Paixão e fé na estrela guia de Padre Miguel
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 06/07/2009 00:19
Esta semana eu tive a honra de receber a história de uma amiga que é Mocidade de coração. Grande artista, ela tem um carisma sem igual. Dill Costa narra um fato ocorrido com a escola no ano de 2003.
"Querida amiga Thatiana,
Quero expressar aqui a minha admiração por você e pelo seu trabalho, que tem sido de uma qualidade ímpar!
Também gostaria de relatar a minha pequena história que denomino "Paixão e fé na estrela guia de Padre Miguel".
Carnaval 2003, enredo: "Para Sempre Em Seu Coração, O Carnaval da Doação" - Carnavalesco Chico Spinosa Assistentes: Sergio Marimba e equipe / Samuel Abrantes e equipe no atelier
Já eram lá pelas 2h da tarde quando saí do barracão da Praça Onze. Quando estava caminhando na armação da escola, a Avenida Presidente Vargas, para rever todos os carros e levar um presente e deixá-lo no meu carro favorito.
Quando Sergio Marimba (Artista plástico, carnavalesco e responsável pelos carros em ferro) e sua equipe terminavam de acertar os detalhes na armação, fui até o carro de São Cosme e Damião para dar uma última olhada e colocar nele uma rosa branca e um saquinho de doces bem escondidinhos. Foi quando deparei com pessoas rezando em frente à imagem dos Santos(doutores e gêmeos). A galera atravessava a
Avenida Presidente Vargas, vindo lá da Central Do Brasil, para ver o Carro dos Santos da Mocidade.
Aquilo foi emocionante para mim,um dos trabalhos mais bonitos criado por Chico e Marimba. Naquele momento, eu também rezei: pedi a Cosme e Damião que iluminasse a minha escola - e chorei!... Valeu pelo carnaval!
Estava cansada de ouvir as pessoas comentando que a Mocidade estava tão pobre, que levaria carros feios e no ferro para a avenida!
Muitos podem não ter gostado daquele desfile, mas era uma emoção tão grande que envolvia cada componente, como se todos estivessem rasgando o próprio peito, doando o próprio coração, para fazer aquele desfile acontecer!
A galera chorava quando entrava na avenida! Eu quase tive um troço naquela comissão de frente!
Pura Paixão e Fé!...
TE AMO, MINHA MOCIDADE!!!
Dill Costa".
Esta história mostra que a emoção que envolve os componentes que desfilam em sua escola de coração independe da qualidade da apresentação e da possibilidade de a agremiação ser campeã. São nos pequenos detalhes, e não em sua dimensão feérica, luxuosa, rica, que a paixão pelo carnaval se revela em sua plenitude. Foi com este objetivo que abri em minha coluna o espaço para que os verdadeiros amantes do carnaval se manifestem.
Vamos rever um pouquinho do desfile da Mocidade de 2003:
Quem quiser também contar a sua história é só mandar um email para thati@thatianapagung.com.br
Thatiana Pagung comenta sorteio da ordem de desfile
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 30/06/2009 16:57
Até 83, ninguém falava em pares, em preferência de dia; ninguém se ocupava em saber se a escola que desfila segunda tem mais probabilidades de ser campeã. Ninguém falava nisso porque isso, simplesmente, não existia - as escolas desfilavam num único dia, o Domingo de Carnaval que se prolongava de maneira deliciosa até a tarde de segunda-feira sem que houvesse reclamação de atrasos, cansaços, sol e chuva.
Hoje, depois do carnaval, o sorteio da ordem de desfile é o segundo evento mais importante do universo do carnaval - o primeiro, para mim, é a escolha do samba, mas sei que muitos acham que este momento que viveremos na terça está um degrau acima das finais de samba-enredo. É com base no dia e na ordem da apresentação que as escolas se planejam para o carnaval. E isso interfere até no estilo do samba que deve ser escolhido.
Alberto João me pede que escreva uma ordem de minha preferência. A minha está abaixo, mas é só um palpite, sem qualquer critério objetivo a não ser a vontade de ver a Sapucaí lotada e emocionada durante os dois dias. Não dá para advinhar o que vai acontecer na Cidade do Samba. Mas dá para saber que, na manhã de quarta-feira, muitas expectativas e muitas angústias estarão criadas - e só oito meses depois, quase uma gestação completa, saberemos se as expectativas serão correspondidas e as angústias, aplacadas.
Quanto ao sorteio, acho q não deveria haver nada dirigido, pois todas escolas q estão no Especial possuem capacidade de desfilar em qualquer dia ou posição, sem cair o nível ou volume de desfile. Quanto ao estigma de ser a 1ª de domingo, não vejo problema na posição; mas nos jurados q ainda teimam em "segurar" notas 10 à 1a escola. Nada q um bom bate-papo ou encontro para q este assunto seja debatido ao resolva.
Palpites:
Domingo
União da Ilha
Grande
Rio
Salgueiro
Tijuca
Viradouro
Mangueira
Segunda
Mocidade
Porto
da Pedra
Portela
Imperatriz
Vila Isabel
Beija-Flor
Oferendas
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 15/06/2009 16:31
A história desta semana é a de um torcedor da Mocidade Independente. Luiz Carlos Severo narra um acontecimento às vésperas do carnaval de 76 mostrando, com muito humor, o envolvimento da religiosidade com o samba.
"À minha Rainha :
Envio a história abaixo, sem qualquer compromisso, para você avaliar se tem interesse e espaço para publicação no site.
A personagem principal é a saudosa e folclórica baiana Tia Chica, responsável pelas festividades religiosas ligadas ao samba, naquela época em que comemorávamos com muito entusiasmo as datas festivas dos santos de nossa Fé.
Tia Chica vem a ser mãe da competente e atuante baiana Bibiana e do também folclórico, polêmico, saudoso e competente ritmista Fumão, cujo boato da sua morte ocorreu pelo menos 4 vezes, nos seus 5 últimos anos de existência... o cara aprontava todas no bom sentido!!!"
Eis a história :
No carnaval de 75 a Mocidade recebeu vários prêmios, elogios, estandarte de ouro em enredo e fantasia ,,,,,, A escola estava bombando e a expectativa para 76 era muito grande .
Não tínhamos problemas financeiros, porém havia muita negatividade: confusões no barracão, intrigas nos bastidores, chiadeiras de compositores, problemas nos ensaios, brigas internas... a urucubaca era geral!!! Daí, espontaneamente, a nossa saudosa Tia Chica se inspirou para fazer um trabalho espiritual!!! Procuramos o também saudoso e generoso Dr. Castor, que por via das dúvidas, como fazia rotineiramente, abriu a bolsa, proporcionando uma imensa oferta de oferendas e rufar de tambores em Padre. Miguel, culminando com uma lavagem na quadra, onde foi utilizado 7 vassouras, 7 rodos virgens, 7 baldes virgens, 7 kilos de sabão, 7 kilos de sal grosso,70 molhes de ervas especiais, 700 litros de água que foram utilizados por 7 homens com o corpo limpo(sem relação sexual por 7 dias) .
Logo após a lavagem da quadra o clima melhorou em 100 % : os compositores perdedores se acalmaram, a produção no barracão alavancou, os ensaios eram um sucesso, os críticos viraram colaboradores, a imprensa dedicou mais espaço... etc.
O Dr. Castor ficou impressionadíssimo e mandou reformar o centro da Tia Chica, sem falar nos outros agrado. O homem sabia ser generoso, e o natal dos envolvidos e de outros bicões nesse processo nunca foi tão farto.
Veio o carnaval e a Mocidade desfilou com muita competência e glamour, ficando em 2º lugar; o explosivo Fumão não se conformou e aladeou que dois dos sete homens que lavaram a quadra tinham namorado no último dia.
E o que é pior... bem, paro por aqui porque desses 7 há ainda quem esteja está vivo, e o negócio pode acabar comprometendo.
Beijo do seu súdito... Severo."
Lendo esse email, lembrei que a Mocidade nesse ano havia tirado não o segundo, mas o terceiro lugar e perguntei ao Severo: "Você está falando o ano certo, porque em 76 a Mocidade ficou em terceiro?". Ao que ele respondeu:
"Oficialmente ficamos em 3º, porque empatamos em 2º com a Mangueira, perdendo no quesito de desempate. Moralmente ficamos em 2º, isso é mais uma polêmica dos desfiles, pois o quesito de desempate era BATERIA e nessa época, minha rainha, não tinha pra ninguém!!! Pois nenhuma escola havia copiado a graça da paradinha, não conhecia a baqueta sextavada nos tamborins(amplia o som da batida, inventada pelo canhoteiro). Tinha de respeitar a bossa na marcação do nosso surdo de 3ª (criada pelo grande Miquimba), que dava aquele balanço no andamento/compasso.
É por isso que a Mocidade nunca desce. Somos celeiro de sambistas tradicionais, conseguimos casar o tradicional com a vanguarda, estamos numa crise momentânea , que já se prolongou demais e que, se Deus quiser, será superada no próximo desfile. Levo a maior fé
... Beijo/Severo."
Grande tia Chica, dizem que foi de seu terreiro que saiu o ritmo da Mocidade. Mestre André era o ogã do terreiro, tocava o atabaque.
Como também dizem que cada escola tem sua batida influenciada pela religião e por suas respectivas crenças, com a Mocidade não foi diferente, já que tia Chica trazia a herança de Angola.
A Mocidade em 1976 desfilou com um carnaval lindo, mas acabou em terceiro, com 116 pontos. Nesse ano o desfile foi na Presidente Vargas, na altura do Mangue, e a verde e branca de Padre Miguel desfilou com o enredo "Mãe Menininha do Gantois, do carnavalesco Arlindo Rodrigues. Há um detalhe nesse desfile que escapou à observação do Severo: os componentes da bateria desfilaram com a cabeça raspada, num dos momentos mais marcantes da história do carnaval. Foi também um trabalho espiritual.
Mas Severo: nem tia Chica, com toda sua crença e devoção aos santos, nem as cabeças raspadas poderiam prever o que aconteceria no carnaval de 1976.
Joãozinho Trinta, que no ano anterior havia sido campeão pelo Salgueiro, com um enredo original, "As minas do rei Salomão", acabara de estrear na Beija-Flor, deixando de lado a estética que a azul e branca de Nilópolis vinha desenvolvendo em cima de enredos ufanistas, desfilando com um enredo sobre o jogo do bicho, "Sonhar com rei dá leão", inaugurando uma nova era nas escolas de samba, a era das superproduções das escolas, com gigantismo, luxo e exuberância visual.
O desfile tornara-se um grande espetáculo. Realmente seria difícil vencer a Beija-Flor , já que após esse grandioso desfile, a escola de Nilópolis tornara-se parâmetro de estética visual para as outras.
O bom foi que não demorou muito para a Mocidade se adaptar à nova estética, vencendo três anos depois, em 1979.
No YouTube, eu consegui encontrar um trechinho do desfile da Mocidade e do samba da Beija-Flor em 1976:
Continuem mandando suas histórias para thati@thatianapagung.com.br
Superstições
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 04/06/2009 00:36
Esta semana a história que uma leitora mandou traz muito humor - e também superstições! Não é todo mundo que desfila pela primeira vez na escola do coração e sai campeão da avenida, não é mesmo? Dá vontade de fazer tudo igualzinho no ano seguinte, para ver se a sorte se repete. Será?
Por Raiane Carné
"Aí vai minha história do carnaval de 2005, em que desfilei pela comunidade da Beija-Flor, minha escola!
Cheguei à concentração toda serelepe, pomposa, pois seria o primeiro ano em que eu desfilaria em um carro alegórico, portanto cheguei até meia hora antes do horário marcado. Fiquei horas esperando até poder subir na alegoria, que era o último carro do desfile; durante esse tempo, ficávamos conversando e ensaiando a coreografia!
O carro possuia três níveis e logo assim que a Grande Rio, escola anterior à Beija-Flor naquele ano, acabou seu desfile, a galera que ficava no nível 3 e no nível 2 subiu. O pessoal da coreografia, que junto comigo ficava no nível 1, não precisava do Carvalhão para subir, então o nosso diretor nos falou: "Quando o Roda Moinho começar a rodar, caindo água, vocês sobem! Esse é o sinal!!!" O carro possuía um roda moinho em cada lateral, e enquanto o roda moinho era ligado, ficamos conversando no chão mesmo.
O tempo passava e nada de os carros ligarem, pois estava rolando a gravação da novela 'Senhora do Destino', o que atrasou muito a Beija-Flor naquele ano. O pessoal dos níveis de cima reclamava o tempo todo de fome e queriam ir ao banheiro! Realmente, eles queriam ir ao banheiro!!!
Estávamos esperando encostados na alegoria, quando de repente sentimos uma água caindo na gente!!! Nos olhamos com cara de desespero e pensei: "É agora! O roda moinho ligou!!!" Mas olhei para ele e vi que estava parado! Quando olho para cima, vi que era uma mulher fazendo xixi em cima da gente!!! O xixi batia em uma parte da alegoria e respingava na nossa cabeça!!! Sem contar que a cena foi algo bizarro, pois a mulher estava com um vestido imenso daqueles de época levantado, com o bumbum de fora, virado pra gente! Muito engraçado!
Claro que ela foi "zuada" do inicio ao fim, foi chamada de "mijona" e outros adjetivos. Nunca esperava que isso pudesse acontecer, mas acho que o xixi na cabeça deu sorte, pois ganhamos o carnaval esse ano! Pior é: se essa moda pegar e isso vira superstição! rs
Beijos!
Rai"
Realmente Rai, imagine se a moda pega? Todos querendo receber xixi na cabeça para ser campeões? Seria hilário! Acredito que cada um tenha a sua superstição, mas essa, eu acredito que não seja!
A minha é bem simples: olho para o meu tubo de luz, e imagino uma luz vindo do céu, que penetra em mim até os pés e sobe em espiral, no sentido horário, envolvendo todo meu corpo, me protegendo. Na verdade, faço isso sempre antes de sair de casa, todos os dias, e na avenida antes do desfile eu apenas reforço. Agora, sei de pessoas que querem usar a mesma cueca, o mesmo perfume, possuem um amuleto, ou apenas rezam. Enfim, muitas pessoas têm as suas superstições, e cada um de um jeito.
E você amigo leitor, tem alguma superstição?
Continuem mandando suas histórias para thati@thatianapagung.com.br e vamos assistir um pouquinho da Beija-Flor, campeã de 2005:
É campeã! É campeã!
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 25/05/2009 15:37
Quando abri espaço para o leitor mandar suas histórias de carnaval, eu confesso que esperava histórias mais engraçadas; mas, com o tempo, comecei a receber verdadeiras declarações de amor às agremiações, surpreendendo-me de forma positiva.
Na penúltima coluna, escrevi sobre a minha querida Mocidade Independente, e várias pessoas me disseram terem ficado emocionadas com o texto.
O texto a seguir também trata de um folião apaixonado, que cresceu dividido entre dois amores: Portela e União da Ilha, mostrando que não é ruim da cabeça nem doente do pé, pois cresceu ouvindo e admirando os bons sambas da tricolor da Ilha.
Por Pedro Bálaco
"Sempre fui portelense e morador do subúrbio carioca, porém cresci ouvindo os maiores sambas da União da Ilha: "É Hoje"; "Bom, Bonito e Barato"; "Domingo"; "Festa Profana"; "O Amanhã"; "De Bar em Bar, Didi um Poeta"; encantava-me também com as histórias dessa simpática escola. Mas antes do carnaval de 2001, eu fui morar na Ilha do Governador e passei a ter mais contato com a agremiação e a frequentar a quadra. Naquele ano a Ilha foi rebaixada após 27 anos no Grupo Especial. Será que eu tinha dado azar pra escola?
Passei mais alguns anos morando na Ilha, frequentando a quadra, mas sem desfilar, e nada da União subir. Sempre achei que deveria participar mais ativamente da União da Ilha e ajudá-la nesse momento difícil, mas não tive a oportunidade. Voltei a morar próximo à Madureira e ter mais contato com a Portela, indo a ensaios, desfiles, feijoadas, mas sem deixar de acompanhar a saga da Ilha no Grupo de Acesso A.
Trabalhando num barracão que faz fantasias para algumas escolas, incluindo Portela e Ilha, voltei a ter contato com a escola insulana e, em 2009, consegui uma vaga para desfilar pela primeira vez na União da Ilha. Agora eu via que estava contribuindo para o crescimento da escola e que poderia ter feito isso antes.
O grande momento havia chegado, era hora do desfile, encontrei alguns conhecidos como diretores de harmonia ou fantasiados como eu, todos estavam cheios de garra e prontos para mostrar novamente que aquela era a escola que mais levava alegria à Sapucaí.
Começou o esquenta...
Ainda na concentração eu só consegui cantar o primeiro verso: "A minha alegria atravessou o mar..." Algo me fazia chorar compulsivamente.
Quando minha ala deixou a Presidente Vargas e eu deparei com a Sapucaí do povão (era a primeira vez que eu desfilava no Acesso), parei de chorar e incorporei o folião insulano, responsável pela fama e pela simpatia daquela escola. Todos nós fazíamos questão de mostrar que sabíamos o samba do ano de cor. Cantávamos até o último andar de camarote ouvir nosso canto rouco.
Na dispersão eu não conseguia falar e vi que todos se abraçavam. Abracei meu irmão e meus amigos que me acompanharam aquele dia. Da Apoteose podíamos ouvir o som que vinha das arquibancadas populares: "É campeã! É campeã!"
Perdi a voz de novo na quarta de cinzas. A União da Ilha era finalmente bicampeã do Grupo de Acesso, e eu pude ter a certeza de que havia feito a minha parte. Esse título era dos insulanos. Esse título era meu!
Na despedida do carnaval, foliões lotaram a Avenida Rio Branco para a passagem do Monobloco no primeiro domingo da quaresma. Não se ouvia sambas do Salgueiro, campeão do Especial, não, o povo cantava os sambas da Ilha! Não era sonho, após o bloco passar, a multidão cantava: "Ôôôhhh a União voltoou! A União voltou! A União voltou! Ôôôhhh..." Nunca vi tanta alegria por uma escola que voltava do Grupo de Acesso. Foi de arrepiar!"
Então vamos assistir um pouquinho da União da Ilha 2009, campeã do Grupo de Acesso, que estará ano quem vem novamente entre as escolas do Grupo Especial:
Continuem mandando suas histórias para thati@thatianapagung.com.br
Em conjunto com os leitores, o conjunto
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 19/05/2009 11:28
À coleção ou grupo damos o nome de conjunto, e um conjunto para ser caracterizado tem que apresentar seus elementos. Da mesma forma, para esses elementos fazerem parte de um conjunto, eles tëm de ter algo em comum. Num conjunto de frutas, por exemplo, cada uma pode ter sua característica: laranja, abacaxi, pera. Mas todas serão frutas.
O dicionário diz:
1 aquilo que forma um todo:
- um conjunto de talheres
- um conjunto de textos
2 a totalidade de qualquer coisa:
- comprar o conjunto todo
3 grupo musical:
- um conjunto de rock
4 peças de roupa a condizer:
- vestir um conjunto
No manual do julgador da Liesa, encontram-se as seguintes palavras sobre o quesito conjunto:
Conjunto, em desfile de Escolas de Samba, é o "todo" do desfile, ou seja, a forma geral e integrada como a Escola se apresenta.
Para conceder notas de 07 a 10 pontos, o julgador deverá considerar:
· a uniformidade com que a escola se apresenta em todas as suas formas de expressão (musical, dramática, visual etc);
· o equilíbrio artístico do conjunto.
Não levar em consideração:
· a eventual presença de quaisquer animais vivos;
· a eventual pane no carro de som e/ou no sistema de sonorização da Passarela."
Na minha visão, este quesito é um dos mais difíceis, pois cabe ao julgador avaliar a escola em sua totalidade. Se uma das alegorias apresentar defeitos, cabe ao julgador de alegorias e adereços punir a agremiação por isso. Mas o julgador de conjunto só o fará se considerar que aquele defeito prejudicou todo o desfile.
Em resumo, outros nove quesitos julgam detalhes, partes do desfile. O julgador de conjunto julga todos os outros nove quesitos mas não separadamente, e sim juntando-os numa análise geral e abrangente.
Agora, eu pergunto, os jurados fazem isso?
Vamos observar o nosso pé. Ele é composto por várias células. Temos as que formam a unha, a pele, tendões e etc. Cada célula faz a sua parte pra formar um todo que é o pé. Se você olhar para um pé sem unha, não estará um pé formado, não é mesmo? Então, você estará observado algo em desarmonia com o todo. Mas, mesmo assim, o que estará sendo avaliado será o pé, e não a unha, mesmo que esteja fazendo falta. Isso também mostra que independente da célula que seja, nenhuma é mais importante que outra, pois formam um conjunto que é o pé. Todas as células são importantes, e cada uma tem apenas que fazer bem feito a sua parte, tendo a visão do todo.
Quando um jurado de conjunto diz que está tirando ponto pelo desfile ter sido "sem graça", "simples" e em certos momentos até "chocho", não posso crer que essa pessoa entenda o significado de cada quesito para ter base para uma avaliação de seu conjunto.
Muito subjetivo alguém gostar ou não, achar isso ou aquilo. Como já falei, esse é um dos quesitos mais difíceis de julgar.
Os jurados do quesito conjunto deveríam ser os mais habilitados, no sentido de saberem muito bem sobre cada quesito, e assim, com base, avaliar o todo. Senão, como uma vez nosso amigo colunista Eugênio Leal disse: PARA QUE "CONJUNTO"?
Histórias verde e branco
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 12/05/2009 00:36
Esta semana publicarei duas histórias que têm em comum a mesma escola de samba, a minha Mocidade Independente de Padre Miguel. A primeira, na verdade, trata-se de uma declaração de amor. E como Marcos Altemari, sei que existem muitos assim que, mesmo de longe, admiram algumas escolas e seus segmentos. Fãs com um amor incondicional, que se sentem parte da comunidade.
A segunda já é bem engraçada. Nildeck Guimarães conta um fato ocorrido envolvendo Joãozinho Trinta na concentração das escolas, no ano de 1997. E você, que tem uma história que julga em condições de ser publicada, pode mandar para thati@thatianapagung.com.br.
Por Marcos Altemari
"Mocidade Independente de Padre Miguel - Para o amor, não há distância. Dia 28/09/08, para mim um dia muito esperado. Por dias fiquei contando no calendário os dias e as horas que faltavam para o grande dia. Um dia antes, já não consegui dormir de tanta expectativa...... Sabem o que é isso? É o amor incondicional por uma escola de samba, por uma entidade que nem é do meu estado, da minha cidade ou do meu bairro.
Explicar? Não posso, não sei......foi um amor verdadeiro que nasceu "do nada", mas é forte, muito forte. Adoro samba, sou ritmista da gloriosa Mancha Verde, escola de samba do grupo especial de SP, a entidade que amo de paixão e é ela que divide o
meu coração com a escola de Padre Miguel, escola de um lugar que nunca fui, não sei como é, não sei onde é..... Mancha Verde e Mocidade Independente, duas paixões verdadeiras, escolas que amo, escolas que me fazem chorar.
Neste tão esperado domingo, acordei e logo fui para a quadra da Mocidade Alegre SP no bairro do Limão, para ver o show da minha Mocidade Independente. Quando lá cheguei, logo senti a grande emoção de ver os integrantes da bateria mais quente do planeta, bateria de bamba, bateria raiz.........o contato com os cariocas foi tão receptivo que passei à amar ainda mais a escola, sua comunidade e a sua bateria. São todos muito humildes, todos muito simpáticos.....foi 10!
Quando o Mestre Jonas apitou........meu Deus, que espetáculo!!!!!!!! Não existe, não existe, não existe mais quente....é a melhor! Meu coração palpitou, fiquei alucinado, emocionado e confesso que chorei. Porque chorar pela bateria ou pela escola de samba que você nem é integrante, do estado ou cidade que não mora?
Também não sei, mas uma coisa eu digo....quem tiver o privilégio ou a sorte de ver o show da bateria não existe mais quente, se apaixona, sem dúvida! Parabéns escola do meu coração, bateria do meu coração e amigos que fiz, do meu coração! Te amo, Mocidade Independente de Padre Miguel !!!!!!!!!!!!!!!!!! Agradecimento especial ao grande ritmista e amigo: Willian Ocanha - Tamborim - Bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel."
Por Nildeck Guimarães
"Olá, Pagung. Vou te contar uma história bastante engraçada ocorrida justamente com a sua escola, a Mocidade. No carnaval de 1997 Joãozinho Trinta, na época, carnavalesco da Viradouro, chegava à concentração do Sambódromo juntamente com todas as suas alegorias para organizá-las e prepará-las para o desfile.
Neste mesmo instante a Mocidade Independente de Padre Miguel tirava suas alegorias do barracão que ficava nas imediações do Sambódromo. Diante da beleza e perfeição das mesmas, Joaosinho, encantado, se aproxima de um dos diretores da Mocidade, responsável pela movimentação destas alegorias e, boquiaberto, tece o seguinte comentário: "Deus do céu, que alegorias magníficas!"
Imediatamente o diretor lhe dá um tapinha nos ombros e responde, com ar de superioridade: "pra você ver, João! Todos os anos apresentamos as mais lindas alegorias do carnaval e na hora das notas, são umas alegorias porcarias, como aquelas ali (aponta, sem saber, justamente para as alegorias da Viradouro) que levam as maiores notas.
É um absurdo!" Joaosinho olhou para ele , entre magoado e irritado e, numa voz ressentida, disse-lhe: "Mas aquelas alegorias são as minhas!" Detalhe, a Viradouro foi a campeã naquele ano e a Mocidade, vice. (rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs)."
Vamos assistir então os vídeos da Mocidade e da Viradouro, e depois dêem a sua opinião: qual das duas tinha o melhor conjunto de alegorias?
Mocidade início:
Mocidade final:
Viradouro:
Joãozinho Trinta campeão 1997:
Brazilian Carnival Ball 2009
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 01/05/2009 22:54
O espetacular baile de gala beneficiente aconteceu no dia 25 de abril com cerca de 2000 convidados, e contou com a ilustre presença do Príncipe Andrew, Duque de York, grande entusiasta da causa. Parece que a crise não influenciou a realização do evento, pois foram arrecadados quase três milhões de dólares, valor que será destinado ao Hospital SickKids, que é uma referencia mundial em pesquisas pediátricas.
A brasilidade e o glamour brasileiro são as marcas do baile. O público é brindado com o samba de raiz. Aproximadamente 100 performers escolhidos em seleções por todo o Brasil participaram, dando à festa o verdadeiro clima do carnaval brasileiro.
Sambistas, modelos, atores e bailarinos mostraram seu gingado e seu carisma para um público que se mostrava encantado com toda a diversidade cultural de nosso país.
O eclético elenco incluiu a grande destaque do Carnaval carioca Herminia Paiva, vencedora do Trófeu Plumas e Paetes 2009; eu tive a honra de vir à frente da bateria comandada por Mestre Marrom da Mangueira; a Musa da Porto da Pedra, Elaine Ribeiro; a Mulher Samambaia, Daniele Costa; os gêmeos Flavio e Gustavo; a Rainha do Carnaval de São Paulo, Camila Silva; a atriz do Zorra Total, Miryan Martin; a modelo transexual do momento, Patricia Araujo; a conceituada nova porta-bandeira da Portela, Lucinha Nobre; o modelo internacional atualmente na Índia, Arruda Junior; a Rainha da Bateria da Escola Mirim do Salgueiro, Brenda Gabrielle; a Miss Brasil, que foi a Rainha do baile, Natalia Anderle, o Mister Brasil, Vinicius Ribeiro; a Primeira Bailarina do Theatro Municipal Claudia Mota, entre várias outros performers interessantes.
O baile contou com a participação da Escola de Samba Grande Rio, que levou de Caxias para Toronto seu casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei e Squel, o intérprete Wantuir Oliveira, o primeiro passista Luidy, o principal destaque Danyllo Gayer e alguns de seus melhores ritmistas, todos sob o comando do Diretor de Carnaval, Peracio, com a colaboração do coreografo Bira Dance e do talentoso figurinista Fernando Magalhães.
Mauro Quintaes e Milton Cunha foram os carnavalescos. Mauro foi o responsável pelo carros. Isso mesmo - a apresentação é etinerante e possui 6 carros alegóricos, que medem 2m x2m, e 1 tripé. Milton foi o diretor artísco, mas como ele mesmo disse, além de idealizar, ele pôs a mão na massa no que foi preciso. Eles contam com uma excelente produção escolhida pelo diretor executivo do evento Howard Gillick, que também desfila, como as destaques Patricia Shélida e Edneia, Angela Sardinha, Lucimar, Odacir, entre outros já citados.
Assim como no nosso carnaval, a equipe brasileira do Brazilian Carnival Ball trabalha o ano inteiro para uma noite que encanta a todos os presentes com descontração e magia.
Energia Vulcânica
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 20/04/2009 12:58
Há duas semanas venho pedindo para que me enviem histórias curiosas e engraçadas sobre carnaval, histórias que vocês leitores tenham vivido, presenciado ou ouvido falar. Esta semana começo contando a história de Flavio Capelletti.
"Dizer que você é admirável seria pouco. Vou lhe conta uma "histórinha" que aconteceu com o meu saudoso pai.
Num certo carnaval, meu pai chegou à concentração e viu a sua querida escola armada para o desfile. Ele ficou muito desgostoso e retornou para casa porque não iria passar vergonha de desfilar numa escola pobre, feia e desorganizada e que estava cotadíssima para descer para o Grupo de Acesso.
Eu até achava isso também , mas acabei ficando para assistir ao desfile.
Quando começou a cantar o samba, eu vi que havia alguma coisa estranha no ar. Parecia que todos os segmentos da escola estavam incorporados por uma energia vulcânica que acabou passando também para mim. Eu não parava de chorar. Foi um desfile que ficou na história. Foi tão maravilhoso que Papai do Céu não permitiu repeteco, pois não houve desfile das campeãs.
Pois bem, a Escola acabou sendo proclamada campeã pelo povo, pela imprensa e pelos jurados. Todos foram unânimes em dizer que foi um desfile para entrar para história das escolas de samba.
Como que uma escola sem quadra e sem dinheiro pôde ter chegado ao alto do pódio? Só com ajuda dos orixás, e eles ajudaram e muito. Quando se quer e acredita, nada é impossível. Um bom samba ajuda muito e, nesse particular, a Vila, naquele ano, tinha de sobra.
O meu saudoso eai, que foi para casa, não foi campeão, e eu fui. "Pagou mico" e acabou ficando com esta marca até morrer.
Eu estou falando da minha querida Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, que foi campeã em 1988, com enredo "Kizomba, festa da Raça". Não houve desfile das campeãs, pois um dia antes, um temporal no Rio, alagou literalmente toda a Cidade.
O meu falecido pai foi um apaixonado pela Vila Isabel, em que foi Presidente por duas oportunidades, foi diretor geral por várias administrações e Presidente do Conselho por três mandatos. Ele chamava-se Cornélio Cappelletti.
Os grandes amigos do meu pai no samba foram o velho Natal e o grande Presidente Amaury Jório (fundador da Imperatriz).
Hoje, sou conselheiro da escola e assessor especial do presidente Moisés
".
Que história, hein Flavio! Realmente foi um desfile maravilhoso, e o samba, nossa!, nem se fala: para mim é um dos melhores da nossa história.
Fiquem então com mais um pouquinho desse desfile com "energia vulcânica", como disse nosso amigo Flavio:
Brazilian Carnival Ball 2009
Estarei indo para o Canadá, no próximo dia 22, para participar do Brasilian Carnival Ball.
O Brazilian Carnival Ball existe há 43 anos e é um evento vitorioso de Toronto, Canadá. Criado pela mineira, a saudosa, Anna Maria Marcolini Guidi de Souza, o baile é beneficente e reúne anualmente cerca de dois mil convidados que desembolsam doze mil dólares pela mesa mais barata. Em mais de quatro décadas, essa entidade filantrópica internacional bateu um recorde em contribuições e patrocínios: o baile se classifica entre as cinco maiores galas beneficentes do mundo, a mais importante do calendário oficial canadense e o maior baile anual de carnaval brasileiro do planeta.
Tema 2009: "Crianças mais saudáveis, um mundo melhor"
O próximo baile, o Quadragésimo-Terceiro Brazilian Carnival Ball, será no dia 25 de abril, em Toronto, beneficiando SickKids Foundation, em prol do pesquisas pediátricas.
Na volta contarei tudo sobre essa grande festa.
Continuem mandando suas histórias para thati@thatianapagung.com.br
Complexo de Cinderela
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 13/04/2009 00:44
As escolas de samba estão passado por uma fase complexa; eu diria até, fazendo jogo de palavras, que elas estão vivendo um complexo - o complexo de Cinderela. O que é isso?
Acredito que algumas pessoas se lembrem da aparente inocente história que, na verdade, é um estereótipo baseado no emocional coletivo. A Cinderela é um arquétipo na vida de muita gente. A ideia de vida perfeita passa por esse caminho; mas, claro, essa expectativa criada pela sociedade desde o berço não se concretiza, e raros casos conseguem viver felizes para sempre. E, quando a história chega ao fim sem final feliz, somos tomados pela sensação de que o relacionamento acabou sem que pudéssemos aproveitá-lo.
Onde esteve o erro? Esteve na suposição de que, após conhecer o Príncipe Encantado, a história já estava escrita, tudo sairia à perfeição.
Imaginem as escolas de samba como se fossem a linda Cinderela. Em primeiro lugar, elas se sentem vítimas, sempre precisam de ajuda, não enxergam o poder interno, sua base, a sua força.
A partir daí, começam a sonhar com uma solução mágica, com a fada madrinha chamada "patrocínio" que vai resolver todos seus problemas. Lembrei-me agora da propaganda dos produtos "Tabajara", do humorístico "Casseta e Planeta": "Seus problemas acabaram, Tabajara's Patrocínio!" Seria ótimo, não é mesmo?
Há escolas que ainda conseguem esse feito. Parabéns a elas, maravilha! As que conseguem acreditam que assim conquistarão seus príncipes encantados, ou seja, os profissionais mais caros e considerados melhores do carnaval, e assim, serão felizes para sempre. Fim. Ai, meus Deus do céu!, quem inventou esse fim? Agora é que começa tudo.
Ninguém nunca parou para pensar que o príncipe só viu a Cinderela duas vezes, e que ela estava toda arrumada na personagem de princesa. Onde entra a chamada convivência? Aí é que começa a vida de fato. Não existe essa tão sonhada perfeição.
Não podemos imaginar que, por sermos o "maior espetáculo a céu aberto do mundo", ou porque tal escola seja tradicional, podemos nos considerar lindas cinderelas à espera de uma fada madrinha.
A melhor forma de fazer isso é encontrando a base verdadeira, a que existe dentro de cada agremiação. Assim, evita-se que saiam desesperadas achando que as "irmãs más" chegarão primeiro que elas. Lembram-se das irmãs más da Cinderela, filhas da madrasta? Pois então, acontece tal rivalidade por puro ego e vaidade.
Mais uma vez, o segredo está na base de cada uma. Formem uma equipe unida, que seja a estrutura para que a escola possa se apoiar e seguir. Tracem uma meta, e tenham foco para atingi-lo.
Só assim, sendo sólidas e verdadeiras, para que, quando passar o carnaval, e chegar a Quarta-Feira de Cinzas, algumas escolas não virem abóboras e percam seu encanto.
Conheço uma bela canção que diz:
"Então, vem vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer"
Conte a sua história:
A partir de agora, quero interagir mais com você, leitor. Se você conhece histórias curiosas e engraçadas sobre carnaval, histórias que tenha vivido, presenciado ou ouvido falar, mande um email e me conte sua história. Vamos compartilhar isso. O e-mail é thati@thatianapagung.com.br
Gosto amargo
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 06/04/2009 12:04
Chega de férias, vamos trabalhar! Já estava com saudades de vocês. Mesmo depois de tantos dias da nossa festa maior, acreditem: o gosto amargo da quarta-feira de cinzas teima em não sair da minha boca. Que carnaval foi esse?
Foi um carnaval nivelado por baixo, pois era mais difícil adivinhar as últimas posições do que acertar as primeiras. Sei que cada um de vocês pensa diferente, um ou outro podem achar injusta alguma posição, mas acredito que todos concordam que foi um carnaval bem abaixo do esperado.
O reflexo já está aí: troca-troca sem fim. No meio disso tudo me pergunto: onde fica a identidade? Será que a identidade hoje fica na questão do melhor profissional ou no profissional que melhor se adapte a uma agremiação?
Identidade no carnaval é um assunto complexo. A indústria cultural, a que o carnaval se subordina, tende a formatar o espetáculo, diluindo as diferenças. No entanto, as diferenças continuam a existir, ainda que pareçam fragmentárias. Façamos um teste: a bateria do mestre Odilon tem a mesma sonoridade da bateria do mestre Ciça? Mas hoje todos são substituíveis, desde que se adaptem às regras da escola em que estão trabalhando.
Como na vida aprendemos por meio das diferenças, sejamos otimistas. Quanto o nosso carnaval pode ganhar com isso? O inusitado ficará cada vez mais em evidência? Como será fulano em tal escola?
"Achismos" apenas só após a próxima quarta-feira de cinzas.
Seria bom se o sentimento de esperança não virasse expectativa. Expectativa é controle. Como não podemos controlar o externo (nesse caso, o resultado), nos frustramos, e a frustração gera raiva. Nada saudável, não é mesmo?
Vamos tentar enxergar o lado bom disso. A curiosidade fica aguçada, os palpites calorosos, as discussões fervorosas, e, o melhor, a vontade de ter um grande carnaval fica no ar. Vamos nos concentrar na curiosidade que traz tantos troca-troca e imaginar que em 2010 o carnaval resgate seu brilho, que anda meio lusco-fusco. O sabor até muda de amargo para doce, pensando assim. Eu ainda tenho esperança...
E por falar em gosto amargo, lembrei-me de chocolate; e lembrando-me de chocolate, eu desejo a todos vocês uma excelente Semana Santa e uma feliz Páscoa!
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Bem vindos
Quero dizer que me sinto muito honrada em fazer parte de uma equipe tão querida e de talento ímpar. Digo isso por todos que já trabalhavam aqui, e agora pela chegada de Anderson Baltar e Walter Nicolau, dois profundos conhecedores do nosso samba e do nosso carnaval.
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Cinema e Carnaval: parceria de sucesso
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 15/01/2009 01:02
Em 2009, faz 50 anos que o filme "Orfeu do Carnaval (Orfeu Negro)", dirigido pelo francês Marceu Camus, conquistou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro. A história tem como personagem principal Orfeu, um condutor de bonde e sambista carioca, que se apaixona por uma jovem chamada Eurídice, recém-chegada do interior, fugindo de um estranho fantasiado de Morte. O romance dos dois desperta ciúmes em Mira, ex-noiva de Orfeu. Esse fio condutor serve para passearmos pelo universo dos personagens, que é contado em pleno carnaval.
Dos ensaios ao desfile, "Orfeu do Carnaval" registrou um carnaval que não conhecemos mais, e um Rio de Janeiro ainda tranquilo, no ritmo dos bondes. É lindo observar cada detalhe, principalmente pra quem não teve o prazer de ter vivido naquela época.
Trechos do filme no YouTube:
O filme ganhou vários prêmios além deste, e também continuou sendo lembrado por outros anos, como em 1983 pela G.R.E.S. Estácio de Sá.
Orfeu do Carnaval
No verso apaixonado de Orfeu
Reina uma mulher somente sua
Por este amor maior que o envolveu
Enlouqueceu e vagou pela rua
No amor ferido de Aristeu
E o feitiço de Mira
A amante abandonada
A dama negra a ele apareceu
Levando para sempre a sua amada
O morro emudeceu
Explode a dor no peito de Orfeu
E o poeta apaixonado
Canta ao céu desesperado
O grande amor que perdeu
(Oh! Lua)
Lua, oh! Lua
Musa amada, branca e nua
Quero lhe beijar e lhe dizer: Sou seu
E você dizer sou toda sua
Desceu do morro
Enfeitou sua tristeza
Fez seu reino de beleza
Das mágoas do seu coração
E este menestrel moderno
Procura até no inferno
A voz de sua razão
(e vai)
Vai aos orixás do Candomblé
Demonstrando sua fé
Cai na orgia
Porém nada mas fascina
Ao Pierrô sem Colombina
Na sua alucinação
Morreu Orfeu
Vencido pelo mal
Mas há sempre
Um Orfeu no carnaval
Há dez anos, o fime foi novamente filmado, mas com elementos atuais. A história do casal começa num sábado de Carnaval. O mais famoso compositor dos morros do Rio de Janeiro, líder da favela onde mora e também de sua Escola de Samba, a Unidos da Carioca, Orfeu trabalha nos últimos preparativos para o desfile, quando conhece Eurídice, recém-chegada à cidade em busca de uma tia. Os dois se apaixonam, provocando o ciúme e a violência de alguns. O casal decide deixar o morro assim que o Carnaval terminar e, longe dali, viverem felizes para sempre. Uma típica história romântica, não fosse o grande desastre na noite do grande desfile no Sambódromo. Enquanto Orfeu irradiante brilha à frente de sua Escola, cantando mais um samba de sua autoria, sua amada é vítima de uma bala perdida de Lucinho, amigo de infância de Orfeu e chefe do tráfico de drogas naquele morro. Desesperado, Orfeu se vinga de Lucinho e parte em busca de sua amada desaparecida, a fim de levá-la de volta ao morro. A dor de Orfeu só faz aumentar os ciúmes de Mira, de Carmem e de todas as mulheres do morro que já foram suas namoradas. Enlouquecido de paixão, Orfeu é morto na Quarta-feira de Cinzas, no justo momento em que a televisão anuncia a vitória da Unidos da Carioca no desfile de Carnaval pelo terceiro ano consecutivo.
Por meio dos dois filmes, conseguimos, comparando as épocas, observar não só a evolução do carnaval carioca, mas também a da violência urbana que assola nossa cidade.
* * *
A partir do próximo sábado, estarei no Instituto do Carnaval, da Universidade Estácio de Sá, na Praça XI, ministrando o curso de férias chamado "Cinema e Carnaval". Mostrarei um pouco desses dois mundos que desde 1908, data do primeiro registro em película do carnaval brasileiro, começaram a andar bem próximos, tornando nossas telas mais alegres e coloridas, mesmo ainda na época da imagem em preto e branco.
Já escrevi neste espaço, meses atrás, sobre cinema brasileiro e carnaval. Numa breve recapitulação, podemos dizer que a chanchada teve a sua quarta-feira de cinzas. No fim da década de 50 e ínicio da década de 60, o carnaval brasileiro passou a ser retratado de forma mais realista pelos cinemanovistas, nos brindando com belas obras também.
Considerado o precursor do Cinema Novo, o filme "Rio 40º", de Nelson Pereira dos Santos, mostra o cotidiano carioca através de um olhar neo-realista. A música "A voz do morro" de Zé Kéti (ele também participou do elenco) fecha com chave de ouro o filme e essa coluna.
A Voz do Morro na voz de Luiz Melodia:
A voz do morro
(Ze Keti)
Eu sou o samba
A voz do morro
sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo
que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro
Eu sou o samba
Sou natural daqui
do Rio de Janeiro
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões de corações
brasileiros
Salve o samba, queremos samba
Quem está pedindo
é a voz do povo de um país
Salve o samba, queremos samba
Essa melodia de um Brasil feliz
Eu sou o samba
A voz do morro
sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo
que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro
Eu sou o samba
Sou natural daqui
do Rio de Janeiro
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões de corações
brasileiros
Da Cidade do Samba à cidade que 'samba' para fazer carnaval
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 29/11/2008 01:13

Lembro como se fosse hoje: no dia 17 de setembro de 2005, com minha câmera digital, registrei a transferência das escolas de samba do Grupo Especial dos armazéns do Cais do Porto para a sonhada Cidade do Samba, na Gamboa, Zona Portuária do Rio. Nossa! Parecia que todos eram campeões! Que vitória!
Dos presentes: presidentes, dirigentes e carnavalescos fui colhendo alguns depoimentos, nos quais ressaltavam a esperança, a alegria, o entusiasmo, a felicidade do sonho realizado, ou seja, apenas pontos positivos com a mudança.
"Esse novo espaço que nós estamos tendo é o espaço que todo sambista planejava ter; é a glória do samba, é tudo aquilo de que o samba precisava e necessitava." - Aniz Abrahão David
"Hoje é um dia muito importante para as escolas de samba? Começamos a fazer alegoria debaixo dos viadutos, e hoje pra nós isso aqui é um sonho." - Fernando Horta

"O mais importante é a gente poder trabalhar num lugar que tenha uma infra-estrutura que se possa executar o trabalho? Porque você trabalhar naqueles barracões que a gente vinha trabalhando, que não tem o mínimo de higiene? Muita coisa se perde dentro dele, muita coisa não é executável por causa da própria altura? Aqui a gente consegue montar alegoria inteira, administrar o barracão, ter limpeza, consegue dar melhores condições de trabalho a todos os funcionários, receber a própria imprensa, enfim, é tudo de perfeito que a gente sempre sonhou." - Paulo Barros
E lá foram os carros alegóricos, apenas nas ferragens ou cobertos por enormes plásticos, passeando em meio ao trânsito da cidade, anunciando a mudança. A primeira a chegar foi a Beija-Flor, pois era a campeã do ano na época. Logo após sua entrada, começou a queima de fogos. Foi um momento emocionante. E, sem dúvida, um marco para o nosso carnaval. Outras escolas chegando - e, aos poucos, aqueles enormes espaços vazios foram preenchidos, ganhando vida.
Ainda com muita obra por fazer, já podíamos vislumbrar seu futuro: com muitos shows e oportunidades de trabalho. Um sonho realizado por meio da parceria entre Liesa e a Prefeitura do Rio de Janeiro.
No entanto, não posso deixar de registrar o seguinte comentário: como sentir-se realizado e feliz se outras tantas agremiações continuam em barracões cujo estado é lastimável? O que há de errado com o carnaval do Acesso que não consegue também uma Cidade do Samba? Não me refiro ao excelente trabalho da Liesa, mas da Prefeitura em relação as outras escolas de outros grupos.
O Presidente da Lesga, Reginaldo Gomes, procurado por mim, deu a seguinte declaração: "É um sonho antigo dos sambistas das escolas do Grupo de Acesso ter também uma Cidade do Samba. Existe um projeto, que será encaminhado à Prefeitura, de construir a Cidade do Samba II, ao lado da quadra da São Clemente, ou talvez na aréa onde se concentram algumas escolas, no Carandiru (assim chamado por fazer alusão ao presídio cujas condições de trabalho são sub-humanas). Seria para as escolas do A e do antigo B (hoje Rio de Janeiro I) , que desfilam no centro do Rio. Para as escolas que desfilam em Campinho, entretanto, o problema persistiria, pois se apresentam num local muito afastado do Centro. Certamente, faz diferença um local com mais segurança, estrutura apropriada, sem precisar de adaptações. Não se enfrentaria mais o problema da chuva - problema que já destruiu tantos carnavais... Enfim, estamos trabalhando para que esse sonho venha a tornar-se realidade, como em Cabo Frio, que ergueu a sua Morada do Samba."
A alternativa, muitas vezes, para essas pessoas que não querem trabalhar em ambientes nada propícios é fazer de suas casas um grande ateliê. Muitas alas que apreciamos na avenida não saem de barracões, e sim da casa das pessoas que amam e vivem do carnaval.
A varanda vira o local da costura, na garagem monta-se a fantasia, na cozinha guarda-se o que já está pronto, e assim vai surgindo um carnaval nada famoso, mas que faz a alegria da mesma forma. Muitos dizem ser até mais prazeroso ter participado de tão perto da criação; dizem que dessa forma se tem uma certa liberdade de horário que os barracões não permitem. Será? E o incômodo de ter a própria casa pelo avesso, com um entra e sai sem fim?
A verdade é que tem que ser muito "artista" nos Grupos de Acesso para colocar um carnaval na rua. Improvisa-se aqui e ali, tira-se da cabeça o que o bolso não dá. Mas o mais importante para quem trabalha com o carnaval é conseguir sempre ter seu espaço, não importa se é na Cidade do Samba ou nessa outra cidade, menos glamourosa, onde se tem que "sambar" para fazer carnaval.
Fotos da transferência das escolas para Cidade do Samba (Fotos extraídas do documentário de Thatiana Pagung: "Do Barracão à Apoteose, 80 minutos de emoção"):
















Quando os EUA se parecem com o Brasil
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 27/10/2008 23:47
Um dos mais repetidos ataques ao carnaval brasileiro é aquele que prega a impertinência de investir quantias consideráveis em sua realização quando milhares de pessoas carecem de necessidades básicas. O carnaval, segundo essa linha, seria uma maneira de distrair o povo de seus reais problemas, aliená-lo do mundo à sua volta, o mesmo mundo que lhe cobra, no resto do ano, um preço alto para deixá-lo sobreviver. O argumento do pão e circo é simplório porque não leva em conta a importância dos rituais festivos na sociedade, quero dizer, em qualquer sociedade do mundo; e porque, no próprio campo econômico, ignora o retorno financeiro e social que o setor de entretenimento traz a reboque, com a geração de empregos diretos e indiretos.
Nos Estados Unidos, de onde cheguei há pouco tempo, a crise econômica deixava apreensiva a sociedade americana. Não somente jornais, rádio, televisão - mas a população, que teme os efeitos que se anunciam da queda das bolsas. Mesmo assim, no centro do capitalismo mundial, houve carnaval. E que carnaval, do qual tive orgulho de participar, ao lado de Alex de Oliveira!
Encontrei pessoas que queriam apenas externar uma alegria. Pessoas que, por pressão da sociedade em que vivem, não conseguem fazer isso em seu dia-a-dia. Parece estranho: para eles, pelo pouco que vi, não é nem um pouco fácil ser como são, e sim, como têm que ser. O olhar das pessoas, na maioria das vezes, é de fora para dentro. No workshop que ministrei sobre samba para algumas americanas um dia antes do desfile, procurei mostrar ao máximo esse inverso, explorando um outro ângulo, uma forma de olhar de dentro para fora, deixando fluir os sentimentos bons. Falei sobre nossa cultura, sobre a nossa história, e pude perceber nos olhares o encantamento pelo nosso Brasil.
A sensação de participar do carnaval em Long Beach foi de estar em um ensaio de rua, fantasiada, com uma multidão vibrando. Sem regras e julgamentos, sambamos e brincamos carnaval, como na época da Avenida Rio Branco. Foi divertido. Carnaval com samba será bom sempre, em qualquer lugar do mundo. O carnaval em Long Beach é sinônimo do desfile da escola de samba Sambalá, pois é através dela que caímos na folia. Eu e o Alex brincamos pela escola inteira; ora ficávamos à frente, ora perto da bateria.
Depois de desfilar, a saudade de casa aumenta. Só pensava nas finais de samba por aqui. Voltei a tempo, ainda bem. Algumas agremiações já começaram a escolher seus hinos para 2009. Tenho acompanhado todas as disputas, mas, pelo que vejo, o que escrevi em minha coluna sobre "Queremos samba com ou sem neon" está começando a acontecer? Ou seja, nem todo mundo sai satisfeito com o resultado.
Independentemente de quem seja o campeão, o torcedor que é torcedor sacode a poeira e dá a volta por cima, pois o importante será a união. Só assim se vence algo que é feito por muitas pessoas em conjunto. Se ganhou um samba que não era do agrado, fazer o quê? Mudar de agremiação? Não, o jeito é aprender - e, de tanto cantar, acaba-se gostando dele também.
Bom, pelo menos nisso os EUA não se parecem com o Brasil: é um samba só e chega! Brincadeiras à parte, claro que não dá para comparar, mas, em matéria de emoção, até em Long Beach vi pessoas emocionadas quando o desfile começou. Pode ser no Brasil ou fora dele, o nosso samba e nosso carnaval são únicos, e quando a pessoa se entrega, ah, aí se apaixona e começa a querer de alguma forma participar.
Enfim, a crise econômica não tem bandeira, atinge todos os setores da sociedade. A indústria do carnaval, também já começa a sentir e ser penalizada com esse impacto, pois o luxo sai caro. Agora podem responder: quem vai pensar na crise do dólar na hora em que seu samba preferido tocar? Ou no momento do desfile? Pois é, se nos EUA, com a crise, aconteceu o carnaval, e bem feito, nós é que não vamos deixar de brincar o nosso, concorda?
E que venham os hinos para 2009, porque, bons ou ruins, no coração do sambista, sempre cabe mais um. Até o filho feio tem vez!
Carnaval nos Estados Unidos
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 03/10/2008 09:38
Fui a Rainha do Carnaval e Alex de Oliveira, o Rei Momo, em Long Beach, nos Estados Unidos. Recebemos a chave da cidade, e oficialmente abrimos o carnaval, que aconteceu dia 28 de setembro, com a escola de Samba Sambala.
Queremos samba com ou sem neon
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 25/09/2008 21:20
Nestas semanas e até meados de outubro, os amantes do carnaval têm como atividade principal acompanhar as eliminatórias de samba-enredo. Como falei em outra coluna, é uma época quente, onde a emoção fica à flor da pele. Quem não quer ver o seu samba na boca do povo, tocando nas rádios antes do carnaval, cantado pela escola na Marquês de Sapucaí? Qual o pai que vai achar o filho feio? Todos acreditam ter a melhor obra, claro, e, como bons políticos, distribuem seus santinhos, com o objetivo de formar uma legião de seguidores, que muitas vezes enxergam apenas a parceria e não a obra. Acostumam o ouvido naquele samba; e não adianta pedir que ouçam outros, porque seria como se estivessem cometendo uma traição.
Alguns podem achar que estou exagerando. No entanto, existem algumas pessoas que se dizem sambistas, mas que pensam mais em si do que na própria agremiação. Não admitem que outra parceria consiga criar uma obra superior e vencer. É verdade que cada agremiação tem seu critério de escolha - o qual, temos de admitir, nem sempre premia o melhor. Bom, isso já é outro assunto?
Sempre que posso, acompanho os comentários dos internautas, pois os verdadeiros sambistas que por aqui aparecem nos brindam com excelentes textos e idéias. Dois internautas me chamaram atenção, há algum tempo, por seus comentários indignados em relação a matéria "O preço da gravação de um samba". Infelizmente, como vocês já leram aqui anteriormente, em um texto postado pela equipe do SRZD-Carnavalesco, o verdadeiro sambista perdeu mais um espaço para comentários, devido ao fato de os falsos sambistas usarem o site para ofender pessoas. Por isso, todos os comentários foram retirados do ar, inclusive os bons. Agora, apenas alguns textos podem ser comentados, e com moderação. Por sorte, consegui salvar alguns comentários interessantes postados no tópico da matéria que desagradou a alguns.
Os internautas que me refiro postam com pseudônimos de Paul e Donga. Agradeço em nome da equipe as discussões saudáveis que abrem no espaço, assim como outros verdadeiros sambistas e amantes do carnaval.
Os comentários que me chamaram mais atenção foram:
"Postado por:Paul | 09/09/2008 15:31:54
Que reflexão deve se ter sobre a importância do samba? Quando que o samba deixou de ser prioridade? Como? Onde? A que horas? Então, porque este tópico? O que faz a ala de compositores? O que é a ala de compositores? O que é um samba para uma escola de samba? O que é a ala de compositores de uma Portela, por exemplo? Estamos todos nós brincando de gostar de samba? Estamos todos nós não torcendo por nenhum samba em qualquer escola de samba? São todos os sambas de qualquer agremiação, sofrível? Estamos achando que o samba morreu? Ora,ora, vamos deixar de balelas. Se o cara quer ser profissional, ter que ter custos, investir, entrar no jogo, ou então fique em casa, esperando o tempo passar. Pessoas partem da prerrogativa de que todos os presidentes são passíveis de suspeição até que se prove ao contrário; é claro que tem escolas que se portam meio duvidosamente no resultado final, mas o que não se pode, é achar que todos os dirigentes usam do mesmo preceito. Entramos num momento em dizer que a safra está ruim, sofrível, péssima. Qual é??????? Se o samba morreu, porque então nos mobilizamos tanto? Tem pessoas que ainda pensam que o nosso carnaval deve ter a performance dos anos 70 e acham que o que é feito hoje é horrível, sem emoção, sem objetivos e com várias armações. Cada uma.
Postado por:donga | 09/09/2008 17:54:39
A então quer dizer que o samba continua sendo prioridade nas escolas ? É mesmo, diz aí um grande compositor revelado por uma escola de samba nos últimos 10 anosi ? diz aí um grande samba-enredo que tá no boca do povo surgido nos últimos anos ? Pois é, falácia é ficar de boca calada quando se pergunta coisas simples como essa. Pssssiiiiiuuuu, silêncio, porque não tem o que falar. As escolas de samba vivem da glória do passado, daquilo que aconteceu nos anos 70 por exemplo, só pra não fugir da idéia dos companheiros abaixo. É uma tradição carioca que continua arraigada em nós, por isso continuamos acompanhando e torcendo pro engrandecimento do samba e a crítica acontece porque sabemos que se pode ter um espetáculo como se tem hoje com grandes sambas, ninguém aqui é Pamplona pra ficar discutindo o que é tema ou enredo. O que muitos aqui querem é um bom samba e ninguém tá indo contra os profissionais, até porque nos 70, 80, aliás muita gente dos anos 60 tá aí ganhando a vida com o samba, muitos longe das escolas que se resumiram ao carnaval. Mas ganham dinheiro na Lapa, no Cacique (Nova morada do samba). Aliás, sugiro pra esses defensores e baba-ovo de liesas e afins que leiem a letra desse samba cantado pelo Fundo de Quitnal que nos anos 80, senão me engano já dizia que "o samba hoje tem nova morada". Saudosista é o c.... Queremos é samba com ou sem neon, o problema não é o Neon, mas a falta de samba. Mas como o samba há muito, deixou de ser prioridade em Escola de samba, tá valendo."
Pensando nesse assunto, perguntei-me: será que sempre foi assim? Será que, para ganhar samba-enredo nas décadas anteriores, precisava-se de tanta torcida, de tantos efeitos tecnológicos na gravação de divulgação, de tanto dinheiro, ou apenas a obra pela obra já bastava?
Lendo todos esses questionamentos, convidei um grande amigo para uma conversa. Com quase 50 anos de Mocidade Independente, e com quase 40 anos como compositor, Tiãozinho da Mocidade foi campeão de 5 sambas-enredo, em 83, 85, 86, 90 e 91. Hoje integra a nossa querida Velha-Guarda. Sempre sorridente, contou um pouco sobre o que pensa a respeito. Abaixo, trechos da conversa:
"Os compositores começaram a enfeitar muito. Foi ficando interessante, mas, acabaram com o tempo, fazendo com que se prestasse mais atenção no enfeite. Muita parceria que não tinha condições de enfeitar, com o tempo, suas obras não impressionavam mais os jurados. Gravávamos as fitas para divulgar sim, mas era um carinho com o samba, além de que ainda não influenciava para vencer. A obra pela obra era o mais importante. Eu cantava meus sambas. O mundo evoluiu, mudou, e as pessoas não aceitam mais o simples, e como falei, foram enfeitando, colocaram grandes intérpretes para defender na quadra, e hoje, se alguém que não tenha o vozeirão esperado cantar, nem prestam atenção no samba, já julgam que ele não seja bom. Isso é um equívoco.
Pra ganhar se apela pra tudo. A escola que deveria tomar uma atitude, mas isso não acontece, e as pessoas mais humildes ficam de fora. Muitas dessas pessoas, são ótimos compositores. A minha torcida era composta pelos próprios frequentadores da escola, moradores de Padre Miguel, e não de outra comunidade como fazem hoje.
A mídia também não divulga mais o samba-enredo como antes, porque, por pior que seja a obra, as pessoas lembrariam mais. Todo mundo aprende funk, porque toca. Na minha época os sambas tocavam nas rádios, não apenas durante o carnaval. Com isso, sempre acabava caindo na boca do povo, muitas vezes até, no gosto das torcidas de futebol, que cantavam nos estádios, como por exemplo o meu samba de 86 ?pode rogar praga em minha sorte??. Era uma felicidade muito grande. Mas hoje, no baile de carnaval toca-se funk. É muito triste isso.
O bom é que no coração do carioca, o samba tem seu espaço. Pode estar tocando mais aqui, daqui a pouco mais ali, mas sempre estará tocando. Eu observo o modismo das feijoadas nas quadras. Seria uma grande oportunidade de se tocar sambas antigos, mas não, samba-enredo só no fim do dia com a apresentação da bateria. Durante o dia um grupo de pagode ou outra coisa.
Hoje não tem mais ala de compositores, desculpa. Tem uns que ainda tentam sobreviver. Isso porque hoje a vontade de ganhar dinheiro é maior do que a vontade de se ganhar samba. Na minha época fiz dois anos de estágio para conseguir estar apto à entrar para a ala de compositores. Ficávamos fazendo todo ano samba de quadra, até cair no gosto do povo. A partir daí, estávamos pronto. Hoje qualquer um entra pra ala, e se torna compositor de escola de samba. Não quero fazer protesto, mas ?escritório? hoje é uma realidade.
Sei que o samba evoluiu, não sou contra a nada, mas problemas vieram a partir disso. O dinheiro muda as intenções, é triste ver a cultura se perdendo. Em várias agremiações podemos ver batuqueiros e compositores que não são daquela escola em que se encontram. Tem compositor que vence em várias escolas, como pode? Não é que o samba não seja mais prioridade, não está sendo no momento. Há mais um grande equívoco. Outros setores e figuras na escola estão sendo mais importantes.
Acredito que o povo tenha que ter voz também na escolha de seu samba. O samba bom é o que o povo canta. O que é bom fica no ouvido, não adianta. Só cantando o lá laiá já é bom. A idéia da disputa está roubando a alegria do carnaval, e carnaval é alegria."
Com muitos anos de história de experiência, Tiãozinho da Mocidade veio reforçar os comentários dos amigos internautas, Paul e Donga.
A frase que fica para reflexão é a do amigo internauta Donga:"Queremos é samba com ou sem neon, o problema não é o Neon, mas a falta de samba".
* Estou indo novamente para Los Angeles. Domingo, dia 28 de setembro, estarei ao lado de meu amigo Alex de Oliveira, Rei Momo Carioca, desfilando em Long Beach, pela Escola de Samba Sambalá. Vai ser uma emoção diferente, acredito. Retorno para as finais de samba, porque como boa sambista, não poderia perder, não é mesmo?
Voltei, aqui é meu lugar...
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 21/08/2008 19:39
Retorno ao Brasil depois de duas semanas nos EUA, e, na bagagem, não trago nenhuma moda americana. Trago mais Brazil para o Brasil! Pois é, além de passar duas semanas estudando inglês, fazendo contatos e passeando, visitei locais nos quais me senti pertinho de casa. Fui à Casa do Samba, conheci uma escola de samba e participei de uma Noite de Samba. Existe samba de primeira em Los Angeles, feito por brasileiros e por gringos com ginga brasileira. O que esses brasileiros e americanos têm em comum: a paixão pela nossa cultura. Como diz meu amigo David de Hilster, americano, presidente da escola de samba SambaLá: ele é um carioca da clara (por ser branquinho), pois a essência é totalmente carioca, é um sambista nato, que canta samba e toca todos os instrumentos.
Em plena quinta-feira, dia 07 de agosto, eu estava curtindo um pagode com o Grupo SambaJah. Foi super divertido. Algumas músicas, que são novidades lá, já são mais antigas aqui, aí vivenciei aquele momento saudade.
No dia seguinte fui à Casa do Samba. Lá o esquema já foi diferente; nada de pagode, somente samba, com bateria ao vivo. Não são muitos ritmistas, mas o suficiente para fazer um batuque bacana no ambiente. A Casa do Samba é comandada pelo Bia Ferreira e pelo Israel Ferreira. Toda sexta-feira acontece o ensaio num Bar/Clube, onde a bateria se apresenta com seu Mestre Sidney Lisboa, e sua Rainha Diane. Israel segue os passos do pai, Luiz Ferreira, que em 1992, fundou a MILA (Mocidade Independente de Los Angeles), que hoje não existe mais.
Sambei bastante e vi muitas pessoas diferentes sambando. Nosso ritmo realmente contagia a alma. As pessoas parecem não cansar. Enquanto tiver batuque, elas estarão no meio do salão. Os brasileiros matam a saudade e quem não é brasileiro embarca na folia. Senti muito orgulho de ser brasileira. Foi bonito de ver nossa cultura sendo mostrada de uma forma tão autêntica.
Agora, bonito mesmo é o trabalho da SambaLá. SambaLá é uma escola de samba fundada em 1994 e que desfila com aproximadamente 500 pessoas em Long Beach todo ano durante o verão californiano. Este ano o desfile será no dia 28 de setembro. Tive o prazer de ser convidada para ser a Rainha do Carnaval de Los Angeles, ao lado de meu amigo, Rei Momo, Alex de Oliveira.
O presidente da escola é o David de Hilster, o mesmo que, no ano 2000, conseguiu levar para a Marquês de Sapucaí a escola de samba Unidos do Mundo. Desfilaram abrindo o Sábado das Campeãs. Foi um projeto corajoso, conseguir reunir pessoas do mundo inteiro para desfilar.
Foi lindo, lembro que foi um espetáculo inusitado. Martinho da Vila compôs o samba, e Neguinho da Beija-Flor veio cantando. David também estava no carro de som. Tomara que o projeto aconteça novamente, o que é desejo de David. O trabalho que a SambaLá desenvolve é impressionante. Ao lado de sua esposa, Doris de Hilster, e de sua Madrinha de Bateria Valeria Ruggieri, eles dão aulas de samba, promovem eventos, dão palestras, workshops e têm seu próprio ateliê.
Participei da gravação do samba-enredo para o próximo carnaval, que homenageará as crianças. A intérprete chama-se Renni Flores. Agora, faltando um mês para o carnaval em Los Angeles, todos por lá estão no mesmo pique que vivemos aqui, uma correria só. Começam a virar noites para finalizar os últimos detalhes. Chegarei lá três dias antes do evento, nos últimos preparativos, no meio da adrenalina. Confesso que gosto. Afinal, quem gosta de carnaval mesmo, adora esse pique, esse clima dos bastidores.
Falando em bastidores, voltei numa época das mais quentes, senão a mais quente do mundo do samba: os cortes de sambas. Adoro essas discussões de quem deve vencer, de qual samba é o melhor... Isso que nos torna cada vez mais apaixonados por essa festa linda chamada Carnaval.
Quem quiser conhecer mais sobre:
SambaLá: www.sambala.org
Casa do Samba: www.casadosamba.com
Grupo SambaJah: www.samba-jah.com
Chaguismo versão 2008
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 30/07/2008 23:33
Em 27 de fevereiro de 1980, a revista Veja publicou uma matéria com o título "Samba de uma nota só" No subtítulo: "Um carnaval com três vencedoras. A Riotur, o bicho e a política conseguiram o impossível: um desfile de escolas de samba sem perdedoras".
A Beija-Flor, a Portela e a Imperatriz Leopoldinense empataram em primeiro lugar. E três escolas dividiram o segundo lugar: Vila Isabel, União da Ilha e Mocidade Independente de Padre Miguel. Mas, de todas, a que mais festejava era a Unidos de São Carlos, com o último lugar. O motivo? Bem, esta não era protegida por bicheiro, mas pelo então deputado Miro Teixeira, herdeiro presumível do governador Chagas Freitas, jornalista e político brasileiro. Após chegar ao governo do Estado, seu nome deu origem a uma fase política chamada chaguismo - uma forma particular de utilizar a máquina pública estatal para vencer as eleições por meio de acordos políticos e apoio às lideranças locais. Com isso, Miro Teixeira conseguiu a anistia da agremiação, ou seja, não foi rebaixada como deveria.
Segundo Veja, Miro Teixeira, tinha um fraco pela Unidos de São Carlos, mas cuidava de todas. Passava a noite, a madrugada e a manhã de segunda para terça, depois do desfile de domingo, assistindo à exibição do grupo da segunda divisão das escolas, na época chamado de Grupo 2. Aplaudia, em local visível, todas as agremiações e beijava todas as bandeiras das escolas, hábito que foi inaugurado por Negrão de Lima em 1969, quando beijou o pendão verde-e-rosa da Mangueira. Essa rotina rendera a Miro Teixeira dois títulos: o de deputado mais votado do país, mas também o de campeão de beijos, claro.
Estamos agora em 2008. Será que mudou? Não, nada mudou. Aproveitando-se de que o carnaval é um laço social, políticos e candidatos nas próximas eleições já começaram sua campanha pelas escolas de samba e pelos órgãos administrativos responsáveis por elas.
O candidato à prefeitura do Rio, Eduardo Paes, já visitou a quadra do Salgueiro, a quadra da Vila Isabel, e já participou de um encontro na sede da Associação das Escolas de Samba, onde prometeu bancar o Condomínio do Samba (barracões para escolas do Grupo A) .
O também candidato à prefeitura do Rio, Marcelo Crivella, visitou a Mocidade Independente e também já foi recebido na Liga Independente das Escolas de Samba, e disse que o projeto Condomínio do Samba é totalmente viável e diz, também, que quer investir nos carnavais de bairro e nos Grupos de Acesso, que estão em péssimas condições, mas que geram emprego e renda.
A Liesa, democraticamente, está de portas abertas ouvindo os candidatos que a procuram com idéias sobre o mundo do carnaval.
Apenas o candidato à prefeitura Paulo Ramos não visitou a Liesa, e fez críticas à visita de Marcelo Crivella. Achou um absurdo Crivella beijar a mão de um integrante da Liesa, pois considera um segmento alvo de ações criminais numerosas. Paulo Ramos disse ainda que, na sua administração, o comando do carnaval não pertencerá mais à Liesa.
Enfim, há um ditado que diz o seguinte: em eleição vale tudo. Será mesmo? Começando pelo candidato Paulo Ramos, acho que ele tem o direito de não querer ir à Liesa, mas hoje esta instituição exerce um papel importante na definição dos rumos do carnaval. A meu ver, é precipitado ter como finalidade sua extinção pura e simples, sem uma discussão mais aprofundada sobre o impacto dessa decisão. A declaração soa como um rompante de campanha eleitoral; além disso, falta um complemento, uma alternativa à idéia de tirar o carnaval da responsabilidade da Liesa.
Sobre a ida de outros candidatos, no entanto, vejo como algo positivo. Seria tão bom que as escolas de samba, diferentemente do passado, pudessem ter a parceria - verdadeira - do poder público, sem que a isso estivesse atrelada a barganha do voto fácil. É no dia dos desfiles das escolas de samba que vemos uma verdadeira multidão de políticos, alguns travestidos de folião, outros de componentes, geralmente usando uma camisa de diretor e com um compromisso ímpar de beijar e apertar mãos.
Todas as escolas precisam do poder público, de uma forma ou de outra; o que contesto é esta aproximação em período eleitoral, pois a escola de samba não pode ser tratada como curral eleitoral. O que candidatos e políticos devem fazer é procurar as agremiações e as entidades representativas com propostas e idéias que visam ao aprimoramento e tragam benefícios ao carnaval. Isso está longe do conceito do troca - troca do chaguismo carnavalesco. E, nas atuais circustâncias, muito perto da utopia.
O céu recebe musas da alegria
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 21/07/2008 09:35
No início da tarde de sábado, ao acessar os sites de carnaval, deparei com uma notícia que muito me emocionou. No fim da tarde, outra notícia me surpreendeu. No intervalo entre as duas, reflexões, muitas reflexões.
Os leitores, evidentemente, já sabem do que se trata.
Dolores Gonçalves Costa, a querida Dercy Gonçalves, sempre será lembrada por sua alegria de viver. Atriz e comediante de expressão única, sabia como arrancar boas risadas de seu público, com seu jeito polêmico e escrachado.
No carnaval, ficou marcada com a homenagem feita pela Viradouro em 1991, com o enredo "Bravíssimo - Dercy Gonçalves, o retrato de um povo", onde, mais uma vez, surpreendeu a todos desfilando com os seios à mostra.
"Ah! Obrigado Dercy,
Mercy, Dercy !
Abriu-se as cortinas pro seu show
São cinco letras a sorrir"
Mas, se há uma coisa que me faz lembrá-la, são as chanchadas. Já escrevi aqui, há pouco tempo, sobres esses filmes com estética carnavalesca - em muitos dos quais Dercy nos encantou com sua espontaneidade na interpretação, ao lado de grandes parcerias, como Grande Otelo, Chico Anysio, Costinha e Zé Trindade, entre outros. Por ser cineasta, tive o prazer de assistir a praticamente todos os seus filmes. O de que mais gosto chama-se "Entrei de Gaiato", de 1959, que é simplesmente impagável. Ao morrer, já havia recebido as flores em vida.
Antes de saber da passagem de Dercy, chorei, baixinho, a morte de Jacqueline Nascimento. Rainha, musa, princesa. Os adjetivos conquistados por ela no carnaval não eram maiores do que os adjetivos que qualificavam sua pessoa: alegre, simpática, doce.
Tinha apenas 31 anos. Muito ainda havia por conquistar. Por que ir embora tão cedo? Por que não deixá-la viver mais décadas, terminar de construir uma obra que estava começando? São perguntas naturais, nascidas da dor, da revolta; eu mesmo as fiz, antes de muito refletir. Mas a ausência de respostas apenas amplia a angústia. Não é consolo: os desígnios de Deus são tão grandes, tão grandes que jamais conseguiremos apreendê-los, e é isso, por mais estranho e paradoxal que seja, que torna a vida bonita, misteriosa, radiante.
Hoje o céu está mais alegre. Acaba de receber duas musas. Sei que muitos não acreditam nisso. Não faz mal. Encerro este texto com um poema de Bruno Tolentino, chamado "Flautim", que resume nossos sentimentos:
Guardaremos juntos
os acertos, breves,
os enganos, fundos
e aquele remoto
amparar de parcos,
altivos escolhos.
Cairão o signo
e a secreta cinza
desse ardente enigma.
Não lamentaremos
mais que o desencontro
dos humanos termos,
a rápida marca
que o passado imprime
na face, na máscara,
e os puros despojos
que às vezes são versos
e sempre são ossos.
Não diremos nada
dos velhos desejos
que a memória abraça,
sem qualquer palavra
não recordaremos
o que nos pesava,
mas apenas isso
que nos pese ainda:
ter vindo, ter sido.
O destemido Paulo Barros
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 12/07/2008 11:26
"Acreditar, desafiar
Superar os limites do homem
Brincar de Deus, criar a vida
Querer voar e flutuar"
Em 2004, a Unidos da Tijuca acreditou no até então "desconhecido" carnavalesco que vinha do Grupo de Acesso, e ele desafiou, superou os limites, brincou de Deus, e levou para a avenida o carro "Criação da Vida", o tão famoso carro do DNA, ganhando o Estandarte de Ouro na Categoria Revelação. Do alto do carro, figurantes coreografaram com os braços, simulando a presença e o movimento dos genes humanos. Foi um desfile sensacional, realmente, em todos os segmentos. Foi assim que o mais polêmico dos carnavalescos dos últimos anos começou sua trajetória no Grupo Especial. Paulo Barros passou a ser conhecido como ousado, inovador, carnavalesco das "alegorias humanas". Voou do Acesso para o Especial e flutuou na fama repentina.
O impacto de seu trabalho foi tão forte que gerou expectativa em torno de seus desfiles. Não aceitariam que seus desfiles fossem inferiores ao de 2004, ou menos ousado. Pois é, a fama lhe trouxe ônus e bônus.
Vejo várias pessoas criticarem o trabalho de Paulo Barros. Por que será? Será que a culpa é dele mesmo, ou do tal assédio da mídia em torno de seu nome, devido ao repentino sucesso de 2004?
Não estou aqui para defendê-lo ou dizer que gosto 100% de seu trabalho, até porque não gosto de tudo. Gosto é gosto, e cada um tem o seu. O que mais gosto em Paulo Barros é a coragem que tem em ousar, não se importando se sua arte está nos padrões estéticos convencionais. Aliás, convencional ele não é nem um pouco. Não tem medo de externar sua arte da forma como pensa, como sente.
Porém, os critérios de avaliação no Carnaval ainda são muito subjetivos. As escolas são avaliadas de forma comparativa. Então, como avaliar um carnaval de Paulo Barros, se a cada ano ele se distancia do carnaval das outras escolas, quase criando uma nova forma de carnaval? Cabeça de jurado ninguém entende. Quando deparam com esta situação então, tudo pode acontecer.
Sua obra é um tanto quanto expressionista e surrealista, muitas vezes se torna transgressora demais. Após o carnaval de 2008, Bruno Filippo, coordenador do Instituto do Carnaval e colunista do site O Dia na Folia, escreveu em sua coluna "Acadêmicos do samba" o artigo intitulado "O carnaval descarnavalizado de Paulo Barros". É isso mesmo: o que conhecemos sobre desfile de escola de samba está muitas vezes longe de ser o que é apresentado em alguns momentos no desfile de Paulo Barros. Um grande artista; mas, para que seja melhor compreendido, talvez tenha que se adaptar às regras do sistema, e isto me parece ser uma questão agressora a seus ideiais, extremamente particular, para o artista que é. Dosar sua ousadia com a carnavalização que todos esperam, sem perder seu estilo próprio, pode ser a solução, mas não sei se ele estaria disposto a aceitar este enquadramento.
Em 2009 teremos Paulo Barros em dose dupla; no Acesso pela Renascer, com a parceria de Paulo Menezes, e na Vila Isabel, com a parceria de Alex de Souza. Essa parceria com carnavalescos mais tradicionais, talvez traga o que citei anteriormente: uma ousadia sem perder a carnavalização. Desejo sorte as duas escolas.
Enfim, para os amantes das artes, das boas idéias, da transgressão artística, da ousadia, do novo, da representatividade sob um novo ângulo e da imprevisibilidade, a sua importância vai além do que ele seria capaz de "aprontar". E a mais pura verdade é que, goste-se ou não dele, todos o esperam na avenida.
Torcedores, façam suas apostas
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 03/07/2008 01:47
Nos anos 80, a revista britânica The Economist - uma das mais influentes publicações do mundo - pediu a um grupo de economistas que fizessem previsões sobre os rumos da economia mundial nos dez anos seguintes. Fez a mesma enquete com um grupo de garis. Uma década depois, cotejou as previsões. Sabe quem acertou mais? Isso mesmo: os garis!
Essa história me voltou à mente após o sorteio da ordem dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial, que aconteceu na última segunda-feira de junho. Pensei: será mesmo que, através da sua ordem de entrada na passarela, podemos dizer que uma e outra são favoritas? Bem, na verdade não, mas nós assim o fazemos, inclusive eu. Eu acho tão engraçado. São tantas opiniões. Bom, vamos por partes, para me fazer entender.
Assim que acaba o carnaval, começam os troca-trocas. Com isso, dependendo das mudanças, algumas pessoas já começam a dizer, por exemplo: "Olha, se "fulano" foi para lá, é porque ano que vem essa escola vem com tudo!", entre outros comentários, já querendo advinhar se uma escola ou outra virá entre as melhores ou piores.
Passa mais um tempo, e começam a surgir os temas dos enredos, sem as sinopses. Mais uma vez, começam a avaliar a escola, e já decidem até as que poderão cair de grupo.
Acontece, em seguida, o tal evento que me fez parar para pensar, o sorteio da ordem dos desfiles. E aí, então, é como se as escolas já soubessem se terão sorte ou azar, de acordo com o dia de desfile e a ordem de apresentação.
Bom, lá para agosto, teremos a apresentação dos enredos, num outro evento. Mais uma vez, os amantes do carnaval farão suas apostas, e muitos já terão esquecido até da ordem do desfile. Falarão das escolas que se destacarem na noite - e, mais uma vez, serão apontadas as favoritas, que não necessariamente têm de ser as mesmas citadas anteriormente, enquanto se analisavam apenas ordem de desfile e tema.
Passaremos em seguida pelas escolhas de sambas-enredos... Outra fase "quente" no mundo do samba, em que as emoções ficam à flor-da-pele. Nesse momento, se a escola que estiver abrindo o desfile, escolher um bom samba, já deixará de ser uma escola que teve azar no sorteio e passará a ser a escola sortuda, que levantará a avenida.
Quase terminando o ano, acontecem as festas para exibirem as fantasias. Dependendo do protótipo, a escola que, até aquele momento, não estiver com uma boa ordem de entrada, com um bom enredo, com um bom samba, mas com lindas fantasias, luxuosas, passará a ficar entre as melhores, e candidatas ao título.
Às vésperas do carnaval, então, já começam a aparecer até as supostas campeãs, só pelas visitas aos barracões.
Bem, a essa altura, tanto faz se a escola estará abrindo ou fechando o carnaval.
Deveríamos arquivar os comentários que nós, especialistas, fazemos a cada evento que antecede o carnaval, para que possamos ter noção mais exata de como é difícil antever o que se passará na avenida. Não há ensaio, protótipo, sorteio, samba-enredo, enredo que antecipe a campeã do carnaval. E que bom que seja assim! Nada mais chato do que algo previsível.
Não existe mais quente
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 24/06/2008 04:10
A terceira edição da feijoada da Estrela Guia, realizada no dia 15 de junho, na quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel, marcou o retorno de Andrezinho, filho de Mestre André, para escola. Ele desempenhará a função de coordenador de bateria, ao lado de Jorjão e Mestre Jonas.
Que tarde maravilhosa Andrezinho nos proporcionou! Ele levou, para se apresentar na quadra, a BN10 Velha Guarda do Ritmo de Padre Miguel. Foi sensacional! Foi difícil não se emocionar!
BN10 significa Bateria Nota 10, e "Velha Guarda do Ritmo de Padre Miguel" surgiu porque, na década de 70, nas carteiras dos ritmistas não vinha escrito bateria, e sim, Ala Mocidade do Ritmo.
O Mestre da Bateria Nota 10 chama-se Celso "Meu Querido". Num determinado momento, ele bate com o dedo no chapéu (que significa um sinal para os ritmistas), começa a sambar e, de costas para a bateria, tira o chapéu. Nesse momento, a bateria pára. Cumprimenta o público à sua direita, abaixando a cabeça e o chapéu, e levanta-se, respondendo à ovação que acabara de receber. Faz o mesmo à frente, e no lado esquerdo. Logo em seguida, dá um giro colocando o chapéu, e a bateria sobe, tocando muito. Essa "coreografia" era feita por Mestre André, e Zé Bolinho fez questão de manter. Há um momento em que eles parecem se desentender, simulam uma briga, mas tudo não passa de uma abertura para que Celso do Agogô se apresente, em seu momento solo.
Depois, também num momento solo, Lindomir da Cuíca, tocando ?Samba de uma nota só?, é um show à parte.
À frente da bateria, Madrinha Celi, que conhece como ninguém seus afilhados.
A alegria, o sorriso no rosto, o prazer desse ritmistas em tocar nos cativam e os tornam diferentes. São verdadeiros artistas. Sentem a música com o coração.
O grupo surgiu em 2003, fundado por André, mais conhecido como Zé Bolinho. Na época, conta ele, uns empresários italianos tinham um projeto para umas apresentações na Quinta da Boa Vista, e queriam um grupo de 80 ritmistas da Mocidade, tocando com o swing das décadas de 70, 80 e 90. O projeto nunca se concretizou, mas a BN10, depois de formada, nunca mais parou. Já fizeram apresentações em diversos lugares, e sempre emocionam por onde passam.
Zé Bolinho entrou na bateria da Mocidade em 1969. Saiu em 2002, onde já era diretor da bateria ao lado de Mestre Coé. O motivo, diz ele, foi não concordar com as modificações que o ritmo vinha sofrendo, tornando-se cada vez mais acelerado. Hoje, Zé Bolinho é o presidente da BN10, que, com ele, soma 32 ritmistas, todos discípulos de Mestre André, e esses mantêm a mesma essência, o mesmo swing, a mesma cadência - o que não significa ser arrastado nem veloz. Simplesmente se consegue viajar no ritmo.
A BN10 retorna à Mocidade para ficar. Até o nome está sendo modificado para BN10 Velha Guarda do Ritmo da Mocidade Independente. Como será essa integração eu não sei; só sei que os jovens ritmistas daquela comunidade terão a oportunidade de aprender com a raiz do ritmo da escola. E, no futuro, quem ganha é a nossa cultura, o nosso samba e o nosso carnaval.
Enfim, o retorno de segmentos importantes acende, definitivamente, a luz no fim túnel da Mocidade. O retorno da BN10 passa a ser emblemático e de uma importância muito grande. Muitos ritmistas, que estavam afastados da agremiação, retornam seguindo o exemplo da BN10, reforçando o carro-chefe da escola, que é sua bateria. E, com isso, o novo nome dado à bateria por Andrezinho tem mais do que um simples efeito de palavras, reafirma as tradições da escola e vislumbra um futuro vitorioso a ser alcançado. Lá vem a bateria da Mocidade Independente - Não existe mais quente!
Obrigada, Mestre
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 14/06/2008 14:18
Não apenas o mundo do samba, mas também a música popular brasileira perde um dos seus maiores intérpretes. Com uma afinação sem igual, José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão, cantou e nos encantou com sua voz marcante.
O maior dos mangueirenses e ícone do nosso carnaval nos deixará saudades.
Obrigada, Mestre, pelos seus ensinamentos e por toda contribuição à nossa cultura brasileira.
"Jamelão teu passado de glória
está gravado na história
é verde e rosa a cor da tua bandeira
pra mostrar a esta gente
que o samba é lá em Mangueira"
O futuro do carnaval
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 09/06/2008 18:08
Nasci num dia de carnaval. Quando era criança, meus pais me fantasiavam e me levavam para brincar num coreto perto da minha casa. Carnaval e aniversário sempre se misturavam, fazendo do carnaval uma grande comemoração e da minha comemoração um grande carnaval! Em casa, ficava vidrada na tv, assistindo aos desfiles. Não tive a oportunidade que muitas crianças têm hoje de brincar desfilando nas escolas mirins. Mas, agora, sempre desfilo ao lado delas na Estrelinha da Mocidade, escola com a qual, pelo terceiro ano consecutivo, tenho o prazer de colaborar.
Em 2007, tive a honra de ser presidente da Estrelinha. Por isso, posso falar deste universo ainda desconhecido. A construção do carnaval de uma escola Mirim é tão trabalhosa quanto a de uma escola de samba adulta. Procedimentos como escolha de enredo, de samba-enredo, ensaios etc em nada diferem dos da "escola-mãe". Pude observar a competição (salutar, diga-se de passagem) entre a criançada. Muitas com um veio artístico precoce e um comprometimento de quem, como a criança que escolheu seu time de futebol influenciado pela família, herdou o amor ao carnaval daqueles que as levaram para se integrarem a uma escola mirim.
A escola mirim não é apenas diversão, mas também trabalho social - e bota trabalho nisso, ufa! É onde as "escolas-mãe" também contribuem com sua comunidade, tirando parte da criançada das ruas, oferecendo cursos, criando uma identidade interpessoal e revelando novos talentos, além de muitas outras atividades. Talvez muitos não saibam, mas as crianças, para desfilar, têm de estar matriculadas na escola, o que se torna um incentivo a mais para que elas estudem.
Na sexta-feira de carnaval acontece a abertura oficial do carnaval carioca, com o desfile das escolas mirins. O Rei Momo e sua Corte Real, após receberem das mãos do prefeito do Rio de Janeiro a chave da cidade, encaminham-se para a Marquês de Sapucaí, onde então, simbolicamente, abrem a Passarela do Samba.
O desfile começa cedo, por volta das 17h. É um dia de intensa movimentação na cidade, principalmente no Centro do Rio, devido aos preparativos para o carnaval. Há pessoas que vão viajar, há as que brincarão o carnaval em outros locais, longe de toda a multidão que estará assistindo, ao vivo, aos desfiles. Com isso, a atenção com as crianças fica dobrada.
A organização do desfile fica por conta da AESM-RIO (Associação das Escolas de Samba Mirins), à qual dezessete agremiações são afiliadas. Cada escola desfila, nos trinta minutos estipulados, com número de componentes que varia de 1000 a 2000 crianças. Todas as crianças desfilam com um crachá pendurado no pescoço, e nele constam os dados sobre ela e sobre seu responsável. A parte "adulta" da escola se faz presente organizando o desfile e tomando conta dos pequeninos.
Realmente é um dia mágico, pois a abertura oficial do carnaval começa com a pureza e a beleza das crianças. Elas não concorrem entre si, isto é: não existe 1º, 2º lugar e etc.
É emocionante ver um "pequenino" ou "pequenina" sambando, ou tocando como "gente grande". Este é o nosso Brasil, de artistas natos, de pessoas que nascem com a cultura à flor da pele, principalmente o carioca, pois nasce no berço do samba.
As crianças parecem ensinar aos mais velhos como se comportarem num desfile, porque dão um show de espontaneidade e alegria de viver. A pureza que vem da alma contagia a avenida e nos inunda de emoção, fazendo com que "gente grande" volte a se sentir criança novamente. Bem, ao menos é assim como me sinto... Feliz como uma criança... Hum... Deu uma saudade danada agora do carnaval... É assim mesmo. Para quase tudo a saudade dá e passa, mas, para os amantes do carnaval, nunca passa; na quarta-feira de cinzas já estamos com saudade de novo! Ah... Carnaval... Contagiante, emocionante, envolvente......
Enfim, neste universo das coisas boas da escolas mirins, existem também suas dificuldades. Não poderia deixar de mencionar a falta de apoio do poder público, e o não engajamento de empresas que fundem seus interesses com o social. As escolas mirins são uma grande oportunidade de diminuir este distanciamento social existente. Por intermédio delas, seria possível atender uma enorme quantidade de crianças que estão fora do extrato social, criando condições de inclusão social. Este trabalho, infelizmente, ainda não mereceu a atenção devida dos diversos setores da sociedade. Com isso, as escolas mirins são obrigadas a fazer um grande esforço que, na verdade, não são percebidos por muita gente, até mesmo da grande mídia. Na verdade, para grande mídia, carnaval só acontece domingo e segunda. Mas isso já é outro assunto.
O Carnaval no cinema
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 02/06/2008 00:32
No curso de férias "Cinema e Carnaval", que ministrei no Instituto do Carnaval, da Universidade Estácio de Sá, enfatizei que o samba e o carnaval sempre estiveram, ao longo das décadas, representados no cinema. Desde 1908, quando foi feito o primeiro registro em película do carnaval brasileiro, os dias de folia nunca mais saíram das nossas telas, mesmo que periodicamente aconteça um hiato entre produções do gênero.
A chanchada foi o genêro que marcou a cultura carnavalesca nas telas, pois, mesmo com todas as críticas, lotou as salas de cinema, sendo um sucesso de público nas décadas de 30, 40 e 50.
O Cinema Novo trouxe à estética carnavalesca a realidade do cotidiano da época, e grandes obras do gênero foram realizadas, como por exemplo, o filme "Rio 40º", de Nelson Pereira dos Santos, onde mostra o cotidiano carioca através de um olhar neo-realista. Com esta crônica generosa, singela e abertamente influenciada pelo cinema italiano do pós-guerra, Nelson Pereira dos Santos provou ser possível produzir filmes mais baratos e autorais no Brasil. A música "A voz do morro" de Zé Kéti (ele também participou do elenco) fecha com chave de ouro o filme.
Nas décadas seguintes apareceram outros gêneros, deixando um pouco de lado a narrativa carnavalesca, como a pornochanchada, filmes de caráter policial, político, o Cinema Marginal, e etc. O cinema brasileiro entrou em produção quase zero, na década de 90, devido à Lei Sarney, ao fim da Embrafilme e ao fim da reserva de mercado para o filme brasileiro.
De alguns anos para cá, observamos a ascensão novamente do cinema brasileiro, num todo; e também, de forma ainda tímida, a retomada de produções voltadas ao universo do carnaval.
Entre os dias 14 e 25 de maio aconteceu o Festival de Cannes. Um dos eventos cinematográficos de maior expressão no mundo teve o samba em sua lista de exibições, e encerraria, com chave de ouro, o Festival no domingo passado, dia 25. Infelizmente, não ocorreu devido ao mal tempo e fortes ventos. O local onde seria projetado o filme era ao ar livre, nas areias da praia de Cannes, e a organização decidiu cancelar a exibição.
O documentário "O Mistério do Samba" com a direção de Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda, apresenta histórias que o grande público desconhece. O longa-metragem fala sobre a história e o cotidiano dos integrantes da Velha Guarda da Portela. Em vários momentos, a cantora Marisa Monte conduz as entrevistas. Também no filme estão presentes Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho, freqüentadores e admiradores da Portela.
O projeto, que teve início há 10 anos, foi idealizado quando Marisa Monte, fazendo as pesquisas para o CD Tudo Azul, começou a resgatar a obra musical dos compositores da Velha Guarda da Portela. A cantora se apresenta como co-produtora e co-roteirista, trazendo ao filme um olhar mais próximo da realidade, mais natural.
Este ano o cinema brasileiro foi agraciado com um importante prêmio no Festival. Uma atriz brasileira ganhou a "Palma de Ouro" por sua excelente interpretação no filme "Linha de Passe", de Walter Salles e Daniela Thomas. Sandra Corveloni interpreta Cleuza, uma empregada doméstica que criou sozinha os quatro filhos e está grávida novamente de mais um pai desconhecido.
Enfim, para o mundo do samba seria muito importante que mais produções sobre a cultura carnavalesca fossem produzidas. Agora, vamos ter que segurar a curiosidade e esperar até agosto para assistirmos ao documentário, pois é a data prevista para ser lançado aqui no Brasil.
É o amor
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 24/05/2008 03:05
Domingo, dia 18 de maio, aconteceu na quadra da Mocidade Independente a segunda feijoada da Estrela Guia, em que a principal atração foi o novo intérprete da escola, Wander Pires. Sou vegetariana, mas acredito que a feijoada estivesse maravilhosa, porque Tia Nilda e suas baianas são craques no samba e na cozinha. Mas sobre o Wander Pires, hum... Foi emocionante seu retorno! Ao subir no palco cantando a música Sangrando, de Gonzaguinha, sua interpretação me fez refletir sobre esta belíssima poesia.
Sangrando
(Gonzaguinha)
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando
Coração na boca, peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando
Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça e emoção
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é minha força pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de dizer o que é amar
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é minha força pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de dizer o que é amar
Esse momento me fez pensar no quanto nos identificamos com as vozes dos intérpretes, e com seus gritos de guerra.
"Alô, meu povão de Padre Miguel!!! A hora é essa!!!"
"Olha a Beija-Flor aí gente, chora cavaco!"
"Aaaaaaaarrepiaaaa Salgueiro! Pimba, pimba. Ai, que lindo! Que lindo!"
E muitos outros.
Quando a sirene toca na avenida e é anunciado o início do desfile, o grito de guerra vem para embriagar, para mexer com o componente, tendo a força de uma ordem. Mexe tanto com a gente que, sem ele, seria como não ter o start. Como uma senha, é a combinação entre o intérprete e todos os torcedores e componentes daquela agremiação, o que dá início a um uníssono e contagiante canto capaz de arrepiar a todos que estiverem entregues ao momento.
É o grito entalado na garganta de meses e meses de trabalho, de expectativa, de ansiedade, de crença em que sua escola fará o melhor de si.
É o grito de quem trabalhou no barracão, na quadra. É o grito de quem quer liberar o estresse e ter seus minutos de felicidade, independentemente do resultado na apuração. Você observa o brilho nos olhos, os tremores nas mãos, os corpos suados transbordando raça e emoção, e o sal molhando esses sorrisos, pois as lágrimas não saem apenas dos olhos, mas também do coração.
Por isso, intérpretes queridos, profissionais que admiro, ao soltarem suas vozes, não precisam dizer "por favor, entenda", porque entendemos perfeitamente que é o jeito de vocês de dizer o que é amar.
Luma “polêmica” de Oliveira – Parte II
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 12/05/2008 18:14
Mundo do samba, as apostas estão encerradas: a musa Luma de Oliveira desistiu de concorrer à presidência da Viradouro.
Particularmente, gostaria de ver o exercício da democracia nesta escola de samba. Seria interessante o confronto de idéias e de objetivos; por um lado a Luma quebrando o "paradigma" e mostrando seu lado profissional; por outro, Marco Lira reafirmando que os rumos da Viradouro estão bem amparados em sua gestão.
Agora, já que resolveu declarar publicamente esse amor e essa preocupação pela Viradouro, ela poderia, então, ser mais atuante na agremiação, apoiar os trabalhos sociais e culturais, pois sua contribuição para a comunidade seria de muita importância, devido seu carisma e popularidade.
Ao que parece, ela não desistiu da idéia de concorrer à presidência da Viradouro: acredito que adiou momentaneamente. Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos.
Boa sorte, Viradouro! Espero que o presidente que esteja à frente desta querida escola, independentemente de quem seja, coloque-a no lugar de destaque que merece. E como falei anteriormente, espero que a comunidade entenda que a estrela maior é a própria agremiação, e que as pessoas passam e a instituição fica, pois esta sim é eterna.
Luma “polêmica” de Oliveira
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 11/05/2008 20:24
"Gosto de ser vista e admirada. Ainda mais no Carnaval, porque me sinto ao mesmo tempo súdita e rainha. Não chega a ser uma coisa sexual, mas é um prazer enorme, mais que uma sensação de poder" - Luma de Oliveira, modelo.
Arnaldo Antunes compôs a música seguinte, que se encaixa perfeitamente no depoimento de Luma para a revista "Época" em 2002:
Desce
Desce do trono, rainha
Desce do seu pedestal
De que te vale a riqueza sozinha, enquanto é carnaval?
Desce do sono, princesa
Deixa o seu cetro rolar
De que adianta haver tanta beleza se não se pode tocar?
Hoje você vai ser minha
Desce do cartão postal
Não é o altar que te faz mais divina, Deus também desce do céu
Desce das suas alturas
Desce da nuvem, meu bem
Por que não deixa de tanta frescura e vem para a rua também?
O mundo do samba ficou agitado nos últimos dias por conta da notícia de que Luma será candidata à presidência da Viradouro.
Musa de vários carnavais, como foliã e como rainha de bateria, Luma está disposta a quebrar o paradigma e mostrar que tem algo a mais a oferecer ao carnaval carioca.
Descendo de seu pedestal, hoje ela quer sentir a sensação de "poder" dentro de uma escola de samba, não mais à frente de uma bateria, e sim à frente da administração da Escola.
Inicialmente, confesso, fiquei surpresa. Ela conquistou a imagem de uma das mais belas e importantes personagens do carnaval do Rio de Janeiro. Ser presidente da Viradouro é um sonho acalentado por muitos, e realizá-lo exige percorrer uma longa estrada, o que nem sempre é bem sucedido.
A função de presidente de escola de samba exige comprometimento, dedicação quase exclusiva, além de um gerenciamento sob um modelo administrativo que muitas vezes foge ao aprendizado produzido em bancos escolares. Há momentos em que somente o conhecimento da comunidade, dos seus integrantes e da sua história produz a percepção necessária à tomada de decisões importantes para a agremiação.
Ser presidente de escola de samba significa entregar-se àquela comunidade, fazer da agremiação não a segunda casa, mas sim a primeira, porque é muito trabalho, muita responsabilidade. É toda uma história que está sob responsabilidade dele.
Antever como seria a presidência de Luma é impossível; só o tempo dirá se deixará marcas positivas ou negativas. Mas prejulgá-la por ser uma bela mulher e ex-rainha de bateria, é errado, injusto e preconceitusoso. Sei muito bem o que isso significa. Às vezes eu tenho minha capacidade questionada devido ao cargo que eu ocupo. As pessoas costumam enxergar as aparências, e não o conteúdo. Por isso, louvo a atitude de Luma, de querer mostrar que tem capacidade de comandar uma escola de samba.
Sua vontade é justa, e faz parte da democracia. Agora, que seria uma grande novidade no mundo do samba e do carnaval, ah!, isto seria.
Desejo boa sorte à comunidade da Viradouro, e que no dia 25 de maio, sendo eleito Marco Lira ou Luma de Oliveira, a comunidade entenda que a estrela maior é a própria agremiação. As pessoas passam e a instituição fica, pois esta sim é eterna.
Sonho ou realidade?
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 03/05/2008 13:09
Acordei tranquila. Fui até a cozinha preparar minha saladinha de frutas. Em seguida, fui ao computador ler as notícias do mundo do samba no site SRZD Carnavalesco. Ao abrir a página, tomo um susto tão grande que chego a engasgar com as frutas. A cada atualização, mais notícias do gênero apareciam na tela:
"Mestre Átila acerta sua ida para a Beija- Flor; Mestre Paulinho, indignado, está conversando com a Portela".
"Neguinho da Beija-Flor disse que a comunidade de São Gonçalo o recebeu muito bem, e que não tem este negócio de sua família ter sido agraciada com cargos na prefeitura".
"Monarco, para o carnaval 2009, escreverá para a Imperatriz"
"Tia Nilda, da Mocidade, agora rodopia com as baianas do Salgueiro".
"Delegado é o responsável pela escolinha de mestre-sala da Unidos da Tijuca, onde desfilará no abre-alas".
E as notícias não paravam... Até que… Acordei! Ufa, que pesadelo!
É tão aburdo o que escrevi acima que resolvi parar. Poderia continuar falando de tantas outras figuras importantes que tiveram um casamento indissolúvel com sua escola de samba de coração. Isso foi apenas uma brincadeira para ilustrar as seguintes questões: será que o samba e o carnaval seriam os mesmos dos dias atuais se sambistas, como os citados, tivessem trocado de escola? Será que as escolas seriam como são? Será que o espetáculo na avenida seria o mesmo?
É… tempos modernos. E as perguntas teimam em sair de minha mente: Será que a modernidade se traduz em rodízio? Em prazo de validade? A cada ano nasce um "amor" diferente por uma nova agremiação… Sei, sei… Mais uma vez: profissionais do samba versus sambistas. Tudo bem, mais onde termina um e começa o outro?
Antes dessa tal modernidade e evolução chegarem, produziam-se verdadeiros apaixonados que não trocavam de camisa; que, com suas contribuições, deixaram um legado que remete ao sucesso que o carnaval representa nos dias atuais.
Naquela época não existia o vira-casaca. Recentemente, vi um famoso jogador de futebol do Botafogo, meu time, dizer que, em toda sua vida, só vestiu a camisa do Glorioso e da seleção. Enfim, foi com este espírito que tive esse sonho louco, mediante a tantas realidades atuais de nosso samba e de nosso carnaval.
Não existe fruto sem raiz
Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 23/04/2008 18:37
Para ser membro de uma Velha-Guarda é preciso "ter passado". Parece trocadilho, mas não é. Detentora do saber e da tradição, representa o reduto de bambas dentro da agremiação. Muitas vezes fechando o desfile, vestem-se com elegância, destacando as cores da escola. Alguns carnavalescos tentam fantasiá-los, mas isso não os agrada muito, pois querem manter sua sobriedade. Querem apenas passar pela avenida cantando o samba, divertindo-se como foliões.
Muitos não conseguem segurar as lágrimas que teimam em rolar pelo rosto que carrega toda a vivência e dedicação ao samba. Embora não conte pontos no desfile, todas as escolas levam para a avenida com muito carinho e respeito sua ala de sambistas veteranos.
Hoje ainda temos o privilégio de conviver com muitos sambistas que viram a sua escola de samba nascer, e estão aí para contar a sua história, transmitir aos mais jovens suas experiências. São o nosso passado vivo. Tenho certeza de que a vida de muitos daria ótimos livros recheados de histórias, experiências de vida e ensinamentos. Quanto saber que aos poucos o tempo vai levando… Vários livros sobre samba e carnaval que já li, confesso, não diferem muito de uma boa tarde de conversa com a velha-guarda. Não estou desmerecendo os autores - até porque também já escrevi um, que está aguardando publicação, mas pegar a informação diretamente na "fonte" é um momento mágico.
Por que as escolas de samba, quando recebem seus patrocínios, não separam uma parte deste dinheiro para ajudar a presevar sua memória? Ah, lembrei… É porque o carnaval é muito caro, a concorrência é grande e o objetivo é vencer! Lindo, palmas! O comércio, o comércio, o comércio… E a cultura? E a memória? E a nossa história?
Fico a imaginar a velha-guarda no futuro: o que terão para contar? Quantos troca-trocas sua escola teve? Qual foi o maior carro alegórico apresentado na avenida? Que fruto teremos no futuro se não tivermos mais raiz?
A velha-guarda até tenta preservar sua história, com sede própria. Os veteranos se reúnem sempre, são muito festivos, fazem shows, algumas vendem cds. Mas será o suficiente?
Como seria enriquecedor para a nossa cultura carnavalesca poder chegar a uma agremiação e pesquisar sobre a vida de componentes daquela escola, seus fundadores, ler depoimentos de cada um, de como chegou até aquela região, como tudo começou.
Sei que existem alguns departamentos culturais se esforçando para fazer esse trabalho, mas vejo outros apenas preocupados com patrocínios para sua revista, cujo conteúdo apenas fala do enredo atual, de seus participantes e etc.
Embora se chame velha-guarda, são idosos que estão longe de sentir-se velhos. Enquanto o idoso ainda sonha, o velho já perdeu sua jovialidade, e se há alguma coisa que a velha-guarda tem, esta coisa é o espírito jovem. Enxergam a vida se renovar a cada dia com planos para o próximo carnaval, que para eles, nunca acaba na quarta-feira de cinzas.






















