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Rachel Valença

Rachel Valença



* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.CARNAVAL RJ. Carioca, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.



02/03/2015 08h25

Ainda há o que comentar sobre o Carnaval de 2015
Rachel Valença

O pós-carnaval nunca é um marasmo. Temos novidades diárias. Novidades que nos arrebatam e põem à prova nossa imaginação. Como será a Portela com Paulo Barros? Para a Mocidade volta Louzada, festejadíssimo. Alex de Souza deixa a Ilha e volta para a Vila Isabel. A Ilha acolhe Paulo Menezes e Jack Vasconcelos. E por aí vai...

Mas ainda não se esgotou para mim o assunto Carnaval 2015. Muita coisa ficou sem comentar e me permito voltar a algo que já perece distante e sem interesse. Porque assim é o carnaval: efêmero por natureza, uma vez acabado já não tem mais interesse. E viva 2016!

Pois bem: ouso voltar ao carnaval que passou e para falar de problemas. O maior deles foi o som da Sapucaí. Já não vou reclamar que é alto demais. Não adianta clamar no deserto. Mas gostaria, ao menos, que ele fosse igual para todas as escolas. Seria o mínimo a ser exigido. Mas não é. Além desse verdadeiro absurdo, falhou demais este ano, fazendo ruídos ensurdecedores ou simplesmente desaparecendo durante o desfile de algumas agremiações. Num espetáculo do nível do nosso, com preços tão elevados, acredito que se não se resolve o problema do som é porque ele não é considerado relevante.

Ora, num espetáculo onde a melodia e o ritmo têm papel tão primordial, não há como ignorar que problemas na reprodução do som podem ser fatais para o sucesso de uma apresentação. Além disso, o público merece respeito.

Outra questão que mais uma vez me saltou aos olhos foi a das alas de passistas. Muitas escolas as posicionaram este ano na frente da bateria. Grande acerto. A passagem da bateria, seguida do carro de som, é um momento de vibração no desfile. Todas as atenções do público se voltam para o desempenho de ritmistas e intérpretes. Espremidos após o carro de som, os passistas não têm visibilidade. Ora, o samba no pé, cada vez mais raro, tem esse único momento para ser apreciado. É preciso dar-lhe o destaque que merece.

Na verdade, nem sei se gosto que os passistas venham em ala. Mas há muito tempo que é assim. Não há nada mais bonito num desfile do que a dança do samba, aquela riqueza e variedade coreográfica espontânea, motivada somente pelo apelo do ritmo. Com as alas cheias e orientadas para padronização e mesmice, perde-se a beleza. Aquele monte de gente dividindo pouco espaço e obrigando-se a um deslocamento rápido acaba por se ver impossibilitado de mostrar a riqueza de suas possibilidades. Perde-se o lindo espetáculo que tantas vezes presenciamos nas quadras, fora das apresentações formais: num cantinho, sem holofotes, se pode ainda ver toda a beleza dessa dança inimitável.

Creio que as escolas precisariam se preocupar um pouco mais com suas alas de passistas. Como não são objeto de julgamento, não valem nota, estão ficando relegadas a um segundo plano. É este pragmatismo que enfraquece a manifestação cultural e acaba empobrecendo o espetáculo. Aliás, a evolução do componente de ala é outro fator de visível empobrecimento. As alas carecem de movimento. A orientação que o componente recebe é no sentido de não sair de seu lugar durante todo o percurso do desfile, evoluindo só para a frente. Ora, não há nada mais empobrecedor, porque as alas passam estáticas, sem movimento. É claro que isso está relacionado com o crescimento das escolas e com a necessidade de cumprir a cronometragem. Mas que saudade da brincadeira dentro da ala, evoluindo de um lado para o outro e dando a quem assiste de cima a impressão de alegria e animação.
Assim tem sido: a gente vai abrindo mão de tanta coisa, chega até a esquecer certas características e procedimentos, e depois não entende por que os ingressos não são mais vendidos tão rapidamente e nem se esgotam mais.

Outra grande tristeza foi ver que o desfile das campeãs não foi transmitido pela emissora que detém exclusividade do direito de transmissão. Não sei não, mas acho que na hora de negociar esse direito, deveria ser verificado não apenas o preço, mas também a real intenção de transmitir e divulgar a totalidade dos desfiles. Se não há interesse em transmitir, pra que comprar?
Dinheiro não é tudo. Por incrível que pareça, ainda há coisas que o dinheiro não compra. A paixão pelo samba, pelo carnaval, pelas escolas de samba é uma dessas coisas. Ainda bem.


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20/02/2015 08h26

Daquilo que vi
Rachel Valença

Daquilo tudo que eu vi na Avenida em quatro dias de folia, gostaria de destacar alguns momentos: coisas que adorei, coisas que preferia não ter visto.

Começo com a bela surpresa que nos proporcionou a São Clemente. Depois de um ensaio técnico desanimador, o desfile foi um dos pontos altos do meu carnaval. A escolha do enredo foi muito feliz e seu desenvolvimento claro. Que fantasias maravilhosas apresentou! Mesmo conhecendo de perto o talento de Rosa Magalhães e de seu assistente Mauro Leite, tanta criatividade me surpreendeu. Desde as imagens que davam medo ao menino Fernando em sua terra natal, que se tornaria o audacioso Pamplona no carnaval do Rio, tudo era bonito demais. As alas de colombina e arlequim, o palhaço, a bruxa, tudo era puro carnaval. Os girassóis, que Pamplona considerava as flores da eternidade, lá estavam ao fim do desfile, garantindo a todos nós que ele jamais será esquecido. Uma beleza a escola, animada, cantando, dançando, cumprindo com galhardia a difícil missão de abrir o desfile e enfrentar um público frio, que logo se deixou levar pela emoção. Uma beleza!

Beleza emocionante foi também o carro Abre-Alas do Salgueiro. Bom gosto, imponência, luxo, criatividade, tudo misturado num efeito espetacular. Adorei também o quinto carro da Mocidade Independente. Muito criativa e divertida a ideia de surpreender pessoas na cama (camas verticais, interessantíssimas), nas mais heterodoxas combinações, muito de acordo com o enredo. Sensacional! Apreciei a sucessão das duas últimas alas da escola, Botava o bloco na rua? e Deixa a Mocidade te levar. Bonito de ver.

A águia da Portela, em sua manobra diante da torre de TV, foi um momento espetacular do desfile, deixando o público sem respirar por alguns segundos. Sensacional. O povo adora essas emoções.

Foto; SRZD - Igor Gonçalves

As divertidas comissões de frente da União da Ilha e da Grande Rio também foram responsáveis por momentos de vibração do público. A da Imperatriz Leopoldinense nos levou de volta a um passado de maravilhosas apresentações. Deu show.

A bateria da Unidos da Tijuca arrepiou... As baianas da Viradouro, representado Tia Ciata, com tabuleiros na cabeça, evoluíram com garra, apesar das saias pesadas da chuva. As vozes de Wantuir, na Portela, Nego, na Imperatriz, Ito Melodia, na União da Ilha, mais uma vez me emocionaram.
Mas emoção de verdade foi a visão de Nelson Sargento, aos 90, abrilhantando a Mangueira, de Monarco na sua Portela, de Martinho na Vila Isabel, de Piná na Beija-Flor, de Giovana e Marquinhos num carro alegórico da Mangueira, de Rosa Magalhães numa alegoria da São Clemente. São nossos mitos, ali, ao alcance dos olhos. Um luxo só.

Muita coisa linda (e nem falei do samba da Imperatriz e de porta-bandeiras e mestres-salas). E pouca coisa a me desagradar. Não gostei, por exemplo, da ideia de incorporar o bailado do casal de mestre-sala e porta-bandeira à coreografia da comissão de frente, que já se esboçou no ano passado e neste carnaval se consumou. Incomoda (pelo menos a mim) ver o casal que carrega o pavilhão ser assim banalizado. E o fogo (ou pseudofogo) na saia da porta-bandeira pode ter uma simbologia nada edificante...

Lamento também que as comissões de frente apresentem coreografias tão longas e complicadas. Elas se repetirão quatro vezes ao longo do desfile, atrasando a escola, que só flui bem depois que a comissão sai de cena após o último módulo. E também não aprecio comissão que se apresenta em cima de carro, como foi o caso da da Unidos da Tijuca. Lugar de comissão é no chão da Sapucaí.

Detesto - e cada ano detesto mais - aqueles grupos de convidados que passam antes de algumas escolas. Meu Deus, é lamentável! Se aquelas pessoas amassem a escola, gostassem de samba, sairiam certamente numa ala. Mas não. Pensam que ali têm visibilidade, aparecem mais. Engano.

Não se dão conta do ridículo. E observei este ano que há agora uma hierarquia de "bicões": sai um primeiro conjunto de encamisados, e vem uma fileira de seguranças da passarela. Outro grupo de bicões, nova fileira de seguranças, e aí sim a diretoria da escola seguida da comissão de frente.
Falei acima em encamisados, mas observei também que nem todos usam camisas do enredo. Havia gente de capa de chuva, havia gente com sua roupa social, um caos. Só uma coisa me vem a cabeça: quanta falta de respeito para com a escola. É ou não é um desfile de carnaval?

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19/02/2015 09h23

Cinzas
Rachel Valença

Um dia, um amigo muito querido contou à minha filha Inês, também sua amiga, uma linda história. Quando ele era criança, saiu com o pai para comprar pão numa quarta-feira de Cinzas. Sentou-se na porta da padaria e viu no chão da rua um monte de confetes e serpentinas emboladas. Sem mais nem menos, começou a chorar. Motivo: teve consciência de que o carnaval acabara. É uma história muito linda que sempre me vem à memória na quarta-feira de Cinzas.

Nesta de 2015, em particular, este amigo acaba de nos deixar para sempre. A história que contou há tantos anos já mostra a pessoa maravilhosa e sensível que ele era. Um amigo como poucos. Eu o conheci no final da década de 1990, no Paraíso do Tuiuti. José Carlos Albernaz lá chegou querendo organizar uma ala. Era presidente de ala na Estácio de Sá e queria ajudar o Paulo Menezes, carnavalesco do Tuiuti naquela época. Fez a ala, uma das melhores da escola. Como era imperiano, ficou nosso amigo. Quando saímos todos de lá, levou sua ala para a União da Ilha, sempre com sucesso.

As fantasias eram confeccionadas por ele num ateliê na sua casa, em Vaz Lobo, com a ajuda dos pais, Orlando e Zila, pessoas encantadoras que se tornaram para sempre meus amigos também. Quando a Inês resolveu organizar uma ala no Império Serrano, em 2003, associou-se a ele e se tornaram grandes amigos. A Ala dos Devotos desfila até hoje, sempre com fantasias muito caprichadas.

Este ano Zé Carlos não desfilou. Estava doente e morreu nesta quarta-feira, sem ver o seu amado Império Serrano ter mais uma vez frustradas suas expectativas de voltar ao Grupo Especial. Sem ter visto confetes e serpentinas esquecidos pelo chão, foi um dia tristíssimo para mim. Peço licença a vocês para deixar aqui a minha última homenagem a esse amigo que, como nós, amou muito o carnaval e contribuiu para que ele fosse mais bonito.

Na foto, Zé Carlos aparece na final da disputa do samba-enredo, em 2013, com a porta-bandeira Bárbara. Estava sempre conosco na quadra e vai ser assim, bonito e alegre, que vou lembrar dele daqui por diante. E se você o conheceu, por favor deixe aqui uma palavra de afeto a saudade.

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09/02/2015 13h18

Uma pequena notável
Rachel Valença

Neste dia 9 de fevereiro, Carmen Miranda estaria completando 116 anos de nascimento e a data me faz lembrar a forte ligação desse ícone da brasilidade com o Império Serrano. Carmen já deu à escola dois títulos: o de 1972, no Primeiro Grupo (ou nome similar que o Especial tinha na época) e o de 2008, no Grupo de Acesso.

Foto: Divulgação

Sobre o carnaval de 1972, o segundo do carnavalesco Fernando Pinto na escola, há muito que contar. Mas a pergunta mais frequente que me fazem sobre esse desfile é sobre as artistas famosas que representaram Carmen no desfile. O criativo e jovem carnavalesco convidou mulheres famosas da época para desfilar na escola, cada uma delas abrindo um setor do enredo. A mais marcante, cuja linda imagem vestida de Carmen ficou marcada na memória coletiva, foi Leila Diniz. E por uma triste razão: ela morreria num acidente aéreo meses depois de se esbaldar no carnaval, legando à posteridade a imagem inesquecível de sua graça e irreverência.  Leila vestida de Carmen, toda de renda branca, esbanjando alegria e sedução, foi uma das últimas imagens públicas que dela ficaram.

Também encantadora e já famosa era a atriz Marília Pera, uma Carmen de muito charme.  A cantora Rosemary, mangueirense das mais fiéis, se permitiu esta traiçãozinha e homenageou Carmen em seu desfile consagrador no Império Serrano. A bailarina Vilma Vernon foi outra a emprestar sua graça ao desfile de Fernando Pinto. As atrizes Tânia Scher e Isabel Ribeiro foram mais duas carmens.

Leila Diniz e Marialia Pera. Foto: Divulgação

Os figurinos criados por Fernando eram belíssimos e muito criativos, sem fugir ao estilo característico da inspiradora, que, como se sabe, criava ela própria seus modelitos. Mas a fantasia usada por Isabel Ribeiro foi particularmente a que mais me agradou e a saudosa atriz desfilou em atitude performática, mexendo os olhos e as mãos,  deixando para a posteridade um das mais belas imagens desse desfile consagrador.

Mas a atriz que ficou eternizada para o Império Serrano como a pequena notável foi Miriam Pérsia. Aquele foi seu primeiro desfile na escola, mas não o último. Miriam está conosco até hoje. Faz questão de desfilar, onde quer que o Império esteja. Se não é procurada pela diretoria, toma a iniciativa de procurar: sai em carro, sai em ala, sai de qualquer maneira. Acho que se fosse preciso empurraria alegoria. Ou tripé, mais condizente com sua figura franzina e elegante... O que quero dizer é que Miriam Pérsia, naquele longínquo 1972, aprendeu a amar a escola. E o Império Serrano a ama também: muitas vezes, na concentração, surge a pergunta: onde Miriam Pérsia vai desfilar? Porque não passa pela cabeça do componente que ela fique de fora.

Havia ainda uma oitava Carmen, mas esta era prata da casa, como se diz popularmente. Fernando Pinto criou um lindo figurino para o primeiro destaque do Império, Olegária dos Anjos, aquela que o primeiro destaque do carnaval carioca, na década de 1950. Com isso o jovem carnavalesco demonstra seu respeito à tradição da escola. Lá estava ela, com sua elegância natural, sua beleza e distinção, a mostrar que todas eram bem-vindas, mas que o Império tinha sua Pequena Notável.

Olegária dos Anjos. Foto: Divulgação

Vale a pena lembrar aqui mais um personagem feminino desse desfile: a cantora Marlene, no carro de som, ajudando a defender o polêmico samba-enredo, amado por alguns, odiado por outros, mas até hoje cantado. Não era comum, e não é até hoje, uma voz feminina para puxar o samba na Avenida, mas Marlene era uma das cantoras mais famosas do país e tê-la no carro de som (modo de dizer, pois não existia carro de som na época) era um luxo.

Todos os fatores acima resultaram na vitória, comemorada com o fechamento das ruas de Madureira, muita cerveja e muito samba. O Império Serrano, depois de um jejum de 12 anos. obtinha seu oitavo campeonato. Carmen se tornou nosso amuleto.

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28/01/2015 09h51

Carnaval 2015: sangue novo no julgamento
Rachel Valença

Já muito se comentou a respeito da renovação do corpo de julgadores para o carnaval de 2015. Que razões ou interesses a teriam determinado? Nobres ou espúrios? Ao escrever sobre o tema, há algum tempo, defendi a teoria de que mudar, por si só, não significa grande coisa. Seria preciso observar em que direção se dá a mudança para tentar entender suas intenções.

Pois bem: anunciado o corpo de julgadores, já se pode fazer uma reflexão sobre o que realmente muda e o que se mantém. Basta analisar com atenção quem saiu, quem ficou e quem entrou e alguma coisa se revela aos olhares mais atentos.

Dois quesitos foram objeto de uma verdadeira faxina: Fantasias e Samba-enredo. O primeiro, a meu ver, com boas razões. As notas do carnaval passado deixaram a desejar em coerência. Mas no segundo desses quesitos, samba-enredo, ao contrário, não se justifica uma intervenção tão radical, pois as notas vinham sendo equilibradas e bem justificadas.

Foto: Reprodução de Internet

Foi também significativa a intervenção nos quesitos Enredo e Alegorias e Adereços, que tiveram a maioria dos julgadores (3) alterada. Novamente este quantitativo é incoerente, pois o quesito enredo foi bem julgado e o único desempenho polêmico me parece ter sido justamente o do julgador que foi mantido (Johnny Soares), não pelo fato de haver errado nas contas, mas sim de revelar, com este erro, um critério de pontuação discutível. Já em Alegorias e Adereços a intervenção era urgente, pois foi um quesito marcado em 2014 por flagrantes incoerências de julgamento. E eu ousaria dizer que foi até tímida, porque a substituição dos quatro julgadores não seria nenhum absurdo.

Harmonia e Mestre-Sala/Porta-Bandeira foram quesitos em que houve substituição da metade dos julgadores. Em Harmonia me guio pelos comentários entreouvidos: foram afastados os julgadores mais rigorosos. Já em Mestre-Sala/Porta-Bandeira, desfez-se um grupo que atuava junto há anos. Ilclemar Nunes, com justificativas vagas e pouco convincentes, e Tito Canha, com justificativas técnicas e muito coerentes, foram afastados.

Os três quesitos restantes só tiveram uma alteração. No caso de Comissão de Frente, não há inovação, já que João Wlamir é apenas um retorno. Julgou este quesito muito tempo, e recentemente julgava Conjunto, aliás com bom desempenho. E sem dúvida a saída de Fabiana Valor é a esperança de menos polêmica, pois esta julgadora já nos brindou com notas simplesmente injustificáveis, a meu ver.

No caso de Bateria, eterniza-se Cláudio Luiz Matheus, assim como se mantém Salete Lisboa em Evolução. Sem comentários. Para quem sabe como funcionam os julgamentos, com julgadores de vários quesitos compartilhando o espaço de cada módulo, é importante manter a presença desses baluartes formadores de opinião. O julgador novo, em seu primeiro julgamento, desejará talvez se espelhar em quem sabe atuar tão bem que nunca é substituído. Os comentários casuais dos veteranos têm valor para os novatos e assim fica mantida a filosofia do corpo de jurados... Um consolo: estaremos livres de ler as justificativas inconsistentes de Carlos Pousa, que não é mais julgador do quesito Evolução.

E quem é que está entrando? Entre os novos julgadores, muitos vêm de trabalho na Série A em 2014. Acho este um critério acertado, caso tenham sido selecionados os melhores, aqueles que canetaram com coerência e souberam justificar. Além desses, foram reaproveitados antigos julgadores do Especial, como é o caso do já mencionado João Wlamir, de Regina Oliva, de volta ao quesito Fantasias, e de Luiz Carlos Correa, que já julgou Alegorias e Adereços e agora julgará Mestre-Sala/Porta-Bandeira.

Nomes conhecidos como os dos arquitetos Chicô Gouveia e João Niemeyer ou do maestro Carlos Eduardo Prazeres, e Fernando Bicudo, ex-diretor do Theatro Municipal, com todo o respeito e a admiração que me merecem, não são garantia de nada. Podem ser grandes conhecedores do nosso mundo do samba ou podem ignorar as mais rudimentares noções do que seja uma escola de samba. Meu sonho, como sabem, seria um corpo de julgadores formado por gente de samba, que pensaria duas vezes antes de atribuir uma nota que não pudesse justificar muito bem. Seu nome e sua carreira estariam em jogo. Sendo do metiê, agiriam com respeito, com cuidado e acima de tudo com conhecimento de causa. Mas isto parece que é difícil... Em todo caso, sonhar não custa nada, ou quase nada...

Por enquanto é só. Uma segunda análise, já baseada em fatos e na realidade dos mapas de notas e justificativas, nos dará pistas mais seguras se a mudança por que estamos passando é substantiva ou apenas numericamente expressiva. Mas isso só depois do carnaval.

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23/12/2014 06h39

Unidos da Vila Santa Tereza: ritos e conflitos
Rachel Valença

Como todo fenômeno cultural, a escola de samba tem seus ritos. Nem sempre sabemos como surgiram e por que surgiram. A forma de escolha do samba de enredo é um dos mais importantes e persistentes desses ritos. E na semana passada, aqui neste espaço, falamos dos perigos de não obedecer a este ritual quando comentamos o belíssimo samba da Unidos do Viradouro, que um colega jornalista, de modo muito feliz e apropriado, classificou como um gol marcado com a mão.

Estamos, portanto, nos posicionando a favor da obediência a este ritual, o que não nos impede de enxergar com clareza que se trata de um ritual perverso. E diversas vezes já falamos disso também. Perverso porque, em seus moldes contemporâneos, obriga os compositores a investirem quantias absurdamente altas para defender seu samba: gravação e distribuição de CDs, contratação de cantores e músicos para o palco, arregimentação de torcida, aluguel de ônibus, confecção de camisas e até de alegorias de mão. A cada ano a disputa se sofistica e já não se sabe onde isso vai parar.

E tudo isso, se por um lado significa para as escolas um faturamento seguro, por outro causa quase sempre uma dor de cabeça sem precedentes. Talvez por isso a diretoria da Viradouro, tendo à frente justamente um compositor, tenha optado por evitar os riscos e enveredar por um caminho simples e seguro.

O assunto pode parecer ao leitor meio descabido e fora de época, porque as escolhas de samba acabaram há mais de dois meses. Mas a discussão voltou à pauta nos últimos dias por conta de um conflito surgido na Unidos de Vila Santa Teresa, escola que desfilará na Intendente Magalhães, com pequena subvenção e sem gravação de seu samba em CD. Escolhido o samba, após o cumprimento estrito do ritual em vigor, no dia seguinte a presidente anunciou outro samba que não o escolhido, alegando que houvera manipulação do resultado. A virada de mesa causou, ao que consta, a saída de titulares de importantes segmentos da escola, revoltados com a decisão.

Antes de prosseguir, quero deixar bem claro que só tomei conhecimento dos fatos pelo que a mídia publicou. Não conheço nenhuma das partes envolvidas e não se trata aqui de tomar partido de A ou de B, mas simplesmente de tentar refletir, com a participação dos leitores, sobre um fenômeno que nos diz respeito tão de perto.

Há formas e formas de escolher samba de enredo. A diretoria da escola é que fixa qual será o processo adotado. Lembro-me de um presidente/patrono que entrevistei na década de 1980 e que, ao lhe perguntar qual o critério de escolha de samba em sua escola, me respondeu com absoluta tranquilidade: "Aqui não tem critério não, sou eu que escolho o samba, porque sou eu que gasto dinheiro". Hoje em dia pouca gente responderia com esta franqueza: criam-se comissões com a participação dos segmentos atuantes, o que me parece muito justo e correto. Mas estas comissões nem sempre são pra valer a acaba prevalecendo uma vontade, que às vezes é do presidente, às vezes do carnavalesco, ou sabe-se lá de quem mais.

Se montamos uma comissão e ela escolhe um samba, paciência. Haja o que houver, me parece que a decisão tem de ser respeitada. Mas compreendo o sentimento da presidente em questão porque, como é de conhecimento geral, já estive envolvida e até fui responsável por várias escolhas na minha escola e sei bem do que ela fala quando se refere à tentativa de manipulação e de cooptação dentro da comissão. Se queremos lisura e independência, se acreditamos que muitas cabeças pensam melhor de que uma e que muitos ouvidos erram menos, é preciso vigilância contra esses complôs e a firme intervenção deve vir antes da escolha do samba, não depois.

Porque, se esta moda pega, a escolha do samba vira apenas um episódio que pode ser revogado sem provas e sob alegação vaga. Ignoro se a presidente estava ou não com a razão, mas admitindo que esteja certíssima em sua medida, é preciso reconhecer que ela abre precedente a muita injustiça e arbitrariedade. E afinal, se é para um presidente escolher o vencedor, para quê tanto gasto e tanto sacrifício por parte dos compositores?

Sou uma defensora do processo de eliminatórias sucessivas, porque ele nos permite acompanhar o desempenho dos sambas semana a semana, consolidando nossa preferência. Ela pode mudar, de uma semana para outra, pelo canto da quadra, pelo comportamento dos ritmistas, pelo desempenho dos que evoluem na quadra. É um processo longo e desgastante, mas a meu ver necessário.

De todo esse imbróglio, uma coisa me chamou a atenção e me comoveu: por que é mesmo que estão brigando? Não há dinheiro em jogo, não há gravação em CD, não há fama, não há mídia. Qual é então o objeto da disputa? Eu responderia: simplesmente a glória de ser sambista. Eis um motivo para regozijo: o samba está vivo, muito vivo, ainda tem um tremendo valor, que se sobrepuja ao dinheiro e à fama. Alegremo-nos.


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17/12/2014 08h26

Safra de 2015 revisitada
Rachel Valença

Assim que ficou pronta a gravação do CD dos sambas do Grupo Especial para 2015, gravamos nossos comentários. Era a primeira audição dos sambas e fiz questão de deixar claro que provavelmente minha opinião iria mudando, à medida que ouvisse mais vezes cada samba. E mudaria talvez ainda por ocasião dos ensaios técnicos, quando no contexto de um desfile os sambas ganham outra dimensão.

O processo já começou: com o CD na mão - em seu formato que parece imutável, sempre a mesma capa, a mesma contracapa, zero de inovação -, a gente fica ouvindo a toda hora, sempre que há um tempinho, sozinha ou na companhia de amigos que nos alertam para aspectos que não havíamos notado. E a opinião vai mudando.

Por isso, deixo agora as minhas segundas impressões sobre a safra de 2015.

Começo pelo excelente samba da Unidos do Viradouro, que creio que não pode ser comparado aos demais do disco, porque seu processo de criação difere muito dos demais: não foi composto a partir de uma sinopse, regra básica do gênero. Ao contrário, ele é que gerou sinopse. É genial e certamente dará ensejo a um grande desfile, mas na análise de composições do gênero é preciso ter cautela e atentar para precedentes que podem ser perigosos à sobrevivência do modelo em vigor.

Dito isso, continuo achando muitas qualidades nos sambas da Imperatriz, da Portela e da Beija-Flor. Este resume no último verso do refrão final ("resgata sua alma africana") o que urge fazer para se penitenciar de erros e desvios recentes e retomar uma trajetória de sucesso. A Portela, que também vive um momento de retomada, vem com aquela pegada leve e malandra que tem caracterizado seus últimos desfiles, num samba rico em jogos de palavras e citações felizes e de fácil absorção. Já o samba da Imperatriz cresce a meus ouvidos dia a dia.

Muito épico, como convém à homenagem a um herói, quebra o tom no final, de maneira feliz e inspirada, ao destinar ao preconceito o que ele merece, esta banana que se tornou tão simbólica dos recentes e lamentáveis episódios ocorridos em campos de futebol e fora deles. Com a brusca mudança de tom, é como se os poetas quisessem dizer que não há forma bonita e elegante de tratar atitudes desprezíveis de discriminação e intolerância. 

Os sambas da São Clemente e da União da Ilha têm subido de cotação no meu ranking pessoal a cada nova audição. No primeiro, o refrão final é muito bom e alguns achados poéticos emocionam os que conheceram e admiram o mestre Pamplona, que se foi há tão pouco tempo brilhar em outra dimensão. O samba da Ilha brinca o tempo todo com o tema, para no final, pouco antes do segundo refrão, revelar súbita sabedoria: "Vim sem nada pra vida, nada vou poder levar", mas ainda no tom alegre que o enredo requer e a tradição da escola aconselha.

Já os sambas de Mangueira e Vila Isabel por enquanto não melhoraram de conceito. Este último tem alguma coisa que soa artificial, talvez, na tentativa de comparação de universos tão distintos, uma sofisticação fora do tom. Alguns versos têm excesso de palavras, dificultando o canto. Torço para que minha sensação não se confirme no ensaio técnico e no desfile. No samba da Mangueira novas audições confirmam a previsibilidade das imagens poéticas. A letra é uma sucessão de lugares-comuns e só o carisma da escola nos garante a emoção ao cantar as queridas matriarcas. Ressalte-se a correta e elegante interpretação de Luizito.

Entre Salgueiro, Tijuca, Grande Rio e Mocidade, as duas últimas ainda conseguem um pouquinho mais do que as duas primeiras. Ao ouvir o samba da Tijuca, tenho a sensação, quase a certeza, de que já o conhecia, tal a obviedade da melodia. O do Salgueiro não emociona nem contagia. O hino da Grande Rio tem acertos na letra, com bons momentos de jogos de palavras, mas fica a dever em animação. E o samba da Mocidade, apesar dos esforços de Bruno Ribas, também está longe de ombrear com tantas belezas que a escola já nos proporcionou, principalmente pela ausência de frases completas, apresentando apenas uma sucessão de expressões como "é de enlouquecer", "a hora é essa", "eu já tou louco", "roda baiana", sem um nexo sintático que as costure numa narrativa de enredo. Apesar disso, há nele uma animação que, se for capaz de contagiar o componente e o público, mandará às favas o nexo e tudo o mais. Tomara.

Estou preparada para as reações a esses comentários e lembro que o que está aqui é apenas a minha opinião, que como disse lá atrás nem sequer é definitiva. É meu dever externá-la aqui. É o que se espera de um comentarista. Sei por experiência o quanto é penoso ouvir da boca de terceiros coisas negativas sobre nossa escola, mesmo quando no íntimo concordamos com elas. Daí a raiva que os comentários despertam às vezes. Que venha o tiroteio. Pior do que ele é ser condenado a ouvir por 82 minutos um mau samba.


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01/12/2014 08h30

Dez, nota dez
Rachel Valença

Acabado o Carnaval de 2014, proclamada campeã a Unidos da Tijuca, que apresentou um desfile que a habilitava ao título, parecia não haver motivo para o clamor que se levantou com relação aos critérios de julgamento. Mas aqui neste espaço e em todos os outros meios dedicados ao debate sobre Carnaval, foram apontados equívocos e absurdos, principalmente por causa das notas atribuídas à Vila Isabel, muito acima do que mereceria, e à Império da Tijuca, bem abaixo daquela a que faria jus. Queríamos todos (e eu escrevi algumas colunas sobre isso) mudança.

Agora a LIESA anuncia mudança. Oba, fomos finalmente ouvidos? Para meu espanto, a maioria dos comentaristas e aficcionados do Carnaval está contra. Mais uma vez, aqui se aplica a citação: "Temo os gregos, mesmo quando trazem presentes". Parece que entre nós todos a LIESA está tão desacreditada que não achamos possível que ela tenha simplesmente se apressado em atender ao nosso clamor: preferimos acreditar que há alguma coisa por trás disso.

E que coisa seria essa? Segundo leio e ouço por aí, desconfia-se que a poderosa Beija-Flor, inconformada com sua colocação, tenha pressionado por mudanças. De fato, há anos a comunidade do samba reclama mudança e não é atendida. Já a Beija-Flor, se nunca antes teve razão para reclamar, este ano vociferou e logo se fez ouvir. Mas, apesar de ser isto um fato incontestável, estou animada com a mudança, porque afinal nós a pedimos. E se fomos atendidos, tudo bem. Não precisamos especular por que. Ou por quem...

Incomodava-me ver jurados que há mais de vinte anos participavam do júri, sempre dando dez às mesmas escolas. Não parece estranho que o desempenho de uma escola seja tão estável? Acho que toda mudança, por si só, já é saudável. O fundamental é saber a natureza desta mudança. O presente dos gregos aos troianos bem sabemos como acabou. Por isso, todo o cuidado é pouco na hora de analisar quem está chegando ao júri. Os presidentes de escolas têm poder de veto e é importante que pesquisem a analisem bem de onde vêm as pessoas indicadas. Afinal, se o desempenho delas é que nos mostrará quem tinha razão, quando isso ficar claro já será tarde demais para chorar o leite derramado.


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31/10/2014 09h46

Conversa de botequim
Rachel Valença

Não, não é do famoso samba de Noel Rosa que estou falando. Falo hoje de algo muito caro ao meu coração: o Botequim do Império. Creio que foi na década de 1980 que ele começou a existir. Era sábado à tarde, com entrada franca e um ambiente muito informal, tudo sob o comando de seu Natalino, que na época era o mestre de bateria, mas tinha, além disso, uma incrível facilidade de comunicação. Em pouco tempo se tornou um sucesso espetacular, a quadra ficava lotada, a escola faturava com a venda de cerveja e os artistas vinham cantar de graça, porque cantar no Botequim do Império dava status, era sinônimo de prestígio. Quantos sambas bons foram ali apresentados muito antes de serem gravados e se tornarem sucesso nacional?

Não me lembro de quando o Botequim acabou. O meu Império sempre lidou mal com coisas que dão certo... O fato é que muitas vezes, ao longo dos anos, se tentou retomar a ideia, fazer renascer o Botequim, mas sempre ficava faltando aquele algo mais que é a marca do sucesso, algo aliás indefinível, imponderável, inexplicável.

A atual gestão, com muito acerto, vem retomando atividades que movimentem a quadra. O imperiano andava com saudades de sua quadra, esta é a verdade. Uma dessas atividades, aliás a que mais me alegra no momento, é o Botequim do Império. Está acontecendo de 15 em 15 dias, mais exatamente no segundo e no quarto sábado do mês, para não coincidir com a Feijoada Imperial. E tem um caráter totalmente diferente dela. A Feijoada é um grande evento, um evento de palco, de mesas e camarotes, de casa lotada, de Jorginho do Império, de bons conjuntos de samba, tudo acabando em Sinfônica do Samba e seu show habitual.
Já o Botequim é intimista, com o grupo tocando em volta de uma mesa, onde reina absoluta a imagem de São Jorge. O público vai chegando aos poucos, pode ocupar mesa, se quiser, pode ficar em pé, pode beber sua cerveja, comer belisquetes, dançar sozinho ou de par, e quando a gente se dá conta a coisa bombou! E sabem por quê? Por que o pessoal que toca é bom demais e escolhe seu repertório com um coração imperiano.

São meninos bem novos, muita gente boa da Serrinha e das famílias tradicionais do Império. Lá estão Júnior Oliveira, neto de Silas, lá está o Fofão, que eu conheci criança e que se não me engano descende dos Oliveiras fundadores do Império. Lá está o João da Serrinha, gente finíssima e sambista completo, organizador de rodas de samba lá no nosso reduto. Só tem fera. E desencavam do fundo do baú cada samba que a gente se arrepia. Não só coisa da antiga, não. Outro dia, ouvi lá um partido-alto sobre Mestre Fuleiro, uma coisa muito linda. Quem disse que só coisa antiga é que é boa?

No sábado em que Tia Maria do Jongo foi a visitante de honra, que momentos maravilhosos e quase intraduzíveis vivemos na quadra! E a cada semana a chegada de Ítalo, cantando o repertório do saudoso Beto Sem Braço, nos transporta a momentos do passado e nos encanta. Talvez pensem que são minhas raízes imperianas que me fazem apreciar tudo isso, mas como explicar que Asha, uma jovem norte-americana que lá esteve uma vez, não queira saber de outro programa? Pois mesmo quem não compreende com perfeição o que está sendo cantado é tomado pela emoção, pelo modo como as coisas se passam. É nítido que não se trata meramente de um compromisso profissional de músicos, mas quase de uma obrigação de cunho religioso, do âmbito da fé.

Este era o espírito do Botequim do Império, daquele Botequim original, que deixou saudade e está revivendo agora. Por isso, tenho certeza de que vai em frente e terá vida longa. Se depender de Paulinha e Graziele, madrinhas do Botequim, vai longe. Ouvir cantar, ao final da tarde, "Heróis da liberdade", com as pessoas de mãos dadas e os instrumentos cedendo lugar ao canto rude daquela voz coletiva me faz ter a certeza de que nosso Império é eterno. E sou grata ao Mateus Carvalho, ao Júlio Morais, ao Lucas Nunes, ao Joacyr Nogueira e a tantos outros jovens ritmistas imperianos que, lutando bravamente em defesa deste espaço de expressão, proporcionam a todos nós alegria e emoção.


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22/10/2014 09h33

Mais um ciclo que se encerra
Rachel Valença

Estamos vivendo mais uma vez o fim de um ciclo que se repete a cada ano: a disputa para escolha do samba-enredo em nossas escolas de samba. Para muitos, trata-se de um período mais emocionante do que o próprio desfile. É acompanhado com paixão, gera brigas, rivalidades, discussões infindáveis...

Muitos são os que contestam a forma atual de escolher o samba, apontando, com razão, um exagero na valorização de questões menores, como torcida, adereços e o que se convencionou chamar "o palco", ou seja, intérpretes, músicos, camisas para os (muitos) parceiros... Enfim, todo o rol de gastos que os compositores são obrigados a encarar para concorrer. Por isso, dizem, é que há tantos parceiros num samba: um ou dois compositores conseguem, sem dúvida, fazer um bom samba (não faltam bons exemplos), mas não conseguem arcar sozinhos com as despesas da disputa.

Foto: SRZD

No entanto, as disputas de samba-enredo são uma necessidade. E não apenas como forma de faturar. Elas têm sua importância como rito: ouvir os sambas a cada semana, ver como se comporta a quadra, ver como age a bateria, tudo isso contribui para consolidar nossa preferência. Seria provavelmente desastroso escolher o samba no dia da primeira audição, sem amadurecimento suficiente e sem estudo. E estudo não significa apenas a análise da letra em face da sinopse do carnavalesco, a análise da melodia em função do canto da coletividade. Significa a observação do comportamento dos componentes em relação ao que ouvem.
Se me permitem um depoimento pessoal, lembro-me que para o carnaval de 2008, quando o Império Serrano reeditava o enredo sobre Carmen MirandFotos: SRZDa, mas com novo samba, a disputa foi acirrada e havia três excelentes sambas. Como parte da comissão julgadora, lembro-me claramente da eliminatória em que decidi meu voto, ao observar um casal que dançava na quadra e fazia uma coreografia muito adorável no trecho que dizia "se internacionalizou / samba ioiô/ fez o Tio Sam sambar / samba iaiá". Ninguém lhes encomendara ou sugerira nada, apenas se divertiam com espontaneidade, provocados pelo que estavam ouvindo. E eu percebi que aquele era o samba capaz de mexer com a criatividade e a emoção do componente, exatamente o que o Império precisava naquele momento. Meu voto ajudou o samba a vencer e o Império foi campeão num desfile avassalador, pura emoção.

Talvez a falta de observação seja a razão de tantos equívocos em matéria de samba-enredo atualmente. Será que as pessoas que escolhem - seja quem for - de fato analisam todos os aspectos que envolvem um bom samba, ou simplesmente se deixam levar pelos nomes dos compositores? Este é o samba de Fulano, que ganhou no ano passado. Logo, é melhor do que aquele outro, cujo autor ninguém sabe quem é. Reproduz-se no interior da escola exatamente o que se condena nos julgadores dos quesitos no desfile.

Fotos: SRZD

Por outro lado, é triste reparar que a cobertura jornalística das eliminatórias e das finais aborda preferencialmente aspectos secundários, como a quantidade de torcida, as alegorias e adereços utilizados e outras questões periféricas e deixa de dar aos leitores informação sobre as características dos sambas concorrentes. Talvez por medo de avaliar, talvez por falta de interesse ou de vivência para fazê-lo.

Este ano duas agremiações fugiram a essa modelagem cruel: a Viradouro, que não teve concurso para escolha de samba-enredo, optando por desfilar com uma adaptação de dois sambas do saudoso Luiz Carlos da Vila; e a São Clemente, que realizou sua disputa a portas fechadas, sem permitir a entrada de "estranhos" à escola, o que só aconteceu na final, tentando assim evitar que o foco se deslocasse da qualidade do samba para toda a produção que se convencionou utilizar para acompanhá-lo.

São caminhos diferentes, tentativas de escapar de um padrão de conduta que tem sido criticado e que de fato está pedindo uma reflexão mais profunda. As consequências nos mostrarão se foram válidas. O tempo dirá. Mas o assunto precisa ser debatido para se tentar chegar a uma solução que não sacrifique o bolso do compositor nem a qualidade dos sambas.

Em tempo: nada do que aqui escrevi se aplica a minha escola: lá a escolha do samba foi quase uma unanimidade e a obra, assinada pelas maiores estrelas de nossa ala de compositores, tinha todos os méritos para vencer. Mas disso falarei mais adiante.


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07/08/2014 09h03

Carnavália-Sambacon: um balanço
Rachel Valença

No último fim de semana, a grande pedida para os sambistas foi a feira de negócios Carnavalia-Sambacon. E feira de negócios é bom programa? Claro, porque nosso negócio é carnaval. A ideia é antiga, há pelo menos vinte anos ouço falar em projetos de realização de um encontro de sambistas mais amplo do que os que normalmente se realizam, ou seja, algo que incluísse, além de debates e confraternização, um espaço para divulgação de negócios e produtos relacionados à nossa maior festa. Finalmente, de 31 de julho a 2 de agosto, ela se materializou.

Foi apenas a primeira, mas considero que foi muito bem-sucedida. Os expositores eram de várias naturezas, mas houve muito capricho em estandes e apresentação de produtos e serviços: lojas de venda de artigos carnavalescos, instituições de formação de mão de obra, projetos, órgãos de comunicação, entidades representativas, de tudo um pouco. A gente circulava, revia amigos, ouvia bons sambas e matava um pouco a saudade, porque fevereiro está longe.

- Clique aqui e leia tudo sobre a Carnavália-Sambacon

Carnavália-Sambacon. Fotos: Henrique Matos

No quesito das apresentações artísticas, houve na minha avaliação dois grandes momentos: a roda de partido-alto comandada por Tantinho da Mangueira, um rei do improviso, à qual aderiram figuras como Elmo e Alvinho, que mostraram que as atividades administrativas que hoje os absorvem não lhes roubaram de todo a paixão do samba puro. O desfile, pelas ruas formadas pelos estandes, dos casais de mestres-salas e porta-bandeiras das escolas mirins foi outro momento de emoção e prova de força daquele que "agoniza mas não morre".

Os debates que constituíram o Encontro Nacional de Samba foram bem organizados e alguns despertaram muito interesse, com excelente público. Os mediadores têm, é claro, grande responsabilidade no sucesso de uma mesa de debates, pois a forma de condução é primordial. Nem sempre houve acertos nesse quesito, mas em duas mesas as coisas fluíram bem e por sorte tratavam de assuntos relevantes. Gestão das escolas de samba, por exemplo, um assunto muito atual e vibrante, foi uma excelente mesa, com a participação de presidentes de entidades representativas de outros estados que nos trouxeram seus problemas e experiências. Mas a estrela absoluta foi mesmo a nossa Liesa. Pensará o leitor que se trata de uma obviedade, já que a Liesa era a promotora do evento. Não. A Liesa brilhou porque Jorge Castanheira, seu presidente, é um achado. Sem dizer ou fazer nada que os presidentes anteriores da Liga não assinassem embaixo, tem, no entanto, um tom totalmente diferente de todos eles. Com humildade, com voz branda e palavras educadas, apresenta os fatos de maneira arrumada e até encantadora. Tem conhecimento e convicção e não repete um discurso decorado, fala com emoção e indignação em alguns momentos.

É claro que eu gostaria de ter ouvido sobre o assunto um presidente que creio que teria muito a dizer sobre organização e visão empresarial, exatamente porque lida com a carência e consegue driblá-la com muito acerto: Tê, da Império da Tijuca. Mas não havia presidentes de agremiações no debate, e se houvesse certamente não seria o de uma escola que está no acesso. Pena! O evento poderia ter perdido um pouco o caráter chapa-branca que incomodou em alguns momentos.

Carnavália-Sambacon. Foto: Henrique Matos

A mesa de encerramento, na noite de sábado, foi outro ponto alto do Encontro. Tratava da cobertura do carnaval na mídia e seu sucesso se deveu, em grande parte, ao experiente Miro Ribeiro, que mediou o debate com graça e eficiência. Falou-se da cobertura do pré-carnaval, em que as escolas de samba vêm perdendo espaço, e do desfile, inclusive das condições de trabalho dos profissionais na Sapucaí. Também foi abordado o tema da divulgação das próprias escolas, que aos poucos se conscientizam da necessidade de contratar profissionais para este fim, e os programas de rádio e TV que têm o samba e o carnaval como temas.

Em matéria de carnaval, muita coisa está precisando ser debatida. Acabada a Copa do Mundo e tudo que ela nos proporcionou de alegrias e tristezas, de surpresas boas e de decepções, podemos, creio, tirar algumas lições do futebol. Assuntos não faltam: que venham os debates.

 

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19/05/2014 12h46

Eleições no Império Serrano: de luto
Rachel Valença

Peço licença aos meus leitores para falar de um assunto que não é só meu, como pode parecer a alguns. Antes fosse! É um assunto que afeta uma das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro e por essa razão tem ocupado recentemente o noticiário de veículos de comunicação, o que me deixa à vontade para falar dele também.

Preferiria que o meu Império Serrano ocupasse o noticiário por outras razões, mas ei-lo exposto na mídia pela incapacidade de diálogo de seus mais notórios sócios, aqueles que pretendem ocupar cargos de direção.
Ontem, na porta da sede desde muito cedo, com o intuito de votar, como associada que sou há mais de 40 anos, o espetáculo de intolerância me deixou acabrunhada. Como já deixei aqui bem claro inúmeras vezes, eu amo o processo eleitoral, amo a democracia, nunca me canso de louvar o fato de haver eleições livres, comandadas por uma mesa eleitoral escolhida em consenso e por isso respeitada. Já fui presidente de uma dessas mesas, numa eleição no início da década de 1990, uma disputa acirrada, como sempre. E me vi em cima do palco da quadra, com uma urna de papelão cheia de votos e cercada por representantes das chapas muito agitados e vibrantes, mas não temi pela minha segurança: os votos foram contados, o resultado proclamado por esta baixinha, e todos, satisfeitos ou não, se curvaram respeitosamente a ele. Confesso que foi um dia de muita alegria para mim, não pelo resultado, mas pelo processo democrático, de uma beleza enorme. Não havia segurança, não havia TER, mas havia confiança e respeito por uma agremiação que era de todos.

- Processo eleitoral no Império Serrano é suspenso por liminar judicial

Fotos: Reprodução de Internet

Nas eleições imperianas, aliados de hoje já foram adversários em eleições passadas; dentre os atuais adversários se contam amigos queridos, que não deixarão de sê-lo por estarem neste momento em campo oposto. Como isso é bonito! Melhor dizendo: como isso era bonito! Porque hoje há principalmente ódio e interesse, que, como se sabe, não são bons companheiros. Ouvi por exemplo de um querido amigo, um imperiano histórico, ao perguntar-lhe por que não compusera, como vice, a chapa que apoia, que preferira não fazer parte da chapa e, em caso de vitória, ser contratado como diretor de barracão. E completou: "Como vice não ganho nada, vou trabalhar de graça. Como diretor de barracão posso ganhar algum..."
Não imaginam como essas palavras me doem. É triste ver alguém se referir desse modo à enorme honra que é fazer parte do Conselho Diretor de nossa escola, com todos os sacrifícios que isso nos impõe. E imediatamente me lembrei daqueles bravos trabalhadores do porto do Rio de Janeiro, que, ao fundar o Império Serrano na década de 1940, contribuíam com um percentual de seus salários para que a escola se tornasse a potência devastadora que foi em seus primeiros desfiles. Hoje, ao contrário, só se trabalha pelo Império com salário, e nem um imperiano tradicional foge a essa regra de maldição.

Ontem, ao responder a um jornalista que quis me ouvir sobre o assunto, fui sincera ao dizer que não sei em que momento nosso trem saiu dos trilhos. Pois até hoje existe gente que só quer o bem do Império Serrano, sem exigir nada em troca. Mas é pouca gente. E precisaria de muito mais.
Não tivemos eleições, sabe Deus quando as teremos. E enquanto outras escolas, que concorrerão conosco em 2015 cuidam de seu carnaval, no Império Serrano a falta de união e de diálogo oferece ao mundo um triste espetáculo.

Outro imperiano histórico que se encontra em posição antagônica à minha na presente eleição chegou ao cúmulo de me afirmar, diante de testemunhas, que a situação iria piorar e que acabaria "morrendo gente". A resposta que lhe dei quase me levou às lágrimas, mas foi sincera e se a reproduzo aqui é na tentativa desesperada de despertar a consciência sobre o absurdo que está ocorrendo: espero que não morra gente, mas já estão tentando matar o Império Serrano.

Tenho fé que tudo se resolverá, pois a situação por que passa nossa escola recomenda que se sentem todos os envolvidos em torno de uma mesa para pensar numa saída, sem levar em conta vantagens pessoais ou mortes e vinganças, mas somente buscando uma solução para a grave crise que atravessamos. Para isso, seria preciso que houvesse amor e devoção, coisas cada vez mais raras nas escolas de samba.


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12/05/2014 13h51

O ciclo eleitoral das escolas de samba
Rachel Valença

Nem todas as escolas de samba realizam eleições. Das que as têm, algumas são pra valer, outras, mera formalidade com o objetivo de dar cunho legal a situações previamente acertadas. É claro que estou falando aqui apenas daquelas onde há eleição livre, com normas previamente estabelecidas num estatuto ou regimento em vigor.

Observo que em geral os mandatos são de três anos. No primeiro, o candidato vencedor conta com o apoio da maioria, é amado, elogiado, louvado, nele se depositam esperanças quase messiânicas. Passa-se o primeiro carnaval, o salvador da pátria luta como um condenado, enfrenta muita cobrança e conta com pouca ajuda. Se os resultados de seu trabalho são excelentes, mesmo que não lhe rendam um título, ele segue em frente, ainda com algum apoio, mas a cobrança cresce e os descontentes já engrossam um coro cada vez maior. Acabado o segundo carnaval, com menos ajuda do que no primeiro, porque em geral já há dissidentes em sua própria equipe, o herói de um ano antes se transforma em vilão. E mais um carnaval, o último de sua gestão, irá provavelmente transformá-lo no inimigo público número um.

Ao mesmo tempo, vão surgindo novos nomes, candidatos a heróis. Com a certeza de que triunfarão onde outros naufragaram, se lançam em campanha, às vezes prometendo o que sabem que não poderão cumprir, às vezes acreditando de fato que é perfeitamente possível fazer tudo aquilo que seus antecessores não fizeram por inépcia ou má-fé.

Foto: Diego Mendes

O que será que, nas escolas de samba, transforma heróis em vilões num espaço tão curto? Estou convencida de que, além de mudar a forma de gestão, seria imprescindível mudar também a mentalidade dos próprios eleitores, os associados, que votam e no dia seguinte estão cobrando. Na melhor das hipóteses, cobrando resultados; na pior das hipóteses, cobrando camisa, ingresso, camarote, cerveja. E se esses favores são negados, o eleitor fica indignado: "Votei em você e você me nega uma coisa tão pequena?"

A mudança interna deveria começar pela consciência daquilo que esperamos obter com nosso voto: um dirigente que nos favoreça ou um dirigente que tenha como prioridade o sucesso da agremiação? Sei que é difícil mudar mentalidades arraigadas, mas estou certa de que enquanto tais mudanças não se operarem continuaremos a vaiar nossos ex-ídolos e a buscar um novo herói para ocupar o pedestal.

Na manhã do último sábado participei de uma mesa-redonda no Fim de Semana do Livro no Porto, um evento lindo, bem organizado, de grande impacto cultural. Fui convidada pelo curador Luiz Antonio Simas a falar das relações do Império Serrano com o porto no momento de sua fundação, em 1947. A figura central da minha fala foi, como não podia deixar de ser, Elói Antero Dias, esse grande líder da negritude em nossa cidade. E ao contar mais uma vez esta linda história de amor à liberdade e à democracia, senti orgulho porque a escola fundada por seu Molequinho e inspirada na estrutura e na organização da Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, uma entidade sindical de base étnica, a escola de Mano Elói e de tantos outros bambas continua no bom caminho da democracia: no próximo domingo teremos eleições livres, ao que tudo indica com a participação de quatro chapas.

A semana que passou foi conturbada, com brigas e tentativas de quebra dos trâmites pré-eleitorais. É muito ruim ver nossa escola associada a acontecimentos como esses. Sempre acreditei que os nossos problemas devem ser resolvidos internamente, com a franqueza necessária, sem precisar recorrer a expedientes externos que fragilizam a agremiação. Para isso há um estatuto. Preocupar-se com seu cumprimento só na véspera da eleição é oportunismo.

Não sou favorável a lavar roupa suja fora de casa, por isso não desejo expor problemas internos que são exclusivamente da escola. E lamento que o Conselho Deliberativo, que foi omisso e se calou durante toda sua gestão, venha agora fazer isso recorrendo à justiça para resolver uma atribuição que foi sempre sua e apenas sua.

Teremos eleição no próximo domingo e espero que vença o melhor. Para isso, nós, os eleitores, devemos analisar quem são os candidatos, o que já fizeram - de bem e de mal - para a escola e como é sua conduta como cidadãos. Atos contam bem mais do que palavras. Mas sobretudo devemos nos conscientizar da responsabilidade do voto, que implica um compromisso. O voto é o início de um processo no qual temos de nos envolver de corpo e alma. Se votamos num candidato, assumimos o compromisso de apoiá-lo, colaborar com ele, estar com ele na luta por uma escola forte e vitoriosa como todos queremos. Sem isso, fatalmente daqui a três anos estaremos execrando este mesmo em quem hoje depositamos todas as esperanças. E isso não vale só para o Império Serrano não: vale para todas as escolas de samba onde a voz do sambista ainda é ouvida.



23/04/2014 19h13

Grandezas e misérias do carnaval que passou
Rachel Valença

À medida que o tempo passa, vamos desapegando do carnaval de 2014 e enxergando-o com distanciamento crítico, sem o calor da hora, sem as paixões do pós-carnaval. Já digerimos as notas, as justificativas, as injustiças cometidas. Amantes do carnaval que somos, vivemos do recomeço: no final de abril já se fala mais em 2015 do que em 2014. É natural.

Foto: Divulgação

Mas por isso mesmo me sinto tentada a ainda falar de coisas que me alegraram e de coisas que me entristeceram na festa que passou. Fica combinado que não vale falar de classificação, nem de nota, nem de justificativa. Vou tentar me ater à festa propriamente dita, vivida por mim intensamente em quatro noites inteiras na Passarela do Samba, assistindo, desfilando, trocando ideias com amigos, ouvindo os comentários dos populares que me cercavam - estive em vários setores, ora em frisas, ora em arquibancadas, na pista, na concentração e na dispersão. Como qualquer pessoa, me alimentei, usei os banheiros, me indignei, me emocionei. Como alguns, trabalhei.

Comecemos pelas grandezas: a primeira delas é a sobrevivência do desfile, apesar dos prenúncios catastróficos de seus críticos. Tudo vai mal, dizem eles. Também eu digo isso às vezes, mas o fato é que lá estão as escolas, em seu tremendo esforço para se superarem a cada ano, para trazer novidades, para seduzir. E conseguem tudo isso, sabe Deus a que preço. Talvez exatamente por isso haja tanta beleza e magia no espetáculo que oferecem. Contra todas as previsões, o desfile está aí, lindo, empolgante, surpreendente.

A principal grandeza da Sapucaí este ano foi exatamente a diversidade. Pôde-se assistir a apresentações tão diferentes quanto a da Unidos da Tijuca, cheia de modernidade, a do Salgueiro, luxuosa e pesada (no bom sentido), e a da Portela, uma escola de samba às antigas, com samba de enredo e tudo que a tradição recomenda. Foi espetáculo para todo gosto.

Outra grandeza deste carnaval foi ver a União da Ilha se apresentar como uma grande escola, linda, organizada e vibrante. Não faz muito tempo ela amargou um longo período no grupo de acesso, conseguiu subir e permanecer no especial e ao que tudo indica está forte o suficiente para partir pra cima das mais poderosas com competitividade, furando o bloqueio ou a blindagem que parece imperar. Aleluia!

Louvo também as mudanças políticas que nos permitiram voltar a ouvir falar em Mangueira e Portela, que estavam nos últimos anos meio tristinhas e enevoadas por gestões equivocadas. São duas grandes forças do carnaval do Rio de Janeiro e sem elas a festa perde, sem dúvida, parte de sua pujança.
As misérias, felizmente, dizem respeito mais à infraestrutura do que ao desfile propriamente dito. Vamos a elas: por mais que eu viva, nunca compreenderei por que não se cuida melhor do som na Passarela do Samba. Ele é fundamental e me sinto até envergonhada de afirmar coisa tão óbvia. Mas parece que os organizadores não veem o óbvio. Ou será que não querem ver? Diz um antigo samba da minha escola: "Pior cego é aquele que enxerga e não quer ver". Pois ouvi de muitos especialistas a confirmação do que parecera aos meus ouvidos leigos: o som não é igual para todas as escolas, a ponto de algumas delas contratarem a peso de ouro técnicos para acompanharem a empresa responsável. Peraí! O som não é um serviço básico, parte do espetáculo? É preciso acompanhar? Pra quê?

A iluminação é mais democrática, ou seja, ruim para todas as escolas. Ela é a meu ver insuficiente, e a explicação é que deverá realçar a iluminação cênica dos carros. Mas escola de samba não é só carro não. Eu gostaria que o sambista fosse o principal, mas paciência... Já estou me acostumando a considerar isso coisa do passado. Mas daí a deixá-lo na penumbra é um pouco demais.

Outra coisa que nunca fui capaz de compreender: se as pessoas saem de suas casas naqueles dias para ver o espetáculo oferecido pelas escolas de samba, se a festa dos sambistas atrai pessoas do mundo inteiro, por que é que se tem de oferecer aos presentes um outro espetáculo paralelo? Confesso que sempre achei desrespeitoso que os camarotes ofereçam a seus convidados Vips outras alternativas de lazer e entretenimento musical. É como se o Teatro Municipal oferecesse, em dias de récita, um grupo de pagode tocando em seu foyer. "Você veio assistir a uma ópera, mas quem sabe para variar gostaria de ouvir um sambinha?" Não rola. Mas na Sapucaí tem grupo de pagode tocando durante o desfile, na Praça da Alimentação, e, pior, tem batidão de funk nos camarotes.

Nas arquibancadas do Setor 10, ali bem em frente ao recuo da bateria, as escolas ainda estavam em desfile e já se ligava o som do camarote do Porcão, tão alto que nem se ouvia mais a bateria. Além de uma tremenda falta de respeito com os sambistas e com o público que pagou, é uma falta de lógica. Pois supõe-se que alguém que vai à Sapucaí durante o carnaval é porque gosta de samba. Vou morrer sem entender.

O capítulo mais cruel é o dos banheiros. Em todos os recantos da Passarela - lado par ou lado ímpar, frisa ou arquibancada - o problema é o mesmo: banheiros péssimos e insuficientes. Será que ao se planejar um espaço que deverá abrigar um número grande de pessoas não se pensa em adequar o tamanho dos banheiros a esta contingência? As mulheres são sempre as que mais sofrem nesse quesito e as filas gigantescas nas portas dos banheiros femininos em todas as dependências da Passarela eram agravadas pelo fato de que em alguns casos havia reservados trancados, por apresentarem defeito, e só havia um reservado funcionando. Não seria o caso de estabelecer um plantão para reparos de emergência?

O Sambódromo já passou por inúmeras obras e em muitos aspectos melhorou. Mas ninguém parece se preocupar com a péssima impressão que causam ao turista a sujeira e a precariedade dos banheiros.

Como disse anteriormente, as misérias são sim da festa, mas não de seus protagonistas, os sambistas. Felizmente. Porque não deve ser difícil saná-las, desde que haja vontade política. Se nossos dirigentes amam o samba, é hora de mostrar isso com atitudes mais concretas do que beijar atabalhoadamente suas bandeiras, um ritual cheio de significado quando praticado com lastro de respeito indispensável.


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08/04/2014 23h04

Não tem preço
Rachel Valença

Algumas vezes já comentei aqui a melancolia que acomete os amantes do Carnaval logo após o término da festa. Aliás, todo ano eu falo disso. Parece que nunca mais será Carnaval de novo e a gente se pergunta como vai sobreviver tanto tempo sem ele.

Um dos consolos da nossa depressão pós-momo são as festas de entrega de prêmios. Além de simbolizar o justo reconhecimento ao trabalho daqueles que fazem do carnaval o maravilhoso espetáculo que ele é, elas são uma oportunidade de matar a saudade da nossa gente e dos momentos de êxtase que nos proporcionaram na Sapucaí.

A nossa festa, a entrega do Prêmio SRZD-Carnaval, foi especialmente alegre e vibrante este ano. Em parte porque, tendo sido os premiados criteriosamente escolhidos, ali estava a nata do samba, o que passou de melhor na Sapucaí em 2014.

Prêmio SRZD-Carnaval. Foto: Ary Delgado

Muito feliz a iniciativa de premiar, como estímulo, participantes dos grupos de escolas de samba que desfilam fora da Sapucaí, na Intendente Magalhães. Em nenhum outro lugar o amor pelo samba é tão patente. Grande prova disso é o passista mirim Marcos Kauã, que não se limitou a sambar com animação na hora de receber o seu prêmio: sambou todo o tempo!

Também adoro a participação na festa da melhor escola do carnaval de São Paulo. O show da Mocidade Alegre foi muito lindo, com sua bateria cheia de bossas, suas passistas, baianas, enfim, tudo de melhor que tem para mostrar. Vindos de outro estado, não pouparam esforços para mostrar seus trunfos, entre os quais o já consagrado intérprete Igor Sorriso, que é sempre um prazer ouvir.

Quanto às premiadas da Série A e do Especial, muita coisa boa passou por aquele palco no sábado, mas cabe destacar alguns momentos de empolgação. Lembro-me que no dia da votação do prêmio, ainda lá na Sapucaí, votei com convicção na Ala de Baianas da Grande Rio, na esperança exatamente de poder vê-las de pertinho no dia da premiação. Consegui! Lindas, emocionantes, simples em sua riqueza, simbolizavam Nossa Senhora do Amparo. Vendo-as, dá pra entender por que o jovem Fábio Ricardo abiscoitou o cobiçado prêmio de melhor carnavalesco do grupo especial.

Em matéria de comissão de frente, por exemplo, a Série A deu um "banho". A comissão da Caprichosos de Pilares apresentou-se completa e fantasiada e deu um jeito de mostrar no palco sua criativa coreografia, levando o público ao delírio. Já da União da Ilha foi só o coreógrafo Jaime Aroxa e um par sem fantasia. A apresentação foi salva pelo puxador Ito Melodia, que deu um show de animação e de simpatia, bem no clima do enredo da escola este ano.

Aliás, foi um privilégio ouvir numa mesma noite tantos intérpretes, pois as escolas se apresentam quase sempre com seus sambas ao vivo, acompanhados pelas baterias premiadas. Por isso, tivemos, além dos já citados, os premiados Ciganerey, da Inocentes de Belford Roxo, e Tinga, da Unidos da Tijuca, e ainda Emerson Dias e Wantuir, para não citar todos...

Luxo dos luxos foi receber o compositor Moacyr Luz, que com o parceiro Cláudio Russo recebeu o prêmio de melhor samba-enredo da Série A. Era dia de seu aniversário, mas Moacyr fez questão de comemorar conosco.

Outro momento de intensa emoção se deveu a outro compositor de grandes sambas, o veterano Djalma Sabiá, do Salgueiro, autor, dentre outras obras-primas, do inesquecível Chico Rei. Mas não foi nenhum de seus sambas que lhe valeu o prêmio de Destaque do Grupo Especial deste ano: foi o seu incansável trabalho de preservação da memória do samba carioca, guardando em sua casa, no morro do Salgueiro, tudo que diz respeito à trajetória e à memória de sua escola.

Depois de tudo isso, vejo-me obrigada a admitir que os dois grandes momentos de emoção na festa são ambos ligados às baterias. Não é de espantar. É nelas que pulsa o coração do samba. A entrada no palco da bateria da Vila Isabel, por exemplo, deixou entrever o momento que a escola vive. No ano passado era a campeã e foi premiada como melhor escola, comemorando numa apresentação impecável. Este ano a Swingueira de Noel demorou a chegar, pisou o palco timidamente, com os ritmistas entrando e saindo de cena para vestir na última hora a bonita camisa que usaram. Mas tocou lindamente e, ao receber o troféu, mestre Wallan o colocou simbolicamente em cima de um surdo, à frente do grupo. Gesto ritual de imensa poesia, ele compensou e se sobrepôs a tudo que se poderia pensar naquele momento. Não era hora de pensar, mas sim de sentir.

Quando a Portela surgiu para sua apoteótica apresentação de melhor escola, soberana e grandiosa em seu samba magnífico, em suas figuras lendárias como Wilma, Jerônimo, Surica e tantos mais, ainda estava lá a bateria da Vila Isabel para acompanhá-la. Mas não sozinha. A ela se juntaram ritmistas da União do Parque Curicica, da bateria premiada que havia tocado na parte da festa que premiava a Série A, e também da Mocidade Alegre. Não havia uma formação tradicional de bateria, tocavam em roda, interagindo, unidos pela força maior do samba deste Brasil brasileiro. Coisa mais linda de ver! Como diz uma peça publicitária da atualidade: não tem preço.


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