Notas carnavalescas 2013

Rachel Valença | Rachel Valença | 18/02/2013 16h13

Tendo assistido a 29 desfiles de escolas de samba, participado de um e perdido o que antecedeu a este, por causa da concentração, muita coisa há a dizer. Começo por um lamento: não tive forças para ir assistir, na terça-feira gorda, aos desfiles da Intendente Magalhães e deixei de ser campeã pela intrépida Mocidade Unida de Santa Marta, pela qual desfilaria. Axé, Santa Marta! Salve a Em Cima da Hora, de volta à Sapucaí em 2014. E salve a Unidos de Bangu, que após enrolar a bandeira ressurgiu e conseguiu subir, graças à determinação de gente bacana como o bamba Rafael Marçal, que correu atrás do sonho e o viu realizado.
Depois da lamentação, a alegria: Sambódromo cheio quatro dias! Apesar dos preços altos, todo mundo apertou um pouquinho mais o cinto e foi ver de perto o maior espetáculo da terra.

E quem não foi, se fiando na transmissão da Globo, se deu mal. A Globo não respeita o que se passa ali, transmite o que quer do jeito que lhe apraz, e quem não estiver satisfeito vá se queixar ao bispo... Ressalva feita aos comentaristas Milton Cunha e Chico Spinoza, gente que entende do riscado, que sabe o que diz. Não deveria ser este o caso de toda a equipe?

Começo comentando a Série A e fazendo o meu mea-culpa: o resultado foi muito mais coerente do que eu esperava de uma instituição inventada, tapa-buraco, como a LIERJ. A vitória da Império da Tijuca foi muito bonita, consagrando um desfile emocionante. As notas no geral nem sempre tiveram a coerência desejável, mas não geraram nenhum absurdo. E não posso deixar de mencionar um dos momentos mais interessantes do meu carnaval, a passagem da bateria da Alegria da Zona Sul fantasiada de nega maluca. Era um espetáculo e muito coerente com o enredo sobre o Bola Preta.

No Grupo Especial a vitória da Vila Isabel foi merecida e a carnavalesca Rosa Magalhães soube mais uma vez dar nó em pingo d’água para fazer de um abacaxi de enredo um desfile original e emocionante. Claro que o samba ajudou e muito. Na verdade, mais do que ajudou: foi quase o protagonista da vitória, porque funcionou muito bem no desfile. Eu, que no disco tinha preferência pelo samba da Portela, após o desfile reconheço que o da Vila foi mais cantado pela escola e pelo público e se revelou antológico.

Samba de enredo precisa de contexto. Não é uma obra para ser ouvida em disco, está a serviço de um enredo, de um desfile. Só ali pode ser plenamente avaliado. Aliás, o mesmo acontece com os enredos, e novamente recorro ao mea culpa para atualizar meus comentários críticos aos enredos da Mangueira e da Imperatriz Leopoldinense. Na Avenida ambas me surpreenderam positivamente. A Mangueira veio bem fantasiada como há nos não se via e fez um desfile empolgado. Teve seus tropeços, é verdade, mas a opção por uma boa evolução, mesmo que custe uns décimos de penalidade, é prova de respeito ao público. Coisa técnica demais é muito chato e a chatura é o maior dos pecados na Sapucaí, o único imperdoável.
Já a Imperatriz deu um show de emoção, de elegância e - pasmem - de alegria! O carro do mercado Ver o Peso era maravilhoso e as índias mãe e filha, logo no início do desfile, me arrancaram lágrimas em sua simplicidade e despojamento. E a ala de baianas, que coisa linda...

No mais, o Salgueiro deslumbrante e a Unidos da Tijuca pagando carma por algo que não nos é dado ver. Porque o que se vê é o talento e a criatividade de Paulo Barros, talvez com um pouco menos de ousadia, mas ainda na vanguarda e ditando moda e estilo às coirmãs.

Um grande momento? O esquenta da bateria da Portela em frente ao Setor 1. Aquilo é samba. Improviso, emoção, religiosidade, verdade. Quem é malandro não pode correr...

Um fato triste? O sexto lugar da Grande Rio. Com todo o respeito, melhor nem comentar...

Não toquei nem de passagem na performance das comissões de frente, porque pretendo me estender numa reflexão sobre elas num próximo texto.

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Mais um Carnaval...

Rachel Valença | Rachel Valença | 12/02/2013 18h45

Assisto ao desfile das escolas de samba há muitos anos. Muitos mesmo. Mas isso não me isenta do sentimento de expectativa quase dolorosa que me toma nesta semana que antecede o carnaval.

Os saudosistas afirmam que o desfile de hoje não é tão emocionante quanto o de antigamente. Dizem que os sambas eram melhores, que o andamento das baterias era diferente, enfim, que hoje nada presta. Na verdade, creio que mudaram, envelheceram, deixaram de amar o carnaval e não querem admitir isso. Põem a culpa no carnaval, em vez de se darem conta de que eles é que mudaram, ou, pelo menos, de que também mudaram.
Eu também sinto saudade dos carnavais que passaram. Lembro da manhã - dia claro - em que a Mangueira passou com seu Monteiro Lobato, que a faria campeã naquele ano de 1967. Lembro da visão de Wilma vestida de preto e branco, maravilhosa, no desfile da Portela em 1979, Incrível, fantástico, extraordinário. Era a expressão máxima da beleza, da leveza, da graça, que me levou às lágrimas. Ainda ouço o canto da arquibancada consagrando o samba de enredo do Império em 1982, Bum Bum Paticumbum Prugurundum. Lembro do dia da inauguração do Sambódromo, com as escolas do acesso, a entrada do Arrastão de Cascadura, entoando um samba que dizia "É folia/ Cidade Maravilhosa/ Pisa nesta passarela/ Nossa escola suntuosa", e me levando às lágrimas justamente porque era tudo menos suntuosa... Lembro do emocionante desfile da Santa Cruz, em 1991, com o enredo O Boca de Inferno, em que faltou luz no sambódromo.

Jamais esquecerei a surpresa magnífica do Sonhar com rei dá leão, da emergente Beija-Flor de 1976. Nem a alegria contagiante do Domingo da União da Ilha, em 1977. A entrada triunfal da Imperatriz em 1980, com o esplendor de Arlindo Rodrigues e a trilha de um samba perfeito, O que é que a Bahia tem? E em 1985 o gênio de Fernando Pinto levando a bandeira da Mocidade ao espaço sideral e deixando nossos corações aos saltos.
E quando achávamos que nada mais poderia emocionar, veio a Vila Isabel com Kizomba, a festa da raça, e mostrou que a velha receita do samba de verdade ainda tinha espaço em nossas emoções.
Foram momentos inesquecíveis, divinos, e se passaram há muito tempo. Impossível não sentir saudade. Mas a saudade não me impede de apreciar novos momentos de emoção proporcionados por um bonito samba de enredo, pela beleza plástica de um carro alegórico, pela arte da dança de um casal de mestre-sala e porta-bandeira, pela força de uma bateria.

Em 2004, o impacto do carro do DNA de Paulo Barros na Unidos da Tijuca me atingiu em cheio. Em 2007, a beleza das Candaces do Salgueiro me encheu os olhos. Por isso, ainda espero muito das escolas de samba e não tenho de que me queixar.

Se as notas dos julgadores são absurdas, se a plateia está longe de ser a que eu gostaria de ver lá, estas são questões periféricas ao desfile. Os sambistas, qualquer que seja sua posição, não me decepcionam. Por isso é que espero com sofreguidão a hora de ver o que este carnaval de 2013 nos reserva.

Como virá a comissão de frente da Unidos da Tijuca? As duas baterias da Mangueira funcionarão? Mal posso esperar para ver como Rosa Magalhães vai trazer a sua Vila, tornando talvez um enredo pouco expressivo num momento de beleza. Ou como a Mocidade Independente de Alexandre Louzada vai mesclar samba e rock na dose certa. Quero ouvir as arquibancadas cantarem o samba da Portela em louvor a Madureira. Quero ver Selminha e Claudinho rodopiando e sorrindo com a Beija-Flor. Espero me emocionar com a história de Vinícius de Moraes em seu centenário, que a União da Ilha homenageia. E me divertir com as loucuras do Quinho ao cantar o samba do Salgueiro. Quero muito da Imperatriz, da São Clemente, da Inocentes, da Grande Rio.

Tenho certeza de que essas escolas e mais as 19 da Série A, que são o que conseguirei assistir este ano, vão nos proporcionar muita coisa boa, muita novidade, muita emoção. Enquanto puder sentir esta maravilhosa expectativa, esta agitação, é sinal de que ainda se pode esperar muito das escolas de samba, sem risco de decepção.
Feliz Carnaval para todos nós!

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Enfim, os sambas da Série A!

Rachel Valença | Rachel Valença | 31/01/2013 17h04

Sei que estou devendo estes comentários há semanas. Mas, sinceramente, não é fácil comentar um conjunto de 19 sambas de enredo. E volto à mesma tecla: por que fizeram a violência de reunir num só grupo um número tão absurdo de agremiações?! Você ouve o Disco 1 com muita atenção, passa para o 2, e no fim já não se lembra mais dos primeiros sambas que ouviu. Volta a ouvir saltando faixas para comparar, e por aí vai a trabalheira.

Antes de entrar no mérito dos sambas propriamente ditos, falo do CD como objeto. Sua apresentação é muito superior à do CD do Grupo Especial, bem antigo. O que temos nas mãos é um produto leve e moderno, com capinha acartonada, fotos bonitas, num trabalho gráfico decente. É verdade que o encarte peca, em alguns momentos, pela dificuldade de visualização dos créditos, principalmente quando as letras brancas estão sobre um fundo azul marinho. Mas o conjunto agrada e muito.

Já da gravação não se pode dizer o mesmo. Embora eu não tenha conhecimento técnico para opinar, o resultado final me pareceu abafado, como se saísse de dentro de uma garrafa. O som não é límpido, o que é uma pena, porque há bonitos arranjos e alguns bons intérpretes, mas acabam não podendo ser devidamente apreciados.

Também não gosto de uns rabichos que puseram ao final de cada samba. Samba de enredo, tradicionalmente, acaba com o silêncio simultâneo do intérprete e da bateria. O que se ouve no disco é a bateria prosseguindo ao final do samba e o intérprete balbuciando umas coisas meio despropositadas. Pra quê?
Das 19 obras apresentadas, não tecerei comentários sobre a do Império Serrano, porque minha familiaridade com ela é infinitamente maior do que com as demais, o que poderia resultar em injustiça. Mas não me esquivo a declarar que acho o samba do Império excelente. Pois poderia me ser familiar e eu não gostar dele, como às vezes acontece. Gosto muito. Está dito.

Dos 18 sambas restantes, dois são reedições. Reedições de lindos sambas, por sinal, ambos da Portela. A Tradição canta o samba de 1981, Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite, um clássico imortal. A União do Parque Curicica reedita o samba de 1994, Quando o samba era samba, que eu adoro por conter uma das mais belas definições de samba que conheço: "resistência que a força não calou/ arte de improvisar". Nesta regravação, agrada a correta interpretação de Ronaldo Ylê.

Restam então 16 sambas, que eu dividiria em três blocos, utilizando a mesma metodologia dos comentários aos sambas do Especial, o sistema Ivo Boru. E mais uma vez começo de baixo para cima, agregando Acadêmicos de Santa Cruz, Acadêmicos da Rocinha, Sereno de Campo Grande, Acadêmicos do Cubango, Paraíso do Tuiuti, União de Jacarepaguá e Unidos de Padre Miguel, um festival de falta de criatividade, com sucessão de lugares-comuns de letra e melodia. Doeu incluir neste bloco a Cubango, que já nos proporcionou sambas lindos, e imagino o desapontamento dos bravos componentes ao entoar algo tão sem expressão.
No bloco acima deste se situam os sambas do Unidos do Jacarezinho, a reboque de um dos melhores enredos do ano, homenageando o centenário de Jamelão; da Alegria da Zona Sul, com a animação requerida pela homenagem ao Bola Preta, da Unidos de Vila Santa Tereza, com um refrão final muito vibrante, da Renascer de Jacarepaguá, direitinho, mas sem grande expressão, e Porto da Pedra, com uma boa letra encaixada numa melodia desastrosa.

O último bloco reúne Estácio de Sá, com um samba de refrão forte e uma segunda melodiosa para cantar um lindo enredo em homenagem a Rildo Hora (que dá show na gaita); Caprichosos de Pilares, com um samba curto, sem grandes momentos, mas valente; a Império da Tijuca, com um maravilhoso refrão final que encerra com chave de ouro mais um enredo afro dessa escola tão rica em bons sambas de enredo. O samba tem emoção, tem malícia, tem poesia, tudo na medida certa. Para ombrear com ele, neste disco, (afora o do Império Serrano) só mesmo a lindeza que a Unidos do Viradouro nos traz: um samba inovador, sem refrão, contendo referências ao homenageado Acadêmicos do Salgueiro não apenas na letra mas em alguns pontos da melodia. Coisa de bom gosto, que dá prazer de cantar, o que hoje é raro.

O disco é vendido a bom preço (R$15,00), mesmo se considerarmos que só vamos ouvir com prazer menos da metade do que está gravado. Como disse uma vez o crítico José Ramos Tinhorão, você compra 7 e leva 19...

Leia também:

- Em tempo de ensaio técnico

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Em tempo de ensaio técnico

Rachel Valença | Rachel Valença | 22/01/2013 13h07

Muito se tem escrito e debatido, aqui e em outros espaços de discussão sobre escolas de samba, a respeito dos ensaios técnicos. Leci Brandão e Tiago Lacerda já iniciaram com brilhantismo o debate no SRZD-Carnaval. Gostaria de dar prosseguimento a ele, enfocando ângulos e pontos de vista diferentes.

Não é que discorde da opinião dos dois quanto à eficácia e à importância dos ensaios. Também os considero muito úteis para familiarizar o componente com o samba, com o posicionamento de sua ala, com a forma de evolução. Os diretores de harmonia podem mapear a posição das cabines de julgadores, os diretores de bateria podem treinar manobras e calcular espaços. Tudo isso é altamente positivo.
Para o público, o ensaio técnico se tornou um programa divertido e de baixo custo. O acesso às arquibancadas é gratuito e permite a observação da escola, sem alegorias e fantasias, mas com intérprete, bateria, comissão de frente, baianas, casal de mestre-sala e porta-bandeira, passistas e, com sorte, muita animação. Benditos ensaios técnicos, que vieram movimentar e alegrar nossos fins de semana do pré-carnaval!

O problema é que esses mesmos ensaios, a princípio despojados, vão se sofisticando. As camisas passaram a ser obrigatórias para identificar componentes e numeração das alas; as baianas já se apresentam com suas armações, para tornar mais eficaz a sua evolução e demarcar o espaço que efetivamente ocuparão. A comissão de frente já quer levar alguma gracinha, garantindo, é claro, o sigilo indispensável ao fator surpresa. Os passistas já encomendam uma indumentária mais impactante e os casais de mestre-sala e porta-bandeira capricham na elegância.

Mas tudo isso tem um custo, que se soma às despesas com transporte de componentes em ônibus, caminhão para as peças da bateria, água e lanche para alguns segmentos. É preciso ainda encomendar sinalizadores de posição das alas e até pequenos tripés e outros adereços, com o objetivo de tornar mais completo e atraente o desfile.

Em tempo de vacas magras, com escolas enfrentando dificuldades até mesmo para finalizar os trabalhos no barracão e manter sua folha de pagamento em dia, tais gastos acabam por pesar. Mas não há como fugir deles, porque o ensaio técnico vai se tornando um momento perigoso: qualquer deslize expõe tremendamente a escola e quase pré-determina seu destino. Se os comentários negativos sobre um quesito se espalham e se generalizam, fica no ar uma espécie de licença para que os jurados daquele quesito (ou até de outro) o julguem com rigor, justificando que já no ensaio técnico a situação se anunciava... Ficar marcada por alguma falha no ensaio técnico pode custar muito caro à escola.

Então, não convém facilitar. É preciso buscar a perfeição já no ensaio técnico, como se ele não fosse apenas e tão somente um ensaio, mas já a competição. E haja dinheiro! Não sei não, mas às vezes essa situação me faz lembrar a volúpia suicida com que o endividado se atira aos gastos, raciocinando que tanto faz estar perdido por cinco reais ou por cinco milhões.

Sei que não é possível mudar essa situação e propor que se ponha o pé no freio e se volte a encarar o ensaio técnico apenas com um ensaio. Ele já é um espetáculo e não tem volta. Daqui talvez parta para mais sofisticação, mais invencionices, fazendo vista grossa ao fato de que os gastos dele decorrentes talvez façam falta à execução do projeto do carnaval. Numa situação, aliás, muito semelhante à gerada com a inauguração da Cidade do Samba, onde as escolas têm mais conforto e melhores condições de trabalho, mas incomparavelmente mais gastos com água, energia, segurança, etc. Dinheiro que acaba fazendo falta e sendo buscado de patrocinadores que nem sempre têm a sensibilidade de se manter dentro de parâmetros de bom gosto e até de bom senso.

Às vezes me pergunto se essa crise financeira que, segundo consta, afeta o carnaval não seria o mote para dar uma parada estratégica e repensar num tratamento melhor a ser dispensado à nossa gorda galinha dos ovos de ouro, antes que seja tarde demais.

Leia também:

- A importância dos ensaios técnicos

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Um passo atrás

Rachel Valença | Rachel Valença | 21/12/2012 18h41

Nós que gostamos de escola de samba, nós que adoramos em especial os sambas de enredo, tivemos em 2012 um momento de muita alegria e esperança. Parecia que as escolas, seus compositores e seus dirigentes tinham finalmente tomado consciência de quanto é fundamental um bom samba. Samba bom significa mais gente na quadra, mais componentes interessados em desfilar, mais facilidade em induzir o componente a cantar, maior probabilidade de ritmistas motivados.

Quantas notas boas um samba-enredo de qualidade promete garantir? Pois é. Há um ano, quando saiu o CD dos sambas do Especial, a gente se animou. Parecia que enfim as escolas de samba tinham se conscientizado disso, pois estávamos diante de uma boa safra. Havia esperança de que o samba-enredo tinha achado seu prumo e melhoraria a cada ano.

Infelizmente não foi o que aconteceu: o conjunto de sambas de 2013 é bem inferior ao de 2012. E muito me custa reconhecer isso, pois detesto os apocalípticos do carnaval, os saudosistas que afirmam que hoje em dia nada presta. Eu espero o ano inteiro por este momento de ouvir novos sambas e adoraria ter doze obras-primas. Mas confesso que está difícil.

Os enredos não ajudaram nem um pouco, admitamos. Mas a expedição científica de Langsdorff já me arrebatou no samba-enredo da Estácio em 1990, Silvio Santos já me divertiu na Tradição em 2001, e cantei o "Vou varrendo" num refrão animadíssimo de um enredo da qualidade discutível do Império da Tijuca em 1999. O samba tem desses milagres. Mas este ano os santos milagreiros cochilaram...

Vale observar que os melhores momentos dos sambas são os que falam da escola e não os que falam do enredo. Emoção ajuda um bocado, não há dúvida. Mas a louvação à escola é característica do samba-exaltação e não do samba-enredo. Este tem que ter algo de narrativo e de épico, que é que lhe confere a grandiosidade indispensável.

Seguindo a linha de raciocínio de meu amigo Ivo Boru, aliás leitor deste espaço, opto por dividir os sambas em quatro blocos, não necessariamente com o mesmo número de escolas em cada um. Começando de baixo para cima, temos o constrangedor bloco de Inocentes de Belford Roxo, Grande Rio e Mocidade Independente. Nesses três as obviedades se sucedem e a melodia é previsível e sem criatividade.

No bloco acima estão a São Clemente, a União da Ilha (que nem os esforços do excelente Ito Melodia salvaram), a Mangueira e a campeã Unidos da Tijuca. Em Mangueira se salva o refrão final, que não surpreende, mas agrada. Vinícius merecia mais do que os compositores da Ilha lhe dedicaram, numa sucessão de jargões. São Clemente fica a nos dever este ano sua graça, sua irreverência, com um samba convencional que não impressiona. Quanto à Unidos da Tijuca, o refrão final, um tanto Oswaldo Montenegro, divide desnecessariamente o que não está dividido de fato, sem que se perceba a intenção disso.

Mais acima, o samba da Imperatriz Leopoldinense tem no refrão do meio o melhor momento, mas a segunda, embora melódica, arrasta o canto e a gente se pergunta o que será isso repetido não sei quantas vezes durante o desfile. Do mesmo nível, Beija-Flor e Salgueiro lutam bravamente contra enredos ingratos, com resultados animadores, embora de qualidade apenas média. Num conjunto menos ruim, passariam despercebidos. Aqui se saem bem. O samba da Beija-Flor é... um samba da Beija-Flor, e com isso tudo está dito. O do Salgueiro me fez sentir que é carnaval: é animado. Ou será o Quinho que, com sua forma característica de cantar, me dá sempre vontade de tomar um porre de felicidade?!

No topo estão os sambas de Vila Isabel e Portela. Juntos nessa categoria, são, no entanto, bem diferentes. O da Vila é um samba tão original que quase nem é samba. Mas é lindo, melódico e tem poesia na letra. O da Portela é tudo de bom: é samba, é samba-enredo, vai desenvolvendo ideias e envolvendo a gente, dá vontade de cantar e sambar sem parar nunca mais. Confesso que o considero superior até mesmo ao da escola no ano passado, também excelente. O de 2013, talvez porque fale mais de perto à nossa carioquice, acertou na mosca, levando o coração da gente.

Sei que esses comentários vão desagradar a muitos, porque as paixões cegam e, mesmo quando na disputa preferíamos outro concorrente, agora dói ler opinião crítica ao hino de nossa escola. Procurei analisar os sambas com isenção e a partir de minha vivência. Mas opiniões devem sempre ser relativizadas. Termino lembrando que antes do carnaval de 1982 uma conceituada crítica de música da grande imprensa considerou Bum Bum Paticumbum Prugurundum o pior samba daquele ano, uma rematada bobagem, indigna de estar naquele disco. O desfile e o tempo mostraram que ela estava errada. Sem querer me comparar à famosa jornalista, afirmo que ainda há, pois, esperança, para todos. Quem viver verá.

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Meu samba, cidadão carioca

Rachel Valença | Rachel Valença | 04/12/2012 11h24

Que semana, esta última! Começou com o povo deste estado indo às ruas para protestar contra a injustiça da tunga dos royalties, que se anunciava. Uma manifestação bonita, ordeira e muito democrática, pois todos os segmentos da sociedade se faziam representar, externando as mais diversas opiniões das formas mais diferentes. E sabem quem estava lá? Sua Majestade o Samba. Ele mesmo. Como bom cidadão carioca, ele sabe o que representaria para o nosso estado a quebra de todos os compromissos assumidos, à luz da Constituição Federal.

Adoro tudo que se passa na rua. É sempre bonito quando o povão se reúne, seja para brincar, para protestar, para homenagear, para rezar, para cantar. Não sou muito de futebol, mas adoro final de campeonato. Vou também à rua receber a nossa seleção campeã. Lembro do enterro de Luiz Carlos Prestes subindo a Rua São Clemente, em direção ao cemitério São João Batista, acompanhado de uma porção de gente, da mesma forma que fui ver Nelson Mandela na Praça da Apoteose em 1991. Para falar a verdade, não perco chegada de papa.

E sabem por quê? Porque mesmo quando o assunto é sério, como era o caso da semana passada, o povo do Rio sempre encontra um jeito de mostrar a sua impressionante criatividade, o seu espírito lúdico e gregário. E é lindo de ver.
Em meio a tanta gente, que orgulho ver os sambistas lá, mostrando sua preocupação com os destinos do nosso lugar! Somos frequentemente acusados de não nos preocuparmos com os problemas sérios, de não termos consciência política, mas, quando é preciso, o samba se mobiliza em prol de uma causa que não é só sua, é de todos os segmentos desta cidade e deste estado. E o faz na hora certa e no lugar certo, sem comprometer a qualidade e as características do seu folguedo carnavalesco. Baterias, casais de porta-bandeiras e mestres-salas, intérpretes e dirigentes das diversas escolas de samba deram o seu recado para que o Rio de Janeiro possa continuar a ser o mais generoso dos lugares, aquele que recebe todos de braços abertos, sem distinção.

Na semana anterior eu estava triste com uma frase da ministra da Cultura, em sua fala no Fórum Nacional de Museus, reunido em Petrópolis. Fala muito articulada e vibrante, por sinal, que conclamava os dirigentes de museus a se prepararem para os grandes eventos internacionais que se aproximam e que colocarão esta cidade em grande evidência. Era preciso ter o que mostrar ao mundo. Se não estivermos preparados, dizia a ministra, vamos mostrar o quê? "Mar? Coqueiro? Samba?" A frase não é ofensiva ao samba, porque mar e coqueiro são boas coisas. Mas é equivocada, ao botar no mesmo barco natureza e cultura. Mar e coqueiro, belezas naturais, podem ser mostradas com orgulho, mas, e nisso concordo com a ministra, não são o suficiente para uma cidade que a Unesco reconheceu, em julho deste ano, como patrimônio cultural da humanidade. Este título significa que o que o homem construiu nesta cidade tem tanto valor quanto a natureza aqui existente.

E uma dessas coisas, queiram ou não admitir, é o samba. Porque samba faz parte da cultura do Rio de Janeiro e daqui se estendeu ao Brasil e ao exterior, onde é conhecido e respeitado como traço marcante de nosso DNA de nação que adquire a duras penas credibilidade e destaque no panorama internacional.

Sei que não é fácil para muita gente compreender e aceitar o samba nesse patamar. Mas já é hora. E a nossa atitude, como sambistas, nossa auto-estima, nossa atuação como cultores e guardiões desse patrimônio, são determinantes para esse reconhecimento.

No fim de semana, em comemoração ao Dia Nacional do Samba, era hora de comemorar. O trem de luxo partiu mais uma vez - a 17ª - de D. Pedro II com destino a Oswaldo Cruz, levando uma gente animada e feliz. De novo, o povão. O povão que sabe cantar os sambas antigos e tradicionais e os novos, também. Um povo que não economiza aplausos a seus ídolos. Essa Kizomba é nossa constituição, explode-coração na maior felicidade, vejam esta maravilha de cenário, é cheiro de mato, é terra molhada, eu vou tomar um porre de felicidade, será que já raiou a liberdade? E lá vai a cartilha do samba de a a z, sendo entoada de um jeito tão bonito que é quase impossível conter as lágrimas.

Esse povo não precisa fingir: gosta mesmo de samba. Foi capaz de transformá-lo de objeto de perseguição policial em fenômeno cultural, que não é coqueiro, é música, é dança, é criação plástica, é memória. Em suma, é cultura. Com todo o respeito...

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Delito de opinião

Rachel Valença | Rachel Valença | 23/11/2012 12h54

Quanto tempo será necessário para nos livrarmos do fantasma da ditadura que nos atormentou durante mais de vinte anos? Ela estragou a minha juventude, amargurada pela perda de amigos, pela insegurança e pelo medo. Findo o pesadelo, ainda não conseguimos nos libertar do autoritarismo que perdura na mente de alguns e que se resume na certeza de que pensar diferente é crime.

O que é que isso tem a ver com samba, pergunta o leitor, assustado. É que acabamos de testemunhar, estarrecidos, a reação de um presidente de escola de samba ao comentário de um jornalista sobre a qualidade do samba-enredo escolhido para o carnaval de 2013. Não gostou do samba? Teve coragem de afirmar isso no exercício de sua profissão de jornalista? Agressão, injúria e ataques pessoais são a consequência.

O mais grave, no entanto, é que as ofensas foram extensivas a todos que, tal como o jornalista Anderson Baltar, na eleição passada manifestaram publicamente seu apoio a um dos candidatos a prefeito, que levou para a campanha a discussão sobre a gestão do carnaval do Rio de Janeiro. Assunto tabu, como sabemos. Vai que um candidato assim ganha a eleição e resolve que carnaval não é negócio, é cultura e como tal deve ser tratado? Muita gente iria chorar...

Apesar disso não ter acontecido, o presidente da União da Ilha classifica de bandidos os signatários de um manifesto de apoio à candidatura de Freixo. Freixo teve uma votação expressiva, mas não ganhou a eleição. Tudo como dantes, portanto. Por que então tanta ira? Não podemos, nós que escrevemos sobre carnaval, externar nossa opinião livremente? Nas palavras do presidente há até ameaças à integridade física do jornalista. E o engraçado é que era o Freixo que era acusado de atentar contra a liberdade...

Eu também assinei o manifesto e disso me orgulho. Será que devo temer retaliações? Será que já não tenho o direito de comentar os sambas de 2013, sob pena de sofrer ameaças e injúrias de caráter pessoal? Assim fica difícil trabalhar. E depois reclamam do nível da imprensa especializada em carnaval. Mas se gente de bem, gente que conhece e acompanha samba com paixão, não é respeitada, só podemos esperar que outros filhotes da ditadura ocupem o papel de analistas e críticos e façam eco às baixarias do outro lado.

Para ser digna de credibilidade, a opinião deve ser livre e descomprometida. Pensar diferente não é crime, repito: é democracia. Com debate, respeito e seriedade, não com intimidação, ela se constrói e se consolida.

Publico aqui a nota de repúdio assinada por inúmeros profissionais de carnaval que atuam em diversos sites especializados. Assino embaixo.

NOTA

Por meio deste documento, manifestamos nosso total REPÚDIO contra a ação do presidente do G.R.E.S. União da Ilha do Governador, Sr. Ney Filardi, que, no site de relacionamentos Facebook, agrediu o jornalista Anderson Baltar, ex-vice-presidente cultural da agremiação, com amplo currículo de serviços prestados ao carnaval.

Ficou claro que o Sr. Ney não conhece os preceitos básicos da democracia. Ora, em que Constituição podemos encontrar que é proibido considerar o samba da União da Ilha ruim? Em que manual de jornalismo está escrito que as escolas de samba não podem ser criticadas, analisadas, debatidas?

O presidente da Ilha, que é advogado e, supostamente, sabe em que podem implicar as manifestações por ele publicadas, também agrediu todos os ativistas de cultura que assinaram o Manifesto "Nossa Avenida Vai Além do Carnaval", encampado pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), quando ainda candidato a prefeito da cidade do Rio de Janeiro.

Nas palavras de Ney, Anderson Baltar foi excluído dos quadros da União da Ilha, "quando assumiu compromisso junto com alguns outros bandidos de suas escolas, da imprensa etc. Com o candidato a prefeitura de nossa cidade, o Sr. parece que é freixo."

Será que o mandatário tem conhecimento de que artistas como Fernando Pamplona (o pai do carnaval contemporâneo) além de outros tantos nomes que entregam orgulho e viço à cultura de nossa cidade, também foram signatários do documento?

Aliás, será que o presidente da Ilha conhece Fernando Pamplona e seus serviços prestados em prol de uma palavrinha-mágica chamada... Liberdade? Em 1960, o Salgueiro de Pamplona ganhou com "Quilombo dos Palmares". Haveria ode maior à liberdade do que homenagear Zumbi?

Em 1967, a mesma encarnada e branca da Tijuca desfilou o enredo "História da Liberdade no Brasil". Em 1969, o Império Serrano apresentou o clássico "Heróis da Liberdade". Estes dois últimos carnavais ocorreram em plena ditadura militar, com o Brasil de mãos e sonhos amarrados.

Ora, quase trinta anos após a redemocratização brasileira, chega a ser patético vermos um presidente (e advogado) de escola de samba se valendo de práticas que já estariam velhas (pelo menos no coração dos que sabem o valor do diálogo) nos anos 60.

A Ilha - a mais alegre das escolas, que sempre dispensou filas e amarras militaristas, da evolução e da revolução, a única unanimidade inteligente (exceção à regra do velho Nélson Rodrigues) -, merecia um outro comando, um comando à sua altura.

"É hoje" um dia triste para a União.

E quando um presidente (eleito democraticamente) resolve calar com truculência as vozes que se opõem, também não podemos deixar de nos lembrar de outra marca eternizada pela tricolor, espécie de mantra do nosso tempo: "como será o amanhã?".

Com falta de respeito e liberdade, ninguém saberá responder...

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Em 20 de novembro

Rachel Valença | Rachel Valença | 22/11/2012 14h48

Ao longo da vida me tem sido perguntado inúmeras vezes o motivo de minha ligação com a cultura negra. A resposta é simples: está no sangue que me corre nas veias. Neste país mestiço onde nasci, a gente devia se espantar quando alguém volta as costas a essas raízes culturais que nos vêm do berço. Nunca o contrário.

Comemorei o Dia da Consciência Negra de forma privilegiada, entre meus iguais, amigos e ídolos que cultuei pela vida afora. No Centro Cultural João Nogueira oferecia-se um show em homenagem a Silas de Oliveira e, como não podia deixar de ser, os ingressos se esgotaram e o público se apinhava na porta, tentando não ficar de fora dessa comemoração memorável.

Posso garantir que valeu a pena. Porque foi um espetáculo que comprovou a beleza, o talento, a criatividade da raça, sem dever favor a ninguém. As composições de Silas, algumas tão raras de ouvir, misturaram-se a bons sambas sobre ele e sobre sua escola de samba. Os intérpretes eram todos sambistas de verdade, a começar pela maravilhosa Luísa Dionísio, passando por Ana Costa, Renato da Rocinha e Dudu Nobre, contando com os bambas Sombrinha e Monarco, para encerrar com a parceira de Silas, Dona Ivone Lara, cantando ainda com sua voz inconfundível.

Além de tudo isso, foi possível ver e ouvir a querida Velha Guarda Show do Império Serrano, impecavelmente trajada e cheia de dignidade e malícia, representando as melhores tradições da escola. Senti falta do nosso pavilhão, que ali devia estar, marcando a presença da escola que tanto deve a Silas de Oliveira. Mas o Império estava ali sim, em cada um de nós, em cada samba maravilhoso que foi apresentado e até no samba-enredo de 2012, que homenageava Dona Ivone Lara. Entoado não no palco, mas pelo público, quando a cortina se fechou, escondendo a grande dama, que surpreendeu e emocionou ao fazer questão de sair do palco andando!

De um espetáculo dirigido por Túlio Feliciano não se esperava menos que o máximo. Saí do Imperator sem sentir o chão que meus pés pisavam e agradecendo à vida por ter me feito nascer no Brasil, em uma cidade abençoada, e por ter me concedido a graça de conhecer de perto esta gente bonita e talentosa que me proporciona tanta alegria e tanta emoção. Salve o Império Serrano! Axé Silas de Oliveira!

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De volta para casa

Rachel Valença | Rachel Valença | 08/10/2012 15h24

Não faço segredo das restrições que tenho ao posto de rainha de bateria. Creio que em geral elas atrapalham mais do que ajudam e às vezes me lembro com saudade do Mestre Louro, que nunca aceitou dividir o sagrado espaço à frente de sua bateria com quem quer que fosse. Mas no carnaval as coisas vão mudando e hoje é impossível ignorar este fenômeno: frutos da exposição das escolas na mídia e da necessidade de fazer do desfile um espetáculo, as rainhas de bateria vieram para ficar.

Em geral são artistas de TV, modelos, manequins, celebridades de maior ou menor brilho, não importa. O fato é que, se quase sempre são belas, quase nunca são sambistas. E, apesar disso, a coisa pegou tanto que atualmente elas são um forte elemento de identidade das escolas. Como não pensar na Imperatriz Leopoldinense vendo a elegante Luísa Brunet em propagandas de TV? Como não lembrar da linda Fábia Borges toda vez que a bateria da Unidos da Tijuca entra na Avenida?

Por isso, há pouco mais de um ano, quando soube da substituição de Quitéria Chagas à frente da Sinfônica do Samba do Império Serrano, fiquei muito triste. As razões eram muitas. Desde a amizade que tenho por ela até a principal: Quitéria é a cara do Império! E por quê? Porque é uma rainha sambista. Como diria o saudoso José Carlos Rego, "conhece a cartilha do samba de a a z". Ou, como bem disse Tia Eulália, nossa fundadora, ao ver pela primeira vez, em 2003, Quitéria sambar: "Ela faz como a gente fazia".

Pronto. Diante dessa certificação de qualidade, não preciso dizer mais nada. E posso ser sincera? Uma bateria como a do Império merece uma rainha que samba, porque seria um desperdício tanta beleza e precisão rítmica para quem não fosse capaz de dar uma resposta coreográfica à altura. Quitéria não samba só na hora do desfile, ela "se acaba" de sambar em todos os ensaios na quadra, nas feijoadas, nos ensaios técnicos, nas apresentações externas. É querida por todos por não ter pose, ser simples, acessível, atenciosa.
Além do mais, acho que o Império deve sempre preservar todos os seus traços de identidade, que vão talvez se esgarçando com o tempo e as adversidades.

Por este motivo, a volta de Quitéria deve ser comemorada como um acontecimento muito especial. É assim que eu o encaro e cumprimento a diretoria por ter a tempo reparado este pequeno deslize que tanto entristeceu a família imperiana.

Quitéria está conosco desde 2003. Estreou como Eva no enredo Onde houver trevas que se faça a luz, apaixonou-se perdidamente pela escola em 2004, ano da reedição de Aquarela Brasileira, mas foi só a partir de 2006 que passou a desfilar como rainha de bateria. Com o rebaixamento em 2008 ela não se abalou. Sempre presente, participante e solidária, ajudou a escola a retomar seu lugar no Grupo Especial. E é inesquecível a carta que tornou pública quando, após o carnaval de 2009, o Império Serrano, vítima de uma das mais gritantes injustiças que já se viu, foi novamente rebaixado. Ninguém pediu à Quitéria que se manifestasse, mas ela o fez espontaneamente e seu documento é uma das páginas mais comoventes de solidariedade e autenticidade que já li.

Que rainha de bateria teria um gesto semelhante? Bem poucas, creio. Quitéria comprou o barulho do Império Serrano e nem se importou se isso arranharia a sua imagem ou coisas do tipo. É por essas e outras que eu estou feliz com sua volta para casa.

Quitéria querida, o Império Serrano é o seu lugar. Você bem sabe que só temos a lhe oferecer a qualidade da bateria do Mestre Gilmar e o carinho, o respeito e a admiração da cada um dos ritmistas, de cada um dos componentes. Seja bem-vinda, para todo o sempre, nossa rainha de verdade.

Leia também:

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O meu voto

Rachel Valença | Rachel Valença | 24/09/2012 11h18

Na semana passada recebi um telefonema da jornalista Cleo Guimarães, do Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos (O Globo). Preparavam uma página motivada pela morte recente do grande cantor Roberto Silva, considerado "o príncipe do samba" e para isso estavam perguntando a pessoas da área quem seria, em nossa opinião, o maior cantor de samba de todos os tempos.

Não precisei pensar nem um segundo: Roberto Ribeiro, é claro. Razões afetivas à parte - Roberto foi um querido amigo -, acredito mesmo que ninguém cantava samba como ele. No samba de enredo foi um monstro, mas passeava com segurança por outros gêneros. Os sambões românticos que o consagraram conviviam bem com os calangos e também com as mais tradicionais composições, por exemplo, de seu conterrâneo Wilson Batista, que Roberto regravou como ninguém.

Sua voz era magnífica, mas tinha algo mais do que isso: sabia cantar samba! Tinha ritmo, tinha malícia, tinha presença, tinha alegria. A gente sentia, ao ouvir, que ele gostava de samba, que estava à vontade no gênero.

Já que eu era sua fã de carteirinha, não houve dificuldade em responder. Só que a Cleo me pediu outra indicação, pois Roberto Ribeiro já tinha tido uma indicação. Pronto, complicou! Não é que não haja outros bons cantores de samba: há muitos. Mas como é que eu, mais do que fã, amiga, poderia não indicar Roberto? Ia ficar até feio para mim. Já estava quase desistindo de opinar, quando me lembrei de outro cantor que eu admirei e admiro e que merecia ser mencionado: Jamelão. Foi ele, portanto, o meu indicado.

A matéria saiu há uma semana e desde então muita gente tem me questionado sobre o fato de não ter indicado Roberto Ribeiro. Teria sido alta traição? Talvez, mas há males que vem para bem. Por sorte, quem indicou seu nome não foi um qualquer: foi Nei Lopes, que além de sambista e grande compositor é um intelectual de peso.

Por isso tomo a liberdade de reproduzir aqui a sua opinião, para quem não teve oportunidade de ler o Gente Boa daquele dia: "O Roberto Ribeiro tinha uma voz impressionante e uma ligação profunda com Madureira, com o Império Serrano. Ele veio de Campos, mas revelou-se para o mundo artístico através do Império. Foi um cantor fundamental para o samba".

Que bom que foi o Nei Lopes que disse isso e não eu. De mim pareceria exagero e falta de isenção. Dele é um elogio e tanto, que me deixou muito feliz e orgulhosa. E feliz fiquei também de ter dado meu voto ao Jamelão por sua longa e impecável atuação como puxador de samba na Estação Primeira de Mangueira.

Desculpe, mestre, sei que não gostava de ser chamado assim e conheço seus motivos, expressos em tantas entrevistas. É que eu, ao contrário, acho a palavra puxador muito expressiva para designar aqueles que, como Jamelão e Roberto, são capazes de puxar, de arrastar sua escola pela Avenida, como autênticos líderes.

Não era só com a voz que puxavam, era também com o carisma, com a credibilidade e o amor à sua escola que conseguiam levar o componente a cantar com eles. Era bonito de ver e de ouvir. O termo puxador presta homenagem a isso que se define modernamente por "atitude". Cantores e intérpretes há muitos. Puxadores são poucos. E Jamelão e Roberto Ribeiro o foram.

Foi deles que me lembrei para escolher o príncipe do samba. Porque para mim o samba na sua essência é o samba-enredo, o épico e maravilhoso subgênero que apaixona e arrebata. E foi o samba-enredo que consagrou esses dois monstros sagrados.

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Abre as asas sobre nós

Rachel Valença | Rachel Valença | 13/09/2012 12h22

Como só chego do trabalho quase às sete da noite, não assisto à novela das seis. Aliás, ver novela não é um hábito meu. Sou mais de ouvir música do que de ver TV. Às vezes abro exceções, quando autores ou intérpretes amigos estão no ar em algum folhetim. Mas isso é raro.

Por estes motivos fui surpreendida hoje com uma notícia em coluna especializada em TV, elogiosa à abertura da nova novela das 18h da TV Globo, Lado a lado, ao som do samba-enredo Liberdade, liberdade, abre as asas entre nós, que a Imperatriz Leopoldinense cantou na Avenida em 1989, aliás sagrando-se campeã.

De autoria dos compositores Niltinho Tristeza, Preto Joia, Vicentinho e Jurandir, este é considerado um dos melhores sambas de enredo de todos os tempos. De vez em quando há na mídia votações específicas para escolher os dez mais do gênero e ele lá está, sempre. A meu ver, com todos os méritos para isso.

Lembro-me da primeira vez em que o ouvi, na quadra da Imperatriz, no ano de 1988, quando a disputa para 89 mal começara. Era uma terça-feira, dia do Pagode da Coroa, promovido pelos compositores da casa. Cantava-se de tudo, desde pagodes muito em moda naquela época até sambas antigos da escola e das coirmãs. E mais tarde, já em clima de fim de festa, era permitido aos compositores que estavam participando da disputa apresentar seus sambas para divulgá-los. Foi o compositor Jurandir que o cantou naquela noite e eu comentei imediatamente que nem precisava ouvir mais nada, porque aquele era um samba maravilhoso, inesquecível.

Foi, portanto, amor à primeira audição, o que não é comum, porque normalmente é preciso ouvir muitas vezes um samba para extrair dele toda sua beleza, sua adequação ao enredo, a facilidade com que será memorizado e cantado pelos componentes, enfim, todas as suas qualidades. Pois naquele dia eu não queria saber de mais nada... Já imaginava a escola desfilando e a arquibancada cantando o refrão forte e emocionante.

Naquele carnaval de 1989, do centenário da República, a vitória da Imperatriz Leopoldinense, com toda a polêmica que suscitou, foi indiscutivelmente a vitória de uma escola de samba, ao som de um autêntico, de um magnífico samba de enredo.

Agora, passados tantos anos, aí está ele em lugar de destaque na trilha sonora de uma novela transmitida pela maior emissora de TV do país para todo o Brasil. Eu ia dizer que conquistou um espaço nobre, mas me corrijo: não há espaço mais nobre do que a Avenida, que ele já conquistara muito tempo atrás. Hoje ele ganha apenas reconhecimento.

Não são apenas os autores e a Imperatriz Leopoldinense que devem comemorar. Somos todos nós. Porque isso é um passo importante para tirar o samba de enredo do "gueto" carnaval, e tratá-lo como música, que é. Mormente porque Lado a lado não é uma novela ambientada no mundo do samba, como era Bandeira Dois, que entre o final de 1971 e o início de 1972 tinha em sua trilha o samba-enredo Martim Cererê, de Zé Catimba e Gibi, também da Imperatriz Leopoldinense.

Bandeira Dois se passava no universo do samba, parte da ação se desenrolava na quadra de uma escola, portanto o samba-enredo ali era esperado, justificado, era quase uma obrigatoriedade.

Se os mais diversos ritmos e gêneros abrem novelas, por que o samba-enredo só pode ser ouvido quando o assunto é carnaval? Em Lado a lado, apesar de os temas serem muito mais gerais, a escolha de um samba-enredo para a abertura mostra que estamos avançando em direção contrária aos tabus e preconceitos. Devagar e sempre a gente chega lá!

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Nosso libreto

Rachel Valença | Rachel Valença | 11/09/2012 10h37

Logo após o Carnaval de 2012, quando nos reunimos para a premiação do SRZD-Carnaval, sugeri à equipe que instituísse a categoria Prêmio Especial, para algo que tivesse aparecido nos desfiles e não estivesse contemplado em nenhuma das categorias do Prêmio. E minha sugestão foi conceder este ano um prêmio especial ao Roteiro dos Desfiles, que desde 2010 vem facilitando a vida dos que assistem ao desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

O prêmio especial não vingou, mas agora tomo conhecimento da parceria deste site com a equipe do Roteiro dos Desfiles, o que é para mim uma grande notícia. Porque iniciativas como essa devem mesmo ser apoiadas, para que se tornem mais frequentes.

Os julgadores e a imprensa recebem da LIESA o Abre-Alas, publicação em que se arrolam todas as informações sobre o desfile. A Lesga tem uma publicação similar, onde se compilam os dados técnicos enviados por cada escola. Ambas são publicações com informação muito completa, por isso mesmo seu formato não é prático para o espectador comum, de arquibancada.

No entanto, a falta de informações básicas sobre o desfile em curso muitas vezes compromete a compreensão do que se desenrola diante dos olhos, principalmente se o espectador é um leigo, que aprecia o espetáculo, mas não participa ativamente de seus bastidores. É muito bom, por exemplo, ter a informação do que cada ala representa, do que cada fantasia de destaque está fazendo em seu lugar no carro alegórico.

O público vai acompanhando no livrinho todo o desfile, identifica as personalidades, é capaz até de perceber alguma falha, como por exemplo troca na ordem das alas. Tal como um libreto de ópera, que põe à disposição do espectador o texto a partir do qual a ação se desenrola, temos agora a possibilidade de acompanhar, num livrinho de formato muito conveniente a quem vai enfrentar uma longa jornada de desconforto, tudo que se passa na passarela.

O Roteiro dos Desfiles não é feito para especialistas. Estes acompanham tão de perto os bastidores dos desfiles que não precisam da maior parte da informação que ali está. Ela se destina ao leigo, àquele que certamente não leu as sinopses dos enredos, conhece talvez os sambas e apenas as personalidades mais assíduas na mídia, mas terá dificuldade de entender o desenvolvimento do enredo e isso poderá redundar em desinteresse pelo espetáculo.

Acho que toda e qualquer iniciativa que tenha por objetivo trazer mais admiradores e adeptos à nossa arte carnavalesca deve ser apoiada. Entender é fundamental para apreciar melhor. E para entender é importante ter informação. Por isso, acho que a Multiplicar Produções e seu diretor executivo Marcos Roza prestam às escolas de samba um grande serviço com esta interessante publicação, distribuída gratuitamente. E recebo com muita alegria a notícia da parceria do SRZD-Carnaval, que certamente trará bons frutos para todos.

A publicação não é perfeita, claro, algumas questões podem ser melhoradas, mas considero o resultado bastante positivo, principalmente se considerarmos a necessidade de economia de espaço, para manter um formato tão prático. É hora de darmos as nossas sugestões para que algo positivo, algo que acrescenta, fique ainda melhor.

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Um tiro no pé

Rachel Valença | Rachel Valença | 03/09/2012 16h54

Mangueira e Portela não são apenas duas escolas de samba: são bem mais do que isso. São referências fortes na cultura brasileira, são marcas de grande relevância cultural. Não só por serem as mais antigas agremiações ainda em atividade, mas porque suas trajetórias as colocam em posição de destaque no mundo do samba. Por essa razão, mesmo aqueles que não se incluem entre seus torcedores estão sempre atentos ao que lá se passa, pois o sucesso ou o fracasso delas parece nos atingir a todos indistintamente.

Só quem vive nos bastidores do grande espetáculo é que pode avaliar as razões que determinam as decisões a serem tomadas pelos dirigentes. O que se passa entre as quatro paredes de um barracão ou entre os muros de uma quadra é difícil de imaginar: só quem está lá é que sabe ao certo. Mas cá de fora o que se vê é a imagem de uma escola, e ela precisa ser preservada a todo custo. Ou quase todo.

Uma das coisas que mais incomodam os torcedores atualmente é a dificuldade de identificar sua escola do coração com este ou aquele profissional do carnaval. No caso do carnavalesco, isso já nem preocupa. Ficou patente há muito tempo que se trata de profissionais remunerados, quase sempre sem nenhuma identidade com a escola. Joãozinho Trinta era a cara da Beija-Flor? Rosa Magalhães era a cara da Imperatriz? Isso era o que pensávamos até vê-los sair dessas escolas e abraçar outras com o mesmo profissionalismo e com ótimos resultados.

No caso do intérprete, já é mais sofrido ouvir a voz de nossa escola entoando sambas de uma concorrente. O grande Jamelão, uma exceção, enquanto viveu foi a voz da Estação Primeira de Mangueira. Sempre que o ouvíamos cantar, em qualquer situação, delineava-se em nossa mente um mundo verde e rosa. E a direção da escola, com grande acerto, o manteve enquanto foi possível, enquanto ele teve forças para cantar. Jamelão era uma marca, como Delegado é uma marca. Não tenho notícias de como eram as relações dessas pessoas com as inúmeras diretorias que a escola teve ao longo dos anos, mas o fato é que, se houve atritos, foram cuidadosamente contornados, em prol da manutenção de tão importantes figuras.

Lembro-me, no entanto, do abalo que representou para mim, há alguns anos, a saída da Mangueira do excelente casal de mestre-sala e porta-bandeira Marquinhos e Giovanna, que lá estavam desde muito novos. Fiquei chocada, pois para mim ninguém mais poderia segurar o pavilhão verde e rosa a não ser aquela moça que conheci tão menina e que se tornou uma dançarina maravilhosa. Como nenhum outro poderia evoluir à volta daquela bandeira a não ser o elegante Marquinhos.

Vida que segue: lá se foram eles para outras quadras. Mas não adianta. Pra mim Marquinhos e Giovanna serão sempre a cara da Mangueira.
Intérpretes a Portela já teve muitos, casais de mestre-sala e porta-bandeira também, desde que Wilma e Benício deixaram o pavilhão. E quase ninguém percebe que é de identidade que estamos falando, ou seja, as tais marcas mencionadas acima são as marcas identitárias tão importantes, mas às quais não se parece dar mais tanto valor. Despede-se um intérprete com a mesma frieza com que se dispensa um encanador. Manda-se embora a porta-bandeira com a simplicidade de quem demite uma auxiliar de serviços gerais. E não se vê que, agindo assim, a escola de samba vai perdendo sua identidade e o torcedor fica meio perdido, sem ídolos para respeitar. O mesmo vale hoje para mestres de bateria, mas, talvez porque a bandeira é o símbolo maior da escola, é no casal que a carrega que se deposita mais carga de identidade.

O que me motiva a discorrer sobre este assunto, quando comecei falando do que Mangueira e Portela representam para todos os sambistas, foi a dispensa, esta semana, do casal Lucinha Nobre e Rogério, que vinham tendo na Portela uma boa performance nos últimos anos. Longe de mim querer interferir em assuntos internos, principalmente porque, como já disse, ninguém conhece os reais motivos dessa decisão da diretoria. Mas confesso que ela é preocupante.
Não há muito tempo atrás, a Portela andava trilhando caminhos perigosos, com enredos fracos que geravam sambas mornos, que por sua vez embalavam desfiles medíocres. No carnaval passado tudo mudou: o enredo eterno inspirou um samba magnífico e o desfile agradou em cheio. A gente ficou feliz, pois quando a Portela está bem o carnaval está bem. A escolha do enredo de 2013 enche todo mundo de esperanças e certamente teremos um bom samba. E aí, quando a gente se anima e pensa - agora vai! -, acontece a inesperada demissão do casal de qualidade. Motivos não são apresentados, simplesmente as frases de praxe: Agradecemos os serviços prestados, etc.

Vejo com tristeza que a Portela, tal como acontece frequentemente no meio carnavalesco, aproveita um momento de otimismo para... dar um tiro certeiro no próprio pé. Está tudo muito bom, está tudo muito bem, então vou piorar um pouquinho, vou estragar um tiquinho. Creio que é hora de repensar as tomadas de decisão dentro das diretorias de escolas de samba, para que assuntos tão relevantes para a identidade das escolas não acabem sendo decididos pelos humores de uma só pessoa. Várias cabeças sempre pensam melhor do que uma só e com isso os pés levariam menos tiros, o que é bom, porque sem eles fica difícil ir em frente.

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Já é!

Rachel Valença | Rachel Valença | 17/07/2012 09h20

Sei que muitos leitores vão se aborrecer com o que escrevo agora, mas tenho aguentado calada o que se desenrola diante dos meus olhos, com medo de me precipitar ao reclamar do desenrolar dos fatos desde o malfadado dia da apuração do Grupo de Acesso A.

Agora não dá mais para calar, porque está confirmado e sacramentado o destino daquela pobre escola, campeã moral do grupo, aclamada pela crítica e pelo público. Muito se esperou. Uns diziam que o resultado seria anulado porque não vieram a público as justificativas dos jurados. Outros afirmavam que o prefeito, descontente com o não cumprimento pela Lesga do regulamento pactuado (não houve o rebaixamento das duas ultimas colocadas), elevaria o Império Serrano ao Grupo Especial.

Sinceramente, se isto de fato tivesse ocorrido, eu me envergonharia. Porque o Império Serrano não precisava e não precisa de expedientes desse tipo: deve subir se e quando conquistar legitimamente este direito. Mas nem precisei de tanta virtude. Aí está hoje, oficializada, a única solução encontrada para sanar o problema do resultado esquisito: pega-se todo mundo, joga-se no mesmo saco, sacode-se bem... e salve-se quem puder.

Dezenove escolas passaram a formar a chamada Série Ouro. Todas merecem o meu respeito e a minha admiração. Mas isso não é suficiente a meu ver para colocá-las lado a lado. Como se não bastasse o Império Serrano, campeão moral de 2012, ter de disputar colocação com as duas escolas que deveriam ser rebaixadas, ele ainda teve de fazê-lo com outras agremiações que já se encontravam no Grupo B! Por mais que eu percorra a minha mente em busca de uma justificativa plausível para isso, não a encontro.

Como se não bastassem todas essas tristezas, o momento do sorteio me deixou pasma: se por um lado foi garantido ao Império Serrano desfilar no sábado - reconhecidamente o melhor dia -, ele teve de contentar-se com a bola que sobrasse para definir sua ordem no dia. A primeira das dez colocações estava já destinada à União de Jacarepaguá, logo havia nove posições em jogo. Se o Império Serrano era, dentre as que ali estavam, a de melhor classificação no Carnaval de 2012, por que não dar a ela o privilégio de iniciar o sorteio, tendo à sua disposição todas as chances possíveis? Parece que é consenso que privilégio não é coisa que combine com Império Serrano, mesmo quando se trata de privilégio conquistado.

Assim, nosso coração teve de passar por oito sobressaltos antes que restasse para nós não o bagaço da laranja do pagode de sucesso gravado pela inesquecível imperiana Jovelina Pérola Negra, mas uma honrosa quarta posição. Honrosa e confortável, porque, creio, nos garante a concentração do lado dos Correios, muito tranqüilizadora para qualquer diretor de carnaval.
O Império Serrano é, pois, a quarta escola a desfilar. Ainda bem que São Jorge estava de olho, porque, se dependesse dos casuísmos e absurdos da Lesga, hoje travestida de Lierj, ai de nós. Vamos em frente, corajosamente, rumo a mais um carnaval de qualidade, a mais uma disputa acirrada, a mais um samba antológico, a mais um desfile inesquecível.

Agora, depois desse desabafo que alivia a mágoa da injustiça - aliás, das injustiças sofridas -, preciso ainda dizer que acho um absurdo submeter as escolas de samba ao incômodo de desfilar numa sexta-feira, dia de trabalho numa cidade que não respeita sua mais importante festa popular. Na Bahia o carnaval dura uma semana, e sabem por quê? Porque dá lucro. Aqui ele dá lucro também, muito lucro, mas quem o faz que se dane todo para enfrentar um trânsito caótico no dia de saída dos que deixam a cidade e de chegada de turistas.

Um simples olhar na ordem do desfile de sexta-feira já me corta o coração. A segunda escola a desfilar, Porto da Pedra, virá de São Gonçalo. Seus componentes deverão estar na concentração, fantasiados e prontos para desfilar, ainda no seu horário de trabalho. A escola seguinte, Santa Cruz, embora do nosso município, vem de muito longe. E por aí vai: Unidos da Vila Santa Tereza, de Honório Gurgel, e União do Parque Curicica, de Jacarepaguá, também ficam distantes da Sapucaí. Pra que tanto sofrimento?

Falta respeito ao sambista. Esta frase já se tornou um chavão, mas não posso deixar de repeti-la, porque, por incrível que pareça, é do próprio sambista que emana tanto desrespeito. E torço para estar errada e para vir, mais adiante, a me convencer de que esta mudança não foi apenas uma forma de abafar um resultado escandaloso, e sim uma boa coisa para o samba da cidade. Tomara que eu esteja errada.

Foto: Diego Mendes

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Parece que estou sonhando com tanta felicidade

Rachel Valença | Rachel Valença | 12/07/2012 13h14

Você sabia que o enredo Tupinicópolis, que acaba de completar 25 anos, tinha outro título, atribuído por seu criador, o genial Fernando Pinto? A proposta do carnavalesco não agradou a diretoria, que resolveu alterá-lo, e o enredo acabou levando o título que chegou até nós como marca de um dos enredos mais criativos que já passaram pela Marquês de Sapucaí.

Passados tantos anos, como é que essa informação veio à baila? Terá sido fruto da Lei de Acesso à Informação Pública? Não. Foi simplesmente resultado de uma ideia bonita que começou a ser posta em prática no último sábado, dia 7, no Centro Cultural Cartola: o projeto Cine Debate, que tem por objetivo recordar e analisar a cada mês um desfile memorável de escola de samba.

O Cine Debate é uma das atividades que nasceram do projeto "Chá do Samba" que, há pouco mais de um ano, vem reunindo, no Centro Cultural Cartola, representantes dos departamentos culturais de diversas agremiações do Rio de Janeiro, pesquisadores e jornalistas. O nome do projeto foi uma brincadeira com o tradicional Chá das Cinco da Academia Brasileira de Letras, em que os acadêmicos trocam idéias em torno daquilo que mais prezam. Ora, por que os sambistas não poderiam fazer o mesmo? Em vez de falar de poesia, é de samba que falamos no nosso já tradicional chá, que pode ser, é claro, substituído por cerveja ou mesmo por refrigerante ou suco.

Ali no Cartola, a poucos passos de um reduto de samba como a Mangueira, a gente conversa sem preocupação sobre o que dá sentido às nossas existências: o samba, passado, presente e futuro. Foi num desses encontros que surgiu a proposta de assistirmos e conversarmos sobre desfiles marcantes, convidando pessoas que de alguma forma participaram deles ou têm sobre eles uma reflexão específica.

O primeiro encontro da série, no último sábado, foi um sucesso, pois contou, entre outros, com a presença de Alexandre Louzada, carnavalesco da Mocidade, do empresário Chiquinho do Babado da Folia, que era o diretor de carnaval da escola em 1987, do jornalista Fábio Fabato, co-autor do livro As três irmãs, em que narra historias da agremiação de Padre Miguel, e o compositor Tiãozinho da Mocidade, um dos mais atuantes quando se trata de preservação da memória.. O mediador foi Renato Buarque, vice cultural da escola.

O debate foi excelente, cheio de novidades. O próximo, no mês que vem, será bom também, ou até melhor, porque vamos assistir ao antológico desfile Kizomba, festa da raça. Haja coração! Mas o meu coração está batendo acelerado é por ver que o Centro Cultural Cartola vai aos poucos, com as dificuldades e os tropeços de quem é independente, se firmando como a verdadeira Casa do Samba, o espaço aberto e democrático que sempre sonhamos. Desde que ali começamos, em 2005, a elaboração do Dossiê de registro do samba como patrimônio cultural imaterial, titulação obtida no final de 2007, vem-se progressivamente conquistando espaço legítimo de representação.

Aos velhos membros do Conselho do Samba, todos sambistas consagrados como Monarco, Nelson Sargento e outros bambas, vão se misturando aos poucos os jovens, cheios de idéias novas, cheios de disposição para realizar coisas. Tudo espontâneo, gratuito, sem pompas e formalidades, mas representando um espaço muito importante de pesquisa, reflexão e troca de idéias. Nosso samba está precisando disso.

Lá já se fizeram, nesses poucos anos, coisas muito importantes, mas gostaria de destacar a criação, alimentação e manutenção do mais completo banco de dados sobre o tema de que tenho notícia. Trata-se de um centro de documentação e pesquisa bem instalado, bem equipado e inteiramente focado no samba, no carnaval, nas escolas de samba, na cultura popular, na negritude. Algo que funciona e é gratuito, porque mantido pelo ideal de algumas pessoas, entre as quais me incluo com orgulho, sob o comando de Nilcemar, uma batalhadora que não se deixa deter nem intimidar por pouca coisa.

Desejo ao Chá do Samba, aos Cine Debates e ao Centro Cultural Cartola vida longa, com a participação de todos que se interessam verdadeiramente por samba nesta cidade. Ah, ia esquecendo de dizer: o enredo, para Fernando Pinto, teria o título "Requebros imediatos do terceiro grau".

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Escolas de samba: ainda dá para mudar?

Rachel Valença | Rachel Valença | 02/07/2012 13h34

Um pré-candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, abriu o debate, com interlocutores interessados no assunto, sobre os destinos do carnaval na cidade do Rio de Janeiro. Em se tratando da capital mundial do carnaval, o tema é de interesse prioritário, mas nunca faz parte das plataformas dos candidatos. Não é de estranhar, porque, como sabemos, pelo menos no tocante às escolas de samba, mexe com interesses poderosíssimos.

O início do debate me fez pensar em como a realidade vai nos contaminando e de certa forma nos anestesiando, a ponto de acabarmos por achar natural e corriqueiro aquilo que outrora nos arrepiava. O gradativo afastamento do poder público de uma manifestação cultural que caberia a ele gerir e preservar acabou por disseminar um pensamento frequentemente expresso, segundo o qual a intervenção do Estado se constitui em dirigismo e deve ser evitada.
Não há engano maior. É exatamente ao poder público que compete zelar pelo equilíbrio entre evento turístico/comercial e evento cultural popular. Quando os interesses de mercado começam a sufocar a manifestação cultural, é hora de acender a luz vermelha, porque há risco iminente. No caso das escolas de samba, desde muito tempo a realidade já clama por uma atuação do poder público, que tem se eximido.

A situação chegou a esse ponto porque no passado o poder público foi relapso nessa administração, abrindo espaço para que se justificasse a gradual passagem do controle dos desfiles para as escolas, por intermédio de sua entidade representativa. E mais uma vez cabe a pergunta: por que não defender que o poder público acerte os ponteiros de sua atuação?

O controle do carnaval das escolas de samba na mão de particulares teve acertos, sem dúvida. Mas teve e tem erros gritantes, que são timidamente apontados, por temor de cair em desgraça diante dos poderosos: os resultados são às vezes (ou quase sempre) absurdos, a política de venda dos ingressos é autoritariamente definida, a transmissão televisiva não obedece a critérios de transparência, o sistema de credenciamento é vergonhosamente exercido, etc.

Antigamente, se a Riotur, empresa pública que detinha a administração do carnaval, errasse, todos nós, torcedores, dirigentes e cidadãos, caímos em cima dela com críticas que acabaram por esvaziá-la de suas funções. Hoje, se há críticas e descontentamentos, quem ousa externá-los? Quem o fizer está na lista negra, seja instituição ou pessoa física. Perde lugar no ranking, vai sendo esvaziado e anulado.

Acostumamo-nos à ideia de que o poder público tem de ser necessariamente relapso. Não há equívoco maior. Mas esta satanização do público, como sabemos, não é inocente. É só pensar no que ocorreu com o ensino neste País: a excelência da escola pública deu lugar à vergonhosa situação atual, a partir de um sucateamento deliberadamente promovido por interesses privados, visando ao lucro, e políticos, visando a impedir que o esclarecimento, que a boa escola fatalmente proporciona, fizesse que as pessoas pensassem, o que era um perigo a ser evitado.

Então vamos refletir: a quem aproveita que o poder público continue ausente do carnaval das escolas de samba? A quem aproveita que continue a não haver controle do dinheiro público investido no carnaval?

Para além da questão cultural, já em si importantíssima, há uma questão política. Nossa principal festa popular, que tem a importância e a visibilidade internacional de uma Olimpíada ou de uma Copa e não é eventual, mas anual, não pode continuar sem um ente público que o organize, impedindo que se transforme num espetáculo comercial, subordinado exclusivamente às leis do mercado.

Muita gente pensa com pessimismo que não é mais possível reverter esta situação, que os próprios sambistas seriam contra essas mudanças ou que elas não dariam certo, pelo descrédito da coisa pública em nosso país. Eu, que, como na canção de Milton Nascimento, possuo "a estranha mania de ter fé na vida", acredito que ainda é tempo de mudar. Tudo é possível quando há vontade política: o poder público dá mostras de sua capacidade, sempre que a vontade política se manifesta.

O título do movimento, "Nossa Avenida vai além do Carnaval", verso de um samba do compositor portelense Toninho Nascimento e parceiros, é a gota de emoção num oceano de argumentos racionais. Passei a vida batalhando, inclusive na elaboração do dossiê de registro do samba do Rio de Janeiro como patrimônio cultural imaterial - que já rendeu frutos ao samba - para que o nosso carnaval não perdesse seu cunho cultural. Hoje vejo um grupo de gente mais jovem tomar as rédeas desse movimento e me alegro e me emociono um pouco ao pensar que não clamamos no deserto, eu e tantos outros. Porque, seja qual for o resultado da eleição em outubro, uma vitória já se conseguiu: incluir o carnaval na pauta de assuntos relevantes para o Rio de Janeiro, ao lado de transporte, saúde, educação.

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- 'Temos que devolver a Sapucaí ao povo', diz Marcelo Freixo

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Seis ou meia dúzia?

Rachel Valença | Rachel Valença | 26/06/2012 08h51

Talvez a longa ausência nem tenha sido notada, mas peço desculpas por ela. De fato, andei numa fase de muito trabalho, em que as tarefas se sucederam de um modo alucinante. Mas devo confessar que esta não foi a única razão do meu silêncio de dois meses. Mais do que o tempo cronológico, me faltou tempo interior para refletir e escrever sobre o assunto que mais me mobiliza. Sempre que acaba o carnaval, se abate sobre nós uma melancolia infinita, que eu sempre apelidei de depressão pós-momesca. Aí vêm as festas de entrega dos prêmios, vêm os aniversários de várias escolas e, para os devotos, vem a festa de São Jorge. Com isso vamos nos distraindo até que se anunciam enredos e aparecem as sinopses, depois a apresentação dos sambas, a disputa com as quadras funcionando a todo vapor, e quando nos damos conta já é carnaval de novo.

Este ano para mim foi bem mais complicado, em razão da enorme dificuldade que tive para me refazer do resultado do Grupo de Acesso A. E não me refiro apenas à vitória da campeã, que até as pedras do calçamento já sabiam de antemão quem seria, mas sobretudo ao não cumprimento, pela Liesga, do regulamento estabelecido, patenteando a arbitrariedade e os casuísmos que ponteiam nosso carnaval.

Não fui a única a me espantar com isso: na minha revolta tive ilustres companhias, inclusiva a do prefeito da cidade, que se manifestou publicamente contra a entidade de classe do Grupo de Acesso, desqualificando-a para prosseguir a parceria com a prefeitura no tocante à organização do desfile. E aí...
Todo mundo conhece a história do marido que, ao encontrar a esposa traindo-o com seu maior amigo no sofá da sala, perdoa a esposa e mantém o amigo, mas manda queimar o sofá... Eis o que me veio à cabeça quando soube que o presidente da Lesga, por mera coincidência também presidente da escola campeã, renunciou ao cargo e para a diretoria foram os dois presidentes das escolas não rebaixadas, as beneficiárias do "tapetão". E, para colaborar um pouco mais para a queima do sofá, a Lesga não mais existe, aparecendo em seu lugar a Lierj.

Ah bom! Então está tudo resolvido... Reginaldo Gomes não é mais o presidente? Lesga não há mais? Então está tudo resolvido. As justificativas dos julgadores, ainda hoje, que eu saiba, não divulgadas, nem interessam mais... Ninguém fala mais no assunto. E a gente vai ficando um pouquinho mais triste, um pouquinho mais descrente dos rumos do carnaval.

Sinceramente, não consigo partilhar da crença de que se deve dar um crédito de confiança a quem está assumindo agora. Porque não consigo mais ser tão pura e ingênua a ponto de confiar em quem se beneficia de casuísmos desse tipo. As coisas já começam muito mal e tenho o direito de achar que ainda vão piorar.
Paralelamente o anúncio dos primeiros enredos para 2013 não ajudou a me reanimar. Tomara que eu esteja sendo injustificadamente pessimista, mas acho que o que está anunciado por aí representa um grande retrocesso em relação aos dois últimos carnavais. E, quando a gente imaginava que as escolas de samba estavam se conscientizando da importância de escolher enredos com que os componentes e o público pudessem se identificar, vem esse balde de água fria que são os enredos do próximo carnaval. Balde não: jato de lavadora de alta pressão.

Não consigo entender por que o carnaval do Rio é adepto da prática do tiro no pé! Os dirigentes parecem empenhados única e exclusivamente em levá-lo ao impasse e o pretexto para isso é a necessidade de patrocínios, de mais e mais dinheiro. Já ficou provado que só dinheiro não ganha carnaval. Portanto, não vamos esquecer que sem emoção, sem participação e empenho, sem alegria, não há dinheiro que salve o carnaval.

Tomara que eu esteja sendo saudosista e que tudo vá às mil maravilhas. Às vezes tenho mesmo a sensação de que esta é questão. Por exemplo, ao entrar na linda quadra reformada do Império Serrano, dotada de todos os confortos de que as co-irmãs dispõem, me senti dividida: ao orgulho e à alegria se misturou um incômodo sentimento de nostalgia de um tempo em que não havia paredes de vidro separando o público do samba, pois quem ia a uma quadra de escola de samba queria ouvir muito bem a bateria, os intérpretes e o povão cantando na quadra e nem se importava de suar um pouquinho. Ninguém pensava em se proteger do incômodo, porque a alegria e a emoção valiam a pena. Mas deixa pra lá: as coisas mudaram mesmo e deve ser melhor hoje do que outrora. Eu é que não estou conseguindo enxergar.

De qualquer maneira, estou voltando com muita satisfação a este espaço e prometo não falhar mais. É um privilégio dispor deste espaço ao lado de colegas tão ilustres e poder dialogar com gente que, como eu, põe o samba num lugar muito especial em sua vida.

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O Oscar do samba

Rachel Valença | Rachel Valença | 07/03/2012 12h30

Foto: Wilson Spiler

Meu colega blogueiro Cláudio Russo, com a poesia que costuma pôr em tudo que escreve, já falou aqui da festa do último domingo, de entrega do Prêmio SRZD-Carnaval 2012, do qual fomos, todos nós, julgadores. Tarefa sempre árdua essa de julgar! Tanta gente maravilhosa desfila diante de nossos olhos durante o Carnaval...

Mas é preciso fazer escolhas. E cabe a nós, também sambistas e muito próximos da maioria dos "julgados", sermos justos e isentos na hora de apontar os melhores dentre os melhores. Não sou marinheira de primeira viagem não. Já participei de outras premiações e, além do mais, conto com uma poderosa rede de amigos, como eu apaixonados por Carnaval, com quem troco informações por "torpedo" durante o desfile.  

Aproveito para agradecer a todos eles as sugestões e opiniões, porque, espalhados por vários pontos da Avenida, me possibilitam ver coisas que, às vezes, passariam despercebidas.

Mesmo assim, a entrega dos prêmios é sempre uma emoção, porque o sambista é um cidadão comum, alçado à categoria de celebridade naquele período, mas igualzinho a nós: gosta de ver reconhecido o seu trabalho, o seu esforço. No entanto, na premiação de domingo, houve para mim uma estrela de primeira grandeza que não era obra de sambista: o troféu.

Diferente de todos que já vi, original e criativo, o nosso troféu, criado pela artista plástica Mazaredo, é de extrema felicidade. Suas formas arrojadas representam uma figura humana, mas, ao ser virado, deixam ver o contorno da Baía da Guanabara, numa oportuna referência ao palco da glorificação do samba, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Ao ver os premiados levantando-o, era impossível não lembrar do Oscar!

Sabendo que o sambista tem em geral em sua casa um espaço reservado para os troféus que ganha, pude ver agraciados de domingo último ao levar para casa uma peça tão bela. E me senti muito orgulhosa de ter colaborado, com meu trabalho, para isto. E é exatamente daí que parto para a segunda emoção da noite, o discurso do colega blogueiro José Carlos Netto, um veterano da crônica carnavalesca, que se emocionou - e nos emocionou - ao agradecer a oportunidade de trabalhar num meio de comunicação moderno e respeitado como o SRZD-Carnaval. Sei perfeitamente como ele se sente, porque, também veterana, é muito bom saber que nosso trabalho ainda é valorizado, em meio a tantos novos valores que dão ao nosso Carnaval, o oxigênio e o talento de que ele tanto precisa.

Os dois destaques que fiz da belíssima festa tentam apenas fugir dos comentários que poderia tecer sobre os homenageados, todos eles dignos de elogios enfáticos. Peço licença, porém, para uma exceção: a ala Bonecos de Barro, da Unidos da Tijuca, foi a coisa mais extraordinária que eu vi passar na Sapucaí este ano. Ela me tirou o fôlego. Isso costuma acontecer com a visão de um casal de mestre-sala e porta-bandeira ou com a passagem de uma bateria. Às vezes é um intérprete ou um carro alegórico que nos arrepia. Frequentemente, no meu caso, um samba de enredo consegue isto. Mas uma ala? Não é comum. Fiquei doida quando vi aquela gente pintada, com aqueles olhinhos inacreditáveis, se movendo como a alegria dos bonecos, numa coreografia muito criativa e espontânea. Parabéns aos animados componentes, e axé, Paulo Barros!

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O Carnaval da paradona

Rachel Valença | Rachel Valença | 27/02/2012 00h36

Quem gosta de carnaval adora novidade. A cada ano um fato marcante rouba a cena e se torna a marca registrada do carnaval. Quem não se lembra que 2008 foi o carnaval do Wilson? 

As comissões de frente do carnavalesco Paulo Barros têm desempenhado este papel nos últimos anos, saciando a sede de novidade que acomete o público no desfile: querem samba, mas não apenas samba. É preciso um algo mais, que Paulo Barros tem conseguido prover com talento e criatividade.

Mas em 2012 não teve pra ninguém: só se fala na paradona da bateria da Mangueira. É ela o principal ponto de polêmica deste ano de tanta mesmice, a começar pelos enredos coincidentes de algumas escolas.

Foto: Wilson Spiler

A Mangueira amargou uma modesta sétima colocação e por incrível que pareça ficou fora do desfile das campeãs. Apesar do enredo promissor e do samba animado, não deu. Mas o fato é que, ainda assim, mais uma vez é o principal assunto das rodas de comentários sobre o desfile deste ano.

Seu presidente talvez tivesse consciência de que, não podendo oferecer um espetáculo à altura das coirmãs mais poderosas, devia aos torcedores da escola alguma coisa diferente, que a pusesse no centro das atenções. Não seria campeã, porque lhe falta estrutura financeira e administrativa para isso. E, antes que lhe apontassem os inúmeros defeitos de um desfile tecnicamente claudicante, deslocou o foco das atenções para a novidade. Tal como homem que voa, como mar que se abre, como cabeças que se descolam do corpo, a novidade não precisa necessariamente ter a ver com samba. E surgiu a paradona. 

Quando se falar da Mangueira 2012, ninguém certamente vai lembrar das fantasias ruins, dos carros pobres e mal-acabados e de uma certa confusão no deslocamento. Mas todo mundo vai lembrar a paradona. 

Mas afinal o que é a paradona? É uma paradinha com duração surpreendentemente prolongada. A paradinha foi criada por Mestre André, da Mocidade Independente de Padre Miguel, no final da década de 1950, dizem que por acaso, para disfarçar um tombo que levou à frente da bateria, que o susto fez parar. A partir daí, bateria que se preza tem que fazer firulas e convenções. Em apresentações, ensaios e shows essas paradinhas fazem grande sucesso. No desfile são pura exibição de virtuosismo, já que, como sabemos, a função primordial de uma bateria é dar sustentação rítmica ao canto e ao deslocamento da escola. 

A cada ano as paradinhas se estendem e se complicam e a gente se perguntava onde é que tudo isso ia parar. Este ano veio a Mangueira e mostrou, fazendo sua paradinha durar um período tão longo que o canto da escola pôde sobressair de forma interessante, acompanhado pelo som de um pagode de mesa, com seus instrumentos característicos, que ocupava um dos carros alegóricos, numa alusão não ao Cacique de Ramos, seu enredo, mas ao Grupo Fundo de Quintal, cujos componentes são exatamente os fundadores do bloco homenageado.

Foto: wilson Spiler

Só que o público não conseguia ouvir o pagode, precariamente amplificado, de modo que a primeira interrupção, problemática, soou mais como uma falha do sistema de som do que como uma bossa. A repetição acabou por fazer entender que a "falha" ocorria de maneira sistemática, dentro de uma lógica melódica, e aí já não se cantava mais o refrão para ajudar uma escola supostamente prejudicada pelo som da Avenida, mas sim para saudar a ousadia de uma novidade. 

A segunda paradona foi a que deu mais certo, pois o canto da escola correspondeu, surpreendeu, emocionou. A terceira fez atravessar o canto e parece-me que a partir desse pequeno desastre passou a haver uma voz-guia quando a bateria e o carro de som paravam, para evitar que a tragédia harmônica se repetisse. E parte da graça se perdeu.

Eu vi isso, muita gente viu e comentou. Inovar é sempre correr risco. A Estação Primeira assumiu o risco e - quer saber? - se deu bem. Porque, sem dúvida, o sétimo lugar não foi por causa da paradona. Eu ousaria dizer que, apesar da paradona, ela não conseguiu senão um sétimo lugar. Mas alcançou um dos sonhos de todas as escolas: ser mais notada e mais comentada que as outras.

As lições que tiramos desse episódio apontam mais uma vez para a conveniência de se ter na Avenida um som menos agressivo, que deixe um pouquinho de esforço para o componente, pois nada pode substituir a beleza de uma escola cantando a plenos pulmões um samba de qualidade. E mostram que a mesmice, a imitação e a acomodação não são boas companheiras de folia. Mesmo quando a novidade consegue resultados tecnicamente discutíveis, o povo do samba a acolhe com entusiasmo. Neste carnaval só deu ela, a paradona da Mangueira. 

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Para tudo se acabar na quarta-feira...

Rachel Valença | Rachel Valença | 22/02/2012 22h30

É, agora só no ano que vem... Foram quatro dias na Marquês de Sapucaí, assistindo, desfilando, encontrando amigos e conhecidos, saudando os que desfilavam e sendo saudada ao passar em desfile. Práticas e ritos de uma festa que é cultura, quase religião.

Comecemos pelo que é para a maioria o mais importante: o desfile do Grupo Especial. Dividido em dois dias, ele raramente é visto da única forma pelos olhos de uma mesma pessoa. Minha visão do desfile de domingo, em razão de minhas acomodações, foi bem diferente do de segunda, em que, em posição mais favorável, tive condições de formar opinião mais facilmente. Portanto, o que disser a respeito das escolas de domingo deve ser visto com reserva.

A Renascer teve minha solidariedade porque, sendo a mais frágil do grupo, a que acabou de subir, tem ainda contra ela o ônus de abrir o desfile. Enfrenta um público frio e tem menos tempo para os acabamentos e para arregimentar os componentes na concentração. Ainda assim, fez um desfile digno. O trabalho do carnavalesco Edson Pereira funcionou, principalmente no tocante a fantasias: a bateria e as baianas estavam muito bem vestidas. O intérprete Rogerinho teve um desempenho muito bom, na medida em que lhe permitiu um samba sem grande qualidade.

Foto: Riotur

A Portela, que tinha a seu favor o melhor samba-enredo do ano, soube tirar partido disso e fez um desfile muito emocionado, além de correto. O conjunto de fantasias, muito colorido, agradou - como era de esperar num trabalho de Paulo Menezes - e a bateria vestida de afoxé era de emocionar. A porta-bandeira Lucinha estava muito bem caracterizada e sua figura dançando era impressionante. Mas a estrela do desfile foi mesmo a águia, símbolo da escola, em versão dourada, compatível com o barroco das igrejas da Bahia. Um luxo!

Foto: Riotur

A Imperatriz Leopoldinense fez um desfile muito aquém das expectativas de seus admiradores. O samba-enredo arrastou, não foi cantado nem pelos componentes, o trabalho plástico também deixou a desejar e o desenvolvimento do enredo não ficou claro. A exceção foi a lindíssima ala das baianas, bem fantasiada e cheia de seu garbo habitual.

Foto: Riotur

A Mocidade Independente saiu-se bem no desenvolvimento do enredo sobre Portinari, já abordado - e com louvor - por Paulo Barros no Paraíso do Tuiuti em 2003, na minha opinião seu melhor trabalho até hoje. O talentoso Alexandre Louzada não se intimidou e apresentou uma abordagem nova e muito interessante para o enredo. A famosa bateria fez uma grande apresentação, em que se destacou o naipe de frigideiras, que dava um molho especial ao conjunto.

Foto: Riotur

Porto da Pedra fez o que pôde para sobreviver a um enredo equivocado e o carnavalesco Jaime Cesário foi guerreiro, pois pegou, como se diz,  o bonde andando. Era um bonde desgovernado em direção ao precipício. Tragédia anunciada. O 4º carro, Iguarias do Imperador Chinês, era muito interessante e a Velha Guarda foi das mais bonitas que passaram na Avenida este ano.

Foto: Riotur

Aí chegou a Beija-Flor, a mesma Beija-Flor que nos acostumamos a aplaudir e reverenciar. Com Manaus, Macapá, Araxá ou Maranhão, tudo parece igual, até o samba. Mas o fato é que desfilou muito bem, numa performance em tudo superior à do ano passado, quando foi campeã mais pela emoção.

Foto: Riotur

Quando a Vila Isabel entrou na Avenida com a esplêndida comissão de frente concebida pelo craque Marcelo Misailidis, a gente achou que tinha valido a pena a noite até então meio morna. A Vila estava linda, alegre, animada, rica, original. Tudo de bom, para acompanhar um samba que veio crescendo no pré-carnaval e já ameaçava a unanimidade em torno do hino da Portela. O mestre-sala Julinho esteve particularmente inspirado e ele e Rute fizeram apresentação espetacular.

Foto: Riotur

A segunda-feira já começou bem, com um desfile animado e divertido da São Clemente. O carnavalesco Fábio Ricardo provou que entendeu a escola, pegou o espírito da coisa, como se diz. Bonita, irreverente, alegre, com o samba na boca o tempo todo. Que mais a gente quer no carnaval? Confesso que a mulata de Lan, inflável, me proporcionou a melhor surpresa deste ano: quando a abaixaram para que não batesse na torre de televisão, o público delirou. Nada tinha de luxo, de imponência e pretensão, mas era carnaval!

Foto: Riotur

Justamente irreverência, alegria, simplicidade eram características da União da Ilha, a segunda escola a desfilar. Mas o longo período que amargou no Inferno parece ter feito a Ilha perder a alegria. Percebendo a tendência do carnaval contemporâneo, ela amadureceu e ficou séria. Não por acaso, o único momento de irreverência e surpresa foi justamente quando Maria Augusta, a carnavalesca que lhe deu a alma que todos tanto amavam, contracenou com o gari Renato Sorriso naquela que foi a melhor comissão de frente deste carnaval. A Ilha tem um excelente carnavalesco, da nova safra de talentos: o jovem Alex de Souza. Tem um intérprete fantástico, Ito Melodia. E mostrou ter capacidade gerencial para se manter na chamada elite do samba. Acho que já daria para voltar a brincar um pouco...

Foto: Riotur

Quando o Salgueiro entrou na Avenida, o que me veio à cabeça foi o grito de guerra de um puxador que hoje está inexplicavelmente fora do carnaval: Nego. Antes do samba, exortava os componentes com o brado Alô, povão, agora é sério! Vi logo no Salgueiro um rival à altura do desfile da Vila Isabel, na véspera. A escola estava simplesmente maravilhosa. Enredo bom, bom samba, trabalho plástico de primeira e componentes muito motivados. A comissão de frente era uma graça, tudo era leve e bonito, tudo fazia o componente feliz. O ponto alto para mim foi a bateria, com seu mestre fantasiado como os ritmistas, simples e despojado, porque quem tem liderança não precisa de pompa para se impor. Salve, Mestre Marcão!

Foto: Riotur

Mangueira mais do que nunca foi Mangueira. Suprindo a parte técnica com um forte apelo emocional, chega arrasando tudo. De fato, ela nos deu duas boas surpresas: uma ala de baianinhas representando as quituteiras da Festa da Penha que foi a única fantasia tradicional de baiana que se viu no carnaval deste ano, com pano da costa, chinelinha e tabuleiro de quitutes na cabeça. Que saudade de uma baiana, gente! No entanto, no casal de mestre-sala e porta-bandeira, a tradição foi desprezada quando se representa o embate entre Cacique de Ramos e Bafo da Onça, idéia muito original, mas que trai a coreografia tradicional do par, de proteção e sedução e não de enfrentamento. Mas alegria mesmo foi ver Rosemary, fiel à sua escola, linda e muito animada, a musa no real sentido da palavra.

Foto: Riotur

A grande expectativa que precedia o desfile da Unidos da Tijuca foi plenamente Justificada. A escola se saiu bem do aparente desafio, para o carnavalesco acusado de pouco ligado às raízes brasileiras, de um enredo sobre Luís Gonzaga. Paulo Barros passou no teste. Embora a comissão de frente, muito original, não tivesse muito a ver com o Rei do Baião, ele se redimiu inteiramente no carro 3: De barro se faz a vida. Era maravilhoso e precedido pela sensacional ala de bonecos de barro, com a qual fazia conjunto. Lindo demais. O casal Marquinhos e Giovanna também teve uma atuação perfeita, o que não é novidade em se tratando de veteranos de calibre.

Foto: Riotur

Para encerrar o desfile do Grupo Especial, o desfile da Grande Rio ficou muito aquém do esperado: a comissão de frente era boba, mal amarrada ao enredo. O samba, que já não era bom, se tornou desesperador pela repetição. As fantasias eram sem criatividade e os carros uma sucessão de apelo emocional de que é melhor nem falar. Lamentável. Salvaram-se a bateria de Mestre Ciça e uma ala de passistas que foi para mim a melhor do ano, porque sambava com espontaneidade e alegria, o que é fundamental.

Foto: Riotur

Não comentei aqui o resultado, do qual já tenho conhecimento agora. Estas são minhas impressões do que vi, independentemente do julgamento, que quase nunca coincide com o que acho.


Fotos: Riotur

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A saga dos lesados

Rachel Valença | Rachel Valença | 21/02/2012 20h59

Como deve agir uma família mais um grupo de amigos que levam carnaval a sério? Com planejamento. Bem antes de serem postos à venda os ingressos, tudo é decidido, de acordo com a agenda de interesses e de compromissos da maioria.

Este ano havia um dado novo: a opção de frisas do lado par, nos novos setores 2, 4, 6 e 8 e no já antigo 10, antes chamado 4. Como se trata de uma família e de um grupo de imperianos de fé, na maioria, a opção para o desfile do Grupo A,  recaiu sobre o Setor 2, bem próximo à concentração do Império Serrano, do lado dos Correios. Assim, seria possível assistir ao desfile e depois sair para desfilar, sem atropelo.

Foto: Rachel Valença

No caso de minha frisa, escolhi a fila A, mesmo mais cara, porque nos daria a possibilidade de colocar na grade, vem à vista, a bandeira da escola. Nosso grupo comprou seis frisas, num total de 36 pessoas.

Ao chegar à Avenida, às 20:45, fomos informados de que... não havia frisas no Setor 2. Isso mesmo, as frisas do Setor 2 não haviam sido terminadas. Ou seja, pagamos e não levamos!

Em meio a um pequeno caos, com quase cem pessoas nervosas cobrando dos responsáveis uma solução, ouvimos pérolas do tipo: - Calma, por favor, estamos tentando ajudar vocês... Ajudar? Nós não tínhamos problemas, tínhamos direitos. E éramos tratados como pedintes...

A solução encontrada foi aceitar sermos levados para frisas no Setor 11, muitos blocos adiante e do outro lado da Passarela. Demos início a uma maratona, uma correria atrás de um funcionário da Riotur, até o fim do lado par, cruzando a Apoteose e chegando finalmente suados e esbaforidos, a tempo de ver passar a primeira escola. Carregávamos sacos de fantasias, bolsas de alimentos e todos os outros pertences que se costuma levar para a Avenida. E era preciso andar muito rápido para não perder o Bloco dos Enganados, que evoluía rapidamente.

No nosso caso, a opção pelo Setor 2 tinha significado já o pequeno incômodo de ter que usar o metrô, já que os táxis passam longe dos acessos dos setores ímpares. Mas valia a pena, já que economizaríamos tempo e pernas na hora de ir para a concentração.   Nada disso: andamos do metrô à entrada do Setor 2, depois corremos do Setor 2 ao 11 e mais adiante tivemos de cruzar o início do desfile, operação sempre complicada que todo desfilante evita. E tudo por quê? Porque compramos o que não existia. Porque fomos otários de acreditar em quem é tão rigoroso no trato com as escolas, a quem se aplica a máxima "tolerância zero", mas não sabe cumprir o que anuncia.

Se uma escola não terminasse suas alegorias ou suas fantasias a tempo, o que lhe aconteceria? Mas os responsáveis pelo carnaval não terminam sua tarefa a tempo e quem é penalizado é o pobre contribuinte, que paga a obra, paga a frisa, não tem um lugar para chamar de seu e ainda acham que estão lhe fazendo um favor.

Na frisa da fila C do Setor 11 não pude expor a bandeira do Império Serrano, como pretendia.  Pessoas do grupo que chegaram mais tarde, e que nós avisáramos por celular, sofreram constrangimentos para chegar até nós, porque os fiscais da entrada do Setor 11 pareciam não ter sido informados do ocorrido e nos tratavam como golpistas ou mentirosos. Enfim, um pesadelo.

Foto: Rachel Valença

Compreendo que imprevistos acontecem, mas uma ação simples poderia ter amenizado nossa surpresa e frustração: se à tarde, quando se constatou que não havia possibilidade de concluir a obra, tivesse sido divulgado pela imprensa um aviso aos compradores daquelas frisas para que se dirigissem ao guichê tal, ou à sala tal, em que seus ingressos seriam trocados por outros disponíveis. Mas não: lá estávamos nós, de ingresso na mão, na porta de uma frisa fantasma, sendo tratados como um estorvo! Tenho um nome para isso: falta de respeito.

Hoje fui informada por um dos participantes do grupo de que o prefeito teria garantido que para o desfile do Especial, logo mais, as frisas estariam concluídas porque o número de operários tinha sido aumentado, se não me engano para 320. Ah é? E por que não aumentaram 24 horas antes? Por falta de respeito ao Grupo de Acesso, a seu público e a seu desfile.

Se o leitor está me criticando por tratar aqui de um assunto pessoal, lembro que não é tão pessoal assim: se em cada setor existirem 200 frisas; se o problema atingiu os setores 2, 4 e 10; e se em cada frisa cabem seis pessoas, a legião de lesados chega a mais de três mil pessoas. Um calote que prejudica tanta gente é um assunto de interesse geral.

A Riotur e a Liesa transformaram num inferno uma noite muito importante para mim, para nós. Mas o Império Serrano passou deixando um rastro de beleza e emoção. Parte da minha raiva e da minha tristeza se dissipou. Ainda tive pernas para chegar à concentração cedo e curtir aqueles momentos inesquecíveis de um desfile consagrador. A bandeira lá estava numa frisa da fila A do Setor 11, porque um imperiano de fé se dispôs a abrigá-la. Ela é maior que tudo isso.

Foto: Rachel Valença

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Imperiano de fé não cansa...

Rachel Valença | Rachel Valença | 08/02/2012 09h47

Foto: DivulgaçãoNeste agitado pré-carnaval, voltam com frequência à minha cabeça cenas de quatro anos atrás, quando o Império Serrano preparava o carnaval de 2008. Estávamos, como agora, no Grupo A, deixáramos o amplo barracão da Cidade do Samba para ocupar o barracão emprestado pela Unidos de Vila Isabel. E eu me tornara, por força das circunstâncias, vice-presidente de Carnaval.  

A precariedade era total. Faltava água todo dia depois das 16 horas, faltavam banheiros, faltava material, faltava experiência de minha parte e faltava sobretudo dinheiro. Só quem já passou por isso pode imaginar o que é fazer carnaval fora do Grupo Especial. Nem a mais fértil imaginação dá conta dos problemas a serem enfrentados a cada minuto. Aí sim se aplica a palavra superação.

Uma coisa, porém, nunca faltou: a vontade de acertar, a animação, a disposição para trabalhar, a fé na força da nossa escola. Não havia desânimo, não havia tristeza, não havia lamúria. Trabalhava-se muito e acreditava-se que tudo daria certo.

Faltando um mês para o carnaval, o barracão contava com os recursos vindos dos eventos da quadra. E estes eram escassos, porque, com a escola no grupo A, a quadra não lotava. Mas algum sempre vinha. Nossa preocupação era a última semana: as necessidades crescendo e o dinheiro minguando, porque no último sábado antes do carnaval a oferta de eventos em todas as quadras é enorme e os próprios imperianos ficariam tentados a estar fora de Madureira. Que fazer para atrair as pessoas à quadra?

A ideia partiu de Carlos Alberto Machado, imperiano antigo e ilustre que sempre aparecia no barracão para nos salvar de emergências e que depois viria a fazer parte de nosso Departamento de Carnaval.  Ele sugeriu que no último ensaio de sábado antes do carnaval realizássemos a Noite do Imperiano de Fé. O ingresso era uma bonita camisa com os dizeres SOU IMPERIANO DE FÉ e a marca do enredo. E todo mundo, para entrar na quadra, tinha de vestir esta camisa: não importa se era sócio contribuinte, grande benemérito ou visita ilustre: para entrar tinha de comprar a camisa. E artistas amigos, que amam o Império Serrano, seriam convidados a "dar canja", para atrair mais público. Ao longo dos anos, em diversas versões da festa, lá estiveram Dorina, Délcio Carvalho, Luísa Dionísio, Moysés Marques, Zezé Motta, Gabriel da Muda, o imperiano João Bosco e a prata da casa: Velha Guarda Show do Império, Jongo da Serrinha, Meninas da Serrinha, Arlindo Cruz, Aloísio Machado, Jorginho do Império e Alex Ribeiro, filho do nosso imortal Roberto Ribeiro.

Foto: Divulgação

Todas as camisas foram vendidas, a procura era enorme e a festa foi um sucesso: não apenas do ponto de vista financeiro, mas sobretudo para levantar o moral da escola, que acabou sendo campeã debaixo de um temporal histórico. Usar aquela camisa era dar testemunho de amor e fidelidade ao Império. Desde então a festa virou uma tradição, uma bonita tradição da minha escola.

Pois é, leitor, no próximo sábado, dia 11 de fevereiro, o Império realiza a 5ª Noite do Imperiano de Fé, desta vez um tributo a Dona Ivone Lara. Temos muitos artistas convidados e lá estará também a Sinfônica do Samba de Mestre Gilmar, passistas, os casais de porta-bandeira e mestre-sala, as baianas, enfim, tudo que faz do Império Serrano uma escola de samba no sentido mais puro dessa expressão.

Como nossa quadra está em obras, a festa será este ano no Mello Tênis Clube, na Vila da Penha, pertinho do Olimpo. As camisas-ingresso podem ser adquiridas no barracão do Império, no próprio clube ou na lojinha do Império no Mercadão de Madureira. E você, que ama o Império e que sempre pergunta o que fazer para ajudar, não perca esta chance de vestir nossa camisa: vá participar de uma festa linda, uma prova de amor e de fé no Império Serrano e no samba. Se tudo correr bem, Dona Ivone estará lá para receber nossa homenagem.

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Um grupo muito especial

Rachel Valença | Rachel Valença | 01/02/2012 09h15

Por causa das idas e vindas e dos casuísmos constantes que alteram os flácidos regulamentos dos desfiles de escolas de samba, neste ano de 2012 temos apenas nove escolas no Grupo de Acesso A. É pena. E como nove sambas é pouco para encher um CD, uma boa ideia nos proporcionou a inclusão de sambas-exaltação de cada uma das participantes. Temos então 18 sambas no disco: nove são os tradicionais sambas de enredo com que as escolas desfilarão e nove são um adorável brinde, que os amantes do carnaval guardarão com carinho.

Comecemos pela obrigação: o samba para o desfile. Como costuma acontecer em todos os grupos, o disco nos oferece obras de qualidade bem díspare. Vamos do excelente ao lamentável, do tedioso ao contagiante. Chama a atenção antes de mais nada a autoria do samba da Unidos do Viradouro. Gente, 15 poetas para fazer um samba a 30 mãos! Que saudade de Silas de Oliveira, que sozinho foi capaz de nos arrebatar com seu inesquecível "Aquarela Brasileira"! Fora isso, a letra do samba da Viradouro tem bons momentos de poesia, mas acho que não será fácil cantá-lo. Tomara que eu esteja errada.

Dois verdadeiros sambas de enredo apresentam a Inocentes de Belford Roxo e a Santa Cruz. Este último me conquistou pela alegria e pela comunicação com o ouvinte. A segunda deste samba é um passeio leve como o enredo. Muitas qualidades têm também os sambas da Império da Tijuca e do Paraíso do Tuiuti. Se acrescentarmos à lista o do Império Serrano, que considero excelente, já temos mais sambas bons do que ruins, o que nos promete uma noite de sábado de carnaval  muito boa.

Talvez o leitor ache que sou parcial ao classificar como excelente o samba do Império Serrano. Mas quando se trata de samba-enredo não costumo fazer concessões nem ao Império. Quando a escolha é errada não poupo críticas nem mesmo à minha escola - ou principalmente à minha escola -, porque samba bom é fundamental.

No caso do samba deste ano, foi amor à primeira audição. Ouvi todos os concorrentes e logo fiz a minha escolha, que felizmente foi referendada pela comissão julgadora. E olha que havia outros muito bons também, mas este ano estava escrito que era do Arlindo. O bom ensaio técnico comprovou o acerto da escolha.

Rocinha não foi tão feliz, com um samba que não flui e não tem o rendimento que o enredo poderia sugerir. Da Estácio de Sá não se esperava mesmo mais do que o que se mostra. Quando o enredo não ajuda, resta esperar o milagre, que quase nunca acontece... As frases se sucedem sem nada dizer e falta linha melódica.

Com o samba dos Acadêmicos do Cubango acontece o contrário: não falta enredo, um ótimo enredo, mas o refrão final do samba caberia melhor no samba-exaltação do que no samba-enredo: barão e Cubango se misturam, e curiosamente no samba-exaltação (que tem um refrão bárbaro: "pra ser Cubango não se conta até três") fala-se de Sapucaí e no samba-enredo em Ponta d’Areia...

Com isso passo aos sambas-exaltação, gênero muito interessante porque foi o único a sobreviver da modalidade samba de terreiro, depois chamado samba de quadra. O da Viradouro é bonito, o da Império da Tijuca é curto e eficaz, o da Inocentes é bom e forte. Rocinha e Tuiuti ficam nos devendo algo melhor. Santa Cruz arrasa com o verso "Feliz é quem tem a Santa Cruz no coração", talvez não original (o intérprete Quinho, do Salgueiro, usa este bordão), mas cheio de força e apelo.

A Estácio, que tem sambas-exaltação antológicos, fez talvez uma opção infeliz. O Império Serrano, que apostou na tradição com o lindo samba de Jorge Lucas bem conhecido na escola, pecou somente ao mudar o comovente título original do samba, "Império, sou teu eterno cantador", por este inexpressivo "Exaltação ao Império Serrano".

Discretamente comercializado nas quadras, sem divulgação ou distribuição adequadas, é, no entanto, um disco para se guardar.

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As Três Irmãs

Rachel Valença | Rachel Valença | 18/01/2012 22h02

Foto: Ricardo AlmeidaNão, leitores, não fugirei ao desafio de falar sobre os sambas do Grupo de Acesso A, que me foi lançado nos comentários ao último texto. Mas antes peço licença para abrir um parêntese e comentar um evento que ontem reuniu grande quantidade de sambistas e agitou a noite da Lapa.

As três irmãs do título, as escolas de samba que a partir da década de 1970 ousaram ameaçar a hegemonia das quatro grandes da época - Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro -, são agora objeto de um estudo muito interessante, lançado ontem pelos autores Alan Diniz, Alexandre Medeiros e Fábio Fabato. O livro se chama As três irmãs: como um trio de penetras "arrombou a festa". Alan Diniz se ocupa da Beija-Flor, Alexandre Medeiros escreve sobre a Imperatriz Leopoldinense e Fábio Fabato aborda a Mocidade Independente de Padre Miguel. Os jovens pesquisadores têm em comum a paixão por suas escolas de fé e acertaram em cheio ao optar por um gênero leve e de leitura fácil: a crônica.

Distribuídos de forma equilibrada entre as "penetras", são ao todo 35 textos, às vezes engraçados, às vezes comoventes, mas sempre muito informativos, porque registram com fidelidade fatos e personagens que com o tempo tendem a cair no esquecimento, mormente porque do samba e do magnífico universo cultural das escolas de samba ainda há uma bibliografia escassa.

Mas mais do que falar sobre o livro, que merece ser lido, o que gostaria de comentar é o clima de alegria e camaradagem do lançamento. Não era um evento "chapa branca", não havia a "boca livre" que atrai às festas de samba gente estranha, que nada tem a ver com o que se passa ali. Nada disso. Era uma verdadeira celebração da amizade, porque só o prestígio dos autores, vindo do reconhecimento ao que cada um deles já fez por sua escola, é que levou até lá gente importante como Neguinho da Beija-Flor, Pinah, Selminha Sorriso, Zé Catimba, Tiãozinho da Mocidade, Dominguinhos do Estácio, Chiquinho e Maria Helena, Rosa Magalhães, Fernando Pamplona, as baterias das três escolas, passistas, membros das velhas guardas e muita gente mais.

O restaurante Ernesto foi pequeno para tanta animação. Melhor assim, porque sambista não gosta de muito espaço, quer mais é se apinhar. Como é bom estar pertinho de todo mundo, sem aquelas abomináveis áreas vips que discriminam e afastam.

Quem queria tirar foto com os astros conseguia facilmente, porque era tudo próximo e amigável. Não vi mau-humor nem cara feia, só sorrisos e alegria muito legítima, ao som de sambas maravilhosos que essas três escolas nos deram ao longo de suas existências.  

Saí da Lapa com o coração em festa, como acontece sempre que estou com quem é de samba, com quem gosta realmente de samba. Mas mais feliz ainda por ver que há gente jovem preocupada com a memória do samba, que escreve e batalha uma publicação (um viva à Editora Novaterra, que abre espaço para o samba) e ainda por cima é capaz de organizar, sem patrocínio algum, uma festa tão bonita, autêntica e rica de valores culturais.

Foto: Ricardo Almeida

Foto: Ricardo Almeida

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Enfim, os sambas de 2012

Rachel Valença | Rachel Valença | 10/01/2012 01h30

Sempre tive muito medo de opinar publicamente sobre sambas de enredo, que na verdade são a minha paixão, ou seja, constituem o elemento mais importante de uma escola de samba. Há, por exemplo, quem se lembre de todos os carros alegóricos que já passaram na Sapucaí, que seja capaz de descrevê-los minuciosamente e os considere a principal atração de um desfile. Existem também apaixonados por casais de mestre-sala e porta-bandeira ou por comissões de frente. Para mim, nada se compara ao samba de enredo. Seria, portanto, compreensível que eu gostasse de falar sobre eles. Mas, ao contrário, tenho verdadeiro terror de emitir opinião sobre este assunto. E sei muito bem qual a origem disso.

Em 1982 o samba do Império Serrano, Bum Bum Paticumbum Prugurundum, de Beto Sem Braço e Aloísio Machado, foi alvo de comentários contundentes de uma jornalista que hoje prezo muito. Ao fazer a crítica ao disco, arrasou o samba do Império Serrano. A onomatopeia do título foi considerada por ela de mau gosto e por isso chegou a prever a derrocada da escola, que aliás se recuperava de uma péssima colocação. Como se tratava de uma profissional muito respeitada, até que o samba tomasse força e ganhasse a cidade, tornando-se não só o principal fator para a vitória da escola, mas uma unanimidade sua falta já tinha sido esquecida.

Mas a jornalista não se perdoava: pessoa séria e profissional competente, nunca se recuperou desse erro fatal de avaliação. Erro que pode acontecer a qualquer um, pois nem sempre os sambas nos conquistam na primeira audição. Embora às vezes isso aconteça, não é a regra. Então, um samba que originalmente não nos dizia nada pode ir ganhando espaço em nossa preferência e daí a pouco só queremos saber de ouvir este e nenhum outro. Por isso, em que momento será que estamos aptos e maduros para comentar uma safra?

Sobre a safra de 2012, que me parece melhor no seu conjunto do que as dos anos anteriores mais recentes, evitei me manifestar aqui neste espaço, embora isso me tenha sido pedido e cobrado pelos leitores. E se eu escrevesse alguma coisa de que depois viesse a me arrepender? De fato, já mudei de opinião sobre alguns sambas e possivelmente até o carnaval mudarei ainda. Apreciei as avaliações de meus companheiros, principalmente a detalhada análise do Cadu Zugliani, que realmente foi fundo, como era sua proposta. E continuei sem coragem de encarar a tarefa.

Depois que o disco saiu e que a grande imprensa se ocupou dele, parecia não haver mais necessidade de falar sobre os sambas. Até que na semana passada o jornal O Dia me convidou a avaliar os sambas, atribuindo-lhes notas de 8 a 10. Ai, meu Deus, como é difícil! Mas já que o fiz, enfrentando a pedreira, será justo que os leitores deste espaço também tenham o direito de conhecer a minha modesta opinião e até de rirem de mim se eu cair em alguma armadilha daquelas que no passado derrubaram gente mais capacitada que eu. Vamos lá!

Sobre o critério de notas, achei que não deveria incorrer no mesmo pecado dos jurados do desfile, que embolam as notas todas perto da máxima para não ficar mal com ninguém. O jurado generoso e bonzinho não é justo, a meu ver. Para que o bom sobressaia, é preciso escalonar as notas corretamente. Não é simpático, mas é justo. Desse ponto de vista, atribuí um único dez ao samba da Portela, que considero excelente: um samba que a gente aprende e canta sem esforço e quanto mais canta mais tem vontade de cantar.

No conjunto dos muito bons sambas deste ano temos o da Vila Isabel, com sua letra magnífica, o da Mangueira, que conseguiu sobreviver a uma gravação equivocada, e o do Salgueiro, que cresceu na minha avaliação desde sua vitória até o presente.  

No bloco abaixo deste eu incluí os sambas da Unidos da Tijuca, que tem a qualidade de uma melodia identificada com o estilo do homenageado, o da Beija-Flor, mais uma vez com  a marca forte da tradição da escola, e o da São Clemente, alegria e animação compatíveis com o enredo.

Imperatriz Leopoldinense é Mocidade Independente apresentam sambas medianos, candidatos a servir de trilhas a desfiles arrastados. Tomara que eu me engane. A União da Ilha fundiu dois concorrentes para chegar a um resultado um tanto híbrido, como em geral acontece nesses casos, sem um caráter próprio, o que nunca é bom. Mas ainda assim um pouco superior às obras apresentadas por Grande Rio, Renascer de Jacarepaguá e Porto da Pedra, em que os compositores tiveram de se esforçar muito para lidar com enredos que não dão samba. E com resultados bem fraquinhos.  

Pronto, nem doeu tanto assim... Espero pelos comentários dos leitores, sempre cheios de paixão e arrebatamento quando se trata deste tema.

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Tu és meu sonho...

Rachel Valença | Rachel Valença | 27/12/2011 16h18

Foto: DivulgaçãoSe o leitor é de samba, completará com facilidade o verso acima. Eu nunca mais o cantei. No entanto, quando encontro bons amigos daquela época, como foi o caso este mês, em que meu compadre Alexandre Jorge fez 50 anos, gosto de recordar. Cheguei nessa escola de samba em 1988. Já estava no Império há quase vinte anos, mas lá não ousava realizar meu sonho de sair na bateria. Na escola pequena, então no grupo C, a oportunidade apareceu porque o mestre de bateria, Paulinho, me acolheu calorosamente. Passei a frequentar a quadra, onde na época entravam mais cachorros e mendigos do que sambistas.

Logo as devotadas filhas e sobrinhas e os amigos mais chegados queriam participar também. Fizemos uma ala, numa escola que tinha poucas alas e poucos componentes. Nossa ala se tornou comissão de frente num carnaval em que a fantasia do grupo ensaiado não ficou pronta e foi preciso improvisar. E lá estavam os bravos Bernardo, Ivo, Máslova, Inês, Sylvia, Alexandre, João, Míriam, Felipe, Adams e mais uns poucos, sob o comando do Ricardo, entoando o samba com força e fé e conquistando o público e os jurados.

O grupo foi comissão de frente por alguns anos: mais amadores impossível. Não eram bailarinos, eram jovens jornalistas, professores universitários, analistas de sistemas,  em início de carreira, e faziam o sacrifício de ensaiar toda noite para compensar suas deficiências coreográficas. E ainda pagavam a própria fantasia. Por que faziam isso? Porque acreditaram, como eu, no sonho de cinco jovens daquela comunidade que se tornaram a diretoria da escola e em nove anos levaram a escola do Grupo C ao Especial. Sei que muitas escolas emergentes já fizeram essa trajetória em menos tempo, mas não como essa, sem ajuda de nenhuma força oculta, sem comprar resultados, só com muito suor, muito empenho. E, permitam-me dizer, muita transparência.

Amarildo de Souza Felipe, que foi por nove anos presidente, deixou a escola um ano depois de tê-la feito desfilar com dignidade no Grupo Especial, depois de ter sofrido as mais constrangedoras pressões e de ter perdido tudo que tinha no incêndio criminoso de sua casa, uma casa simples no morro que é reduto da escola. Resistiu a tudo. Gastou todo o dinheiro da subvenção do Especial no carnaval. Um belo carnaval. Não comprou carrão nem casa, e hoje, como sempre, anda de ônibus, trabalha como metalúrgico e mora num apartamento pequeno, alugado, no subúrbio. Querem saber? Tenho o maior orgulho de ser amiga dele!

Como presidente, anotava à mão em folhas de papel almaço a contabilidade da escola. A qualquer momento era possível saber dele quanto dinheiro faltava para terminar o carnaval, quanto já havia sido gasto e quanto a escola devia. Sua equipe - Alexandre, Waltinho, Niltinho e Dudu - se imbuía desse espírito e colaborava com paixão.

Lembro-me do empenho do próprio carnavalesco, Paulo Menezes, cujo grande talento eclodiu nos quatro anos em que trabalhou com esses jovens, sem pensar em dinheiro, sem exigir e sem reclamar. Em torno dele um núcleo de idealistas como Horácio, Joacyr, Rogério, Odair e tantos outros, e muita gente que começou a ter naquele momento seu primeiro contato estreito com o carnaval.

Tanto amor, tanto trabalho, tanto esforço não foram em vão. Em cada um de nós - e se você, que está lendo, participou, deixe aqui seu depoimento - ficou um pouquinho dessa rica experiência, que, como todo sonho, acabou.  Hoje, resta a eles (a nós?) o orgulho de andar de cabeça erguida e ser respeitados por quem vale a pena. Não é pouca coisa.

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B.O.: eu acredito

Rachel Valença | Rachel Valença | 19/12/2011 09h46

A notícia da desavença ocorrida há quase um mês na quadra da Imperatriz Leopoldinense, tendo como protagonistas o presidente de honra da escola, Luizinho Drummond, e seu diretor de bateria, mestre Marcone, teve intensa repercussão no mundo do samba.

Mais que isso, ganhou destaque no noticiário dos principais jornais do Rio de Janeiro. Isso me chamou a atenção. Afinal, "barracos" desse tipo são infelizmente comuns nos bastidores do carnaval.  Mesmo agressões físicas são muito mais frequentes do que se desejaria ou se esperaria. O intérprete chega atrasado ao desfile? Tapa na cara. O diretor de carnaval não anda na linha? Tapa na cara. Até mesmo carnavalescos, segundo se sabe, estão sujeitos a esse tipo de reação violenta.  E falo genericamente em tapa na cara para não dizer coisa pior.

Foto: Ricardo Almeida

A sutil diferença entre esses casos, que se acumulam no lamentável "folclore" que envolve as escolas de samba, e o ocorrido naquela noite de domingo em Ramos foi a decisão do cidadão Marcone da Silva Sacramento de registrar queixa contra o agressor, com exame de corpo de delito e tudo o mais. Do desentendimento resultou um Boletim de Ocorrência, o popular B.O., fato inédito em se tratando de sambistas.

A formalização da queixa na instância da sociedade organizada representou um fato novo em situações desse tipo. E mesmo que eu não tivesse - nem pudesse ter, já que lá não estava - uma opinião sobre quem tinha razão, comemorei intimamente o fato, pelo que ele representava: a negação do direito de qualquer um, dirigente ou não de escola de samba, de exercer um poder acima da lei.

Repito: não se trata de tomar partido na questão. Não tenho meios de julgar quem tem razão nem se espera de mim opinião sobre questões internas, sobre as quais correm várias versões. Os protagonistas do episódio me são ambos simpáticos. Luizinho é um apaixonado pelo samba, o que representa um fator de identificação com o que me há de mais caro. Por outro lado, admiro e respeito o jovem Marcone, que foi capaz de, em pouco tempo, dar uma cara nova à bateria da Imperatriz e colocá-la num patamar de qualidade nunca antes atingido. Para a escola, o desentendimento deles é uma perda, mas esse é um risco que sempre se corre.

Surpresa mesmo foi saber que dias após o cidadão Luiz Pacheco Drummond também procurou a polícia para registrar o seu B.O., dizendo-se agredido e correndo atrás de seus direitos. Ao ouvir esta notícia, confesso que cheguei a comemorar, porque imaginei o samba entrando no bom caminho da lei e do direito: quando duas pessoas se desentendem, procuram a autoridade competente para sanar a questão, em vez de tentar resolvê-la às brutas.

Como a briga se dera no dia 20 de novembro, em que se relembra o imortal Zumbi, ocorreu-me o primeiro verso do samba da Mangueira de 1988: "Será que já raiou a liberdade?" Ou seja, será que poderíamos sonhar com um mundo do samba onda as questões se resolvessem sem violência e sem a prática de fazer justiça com as próprias mãos?

Este fim de semana um atentado tirou a vida de uma pessoa na Rua Professor Lacê, em Ramos. Bem em frente, pelo que informa a imprensa, ao prédio onde mora o Mestre Marcone. As outras pessoas atingidas por disparos, segundo li no jornal Extra, eram integrantes da bateria da Imperatriz. Não há confirmação de que Marcone seja um deles. Numa cidade como a nossa, um episódio como esse pode ser apenas mais um nas estatísticas de violência e não ter qualquer ligação como o que se passou anteriormente. Mas confesso que fiquei um pouco triste de constatar que me regozijei antes do tempo e que será preciso viver bem mais para ver chegar o dia em que cidadãos que se desentendem registrem seus BOs e aguardem a ação de quem de direito.

Talvez, como no samba da Mangueira, tudo tenha sido ilusão.

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Alfredinho

Rachel Valença | Rachel Valença | 22/11/2011 14h00

Eu o conheci há muito tempo, quando minha filha Máslova, aos dez anos, começou a desfilar. A Ala Baleiro Bala surgira no carnaval de 1975, quando, no refrão do lindo samba de Avarese: "Baleiro, bala / Grita o menino assim / Da Central a Madureira / É pregão até o fim", as crianças, fantasiadas de baleiros, atiravam balas para o público. Vi desde então a luta de Alfredo Ramos Filho para arregimentar as crianças, providenciar as fantasias e ensaiar a garotada. Eu disse luta, porque o Império Serrano não tinha dinheiro, não tinha patrono, e tudo ficava por conta da gente, num tempo em que a gente entendia que a escola dependia de nós. Mas Alfredinho não encarava aquilo como luta. Sempre animado, sempre de bom humor, tinha um astral tão maravilhoso que passei a ajudá-lo e durante 13 anos esta foi a minha tarefa na escola. Máslova cresceu, chegou a Inês, a Inês também cresceu e eu continuei lá.

Alfredinho era um pedagogo, um educador intuitivo. Adorava as crianças, sabia lidar com elas. Mesmo quando era preciso corrigir, sabia como fazer sem magoar, sem entristecer. Porque carnaval não combina com tristeza. E muitas vezes as fantasias não ficavam prontas, os adereços eram insuficientes para todos, mas ele sabia como administrar a frustração da criançada e era adorado.

Antes do carnaval de 1994 a diretoria resolveu, sem qualquer comunicado prévio aos interessados, nos substituir no comando da ala. Eu fui para a bateria e Alfredinho para a harmonia da escola. E depois de uns poucos anos ele, já como componente da harmonia, voltou à sua função de ensaiar as crianças e acompanhá-las em desfile. E quando eu o via em ação, ensinando aos pequenos imperianos o manual de conduta em desfile, sempre me emocionava um pouquinho.

Éramos amigos e sempre nos entendemos bem. Nunca houve entre nós disputa de poder, rasteiras e fofocas, tão comuns no mundo do samba. Por isso, a notícia de que ele acaba de nos deixar  me deixou muito triste e só pensei em dividir essa tristeza com minhas filhas e com o Bernardo, um pouco filho também, que saiu na Ala Baleiro Bala por alguns anos. Agora, quero dividir esta dor com muito mais imperianos, centenas de componentes que hoje saem na bateria, na ala de passistas, ou estão já no Departamento de Carnaval e em outros segmentos, porque foi com o Alfredinho que desde cedo aprenderam a amar e defender o nosso Império, um pouquinho mais triste e mais pobre sem ele.

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Quem chorava vai sorrir...

Rachel Valença | Rachel Valença | 19/10/2011 13h57

Ainda bem que cheguei a tempo de ouvir, no início da noite, aquele samba-exaltação da São Clemente que tantas boas lembranças me traz: "A São Clemente vem aí / Quem chorava vai sorrir". Depois ele foi novamente entoado pelos visitantes Quinho e Leonardo Bessa, ambos ex-intérpretes da escola. Mas começar a noitada de samba ao som desse hino tem um sabor todo especial.

Assim como se ouve falar de empresa familiar, pode-se dizer que a São Clemente é uma escola familiar. Na semana que vem completa 50 anos de existência. Nasceu de um time de futebol, ali numa pequena vila da Rua São Clemente. Ensaiava numa garagem de bondes que ficava em frente e depois ganhou quadra mais abaixo.

Não era fácil ser o "Orgulho da Zona Sul". Na própria década de 1960 a comunidade que freqüentava a escola foi removida para muito longe. As baianas já não podiam freqüentar os ensaios, a bateria sofreu baixas tremendas. Mas a escola sobreviveu a essa violência cultural.

Na mesma época em que perdeu seu fundador, Ivo da Rocha Gomes - um idealista, um sonhador, capaz de sacrificar-se e arruinar-se pela escola, que era a sua vida - perdeu também a quadra, que ficava bem no caminho do metrô, onde hoje fica a saída São Clemente da estação Botafogo. A vizinhança aproveitou para tentar se livrar da barulhenta vizinha e iniciou uma campanha covarde pela remoção da quadra.

Enquanto as localidades do subúrbio se orgulham de suas escolas, o bairro de Botafogo defenestrou sem cerimônia sua última escola de samba. A escola tinha bons motivos para enrolar a bandeira, mas não foi o que aconteceu. E sabem por quê? Porque Ivo e Dona Marina (ela está aí para ver tudo isso, graças a Deus) puseram no mundo quatro filhos. E esses, que nasceram e cresceram entre instrumentos de percussão e pedaços de fantasias que seriam reaproveitados, não permitiram que o sonho do pai se acabasse.

Aí está a São Clemente, promovendo em quadra própria, na Presidente Vargas, sua final de samba-enredo de escola do Grupo Especial. Festa linda, por sinal, com três sambas de qualidade disputando, e muita alegria na quadra, muita harmonia. O resultado, que todos já conhecem: ganhou o samba de Ricardo Góes e parceiros. Ricardo é um dos mais antigos compositores da escola e a composição, alegre e animada, tem tudo a ver com o divertido enredo !Uma aventura musical na Sapucaí", sobre o teatro musical brasileiro.

Impossível falar sobre a festa da disputa sem fazer menção à simpatia do carnavalesco Fábio Ricardo, um talento sem pose, sem camarote, sem séquito. Elegantemente vestido com a camisa do Botafogo, assistia a tudo do meio da quadra, cumprimentando todo mundo, numa postura encantadora que espero que nunca perca.

Igualmente notável é o apresentador Milton Cunha, que se constitui num espetáculo à parte. Culto, inteligente e sobretudo bem-humorado, consegue ser correto e divertido ao mesmo tempo e foge aos lugares-comuns característicos desse posto, inovando e encantando.

Em tempo de saudosismo e já que lembrei de tempos antigos da querida escola, deixo aqui uma pergunta: por onde andará Fernando Cascavel, o comunicador nos tempos dos ensaios no Mourisco? Lembrei-me dele durante a noite-madrugada (era esse um de seus bordões prediletos) da última sexta-feira.

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Começou mal... Acabou bem

Rachel Valença | Rachel Valença | 21/09/2011 20h03

Ontem, no quarto encontro do projeto Carnaval: que festa é essa?, lá no Centro Cultural Banco do Brasil, não valeu o que está escrito. Pelo menos no tocante ao mediador, se o programa anunciava a participação do economista Sérgio Besserman, quem lá estava era Plínio Fraga, que não foi apresentado por ninguém, cabendo ao respeitável público ir em busca da informação por seus próprios meios.

A primeira rodada foi um desastre. Carlos Lessa resolveu dizer logo tudo, talvez com medo de que depois lhe cassassem a palavra. Apesar de ser um orador brilhante, não escapou de ser um pouco demasiado. Os assuntos abordados pareciam não ter nexo claro e a gente temia pelo desenrolar dos acontecimentos, principalmente quando o mediador balbuciou algum tipo de restrição à verborragia do palestrante e foi firmemente seguro por este, que nem tão cedo parou de discorrer sobre a origem da paixão brasileira pela festa, com breve passagem pela origem do X-tudo e pela explicação sociológica para a profissão de flanelinha.

Finalmente passamos ao segundo palestrante, Jorge Castanheira, presidente da Liesa, que, correto e educado como sempre, mostrou uma apresentação em Power Point sobre várias questões relacionadas ao carnaval, contemplando aspectos históricos bastante interessantes. O passado, o presente e o futuro, de acordo com essa apresentação, sugerem o melhor dos mundos, um espetáculo bem administrado em que tudo funciona às mil maravilhas. E embora muito bem estruturada, com clareza e objetividade, foi também uma longa apresentação.

A essa altura, o público já se revolvia inquieto, temeroso pelo que estava por vir, pois até aquele momento não parecia haver qualquer integração entre os dois palestrantes, que pareciam não estar discorrendo sobre a mesma coisa. E foi aí que o tímido mediador entrou em cena, demonstrando ter grande conhecimento do tema, dirigindo aos palestrantes questões pertinentes e provocações quase ousadas.

Enquanto Lessa se revelou mais conhecedor do mundo dos blocos e do carnaval de rua, lamentando que a comunidade esteja alijada dos desfiles das escolas em função do preço das fantasias, Castanheira abordou questões cruciais do desfile, que nos interessam de perto.

Tranquilizador quanto à certeza de que os prazos para conclusão das obras do Sambódromo serão cumpridos, otimista com relação à melhoria do espetáculo graças à construção de arquibancadas fronteiras, que permitem ao público interagir, feliz com a ampliação da capacidade de público - e Lessa observara a tendência contrária nos estádios de futebol, que estariam expulsando a torcida -, Jorge Castanheira deu show. Em defesa dos parceiros tradicionais da Liesa, como a Globo, cujos adiantamentos pecuniários pelo direito de transmissão permitem às escolas começar a trabalhar mais cedo, declara que a licitação, num caso como esse, equivaleria a trocar seis por meia dúzia.

E quando os questionamentos do Ministério Público foram sutilmente lembradas por Plinio Fraga, Castanheira fez uma hábil comparação com o Enem, em que a estatização foi desastrosa, trazendo à tona a questão da expertise e afirmando que a Liesa já tomou prejuízo para aprender a gerenciar o carnaval, fazendo hoje com 250 funcionários o que a Riotur fazia com 1.600.

Quanto às relações da Liesa com o jogo do bicho, trazidas ao debate com franqueza e habilidade pelo mediador, elas renderam o mais divertido momento da noite: ao ouvir de Jorge Castanheira a afirmação de que não tinha qualquer relação com o jogo do bicho, Carlos Lessa apressou-se a esclarecer: Eu também não! provocando gargalhadas na platéia.

Em resumo, o que começara mal acabou muito bem, num show de inteligência e bom humor. Carlos Lessa é profundo e muito divertido, Castanheira se revelou muito articulado, simpático e respeitador de valores fundamentais de nosso mundo do samba. E se algumas questões continuam sem resposta, outras ficaram mais claras e é sempre bom trazê-las a debate.

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