam nem perderão jamais a majestade.

No mais, a apresentação dos sambas concorrentes não fugiu ao que hoje se vê. Torcidas enormes, adereços de mão caprichados, palco lotado e muita animação. O resultado? Não podia ser melhor. Alegria geral. A escola tinha em sua safra deste ano uma obra-prima. Ignorá-la seria um crime. Mesmo com um enredo de qualidade discutível, mais uma vez a Imperatriz chegará, "encantadora e feliz, fazendo o povo sambar".

- Confira outros textos da blogueira Rachel Valença

- Clique aqui e leia tudo sobre o Carnaval carioca

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?


1 Comentários | Clique aqui para comentar

13/10/2015 13h53

A final do Salgueiro
Rachel Valença

Noite de grandes emoções no sábado passado no Salgueiro. A quadra, lotada, não oferecia boas condições de trabalho, desde a entrada, muito tumultuada, com espaços mal sinalizados para o pessoal da imprensa. A cortesia não era o forte no acesso à querida escola. Mas, uma vez lá dentro, era bonito de se ver. Não havia espaço para nada e você pensa por um momento que o samba está realmente em alta. Logo depois, cai na real. Quem está ali não é necessariamente sambista: procurou uma casa de espetáculo onde até 2 horas a variedade de ritmos e de performances é grande. Tudo bem, são ritmistas e passistas, mas tocam e dançam de tudo, e samba mesmo só um pouquinho, para não cansar o público tão eclético.

Desde o início, deu para perceber que não havia preferência definida. Em conversas e entrevistas, a quadra estava oscilando entre os dois finalistas. A apresentação do primeiro samba, de Marcelo Motta e parceiros, foi, porém, avassaladora. Os torcedores cantaram com muito vigor um samba valente. A torcida improvisava coreografias e na última passada, quando toda a quadra abaixou bandeiras e bolas e simplesmente cantou, deu para emocionar e, se não me engano, para ver Zé Pelintra sambando no meio da quadra do Salgueiro.

O segundo samba, de Gonzaga e parceiros, apresentou uma torcida numericamente bem inferior ao primeiro. Mas é um samba de forte apelo popular, com citações interessantes, remetendo ao samba de Jorge Aragão ("Malandro, eu ando querendo falar com você") e até a Silas de Oliveira ("Agora que eu quero ver/ quem é malandro não pode correr"), samba de terreiro que adquirir força de ponto de umbanda. Mas o trecho mais inspirado da letra, ("Salgueiro tem um jeito assim, de chegar tão mansamente e tomar conta de mim") toca o coração do componente e muita gente dava preferência a este samba justamente por causa desses versos. Era um samba ousado na melodia, e ousadia e Salgueiro têm tudo a ver. Portanto, a briga era feia.

Samba mesmo, do jeito que a gente gosta, houve entre as apresentações dos concorrentes e o anúncio do resultado. O magnífico repertório de sambas de enredo do Salgueiro foi todo visitado. Leonardo Beça e seus companheiros do carro de som desfiaram um rosário de maravilhas, mesclando o passado e o presente sem distinção, tudo bem sabido e bem cantado. Entre o fim da apresentação do segundo samba e o resultado se passou bem mais de uma hora, mas o tédio e a impaciência foram amenizados por esta audição maravilhosa.

Por que tanta demora? Os boatos corriam soltos. Teve gente indo embora na certeza de que haveria confusão. Pois estava correndo na internet a declaração de um compositor já cortado, garantindo que o samba de Gonzaga seria escolhido por razões extra samba. E a reação não se fez esperar: a conversa de que, se o samba de Motta não fosse o escolhido, haveria protesto "da malandragem", que não era a do enredo 2016.

Mas chegou a hora do anúncio do resultado e não teve para mais ninguém: a noite foi da presidente Regina Celi. Disse que não pretendia falar, apenas anunciar os resultados, mas falou e muito. E bem. Uma fala cheia de verdade, em primeiro lugar sobre o constante desrespeito do mundo do samba à mulher. Meu Deus, como ela está certa! De uma dirigente mulher cobram falhas que são permitidas e perdoadas aos homens. Afirmou que os ritmistas fazem a diferença no carnaval. Outra grande verdade, sempre esquecida. Falou depois da solidão do poder, que deve ser compartilhado nos momentos agradáveis, mas está sozinho para enfrentar as dificuldades. Ponto para ela: no mundo do samba, no poder só é bom quem nos favorece. Se ganhamos, foi por nossos méritos e a disputa é limpa. Se perdemos, tudo lá é podre e tome calúnia nos dirigentes. E completou abordando a covardia que é ser atacada anonimamente, por pessoas que não se assinam e não mostram a cara. Terminou com uma frase emblemática do que é hoje a disputa: "Marcelo Motta, o samba é teu!" Faz pensar.

Não sabemos e jamais saberemos o que se passou nos bastidores dessa noite de fortes emoções. Teria havido mudança de rumo na decisão? Seria esta motivada pela qualidade da apresentação, pela preferência da quadra e dos ritmistas da Furiosa, ou por razões menos nobres? Não se sabe. O certo é que o Salgueiro saiu lucrando, porque ter um componente de bem com seu samba é um capital precioso na guerra de fevereiro. Um samba de qualidade. Se observarmos, sua estrutura é clássica: começa com uma invocação, um pedido de licença ("Salve o povo de fé, me dê licença", seguido de sua proposição e apresentação: "eu sou da rua" , "o rei da noite eu sou", "de linho branco vou me apresentar". O clássico em versão moderna. Tranquilamente a presidente Regina poderia ter anunciado: "Salgueiro, este samba é teu".

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


1 Comentários | Clique aqui para comentar

08/10/2015 08h51

O cardápio de samba nas telonas
Rachel Valença

Sempre que me é dado ver o samba em um contexto que não é o seu me decepciono. Não há nada mais sem graça do que roda de samba na TV, por exemplo. Parece forçado, sem aquela maravilhosa espontaneidade que é exatamente o que nos cativa. Novela em que aparece o mundo do samba é sempre uma coisa meio artificial, com lances inverossímeis. Romance ou conto sobre o universo do samba nunca convencem a gente, que é de samba mesmo. É pena, porque o samba merece ser mostrado. Nós, que gostamos de samba, adoramos vê-lo aparecer. Mas sempre saímos um pouco frustrados, achando que a realidade é um pouco mais do que ali se vê. Talvez, como disse o poeta, "é um pouco mais/ que os olhos não conseguem perceber".

Só que samba é parte de nossa cultura e não pode ficar numa redoma. Fico feliz quando, tal como recentemente, há filmes sobre nosso mundo do samba para ver. E corro para o cinema. Fui assistir ao documentário Damas do samba, que faz jus ao importante papel desempenhado pelas mulheres na ascensão do gênero, apesar do ambiente de preponderância masculina e ideário machista. A diretora Susana Lira vai mostrando os diversos segmentos em que a mulher atuou e atua dentro do universo do samba, sem exagero nem proselitismo.

Foto: DivulgaçãoOriundo de uma cultura matriarcal, o samba se organiza em torno das baianas quituteiras que abriam suas casas às práticas religiosas e aos folguedos. Delas, Tia Ciata é o símbolo maior. Em várias comunidades, ao longo do século XX, as mulheres tiveram papel decisivo e isso é mostrado em alguns depoimentos e imagens do filme. Mas nenhuma tem a força da cena em que Suluca da Mangueira mostra com seu corpo esguio de 88 anos o que é sambar: "Ó o pé! Ó barriga!" Não usa cílios postiços, não cola paetês abaixo das sobrancelhas, não usa saltos altíssimos nem brilhos nem plumas. Os chinelinhos rasteiros e os trajes do dia a dia que cobrem a barriga conseguem mostrar mais samba do que todo o aparato das bonitonas que a precedem no filme. Coisa linda de se ver. Suluca é para mim a rainha do documentário.

Na semana seguinte voltei ao cinema para assistir ao documentário O samba, do Georges Gachot, um francês que seguiu Martinho da Vila por dois anos e tem como principal proposta mostrar que o samba não é só carnaval, como ele próprio acreditava antes. Para nós, que já sabemos disso há muito tempo, o filme não tem o mesmo interesse que tem para estrangeiros. Na sessão em que assisti, uma senhora animada que cantava os sambas acompanhando Martinho, retirou-se no momento em que ele mostra um chuchu e esclarece: "isso é um chuchu!". Foi demais para ela - ou simplesmente tinha um compromisso inadiável? Não sei dizer.

Mesmo assim, há momentos lindos. A interpretação de Disritmia com a filha Maíra ao piano é de chorar. Como emociona o momento em que um garoto pequeno entoa sem qualquer acompanhamento o "Semba de lá que eu sambo de cá". Assim como há emoção e verdade na cena em que mestre Wallan entrega as fantasias aos ritmistas para o desfile, todos cantando com garra o samba de enredo. Já vi esta cena fora da telona, ela acontece e dá nó na garganta.

O documentário foi exibido no Festival do Rio do ano passado e agora está no circuito comercial. Não o vi então, pude vê-lo agora. Em 2014, no mesmo Festival, assisti ao maravilhoso Samba & Jazz, de Jefferson Mello. Este sim me tirou o fôlego. Trata-se, como o nome sugere, de uma feliz comparação entre os dois gêneros, não no aspecto musical, mas nos aspectos culturais: a matriz africana comum, presente na musicalidade, na indumentária, na gastronomia, na religião e no culto à tradição.

A alternância do uso do preto e branco e do colorido, a sutileza das entrevistas ao abordar temas como o racismo e a desigualdade social e a música como caminho para a cidadania formam um conjunto de qualidades que fazem desse documentário uma joia valiosa que consegue ser leve como o próprio samba sabe ser.

Quisera eu que toda semana o cardápio cinematográfico me oferecesse algo sobre samba. É bom de ver, porque sempre há densidade, mesmo que nem de longe comparável ao que o samba nos oferece ao vivo.

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 



28/09/2015 09h08

Malandros, palhaços e quixotes
Rachel Valença

O carnaval nos chega em pílulas. Primeiro se anunciam os enredos. Depois chegam as sinopses. A seguir vêm os sambas, muitos. Uma peneira seleciona o melhor em cada escola. Nem sempre o melhor, mas deixa pra lá... Conhecidos os sambas, despontam as alegorias, surgem os figurinos, nossa imaginação trabalha sem parar. Os figurinos viram protótipos. Os ensaios nas quadras nos falam da motivação dos componentes, do desempenho da bateria e do intérprete, da competência da harmonia, dos casais de mestra-sala e porta-bandeira, dos passistas. Os ensaios técnicos são uma prévia de coreografias e vislumbramos alguns segredos. Até que, enfim, chega o grande dia.

Pois é, neste fim de setembro, início de primavera, o que há para o momento são as sinopses. Já as comentamos em gravação, mas ali o tempo nos limita e a análise acaba incompleta. Por isso, volto a elas.

As sinopses são, na verdade, caixas-pretas que guardam segredos indevassáveis. Portanto, boa sinopse não é garantia de bom desfile, nem sequer de bom samba. Mas ajuda um bocado. E nós, amantes do carnaval, amamos lê-las e analisá-las, viajando nas possibilidades, soltando a imaginação. Confesso que tenho prazer em ler sinopses e até em escrevê-las, o que já fiz algumas vezes.

Foto: SRZD - Adriana Vieira

Este ano há excelentes sinopses. Daquelas que dizem mais do que está escrito. Vibrei com a da São Clemente, "Mais de mil palhaços no salão", de Rosa Magalhães. Erudita e histórica sem ser chata, dá ao compositor elementos para antever o que será o desfile. E sugere, sem impor, elementos de nossa cultura popular para enriquecer a trajetória que, remontando à Idade Média, poderia tornar-se pesada.

A sinopse da Portela não lhe fica atrás. "No voo da águia, uma viagem sem fim", é uma proposta cheia de novidade. É a águia, tradicional símbolo da escola, que comanda a "viagem", desde a mitologia e a epopeia clássica, passando pelo relato bíblico em direção à história, ao presente e até ao futuro. Tudo claro, poético e ousado, com bons ingredientes para um samba de qualidade. E a assinatura de Paulo Barros, precedida pela valorosa equipe da Casa da Ciência de UFRJ, que o acompanha há anos.

Outra linda surpresa nos vem de Padre Miguel: "O Brasil de La Mancha: Sou Miguel, padre Miguel. Sou Cervantes, sou Quixote Cavaleiro, Pixote brasileiro". Como é simpática a diversidade! Num momento em que os enredos de cunho social estão esquecidos, é muito ter esta proposta bem estruturada, que passa por várias citações literárias para chegar ao Cavaleiro Andante de Vila Vintém, atrás de sua estrela-guia. Uma forte esperança de desfile inovador.

Há também boas sinopses. A do Salgueiro faz justiça ao enredo, uma ideia muito feliz dos carnavalescos, que tem tudo a ver com a escola da Tijuca, suas cores e tradições. A da Vila Isabel, uma opção acertada pelo viés cultural para falar do centenário de um político, o que nem sempre dá samba. Miguel Arraes é apresentado juntamente com o que de melhor proporcionou a seu povo, associado a nomes como Ariano Suassuna e Paulo Freire. Promete.

Boa é também a sinopse da Imperatriz. Quem torceu o nariz para o enredo "É o amor... Que mexe com a minha cabeça e me deixa assim, sobre a dupla Zezé de Camargo e Luciano, já está quase reconsiderando ao ouvir a safra de sambas de qualidade que a sinopse gerou. É uma sinopse longa, em versos, o que nem sempre funciona, mas muito estimulante.

A sinopse da Estação Primeira desvenda o propósito de dar ao enredo sobre Maria Bethânia um viés místico e religioso que o diferencia da homenagem anterior, aos Doces Bárbaros, em 1994, de triste memória para a escola. Dessa vez, outras palavras... E parece que inspiradoras, a julgar pela safra de bons sambas disponíveis.

As demais sinopses não conseguem transcender a mesmice que lhes é imposta por enredos pouco originais. Oxalá redundem em bons desfiles, mas por enquanto não dá para vislumbrar essa possibilidade, pois o caminho escolhido é o da repetição: cidades encantadas, personagens batidos e efemérides esportivas já mostraram seu fraco potencial. Raramente rendem sequer uma boa sinopse.

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 



11/06/2015 14h29

Paixões fora de controle
Rachel Valença

O magnífico texto de meu colega Hélio Rainho em seu blog aqui no SRZD-Carnaval e o desagravo promovido pela Portela em sua feijoada no último fim de semana me fizeram refletir mais profundamente sobre o lamentável episódio da vaia à Velha Guarda da Beija-Flor na festa de entrega do Prêmio S@mbanet há dias. É claro que a vaia é abominável e no presente caso inteiramente sem cabimento, porque a Velha Guarda não pode ser responsabilizada pelas razões de descontentamento da maior parte dos sambistas em relação ao resultado do carnaval passado. Aliás, nem a escola de samba Beija-Flor mereceria essa vaia, pois seus componentes, em geral, nada têm a ver com uma pretensa injustiça ou até com uma possível manipulação do resultado.

E - interessante - nunca vejo os poderosos dirigentes das escolas, que entre si arquitetam as trapalhadas lamentáveis a que assistimos impotentes, serem vaiados. Como nunca vi os tenebrosos ditadores dos anos de chumbo receberem uma vaia. Mas vejo a atual presidente do país, que acaba de ser reconduzida ao cargo em eleições livres e democráticas, ser alvo de repúdio manifesto em vaias por parte daqueles que não gostaram de sua eleição. Os ditadores não eram eleitos, tínhamos de engoli-los, mas quem tinha coragem de vaiar?

Foto: SRZD

Vaiar a Velha Guarda é uma covardia. E foge a uma característica que sempre me agradou nas torcidas de escolas de samba e que se contrapõe ao que ocorre com as torcidas de clubes de futebol: enquanto estas últimas são briguentas e impiedosas para com seus adversários e rivais, os torcedores de escolas de samba são apaixonados por sua escola e também pelo espetáculo em geral. São capazes de apreciar um bonito desfile, de curtir um bom samba, embora às vezes prefiram manter um aparente desinteresse, um desdém superior. Mas respeito é a palavra que está na origem de todas as agremiações e que seus torcedores adotaram.

Isso é bonito. Trata-se sem dúvida de uma disputa, em que ninguém é "bonzinho", mas é de arte que estamos falando e a sensibilidade fala mais alto. Nossos leitores aqui, por exemplo, são muito apaixonados, brigam entre si, brigam conosco, mas tenho certeza de que não seriam capazes de vaiar sambistas, seus iguais.

O que dá para enxergar nesse episódio é a saturação do público em relação à falta de coerência e de transparência nos resultados. Saturação que extravasou de forma equivocada e infeliz, incidindo sobre quem não tem nada com isso. Mas uma saturação que precisa ser encarada e analisada por quem administra o carnaval, porque quase certamente ela é responsável por uma queda de interesse e de participação.

Foto: Reprodução de InternetVolto ao futebol. Assistimos nos últimos dias a uma vergonhosa intervenção na FIFA, a mesma FIFA que antes da Copa de 2014 era a carrasca do Brasil, ameaçado de um chute no traseiro ou algo semelhante, por não estar conseguindo acompanhar o "padrão FIFA". Depois da derrocada (e em alguns casos antes), muitas vozes apontaram erros administrativos paralelos à corrupção. Da mesma forma, muitas coisas erradas saltam aos olhos na administração do carnaval, mas os dirigentes parecem não enxergá-las. Um exemplo: a capacidade da passarela do samba foi quase duplicada depois da derrubada do prédio da Brahma e de uma obra custeada pelo poder público. Oba!

Se haverá mais ingressos para vender, os preços cairão, democratizando o acesso ao desfile. Não foi o que aconteceu. Os preços foram mantidos e os ingressos começaram a sobrar. Antes eram rapidamente esgotados, agora ficam sendo oferecidos, mas o povão não pode fazer milagre, não tem como comprar.

Também a negociação do direito de transmissão por TV, ao que tudo indica, não tem sido conduzida de forma a dar prioridade ao interesse do público que não tem acesso à Avenida, porque a emissora o adquire para só transmitir o que quer. Quem perde com isso? O público. Que talvez nem tenha consciência desses e de outros problemas (como a fragilidade do julgamento), mas que tem a sensação, aí sim, de que alguma coisa não vai bem. E reage de forma irracional e precipitada, fazendo recair o ônus, mais uma vez, sobre os próprios sambistas.

Por tudo isso, nunca é demais debater e analisar os temas de nosso interesse, porque entender é imprescindível para agir em benefício próprio. Amamos o carnaval das escolas de samba, queremos que seja melhor a cada ano. Vaiar uma Velha Guarda não contribui em nada para isso.

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?


18 Comentários | Clique aqui para comentar

01/06/2015 15h09

Glórias e aflições das porta-bandeiras
Rachel Valença

Há uma semana estou querendo escrever sobre a tarde maravilhosa que tive na sexta-feira, dia 22. Era o encerramento da Semana de Museus, comemorada em todo o país, e o Centro Cultural Cartola, que hoje ostenta com muita honra e todo merecimento o título de Museu do Samba, comemorou de maneira muito bonita, reunindo para um debate as porta-bandeiras de nossas escolas de samba.

Convidada para mediar o debate, preparei uma pauta com onze questões que me pareciam capazes de esquentar o debate e trazer à baila assuntos que quase nunca são comentados, mas que tinha curiosidade de saber o que pensavam sobre eles nossas divas.

O encontro foi um sucesso. Em primeiro lugar porque havia 97 pessoas na plateia, num auditório de 80 lugares. Cadeiras extra, arranjadas às pressas, atestavam o interesse que despertam esses encontros, porque o horário, na tarde de um dia útil, nem era dos mais convidativos. Plateia, aliás, altamente qualificada, participante e interessada. Mas a verdade é que o sucesso era todo das nove musas que se apresentaram, aceitando o convite. Isso mesmo, nove porta-bandeiras. Esse número me surpreendeu muito, porque em geral convidamos muita gente e acabam vindo só duas ou três. Naquele dia eram nove. Sucesso garantido!

Foto: Divulgação

Tínhamos desde veteranas, como Giovana, Lucinha Nobre e Ruth, até principiantes como Camilinha Nascimento, Roberta Freitas e Dandara Ventapane. Lá estavam também a bem-humorada Denadir, a encantadora Shayene e a articuladíssima Squel.

Vários assuntos foram abordados: a questão da profissionalização, uma das mais polêmicas, deu margem a que as meninas expusessem por que já não é possível o amadorismo, numa atividade que exige dedicação integral, não só na época dos ensaios, perto do carnaval, mas o ano todo, em shows e apresentações, para as quais é preciso estar vestida, maquiada e penteada à altura. E tudo isso custa caro. Uma queixa geral: muitas vezes o evento é anunciado sem a devida antecedência, o que algumas consideram um desrespeito à sua vida pessoal. Se têm família, se estudam, se estão indispostas - nada é levado em conta.

Da quantidade de ensaios não reclamam. Querem brilhar, dar o melhor de si. Perto do carnaval os ensaios se intensificam, na quadra, na Avenida, em espaços alternativos. Tudo bem. Mas nem todas aprovam a atual moda de "ensaiadores" do casal, às vezes pessoas que conhecem menos da dança do par do que elas próprias.

E já que falamos em par, foi inevitável levantar a questão de com quem se dança. É bom trocar de par ou é melhor manter o mesmo mestre-sala facilitando o entrosamento? Aí também as opiniões variaram: Giovana declarou que sua parceria com o mestre-sala Marquinhos é como um casamento, os dois se entendem só na troca de olhares. Lucinha já teve par fixo, mas isso lhe causou problemas. Mas num ponto todas concordam: na escolha do mestre-sala, a opinião da porta-bandeira deveria ser ouvida. O que quase nunca acontece.

E na fantasia? Porta-bandeira deve opinar? Opina? Respostas variadas. Deve, é claro, se sentir bem com uma roupa para que ela não comprometa seu desempenho. Os carnavalescos foram poupados de críticas contundentes, mas os ateliês de criação, executores das fantasias, muitas vezes se revelam intransigentes. E o assunto acaba indo parar no ouvido dos presidentes, que raramente deixam de apoiar suas porta-bandeiras, pois seria perigoso pôr em risco a nota quase individual que elas garantem.

Foto: Divulgação

Ah, os presidentes! Foram elogiados, criticados, endeusados, abominados, numa profusão de histórias divertidas ou trágicas. Não parece ser fácil esta relação, e quase todas tinham casos para relatar: a demissão sem respeito, o calote, as fofocas. E no caso de mudança de escola, muitas vezes a dor de abandonar um pavilhão amado e vê-lo passar em outras mãos. Nos tempos de hoje, faz parte. O coração de uma profissional não tem direito a bater mais forte por causa das cores de uma bandeira que não está carregando.

Muito se falou em questões de ética e de postura. Nos tempos atuais, em que o troca-troca parece uma realidade irreversível, é preciso saber respeitar para ser respeitada e por isso o debate transcorreu em clima de parceria e camaradagem, a que não faltaram umas farpinhas e indiretas. Mas ninguém queria briga, de modo que elas caíram no vazio.

O assunto julgamento foi uma grande surpresa. Notas e justificativas em geral são aceitas com humildade, embora uma vez ou outra as injustiças doam. Mas ler as justificativas e delas tirar lições parece ser uma constante. Mormente quando essas notas vêm de julgadores que construíram uma reputação de seriedade e de correção.

A maior surpresa para mim veio no final, quando cada uma das participantes foi convidada a falar sobre o que significava para ela ser porta-bandeira. As meninas revelaram um grau de conscientização muito alto sobre a responsabilidade social, dentro da comunidade, dessa personagem carismática que é a porta-bandeira, a quem é dada a honra de apresentar o símbolo maior da escola, a bandeira. As lágrimas da jovem Dandara, no posto há pouco tempo, falaram mais do que palavras. E se quiserem saber mais confissões, visitem as páginas - cheias de seguidores - dessas musas da dança e da paixão carnavalesca. Quase todas comentaram o nosso encontro com mais talento do que eu.

Foto: Divulgação

Curta a página do SRZD no Facebook:


1 Comentários | Clique aqui para comentar

23/05/2015 14h32

O que devo ao SRZD-Carnaval
Rachel Valença

O SRZD está completando nove anos. Não tenho todo esse tempo de casa, mas me lembro bem de minha chegada a essa família, em 2011. Estava no metrô, a caminho do trabalho, quando meu celular tocou. Naquela época o sinal no metrô era bem pior do que hoje, por isso escutava com certa dificuldade. Ouvi: Rachel, aqui é Sidney Rezende. Pensei que ouvira mal. Por que Sidney Rezende me ligaria? Mas a voz inconfundível me tirou qualquer dúvida: Era mesmo Sidney Rezende e queria conversar comigo sobre um novo projeto.

No dia seguinte conversamos pessoalmente. Começava o SRZD-Carnaval e eu estrearia como blogueira no dia 1º de maio de 2011. Do grupo inicial de blogueiros sou a única remanescente, o que me coloca na privilegiada posição de "decana" desse grupo. Achei muito atraente a ideia de escrever periodicamente sobre o assunto que preenche minha vida e é minha maior paixão. Ainda acho. Não que não tenha havido momentos de dúvidas e aflições. Como tudo que nos dá orgulho e alegrias, o SRZD-Carnaval também me deu decepções e dores de cabeça. Foram incompreensões, xingamentos e ameaças, mas, na hora do balanço, estou no lucro: o SRZD-Carnaval me deu muita coisa boa.

Foto: Portal Academia do Samba

Começo pela equipe maravilhosa com que convivo. Gente mais nova do que eu, gente cheia de gás, de alegria por estar fazendo o que gosta, que me dá mostras constantes de solidariedade e coleguismo. Principalmente para os problemas tecnológicos, que me afligem, conto com a enorme paciência de minha editora Luana Freitas, competente, sempre bem-humorada e com uma disposição para o trabalho que é a tônica de todo o grupo.

Depois cito a total liberdade de expressão, fator fundamental para mim. Escrevo sobre o que quero, com o enfoque que escolho, e nesses quatro anos nunca recebi qualquer sinal de interferência ou autoritarismo, vindo de quem quer que fosse. Mas o que mais me surpreendeu positivamente foi a enorme visibilidade que este espaço me proporcionou, coisa de que eu não tinha a mais vaga ideia quando comecei.

Este ano, por exemplo, no carnaval de Vitória, uma semana antes do nosso, fui carinhosamente reconhecida por leitores. O mesmo já acontecera em Porto Alegre e em Campos dos Goytacazes. E na quadra do Império Serrano é comum receber a visita de leitores, sempre carinhosos e gentis, comentando textos e debatendo questões de nosso interesse comum.

Tudo isso devo ao SRZD-Carnaval. Creio que não será exagero afirmar que essa experiência profissional mudou a minha vida, e para melhor. Mesmo com a grande dificuldade que tenho quando é necessário gravar comentários ao vivo depois de uma noite sem dormir, cansada, vermelha e descabelada, vale a pena. Tendo de vencer a dificuldade de falar, pois sempre me é muito mais fácil escrever, vale a pena. Precisando me conformar com as reações inesperadas e passionais de alguns leitores, vale muito a pena.

Foto: Alex Nunes

Outra experiência fantástica que o SRZD-Carnaval me proporcionou foi participar da cobertura jornalística do carnaval como comentarista. Desfiles de escolas de samba não são uma novidade para mim. Assisto-os há bem mais de 40 anos. Mas assistir com olhar técnico, bem além do simples "gostei" ou "não gostei", foi um exercício excelente, principalmente porque me fez perceber que esse olhar de maior objetividade não nos vacina contra a emoção. Felizmente. Ao olhar para trás, nesses quatro carnavais a serviço do SRZD-Carnaval, lembro-me com especial clareza do desfile da Imperatriz Leopoldinense em 2013. Na escala elaborada pela Luana, eu devia comentar esse desfile. Para melhor acompanhá-lo, pedi o colete que me possibilitaria estar na pista com a escola.

A visão que se tem da pista não é tão boa quanto a das arquibancadas, de onde se acompanha tudo de cima, com nitidez e sentido de conjunto. Mas temi um distanciamento grande, e não apenas físico. O que vivi naqueles minutos foi quase impossível de descrever. Fui me locomovendo por entre alas, observando comissão de frente, bateria, os casais de mestre-sala e porta-bandeira, passistas, carro de som, alegorias e quando me dei conta estava tomada por uma fortíssima emoção e chorei. O samba, Pará, o Muiraquitã do Brasil - Sob a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia, era comovente, a energia da escola contagiava, uma coisa linda, forte, inexplicável. Acabei o desfile cantando, dançando, chorando, completamente fora de mim.

E agora, como comentar? A Imperatriz é considerada uma escola fria, mais técnica do que emoção. Será que enlouqueci e vou dar uma visão distorcida da realidade? Maldisse a hora em que optei pela pista, mas a tarefa não podia esperar e relatei o que vi e o que senti. Felizmente, este foi de fato um dos mais belos desfiles da escola de Ramos e minha emoção não foi descabida. Devo mais essa ao SRZD-Carnaval.

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 



04/05/2015 14h25

Começando tudo de novo
Rachel Valença

Quando escrevemos um texto que será lido por gente conhecida e por gente que nem conhecemos, estamos expostos a interpretações e leituras as mais diversas. O que quero dizer é que, no momento do clique que torna público o texto, a reação das pessoas foge totalmente ao controle. Nesses quatro anos como blogueira, tive surpresas maravilhosas e reações intempestivas, às vezes no campo aqui destinado aos Comentários, às vezes fora dele. Faz parte. És vezes os demais leitores compartilham comigo essas reações, às vezes sequer tomam conhecimento delas. Como diria meu saudoso amigo Roberto Ribeiro, "segue o enterro!", maneira antiga de dizer o que hoje se expressa com "vida que segue".

Nada na vida nos ensina tanto esta lição quanto o carnaval. A gente se mata, se esfalfa, se acaba, por um momento fugaz. Passado aquele momento, acabou tudo. E começa tudo de novo. Talvez por isso o povo do carnaval, esses amantes fiéis da folia, seja tão resistente às suas perdas. Passou, acabou. É hora de recomeçar.

Estamos nos primeiros dias de maio. Faltam nove meses para o carnaval. Mas hoje à noite se decide, em sorteio, a ordem dos desfiles da Série A. Para quem não é de samba, não é muita coisa a definição do dia em que a escola desfilará e em que posição. Mas nós bem sabemos o quanto isso é determinante para o desempenho de uma escola.

Na verdade, das 14 colocações, apenas 10 são sorteadas, já que as duas escolas que abrem a sexta e a que abre o sábado são conhecidas sem sorteio, por força do regulamento. A Unidos de Padre Miguel, campeã moral deste ano, desfilará sábado, sorteando apenas a colocação, e as outras dez são agrupadas em pares, numa tentativa de manter o equilíbrio da qualidade dos dois dias. Mesmo assim, trata-se de um momento de certa forma decisivo.

Desfiles da Unidos de Padre Miguel e Em Cima da Hora. Fotos: SRZD

Ninguém ignora que desfilar na sexta-feira é um abacaxi. Porque, na capital mundial do carnaval, sexta-feira é dia de trabalho normal. E o folião fica em apuros para estar a postos no final da tarde. Haja vista o que ocorreu com a valente Em Cima da Hora no carnaval passado. Foi preciso que ela passasse pelo que passou para que marcassem para mais tarde o início do desfile de 2016. Demorou!

Ora, a escola que cai na sexta já fica meio tristinha. Não adianta negar. Encerrar o desfile todo mundo quer, mas nem sei se há muita lógica nisso, pois a última escola de sexta tem a ingrata missão de manter o público no Sambódromo, o que não é tão simples após um dia de trabalho. Com o agravante de que, começando mais tarde, se encerrará mais tarde também. Mas é claro que a última posição tem seus atrativos.

O sambista é desconfiado, já viu muita coisa estranha e improvável acontecer, por isso sempre se pergunta até que ponto este sorteio depende só da sorte. Infelizmente não tenho resposta para isso e só resta acreditar nas tais bolinhas e torcer. Torcer, sobretudo, para que nosso carnaval não caia em descrédito, porque sem transparência e lisura fica difícil sustentar essa paixão de milhares de cariocas, brasileiros e até estrangeiros. Todo mundo de olho bem aberto para que as discrepâncias e injustiças não tenham início nove meses antes do carnaval.

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


1 Comentários | Clique aqui para comentar

20/04/2015 14h49

Uma pequena notável II
Rachel Valença

Motivada pela presença de Ruy Castro e Heloisa Seixas à quadra do Império Serrano, para mais uma Feijoada Imperial, achei que talvez valha a pena falar de nossa segunda experiência com a Pequena Notável, no carnaval de 2008. Não é história, ainda, dada a proximidade da data, mas este relato pode servir de fonte a quem mais tarde deseje conhecer um pouco desse carnaval, para o qual a biografia de Carmen escrita por Ruy Castro foi de fundamental importância.

Em 2007, o Império Serrano sofreu um rebaixamento. Dois meses depois do resultado, o vice-presidente de carnaval abandonou o barco. Eu ocupava a vice-presidência cultural, e o presidente Humberto Soares Carneiro optou por me elevar à posição de vice de carnaval, com o devido referendo do Conselho Deliberativo. O que me esperava: o antigo barracão da Vila Isabel, na Rua Equador, gentilmente cedido pela coirmã, e carnavalescos e enredo já escolhidos: Renato Lage e Márcia Lávia com "Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim". Não se tratava de uma reedição, mas de um novo enredo sobre um tema já abordado em 1972. Nova leitura e novo samba.

Foto: Acervo pessoal

Se eu fosse narrar aqui todas as agruras enfrentadas, a falta total de recursos, as dificuldades materiais e de relacionamento, os momentos de desânimo e desespero, o leitor nem acreditaria. Se eu falasse dos exemplos de solidariedade, de união e até de legítima alegria vindos de dentro e de fora, talvez fosse mais difícil ainda de crer. Mas era tudo verdade, tudo ao mesmo tempo, numa avalanche diária de emoções antagônicas que só o carnaval pode proporcionar.

Mas é dela que eu estou falando: da nossa Pequena Notável. Ela não viria no carro Abre-Alas. Por decisão dos carnavalescos, era a segunda alegoria que lhe era dedicada. Mas Carmen não nasceu para ser segunda: esta alegoria "roubou a cena" do desfile. É ela que se vê em todas as matérias de cobertura do carnaval do Império Serrano em 2008.
Foi aí que começou nossa ligação. Porque nenhum outro carro alegórico, deste ou de outro carnaval de que eu tenha participado, deu tanto problema quanto este. Faltavam dois dias para o desfile e a pala ou gola que envolvia seu pescoço até os ombros pegou fogo. Uma fagulha saída de um aparelho desses de aplicar cola quente chegou ao tecido metálico e quando vimos o fogo já se alastrava e ameaçava acabar com toda a escultura, talvez com o carro inteiro. Foi uma correria danada, barulho de pequenas explosões, um caos. Mas em poucos minutos os bravos trabalhadores do barracão, os diretores e todos os imperianos ali presentes conseguiram minimizar a ação das chamas e salvar a escultura, já em fase de decoração. Em frente a ela, meio chamuscadinha, derramei lágrimas de alívio.

Mas a alegria ia durar pouco, pois meia hora depois um temporal de proporções diluvianas caiu sobre o barracão, cuja cobertura era bastante precária... Chovia por toda parte, mas em cima de Carmen havia algo como uma tromba d'água. Com água pelas canelas, conseguimos efetuar a manobra que garantiu a Carmen certa proteção. De qualquer forma, ficou pálida e meio borrada. Parei diante dela, olhando-a com preocupação. Ela mantinha, apesar de tudo, o sorriso malicioso.

Um dia depois, na madrugada anterior ao desfile, enfrentamos a saída dos carros do barracão. Operação complicada, porque a chuva fizera estragos no calçamento por onde os carros deveriam passar, gerando um desnível. Tudo foi tentado: placa de aço, pranchão de madeira, soluções custeadas por imperianos queridos, já que a escola não tinha mais nada. Mas o carro número 2 não havia jeito de passar. Foram horas de tentativas e nervosismo, até que um ângulo feliz permitiu a manobra. Carmen saiu, poderosa, e atrás dela todos os demais carros encontraram o caminho da Avenida.
Mas os desafios não acabavam aí. Ao chegar à concentração, o Abra-Alas passou sem problemas. Mas o enorme turbante de Carmen, com suas frutas tropicais, teimava em bater numa passarela de travessia de pedestres. Fiquei petrificada, com medo de que o adereço sobre o turbante se partisse. Carmen, a essa altura, já estava linda, toda recuperada e pronta para brilhar, com batom vermelho, cílios postiços e unhas brilhantes. Se o chapéu se quebrasse, seria uma tragédia. A solução foi um jovem escultor - seria Levy o seu nome? - subir na passarela e sentado no chão pressionar com os dois pés o tabuleiro de frutas e empurrar levemente a cabeça, permitindo que a alegoria passasse, aplaudida.

Foto: Divulgação

Nesse exato momento, ao olhar lá pra cima, aliviada e feliz, vi por um segundo Carmen piscar para mim com cumplicidade. Que se dane a razão, às favas o materialismo. Eu vi. Carmen Miranda estava torcendo por nós, vira o nosso esforço, trataria de recompensá-lo. O Império Serrano entrou na Avenida confiante. Lá nos aguardava uma chuva redentora. O samba contagiante, o público animado, o componente determinado, tudo contribuiu para o resultado. Mas guardo a certeza de que ela, a Pequena Notável, é que foi a principal articuladora da vitória.

Por isso, quando retornamos para o barracão número 7 da Cidade do Samba, fiz questão de levar na mudança esta escultura. Alegorias, por mais belas que sejam, ficam pra trás. As obras de arte efêmeras que as compõem são destruídas pela ação do tempo. Esta é a maior beleza do carnaval: ele nos ensina a recomeçar sempre. Mas não foi fácil desapegar desse querido talismã. Ficamos amigas.

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


1 Comentários | Clique aqui para comentar

25/03/2015 09h36

Império Serrano: muitos anos de vida
Rachel Valença

Em 23 de março o Império Serrano completou 68 anos de existência. A data e sua comemoração são de interesse restrito aos imperianos, por isso me poupei de comentá-la aqui. Meu colega Hélio Rainho o fez com mais brilho do que eu seria capaz. Acontece que nesta data querida o Império anunciou seu enredo para 2016. Não um enredo qualquer: "Silas canta a Serrinha" comemora o centenário daquele que foi e é considerado o maior compositor de samba-enredo de todos os tempos.

Será ele o "narrador" de tudo que vamos ver na Avenida, será ele a nos revelar os encantos de nosso lugar, aquele paraíso cultural onde nasceu e vicejou o Império Serrano. Em busca de nossas matrizes, teremos como guia aquele que lá nasceu e cresceu, aquele que lá viveu e compôs.

Confesso que estava em campanha a favor da homenagem e ninguém se surpreende com isso. Ao longo de meus 43 anos de Império Serrano, tenho respondido milhares de vezes à curiosidade de como e por que me aproximei da escola, tão distante de mim, física e culturalmente. A resposta é sempre a mesma: foram os sambas de Silas de Oliveira que me atraíram a Madureira.

- 'Silas canta Serrinha' é o enredo do Império Serrano para 2016

Foto: SRZD

Mas, mal havia chegado lá, em 1972, Silas nos deixou para sempre. Não tive, portanto, o privilégio de conviver com ele, mas a admiração se fez cada vez maior e acabou por me levar à sua viúva, D. Elane, de quem me tornei amiga e admiradora. Seus filhos são para mim como sobrinhos muito queridos. Muitos deles já se foram, outros vejo mais raramente, mas Silas e Elenice, que frequentam a quadra, eu adoro.

Silas foi, segundo contam os que com ele conviveram, um homem tímido, de poucas palavras. Teve uma educação severa, em família protestante, mas encontrou na poesia do samba sua válvula de escape. Sorte nossa! Primeiro no Prazer da Serrinha, depois no Império Serrano, que ajudou a fundar, compôs sambas inspirados. Quantos? Não se sabe. Não foram apenas sambas-enredo, foram também belos sambas de terreiro, alguns dos quais foram gravados por gente da pesada. Cartola, por exemplo, autor de tantas obras-primas, gravou em um de seus elepês "Meu drama" (também conhecido como "Senhora tentação").

Quanto aos sambas de enredo, sua produção se concentrou nas décadas de 50 e 60. Para falar somente dos que foram cantados na Avenida, temos 14 e mais o de 2004, reedição. Foram 15 carnavais com samba de Silas. Mano Décio da Viola quase se equipara a ele, com 11. É possível que esta marca seja em breve ultrapassada por Aloisio Machado e Arlindo Cruz, também grandes, que igualmente já emplacaram cada um 11 sambas. Mas tivesse Silas vivido além dos 56 anos, idade que tinha ao morrer, nem sei como ficaria esta estatística.

Foram 14 vitórias entre 1950 e 1969. Na última disputa de que participou, em 1972, a derrota contundente o abateu muito. Não desfilou na escola, mas não aceitou sair em nenhuma outra. Foi à Avenida ver o seu Império ser campeão com um samba radicalmente diferente de todos que fizera na vida. O carnaval estava mudando, talvez Silas tenha sentido isso. Com sua enorme sensibilidade, talvez tenha intuído que no carnaval já não havia espaço para ele e seu amigo Orfeu, dos "Cinco bailes tradicionais da história do Rio".

Foto: SRZD

Foi triste vê-lo partir. Mas quem disse que o Império perdia o seu viga-mestre? Silas é um dos mais presentes na escola. Novos sambas de quadra o relembram e exaltam. Seus sambas-enredo são entoados a cada semana nos ensaios, nas feijoadas, nas rodas de samba no entorno de nossa sede. O ensaio é aberto, em respeito à tradição, com "Heróis da liberdade", também cantado quando um sambista se despede para sempre. "Aquarela brasileira" tem a força de um hino em louvor da brasilidade.

E já que mencionei a tal roda de samba, sou obrigada a confessar que na linda festa do dia 23, com a quadra enfeitada, jantar e baile (como nos bons tempos do Império), o que realmente me encheu os olhos estava do lado de fora: pertinho da saída da quadra, em torno de uma mesa, ritmistas e músicos jovens entoavam o que eu mais amo ouvir, os sambas tradicionais de nossa escola. E no centro da mesa, um bolo de aniversário não deixava margem para dúvida: ali se comemoravam os 68 anos da escola querida com tanta ou mais paixão do que lá dentro. Uma maravilha de cenário.

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


1 Comentários | Clique aqui para comentar