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Rachel Valença

Rachel Valença

Carioca, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



17/12/2014 08h26

Safra de 2015 revisitada
Rachel Valença

Assim que ficou pronta a gravação do CD dos sambas do Grupo Especial para 2015, gravamos nossos comentários. Era a primeira audição dos sambas e fiz questão de deixar claro que provavelmente minha opinião iria mudando, à medida que ouvisse mais vezes cada samba. E mudaria talvez ainda por ocasião dos ensaios técnicos, quando no contexto de um desfile os sambas ganham outra dimensão.

O processo já começou: com o CD na mão - em seu formato que parece imutável, sempre a mesma capa, a mesma contracapa, zero de inovação -, a gente fica ouvindo a toda hora, sempre que há um tempinho, sozinha ou na companhia de amigos que nos alertam para aspectos que não havíamos notado. E a opinião vai mudando.

Por isso, deixo agora as minhas segundas impressões sobre a safra de 2015.

Começo pelo excelente samba da Unidos do Viradouro, que creio que não pode ser comparado aos demais do disco, porque seu processo de criação difere muito dos demais: não foi composto a partir de uma sinopse, regra básica do gênero. Ao contrário, ele é que gerou sinopse. É genial e certamente dará ensejo a um grande desfile, mas na análise de composições do gênero é preciso ter cautela e atentar para precedentes que podem ser perigosos à sobrevivência do modelo em vigor.

Dito isso, continuo achando muitas qualidades nos sambas da Imperatriz, da Portela e da Beija-Flor. Este resume no último verso do refrão final ("resgata sua alma africana") o que urge fazer para se penitenciar de erros e desvios recentes e retomar uma trajetória de sucesso. A Portela, que também vive um momento de retomada, vem com aquela pegada leve e malandra que tem caracterizado seus últimos desfiles, num samba rico em jogos de palavras e citações felizes e de fácil absorção. Já o samba da Imperatriz cresce a meus ouvidos dia a dia.

Muito épico, como convém à homenagem a um herói, quebra o tom no final, de maneira feliz e inspirada, ao destinar ao preconceito o que ele merece, esta banana que se tornou tão simbólica dos recentes e lamentáveis episódios ocorridos em campos de futebol e fora deles. Com a brusca mudança de tom, é como se os poetas quisessem dizer que não há forma bonita e elegante de tratar atitudes desprezíveis de discriminação e intolerância. 

Os sambas da São Clemente e da União da Ilha têm subido de cotação no meu ranking pessoal a cada nova audição. No primeiro, o refrão final é muito bom e alguns achados poéticos emocionam os que conheceram e admiram o mestre Pamplona, que se foi há tão pouco tempo brilhar em outra dimensão. O samba da Ilha brinca o tempo todo com o tema, para no final, pouco antes do segundo refrão, revelar súbita sabedoria: "Vim sem nada pra vida, nada vou poder levar", mas ainda no tom alegre que o enredo requer e a tradição da escola aconselha.

Já os sambas de Mangueira e Vila Isabel por enquanto não melhoraram de conceito. Este último tem alguma coisa que soa artificial, talvez, na tentativa de comparação de universos tão distintos, uma sofisticação fora do tom. Alguns versos têm excesso de palavras, dificultando o canto. Torço para que minha sensação não se confirme no ensaio técnico e no desfile. No samba da Mangueira novas audições confirmam a previsibilidade das imagens poéticas. A letra é uma sucessão de lugares-comuns e só o carisma da escola nos garante a emoção ao cantar as queridas matriarcas. Ressalte-se a correta e elegante interpretação de Luizito.

Entre Salgueiro, Tijuca, Grande Rio e Mocidade, as duas últimas ainda conseguem um pouquinho mais do que as duas primeiras. Ao ouvir o samba da Tijuca, tenho a sensação, quase a certeza, de que já o conhecia, tal a obviedade da melodia. O do Salgueiro não emociona nem contagia. O hino da Grande Rio tem acertos na letra, com bons momentos de jogos de palavras, mas fica a dever em animação. E o samba da Mocidade, apesar dos esforços de Bruno Ribas, também está longe de ombrear com tantas belezas que a escola já nos proporcionou, principalmente pela ausência de frases completas, apresentando apenas uma sucessão de expressões como "é de enlouquecer", "a hora é essa", "eu já tou louco", "roda baiana", sem um nexo sintático que as costure numa narrativa de enredo. Apesar disso, há nele uma animação que, se for capaz de contagiar o componente e o público, mandará às favas o nexo e tudo o mais. Tomara.

Estou preparada para as reações a esses comentários e lembro que o que está aqui é apenas a minha opinião, que como disse lá atrás nem sequer é definitiva. É meu dever externá-la aqui. É o que se espera de um comentarista. Sei por experiência o quanto é penoso ouvir da boca de terceiros coisas negativas sobre nossa escola, mesmo quando no íntimo concordamos com elas. Daí a raiva que os comentários despertam às vezes. Que venha o tiroteio. Pior do que ele é ser condenado a ouvir por 82 minutos um mau samba.


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01/12/2014 08h30

Dez, nota dez
Rachel Valença

Acabado o Carnaval de 2014, proclamada campeã a Unidos da Tijuca, que apresentou um desfile que a habilitava ao título, parecia não haver motivo para o clamor que se levantou com relação aos critérios de julgamento. Mas aqui neste espaço e em todos os outros meios dedicados ao debate sobre Carnaval, foram apontados equívocos e absurdos, principalmente por causa das notas atribuídas à Vila Isabel, muito acima do que mereceria, e à Império da Tijuca, bem abaixo daquela a que faria jus. Queríamos todos (e eu escrevi algumas colunas sobre isso) mudança.

Agora a LIESA anuncia mudança. Oba, fomos finalmente ouvidos? Para meu espanto, a maioria dos comentaristas e aficcionados do Carnaval está contra. Mais uma vez, aqui se aplica a citação: "Temo os gregos, mesmo quando trazem presentes". Parece que entre nós todos a LIESA está tão desacreditada que não achamos possível que ela tenha simplesmente se apressado em atender ao nosso clamor: preferimos acreditar que há alguma coisa por trás disso.

E que coisa seria essa? Segundo leio e ouço por aí, desconfia-se que a poderosa Beija-Flor, inconformada com sua colocação, tenha pressionado por mudanças. De fato, há anos a comunidade do samba reclama mudança e não é atendida. Já a Beija-Flor, se nunca antes teve razão para reclamar, este ano vociferou e logo se fez ouvir. Mas, apesar de ser isto um fato incontestável, estou animada com a mudança, porque afinal nós a pedimos. E se fomos atendidos, tudo bem. Não precisamos especular por que. Ou por quem...

Incomodava-me ver jurados que há mais de vinte anos participavam do júri, sempre dando dez às mesmas escolas. Não parece estranho que o desempenho de uma escola seja tão estável? Acho que toda mudança, por si só, já é saudável. O fundamental é saber a natureza desta mudança. O presente dos gregos aos troianos bem sabemos como acabou. Por isso, todo o cuidado é pouco na hora de analisar quem está chegando ao júri. Os presidentes de escolas têm poder de veto e é importante que pesquisem a analisem bem de onde vêm as pessoas indicadas. Afinal, se o desempenho delas é que nos mostrará quem tinha razão, quando isso ficar claro já será tarde demais para chorar o leite derramado.


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31/10/2014 09h46

Conversa de botequim
Rachel Valença

Não, não é do famoso samba de Noel Rosa que estou falando. Falo hoje de algo muito caro ao meu coração: o Botequim do Império. Creio que foi na década de 1980 que ele começou a existir. Era sábado à tarde, com entrada franca e um ambiente muito informal, tudo sob o comando de seu Natalino, que na época era o mestre de bateria, mas tinha, além disso, uma incrível facilidade de comunicação. Em pouco tempo se tornou um sucesso espetacular, a quadra ficava lotada, a escola faturava com a venda de cerveja e os artistas vinham cantar de graça, porque cantar no Botequim do Império dava status, era sinônimo de prestígio. Quantos sambas bons foram ali apresentados muito antes de serem gravados e se tornarem sucesso nacional?

Não me lembro de quando o Botequim acabou. O meu Império sempre lidou mal com coisas que dão certo... O fato é que muitas vezes, ao longo dos anos, se tentou retomar a ideia, fazer renascer o Botequim, mas sempre ficava faltando aquele algo mais que é a marca do sucesso, algo aliás indefinível, imponderável, inexplicável.

A atual gestão, com muito acerto, vem retomando atividades que movimentem a quadra. O imperiano andava com saudades de sua quadra, esta é a verdade. Uma dessas atividades, aliás a que mais me alegra no momento, é o Botequim do Império. Está acontecendo de 15 em 15 dias, mais exatamente no segundo e no quarto sábado do mês, para não coincidir com a Feijoada Imperial. E tem um caráter totalmente diferente dela. A Feijoada é um grande evento, um evento de palco, de mesas e camarotes, de casa lotada, de Jorginho do Império, de bons conjuntos de samba, tudo acabando em Sinfônica do Samba e seu show habitual.
Já o Botequim é intimista, com o grupo tocando em volta de uma mesa, onde reina absoluta a imagem de São Jorge. O público vai chegando aos poucos, pode ocupar mesa, se quiser, pode ficar em pé, pode beber sua cerveja, comer belisquetes, dançar sozinho ou de par, e quando a gente se dá conta a coisa bombou! E sabem por quê? Por que o pessoal que toca é bom demais e escolhe seu repertório com um coração imperiano.

São meninos bem novos, muita gente boa da Serrinha e das famílias tradicionais do Império. Lá estão Júnior Oliveira, neto de Silas, lá está o Fofão, que eu conheci criança e que se não me engano descende dos Oliveiras fundadores do Império. Lá está o João da Serrinha, gente finíssima e sambista completo, organizador de rodas de samba lá no nosso reduto. Só tem fera. E desencavam do fundo do baú cada samba que a gente se arrepia. Não só coisa da antiga, não. Outro dia, ouvi lá um partido-alto sobre Mestre Fuleiro, uma coisa muito linda. Quem disse que só coisa antiga é que é boa?

No sábado em que Tia Maria do Jongo foi a visitante de honra, que momentos maravilhosos e quase intraduzíveis vivemos na quadra! E a cada semana a chegada de Ítalo, cantando o repertório do saudoso Beto Sem Braço, nos transporta a momentos do passado e nos encanta. Talvez pensem que são minhas raízes imperianas que me fazem apreciar tudo isso, mas como explicar que Asha, uma jovem norte-americana que lá esteve uma vez, não queira saber de outro programa? Pois mesmo quem não compreende com perfeição o que está sendo cantado é tomado pela emoção, pelo modo como as coisas se passam. É nítido que não se trata meramente de um compromisso profissional de músicos, mas quase de uma obrigação de cunho religioso, do âmbito da fé.

Este era o espírito do Botequim do Império, daquele Botequim original, que deixou saudade e está revivendo agora. Por isso, tenho certeza de que vai em frente e terá vida longa. Se depender de Paulinha e Graziele, madrinhas do Botequim, vai longe. Ouvir cantar, ao final da tarde, "Heróis da liberdade", com as pessoas de mãos dadas e os instrumentos cedendo lugar ao canto rude daquela voz coletiva me faz ter a certeza de que nosso Império é eterno. E sou grata ao Mateus Carvalho, ao Júlio Morais, ao Lucas Nunes, ao Joacyr Nogueira e a tantos outros jovens ritmistas imperianos que, lutando bravamente em defesa deste espaço de expressão, proporcionam a todos nós alegria e emoção.


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22/10/2014 09h33

Mais um ciclo que se encerra
Rachel Valença

Estamos vivendo mais uma vez o fim de um ciclo que se repete a cada ano: a disputa para escolha do samba-enredo em nossas escolas de samba. Para muitos, trata-se de um período mais emocionante do que o próprio desfile. É acompanhado com paixão, gera brigas, rivalidades, discussões infindáveis...

Muitos são os que contestam a forma atual de escolher o samba, apontando, com razão, um exagero na valorização de questões menores, como torcida, adereços e o que se convencionou chamar "o palco", ou seja, intérpretes, músicos, camisas para os (muitos) parceiros... Enfim, todo o rol de gastos que os compositores são obrigados a encarar para concorrer. Por isso, dizem, é que há tantos parceiros num samba: um ou dois compositores conseguem, sem dúvida, fazer um bom samba (não faltam bons exemplos), mas não conseguem arcar sozinhos com as despesas da disputa.

Foto: SRZD

No entanto, as disputas de samba-enredo são uma necessidade. E não apenas como forma de faturar. Elas têm sua importância como rito: ouvir os sambas a cada semana, ver como se comporta a quadra, ver como age a bateria, tudo isso contribui para consolidar nossa preferência. Seria provavelmente desastroso escolher o samba no dia da primeira audição, sem amadurecimento suficiente e sem estudo. E estudo não significa apenas a análise da letra em face da sinopse do carnavalesco, a análise da melodia em função do canto da coletividade. Significa a observação do comportamento dos componentes em relação ao que ouvem.
Se me permitem um depoimento pessoal, lembro-me que para o carnaval de 2008, quando o Império Serrano reeditava o enredo sobre Carmen MirandFotos: SRZDa, mas com novo samba, a disputa foi acirrada e havia três excelentes sambas. Como parte da comissão julgadora, lembro-me claramente da eliminatória em que decidi meu voto, ao observar um casal que dançava na quadra e fazia uma coreografia muito adorável no trecho que dizia "se internacionalizou / samba ioiô/ fez o Tio Sam sambar / samba iaiá". Ninguém lhes encomendara ou sugerira nada, apenas se divertiam com espontaneidade, provocados pelo que estavam ouvindo. E eu percebi que aquele era o samba capaz de mexer com a criatividade e a emoção do componente, exatamente o que o Império precisava naquele momento. Meu voto ajudou o samba a vencer e o Império foi campeão num desfile avassalador, pura emoção.

Talvez a falta de observação seja a razão de tantos equívocos em matéria de samba-enredo atualmente. Será que as pessoas que escolhem - seja quem for - de fato analisam todos os aspectos que envolvem um bom samba, ou simplesmente se deixam levar pelos nomes dos compositores? Este é o samba de Fulano, que ganhou no ano passado. Logo, é melhor do que aquele outro, cujo autor ninguém sabe quem é. Reproduz-se no interior da escola exatamente o que se condena nos julgadores dos quesitos no desfile.

Fotos: SRZD

Por outro lado, é triste reparar que a cobertura jornalística das eliminatórias e das finais aborda preferencialmente aspectos secundários, como a quantidade de torcida, as alegorias e adereços utilizados e outras questões periféricas e deixa de dar aos leitores informação sobre as características dos sambas concorrentes. Talvez por medo de avaliar, talvez por falta de interesse ou de vivência para fazê-lo.

Este ano duas agremiações fugiram a essa modelagem cruel: a Viradouro, que não teve concurso para escolha de samba-enredo, optando por desfilar com uma adaptação de dois sambas do saudoso Luiz Carlos da Vila; e a São Clemente, que realizou sua disputa a portas fechadas, sem permitir a entrada de "estranhos" à escola, o que só aconteceu na final, tentando assim evitar que o foco se deslocasse da qualidade do samba para toda a produção que se convencionou utilizar para acompanhá-lo.

São caminhos diferentes, tentativas de escapar de um padrão de conduta que tem sido criticado e que de fato está pedindo uma reflexão mais profunda. As consequências nos mostrarão se foram válidas. O tempo dirá. Mas o assunto precisa ser debatido para se tentar chegar a uma solução que não sacrifique o bolso do compositor nem a qualidade dos sambas.

Em tempo: nada do que aqui escrevi se aplica a minha escola: lá a escolha do samba foi quase uma unanimidade e a obra, assinada pelas maiores estrelas de nossa ala de compositores, tinha todos os méritos para vencer. Mas disso falarei mais adiante.


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07/08/2014 09h03

Carnavália-Sambacon: um balanço
Rachel Valença

No último fim de semana, a grande pedida para os sambistas foi a feira de negócios Carnavalia-Sambacon. E feira de negócios é bom programa? Claro, porque nosso negócio é carnaval. A ideia é antiga, há pelo menos vinte anos ouço falar em projetos de realização de um encontro de sambistas mais amplo do que os que normalmente se realizam, ou seja, algo que incluísse, além de debates e confraternização, um espaço para divulgação de negócios e produtos relacionados à nossa maior festa. Finalmente, de 31 de julho a 2 de agosto, ela se materializou.

Foi apenas a primeira, mas considero que foi muito bem-sucedida. Os expositores eram de várias naturezas, mas houve muito capricho em estandes e apresentação de produtos e serviços: lojas de venda de artigos carnavalescos, instituições de formação de mão de obra, projetos, órgãos de comunicação, entidades representativas, de tudo um pouco. A gente circulava, revia amigos, ouvia bons sambas e matava um pouco a saudade, porque fevereiro está longe.

- Clique aqui e leia tudo sobre a Carnavália-Sambacon

Carnavália-Sambacon. Fotos: Henrique Matos

No quesito das apresentações artísticas, houve na minha avaliação dois grandes momentos: a roda de partido-alto comandada por Tantinho da Mangueira, um rei do improviso, à qual aderiram figuras como Elmo e Alvinho, que mostraram que as atividades administrativas que hoje os absorvem não lhes roubaram de todo a paixão do samba puro. O desfile, pelas ruas formadas pelos estandes, dos casais de mestres-salas e porta-bandeiras das escolas mirins foi outro momento de emoção e prova de força daquele que "agoniza mas não morre".

Os debates que constituíram o Encontro Nacional de Samba foram bem organizados e alguns despertaram muito interesse, com excelente público. Os mediadores têm, é claro, grande responsabilidade no sucesso de uma mesa de debates, pois a forma de condução é primordial. Nem sempre houve acertos nesse quesito, mas em duas mesas as coisas fluíram bem e por sorte tratavam de assuntos relevantes. Gestão das escolas de samba, por exemplo, um assunto muito atual e vibrante, foi uma excelente mesa, com a participação de presidentes de entidades representativas de outros estados que nos trouxeram seus problemas e experiências. Mas a estrela absoluta foi mesmo a nossa Liesa. Pensará o leitor que se trata de uma obviedade, já que a Liesa era a promotora do evento. Não. A Liesa brilhou porque Jorge Castanheira, seu presidente, é um achado. Sem dizer ou fazer nada que os presidentes anteriores da Liga não assinassem embaixo, tem, no entanto, um tom totalmente diferente de todos eles. Com humildade, com voz branda e palavras educadas, apresenta os fatos de maneira arrumada e até encantadora. Tem conhecimento e convicção e não repete um discurso decorado, fala com emoção e indignação em alguns momentos.

É claro que eu gostaria de ter ouvido sobre o assunto um presidente que creio que teria muito a dizer sobre organização e visão empresarial, exatamente porque lida com a carência e consegue driblá-la com muito acerto: Tê, da Império da Tijuca. Mas não havia presidentes de agremiações no debate, e se houvesse certamente não seria o de uma escola que está no acesso. Pena! O evento poderia ter perdido um pouco o caráter chapa-branca que incomodou em alguns momentos.

Carnavália-Sambacon. Foto: Henrique Matos

A mesa de encerramento, na noite de sábado, foi outro ponto alto do Encontro. Tratava da cobertura do carnaval na mídia e seu sucesso se deveu, em grande parte, ao experiente Miro Ribeiro, que mediou o debate com graça e eficiência. Falou-se da cobertura do pré-carnaval, em que as escolas de samba vêm perdendo espaço, e do desfile, inclusive das condições de trabalho dos profissionais na Sapucaí. Também foi abordado o tema da divulgação das próprias escolas, que aos poucos se conscientizam da necessidade de contratar profissionais para este fim, e os programas de rádio e TV que têm o samba e o carnaval como temas.

Em matéria de carnaval, muita coisa está precisando ser debatida. Acabada a Copa do Mundo e tudo que ela nos proporcionou de alegrias e tristezas, de surpresas boas e de decepções, podemos, creio, tirar algumas lições do futebol. Assuntos não faltam: que venham os debates.

 

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19/05/2014 12h46

Eleições no Império Serrano: de luto
Rachel Valença

Peço licença aos meus leitores para falar de um assunto que não é só meu, como pode parecer a alguns. Antes fosse! É um assunto que afeta uma das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro e por essa razão tem ocupado recentemente o noticiário de veículos de comunicação, o que me deixa à vontade para falar dele também.

Preferiria que o meu Império Serrano ocupasse o noticiário por outras razões, mas ei-lo exposto na mídia pela incapacidade de diálogo de seus mais notórios sócios, aqueles que pretendem ocupar cargos de direção.
Ontem, na porta da sede desde muito cedo, com o intuito de votar, como associada que sou há mais de 40 anos, o espetáculo de intolerância me deixou acabrunhada. Como já deixei aqui bem claro inúmeras vezes, eu amo o processo eleitoral, amo a democracia, nunca me canso de louvar o fato de haver eleições livres, comandadas por uma mesa eleitoral escolhida em consenso e por isso respeitada. Já fui presidente de uma dessas mesas, numa eleição no início da década de 1990, uma disputa acirrada, como sempre. E me vi em cima do palco da quadra, com uma urna de papelão cheia de votos e cercada por representantes das chapas muito agitados e vibrantes, mas não temi pela minha segurança: os votos foram contados, o resultado proclamado por esta baixinha, e todos, satisfeitos ou não, se curvaram respeitosamente a ele. Confesso que foi um dia de muita alegria para mim, não pelo resultado, mas pelo processo democrático, de uma beleza enorme. Não havia segurança, não havia TER, mas havia confiança e respeito por uma agremiação que era de todos.

- Processo eleitoral no Império Serrano é suspenso por liminar judicial

Fotos: Reprodução de Internet

Nas eleições imperianas, aliados de hoje já foram adversários em eleições passadas; dentre os atuais adversários se contam amigos queridos, que não deixarão de sê-lo por estarem neste momento em campo oposto. Como isso é bonito! Melhor dizendo: como isso era bonito! Porque hoje há principalmente ódio e interesse, que, como se sabe, não são bons companheiros. Ouvi por exemplo de um querido amigo, um imperiano histórico, ao perguntar-lhe por que não compusera, como vice, a chapa que apoia, que preferira não fazer parte da chapa e, em caso de vitória, ser contratado como diretor de barracão. E completou: "Como vice não ganho nada, vou trabalhar de graça. Como diretor de barracão posso ganhar algum..."
Não imaginam como essas palavras me doem. É triste ver alguém se referir desse modo à enorme honra que é fazer parte do Conselho Diretor de nossa escola, com todos os sacrifícios que isso nos impõe. E imediatamente me lembrei daqueles bravos trabalhadores do porto do Rio de Janeiro, que, ao fundar o Império Serrano na década de 1940, contribuíam com um percentual de seus salários para que a escola se tornasse a potência devastadora que foi em seus primeiros desfiles. Hoje, ao contrário, só se trabalha pelo Império com salário, e nem um imperiano tradicional foge a essa regra de maldição.

Ontem, ao responder a um jornalista que quis me ouvir sobre o assunto, fui sincera ao dizer que não sei em que momento nosso trem saiu dos trilhos. Pois até hoje existe gente que só quer o bem do Império Serrano, sem exigir nada em troca. Mas é pouca gente. E precisaria de muito mais.
Não tivemos eleições, sabe Deus quando as teremos. E enquanto outras escolas, que concorrerão conosco em 2015 cuidam de seu carnaval, no Império Serrano a falta de união e de diálogo oferece ao mundo um triste espetáculo.

Outro imperiano histórico que se encontra em posição antagônica à minha na presente eleição chegou ao cúmulo de me afirmar, diante de testemunhas, que a situação iria piorar e que acabaria "morrendo gente". A resposta que lhe dei quase me levou às lágrimas, mas foi sincera e se a reproduzo aqui é na tentativa desesperada de despertar a consciência sobre o absurdo que está ocorrendo: espero que não morra gente, mas já estão tentando matar o Império Serrano.

Tenho fé que tudo se resolverá, pois a situação por que passa nossa escola recomenda que se sentem todos os envolvidos em torno de uma mesa para pensar numa saída, sem levar em conta vantagens pessoais ou mortes e vinganças, mas somente buscando uma solução para a grave crise que atravessamos. Para isso, seria preciso que houvesse amor e devoção, coisas cada vez mais raras nas escolas de samba.


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12/05/2014 13h51

O ciclo eleitoral das escolas de samba
Rachel Valença

Nem todas as escolas de samba realizam eleições. Das que as têm, algumas são pra valer, outras, mera formalidade com o objetivo de dar cunho legal a situações previamente acertadas. É claro que estou falando aqui apenas daquelas onde há eleição livre, com normas previamente estabelecidas num estatuto ou regimento em vigor.

Observo que em geral os mandatos são de três anos. No primeiro, o candidato vencedor conta com o apoio da maioria, é amado, elogiado, louvado, nele se depositam esperanças quase messiânicas. Passa-se o primeiro carnaval, o salvador da pátria luta como um condenado, enfrenta muita cobrança e conta com pouca ajuda. Se os resultados de seu trabalho são excelentes, mesmo que não lhe rendam um título, ele segue em frente, ainda com algum apoio, mas a cobrança cresce e os descontentes já engrossam um coro cada vez maior. Acabado o segundo carnaval, com menos ajuda do que no primeiro, porque em geral já há dissidentes em sua própria equipe, o herói de um ano antes se transforma em vilão. E mais um carnaval, o último de sua gestão, irá provavelmente transformá-lo no inimigo público número um.

Ao mesmo tempo, vão surgindo novos nomes, candidatos a heróis. Com a certeza de que triunfarão onde outros naufragaram, se lançam em campanha, às vezes prometendo o que sabem que não poderão cumprir, às vezes acreditando de fato que é perfeitamente possível fazer tudo aquilo que seus antecessores não fizeram por inépcia ou má-fé.

Foto: Diego Mendes

O que será que, nas escolas de samba, transforma heróis em vilões num espaço tão curto? Estou convencida de que, além de mudar a forma de gestão, seria imprescindível mudar também a mentalidade dos próprios eleitores, os associados, que votam e no dia seguinte estão cobrando. Na melhor das hipóteses, cobrando resultados; na pior das hipóteses, cobrando camisa, ingresso, camarote, cerveja. E se esses favores são negados, o eleitor fica indignado: "Votei em você e você me nega uma coisa tão pequena?"

A mudança interna deveria começar pela consciência daquilo que esperamos obter com nosso voto: um dirigente que nos favoreça ou um dirigente que tenha como prioridade o sucesso da agremiação? Sei que é difícil mudar mentalidades arraigadas, mas estou certa de que enquanto tais mudanças não se operarem continuaremos a vaiar nossos ex-ídolos e a buscar um novo herói para ocupar o pedestal.

Na manhã do último sábado participei de uma mesa-redonda no Fim de Semana do Livro no Porto, um evento lindo, bem organizado, de grande impacto cultural. Fui convidada pelo curador Luiz Antonio Simas a falar das relações do Império Serrano com o porto no momento de sua fundação, em 1947. A figura central da minha fala foi, como não podia deixar de ser, Elói Antero Dias, esse grande líder da negritude em nossa cidade. E ao contar mais uma vez esta linda história de amor à liberdade e à democracia, senti orgulho porque a escola fundada por seu Molequinho e inspirada na estrutura e na organização da Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, uma entidade sindical de base étnica, a escola de Mano Elói e de tantos outros bambas continua no bom caminho da democracia: no próximo domingo teremos eleições livres, ao que tudo indica com a participação de quatro chapas.

A semana que passou foi conturbada, com brigas e tentativas de quebra dos trâmites pré-eleitorais. É muito ruim ver nossa escola associada a acontecimentos como esses. Sempre acreditei que os nossos problemas devem ser resolvidos internamente, com a franqueza necessária, sem precisar recorrer a expedientes externos que fragilizam a agremiação. Para isso há um estatuto. Preocupar-se com seu cumprimento só na véspera da eleição é oportunismo.

Não sou favorável a lavar roupa suja fora de casa, por isso não desejo expor problemas internos que são exclusivamente da escola. E lamento que o Conselho Deliberativo, que foi omisso e se calou durante toda sua gestão, venha agora fazer isso recorrendo à justiça para resolver uma atribuição que foi sempre sua e apenas sua.

Teremos eleição no próximo domingo e espero que vença o melhor. Para isso, nós, os eleitores, devemos analisar quem são os candidatos, o que já fizeram - de bem e de mal - para a escola e como é sua conduta como cidadãos. Atos contam bem mais do que palavras. Mas sobretudo devemos nos conscientizar da responsabilidade do voto, que implica um compromisso. O voto é o início de um processo no qual temos de nos envolver de corpo e alma. Se votamos num candidato, assumimos o compromisso de apoiá-lo, colaborar com ele, estar com ele na luta por uma escola forte e vitoriosa como todos queremos. Sem isso, fatalmente daqui a três anos estaremos execrando este mesmo em quem hoje depositamos todas as esperanças. E isso não vale só para o Império Serrano não: vale para todas as escolas de samba onde a voz do sambista ainda é ouvida.



23/04/2014 19h13

Grandezas e misérias do carnaval que passou
Rachel Valença

À medida que o tempo passa, vamos desapegando do carnaval de 2014 e enxergando-o com distanciamento crítico, sem o calor da hora, sem as paixões do pós-carnaval. Já digerimos as notas, as justificativas, as injustiças cometidas. Amantes do carnaval que somos, vivemos do recomeço: no final de abril já se fala mais em 2015 do que em 2014. É natural.

Foto: Divulgação

Mas por isso mesmo me sinto tentada a ainda falar de coisas que me alegraram e de coisas que me entristeceram na festa que passou. Fica combinado que não vale falar de classificação, nem de nota, nem de justificativa. Vou tentar me ater à festa propriamente dita, vivida por mim intensamente em quatro noites inteiras na Passarela do Samba, assistindo, desfilando, trocando ideias com amigos, ouvindo os comentários dos populares que me cercavam - estive em vários setores, ora em frisas, ora em arquibancadas, na pista, na concentração e na dispersão. Como qualquer pessoa, me alimentei, usei os banheiros, me indignei, me emocionei. Como alguns, trabalhei.

Comecemos pelas grandezas: a primeira delas é a sobrevivência do desfile, apesar dos prenúncios catastróficos de seus críticos. Tudo vai mal, dizem eles. Também eu digo isso às vezes, mas o fato é que lá estão as escolas, em seu tremendo esforço para se superarem a cada ano, para trazer novidades, para seduzir. E conseguem tudo isso, sabe Deus a que preço. Talvez exatamente por isso haja tanta beleza e magia no espetáculo que oferecem. Contra todas as previsões, o desfile está aí, lindo, empolgante, surpreendente.

A principal grandeza da Sapucaí este ano foi exatamente a diversidade. Pôde-se assistir a apresentações tão diferentes quanto a da Unidos da Tijuca, cheia de modernidade, a do Salgueiro, luxuosa e pesada (no bom sentido), e a da Portela, uma escola de samba às antigas, com samba de enredo e tudo que a tradição recomenda. Foi espetáculo para todo gosto.

Outra grandeza deste carnaval foi ver a União da Ilha se apresentar como uma grande escola, linda, organizada e vibrante. Não faz muito tempo ela amargou um longo período no grupo de acesso, conseguiu subir e permanecer no especial e ao que tudo indica está forte o suficiente para partir pra cima das mais poderosas com competitividade, furando o bloqueio ou a blindagem que parece imperar. Aleluia!

Louvo também as mudanças políticas que nos permitiram voltar a ouvir falar em Mangueira e Portela, que estavam nos últimos anos meio tristinhas e enevoadas por gestões equivocadas. São duas grandes forças do carnaval do Rio de Janeiro e sem elas a festa perde, sem dúvida, parte de sua pujança.
As misérias, felizmente, dizem respeito mais à infraestrutura do que ao desfile propriamente dito. Vamos a elas: por mais que eu viva, nunca compreenderei por que não se cuida melhor do som na Passarela do Samba. Ele é fundamental e me sinto até envergonhada de afirmar coisa tão óbvia. Mas parece que os organizadores não veem o óbvio. Ou será que não querem ver? Diz um antigo samba da minha escola: "Pior cego é aquele que enxerga e não quer ver". Pois ouvi de muitos especialistas a confirmação do que parecera aos meus ouvidos leigos: o som não é igual para todas as escolas, a ponto de algumas delas contratarem a peso de ouro técnicos para acompanharem a empresa responsável. Peraí! O som não é um serviço básico, parte do espetáculo? É preciso acompanhar? Pra quê?

A iluminação é mais democrática, ou seja, ruim para todas as escolas. Ela é a meu ver insuficiente, e a explicação é que deverá realçar a iluminação cênica dos carros. Mas escola de samba não é só carro não. Eu gostaria que o sambista fosse o principal, mas paciência... Já estou me acostumando a considerar isso coisa do passado. Mas daí a deixá-lo na penumbra é um pouco demais.

Outra coisa que nunca fui capaz de compreender: se as pessoas saem de suas casas naqueles dias para ver o espetáculo oferecido pelas escolas de samba, se a festa dos sambistas atrai pessoas do mundo inteiro, por que é que se tem de oferecer aos presentes um outro espetáculo paralelo? Confesso que sempre achei desrespeitoso que os camarotes ofereçam a seus convidados Vips outras alternativas de lazer e entretenimento musical. É como se o Teatro Municipal oferecesse, em dias de récita, um grupo de pagode tocando em seu foyer. "Você veio assistir a uma ópera, mas quem sabe para variar gostaria de ouvir um sambinha?" Não rola. Mas na Sapucaí tem grupo de pagode tocando durante o desfile, na Praça da Alimentação, e, pior, tem batidão de funk nos camarotes.

Nas arquibancadas do Setor 10, ali bem em frente ao recuo da bateria, as escolas ainda estavam em desfile e já se ligava o som do camarote do Porcão, tão alto que nem se ouvia mais a bateria. Além de uma tremenda falta de respeito com os sambistas e com o público que pagou, é uma falta de lógica. Pois supõe-se que alguém que vai à Sapucaí durante o carnaval é porque gosta de samba. Vou morrer sem entender.

O capítulo mais cruel é o dos banheiros. Em todos os recantos da Passarela - lado par ou lado ímpar, frisa ou arquibancada - o problema é o mesmo: banheiros péssimos e insuficientes. Será que ao se planejar um espaço que deverá abrigar um número grande de pessoas não se pensa em adequar o tamanho dos banheiros a esta contingência? As mulheres são sempre as que mais sofrem nesse quesito e as filas gigantescas nas portas dos banheiros femininos em todas as dependências da Passarela eram agravadas pelo fato de que em alguns casos havia reservados trancados, por apresentarem defeito, e só havia um reservado funcionando. Não seria o caso de estabelecer um plantão para reparos de emergência?

O Sambódromo já passou por inúmeras obras e em muitos aspectos melhorou. Mas ninguém parece se preocupar com a péssima impressão que causam ao turista a sujeira e a precariedade dos banheiros.

Como disse anteriormente, as misérias são sim da festa, mas não de seus protagonistas, os sambistas. Felizmente. Porque não deve ser difícil saná-las, desde que haja vontade política. Se nossos dirigentes amam o samba, é hora de mostrar isso com atitudes mais concretas do que beijar atabalhoadamente suas bandeiras, um ritual cheio de significado quando praticado com lastro de respeito indispensável.


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08/04/2014 23h04

Não tem preço
Rachel Valença

Algumas vezes já comentei aqui a melancolia que acomete os amantes do Carnaval logo após o término da festa. Aliás, todo ano eu falo disso. Parece que nunca mais será Carnaval de novo e a gente se pergunta como vai sobreviver tanto tempo sem ele.

Um dos consolos da nossa depressão pós-momo são as festas de entrega de prêmios. Além de simbolizar o justo reconhecimento ao trabalho daqueles que fazem do carnaval o maravilhoso espetáculo que ele é, elas são uma oportunidade de matar a saudade da nossa gente e dos momentos de êxtase que nos proporcionaram na Sapucaí.

A nossa festa, a entrega do Prêmio SRZD-Carnaval, foi especialmente alegre e vibrante este ano. Em parte porque, tendo sido os premiados criteriosamente escolhidos, ali estava a nata do samba, o que passou de melhor na Sapucaí em 2014.

Prêmio SRZD-Carnaval. Foto: Ary Delgado

Muito feliz a iniciativa de premiar, como estímulo, participantes dos grupos de escolas de samba que desfilam fora da Sapucaí, na Intendente Magalhães. Em nenhum outro lugar o amor pelo samba é tão patente. Grande prova disso é o passista mirim Marcos Kauã, que não se limitou a sambar com animação na hora de receber o seu prêmio: sambou todo o tempo!

Também adoro a participação na festa da melhor escola do carnaval de São Paulo. O show da Mocidade Alegre foi muito lindo, com sua bateria cheia de bossas, suas passistas, baianas, enfim, tudo de melhor que tem para mostrar. Vindos de outro estado, não pouparam esforços para mostrar seus trunfos, entre os quais o já consagrado intérprete Igor Sorriso, que é sempre um prazer ouvir.

Quanto às premiadas da Série A e do Especial, muita coisa boa passou por aquele palco no sábado, mas cabe destacar alguns momentos de empolgação. Lembro-me que no dia da votação do prêmio, ainda lá na Sapucaí, votei com convicção na Ala de Baianas da Grande Rio, na esperança exatamente de poder vê-las de pertinho no dia da premiação. Consegui! Lindas, emocionantes, simples em sua riqueza, simbolizavam Nossa Senhora do Amparo. Vendo-as, dá pra entender por que o jovem Fábio Ricardo abiscoitou o cobiçado prêmio de melhor carnavalesco do grupo especial.

Em matéria de comissão de frente, por exemplo, a Série A deu um "banho". A comissão da Caprichosos de Pilares apresentou-se completa e fantasiada e deu um jeito de mostrar no palco sua criativa coreografia, levando o público ao delírio. Já da União da Ilha foi só o coreógrafo Jaime Aroxa e um par sem fantasia. A apresentação foi salva pelo puxador Ito Melodia, que deu um show de animação e de simpatia, bem no clima do enredo da escola este ano.

Aliás, foi um privilégio ouvir numa mesma noite tantos intérpretes, pois as escolas se apresentam quase sempre com seus sambas ao vivo, acompanhados pelas baterias premiadas. Por isso, tivemos, além dos já citados, os premiados Ciganerey, da Inocentes de Belford Roxo, e Tinga, da Unidos da Tijuca, e ainda Emerson Dias e Wantuir, para não citar todos...

Luxo dos luxos foi receber o compositor Moacyr Luz, que com o parceiro Cláudio Russo recebeu o prêmio de melhor samba-enredo da Série A. Era dia de seu aniversário, mas Moacyr fez questão de comemorar conosco.

Outro momento de intensa emoção se deveu a outro compositor de grandes sambas, o veterano Djalma Sabiá, do Salgueiro, autor, dentre outras obras-primas, do inesquecível Chico Rei. Mas não foi nenhum de seus sambas que lhe valeu o prêmio de Destaque do Grupo Especial deste ano: foi o seu incansável trabalho de preservação da memória do samba carioca, guardando em sua casa, no morro do Salgueiro, tudo que diz respeito à trajetória e à memória de sua escola.

Depois de tudo isso, vejo-me obrigada a admitir que os dois grandes momentos de emoção na festa são ambos ligados às baterias. Não é de espantar. É nelas que pulsa o coração do samba. A entrada no palco da bateria da Vila Isabel, por exemplo, deixou entrever o momento que a escola vive. No ano passado era a campeã e foi premiada como melhor escola, comemorando numa apresentação impecável. Este ano a Swingueira de Noel demorou a chegar, pisou o palco timidamente, com os ritmistas entrando e saindo de cena para vestir na última hora a bonita camisa que usaram. Mas tocou lindamente e, ao receber o troféu, mestre Wallan o colocou simbolicamente em cima de um surdo, à frente do grupo. Gesto ritual de imensa poesia, ele compensou e se sobrepôs a tudo que se poderia pensar naquele momento. Não era hora de pensar, mas sim de sentir.

Quando a Portela surgiu para sua apoteótica apresentação de melhor escola, soberana e grandiosa em seu samba magnífico, em suas figuras lendárias como Wilma, Jerônimo, Surica e tantos mais, ainda estava lá a bateria da Vila Isabel para acompanhá-la. Mas não sozinha. A ela se juntaram ritmistas da União do Parque Curicica, da bateria premiada que havia tocado na parte da festa que premiava a Série A, e também da Mocidade Alegre. Não havia uma formação tradicional de bateria, tocavam em roda, interagindo, unidos pela força maior do samba deste Brasil brasileiro. Coisa mais linda de ver! Como diz uma peça publicitária da atualidade: não tem preço.


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18/03/2014 11h33

Troca-troca de Quaresma
Rachel Valença

Quem acompanha o mundo do samba sabe que o período que sucede o desfile das campeãs é marcado pelo troca-troca. É nessa hora que se ajeitam as peças do tabuleiro do profissionalismo que hoje domina o carnaval carioca.

Diz o velho ditado originário do futebol que em time que está ganhando não se mexe. Por isso, a campeã de 2014, a Unidos da Tijuca, não era alvo de especulações. Mas... há sempre um mas para agitar nossa depressão pós-carnavalesca. Recorro de novo aos velhos ditados e contraponho: Para quem sabe ler, um pingo é letra. É isso. Já acostumados com os meandros do carnaval, vínhamos sentindo no ar alguma coisa estranha, o comportamento de Paulo Barros dava claros sinais de insatisfação. Faltava às suas declarações o entusiasmo de um campeão e não foi surpresa notar que não acompanhou a escola até o final do desfile das campeãs. Além disso, suas entrevistas, se lidas nas entrelinhas, tinham um evidente tom de fim de festa.
Hoje os fatos confirmam as especulações: Paulo Barros será o carnavalesco da Mocidade Independente em 2015. Como sou partidária da identidade, já me acostumei com a Unidos da Tijuca do jeito que Paulo Barros a fez. Ela é uma das mais antigas e tradicionais escolas de samba da cidade, mas tem mostrado em vários momentos a coragem de se reinventar. Ou seja, a Mocidade está levando Paulo Barros, mas Fernando Horta fica. E como tem se revelado um administrador competente e muito esperto, capaz de sobreviver entre feras de maneira discreta mas eficaz, nem tudo está perdido.

Não é a primeira vez que Paulo Barros se afasta da escola. Depois de ter despontado lá em 2004, ano em que apresentou o histórico carro do DNA, inaugurando um novo conceito de alegoria, e permanecido nos carnavais de 2005 e 2006, esteve na Viradouro em 2007 e 2008 e dividiu com Alex de Souza em 2009 o carnaval da Vila Isabel. De volta à Tijuca faturou três títulos entre 2010 e 2014. Desses dados se pode depreender que a Tijuca sobreviveu sem Paulo Barros e Paulo Barros sobreviveu sem a Tijuca, mas o afastamento não foi bom nem para a escola nem para o carnavalesco. Entre 2007 e 2009 Tijuca e Barros estiveram meio longe dos holofotes.

Foto: Reprodução de Internet

Paulo Barros é uma figura polêmica. Sobre ele as opiniões oscilam entre o ódio e a paixão. Acho que esta é uma qualidade, porque revela que ele tem uma marca, uma "pensata" sobre o fazer carnavalesco. Não se limita a repetir o que já foi feito: quer o novo, o inusitado, e o carnaval precisa disso. Se este novo for bom, vai pegar, vai ser imitado. Se não pegar, cairá no vazio. De minha parte, seu trabalho que mais me agradou, que me encheu os olhos e me emocionou foi o Portinari do Paraíso do Tuiuti, em 2003. Era pobre, claro. Mas talvez isso tenha desafiado a sua enorme criatividade, com um efeito maravilhoso.

Ele não acerta sempre, mas que carnavalesco, ontem ou hoje, conseguiu isso? Gostamos de algumas coisas, não gostamos de outras, mas é inegável que Paulo Barros tem uma assinatura forte em seus trabalhos. Isso se chama estilo e nem todos o têm.

Parece que Paulo Barros está em busca de liberdade para criar. Quem não está? O sonho de todo carnavalesco, imagino, é fazer o que quer tendo à disposição todo o dinheiro necessário. Tomara que a Mocidade, em sua nova fase, lhe proporcione isso. A realidade do carnaval hoje é às vezes adversa aos carnavalescos, porque para ter muito dinheiro é preciso às vezes "vender a alma", aceitando patrocínios. Não se pode adivinhar o que acontecerá a partir de agora, mas é bom saber que a Mocidade está indo à luta. Podia fazê-lo com seu antigo carnavalesco, Paulo Menezes, para quem as mudanças políticas vieram tarde demais. Mas a contratação da "estrela" deixa patente uma postura competitiva que revela isso que nós sambistas chamamos de atitude.

Sempre gosto de saber a opinião dos leitores, porque o diálogo com eles é muito enriquecedor. Por isso, será muito bom que opinem aqui sobre a nova conjuntura. Isso me ajudará a estender minhas considerações.

Leia mais:

- 'Buscamos o melhor carnavalesco da atualidade', diz Anderson Abreu

- Agora é oficial: Paulo Barros é da Mocidade


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10/03/2014 17h09

Ainda sobre a apuração...
Rachel Valença

Muito se tem escrito sobre o julgamento das escolas de samba. Este ano, embora a vitória da Unidos da Tijuca, seguida de Salgueiro, Portela, União da Ilha, Imperatriz e Grande Rio, não tenha sido nenhum absurdo, o fato é que o surpreendente insucesso da campeã de 2013, a Vila Isabel, deixou patente a fragilidade dos critérios utilizados no julgamento.

A primeira coisa que me vem à mente é uma imagem dos jogos olímpicos. Nas disputadas provas de ginástica olímpica, terminada a apresentação de cada concorrente, espera-se... a nota. Isso mesmo. Os julgadores têm um tempinho relativamente curto para atribuir uma nota, que aparece num painel eletrônico e desperta emoções e reações dos participantes e do público. Há aplauso, há descontentamento, há choro, há comemoração, bem ali, no ato! No carnaval, muito ao contrário, as notas só são conhecidas dias depois e as justificativas, só quando todo mundo já enterrou a mágoa e a revolta.

Julgar nunca é fácil e uma série de fatores e de subjetividades acaba sempre se imiscuindo até no mais imparcial dos julgamentos. Porque, para além dos critérios técnicos, existe o gosto pessoal de cada um. Mas absurdo é absurdo e não se discute. Será que há alguém que goste mais de ala sem fantasia ou de composições de carro alegórico de cueca? Se, terminado o desfile, aparecessem num painel as notas 9,9 ou 10 para fantasias e alegorias nessas condições, garanto que o julgador pensaria duas vezes antes de cometer tal absurdo.

Desfile Império da Tijuca. Foto: Ary Delgado

Antes de mais nada, seria preciso que as escolas fossem avaliadas por seus pares, como manda a boa norma acadêmica, por exemplo. Pessoas relacionadas ao samba, que militam nessa área, dificilmente exporiam seus nomes à chacota e à execração, dando notas levianamente. Por outro lado, essas seriam as pessoas mais indicadas para julgar, por terem a vivência do assunto ou do quesito que lhes cabe avaliar.

Não queremos ser avaliados por bailarinas, porque não dançamos balé. Não queremos ser avaliados por maestros, porque nossa "orquestra" tem outras características. Não queremos ser avaliados por artistas plásticos ou por letrados, porque seus títulos não nos garantem a sensibilidade necessária para entender e avaliar nossos fazeres. Queremos ser avaliados por sambistas, por gente que saiba o que é fundamental na dança do par que carrega o símbolo da escola, por gente que seja capaz de avaliar a concepção e a confecção das fantasia, por gente que possa julgar a beleza e a adequação de um samba ao enredo e ao desfile.

Há julgadores que aí estão há 25 anos. Convido os leitores à tarefa de levantamento dos nomes dos jurados na era do Sambódromo e ao desempenho deles. Numa rápida olhada, pelo menos dois nomes desses dão 10 a determinadas escolas ano após ano. Não é admirável que essa nota não varie? Tanta constância faz pensar... Mas a cada ano lá estão os fiéis defensores e estranhamente ninguém os impugna!
Compreendo a revolta e a tristeza do presidente da Império da Tijuca, sei exatamente como se sente porque já o senti na pele. É horrível a sensação de ter feito tudo direito e ver que isso não é o suficiente. Dói demais e desanima. O que uma derrota nessas condições pode significar na trajetória de uma escola é fácil de imaginar se pensarmos no abismo que existe entre o Grupo Especial e a Série A. É quase a diferença entre o tudo e o nada.

E, por falar nisso, finalizo dando plena razão ao leitor Glaucio, quando reclama da falta de acesso ao quadro de notas da Série A. Se não conseguimos anotar durante a apuração - tarefa desafiadora! -, não a temos até agora. Não saiu nos jornais nem se encontra no site da Lierj, o mínimo de transparência que se poderia esperar. No ano que vem, está decidido: vou à Praça da Apoteose, assistir à apuração da Série A, com chuva ou com sol, com cansaço ou com doença, mas não fico dias e dias sem poder analisar o resultado.


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07/03/2014 12h51

O resultado da Série A
Rachel Valença

Você conseguiu ouvir, leitor? Parece que tudo é difícil para essa brava gente que faz carnaval fora do Grupo Especial. Uma coisa singela como a transmissão do resultado se torna um pesadelo. Televisão? Nem pensar... Rádio? Com pouco mais de meia hora de apuração, chega A Voz do Brasil e é preciso esperar uma longa hora para ter a esperança de saber quem está na frente. Mas qual! Depois das 20 horas só se falava de futebol. O jeito foi acompanhar pelo computador, com o coração aos saltos. Como é triste e difícil a vida de torcedor da Série A!

Quanto ao resultado propriamente dito, achei-o bastante coerente. Nada mais próximo a um desfile do Grupo Especial do que o que apresentou a Viradouro. Logo, é ela que deve mesmo subir. Ela, que apresentou carro acoplado, numa demonstração de luxo característico das "poderosas". Ela que se fez anteceder de um enorme grupo de "encamisados", bem comum no Grupo Especial. Ela que fez o público e o componente cantarem vigorosamente um verso do refrão, enquanto a bateria emudecia estrategicamente: "Canta, Viradouro". Tinha tudo para ganhar e estava identificada com um enredo que mexia com os brios do contingente. Salve ela!

Foto: SRZD

O honroso vice-campeonato foi para a Estácio de Sá, que desfilou muito bem e nem precisaria recuar sua data de fundação para 1927 (!) para afirmar sua condição de escola tradicional, descendente da valorosa Unidos de São Carlos, de 1955. Está indo bem a Estácio, após uma fase de problemas. E a gente torce por esta querida escola, que tal como a Viradouro, já foi até campeã do carnaval.

A Unidos de Padre Miguel, terceira colocada, vem crescendo nos últimos anos e fez um desfile muito bom, ainda que com pequenos desacertos que lhe custaram preciosos pontinhos. Mas a colocação é excelente e faz jus ao esforço da escola.

Em quarto lugar veio a Porto da Pedra, com seu enredo encantador, que contou com o auxílio luxuoso dos casais famosos do carnaval carioca. Mas, entre tantas porta-bandeiras famosas, a mais incrível era... Carlinhos de Jesus! São ideias simples como essa que nos fazem acreditar que ainda se pode fazer muita coisa carnavalesca e divertida, causando surpresa e emoção, sem precisar de patrocínios mirabolantes.
Em quinto lugar, a Cubango, que fechou com garra o desfile de segunda, longuíssimo. Pra que tanta escola num só grupo? Coisa linda era a rainha de bateria, Cris Alves, dando show de samba no pé e de simpatia e tocando de verdade o seu tamborim. Dava gosto ver.

Em sexto, o meu Império Serrano, que não assisti ao vivo, só na gravação, e me pareceu digno, correto animado, com carros grandes, de bom gosto e bem acabados e fantasias muito bonitas. Viva Edu Gonçalves. Minha maior dor é que ninguém mais acha estranho o Império na sexta colocação da Série A, quando para mim ele ainda é uma grande escola, capaz de disputar título no Grupo Especial. Dizem que o amor é cego, mas acho que na verdade só ele é capaz de enxergar bem.

Se houvesse um sábado das campeãs da Série A, estas seriam as participantes. Das demais, pode-se ressaltar o lindo samba da Renascer de Jacarepaguá, a comissão de frente da Em Cima da Hora (é impressão minha ou o samba antológico não tirou todas as notas 10?), a excelente bateria da Curicica, a fantástica comissão da

Caprichosos de Pilares e uma palavra final de elogio ao presidente Déo Pessoa, que soube separar bem o desempenho de sua escola de origem e sua posição como presidente da Lierj: a Rocinha caiu e fez por onde, com um desfile fraquíssimo, e o presidente não se imiscuiu na questão. Este deveria ser sempre o padrão de ética em vigor, mas não é e daí o elogio: queimou a língua quem afirmou que a Rocinha não cairia. Caiu, e a gente pode acreditar um pouquinho no julgamento, o que é salutar para o samba.


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06/03/2014 00h05

Por um décimo
Rachel Valença

O resultado do carnaval de 2014 entre as escolas do grupo especial não tinha uma favorita. Nem mesmo duas favoritas, que decidiriam quesito a quesito. Deu Unidos da Tijuca por um décimo... e não foi injusto. Mas se desse Salgueiro também não seria nenhum absurdo. E quer saber? Se ganhasse a Portela, daria para entender muito bem.

Foto: SRZD - Tatiana Perrota

Logo, não há motivo para revolta, para reclamação, para confusão. Melhor assim, porque nos permite analisar com serenidade as notas atribuídas às escolas pelos julgadores e comentá-las por um viés mais técnico.

Primeiramente, vou morrer sem entender como os julgadores de fantasias conseguiram dar notas que variaram entre 9,7 e 9,9 às fantasias da Unidos de Vila Isabel. Será que não repararam a falta de elementos como chapéus e palas nas fantasias julgadas? Já a São Clemente e a Império da Tijuca tiraram, cada uma, duas notas 9,6 neste quesito. Como? A resposta será sempre a mesma: vamos esperar as justificativas. E quando elas vierem, daqui a muito tempo, já nem nos lembraremos dessa questão. Assim, os absurdos são logo esquecidos e a coisa nunca muda.

E quanto aos quesitos enredo e conjunto? A mesma Vila Isabel deixou de apresentar alas que estavam no organograma de desfile, comprometendo a integridade do conjunto e o desenvolvimento do enredo, mas também nesses quesitos foram timidamente penalizadas, sendo sua menor nota 9,7. No quesito conjunto, Império da Tijuca e São Clemente levaram seu 9,6 regulamentar. Em Alegorias e Adereços a Vila chegou a ganhar um 10, embora seus carros tivessem elementos de composição com fantasias incompletas e até de sunga. Sunga? Teve gente que viu até cueca. Mas os julgadores nada viram. E não venham me dizer que é por causa da posição do módulo em que o julgador se encontra: os carros passaram assim por todos os módulos.

O que acontece todo mundo sabe: o julgador nem sempre julga o que vê: julga a "importância" da escola. A marca Vila Isabel, campeã do carnaval passado, vale mais que a "marca" Império da Tijuca, brava escola que subiu ao especial no ano passado e fez um desfile digno, lindo, mas fadado à má-vontade dos julgadores. Uma pena!

Outra curiosidade é a colocação da Grande Rio em 6º, justamente no ano em que fez o melhor desfile de sua história. A escola de Caxias estava linda, alegre e leve, que [e o que raramente consegue ser. O perigo é que seus dirigentes tomem este resultado como indicio de que a fórmula não funcionou e voltem ao modelo anterior, para tentar agradar os senhores julgadores.

Muito me alegra a volta da Portela ao desfile das campeãs. A escola veio linda, como escola de samba, entoando um autêntico samba de enredo e para quem ainda gosta disso é muito bom ver tais valores premiados. Da mesma forma, a União da Ilha, com este resultado, consolida-se como uma grande escola.

Ambas optaram por carnavalescos de talento e foram capazes de oferecer a eles condições propícias de trabalho. O resultado é o reconhecimento disso.

Por outro lado, será triste, depois de tantos anos, uma festa das campeãs sem a Beija-Flor, escola que tem uma torcida crescente e empolgada, que certamente já tem na mão seu ingresso para sábado. Há quantos anos isso não acontece? Que sirva de advertência para o risco de certas inovações, que podem ferir os ritos mais importantes de um desfile. A mistura de coreografias de comissão de frente e mestre-sala e porta-bandeira parece ter causado prejuízo a todos: as notas da comissão foram baixas e o veterano e festejado casal Selminha e Claudinho amargou um 9,7, felizmente descartado, e não conseguiu um dez unânime, apesar de sua excelência técnica.

O pavilhão de uma escola é sagrado. Eu diria que é a peça mais importante de um desfile, a que marca a identidade da agremiação. Não deve ser tornado parte de um todo. No caso da Unidos da Tijuca, em que a comissão também interage com o casal, isso é feito com mais sutileza, quando o homenageado pelo enredo vem respeitosamente beijar a bandeira da escola, nem gesto de reverência e gratidão. Mas a junção gratuita dos elementos, como se deu na Beija-Flor, não me pareceu feliz. Penalizada, não fará escola, não virará moda. Antes assim.

A colocação da Mangueira não surpreende. Só entristece. Não posso entender como uma escola experiente, com uma carnavalesca espetacular, presta tão pouca atenção a detalhes importantes como a altura de um carro alegórico, para que se evite um problema recorrente, como o que foi visto. Sai diretoria, entra diretoria e a fita métrica da Mangueira continua com defeito? Uma pena...

A Mocidade Independente fez um desfile muito bom, surpreendentemente bom. Sabíamos todos nós o problema político que a escola acaba de enfrentar e temíamos não poder esperar muito dela. Pois bem: estava Lina, animada e o samba foi uma agradável surpresa que empolgou a Sapucaí. Pena que as notas não corresponderam.

Então está tudo certo: as primeiras a desfilar tiram notas baixas, a escola que subiu volta para o lugar de onde veio e a gente fica esperando as justificativas, pra ver se consegue entender por que os julgadores não veem a mesma coisa que nós.


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21/11/2013 10h42

Axé, Delcio Carvalho!
Rachel Valença

Nesta quarta-feira, dia em que se comemoou  a Consciência Negra, um dia de sol no feriado do Rio de Janeiro (não sei por que na é feriado nacional), fui à tarde prestar homenagem a um amigo muito querido que se foi na semana passada. Um excelente compositor e uma pessoa incrível, de sorriso aberto e disposição constante para a solidariedade.

Delcio Carvalho nasceu em Campos em 1939 e veio novinho para o Rio, em busca de melhores oportunidades de trabalho. Cantava bem e começou a se apresentar em programas de calouros e em bailes, como crooner de orquestra. Mas foi sem dúvida a parceria com Dona Ivone Lara, na década de 1979, que lhe deu popularidade. "Sonho meu", gravado por Maria Bethania, estourou como sucesso nacional. Tornaram-se conhecidas a partir daí "Minha verdade", "Acreditar" e tantas outras.

Teve músicas gravadas por Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Gal Costa, Maria Bethânia, Cauby Peixoto, Nara Leão, Jair Rodrigues. Mas, como já frisei acima, a solidariedade sendo sua marca registrada, deu composições a muita gente nova, como Moyseis Marques, Roberta Sá e o grupo Casuarina.

Excelente cantor, de presença marcante, gravou um LP e vários CDs. Tudo coisa fina. Se este país fosse diferente, desse valor a músicos com esse perfil, Delcio teria muito mais visibilidade. Tenho sempre por perto o seu CD Afinal, mas não passo sem ouvir o maravilhoso Profissão compositor. Mas reconheço que no CD Delcio - Inédito e eterno estão também, em parcerias com bambas como Nei Lopes e Wilson das Neves, mas também com o poeta Cacaso, composições inesquecíveis.

Sem ele, o Império Serrano fica um pouco menos bonito e alegre. Quando fazíamos a nossa tradicional Noite do Imperiano de Fé, em que todo mundo comprava uma bonita camiseta que servia de ingresso na festa, para angariar fundos para a reta final do carnaval, na semana em que os gastos no barracão são altos, recorríamos aos artistas imperianos para abrilhantar a noite e servir de chamariz ao público. Muita gente boa ajudou. Delcio Carvalho esteve sempre lá, feliz de poder colaborar. Solidariedade que não se paga, que não tem preço.

Lá estava hoje na igreja da Glória muita gente que, como eu, tem Delcio Carvalho no coração, como artista e como amigo: Paulão Sete Cordas, Vó Maria, Zélia e Rubem Confete, Nilcemar Nogueira, e muita gente mais. Lá estava a querida Bertha, a grande Amiga. O padre, negro, foi muito feliz em suas palavras na Homilia, ao associar as letras das composições de Délcio ao dia que hoje se comemora. E peço a você, leitor, que em homenagem à memória desse grande compositor procure ouvir hoje ao menos um de seus inúmeros sambas.


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18/11/2013 13h41

Maremoto em águas plácidas
Rachel Valença

Nos últimos dias, o III Encontro de Carnaval SRZD me deu oportunidade de conhecer de perto pessoas que fazem o carnaval do Rio de Janeiro. Algumas que lá estiveram são amigos próximos, que é sempre bom reencontrar. Com outras, foi meu primeiro encontro. Não preciso dizer o que lá foi dito, porque o leitor teve acesso a tudo e as gravações aí estão, disponíveis. Já as minhas impressões sobre o que foi conversado, elas se conservam inéditas e assim ficariam, não fossem os fatos posteriores, que me obrigaram a levar mais longe algumas dessas impressões e partilhá-las aqui.

Todas as pessoas que compareceram, fossem carnavalescos, dirigentes ou diretores de carnaval, tinham um momento de otimismo, de animação, principalmente ao falar dos preparativos para o carnaval de 2013, mas tiveram também um momento de realismo, ao falar das dificuldades enfrentadas. Nesse ponto, o simpático presidente da Portela, Sérgio Procópio, foi o mais enfático: falou com espantosa sinceridade da situação da escola, sem medo de que suas palavras viessem contribuir de alguma forma para a fragilização da imagem da escola. Mas até mesmo a empolgada Império da Tijuca, com sua autoestima a mil pela vitória e ascensão ao Especial, admitiu com sinceridade seus problemas e fragilidades.

A Unidos de Vila Isabel foi a última escola a participar, representada por sua "tropa de elite": o próprio presidente Wilsinho, acompanhado do diretor de carnaval, Junior Schall. O discurso afinado, bem estruturado e simpático deixou todo mundo boquiaberto. A Vila pareceu estar num estágio de organização distante anos-luz de tudo que tínhamos ouvido antes. Não que houvesse arrogância na fala deles: ao contrário, havia uma naturalidade, como se aquelas soluções, aquela maneira de trabalhar, aquela dinâmica, fosse muito simples, quase óbvia.

Em resposta à pergunta que fizemos a todos os outros participantes - qual o principal problema da escola? -, recebemos a descrição de um paraíso, lugar onde só há coisas boas e até as coisas que aparentemente causam estranheza (como ter tão poucos sambas inscritos na disputa) são apontadas como trunfos positivos. Eu tinha uma pergunta engasgada na garganta, mas meu colega Hélio Rainho a formulou antes e com mais gentileza eufemística do que eu seria capaz: se tudo é tão bom, como é que tanta gente deixou a escola? Vão à gravação e vejam a resposta, diretamente dada por quem tem legitimidade para isso.

Uma semana depois, a bomba: sai o carnavalesco Cid Carvalho. Sai alegando falta de pagamento, como foi amplamente divulgado. A notícia me leva a pensar em duas direções. A primeira é bastante óbvia: havia sim um problema, e grande. Falta de dinheiro. Problema recorrente para as demais participantes do Encontro, porque é sabido que o desfile das escolas de samba hoje assumiu proporções difíceis de financiar sem déficit. Todo mundo falou disso, menos a Vila Isabel. A dúvida que me fica é se havia dinheiro e o carnavalesco não era pago ou se também em Vila Isabel está faltando dinheiro e isso foi omitido.

A direção da minha outra reflexão é o carnavalesco. Minha relativamente longa experiência no carnaval me mostra que os carnavalescos são em geral muito idealistas e comprometidos com seu trabalho. É comum que o levem até a Sapucaí, ou até a Intendente, em quaisquer condições. Como qualquer outra categoria profissional, precisa pagar suas contas e deve ser pago e respeitado. Mas já vi casos comoventes de carnavalescos que com ou sem calote levam adiante seu projeto e até contribuem financeiramente para que não seja desvirtuado pela carência. São tantos os exemplos que acho que voltarei a escrever sobre isso.

Não tenho acesso a nenhuma informação privilegiada, não estou falando com conhecimento de causa, apenas conjecturando com base em fatos e analisando, que é o que se espera de um colunista. Cid Carvalho é um grande carnavalesco e não estava trabalhando para uma escola qualquer. Para ter abandonado o carnaval que desenvolvia na campeã de 2013, a pouco mais de três meses do desfile, deve haver outros motivos além do atraso no pagamento. Não sei não, mas tenho a estranha sensação de que abandona um barco que parece navegar em águas calmas, mas por baixo dele se agita um maremoto. Tomara que eu esteja errada e que a querida escola caminhe a passos largos para um desfile do nível do que apresentou em 2013.


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