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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



23/05/2015 14h32

O que devo ao SRZD-Carnaval
Rachel Valença

O SRZD está completando nove anos. Não tenho todo esse tempo de casa, mas me lembro bem de minha chegada a essa família, em 2011. Estava no metrô, a caminho do trabalho, quando meu celular tocou. Naquela época o sinal no metrô era bem pior do que hoje, por isso escutava com certa dificuldade. Ouvi: Rachel, aqui é Sidney Rezende. Pensei que ouvira mal. Por que Sidney Rezende me ligaria? Mas a voz inconfundível me tirou qualquer dúvida: Era mesmo Sidney Rezende e queria conversar comigo sobre um novo projeto.

No dia seguinte conversamos pessoalmente. Começava o SRZD-Carnaval e eu estrearia como blogueira no dia 1º de maio de 2011. Do grupo inicial de blogueiros sou a única remanescente, o que me coloca na privilegiada posição de "decana" desse grupo. Achei muito atraente a ideia de escrever periodicamente sobre o assunto que preenche minha vida e é minha maior paixão. Ainda acho. Não que não tenha havido momentos de dúvidas e aflições. Como tudo que nos dá orgulho e alegrias, o SRZD-Carnaval também me deu decepções e dores de cabeça. Foram incompreensões, xingamentos e ameaças, mas, na hora do balanço, estou no lucro: o SRZD-Carnaval me deu muita coisa boa.

Foto: Portal Academia do Samba

Começo pela equipe maravilhosa com que convivo. Gente mais nova do que eu, gente cheia de gás, de alegria por estar fazendo o que gosta, que me dá mostras constantes de solidariedade e coleguismo. Principalmente para os problemas tecnológicos, que me afligem, conto com a enorme paciência de minha editora Luana Freitas, competente, sempre bem-humorada e com uma disposição para o trabalho que é a tônica de todo o grupo.

Depois cito a total liberdade de expressão, fator fundamental para mim. Escrevo sobre o que quero, com o enfoque que escolho, e nesses quatro anos nunca recebi qualquer sinal de interferência ou autoritarismo, vindo de quem quer que fosse. Mas o que mais me surpreendeu positivamente foi a enorme visibilidade que este espaço me proporcionou, coisa de que eu não tinha a mais vaga ideia quando comecei.

Este ano, por exemplo, no carnaval de Vitória, uma semana antes do nosso, fui carinhosamente reconhecida por leitores. O mesmo já acontecera em Porto Alegre e em Campos dos Goytacazes. E na quadra do Império Serrano é comum receber a visita de leitores, sempre carinhosos e gentis, comentando textos e debatendo questões de nosso interesse comum.

Tudo isso devo ao SRZD-Carnaval. Creio que não será exagero afirmar que essa experiência profissional mudou a minha vida, e para melhor. Mesmo com a grande dificuldade que tenho quando é necessário gravar comentários ao vivo depois de uma noite sem dormir, cansada, vermelha e descabelada, vale a pena. Tendo de vencer a dificuldade de falar, pois sempre me é muito mais fácil escrever, vale a pena. Precisando me conformar com as reações inesperadas e passionais de alguns leitores, vale muito a pena.

Foto: Alex Nunes

Outra experiência fantástica que o SRZD-Carnaval me proporcionou foi participar da cobertura jornalística do carnaval como comentarista. Desfiles de escolas de samba não são uma novidade para mim. Assisto-os há bem mais de 40 anos. Mas assistir com olhar técnico, bem além do simples "gostei" ou "não gostei", foi um exercício excelente, principalmente porque me fez perceber que esse olhar de maior objetividade não nos vacina contra a emoção. Felizmente. Ao olhar para trás, nesses quatro carnavais a serviço do SRZD-Carnaval, lembro-me com especial clareza do desfile da Imperatriz Leopoldinense em 2013. Na escala elaborada pela Luana, eu devia comentar esse desfile. Para melhor acompanhá-lo, pedi o colete que me possibilitaria estar na pista com a escola.

A visão que se tem da pista não é tão boa quanto a das arquibancadas, de onde se acompanha tudo de cima, com nitidez e sentido de conjunto. Mas temi um distanciamento grande, e não apenas físico. O que vivi naqueles minutos foi quase impossível de descrever. Fui me locomovendo por entre alas, observando comissão de frente, bateria, os casais de mestre-sala e porta-bandeira, passistas, carro de som, alegorias e quando me dei conta estava tomada por uma fortíssima emoção e chorei. O samba, Pará, o Muiraquitã do Brasil - Sob a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia, era comovente, a energia da escola contagiava, uma coisa linda, forte, inexplicável. Acabei o desfile cantando, dançando, chorando, completamente fora de mim.

E agora, como comentar? A Imperatriz é considerada uma escola fria, mais técnica do que emoção. Será que enlouqueci e vou dar uma visão distorcida da realidade? Maldisse a hora em que optei pela pista, mas a tarefa não podia esperar e relatei o que vi e o que senti. Felizmente, este foi de fato um dos mais belos desfiles da escola de Ramos e minha emoção não foi descabida. Devo mais essa ao SRZD-Carnaval.

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04/05/2015 14h25

Começando tudo de novo
Rachel Valença

Quando escrevemos um texto que será lido por gente conhecida e por gente que nem conhecemos, estamos expostos a interpretações e leituras as mais diversas. O que quero dizer é que, no momento do clique que torna público o texto, a reação das pessoas foge totalmente ao controle. Nesses quatro anos como blogueira, tive surpresas maravilhosas e reações intempestivas, às vezes no campo aqui destinado aos Comentários, às vezes fora dele. Faz parte. Às vezes os demais leitores compartilham comigo essas reações, às vezes sequer tomam conhecimento delas. Como diria meu saudoso amigo Roberto Ribeiro, "segue o enterro!", maneira antiga de dizer o que hoje se expressa com "vida que segue".

Nada na vida nos ensina tanto esta lição quanto o carnaval. A gente se mata, se esfalfa, se acaba, por um momento fugaz. Passado aquele momento, acabou tudo. E começa tudo de novo. Talvez por isso o povo do carnaval, esses amantes fiéis da folia, seja tão resistente às suas perdas. Passou, acabou. É hora de recomeçar.

Estamos nos primeiros dias de maio. Faltam nove meses para o carnaval. Mas hoje à noite se decide, em sorteio, a ordem dos desfiles da Série A. Para quem não é de samba, não é muita coisa a definição do dia em que a escola desfilará e em que posição. Mas nós bem sabemos o quanto isso é determinante para o desempenho de uma escola.

Na verdade, das 14 colocações, apenas 10 são sorteadas, já que as duas escolas que abrem a sexta e a que abre o sábado são conhecidas sem sorteio, por força do regulamento. A Unidos de Padre Miguel, campeã moral deste ano, desfilará sábado, sorteando apenas a colocação, e as outras dez são agrupadas em pares, numa tentativa de manter o equilíbrio da qualidade dos dois dias. Mesmo assim, trata-se de um momento de certa forma decisivo.

Desfiles da Unidos de Padre Miguel e Em Cima da Hora. Fotos: SRZD

Ninguém ignora que desfilar na sexta-feira é um abacaxi. Porque, na capital mundial do carnaval, sexta-feira é dia de trabalho normal. E o folião fica em apuros para estar a postos no final da tarde. Haja vista o que ocorreu com a valente Em Cima da Hora no carnaval passado. Foi preciso que ela passasse pelo que passou para que marcassem para mais tarde o início do desfile de 2016. Demorou!

Ora, a escola que cai na sexta já fica meio tristinha. Não adianta negar. Encerrar o desfile todo mundo quer, mas nem sei se há muita lógica nisso, pois a última escola de sexta tem a ingrata missão de manter o público no Sambódromo, o que não é tão simples após um dia de trabalho. Com o agravante de que, começando mais tarde, se encerrará mais tarde também. Mas é claro que a última posição tem seus atrativos.

O sambista é desconfiado, já viu muita coisa estranha e improvável acontecer, por isso sempre se pergunta até que ponto este sorteio depende só da sorte. Infelizmente não tenho resposta para isso e só resta acreditar nas tais bolinhas e torcer. Torcer, sobretudo, para que nosso carnaval não caia em descrédito, porque sem transparência e lisura fica difícil sustentar essa paixão de milhares de cariocas, brasileiros e até estrangeiros. Todo mundo de olho bem aberto para que as discrepâncias e injustiças não tenham início nove meses antes do carnaval.

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20/04/2015 14h49

Uma pequena notável II
Rachel Valença

Motivada pela presença de Ruy Castro e Heloisa Seixas à quadra do Império Serrano, para mais uma Feijoada Imperial, achei que talvez valha a pena falar de nossa segunda experiência com a Pequena Notável, no carnaval de 2008. Não é história, ainda, dada a proximidade da data, mas este relato pode servir de fonte a quem mais tarde deseje conhecer um pouco desse carnaval, para o qual a biografia de Carmen escrita por Ruy Castro foi de fundamental importância.

Em 2007, o Império Serrano sofreu um rebaixamento. Dois meses depois do resultado, o vice-presidente de carnaval abandonou o barco. Eu ocupava a vice-presidência cultural, e o presidente Humberto Soares Carneiro optou por me elevar à posição de vice de carnaval, com o devido referendo do Conselho Deliberativo. O que me esperava: o antigo barracão da Vila Isabel, na Rua Equador, gentilmente cedido pela coirmã, e carnavalescos e enredo já escolhidos: Renato Lage e Márcia Lávia com "Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim". Não se tratava de uma reedição, mas de um novo enredo sobre um tema já abordado em 1972. Nova leitura e novo samba.

Foto: Acervo pessoal

Se eu fosse narrar aqui todas as agruras enfrentadas, a falta total de recursos, as dificuldades materiais e de relacionamento, os momentos de desânimo e desespero, o leitor nem acreditaria. Se eu falasse dos exemplos de solidariedade, de união e até de legítima alegria vindos de dentro e de fora, talvez fosse mais difícil ainda de crer. Mas era tudo verdade, tudo ao mesmo tempo, numa avalanche diária de emoções antagônicas que só o carnaval pode proporcionar.

Mas é dela que eu estou falando: da nossa Pequena Notável. Ela não viria no carro Abre-Alas. Por decisão dos carnavalescos, era a segunda alegoria que lhe era dedicada. Mas Carmen não nasceu para ser segunda: esta alegoria "roubou a cena" do desfile. É ela que se vê em todas as matérias de cobertura do carnaval do Império Serrano em 2008.
Foi aí que começou nossa ligação. Porque nenhum outro carro alegórico, deste ou de outro carnaval de que eu tenha participado, deu tanto problema quanto este. Faltavam dois dias para o desfile e a pala ou gola que envolvia seu pescoço até os ombros pegou fogo. Uma fagulha saída de um aparelho desses de aplicar cola quente chegou ao tecido metálico e quando vimos o fogo já se alastrava e ameaçava acabar com toda a escultura, talvez com o carro inteiro. Foi uma correria danada, barulho de pequenas explosões, um caos. Mas em poucos minutos os bravos trabalhadores do barracão, os diretores e todos os imperianos ali presentes conseguiram minimizar a ação das chamas e salvar a escultura, já em fase de decoração. Em frente a ela, meio chamuscadinha, derramei lágrimas de alívio.

Mas a alegria ia durar pouco, pois meia hora depois um temporal de proporções diluvianas caiu sobre o barracão, cuja cobertura era bastante precária... Chovia por toda parte, mas em cima de Carmen havia algo como uma tromba d’água. Com água pelas canelas, conseguimos efetuar a manobra que garantiu a Carmen certa proteção. De qualquer forma, ficou pálida e meio borrada. Parei diante dela, olhando-a com preocupação. Ela mantinha, apesar de tudo, o sorriso malicioso.

Um dia depois, na madrugada anterior ao desfile, enfrentamos a saída dos carros do barracão. Operação complicada, porque a chuva fizera estragos no calçamento por onde os carros deveriam passar, gerando um desnível. Tudo foi tentado: placa de aço, pranchão de madeira, soluções custeadas por imperianos queridos, já que a escola não tinha mais nada. Mas o carro número 2 não havia jeito de passar. Foram horas de tentativas e nervosismo, até que um ângulo feliz permitiu a manobra. Carmen saiu, poderosa, e atrás dela todos os demais carros encontraram o caminho da Avenida.
Mas os desafios não acabavam aí. Ao chegar à concentração, o Abra-Alas passou sem problemas. Mas o enorme turbante de Carmen, com suas frutas tropicais, teimava em bater numa passarela de travessia de pedestres. Fiquei petrificada, com medo de que o adereço sobre o turbante se partisse. Carmen, a essa altura, já estava linda, toda recuperada e pronta para brilhar, com batom vermelho, cílios postiços e unhas brilhantes. Se o chapéu se quebrasse, seria uma tragédia. A solução foi um jovem escultor - seria Levy o seu nome? - subir na passarela e sentado no chão pressionar com os dois pés o tabuleiro de frutas e empurrar levemente a cabeça, permitindo que a alegoria passasse, aplaudida.

Foto: Divulgação

Nesse exato momento, ao olhar lá pra cima, aliviada e feliz, vi por um segundo Carmen piscar para mim com cumplicidade. Que se dane a razão, às favas o materialismo. Eu vi. Carmen Miranda estava torcendo por nós, vira o nosso esforço, trataria de recompensá-lo. O Império Serrano entrou na Avenida confiante. Lá nos aguardava uma chuva redentora. O samba contagiante, o público animado, o componente determinado, tudo contribuiu para o resultado. Mas guardo a certeza de que ela, a Pequena Notável, é que foi a principal articuladora da vitória.

Por isso, quando retornamos para o barracão número 7 da Cidade do Samba, fiz questão de levar na mudança esta escultura. Alegorias, por mais belas que sejam, ficam pra trás. As obras de arte efêmeras que as compõem são destruídas pela ação do tempo. Esta é a maior beleza do carnaval: ele nos ensina a recomeçar sempre. Mas não foi fácil desapegar desse querido talismã. Ficamos amigas.

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25/03/2015 09h36

Império Serrano: muitos anos de vida
Rachel Valença

Em 23 de março o Império Serrano completou 68 anos de existência. A data e sua comemoração são de interesse restrito aos imperianos, por isso me poupei de comentá-la aqui. Meu colega Hélio Rainho o fez com mais brilho do que eu seria capaz. Acontece que nesta data querida o Império anunciou seu enredo para 2016. Não um enredo qualquer: "Silas canta a Serrinha" comemora o centenário daquele que foi e é considerado o maior compositor de samba-enredo de todos os tempos.

Será ele o "narrador" de tudo que vamos ver na Avenida, será ele a nos revelar os encantos de nosso lugar, aquele paraíso cultural onde nasceu e vicejou o Império Serrano. Em busca de nossas matrizes, teremos como guia aquele que lá nasceu e cresceu, aquele que lá viveu e compôs.

Confesso que estava em campanha a favor da homenagem e ninguém se surpreende com isso. Ao longo de meus 43 anos de Império Serrano, tenho respondido milhares de vezes à curiosidade de como e por que me aproximei da escola, tão distante de mim, física e culturalmente. A resposta é sempre a mesma: foram os sambas de Silas de Oliveira que me atraíram a Madureira.

- 'Silas canta Serrinha' é o enredo do Império Serrano para 2016

Foto: SRZD

Mas, mal havia chegado lá, em 1972, Silas nos deixou para sempre. Não tive, portanto, o privilégio de conviver com ele, mas a admiração se fez cada vez maior e acabou por me levar à sua viúva, D. Elane, de quem me tornei amiga e admiradora. Seus filhos são para mim como sobrinhos muito queridos. Muitos deles já se foram, outros vejo mais raramente, mas Silas e Elenice, que frequentam a quadra, eu adoro.

Silas foi, segundo contam os que com ele conviveram, um homem tímido, de poucas palavras. Teve uma educação severa, em família protestante, mas encontrou na poesia do samba sua válvula de escape. Sorte nossa! Primeiro no Prazer da Serrinha, depois no Império Serrano, que ajudou a fundar, compôs sambas inspirados. Quantos? Não se sabe. Não foram apenas sambas-enredo, foram também belos sambas de terreiro, alguns dos quais foram gravados por gente da pesada. Cartola, por exemplo, autor de tantas obras-primas, gravou em um de seus elepês "Meu drama" (também conhecido como "Senhora tentação").

Quanto aos sambas de enredo, sua produção se concentrou nas décadas de 50 e 60. Para falar somente dos que foram cantados na Avenida, temos 14 e mais o de 2004, reedição. Foram 15 carnavais com samba de Silas. Mano Décio da Viola quase se equipara a ele, com 11. É possível que esta marca seja em breve ultrapassada por Aloisio Machado e Arlindo Cruz, também grandes, que igualmente já emplacaram cada um 11 sambas. Mas tivesse Silas vivido além dos 56 anos, idade que tinha ao morrer, nem sei como ficaria esta estatística.

Foram 14 vitórias entre 1950 e 1969. Na última disputa de que participou, em 1972, a derrota contundente o abateu muito. Não desfilou na escola, mas não aceitou sair em nenhuma outra. Foi à Avenida ver o seu Império ser campeão com um samba radicalmente diferente de todos que fizera na vida. O carnaval estava mudando, talvez Silas tenha sentido isso. Com sua enorme sensibilidade, talvez tenha intuído que no carnaval já não havia espaço para ele e seu amigo Orfeu, dos "Cinco bailes tradicionais da história do Rio".

Foto: SRZD

Foi triste vê-lo partir. Mas quem disse que o Império perdia o seu viga-mestre? Silas é um dos mais presentes na escola. Novos sambas de quadra o relembram e exaltam. Seus sambas-enredo são entoados a cada semana nos ensaios, nas feijoadas, nas rodas de samba no entorno de nossa sede. O ensaio é aberto, em respeito à tradição, com "Heróis da liberdade", também cantado quando um sambista se despede para sempre. "Aquarela brasileira" tem a força de um hino em louvor da brasilidade.

E já que mencionei a tal roda de samba, sou obrigada a confessar que na linda festa do dia 23, com a quadra enfeitada, jantar e baile (como nos bons tempos do Império), o que realmente me encheu os olhos estava do lado de fora: pertinho da saída da quadra, em torno de uma mesa, ritmistas e músicos jovens entoavam o que eu mais amo ouvir, os sambas tradicionais de nossa escola. E no centro da mesa, um bolo de aniversário não deixava margem para dúvida: ali se comemoravam os 68 anos da escola querida com tanta ou mais paixão do que lá dentro. Uma maravilha de cenário.

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23/03/2015 10h16

Viva o samb(r)a!
Rachel Valença

É isso mesmo, leitor: Sambra. Este é o título de um musical incrível que esteve em cartaz de quinta a domingo no Vivo Rio, dedicado a contar de forma alegre e emocionante a história de um século de samba. Muito bom ver o samba ser tratado dessa forma, reunindo o que há de melhor: um roteiro inteligente, um texto leve e engraçado (mas que nem por isso deixa de dizer o que deve ser dito), uma direção impecável, um elenco de primeira, de atores-cantores-dançarinos, cenários e figurinos elegantes na medida certa: Ricos e requintados, não nos faziam sentir num musical da Broadway, porque tudo tinha a marca do Brasil e do Rio de Janeiro, com uma qualidade e um bom gosto que acariciam nosso patriotismo.

Vi e ouvi muita coisa boa naquelas duas horas, mas o que mais me impressionou, a ponto de repetir aqui, esteve na fala do autor-diretor Gustavo Gasparani, ao agradecer no final do espetáculo os muitos e entusiasmados aplausos. Ele disse que pretendeu de fato fazer algo grandioso, porque o samba merece isso. Não é porque é do povo que pode ser tratado de qualquer jeito. Exatamente por ser uma criação popular, tem que ser tratado assim.

Foto: Ricardo Nunes

O mais interessante é que o fato de ser um espetáculo grandioso não o impede de ser fiel ao que o samba tem de mais representativo. Eclético, não se atém ao chamado samba de raiz e incorpora a importante contribuição do rádio e dos compositores do asfalto. Assim, Tia Ciata, Donga, Sinhô, Ismael Silva convivem com Ary Barroso, Caymmi, Mário Reis, Noel Rosa, tudo numa mistureba gostosa, verdadeira, porque é a cara da nossa cultura.

Sobre o elenco, Diogo Nogueira se sai muito bem e surpreende em sua estreia como ator. Lilian Waleska dá um show de canto, de malícia, de graça. A expressão corporal de Bruno Quixote, que representa o samba, é esplêndida. E alguns momentos me arrebataram: o dueto de "Boneca de piche", de Ary Barroso, está sensacional. O jongo me levou às lágrimas, pois "Vapor da Paraíba" é um clássico muito presente no dia a dia imperiano. Aliás, as lágrimas chegaram bem antes, com o primeiro número musical, "Apoteose ao samba", de Silas de Oliveira e Mano Décio, e foram até o último samba, "Aquarela brasileira", do mesmo Silas.

Um espetáculo que fala de samba e começa e termina com Silas de Oliveira mostra que está falando sério. Que bonito o papel do samba na resistência aos Anos de Chumbo, com fortes imagens de confrontos de rua nas projeções, em contraste com a delicadeza das imagens de obras de nossos artistas do samba, Heitor dos Prazeres, Guilherme de Brito e Nelson Sargento, ao longo do espetáculo.

Foto: Divulgação

Mas fica claro que o grande valor vem do texto excelente, que costura de modo feliz as inúmeras fases, e da direção segura e sensível. O segredo é simples: Gustavo Gasparani sabe o que quer. É um homem de teatro e é um sambista. Não está inventando nada nem falando do que ouviu contar. Tem vivência e tem sensibilidade e isso faz toda a diferença. Ao incluir, no final do espetáculo, a emocionante fala de Patrícia Costa, nos mostra que ser passista é muito mais do que nossos olhos podem enxergar.

É, gente, o samba é tudo isso. É arte, é ritmo, é dança, é poesia, é religião, é indumentária, é comida. É jongo, é capoeira, é gafieira e é carnaval. É cultura, para resumir. E eu gostaria que esse espetáculo pudesse ser visto pelo povão, que por enquanto fica de fora por causa do preço alto, que se justifica pela qualidade do espetáculo, mas infelizmente está acima das reais possibilidades dos sambistas. Volta pro povão, Sambra!

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09/03/2015 08h51

Guerreiras
Rachel Valença

No dia 8 de março se comemora o dia internacional da mulher. Todos os que me são próximos sabem que discordo desta homenagem. Gostaria que todos os dias do ano fossem da mulher. Caso fosse assim, não haveria necessidade de um dia para homenageá-la. A maior prova do que estou afirmando é que não existe o dia do homem...

Mas já que se convencionou homenagear as mulheres nesta data, meu pensamento se volta, como sempre, para minha escola de samba, aquela onde aprendi a amar o samba e o carnaval, aquela que mudou minha visão de mundo e me fez ser mais feliz. O Império Serrano é uma escola de grandes figuras femininas e aproveito para falar de algumas delas.

Para começar, Eulália do Nascimento. Por ser mulher, seu nome não consta daquela histórica lista de fundadores. Lá estão seus irmãos e seu marido, José do Nascimento Filho, mas nunca ao longo de sua vida a ouvi queixar-se desta falha. Sabia que para uma mulher as coisas não eram simples, mas nunca se considerou menos fundadora só porque seu nome não aparece na relação dos fundadores. Desde a primeira vez que a entrevistei pude vir isto com clareza, porque ela afirmou categoricamente: "Eu sou a número um do Império". Que se danem as listas, nunca duvidei disto, porque os fatos falaram mais alto que qualquer documento. Desde a fundação, na sua casa, e enquanto viveu, tudo, absolutamente tudo, do Império Serrano, passava por ela. Foi uma mulher extraordinária!

Igualmente, o nome de Maria Joana Monteiro está ausente da lista de fundadores, mas não tenho a menor dúvida de que ela estava por lá naquele 23 de março de 1947. Lá está o nome de seu marido, Pedro Francisco Monteiro Júnior. Foi ela, e não o marido, que se tornou figura de destaque no Morro da Serrinha e na escola, tornando-se figura das mais representativas por sua herança do culto religioso afro-brasileiro. Mãe-de-santo, jongueira e sambista, teve grande liderança na comunidade e foi reconhecida como uma das mais importantes personalidades da cultura negra no Rio de Janeiro.

Sobre Dona Ivone Lara nem é preciso que eu me estenda. Tendo atingido a fama como compositora e intérprete, são do conhecimento de todos as dificuldades que enfrentou para ser aceita no ambiente predominantemente masculino de uma ala de compositores. Não perdeu por esperar: foi dócil ao marido, criou amorosamente os filhos e só na idade madura, cumpridas todas as etapas de submissão e obediência, construiu sua vitoriosa carreira.

Olegária e Maria Joana. Fotos: Reprodução de Internet

Outra mulher fantástica que dedicou sua vida à paixão imperiana foi Olegária dos Anjos. Belíssima, elegante e inteligente, esta imperiana das primeiras horas foi outra a se dedicar ao longo de toda a existência à nossa escola. Entrou para a história do carnaval do Rio por ter sido a primeira figura a desfilar como destaque, já no início da década de 1950. Nunca se afastou da escola, que frequentou até morrer, desfilando no carnaval enquanto as forças lhe permitiram.

Vem ainda à minha lembrança a ex-presidente Neide Dominicina, que igualmente dedicou a vida ao Império Serrano. Tenho por sua memória muito respeito, embora em alguns momentos, em vida, tenha discordado de seus métodos. Mas tínhamos em comum algo precioso: o amor pela escola. Quando foi presidente, sua dedicação foi tão intensa que chegava a passar mais tempo na escola do que em sua casa e seus familiares, longe de se aborrecerem com isto, compreendiam e apoiavam. Neide, tal como suas antecessoras, foi uma guerreira!

Além dessas cinco mulheres espetaculares com que o Império Serrano contou e conta, há muitas outras que me vêm à lembrança hoje: dona Alice Terra, que por muitos anos presidiu a ala das Baianas da Cidade Alta, tão respeitada; tia Neia, quituteira e sambista de primeira, que até hoje cuida de nossa Feijoada Imperial, Iracema, destaque maravilhosa que abrilhanta sempre a quadra com sua elegância, Tia Maria do Jongo, esta grande dama, e tantas, tantas outras mulheres maravilhosas de quem me orgulho de ter sido, ou de ser amiga. Devo ou não ser eternamente grata ao Império Serrano por tudo que me proporcionou?
Não é por acaso que o Império Serrano é hoje dirigido, tal como o Brasil, por uma presidenta.

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02/03/2015 08h25

Ainda há o que comentar sobre o Carnaval de 2015
Rachel Valença

O pós-carnaval nunca é um marasmo. Temos novidades diárias. Novidades que nos arrebatam e põem à prova nossa imaginação. Como será a Portela com Paulo Barros? Para a Mocidade volta Louzada, festejadíssimo. Alex de Souza deixa a Ilha e volta para a Vila Isabel. A Ilha acolhe Paulo Menezes e Jack Vasconcelos. E por aí vai...

Mas ainda não se esgotou para mim o assunto Carnaval 2015. Muita coisa ficou sem comentar e me permito voltar a algo que já perece distante e sem interesse. Porque assim é o carnaval: efêmero por natureza, uma vez acabado já não tem mais interesse. E viva 2016!

Pois bem: ouso voltar ao carnaval que passou e para falar de problemas. O maior deles foi o som da Sapucaí. Já não vou reclamar que é alto demais. Não adianta clamar no deserto. Mas gostaria, ao menos, que ele fosse igual para todas as escolas. Seria o mínimo a ser exigido. Mas não é. Além desse verdadeiro absurdo, falhou demais este ano, fazendo ruídos ensurdecedores ou simplesmente desaparecendo durante o desfile de algumas agremiações. Num espetáculo do nível do nosso, com preços tão elevados, acredito que se não se resolve o problema do som é porque ele não é considerado relevante.

Ora, num espetáculo onde a melodia e o ritmo têm papel tão primordial, não há como ignorar que problemas na reprodução do som podem ser fatais para o sucesso de uma apresentação. Além disso, o público merece respeito.

Outra questão que mais uma vez me saltou aos olhos foi a das alas de passistas. Muitas escolas as posicionaram este ano na frente da bateria. Grande acerto. A passagem da bateria, seguida do carro de som, é um momento de vibração no desfile. Todas as atenções do público se voltam para o desempenho de ritmistas e intérpretes. Espremidos após o carro de som, os passistas não têm visibilidade. Ora, o samba no pé, cada vez mais raro, tem esse único momento para ser apreciado. É preciso dar-lhe o destaque que merece.

Na verdade, nem sei se gosto que os passistas venham em ala. Mas há muito tempo que é assim. Não há nada mais bonito num desfile do que a dança do samba, aquela riqueza e variedade coreográfica espontânea, motivada somente pelo apelo do ritmo. Com as alas cheias e orientadas para padronização e mesmice, perde-se a beleza. Aquele monte de gente dividindo pouco espaço e obrigando-se a um deslocamento rápido acaba por se ver impossibilitado de mostrar a riqueza de suas possibilidades. Perde-se o lindo espetáculo que tantas vezes presenciamos nas quadras, fora das apresentações formais: num cantinho, sem holofotes, se pode ainda ver toda a beleza dessa dança inimitável.

Creio que as escolas precisariam se preocupar um pouco mais com suas alas de passistas. Como não são objeto de julgamento, não valem nota, estão ficando relegadas a um segundo plano. É este pragmatismo que enfraquece a manifestação cultural e acaba empobrecendo o espetáculo. Aliás, a evolução do componente de ala é outro fator de visível empobrecimento. As alas carecem de movimento. A orientação que o componente recebe é no sentido de não sair de seu lugar durante todo o percurso do desfile, evoluindo só para a frente. Ora, não há nada mais empobrecedor, porque as alas passam estáticas, sem movimento. É claro que isso está relacionado com o crescimento das escolas e com a necessidade de cumprir a cronometragem. Mas que saudade da brincadeira dentro da ala, evoluindo de um lado para o outro e dando a quem assiste de cima a impressão de alegria e animação.
Assim tem sido: a gente vai abrindo mão de tanta coisa, chega até a esquecer certas características e procedimentos, e depois não entende por que os ingressos não são mais vendidos tão rapidamente e nem se esgotam mais.

Outra grande tristeza foi ver que o desfile das campeãs não foi transmitido pela emissora que detém exclusividade do direito de transmissão. Não sei não, mas acho que na hora de negociar esse direito, deveria ser verificado não apenas o preço, mas também a real intenção de transmitir e divulgar a totalidade dos desfiles. Se não há interesse em transmitir, pra que comprar?
Dinheiro não é tudo. Por incrível que pareça, ainda há coisas que o dinheiro não compra. A paixão pelo samba, pelo carnaval, pelas escolas de samba é uma dessas coisas. Ainda bem.


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20/02/2015 08h26

Daquilo que vi
Rachel Valença

Daquilo tudo que eu vi na Avenida em quatro dias de folia, gostaria de destacar alguns momentos: coisas que adorei, coisas que preferia não ter visto.

Começo com a bela surpresa que nos proporcionou a São Clemente. Depois de um ensaio técnico desanimador, o desfile foi um dos pontos altos do meu carnaval. A escolha do enredo foi muito feliz e seu desenvolvimento claro. Que fantasias maravilhosas apresentou! Mesmo conhecendo de perto o talento de Rosa Magalhães e de seu assistente Mauro Leite, tanta criatividade me surpreendeu. Desde as imagens que davam medo ao menino Fernando em sua terra natal, que se tornaria o audacioso Pamplona no carnaval do Rio, tudo era bonito demais. As alas de colombina e arlequim, o palhaço, a bruxa, tudo era puro carnaval. Os girassóis, que Pamplona considerava as flores da eternidade, lá estavam ao fim do desfile, garantindo a todos nós que ele jamais será esquecido. Uma beleza a escola, animada, cantando, dançando, cumprindo com galhardia a difícil missão de abrir o desfile e enfrentar um público frio, que logo se deixou levar pela emoção. Uma beleza!

Beleza emocionante foi também o carro Abre-Alas do Salgueiro. Bom gosto, imponência, luxo, criatividade, tudo misturado num efeito espetacular. Adorei também o quinto carro da Mocidade Independente. Muito criativa e divertida a ideia de surpreender pessoas na cama (camas verticais, interessantíssimas), nas mais heterodoxas combinações, muito de acordo com o enredo. Sensacional! Apreciei a sucessão das duas últimas alas da escola, Botava o bloco na rua? e Deixa a Mocidade te levar. Bonito de ver.

A águia da Portela, em sua manobra diante da torre de TV, foi um momento espetacular do desfile, deixando o público sem respirar por alguns segundos. Sensacional. O povo adora essas emoções.

Foto; SRZD - Igor Gonçalves

As divertidas comissões de frente da União da Ilha e da Grande Rio também foram responsáveis por momentos de vibração do público. A da Imperatriz Leopoldinense nos levou de volta a um passado de maravilhosas apresentações. Deu show.

A bateria da Unidos da Tijuca arrepiou... As baianas da Viradouro, representado Tia Ciata, com tabuleiros na cabeça, evoluíram com garra, apesar das saias pesadas da chuva. As vozes de Wantuir, na Portela, Nego, na Imperatriz, Ito Melodia, na União da Ilha, mais uma vez me emocionaram.
Mas emoção de verdade foi a visão de Nelson Sargento, aos 90, abrilhantando a Mangueira, de Monarco na sua Portela, de Martinho na Vila Isabel, de Piná na Beija-Flor, de Giovana e Marquinhos num carro alegórico da Mangueira, de Rosa Magalhães numa alegoria da São Clemente. São nossos mitos, ali, ao alcance dos olhos. Um luxo só.

Muita coisa linda (e nem falei do samba da Imperatriz e de porta-bandeiras e mestres-salas). E pouca coisa a me desagradar. Não gostei, por exemplo, da ideia de incorporar o bailado do casal de mestre-sala e porta-bandeira à coreografia da comissão de frente, que já se esboçou no ano passado e neste carnaval se consumou. Incomoda (pelo menos a mim) ver o casal que carrega o pavilhão ser assim banalizado. E o fogo (ou pseudofogo) na saia da porta-bandeira pode ter uma simbologia nada edificante...

Lamento também que as comissões de frente apresentem coreografias tão longas e complicadas. Elas se repetirão quatro vezes ao longo do desfile, atrasando a escola, que só flui bem depois que a comissão sai de cena após o último módulo. E também não aprecio comissão que se apresenta em cima de carro, como foi o caso da da Unidos da Tijuca. Lugar de comissão é no chão da Sapucaí.

Detesto - e cada ano detesto mais - aqueles grupos de convidados que passam antes de algumas escolas. Meu Deus, é lamentável! Se aquelas pessoas amassem a escola, gostassem de samba, sairiam certamente numa ala. Mas não. Pensam que ali têm visibilidade, aparecem mais. Engano.

Não se dão conta do ridículo. E observei este ano que há agora uma hierarquia de "bicões": sai um primeiro conjunto de encamisados, e vem uma fileira de seguranças da passarela. Outro grupo de bicões, nova fileira de seguranças, e aí sim a diretoria da escola seguida da comissão de frente.
Falei acima em encamisados, mas observei também que nem todos usam camisas do enredo. Havia gente de capa de chuva, havia gente com sua roupa social, um caos. Só uma coisa me vem a cabeça: quanta falta de respeito para com a escola. É ou não é um desfile de carnaval?

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19/02/2015 09h23

Cinzas
Rachel Valença

Um dia, um amigo muito querido contou à minha filha Inês, também sua amiga, uma linda história. Quando ele era criança, saiu com o pai para comprar pão numa quarta-feira de Cinzas. Sentou-se na porta da padaria e viu no chão da rua um monte de confetes e serpentinas emboladas. Sem mais nem menos, começou a chorar. Motivo: teve consciência de que o carnaval acabara. É uma história muito linda que sempre me vem à memória na quarta-feira de Cinzas.

Nesta de 2015, em particular, este amigo acaba de nos deixar para sempre. A história que contou há tantos anos já mostra a pessoa maravilhosa e sensível que ele era. Um amigo como poucos. Eu o conheci no final da década de 1990, no Paraíso do Tuiuti. José Carlos Albernaz lá chegou querendo organizar uma ala. Era presidente de ala na Estácio de Sá e queria ajudar o Paulo Menezes, carnavalesco do Tuiuti naquela época. Fez a ala, uma das melhores da escola. Como era imperiano, ficou nosso amigo. Quando saímos todos de lá, levou sua ala para a União da Ilha, sempre com sucesso.

As fantasias eram confeccionadas por ele num ateliê na sua casa, em Vaz Lobo, com a ajuda dos pais, Orlando e Zila, pessoas encantadoras que se tornaram para sempre meus amigos também. Quando a Inês resolveu organizar uma ala no Império Serrano, em 2003, associou-se a ele e se tornaram grandes amigos. A Ala dos Devotos desfila até hoje, sempre com fantasias muito caprichadas.

Este ano Zé Carlos não desfilou. Estava doente e morreu nesta quarta-feira, sem ver o seu amado Império Serrano ter mais uma vez frustradas suas expectativas de voltar ao Grupo Especial. Sem ter visto confetes e serpentinas esquecidos pelo chão, foi um dia tristíssimo para mim. Peço licença a vocês para deixar aqui a minha última homenagem a esse amigo que, como nós, amou muito o carnaval e contribuiu para que ele fosse mais bonito.

Na foto, Zé Carlos aparece na final da disputa do samba-enredo, em 2013, com a porta-bandeira Bárbara. Estava sempre conosco na quadra e vai ser assim, bonito e alegre, que vou lembrar dele daqui por diante. E se você o conheceu, por favor deixe aqui uma palavra de afeto a saudade.

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09/02/2015 13h18

Uma pequena notável
Rachel Valença

Neste dia 9 de fevereiro, Carmen Miranda estaria completando 116 anos de nascimento e a data me faz lembrar a forte ligação desse ícone da brasilidade com o Império Serrano. Carmen já deu à escola dois títulos: o de 1972, no Primeiro Grupo (ou nome similar que o Especial tinha na época) e o de 2008, no Grupo de Acesso.

Foto: Divulgação

Sobre o carnaval de 1972, o segundo do carnavalesco Fernando Pinto na escola, há muito que contar. Mas a pergunta mais frequente que me fazem sobre esse desfile é sobre as artistas famosas que representaram Carmen no desfile. O criativo e jovem carnavalesco convidou mulheres famosas da época para desfilar na escola, cada uma delas abrindo um setor do enredo. A mais marcante, cuja linda imagem vestida de Carmen ficou marcada na memória coletiva, foi Leila Diniz. E por uma triste razão: ela morreria num acidente aéreo meses depois de se esbaldar no carnaval, legando à posteridade a imagem inesquecível de sua graça e irreverência.  Leila vestida de Carmen, toda de renda branca, esbanjando alegria e sedução, foi uma das últimas imagens públicas que dela ficaram.

Também encantadora e já famosa era a atriz Marília Pera, uma Carmen de muito charme.  A cantora Rosemary, mangueirense das mais fiéis, se permitiu esta traiçãozinha e homenageou Carmen em seu desfile consagrador no Império Serrano. A bailarina Vilma Vernon foi outra a emprestar sua graça ao desfile de Fernando Pinto. As atrizes Tânia Scher e Isabel Ribeiro foram mais duas carmens.

Leila Diniz e Marialia Pera. Foto: Divulgação

Os figurinos criados por Fernando eram belíssimos e muito criativos, sem fugir ao estilo característico da inspiradora, que, como se sabe, criava ela própria seus modelitos. Mas a fantasia usada por Isabel Ribeiro foi particularmente a que mais me agradou e a saudosa atriz desfilou em atitude performática, mexendo os olhos e as mãos,  deixando para a posteridade um das mais belas imagens desse desfile consagrador.

Mas a atriz que ficou eternizada para o Império Serrano como a pequena notável foi Miriam Pérsia. Aquele foi seu primeiro desfile na escola, mas não o último. Miriam está conosco até hoje. Faz questão de desfilar, onde quer que o Império esteja. Se não é procurada pela diretoria, toma a iniciativa de procurar: sai em carro, sai em ala, sai de qualquer maneira. Acho que se fosse preciso empurraria alegoria. Ou tripé, mais condizente com sua figura franzina e elegante... O que quero dizer é que Miriam Pérsia, naquele longínquo 1972, aprendeu a amar a escola. E o Império Serrano a ama também: muitas vezes, na concentração, surge a pergunta: onde Miriam Pérsia vai desfilar? Porque não passa pela cabeça do componente que ela fique de fora.

Havia ainda uma oitava Carmen, mas esta era prata da casa, como se diz popularmente. Fernando Pinto criou um lindo figurino para o primeiro destaque do Império, Olegária dos Anjos, aquela que o primeiro destaque do carnaval carioca, na década de 1950. Com isso o jovem carnavalesco demonstra seu respeito à tradição da escola. Lá estava ela, com sua elegância natural, sua beleza e distinção, a mostrar que todas eram bem-vindas, mas que o Império tinha sua Pequena Notável.

Olegária dos Anjos. Foto: Divulgação

Vale a pena lembrar aqui mais um personagem feminino desse desfile: a cantora Marlene, no carro de som, ajudando a defender o polêmico samba-enredo, amado por alguns, odiado por outros, mas até hoje cantado. Não era comum, e não é até hoje, uma voz feminina para puxar o samba na Avenida, mas Marlene era uma das cantoras mais famosas do país e tê-la no carro de som (modo de dizer, pois não existia carro de som na época) era um luxo.

Todos os fatores acima resultaram na vitória, comemorada com o fechamento das ruas de Madureira, muita cerveja e muito samba. O Império Serrano, depois de um jejum de 12 anos. obtinha seu oitavo campeonato. Carmen se tornou nosso amuleto.

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28/01/2015 09h51

Carnaval 2015: sangue novo no julgamento
Rachel Valença

Já muito se comentou a respeito da renovação do corpo de julgadores para o carnaval de 2015. Que razões ou interesses a teriam determinado? Nobres ou espúrios? Ao escrever sobre o tema, há algum tempo, defendi a teoria de que mudar, por si só, não significa grande coisa. Seria preciso observar em que direção se dá a mudança para tentar entender suas intenções.

Pois bem: anunciado o corpo de julgadores, já se pode fazer uma reflexão sobre o que realmente muda e o que se mantém. Basta analisar com atenção quem saiu, quem ficou e quem entrou e alguma coisa se revela aos olhares mais atentos.

Dois quesitos foram objeto de uma verdadeira faxina: Fantasias e Samba-enredo. O primeiro, a meu ver, com boas razões. As notas do carnaval passado deixaram a desejar em coerência. Mas no segundo desses quesitos, samba-enredo, ao contrário, não se justifica uma intervenção tão radical, pois as notas vinham sendo equilibradas e bem justificadas.

Foto: Reprodução de Internet

Foi também significativa a intervenção nos quesitos Enredo e Alegorias e Adereços, que tiveram a maioria dos julgadores (3) alterada. Novamente este quantitativo é incoerente, pois o quesito enredo foi bem julgado e o único desempenho polêmico me parece ter sido justamente o do julgador que foi mantido (Johnny Soares), não pelo fato de haver errado nas contas, mas sim de revelar, com este erro, um critério de pontuação discutível. Já em Alegorias e Adereços a intervenção era urgente, pois foi um quesito marcado em 2014 por flagrantes incoerências de julgamento. E eu ousaria dizer que foi até tímida, porque a substituição dos quatro julgadores não seria nenhum absurdo.

Harmonia e Mestre-Sala/Porta-Bandeira foram quesitos em que houve substituição da metade dos julgadores. Em Harmonia me guio pelos comentários entreouvidos: foram afastados os julgadores mais rigorosos. Já em Mestre-Sala/Porta-Bandeira, desfez-se um grupo que atuava junto há anos. Ilclemar Nunes, com justificativas vagas e pouco convincentes, e Tito Canha, com justificativas técnicas e muito coerentes, foram afastados.

Os três quesitos restantes só tiveram uma alteração. No caso de Comissão de Frente, não há inovação, já que João Wlamir é apenas um retorno. Julgou este quesito muito tempo, e recentemente julgava Conjunto, aliás com bom desempenho. E sem dúvida a saída de Fabiana Valor é a esperança de menos polêmica, pois esta julgadora já nos brindou com notas simplesmente injustificáveis, a meu ver.

No caso de Bateria, eterniza-se Cláudio Luiz Matheus, assim como se mantém Salete Lisboa em Evolução. Sem comentários. Para quem sabe como funcionam os julgamentos, com julgadores de vários quesitos compartilhando o espaço de cada módulo, é importante manter a presença desses baluartes formadores de opinião. O julgador novo, em seu primeiro julgamento, desejará talvez se espelhar em quem sabe atuar tão bem que nunca é substituído. Os comentários casuais dos veteranos têm valor para os novatos e assim fica mantida a filosofia do corpo de jurados... Um consolo: estaremos livres de ler as justificativas inconsistentes de Carlos Pousa, que não é mais julgador do quesito Evolução.

E quem é que está entrando? Entre os novos julgadores, muitos vêm de trabalho na Série A em 2014. Acho este um critério acertado, caso tenham sido selecionados os melhores, aqueles que canetaram com coerência e souberam justificar. Além desses, foram reaproveitados antigos julgadores do Especial, como é o caso do já mencionado João Wlamir, de Regina Oliva, de volta ao quesito Fantasias, e de Luiz Carlos Correa, que já julgou Alegorias e Adereços e agora julgará Mestre-Sala/Porta-Bandeira.

Nomes conhecidos como os dos arquitetos Chicô Gouveia e João Niemeyer ou do maestro Carlos Eduardo Prazeres, e Fernando Bicudo, ex-diretor do Theatro Municipal, com todo o respeito e a admiração que me merecem, não são garantia de nada. Podem ser grandes conhecedores do nosso mundo do samba ou podem ignorar as mais rudimentares noções do que seja uma escola de samba. Meu sonho, como sabem, seria um corpo de julgadores formado por gente de samba, que pensaria duas vezes antes de atribuir uma nota que não pudesse justificar muito bem. Seu nome e sua carreira estariam em jogo. Sendo do metiê, agiriam com respeito, com cuidado e acima de tudo com conhecimento de causa. Mas isto parece que é difícil... Em todo caso, sonhar não custa nada, ou quase nada...

Por enquanto é só. Uma segunda análise, já baseada em fatos e na realidade dos mapas de notas e justificativas, nos dará pistas mais seguras se a mudança por que estamos passando é substantiva ou apenas numericamente expressiva. Mas isso só depois do carnaval.

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23/12/2014 06h39

Unidos da Vila Santa Tereza: ritos e conflitos
Rachel Valença

Como todo fenômeno cultural, a escola de samba tem seus ritos. Nem sempre sabemos como surgiram e por que surgiram. A forma de escolha do samba de enredo é um dos mais importantes e persistentes desses ritos. E na semana passada, aqui neste espaço, falamos dos perigos de não obedecer a este ritual quando comentamos o belíssimo samba da Unidos do Viradouro, que um colega jornalista, de modo muito feliz e apropriado, classificou como um gol marcado com a mão.

Estamos, portanto, nos posicionando a favor da obediência a este ritual, o que não nos impede de enxergar com clareza que se trata de um ritual perverso. E diversas vezes já falamos disso também. Perverso porque, em seus moldes contemporâneos, obriga os compositores a investirem quantias absurdamente altas para defender seu samba: gravação e distribuição de CDs, contratação de cantores e músicos para o palco, arregimentação de torcida, aluguel de ônibus, confecção de camisas e até de alegorias de mão. A cada ano a disputa se sofistica e já não se sabe onde isso vai parar.

E tudo isso, se por um lado significa para as escolas um faturamento seguro, por outro causa quase sempre uma dor de cabeça sem precedentes. Talvez por isso a diretoria da Viradouro, tendo à frente justamente um compositor, tenha optado por evitar os riscos e enveredar por um caminho simples e seguro.

O assunto pode parecer ao leitor meio descabido e fora de época, porque as escolhas de samba acabaram há mais de dois meses. Mas a discussão voltou à pauta nos últimos dias por conta de um conflito surgido na Unidos de Vila Santa Teresa, escola que desfilará na Intendente Magalhães, com pequena subvenção e sem gravação de seu samba em CD. Escolhido o samba, após o cumprimento estrito do ritual em vigor, no dia seguinte a presidente anunciou outro samba que não o escolhido, alegando que houvera manipulação do resultado. A virada de mesa causou, ao que consta, a saída de titulares de importantes segmentos da escola, revoltados com a decisão.

Antes de prosseguir, quero deixar bem claro que só tomei conhecimento dos fatos pelo que a mídia publicou. Não conheço nenhuma das partes envolvidas e não se trata aqui de tomar partido de A ou de B, mas simplesmente de tentar refletir, com a participação dos leitores, sobre um fenômeno que nos diz respeito tão de perto.

Há formas e formas de escolher samba de enredo. A diretoria da escola é que fixa qual será o processo adotado. Lembro-me de um presidente/patrono que entrevistei na década de 1980 e que, ao lhe perguntar qual o critério de escolha de samba em sua escola, me respondeu com absoluta tranquilidade: "Aqui não tem critério não, sou eu que escolho o samba, porque sou eu que gasto dinheiro". Hoje em dia pouca gente responderia com esta franqueza: criam-se comissões com a participação dos segmentos atuantes, o que me parece muito justo e correto. Mas estas comissões nem sempre são pra valer a acaba prevalecendo uma vontade, que às vezes é do presidente, às vezes do carnavalesco, ou sabe-se lá de quem mais.

Se montamos uma comissão e ela escolhe um samba, paciência. Haja o que houver, me parece que a decisão tem de ser respeitada. Mas compreendo o sentimento da presidente em questão porque, como é de conhecimento geral, já estive envolvida e até fui responsável por várias escolhas na minha escola e sei bem do que ela fala quando se refere à tentativa de manipulação e de cooptação dentro da comissão. Se queremos lisura e independência, se acreditamos que muitas cabeças pensam melhor de que uma e que muitos ouvidos erram menos, é preciso vigilância contra esses complôs e a firme intervenção deve vir antes da escolha do samba, não depois.

Porque, se esta moda pega, a escolha do samba vira apenas um episódio que pode ser revogado sem provas e sob alegação vaga. Ignoro se a presidente estava ou não com a razão, mas admitindo que esteja certíssima em sua medida, é preciso reconhecer que ela abre precedente a muita injustiça e arbitrariedade. E afinal, se é para um presidente escolher o vencedor, para quê tanto gasto e tanto sacrifício por parte dos compositores?

Sou uma defensora do processo de eliminatórias sucessivas, porque ele nos permite acompanhar o desempenho dos sambas semana a semana, consolidando nossa preferência. Ela pode mudar, de uma semana para outra, pelo canto da quadra, pelo comportamento dos ritmistas, pelo desempenho dos que evoluem na quadra. É um processo longo e desgastante, mas a meu ver necessário.

De todo esse imbróglio, uma coisa me chamou a atenção e me comoveu: por que é mesmo que estão brigando? Não há dinheiro em jogo, não há gravação em CD, não há fama, não há mídia. Qual é então o objeto da disputa? Eu responderia: simplesmente a glória de ser sambista. Eis um motivo para regozijo: o samba está vivo, muito vivo, ainda tem um tremendo valor, que se sobrepuja ao dinheiro e à fama. Alegremo-nos.


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17/12/2014 08h26

Safra de 2015 revisitada
Rachel Valença

Assim que ficou pronta a gravação do CD dos sambas do Grupo Especial para 2015, gravamos nossos comentários. Era a primeira audição dos sambas e fiz questão de deixar claro que provavelmente minha opinião iria mudando, à medida que ouvisse mais vezes cada samba. E mudaria talvez ainda por ocasião dos ensaios técnicos, quando no contexto de um desfile os sambas ganham outra dimensão.

O processo já começou: com o CD na mão - em seu formato que parece imutável, sempre a mesma capa, a mesma contracapa, zero de inovação -, a gente fica ouvindo a toda hora, sempre que há um tempinho, sozinha ou na companhia de amigos que nos alertam para aspectos que não havíamos notado. E a opinião vai mudando.

Por isso, deixo agora as minhas segundas impressões sobre a safra de 2015.

Começo pelo excelente samba da Unidos do Viradouro, que creio que não pode ser comparado aos demais do disco, porque seu processo de criação difere muito dos demais: não foi composto a partir de uma sinopse, regra básica do gênero. Ao contrário, ele é que gerou sinopse. É genial e certamente dará ensejo a um grande desfile, mas na análise de composições do gênero é preciso ter cautela e atentar para precedentes que podem ser perigosos à sobrevivência do modelo em vigor.

Dito isso, continuo achando muitas qualidades nos sambas da Imperatriz, da Portela e da Beija-Flor. Este resume no último verso do refrão final ("resgata sua alma africana") o que urge fazer para se penitenciar de erros e desvios recentes e retomar uma trajetória de sucesso. A Portela, que também vive um momento de retomada, vem com aquela pegada leve e malandra que tem caracterizado seus últimos desfiles, num samba rico em jogos de palavras e citações felizes e de fácil absorção. Já o samba da Imperatriz cresce a meus ouvidos dia a dia.

Muito épico, como convém à homenagem a um herói, quebra o tom no final, de maneira feliz e inspirada, ao destinar ao preconceito o que ele merece, esta banana que se tornou tão simbólica dos recentes e lamentáveis episódios ocorridos em campos de futebol e fora deles. Com a brusca mudança de tom, é como se os poetas quisessem dizer que não há forma bonita e elegante de tratar atitudes desprezíveis de discriminação e intolerância. 

Os sambas da São Clemente e da União da Ilha têm subido de cotação no meu ranking pessoal a cada nova audição. No primeiro, o refrão final é muito bom e alguns achados poéticos emocionam os que conheceram e admiram o mestre Pamplona, que se foi há tão pouco tempo brilhar em outra dimensão. O samba da Ilha brinca o tempo todo com o tema, para no final, pouco antes do segundo refrão, revelar súbita sabedoria: "Vim sem nada pra vida, nada vou poder levar", mas ainda no tom alegre que o enredo requer e a tradição da escola aconselha.

Já os sambas de Mangueira e Vila Isabel por enquanto não melhoraram de conceito. Este último tem alguma coisa que soa artificial, talvez, na tentativa de comparação de universos tão distintos, uma sofisticação fora do tom. Alguns versos têm excesso de palavras, dificultando o canto. Torço para que minha sensação não se confirme no ensaio técnico e no desfile. No samba da Mangueira novas audições confirmam a previsibilidade das imagens poéticas. A letra é uma sucessão de lugares-comuns e só o carisma da escola nos garante a emoção ao cantar as queridas matriarcas. Ressalte-se a correta e elegante interpretação de Luizito.

Entre Salgueiro, Tijuca, Grande Rio e Mocidade, as duas últimas ainda conseguem um pouquinho mais do que as duas primeiras. Ao ouvir o samba da Tijuca, tenho a sensação, quase a certeza, de que já o conhecia, tal a obviedade da melodia. O do Salgueiro não emociona nem contagia. O hino da Grande Rio tem acertos na letra, com bons momentos de jogos de palavras, mas fica a dever em animação. E o samba da Mocidade, apesar dos esforços de Bruno Ribas, também está longe de ombrear com tantas belezas que a escola já nos proporcionou, principalmente pela ausência de frases completas, apresentando apenas uma sucessão de expressões como "é de enlouquecer", "a hora é essa", "eu já tou louco", "roda baiana", sem um nexo sintático que as costure numa narrativa de enredo. Apesar disso, há nele uma animação que, se for capaz de contagiar o componente e o público, mandará às favas o nexo e tudo o mais. Tomara.

Estou preparada para as reações a esses comentários e lembro que o que está aqui é apenas a minha opinião, que como disse lá atrás nem sequer é definitiva. É meu dever externá-la aqui. É o que se espera de um comentarista. Sei por experiência o quanto é penoso ouvir da boca de terceiros coisas negativas sobre nossa escola, mesmo quando no íntimo concordamos com elas. Daí a raiva que os comentários despertam às vezes. Que venha o tiroteio. Pior do que ele é ser condenado a ouvir por 82 minutos um mau samba.


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01/12/2014 08h30

Dez, nota dez
Rachel Valença

Acabado o Carnaval de 2014, proclamada campeã a Unidos da Tijuca, que apresentou um desfile que a habilitava ao título, parecia não haver motivo para o clamor que se levantou com relação aos critérios de julgamento. Mas aqui neste espaço e em todos os outros meios dedicados ao debate sobre Carnaval, foram apontados equívocos e absurdos, principalmente por causa das notas atribuídas à Vila Isabel, muito acima do que mereceria, e à Império da Tijuca, bem abaixo daquela a que faria jus. Queríamos todos (e eu escrevi algumas colunas sobre isso) mudança.

Agora a LIESA anuncia mudança. Oba, fomos finalmente ouvidos? Para meu espanto, a maioria dos comentaristas e aficcionados do Carnaval está contra. Mais uma vez, aqui se aplica a citação: "Temo os gregos, mesmo quando trazem presentes". Parece que entre nós todos a LIESA está tão desacreditada que não achamos possível que ela tenha simplesmente se apressado em atender ao nosso clamor: preferimos acreditar que há alguma coisa por trás disso.

E que coisa seria essa? Segundo leio e ouço por aí, desconfia-se que a poderosa Beija-Flor, inconformada com sua colocação, tenha pressionado por mudanças. De fato, há anos a comunidade do samba reclama mudança e não é atendida. Já a Beija-Flor, se nunca antes teve razão para reclamar, este ano vociferou e logo se fez ouvir. Mas, apesar de ser isto um fato incontestável, estou animada com a mudança, porque afinal nós a pedimos. E se fomos atendidos, tudo bem. Não precisamos especular por que. Ou por quem...

Incomodava-me ver jurados que há mais de vinte anos participavam do júri, sempre dando dez às mesmas escolas. Não parece estranho que o desempenho de uma escola seja tão estável? Acho que toda mudança, por si só, já é saudável. O fundamental é saber a natureza desta mudança. O presente dos gregos aos troianos bem sabemos como acabou. Por isso, todo o cuidado é pouco na hora de analisar quem está chegando ao júri. Os presidentes de escolas têm poder de veto e é importante que pesquisem a analisem bem de onde vêm as pessoas indicadas. Afinal, se o desempenho delas é que nos mostrará quem tinha razão, quando isso ficar claro já será tarde demais para chorar o leite derramado.


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31/10/2014 09h46

Conversa de botequim
Rachel Valença

Não, não é do famoso samba de Noel Rosa que estou falando. Falo hoje de algo muito caro ao meu coração: o Botequim do Império. Creio que foi na década de 1980 que ele começou a existir. Era sábado à tarde, com entrada franca e um ambiente muito informal, tudo sob o comando de seu Natalino, que na época era o mestre de bateria, mas tinha, além disso, uma incrível facilidade de comunicação. Em pouco tempo se tornou um sucesso espetacular, a quadra ficava lotada, a escola faturava com a venda de cerveja e os artistas vinham cantar de graça, porque cantar no Botequim do Império dava status, era sinônimo de prestígio. Quantos sambas bons foram ali apresentados muito antes de serem gravados e se tornarem sucesso nacional?

Não me lembro de quando o Botequim acabou. O meu Império sempre lidou mal com coisas que dão certo... O fato é que muitas vezes, ao longo dos anos, se tentou retomar a ideia, fazer renascer o Botequim, mas sempre ficava faltando aquele algo mais que é a marca do sucesso, algo aliás indefinível, imponderável, inexplicável.

A atual gestão, com muito acerto, vem retomando atividades que movimentem a quadra. O imperiano andava com saudades de sua quadra, esta é a verdade. Uma dessas atividades, aliás a que mais me alegra no momento, é o Botequim do Império. Está acontecendo de 15 em 15 dias, mais exatamente no segundo e no quarto sábado do mês, para não coincidir com a Feijoada Imperial. E tem um caráter totalmente diferente dela. A Feijoada é um grande evento, um evento de palco, de mesas e camarotes, de casa lotada, de Jorginho do Império, de bons conjuntos de samba, tudo acabando em Sinfônica do Samba e seu show habitual.
Já o Botequim é intimista, com o grupo tocando em volta de uma mesa, onde reina absoluta a imagem de São Jorge. O público vai chegando aos poucos, pode ocupar mesa, se quiser, pode ficar em pé, pode beber sua cerveja, comer belisquetes, dançar sozinho ou de par, e quando a gente se dá conta a coisa bombou! E sabem por quê? Por que o pessoal que toca é bom demais e escolhe seu repertório com um coração imperiano.

São meninos bem novos, muita gente boa da Serrinha e das famílias tradicionais do Império. Lá estão Júnior Oliveira, neto de Silas, lá está o Fofão, que eu conheci criança e que se não me engano descende dos Oliveiras fundadores do Império. Lá está o João da Serrinha, gente finíssima e sambista completo, organizador de rodas de samba lá no nosso reduto. Só tem fera. E desencavam do fundo do baú cada samba que a gente se arrepia. Não só coisa da antiga, não. Outro dia, ouvi lá um partido-alto sobre Mestre Fuleiro, uma coisa muito linda. Quem disse que só coisa antiga é que é boa?

No sábado em que Tia Maria do Jongo foi a visitante de honra, que momentos maravilhosos e quase intraduzíveis vivemos na quadra! E a cada semana a chegada de Ítalo, cantando o repertório do saudoso Beto Sem Braço, nos transporta a momentos do passado e nos encanta. Talvez pensem que são minhas raízes imperianas que me fazem apreciar tudo isso, mas como explicar que Asha, uma jovem norte-americana que lá esteve uma vez, não queira saber de outro programa? Pois mesmo quem não compreende com perfeição o que está sendo cantado é tomado pela emoção, pelo modo como as coisas se passam. É nítido que não se trata meramente de um compromisso profissional de músicos, mas quase de uma obrigação de cunho religioso, do âmbito da fé.

Este era o espírito do Botequim do Império, daquele Botequim original, que deixou saudade e está revivendo agora. Por isso, tenho certeza de que vai em frente e terá vida longa. Se depender de Paulinha e Graziele, madrinhas do Botequim, vai longe. Ouvir cantar, ao final da tarde, "Heróis da liberdade", com as pessoas de mãos dadas e os instrumentos cedendo lugar ao canto rude daquela voz coletiva me faz ter a certeza de que nosso Império é eterno. E sou grata ao Mateus Carvalho, ao Júlio Morais, ao Lucas Nunes, ao Joacyr Nogueira e a tantos outros jovens ritmistas imperianos que, lutando bravamente em defesa deste espaço de expressão, proporcionam a todos nós alegria e emoção.


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