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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



25/08/2016 14h46

Opinião: 'Quem samba fica, quem não samba...'
Rachel Valença

Peço desculpas aos leitores: ando ausente. Ausente, aliás, de quase tudo. A causa do recesso forçado é o compromisso de entregar à editora o texto da segunda edição do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba", que deverá sair no próximo ano, quando minha escola completa 70 anos de vida. Mas hoje não resisti a me manifestar aqui sobre noticiário do dia, que envolve justamente o Império Serrano.

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Foto: Acervo Pessoal

Notícia triste, que trata de intolerância religiosa, algo inconcebível num lugar que, segundo as belas palavras de um samba de Arlindo Cruz, "é caminho de Ogum e Iansã", numa escola de samba que já pediu, num samba-enredo: "Senhor, olhai por nós, até por quem perdeu a fé". Uma escola de samba que é um dos últimos redutos de autêntica cultura negra, em sua plenitude e beleza, que inclui música, dança, culinária, indumentária e religião. Não por acaso, quem me alertou para o assunto foi Dário Firmino Onixêgum, numa mensagem no Facebook em que teve a gentileza de marcar meu nome. E é de Dário que eu começo falando.

Foto: Acervo Pessoal

Conheço Dário há muito tempo, lembro-me dele bem novinho, na bateria, no naipe dos agogôs, no tempo em que eu saía na Sinfônica. Simpático, comunicativo, divertido, mas apenas um menino. Depois, lembro de tê-lo visto várias vezes em apresentações do Jongo da Serrinha. Um pouco mais velho, sempre com o mesmo sorriso. Há pouco tempo, a surpresa: uma palestra sobre religiosidade dada por ele na Casa do Jongo me deixou encantada com sua capacidade de articulação e sua inteligência brilhante. Fiquei sabendo que Dário Firmino, tão moço ainda, é pai-de-santo e conhecedor dos ritos do candomblé e fala disso com clareza e espontaneidade. Não pude deixar de pensar em como a vida o abençoou com tantos dons e de me sentir orgulhosa de conhecê-lo.

Foto: Acervo Pessoal

Pois bem, foi o Dário que fez chegar até mim esse assunto. Corri para o jornal, para ver o que saíra. Trata-se de uma matéria em que o atual patrono do Império Serrano, na sua condição de evangélico, declara que não aceitaria que o Império Serrano fizesse enredo sobre "espiritismo". Deve haver quem leu isso e não achou nada demais. Mas para nós, imperianos, isso levanta uma série de questões. A primeira dela está bem expressa na primeira frase da coluna de Leo Dias:

"No Império Serrano, a palavra patrono soa como palavrão". Não há maior verdade. E sabem por quê? Porque, há quase 70 anos, nascemos de um anseio de liberdade, rompendo as amarras, encarando riscos e desafios, para não mais bater cabeça para um dono. Foi duro. Aliás, é duro e difícil manter a cada dia essa liberdade.

Para isso passamos a cada três anos por um doloroso processo eleitoral, que desgasta, faz de amigos opositores, mas garante minimamente que a vontade da maioria prevaleça. Na gestão anterior, também apareceu um patrono disfarçado com o nome de superintendente, ou coisa similar, e isso foi alvo de críticas até mesmo dos que hoje se encontram no poder. "Venderam o Império", era o que se dizia a boca pequena. Na atual gestão, a julgar pelo que tenho ouvido, a questão se repete. Não é o mesmo patrono, é outro, alguém que não é essencialmente imperiano, tanto que já tentou "reinar"em outra agremiação. Por incrível que pareça, tem gente que gosta mais de "reinar" do que de sambar. Gosto não se discute.

Nada tenho contra o antigo "patrono", que não cheguei a conhecer, nem contra o atual, que nunca vi. Mas me sinto muito triste ao ouvir, como tenho ouvido, que foi ele que escolheu o carnavalesco, que é ele que influencia decisivamente a disputa do samba-enredo, atualmente em curso e marcada por polêmica, como é ele que agora mistura suas convicções religiosas com assuntos tão importantes quanto a escolha de um enredo.

Numa escola de samba como a nossa, falar de religiões de matriz afrodescendente, como umbanda e candomblé - e até esses nomes parecem assustar, já que são disfarçados sob o eufemismo "espiritismo" - é falar de nós mesmos, pois nosso desfile, a cada ano, qualquer que seja o enredo, é uma grande celebração de caráter religioso. Dela participam até os que, como eu, não têm religião. Porque não é preciso religião, seja ela qual for, para se perceber a dimensão do sagrado. E o samba, forma de manifestação daqueles que por séculos não tiveram voz, é sagrado. Não há dinheiro no mundo, não há patrono na face da Terra capaz de mudar isso e de calar essa voz.

Muita gente, ao longo dos anos, ajudou o Império Serrano a ser o que hoje é. Os que tentaram se sobrepor à escola ficaram para trás. Seus nomes de despotazinhos de ocasião jamais poderão ombrear com os de Eloy Antero Dias, Sebastião Molequinho, Mestre Fuleiro, Eulália do Nascimento, Silas de Oliveira e tantos outros bravos que aceitaram o Império Serrano e sua gente como eles são, com sua arte, suas crenças e sua grandeza.

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09/05/2016 08h02

Patrimônio Histórico aprova tombamento da Passarela do Samba
Rachel Valença

Para os sambistas jovens, a Passarela do Samba na Av. Marquês de Sapucaí é apenas o lugar onde se realizam os desfiles das escolas de samba, durante o carnaval. Para os veteranos, porém, a Passarela tem um significado especial, pois simboliza o coroamento da luta dos sambistas ao longo de um século para que o samba fosse reconhecido como social e culturalmente relevante.

Não se trata apenas do fim do monta-desmonta anual de arquibancadas: trata-se da criação de um monumento arquitetônico, em área nobre da cidade, exatamente aquela que viu o novo gênero ganhar suas características de "samba de sambar". E, diga-se de passagem, monumento criado por um dos maiores arquitetos do mundo, Oscar Niemeyer.

Foto: Reprodução de Internet

Pois bem, na última semana o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional aprovou o tombamento da Passarela do Samba, dentre outras obras do grande arquiteto. Isso significa que, a partir do ano que vem, estaremos fazendo nossa farrinha anual num bem tombado, num prédio considerado de relevância cultural para nosso país. Ah, Paulo Benjamim de Oliveira! Ah, Eloy Antero Dias! Ah, Mestre Cartola, olhem até onde chegou a garra e o talento de vocês...

A Avenida dos Desfiles, como foi inicialmente chamada, foi construída em apenas 120 dias, na Avenida Marquês de Sapucaí, local onde já se realizava o desfile das escolas de samba desde 1978. Com 13 metros de largura, tem extensão de 700 metros (tão pouquinho para nossa empolgação!). Em 1987, recebeu o imponente nome de Passarela Professor Darcy Ribeiro, em homenagem ao vice-governador do Rio na época de sua construção, que se dedicou pessoalmente ao acompanhamento do projeto. Mas o nome mais popular da Avenida, foi o próprio Darcy que lhe atribuiu: Sambódromo.

Foto: Acervo pessoal

Durante a obra, muita polêmica marcou a iniciativa. A mais corriqueira era que não ficaria pronta para o carnaval. Mas também a questão da segurança era uma tônica entre os adversários políticos e a imprensa: uma obra feita às pressas teria condições de abrigar tanta gente? Eram 60 mil espectadores previstos para ocupar os espaços! E, dizia-se, o terreno não era apropriado, um rio passava bem embaixo da obra monumental e poderia minar e abalar as estruturas.

Havia gente que jurava que jamais pisaria ali, pois a tragédia era previsível...

Em entrevistas no rádio, na tevê e nos jornais, o engenheiro calculista José Carlos Süssekind tranquilizava: testes de peso estavam sendo feitos com tonéis de água e não havia qualquer risco. Para desespero dos derrotistas de plantão, a passarela foi inaugurada com pompas e honras naquele longínquo carnaval de 1984. Confesso que ainda guardo comigo o convite para a solenidade de abertura, no dia 2 de março de 1984, que precedeu o desfile das escolas do então chamado Segundo Grupo. Foi o Império do Marangá a primeira escola de samba a cruzar a passarela, mas o que nunca mais pude esquecer, dessa noite, foi o desfile do Arrastão de Cascadura, cujo samba começava assim: "É folia, Cidade Maravilhosa/ Pisa nesta passarela/ Nossa escola suntuosa". Não, a escola não estava nem um pouco suntuosa, mas foi a primeira talvez a se referir ao novo espaço como Passarela. Uma emoção!

A capacidade era de 60 mil espectadores, muito mais do que a dos anos anteriores. E, para surpresa de muita gente, os ingressos não se esgotaram logo. Daí a decisão de parcelar o valor em três vezes, com uma espécie de carnê, financiado pelo Banerj. Bons tempos! Hoje é só dinheiro vivo e pago antecipadamente. Hoje a Passarela comporta 72.500 espectadores, após a derrubada, em 2011, do prédio da Cervejaria Brahma, que possibilitou a construção de arquibancadas no lado par da Avenida, conferindo à obra seu caráter simétrico originalmente previsto.

Gente de samba, que ocupa a Passarela nos meses que precedem o carnaval, em ensaios, e durante quatro dias praticamente a habita, tem, é claro, muitas críticas e queixas. Alguns problemas já foram corrigidos, como a absurda ideia da Praça da Apoteose, em que Darcy Ribeiro desrespeitou a tradição do desfile, querendo, de maneira autoritária, introduzir nele um elemento inexistente. Outros ainda persistem, e ano a ano as negociações progridem para chegar, se possível, a condições ideais. Muito se tem também desrespeitado o projeto original, introduzindo elementos arquitetônicos espúrios para atender a interesses dos que se julgam acima do bem e do mal.

Mesmo assim, o nosso Sambódromo desencadeou, pelo Brasil afora, uma série de construções com a mesma finalidade, de abrigar o desfile de escolas de samba, expressão cultural do povo. Escolas de samba que já não oscilam à mercê de verbas e vontades políticas para ter a cada ano seu lugar. Com a Passarela do Samba, adquiriram perenidade. O samba existe, veio pra ficar e merece respeito. E não há sambista que não se emocione ao ver, a cada ano, as lindas imagens do sol nascendo, enfeitando o Arco da Apoteose, cuja visão permite inúmeras interpretações e justamente por isso serve tão bem de moldura a uma manifestação vária e polissêmica como o samba.

A sobriedade da reunião do Conselho foi quebrada pela presença de sambistas da Estação Primeira de Mangueira, que além de ter sido a primeira supercampeã do Sambódromo, em 1984, foi também a campeã deste 2016. Bonito vê-los lá, comemorando a celebração de um espaço que é nosso, para sempre.

Foto: Acervo pessoal

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30/03/2016 12h57

Resistência que a força não calou: Sambistas se unem pela democracia
Redação SRZD

O samba, cujo centenário se comemora este ano, é um exemplo vivo de resistência. Sobreviveu, com coragem e muita malícia, a todo tipo de perseguição e discriminação. Hoje o sambista é reconhecido e até prestigiado. Mas acima de tudo o sambista é cidadão e como tal se identifica com todo e qualquer movimento em defesa das liberdades democráticas, que aprendeu na própria pele a valorizar.

Na última segunda-feira, no Centro Teatro do Oprimido, na Lapa, o movimento Sambistas Unidos pela Democracia se reuniu num ato público em que o samba eleva sua voz num momento delicado da trajetória da democracia em nosso país. Compositores como Noca da Portela, Tiãozinho da Mocidade, Dudu Botelho (Salgueiro), Celso Andrade (Portela), Alexandre Vale (Mangueira), além dos carnavalescos Cid Carvalho, Eduardo Gonçalves e Luiz Fernando Reis (blogueiro do SRZD-Carnaval), sambistas como Paulão Sete Cordas, Cláudio Cruz (do Embaixadores da Folia), e jornalistas Fábio Fabato, Anderson Baltar, Luise Campos, Vicente Magno e Luiz Carlos Magalhães participaram do evento.

- 'Não vai ter golpe': Ato em prol da democracia reúne sambistas no Rio

Foto: Reprodução de Internet

Entre os mais aplaudidos, Cid Carvalho emocionou o público ao ler um cartaz afixado na parede do Centro, que dizia: "Quando a arte fala a língua dos oprimidos", acrescentando que foi isto que o samba fez, ao dar voz às minorias ignoradas. Afirmou ainda que foi o samba que ensinou a ele a nunca baixar a cabeça, a marcar território e falar, reclamar, e afirmar: Aqui não vai ter golpe!

Vários oradores, como Luiz Fernando Reis, relembraram o período longo da ditadura militar, iniciado de maneira tão semelhante ao momento que vivemos agora. Após a fala de Fábio Fabato, que concluiu afirmando que é nítido que a elite quer de volta o país, houve coro de todos os presentes: "Não vai ter golpe!"

O momento de maior emoção foi o depoimento do veterano compositor Noca da Portela, que declarou que gostaria que não fosse preciso estar ali, mas que se sentia orgulhoso de participar, porque, em seus 83 anos de vida, participou de todos os movimentos pela democracia e durante a ditadura fez do Morro do Tuiuti, de onde é originário, um quilombo para esconder estudantes perseguidos pelo regime militar.

Foi lido um manifesto a ser assinado por todos os sambistas presentes e foi liberada a palavra para o público, tendo havido várias falas marcadas pela emoção, pelo humor e por reflexões sobre questões inerentes ao próprio universo do samba, em que corrupção e autoritarismo se fazem infelizmente notar com mais frequência do que seria desejável.

O ato terminou com os sambistas entoando o samba "Heróis da Liberdade", de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira (Império Serrano, 1969), "Cem anos de liberdade: realidade ou ilusão", de Hélio Turco, Jurandir e Alvinho (Mangueira, 1988) e "Kizomba, a festa da raça", de Rodolpho, Jonas e Luiz Carlos da Vila (Vila Isabel, 1988).

Foto: Reprodução de Internet

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17/02/2016 07h57

Feliz 2016
Rachel Valença

Todo mundo sabe que para nós, sambistas, o ano só começa mesmo depois do carnaval. Hora de pensar nas coisas ditas sérias (sério para nós é o carnaval), fazer planos e seguir em frente. Meio tristinhos, mas seguindo em frente. Hora também de fazer um balanço do carnaval que passou e que daqui a pouco passaremos a chamar de "ano passado". Basta que se anunciem os enredos para que passemos a dizer: "No ano passado, Mangueira homenageou Maria Bethania...".

Achei o carnaval de 2016 magnífico. Havia mais sambas bons do que ruins, havia animação e alegria, havia muita gente nas ruas curtindo os blocos e arquibancadas cheias para ver as escolas de samba. Além do mais, não choveu uma gota sobre a cidade e a chuva é uma costumeira desmancha-prazeres dos foliões. Sem ela há mais conforto e mais animação. Estive na Sapucaí os quatro dias e teria estado na Intendente Magalhães na terça, se um problema de saúde não tivesse impedido. Mas minha família imperiana foi e se encantou com o que viu: o público vibrando, famílias inteiras com crianças se divertindo, idosos, todo mundo se deslocando para ver parentes, vizinhos e amigos desfilando e para torcerem para a gente do "seu lugar". Como é bonita esta identificação entre os protagonistas do desfile e o público! Foi assim que tudo começou, lá atrás, e o sucesso foi transformando tudo. De maneira positiva, claro. Mas não há dúvida de que se paga um preço por isso.

Foto: Henrique Matos

Na Sapucaí há mais organização, menos atrasos (o único este ano foi no domingo, na entrada da Unidos da Tijuca, retardada por algum problema na dispersão da Mocidade Independente), mais conforto, mais luxo. Mas o inimigo nº 1 é o tédio. A maioria das escolas desfila travada pelas apresentações da comissão de frente e do casal de mestre-sala e porta-bandeira em frente às cabines de julgadores. Quando os dois quesitos chegam ao fim do desfile, a "rolha" sai e a escola flui. E em muitos casos, nas de grande contingente, é preciso correr, de olho no cronômetro, porque se perdeu muito tempo parado. Para o componente, lentidão na primeira metade e correria do meio para o fim. Para o público, dependendo de seu lugar, um carro parado à sua frente ou uma mesma ala tentando evoluir sem sair do lugar. Depois, uma correria incitada por diretores de harmonia nem sempre gentis, e não dá nem para apreciar direito fantasias e carros.

A causa disso é simples e já vem sendo apontada por especialistas há bastante tempo: o desfile é hoje concebido para os julgadores, não para o público. Quem, além dos julgadores, viu as coreografias das comissões de frente na Sapucaí? Muito poucos. Só pela TV, no dia seguinte, assisti à apresentação completa dos casais de mestre-sala e porta-bandeira. Poucos são os casais que rodopiam entre um módulo e outro.

A solução seria retomar um desfile linear, ininterrupto, sem paradas para as tais apresentações. Isso colocaria o julgador na posição de um espectador comum, colocado em lugar privilegiado para observação, mas vendo o que todo mundo vê, numa situação menos artificial do que a que hoje se dá. Do meu posto de observação, apenas duas escolas conseguiram evoluir sem o "efeito rolha": Unidos da Tijuca e Portela. Não sei de que expediente lançaram mão para conseguir isso. Não sei se de outros pontos da Avenida a avaliação seria outra.

Foto: Henrique Matos

Gostei de ver as velhas guardas tratadas com respeito tanto na indumentária quanto na colocação. A da Portela, bem no início do desfile, me despertou a sensação das antigas comissões de frente, como se, com seu deslocamento elegante e altivo, dissessem: "Vejam o que temos para mostrar este ano". Lindo demais. Em outras agremiações, finalizavam o desfile, com orgulho e garbo. É sempre bom ver respeitadas as matrizes do samba, pois não se trata aqui de um espetáculo inventado, produzido. Trata-se de uma manifestação cultural que tem profundas raízes em nosso povo. E só por isso permanece.

O respeito a essas matrizes deveria se manifestar também em relação às alas de baianas. Foi em torno delas que se estruturou a própria noção de desfile. Não é à toa que são uma obrigatoriedade, embora não se constituam num quesito. Acho linda a fantasia de baiana e raramente a vejo atualmente no espetáculo da Marquês de Sapucaí. Se não fosse a Estácio de Sá, que nos trouxe uma lindeza de figurino tradicional, com tabuleiro de quitutes na cabeça e abundância de colares, não teríamos uma baiana legítima para comemorar o centenário do samba. O extremo oposto nos ofereceu a Portela, com uma proposta de funcionalidade dentro do enredo, em total desacordo com a tradição. A fantasia só se reconhece como baiana pela armação da saia. Tudo o resto poderia caracterizar qualquer ala. Ora, a ala de baianas não é uma ala qualquer: como fundamento e raiz, merece respeito. Respeito que acho que anda faltando, à vista do pragmatismo da avaliação por quesitos, que privilegia a técnica.

Foto: Henrique Matos

Desse modo, o encanto vai se perdendo e a gente nem nota. Felizmente, neste carnaval, ele esteve presente em muitos momentos: no alegre desfile do Porto da Pedra, na sóbria beleza do samba da Unidos da Tijuca, no carro em que veio Maria Bethania, o circo dos seus sonhos, na comissão de frente do Salgueiro com seu impressionante Tranca-Rua, na coragem de Alex Marcelino e Daniele Nascimento, lindos e elegantes apesar das águas a seus pés, nos passistas mirins da Imperatriz, na emoção do canto de Neguinho da Beija-Flor, no estandarte do amor eterno à escola da Leopoldina carregado por Chiquinho e Maria Helena.

Enquanto houver esses momentos de encantamento, nosso carnaval está salvo. Ainda que transformado em espetáculo para turistas e celebridades, conserva a emoção. Foi a emoção, não o luxo, que o tornou o que é. Nos cativa, nos tira de casa, nos exaure, nos faz chorar, provoca brigas de família e de amigos, nos enche de esperança de que um mundo melhor é possível. Feliz 2016 para todos!

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13/02/2016 15h27

Quem fez a cabeça de Squel Jorgea
Rachel Valença

Todo carnaval tem sua imagem-símbolo, a mais forte que passa na Avenida. Carros alegóricos têm sido privilegiados nesse sentido: são grandes, ricos, suntuosos ou originais, e sua visibilidade excessiva acaba "escondendo gente bamba", como dizia o antológico samba do Império Serrano. Quem não se lembra do carro do DNA, de Paulo Barros, na Unidos da Tijuca, imagem-símbolo do carnaval de 2004?

Este ano, apesar de termos tido alegorias marcantes, a imagem que ficou foi a da porta-bandeira da Mangueira, Squel Jorgea, rodopiando com a cabeça lisa típica das iaôs do candomblé. A ideia do figurino e a missão de convencimento foram, certamente, do carnavalesco-marido. Logo, quem fez sua cabeça para encarnar o personagem foi ele.

Aquela perfeição de trabalho técnico que à distância me deu a certeza de que Squel raspara a cabeça me fez pensar imediatamente no número de profissionais de excelência que nossa festa abriga e na quantidade de pequenos detalhes que devem ser planejados e resolvidos para atingir um campeonato.

Foto: Henrique Matos

Ainda não se falava em carnaval quando, há oito meses, o maquiador Kiko Alves foi sondado para a produção de uma careca de látex. Não sabia para quem se destinaria, mas começou a pensar no assunto. Há três meses teve a primeira reunião com o carnavalesco e com a porta-bandeira da Mangueira. Ficou claro para ele que o trabalho envolvia alta responsabilidade, pois deveria garantir à escola 40 pontos.

Kiko não é um estreante. Tem uma longa bagagem de 13 anos de experiência na TV Globo e alguns carnavais na Grande Rio, onde trabalhou efeitos especiais em componentes de carros alegóricos. Mas, diante da responsabilidade da missão, convocou a jovem Débora Saad, formada em cinema pela UFF e especialista em caracterizações para filmes de terror, para sua assistente nesse trabalho. Débora fez curso de especialização na Cinema Make-up School, em Los Angeles, e na Inglaterra consolidou sua formação em efeitos especiais. A equipe estava formada e o desafio aceito.

Foram três meses de pesquisa e testes. Kiko esclarece que foi fundamental para o bom resultado seu envolvimento com as religiões de matriz africana. Seu irmão Edivan de Logunedé, já falecido, era pai de santo e com emoção o maquiador recorda o quanto o irmão foi alvo de preconceito e de discriminação religiosa. Graças a esta ligação anterior com o candomblé, foi numa foto de Pierre Verger, em seu livro clássico sobre orixás, que Kiko foi buscar o modelo para o visual pretendido.

A recomendação era de que o mais absoluto sigilo deveria ser guardado, para garantir o efeito surpresa na Avenida. Isso não era difícil. Difícil mesmo foi decidir o material e a técnica a utilizar. A película de látex foi descartada por causa do longo período de uso: com o tempo cria furinhos e rasga. Como a Mangueira seria a última escola a desfilar, a aplicação deveria durar bem mais do que as quatro horas garantidas pelo fabricante. Daí a opção por uma careca de plástico, importada dos Estados Unidos, por ser mais resistente a suor e chuva.

Débora ressalta as difíceis condições de trabalho durante a aplicação, sem luz adequada. Foram quatro horas de trabalho minucioso, a partir de 17 horas de segunda-feira. Kiko conta ainda que na concentração, quando os últimos retoques deveriam ser feitos, um problema inesperado foi o elástico preto utilizado para prender a tiara. Sem ter como pintá-lo, a solução foi cobri-lo com um esparadrapo da cor da pele.

Tudo isso no chão da concentração, ao lado de banheiros químicos. Queixa? De jeito nenhum. Assim é o carnaval. Quem poderia se queixar, a bela Squel, tudo aguentou com paciência e humildade que surpreenderam a equipe, achando normal passar por este rito de iniciação para chegar ao esperado 10.

Os quatro dez vieram, como coroamento de um trabalho profissional, mas sobretudo como consequência do envolvimento, da emoção, da empatia entre pessoas que amam o que fazem.

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12/02/2016 08h31

Um viva às campeãs
Rachel Valença

Ao contrário das expectativas pessimistas, as escolas de samba fizeram um bonito carnaval este ano. Bons sambas, muita criatividade e até alguma opulência: quem não se deslumbrou com a entrada estarrecedora da Beija-Flor de Nilópolis, toda banhada em ouro, cintilante e avassaladora? Até o mais empedernido intelectual, daqueles que Joãozinho Trinta afirmava que gostavam era de pobreza, perdeu o fôlego ante tanta suntuosidade.

A vitória da Mangueira, com um belo enredo muito bem trabalhado por seu jovem carnavalesco, Leandro Vieira, foi a vitória do bom gosto, da leveza. E deve ser comemorada, primeiramente porque foi merecida, e todo mundo fica feliz quando isso acontece. Depois, porque pode ser vista como o prenúncio de uma nova era que vai chegando devagar. Novos ventos são animadores quando nos trazem um excelente carnavalesco, sensível, discreto, capaz de fazer da homenagem a uma importante cantora uma ode à diversidade e ao sincretismo neste nosso país de tantas caras.

A aparição da linda porta-bandeira Squel personificando uma iaô, com a cabeça lisa característica das filhas de santo recém-iniciadas, me deixou sem voz. Afinal, os cabelos de Squel eram uma de suas maiores belezas, uma nuvem de cachos definidos, negros, que complementam com perfeição seus traços exóticos. Como tiveram a coragem de lhe raspar a cabeça? E logo o carnavalesco, com quem é casada, que deveria ser o guardião de tanta opulência? Custei a crer que se tratava de uma cabeça de silicone, tal era a perfeição da caracterização. E esta acabou sendo consagrada a imagem símbolo do Carnaval de 2016.

Fotos: Henrique Matos

A vitória do Paraíso do Tuiuti me reporta a muitos anos atrás, à última (e única) passagem da escola pelo Grupo Especial, em 2001. Naquele momento, se completava o trabalho de nove anos de uma diretoria formada por cinco homens jovens, negros, nascidos no morro do Tuiuti e que amavam a escola do lugar. Mas a escola ia muito mal das pernas na década de 90, corria o risco de enrolar a bandeira. Não havia sequer disputa pelo poder. Quem se interessaria por uma escola do Grupo D, sem dinheiro, sem visibilidade, sem instrumentos na bateria, sem autoestima? Nem os moradores do lugar torciam mais por ela... Pois bem, esses jovens foram loucos o suficiente para aceitar o desafio. Em nove anos chegava o Paraíso do Tuiuti ao Grupo Especial.

Muita gente boa ajudou a diretoria nessa época. Até hoje sou parada em quadras e até na rua por pessoas que viveram esse sonho, um momento de beleza e solidariedade que só o samba sabe proporcionar. A comissão de frente era formada por abnegados, que nada recebiam. O barracão, embaixo de um viaduto, era cheio de voluntários, pois Paulo Menezes, o carnavalesco que ficou quatro anos na escola e definiu sua identidade, sabia congregar à sua volta idealistas e sonhadores.

A permanência no Grupo Especial durou um ano apenas. Poderia talvez ter durado mais, se não fosse a luta interna que a ganância pelo poder e pela gorda subvenção suscitou. Os "meninos", como eram carinhosamente conhecidos, deixaram (à força, diga-se de passagem) a escola para os que lá estão agora. Mas o legado que foram capazes de deixar dura até hoje e não acabará nunca, espero. O que de mais importante conseguiram foi tornar o Tuiuti uma grande escola de samba, com estrutura, com torcida, com credibilidade e visibilidade. A gente boa do Tuiuti aprendeu a amar sua escola, a descer para a Avenida para torcer por ela, a se orgulhar dela. Isso não é fácil de destruir.

Amarildo e sua diretoria jamais precisaram de expedientes escusos para chegar à vitória. Nem teriam como recorrer a eles. Não tinham poder nem dinheiro. Não tinham poder para fundir os grupos A e B, aonde os dirigentes atuais levaram a escola, nesta aberração de Série A. Nada disso fizeram. Fizeram carnaval. Chegaram aonde chegaram com muito trabalho e dedicação. A vitória deles não tem data. A cada ano que aquela linda escola entra na Avenida, me enchendo os olhos de lágrimas de emoção, é neles que eu e muita, muita gente pensamos. Parabéns Amarildo, Alexandre, Waltinho, Niltinho e Dudu. O Tuiuti de vocês é campeão de novo.

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02/02/2016 18h01

Vida longa para os ensaios técnicos!
Rachel Valença

Acabaram, no último domingo, os ensaios técnicos de 2016. Mesmo animada com a proximidade do carnaval, fiquei melancólica. Porque, num certo sentido, o carnaval não promete tanta animação quanto tivemos na Sapucaí nas últimas semanas. Se por um lado o carnaval nos garante fantasias, alegorias, coreografias completas, tudo prontinho e bacana, a ele faltam algumas características que me alegram muito.

Em primeiro lugar, o componente que ali está (e que às vezes nem estará no dia do desfile principal) se diverte muito. Usa bermuda, camiseta e tênis ou outro sapato confortável. Mesmo em alas em que se improvisa um ou outro adereço, isso não chega a comprometer a alegria de brincar. A bateria é a principal beneficiária dessa regra: nada de punhos, golas, palas ou botas. Uma delícia. As baianas se enfeitam com maior ou menor capricho, mas nada daquele exagero que nossos carnavalescos criam para elas carregarem. As passistas sobem no salto, mas com cada roupinha leve e linda que dá gosto! E o casal que conduz o pavilhão evolui com graça e facilidade, mesmo não se descuidando do visual.

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

Ah, se o carnaval fosse assim... Mas isso não é o principal. O que mais encanta é a participação do público. Gente que adora samba, que nem em sonhos teria condições de assistir ao desfile em boa localização, se apropria alegremente das frisas e arquibancadas e aproveita tudo. Observei no último domingo, após o encerramento do desfile, famílias que continuaram sentadinhas nas frisas, saboreando sua cerveja, felizes de estar ali e sem pressa de ir embora.

Esse é o verdadeiro público das escolas de samba. O público que grita o nome do seu vizinho ao vê-lo passar no cortejo, como grita o nome das celebridades com admiração e orgulho de vê-las de perto. Mas que grita também o nome de ídolos nossos, como Maria Helena e Chiquinho, ovacionados no ensaio da Imperatriz Leopoldinense. Gente que canta o samba de sua escola, e também o samba de outra escola, se ele consegue emocioná-lo. Que torce e vibra e não se cansa antes do final do ensaio, que não é o "espetáculo" em que o desfile se tornou, mas é algo muito caro ao coração desse povo, porque é antes de tudo cultura.

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

E tanto é verdade que é cultura que nele está presente um fator fortíssimo da trajetória das escolas: a competição. O ensaio técnico não tem nota, não tem julgamento, não tem ranking, não tem campeão. Ninguém jamais impôs como condição às escolas que fizessem camisetas especiais, que levassem elementos alegóricos ou que paramentassem as alas de maior visibilidade para participar de algo singelo, que era apenas um ensaio no espaço em que a festa ocorreria. Mas o desejo de superar as concorrentes, a competição, a rivalidade - elementos presentes desde a origem das escolas - falaram mais alto.

Se dependesse de mim, o ensaio técnico, como instituição, não acabaria nunca. Ele se manteria como é, sem cobrança de ingressos, sem exigências e complicações. Ele se tornou um verdadeiro carnaval, que se desdobra nos fins de semana ao longo dos meses que antecedem a data oficial do calendário, dando ao componente oportunidade de usufruir mais uma vezinha a alegria de pisar aquele chão sagrado, palco de nossas emoções, e oferecendo a quem assiste a chance de apreciar sem custo algo muito divertido e bonito de ver.

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

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19/01/2016 19h42

Os demônios de cada um
Rachel Valença

Pra frente é que se anda. Ou, traduzindo em verso tão caro aos sambistas, "a missão do homem é evoluir". Mas às vezes um fato insignificante nos obriga a voltar no tempo, mesmo que para sofrer mais um pouquinho lembrando o que nos afligiu e desgostou.

Há menos de um ano, ao relembrar aqui neste espaço o carnaval de 2008 do Império Serrano, em que tremendos sacrifícios foram recompensados com a vitória, não mencionei o fato de que a carnavalesca abandonou a concentração, irritada, xingando, reclamando da falta de condições materiais e dizendo que não iria acompanhar aquele "lixo". Foi de casa que ela assistiu o Império ser campeão.

Por que me calei, no texto de abril, sobre este detalhe? Márcia Lage é uma profissional de carnaval, em atividade, e achei que a divulgação de uma atitude impensada não acrescentaria nada à minha narrativa. Não me considero uma pessoa negativa, destrutiva. Pelo menos me esforço para falar do que é bom e esquecer o que é ruim.

No dia da vitória, Márcia Lage foi à quadra e no palco reverenciou de joelhos a escola campeã. A quadra lotada a tudo assistiu.

Fotos: Divulgação

A carnavalesca foi mantida pela escola, quis fazer a reedição do samba de 1976, mas dando ao enredo nova leitura e novo título. Tudo lhe foi concedido. Se faltaram recursos, isso se deveu à situação financeira da escola, jamais a qualquer contestação de seu projeto. Que grande ideia sua deixou de ser realizada por falta de recursos? Nossa organização também deixava a desejar, reconheço. Amadores, não assalariados, nos dividíamos entre o trabalho no barracão e nossa vida profissional. Mas, no tocante à organização, a carnavalesca não ajudava muito.

Poupo os leitores do relato minucioso dos problemas enfrentados naqueles meses, mas posso garantir que não era a gestão do barracão a única responsável pelos problemas surgidos. Para resumir, cito a dificuldade da carnavalesca de aceitar opiniões diferentes da sua, a pouca dedicação ao barracão, por conta de seus compromissos domésticos, mas, sobretudo, a instabilidade de seu humor.

Conheço Renato Lage desde 1983, quando chegou ao Império Serrano. Sempre tivemos afinidades e um relacionamento cordial, ao qual se acrescentou de minha parte, com o passar dos anos, grande admiração profissional. Por esta razão, nessa nova etapa de trabalho no Império, a partir de 2008, as portas da minha casa sempre estiveram abertas ao casal e tive com Márcia um bom entendimento. Por isto, passei a ser sempre chamada ao barracão, a qualquer hora, para acalmar seus frequentes ataques de fúria.

Foto: Divulgação

Socos nas paredes, gritos, palavrões, exigências descabidas para refazer coisas que estavam aceitáveis, caprichos de toda ordem, a necessidade de mostrar a todo momento quem era que mandava... Eu jamais viria a público trazer esses episódios já sepultados, e outros que nem ouso reproduzir, se não fosse sua infeliz ideia de atirar no Império Serrano em recente entrevista. Por que isso? A menos de vinte dias do carnaval, uma carnavalesca do grupo especial não tem assunto mais momentoso para abordar numa entrevista? Desculpe a franqueza, mas apontar defeitos nas escolas por onde andou parece uma justificativa para, seja por que motivo for, nunca ter conseguido deslanchar uma carreira solo. Foi daí talvez que lhe veio a palavra desanimado, com que tenta descrever o Império Serrano.

Foto: DivulgaçãoO imperiano pode ser acusado de tudo, menos de desanimado. Como bem define o Dr. Carlos Alberto Machado, que lá está há muitos anos, o Império Serrano é uma escola em que o fracasso sobe à cabeça: quanto mais apanhamos, mais crescemos. Não falta contingente, não falta animação, não falta baiana, não falta ritmista nem compositor de talento. Exportamos mestre-sala e porta-bandeira, passista, intérprete e muito mais. Há tantos anos na Série A, continua a mesma grande escola de samba. "Pouca coisa não vai me jogar no chão", já dizia o inesquecível samba-enredo de 1992.

Não deixarei sem resposta as palavras dessa carnavalesca, da mesma forma como reagi, anos atrás, às palavras impensadas do puxador Anderson Paz sobre nossa escola, proferidas na quadra de uma coirmã. Enquanto tiver voz, vou responder a todas as tentativas covardes de apequenar uma escola que é um dos maiores monumentos culturais desta cidade, infelizmente acima da compreensão de gente despreparada.

Uma pessoa que, ao terminar o carnaval de 2009, sentada ao meu lado na festa de entrega do Estandarte de Ouro, no Canecão, por três vezes me pediu perdão (assim mesmo, com esta palavra) devia ter consciência de que havia muito a ser perdoado. Dentro e fora do barracão, dentro e fora da Avenida. Tudo perdoado. Logo depois, li nos jornais sua contratação pela Mangueira. Raiva? Não. Alívio.

Na Mangueira não ficou muito tempo, um ou dois meses, creio. Vá lá saber as razões... Não vêm ao caso. Sou mulher e já vivi muito. Não tenho muita coisa de que me orgulhar nesta vida, à exceção da maravilhosa família que criei. Mas posso garantir que cheguei até aqui pelo que sou. Não vivo à sombra de ninguém e por isso aprendi que o maior patrimônio que se pode acumular é a amizade e o respeito de quem nos cerca. Amizade e respeito se conquistam.

Não me agrada nem um pouco ter de escrever essas palavras, ou, como diz a carnavalesca, "visitar o meu lado demoníaco". Mas, para defender o Império Serrano de críticas sem fundamento e sem veracidade, também sou capaz de visitar o meu. Ainda não viram nada.

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12/01/2016 11h11

Feliz 2016, com muito samba bom
Rachel Valença

Ao menos em um aspecto não há dúvida de que o ano que se inicia será bem melhor que o anterior: estamos comemorando, em 2016, uma das melhores safras de sambas de enredo dos últimos anos. Apesar da mesmice na programação visual e na produção do disco, vale a pena tê-lo, porque o conjunto de obras ali reunido tem uma qualidade compensadora.

Comecemos pelo que há de melhor: o samba de enredo da Imperatriz Leopoldinense, uma joia rara de título longo, que prova que de onde menos se espera... pode vir alguma coisa. O enredo sobre Zezé de Camargo e Luciano, convenhamos, não é glorioso, mas o samba de Zé Catimba e parceiros o redimiu. Nem as vozes enjoadas da primeira passada conseguem comprometer a beleza da melodia e da letra. E logo chega a segunda passada, com a bonita interpretação de Marquinhos Art?Samba, confirmando a pujança desse gênero musical que insiste em nos surpreender.

Surpresa maravilhosa é também o samba do Salgueiro. Gente, o que é aquele refrão final? É de ressuscitar múmia, coisa de louco... Já no início, prudentemente, se pede licença ao povo da rua e entre lua e estrelas a descrição da indumentária do malandro, de chapéu, terno de linho e sapato bicolor, nos mostra a ginga de um mestre-sala que corteja as madrugadas. Vem a força do refrão do meio e depois a riqueza melódica de um passeio que culmina por uma surpreendente mensagem de paz, precedida do belo verso "Quem me protege não dorme". Não há mais dúvida: lá vem Salgueiro!

Foto: Reprodução de Internet

Tal qual a Imperatriz, a Unidos da Tijuca tem também um samba limonada: de um enredo amargo, extraiu um bonito samba. Com citação quase explícita ao samba anterior da escola, é a melodia rica e dolente que chama para si a atenção do ouvinte, que quase esquece os lugares-comuns a que a letra recorre. É um samba bonito, que honra as assinaturas ilustres que leva.

Ilustres são também os nomes que assinam o samba de enredo da Vila Isabel, terra de poetas. E não decepcionam a grife Vila Isabel. No samba se misturam folguedos e palavras de ordem de forma harmônica e emocionante. A alegria da gente sofrida, a beleza de uma cultura que é resistência, acho que a mistura de tudo isso deixaria Miguel Arraes feliz.

Ter num mesmo disco quatro obras dessa qualidade já nos deixaria apaziguados com o gênero samba de enredo. Mas não para aí. Portela e Mangueira também capricharam e nos proporcionam momentos de alegria e emoção. Nas asas da águia protagonista, uma lição de autoconfiança, indo também buscar em citações de sambas do passado ("nas asas da poesia", "abre a janela pro mundo que Paulo criou") a força necessária para acrescentar a seu pavilhão mais uma estrela. Mangueira consegue trazer um samba que mescla a força e a doçura da homenageada no ótimo enredo. Não falta poesia, não falta misticismo, não falta força, tudo em boa medida. Anima o componente, agrada aos analistas e é uma delícia para cantar e sambar. O estreante Ciganerey, com a difícil tarefa de substituir insubstituíveis, se sai mais do que bem, prenunciando um bom desfile.

A Beija-Flor também se sai a contento no processamento de seu enredo em samba. Um enredo sem maiores encantos vira um samba de boa qualidade. O refrão do meio é a parte mais impregnada da tradição da escola, o que nos dá a sensação de algo muito familiar ao ouvido. Mas a segunda parte, que se segue a ele, é forte, muito mais em melodia do que em letra, para desembocar no refrão final, autorreferenciado, perdendo precioso espaço para descrever o enredo (ou não há tanto assim a descrever?).

Sete bons sambas, sem dúvida. Mais da metade do disco. Lucro para quem ouve. Dos cinco restantes, os de São Clemente e Estácio de Sá são perfeitamente passáveis, só não podendo ser ouvidos muitas vezes seguidas, porque geram monotonia e a sensação de mesmice. A Mocidade Independente, que tem um bom enredo, na minha opinião não foi feliz na escolha do samba, mas se fizer um grande carnaval, quem sabe se salva?

Grande Rio e União da Ilha confirmam a máxima de que sinopses fracas geram sambas fracos. Não é todo dia que os milagres acontecem. Seria esperar demais dos seus protetores dos sambistas. Mas estamos no lucro, com uma safra muito boa e a sensação de que nem tudo está perdido.

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17/12/2015 19h23

Eu só queria entender...
Rachel Valença

Há coisas que eu vou morrer sem entender. Uma delas é por que a Liesa, que representa todas as escolas do Grupo Especial, não defende os interesses de todas de forma igualitária. Exemplo: acaba de ser anunciado que a Rede Globo, que tem contrato de exclusividade de transmissão do desfile das escolas de samba, não transmitirá ao vivo o desfile de quatro agremiações filiadas à Liesa.

Só para entender: em quê Estácio, União da Ilha, Vila Isabel e Salgueiro diferem das demais oito? Se a transmissão do desfile é negociada entre a Liesa e a Globo, que interfere até no horário de início da festa, por que motivo nossa Liga permite que quatro de suas filiadas sejam tratadas como mercadoria de segunda classe, com seu desfile compactado em 20 minutos?

Foto: Reprodução de Internet

Bem sabemos o enorme sacrifício que as escolas de samba vêm fazendo, em meio a uma reconhecida crise, para proporcionar ao público um espetáculo à altura das expectativas. Não é novidade, também, que a transmissão representa para a maioria das pessoas a única possibilidade de assistir ao desfile, já que os preços dos ingressos são incompatíveis com orçamentos combalidos. Se a poderosa Rede Globo não se interessa em transmitir o desfile todo, por que motivo negocia exclusividade? É simples. Porque sabe que, se outra emissora transmitir, sua programação será preterida. Assim foi, no passado, quando a Rede Manchete e a TVE tinham coberturas que davam um banho na Globo. Enquanto não detonou essas transmissões, a Globo sossegou.

Convenhamos: além de muita arrogância, é um desrespeito ao carnaval e ao samba do Rio de Janeiro. A tradução literal desse gesto é: "Eu tenho dinheiro, eu posso pagar, é meu direito não transmitir. Pago para que ninguém possa assistir!".

Que a Rede Globo pense e aja assim não me surpreende. O que não posso entender é por que as escolas de samba, por intermédio de sua entidade representativa, aceitam isso? Lembro-me dos debates a que assistimos durante o evento Carnavália-Sambacon deste ano. Num deles, numa mesa em que se tratava justamente da transmissão, quando severas críticas foram feitas à Globo, o presidente Jorge Castanheira, sempre educado, afirmou: "A Globo não é um mal, é uma grande parceira das escolas de samba". Desculpe, presidente, com todo o respeito pergunto: não é um mal para quem? Salgueiro, Estácio, Vila Isabel e União da Ilha, será que também a consideram parceiras?

Creio que quando fazemos um contrato de concessão, não levamos em conta apenas valores, pensamos na qualidade do serviço que será prestado. Na hora da assinatura, não se impõe como condição a transmissão da íntegra do espetáculo? Não se prevê uma multa por escola que deixe de ser transmitida? Afinal, quais os interesses que a Liesa defende, os da Globo ou os das suas filiadas, de todas elas? Há muito tempo percebo que não são os interesses do público em geral que ela defende, mas já nos acostumamos a isso. Mas trair os interesses das próprias escolas que a compõem já é demais.

Pelo visto, não há cláusulas que nos protejam de tamanho desrespeito. Só nos resta protestar com todas as forças e mostrar que não foi em vão a luta de Paulo da Portela, de Candeia e tantos outros para que o samba fosse respeitado.

Leia mais sobre o assunto:

- Desfiles da Estácio, Vila, Ilha e Salgueiro não serão transmitidos na TV

- Medo? Sobre a não transmissão: escolas evitam falar sobre o assunto

- Cultura popular rendida: desfiles de escolas tradicionais fora da TV

- Carnaval 2016: transmissão atravessada

 

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27/11/2015 12h03

'O Mago das Cores'
Rachel Valença

Desde 1966, o Museu da Imagem e do Som vem registrando depoimentos de vultos marcantes de nossa cultura. Hoje, são mais de mil depoimentos gravados: antigamente em áudio, hoje em áudio e vídeo. O que muita gente não sabe é que a série Depoimentos para a Posteridade abriga preciosos documentos de sambistas, que ajudam a reconstituir a fantástica trajetória do gênero.

Lá João da Baiana, Ismael Silva, Natal da Portela e muito mais gente nos relatam fatos curiosos, heroicos, pitorescos, comoventes. Material indispensável para entender como se formaram e como evoluíram as escolas de samba cariocas.

Foto: Caru Ribeiro

Mas o samba não é só passado. Ele está vivíssimo e urge documentá-lo. Daí os Depoimentos para a Posteridade continuarem a registrar, ao lado de gente de teatro, cinema, TV, dança, música popular e clássica, literatura, artes visuais, também depoimentos de pessoas que na atualidade fazem Carnaval. Ano passado lá esteve Rosa Magalhães. Esta semana foi a vez do veterano Max Lopes gravar seu depoimento. Engraçado, denso, emocionante e muito importante.

Desde sua estreia na pequena Unidos de Lucas em 1976, obrigado a lidar com uma escola ainda convalescente de uma fusão desastrada entre Aprendizes de Lucas e Unidos da Capela, totalmente carente de recursos, Max aprendeu a conviver com a adversidade, mas sem perder jamais a alegria. Sem ela, não há Carnaval. Seu relato mescla a sujeira, a pobreza, a precariedade dos barracões da fase heróica das escolas de samba a histórias engraçadas, picantes e irreverentes, que seu inquebrantável bom humor guardou por tantos anos.

Em meio a tudo isso, muitos assuntos importantes foram tratados: em que medida o carnavalesco deve se envolver na escolha do samba de enredo; como lidar com a questão do patrocínio, que, se dá ao artista mais recursos para pôr em prática suas ideias, em compensação muitas vezes cerceia sua criatividade com a imposição de enredos absurdos, como o da Mangueira em 2005; a eventual necessidade de dialogar com o poder paralelo que tenta dominar algumas das comunidades em que se faz samba; e até a importância da iluminação para a beleza de um carro alegórico. O que fica patente é quão vária e absorvente é a atividade de um carnavalesco.

Foto: Caru Ribeiro

A este tijucano de família avessa ao samba, ex-aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, que deu seus primeiros passos no Carnaval como passista no Salgueiro, e que foi, como tantos outros, aprendiz do mestre Fernando Pamplona, nunca faltou coragem para enfrentar dificuldades de toda ordem.

O que salta aos olhos é uma incrível capacidade de convencer os que o cercam de suas ideias: ritmistas que se recusam a usar certa indumentária ou determinada cor, presidentes que teimam em não enxergar o caminho a seguir ou o samba a escolher, e tantas outras situações que se repetem no cotidiano das escolas. Max foi corajoso e inovador ao ousar mexer e brincar com as sagradas cores da Estação Primeira, escola em que fez dez Carnavais, sagrando-se por duas vezes campeão (1984, o supercampeonato, e 2002). A coragem lhe valeu o título de Mago das Cores.

Afora esses dois títulos, foi campeão pela Imperatriz Leopoldinense com "Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós", deixando em segundo o antológico "Ratos e urubus" de Joãosinho Trinta. Curioso que, desse desfile, o carro de que fala com mais entusiasmo não é do espetacular cavalo que todos guardamos na memória, mas sim o da águia, símbolo da República, que tanto mexeu com os brios portelenses...

Até mesmo os episódios mais dolorosos, como o do enredo Lamartiníada, que preparava para o Salgueiro para o Carnaval de 1979 e que acabou migrando para a Imperatriz em 1980, mas com outro título e outro carnavalesco - episódio que o afastou do Carnaval, desgostoso, por alguns anos - não são narrados com ressentimento. Só com emoção e uma lágrima furtiva. Max está de bem com a vida. Fala com orgulho de tudo que sua arte lhe deu: além de bens materiais, a alegria de trabalhar em equipe e de poder dividir com outros aquilo que aprendeu. E conta que gosta de desfilar fantasiado, no meio da escola. Segundo ele, na hora do desfile o carnavalesco não faz falta.

Sabe que ele tem razão? O que anda fazendo falta não é carnavalesco mostrando seu poder e sua sabedoria: é o amor ao Carnaval, a alegria de brincar, de participar, de se fantasiar, de sambar no pé. Tudo que Max Lopes mostrou ter de sobra.

Foto: Caru Ribeiro

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04/11/2015 13h55

Encantadora e feliz
Rachel Valença

Estou devendo aos meus leitores um relato da final de samba da Imperatriz, acontecida há uns 15 dias. Mas andei enrolada, a ponto de ter sido chamada de arrogante por um pesquisador que me pediu ajuda pelo Facebook e eu demorei dois dias para responder. Falta-me tempo, muito tempo.

Em falta, sobretudo, com os torcedores da Imperatriz, em especial com o muito querido Marcos Paulo, meu informante fiel, há anos, sobre todas as eliminatórias de sambas da escola de Ramos. Suas análises são perfeitas e isentas. Na hora de escolher um samba para torcer, ele se deixa levar única e exclusivamente pela qualidade: não tem amigo, não tem parente, não tem política. A ele só interessa um bom samba pra sua escola.

Parceria de Zé katimba. Foto: SRZD-Cristiane Moraes.

A final da Imperatriz foi a última da agenda 2016. Talvez por isso, estava muito cheia. Todo mundo parecia querer se despedir dessa etapa tão agradável e tão marcante do Carnaval, que é a escolha de sambas. Não é por acaso que vem gente de fora do Rio nessa época só para participar de umas três ou quatro finais. O chamado "mundo do samba" compareceu em peso à Imperatriz. Dava a sensação agradável de quadra cheia, mas não inviável. E eu me senti numa quadra de escola de samba.

Como é bonito ver uma quadra de escola de samba! Para quem é do tempo em que o centro da quadra era o espaço das pastoras e ninguém ousava invadi-lo, foi emocionante apreciar a evolução dos segmentos no centro da quadra: baianas, velha-guarda, uma harmonia atuante, coisas que, em finais de disputa de samba de enredo nas escolas do Especial, se tornaram raridade.

O único senão, para mim, foi a iluminação. Uma luz de boate, que nada tem a ver com o samba, mas que deve agradar aos modernos. Vá lá! Se é indispensável fazer concessões, que seja à iluminação. Porque o repertório foi impecável, começando pelo samba exaltação "Rainha de Ramos" ("Quem não sabe o que é o amor/ Não sabe o que é ser feliz"), passando pelos belos sambas antigos da escola e chegando aos mais recentes, com grande adesão do público presente.

Um capítulo à parte foi a apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira, pois era a estreia do mestre-sala Rogerinho na escola. Muito bom o seu entrosamento com a porta-bandeira Raphaela, que usava um figurino country, muito de acordo com o enredo. E tudo sob as bênçãos dos imortais Maria Helena e Chiquinho, que deram seu show, para mostrar que não perderam nem perderão jamais a majestade.

No mais, a apresentação dos sambas concorrentes não fugiu ao que hoje se vê. Torcidas enormes, adereços de mão caprichados, palco lotado e muita animação. O resultado? Não podia ser melhor. Alegria geral. A escola tinha em sua safra deste ano uma obra-prima. Ignorá-la seria um crime. Mesmo com um enredo de qualidade discutível, mais uma vez a Imperatriz chegará, "encantadora e feliz, fazendo o povo sambar".

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13/10/2015 13h53

A final do Salgueiro
Rachel Valença

Noite de grandes emoções no sábado passado no Salgueiro. A quadra, lotada, não oferecia boas condições de trabalho, desde a entrada, muito tumultuada, com espaços mal sinalizados para o pessoal da imprensa. A cortesia não era o forte no acesso à querida escola. Mas, uma vez lá dentro, era bonito de se ver. Não havia espaço para nada e você pensa por um momento que o samba está realmente em alta. Logo depois, cai na real. Quem está ali não é necessariamente sambista: procurou uma casa de espetáculo onde até 2 horas a variedade de ritmos e de performances é grande. Tudo bem, são ritmistas e passistas, mas tocam e dançam de tudo, e samba mesmo só um pouquinho, para não cansar o público tão eclético.

Desde o início, deu para perceber que não havia preferência definida. Em conversas e entrevistas, a quadra estava oscilando entre os dois finalistas. A apresentação do primeiro samba, de Marcelo Motta e parceiros, foi, porém, avassaladora. Os torcedores cantaram com muito vigor um samba valente. A torcida improvisava coreografias e na última passada, quando toda a quadra abaixou bandeiras e bolas e simplesmente cantou, deu para emocionar e, se não me engano, para ver Zé Pelintra sambando no meio da quadra do Salgueiro.

O segundo samba, de Gonzaga e parceiros, apresentou uma torcida numericamente bem inferior ao primeiro. Mas é um samba de forte apelo popular, com citações interessantes, remetendo ao samba de Jorge Aragão ("Malandro, eu ando querendo falar com você") e até a Silas de Oliveira ("Agora que eu quero ver/ quem é malandro não pode correr"), samba de terreiro que adquirir força de ponto de umbanda. Mas o trecho mais inspirado da letra, ("Salgueiro tem um jeito assim, de chegar tão mansamente e tomar conta de mim") toca o coração do componente e muita gente dava preferência a este samba justamente por causa desses versos. Era um samba ousado na melodia, e ousadia e Salgueiro têm tudo a ver. Portanto, a briga era feia.

Samba mesmo, do jeito que a gente gosta, houve entre as apresentações dos concorrentes e o anúncio do resultado. O magnífico repertório de sambas de enredo do Salgueiro foi todo visitado. Leonardo Beça e seus companheiros do carro de som desfiaram um rosário de maravilhas, mesclando o passado e o presente sem distinção, tudo bem sabido e bem cantado. Entre o fim da apresentação do segundo samba e o resultado se passou bem mais de uma hora, mas o tédio e a impaciência foram amenizados por esta audição maravilhosa.

Por que tanta demora? Os boatos corriam soltos. Teve gente indo embora na certeza de que haveria confusão. Pois estava correndo na internet a declaração de um compositor já cortado, garantindo que o samba de Gonzaga seria escolhido por razões extra samba. E a reação não se fez esperar: a conversa de que, se o samba de Motta não fosse o escolhido, haveria protesto "da malandragem", que não era a do enredo 2016.

Mas chegou a hora do anúncio do resultado e não teve para mais ninguém: a noite foi da presidente Regina Celi. Disse que não pretendia falar, apenas anunciar os resultados, mas falou e muito. E bem. Uma fala cheia de verdade, em primeiro lugar sobre o constante desrespeito do mundo do samba à mulher. Meu Deus, como ela está certa! De uma dirigente mulher cobram falhas que são permitidas e perdoadas aos homens. Afirmou que os ritmistas fazem a diferença no carnaval. Outra grande verdade, sempre esquecida. Falou depois da solidão do poder, que deve ser compartilhado nos momentos agradáveis, mas está sozinho para enfrentar as dificuldades. Ponto para ela: no mundo do samba, no poder só é bom quem nos favorece. Se ganhamos, foi por nossos méritos e a disputa é limpa. Se perdemos, tudo lá é podre e tome calúnia nos dirigentes. E completou abordando a covardia que é ser atacada anonimamente, por pessoas que não se assinam e não mostram a cara. Terminou com uma frase emblemática do que é hoje a disputa: "Marcelo Motta, o samba é teu!" Faz pensar.

Não sabemos e jamais saberemos o que se passou nos bastidores dessa noite de fortes emoções. Teria havido mudança de rumo na decisão? Seria esta motivada pela qualidade da apresentação, pela preferência da quadra e dos ritmistas da Furiosa, ou por razões menos nobres? Não se sabe. O certo é que o Salgueiro saiu lucrando, porque ter um componente de bem com seu samba é um capital precioso na guerra de fevereiro. Um samba de qualidade. Se observarmos, sua estrutura é clássica: começa com uma invocação, um pedido de licença ("Salve o povo de fé, me dê licença", seguido de sua proposição e apresentação: "eu sou da rua" , "o rei da noite eu sou", "de linho branco vou me apresentar". O clássico em versão moderna. Tranquilamente a presidente Regina poderia ter anunciado: "Salgueiro, este samba é teu".

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08/10/2015 08h51

O cardápio de samba nas telonas
Rachel Valença

Sempre que me é dado ver o samba em um contexto que não é o seu me decepciono. Não há nada mais sem graça do que roda de samba na TV, por exemplo. Parece forçado, sem aquela maravilhosa espontaneidade que é exatamente o que nos cativa. Novela em que aparece o mundo do samba é sempre uma coisa meio artificial, com lances inverossímeis. Romance ou conto sobre o universo do samba nunca convencem a gente, que é de samba mesmo. É pena, porque o samba merece ser mostrado. Nós, que gostamos de samba, adoramos vê-lo aparecer. Mas sempre saímos um pouco frustrados, achando que a realidade é um pouco mais do que ali se vê. Talvez, como disse o poeta, "é um pouco mais/ que os olhos não conseguem perceber".

Só que samba é parte de nossa cultura e não pode ficar numa redoma. Fico feliz quando, tal como recentemente, há filmes sobre nosso mundo do samba para ver. E corro para o cinema. Fui assistir ao documentário Damas do samba, que faz jus ao importante papel desempenhado pelas mulheres na ascensão do gênero, apesar do ambiente de preponderância masculina e ideário machista. A diretora Susana Lira vai mostrando os diversos segmentos em que a mulher atuou e atua dentro do universo do samba, sem exagero nem proselitismo.

Foto: DivulgaçãoOriundo de uma cultura matriarcal, o samba se organiza em torno das baianas quituteiras que abriam suas casas às práticas religiosas e aos folguedos. Delas, Tia Ciata é o símbolo maior. Em várias comunidades, ao longo do século XX, as mulheres tiveram papel decisivo e isso é mostrado em alguns depoimentos e imagens do filme. Mas nenhuma tem a força da cena em que Suluca da Mangueira mostra com seu corpo esguio de 88 anos o que é sambar: "Ó o pé! Ó barriga!" Não usa cílios postiços, não cola paetês abaixo das sobrancelhas, não usa saltos altíssimos nem brilhos nem plumas. Os chinelinhos rasteiros e os trajes do dia a dia que cobrem a barriga conseguem mostrar mais samba do que todo o aparato das bonitonas que a precedem no filme. Coisa linda de se ver. Suluca é para mim a rainha do documentário.

Na semana seguinte voltei ao cinema para assistir ao documentário O samba, do Georges Gachot, um francês que seguiu Martinho da Vila por dois anos e tem como principal proposta mostrar que o samba não é só carnaval, como ele próprio acreditava antes. Para nós, que já sabemos disso há muito tempo, o filme não tem o mesmo interesse que tem para estrangeiros. Na sessão em que assisti, uma senhora animada que cantava os sambas acompanhando Martinho, retirou-se no momento em que ele mostra um chuchu e esclarece: "isso é um chuchu!". Foi demais para ela - ou simplesmente tinha um compromisso inadiável? Não sei dizer.

Mesmo assim, há momentos lindos. A interpretação de Disritmia com a filha Maíra ao piano é de chorar. Como emociona o momento em que um garoto pequeno entoa sem qualquer acompanhamento o "Semba de lá que eu sambo de cá". Assim como há emoção e verdade na cena em que mestre Wallan entrega as fantasias aos ritmistas para o desfile, todos cantando com garra o samba de enredo. Já vi esta cena fora da telona, ela acontece e dá nó na garganta.

O documentário foi exibido no Festival do Rio do ano passado e agora está no circuito comercial. Não o vi então, pude vê-lo agora. Em 2014, no mesmo Festival, assisti ao maravilhoso Samba & Jazz, de Jefferson Mello. Este sim me tirou o fôlego. Trata-se, como o nome sugere, de uma feliz comparação entre os dois gêneros, não no aspecto musical, mas nos aspectos culturais: a matriz africana comum, presente na musicalidade, na indumentária, na gastronomia, na religião e no culto à tradição.

A alternância do uso do preto e branco e do colorido, a sutileza das entrevistas ao abordar temas como o racismo e a desigualdade social e a música como caminho para a cidadania formam um conjunto de qualidades que fazem desse documentário uma joia valiosa que consegue ser leve como o próprio samba sabe ser.

Quisera eu que toda semana o cardápio cinematográfico me oferecesse algo sobre samba. É bom de ver, porque sempre há densidade, mesmo que nem de longe comparável ao que o samba nos oferece ao vivo.

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28/09/2015 09h08

Malandros, palhaços e quixotes
Rachel Valença

O carnaval nos chega em pílulas. Primeiro se anunciam os enredos. Depois chegam as sinopses. A seguir vêm os sambas, muitos. Uma peneira seleciona o melhor em cada escola. Nem sempre o melhor, mas deixa pra lá... Conhecidos os sambas, despontam as alegorias, surgem os figurinos, nossa imaginação trabalha sem parar. Os figurinos viram protótipos. Os ensaios nas quadras nos falam da motivação dos componentes, do desempenho da bateria e do intérprete, da competência da harmonia, dos casais de mestra-sala e porta-bandeira, dos passistas. Os ensaios técnicos são uma prévia de coreografias e vislumbramos alguns segredos. Até que, enfim, chega o grande dia.

Pois é, neste fim de setembro, início de primavera, o que há para o momento são as sinopses. Já as comentamos em gravação, mas ali o tempo nos limita e a análise acaba incompleta. Por isso, volto a elas.

As sinopses são, na verdade, caixas-pretas que guardam segredos indevassáveis. Portanto, boa sinopse não é garantia de bom desfile, nem sequer de bom samba. Mas ajuda um bocado. E nós, amantes do carnaval, amamos lê-las e analisá-las, viajando nas possibilidades, soltando a imaginação. Confesso que tenho prazer em ler sinopses e até em escrevê-las, o que já fiz algumas vezes.

Foto: SRZD - Adriana Vieira

Este ano há excelentes sinopses. Daquelas que dizem mais do que está escrito. Vibrei com a da São Clemente, "Mais de mil palhaços no salão", de Rosa Magalhães. Erudita e histórica sem ser chata, dá ao compositor elementos para antever o que será o desfile. E sugere, sem impor, elementos de nossa cultura popular para enriquecer a trajetória que, remontando à Idade Média, poderia tornar-se pesada.

A sinopse da Portela não lhe fica atrás. "No voo da águia, uma viagem sem fim", é uma proposta cheia de novidade. É a águia, tradicional símbolo da escola, que comanda a "viagem", desde a mitologia e a epopeia clássica, passando pelo relato bíblico em direção à história, ao presente e até ao futuro. Tudo claro, poético e ousado, com bons ingredientes para um samba de qualidade. E a assinatura de Paulo Barros, precedida pela valorosa equipe da Casa da Ciência de UFRJ, que o acompanha há anos.

Outra linda surpresa nos vem de Padre Miguel: "O Brasil de La Mancha: Sou Miguel, padre Miguel. Sou Cervantes, sou Quixote Cavaleiro, Pixote brasileiro". Como é simpática a diversidade! Num momento em que os enredos de cunho social estão esquecidos, é muito ter esta proposta bem estruturada, que passa por várias citações literárias para chegar ao Cavaleiro Andante de Vila Vintém, atrás de sua estrela-guia. Uma forte esperança de desfile inovador.

Há também boas sinopses. A do Salgueiro faz justiça ao enredo, uma ideia muito feliz dos carnavalescos, que tem tudo a ver com a escola da Tijuca, suas cores e tradições. A da Vila Isabel, uma opção acertada pelo viés cultural para falar do centenário de um político, o que nem sempre dá samba. Miguel Arraes é apresentado juntamente com o que de melhor proporcionou a seu povo, associado a nomes como Ariano Suassuna e Paulo Freire. Promete.

Boa é também a sinopse da Imperatriz. Quem torceu o nariz para o enredo "É o amor... Que mexe com a minha cabeça e me deixa assim, sobre a dupla Zezé de Camargo e Luciano, já está quase reconsiderando ao ouvir a safra de sambas de qualidade que a sinopse gerou. É uma sinopse longa, em versos, o que nem sempre funciona, mas muito estimulante.

A sinopse da Estação Primeira desvenda o propósito de dar ao enredo sobre Maria Bethânia um viés místico e religioso que o diferencia da homenagem anterior, aos Doces Bárbaros, em 1994, de triste memória para a escola. Dessa vez, outras palavras... E parece que inspiradoras, a julgar pela safra de bons sambas disponíveis.

As demais sinopses não conseguem transcender a mesmice que lhes é imposta por enredos pouco originais. Oxalá redundem em bons desfiles, mas por enquanto não dá para vislumbrar essa possibilidade, pois o caminho escolhido é o da repetição: cidades encantadas, personagens batidos e efemérides esportivas já mostraram seu fraco potencial. Raramente rendem sequer uma boa sinopse.

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