Obama, um novo capítulo na história universal
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 03/11/2008 18:42
Escrevo este artigo antes de iniciada a computação dos votos americanos, mas apoiado nas pesquisas de todos os institutos, sobretudo do Gallup, o mais especializado, na percepção que o clima da campanha sempre oferece, e também pela visão do New York Times, em caderno traduzido pela Folha de São Paulo, edição de 3 de novembro, tenho praticamente AA certeza da vitória de Barack Obama. Será o quadragésimo quarto presidente dos Estados Unidos, 148 anos depois de Lincoln, e, por sua etnia, marcará para sempre um novo capítulo na história universal, o primeiro candidato com sangue negro a chegar à Casa Branca. O entusiasmo enfatizou sua bela campanha, desde as prévias no Partido Democrata, até sua vitória final que espero consagradora. Consagradora pela idéia de renovação, pela ruptura com o passado, não com o tempo cronológico de seus antecessores, que ninguém muda, mas com métodos políticos ultrapassados que, de 1950 para cá, levaram o país a quatro guerras de resultados desastrosos. Estava pronto a citar três: Coréia, Vietnã, Iraque. Mas lendo o belo editorial do New York Times, manifestando apoio a Obama, passo a considerar a do Afeganistão.
A vitória democrata, esboçada principalmente pela forte presença do candidato nos estados-chave, na ampla maioria dos novos grandes colégios eleitorais, representará como o Times assinalou, a retirada das tropas e o fim da guerra em Bagdá. Não é a primeira vez que a decretação do fim de um conflito decide uma sucessão norte americana. Decidiu em 52 quando Eisenhower derrotou Stevenson. Decidiu em 68 quando Nixon venceu Humprhey. O tema compromisso, não cumprido na prática, neste caso, mas de qualquer forma foi decisivo no pleito de 64 em que Lyndon Johnson derrotou Barry Goldwater. Goldwater, para acabar com o conflito no sudeste asiático, tinha como plataforma lançar uma bomba atômica contra a China. Chegou a anunciar tal intenção na TV, o que levou Johnson a, na mesma noite, adquirir pequeno espaço para dizer apenas o seguinte: "meu adversário -acentuou- não disse isso apenas para agradar aos falcões da direita. Não. Se fosse eleito, faria isso mesmo". A eleição terminou com a vitória de Johnson por dois terços dos votos. Dois terços, que talvez tenham sido alcançados nas urnas de ontem por Obama, são um patrimônio do Partido Democrata? Nada disso. Roosevelt, democrata, venceu quatro disputas presidenciais seguidas -antes da reeleição ser limitada a somente uma- pela margem de 60 por cento. Mas também por tal escala, Eisenhower, republicano, venceu Adlai Stevenson em 52. John Kennedy derrotou Richard Nixon por 0,6 por cento dos votos. Johnson bateu Goldwater Poe edois terços. Nixon venceu Humprhey por 1 ponto. Mas em 72, foi reeleito livrando margem de dois terços sobre o democrata McGovern. Pode-se dizer, assim, que existe nos Estados Unidos o voto cristalizado. Ou seja: um terço vota com os democratas, outro terço com os republicanos. Porém um terço oscila de eleição em eleição.
Partido algum comanda a faixa decisiva. Ela é móvel. Reflete um pensamento independente das legendas e se torna decisiva. Um tribunal irrecorrível da democracia.
Não depende também, como as pesquisas estão revelando de conotação racial. Tanto não depende que numa nação formada por 64 por cento de brancos. Obama lidera amplamente as intenções de voto. Hoje, 148 anos depois da abolição da escravatura, encontra-se nas páginas da história com Abraham Lincoln, um republicano, senador por Illinois como ele, consagrado nas urnas como deverá ser, Lincoln enfrentou durante quatro anos a guerra civil de secessão (divisão) entre norte e sul, este reunindo os estados confederados liderados pelo Texas. Lincoln foi reeleito em 64, houve votação apesar das batalhas sangrentas, e tombou assassinado em abril de 1865 pelo ator John Wilkes Booth, de uma família que se tornaria tão tradicional no palco, apesar do crime, como a Barrymore. Mas esta é outra questão. Lincoln unificou o país dividido, no passado. Obama propõe a reunificação americana no presente sucedendo um período absolutamente desastroso como o de George Bush, assim interpretado pelos levantamentos de opinião pública. E tanto que o próprio candidato republicano John McCain dele tentou sempre se afastar durante a campanha. Na edição de 31 de outubro da Tribuna da Imprensa, o leitor Luiz Roberto Pio Borges da Cunha, destacando minha interpretação sobre mais um desfecho americano, achava que McCain poderia vencer não fosse a crise financeira que começou no subprime e abalou Wall Street. Pede minha opinião. Talvez. Mas os fatos são como eles são e se tornam autores de seu próprio contexto. A história Universal encontra-se repleta das expressões se e mas. É assim mesmo. Se não fosse isso, mas se não houvesse ocorrido aquilo. Que fazer? Nada. Interpretar os fatos com isenção, sempre. Participar quando possível. A vida desenrola-se através de opções. Mas não se pode lutar com os fatos. Eles se impõem. Como no verso de Chico Buarque, a vida tem sempre razão.
Hoje, 148 anos após Lincoln, um emblema, depois do fim da execrável escravidão, um homem com sangue negro evidente chega à Casa Branca e ao poder. Torna-se a principal figura mundial. Vamos em frente com emoção de sempre e esperança que se renova.
No Rio, Gabeira perdeu para si mesmo
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 26/10/2008 21:13
Sem dúvida alguma, nas eleições para prefeito do Rio, Fernando Gabeira na realidade não perdeu para Eduardo Paes: perdeu para si mesmo. O conceito sobre o pensamento suburbano que deixou escapar e foi colhido e divulgado possivelmente por um infiltrado em sua campanha lhe foi fatal na reta de chegada. Ele havia ultrapassado o adversário na passagem do primeiro para o segundo turno. Pelo Ibope, pela margem de 42 a 39 pontos. Para o Datafolha pela diferença de 44 a 42 por cento. E, além disso, vinha crescendo desenvolvendo, como se vê pelos números, uma velocidade maior e sobretudo mais intensa. Havia mais emoção em seu redor. Mas uma irritação passageira, um destempero verbal fez com que disparasse uma arma eleitoral contra si próprio. A propósito me lembro do excelente filme de Martin Scorcese: Os Infiltrados, vencedor do Oscar.
Todo candidato a eleições majoritárias e do executivo sabem muito bem das ações de infiltrados à sua volta. Aparecem falsos repórteres de rádio com gravadores à mão de desejam tão somente obter algo errado capaz de produzir reflexos favoráveis àquele candidato para o qual trabalham. Acontece muito. No meio de uma campanha, tanta gente acompanhando a movimentação de que busca os votos, impossível exigir identificação de todos. Em certos casos até o repórter pode não ser falso, mas adepto da outra candidatura. Dá no mesmo. Importa o efeito.
No caso de Fernando Gabeira, o pior possível. Pois ninguém que mora no subúrbio vai sentir prazer em ser incluído como personagem do pensamento suburbano. Até porque a expressão pensamento suburbano contrasta com o que se pode interpretar como pensamento urbano. O da zona sul da cidade, da Tijuca, do Grajaú, da Barra da Tijuca.
Gabeira, entretanto, não está sozinho no ato de cometer ou gafes de porte ou desacertos políticos maiores ainda. Em 1945, na campanha pela presidência da república na qual perdeu para o general Dutra, o brigadeiro Eduardo Gomes afirmou não desejar o voto dos marmiteiros. Referia-se aos picaretas, falsários, intermediários de negócios escusos. Mas -claro- a palavra tem duplo sentido. Abrande os operários. Em 1963, Brizola rejeitou qualquer aproximação com Juscelino para completar a chapa JK-65.
Queria ser o candidato. O que aconteceu? Houve a crise de 63, que levou ao golpe militar de 64 e àquela do presidente João Goulart. Carlos Lacerda, em 65, já candidato pela UDN à sucessão de 65, perdeu as eleições pelo governo da Guanabara e apoiou às investidas contra a posse de negrão de Lima. Nova crise que levou ao Ato 2 e ao fim dos partidos. Sua candidatura submergiu com o fim das eleições diretas. Emergiu o general Costa e Silva. Foi um desastre.
Lamentável, agora, em 2008, a derrota de Fernando Gabeira. Ele instituiu um novo estilo de fazer política, uma nova postura para acabar com a divisão administrativa à base de capitanias hereditárias, especialmente, é claro, na área de fiscalização de impostos. Uma pena o resultado. Tudo vai permanecer como está. Foi uma grande oportunidade que o Rio perdeu de reencontrar administradores como Lacerda e Negrão.
Gabeira perdeu no Rio. Mas quem foi o grande vencedor das eleições municipais deste domingo? Certamente o governador José Serra que, com a vitória esmagadora de Gilberto Kassab, consolidou sua candidatura à presidência da República em 2010. Alguém poderá argumentar que o governador Aécio Neves também saiu vencedor. É verdade. Mas a prefeitura de São Paulo, sob o ângulo político, é muito mais importante, pesa muito mais no cenário nacional que a de São Paulo. Além disso, em matéria de convenção, Serra está muito mais forte do que Aécio no PSDB. Aécio poderia vir a ser candidato por outra legenda, como a do PMDB? Sim. Mas para isso teria que se transferir do PSDB para o PMDB até o final de setembro de 2009. Um complicador para ele. Sobretudo porque a lei eleitoral fixa o prazo das convenções para escolha dos candidatos entre 6 a 3 meses do ano das eleições, ou seja, 2010. Portanto, para que alguém troque de partido e possa concorrer é indispensável inscrever-se na nova legenda pelo menos até nove meses antes da data fixada para a convenção. Um risco enorme, como se vê, o passaporte de uma legenda para outra. Das demais eleições realizadas no domingo, delas não surge qualquer reflexo em relação ao plano federal.
Daqui para frente, o debate vai se deslocar em torno do fim da reeleição. É o único tema sensível a ser equacionado no roteiro político dos próximos dois anos. Não existe outro. O PT perdeu na cidade de São Paulo, em Porto Alegre, em Salvador, venceu no Rio, mas neste caso através do governador Sergio Cabral. Como orça partidária independente, não só na capital, mas em todo Rio de Janeiro, tornou-se muito fraco. Já foi forte. Mas se esvaziou. Não foi o único. O DEM, de Cesar Maia, também.
Indecisos vão escolher o prefeito do Rio
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 24/10/2008 11:48
Escrevo este artigo no final da manhã de ontem, antes portanto do debate decisivo na Rede Globo entre Fernando Gabeira e Eduardo Paes que começou às 22 horas, encerrando o espaço de propaganda eleitoral. A sorte está lançada, como eu disse na coluna anterior, mas ninguém tem bola de cristal para saber antecipadamente como ia se desenrolar o confronto. Seja como for, tenho a forte impressão que vai caber aos indecisos a escolha do novo prefeito do Rio. Tanto o Ibope quanto o Datafolha, nas pesquisas de quarta-feira, assinalaram percentuais elevados de vacilação. Para o Ibope são (ou eram) 14 por cento dos eleitores em dúvida e os que iam anular ou votar em branco. Para o Datafolha 15 por cento. Os números convergem. Creio que 6 por cento vão esterilizar o sufrágio. É sempre assim, esta parcela não aceita votar em alguém. Desta forma, com base no levantamento do Ibope sobram 8 pontos a serem conquistados. Pela pesquisa do Datafolha, são 9 por cento. Como o Ibope apontou um empate de 43 a 43, os indecisos são fundamentais para o destino da eleição. Já o Datafolha assinalou 44 para Eduardo Paes e 41 para Gabeira. Entretanto, a diferença é menor do que a faixa de indecisão. Isso de um lado. De outro, devemos levar em conta que as pesquisas apresentaram erros no primeiro turno. No sábado, o Ibope colocou Fernando Gabeira com 17 pontos atrás de Marcelo Crivela. Gabeira nas urnas teve 25 por cento dos votos. O Datafolha atribuiu 19 para Gabeira, seis degraus abaixo do que efetivamente alcançou. Será difícil pesquisa as intenções de voto no sentido de Gabeira? Talvez. Seja como for, os lances finais da disputa amanhã serão intensos e dramáticos. Vamos ver o que acontece.
Outro assunto.
Nesta semana, os jornais de quarta-feira publicaram, que o presidente do Banco Central, Henrique Meireles, anunciou que o governo comprou 22,7 bilhões de dólares, portanto reduzindo tal valor de suas reservas cambiais, para evitar uma elevação mais forte no preço do dólar. Em dois meses, a moeda americana subiu de cerca de 1 real e 60 centavos para 2 reais e 30 centavos, em números redondos. Uma aceleração fortíssima como se vê, afetando diretamente as empresas brasileiras, estatais ou privadas, que possuem dívidas no exterior, portanto à base do risco de câmbio. O dólar mais alto favorece as exportações, mas dificulta as importações e atinge o equilíbrio financeiro dos que têm dívidas a saldar no mercado internacional. O problema do risco de câmbio não é nenhuma novidade. Ele se fez sentir no governo Ernesto Geisel, quando o ministro Mario Simonsen convenceu o general-presidente de que as taxas de juros no mercado internacional eram infinitamente menores que as cobradas pelo mercado brasileiro. Equação simples, não é? Pois nada disso. O então titular da Fazenda esqueceu as oscilações cambiais que se fizeram sentir fortemente após a guerra do Yon Kippur, em 1973, momento em que os países árabes produtores de petróleo aumentaram o preço do barril de 2 para 20 dólares, a partir de 74. Exatamente quando começava aquela administração. Foi um desastre. Outro desastre ocorreu a partir de 95 com a implantação do Plano Real e a fixação da paridade entre a moeda brasileira e o dólar, estabelecida pelo professor Gustavo Franco, presidente do Banco Central. Governo FHC. Gustavo Franco e Fernando Henrique esqueceram apenas de um detalhe: a inflação brasileira não era -tampouco podia ser- igual à americana. Resultado: a taxa brasileira, em 95, de acordo com o IBGE, foi de 21 por cento. A dos Estados Unidos dez vezes menor. A falsa paridade foi um sonho de uma noite de verão. O risco de câmbio entrou novamente em cena. FHC demitiu Gustavo Franco. Em seu lugar entrou Armínio Fraga. O panorama mudou para melhor. Mas a tese de Gustavo Franco (na prática a teoria é outra coisa) deixou um prejuízo acumulado enorme. Pois o balanço de pagamentos acusou forte desequilíbrio e a solução foi aumentar os juros internos para atrair aplicações externas em moeda conversível. Resultado: a dívida interna que Itamar Franco deixou em 62 bilhões de reais foi parar na escala de 700 bilhões. Juros de 26 por cento ao ano.
Este foi o quadro encontrado pelo presidente Lula. Ele reduziu a taxa paga aos bancos praticamente à metade, mas o estoque da dívida foiparar em 1 trilhão e 298 bilhões, montante de hoje registrado em Diário Oficial pelo Tribunal de Contas da União. O povo brasileiro pagou a conta de tudo. Povo é uma palavra gasta, como disse Ferreira Gullar em um de seus últimos poemas. No caso, porém ela encaixa perfeitamente no panorama brasileiro. A conta acabou de ser paga, seja em dólares, seja em reais? Não. O presidente Luis Inácio da Silva agora assina Medida Provisória autorizando o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a comprarem ações de estabelecimentos financeiros em dificuldade. Quer dizer: Banco do Brasil e CEF vão passar a ser sócios de prejuízos. Com o uso de dinheiro público, o dinheiro, portanto de todos nós. Povo é uma palavra gasta, quase apelativa, mas no caso transforma-se em personagem concreta e vítima, ao mesmo tempo, de mais uma decisão absurda. BB e Caixa podem comprar bancos sem concorrência? Já sentimos o que vai acontecer. Qualquer casa bancária insolvente vai recorrer ao novo mercado secundário de ações estatais. Inclusive, os balanços do Banco do Brasil e da CEF vão ser negativamente afetados. No caso do BNB é mais grave, porque, sociedade de economia mista, atinge os acionistas minoritários. Pagam a conta da neo-socialização. A CEF é uma empresa pública sem ações na BOVESPA. Impressionante. No momento em que escrevo este texto, meu amigo Gilberto Paim assinala que, com base em contratos futuros, o BACEN pode não ficar na compra de 22,7 bilhões de dólares, mas adquirir 50 bilhões de dólares. Que dizer?
Ataques de Paes são o anúncio da derrota
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 22/10/2008 10:03
O candidato do PMDB e do governador Sérgio Cabral, Eduardo Paes, resolveu partir para uma série de ataques contra Fernando Gabeira e tal atitude, claro, é o anúncio de sua queda na reta de chegada e de sua derrota nas urnas de domingo. Sem dúvida. Quando alguém está forte às vésperas da decisão não ataca, tampouco ofende ninguém, muito menos aceita que sejam distribuídos panfletos com acusações falsas a seu adversário. Esta, falo com base em longa experiência no jornalismo político, é a atmosfera dos que vão perder. Eduardo Paes inclusive estendeu suas críticas ao cantor Caetano Veloso que aparece na maioria das peças publicitárias de Gabeira. Cometeu assim um erro enorme. Pois se acreditasse na sua possibilidade de vitória não tentaria deslocar o foco principal da campanha. Faltam poucos dias e dois debates. Um amanhã, no Jornal do Brasil, e o mais importante de todos o da noite de sexta-feira na Rede Globo. Eduardo Paes vem perdendo todos os confrontos travados até aqui com o candidato da coligação PV-PSDB-PPS. Mas, vale a ressalva, o de depois de amanhã, pela audiência que vai alcançar, vale todos os outros realizados até agora.
Disse que partir para o ataque pessoal, para a agressão, é sintoma nítido de derrota. Sinal, inclusive, que pesquisas ainda a serem divulgadas, estão registrando diferença maior no sentido de Fernando Gabeira. É uma regra quase sem exceção. Veja-se na atual campanha quem partiu para a agressão: Marta Suplicy em São Paulo, Márcio Lacerda em Belo Horizonte. Ambos encontram-se muitos pontos atrás de Gilberto Kassab e Leonardo Quintão. Em Porto Alegre, Maria do Rosário está bem distante de José Fogaça que lidera a pesquisa do Ibope publicada na edição de 19/10 de O Estado de São Paulo. À primeira vista, não me lembro de nenhum episódio em que a ofensiva desvairada tenha contribuído para mudar o panorama e a direção da disputa.
O governador Carlos Lacerda tentou isso, em 1965, ao lado de Flexa Ribeiro contra negrão de Lima. As urnas deram 51 por cento a Negrão e apenas 38 pontos a Flexa. Quem vem firme liderando não deseja confusão, muito menos tumulto. Tumulto, de acordo com o que o repórter Flávio Tabak escreveu no Globo de ontem, envolveu o PT carioca, uma vez que correntes partidárias rebelaram-se contra o pagamento feito para a produção de panfletos dirigidos para atingir Gabeira. A regional -acentua Tabak- gastou em torno de Eduardo Paes do que para divulgar no primeiro turno o candidato da própria legenda, Alessandro Molon. Quem pagou a conta? Ou vai pagar? Mas esta é outra questão. Menor. O aspecto maior dos lances finais da campanha pode ser traduzido e sintetizado na comparação entre a firmeza e serenidade de Gabeira e a ansiedade de Paes. Eduardo Paes, penso eu, não está em paz com os números da eleição de domingo. Coisas de política, pode-se dizer. Mas o destempero é um erro. Os eleitores e eleitoras rejeitam este comportamento. Não só no Brasil. Nos Estados Unidos também.
Por falar na sucessão americana, aí está um exemplo. John McCain enveredou pela estrada do ataque a Barack Obama e o Candidato democrata livrou 11 pontos de vantagem, segundo pesquisa do Gallup, publicada nos jornais de ontem. Obama, inclusive, está vencendo nos principais estados, o que lhe assegura ampla margem no colégio eleitoral. Exatamente ao contrário do que disseram alguns professores, cientistas políticos, entrevistados por Mônica Valdvogel, domingo passado na Globo News. Referiram-se a estados de pequeno peso como Novo México e Virgínia do Sul. Não se deram ao trabalho de buscar na Internet o peso de cada estado americano na composição do colégio eleitoral. São oito os principais: Califórnia (55); Michigan (17); Texas (34); Nova Iorque (31); Flórida (27); Illinois, por onde Obama se elegeu senador (21); Pensilvânia (também 21) e New Jersey (15 pontos). Como são separados apenas pelo Lincoln Tunnel, na realidade a tendência eleitoral de Nova Iorque e New Jersey caminha junta. Os dois somam, portanto, 46 votos eleitorais. Só ficam através da Califórnia. Massachussets, estado dos Kennedy tem 12 votos. Novo México pesa 5 pontos. Virgínia 13 votos. Como disse o poeta Fernando Pessoas quanto a navegar, pesquisar também é preciso.
Um outro assunto.
Em artigo assinado na Folha de São Paulo de 20 de outubro, o notável diretor do excelente Tropa de Elite, José Padilha, e o autor, junto com Luis Eduardo Soares do livro Elite da Tropa, Rodrigo Pimentel, culparam os políticos, de modo geral, pela tragédia de Santo André que culminou com a morte da jovem Eloá. Difícil responsabilizar indiscriminadamente os políticos quando os responsáveis pela falta de ações concretas voltadas para a segurança são -sem dúvida- os políticos, porém os que detêm a caneta. Os parlamentares não podem agir. A ação, como o próprio nome define, tem de partir do executivo. Sugiro ao diretor Padilha e ao roteirista Pimentel que leiam o Diário Oficial da União de 30 de setembro. Lá o secretário do Tesouro, Hugo Arno Augustin, revela que, enquanto o país paga de juros aos bancos 152,2 bilhões de reais para girar a dívida interna, a dotação destinada à segurança pública é de apenas 6,7 bilhões este ano. E os 152,2 bilhões aos bancos em 2008b ainda não incluem o efeito do aumento de 0,75 por cento na taxa de juros.
Um abismo em que se perdem vidas humanas.
Gabeira subindo: nada de empate técnico
| Pedro do Coutto | 15/10/2008 14:53
Pesquisa do Ibope publicada no Globo de quarta-feira (15), comentada pelo repórter Fabio Vasconcelos, aponta 42 por cento das intenções de voto para Fernando Gabeira contra 39 de Eduardo Paes. Gabeira encontra-se claramente em ascensão, Eduardo Paes em estagnação. Basta comparar este levantamento do Ibope com o do Datafolha semana passada. Para a empresa do jornal Folha de São Paulo, a diferença de Fernando Gabeira sobre Eduardo Paes era de 2 pontos: 43 a 41. Há, entretanto, uma terceira pesquisa, esta do Instituto GPP, divulgada em O Dia, também de ontem, matéria assinada por Fernando Molica. O GPP encontrou margem bem maior em favor do candidato da coligação PV-PSDB-PPS sobre o nome apoiado pelo governador Sergio Cabral: 43,9 contra 38,2, portanto diferença de 5,7 por cento. Muita coisa. Os números das pesquisas são divergentes, mas suas direções convergem de forma unânime para a vantagem de Gabeira. Fernando Gabeira está subindo, como se vê. Eduardo Paes descendo, ou na melhor das hipóteses (para ele) estacionado. Minha afirmação surpreende? Não. Basta comparar os resultados do primeiro turno com os levantamentos focalizando o desfecho final. Na primeira fase, Paes atingiu 32 por cento dos votos, praticamente, Gabeira 25 pontos. A diferença de 7 degraus que favorecia Paes não só desapareceu, como a tendência do eleitorado mudou de rumo. Eduardo Paes subiu -de acordo com o Ibope- de 32 para 39 por cento. Mas Gabeira avançou extraordinariamente de 25 para 42 por cento. O ritmo desenvolvido pelos candidatos é fundamental para se avaliar a reta de chegada. Por isso não concordo com a tese de que há empate técnico colocada. Digo por quê.
Qualquer pesquisa eleitoral pode oscilar três pontos, isso é natural. Mas no total. Não em torno de cada candidato. Vejam só os leitores. Admitir uma oscilação de 3 pontos para Gabeira (para mais ou para menos) e outros tantos no sentido de Paes, no mínimo significa dizer que a pesquisa pode conter um diferencial de 6 pontos. O que é um absurdo. Não é nada disso. Além do mais, ainda de acordo com os números do Ibope, a diferença de Fernando Gabeira para Eduardo Paes em números absolutos, é de 3 pontos. Mas percentualmente é de nada menos que 8 por cento. É só fazer o cálculo que envolve a diferença em matéria de percentagem separando 42 de 39. Isso de um lado. De outro, existe o levantamento do GPP. Talvez o cálculo mais correto se encontre no meio, como no antigo ditado sobre a virtude, já que o Ibope possui contrato com o PMDB e o GPP, pelo que leio em O Dia, realizou o levantamento por encomenda da coligação PV-PSDB-PPS. Vamos ver quem tem razão nos próximos capítulos do combate que se aproxima velozmente do final. Mas isso não é tudo. Aguardemos os números sempre precisos do Datafolha, que foi o primeiro a realizar uma pesquisa sobre o segundo turno no Rio logo após terminada no TRE a computação dos votos do primeiro. O Datafolha deve vir hoje ou no máximo amanhã. Da mesma forma que o Ibope, me parece que possui contrato firmado com a Rede Globo. E a Folha de São Paulo publica os resultados sempre no dia seguinte. Aliás, por falar em contrato, por qual motivo a Rede Globo não quis colocar no Jornal Nacional de terça-feira a pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública que O Globo publicou ontem? Ela estava na Internet, no site de Ricardo Noblat. O que terá havido?
Fatos e explicações. Na coluna de terça-feira publiquei não saber como interpretar naquele momento a entrevista do governador Aécio Neves, domingo, à repórter Adriana Vasconcelos, de O Globo, na parte em que antecipava a derrota de seu candidato à Prefeitura de Belo Horizonte, Marcio Lacerda. Estranho. Agora o enigma se esclarece. O Ibope aponta vantagem enorme para Quintão. Aécio conhecia os números e tentou reduzir com a entrevista, os possíveis efeitos da derrota. Sobretudo porque, na campanha municipal, José Serra, provável candidato do PSDB à sucessão de 2010, vence na capital paulista com Gilberto Kassab. Em política, tudo possui uma razão lógica. Pode estar temporariamente oculta, mas será sempre lógica. Não só na política. Na vida de todos nós. No meio da reta final e das pesquisas que emergem refletindo o entusiasmo e as tendências dos eleitores , surge a meu ver o esperado apoio do senador Marcelo Crivella à candidatura de Eduardo Paes. Produto evidentemente da articulação do governador Sergio Cabral que se encontra na iminência de perder a disputa no Rio. Este apoio vai funcionar positivamente? Não creio. Pode funcionar à base de um apelo religioso. Mas não acrescentará ao candidato do PMDB. Isso se traduz na lei dos grandes números, um dos mistérios da matemática. Como o conjunto não é igual à soma das partes, o reflexo positivo de um lado será acompanhado por um reflexo negativo de outro. Ou seja: alguns votam em Paes por causa de Crivella, outros em Gabeira exatamente pelo mesmo motivo. Os dois impulsos neutralizam-se entre si. O que vai predominar mesmo é a emoção. E esta, desde o final do primeiro turno, está vindo com Gabeira.
Um outro assunto. Primoroso o artigo de Dora Kramer, O Estado de São Paulo de terça-feira, sobre o desastre chamado Marta Suplicy cometido para atingir Gilberto Kassab. Atitude vergonhosa. Era melhor para a ex-ministra do Turismo perder sem que tivesse feito o que fez.
Piscando sem parar, Paes desabou na TV
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 13/10/2008 17:03
Extremamente nervoso, inseguro, piscando sem parar por duas horas seguidas diante das câmeras, Eduardo Paes perdeu disparado o debate que travou com Fernando Gabeira, domingo à noite, na Bandeirantes. Contraditório, procurando mais atacar Cesar Maia do que discutir os problemas do Rio, tenho a impressão que sua candidatura desabou na TV. Esqueceu que deve tudo ao atual prefeito em matéria de seu ingresso na vida política. Mas esta é outra questão. Gabeira dominou integralmente o confronto, sobretudo porque a diferença de nível político, cultural e de inteligência é enorme entre os dois. Todos os que assistiram certamente tiveram essa impressão. Ficou evidente sobretudo que Eduardo Paes é um candidato fraco. Depende do apoio de outros, não de si próprio. Depende do governador Sergio Cabral que lançou sua candidatura, depois o substituiu por Alessandro Molón, e, não se sabe por que, decidiu apoiá-lo novamente. Isso diz tudo. Inclusive, sentindo a derrota que se aproxima, Sergio Cabral passou a atacar o candidato da coligação PV-PSDB-PPS, como a Tribuna da Imprensa publicou ontem. Quando os ataques começam é porque as candidaturas não vão bem. Cabral deve estar de posse de alguma pesquisa do Ibope realizada, mas não divulgada, mostrando o panorama do segundo turno no Rio. Não se pode reclamar. Afinal de contas, nenhum Instituto é obrigado a divulgar suas pesquisas.
Isso de um lado. De outro, Gabeira deve ter obtido muitos pontos quando, depois de criticar a Cidade da Música que leva o nome do jornalista Roberto Marinho, obra que já está custando mais de 500 milhões de reais, lembrou que quatro ex-secretários do governo do PMDB no estado, Gilson Cantarino, Marco Antonio Lúdici, Álvaro Lins e Rodrigo Silveirinha, tiveram suas prisões decretadas pela Justiça, acusados de corrupção. Fernando Gabeira,pelo fato de ser apoiado por Cesar maia, como se viu, não deixou de criticá-lo. Mas o que respondeu Eduardo Paes a respeito da prisão de secretários do governo Rosinha Garotinho? Nada. A diferença entre os dois candidatos se ampliou a partir deste ponto. Vamos aguardar as próximas pesquisas do Datafolha e do próprio Ibope para conferirmos se a visão que desenvolvo em torno do debate na Band se confirma ou não junto ao eleitorado carioca. O horário político voltou a partir de ontem à TV e faltam apenas doze dias para as urnas da decisão.
Enquanto isso, o noticiário político tornou-se mais intenso a partir de domingo com a entrevista do governador Aécio neves à repórter Adriana Vasconcelos, publicada em O Globo. Pela primeira vez, afirmou diretamente ser candidato à presidência da República em 2010. Vai trabalhar pela unidade do PSDB e, logicamente, contra José Serra, já que o partido só pode ter um candidato à sucessão. É preciso -disse- um projeto novo para a legenda e para o país, deixando implícita a assertiva que José Serra já perdeu para Lula em 2002 e Geraldo Alckmim em 2006. O PSDB -acrescentou- não é mais um partido de um ou dois caciques. A alusão é direta. Mais clara impossível. Porém o que surpreendeu nas declarações do governador mineiro é que, duas semanas antes, com antecedência, ele admitiu a hipótese de seu candidato Marcio Lacerda, vir a ser derrotado por Leonardo Quintão no segundo turno em belo Horizonte. Por que terá feito isso? Tenho a impressão que, ou já recebeu pesquisa atualizada, ou então identificou a forte arrancada de Quintão no final do primeiro turno e sua sequência no segundo. Assim como está acontecendo com Gabeira no Rio. O posicionamento de Aécio Neves me lembra algo bastante semelhante ao que ocorreu na antiga Guanabara. Em 65, quando o governador Lacerda foi à televisão e admitiu dramaticamente a derrota de seu candidato, Flexa Ribeiro para Negrão de Lima. A diferença, entretanto, é que Aécio não dramatizou. Procurou provavelmente reduzir o efeito da derrota que assinalou pressentir.
A questão, contudo, não é só a derrota ou vitória na capital mineira. Ela tem outro aspecto dentro do PSDB, já que na cidade de São Paulo, na pesquisa publicada semana passada o Datafolha apontou uma enorme vantagem de 17 pontos de Gilberto Kassab sobre Marta Suplicy. Quer dizer: Serra vence em São Paulo. Aécio pode perder em Minas. Mas, mesmo assim, Neves vai em frente. O problema envolvendo Aécio não é fácil. Isso porque a lei eleitoral, lei 9504/97, exige para os candidatos um ano de filiação partidária. Este prazo esgota-se, portanto no início de abril de 2009. Porém a mesma lei, no artigo 8º, determina que as convenções partidárias têm que se realizar entre 10 e 30 de junho do ano da eleição, ou seja 2010. O prazo de filiação prévia é exigido pela lei complementar 64 de 1990. Por que estou colocando este tema? Pelo seguinte: se Aécio sentir que não tem maioria na convenção do PSDB, para disputar a sucessão de Lula terá que trocar de partido dentro de sete meses ou desistir. O prazo fatal para isso, como citei, é abril do ano que vem. Se ele não trocar de legenda e perder a convenção para Serra, estará impedido de concorrer. Será que Aécio admite substituir a candidata Dilma Roussef no PT? Ou ir para o PMDB? O tempo da lei corre contra ele.
Outro assunto.
O leitor Jorge Luiz Silva Santos refere-se a artigo meu sobre a extensão do Imposto Sindical aos servidores públicos. Ele diz que sofre o desconto na Prefeitura do Rio. É ilegal. Pois se o ministro Carlos Lupi pretende estender o tributo é porque ele não existe.
Sérgio Cabral acentua fraqueza de Paes
| Pedro do Coutto | 13/10/2008 00:28
Forçando demais a mão junto ao presidente Lula e conduzindo seu candidato para que fosse fotografado ao lado dele, em São Paulo, o governador Sergio Cabral na realidade passou um atestado púbico da fraqueza de Eduardo Paes na disputa pela Prefeitura do Rio. É flagrante isso. Não pode haver outra interpretação e certamente as próximas pesquisas do Ibope e Datafolha vão revelar. Fernando Gabeira está em ascensão. Sente-se nas ruas. E se Sergio Cabral precisou ir buscar o apoio aparente de Luis Inácio da Silva é porque reconhece que, sozinho, seu candidato não tem condições de enfrentar o da coligação PV-PSDB-PPS. Precisa proteção além daquela que a máquina estatal no RJ pode proporcionar. O presidente Lula estava na véspera da viagem à Espanha. Cabral ficou mal no episódio. Eduardo Paes pior ainda. Pois caiu numa contradição total. Vejam só.
De um lado, como O Globo publicou sábado em matéria assinada por Flávio Tabak e Maia Menezes, pediu desculpas a Lula pelas acusações que desfechou contra ele na CPI dos Correios e do Mensalão. Mas de outro afirmou que não se arrepende de nada. Como? Impossível entender a dualidade. Das duas uma. Ou se arrepende e se desculpa, ou não se arrepende e portanto não há motivo para se desculpar. Muito menos através de carta. Como Sérgio Cabral não percebeu isso? A situação ficou marcada por absoluto ridículo.
O apoio de Lula fortalece Paes? Não creio. Não está fortalecendo Marta Suplicy em São Paulo. Além do mais, como dizia o presidente Juscelino, apoio não se pede. Recebe-se. Na política e na vida: ninguém pode sair correndo atrás de um favor. No campo eleitoral, forçar a barra não adianta nada.
Os eleitores sentem o processo oculto na sombra da atitude e não se deixam levar. Não se iludem com aparências. Além disso, como digo sempre, transferir votos é algo raríssimo em política. De 1945 até hoje, os exemplos contam-se nos dedos da mão. E olhem que se trata de um espaço de tempo de 63 anos. Naquele 2 de dezembro que sucedeu apenas cinco semanas a derrubada da ditadura, Vargas de fato transferiu votos e assegurou a eleição do general Dutra. A passagem foi total. Porém, dois anos depois, Getúlio foi a São Paulo apoiar Hugo Borghi contra Ademar de Barros na disputa pelo governo estadual e perdeu. Nas eleições de 50, quando Vargas retornou ao Palácio do Catete, onde morreria em 54, Ademar de Barros transferiu votos para ele e paralelamente garantiu a vitória de Lucas Nogueira para sucedê-lo no governo do estado.
Um terceiro exemplo de transferência foi de Lacerda, em 58, garantindo a eleição de Afonso Arinos de melo Franco para senador pelo Rio, então Distrito federal. É verdade, deve-se lembrar que enfrentou um adversário fraco: Lutero Vargas, filho de Getúlio, mas destituído de vocação política. Em 58, também, Janio assegurou a eleição de Carvalho Pinto para sucedê-lo no governo de São Paulo, derrotando Ademar. Mas neste caso entrou também a máquina administrativa estadual. O governo Jânio era bem avaliado. Ademar era arquiinimigo de Jânio. Mais quatro exemplos de transferência de votos. Brizola elegeu no Rio Aurélio Viana senador em 623, Saturnino prefeito em 85, Marcelo Alencar, também para a prefeitura em 88. Nem sempre a transferência de votos conduz à vitória. Em 65, Lacerda no governo da Guanabara passou integralmente tod0os os votos que comandava para Flexa Ribeiro e ele perdeu para Negrão de Lima por 51 a 38 pontos. Negrão saiu do governo sob intensa consagração. Mas em 74 apoiou Gama Filho para o Senado contra Danton Jobim e este venceu atingindo 54 por cento dos votos. JK, aclamado em 60, apoiou Tancredo para governador de Minas e Magalhães Pinto venceu a eleição.
Os exemplos para por aí. Falo de mais de seis décadas. Não é pouco tempo. É dificílimo efetuar-se a transferência de prestígio em matéria de voto na urna. Inclusive porque o êxito do apoio não depende apenas de quem o destina, mas, sobretudo de quem o recebe. Um enigma. E se apoios oficiais garantissem a vitória de candidatos, o poder não perderia eleição no mundo. Na grande maioria dos casos -esta é a verdade- acontece o contrário. Graças a Deus é assim. Não fosse isso, seríamos todos escravos das máquinas ou da corrupção eleitoral. Ou das duas coisas combinadas.
E se não se pode processar a cidade, como no famoso filme italiano de Alberto Latuada, tampouco se pode comprá-la, adquirindo votos como se os eleitores estivessem num mercado da ilusão e da fantasia. Eduardo Paes é um candidato fraco. Não depende de si. Depende dos outros. Ele, inclusive, aceita tacitamente condicionar seu destino a forças a seu redor. Não tem vôo próprio. Enquanto isso, Fernando Gabeira afirma-se por si. Não se empenha em obter apoio de ninguém. Isso de um lado. De outro, é alguém de nível muito superior ao de Paes. Hoje, creio que ampliou sua vantagem na reta de chegada. Vamos ver o que dizem o Datafolha e o Ibope.
Datafolha: Gabeira na véspera da vitória
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 11/10/2008 11:04
A pesquisa Datafolha, publicada quinta-feira (9) pela Folha de São Paulo, a primeira focalizando as intenções de voto no segundo turno para prefeito do Rio, apontou 43 pontos para Fernando Gabeira e 41 para Eduardo Paes. Em minha opinião, o levantamento assinala bem o avanço do candidato da coligação PV-PSDB-PPS, na passagem da primeira para a segunda fase, avanço muito maior do que o registrado pelo candidato do governador Sergio Cabral e do PMDB. É só ver os números. No primeiro turno, Paes fechou com 32 por cento dos votos, Gabeira com 25 pontos. Assim, enquanto Gabeira deu um salto de dezoito degraus, Eduardo Paes progrediu apenas 9. Portanto Gabeira absorveu em grande maioria os votos que no primeiro turno foram destinados a Marcelo Crivela, Jandira Feghali, Molón, Chico Alencar e Solange Amaral. Basta confrontar os índices. Além disso, existe uma faixa de eleitores indecisos e dos que vão votar nulo ou em branco. Nesta fração encontram-se 16 por cento. Nove por cento, tenho a impressão, vão se definir por um dos dois. Sete por cento rejeitarão ambos. Taxa aproximada sempre presente em eleições. Dos 9 por cento de indecisos, Gabeira vai arrebatar a maior parte.
É um candidato infinitamente superior e os debates vão lhe proporcionar vantagem adicional. Além disso, os índices do Datafolha acentuam uma tendência que se consolidou no final do primeiro turno: a arrancada forte de Fernando Gabeira. Há mais emoção em torno dele do que de Paes. Basta ver o seguinte: enquanto Sergio Cabral preocupa-se em articular apoios, este aspecto para Gabeira não e essencial. Sabem os leitores por quê? Porque, na disputa, Gabeira é ele mesmo. Eduardo Paes não apresenta a mesma personalidade própria, é um produto do governador. Sua candidatura não existiria sem Sergio Cabral. A de Gabeira sempre se impôs por ele mesmo.
Eu me recordo -e aqui reproduzo- o que me disse Juscelino Kubitschek, em 1960, em uma entrevista para o Correio da Manhã. Eu perguntava sobre como ele via a candidatura do general Teixeira Lott, seu ministro do Exército, e lançado por seu partido, o PSD, em coligação com o PTB. Afirmou que iria agir como magistrado. Um candidato -assinalou JK- tem que se firmar por si. Os apoios são acessórios, não essenciais. Primeiro tem que decolar firme. Se decolar, os apoios vêm em sequência e conseqüência. Todo o candidato que, para se consolidar, depende de apoio de outros, no fundo, é um candidato fraco. Candidato forte pensa mais em si mesmo do que em apoios paralelos. Hoje relembro as declarações de Juscelino para poder melhor interpretar o quadro das eleições no Rio. O que se vê nas páginas políticas dos jornais? Um esforço muito grande do Palácio Guanabara em articular e reunir apoios, especialmente o do senador Marcelo Crivela. Por que isso? Porque no fundo, Sergio Cabral não confia no potencial e na força de arrancada pessoal de seu candidato. Ao contrário de co mo pensam e agem as correntes que sustentam Gabeira. A diferença fica claro e adquire maior nitidez quando nas ruas os adeptos de Gabeira gritam seu nome com entusiasmo. Os eleitores de Eduardo Paes não demonstram a mesma emoção. Jogam com apoios que poderão vir ou não. Tacitamente reconhecem assim que a candidatura não tem vôo próprio. Isso de um lado.
De outro, a formalização de apoios não representa muita coisa. Não é pelo fato de dirigentes do PT terem garantido o voto em Eduardo Paes que os eleitores da legenda vão segui-los integralmente. Não são os donos dos sufrágios. O mesmo raciocínio se aplica a Jandira Feghali, a Solange Amaral, a Marcelo Crivela. No caso deste, um pouco mais do que relativamente aos outros. Isso porque quando se fala em Crivela não se focaliza apenas ele, mas também a organização política que o sustenta e normalmente o segue nas urnas. Mas, mesmo assim, é possível que parte dos votos dados ao senador do PRB já estejam computados na pesuquisa do Datafolha. Um dos mistérios da lei dos grandes números leva a que se possa admitir esta hipótese. A perspectiva mais forte, porém, não se situa aí. Encontra-se no quadro da tendência geral que marca a passagem do primeiro para o segundo tempo. Fernando Gabeira avançou muito mais do que Eduardo Paes, inclusive na faixa de indecisão. Assim, deve -penso eu- ampliar sua diferença sobre o candidato do PMDB. É sempre assim em matéria de voto. Quando uma tendência se afirma, a velocidade em favor do mais envolvido por ela cresce mais do que o ritmo do adversário. Veja-se o caso da capital paulista. No primeiro turno, Kassab, que subia no fim da campanha, alcançou 32 pontos contra 31 de Marta Suplicy. A primeira pesquisa (também do Datafolha) sobre a disputa em São Paulo apontou 54 para Kassab, 37 para Marta. A disputa parece definida com antecedência.
Lupi ajuda a oposição no segundo turno
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 09/10/2008 14:28
Na reta de chegada do segundo turno das eleições municipais, especialmente no Rio, cidade de São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte, foi um verdadeiro desastre eleitoral a portaria do ministro Carlos Lupi estendendo a cobrança do imposto sindical ao funcionalismo público, seja ele federal, estadual ou municipal. São aproximadamente, de acordo com o IBGE, 5 milhões e 700 mil servidores que, não eram, mas vão passar a ser descontados em um dia de trabalho por ano. A medida do titular do Trabalho, se não for cancelada a tempo pelo presidente Lula, prejudicará nas urnas o governo do PT, atingindo também os partidos que se coligaram com o dos Trabalhadores para o pleito do próximo dia 26. Não poderia ter sido mais inábil politicamente. Anunciou a cobrança através de portaria. Além de provocar uma tempestade, o ato colide com a Constituição Federal, com a CLT e também com a interpretação do Supremo Tribunal Federal em relação ao artigo 578 da CLT que trata das contribuições sindicais. Desinformação completa do ministro Carlos Lupi a respeito do tema, inoportunidade maior ainda.
O artigo 150 da CF, no seu item 6, letra C, define que é vedado, de modo geral, "exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça". O ministro baixou uma simples portaria, como revelou a coluna Panorama Político, de O Globo de 8 de outubro. Tanto assim que as contribuições sindicais são previstas no artigo 578 da Consolidação das Leis do Trabalho, que não trata do caso relativo aos funcionários públicos., A questão não é nova e deu margem inclusive à controvérsias, em 1994.
Ao apreciar a ação de inconstitucionalidade 962-1, o STF decidiu que a norma constitucional tem por objeto, exclusivamente, a organização sindical dos empregados e empregadores do setor privado, já que no parágrafo 3º do artigo 39, ao relacionar o que se aplica aos funcionários públicos, nenhuma menção faz ao imposto sindical. Assim, se Carlos Lupi consultar a Carta Magna, a Lei trabalhista e a jurisprudência do Supremo, vai concluir que jamais poderia estender o tributo por intermédio de um simples ato. Portaria não tem abrangência para ampliar o leque da contribuição. Só um decreto poderia incluir o funcionalismo em decorrência de lei específica aprovada pelo Congresso. O ministro do Trabalho pisou na bola. Trabalhou mal. Revelou desconhecimento das leis, dos limites contidos na legislação, e ausência de sensibilidade política para o momento pré-eleitoral em curso. Sobretudo no instante em que o presidente Lula mostra-se disposto a apoiar Marta Suplicy na difícil disputa pela Prefeitura de São Paulo. Se ela, no final do primeiro turno, desceu praticamente 5 pontos, fechando com 31 por cento dos votos, que dirá com a idéia de se instituir mais um imposto contra os servidores cujos vencimentos já vêm perdendo para os índices inflacionários do IBGE desde 95? Se a posição da candidata do PT já era ruim, depois de Lupi torna-se pior ainda. Absurdo completo a iniciativa. Lembra o clássico palpite infeliz de Noel Rosa.
Um outro assunto, já que focalizei um grande artista. Vou me referir a Chico Caruso, um gênio do traço, da cor, da idéia, do humor.
Todos reconhecem isso através das páginas de O Globo. Mas na edição de 08/10, também, usou seu tradicional espaço assumindo a condição de profeta político. Está na primeira página uma charge imortal focalizando Fernando Gabeira saindo da piscina (no caso a do Flamengo), preparando-se para se envolver com uma toalha. Até aí é apenas engraçado o quadro da primeira página. Mas a imagem é colorida em vermelho, cor da bandeira do PT. O traço é sutil, porém de tal forma bem feito que deixa aparente, na toalha, a sigla PT. Melhor recado ele não poderia fazer para mostrar que, embora a direção dos Trabalhadores tenham formalizado apoio ao governador Sérgio Cabral, preferindo Eduardo Paes, as bases partidárias rumam para Fernando Gabeira. Movimento natural, no caso, em face de uma convergência ideológica entre o candidato e os eleitores tradicionais da legenda. O artista Chico Caruso percebeu a contradição e a projetou na obra, que mais uma vez, realça seu enorme talento. Caruso, o artista, terá sido profético? Vamos ver nos próximos capítulos, ou seja, nos próximos dias.
Mas esta tendência no sentido do candidato do PV-PSDB-PPS provavelmente será assumida também pelos eleitores do PDT e até do PC do B. Não importa que Jandira Feghali termine optando por Eduardo Paes. Seus eleitores não têm nada com isso. Ela, Molon, Paulo Ramos, não são donos da vontade de seus eleitores. Falei em PC do B, Partido Comunista do Brasil, aliás o mais antigo do país, já que surgiu em 1922, por iniciativa do intelectual Astrogildo Pereira. Pois é. Já foi comunista. Há muito tempo não é mais, e de comunista só tem o nome. Basta lembrar o episódio ocorrido em 88, governo Moreira Franco. O PC do B era presidido pelo ex-deputado Hércules Correa, nomeado pelo governador para presidir a CTC. Carlos Prestes manifestou-se contra a participação do partido naquela administração. Que fez Hercules Correa? Expulsou o lendário Prestes e manteve o apoio a Moreira Franco. Estaria Moreira Franco à esquerda de Prestes? Não. Os comunistas (entre aspas) é que trocaram a esquerda pela direita. Hércules Correa não foi o único a mudar. Tantos outros mudaram também. É muito difícil ser comunista, disse-me um dia o próprio Prestes, em 1961. Foi profético também.
Só Rio, SP e BH têm repercussão nacional
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 09/10/2008 14:10
Alan Gripp e Letícia Sander publicaram excelente matéria de página inteira na Folha de São Paulo de 07 de Outubro apresentando o novo mapa político municipal que começa a surgir no Brasil depois das eleições de domingo, ressalvado é claro, os casos pendentes de decisão no segundo turno. Junto com o texto um gráfico comparativo entre o panorama fotografado em 2004 e o que se desenha nas urnas de agora. Quanto a votos, o PMDB foi a legenda que mais cresceu saltando de 14,2 para 18,4 milhões. Relativamente ao número de prefeituras conquistadas o avanço percentual mais forte foi do PT: tinha 391 municípios já assegurou a administração de 548. Entretanto, em termos da sucessão presidencial de 2010 as três definições essenciais ainda estão por vir. Pois em se tratando de reflexo nacional, valem unicamente as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Sempre foi assim e continua sendo. Vale acentuar que dois prefeitos de Belo Horizonte e São Paulo, Juscelino e Jânio Quadros, chegaram à presidência da República. E o Rio pelo peso que sempre possuiu e, apesar dos pesares, continua mantendo na cultura e no desencadear do processo político. Vamos por partes.
Nas urnas de 26 de outubro, nas cidades de São Paulo, joga-se em grande parte o destino de uma nova candidatura do governador José Serra ao Palácio do Planalto. Depois de perder para Lula em 2002, tem possibilidade, sem dúvida, de sucedê-lo em 2010. Mas para isso é fundamental uma vitória de Kassab sobre Marta Suplicy. Não tanto em função da ex-prefeita, mas em função do duelo que ele, Serra, inevitavelmente trava com Aécio Neves no PSDB. O mesmo raciocínio se aplica ao pleito da capital mineira. Uma derrota de Marcio Lacerda para Leonardo Quintão representa o desabamento de uma segunda via da oposição na estrada de Brasília. Porém se Kassab perder em São Paulo e Lacerda vencer em BH, acontecerá exatamente o oposto: o governador de Minas sobe, José Serra desce. Como se vê, a disputa mais intensa no espelho da véspera trava-se no território tucano. Na parte do PT, Lula não tem problema. Vença Marta ou perca, o quadro permanecerá sem alteração. O nome de preferência de Lula é o da ministra Dilma Roussef. Evidentemente se Marta vencer, a decolagem da chefe da Casa Civil torna-se mais intensa. Mas no caso de derrota não muda nada. Em Belo Horizonte, Lula vai permanecer eqüidistante, como magistrado, inclusive não temo porque se envolver. Exatamente a mesma situação relativa ao Rio de Janeiro. Afinal de contas, por qual motivo o presidente da República deveria optar entre Fernando Gabeira e Eduardo Paes? Que teria ele a ganhar com isso? Política, é uma ação firme e forte em torno de uma idéia clara e simples, como um dia respondendo a Sartre falou De Gaulle. Um processo sem dúvida extremamente complexo, porém regido por ações claras e públicas, Onde não existem perdas e ganhos, não há motivo para que Lula se arrisque. Não vai se arriscar.
Em São Paulo sim. Mas neste caso ele cumpre seu compromisso partidário, ainda que o desfecho, seja ele contrário, não o abale. Em caso de vitória, ele venceu. Em caso de derrota, quem perdeu foi Marta Suplicy. O presidente sabe, muito melhor do que nós, que o panorama na capital paulista não está fácil. O primeiro turno, inclusive, tornou-se a maior surpresa do pleito, uma tendência não identificada nem pelo Datafolha, tampouco pelo Ibope. No Rio houve divergência. Na capital paulista não. Os números eram convergentes na faixa de 35 por cento para a ex-ministra do Turismo, contra 27 por cento de Kassab. Marta vinha perdendo ímpeto, descendo na reta de chegada, mas os institutos não assinalaram a intensidade da queda. E a mantiveram no primeiro posto quando na realidade ela perdeu a posição para Kassab. Sua situação ficou difícil para o desfecho final. O que mais pesa em eleições é a tendência. Em São Paulo, há uma inclinação de Kassab para cima, e de Marta para baixo. A meu ver, ela terá forte dificuldade em modificar o quadro. Tanto assim que mudou o tom de sua campanha, partindo para o ataque a Kassab. Este, como não poderia deixar de ser, consegue o apoio dos tucanos. Os integrantes do PSDB não poderiam, de antemão, escolher entre ficar no sereno ou se integrarem num esquema que sinalizava possibilidades de vitória. Em política, ninguém joga uma perspectiva fora. Isso do lado de Serra. Do lado de Lula, o desfecho será apenas mais um em sua carreira.
O presidente da República nitidamente se prepara no que é legítimo e lógico, para alçar vôo em 2014 no rumo de nova alvorada. Esta, aliás, a única perspectiva a seu dispor. Vestir o pijama é o que ele não deseja. No que está certo. Pijama jamais.
O Rio não lhe diz respeito, não está envolvido no confronto, nem pretende se envolver. Por que deveria fazê-lo? Ele viu a forte arrancada de Fernando Gabeira, como todos sentiram, identificando até uma boa dose de entusiasmo em torno de seu nome. Gabeira está em ascensão. Eduardo Paes estacionado. Gabeira emociona mais. É ele mesmo na disputa. Paes representa o governador Sergio Cabral. Não existiria sem ele. De qualquer forma, sob o ângulo de Lula, o Rio não é escala para Brasília. É importante, porém não estratégico. Para o presidente, estratégico é ele mesmo.
Voto 2008 leva ao fim da reeleição
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 07/10/2008 09:18
Os resultados do primeiro turno das eleições de 2008, independentemente dos desfechos do segundo, no próximo dia 26, vão inevitavelmente levar ao fim do instituto da reeleição introduzido no país pelo presidente Fernando Henrique Cardoso exatamente para se reeleger. E assim aconteceu em 98. E depois em 2006. Mas agora os ventos sopram em outra direção. As urnas de domingo passado revelaram, principalmente na cidade de São Paulo, que apesar de seu prestígio e popularidade, o presidente Lula não transfere votos. É muito raro um líder fazer passar sua imagem para a fisionomia de outro. No caso de Marta Suplicy, em vez de outro, outra. Ela não foi bem em matéria de voto. Depois de atingir um índice elevado, em torno de 40 por cento, começo a declinar e perdeu o posto para aquele que se tornou seu principal adversário. Gilberto Kassab. Fechou o pleito na segunda colocação. Foi um recuo muito grande, um desastre, sobretudo levando-se em conta que as correntes que formam em torno do governador José Serra estavam divididas entre o atual prefeito e Geraldo Alckmim. Não parece promissor o destino de Marta no turno final. E para o presidente Lula e o PT, São Paulo é essencial. Aliás em matéria de repercussão nacional de eleições municipais, só existem três cidades no Brasil: Rio, a capital paulista e Belo Horizonte. Até por uma questão histórica. Um prefeito de belo Horizonte, Juscelino chegou à presidência da república. Um prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, também. O Rio não figura entre tais antecedentes, mas, sem dúvida, sempre foi um centro de ressonância muito forte. Continua sendo, apesar de tudo.
Mas falava no fim da reeleição. Pois é. Perdendo a prefeitura de São Paulo, a capacidade de Lula em impulsionar a candidatura da ministra Dilma Roussef na sucessão de 2010 reduz-se muito. E se Marcio Lacerda terminar sendo derrotado em Belo Horizonte por Leonardo Quintão, como está parecendo, já que no primeiro turno, mesmo com o apoio de Aécio e Fernando Pimentel, ficou apenas 2 pontos à frente do segundo, a liderança do governador de Minas sofre sério abalo e recua naturalmente no quadro das previsões. José Serra fica absoluto no PSDB e, através de Gilberto Kassab consegue o que sempre desejou fazer: construir uma ponte com o DEM para daqui a dois anos. As pesquisas realizadas até agora, tanto do Ibope quanto do Datafolha, apontam o governador de São Paulo com larga vantagem em relação a Aécio. O caminho parece hoje se abrir para ele. E se retrair mais para o PT do que para Lula. O presidente da República, no auge do prestígio, assim, como JL estava no final de 1960, certamente -aliás com razão- considera-se em condições de retornar ao Planalto em 2014. Porém para isso a reeleição tem que acabar. Como a reeleição, sem sombra de dúvida, vem causando problemas à democracia, sobretudo porque -absurdo dos absurdos- o titular de cargo executivo não precisa se desincompatibilizar para disputar a sequência de seu mandato, o fortalecimento da essência democrática torna fundamental a mudança. Os exemplos estão colocados aí. Quantos prefeitos foram reeleitos domingo passado? Quantos serão reeleitos no final do mês? As máquinas administrativas pesam muitíssimo no Brasil. Ao contrário de nos Estados Unidos. Porque em nosso país, como dizia Santiago Dantas, a constelação de interesses em torno do poder público é insuperável e, acrescento, talvez inexpugnável. As carências da população são gigantescas. Tudo depende do estado, tudo está condicionado ao poder público. Os que se encontram nos postos levam uma vantagem enorme. Não é justo.
Inclusive -vejam só os leitores- não precisam se afastar para disputar reeleição. Então cria-se no Brasil um panorama que conduz ao ridículo constitucional: um ministro que for candidato a governador, por exemplo, tem que sair do cargo seis meses antes do pleito. Mas próprio governador que for candidato pela segunda vez não necessita se afastar. Ora,,,, francamente, isso não entra na cabeça de ninguém. É algo sem a menor legitimidade. Por que o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo não toma a iniciativa de colocar na mesa de decisões da Corte uma súmula que pelo menos questione o princípio absurdo? Instituído por FHC, para si mesmo, através da emenda 16 de junho de 97. E não é só o ministro que precisa se afastar seis meses anteriores à eleição. Os diigentes das empresas estatais também. Não faz sentido. Estou aqui alinhando argumentos que possivelmente o presidente Lula aproveite para propor o fim da reeleição ou então dê sinal verde aos projetos que já tramitam no Congresso nesse sentido. Argumentos bons e sólidos não faltam. Todos estão cientes da situação. O que falta então? Apenas Lula admitir sua nova candidatura à presidência em 2014. A partir do momento em que fizer isso, a reeleição acaba. Ele já disputou cinco vezes, tornando-se recordista mundial de candidaturas presidenciais, quebrando as marcas de Roosevelt e Mitterrand. Assim, se já disputou cinco, pode muito bem disputar seis. Prestígio popular não lhe falta.Disposição física também não. Acho que a reeleição está com os dias contados.
Povo levou Gabeira ao segundo turno
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 05/10/2008 19:11
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Foi a emoçãopopular que sempre caracteriza os últimos dias das campanhaseleitorais que levou Fernando Gabeira ao segundo turno na disputapela Prefeitura do Rio. Entusiasmo sensível na atmosfera queenvolveu a reta de chegada e visível na expressão e navoz dos eleitores e eleitoras que marcaram seu nome para a decisãofinal contra Eduardo Paes no último domingo do mês. Erauma questão inclusive de ritmo o representante da coligaçãoPV-PSDB-PPS subia, Marcelo Crivela descia. Como um ponto de inflexão,a ultrapassagem assim era lógica.
O Datafolha identificoue divulgou o processo antes e melhor do que o Ibope. Tanto assim quena pesquisa revelada sábado à noite pela Rede Globo, oDatafolha já apontava Gabeira à frente do senador doPRB. O IBOPE não. Assinalou um desabamento de 5 pontos deCrivela, um veloz avanço de 7 por cento para Fernando Gabeira,mas ainda mantinha Crivela na segunda colocação. Asduas pesquisas, contudo, convergiam e confirmavam a liderançade Eduardo Paes.
A emoçãoé fundamental na chegada, sobretudo pelo seu poder irradiador.A temperatura era alta em torno de Gabeira. À volta de MarceloCrivela a frieza de sempre. Essa forma de irradiação, ameu ver, torna possível Fernando Gabeira derrotar o candidatodo governador Sergio Cabral no dia 26. Há mais calor em tornode Gabeira, mais espontaneidade, mais vibração. EduardoPaes é principalmente um produto da máquina estatal.
O fato de Gabeira tersuplantado Crivela por margem maior do que a prevista pelo Datafolhaé um fenômeno natural em eleições. Issoporque as pesquisas fotografam o momento até quando sãofechadas. Mas, mesmo em se tratando de último dia, hásas horas que vêm depois. Neste espaço de tempo, avelocidade de um candidato e outro acentua ou reduz a distância entreeles. No caso, como se constatou, ampliou a vantagem de Gabeira.Neste plano não existe erro a registrar. É assim mesmo.
Pela legislaçãoeleitoral, artigos 46, 47 e 49 da Lei 9504/97, dois dias deproclamados os resultados do primeiro turno começa a campanhana televisão e no rádio para o segundo. Cada candidatopossui 20 minutos por dia, divididos em dois blocos de 10 cada um. Oprimeiro começa às 13 horas. O segundo às 20 e30 horas. Além disso, incluindo a TV a cabo, 30 inserçõespor dia de no máximo 60 segundos cada uma. Mas pode haverdebates. Não houve no primeiro turno porque o artigo 46 oscondiciona a concordância de todos, e um deles nãoaceitou a fórmula colocada pela Globo e pela Band. Eram dez oscandidatos. Mas no segundo turno, frente à frente apenasGabeira e Paes, não há como evitar os confrontos queforem programados. Nenhum dos dois vai querer assumir o ônus deimpedir que a opinião pública acompanhe ao vivo asopiniões, a personalidade, as teses, os projetos, o desempenhocomparativo de ambos. Isso de um lado.
De outro, entra emcampo a estratégia para captar os votos que se dividiram entreCrivela, Jandira, Molon, Chico Alencar, Solange Amaral. Umaestratégia que certamente vai se dirigir mais aos votantes doque aos votados. Os que ficaram fora do segundo turno nãoexercem lideranças. Exprimem o pensamento teóricodaqueles que assinalaram seus nomes nas urnas eletrônicas. Aestratégia é a da não exclusão de nenhumafaixa ideológica.
Eu digo ideológicano sentido de idéia mesmo, não pretendo atribuir àpalavra a conotação adjetiva que separa reformista deconservadores. Aliás, neste pleno, estou concordando ereproduzindo o pensamento exposto por Gabeira numa reunião nacasa do advogado Ari Bergher na véspera da eleiçãodo primeiro turno. Táticas e estratégias sãofundamentais. Trata-se de incorporar, não dividir. De reunir,não separar. E buscar o melhor caminho para a vitória.Certamente, Eduardo Paes está pensando igual.
Agora mesmo, semanapassada, nos Estados Unidos, tivemos um exemplo de estratégiaque, ao que me consta, nenhum comentarista internacional percebeu. Natelevisão, frente à frente, os candidatos a vice JoeBiden e Sarah Palin. Sarah vinha tirando votos de McCain, adversáriode Barack Obama. Qual foi a estratégia de Biden? Ganhar odebate, claro, mas por pontos. Não tentar o nocaute. SarahPalin, criticada por setores republicanos, se viesse a ir àLina poderia acarretar sua substituição na chapa. Issonão interessa aos democratas. Pois existe sempre a hipótesede, em seu lugar, vir a entrar alguém capaz de melhorar aposição de McCain. Então, o projeto do PartidoDemocrata, claro, é o de agir para manter Sarah Palin de pé.Este exemplo é bastante elucidativo de como se desenvolvemprojetos políticos mais definidos e bem estruturados. Nãose trata de vencer a zero. Isso é impossível. Trata-seapenas de vencer. O que, por si, já é tudo.
Na reta da chegada, emoção vem com Gabeira
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 02/10/2008 14:08
As pesquisas eleitorais, especialmente na fase final das campanhas, como no estágio em que nos encontramos, apenas refletem a voz das ruas, não podem substituí-la quando verificam as intenções de voto das pessoas entrevistadas representativas das diversas classes sociais. Refletem a intensidade maior ou menor da voz das ruas porque nos últimos dias que antecedem as urnas é exatamente quando predomina a emoção que possui caráter indisfarçável. Acompanhando disputas políticas há 54 anos, acumulei razoável experiência em torno do tema. Ela, a emoção, jamais deixa de aparecer. Em alguns casos, não altera as tendências, mas diminui as diferenças. Em outras situações inverte acentuadamente as colocações. Tenho uma sequência de exemplos na memória. Mas antes quero dizer que, agora no primeiro turno das eleições para prefeito do Rio, a emoção na reta final, na reta de chegada, está vindo com Fernando Gabeira, como comprovam as pesquisas do Datafolha, especialmente a publicada ontem pelo jornal Folha de São Paulo. Há três meses, o candidato da coligação PV-PPS-PSDB estava no oitavo andar. Uma semana depois passou a 11 por cento. Mais uma semana, atingiu 15 por cento. Ontem, chegou a 17 por cento. Ficou somente a 2 pontos de Crivela, ameaçando seriamente a posição do senador do PRB na disputa pelo segundo turno. Eduardo Paes, candidato do governador Sergio Cabral, permaneceu com 29. Nos dois últimos dias, Crivela deslocou-se um ponto para cima. Gabeira, entretanto, avançou dois. Esta ficou sendo a diferença entre um e outro. Não é pelo fato de votar em Gabeira que estou assim analisando o panorama. São coisas distintas. Estou identificando uma tendência e, como o pleito é domingo, penso que até lá Fernando Gabeira vai ultrapassar Crivela. Sente-se nas ruas um forte impulso em sua direção. Jandira Feghali, descendo de 13 para 12, a meu ver ficou fora do páreo. Não pode haver descida nos lances finais do confronto. De outro lado, segundo o Datafolha, existem ainda 16 por cento de eleitores entre indecisos e os que vão anular o voto ou votar em branco. Atitude em minha opinião absurda. Mas vamos respeitar.
A prova de que Gabeira ameaça seriamente o passaporte de Crivela para o turno derradeiro a 26 de outubro, está contida em matéria do repórter Flávio Tabak, publicada no Globo também de ontem. É atribuída a Marcelo Crivela a divulgação de carta sem autor declarado contendo ataques a Gabeira, tentando qualificá-lo como o candidato dos ricos, e não, portanto dos pobres, segmentos estes em que as primeiras posições são ocupadas por quem? Por Eduardo Paes e ele, Crivela. A preocupação, aliás no caso natural, está exposta na colocação. Eduardo Paes está super garantido. Se o documento revelado por Flávio Tabak na for autêntico, certamente o senador do PRB explicará. No momento em que escrevo, ainda não havia sido revelada qualquer manifestação. Evidentemente, a disputa efetiva concentra-se entre Crivela e Gabeira. Os demais candidatos não possuem em minha opinião possibilidade de êxito. Mas falei em reta de chegada e emoção. São muitos os exemplos.
Em 1960, na disputa pelo governo do estado da Guanabara, Lacerda havia aberto 15 pontos na frente de Sérgio Magalhães. Faltava uma semana. A diferença terminou sendo de 2,4 por cento. Em 1962, a disputa de vice-governador colocava em confronto Lopo Coelho , apoiado por Lacerda, e Elói Dutra, apoiado PR Brizola. Lopo vinha na frente. Nos últimos dez dias, Elói disparou e acabou vencendo por 48 a 40 por cento dos votos.
Em 1965, sucessão de Lacerda, foi sensacional. Pesquisa do Ibope acusou 41 para Flexa Ribeiro, candidato do governador, 26 para Negrão de Lima, não só adversário, sobretudo inimigo pessoal de Lacerda. Estávamos a 15 dias das urnas. Faltando uma semana, empate de 39 a 39. Lacerda desesperou-se e tentou mudar a tendência. Não conseguiu. Negrão fechou a campanha com 51 pontos contra 38 por cento de Flexa. A emoção veio com ele no arremate. Houve um longo tempo sem eleições diretas. Elas retornaram em 82.
Brizola estava atrás de Sandra Cavalcanti, Miro Teixeira e Moreira Franco. Houve debates no SBT e na Rede Globo. Restando pouco mais de dez dias, Brizola disparou. Moreira Franco ficou em segundo. Miro e Sandra ficaram atrás. Em 86, Moreira Franco largou na frente de Darci Ribeiro e chegou na frente, derrotando-o por 5 por cento. Não houve alternância. Mas a emoção tem outro exemplo marcante. Na disputa pela Prefeitura do Rio, em 96, vencida por Luis Paulo Conde, no primeiro turno ele alcançava 31 pontos contra 22 de Sergio Cabral e 10 por cento de Chico Alencar. Na semana final, não houve alteração em relação a Conde e Sergio, porém Chico subiu de 10 para 18 pontos. Não deu para superar Sergio, mas o episódio assinala que, na reta de chegada, a emoção veio com ele. Ela vem sempre num sentido ou outro. Veio com Marcelo Alencar quando derrotou Garotinho, veio com este quando bateu Cesar Maia. Agora, ela está vindo nitidamente com Fernando Gabeira. Esta realidade está nas ruas. É indisfarçável. As pesquisas, como os jornais, são um espelho da realidade. Refletem-na, mas não podem mudá-la. Graças a Deus. Caso contrário, seríamos todos escravos do que hoje se chama mídia e dos levantamentos de opinião pública. Não é nada disso. Não existe veículo de comunicação, por mais forte que seja, que seja maior e mais forte do que a verdade.
É isso aí.
Datafolha: Gabeira se aproxima de Crivella
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 28/09/2008 11:23
No momento em que os candidatos à Prefeitura do Rio contornam a curva de chegada e entram na reta final - estamos a menos de uma semana das urnas - pesquisa do Datafolha publicada no dia 27 na Folha de São Paulo revela uma nova forte subida de Fernando Gabeira, passando de 11 para 15 pontos, apenas 3 degraus abaixo de Marcelo Crivela que permaneceu com 18 por cento. Eduardo Paes, com presença mais assegurada no segundo turno, avançou de 26 para 29. Jandira Feghali permaneceu estacionada na escala de 13 por cento. Isso tudo, de acordo com o Datafolha, ocorreu no espaço de uma semana.
Os demais candidatos registraram índices inexpressivos. O dado sensível do levantamento, apontando uma tendência, é a evolução de Gabeira. Primeiro ele havia subido de 8 para 11, agora de 11 para 15 pontos. Marcelo Crivela estacionou com 18 por cento. Isso significa a possibilidade de ser ultrapassado nos dias finais da campanha, o que levaria a decisão no segundo turno para entre o candidato do governador Sergio Cabral e o candidato da coligação PV-PPS-PSDB. A faixa de indecisos ainda está acentuada. Vai baixar, como sempre acontece. Aliás, eleições definem-se quase sempre nos lances derradeiros.
Entretanto, uma pesquisa do Ibope divulgada no final da semana, primeiro através da Internet, no sábado, e domingo nos jornais, aponta um quadro frontalmente diverso do anotado pelo Datafolha. Os dois institutos coincidem quanto a Eduardo Paes: subiu para 29. Perfeito. Mas divergem de forma abrupta quanto a Crivela, Gabeira e Jandira. O Datafolha identificou 18 para o senador do PRB. O Ibope achou 24, seis pontos acima. Quanto a Gabeira, a diferença então é abismal: para o Datafolha, ele tem 18 pontos, em ascensão. Para o Ibope está com apenas 10. Para o Datafolha, Jandira registra 13, por duas vezes seguidas, sem modificação. Para o Ibope, ela tem 9 por cento. A ordem de colocação dos quatro primeiros coincide, os percentuais colidem fortemente. Não se trata, no caso, de variação aceitável para mais ou para menos.
Trata-se de uma divergência enorme. Os dois levantamentos, é claro, não podem estar certos. Ou um, ou outro. Vamos esperar as próximas pesquisas que saem no decorrer da semana, antes do prognóstico de sábado, já que as eleições são no domingo. Francamente, em minha opinião a subida de Fernando Gabeira é um fato. Como aliás escrevi há poucos dias. Não sei se ele alcança Crivela, tenho alguma dúvida se Crivela recua. Pode ser que sim, pode ser que não. Há, no entanto, um indício nesse sentido: o avanço de Paes nas áreas de renda menor, exatamente aquela nas quais o senador está mais forte.
Cria-se com isso, sob a ótica dos que vão votar em Gabeira, uma situação curiosa: torcem para que Eduardo Paes cresça mais porque este fenômeno representa um caminho para que o segundo turno seja decidido com a exclusão de Marcelo Crivela. Sob este aspecto, a torcida do governador Sergio Cabral sem dúvida é no sentido de que o desfecho decisivo coloque frente à frente Paes e Crivela e não Paes e Gabeira. Se Fernando Gabeira for ao segundo turno contra Eduardo Paes, o resultado será difícil de prever. Mas se o segundo turno reunir o candidato do PMDB e o parlamentar do PRB, Paes vence fácil, como as projeções inclusive indicam. Nesta hipótese, como já escrevi também, Paes fica a um passa do Palácio da Cidade.
Assim, conter a arrancada de Gabeira é o esforço natural de Sergio Cabral que necessita conseguir a vitória nas urnas do Rio, já que o desempenho dos candidatos que apóia não está sendo favorável em Niterói, Caxias, Nova Iguaçu. Nestas três cidades, a liderança nas pesquisas, por larga margem, cabe a Jorge Roberto da Silveira, Zito e Lindberg Farias. Mas evidentemente a importância política da prefeitura do Rio suplanta por cem vezes, digamos assim, o que representam os outros três Municípios. Aliás, em matéria de reflexo nacional, só três capitais possuem importância real: cidade de São Paulo, Rio de janeiro e Belo Horizonte. Na capital mineira, o quadro está decidido com a vitória de Márcio Lacerda, apoiado pelo governador Aécio neves e pelo prefeito Fernando Pimentel. Ambos com altíssimos índices de aprovação popular.
Em São Paulo, tanto o Ibope quanto o Datafolha apontam a passagem do prefeito Kassab pára a segunda colocação. Pelo Datafolha, atingiu 24 pontos na sexta-feira, em ritmo de ascensão, enquanto Geraldo Alckmim caiu de 22 para 20. Marta Suplicy segue firme na frente com 37 por cento das intenções de voto. Simulação para o segundo turno mantém o desfecho imprevisível. O Datafolha aponta 1 ponto -apena 1 ponto- de vantagem para Kassab. Imprevisível às lentes de hoje. Vai haver debates, como no Rio certamente ocorrerá, e o desfecho será a 26 de Outubro. Três semanas depois do primeiro turno. Neste espaço de tempo acontece muita coisa. O que terá acontecido com Alckmim? Tenho impressão que o apoio público que recebeu de Fernando Henrique contribuiu para derrubá-lo. Mas o que intriga mesmo são as diferenças verificadas entre Ibope e Datafolha na cidade do Reio de Janeiro.
Quem terá razão? Vamos ver o que os últimos dias da campanha e as urnas vão dizer.
Consagração é uma coisa; transferir votos outra
Pedro do Coutto | Pedro do Coutto | 23/09/2008 18:19
Sem dúvida alguma, a pesquisa Sensus-CNT publicada há poucos dias em todos os jornais significou uma consagração política para o presidente Lula, já que seu governo foi considerado entre ótimo e muito bom pela parcela de 68% da opinião pública. O levantamento foi nacional. Confirmou plenamente o Datafolha que, duas semanas antes, encontrou uma avaliação positiva de 64 pontos. A Confederação Nacional dos Transportes e o Instituto Sensus deslocaram a visão coletiva para o desempenho pessoal de Luis Inácio da Silva. Melhor ainda para Lula: aplauso por parte de 77%. Presidente algum, que me lembre, atingiu grau tão alto de aprovação. Nem mesmo Juscelino no final de seu mandato. Porém apoio popular é uma coisa, transferência de voto outra. Tanto assim que a pesquisa, ao medir hoje as intenções de voto para presidente da República, na sucessão de 2010, encontrou o governador José Serra na frente com 38%, em duas versões.
A primeira colocou Ciro Gomes no páreo e este alcançou 17%. A segunda substituiu Ciro por Aécio Neves e o governador mineiro registrou 18 pontos. Em terceiro, nas duas alternativas, a ex-senadora Heloisa Helena com 9,9 e na quarta colocação a ministra Dilma Roussef com 8,4%. Em minha opinião, não vale a pena pensar na hipótese de mudança constitucional para permitir uma tríplice candidatura do atual chefe do executivo. Mas deve-se considerar a perspectiva do fim da reeleição para permitir um possível retorno de Lula às urnas de 2014. Daqui a dois anos, ele vai mesmo apoiar Dilma Roussef. Conseguirá transferir votos? Sim. Mas em que escala? Este é o problema. Até porque transferência de votos não depende apenas de quem oferece o apoio, mas igualmente de quem o recebe. Assim não fosse, se tudo dependesse da máquina estatal, o poder não perdia eleição no mundo. Quantidade muito grande de exemplos acentua o contrário.
É claro que, com o apoio de Lula, a ministra-chefe da Casa Civil não ficará com apenas 8,4 pontos. Mas alcançará Serra? As pesquisas, tanto esta do Sensus quanto uma do Datafolha há cerca de dois meses, coincidiram em assinalar 38% para o governador de São Paulo. Não é surpresa. Ele teve este patamar quando perdeu para o atual presidente nas eleições de 2002. Quatro anos depois, Geraldo Alckmim atingiu um ponto a mais, fechando o segundo turno com 39. Lula arrebatou 61 pontos. Por isso, parece à primeira vista que o teto das oposições reunidas situa-se nessa faixa. É pouco para vencer eleições. Isso é fato. Porém é verdade também que a presença de Lula na disputa é uma coisa, sua substituição por Dilma Roussef é outra. Uma incógnita. Depende do que ela fizer na campanha eleitoral. Há candidaturas e candidaturas. Umas pegam, outras não decolam. Há o problema da simpatia, da empatia, da identificação com o eleitorado a ponto de motivá-lo. JK achou impossível apóias o general Teixeira Lott, seu ministro do Exército, e derrotar Jânio Quadros. Encolheu-se, adotou a posição de magistrado, eqüidistante do confronto.
Isso no plano nacional de 1960. Em Minas Gerais, entretanto, empenhou-se por Tancredo Neves. Estava no auge do prestígio. Mas não adiantou. Magalhães Pinto, pela UDN, derrotou a coligação PSD-PTB por 25 mil votos. No Chile, em 1970, Eduardo Frei, pai, depois de um mandato brilhante, apoiou Vladomiro Tomic. Acabou chegando em terceiro, superado por Salvador Allende e Alessandri. Na Argentina, em 60 anos de eleições, o peronismo só perdeu uma única vez. Em 1982, quando Raul Alfonsín derrotou Ítalo Luder. Explico: quando Guillermo Ruas venceu Eduardo Duhalde, anos depois, uma facção peronista formou em sua campanha representada pela presença do vice na chapa, Cacho Alvarez. Mas estas são outras histórias. Campanhas políticas são campanhas políticas, não há uma igual à outra. O mesmo raciocínio se aplica aos candidatos. E às candidatas. Os apoios que recebem são acessórios. Não essenciais. Essencial é a capacidade de conquistar votos de cada um. Veja-se o exemplo de Barack Obama nos Estados Unidos.

















