A saga dos lesados
Rachel Valença | Rachel Valença | 21/02/2012 20h59
Como deve agir uma família mais um grupo de amigos que levam carnaval a sério? Com planejamento. Bem antes de serem postos à venda os ingressos, tudo é decidido, de acordo com a agenda de interesses e de compromissos da maioria.
Este ano havia um dado novo: a opção de frisas do lado par, nos novos setores 2, 4, 6 e 8 e no já antigo 10, antes chamado 4. Como se trata de uma família e de um grupo de imperianos de fé, na maioria, a opção para o desfile do Grupo A, recaiu sobre o Setor 2, bem próximo à concentração do Império Serrano, do lado dos Correios. Assim, seria possível assistir ao desfile e depois sair para desfilar, sem atropelo.

No caso de minha frisa, escolhi a fila A, mesmo mais cara, porque nos daria a possibilidade de colocar na grade, vem à vista, a bandeira da escola. Nosso grupo comprou seis frisas, num total de 36 pessoas.
Ao chegar à Avenida, às 20:45, fomos informados de que... não havia frisas no Setor 2. Isso mesmo, as frisas do Setor 2 não haviam sido terminadas. Ou seja, pagamos e não levamos!
Em meio a um pequeno caos, com quase cem pessoas nervosas cobrando dos responsáveis uma solução, ouvimos pérolas do tipo: - Calma, por favor, estamos tentando ajudar vocês... Ajudar? Nós não tínhamos problemas, tínhamos direitos. E éramos tratados como pedintes...
A solução encontrada foi aceitar sermos levados para frisas no Setor 11, muitos blocos adiante e do outro lado da Passarela. Demos início a uma maratona, uma correria atrás de um funcionário da Riotur, até o fim do lado par, cruzando a Apoteose e chegando finalmente suados e esbaforidos, a tempo de ver passar a primeira escola. Carregávamos sacos de fantasias, bolsas de alimentos e todos os outros pertences que se costuma levar para a Avenida. E era preciso andar muito rápido para não perder o Bloco dos Enganados, que evoluía rapidamente.
No nosso caso, a opção pelo Setor 2 tinha significado já o pequeno incômodo de ter que usar o metrô, já que os táxis passam longe dos acessos dos setores ímpares. Mas valia a pena, já que economizaríamos tempo e pernas na hora de ir para a concentração. Nada disso: andamos do metrô à entrada do Setor 2, depois corremos do Setor 2 ao 11 e mais adiante tivemos de cruzar o início do desfile, operação sempre complicada que todo desfilante evita. E tudo por quê? Porque compramos o que não existia. Porque fomos otários de acreditar em quem é tão rigoroso no trato com as escolas, a quem se aplica a máxima "tolerância zero", mas não sabe cumprir o que anuncia.
Se uma escola não terminasse suas alegorias ou suas fantasias a tempo, o que lhe aconteceria? Mas os responsáveis pelo carnaval não terminam sua tarefa a tempo e quem é penalizado é o pobre contribuinte, que paga a obra, paga a frisa, não tem um lugar para chamar de seu e ainda acham que estão lhe fazendo um favor.
Na frisa da fila C do Setor 11 não pude expor a bandeira do Império Serrano, como pretendia. Pessoas do grupo que chegaram mais tarde, e que nós avisáramos por celular, sofreram constrangimentos para chegar até nós, porque os fiscais da entrada do Setor 11 pareciam não ter sido informados do ocorrido e nos tratavam como golpistas ou mentirosos. Enfim, um pesadelo.

Compreendo que imprevistos acontecem, mas uma ação simples poderia ter amenizado nossa surpresa e frustração: se à tarde, quando se constatou que não havia possibilidade de concluir a obra, tivesse sido divulgado pela imprensa um aviso aos compradores daquelas frisas para que se dirigissem ao guichê tal, ou à sala tal, em que seus ingressos seriam trocados por outros disponíveis. Mas não: lá estávamos nós, de ingresso na mão, na porta de uma frisa fantasma, sendo tratados como um estorvo! Tenho um nome para isso: falta de respeito.
Hoje fui informada por um dos participantes do grupo de que o prefeito teria garantido que para o desfile do Especial, logo mais, as frisas estariam concluídas porque o número de operários tinha sido aumentado, se não me engano para 320. Ah é? E por que não aumentaram 24 horas antes? Por falta de respeito ao Grupo de Acesso, a seu público e a seu desfile.
Se o leitor está me criticando por tratar aqui de um assunto pessoal, lembro que não é tão pessoal assim: se em cada setor existirem 200 frisas; se o problema atingiu os setores 2, 4 e 10; e se em cada frisa cabem seis pessoas, a legião de lesados chega a mais de três mil pessoas. Um calote que prejudica tanta gente é um assunto de interesse geral.
A Riotur e a Liesa transformaram num inferno uma noite muito importante para mim, para nós. Mas o Império Serrano passou deixando um rastro de beleza e emoção. Parte da minha raiva e da minha tristeza se dissipou. Ainda tive pernas para chegar à concentração cedo e curtir aqueles momentos inesquecíveis de um desfile consagrador. A bandeira lá estava numa frisa da fila A do Setor 11, porque um imperiano de fé se dispôs a abrigá-la. Ela é maior que tudo isso.

Imperiano de fé não cansa...
Rachel Valença | Rachel Valença | 08/02/2012 09h47
Neste agitado pré-carnaval, voltam com frequência à minha cabeça cenas de quatro anos atrás, quando o Império Serrano preparava o carnaval de 2008. Estávamos, como agora, no Grupo A, deixáramos o amplo barracão da Cidade do Samba para ocupar o barracão emprestado pela Unidos de Vila Isabel. E eu me tornara, por força das circunstâncias, vice-presidente de Carnaval.
A precariedade era total. Faltava água todo dia depois das 16 horas, faltavam banheiros, faltava material, faltava experiência de minha parte e faltava sobretudo dinheiro. Só quem já passou por isso pode imaginar o que é fazer carnaval fora do Grupo Especial. Nem a mais fértil imaginação dá conta dos problemas a serem enfrentados a cada minuto. Aí sim se aplica a palavra superação.
Uma coisa, porém, nunca faltou: a vontade de acertar, a animação, a disposição para trabalhar, a fé na força da nossa escola. Não havia desânimo, não havia tristeza, não havia lamúria. Trabalhava-se muito e acreditava-se que tudo daria certo.
Faltando um mês para o carnaval, o barracão contava com os recursos vindos dos eventos da quadra. E estes eram escassos, porque, com a escola no grupo A, a quadra não lotava. Mas algum sempre vinha. Nossa preocupação era a última semana: as necessidades crescendo e o dinheiro minguando, porque no último sábado antes do carnaval a oferta de eventos em todas as quadras é enorme e os próprios imperianos ficariam tentados a estar fora de Madureira. Que fazer para atrair as pessoas à quadra?
A ideia partiu de Carlos Alberto Machado, imperiano antigo e ilustre que sempre aparecia no barracão para nos salvar de emergências e que depois viria a fazer parte de nosso Departamento de Carnaval. Ele sugeriu que no último ensaio de sábado antes do carnaval realizássemos a Noite do Imperiano de Fé. O ingresso era uma bonita camisa com os dizeres SOU IMPERIANO DE FÉ e a marca do enredo. E todo mundo, para entrar na quadra, tinha de vestir esta camisa: não importa se era sócio contribuinte, grande benemérito ou visita ilustre: para entrar tinha de comprar a camisa. E artistas amigos, que amam o Império Serrano, seriam convidados a "dar canja", para atrair mais público. Ao longo dos anos, em diversas versões da festa, lá estiveram Dorina, Délcio Carvalho, Luísa Dionísio, Moysés Marques, Zezé Motta, Gabriel da Muda, o imperiano João Bosco e a prata da casa: Velha Guarda Show do Império, Jongo da Serrinha, Meninas da Serrinha, Arlindo Cruz, Aloísio Machado, Jorginho do Império e Alex Ribeiro, filho do nosso imortal Roberto Ribeiro.

Todas as camisas foram vendidas, a procura era enorme e a festa foi um sucesso: não apenas do ponto de vista financeiro, mas sobretudo para levantar o moral da escola, que acabou sendo campeã debaixo de um temporal histórico. Usar aquela camisa era dar testemunho de amor e fidelidade ao Império. Desde então a festa virou uma tradição, uma bonita tradição da minha escola.
Pois é, leitor, no próximo sábado, dia 11 de fevereiro, o Império realiza a 5ª Noite do Imperiano de Fé, desta vez um tributo a Dona Ivone Lara. Temos muitos artistas convidados e lá estará também a Sinfônica do Samba de Mestre Gilmar, passistas, os casais de porta-bandeira e mestre-sala, as baianas, enfim, tudo que faz do Império Serrano uma escola de samba no sentido mais puro dessa expressão.
Como nossa quadra está em obras, a festa será este ano no Mello Tênis Clube, na Vila da Penha, pertinho do Olimpo. As camisas-ingresso podem ser adquiridas no barracão do Império, no próprio clube ou na lojinha do Império no Mercadão de Madureira. E você, que ama o Império e que sempre pergunta o que fazer para ajudar, não perca esta chance de vestir nossa camisa: vá participar de uma festa linda, uma prova de amor e de fé no Império Serrano e no samba. Se tudo correr bem, Dona Ivone estará lá para receber nossa homenagem.
Um grupo muito especial
Rachel Valença | Rachel Valença | 01/02/2012 09h15
Por causa das idas e vindas e dos casuísmos constantes que alteram os flácidos regulamentos dos desfiles de escolas de samba, neste ano de 2012 temos apenas nove escolas no Grupo de Acesso A. É pena. E como nove sambas é pouco para encher um CD, uma boa ideia nos proporcionou a inclusão de sambas-exaltação de cada uma das participantes. Temos então 18 sambas no disco: nove são os tradicionais sambas de enredo com que as escolas desfilarão e nove são um adorável brinde, que os amantes do carnaval guardarão com carinho.
Comecemos pela obrigação: o samba para o desfile. Como costuma acontecer em todos os grupos, o disco nos oferece obras de qualidade bem díspare. Vamos do excelente ao lamentável, do tedioso ao contagiante. Chama a atenção antes de mais nada a autoria do samba da Unidos do Viradouro. Gente, 15 poetas para fazer um samba a 30 mãos! Que saudade de Silas de Oliveira, que sozinho foi capaz de nos arrebatar com seu inesquecível "Aquarela Brasileira"! Fora isso, a letra do samba da Viradouro tem bons momentos de poesia, mas acho que não será fácil cantá-lo. Tomara que eu esteja errada.
Dois verdadeiros sambas de enredo apresentam a Inocentes de Belford Roxo e a Santa Cruz. Este último me conquistou pela alegria e pela comunicação com o ouvinte. A segunda deste samba é um passeio leve como o enredo. Muitas qualidades têm também os sambas da Império da Tijuca e do Paraíso do Tuiuti. Se acrescentarmos à lista o do Império Serrano, que considero excelente, já temos mais sambas bons do que ruins, o que nos promete uma noite de sábado de carnaval muito boa.
Talvez o leitor ache que sou parcial ao classificar como excelente o samba do Império Serrano. Mas quando se trata de samba-enredo não costumo fazer concessões nem ao Império. Quando a escolha é errada não poupo críticas nem mesmo à minha escola - ou principalmente à minha escola -, porque samba bom é fundamental.
No caso do samba deste ano, foi amor à primeira audição. Ouvi todos os concorrentes e logo fiz a minha escolha, que felizmente foi referendada pela comissão julgadora. E olha que havia outros muito bons também, mas este ano estava escrito que era do Arlindo. O bom ensaio técnico comprovou o acerto da escolha.
Rocinha não foi tão feliz, com um samba que não flui e não tem o rendimento que o enredo poderia sugerir. Da Estácio de Sá não se esperava mesmo mais do que o que se mostra. Quando o enredo não ajuda, resta esperar o milagre, que quase nunca acontece... As frases se sucedem sem nada dizer e falta linha melódica.
Com o samba dos Acadêmicos do Cubango acontece o contrário: não falta enredo, um ótimo enredo, mas o refrão final do samba caberia melhor no samba-exaltação do que no samba-enredo: barão e Cubango se misturam, e curiosamente no samba-exaltação (que tem um refrão bárbaro: "pra ser Cubango não se conta até três") fala-se de Sapucaí e no samba-enredo em Ponta d’Areia...
Com isso passo aos sambas-exaltação, gênero muito interessante porque foi o único a sobreviver da modalidade samba de terreiro, depois chamado samba de quadra. O da Viradouro é bonito, o da Império da Tijuca é curto e eficaz, o da Inocentes é bom e forte. Rocinha e Tuiuti ficam nos devendo algo melhor. Santa Cruz arrasa com o verso "Feliz é quem tem a Santa Cruz no coração", talvez não original (o intérprete Quinho, do Salgueiro, usa este bordão), mas cheio de força e apelo.
A Estácio, que tem sambas-exaltação antológicos, fez talvez uma opção infeliz. O Império Serrano, que apostou na tradição com o lindo samba de Jorge Lucas bem conhecido na escola, pecou somente ao mudar o comovente título original do samba, "Império, sou teu eterno cantador", por este inexpressivo "Exaltação ao Império Serrano".
Discretamente comercializado nas quadras, sem divulgação ou distribuição adequadas, é, no entanto, um disco para se guardar.
As Três Irmãs
Rachel Valença | Rachel Valença | 18/01/2012 22h02
Não, leitores, não fugirei ao desafio de falar sobre os sambas do Grupo de Acesso A, que me foi lançado nos comentários ao último texto. Mas antes peço licença para abrir um parêntese e comentar um evento que ontem reuniu grande quantidade de sambistas e agitou a noite da Lapa.
As três irmãs do título, as escolas de samba que a partir da década de 1970 ousaram ameaçar a hegemonia das quatro grandes da época - Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro -, são agora objeto de um estudo muito interessante, lançado ontem pelos autores Alan Diniz, Alexandre Medeiros e Fábio Fabato. O livro se chama As três irmãs: como um trio de penetras "arrombou a festa". Alan Diniz se ocupa da Beija-Flor, Alexandre Medeiros escreve sobre a Imperatriz Leopoldinense e Fábio Fabato aborda a Mocidade Independente de Padre Miguel. Os jovens pesquisadores têm em comum a paixão por suas escolas de fé e acertaram em cheio ao optar por um gênero leve e de leitura fácil: a crônica.
Distribuídos de forma equilibrada entre as "penetras", são ao todo 35 textos, às vezes engraçados, às vezes comoventes, mas sempre muito informativos, porque registram com fidelidade fatos e personagens que com o tempo tendem a cair no esquecimento, mormente porque do samba e do magnífico universo cultural das escolas de samba ainda há uma bibliografia escassa.
Mas mais do que falar sobre o livro, que merece ser lido, o que gostaria de comentar é o clima de alegria e camaradagem do lançamento. Não era um evento "chapa branca", não havia a "boca livre" que atrai às festas de samba gente estranha, que nada tem a ver com o que se passa ali. Nada disso. Era uma verdadeira celebração da amizade, porque só o prestígio dos autores, vindo do reconhecimento ao que cada um deles já fez por sua escola, é que levou até lá gente importante como Neguinho da Beija-Flor, Pinah, Selminha Sorriso, Zé Catimba, Tiãozinho da Mocidade, Dominguinhos do Estácio, Chiquinho e Maria Helena, Rosa Magalhães, Fernando Pamplona, as baterias das três escolas, passistas, membros das velhas guardas e muita gente mais.
O restaurante Ernesto foi pequeno para tanta animação. Melhor assim, porque sambista não gosta de muito espaço, quer mais é se apinhar. Como é bom estar pertinho de todo mundo, sem aquelas abomináveis áreas vips que discriminam e afastam.
Quem queria tirar foto com os astros conseguia facilmente, porque era tudo próximo e amigável. Não vi mau-humor nem cara feia, só sorrisos e alegria muito legítima, ao som de sambas maravilhosos que essas três escolas nos deram ao longo de suas existências.
Saí da Lapa com o coração em festa, como acontece sempre que estou com quem é de samba, com quem gosta realmente de samba. Mas mais feliz ainda por ver que há gente jovem preocupada com a memória do samba, que escreve e batalha uma publicação (um viva à Editora Novaterra, que abre espaço para o samba) e ainda por cima é capaz de organizar, sem patrocínio algum, uma festa tão bonita, autêntica e rica de valores culturais.

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Enfim, os sambas de 2012
Rachel Valença | Rachel Valença | 10/01/2012 01h30
Sempre tive muito medo de opinar publicamente sobre sambas de enredo, que na verdade são a minha paixão, ou seja, constituem o elemento mais importante de uma escola de samba. Há, por exemplo, quem se lembre de todos os carros alegóricos que já passaram na Sapucaí, que seja capaz de descrevê-los minuciosamente e os considere a principal atração de um desfile. Existem também apaixonados por casais de mestre-sala e porta-bandeira ou por comissões de frente. Para mim, nada se compara ao samba de enredo. Seria, portanto, compreensível que eu gostasse de falar sobre eles. Mas, ao contrário, tenho verdadeiro terror de emitir opinião sobre este assunto. E sei muito bem qual a origem disso.
Em 1982 o samba do Império Serrano, Bum Bum Paticumbum Prugurundum, de Beto Sem Braço e Aloísio Machado, foi alvo de comentários contundentes de uma jornalista que hoje prezo muito. Ao fazer a crítica ao disco, arrasou o samba do Império Serrano. A onomatopeia do título foi considerada por ela de mau gosto e por isso chegou a prever a derrocada da escola, que aliás se recuperava de uma péssima colocação. Como se tratava de uma profissional muito respeitada, até que o samba tomasse força e ganhasse a cidade, tornando-se não só o principal fator para a vitória da escola, mas uma unanimidade sua falta já tinha sido esquecida.
Mas a jornalista não se perdoava: pessoa séria e profissional competente, nunca se recuperou desse erro fatal de avaliação. Erro que pode acontecer a qualquer um, pois nem sempre os sambas nos conquistam na primeira audição. Embora às vezes isso aconteça, não é a regra. Então, um samba que originalmente não nos dizia nada pode ir ganhando espaço em nossa preferência e daí a pouco só queremos saber de ouvir este e nenhum outro. Por isso, em que momento será que estamos aptos e maduros para comentar uma safra?
Sobre a safra de 2012, que me parece melhor no seu conjunto do que as dos anos anteriores mais recentes, evitei me manifestar aqui neste espaço, embora isso me tenha sido pedido e cobrado pelos leitores. E se eu escrevesse alguma coisa de que depois viesse a me arrepender? De fato, já mudei de opinião sobre alguns sambas e possivelmente até o carnaval mudarei ainda. Apreciei as avaliações de meus companheiros, principalmente a detalhada análise do Cadu Zugliani, que realmente foi fundo, como era sua proposta. E continuei sem coragem de encarar a tarefa.
Depois que o disco saiu e que a grande imprensa se ocupou dele, parecia não haver mais necessidade de falar sobre os sambas. Até que na semana passada o jornal O Dia me convidou a avaliar os sambas, atribuindo-lhes notas de 8 a 10. Ai, meu Deus, como é difícil! Mas já que o fiz, enfrentando a pedreira, será justo que os leitores deste espaço também tenham o direito de conhecer a minha modesta opinião e até de rirem de mim se eu cair em alguma armadilha daquelas que no passado derrubaram gente mais capacitada que eu. Vamos lá!
Sobre o critério de notas, achei que não deveria incorrer no mesmo pecado dos jurados do desfile, que embolam as notas todas perto da máxima para não ficar mal com ninguém. O jurado generoso e bonzinho não é justo, a meu ver. Para que o bom sobressaia, é preciso escalonar as notas corretamente. Não é simpático, mas é justo. Desse ponto de vista, atribuí um único dez ao samba da Portela, que considero excelente: um samba que a gente aprende e canta sem esforço e quanto mais canta mais tem vontade de cantar.
No conjunto dos muito bons sambas deste ano temos o da Vila Isabel, com sua letra magnífica, o da Mangueira, que conseguiu sobreviver a uma gravação equivocada, e o do Salgueiro, que cresceu na minha avaliação desde sua vitória até o presente.
No bloco abaixo deste eu incluí os sambas da Unidos da Tijuca, que tem a qualidade de uma melodia identificada com o estilo do homenageado, o da Beija-Flor, mais uma vez com a marca forte da tradição da escola, e o da São Clemente, alegria e animação compatíveis com o enredo.
Imperatriz Leopoldinense é Mocidade Independente apresentam sambas medianos, candidatos a servir de trilhas a desfiles arrastados. Tomara que eu me engane. A União da Ilha fundiu dois concorrentes para chegar a um resultado um tanto híbrido, como em geral acontece nesses casos, sem um caráter próprio, o que nunca é bom. Mas ainda assim um pouco superior às obras apresentadas por Grande Rio, Renascer de Jacarepaguá e Porto da Pedra, em que os compositores tiveram de se esforçar muito para lidar com enredos que não dão samba. E com resultados bem fraquinhos.
Pronto, nem doeu tanto assim... Espero pelos comentários dos leitores, sempre cheios de paixão e arrebatamento quando se trata deste tema.
Tu és meu sonho...
Rachel Valença | Rachel Valença | 27/12/2011 16h18
Se o leitor é de samba, completará com facilidade o verso acima. Eu nunca mais o cantei. No entanto, quando encontro bons amigos daquela época, como foi o caso este mês, em que meu compadre Alexandre Jorge fez 50 anos, gosto de recordar. Cheguei nessa escola de samba em 1988. Já estava no Império há quase vinte anos, mas lá não ousava realizar meu sonho de sair na bateria. Na escola pequena, então no grupo C, a oportunidade apareceu porque o mestre de bateria, Paulinho, me acolheu calorosamente. Passei a frequentar a quadra, onde na época entravam mais cachorros e mendigos do que sambistas.
Logo as devotadas filhas e sobrinhas e os amigos mais chegados queriam participar também. Fizemos uma ala, numa escola que tinha poucas alas e poucos componentes. Nossa ala se tornou comissão de frente num carnaval em que a fantasia do grupo ensaiado não ficou pronta e foi preciso improvisar. E lá estavam os bravos Bernardo, Ivo, Máslova, Inês, Sylvia, Alexandre, João, Míriam, Felipe, Adams e mais uns poucos, sob o comando do Ricardo, entoando o samba com força e fé e conquistando o público e os jurados.
O grupo foi comissão de frente por alguns anos: mais amadores impossível. Não eram bailarinos, eram jovens jornalistas, professores universitários, analistas de sistemas, em início de carreira, e faziam o sacrifício de ensaiar toda noite para compensar suas deficiências coreográficas. E ainda pagavam a própria fantasia. Por que faziam isso? Porque acreditaram, como eu, no sonho de cinco jovens daquela comunidade que se tornaram a diretoria da escola e em nove anos levaram a escola do Grupo C ao Especial. Sei que muitas escolas emergentes já fizeram essa trajetória em menos tempo, mas não como essa, sem ajuda de nenhuma força oculta, sem comprar resultados, só com muito suor, muito empenho. E, permitam-me dizer, muita transparência.
Amarildo de Souza Felipe, que foi por nove anos presidente, deixou a escola um ano depois de tê-la feito desfilar com dignidade no Grupo Especial, depois de ter sofrido as mais constrangedoras pressões e de ter perdido tudo que tinha no incêndio criminoso de sua casa, uma casa simples no morro que é reduto da escola. Resistiu a tudo. Gastou todo o dinheiro da subvenção do Especial no carnaval. Um belo carnaval. Não comprou carrão nem casa, e hoje, como sempre, anda de ônibus, trabalha como metalúrgico e mora num apartamento pequeno, alugado, no subúrbio. Querem saber? Tenho o maior orgulho de ser amiga dele!
Como presidente, anotava à mão em folhas de papel almaço a contabilidade da escola. A qualquer momento era possível saber dele quanto dinheiro faltava para terminar o carnaval, quanto já havia sido gasto e quanto a escola devia. Sua equipe - Alexandre, Waltinho, Niltinho e Dudu - se imbuía desse espírito e colaborava com paixão.
Lembro-me do empenho do próprio carnavalesco, Paulo Menezes, cujo grande talento eclodiu nos quatro anos em que trabalhou com esses jovens, sem pensar em dinheiro, sem exigir e sem reclamar. Em torno dele um núcleo de idealistas como Horácio, Joacyr, Rogério, Odair e tantos outros, e muita gente que começou a ter naquele momento seu primeiro contato estreito com o carnaval.
Tanto amor, tanto trabalho, tanto esforço não foram em vão. Em cada um de nós - e se você, que está lendo, participou, deixe aqui seu depoimento - ficou um pouquinho dessa rica experiência, que, como todo sonho, acabou. Hoje, resta a eles (a nós?) o orgulho de andar de cabeça erguida e ser respeitados por quem vale a pena. Não é pouca coisa.
B.O.: eu acredito
Rachel Valença | Rachel Valença | 19/12/2011 09h46
A notícia da desavença ocorrida há quase um mês na quadra da Imperatriz Leopoldinense, tendo como protagonistas o presidente de honra da escola, Luizinho Drummond, e seu diretor de bateria, mestre Marcone, teve intensa repercussão no mundo do samba.
Mais que isso, ganhou destaque no noticiário dos principais jornais do Rio de Janeiro. Isso me chamou a atenção. Afinal, "barracos" desse tipo são infelizmente comuns nos bastidores do carnaval. Mesmo agressões físicas são muito mais frequentes do que se desejaria ou se esperaria. O intérprete chega atrasado ao desfile? Tapa na cara. O diretor de carnaval não anda na linha? Tapa na cara. Até mesmo carnavalescos, segundo se sabe, estão sujeitos a esse tipo de reação violenta. E falo genericamente em tapa na cara para não dizer coisa pior.

A sutil diferença entre esses casos, que se acumulam no lamentável "folclore" que envolve as escolas de samba, e o ocorrido naquela noite de domingo em Ramos foi a decisão do cidadão Marcone da Silva Sacramento de registrar queixa contra o agressor, com exame de corpo de delito e tudo o mais. Do desentendimento resultou um Boletim de Ocorrência, o popular B.O., fato inédito em se tratando de sambistas.
A formalização da queixa na instância da sociedade organizada representou um fato novo em situações desse tipo. E mesmo que eu não tivesse - nem pudesse ter, já que lá não estava - uma opinião sobre quem tinha razão, comemorei intimamente o fato, pelo que ele representava: a negação do direito de qualquer um, dirigente ou não de escola de samba, de exercer um poder acima da lei.
Repito: não se trata de tomar partido na questão. Não tenho meios de julgar quem tem razão nem se espera de mim opinião sobre questões internas, sobre as quais correm várias versões. Os protagonistas do episódio me são ambos simpáticos. Luizinho é um apaixonado pelo samba, o que representa um fator de identificação com o que me há de mais caro. Por outro lado, admiro e respeito o jovem Marcone, que foi capaz de, em pouco tempo, dar uma cara nova à bateria da Imperatriz e colocá-la num patamar de qualidade nunca antes atingido. Para a escola, o desentendimento deles é uma perda, mas esse é um risco que sempre se corre.
Surpresa mesmo foi saber que dias após o cidadão Luiz Pacheco Drummond também procurou a polícia para registrar o seu B.O., dizendo-se agredido e correndo atrás de seus direitos. Ao ouvir esta notícia, confesso que cheguei a comemorar, porque imaginei o samba entrando no bom caminho da lei e do direito: quando duas pessoas se desentendem, procuram a autoridade competente para sanar a questão, em vez de tentar resolvê-la às brutas.
Como a briga se dera no dia 20 de novembro, em que se relembra o imortal Zumbi, ocorreu-me o primeiro verso do samba da Mangueira de 1988: "Será que já raiou a liberdade?" Ou seja, será que poderíamos sonhar com um mundo do samba onda as questões se resolvessem sem violência e sem a prática de fazer justiça com as próprias mãos?
Este fim de semana um atentado tirou a vida de uma pessoa na Rua Professor Lacê, em Ramos. Bem em frente, pelo que informa a imprensa, ao prédio onde mora o Mestre Marcone. As outras pessoas atingidas por disparos, segundo li no jornal Extra, eram integrantes da bateria da Imperatriz. Não há confirmação de que Marcone seja um deles. Numa cidade como a nossa, um episódio como esse pode ser apenas mais um nas estatísticas de violência e não ter qualquer ligação como o que se passou anteriormente. Mas confesso que fiquei um pouco triste de constatar que me regozijei antes do tempo e que será preciso viver bem mais para ver chegar o dia em que cidadãos que se desentendem registrem seus BOs e aguardem a ação de quem de direito.
Talvez, como no samba da Mangueira, tudo tenha sido ilusão.
Alfredinho
Rachel Valença | Rachel Valença | 22/11/2011 14h00
Eu o conheci há muito tempo, quando minha filha Máslova, aos dez anos, começou a desfilar. A Ala Baleiro Bala surgira no carnaval de 1975, quando, no refrão do lindo samba de Avarese: "Baleiro, bala / Grita o menino assim / Da Central a Madureira / É pregão até o fim", as crianças, fantasiadas de baleiros, atiravam balas para o público. Vi desde então a luta de Alfredo Ramos Filho para arregimentar as crianças, providenciar as fantasias e ensaiar a garotada. Eu disse luta, porque o Império Serrano não tinha dinheiro, não tinha patrono, e tudo ficava por conta da gente, num tempo em que a gente entendia que a escola dependia de nós. Mas Alfredinho não encarava aquilo como luta. Sempre animado, sempre de bom humor, tinha um astral tão maravilhoso que passei a ajudá-lo e durante 13 anos esta foi a minha tarefa na escola. Máslova cresceu, chegou a Inês, a Inês também cresceu e eu continuei lá.
Alfredinho era um pedagogo, um educador intuitivo. Adorava as crianças, sabia lidar com elas. Mesmo quando era preciso corrigir, sabia como fazer sem magoar, sem entristecer. Porque carnaval não combina com tristeza. E muitas vezes as fantasias não ficavam prontas, os adereços eram insuficientes para todos, mas ele sabia como administrar a frustração da criançada e era adorado.
Antes do carnaval de 1994 a diretoria resolveu, sem qualquer comunicado prévio aos interessados, nos substituir no comando da ala. Eu fui para a bateria e Alfredinho para a harmonia da escola. E depois de uns poucos anos ele, já como componente da harmonia, voltou à sua função de ensaiar as crianças e acompanhá-las em desfile. E quando eu o via em ação, ensinando aos pequenos imperianos o manual de conduta em desfile, sempre me emocionava um pouquinho.
Éramos amigos e sempre nos entendemos bem. Nunca houve entre nós disputa de poder, rasteiras e fofocas, tão comuns no mundo do samba. Por isso, a notícia de que ele acaba de nos deixar me deixou muito triste e só pensei em dividir essa tristeza com minhas filhas e com o Bernardo, um pouco filho também, que saiu na Ala Baleiro Bala por alguns anos. Agora, quero dividir esta dor com muito mais imperianos, centenas de componentes que hoje saem na bateria, na ala de passistas, ou estão já no Departamento de Carnaval e em outros segmentos, porque foi com o Alfredinho que desde cedo aprenderam a amar e defender o nosso Império, um pouquinho mais triste e mais pobre sem ele.
Quem chorava vai sorrir...
Rachel Valença | Rachel Valença | 19/10/2011 13h57
Ainda bem que cheguei a tempo de ouvir, no início da noite, aquele samba-exaltação da São Clemente que tantas boas lembranças me traz: "A São Clemente vem aí / Quem chorava vai sorrir". Depois ele foi novamente entoado pelos visitantes Quinho e Leonardo Bessa, ambos ex-intérpretes da escola. Mas começar a noitada de samba ao som desse hino tem um sabor todo especial.
Assim como se ouve falar de empresa familiar, pode-se dizer que a São Clemente é uma escola familiar. Na semana que vem completa 50 anos de existência. Nasceu de um time de futebol, ali numa pequena vila da Rua São Clemente. Ensaiava numa garagem de bondes que ficava em frente e depois ganhou quadra mais abaixo.
Não era fácil ser o "Orgulho da Zona Sul". Na própria década de 1960 a comunidade que freqüentava a escola foi removida para muito longe. As baianas já não podiam freqüentar os ensaios, a bateria sofreu baixas tremendas. Mas a escola sobreviveu a essa violência cultural.
Na mesma época em que perdeu seu fundador, Ivo da Rocha Gomes - um idealista, um sonhador, capaz de sacrificar-se e arruinar-se pela escola, que era a sua vida - perdeu também a quadra, que ficava bem no caminho do metrô, onde hoje fica a saída São Clemente da estação Botafogo. A vizinhança aproveitou para tentar se livrar da barulhenta vizinha e iniciou uma campanha covarde pela remoção da quadra.
Enquanto as localidades do subúrbio se orgulham de suas escolas, o bairro de Botafogo defenestrou sem cerimônia sua última escola de samba. A escola tinha bons motivos para enrolar a bandeira, mas não foi o que aconteceu. E sabem por quê? Porque Ivo e Dona Marina (ela está aí para ver tudo isso, graças a Deus) puseram no mundo quatro filhos. E esses, que nasceram e cresceram entre instrumentos de percussão e pedaços de fantasias que seriam reaproveitados, não permitiram que o sonho do pai se acabasse.
Aí está a São Clemente, promovendo em quadra própria, na Presidente Vargas, sua final de samba-enredo de escola do Grupo Especial. Festa linda, por sinal, com três sambas de qualidade disputando, e muita alegria na quadra, muita harmonia. O resultado, que todos já conhecem: ganhou o samba de Ricardo Góes e parceiros. Ricardo é um dos mais antigos compositores da escola e a composição, alegre e animada, tem tudo a ver com o divertido enredo !Uma aventura musical na Sapucaí", sobre o teatro musical brasileiro.
Impossível falar sobre a festa da disputa sem fazer menção à simpatia do carnavalesco Fábio Ricardo, um talento sem pose, sem camarote, sem séquito. Elegantemente vestido com a camisa do Botafogo, assistia a tudo do meio da quadra, cumprimentando todo mundo, numa postura encantadora que espero que nunca perca.
Igualmente notável é o apresentador Milton Cunha, que se constitui num espetáculo à parte. Culto, inteligente e sobretudo bem-humorado, consegue ser correto e divertido ao mesmo tempo e foge aos lugares-comuns característicos desse posto, inovando e encantando.
Em tempo de saudosismo e já que lembrei de tempos antigos da querida escola, deixo aqui uma pergunta: por onde andará Fernando Cascavel, o comunicador nos tempos dos ensaios no Mourisco? Lembrei-me dele durante a noite-madrugada (era esse um de seus bordões prediletos) da última sexta-feira.
Começou mal... Acabou bem
Rachel Valença | Rachel Valença | 21/09/2011 20h03
Ontem, no quarto encontro do projeto Carnaval: que festa é essa?, lá no Centro Cultural Banco do Brasil, não valeu o que está escrito. Pelo menos no tocante ao mediador, se o programa anunciava a participação do economista Sérgio Besserman, quem lá estava era Plínio Fraga, que não foi apresentado por ninguém, cabendo ao respeitável público ir em busca da informação por seus próprios meios.
A primeira rodada foi um desastre. Carlos Lessa resolveu dizer logo tudo, talvez com medo de que depois lhe cassassem a palavra. Apesar de ser um orador brilhante, não escapou de ser um pouco demasiado. Os assuntos abordados pareciam não ter nexo claro e a gente temia pelo desenrolar dos acontecimentos, principalmente quando o mediador balbuciou algum tipo de restrição à verborragia do palestrante e foi firmemente seguro por este, que nem tão cedo parou de discorrer sobre a origem da paixão brasileira pela festa, com breve passagem pela origem do X-tudo e pela explicação sociológica para a profissão de flanelinha.
Finalmente passamos ao segundo palestrante, Jorge Castanheira, presidente da Liesa, que, correto e educado como sempre, mostrou uma apresentação em Power Point sobre várias questões relacionadas ao carnaval, contemplando aspectos históricos bastante interessantes. O passado, o presente e o futuro, de acordo com essa apresentação, sugerem o melhor dos mundos, um espetáculo bem administrado em que tudo funciona às mil maravilhas. E embora muito bem estruturada, com clareza e objetividade, foi também uma longa apresentação.
A essa altura, o público já se revolvia inquieto, temeroso pelo que estava por vir, pois até aquele momento não parecia haver qualquer integração entre os dois palestrantes, que pareciam não estar discorrendo sobre a mesma coisa. E foi aí que o tímido mediador entrou em cena, demonstrando ter grande conhecimento do tema, dirigindo aos palestrantes questões pertinentes e provocações quase ousadas.
Enquanto Lessa se revelou mais conhecedor do mundo dos blocos e do carnaval de rua, lamentando que a comunidade esteja alijada dos desfiles das escolas em função do preço das fantasias, Castanheira abordou questões cruciais do desfile, que nos interessam de perto.
Tranquilizador quanto à certeza de que os prazos para conclusão das obras do Sambódromo serão cumpridos, otimista com relação à melhoria do espetáculo graças à construção de arquibancadas fronteiras, que permitem ao público interagir, feliz com a ampliação da capacidade de público - e Lessa observara a tendência contrária nos estádios de futebol, que estariam expulsando a torcida -, Jorge Castanheira deu show. Em defesa dos parceiros tradicionais da Liesa, como a Globo, cujos adiantamentos pecuniários pelo direito de transmissão permitem às escolas começar a trabalhar mais cedo, declara que a licitação, num caso como esse, equivaleria a trocar seis por meia dúzia.
E quando os questionamentos do Ministério Público foram sutilmente lembradas por Plinio Fraga, Castanheira fez uma hábil comparação com o Enem, em que a estatização foi desastrosa, trazendo à tona a questão da expertise e afirmando que a Liesa já tomou prejuízo para aprender a gerenciar o carnaval, fazendo hoje com 250 funcionários o que a Riotur fazia com 1.600.
Quanto às relações da Liesa com o jogo do bicho, trazidas ao debate com franqueza e habilidade pelo mediador, elas renderam o mais divertido momento da noite: ao ouvir de Jorge Castanheira a afirmação de que não tinha qualquer relação com o jogo do bicho, Carlos Lessa apressou-se a esclarecer: Eu também não! provocando gargalhadas na platéia.
Em resumo, o que começara mal acabou muito bem, num show de inteligência e bom humor. Carlos Lessa é profundo e muito divertido, Castanheira se revelou muito articulado, simpático e respeitador de valores fundamentais de nosso mundo do samba. E se algumas questões continuam sem resposta, outras ficaram mais claras e é sempre bom trazê-las a debate.
O filho do Imperador
Rachel Valença | Rachel Valença | 13/09/2011 12h13
Na próxima quinta-feira, no Teatro Rival, o sambista Jorginho do Império vai homenagear seu pai, Mano Décio da Viola, num espetáculo único chamado Jorginho do Império, o filho do Imperador.
O Imperador é a forma carinhosa como o grande compositor passou a ser conhecido e a origem disso é o samba que em sua homenagem fizeram Paulo Debétio e Paulinho Resende:
Você que fundou o Império
E não se vestiu de imperador
Ficou sendo lá no Serrano
Apenas o Mano poeta e cantor
Posso testemunhar que Mano Décio não se vestiu de imperador, ou seja, nunca teve pose de fundador, de importante. Não era de sua natureza. Era um homem simples, alegre, comunicativo, doce como as balinhas que oferecia a seus interlocutores de maneira cordial. Tive a felicidade de conviver com ele, de entrevistá-lo mais de uma vez para o livro Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba, e até na minha casa ele almoçou, como o comum dos mortais.
Eu gostava muito do Mano Décio. Mas a principal razão para não deixar de ir ao Rival dia 15 de setembro é que gosto dos seus sambas, e quase nunca tenho oportunidade de ouvi-los assim ao vivo. Tenho quatro LPs seus, já os transformei em CD, mas ao vivo, no palco de um teatro, é outra coisa. Seus sambas de terreiro são inesquecíveis e os sambas de enredo foram dos melhores que a escola teve. Um em especial, pouquíssimo ouvido, é Rio dos Vice-Reis, de 1962, em que teve como parceiros Aidno Sá e Davi do Pandeiro. Uma beleza de samba.
E por falar em parceiros, os de Mano Décio sempre ombrearam com ele em competência. A começar por Silas de Oliveira, o mais constante, com quem escreveu inúmeras obras-primas. E sem esquecer Jorginho Pessanha, outro grande poeta que o Império teve, dentre tantos, no presente e no passado. A esses se juntam Osório Lima, Arnaldo Penteado, Abílio Martins e outros grandes.
Mais uma razão para ir ao Rival: eu gosto do Jorginho do Império. Como amigo e como artista. E tenho em comum com ele este grande amor pelo Império Serrano. Muita gente não reconhece o quanto Jorginho já fez pela escola, mas garanto que foi muito. Em 1981, por exemplo, quando tentávamos organizar para o Império uma Velha Guarda que pudesse se apresentar em público, como a da Portela já fazia, mostrando ao mundo nosso maravilhoso patrimônio musical, foi Jorginho do Império quem tomou a dianteira e administrou com franciscana paciência e habilidade as briguinhas dos "meninos": o grupo era formado por Mano Décio, seu Fuleiro, seu Molequinho, Manuel Ferreira, Nilton Campolino e Carlinhos Vovô e congregava ainda as pastoras que dançavam samba e jongo, uma das fortes tradições da Serrinha, e faziam ainda o indispensável coro de vozes femininas.
É, o Império tinha muitos cantores de sucesso na mídia naquele momento, mas foi Jorginho do Império que capitaneou essa nau, prestando um inestimável serviço à sua escola e à cultura brasileira. Pois a Velha Guarda Show que hoje temos, organizada na origem por Nilton Campolino, é resultado dessa primeira, que deve tudo ao Jorginho do Império.
Mesmo que por alguma estranha razão se anunciasse que Jorginho não cantaria nada do que eu espero ouvir, eu estaria lá para aplaudi-lo, pelo muito que o samba carioca - e não apenas o Império Serrano - deve a ele. Mas não haverá, espero, nenhuma razão para o público não se deleitar com Heróis da Liberdade, Apoteose ao Samba, Amor Aventureiro, O Imperador e tantos outros bons sambas, na voz bonita e emocionada de um filho dedicado.
Lá o samba é alta bandeira
Rachel Valença | Rachel Valença | 02/09/2011 10h17

Tudo começou há cinqüenta anos. Os rapazes eram muito novos, moravam todos ali em Ramos e tinham em comum a paixão pelo carnaval. Eram filhos de sambistas e partilhavam também o respeito pelas tradições espirituais da religião de seus pais. Os da família Nascimento - Ubirajara, Ubiracy e Ubirany - juntaram-se aos da família Oliveira - Walter, Sereno e Chiquita - e aos da família Espírito Santos - o grupo de Aymoré -, para brincar o carnaval. Primeiro foram as alas Homens da Caverna e Chapeuzinho de Palha. Depois virou um bloco, o Cacique Boa Boca. Tudo ali na região da Leopoldina, uma brincadeira sem pretensões, coisa de 200 pessoas.
Logo depois, em 1961, a coisa fica mais séria, cresce, incorpora as meninas (irmãs, amigas, namoradas e esposas, mas ainda se restringe à sua região. É o Cacique de Ramos que está nascendo!
Em 1962, a ousadia do primeiro desfile, como bloco de embalo, no centro da cidade proporciona o primeiro confronto com o rival Bafo da Onça, mais antigo e mais numeroso. Resultado: o Cacique se viu acuado, obrigado a recuar para a calçada e dar passagem ao gigante que se aproximava.
No ano seguinte, na esteira do sucesso do samba Água na boca, de Agildo Mendes, a popularidade do Cacique de Ramos levou ao centro cerca de três mil componentes. Era a forra: o Cacique fez o Bafo encostar para lhe dar passagem. Daí pra frente o sucesso sem precedentes conseguiu reunir sete mil foliões, algumas vezes precedidos por batedores da polícia, graças ao prestígio e à imensa capacidade de articulação política de Ubirajara Félix do Nascimento, que se tornou conhecido como Bira Presidente.

No poder há cinqüenta anos, não tem oposição. Líder incontestável, sua legitimidade vem, dentre outras razões, da certeza de que ocupar a presidência do bloco é uma missão, à qual não pensa em se furtar. Uma de suas mais importantes conquistas foi a quadra do bloco, na Rua Uranos, 1.326, que se tornou um pólo cultural da maior importância, transcendendo de muito o carnaval.
Na nova quadra, a partir da década de 1970, foi possível organizar atividades sociais, como as partidas de futebol que terminavam em samba, os pagodes ao ar livre, à sombra das famosas tamarineiras do pátio. Por ali passaram muitos grandes nomes de nossa música: Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, João Nogueira, Jovelina Pérola Negra, Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Sombrinha e muito mais gente.
Foi também a partir desses pagodes que se articulou o grupo Fundo de Quintal, onde permaneceu por décadas a tríade caciqueana mais famosa: Bira, Ubirany e Sereno. Foram inúmeros LPs gravados, depois CDs e DVDs, shows pelo país e no exterior e a tremenda responsabilidade de haver desencadeado uma verdadeira revolução na maneira de tocar e cantar samba, inclusive com nova instrumentação: o tantã, o repique de mão e o banjo com braço de cavaquinho foram criações do grupo, bossas que não comprometeram a fidelidade ao modelo de samba herdado de seus pais, bambas do bairro do Estácio.
Em outubro de 2009 o Cacique de Ramos foi considerado patrimônio cultural imaterial do Rio de Janeiro. Em setembro de 2010 a legalização da posse da quadra e sua inauguração após reforma deram início aos festejos do Cinquentenário. Este ano a Câmara dos Deputados do Rio concedeu ao bloco a Medalha Tiradentes, em cerimônia no dia 9 de maio. Paralelamente a Estação Primeira de Mangueira anunciava a homenagem ao Cacique de Ramos em seu enredo para o carnaval de 2012.
E ontem Bira, Ubirany e Sereno estiveram na sede do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro para gravar o depoimento do Grêmio Recreativo Cacique
de Ramos na série Depoimentos para a Posteridade. Com a colaboração do jornalista João Pimentel, foram quase quatro horas de muitas risadas, sinceridade, irreverência, emoção e até protesto, em que os fatos que narrei acima foram mais uma vez lembrados. É bom constatar que os rapazes ainda estão novos e capazes de esculpir "com mãos de alegria o seu carnaval", como dizem os inspirados versos do saudoso Luiz Carlos da Vila em seu samba Doce refúgio. Viva o Cacique de Ramos!
Com pandeiro ou sem pandeiro
Rachel Valença | Rachel Valença | 30/08/2011 12h50
Na sexta-feira passada fui ao Rival assistir a um espetáculo imperdível de dedicação filial e desprendimento, raros hoje em dia. Não por acaso era um show de samba. O sambista homenageado teria completado cem anos em fevereiro último e, se quase não se ouviu falar disso, não foi por falta de empenho de sua filha.
Cristina é filha de Pedro Caetano, autor, entre tantos outros sucessos, do samba "É com esse que eu vou", que deu título ao bem-sucedido espetáculo de Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral, a mesma dupla que
assinou o inesquecível Sassaricando. E como entre os leitores pode haver alguém tão novo que não se lembra de outro gênero de música de carnaval que não seja samba-enredo, convém lembrar que até a década de 1950, início dos 60, havia música feita especialmente para o carnaval: eram marchinhas e sambas que se destinavam a animar os bailes e até mesmo o carnaval de rua. E alguns compositores foram grandes especialistas nesse gênero. Podemos mencionar, por exemplo, Lamartine Babo e Braguinha, que por terem sido enredo de escolas de samba são mais familiares aos ouvidos dos aficcionados por carnaval.
Pedro Caetano é autor de inúmeros sambas de carnaval e também de músicas gravadas durante o ano, como choros e sambas mais lentos. Suas letras são antológicas, às vezes poéticas, às vezes maliciosas e brejeiras, mas sempre muito inteligentes. E as melodias, a maioria do parceiro constante Claudionor Cruz, são muito inspiradas.
Para comemorar condignamente seu centenário a filha Cristina bateu desde o ano passado em inúmeras portas e acumulou negativas. Ela não vive da obra do pai: é uma profissional de valor, capaz de prover sem dificuldade seu sustento. Portanto, não era dinheiro a questão. O que queria era o reconhecimento de um compositor importante, mas esquecido. Seu depoimento em DVD antes do início do show é comovente e muito sério, pois revela que encontrou apoio não das instituições a que recorreu, mas sim de músicos e cantores que se prontificaram a juntar-se a ela na homenagem, deixando claro e patente que quem quer fazer cultura no Brasil tem de arregaçar as mangas e ir à luta.
A causa nobre poderia fazer supor um espetáculo mambembe a que se assiste só por solidariedade. Não foi nada disso: foram momentos de encantamento, de saudade, de pura alegria que a boa música proporciona. A veterana Cristina Buarque, cuja voz se associa prazerosamente ao samba, já que foi uma das primeiras intérpretes a darem lugar ao samba em seu repertório, dividia o palco com a novata Mariana Baltar, que além de cantar bem tem uma presença graciosa e marcante no palco. E ambas se curvavam diante da carismática interpretação de Marcos Sacramento, um dos melhores cantores de samba da atualidade.
Sucessos como "O que se leva desta vida", Sandália de prata", "Botões de laranjeira", "Eu brinco", "Onde estão os tamborins", "É com esse que eu vou" e outros tiveram inúmeras gravações na voz de grandes intérpretes de ontem e de hoje, mas ouvi-las ali ao vivo, cantadas também pelo público que lotou o teatro, foi uma experiência muito rica.
Graças ao esforço dessa filha devotada, Pedro Caetano teve dois dias de glória no Teatro Rival, no ano do seu centenário. É pouco e é muito, num país em que não há preocupação em preservar e celebrar o passado. A lição que fica é o exemplo desses músicos profissionais que não se tornam insensíveis ao que é bom e acham em suas carreiras um instante de amadorismo para fazer justiça ao que tem valor.
Desagradando a gregos e troianos
Rachel Valença | Rachel Valença | 23/08/2011 10h58
De saída vou desagradar ao leitor Bernardo, que reclama que eu só falo do Império Serrano. Como já disse em resposta ao comentário dele, não é bem assim. Procuro falar de todos os assuntos relacionados ao samba, e até o momento a proporção tem sido de dois para um, ou seja, até o momento apenas a terça parte dos meus textos falou do Império.
Mas hoje não há como fugir, não há como negar: é de lá que me vem a energia indispensável. Quando fico algum tempo sem frequentar o Império Serrano, me sinto vazia. Chego lá, e vejo tanta coisa interessante acontecendo que me encho de gás. Comer o feijão da Tia Neia, ouvir os sambas magníficos na voz de Jorginho do Império, com direito a "canja" de Aluisiio Machado, como aconteceu no último sábado, é luxo só.
O Império Serrano tem uma característica maravilhosa: ninguém o deixa. Está todo mundo lá. Pessoas maravilhosas e atuantes ao lado de parasitas do pior tipo. O tempo dilui as mais viscerais inimizades. Eu mesma, que não sou chegada a brigas, sinto até prazer em ver pessoas que outrora estiveram em trincheiras opostas às minhas. No Império tudo acaba em samba, e que samba!
Dito isso, é hora de desagradar àqueles que não gostaram de minha discrição quanto às coisas negativas que porventura existam no Império e que achei que não caberia a mim apontar. Quase todos, não sei por quê, associaram essa postura à escolha da nova rainha de bateria da escola, depreendendo que o fato de me calar sobre o assunto significaria desaprovação.
Como já disse em um comentário, o assunto rainha de bateria não me emociona. Trata-se de uma invenção mais ou menos recente, conseqüência da enorme visibilidade que as escolas de samba a duras penas conquistaram. É natural que pessoas que vivem da imagem queiram se aproveitar e pegar carona na fama que é da bateria e da escola, não delas. A postura dessas mulheres varia caso a caso: algumas sabem sambas, outras não; algumas são fieis e participativas, outras mercenárias e ausentes. Encaro as rainhas de bateria como um mal necessário, um dos muitos preços que a fama custou ao samba.
Agora, uma coisa é certa: não foi o Império Serrano que inventou a rainha de bateria não. Então, por que criticar quando se tenta "jogar o jogo"? Por não aceitar as regras desse jogo às vezes sujo que é hoje o carnaval o Império tem pago um alto preço. E aí, quando ele decide aceitar as regras vigentes vêm os puristas com quatro pedras na mão...
Prefiro que o Império tente aderir às regras do jogo num tópico como este, que não é quesito de julgamento nem fundamental para a tradição do samba a ver a minha escola se descuidar de tópicos essenciais, cujo descuido me encheria de vergonha. Sinto orgulho, por exemplo, de jamais ter tido de importar diretor de bateria ou de harmonia de outra agremiação, e, muito ao contrário, de ter fornecido a co-irmãs mais poderosas material humano de que têm falta.
Da mesma forma, preferiria que o desfile não tivesse tomado os rumos que tomou, mas me regozijo diariamente por ele ainda existir, e, com todas as suas falhas, injustiças e imperfeições, ser um sucesso. Cabe a todos nós batalhar para mudar - se é que isso é possível - o que achamos que não vai bem. Neste espaço de discussão tenho feito a minha parte, embora tenha às vezes a sensação de falar sozinha, quando trato de assuntos mais polêmicos.
Pronto, falei! Agora é esperar a reação de gregos e troianos, e estou pronta para isso, pois afinal divergir não é crime, como nos fez crer a longa ditadura que tivemos, e é no debate que se aclaram as ideias.
De conversa em conversa
Rachel Valença | Rachel Valença | 18/08/2011 14h47
Gosto quando a nossa paixão pelo samba deixa de ser apenas um sentimento intangível e se torna algo concreto, com resultados práticos. Nos últimos dias tem sido assim, pelo menos no que me diz respeito.
No sábado de manhã fui ao Centro Cultural Cartola para dar minha colaboração ao curso de capacitação de gestores culturais em escolas de samba, que se estenderá aos sábados ao longo dos meses de agosto, setembro e outubro. O Centro Cultural Cartola é hoje um atuante Pontão de Cultura, por conta das ações de salvaguarda decorrentes do registro das matrizes do samba no Rio de Janeiro como patrimônio cultural do Brasil, ocorrido em 2007. Muita coisa boa está sendo feita em termos de pesquisa, recrutamento e organização de acervo, além de cursos e eventos. E nós, sambistas, temos que ter muito orgulho de que uma instituição privada sem fins lucrativos, gerenciada por sambistas, esteja conseguindo fazer tanto pelo nosso samba.
Sabe lá o que é encontrar uma sala lotada de gente de todas as idades, de todas as etnias, de todas as procedências que se dispôs a usar todos os sábados (manhã e tarde) durante três meses para aprender um pouquinho do que são as escolas de samba e outras agremiações carnavalescas? Fiquei muito contente e emocionada, porque não estão ali para obter título ou para passar o tempo, são realmente pessoas interessadas e apaixonadas, que vão se juntar a essa legião cada vez maior de admiradores e cultores do nosso samba.
De lá saí para atender ao convite da Associação Carnavalesca Infiéis para participar do evento Mulheres Bambas do Samba. Eu estava arrebentando de orgulho, como vocês podem imaginar. Quem sou eu para estar num evento com esse nome? Tudo começava com a exibição do filme Batuque na Cozinha, de Anna Azevedo, seguida de uma roda de conversa. Adorei este nome: simétrico à expressão roda de samba, tem mais informalidade do que mesa-redonda ou debate.
Não conhecia o CEDIM - Conselho Estadual dos Direitos da Mulher. É um espaço adorável, organizado, acolhedor. O filme é excelente, retrata com fidelidade o universo feminino numa quadra de escola de samba (no caso, a Portela) e é um documento precioso do samba em nosso tempo. E também amei estar entre mulheres realizadoras e animadas, com uma bagagem cultural de peso, como é o caso de Dona Maria Moura, bem-humorada matriarca do samba, mulheres que têm muito a dizer e gostam de ouvir e debater.
Ontem foi dia de ir ao Centro Cultural Banco do Brasil para o terceiro encontro do seminário Carnaval: que festa é essa?, cujo título, "O chão do samba", aponta para a presença de duas mulheres-maravilhas que venceram o desafio de se fazerem respeitar num universo em que a mulher é às vezes encarada de forma distorcida e equivocada.
Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor, e Nilce Fran, coordenadora da Ala de Passistas da Portela, duas lindas mulheres que têm em comum o envolvimento com projetos sociais ligados ao samba, nos fizeram rir muito com suas histórias, mas na verdade puseram na mesa vários assuntos sérios. Um deles foi abordado já na abertura pelo mediador Aydano André Motta, que é também o curador do seminário: o descaso no tratamento dos sambistas, que se dedicam ao samba e não têm remuneração condigna nem reconhecimento. Outro, muito atual, diz respeito à ocupação do posto de rainha de bateria por pessoas estranhas à comunidade de passistas, provocando da carismática Nilce um comentário conformista: "Não vejo o caminho para consertar isso", embora reafirmando que as escolas de samba não precisam de celebridades para provar sua importância. Enfim, uma conversa descontraída e divertida, mas que deu margem a muita reflexão e até a momentos de pura emoção.
Mais acertos do que erros
Rachel Valença | Rachel Valença | 10/08/2011 13h07
Como já relatei no último texto, fui a Cascadura no domingo para aquilo que nós, imperianos, chamamos o "grito de carnaval", ou seja, aquela esperada data que marca o fim da entressafra entre um carnaval e outro. É o dia da arrancada para o carnaval de 2012, o dia em que se apresentam os sambas concorrentes e em que se assume o compromisso semanal de cumprimento do ritual de uma escola de samba, com bateria tocando, harmonia no comando, passistas, baianas e baianinhas na quadra e puxador cantando os sambas tradicionais da escola. A partir desse último dia 7 teremos samba até o carnaval. Aleluia!
No Império Serrano estamos em tempo de nova diretoria e as coisas mudam a olhos vistos. A começar pelo início da obra na nossa quadra. Acertada com a Prefeitura desde a gestão Humberto Soares Carneiro, só agora ele se iniciou, prometendo para dezembro uma quadra nova, reformada, mais moderna e confortável. Boa notícia para quem ama o Império e freqüenta seus ensaios. Mas enquanto a reforma inviabiliza a utilização da quadra, a diretoria do Mestre Átila decidiu transferir as atividades para a quadra do Arrastão de Cascadura e acertou em cheio.
A quadra é perto da nossa, simpática e acolhedora, e a família imperiana estava bem à vontade no novo espaço. O Arrastão é afilhado do Império, tem nossas cores e muitas afinidades. O espaço físico é agradável, com cobertura mas laterais abertas e parte ao ar livre, o que elimina qualquer sensação de opressão que o pequeno espaço poderia sugerir.
Essa decisão acertada não foi a única. Já se tinha aplaudido a escolha do enredo, muito feliz, e agora estou em condições de opinar sobre a escolha do carnavalesco, muito acertada. Mauro Quintaes, além de um bom profissional, tem-se revelado uma pessoa que tem prazer no convívio com os sambistas, um apreciador do samba. Lá estava ele no domingo, e não parecia estar cumprindo uma obrigação protocolar, mas sim uma pessoa curiosa, mais que qualquer de nós, em acompanhar o desempenho dos sambas, já que um deles terá reflexo importante no seu trabalho. Isso faz toda a diferença.
Outro motivo de alegria e orgulho foi a decisão da direção de Carnaval de alçar Tiãozinho Cruz à condição de intérprete oficial: ele canta bem, tem uma voz fantástica e mostrou respeito pela escola ao se apresentar elegante e bem disposto em sua estreia como primeira voz. Tiãozinho é competente, mas competência não é tudo: é preciso ter atitude - o que falta a muita gente boa. Mas deixa pra lá. O que cai no chão a gente não se abaixa para catar: deixa para os pintos, como diz a letra de um dos jongos que aprendi com Tia Maria.
Os acertos da escolha do enredo, do carnavalesco e do intérprete, a decisão de iniciar a obra tão necessária na quadra e de transferir o samba para um espaço próximo e amigável acabam gerando credibilidade para a atual diretoria. Credibilidade que se traduz, entre outras coisas, numa safra de 36 sambas concorrentes. Sambas ótimos, bons, regulares ou ruins, mas todos ouvidos nesse domingo, antes da divisão em três chaves a partir da próxima semana. Parabéns, Mestre Átila, parabéns Luciano Vargem e equipe!
Lá no título falei em acertos e em erros, os primeiros muito mais numerosos que os segundos. Falei dos acertos. Dos erros não falo, deixo para quem quiser apontar. Já existe gente demais sempre pronta a apontar as falhas do Império Serrano, já que não se pode, por prudência, apontar o que há de errado por aí afora...
Cabelo de telhado
Rachel Valença | Rachel Valença | 08/08/2011 11h05
Na semana passada, na comemoração do centenário de nascimento de meu tio Francisco Teixeira, na ABI, reencontrei velhos amigos, dentre eles o político e jornalista Milton Temer, que conheço há muitos anos e me saudou com um comentário sobre o meu cabelo, que, segundo ele, nunca mudou, ao longo dos tempos. Na mesma hora me lembrei de um fato ocorrido no Império Serrano há uns dez anos, cujo protagonista, um intérprete de apoio, já não freqüenta mais a escola.
Estávamos em 2001 ou 2002, creio, e eu, como ritmista, ia aos ensaios técnicos às quartas, ao samba de sábado à noite e aos ensaios de rua de domingo. Este cantor, Jorginho da Flor, descobriu que eu morava na Zona Sul e passou a pegar carona comigo. Ele morava no início de Copacabana e eu levava em casa minhas caronas oficiais Marília e Conceição, amigas e companheiras nos chocalhos, que também eram de Copacabana. Vínhamos sempre falando muito, contando nossas histórias de sambista, em grande confraternização.
Três anos depois, quando eu já era vice-presidente da escola, meu querido amigo Joacyr, também ritmista, estava um dia tomando seu guaraná numa barraquinha do lado de fora da quadra, antes do começo de um ensaio, quando Jorginho da Flor chegou ao lado para tomar alguma bebida e puxou conversa. Quis saber se o Joacyr saía no Império. Joacyr respondeu amável que sim, que era ritmista. E aí Jorginho respondeu que quase não conhecia ninguém na bateria, só uma mulher que lhe dava carona no tempo em que ele não tinha carro, mas não lembrava o nome dela. "Mas você sabe quem é: é uma que tem um cabelo assim, de telhado" e mostrava com as mãos ao lado da cabeça como seria o tal penteado.
Joacyr contou esse diálogo a mim, furioso com o fato de ele ter escolhido justamente esse traço, e não tantos outros que me identificariam, para me descrever. Durante muito tempo todo o nosso círculo de amigos deu boas risadas com o "cabelo de telhado".
Depois Jorginho da Flor sumiu do Império, nem sei dizer exatamente quando. Parece que a causa foi um desentendimento com o Jorginho do Império, justamente quem o tinha levado para lá. E passou a só ser lembrado quando alguém me perguntava a origem da expressão "cabelo de telhado". Lembrei-me dele quando o Milton Temer falou da permanência desse penteado (se é que se pode chamar assim...), mas nada disse, porque, embora Milton goste de samba, estávamos totalmente fora de contexto.
Hoje, no Grito de Carnaval do Império Serrano, na quadra do Arrastão de Cascadura (a nossa entrou em obras), com a primeira apresentação dos 36 sambas concorrentes para o carnaval de 2012, tornei a ver Jorginho da Flor, que se preparava para defender um dos sambas. Por coincidência o Joacyr estava na mesma mesa que eu e tivemos que recordar o episódio e rir de novo. Não falei com o Jorginho da Flor e acho que ele nunca ficou sabendo que lhe sou devedora dessa simpática e precisa definição.
Nova fórmula, velha história
Rachel Valença | Rachel Valença | 01/08/2011 11h36
Há dias vem-se falando de um assunto muito importante e ao qual não se tem dado, a meu ver, a devida dimensão: as mudanças no sistema de rebaixamento das escolas dos grupos de acesso.
No Grupo Especial, onde a ideia surgiu, é hoje um fato consumado: das 14 agremiações para as quais foram construídos, com dinheiro do contribuinte, 14 barracões na Cidade do Samba, restam 12 no grupo. Sinceramente, as razões apresentadas para essa carnificina não convencem. Sete escolas desfilando numa noite é bastante razoável, fazem o espetáculo mais bonito e variado sem ser exaustivo, como era no tempo em que tínhamos dez e até doze no mesmo dia. Mas ninguém se incomoda muito com isso, e o contribuinte não parece contrariado com o fato de os barracões que pagou terem uso diferente do planejado.
Agora a ideia chega à Associação das Escolas de Samba, que pretende a partir do ano que vem impor às agremiações dos grupos C, D e E a lei do cão, com rebaixamento de seis escolas por ano. Uma das alegações é a melhoria da qualidade do espetáculo. Ai, meu Deus, até lá se fala em espetáculo! Ai de nós que queremos apenas samba, ou principalmente samba... Outra é que dessa forma os dirigentes seriam obrigados a se empenhar mais, não se acomodarem.
Francamente, quem não está a fim de se empenhar, quem deseja se acomodar, não vai ser dirigente de escola de samba do grupo D ou E. Porque quem é de samba bem sabe os enormes sacrifícios necessários para botar na Avenida - aqui em sentido simbólico de qualquer lugar de desfile - uma dessas escolas. Coisa de louco! Não há dinheiro, não há crédito, não há componente, não há mídia. E quando perguntam por que então há pessoas empenhadas nisso, a explicação que me dou está na força da cultura.
Se não acreditam na força da cultura, vou responder com argumentos já batidos e muito usados por mim em palestras e debates: há quase cem parcerias disputando samba na Mangueira e é fácil entender por quê: dinheiro, fama, mídia, muita coisa. Mas por que há disputa acirrada nessas pequenas escolas? Uma delas anuncia 19 composições concorrentes! O que procura um compositor que deseja ter seu samba escolhido no grupo E? A resposta está na cultura: fazer samba e participar do ritual de escolha é a cultura tanto em Mangueira quanto em Ricardo de Albuquerque. E essa é a beleza e a riqueza do samba, que muitos não conseguem ou não querem enxergar.
Levar um carro do barracão da Cidade do Samba para a Marquês de Sapucaí obedece hoje a uma logística espetacular, com o apoio público, com reboques, motores e equipes profissionais. Já deslocar uma alegoria de um barracão precário lá Deus sabe onde até a pista da Intendente Magalhães é tarefa para abnegados. Nessa hora ninguém se lembra de invejar o pobre dirigente, há quatro noites sem dormir, suado, rasgado, endividado. Por que então ele permanece? Pela força da cultura. A cultura que está nele como uma segunda pele e que o empurra para adiante.
O assunto dá margem a muitos enfoques e aguardo as opiniões de vocês, leitores, para prosseguir nele. Mas antes de encerrar, quero botar na mesa mais um dado que considero fundamental: para pôr em vigor esta chacina cultural, espero que a Associação das Escolas de Samba também tenha um plano de reformulação dos critérios de julgamento e de escolha de julgadores. Porque, se muitas agremiações hoje rebaixadas foram vítimas de uma sucessão de erros de seus dirigentes, há algumas que se enfraqueceram por rebaixamentos injustos, resultado de julgamentos equivocados, de boa ou má-fé, mas equivocados.
Antes de decidir mudar o destino de dez agremiações que deixariam de ser escolas de samba, é preciso pensar na lisura e na qualidade desse julgamento que terá resultado tão radical.
De aço e veludo
Rachel Valença | Rachel Valença | 20/07/2011 14h01
Por mais que me esforce, não consigo imaginar Roberto Ribeiro com 71 anos. Como ele nos deixou muito cedo, só consigo lembrar dele ainda jovem, com seu riso alegre, seu modo de ser carismático, sua voz inesquecível. Mas o fato é que hoje, 20 de julho, ele estaria completando 71 anos e a gente começa o dia pensando nele.
Roberto Ribeiro, nome artístico de Dermeval Maciel Miranda, nasceu em Campos, Estado do Rio, a 20 de julho de 1940, filho de Antônio Ribeiro de Miranda e Júlia Maciel Miranda. Quando rapaz, ainda em Campos, cantava em bares e festas de amigos. Aos vinte e cinco anos, em 1965, resolveu vir para o Rio tentar a sorte como jogador de futebol. Treinou no Fluminense, de onde pretendia ser goleiro, posição que já ocupara em times de Campos.
Ao mesmo tempo em que treinava, fazia apresentações no programa A Hora do Trabalhador, da Rádio Mauá, cantando sambas. Em 1969, começou a frequentar a quadra do Império, Escola de sua simpatia, levado por Liete de Souza, irmã do compositor Jorge Lucas.
Em 1971 puxou pela primeira vez o samba da Escola na Avenida. Contava com muita graça a preocupação de todos os amigos e da direção da escola com o fato de ser estreante e talvez não aquilatar bem o grande esforço vocal que representava o desfile. Ao final, na dispersão, depois de cantar o lindo samba Nordeste, seu povo, seu canto, sua glória ininterruptamente e sem uma hesitação durante mais de uma hora, perguntou: - Já acabou ou agora é que vai começar? Sua voz poderosa de jovem de 30 anos não dava sinal de cansaço, límpida e entoada como sempre.
Tornou-se a partir de 1974 o puxador oficial do samba-enredo do Império, na mesma época em que começa a se projetar como cantor de sucesso, tornando-se um dos intérpretes de samba mais populares do país. Foi também compositor de vários sucessos e no Império foi autor do samba-enredo de 1977, Brasil, berço dos imigrantes, em parceria com Jorge Lucas, e voltaria a ganhar samba-enredo em 1979, ao lado de Jorge Lucas e Edson Paiva, com Municipal maravilhoso, setenta anos de glórias.
Tive o privilégio, como crítica de discos e shows, de escrever sobre ele algumas vezes. O título acima foi o que usei, para caracterizar sua voz doce e firme, num texto que escrevi sobre ele. Quando nos tornamos vizinhos, na Urca, no início da década de 80, fiquei sendo amiga do adorável casal e do Alex, chamado pelo apelido familiar de Lequinho, que hoje segue os passos do pai numa ascendente carreira de cantor de samba.
Desse convívio agradável, cujo elo mais forte era o amor ao Império Serrano, me ficou a sensação de toda a dificuldade que é lidar com a fama súbita, para a qual nem sempre se está preparado. Roberto era um homem simples que brincava no Clube do Samba, gostava de cozinhar e torcia apaixonadamente pelo Botafogo. Queria uma vida simples, em família e entre amigos, mas muita coisa mudou de repente à sua volta, trazendo problemas antes não suspeitados, como o despeito e a falsidade, que não estava acostumado a driblar.
Roberto Ribeiro viveu bem menos do que merecia, poderia ter sido muito mais feliz do que foi. Ainda assim, no Império Serrano e no mundo do samba é cultuado como um dos maiores puxadores de samba-enredo de todos os tempos, aquele que primeiro desceu do carro de som para estar perto do seu povo e incentivá-lo a cantar. Fora da passarela, no panorama do samba do Brasil, é considerado um cantor inigualável. E no coração de seus amigos haverá sempre um lugar muito especial para lembrá-lo.
Faz seis anos...
Rachel Valença | Rachel Valença | 18/07/2011 13h24
Sábado, na quadra do Império Serrano, realizou-se mais uma Feijoada Imperial. Era dia 16 de julho e por coincidência, foi num dia 16 de julho, há seis anos, que fizemos a primeira feijoada. A iniciativa foi do Jorginho do Império, que queria reproduzir na nossa casa o sucesso que já se verificava em outras escolas de samba, com as velhas guardas no comando.
A Feijoada Imperial conheceu desde então um sucesso retumbante. Durante a administração Humberto Soares Carneiro chegamos a ter 2.200 pagantes. Se sócios e convidados não pagam, é fácil contabilizar mais de três mil pessoas na quadra. Além do mais, a organização não é opressora, o público se espalha com liberdade e temos orgulho de dizer que nunca se verificou uma briga ou sequer um tumulto: a alegria é que norteia o comportamento daquele povão, mais preocupado em cantar, dançar, comer e beber do que em tumultuar o ambiente.
A qualidade do feijão da Tia Néia já foi cantada em prosa e verso, tendo a nossa feijoada inclusive sido considerada a melhor da Zona Norte em pesquisa realizada por um jornal. A fartura é outra característica que agrada aos visitantes. Nunca ouvi ninguém reclamar do tamanho do prato, pelo contrário, às vezes me aflige a quantidade de comida que é deixada por aqueles que superestimam a própria capacidade de ingestão.
Mas o verdadeiro herói da Feijoada Imperial é o seu idealizador, Jorginho do Império. Desde a primeira ele se comporta como anfitrião, cumprimenta os presentes indo de mesa em mesa, como se estivesse recebendo em sua casa. E está. Hoje a festa cresceu, é difícil até locomover-se entre as mesas e os grupos de pessoas, mas Jorginho continua com a mesma simpatia e a mesma recepção calorosa dos primeiros eventos.
Tenho certeza de que a maioria do público ali presente anseia por aquele momento delicioso em que ele assume o microfone e canta, em primeiro lugar, sambas do Império Serrano de todas as épocas, começando religiosamente por Heróis da Liberdade, que é também o samba que "abre as páginas musicais" (a expressão era usada por nosso saudoso comunicador Léo) nos ensaios da escola. Que prazer ouvir todo mês na sua voz Nordeste, seu povo, seu canto, sua glória e tantas outras maravilhas que nossos poetas produziram ao longo dos anos... Depois de visitar o repertório da casa, ele se permite um passeio pelas co-irmãs, sempre com bom gosto. E finaliza com aquele que é nosso hino maior, consagrado como o maior samba-enredo de todos os tempos: Aquarela brasileira, de Silas de Oliveira.
O andamento dos sambas na sua voz é amigável, longe do frenesi atual, o que nos possibilita saborear as delícias da letra e da melodia. E é engraçado observar que o público não é composto só de gente mais velha e saudosista: tem muita gente jovem que, entre uma paquera e uma azaração, se deixa encantar pela beleza daqueles sambas e canta e dança com animação.
Depois vem a hora também esperada da apresentação da Sinfônica. Ninguém vai a Roma sem ver o papa: em Madureira o que se quer é ver o Mestre Gilmar e seus pupilos mostrarem as inovações que a cada mês fazem as nossa delícias. E a gente parece que sai da quadra com mais energia depois de ver aquela exibição de ritmo, de disciplina e de criatividade.
Na hora em que o Jorginho celebrava ao microfone os seis anos de Feijoada Imperial, veio à minha cabeça o que ela representou como cultura, a gastronomia se enlaçando à criação musical e ao prazer do convívio, na melhor tradição afrodescendente. E não foi por acaso que nesta edição comemorativa estiveram presentes a Velha Guarda Show do Império Serrano e o Jongo da Serrinha, para mostrar a força de nossa cultura, que me faz, que nos faz ter tanto orgulho dessa querida escola.
Tempo de sinopses
Rachel Valença | Rachel Valença | 15/07/2011 12h51
Quem gosta de samba e acompanha a vida das escolas de samba não pode se queixar de tédio. O desfile é em fevereiro, raramente no início de março. Mas o calendário de atividades se desenrola ao longo do ano e temos, sucessivamente, a partir de março, a distribuição dos profissionais pelas agremiações - popularmente conhecida como troca-troca -, em seguida eleições em algumas agremiações, depois especulações sobre enredos e patrocínios. Em junho e julho começam a aparecer as primeiras sinopses de enredos.
Para quem, como eu, adora samba-enredo, esse momento é muito importante, porque a sinopse é a ponte entre carnavalescos e compositores. De muito tempo para cá estou convencida da importância de uma boa sinopse para a criação de um bom samba-enredo. Pois é fundamental que os compositores entendam o desdobramento e o enfoque do enredo, e principalmente que esse enredo toque sua alma, despertando a inspiração.
Sim, eu ainda acredito na inspiração. Embora a técnica que reduziu as parcerias a escritórios seja hoje uma realidade, eu me recuso a acreditar em um processo tão burocrático quanto o nome escritório sugere. Samba-enredo é arte e como tal não pode prescindir de inspiração. Então, é fundamental que a sinopse tenha um quê de poesia, que não seja estritamente a narrativa de uma sucessão de fatos e conceitos.
A dificuldade reside exatamente no fato de que a grande maioria dos carnavalescos tem familiaridade com a expressão plástica e não com a expressão verbal. Sendo artistas plásticos, sua linguagem é visual, ou seja, se comunicam pelo que criam e mostram, não por palavras. Seu pensamento não é em geral lógico-discursivo. Felizmente, porque senão o espetáculo seria chatíssimo. O problema é que a sinopse se faz com palavras, tal como o samba-enredo. E o carnavalesco, salvo honrosas exceções, não transita bem no reino das palavras
Atingir a medida certa e o equilíbrio nem sempre é fácil. Clareza é fundamental, mas uma sinopse excessivamente lógico-discursiva pode gerar sambas pouco criativos. O outro extremo, uma sinopse muito criativa mas distante do factual pode confundir a cabeça dos poetas, ainda mais porque hoje em dia há enredos muito bizarros, muito afastados do cotidiano deles e do nosso também...
Talvez em virtude dessas dificuldades, tornou-se comum atualmente a terceirização da elaboração da sinopse: ou o próprio carnavalesco tem em sua equipe alguém capaz de traduzir em palavras o que lhe passa na cabeça, ou a própria escola conta com um Departamento Cultural que assume a tarefa. E há casos até de contratação de um "fazedor de sinopse" profissional (ou quase).
Na minha modesta experiência de carnaval, tive a felicidade de trabalhar com carnavalescos muito preparados, capazes não apenas de desenvolver de forma inteligente enredos seus ou enredos de terceiros, mas até de verbalizá-los com clareza e emoção em sinopses que ajudaram os compositores a criar com sucesso. Eram, além disso, pessoas muito abertas ao diálogo, que aceitavam sugestões e observações e as incorporavam com gosto e sem vaidade. Destaco especialmente Rosa Magalhães e Paulo Menezes, que me proporcionaram prazer e aprendizado ao acompanhar sua inteligente criação.
Estamos em meados de julho e já tive acesso às sinopses de oito escolas do Grupo Especial. Cinco ainda não foram divulgadas, tanto quanto estou informada. Para que os compositores disponham de cerca de um mês para criar, acho que já seria hora de termos todas elas, já que a disputa costuma durar dois meses e as finais acontecem em outubro. Por isso, até o final de julho creio que já contaremos com todas elas e vamos voltar ao assunto para comentá-las.
Pista!
Rachel valença | Rachel Valença | 05/07/2011 14h51
O meu penúltimo texto neste espaço mereceu um simpático comentário do Ulisses Corrêa Duarte, que acabou ficando sem resposta, porque a motivação para escrever sobre a ameaça aos barracões das escolas do Acesso me desviou da minha intenção de falar um pouco, a propósito desse comentário, sobre o carnaval de Uruguaiana.
O carnaval de Uruguaiana tem como evento central o desfile das escolas de samba e sua principal característica, diferentemente de tantos outros, que copiam o do Rio de Janeiro, é ser quase tão antigo quanto o nosso. As primeiras escolas de samba da cidade datam do final da década de 1940, início dos anos 50. Foram fundadas por fuzileiros navais transferidos para lá para patrulhar nossa fronteira líquida. A nostalgia do carnaval os levou a criar tão longe daqui escolas de samba que com o passar dos anos adquiriram suas próprias características e despertam paixões tão acirradas que, após tumultos e confusão, foi necessário "importar" julgadores isentos para pôr fim às desconfianças e acusações mútuas.
A maior curiosidade do carnaval de Uruguaiana é que ele acontece "fora de época", ou seja, duas semanas depois da data oficial. Graças a isso é que nos é possível participar. E é com muita curiosidade que a gente verifica a intensa participação da população no carnaval. Somos abordados nas ruas e questionados de forma simpática mas apaixonada. Todos têm sua escola do coração e a passarela, mais extensa que a nossa, fica lotada.
Outra peculiaridade é que cada escola se apresenta duas vezes, tendo, assim, oportunidade de reparar os erros que porventura cometer no primeiro desfile. E é curioso verificar que às vezes a ala que faltava aparece no segundo dia, mas pode também desaparecer uma que havia desfilado. E até um carro alegórico que foi julgado no primeiro dia pode faltar no segundo.
Ser julgadora do desfile das escolas de samba de Uruguaiana tem sido para mim um prazer enorme e uma oportunidade de refletir sobre os quesitos, só que do outro lado do balcão. Santo Deus, a primeira vez que julguei, em 2008, achei a tarefa muito angustiante e fui tomada pelo terror de cometer injustiças. Mas ao longo dos anos o grupo foi se firmando e a coisa é feita com tanto capricho que foi ficando mais fácil.
Na comissão julgadora convivo com gente que gosta de samba e de carnaval, que conhece o assunto porque o vivencia 365 dias por ano. Embora a gente não troque impressões durante o desfile, fico muito fortalecida pelo fato de estar cercada de pessoas que, cada um na sua especialidade, sabem o que estão fazendo. Confesso que me comove ver a seriedade com que a tarefa é executada, ainda que o clima seja de alegria, de piada, de convívio sadio e ameno.
O que não quer dizer que a gente não se desentenda eventualmente, porque não é fácil botar todo mundo na linha e conciliar interesses. Mas a exaustiva atividade é entremeada de momentos muito agradáveis de histórias narradas e cantorias de sambas que, como diz a propaganda da tevê, não têm preço...
De volta ao Rio eventualmente nos encontramos para confraternizar e conversar sobre os momentos mais interessantes, e nunca falta assunto. Há cerca de um mês dei por mim num bar no Flamengo entoando um antigo samba da Estácio de Sá, Langsdorf, delírio na Sapucaí, de 1990, que vários colegas do corpo de jurados de Uruguaiana adoravam tanto quanto eu. Me digam uma coisa: onde é que eu ia arranjar um grupo como este? O carnaval de Uruguaiana nos uniu, me fez conhecer gente nova, me fez rever velhos amigos, me fez reconsiderar antigas desavenças e me deu a certeza de que é possível ser justo e isento no julgamento, quando se trabalha com paixão e de boa-fé.
Cidade do Samba II
Rachel valença | Rachel Valença | 30/06/2011 10h17
Em 2005, quando a Cidade do Samba foi inaugurada, o Império Serrano ocupou, sob as bênçãos de São Jorge, o barracão nº 7. Lá foram preparados os desfiles de 2006 e 2007. A escola foi rebaixada e o então vice-presidente de carnaval deixou a diretoria. A opção do presidente Humberto foi me deslocar de meu posto de vice cultural para a área de carnaval. Coube a mim, portanto, comandar a saída da escola do paraíso da Cidade do Samba para o antigo barracão da Vila Isabel, gentilmente cedido.
O dia dessa mudança foi um dos mais tristes da minha vida e tudo que passamos pode se resumir numa imagem: o carro abre-alas, com o símbolo maior do Império Serrano, ao tentar caber no novo habitat, bateu. A coroa se quebrou. Minhas lágrimas naquele momento não eram pelo prejuízo material: faríamos uma nova coroa. Era a simbologia desse acidente que me fazia chorar.
Em 2008, após meses de duras provações, fomos campeões do Grupo de Acesso, ocasionando nova mudança - dessa vez de volta ao barracão nº 7, cheios de animação e esperança. Mas o rebaixamento, para mim até hoje incompreensível, no carnaval de 2009 nos tirou novamente o nirvana e dessa vez foi a União da Ilha, que acabara de subir, que nos cedeu seu barracão. Em três anos de vice-presidência de carnaval comandei três mudanças, sempre com o total apoio de minha maravilhosa equipe de bravos imperianos.
Tudo isso foi dito apenas para respaldar a minha opinião sobre o absurdo abismo que se criou entre as escolas do especial - que eram 14 à época da construção da Cidade do Samba e depois encolheram para 12, sem que o motivo jamais tenha sido explicado. Por que 14 barracões abrigam apenas 12 escolas? - e as demais existentes na cidade, aliás muito mais do que 12.
Nunca vi por parte do poder público qualquer manifestação acerca das péssimas condições em que as escolas dos grupos de acesso preparam seu carnaval. E no entanto os seus desfiles são a fonte de tudo, é de sua cultura que se alimenta o espetáculo das do Grupo Especial, delas é que saem carnavalescos, coreógrafos, intérpretes e casais de mestre-sala e porta-bandeira para as grandes escolas. E há casos até em que a cobiça de uma poderosa pelo mestre de bateria de alguém influencia o resultado... Bem, deixa pra lá.
Sintomaticamente, o lugar em que se localizam os barracões das escolas do Acesso foi apelidado de Carandiru. Todos nós sabemos o que isso significa. O que pode ser pior do que Carandiru? Nada. Era o que eu achava até esta semana, quando começam a circular notícias de que as escolas estão sendo despejadas do Carandiru. Diante disso, tive de mudar de ideia: pior do que Carandiru é não ter nada.
Pasmem: no Rio de Janeiro, cidade que deve ao seu carnaval não apenas a notoriedade e o prestígio, mas bons negócios, turismo em alta e geração de emprego, as escolas de samba são enxotadas como cães vadios. Desculpem a crueza da imagem, mas ela é fruto da minha perplexidade, da minha indignação: a prefeitura considera abandonados os galpões da Cia. Docas, mas lá estão escolas de samba de vários grupos, que são invisíveis para os que estão no poder. Como se fazer carnaval fosse privilégio de 12 escolas.
Não sei por que as escolas de samba devem ficar fora do Porto Maravilha. Para tornar os barracões polo de interesse cultural e até turístico não é preciso o luxo da Cidade do Samba. Mas é fundamental que o poder público se sinta responsável por um espetáculo que é criado com grande sacrifício e que é, mais que lazer, cultura, a cultura do povo de uma cidade, de um estado (há escolas de samba de municípios vizinhos incorporadas à festa).
Se o Porto Maravilha pretende se tornar um espaço de cultura, de turismo, de lazer, as escolas de samba não farão feio ali e poderão conviver com vilas olímpicas e outras exigências de um momento passageiro - Olimpíadas e Copa do Mundo -, mas que, a exemplo do que aconteceu em outras cidades do mundo, deve deixar frutos mais perenes ou duradouros para a população.
O moderno e o tradicional
Rachel Valença | Rachel Valença | 23/06/2011 11h26
Este título foi tirado da primeira estrofe de um antigo samba de Martinho da Vila, Quatro séculos de modas e costumes, com que a Unidos de Vila Isabel desfilou em 1968. Ele me veio à cabeça nesta terça, no Centro Cultural Banco do Brasil, no segundo encontro do evento "Carnaval, que festa é essa?", cujo tema era O ritmo do carnaval.
No palco se reuniam o tradicional, representado pelo veterano Monarco, e o moderno, na pessoa do compositor André Diniz, representante de uma geração de sambistas mais pragmáticos, para dizer o mínimo. Entre os dois o escritor e pesquisador Luiz Antonio Simas, que por conhecer do riscado deu ele próprio uma importante contribuição ao debate, com intervenções pertinentes e criativas.
O interessante é que os palestrantes assumiram seus papéis com convicção, ou seja, Monarco recordou o passado, com menção inspirada ao genial Silas de Oliveira, no que toca ao samba enredo, e a inúmeros excelentes sambas de terreiro, depois chamados sambas de quadra e hoje desaparecidos como gênero. Sambas nascidos no seio das escolas, pois passavam pelo crivo, por exemplo, do exigente Natal, que proibia a execução na Portela daqueles que reconhecesse como coisa de fora. "Isso é do rádio", fulminava.
Cuidadosamente Monarco evitou emitir qualquer opinião ou juízo de valor sobre a atualidade. Só lamentou as mudanças verificadas, com justificada nostalgia de um tempo em que quem decidia a disputa de samba enredo eram as pastoras.
André Diniz, por seu turno, deu à plateia uma visão muito clara e realista do que significa fazer samba na atualidade. Ouvindo-o, a gente chega à conclusão de que vida de compositor não é nada fácil. A começar pela fragilidade dos enredos: "é difícil fazer samba sobre cabelo", suspira ele. Ou sobre o que se convencionou chamar de CEP (cidade, estado e país). Em contrapartida, os ganhos já não são mais astronômicos, como na década de 1980. Há escolas de samba que ficam com 60% dos direitos do samba. Reclamar com quem? E não é apenas isso que incomoda, mas também o andamento em que o samba é executado e a qualidade da gravação.
Outra questão incômoda é o processo de escolha do samba em cada escola. A parceria que não levar torcida é cortada, independentemente da qualidade do samba. Mas também pode acontecer de a parceria levar 30 ônibus e perder para um amigo do presidente ou da primeira dama. A frase que resume as queixas é contundente: no circo da disputa, o compositor é o palhaço.
Igualmente incômoda é a falta de clareza dos critérios de julgamento do samba no desfile, que nunca foram debatidos com a comunidade de compositores das escolas de samba. O formato quase obrigatório hoje, duas partes, um refrão entre elas e outro no final parece ser uma fórmula infalível, mas, segundo André, cabe aos compositores modificar isso, como lutar para que do processo de escolha só participe quem efetivamente pertence à escola, sem torcida de aluguel.
À pureza de Monarco, que nunca faria samba para concorrente da sua Portela e que se reporta a um tempo em que havia "uma solidariedade bonita no samba", esperava-se opor, na pessoa de André Diniz, a frieza e o profissionalismo dos "escritórios" de fazer samba. O que se viu foi um sambista que tem uma reflexão sobre o que faz, sobre o papel das baterias e harmonias no andamento do samba, sobre a participação às vezes pouco respeitosa de alguns intérpretes, que tomam liberdades com o samba, e sobre o que classificou como a colaboração da transmissão da Rede Globo para a decadência do espetáculo.
Acima de tudo ali estavam dois sambistas apaixonados por suas escolas, em busca de uma solução para o impasse que vive o samba enredo na atualidade. Se Monarco opta por se afastar de disputas, André Diniz lamenta uma realidade que leva os compositores a "se organizarem" em parcerias (parceria organizada seria uma eufemismo para o termo "escritório"?), embora não gostem disso.
Este segundo encontro do evento foi marcado por uma maior participação do público, bem mais à vontade e mais motivado para o debate do que no encontro de maio. Só é preciso um pouco de cuidado para que a participação improvisada e desorganizada da plateia não descambe para confusão e prejudique os que lá foram interessados em ouvir as personalidades anunciadas no programa.
No carvalhão (Galo de Ouro II)
Rachel Valença | Rachel Valença | 20/06/2011 16h48
Na semana passada me permiti reminiscências sobre a Unidos de Lucas e muita gente boa comentou. Faltou falar muita coisa, mas um amigo querido me recordou um episódio mais recente, que se passou em 2005 na concentração da querida escola.
Organizávamos uma ala na Unidos de Lucas, quando ela estava no grupo B. Era uma forma de ajudar, pois havia problemas de contingente, e também de nos divertirmos. Estávamos assistindo ao desfile nas frisas, já com nossas fantasias ensacadas, prontinhas para desfilar na reedição do clássico Mar baiano em noite de gala. Minha família e amigos assistem juntos e desfilam juntos. Minha neta Luísa, na época com uns 15 anos, levara a colega Mariana para assistir, mas de última hora, sem ter planejado. De modo que Mariana não tinha fantasia para desfilar e ficou bem tristinha. O jeito foi ceder a ela a minha própria fantasia.
Acontece que eu adoro fantasia! Não sei como pode haver tanta gente correndo atrás de camisa para desfilar porque não gosta de se fantasiar. Carnaval pra mim é fantasia e nunca me esqueço das inúmeras que vesti no Império Serrano e em outras escolas em que saí. Já as camisas me parecem todas iguais...
Pois bem: cedi minha fantasia à Mariana, mas fui com a turma toda para a concentração para curtir aqueles momentos maravilhosos que antecedem um desfile. Lá chegando, o Paulinho (a personificação da Unidos de Lucas, para mim) teve pena da minha exclusão e conseguiu-me uma camisa de diretor, que eu, por falta de opção, vesti com entusiasmo.
A ala já estava armada, posicionada no seu devido lugar no enredo, e como ficava logo atrás de um carro alegórico, eu observava o posicionamento dos destaques lá em cima com o auxílio do carvalhão, aquele guindaste com uma gaiolinha, que tem a função de elevar os destaques até seus "queijos", quando esses são muito altos. Eu, que nunca entendi como uma pessoa escolhe atravessar a Avenida no alto de um carro, comentei com um amigo: - Nem por um milhão de dólares eu seria capaz de subir num carvalhão!
O amigo se foi e eu continuei paradinha assistindo aos últimos preparativos para o início do desfile, quando um funcionário da Riotur se aproximou: "- Diretora, alguém precisa subir para colocar o chapéu do destaque". Eu fiquei sem voz, pregada ao chão. Mas não tive coragem de recusar, tive vergonha de dizer que eu era uma diretora de mentirinha, dessas que eu mesma detesto e critico. Resultado: entrei tremendo na gaiolinha com o chapéu enorme na mão e ela foi me levando às alturas, até o "queijo" mais alto, e eu, de dentro da coisa balouçante, tive de fazer esforços terríveis para alcançar o destaque e ajeitar-lhe a fantasia. Sem olhar para baixo, sem pestanejar, sem sequer respirar, cumpri o meu dever de diretora.
Não ganhei um milhão de dólares, mas me senti feliz por retribuir com um pequeno serviço a generosidade da escola, que me aceitara como diretora de araque. Acho que este deveria ser o castigo para todos que se infiltram em escolas só pela vaidade de posarem de diretores.
O Galo de Ouro
Rachel Valença | Rachel Valença | 13/06/2011 08h35
Houve um tempo na minha vida em que eu tinha implicância com a Unidos de Lucas. A antipatia começou no desfile de 1972, na Candelária, daquele que na época equivalia ao Grupo Especial. Lucas fazia parte, portanto, da elite do carnaval. Seu enredo, Brasil das 200 milhas, era meio chapa-branca, louvando a fixação das nossas fronteiras marítimas, ou coisa assim, pelo governo militar. Só isso já era o suficiente para me indispor, porque era época de ditadura, pessoas sendo presas ou coisa pior, e a gente não achava a menor graça nesses enredos laudatórios.
Como não havia cronometragem, a pequena escola, totalmente estragada por uma chuva forte, ficou quase duas horas na pista, entoando sem ânimo o samba e mostrando suas fantasias amarelas com manchas de vermelho desbotado pela ação da água. E tome 200 milhas!
Anos depois, numa apuração, tive um desentendimento com um dirigente da escola, já então no equivalente ao acesso, que queria esperar a apuração do grupo principal "só pra ver o Império cair", como dizia, sarcástico, olhando de soslaio para nossa mesa. O Império realmente foi rebaixado, ele comemorou com palavras pouco gentis e eu, triste e revoltada, perdi a cabeça e parti para a briga. Mas o Zé do Rio (era esse o seu nome e até já falecheu, coitado) tinha o dobro do meu tamanho e a turma do deixa-disso entrou em ação para me salvar do vexame.
Desde então eu criei birra da Unidos de Lucas e isso durou alguns anos. Duas pessoas que vim a conhecer depois me fizeram mudar de opinião. Primeiro o Ricardo Lourenço, torcedor da Imperatriz, mas que sempre guardou um lugar no seu coração para a frágil escola e me falou dela tanta coisa bonita que eu acabei esquecendo as 200 milhas e o Zé do Rio. Depois, conheci o Paulinho, um abnegado que trabalha e faz qualquer coisa pela Unidos de Lucas. Sua paixão é contagiante e desde essa época tomei gosto por sair na escola e ficou difícil passar o carnaval sem cantar no "esquenta" de Lucas Sublime Pergaminho, de 1968, um dos mais belos sambas de enredo que conheço.
De fato, é uma escola que desperta paixões. Uma vez, assistíamos na arquibancada a um desfile do Grupo A em que Lucas seria uma das últimas a desfilar. Num grupo que estava perto de nós, um senhor bradava que estava ali só esperando "para ver a vergonha que a escola ia passar", acusava a diretoria de incompetente, desonesta e coisas tais. Cada escola que passava ele recomeçava a cantilena contra a Unidos de Lucas e sua diretoria, sempre irritado e muito crítico. Na hora que o serviço de som anunciou: "Próxima escola a desfilar: Unidos de São Lucas", o homem deu um salto da arquibancada e começou a gritar emocionado: "Unidos de São Lucas coisa nenhuma, Unidos de Lucas, o Galo de Ouro da Leopoldina, a maior escola de samba do Brasil".
Esse episódio longínquo, relembrado hoje aqui, é a minha homenagem aos torcedores apaixonados, que mesmo quando acham que sua escola não está numa boa fase, não deixam de ir vê-la, torcer por ela e protestar quando lhe erram o nome ou a injustiçam.
Semana abençoada
Rachel Valença | Rachel Valença | 09/06/2011 15h15
Enquanto em algumas escolas de samba os carnavalescos e diretores culturais se esmeram na elaboração das sinopses de enredo a serem entregues aos compositores, e enquanto em outras escolas os poetas já se ocupam de aglutinar parcerias e criar os sambas que farão nosso deleite em 2012, a gente vai se distraindo como pode.
A semana foi pródiga de atrações. Na terça fui ver Cauby Peixoto cantar, numa noite imperdível: aos oitenta anos seu vozeirão e sua dicção perfeita são admiráveis. Ouvindo-o ninguém diria que tem esta idade. Fenômeno semelhante ao que no mundo do samba assistimos com o saudoso Jamelão, que manteve a potência de seu canto até idade bem avançada. Além da voz, a presença de Cauby, seu carisma e o diálogo apaixonado com as fãs tornam o espetáculo um acontecimento emocionante
Ontem, quarta-feira, fui à Academia Brasileira de Letras na hora do almoço ouvir o grupo Samba de Fato num repertório que homenageava o centenário do compositor Pedro Caetano. A série "MPB na ABL" acontece uma vez por mês e tem entrada franca. O auditório de 280 lugares estava bem cheinho e foi muito bom ouvir sucessos como "O que se leva desta vida", "É com esse que eu vou", "Flor de laranjeira" e tantos outros, na interpretação de ótimos músicos, em especial a voz privilegiada de Alfredo Del-Penho, que vai se tornando um sambista de primeira. Destaco com entusiasmo a presença de alunos de uma escola pública que tiveram comportamento exemplar, melhor que o de muita plateia pagante que há por aí. Iniciativas como esta são um grande incentivo à formação de plateias e à difusão de nossa cultura.
E no início da noite dei uma chegada ao Trapiche Gamboa para a homenagem da roda de samba comandada por Pedro Paulo Malta e Pedro Amorim ao centenário de Nelson Cavaquinho. Cantou-se o melhor do compositor mangueirense, que quase só tem coisa boa. Os clássicos de Nelson foram desfiados como um rosário e não faltaram também composições menos conhecidas, porque essa turma jovem está pesquisando bem e não se limita ao óbvio.
Saí de lá, como se diz entre os sambistas, de alma ensaboada, enxaguada e torcida. E, quando recapitulo o que foi esta semana, não posso deixar de bendizer esta Cidade Maravilhosa, que além de suas inúmeras escolas de samba e blocos carnavalescos, nos proporciona tanta música de qualidade e tantos motivos para ser feliz.
Na Passarela do Samba II
Rachel Valença | Rachel Valença | 06/06/2011 12h34
Ontem eu planejei ir assistir à implosão do prédio da Brahma, marcada para as 8 da manhã. Mas acordei atrasada (afinal, era domingo) e desisti de ir. Ainda bem, porque as notícias dão conta de que tudo durou apenas segundos e se eu tivesse chegado com cinco minutos de atraso já teria perdido esse momento histórico.
Foram necessários apenas alguns segundos para resolver um problema de anos na vida dos que amam o samba e suas escolas em desfile. Agora, livres do incômodo prédio, teremos arquibancadas dos dois lados da pista, teremos maior capacidade de público, teremos talvez maior conforto para quem trabalha no Sambódromo e passa quatro noites direto ali, às vezes com dificuldade até de realizar a contento suas tarefas.
É o caso dos radialistas, cujas cabines, mal-posicionadas, dão acesso apenas à área de concentração, obrigando os comentaristas a descrever o que não veem. Há alguns anos tive a honra de participar da equipe de comentaristas da Rádio Roquette Pinto, a convite do competente Miro Ribeiro, e sofri na pele as dificuldades de trabalhar meio às cegas, fazendo das tripas coração para não deixar o ouvinte em falta.
Pois é. É hora de pensar nesses e em outros problemas e tratar de corrigi-los. E na sequência do que escrevi há dias sobre a Cidade do Samba, observo também que o entorno da Passarela do Samba consegue às vezes ser mais animado que seu interior. O povo é como a água: procura seu caminho. Se vedam aqui, vai minando por ali. Se não têm acesso ao Sambódromo, os que gostam de samba se distraem à sua moda, da maneira possível. As barracas são pontos de encontro, servem caldos e outras comidinhas, mais saborosas e acessíveis que as do Bob’s que nos alimenta dentro da Passarela, reúnem grupos de ritmistas que ajudam o pessoal a entoar seus sambas queridos (só um ou outro coincide com o que somos obrigados a ouvir lá dentro) e o pessoal acaba fazendo o seu carnaval, pois o hábito de "descer" para o desfile no carnaval está ainda arraigado e levará tempo para mudar.
É claro que prefeririam poder assistir ao desfile, sua paixão, festa que ajudaram a consagrar quando os atuais participantes nem se davam conta de sua existência. Aí é que é hora de pensar: se vamos ter mais quase 18 mil lugares, não será hora de arranjar uma maneira de deixar o povo entrar? Tenho certeza de que com ele nossa festa seria ainda mais bonita e os Jogos Olímpicos de 2016 já contarão desde já com nossa simpatia, já que foram a motivação para essa importante mudança.
Na minha casa todo mundo é bamba
Rachel Valença | Rachel Valença | 03/06/2011 17h54
Tem gente, aliás muita gente, que vai ao Engenhão ver Paul McCartney. Ontem bem menos gente foi ao Vivo Rio ver Martinho da Vila lamber sua cria no show de lançamento do novo CD: a casa de show nem lotou. Eu fui e não me arrependi.
Sou fã de Martinho. Primeiro, pelo grande compositor que ele é. Depois, porque adoro sua maneira de interpretar. Mas principalmente porque, mesmo depois de conhecer o sucesso, continuou fiel à sua escola de samba, frequentando e participando, tirando dali inspiração e energia. Deu à Unidos Vila Isabel lindos sambas de enredo e soube perder também muitas vezes, com a consciência de que da disputa sempre se sai enriquecido. Meu respeito a quem, mesmo famoso, continua a jogar o jogo.
Ter oito filhos já é um grande privilégio, mas poder subir ao palco com cinco deles e com produção de um sexto é façanha que poucos podem se orgulhar de realizar. E que filhos... Já nem falo de Mart’nália, que tem carreira própria de sucesso e já é velha conhecida do público, desde que, junto com a irmã Analimar, ambas ainda bem novinhas, fazia vocal de apoio nos shows do pai. E o que lhe falta em voz lhe sobra em graça e ginga. O miudinho sambado ao lado do pai é uma graça, imperdível. Já Analimar tem uma linda voz e sua interpretação da obra-prima que é Tom maior foi de arrepiar.
Juju e Tonico Ferreira são boas surpresas, Ele é um ótimo percussionista, canta e faz graça. Juju tem presença, tem molejo, revela uma personalidade de sambista bacana. E Maíra Freitas, que desponta agora como uma promessa forte em seu primeiro cd solo, foi responsável por momentos de encantamento em seus duetos com o pai, enquanto nos teclados revelava seu talento musical e uma criatividade rítmica muito moderna, mas marcada pelas tradições de sua ascendência de bambas.
Momento lindo foi a apresentação de toda a família entoando o samba de enredo Noel - a presença do poeta, de autoria do patriarca, que a Vila levou para a Avenida no último carnaval. É o momento em que se vê que no DNA de todos está impresso o traço irresistível que nos apaixona em Martinho A expectativa de que, no bis, cantariam o clássico Kizomba, festa da raça foi frustrada, mas ninguém saiu de lá triste: a casa de bamba de Martinho formou sambistas de primeira!
Cidade do Samba
Rachel Valença | Rachel Valença | 31/05/2011 08h48
Assim como a inauguração da Passarela do Samba, em 1984, significou para os sambistas a realização de um sonho, também a ocupação da Cidade do Samba em 2005 encheu de esperanças e alegria os amantes do carnaval das escolas de samba. Mas, tal como o Sambódromo viria a revelar aos poucos seus problemas e afastar-se do sonho, assim também a Cidade do Samba, após seis carnavais, vai matando nossas esperanças e mostrando suas fragilidades.
A principal delas, sem dúvida, é a questão da segurança. À tragédia do ano passado têm-se sucedido inúmeros incidentes de menor monta, todos relacionados à precariedade de condições de segurança contra incêndios. Para quem, como eu, já "habitou" um dos barracões da Cidade, tais ocorrências foram uma desagradável surpresa, porque creio que as escolas têm o compromisso de contratar empresas de segurança contra incêndios, submeter-se a vistorias periódicas dos bombeiros e manter em regime de plantão brigadistas treinados.
Para uma escola que sobrevive e faz seu carnaval apenas com a subvenção, tal despesa é considerável, pesa muito no orçamento. Mas sempre a encaramos como um investimento fundamental, mormente porque no ano de 2008, no Grupo de Acesso, em barracão emprestado, quase vimos nossos sonhos serem devorados pelas chamas na véspera do desfile: o carro que representava Carmen Miranda escapou, graças ao heroísmo dos trabalhadores do barracão, de virar cinzas em segundos.
Por isso sempre acreditamos que os gastos com segurança contra incêndio eram sagrados. Hoje se constata com surpresa que eles não são capazes de evitar catástrofes como as do início deste ano. E se em nossos antigos barracões as instalações elétricas eram precárias, com "gatos" e gambiarras, hoje um quadro melhor não é ainda totalmente tranquilizador.
A Cidade do Samba tem outros problemas, menos graves, como a falta de privacidade e a impossibilidade de contar com o fator surpresa no desfile, o que desmerece um pouco o trabalho dos carnavalescos. Mas, na minha opinião, mais grave do que isso é ela já ter começado garantindo a alguns privilégios de localização e até de planta. Os barracões não são iguais, não foram feitos iguais. Longe disso. As escolas, que deveriam ser iguais em direitos e deveres perante seu órgão representativo, também não o são. A gente foi aprendendo a duras penas a lição de que "umas são mais iguais que as outras", e o próprio ranking que é usado como parâmetro obedece a critérios definidos bem a propósito e às vezes casuísticos.
Outra crítica frequente é com relação à sua frieza, que leva os sambistas a se reunirem em seu entorno para poder beber, comer algo mais a seu gosto, conversar, cantar samba e até batucar. Porque dentro de seus muros o acesso é complicado e o comportamento esperado é bem outro. Nos moldes atuais, aliás, nem interessa tanto assim a quem gosta de informalidade e alegria estar lá dentro.
Bem outro era o nosso sonho, o ideal de um lugar de convivência. Porque não há samba sem convivência, sem troca, sem conversa, sem cerveja. E acho que até o turista ficaria um pouco mais feliz se pudesse encontrar algo menos esterilizado, menos arrumado, mais real. Apesar de tudo isso, é a nossa Cidade e querermos que ela seja melhor, mais acessível e calorosa, não quer dizer que não a amemos e não nos orgulhemos dela.
Imperiano de fé não cansa...
Rachel Valença | 08/02/2012 09h47
A saga dos lesados
Rachel Valença | 21/02/2012 20h59



