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Rachel Valença

Rachel Valença

Carioca, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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07/08/2014 09h03

Carnavália-Sambacon: um balanço
Rachel Valença

No último fim de semana, a grande pedida para os sambistas foi a feira de negócios Carnavalia-Sambacon. E feira de negócios é bom programa? Claro, porque nosso negócio é carnaval. A ideia é antiga, há pelo menos vinte anos ouço falar em projetos de realização de um encontro de sambistas mais amplo do que os que normalmente se realizam, ou seja, algo que incluísse, além de debates e confraternização, um espaço para divulgação de negócios e produtos relacionados à nossa maior festa. Finalmente, de 31 de julho a 2 de agosto, ela se materializou.

Foi apenas a primeira, mas considero que foi muito bem-sucedida. Os expositores eram de várias naturezas, mas houve muito capricho em estandes e apresentação de produtos e serviços: lojas de venda de artigos carnavalescos, instituições de formação de mão de obra, projetos, órgãos de comunicação, entidades representativas, de tudo um pouco. A gente circulava, revia amigos, ouvia bons sambas e matava um pouco a saudade, porque fevereiro está longe.

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Carnavália-Sambacon. Fotos: Henrique Matos

No quesito das apresentações artísticas, houve na minha avaliação dois grandes momentos: a roda de partido-alto comandada por Tantinho da Mangueira, um rei do improviso, à qual aderiram figuras como Elmo e Alvinho, que mostraram que as atividades administrativas que hoje os absorvem não lhes roubaram de todo a paixão do samba puro. O desfile, pelas ruas formadas pelos estandes, dos casais de mestres-salas e porta-bandeiras das escolas mirins foi outro momento de emoção e prova de força daquele que "agoniza mas não morre".

Os debates que constituíram o Encontro Nacional de Samba foram bem organizados e alguns despertaram muito interesse, com excelente público. Os mediadores têm, é claro, grande responsabilidade no sucesso de uma mesa de debates, pois a forma de condução é primordial. Nem sempre houve acertos nesse quesito, mas em duas mesas as coisas fluíram bem e por sorte tratavam de assuntos relevantes. Gestão das escolas de samba, por exemplo, um assunto muito atual e vibrante, foi uma excelente mesa, com a participação de presidentes de entidades representativas de outros estados que nos trouxeram seus problemas e experiências. Mas a estrela absoluta foi mesmo a nossa Liesa. Pensará o leitor que se trata de uma obviedade, já que a Liesa era a promotora do evento. Não. A Liesa brilhou porque Jorge Castanheira, seu presidente, é um achado. Sem dizer ou fazer nada que os presidentes anteriores da Liga não assinassem embaixo, tem, no entanto, um tom totalmente diferente de todos eles. Com humildade, com voz branda e palavras educadas, apresenta os fatos de maneira arrumada e até encantadora. Tem conhecimento e convicção e não repete um discurso decorado, fala com emoção e indignação em alguns momentos.

É claro que eu gostaria de ter ouvido sobre o assunto um presidente que creio que teria muito a dizer sobre organização e visão empresarial, exatamente porque lida com a carência e consegue driblá-la com muito acerto: Tê, da Império da Tijuca. Mas não havia presidentes de agremiações no debate, e se houvesse certamente não seria o de uma escola que está no acesso. Pena! O evento poderia ter perdido um pouco o caráter chapa-branca que incomodou em alguns momentos.

Carnavália-Sambacon. Foto: Henrique Matos

A mesa de encerramento, na noite de sábado, foi outro ponto alto do Encontro. Tratava da cobertura do carnaval na mídia e seu sucesso se deveu, em grande parte, ao experiente Miro Ribeiro, que mediou o debate com graça e eficiência. Falou-se da cobertura do pré-carnaval, em que as escolas de samba vêm perdendo espaço, e do desfile, inclusive das condições de trabalho dos profissionais na Sapucaí. Também foi abordado o tema da divulgação das próprias escolas, que aos poucos se conscientizam da necessidade de contratar profissionais para este fim, e os programas de rádio e TV que têm o samba e o carnaval como temas.

Em matéria de carnaval, muita coisa está precisando ser debatida. Acabada a Copa do Mundo e tudo que ela nos proporcionou de alegrias e tristezas, de surpresas boas e de decepções, podemos, creio, tirar algumas lições do futebol. Assuntos não faltam: que venham os debates.

 

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19/05/2014 12h46

Eleições no Império Serrano: de luto
Rachel Valença

Peço licença aos meus leitores para falar de um assunto que não é só meu, como pode parecer a alguns. Antes fosse! É um assunto que afeta uma das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro e por essa razão tem ocupado recentemente o noticiário de veículos de comunicação, o que me deixa à vontade para falar dele também.

Preferiria que o meu Império Serrano ocupasse o noticiário por outras razões, mas ei-lo exposto na mídia pela incapacidade de diálogo de seus mais notórios sócios, aqueles que pretendem ocupar cargos de direção.
Ontem, na porta da sede desde muito cedo, com o intuito de votar, como associada que sou há mais de 40 anos, o espetáculo de intolerância me deixou acabrunhada. Como já deixei aqui bem claro inúmeras vezes, eu amo o processo eleitoral, amo a democracia, nunca me canso de louvar o fato de haver eleições livres, comandadas por uma mesa eleitoral escolhida em consenso e por isso respeitada. Já fui presidente de uma dessas mesas, numa eleição no início da década de 1990, uma disputa acirrada, como sempre. E me vi em cima do palco da quadra, com uma urna de papelão cheia de votos e cercada por representantes das chapas muito agitados e vibrantes, mas não temi pela minha segurança: os votos foram contados, o resultado proclamado por esta baixinha, e todos, satisfeitos ou não, se curvaram respeitosamente a ele. Confesso que foi um dia de muita alegria para mim, não pelo resultado, mas pelo processo democrático, de uma beleza enorme. Não havia segurança, não havia TER, mas havia confiança e respeito por uma agremiação que era de todos.

- Processo eleitoral no Império Serrano é suspenso por liminar judicial

Fotos: Reprodução de Internet

Nas eleições imperianas, aliados de hoje já foram adversários em eleições passadas; dentre os atuais adversários se contam amigos queridos, que não deixarão de sê-lo por estarem neste momento em campo oposto. Como isso é bonito! Melhor dizendo: como isso era bonito! Porque hoje há principalmente ódio e interesse, que, como se sabe, não são bons companheiros. Ouvi por exemplo de um querido amigo, um imperiano histórico, ao perguntar-lhe por que não compusera, como vice, a chapa que apoia, que preferira não fazer parte da chapa e, em caso de vitória, ser contratado como diretor de barracão. E completou: "Como vice não ganho nada, vou trabalhar de graça. Como diretor de barracão posso ganhar algum..."
Não imaginam como essas palavras me doem. É triste ver alguém se referir desse modo à enorme honra que é fazer parte do Conselho Diretor de nossa escola, com todos os sacrifícios que isso nos impõe. E imediatamente me lembrei daqueles bravos trabalhadores do porto do Rio de Janeiro, que, ao fundar o Império Serrano na década de 1940, contribuíam com um percentual de seus salários para que a escola se tornasse a potência devastadora que foi em seus primeiros desfiles. Hoje, ao contrário, só se trabalha pelo Império com salário, e nem um imperiano tradicional foge a essa regra de maldição.

Ontem, ao responder a um jornalista que quis me ouvir sobre o assunto, fui sincera ao dizer que não sei em que momento nosso trem saiu dos trilhos. Pois até hoje existe gente que só quer o bem do Império Serrano, sem exigir nada em troca. Mas é pouca gente. E precisaria de muito mais.
Não tivemos eleições, sabe Deus quando as teremos. E enquanto outras escolas, que concorrerão conosco em 2015 cuidam de seu carnaval, no Império Serrano a falta de união e de diálogo oferece ao mundo um triste espetáculo.

Outro imperiano histórico que se encontra em posição antagônica à minha na presente eleição chegou ao cúmulo de me afirmar, diante de testemunhas, que a situação iria piorar e que acabaria "morrendo gente". A resposta que lhe dei quase me levou às lágrimas, mas foi sincera e se a reproduzo aqui é na tentativa desesperada de despertar a consciência sobre o absurdo que está ocorrendo: espero que não morra gente, mas já estão tentando matar o Império Serrano.

Tenho fé que tudo se resolverá, pois a situação por que passa nossa escola recomenda que se sentem todos os envolvidos em torno de uma mesa para pensar numa saída, sem levar em conta vantagens pessoais ou mortes e vinganças, mas somente buscando uma solução para a grave crise que atravessamos. Para isso, seria preciso que houvesse amor e devoção, coisas cada vez mais raras nas escolas de samba.


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12/05/2014 13h51

O ciclo eleitoral das escolas de samba
Rachel Valença

Nem todas as escolas de samba realizam eleições. Das que as têm, algumas são pra valer, outras, mera formalidade com o objetivo de dar cunho legal a situações previamente acertadas. É claro que estou falando aqui apenas daquelas onde há eleição livre, com normas previamente estabelecidas num estatuto ou regimento em vigor.

Observo que em geral os mandatos são de três anos. No primeiro, o candidato vencedor conta com o apoio da maioria, é amado, elogiado, louvado, nele se depositam esperanças quase messiânicas. Passa-se o primeiro carnaval, o salvador da pátria luta como um condenado, enfrenta muita cobrança e conta com pouca ajuda. Se os resultados de seu trabalho são excelentes, mesmo que não lhe rendam um título, ele segue em frente, ainda com algum apoio, mas a cobrança cresce e os descontentes já engrossam um coro cada vez maior. Acabado o segundo carnaval, com menos ajuda do que no primeiro, porque em geral já há dissidentes em sua própria equipe, o herói de um ano antes se transforma em vilão. E mais um carnaval, o último de sua gestão, irá provavelmente transformá-lo no inimigo público número um.

Ao mesmo tempo, vão surgindo novos nomes, candidatos a heróis. Com a certeza de que triunfarão onde outros naufragaram, se lançam em campanha, às vezes prometendo o que sabem que não poderão cumprir, às vezes acreditando de fato que é perfeitamente possível fazer tudo aquilo que seus antecessores não fizeram por inépcia ou má-fé.

Foto: Diego Mendes

O que será que, nas escolas de samba, transforma heróis em vilões num espaço tão curto? Estou convencida de que, além de mudar a forma de gestão, seria imprescindível mudar também a mentalidade dos próprios eleitores, os associados, que votam e no dia seguinte estão cobrando. Na melhor das hipóteses, cobrando resultados; na pior das hipóteses, cobrando camisa, ingresso, camarote, cerveja. E se esses favores são negados, o eleitor fica indignado: "Votei em você e você me nega uma coisa tão pequena?"

A mudança interna deveria começar pela consciência daquilo que esperamos obter com nosso voto: um dirigente que nos favoreça ou um dirigente que tenha como prioridade o sucesso da agremiação? Sei que é difícil mudar mentalidades arraigadas, mas estou certa de que enquanto tais mudanças não se operarem continuaremos a vaiar nossos ex-ídolos e a buscar um novo herói para ocupar o pedestal.

Na manhã do último sábado participei de uma mesa-redonda no Fim de Semana do Livro no Porto, um evento lindo, bem organizado, de grande impacto cultural. Fui convidada pelo curador Luiz Antonio Simas a falar das relações do Império Serrano com o porto no momento de sua fundação, em 1947. A figura central da minha fala foi, como não podia deixar de ser, Elói Antero Dias, esse grande líder da negritude em nossa cidade. E ao contar mais uma vez esta linda história de amor à liberdade e à democracia, senti orgulho porque a escola fundada por seu Molequinho e inspirada na estrutura e na organização da Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, uma entidade sindical de base étnica, a escola de Mano Elói e de tantos outros bambas continua no bom caminho da democracia: no próximo domingo teremos eleições livres, ao que tudo indica com a participação de quatro chapas.

A semana que passou foi conturbada, com brigas e tentativas de quebra dos trâmites pré-eleitorais. É muito ruim ver nossa escola associada a acontecimentos como esses. Sempre acreditei que os nossos problemas devem ser resolvidos internamente, com a franqueza necessária, sem precisar recorrer a expedientes externos que fragilizam a agremiação. Para isso há um estatuto. Preocupar-se com seu cumprimento só na véspera da eleição é oportunismo.

Não sou favorável a lavar roupa suja fora de casa, por isso não desejo expor problemas internos que são exclusivamente da escola. E lamento que o Conselho Deliberativo, que foi omisso e se calou durante toda sua gestão, venha agora fazer isso recorrendo à justiça para resolver uma atribuição que foi sempre sua e apenas sua.

Teremos eleição no próximo domingo e espero que vença o melhor. Para isso, nós, os eleitores, devemos analisar quem são os candidatos, o que já fizeram - de bem e de mal - para a escola e como é sua conduta como cidadãos. Atos contam bem mais do que palavras. Mas sobretudo devemos nos conscientizar da responsabilidade do voto, que implica um compromisso. O voto é o início de um processo no qual temos de nos envolver de corpo e alma. Se votamos num candidato, assumimos o compromisso de apoiá-lo, colaborar com ele, estar com ele na luta por uma escola forte e vitoriosa como todos queremos. Sem isso, fatalmente daqui a três anos estaremos execrando este mesmo em quem hoje depositamos todas as esperanças. E isso não vale só para o Império Serrano não: vale para todas as escolas de samba onde a voz do sambista ainda é ouvida.



23/04/2014 19h13

Grandezas e misérias do carnaval que passou
Rachel Valença

À medida que o tempo passa, vamos desapegando do carnaval de 2014 e enxergando-o com distanciamento crítico, sem o calor da hora, sem as paixões do pós-carnaval. Já digerimos as notas, as justificativas, as injustiças cometidas. Amantes do carnaval que somos, vivemos do recomeço: no final de abril já se fala mais em 2015 do que em 2014. É natural.

Foto: Divulgação

Mas por isso mesmo me sinto tentada a ainda falar de coisas que me alegraram e de coisas que me entristeceram na festa que passou. Fica combinado que não vale falar de classificação, nem de nota, nem de justificativa. Vou tentar me ater à festa propriamente dita, vivida por mim intensamente em quatro noites inteiras na Passarela do Samba, assistindo, desfilando, trocando ideias com amigos, ouvindo os comentários dos populares que me cercavam - estive em vários setores, ora em frisas, ora em arquibancadas, na pista, na concentração e na dispersão. Como qualquer pessoa, me alimentei, usei os banheiros, me indignei, me emocionei. Como alguns, trabalhei.

Comecemos pelas grandezas: a primeira delas é a sobrevivência do desfile, apesar dos prenúncios catastróficos de seus críticos. Tudo vai mal, dizem eles. Também eu digo isso às vezes, mas o fato é que lá estão as escolas, em seu tremendo esforço para se superarem a cada ano, para trazer novidades, para seduzir. E conseguem tudo isso, sabe Deus a que preço. Talvez exatamente por isso haja tanta beleza e magia no espetáculo que oferecem. Contra todas as previsões, o desfile está aí, lindo, empolgante, surpreendente.

A principal grandeza da Sapucaí este ano foi exatamente a diversidade. Pôde-se assistir a apresentações tão diferentes quanto a da Unidos da Tijuca, cheia de modernidade, a do Salgueiro, luxuosa e pesada (no bom sentido), e a da Portela, uma escola de samba às antigas, com samba de enredo e tudo que a tradição recomenda. Foi espetáculo para todo gosto.

Outra grandeza deste carnaval foi ver a União da Ilha se apresentar como uma grande escola, linda, organizada e vibrante. Não faz muito tempo ela amargou um longo período no grupo de acesso, conseguiu subir e permanecer no especial e ao que tudo indica está forte o suficiente para partir pra cima das mais poderosas com competitividade, furando o bloqueio ou a blindagem que parece imperar. Aleluia!

Louvo também as mudanças políticas que nos permitiram voltar a ouvir falar em Mangueira e Portela, que estavam nos últimos anos meio tristinhas e enevoadas por gestões equivocadas. São duas grandes forças do carnaval do Rio de Janeiro e sem elas a festa perde, sem dúvida, parte de sua pujança.
As misérias, felizmente, dizem respeito mais à infraestrutura do que ao desfile propriamente dito. Vamos a elas: por mais que eu viva, nunca compreenderei por que não se cuida melhor do som na Passarela do Samba. Ele é fundamental e me sinto até envergonhada de afirmar coisa tão óbvia. Mas parece que os organizadores não veem o óbvio. Ou será que não querem ver? Diz um antigo samba da minha escola: "Pior cego é aquele que enxerga e não quer ver". Pois ouvi de muitos especialistas a confirmação do que parecera aos meus ouvidos leigos: o som não é igual para todas as escolas, a ponto de algumas delas contratarem a peso de ouro técnicos para acompanharem a empresa responsável. Peraí! O som não é um serviço básico, parte do espetáculo? É preciso acompanhar? Pra quê?

A iluminação é mais democrática, ou seja, ruim para todas as escolas. Ela é a meu ver insuficiente, e a explicação é que deverá realçar a iluminação cênica dos carros. Mas escola de samba não é só carro não. Eu gostaria que o sambista fosse o principal, mas paciência... Já estou me acostumando a considerar isso coisa do passado. Mas daí a deixá-lo na penumbra é um pouco demais.

Outra coisa que nunca fui capaz de compreender: se as pessoas saem de suas casas naqueles dias para ver o espetáculo oferecido pelas escolas de samba, se a festa dos sambistas atrai pessoas do mundo inteiro, por que é que se tem de oferecer aos presentes um outro espetáculo paralelo? Confesso que sempre achei desrespeitoso que os camarotes ofereçam a seus convidados Vips outras alternativas de lazer e entretenimento musical. É como se o Teatro Municipal oferecesse, em dias de récita, um grupo de pagode tocando em seu foyer. "Você veio assistir a uma ópera, mas quem sabe para variar gostaria de ouvir um sambinha?" Não rola. Mas na Sapucaí tem grupo de pagode tocando durante o desfile, na Praça da Alimentação, e, pior, tem batidão de funk nos camarotes.

Nas arquibancadas do Setor 10, ali bem em frente ao recuo da bateria, as escolas ainda estavam em desfile e já se ligava o som do camarote do Porcão, tão alto que nem se ouvia mais a bateria. Além de uma tremenda falta de respeito com os sambistas e com o público que pagou, é uma falta de lógica. Pois supõe-se que alguém que vai à Sapucaí durante o carnaval é porque gosta de samba. Vou morrer sem entender.

O capítulo mais cruel é o dos banheiros. Em todos os recantos da Passarela - lado par ou lado ímpar, frisa ou arquibancada - o problema é o mesmo: banheiros péssimos e insuficientes. Será que ao se planejar um espaço que deverá abrigar um número grande de pessoas não se pensa em adequar o tamanho dos banheiros a esta contingência? As mulheres são sempre as que mais sofrem nesse quesito e as filas gigantescas nas portas dos banheiros femininos em todas as dependências da Passarela eram agravadas pelo fato de que em alguns casos havia reservados trancados, por apresentarem defeito, e só havia um reservado funcionando. Não seria o caso de estabelecer um plantão para reparos de emergência?

O Sambódromo já passou por inúmeras obras e em muitos aspectos melhorou. Mas ninguém parece se preocupar com a péssima impressão que causam ao turista a sujeira e a precariedade dos banheiros.

Como disse anteriormente, as misérias são sim da festa, mas não de seus protagonistas, os sambistas. Felizmente. Porque não deve ser difícil saná-las, desde que haja vontade política. Se nossos dirigentes amam o samba, é hora de mostrar isso com atitudes mais concretas do que beijar atabalhoadamente suas bandeiras, um ritual cheio de significado quando praticado com lastro de respeito indispensável.


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08/04/2014 23h04

Não tem preço
Rachel Valença

Algumas vezes já comentei aqui a melancolia que acomete os amantes do Carnaval logo após o término da festa. Aliás, todo ano eu falo disso. Parece que nunca mais será Carnaval de novo e a gente se pergunta como vai sobreviver tanto tempo sem ele.

Um dos consolos da nossa depressão pós-momo são as festas de entrega de prêmios. Além de simbolizar o justo reconhecimento ao trabalho daqueles que fazem do carnaval o maravilhoso espetáculo que ele é, elas são uma oportunidade de matar a saudade da nossa gente e dos momentos de êxtase que nos proporcionaram na Sapucaí.

A nossa festa, a entrega do Prêmio SRZD-Carnaval, foi especialmente alegre e vibrante este ano. Em parte porque, tendo sido os premiados criteriosamente escolhidos, ali estava a nata do samba, o que passou de melhor na Sapucaí em 2014.

Prêmio SRZD-Carnaval. Foto: Ary Delgado

Muito feliz a iniciativa de premiar, como estímulo, participantes dos grupos de escolas de samba que desfilam fora da Sapucaí, na Intendente Magalhães. Em nenhum outro lugar o amor pelo samba é tão patente. Grande prova disso é o passista mirim Marcos Kauã, que não se limitou a sambar com animação na hora de receber o seu prêmio: sambou todo o tempo!

Também adoro a participação na festa da melhor escola do carnaval de São Paulo. O show da Mocidade Alegre foi muito lindo, com sua bateria cheia de bossas, suas passistas, baianas, enfim, tudo de melhor que tem para mostrar. Vindos de outro estado, não pouparam esforços para mostrar seus trunfos, entre os quais o já consagrado intérprete Igor Sorriso, que é sempre um prazer ouvir.

Quanto às premiadas da Série A e do Especial, muita coisa boa passou por aquele palco no sábado, mas cabe destacar alguns momentos de empolgação. Lembro-me que no dia da votação do prêmio, ainda lá na Sapucaí, votei com convicção na Ala de Baianas da Grande Rio, na esperança exatamente de poder vê-las de pertinho no dia da premiação. Consegui! Lindas, emocionantes, simples em sua riqueza, simbolizavam Nossa Senhora do Amparo. Vendo-as, dá pra entender por que o jovem Fábio Ricardo abiscoitou o cobiçado prêmio de melhor carnavalesco do grupo especial.

Em matéria de comissão de frente, por exemplo, a Série A deu um "banho". A comissão da Caprichosos de Pilares apresentou-se completa e fantasiada e deu um jeito de mostrar no palco sua criativa coreografia, levando o público ao delírio. Já da União da Ilha foi só o coreógrafo Jaime Aroxa e um par sem fantasia. A apresentação foi salva pelo puxador Ito Melodia, que deu um show de animação e de simpatia, bem no clima do enredo da escola este ano.

Aliás, foi um privilégio ouvir numa mesma noite tantos intérpretes, pois as escolas se apresentam quase sempre com seus sambas ao vivo, acompanhados pelas baterias premiadas. Por isso, tivemos, além dos já citados, os premiados Ciganerey, da Inocentes de Belford Roxo, e Tinga, da Unidos da Tijuca, e ainda Emerson Dias e Wantuir, para não citar todos...

Luxo dos luxos foi receber o compositor Moacyr Luz, que com o parceiro Cláudio Russo recebeu o prêmio de melhor samba-enredo da Série A. Era dia de seu aniversário, mas Moacyr fez questão de comemorar conosco.

Outro momento de intensa emoção se deveu a outro compositor de grandes sambas, o veterano Djalma Sabiá, do Salgueiro, autor, dentre outras obras-primas, do inesquecível Chico Rei. Mas não foi nenhum de seus sambas que lhe valeu o prêmio de Destaque do Grupo Especial deste ano: foi o seu incansável trabalho de preservação da memória do samba carioca, guardando em sua casa, no morro do Salgueiro, tudo que diz respeito à trajetória e à memória de sua escola.

Depois de tudo isso, vejo-me obrigada a admitir que os dois grandes momentos de emoção na festa são ambos ligados às baterias. Não é de espantar. É nelas que pulsa o coração do samba. A entrada no palco da bateria da Vila Isabel, por exemplo, deixou entrever o momento que a escola vive. No ano passado era a campeã e foi premiada como melhor escola, comemorando numa apresentação impecável. Este ano a Swingueira de Noel demorou a chegar, pisou o palco timidamente, com os ritmistas entrando e saindo de cena para vestir na última hora a bonita camisa que usaram. Mas tocou lindamente e, ao receber o troféu, mestre Wallan o colocou simbolicamente em cima de um surdo, à frente do grupo. Gesto ritual de imensa poesia, ele compensou e se sobrepôs a tudo que se poderia pensar naquele momento. Não era hora de pensar, mas sim de sentir.

Quando a Portela surgiu para sua apoteótica apresentação de melhor escola, soberana e grandiosa em seu samba magnífico, em suas figuras lendárias como Wilma, Jerônimo, Surica e tantos mais, ainda estava lá a bateria da Vila Isabel para acompanhá-la. Mas não sozinha. A ela se juntaram ritmistas da União do Parque Curicica, da bateria premiada que havia tocado na parte da festa que premiava a Série A, e também da Mocidade Alegre. Não havia uma formação tradicional de bateria, tocavam em roda, interagindo, unidos pela força maior do samba deste Brasil brasileiro. Coisa mais linda de ver! Como diz uma peça publicitária da atualidade: não tem preço.


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18/03/2014 11h33

Troca-troca de Quaresma
Rachel Valença

Quem acompanha o mundo do samba sabe que o período que sucede o desfile das campeãs é marcado pelo troca-troca. É nessa hora que se ajeitam as peças do tabuleiro do profissionalismo que hoje domina o carnaval carioca.

Diz o velho ditado originário do futebol que em time que está ganhando não se mexe. Por isso, a campeã de 2014, a Unidos da Tijuca, não era alvo de especulações. Mas... há sempre um mas para agitar nossa depressão pós-carnavalesca. Recorro de novo aos velhos ditados e contraponho: Para quem sabe ler, um pingo é letra. É isso. Já acostumados com os meandros do carnaval, vínhamos sentindo no ar alguma coisa estranha, o comportamento de Paulo Barros dava claros sinais de insatisfação. Faltava às suas declarações o entusiasmo de um campeão e não foi surpresa notar que não acompanhou a escola até o final do desfile das campeãs. Além disso, suas entrevistas, se lidas nas entrelinhas, tinham um evidente tom de fim de festa.
Hoje os fatos confirmam as especulações: Paulo Barros será o carnavalesco da Mocidade Independente em 2015. Como sou partidária da identidade, já me acostumei com a Unidos da Tijuca do jeito que Paulo Barros a fez. Ela é uma das mais antigas e tradicionais escolas de samba da cidade, mas tem mostrado em vários momentos a coragem de se reinventar. Ou seja, a Mocidade está levando Paulo Barros, mas Fernando Horta fica. E como tem se revelado um administrador competente e muito esperto, capaz de sobreviver entre feras de maneira discreta mas eficaz, nem tudo está perdido.

Não é a primeira vez que Paulo Barros se afasta da escola. Depois de ter despontado lá em 2004, ano em que apresentou o histórico carro do DNA, inaugurando um novo conceito de alegoria, e permanecido nos carnavais de 2005 e 2006, esteve na Viradouro em 2007 e 2008 e dividiu com Alex de Souza em 2009 o carnaval da Vila Isabel. De volta à Tijuca faturou três títulos entre 2010 e 2014. Desses dados se pode depreender que a Tijuca sobreviveu sem Paulo Barros e Paulo Barros sobreviveu sem a Tijuca, mas o afastamento não foi bom nem para a escola nem para o carnavalesco. Entre 2007 e 2009 Tijuca e Barros estiveram meio longe dos holofotes.

Foto: Reprodução de Internet

Paulo Barros é uma figura polêmica. Sobre ele as opiniões oscilam entre o ódio e a paixão. Acho que esta é uma qualidade, porque revela que ele tem uma marca, uma "pensata" sobre o fazer carnavalesco. Não se limita a repetir o que já foi feito: quer o novo, o inusitado, e o carnaval precisa disso. Se este novo for bom, vai pegar, vai ser imitado. Se não pegar, cairá no vazio. De minha parte, seu trabalho que mais me agradou, que me encheu os olhos e me emocionou foi o Portinari do Paraíso do Tuiuti, em 2003. Era pobre, claro. Mas talvez isso tenha desafiado a sua enorme criatividade, com um efeito maravilhoso.

Ele não acerta sempre, mas que carnavalesco, ontem ou hoje, conseguiu isso? Gostamos de algumas coisas, não gostamos de outras, mas é inegável que Paulo Barros tem uma assinatura forte em seus trabalhos. Isso se chama estilo e nem todos o têm.

Parece que Paulo Barros está em busca de liberdade para criar. Quem não está? O sonho de todo carnavalesco, imagino, é fazer o que quer tendo à disposição todo o dinheiro necessário. Tomara que a Mocidade, em sua nova fase, lhe proporcione isso. A realidade do carnaval hoje é às vezes adversa aos carnavalescos, porque para ter muito dinheiro é preciso às vezes "vender a alma", aceitando patrocínios. Não se pode adivinhar o que acontecerá a partir de agora, mas é bom saber que a Mocidade está indo à luta. Podia fazê-lo com seu antigo carnavalesco, Paulo Menezes, para quem as mudanças políticas vieram tarde demais. Mas a contratação da "estrela" deixa patente uma postura competitiva que revela isso que nós sambistas chamamos de atitude.

Sempre gosto de saber a opinião dos leitores, porque o diálogo com eles é muito enriquecedor. Por isso, será muito bom que opinem aqui sobre a nova conjuntura. Isso me ajudará a estender minhas considerações.

Leia mais:

- 'Buscamos o melhor carnavalesco da atualidade', diz Anderson Abreu

- Agora é oficial: Paulo Barros é da Mocidade


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10/03/2014 17h09

Ainda sobre a apuração...
Rachel Valença

Muito se tem escrito sobre o julgamento das escolas de samba. Este ano, embora a vitória da Unidos da Tijuca, seguida de Salgueiro, Portela, União da Ilha, Imperatriz e Grande Rio, não tenha sido nenhum absurdo, o fato é que o surpreendente insucesso da campeã de 2013, a Vila Isabel, deixou patente a fragilidade dos critérios utilizados no julgamento.

A primeira coisa que me vem à mente é uma imagem dos jogos olímpicos. Nas disputadas provas de ginástica olímpica, terminada a apresentação de cada concorrente, espera-se... a nota. Isso mesmo. Os julgadores têm um tempinho relativamente curto para atribuir uma nota, que aparece num painel eletrônico e desperta emoções e reações dos participantes e do público. Há aplauso, há descontentamento, há choro, há comemoração, bem ali, no ato! No carnaval, muito ao contrário, as notas só são conhecidas dias depois e as justificativas, só quando todo mundo já enterrou a mágoa e a revolta.

Julgar nunca é fácil e uma série de fatores e de subjetividades acaba sempre se imiscuindo até no mais imparcial dos julgamentos. Porque, para além dos critérios técnicos, existe o gosto pessoal de cada um. Mas absurdo é absurdo e não se discute. Será que há alguém que goste mais de ala sem fantasia ou de composições de carro alegórico de cueca? Se, terminado o desfile, aparecessem num painel as notas 9,9 ou 10 para fantasias e alegorias nessas condições, garanto que o julgador pensaria duas vezes antes de cometer tal absurdo.

Desfile Império da Tijuca. Foto: Ary Delgado

Antes de mais nada, seria preciso que as escolas fossem avaliadas por seus pares, como manda a boa norma acadêmica, por exemplo. Pessoas relacionadas ao samba, que militam nessa área, dificilmente exporiam seus nomes à chacota e à execração, dando notas levianamente. Por outro lado, essas seriam as pessoas mais indicadas para julgar, por terem a vivência do assunto ou do quesito que lhes cabe avaliar.

Não queremos ser avaliados por bailarinas, porque não dançamos balé. Não queremos ser avaliados por maestros, porque nossa "orquestra" tem outras características. Não queremos ser avaliados por artistas plásticos ou por letrados, porque seus títulos não nos garantem a sensibilidade necessária para entender e avaliar nossos fazeres. Queremos ser avaliados por sambistas, por gente que saiba o que é fundamental na dança do par que carrega o símbolo da escola, por gente que seja capaz de avaliar a concepção e a confecção das fantasia, por gente que possa julgar a beleza e a adequação de um samba ao enredo e ao desfile.

Há julgadores que aí estão há 25 anos. Convido os leitores à tarefa de levantamento dos nomes dos jurados na era do Sambódromo e ao desempenho deles. Numa rápida olhada, pelo menos dois nomes desses dão 10 a determinadas escolas ano após ano. Não é admirável que essa nota não varie? Tanta constância faz pensar... Mas a cada ano lá estão os fiéis defensores e estranhamente ninguém os impugna!
Compreendo a revolta e a tristeza do presidente da Império da Tijuca, sei exatamente como se sente porque já o senti na pele. É horrível a sensação de ter feito tudo direito e ver que isso não é o suficiente. Dói demais e desanima. O que uma derrota nessas condições pode significar na trajetória de uma escola é fácil de imaginar se pensarmos no abismo que existe entre o Grupo Especial e a Série A. É quase a diferença entre o tudo e o nada.

E, por falar nisso, finalizo dando plena razão ao leitor Glaucio, quando reclama da falta de acesso ao quadro de notas da Série A. Se não conseguimos anotar durante a apuração - tarefa desafiadora! -, não a temos até agora. Não saiu nos jornais nem se encontra no site da Lierj, o mínimo de transparência que se poderia esperar. No ano que vem, está decidido: vou à Praça da Apoteose, assistir à apuração da Série A, com chuva ou com sol, com cansaço ou com doença, mas não fico dias e dias sem poder analisar o resultado.


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07/03/2014 12h51

O resultado da Série A
Rachel Valença

Você conseguiu ouvir, leitor? Parece que tudo é difícil para essa brava gente que faz carnaval fora do Grupo Especial. Uma coisa singela como a transmissão do resultado se torna um pesadelo. Televisão? Nem pensar... Rádio? Com pouco mais de meia hora de apuração, chega A Voz do Brasil e é preciso esperar uma longa hora para ter a esperança de saber quem está na frente. Mas qual! Depois das 20 horas só se falava de futebol. O jeito foi acompanhar pelo computador, com o coração aos saltos. Como é triste e difícil a vida de torcedor da Série A!

Quanto ao resultado propriamente dito, achei-o bastante coerente. Nada mais próximo a um desfile do Grupo Especial do que o que apresentou a Viradouro. Logo, é ela que deve mesmo subir. Ela, que apresentou carro acoplado, numa demonstração de luxo característico das "poderosas". Ela que se fez anteceder de um enorme grupo de "encamisados", bem comum no Grupo Especial. Ela que fez o público e o componente cantarem vigorosamente um verso do refrão, enquanto a bateria emudecia estrategicamente: "Canta, Viradouro". Tinha tudo para ganhar e estava identificada com um enredo que mexia com os brios do contingente. Salve ela!

Foto: SRZD

O honroso vice-campeonato foi para a Estácio de Sá, que desfilou muito bem e nem precisaria recuar sua data de fundação para 1927 (!) para afirmar sua condição de escola tradicional, descendente da valorosa Unidos de São Carlos, de 1955. Está indo bem a Estácio, após uma fase de problemas. E a gente torce por esta querida escola, que tal como a Viradouro, já foi até campeã do carnaval.

A Unidos de Padre Miguel, terceira colocada, vem crescendo nos últimos anos e fez um desfile muito bom, ainda que com pequenos desacertos que lhe custaram preciosos pontinhos. Mas a colocação é excelente e faz jus ao esforço da escola.

Em quarto lugar veio a Porto da Pedra, com seu enredo encantador, que contou com o auxílio luxuoso dos casais famosos do carnaval carioca. Mas, entre tantas porta-bandeiras famosas, a mais incrível era... Carlinhos de Jesus! São ideias simples como essa que nos fazem acreditar que ainda se pode fazer muita coisa carnavalesca e divertida, causando surpresa e emoção, sem precisar de patrocínios mirabolantes.
Em quinto lugar, a Cubango, que fechou com garra o desfile de segunda, longuíssimo. Pra que tanta escola num só grupo? Coisa linda era a rainha de bateria, Cris Alves, dando show de samba no pé e de simpatia e tocando de verdade o seu tamborim. Dava gosto ver.

Em sexto, o meu Império Serrano, que não assisti ao vivo, só na gravação, e me pareceu digno, correto animado, com carros grandes, de bom gosto e bem acabados e fantasias muito bonitas. Viva Edu Gonçalves. Minha maior dor é que ninguém mais acha estranho o Império na sexta colocação da Série A, quando para mim ele ainda é uma grande escola, capaz de disputar título no Grupo Especial. Dizem que o amor é cego, mas acho que na verdade só ele é capaz de enxergar bem.

Se houvesse um sábado das campeãs da Série A, estas seriam as participantes. Das demais, pode-se ressaltar o lindo samba da Renascer de Jacarepaguá, a comissão de frente da Em Cima da Hora (é impressão minha ou o samba antológico não tirou todas as notas 10?), a excelente bateria da Curicica, a fantástica comissão da

Caprichosos de Pilares e uma palavra final de elogio ao presidente Déo Pessoa, que soube separar bem o desempenho de sua escola de origem e sua posição como presidente da Lierj: a Rocinha caiu e fez por onde, com um desfile fraquíssimo, e o presidente não se imiscuiu na questão. Este deveria ser sempre o padrão de ética em vigor, mas não é e daí o elogio: queimou a língua quem afirmou que a Rocinha não cairia. Caiu, e a gente pode acreditar um pouquinho no julgamento, o que é salutar para o samba.


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06/03/2014 00h05

Por um décimo
Rachel Valença

O resultado do carnaval de 2014 entre as escolas do grupo especial não tinha uma favorita. Nem mesmo duas favoritas, que decidiriam quesito a quesito. Deu Unidos da Tijuca por um décimo... e não foi injusto. Mas se desse Salgueiro também não seria nenhum absurdo. E quer saber? Se ganhasse a Portela, daria para entender muito bem.

Foto: SRZD - Tatiana Perrota

Logo, não há motivo para revolta, para reclamação, para confusão. Melhor assim, porque nos permite analisar com serenidade as notas atribuídas às escolas pelos julgadores e comentá-las por um viés mais técnico.

Primeiramente, vou morrer sem entender como os julgadores de fantasias conseguiram dar notas que variaram entre 9,7 e 9,9 às fantasias da Unidos de Vila Isabel. Será que não repararam a falta de elementos como chapéus e palas nas fantasias julgadas? Já a São Clemente e a Império da Tijuca tiraram, cada uma, duas notas 9,6 neste quesito. Como? A resposta será sempre a mesma: vamos esperar as justificativas. E quando elas vierem, daqui a muito tempo, já nem nos lembraremos dessa questão. Assim, os absurdos são logo esquecidos e a coisa nunca muda.

E quanto aos quesitos enredo e conjunto? A mesma Vila Isabel deixou de apresentar alas que estavam no organograma de desfile, comprometendo a integridade do conjunto e o desenvolvimento do enredo, mas também nesses quesitos foram timidamente penalizadas, sendo sua menor nota 9,7. No quesito conjunto, Império da Tijuca e São Clemente levaram seu 9,6 regulamentar. Em Alegorias e Adereços a Vila chegou a ganhar um 10, embora seus carros tivessem elementos de composição com fantasias incompletas e até de sunga. Sunga? Teve gente que viu até cueca. Mas os julgadores nada viram. E não venham me dizer que é por causa da posição do módulo em que o julgador se encontra: os carros passaram assim por todos os módulos.

O que acontece todo mundo sabe: o julgador nem sempre julga o que vê: julga a "importância" da escola. A marca Vila Isabel, campeã do carnaval passado, vale mais que a "marca" Império da Tijuca, brava escola que subiu ao especial no ano passado e fez um desfile digno, lindo, mas fadado à má-vontade dos julgadores. Uma pena!

Outra curiosidade é a colocação da Grande Rio em 6º, justamente no ano em que fez o melhor desfile de sua história. A escola de Caxias estava linda, alegre e leve, que [e o que raramente consegue ser. O perigo é que seus dirigentes tomem este resultado como indicio de que a fórmula não funcionou e voltem ao modelo anterior, para tentar agradar os senhores julgadores.

Muito me alegra a volta da Portela ao desfile das campeãs. A escola veio linda, como escola de samba, entoando um autêntico samba de enredo e para quem ainda gosta disso é muito bom ver tais valores premiados. Da mesma forma, a União da Ilha, com este resultado, consolida-se como uma grande escola.

Ambas optaram por carnavalescos de talento e foram capazes de oferecer a eles condições propícias de trabalho. O resultado é o reconhecimento disso.

Por outro lado, será triste, depois de tantos anos, uma festa das campeãs sem a Beija-Flor, escola que tem uma torcida crescente e empolgada, que certamente já tem na mão seu ingresso para sábado. Há quantos anos isso não acontece? Que sirva de advertência para o risco de certas inovações, que podem ferir os ritos mais importantes de um desfile. A mistura de coreografias de comissão de frente e mestre-sala e porta-bandeira parece ter causado prejuízo a todos: as notas da comissão foram baixas e o veterano e festejado casal Selminha e Claudinho amargou um 9,7, felizmente descartado, e não conseguiu um dez unânime, apesar de sua excelência técnica.

O pavilhão de uma escola é sagrado. Eu diria que é a peça mais importante de um desfile, a que marca a identidade da agremiação. Não deve ser tornado parte de um todo. No caso da Unidos da Tijuca, em que a comissão também interage com o casal, isso é feito com mais sutileza, quando o homenageado pelo enredo vem respeitosamente beijar a bandeira da escola, nem gesto de reverência e gratidão. Mas a junção gratuita dos elementos, como se deu na Beija-Flor, não me pareceu feliz. Penalizada, não fará escola, não virará moda. Antes assim.

A colocação da Mangueira não surpreende. Só entristece. Não posso entender como uma escola experiente, com uma carnavalesca espetacular, presta tão pouca atenção a detalhes importantes como a altura de um carro alegórico, para que se evite um problema recorrente, como o que foi visto. Sai diretoria, entra diretoria e a fita métrica da Mangueira continua com defeito? Uma pena...

A Mocidade Independente fez um desfile muito bom, surpreendentemente bom. Sabíamos todos nós o problema político que a escola acaba de enfrentar e temíamos não poder esperar muito dela. Pois bem: estava Lina, animada e o samba foi uma agradável surpresa que empolgou a Sapucaí. Pena que as notas não corresponderam.

Então está tudo certo: as primeiras a desfilar tiram notas baixas, a escola que subiu volta para o lugar de onde veio e a gente fica esperando as justificativas, pra ver se consegue entender por que os julgadores não veem a mesma coisa que nós.


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21/11/2013 10h42

Axé, Delcio Carvalho!
Rachel Valença

Nesta quarta-feira, dia em que se comemoou  a Consciência Negra, um dia de sol no feriado do Rio de Janeiro (não sei por que na é feriado nacional), fui à tarde prestar homenagem a um amigo muito querido que se foi na semana passada. Um excelente compositor e uma pessoa incrível, de sorriso aberto e disposição constante para a solidariedade.

Delcio Carvalho nasceu em Campos em 1939 e veio novinho para o Rio, em busca de melhores oportunidades de trabalho. Cantava bem e começou a se apresentar em programas de calouros e em bailes, como crooner de orquestra. Mas foi sem dúvida a parceria com Dona Ivone Lara, na década de 1979, que lhe deu popularidade. "Sonho meu", gravado por Maria Bethania, estourou como sucesso nacional. Tornaram-se conhecidas a partir daí "Minha verdade", "Acreditar" e tantas outras.

Teve músicas gravadas por Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Gal Costa, Maria Bethânia, Cauby Peixoto, Nara Leão, Jair Rodrigues. Mas, como já frisei acima, a solidariedade sendo sua marca registrada, deu composições a muita gente nova, como Moyseis Marques, Roberta Sá e o grupo Casuarina.

Excelente cantor, de presença marcante, gravou um LP e vários CDs. Tudo coisa fina. Se este país fosse diferente, desse valor a músicos com esse perfil, Delcio teria muito mais visibilidade. Tenho sempre por perto o seu CD Afinal, mas não passo sem ouvir o maravilhoso Profissão compositor. Mas reconheço que no CD Delcio - Inédito e eterno estão também, em parcerias com bambas como Nei Lopes e Wilson das Neves, mas também com o poeta Cacaso, composições inesquecíveis.

Sem ele, o Império Serrano fica um pouco menos bonito e alegre. Quando fazíamos a nossa tradicional Noite do Imperiano de Fé, em que todo mundo comprava uma bonita camiseta que servia de ingresso na festa, para angariar fundos para a reta final do carnaval, na semana em que os gastos no barracão são altos, recorríamos aos artistas imperianos para abrilhantar a noite e servir de chamariz ao público. Muita gente boa ajudou. Delcio Carvalho esteve sempre lá, feliz de poder colaborar. Solidariedade que não se paga, que não tem preço.

Lá estava hoje na igreja da Glória muita gente que, como eu, tem Delcio Carvalho no coração, como artista e como amigo: Paulão Sete Cordas, Vó Maria, Zélia e Rubem Confete, Nilcemar Nogueira, e muita gente mais. Lá estava a querida Bertha, a grande Amiga. O padre, negro, foi muito feliz em suas palavras na Homilia, ao associar as letras das composições de Délcio ao dia que hoje se comemora. E peço a você, leitor, que em homenagem à memória desse grande compositor procure ouvir hoje ao menos um de seus inúmeros sambas.


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18/11/2013 13h41

Maremoto em águas plácidas
Rachel Valença

Nos últimos dias, o III Encontro de Carnaval SRZD me deu oportunidade de conhecer de perto pessoas que fazem o carnaval do Rio de Janeiro. Algumas que lá estiveram são amigos próximos, que é sempre bom reencontrar. Com outras, foi meu primeiro encontro. Não preciso dizer o que lá foi dito, porque o leitor teve acesso a tudo e as gravações aí estão, disponíveis. Já as minhas impressões sobre o que foi conversado, elas se conservam inéditas e assim ficariam, não fossem os fatos posteriores, que me obrigaram a levar mais longe algumas dessas impressões e partilhá-las aqui.

Todas as pessoas que compareceram, fossem carnavalescos, dirigentes ou diretores de carnaval, tinham um momento de otimismo, de animação, principalmente ao falar dos preparativos para o carnaval de 2013, mas tiveram também um momento de realismo, ao falar das dificuldades enfrentadas. Nesse ponto, o simpático presidente da Portela, Sérgio Procópio, foi o mais enfático: falou com espantosa sinceridade da situação da escola, sem medo de que suas palavras viessem contribuir de alguma forma para a fragilização da imagem da escola. Mas até mesmo a empolgada Império da Tijuca, com sua autoestima a mil pela vitória e ascensão ao Especial, admitiu com sinceridade seus problemas e fragilidades.

A Unidos de Vila Isabel foi a última escola a participar, representada por sua "tropa de elite": o próprio presidente Wilsinho, acompanhado do diretor de carnaval, Junior Schall. O discurso afinado, bem estruturado e simpático deixou todo mundo boquiaberto. A Vila pareceu estar num estágio de organização distante anos-luz de tudo que tínhamos ouvido antes. Não que houvesse arrogância na fala deles: ao contrário, havia uma naturalidade, como se aquelas soluções, aquela maneira de trabalhar, aquela dinâmica, fosse muito simples, quase óbvia.

Em resposta à pergunta que fizemos a todos os outros participantes - qual o principal problema da escola? -, recebemos a descrição de um paraíso, lugar onde só há coisas boas e até as coisas que aparentemente causam estranheza (como ter tão poucos sambas inscritos na disputa) são apontadas como trunfos positivos. Eu tinha uma pergunta engasgada na garganta, mas meu colega Hélio Rainho a formulou antes e com mais gentileza eufemística do que eu seria capaz: se tudo é tão bom, como é que tanta gente deixou a escola? Vão à gravação e vejam a resposta, diretamente dada por quem tem legitimidade para isso.

Uma semana depois, a bomba: sai o carnavalesco Cid Carvalho. Sai alegando falta de pagamento, como foi amplamente divulgado. A notícia me leva a pensar em duas direções. A primeira é bastante óbvia: havia sim um problema, e grande. Falta de dinheiro. Problema recorrente para as demais participantes do Encontro, porque é sabido que o desfile das escolas de samba hoje assumiu proporções difíceis de financiar sem déficit. Todo mundo falou disso, menos a Vila Isabel. A dúvida que me fica é se havia dinheiro e o carnavalesco não era pago ou se também em Vila Isabel está faltando dinheiro e isso foi omitido.

A direção da minha outra reflexão é o carnavalesco. Minha relativamente longa experiência no carnaval me mostra que os carnavalescos são em geral muito idealistas e comprometidos com seu trabalho. É comum que o levem até a Sapucaí, ou até a Intendente, em quaisquer condições. Como qualquer outra categoria profissional, precisa pagar suas contas e deve ser pago e respeitado. Mas já vi casos comoventes de carnavalescos que com ou sem calote levam adiante seu projeto e até contribuem financeiramente para que não seja desvirtuado pela carência. São tantos os exemplos que acho que voltarei a escrever sobre isso.

Não tenho acesso a nenhuma informação privilegiada, não estou falando com conhecimento de causa, apenas conjecturando com base em fatos e analisando, que é o que se espera de um colunista. Cid Carvalho é um grande carnavalesco e não estava trabalhando para uma escola qualquer. Para ter abandonado o carnaval que desenvolvia na campeã de 2013, a pouco mais de três meses do desfile, deve haver outros motivos além do atraso no pagamento. Não sei não, mas tenho a estranha sensação de que abandona um barco que parece navegar em águas calmas, mas por baixo dele se agita um maremoto. Tomara que eu esteja errada e que a querida escola caminhe a passos largos para um desfile do nível do que apresentou em 2013.


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04/10/2013 15h00

No terreiro, na quadra
Rachel Valença

Foto: DivulgaçãoHouve um tempo em que as escolas de samba ensaiavam em áreas de terra batida, sob a luz das estrelas. A expressão "levantar poeira" era uma realidade. Samba bom era aquele que fazia os pés removerem a terra, num ritmo contagiante. E ninguém pensaria em se abrigar num camarote envidraçado para fugir do desconforto daquele calor empoeirado.

Nesse tempo, os ensaios eram animados não apenas por sambas de enredo - o novo, que era preciso aprender, e os antigos, para refrescar a memória -, mas também por sambas de terreiro. Eram composições dos poetas da casa que falavam de seu cotidiano, suas dores de amor, suas alegrias, sua paixão pelo samba e por sua escola. Sei que é difícil imaginar algo assim, mas o fato é que algumas dessas composições, mesmo antes de serem gravadas, ou até sem nunca serem gravadas, caíam no agrado do público e eram levadas de uma escola para as demais, cantadas e apreciadas.
Do Salgueiro, por exemplo, nos veio O neguinho e a senhorita, que acabou virando sucesso nacional, mas muito antes animava todo ensaio que se prezasse. Muitos desses sambas, no entanto, só sobrevivem na memória de quem os ouvia na época. Quando eu comecei a frequentar a quadra do Império Serrano, no início da década de 1970, me dava muita satisfação um samba: "Ô nega, pra você eu dou o pano/ Pra neste carnaval/Sair no Império Serrano". Apesar do seu machismo, que, aliás, era uma constante na época, era um lindo samba.

Meu amigo Ivan também vinha de longe até a quadra do Império para ouvir um samba de terreiro que começava assim: "Abre a janela e deixa o sol entrar/ A primavera nos convida para amar". Enquanto alguém não cantasse este samba, o Ivan não ia embora. Soube depois que em várias coirmãs ele também era entoado com sucesso.

Eram tempos felizes, em que ninguém parecia se importar com o calor, nem mesmo com a chuva, se ela viesse. Não havia camarote envidraçado, mas éramos felizes, acreditem. Mas o terreiro deu lugar à quadra, com piso acimentado e cobertura. As singelas composições de meio de ano, que não se destinavam ao desfile carnavalesco, passaram a ser conhecidas como sambas de quadra. E com o tempo, à medida que o samba de enredo ia engolindo toda a concorrência musical e ocupando, absoluto, a preferência popular, o samba de quadra foi gradativamente perdendo espaço. Nos ensaios não era mais cantado. Fora deles, onde mais se apresentaria?

E, se não havia onde divulgar as composições, os poetas foram deixando de compô-los e dedicaram todas as suas energias ao samba de enredo. O resto desta história todo mundo sabe. Mas muitas vezes a gente se pergunta se não há lugar para todos os tipos de samba, se o samba de terreiro e o partido-alto não poderiam acrescentar muito à trajetória do nosso gênero mais popular.
Uma forma de salvaguardar este importante fazer carioca foi criada há alguns anos: o Concurso de Samba de Quadra. Ele acontece de outubro a dezembro, uma época em que as escolas de samba já escolheram seus hinos e vivem, do ponto de vista da produção musical, uma espécie de entressafra. Hora, portanto, de criar. No ano passado a comunidade do samba aderiu com força ao evento, promovido pelo Sesi Cultural. Foram mais de 1.300 sambas inscritos e não apenas os compositores são premiados: também os intérpretes concorrem a um prêmio, para estimular seu interesse em participar e o surgimento de novos valores.

Se tanta gente se inscreveu, é sinal que o concurso está conquistando credibilidade e ganhando um formato de maior autenticidade e fidelidade à proposta original do samba de terreiro. Isso não surpreende, porque está entregue a quem entende de samba, conhece o que é samba de quadra. Jorginho do Império está desde o ano passado na coordenação artística do concurso, o que é garantia de qualidade e de transparência.

Portanto, atenção, poetas, músicos, compositores, sambistas e intérpretes. Se desejam ver suas composições premiadas e gravadas em CD, as inscrições já estão abertas e vão até o dia 19 de novembro. Vamos todos participar, para que o samba de quadra, que um dia se chamou samba de terreiro, volte a nos proporcionar alegria e emoção e ajude a manter bem alto o nome do samba do Rio de Janeiro.


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25/09/2013 16h00

Em resposta
Rachel Valença

Peço aos meus estimados leitores que me perdoem por trazer a este espaço um assunto que talvez não seja de interesse geral. Mas penso que, apesar de se referir a uma situação específica, acaba dizendo respeito a todo o assim chamado mundo do samba, e por isso tem alcance maior. Vamos aos fatos: fui surpreendida ontem com a notícia de que o intérprete Anderson Paz fez publicamente, na quadra de nossa coirmã Acadêmicos do Cubango, uma declaração de teor bastante desagradável e deselegante: disse ter pena do Império Serrano, não pela instituição, mas pelas pessoas que já passaram por lá.

Por lá passaram milhares de pessoas nos 66 anos de existência da escola. Inclusive o próprio Anderson, que foi intérprete oficial de abril a outubro de 2009. Mas creio que ele estava se referindo aos dirigentes, não a intérpretes nem a componentes, nem a ritmistas, nem a carnavalescos. Mesmo assim, o Império, como qualquer outra escola de samba, teve, ao longo do tempo, bons e maus dirigentes. Alguns deles eu me esforço por esquecer que existiram, mas outros são dignos de meu respeito, porque lutaram bravamente para manter uma escola digna, sem qualquer tipo de apoio externo.

Foto: Reprodução de Internet

Portanto, a generalização me pareceu grosseira e inadequada. Preferia até que ele tivesse explicitado quem são as pessoas nefastas que por lá andaram e que tanto mal fizeram à escola que ela se tornou digna de dó. E digo isso correndo riscos, porque eu era vice-presidente justamente no momento em que ele lá esteve e por isso é bem provável que esteja incluída entre as tais pessoas.

Sempre tive com Anderson um relacionamento cordial e amistoso, mas isso não conta muito. Tratava-se de uma relação profissional, em que cobranças, ainda que necessárias e inadiáveis, causam estragos.
Num cargo de direção, somos obrigados a tomar atitudes que não traduzem a nossa vontade, mas a necessidade do momento. Antes do Anderson, nosso intérprete era o grande Nego, com quem até hoje mantenho uma amizade carinhosa, de grande respeito mútuo. A demissão dele, logo após um carnaval em que perdêramos tudo, foi penosa para nós todos, mas necessária, como foi necessária, meses depois, a do Anderson. Só que o Império Serrano não saiu atirando, declarando no primeiro microfone à disposição os motivos dessas demissões que se impunham.

As relações profissionais no carnaval são ambíguas. Direitos e deveres ficam travestidos por uma camaradagem, como se aquilo não fosse um trabalho remunerado, como se fosse um favor ou um prazer. Num emprego tradicional, cumprimos nossas obrigações, às vezes até com prazer, mas não perdemos a noção de que não estamos fazendo favor a ninguém. E se não cumprirmos o que foi combinado, sabemos bem o que nos espera.

Creio que mesmo os mais lamentáveis dirigentes da história do Império Serrano foram minimamente elegantes no momento de dispensar profissionais. Não me consta que tenham saído denegrindo o demitido, expondo-lhe as falhas e as limitações. Assim foi com Anderson Paz. Se naquele momento tivessem sido expostas as razões da dispensa, talvez hoje não fosse possível inverter a situação, culpando os dirigentes de falhas do dispensado.

Agora, quatro anos após sua saída, Anderson sai atirando. Sem apresentar motivos, sem dar razões, bombardeia sem alvo certo. Tenho muito apreço à liberdade de opinião, ao direito de cada um dizer o que lhe apraz. Mas me pergunto se o Anderson Paz falaria de modo tão direto e desabrido se não fosse este mesmo Império Serrano uma escola pacífica, tranquila, historicamente alheia a qualquer tipo de violência.
Atacar o Império Serrano é fácil. Quero ver... deixa pra lá. E digo isso sem mágoa. Eu não tenho pena do Império não. Tenho é um imenso orgulho de pertencer a esta escola, que proporcionou ao Anderson cantar sambas maravilhosos, como Aquarela brasileira, de Silas de Oliveira, que ele entoou minutos antes de acionar sua metralhadora verbal contra a escola. Esta escola que proporciona a todos essa admirável liberdade de atacá-la sem razão, gratuitamente. Porque dizer que tem pena é o mesmo que dizer que ela é inferior, falha, menor. E não é o caso. Quantas escolas dariam tudo para ter a quadra sempre cheia, a torcida empolgada, a transmissão de saberes, a preservação de valores que a nossa tem? Guarde sua piedade para quem precisa dela.

Compreendo que o Anderson sinta uma enorme mágoa de não ter permanecido conosco. Mágoa que se traduz nessas palavras tão inoportunas, tão vagas e imprecisas que não ofendem ninguém e ofendem todo mundo. Porque de fato o Império Serrano é um lugar encantador e deve ser muito triste ter de ficar longe dele. Não menosprezamos aquilo que não tem importância para nós, simplesmente porque nem nos lembramos de sua existência.

Tudo que o Império Serrano quer é um pouco de paz para trabalhar, para tocar seu carnaval, para escolher nosso samba-enredo, entre tantas obras-primas que estão lá concorrendo. E que daqui a alguns anos ainda serão lembrados, como acontece aos grandes sambas de todos os tempos. E paz não é apenas uma palavra que acoplamos ao nosso nome: é algo que se constrói com atitudes, empenho e dedicação. E acima de tudo com senso de justiça, para saber reconhecer quando agimos mal, sem querer responsabilizar o próximo pelos nossos erros.


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28/08/2013 13h24

Poetas do Império Serrano
Rachel Valença

Sábado passado foi a apresentação dos sambas concorrentes no Império Serrano. Os 24 sambas inscritos foram ouvidos. Isso mesmo, 24 sambas numa escola que está fora do Grupo Especial. Para os dias atuais, é um número expressivo.

Ninguém fala abertamente, mas há no ar a sensação de que o samba de enredo já viu dias mais gloriosos. Um tempo em que você fazia as compras de Natal ao som das obras-primas das escolas de samba, em que os discos com os sambas batiam recordes de venda. E como tudo mundo gosta de fazer sucesso, veio o tempo em que as disputas tinham, no Grupo Especial, mais de cinqüenta sambas, muito mais às vezes, nas grandes escolas.

Quadra do Império Serrano. Foto: SRZD - Wellington Andrade

Hoje, esse número está minguando e é impensável que a campeã de 2013 tenha menos de dez sambas em sua disputa. Sinal dos tempos. Isso entristece a quem, como eu, adora samba de enredo.

Como dizia acima, fui a Madureira ouvir meus poetas. Não estava na minha melhor forma física, mas mesmo assim fiquei feliz com o que ouvi. Há muito samba bom. E, como é típico de época de disputa, o clima fica meio elétrico e coisas engraçadas acontecem. Por exemplo, um compositor pediu para tirar uma foto comigo e depois perguntou se podia postá-la nas redes sociais.
Ora, é comum que pessoas amigas, na quadra do Império, tirem fotos e as postem. O que me deixou espantada foi o pedido. Pois uma simples foto não significa nada, nenhum apoio, nenhuma preferência. Por que então não postá-la? 

Isso me fez pensar que, dentre os signatários de sambas este ano, no Império, conto um número enorme de amigos. A começar pelo mais antigo, Aloísio Machado, que conheci em 1982, quando ele regressava à Ala dos Compositores, depois de um afastamento de dez anos e por quem tenho uma admiração e um carinho enormes. Da mesma época remota vem minha amizade com o Paulo Samara, outro grande compositor. Na Velha Guarda Show, conheci há alguns anos, O Ivan Milanez, homem muito inteligente e poeta de valor.

Zé Paulo, irmão de meu querido amigo Jorginho do Império, é outro bamba cujas obras sempre me encantaram: sem dúvida herdou também o talento do grande Mano Décio da Viola, pai de ambos. Marcão da Serrinha foi diretor geral de Harmonia quando eu era vice de carnaval e muito brigamos, porque o cargo o impedia de participar da disputa, mas ele tinha muita dificuldade de não compor, de modo que muitas vezes batemos de frente ao serem desmontados os esquemas alternativos que armava para burlar a proibição. Fico feliz em constatar que, nele, o compositor falou mais alto, para o bem do Império Serrano.

Tive muito contato com o Chupeta, presidente da Ala dos Compositores na minha época. Acho que também brigamos um pouco às vezes, em desacordo com seu temperamento doce e cordial. Lula Antunes também já foi vice da escola, não na mesma época que eu. Hoje é só compositor, e dos bons que temos. Paulinho Valença e Henrique Hoffman são também imperianos muito participantes, a amizade surgiu em tantas feijoadas e ensaios, em tantos bons sambas que já nos deram. O simpático Marcelo Ramos, o risonho Popeye e tantos outros que só conheço de vista, sem associá-los a seus nomes, fazem parte das inúmeras pessoas que o Império trouxe para a minha vida, para alegrá-la e fazê-la mais bonita.

Este ano, duas novidades: Alex Santos, que conheci no Grupo Imperionautas, no tempo em que fui curadora do site do Império, está concorrendo. Salve ele! No comando de sua torcida, nossa ex-porta-bandeira Fabiana, que conheci criança, e que hoje é esposa e mãe exemplar. A outra novidade é o gaúcho Juliano Centeno, que conheci há uns 15 anos na lista Rio-Carnaval. Juliano era então um garoto e, ao tomar contato com o carnaval do Rio, apaixonou-se pelo... Arranco, sua escola até hoje.

É, não teve Império, Beija-Flor ou Mangueira que fizessem sua cabeça. Mas, com surpresa, vi que ele está concorrendo no Império. Salve ele, também!

Deixei para o final dois compositores também jovens, por quem tenho um carinho especial. Um, Alex Ribeiro, é filho de queridos amigos, Roberto e Liete, que foram meus vizinhos, de modo que Alex, bem pequeno, frequentava minha casa e era companheiro de brincadeiras das minhas filhas. Ei-lo aí agora, cantor e compositor, como o pai. E a gente fica orgulhosa com isso.

Alex tem um primo que também faz samba e está na disputa. Lucas Donato é o único da ala que eu posso dizer literalmente que vi nascer, pois conheci sua mãe ainda criança e me lembro dele, bem pequenino e já enfiado na bateria do Império, onde ainda não chegava à altura de um surdo. Sempre achei que ele seria um grande ritmista. E é. Mas a veia de compositor dos avós falou mais alto.
Falei aqui apenas daqueles que me são mais próximos. Olhando os prospectos, vejo muitos nomes familiares e certamente por detrás de alguns nomes não familiares se escondem outros que talvez eu conheça. Mas quis dizer que com muitos desses que citei hoje já tirei fotos, muitas das quais foram parar nas redes sociais.

Do veterano Aloísio Machado até Lucas Donato se percorre a linda história de uma escola de samba, um lugar de transmissão de valores e saberes. E dá pra entender por que ali, sob as bênçãos de Silas de Oliveira, a gente ouve tanto samba bonito, tanta riqueza melódica, tanta poesia. Fica até difícil escolher.


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13/08/2013 13h00

Espanhol... da gema!
Rachel Valença

Lá no Centro Cultural Cartola continuam as ações de salvaguarda decorrentes do reconhecimento, em 2007, do samba do Rio de Janeiro como patrimônio cultural do Brasil. Uma dessas ações é a tomada de depoimentos de grandes sambistas.

Não apenas dos grandes sambistas que conquistaram visibilidade na mídia, como Monarco, Nelson Sargento, Dona Ivone Lara. Para nós, grandes são também todos aqueles que dedicaram sua vida ao samba, seja como compositor, puxador, passista, mestre-sala, porta-bandeira, carnavalesco, coreógrafo, pastora, dirigente, mas cuja existência só é conhecida no círculo a que chamamos mundo do samba. Desses, se nós - sambistas - não nos preocuparmos em registrar a vida e os feitos, é possível que o tempo apague a lembrança, o que seria uma perda irreparável para a memória da cultura desta cidade, deste país.

Foto: Acervo Pessoal

Por isso, a gente vai gravando depoimentos, que lá estão à disposição de quem quiser ouvir. E no sábado passado tive a satisfação de entrevistar Juan Antonio Alvarez Mendez, o Espanhol, compositor quinze vezes campeão de samba-enredo na escola de samba Arranco. Não o conhecia a não ser dos créditos nos selos e nos encartes dos discos. E seu depoimento, para minha surpresa, foi um dos mais importantes documentos culturais, um verdadeiro hino ao samba.
Juan nasceu na Galiza, região da Espanha, e só veio para o Brasil aos dez anos. Mas foi ainda lá, nesses primeiros anos de vida, que se tornou portelense. Como? O pai, que viera tentar a sorte no Brasil para fugir da ditadura franquista, mandava para a família as revistas O Cruzeiro e Manchete, para que os filhos fossem se familiarizando com o país onde em breve teriam de viver. O objetivo foi alcançado: ao vir para o Brasil, no final da década de 1950, Juan já conhecia de carnaval e se apaixonara pela então campeoníssima Portela.

Só que - quis o destino - sua primeira casa no Rio de Janeiro calhou de ser na Rua Adolfo Bergamini, no Engenho de Dentro, vizinha à quadra de um bloco que em 1973 viraria escola de samba, e azul e branca, como a Portela! Sem nunca aposentar a paixão portelense, foi no Arranco que Juan teve toda sua vivência de sambista: tornou-se compositor, e dos bons. Assinava seus sambas como Espanhol, forma como era carinhosamente tratado. Mas no Arranco não fez só samba: fez de tudo. Como acontece em escolas desse porte, há carência enorme, o que leva seus aficionados a se desdobrarem em todas as tarefas que se apresentam. Juan foi intérprete, foi diretor de harmonia, trabalhou no barracão, se desdobrou em funções várias.

Foto: Acervo Pessoal

As provas de amor do grande compositor à sua pequena escola são inúmeras. Mas uma merece ser mencionada: ao vencer a disputa de samba-enredo na Unidos da Tijuca, em 1993, com aquele Dança, Brasil, lembram?, por se tratar de uma escola do grupo especial, numa época em que a indústria fonográfica estava no auge, Espanhol esperava o pagamento de seus direitos autorais para realizar o sonho da esposa de trocar os móveis da casa. Mas, quando o dinheiro foi pago, o Arranco estava numa situação tão crítica, sem ter como desfilar, que o compositor não hesitou em aplicar lá todo o dinheiro ganho.

Graças a ele, o Arranco foi poupado, não foi rebaixado. Mas como explicar à esposa que o dinheiro já fora recebido e usado? Afinal, fora nós - sambistas fanáticos - quem mais aceitaria ou sequer compreenderia um absurdo desses?

A casa do Espanhol ficou sem os móveis novos, mas, mais do que a salvação do Arranco, esse episódio pessoal e doméstico se reveste de um incrível significado cultural e do que representa o samba na vida das pessoas. Não só dos cariocas, não só dos brasileiros, mas dos sambistas, que podem ter nascido em qualquer lugar do mundo, até na longínqua Galiza. E comprova que quem ama o samba dessa maneira incondicional e irrestrita e é tocado pelo dom da poesia é capaz de fazer sambas bons como os que nos acostumamos a ouvir com a assinatura do compositor Espanhol.


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