Thatiana Pagung comenta sorteio da ordem de desfile
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 30/06/2009 16:57
Até 83, ninguém falava em pares, em preferência de dia; ninguém se ocupava em saber se a escola que desfila segunda tem mais probabilidades de ser campeã. Ninguém falava nisso porque isso, simplesmente, não existia - as escolas desfilavam num único dia, o Domingo de Carnaval que se prolongava de maneira deliciosa até a tarde de segunda-feira sem que houvesse reclamação de atrasos, cansaços, sol e chuva.
Hoje, depois do carnaval, o sorteio da ordem de desfile é o segundo evento mais importante do universo do carnaval - o primeiro, para mim, é a escolha do samba, mas sei que muitos acham que este momento que viveremos na terça está um degrau acima das finais de samba-enredo. É com base no dia e na ordem da apresentação que as escolas se planejam para o carnaval. E isso interfere até no estilo do samba que deve ser escolhido.
Alberto João me pede que escreva uma ordem de minha preferência. A minha está abaixo, mas é só um palpite, sem qualquer critério objetivo a não ser a vontade de ver a Sapucaí lotada e emocionada durante os dois dias. Não dá para advinhar o que vai acontecer na Cidade do Samba. Mas dá para saber que, na manhã de quarta-feira, muitas expectativas e muitas angústias estarão criadas - e só oito meses depois, quase uma gestação completa, saberemos se as expectativas serão correspondidas e as angústias, aplacadas.
Quanto ao sorteio, acho q não deveria haver nada dirigido, pois todas escolas q estão no Especial possuem capacidade de desfilar em qualquer dia ou posição, sem cair o nível ou volume de desfile. Quanto ao estigma de ser a 1ª de domingo, não vejo problema na posição; mas nos jurados q ainda teimam em "segurar" notas 10 à 1a escola. Nada q um bom bate-papo ou encontro para q este assunto seja debatido ao resolva.
Palpites:
Domingo
União da Ilha
Grande
Rio
Salgueiro
Tijuca
Viradouro
Mangueira
Segunda
Mocidade
Porto
da Pedra
Portela
Imperatriz
Vila Isabel
Beija-Flor
Oferendas
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 15/06/2009 16:31
A história desta semana é a de um torcedor da Mocidade Independente. Luiz Carlos Severo narra um acontecimento às vésperas do carnaval de 76 mostrando, com muito humor, o envolvimento da religiosidade com o samba.
"À minha Rainha :
Envio a história abaixo, sem qualquer compromisso, para você avaliar se tem interesse e espaço para publicação no site.
A personagem principal é a saudosa e folclórica baiana Tia Chica, responsável pelas festividades religiosas ligadas ao samba, naquela época em que comemorávamos com muito entusiasmo as datas festivas dos santos de nossa Fé.
Tia Chica vem a ser mãe da competente e atuante baiana Bibiana e do também folclórico, polêmico, saudoso e competente ritmista Fumão, cujo boato da sua morte ocorreu pelo menos 4 vezes, nos seus 5 últimos anos de existência... o cara aprontava todas no bom sentido!!!"
Eis a história :
No carnaval de 75 a Mocidade recebeu vários prêmios, elogios, estandarte de ouro em enredo e fantasia ,,,,,, A escola estava bombando e a expectativa para 76 era muito grande .
Não tínhamos problemas financeiros, porém havia muita negatividade: confusões no barracão, intrigas nos bastidores, chiadeiras de compositores, problemas nos ensaios, brigas internas... a urucubaca era geral!!! Daí, espontaneamente, a nossa saudosa Tia Chica se inspirou para fazer um trabalho espiritual!!! Procuramos o também saudoso e generoso Dr. Castor, que por via das dúvidas, como fazia rotineiramente, abriu a bolsa, proporcionando uma imensa oferta de oferendas e rufar de tambores em Padre. Miguel, culminando com uma lavagem na quadra, onde foi utilizado 7 vassouras, 7 rodos virgens, 7 baldes virgens, 7 kilos de sabão, 7 kilos de sal grosso,70 molhes de ervas especiais, 700 litros de água que foram utilizados por 7 homens com o corpo limpo(sem relação sexual por 7 dias) .
Logo após a lavagem da quadra o clima melhorou em 100 % : os compositores perdedores se acalmaram, a produção no barracão alavancou, os ensaios eram um sucesso, os críticos viraram colaboradores, a imprensa dedicou mais espaço... etc.
O Dr. Castor ficou impressionadíssimo e mandou reformar o centro da Tia Chica, sem falar nos outros agrado. O homem sabia ser generoso, e o natal dos envolvidos e de outros bicões nesse processo nunca foi tão farto.
Veio o carnaval e a Mocidade desfilou com muita competência e glamour, ficando em 2º lugar; o explosivo Fumão não se conformou e aladeou que dois dos sete homens que lavaram a quadra tinham namorado no último dia.
E o que é pior... bem, paro por aqui porque desses 7 há ainda quem esteja está vivo, e o negócio pode acabar comprometendo.
Beijo do seu súdito... Severo."
Lendo esse email, lembrei que a Mocidade nesse ano havia tirado não o segundo, mas o terceiro lugar e perguntei ao Severo: "Você está falando o ano certo, porque em 76 a Mocidade ficou em terceiro?". Ao que ele respondeu:
"Oficialmente ficamos em 3º, porque empatamos em 2º com a Mangueira, perdendo no quesito de desempate. Moralmente ficamos em 2º, isso é mais uma polêmica dos desfiles, pois o quesito de desempate era BATERIA e nessa época, minha rainha, não tinha pra ninguém!!! Pois nenhuma escola havia copiado a graça da paradinha, não conhecia a baqueta sextavada nos tamborins(amplia o som da batida, inventada pelo canhoteiro). Tinha de respeitar a bossa na marcação do nosso surdo de 3ª (criada pelo grande Miquimba), que dava aquele balanço no andamento/compasso.
É por isso que a Mocidade nunca desce. Somos celeiro de sambistas tradicionais, conseguimos casar o tradicional com a vanguarda, estamos numa crise momentânea , que já se prolongou demais e que, se Deus quiser, será superada no próximo desfile. Levo a maior fé
... Beijo/Severo."
Grande tia Chica, dizem que foi de seu terreiro que saiu o ritmo da Mocidade. Mestre André era o ogã do terreiro, tocava o atabaque.
Como também dizem que cada escola tem sua batida influenciada pela religião e por suas respectivas crenças, com a Mocidade não foi diferente, já que tia Chica trazia a herança de Angola.
A Mocidade em 1976 desfilou com um carnaval lindo, mas acabou em terceiro, com 116 pontos. Nesse ano o desfile foi na Presidente Vargas, na altura do Mangue, e a verde e branca de Padre Miguel desfilou com o enredo "Mãe Menininha do Gantois, do carnavalesco Arlindo Rodrigues. Há um detalhe nesse desfile que escapou à observação do Severo: os componentes da bateria desfilaram com a cabeça raspada, num dos momentos mais marcantes da história do carnaval. Foi também um trabalho espiritual.
Mas Severo: nem tia Chica, com toda sua crença e devoção aos santos, nem as cabeças raspadas poderiam prever o que aconteceria no carnaval de 1976.
Joãozinho Trinta, que no ano anterior havia sido campeão pelo Salgueiro, com um enredo original, "As minas do rei Salomão", acabara de estrear na Beija-Flor, deixando de lado a estética que a azul e branca de Nilópolis vinha desenvolvendo em cima de enredos ufanistas, desfilando com um enredo sobre o jogo do bicho, "Sonhar com rei dá leão", inaugurando uma nova era nas escolas de samba, a era das superproduções das escolas, com gigantismo, luxo e exuberância visual.
O desfile tornara-se um grande espetáculo. Realmente seria difícil vencer a Beija-Flor , já que após esse grandioso desfile, a escola de Nilópolis tornara-se parâmetro de estética visual para as outras.
O bom foi que não demorou muito para a Mocidade se adaptar à nova estética, vencendo três anos depois, em 1979.
No YouTube, eu consegui encontrar um trechinho do desfile da Mocidade e do samba da Beija-Flor em 1976:
Continuem mandando suas histórias para thati@thatianapagung.com.br
Superstições
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 04/06/2009 00:36
Esta semana a história que uma leitora mandou traz muito humor - e também superstições! Não é todo mundo que desfila pela primeira vez na escola do coração e sai campeão da avenida, não é mesmo? Dá vontade de fazer tudo igualzinho no ano seguinte, para ver se a sorte se repete. Será?
Por Raiane Carné
"Aí vai minha história do carnaval de 2005, em que desfilei pela comunidade da Beija-Flor, minha escola!
Cheguei à concentração toda serelepe, pomposa, pois seria o primeiro ano em que eu desfilaria em um carro alegórico, portanto cheguei até meia hora antes do horário marcado. Fiquei horas esperando até poder subir na alegoria, que era o último carro do desfile; durante esse tempo, ficávamos conversando e ensaiando a coreografia!
O carro possuia três níveis e logo assim que a Grande Rio, escola anterior à Beija-Flor naquele ano, acabou seu desfile, a galera que ficava no nível 3 e no nível 2 subiu. O pessoal da coreografia, que junto comigo ficava no nível 1, não precisava do Carvalhão para subir, então o nosso diretor nos falou: "Quando o Roda Moinho começar a rodar, caindo água, vocês sobem! Esse é o sinal!!!" O carro possuía um roda moinho em cada lateral, e enquanto o roda moinho era ligado, ficamos conversando no chão mesmo.
O tempo passava e nada de os carros ligarem, pois estava rolando a gravação da novela 'Senhora do Destino', o que atrasou muito a Beija-Flor naquele ano. O pessoal dos níveis de cima reclamava o tempo todo de fome e queriam ir ao banheiro! Realmente, eles queriam ir ao banheiro!!!
Estávamos esperando encostados na alegoria, quando de repente sentimos uma água caindo na gente!!! Nos olhamos com cara de desespero e pensei: "É agora! O roda moinho ligou!!!" Mas olhei para ele e vi que estava parado! Quando olho para cima, vi que era uma mulher fazendo xixi em cima da gente!!! O xixi batia em uma parte da alegoria e respingava na nossa cabeça!!! Sem contar que a cena foi algo bizarro, pois a mulher estava com um vestido imenso daqueles de época levantado, com o bumbum de fora, virado pra gente! Muito engraçado!
Claro que ela foi "zuada" do inicio ao fim, foi chamada de "mijona" e outros adjetivos. Nunca esperava que isso pudesse acontecer, mas acho que o xixi na cabeça deu sorte, pois ganhamos o carnaval esse ano! Pior é: se essa moda pegar e isso vira superstição! rs
Beijos!
Rai"
Realmente Rai, imagine se a moda pega? Todos querendo receber xixi na cabeça para ser campeões? Seria hilário! Acredito que cada um tenha a sua superstição, mas essa, eu acredito que não seja!
A minha é bem simples: olho para o meu tubo de luz, e imagino uma luz vindo do céu, que penetra em mim até os pés e sobe em espiral, no sentido horário, envolvendo todo meu corpo, me protegendo. Na verdade, faço isso sempre antes de sair de casa, todos os dias, e na avenida antes do desfile eu apenas reforço. Agora, sei de pessoas que querem usar a mesma cueca, o mesmo perfume, possuem um amuleto, ou apenas rezam. Enfim, muitas pessoas têm as suas superstições, e cada um de um jeito.
E você amigo leitor, tem alguma superstição?
Continuem mandando suas histórias para thati@thatianapagung.com.br e vamos assistir um pouquinho da Beija-Flor, campeã de 2005:
É campeã! É campeã!
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 25/05/2009 15:37
Quando abri espaço para o leitor mandar suas histórias de carnaval, eu confesso que esperava histórias mais engraçadas; mas, com o tempo, comecei a receber verdadeiras declarações de amor às agremiações, surpreendendo-me de forma positiva.
Na penúltima coluna, escrevi sobre a minha querida Mocidade Independente, e várias pessoas me disseram terem ficado emocionadas com o texto.
O texto a seguir também trata de um folião apaixonado, que cresceu dividido entre dois amores: Portela e União da Ilha, mostrando que não é ruim da cabeça nem doente do pé, pois cresceu ouvindo e admirando os bons sambas da tricolor da Ilha.
Por Pedro Bálaco
"Sempre fui portelense e morador do subúrbio carioca, porém cresci ouvindo os maiores sambas da União da Ilha: "É Hoje"; "Bom, Bonito e Barato"; "Domingo"; "Festa Profana"; "O Amanhã"; "De Bar em Bar, Didi um Poeta"; encantava-me também com as histórias dessa simpática escola. Mas antes do carnaval de 2001, eu fui morar na Ilha do Governador e passei a ter mais contato com a agremiação e a frequentar a quadra. Naquele ano a Ilha foi rebaixada após 27 anos no Grupo Especial. Será que eu tinha dado azar pra escola?
Passei mais alguns anos morando na Ilha, frequentando a quadra, mas sem desfilar, e nada da União subir. Sempre achei que deveria participar mais ativamente da União da Ilha e ajudá-la nesse momento difícil, mas não tive a oportunidade. Voltei a morar próximo à Madureira e ter mais contato com a Portela, indo a ensaios, desfiles, feijoadas, mas sem deixar de acompanhar a saga da Ilha no Grupo de Acesso A.
Trabalhando num barracão que faz fantasias para algumas escolas, incluindo Portela e Ilha, voltei a ter contato com a escola insulana e, em 2009, consegui uma vaga para desfilar pela primeira vez na União da Ilha. Agora eu via que estava contribuindo para o crescimento da escola e que poderia ter feito isso antes.
O grande momento havia chegado, era hora do desfile, encontrei alguns conhecidos como diretores de harmonia ou fantasiados como eu, todos estavam cheios de garra e prontos para mostrar novamente que aquela era a escola que mais levava alegria à Sapucaí.
Começou o esquenta...
Ainda na concentração eu só consegui cantar o primeiro verso: "A minha alegria atravessou o mar..." Algo me fazia chorar compulsivamente.
Quando minha ala deixou a Presidente Vargas e eu deparei com a Sapucaí do povão (era a primeira vez que eu desfilava no Acesso), parei de chorar e incorporei o folião insulano, responsável pela fama e pela simpatia daquela escola. Todos nós fazíamos questão de mostrar que sabíamos o samba do ano de cor. Cantávamos até o último andar de camarote ouvir nosso canto rouco.
Na dispersão eu não conseguia falar e vi que todos se abraçavam. Abracei meu irmão e meus amigos que me acompanharam aquele dia. Da Apoteose podíamos ouvir o som que vinha das arquibancadas populares: "É campeã! É campeã!"
Perdi a voz de novo na quarta de cinzas. A União da Ilha era finalmente bicampeã do Grupo de Acesso, e eu pude ter a certeza de que havia feito a minha parte. Esse título era dos insulanos. Esse título era meu!
Na despedida do carnaval, foliões lotaram a Avenida Rio Branco para a passagem do Monobloco no primeiro domingo da quaresma. Não se ouvia sambas do Salgueiro, campeão do Especial, não, o povo cantava os sambas da Ilha! Não era sonho, após o bloco passar, a multidão cantava: "Ôôôhhh a União voltoou! A União voltou! A União voltou! Ôôôhhh..." Nunca vi tanta alegria por uma escola que voltava do Grupo de Acesso. Foi de arrepiar!"
Então vamos assistir um pouquinho da União da Ilha 2009, campeã do Grupo de Acesso, que estará ano quem vem novamente entre as escolas do Grupo Especial:
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Em conjunto com os leitores, o conjunto
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 19/05/2009 11:28
À coleção ou grupo damos o nome de conjunto, e um conjunto para ser caracterizado tem que apresentar seus elementos. Da mesma forma, para esses elementos fazerem parte de um conjunto, eles tëm de ter algo em comum. Num conjunto de frutas, por exemplo, cada uma pode ter sua característica: laranja, abacaxi, pera. Mas todas serão frutas.
O dicionário diz:
1 aquilo que forma um todo:
- um conjunto de talheres
- um conjunto de textos
2 a totalidade de qualquer coisa:
- comprar o conjunto todo
3 grupo musical:
- um conjunto de rock
4 peças de roupa a condizer:
- vestir um conjunto
No manual do julgador da Liesa, encontram-se as seguintes palavras sobre o quesito conjunto:
Conjunto, em desfile de Escolas de Samba, é o "todo" do desfile, ou seja, a forma geral e integrada como a Escola se apresenta.
Para conceder notas de 07 a 10 pontos, o julgador deverá considerar:
· a uniformidade com que a escola se apresenta em todas as suas formas de expressão (musical, dramática, visual etc);
· o equilíbrio artístico do conjunto.
Não levar em consideração:
· a eventual presença de quaisquer animais vivos;
· a eventual pane no carro de som e/ou no sistema de sonorização da Passarela."
Na minha visão, este quesito é um dos mais difíceis, pois cabe ao julgador avaliar a escola em sua totalidade. Se uma das alegorias apresentar defeitos, cabe ao julgador de alegorias e adereços punir a agremiação por isso. Mas o julgador de conjunto só o fará se considerar que aquele defeito prejudicou todo o desfile.
Em resumo, outros nove quesitos julgam detalhes, partes do desfile. O julgador de conjunto julga todos os outros nove quesitos mas não separadamente, e sim juntando-os numa análise geral e abrangente.
Agora, eu pergunto, os jurados fazem isso?
Vamos observar o nosso pé. Ele é composto por várias células. Temos as que formam a unha, a pele, tendões e etc. Cada célula faz a sua parte pra formar um todo que é o pé. Se você olhar para um pé sem unha, não estará um pé formado, não é mesmo? Então, você estará observado algo em desarmonia com o todo. Mas, mesmo assim, o que estará sendo avaliado será o pé, e não a unha, mesmo que esteja fazendo falta. Isso também mostra que independente da célula que seja, nenhuma é mais importante que outra, pois formam um conjunto que é o pé. Todas as células são importantes, e cada uma tem apenas que fazer bem feito a sua parte, tendo a visão do todo.
Quando um jurado de conjunto diz que está tirando ponto pelo desfile ter sido "sem graça", "simples" e em certos momentos até "chocho", não posso crer que essa pessoa entenda o significado de cada quesito para ter base para uma avaliação de seu conjunto.
Muito subjetivo alguém gostar ou não, achar isso ou aquilo. Como já falei, esse é um dos quesitos mais difíceis de julgar.
Os jurados do quesito conjunto deveríam ser os mais habilitados, no sentido de saberem muito bem sobre cada quesito, e assim, com base, avaliar o todo. Senão, como uma vez nosso amigo colunista Eugênio Leal disse: PARA QUE "CONJUNTO"?
Histórias verde e branco
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 12/05/2009 00:36
Esta semana publicarei duas histórias que têm em comum a mesma escola de samba, a minha Mocidade Independente de Padre Miguel. A primeira, na verdade, trata-se de uma declaração de amor. E como Marcos Altemari, sei que existem muitos assim que, mesmo de longe, admiram algumas escolas e seus segmentos. Fãs com um amor incondicional, que se sentem parte da comunidade.
A segunda já é bem engraçada. Nildeck Guimarães conta um fato ocorrido envolvendo Joãozinho Trinta na concentração das escolas, no ano de 1997. E você, que tem uma história que julga em condições de ser publicada, pode mandar para thati@thatianapagung.com.br.
Por Marcos Altemari
"Mocidade Independente de Padre Miguel - Para o amor, não há distância. Dia 28/09/08, para mim um dia muito esperado. Por dias fiquei contando no calendário os dias e as horas que faltavam para o grande dia. Um dia antes, já não consegui dormir de tanta expectativa...... Sabem o que é isso? É o amor incondicional por uma escola de samba, por uma entidade que nem é do meu estado, da minha cidade ou do meu bairro.
Explicar? Não posso, não sei......foi um amor verdadeiro que nasceu "do nada", mas é forte, muito forte. Adoro samba, sou ritmista da gloriosa Mancha Verde, escola de samba do grupo especial de SP, a entidade que amo de paixão e é ela que divide o
meu coração com a escola de Padre Miguel, escola de um lugar que nunca fui, não sei como é, não sei onde é..... Mancha Verde e Mocidade Independente, duas paixões verdadeiras, escolas que amo, escolas que me fazem chorar.
Neste tão esperado domingo, acordei e logo fui para a quadra da Mocidade Alegre SP no bairro do Limão, para ver o show da minha Mocidade Independente. Quando lá cheguei, logo senti a grande emoção de ver os integrantes da bateria mais quente do planeta, bateria de bamba, bateria raiz.........o contato com os cariocas foi tão receptivo que passei à amar ainda mais a escola, sua comunidade e a sua bateria. São todos muito humildes, todos muito simpáticos.....foi 10!
Quando o Mestre Jonas apitou........meu Deus, que espetáculo!!!!!!!! Não existe, não existe, não existe mais quente....é a melhor! Meu coração palpitou, fiquei alucinado, emocionado e confesso que chorei. Porque chorar pela bateria ou pela escola de samba que você nem é integrante, do estado ou cidade que não mora?
Também não sei, mas uma coisa eu digo....quem tiver o privilégio ou a sorte de ver o show da bateria não existe mais quente, se apaixona, sem dúvida! Parabéns escola do meu coração, bateria do meu coração e amigos que fiz, do meu coração! Te amo, Mocidade Independente de Padre Miguel !!!!!!!!!!!!!!!!!! Agradecimento especial ao grande ritmista e amigo: Willian Ocanha - Tamborim - Bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel."
Por Nildeck Guimarães
"Olá, Pagung. Vou te contar uma história bastante engraçada ocorrida justamente com a sua escola, a Mocidade. No carnaval de 1997 Joãozinho Trinta, na época, carnavalesco da Viradouro, chegava à concentração do Sambódromo juntamente com todas as suas alegorias para organizá-las e prepará-las para o desfile.
Neste mesmo instante a Mocidade Independente de Padre Miguel tirava suas alegorias do barracão que ficava nas imediações do Sambódromo. Diante da beleza e perfeição das mesmas, Joaosinho, encantado, se aproxima de um dos diretores da Mocidade, responsável pela movimentação destas alegorias e, boquiaberto, tece o seguinte comentário: "Deus do céu, que alegorias magníficas!"
Imediatamente o diretor lhe dá um tapinha nos ombros e responde, com ar de superioridade: "pra você ver, João! Todos os anos apresentamos as mais lindas alegorias do carnaval e na hora das notas, são umas alegorias porcarias, como aquelas ali (aponta, sem saber, justamente para as alegorias da Viradouro) que levam as maiores notas.
É um absurdo!" Joaosinho olhou para ele , entre magoado e irritado e, numa voz ressentida, disse-lhe: "Mas aquelas alegorias são as minhas!" Detalhe, a Viradouro foi a campeã naquele ano e a Mocidade, vice. (rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs)."
Vamos assistir então os vídeos da Mocidade e da Viradouro, e depois dêem a sua opinião: qual das duas tinha o melhor conjunto de alegorias?
Mocidade início:
Mocidade final:
Viradouro:
Joãozinho Trinta campeão 1997:
Brazilian Carnival Ball 2009
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 01/05/2009 22:54
O espetacular baile de gala beneficiente aconteceu no dia 25 de abril com cerca de 2000 convidados, e contou com a ilustre presença do Príncipe Andrew, Duque de York, grande entusiasta da causa. Parece que a crise não influenciou a realização do evento, pois foram arrecadados quase três milhões de dólares, valor que será destinado ao Hospital SickKids, que é uma referencia mundial em pesquisas pediátricas.
A brasilidade e o glamour brasileiro são as marcas do baile. O público é brindado com o samba de raiz. Aproximadamente 100 performers escolhidos em seleções por todo o Brasil participaram, dando à festa o verdadeiro clima do carnaval brasileiro.
Sambistas, modelos, atores e bailarinos mostraram seu gingado e seu carisma para um público que se mostrava encantado com toda a diversidade cultural de nosso país.
O eclético elenco incluiu a grande destaque do Carnaval carioca Herminia Paiva, vencedora do Trófeu Plumas e Paetes 2009; eu tive a honra de vir à frente da bateria comandada por Mestre Marrom da Mangueira; a Musa da Porto da Pedra, Elaine Ribeiro; a Mulher Samambaia, Daniele Costa; os gêmeos Flavio e Gustavo; a Rainha do Carnaval de São Paulo, Camila Silva; a atriz do Zorra Total, Miryan Martin; a modelo transexual do momento, Patricia Araujo; a conceituada nova porta-bandeira da Portela, Lucinha Nobre; o modelo internacional atualmente na Índia, Arruda Junior; a Rainha da Bateria da Escola Mirim do Salgueiro, Brenda Gabrielle; a Miss Brasil, que foi a Rainha do baile, Natalia Anderle, o Mister Brasil, Vinicius Ribeiro; a Primeira Bailarina do Theatro Municipal Claudia Mota, entre várias outros performers interessantes.
O baile contou com a participação da Escola de Samba Grande Rio, que levou de Caxias para Toronto seu casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei e Squel, o intérprete Wantuir Oliveira, o primeiro passista Luidy, o principal destaque Danyllo Gayer e alguns de seus melhores ritmistas, todos sob o comando do Diretor de Carnaval, Peracio, com a colaboração do coreografo Bira Dance e do talentoso figurinista Fernando Magalhães.
Mauro Quintaes e Milton Cunha foram os carnavalescos. Mauro foi o responsável pelo carros. Isso mesmo - a apresentação é etinerante e possui 6 carros alegóricos, que medem 2m x2m, e 1 tripé. Milton foi o diretor artísco, mas como ele mesmo disse, além de idealizar, ele pôs a mão na massa no que foi preciso. Eles contam com uma excelente produção escolhida pelo diretor executivo do evento Howard Gillick, que também desfila, como as destaques Patricia Shélida e Edneia, Angela Sardinha, Lucimar, Odacir, entre outros já citados.
Assim como no nosso carnaval, a equipe brasileira do Brazilian Carnival Ball trabalha o ano inteiro para uma noite que encanta a todos os presentes com descontração e magia.
Energia Vulcânica
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 20/04/2009 12:58
Há duas semanas venho pedindo para que me enviem histórias curiosas e engraçadas sobre carnaval, histórias que vocês leitores tenham vivido, presenciado ou ouvido falar. Esta semana começo contando a história de Flavio Capelletti.
"Dizer que você é admirável seria pouco. Vou lhe conta uma "histórinha" que aconteceu com o meu saudoso pai.
Num certo carnaval, meu pai chegou à concentração e viu a sua querida escola armada para o desfile. Ele ficou muito desgostoso e retornou para casa porque não iria passar vergonha de desfilar numa escola pobre, feia e desorganizada e que estava cotadíssima para descer para o Grupo de Acesso.
Eu até achava isso também , mas acabei ficando para assistir ao desfile.
Quando começou a cantar o samba, eu vi que havia alguma coisa estranha no ar. Parecia que todos os segmentos da escola estavam incorporados por uma energia vulcânica que acabou passando também para mim. Eu não parava de chorar. Foi um desfile que ficou na história. Foi tão maravilhoso que Papai do Céu não permitiu repeteco, pois não houve desfile das campeãs.
Pois bem, a Escola acabou sendo proclamada campeã pelo povo, pela imprensa e pelos jurados. Todos foram unânimes em dizer que foi um desfile para entrar para história das escolas de samba.
Como que uma escola sem quadra e sem dinheiro pôde ter chegado ao alto do pódio? Só com ajuda dos orixás, e eles ajudaram e muito. Quando se quer e acredita, nada é impossível. Um bom samba ajuda muito e, nesse particular, a Vila, naquele ano, tinha de sobra.
O meu saudoso eai, que foi para casa, não foi campeão, e eu fui. "Pagou mico" e acabou ficando com esta marca até morrer.
Eu estou falando da minha querida Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, que foi campeã em 1988, com enredo "Kizomba, festa da Raça". Não houve desfile das campeãs, pois um dia antes, um temporal no Rio, alagou literalmente toda a Cidade.
O meu falecido pai foi um apaixonado pela Vila Isabel, em que foi Presidente por duas oportunidades, foi diretor geral por várias administrações e Presidente do Conselho por três mandatos. Ele chamava-se Cornélio Cappelletti.
Os grandes amigos do meu pai no samba foram o velho Natal e o grande Presidente Amaury Jório (fundador da Imperatriz).
Hoje, sou conselheiro da escola e assessor especial do presidente Moisés
".
Que história, hein Flavio! Realmente foi um desfile maravilhoso, e o samba, nossa!, nem se fala: para mim é um dos melhores da nossa história.
Fiquem então com mais um pouquinho desse desfile com "energia vulcânica", como disse nosso amigo Flavio:
Brazilian Carnival Ball 2009
Estarei indo para o Canadá, no próximo dia 22, para participar do Brasilian Carnival Ball.
O Brazilian Carnival Ball existe há 43 anos e é um evento vitorioso de Toronto, Canadá. Criado pela mineira, a saudosa, Anna Maria Marcolini Guidi de Souza, o baile é beneficente e reúne anualmente cerca de dois mil convidados que desembolsam doze mil dólares pela mesa mais barata. Em mais de quatro décadas, essa entidade filantrópica internacional bateu um recorde em contribuições e patrocínios: o baile se classifica entre as cinco maiores galas beneficentes do mundo, a mais importante do calendário oficial canadense e o maior baile anual de carnaval brasileiro do planeta.
Tema 2009: "Crianças mais saudáveis, um mundo melhor"
O próximo baile, o Quadragésimo-Terceiro Brazilian Carnival Ball, será no dia 25 de abril, em Toronto, beneficiando SickKids Foundation, em prol do pesquisas pediátricas.
Na volta contarei tudo sobre essa grande festa.
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Complexo de Cinderela
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 13/04/2009 00:44
As escolas de samba estão passado por uma fase complexa; eu diria até, fazendo jogo de palavras, que elas estão vivendo um complexo - o complexo de Cinderela. O que é isso?
Acredito que algumas pessoas se lembrem da aparente inocente história que, na verdade, é um estereótipo baseado no emocional coletivo. A Cinderela é um arquétipo na vida de muita gente. A ideia de vida perfeita passa por esse caminho; mas, claro, essa expectativa criada pela sociedade desde o berço não se concretiza, e raros casos conseguem viver felizes para sempre. E, quando a história chega ao fim sem final feliz, somos tomados pela sensação de que o relacionamento acabou sem que pudéssemos aproveitá-lo.
Onde esteve o erro? Esteve na suposição de que, após conhecer o Príncipe Encantado, a história já estava escrita, tudo sairia à perfeição.
Imaginem as escolas de samba como se fossem a linda Cinderela. Em primeiro lugar, elas se sentem vítimas, sempre precisam de ajuda, não enxergam o poder interno, sua base, a sua força.
A partir daí, começam a sonhar com uma solução mágica, com a fada madrinha chamada "patrocínio" que vai resolver todos seus problemas. Lembrei-me agora da propaganda dos produtos "Tabajara", do humorístico "Casseta e Planeta": "Seus problemas acabaram, Tabajara's Patrocínio!" Seria ótimo, não é mesmo?
Há escolas que ainda conseguem esse feito. Parabéns a elas, maravilha! As que conseguem acreditam que assim conquistarão seus príncipes encantados, ou seja, os profissionais mais caros e considerados melhores do carnaval, e assim, serão felizes para sempre. Fim. Ai, meus Deus do céu!, quem inventou esse fim? Agora é que começa tudo.
Ninguém nunca parou para pensar que o príncipe só viu a Cinderela duas vezes, e que ela estava toda arrumada na personagem de princesa. Onde entra a chamada convivência? Aí é que começa a vida de fato. Não existe essa tão sonhada perfeição.
Não podemos imaginar que, por sermos o "maior espetáculo a céu aberto do mundo", ou porque tal escola seja tradicional, podemos nos considerar lindas cinderelas à espera de uma fada madrinha.
A melhor forma de fazer isso é encontrando a base verdadeira, a que existe dentro de cada agremiação. Assim, evita-se que saiam desesperadas achando que as "irmãs más" chegarão primeiro que elas. Lembram-se das irmãs más da Cinderela, filhas da madrasta? Pois então, acontece tal rivalidade por puro ego e vaidade.
Mais uma vez, o segredo está na base de cada uma. Formem uma equipe unida, que seja a estrutura para que a escola possa se apoiar e seguir. Tracem uma meta, e tenham foco para atingi-lo.
Só assim, sendo sólidas e verdadeiras, para que, quando passar o carnaval, e chegar a Quarta-Feira de Cinzas, algumas escolas não virem abóboras e percam seu encanto.
Conheço uma bela canção que diz:
"Então, vem vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer"
Conte a sua história:
A partir de agora, quero interagir mais com você, leitor. Se você conhece histórias curiosas e engraçadas sobre carnaval, histórias que tenha vivido, presenciado ou ouvido falar, mande um email e me conte sua história. Vamos compartilhar isso. O e-mail é thati@thatianapagung.com.br
Gosto amargo
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 06/04/2009 12:04
Chega de férias, vamos trabalhar! Já estava com saudades de vocês. Mesmo depois de tantos dias da nossa festa maior, acreditem: o gosto amargo da quarta-feira de cinzas teima em não sair da minha boca. Que carnaval foi esse?
Foi um carnaval nivelado por baixo, pois era mais difícil adivinhar as últimas posições do que acertar as primeiras. Sei que cada um de vocês pensa diferente, um ou outro podem achar injusta alguma posição, mas acredito que todos concordam que foi um carnaval bem abaixo do esperado.
O reflexo já está aí: troca-troca sem fim. No meio disso tudo me pergunto: onde fica a identidade? Será que a identidade hoje fica na questão do melhor profissional ou no profissional que melhor se adapte a uma agremiação?
Identidade no carnaval é um assunto complexo. A indústria cultural, a que o carnaval se subordina, tende a formatar o espetáculo, diluindo as diferenças. No entanto, as diferenças continuam a existir, ainda que pareçam fragmentárias. Façamos um teste: a bateria do mestre Odilon tem a mesma sonoridade da bateria do mestre Ciça? Mas hoje todos são substituíveis, desde que se adaptem às regras da escola em que estão trabalhando.
Como na vida aprendemos por meio das diferenças, sejamos otimistas. Quanto o nosso carnaval pode ganhar com isso? O inusitado ficará cada vez mais em evidência? Como será fulano em tal escola?
"Achismos" apenas só após a próxima quarta-feira de cinzas.
Seria bom se o sentimento de esperança não virasse expectativa. Expectativa é controle. Como não podemos controlar o externo (nesse caso, o resultado), nos frustramos, e a frustração gera raiva. Nada saudável, não é mesmo?
Vamos tentar enxergar o lado bom disso. A curiosidade fica aguçada, os palpites calorosos, as discussões fervorosas, e, o melhor, a vontade de ter um grande carnaval fica no ar. Vamos nos concentrar na curiosidade que traz tantos troca-troca e imaginar que em 2010 o carnaval resgate seu brilho, que anda meio lusco-fusco. O sabor até muda de amargo para doce, pensando assim. Eu ainda tenho esperança...
E por falar em gosto amargo, lembrei-me de chocolate; e lembrando-me de chocolate, eu desejo a todos vocês uma excelente Semana Santa e uma feliz Páscoa!
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Bem vindos
Quero dizer que me sinto muito honrada em fazer parte de uma equipe tão querida e de talento ímpar. Digo isso por todos que já trabalhavam aqui, e agora pela chegada de Anderson Baltar e Walter Nicolau, dois profundos conhecedores do nosso samba e do nosso carnaval.
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Conte a sua história:
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Cinema e Carnaval: parceria de sucesso
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 15/01/2009 01:02
Em 2009, faz 50 anos que o filme "Orfeu do Carnaval (Orfeu Negro)", dirigido pelo francês Marceu Camus, conquistou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro. A história tem como personagem principal Orfeu, um condutor de bonde e sambista carioca, que se apaixona por uma jovem chamada Eurídice, recém-chegada do interior, fugindo de um estranho fantasiado de Morte. O romance dos dois desperta ciúmes em Mira, ex-noiva de Orfeu. Esse fio condutor serve para passearmos pelo universo dos personagens, que é contado em pleno carnaval.
Dos ensaios ao desfile, "Orfeu do Carnaval" registrou um carnaval que não conhecemos mais, e um Rio de Janeiro ainda tranquilo, no ritmo dos bondes. É lindo observar cada detalhe, principalmente pra quem não teve o prazer de ter vivido naquela época.
Trechos do filme no YouTube:
O filme ganhou vários prêmios além deste, e também continuou sendo lembrado por outros anos, como em 1983 pela G.R.E.S. Estácio de Sá.
Orfeu do Carnaval
No verso apaixonado de Orfeu
Reina uma mulher somente sua
Por este amor maior que o envolveu
Enlouqueceu e vagou pela rua
No amor ferido de Aristeu
E o feitiço de Mira
A amante abandonada
A dama negra a ele apareceu
Levando para sempre a sua amada
O morro emudeceu
Explode a dor no peito de Orfeu
E o poeta apaixonado
Canta ao céu desesperado
O grande amor que perdeu
(Oh! Lua)
Lua, oh! Lua
Musa amada, branca e nua
Quero lhe beijar e lhe dizer: Sou seu
E você dizer sou toda sua
Desceu do morro
Enfeitou sua tristeza
Fez seu reino de beleza
Das mágoas do seu coração
E este menestrel moderno
Procura até no inferno
A voz de sua razão
(e vai)
Vai aos orixás do Candomblé
Demonstrando sua fé
Cai na orgia
Porém nada mas fascina
Ao Pierrô sem Colombina
Na sua alucinação
Morreu Orfeu
Vencido pelo mal
Mas há sempre
Um Orfeu no carnaval
Há dez anos, o fime foi novamente filmado, mas com elementos atuais. A história do casal começa num sábado de Carnaval. O mais famoso compositor dos morros do Rio de Janeiro, líder da favela onde mora e também de sua Escola de Samba, a Unidos da Carioca, Orfeu trabalha nos últimos preparativos para o desfile, quando conhece Eurídice, recém-chegada à cidade em busca de uma tia. Os dois se apaixonam, provocando o ciúme e a violência de alguns. O casal decide deixar o morro assim que o Carnaval terminar e, longe dali, viverem felizes para sempre. Uma típica história romântica, não fosse o grande desastre na noite do grande desfile no Sambódromo. Enquanto Orfeu irradiante brilha à frente de sua Escola, cantando mais um samba de sua autoria, sua amada é vítima de uma bala perdida de Lucinho, amigo de infância de Orfeu e chefe do tráfico de drogas naquele morro. Desesperado, Orfeu se vinga de Lucinho e parte em busca de sua amada desaparecida, a fim de levá-la de volta ao morro. A dor de Orfeu só faz aumentar os ciúmes de Mira, de Carmem e de todas as mulheres do morro que já foram suas namoradas. Enlouquecido de paixão, Orfeu é morto na Quarta-feira de Cinzas, no justo momento em que a televisão anuncia a vitória da Unidos da Carioca no desfile de Carnaval pelo terceiro ano consecutivo.
Por meio dos dois filmes, conseguimos, comparando as épocas, observar não só a evolução do carnaval carioca, mas também a da violência urbana que assola nossa cidade.
* * *
A partir do próximo sábado, estarei no Instituto do Carnaval, da Universidade Estácio de Sá, na Praça XI, ministrando o curso de férias chamado "Cinema e Carnaval". Mostrarei um pouco desses dois mundos que desde 1908, data do primeiro registro em película do carnaval brasileiro, começaram a andar bem próximos, tornando nossas telas mais alegres e coloridas, mesmo ainda na época da imagem em preto e branco.
Já escrevi neste espaço, meses atrás, sobre cinema brasileiro e carnaval. Numa breve recapitulação, podemos dizer que a chanchada teve a sua quarta-feira de cinzas. No fim da década de 50 e ínicio da década de 60, o carnaval brasileiro passou a ser retratado de forma mais realista pelos cinemanovistas, nos brindando com belas obras também.
Considerado o precursor do Cinema Novo, o filme "Rio 40º", de Nelson Pereira dos Santos, mostra o cotidiano carioca através de um olhar neo-realista. A música "A voz do morro" de Zé Kéti (ele também participou do elenco) fecha com chave de ouro o filme e essa coluna.
A Voz do Morro na voz de Luiz Melodia:
A voz do morro
(Ze Keti)
Eu sou o samba
A voz do morro
sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo
que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro
Eu sou o samba
Sou natural daqui
do Rio de Janeiro
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões de corações
brasileiros
Salve o samba, queremos samba
Quem está pedindo
é a voz do povo de um país
Salve o samba, queremos samba
Essa melodia de um Brasil feliz
Eu sou o samba
A voz do morro
sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo
que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro
Eu sou o samba
Sou natural daqui
do Rio de Janeiro
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões de corações
brasileiros
Da Cidade do Samba à cidade que 'samba' para fazer carnaval
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 29/11/2008 01:13

Lembro como se fosse hoje: no dia 17 de setembro de 2005, com minha câmera digital, registrei a transferência das escolas de samba do Grupo Especial dos armazéns do Cais do Porto para a sonhada Cidade do Samba, na Gamboa, Zona Portuária do Rio. Nossa! Parecia que todos eram campeões! Que vitória!
Dos presentes: presidentes, dirigentes e carnavalescos fui colhendo alguns depoimentos, nos quais ressaltavam a esperança, a alegria, o entusiasmo, a felicidade do sonho realizado, ou seja, apenas pontos positivos com a mudança.
"Esse novo espaço que nós estamos tendo é o espaço que todo sambista planejava ter; é a glória do samba, é tudo aquilo de que o samba precisava e necessitava." - Aniz Abrahão David
"Hoje é um dia muito importante para as escolas de samba? Começamos a fazer alegoria debaixo dos viadutos, e hoje pra nós isso aqui é um sonho." - Fernando Horta

"O mais importante é a gente poder trabalhar num lugar que tenha uma infra-estrutura que se possa executar o trabalho? Porque você trabalhar naqueles barracões que a gente vinha trabalhando, que não tem o mínimo de higiene? Muita coisa se perde dentro dele, muita coisa não é executável por causa da própria altura? Aqui a gente consegue montar alegoria inteira, administrar o barracão, ter limpeza, consegue dar melhores condições de trabalho a todos os funcionários, receber a própria imprensa, enfim, é tudo de perfeito que a gente sempre sonhou." - Paulo Barros
E lá foram os carros alegóricos, apenas nas ferragens ou cobertos por enormes plásticos, passeando em meio ao trânsito da cidade, anunciando a mudança. A primeira a chegar foi a Beija-Flor, pois era a campeã do ano na época. Logo após sua entrada, começou a queima de fogos. Foi um momento emocionante. E, sem dúvida, um marco para o nosso carnaval. Outras escolas chegando - e, aos poucos, aqueles enormes espaços vazios foram preenchidos, ganhando vida.
Ainda com muita obra por fazer, já podíamos vislumbrar seu futuro: com muitos shows e oportunidades de trabalho. Um sonho realizado por meio da parceria entre Liesa e a Prefeitura do Rio de Janeiro.
No entanto, não posso deixar de registrar o seguinte comentário: como sentir-se realizado e feliz se outras tantas agremiações continuam em barracões cujo estado é lastimável? O que há de errado com o carnaval do Acesso que não consegue também uma Cidade do Samba? Não me refiro ao excelente trabalho da Liesa, mas da Prefeitura em relação as outras escolas de outros grupos.
O Presidente da Lesga, Reginaldo Gomes, procurado por mim, deu a seguinte declaração: "É um sonho antigo dos sambistas das escolas do Grupo de Acesso ter também uma Cidade do Samba. Existe um projeto, que será encaminhado à Prefeitura, de construir a Cidade do Samba II, ao lado da quadra da São Clemente, ou talvez na aréa onde se concentram algumas escolas, no Carandiru (assim chamado por fazer alusão ao presídio cujas condições de trabalho são sub-humanas). Seria para as escolas do A e do antigo B (hoje Rio de Janeiro I) , que desfilam no centro do Rio. Para as escolas que desfilam em Campinho, entretanto, o problema persistiria, pois se apresentam num local muito afastado do Centro. Certamente, faz diferença um local com mais segurança, estrutura apropriada, sem precisar de adaptações. Não se enfrentaria mais o problema da chuva - problema que já destruiu tantos carnavais... Enfim, estamos trabalhando para que esse sonho venha a tornar-se realidade, como em Cabo Frio, que ergueu a sua Morada do Samba."
A alternativa, muitas vezes, para essas pessoas que não querem trabalhar em ambientes nada propícios é fazer de suas casas um grande ateliê. Muitas alas que apreciamos na avenida não saem de barracões, e sim da casa das pessoas que amam e vivem do carnaval.
A varanda vira o local da costura, na garagem monta-se a fantasia, na cozinha guarda-se o que já está pronto, e assim vai surgindo um carnaval nada famoso, mas que faz a alegria da mesma forma. Muitos dizem ser até mais prazeroso ter participado de tão perto da criação; dizem que dessa forma se tem uma certa liberdade de horário que os barracões não permitem. Será? E o incômodo de ter a própria casa pelo avesso, com um entra e sai sem fim?
A verdade é que tem que ser muito "artista" nos Grupos de Acesso para colocar um carnaval na rua. Improvisa-se aqui e ali, tira-se da cabeça o que o bolso não dá. Mas o mais importante para quem trabalha com o carnaval é conseguir sempre ter seu espaço, não importa se é na Cidade do Samba ou nessa outra cidade, menos glamourosa, onde se tem que "sambar" para fazer carnaval.
Fotos da transferência das escolas para Cidade do Samba (Fotos extraídas do documentário de Thatiana Pagung: "Do Barracão à Apoteose, 80 minutos de emoção"):
















Quando os EUA se parecem com o Brasil
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 27/10/2008 23:47
Um dos mais repetidos ataques ao carnaval brasileiro é aquele que prega a impertinência de investir quantias consideráveis em sua realização quando milhares de pessoas carecem de necessidades básicas. O carnaval, segundo essa linha, seria uma maneira de distrair o povo de seus reais problemas, aliená-lo do mundo à sua volta, o mesmo mundo que lhe cobra, no resto do ano, um preço alto para deixá-lo sobreviver. O argumento do pão e circo é simplório porque não leva em conta a importância dos rituais festivos na sociedade, quero dizer, em qualquer sociedade do mundo; e porque, no próprio campo econômico, ignora o retorno financeiro e social que o setor de entretenimento traz a reboque, com a geração de empregos diretos e indiretos.
Nos Estados Unidos, de onde cheguei há pouco tempo, a crise econômica deixava apreensiva a sociedade americana. Não somente jornais, rádio, televisão - mas a população, que teme os efeitos que se anunciam da queda das bolsas. Mesmo assim, no centro do capitalismo mundial, houve carnaval. E que carnaval, do qual tive orgulho de participar, ao lado de Alex de Oliveira!
Encontrei pessoas que queriam apenas externar uma alegria. Pessoas que, por pressão da sociedade em que vivem, não conseguem fazer isso em seu dia-a-dia. Parece estranho: para eles, pelo pouco que vi, não é nem um pouco fácil ser como são, e sim, como têm que ser. O olhar das pessoas, na maioria das vezes, é de fora para dentro. No workshop que ministrei sobre samba para algumas americanas um dia antes do desfile, procurei mostrar ao máximo esse inverso, explorando um outro ângulo, uma forma de olhar de dentro para fora, deixando fluir os sentimentos bons. Falei sobre nossa cultura, sobre a nossa história, e pude perceber nos olhares o encantamento pelo nosso Brasil.
A sensação de participar do carnaval em Long Beach foi de estar em um ensaio de rua, fantasiada, com uma multidão vibrando. Sem regras e julgamentos, sambamos e brincamos carnaval, como na época da Avenida Rio Branco. Foi divertido. Carnaval com samba será bom sempre, em qualquer lugar do mundo. O carnaval em Long Beach é sinônimo do desfile da escola de samba Sambalá, pois é através dela que caímos na folia. Eu e o Alex brincamos pela escola inteira; ora ficávamos à frente, ora perto da bateria.
Depois de desfilar, a saudade de casa aumenta. Só pensava nas finais de samba por aqui. Voltei a tempo, ainda bem. Algumas agremiações já começaram a escolher seus hinos para 2009. Tenho acompanhado todas as disputas, mas, pelo que vejo, o que escrevi em minha coluna sobre "Queremos samba com ou sem neon" está começando a acontecer? Ou seja, nem todo mundo sai satisfeito com o resultado.
Independentemente de quem seja o campeão, o torcedor que é torcedor sacode a poeira e dá a volta por cima, pois o importante será a união. Só assim se vence algo que é feito por muitas pessoas em conjunto. Se ganhou um samba que não era do agrado, fazer o quê? Mudar de agremiação? Não, o jeito é aprender - e, de tanto cantar, acaba-se gostando dele também.
Bom, pelo menos nisso os EUA não se parecem com o Brasil: é um samba só e chega! Brincadeiras à parte, claro que não dá para comparar, mas, em matéria de emoção, até em Long Beach vi pessoas emocionadas quando o desfile começou. Pode ser no Brasil ou fora dele, o nosso samba e nosso carnaval são únicos, e quando a pessoa se entrega, ah, aí se apaixona e começa a querer de alguma forma participar.
Enfim, a crise econômica não tem bandeira, atinge todos os setores da sociedade. A indústria do carnaval, também já começa a sentir e ser penalizada com esse impacto, pois o luxo sai caro. Agora podem responder: quem vai pensar na crise do dólar na hora em que seu samba preferido tocar? Ou no momento do desfile? Pois é, se nos EUA, com a crise, aconteceu o carnaval, e bem feito, nós é que não vamos deixar de brincar o nosso, concorda?
E que venham os hinos para 2009, porque, bons ou ruins, no coração do sambista, sempre cabe mais um. Até o filho feio tem vez!
Carnaval nos Estados Unidos
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 03/10/2008 09:38
Fui a Rainha do Carnaval e Alex de Oliveira, o Rei Momo, em Long Beach, nos Estados Unidos. Recebemos a chave da cidade, e oficialmente abrimos o carnaval, que aconteceu dia 28 de setembro, com a escola de Samba Sambala.
Queremos samba com ou sem neon
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 25/09/2008 21:20
Nestas semanas e até meados de outubro, os amantes do carnaval têm como atividade principal acompanhar as eliminatórias de samba-enredo. Como falei em outra coluna, é uma época quente, onde a emoção fica à flor da pele. Quem não quer ver o seu samba na boca do povo, tocando nas rádios antes do carnaval, cantado pela escola na Marquês de Sapucaí? Qual o pai que vai achar o filho feio? Todos acreditam ter a melhor obra, claro, e, como bons políticos, distribuem seus santinhos, com o objetivo de formar uma legião de seguidores, que muitas vezes enxergam apenas a parceria e não a obra. Acostumam o ouvido naquele samba; e não adianta pedir que ouçam outros, porque seria como se estivessem cometendo uma traição.
Alguns podem achar que estou exagerando. No entanto, existem algumas pessoas que se dizem sambistas, mas que pensam mais em si do que na própria agremiação. Não admitem que outra parceria consiga criar uma obra superior e vencer. É verdade que cada agremiação tem seu critério de escolha - o qual, temos de admitir, nem sempre premia o melhor. Bom, isso já é outro assunto?
Sempre que posso, acompanho os comentários dos internautas, pois os verdadeiros sambistas que por aqui aparecem nos brindam com excelentes textos e idéias. Dois internautas me chamaram atenção, há algum tempo, por seus comentários indignados em relação a matéria "O preço da gravação de um samba". Infelizmente, como vocês já leram aqui anteriormente, em um texto postado pela equipe do SRZD-Carnavalesco, o verdadeiro sambista perdeu mais um espaço para comentários, devido ao fato de os falsos sambistas usarem o site para ofender pessoas. Por isso, todos os comentários foram retirados do ar, inclusive os bons. Agora, apenas alguns textos podem ser comentados, e com moderação. Por sorte, consegui salvar alguns comentários interessantes postados no tópico da matéria que desagradou a alguns.
Os internautas que me refiro postam com pseudônimos de Paul e Donga. Agradeço em nome da equipe as discussões saudáveis que abrem no espaço, assim como outros verdadeiros sambistas e amantes do carnaval.
Os comentários que me chamaram mais atenção foram:
"Postado por:Paul | 09/09/2008 15:31:54
Que reflexão deve se ter sobre a importância do samba? Quando que o samba deixou de ser prioridade? Como? Onde? A que horas? Então, porque este tópico? O que faz a ala de compositores? O que é a ala de compositores? O que é um samba para uma escola de samba? O que é a ala de compositores de uma Portela, por exemplo? Estamos todos nós brincando de gostar de samba? Estamos todos nós não torcendo por nenhum samba em qualquer escola de samba? São todos os sambas de qualquer agremiação, sofrível? Estamos achando que o samba morreu? Ora,ora, vamos deixar de balelas. Se o cara quer ser profissional, ter que ter custos, investir, entrar no jogo, ou então fique em casa, esperando o tempo passar. Pessoas partem da prerrogativa de que todos os presidentes são passíveis de suspeição até que se prove ao contrário; é claro que tem escolas que se portam meio duvidosamente no resultado final, mas o que não se pode, é achar que todos os dirigentes usam do mesmo preceito. Entramos num momento em dizer que a safra está ruim, sofrível, péssima. Qual é??????? Se o samba morreu, porque então nos mobilizamos tanto? Tem pessoas que ainda pensam que o nosso carnaval deve ter a performance dos anos 70 e acham que o que é feito hoje é horrível, sem emoção, sem objetivos e com várias armações. Cada uma.
Postado por:donga | 09/09/2008 17:54:39
A então quer dizer que o samba continua sendo prioridade nas escolas ? É mesmo, diz aí um grande compositor revelado por uma escola de samba nos últimos 10 anosi ? diz aí um grande samba-enredo que tá no boca do povo surgido nos últimos anos ? Pois é, falácia é ficar de boca calada quando se pergunta coisas simples como essa. Pssssiiiiiuuuu, silêncio, porque não tem o que falar. As escolas de samba vivem da glória do passado, daquilo que aconteceu nos anos 70 por exemplo, só pra não fugir da idéia dos companheiros abaixo. É uma tradição carioca que continua arraigada em nós, por isso continuamos acompanhando e torcendo pro engrandecimento do samba e a crítica acontece porque sabemos que se pode ter um espetáculo como se tem hoje com grandes sambas, ninguém aqui é Pamplona pra ficar discutindo o que é tema ou enredo. O que muitos aqui querem é um bom samba e ninguém tá indo contra os profissionais, até porque nos 70, 80, aliás muita gente dos anos 60 tá aí ganhando a vida com o samba, muitos longe das escolas que se resumiram ao carnaval. Mas ganham dinheiro na Lapa, no Cacique (Nova morada do samba). Aliás, sugiro pra esses defensores e baba-ovo de liesas e afins que leiem a letra desse samba cantado pelo Fundo de Quitnal que nos anos 80, senão me engano já dizia que "o samba hoje tem nova morada". Saudosista é o c.... Queremos é samba com ou sem neon, o problema não é o Neon, mas a falta de samba. Mas como o samba há muito, deixou de ser prioridade em Escola de samba, tá valendo."
Pensando nesse assunto, perguntei-me: será que sempre foi assim? Será que, para ganhar samba-enredo nas décadas anteriores, precisava-se de tanta torcida, de tantos efeitos tecnológicos na gravação de divulgação, de tanto dinheiro, ou apenas a obra pela obra já bastava?
Lendo todos esses questionamentos, convidei um grande amigo para uma conversa. Com quase 50 anos de Mocidade Independente, e com quase 40 anos como compositor, Tiãozinho da Mocidade foi campeão de 5 sambas-enredo, em 83, 85, 86, 90 e 91. Hoje integra a nossa querida Velha-Guarda. Sempre sorridente, contou um pouco sobre o que pensa a respeito. Abaixo, trechos da conversa:
"Os compositores começaram a enfeitar muito. Foi ficando interessante, mas, acabaram com o tempo, fazendo com que se prestasse mais atenção no enfeite. Muita parceria que não tinha condições de enfeitar, com o tempo, suas obras não impressionavam mais os jurados. Gravávamos as fitas para divulgar sim, mas era um carinho com o samba, além de que ainda não influenciava para vencer. A obra pela obra era o mais importante. Eu cantava meus sambas. O mundo evoluiu, mudou, e as pessoas não aceitam mais o simples, e como falei, foram enfeitando, colocaram grandes intérpretes para defender na quadra, e hoje, se alguém que não tenha o vozeirão esperado cantar, nem prestam atenção no samba, já julgam que ele não seja bom. Isso é um equívoco.
Pra ganhar se apela pra tudo. A escola que deveria tomar uma atitude, mas isso não acontece, e as pessoas mais humildes ficam de fora. Muitas dessas pessoas, são ótimos compositores. A minha torcida era composta pelos próprios frequentadores da escola, moradores de Padre Miguel, e não de outra comunidade como fazem hoje.
A mídia também não divulga mais o samba-enredo como antes, porque, por pior que seja a obra, as pessoas lembrariam mais. Todo mundo aprende funk, porque toca. Na minha época os sambas tocavam nas rádios, não apenas durante o carnaval. Com isso, sempre acabava caindo na boca do povo, muitas vezes até, no gosto das torcidas de futebol, que cantavam nos estádios, como por exemplo o meu samba de 86 ?pode rogar praga em minha sorte??. Era uma felicidade muito grande. Mas hoje, no baile de carnaval toca-se funk. É muito triste isso.
O bom é que no coração do carioca, o samba tem seu espaço. Pode estar tocando mais aqui, daqui a pouco mais ali, mas sempre estará tocando. Eu observo o modismo das feijoadas nas quadras. Seria uma grande oportunidade de se tocar sambas antigos, mas não, samba-enredo só no fim do dia com a apresentação da bateria. Durante o dia um grupo de pagode ou outra coisa.
Hoje não tem mais ala de compositores, desculpa. Tem uns que ainda tentam sobreviver. Isso porque hoje a vontade de ganhar dinheiro é maior do que a vontade de se ganhar samba. Na minha época fiz dois anos de estágio para conseguir estar apto à entrar para a ala de compositores. Ficávamos fazendo todo ano samba de quadra, até cair no gosto do povo. A partir daí, estávamos pronto. Hoje qualquer um entra pra ala, e se torna compositor de escola de samba. Não quero fazer protesto, mas ?escritório? hoje é uma realidade.
Sei que o samba evoluiu, não sou contra a nada, mas problemas vieram a partir disso. O dinheiro muda as intenções, é triste ver a cultura se perdendo. Em várias agremiações podemos ver batuqueiros e compositores que não são daquela escola em que se encontram. Tem compositor que vence em várias escolas, como pode? Não é que o samba não seja mais prioridade, não está sendo no momento. Há mais um grande equívoco. Outros setores e figuras na escola estão sendo mais importantes.
Acredito que o povo tenha que ter voz também na escolha de seu samba. O samba bom é o que o povo canta. O que é bom fica no ouvido, não adianta. Só cantando o lá laiá já é bom. A idéia da disputa está roubando a alegria do carnaval, e carnaval é alegria."
Com muitos anos de história de experiência, Tiãozinho da Mocidade veio reforçar os comentários dos amigos internautas, Paul e Donga.
A frase que fica para reflexão é a do amigo internauta Donga:"Queremos é samba com ou sem neon, o problema não é o Neon, mas a falta de samba".
* Estou indo novamente para Los Angeles. Domingo, dia 28 de setembro, estarei ao lado de meu amigo Alex de Oliveira, Rei Momo Carioca, desfilando em Long Beach, pela Escola de Samba Sambalá. Vai ser uma emoção diferente, acredito. Retorno para as finais de samba, porque como boa sambista, não poderia perder, não é mesmo?




















