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Mônica Bernardes

Mônica Bernardes

Formada em Jornalismo pela UFRJ, fez estágio no Jornal dos Sports e trabalhou na Rádio Tupi antes de ingressar, em 1986, nas Organizações Globo. Depois de 9 anos como repórter de "O Globo", foi para a "TV Globo", na qual permanece até hoje. É uma das editoras do projeto "Parceiro do RJ", do "RJ TV Primeira Edição". Também é autora do livro "Sou Feliz, Acredite!", em parceria com Mauro Tertuliano. Livro conta histórias de superação e foi finalista do Prêmio Jabuti 2011 na categoria Reportagem.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



25/01/2015 11h05

Precisamos de gente assim

A reação solidária e equilibrada dos pais do menino Asafe, de 9 anos, morto por bala perdida ao se divertir em um clube na zona norte do Rio, mostra que é possível, mesmo no momento de dor, refletir e tomar uma decisão em prol do coletivo. O pai do menino, Wagner, resumiu de forma simples o motivo do gesto.

- Tivemos uma perda e ainda vamos sofrer muito. A gente achou melhor, então, fazer uma boa ação e ajudar o próximo.

A família do surfista Ricardo dos Santos tomou a mesma atitude. Doou as córneas e só não o fez com os outros órgãos porque o jovem sofreu parada cardíaca - o que inviabiliza o procedimento.

Pronto. Não precisa mais nada. Não é necessário buscar explicações psicológicas, sociológicos, antropológicas....
Famílias resolveram, simplesmente, ajudar o próximo. Com isso, fazem mais do que beneficiar os receptores dos órgãos. Elas reforçam o senso comum sobre a importância da doação. Se tornam exemplos, espelhos. Precisamos cada vez mais de gente assim, capaz de pensar a sociedade como um todo - sem egoísmo, sem omissão, seja na alegria ou na dor.



25/01/2015 11h05

Precisamos de gente assim

A reação solidária e equilibrada dos pais do menino Asafe, de 9 anos, morto por bala perdida ao se divertir em um clube na zona norte do Rio, mostra que é possível, mesmo no momento de dor, refletir e tomar uma decisão em prol do coletivo. O pai do menino, Wagner, resumiu de forma simples o motivo do gesto.

- Tivemos uma perda e ainda vamos sofrer muito. A gente achou melhor, então, fazer uma boa ação e ajudar o próximo.

A família do surfista Ricardo dos Santos tomou a mesma atitude. Doou as córneas e só não o fez com os outros órgãos porque o jovem sofreu parada cardíaca - o que inviabiliza o procedimento.

Pronto. Não precisa mais nada. Não é necessário buscar explicações psicológicas, sociológicas, antropológicas....
Famílias resolveram, simplesmente, ajudar o próximo. Com isso, fazem mais do que beneficiar os receptores dos órgãos. Elas reforçam o senso comum sobre a importância da doação. Se tornam exemplos, espelhos. Precisamos cada vez mais de gente assim, capaz de pensar a sociedade como um todo - sem egoísmo, sem omissão, seja na alegria ou na dor.



25/01/2015 11h05

Precisamos de gente assim

A reação solidária e equilibrada dos pais do menino Asafe, de 9 anos, morto por bala perdida ao se divertir em um clube na zona norte do Rio, mostra que é possível, mesmo no momento de dor, refletir e tomar uma decisão em prol do coletivo. O pai do menino, Wagner, resumiu de forma simples o motivo do gesto.

- Tivemos uma perda e ainda vamos sofrer muito. A gente achou melhor, então, fazer uma boa ação e ajudar o próximo.

A família do surfista Ricardo dos Santos tomou a mesma atitude. Doou as córneas e só não o fez com os outros órgãos porque o jovem sofreu parada cardíaca - o que inviabiliza o procedimento.

Pronto. Não precisa mais nada. Não é necessário buscar explicações psicológicas, sociológicos, antropológicas....
Famílias resolveram, simplesmente, ajudar o próximo. Com isso, fazem mais do que beneficiar os receptores dos órgãos. Elas reforçam o senso comum sobre a importância da doação. Se tornam exemplos, espelhos. Precisamos cada vez mais de gente assim, capaz de pensar a sociedade como um todo - sem egoísmo, sem omissão, seja na alegria ou na dor.



25/01/2015 10h46

E daí?


A repercussão da forma física da apresentadora Fernanda Gentil e a maneira como o assunto ganhou corpo nas redes sociais mostram com clareza o vazio do interesse coletivo - na maioria - por temas de relevância social e que influenciem, efetivamente, o nosso cotidiano. No momento em que um surfista foi morto a tiros de forma banal em Santa Catarina, pessoas estão sendo atingidas por balas perdidas no Rio, o terrorismo internacional recrudesce, a escassez de água causa angústia, o escândalo da Petrobras não cessa, parentes de políticos são nomeados para cargos públicos, um brasileiro é executado na Indonésia, e por aí vai, o que "bombou" nas redes sociais, como dizem, foi a suspeita de que Gentil estivesse fora de forma - justificada pelo fato de que a apresentadora está grávida. E se não estivesse? E se ela ficar gorda? O que interessa? As pessoas deveriam ocupar seu tempo com assuntos que possam mudar uma realidade cada vez mais difícil de digerir. E não se preocupar com temas de interesse particular dos outros. Temos dezenas de temas a debater, que precisam de definição, a partir da reflexão de cidadãos que tenham coragem para propor e cobrar mudanças. O Facebook, infelizmente, tem sido um espelho do pensamento raso de uma sociedade que, se não mudar, vai ser seu próprio algoz neste país que tinha tudo para ser diferente - bem mais rico, bem mais respeitado, bem mais independente... Se não fosse essa pobreza de espírito.



30/12/2014 19h34

Há cem anos, uma trégua (para o Natal) entrou para a história


Ouvindo o BBC Take Away English, ferramenta muito útil para o treino do idioma, pude recordar um episódio emocionante que traz, ao mesmo tempo, esperança e desolação. Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1914, alemães e britânicos fizeram uma trégua para a confraternização de Natal em plena zona de combates. Trocaram pequenas lembranças, conversaram, fumaram e até jogaram futebol juntos. Muitos haviam prometido estar de volta às famílias em dezembro para as celebrações. Mas, depois de meses de guerra e milhares de mortos, eles ainda continuavam nas trincheiras. Michael Jurgs, autor de "The Small Peace in the Great War" acredita que os soldados já estavam fartos da guerra. E o cessar-fogo não seria apenas motivado pelo espírito natalino, mas por uma sensação de "não aguento mais isso aqui". Infelizmente, a trégua durou pouco. Mas deixou a marca de que, no fundo, todos são parecidos e buscam as mesmas realizações. Se não houvesse um comando para exigir o confronto, se não houvesse imposições políticas baseadas em interesses escusos, todos poderiam viver em paz. Política e religião levam com frequência a atrocidades descomunais. Mas quando pinçamos da realidade um fragmento surpreendende como esse, percebemos o quanto poderíamos mudar o rumo do planeta se houvesse união contra quem promove o mal.


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23/11/2014 17h39

Repercussão do caso Jandira salvou muitas vidas. Uma forma de atenuar a dor da perda


O encerramento do inquérito sobre a morte da auxiliar administrativa Jandira Cruz, durante um aborto na Zona Oeste do Rio, trouxe alívio para a família da jovem, que tinha 27 anos e arriscou a vida para interromper a gravidez. A mãe de Jandira declarou que estava "feliz", o que provocou uma certa estranheza para quem não havia compreendido o motivo da satisfação. A explicação veio logo em seguida. Além de ver os bandidos na cadeia, respondendo a processo por homicídio e formação de quadrilha, Maria Ângela se orgulhava de ter salvado algumas vidas, por causa da morte trágica da filha. É uma razão nobre. Muitas vezes, notícias de dramas familiares e crimes hediondos trazem à tona questões fundamentais para a prevenção de erros fatais. Foi isso que aconteceu. O caso Jandira - assim como, posteriormente, a morte de Elisângela Barbosa, em outro caso de aborto, em Niterói - serviu para que muitas grávidas repensassem planos já elaborados de interrupção da gestação. Imaginem a importância de fazer com que alguém desista de se submeter a um aborto! Se uma só vida fosse preservada, já haveria motivo para satisfação. Mas, de acordo com Maria Ângela, várias mulheres fizeram contato pelas redes sociais confessando que iriam abortar - em clínicas que reúnem criminosos bárbaros, como os que atenderam Jandira. Mas desistiram após a repercussão do crime na mídia.
Não se trata aqui, portanto, de discutir se o aborto deve ou não ser legalizado. Essa abordagem exige reflexão e discussão fundamentada. A alegria de Maria Ângela - apesar da dor - reflete a certeza de que a morte da filha representou vida para mulheres e bebês. Isso basta para ter uma sensação de utilidade numa sociedade muitas vezes egocêntrica e acomodada.Que Maria Ângela abrace essa causa e ainda salve muitas outras vidas. Será, certamente, uma maneira de atenuar a perda irreparável da filha.



28/10/2014 17h56

Redes sociais revelaram personalidades no processo eleitoral


As discussões acaloradas sobre política durante o último processo eleitoral levaram muitas pessoas a excluírem contatos das redes sociais e a desfazerem relacionamentos que duravam anos. A princípio, pode parecer bobagem se afastar de alguém por questões de preferência política. Mas não se pode generalizar. Houve casos em que o rompimento foi, sim, por pura intransigência, por falta de capacidade de ser tolerante com opiniões divergentes. Mas também aconteceram episódios em que, em vez de aversão gratuita, as pessoas se afastaram de contatos anteriores porque, de repente, perceberam quem eles de fato representavam. Posts carregados de preconceitos e desvios de caráter ficaram explícitos na rede, escancarando personalidades que até então não haviam sido corretamente percebidas ou avaliadas. Nestes casos, a exclusão, o afastamento, a desistência de uma relação amistosa...tudo passa a ser aceitável, com fortes argumentos, e até aconselhável. Portanto, não se pode colocar todos os casos em um só balaio. As redes sociais, apesar de todos os defeitos, têm essa qualidade. Quando menos se espera, alguém se revela e cabe aos outros manter ou não a "amizade". Elas também deixam claro que, embora queiram dar opinião sobre tudo, são poucas as pessoas que demonstram algum conteúdo,  alguma informação ou uma análise ponderada e crítica sobre o que veem e ouvem. Na sexta dia 24, por exemplo, quando os dois candidatos a presidência estavam no Rio de Janeiro para um debate, uma colega recebeu - e divulgou para várias pessoas - por uma rede social que um dos candidatos estaria em outro estado, em um encontro mais do que suspeito. Já havia até fofoca sobre o que estava sendo discutido na tal reunião. Tudo, claro, para denegrir a imagem de um dos candidatos. Mas ambos não estavam no Rio? Nas redes sociais, as pessoas enviam mensagens e publicam posts repetidamente sem zelar pelo mínimo de coerência. Entopem a rede com lixo e mancham o potencial desse tipo de comunicação. A maioria embarca apenas no vício da difusão viral, repetindo conceitos - muitas vezes equivocados - apenas por hábito, por achar que isso é moderno ou por não ter mais o que fazer mesmo... Ou, pensando bem, por esses três motivos juntos...Com relação a esse tipo de pessoa, a melhor saída pode ser um clique simples, rápido e oportuno: exclusão e tchau. 



26/10/2014 17h50

Saudades de Ariano. O povo citado por ele está por aí. Cabe a nós valorizá-lo

 

Nas aulas-espetáculo que realizou em diversos pontos do país, Ariano Suassuna, já idoso, exaltava nosso país, fazendo questão de enfatizar que temos uma cultura DO Brasil e não uma cultura NO Brasil , como muitos argumentam. Assistir aos vídeos das apresentações traz um sentimento de orgulho nacional que, infelizmente, pode durar pouco - até virarmos a primeira esquina. Se não conseguirmos um caminho de redenção, todo o esforço do grande mestre poderá estar perdido. Temos a sensação de que é cada vez maior o número de pessoas que se dedicam a atividades medíocres, leitura de baixo nível, música de péssima qualidade, comportamento vulgar. Um exemplo simples pode ser citado, pois repete-se com alguma frequência no Rio de Janeiro. No sábado à tarde, um carro parado à beira do calçadão do Leme, na zona sul do Rio, estava com o sistema de som ligado - em volume alto - tocando uma música - ou melhor, um barulho incômodo - com letra chula. Para qualquer um ouvir. Além da falta de educação - de manter um som elevado ao qual as pessoas não deveriam ser obrigadas a se sujeitar -, os donos do veículo usavam drogas. Havia policiamento na praia e bombeiros salva-vidas também circulavam nas proximidades. Mas o carro ficou muito tempo ali. Ao mesmo tempo, tem gente fazendo sucesso com produtos de quinta categoria. Ariano distinguia sucesso de êxito. Os "artistas" que só podem ser citados entre aspas podem até fazer sucesso, mas não obtêm o êxito. Êxito é para os talentosos. Há uma sensação de que o povo citado por Ariano, o povo da alegria, da espontaneidade, da criatividade, está em algum lugar da memória e perde espaço para gente que precisa, acima de tudo, de educação. Mas, se procurarmos, acharemos gente talentosa e vibrante - que, talvez, não faça tanto alarde, mas que cria com competência e brilho. Cabe a nós procurá-las e exaltá-las. Valorizá-las. As aulas-espetáculo de Ariano deveriam ser usadas nas escolas, para a formação de crianças e jovens que, quem sabe, poderão interromper esse processo de degradação ao qual estamos sendo submetidos. Educação é o único caminho. E o testemunho de professores que veem o valor do Brasil é essencial na tentativa de pôr fim à pobreza de espírito que toma conta de tanta gente. Saudades de Ariano. Morreu aos 87 anos. Mas morreu jovem. Por tudo que representou e representa. E por tudo que poderia nos oferecer na luta desgastante contra a mediocridade.



26/10/2014 17h12

É cansativo conviver com pessoas de comportamento bizarro

Como se não bastassem os abusos das tentativas de boca de urna, eis que surge, em Sorocaba (SP), um eleitor que se sentiu no direito de levar uma cobra enrolada no pescoço até o local de votação. Claro que foi barrado. E o bom senso recomenda que os responsáveis pelo veto não sejam recriminados. O eleitor, de 31 anos, deveria - até pela idade -  saber definir os próprios limites. Para vivermos em sociedade, além de cumprirmos as leis, precisamos ter a iniciativa de observar com sensibilidade e inteligência o que nos cerca. E devemos, especialmente, respeitar as pessoas ao nosso redor. Ninguém precisa ser muito esperto para compreender que uma jiboia de 1,75 metro não é um animal bem-vindo no ambiente urbano, em locais de grande concentração. As pessoas têm o direito de sentir medo ou repulsa. O dono da cobra de estimação pode até gostar de levá-la a todos os lugares, mas deveria saber que, com isso, desrespeita quem ocupa o mesmo espaço. É, no mínimo, antissocial. Esse tipo de comportamento bizarro entristece. Mas, certamente, ele terá quem o defenda, quem ache engraçada tal atitude, quem imagine que a liberdade pressupõe, inclusive, o direito de incomodar terceiros. Mas uma rápida olhada na internet é suficiente para perceber que é muito fácil encontrar comentários absurdos sobre todos os assuntos, falsas bandeiras de igualdade, tudo resultado de distorções no processo de educação e na forma de ver o mundo. Tudo muito cansativo para quem tem senso crítico e o desejo de viver em ambiente civilizado e cortês.



05/09/2014 19h53

Aluno perverso de um lado; uma bela homenagem do outro...

 

Enquanto muitos professores são agredidos por alunos bandidos, que se apoiam na menoridade penal para extravasar instintos bestiais,  dá orgulho a atitude de estudantes da escola Carolina Patrício, no Rio, que cortaram os cabelos em homenagem à professora Norma do Carmo, que descobriu estar com câncer. A alegria de Norma contrasta, infelizmente, com o drama vivido pela professora Ana Paula Marino,  esfaqueada por um adolescente numa escola em Curitiba. Uma pesquisa mostra que, em São Paulo,40% dos professores de escolas estaduais já sofreram algum tipo de violência, a maioria praticada por alunos. Isso é resultado da falta de educação, da índole perversa e, muitas vezes, da ausência de pulso firme na família - com pais defendendo filhos inescrupulosos apenas pelo fato de serem....seus filhos. Mas a violência dos estudantes é resultado, principalmente, da falta de punição, consequência de uma legislação caduca que trata os menores como inocentes incapazes de assumir responsabilidades. Eles aproveitam.... e muito! Parabéns, portanto, aos jovens que deram uma demonstração de carinho e de gratidão pela professora no Rio. Uma imagem que marcou positivamente a semana e que nos trouxe um pouco de alento em meio a tantas notícias ruins que lotam o noticiário.



25/08/2014 20h31

Só quem se aceita tem a nobreza de aplaudir um competidor

O que é mais importante? Vencer a qualquer preço ou vencer com mérito? O "Café Filosófico" da TV Cultura relembrou esta semana o caso do corredor espanhol Ivan Fernandez Anaya, cujo gesto de honestidade e retidão repercutiu mundialmente em dezembro de 2012. Fernandez era o segundo colocado em uma corrida cross country, em Navarra, na Espanha, quando percebeu que o queniano Abel Mutai diminuiu o ritmo a menos de 20 metros da vitória. Mutai liderava a corrida com folga, mas reduziu as passadas porque pensou que já tinha cruzado a linha de chegada. Em vez de aproveitar a situação para vencer a disputa, Fernandez também diminuiu o ritmo e alertou o rival.

  "Eu não merecia vencer", disse Fernandez na ocasião. "Eu fiz o que era certo. Ele era o verdadeiro vencedor e eu não conseguiria alcançá-lo".

O exemplo de Fernandez pode reverberar por muito tempo se for lembrado, em momentos oportunos, como fez o Café Filosófico. Ele pode não ter ganhado a medalha de ouro, mas, certamente, conquistou a admiração de milhões de pessoas e, o mais importante, dele mesmo. Gente que age com correção e conhece a dimensão de sua boa postura tende a se elevar aos mais altos níveis de amor próprio - o que permite avanço e crescimento.

Só é capaz de aplaudir um competidor e até favorecê-lo quem tem segurança suficiente para se afirmar dentro dos próprios limites... e ser feliz no conforto dessa autoaceitação. Isso pode servir de espelho para todos nós, em qualquer situação na qual temos a oportunidade de olhar para dentro de nós mesmos com a franqueza e o desprendimento que merecemos. E olhar para o próximo com a capacidade de admirar e de estender a mão para um cumprimento - imagem que, por sinal, ficou marcada ao fim da corrida de Fernandez e Mutai. Um aperto de mãos histórico, que não pode ter ficado em vão.  

 



20/08/2014 01h09

Quer algo, tenta, tenta e nada acontece? Que tal parar de pensar?

 

No dia a dia agitado, em meio a compromissos inadiáveis, atividades inevitáveis e tarefas obrigatórias, tentamos a todo custo momentos de sossego. É no intervalo entre um dever e outro que buscamos a paz necessária para criar algo que, de fato, nos realize. E é aí que surge uma armadilha: o risco de não conseguirmos nos desvencilhar do pensamento nas obrigações diárias, na agenda lotada de marcações.Uma saída é parar tudo, reorganizar o caderninho e verificar se, realmente, o que desejamos não pode se elevar à categoria de prioridade em alguma parte do dia. Talvez estejamos dedicando atenção demais a algo que já não seja tão relevante. E, nesse caso, poderíamos abrir espaço para uma novidade.

Mas existe, também, uma outra solução: deixar pra lá. Pode parecer contraditório, mas, muitas vezes, ao abrirmos mão de algo, temporariamente, o caminho para conquistá-lo acaba sendo abreviado, como se o "deixar de pensar" exercesse uma atração irresistível sobre nosso objeto de desejo. É comum ouvirmos esse tipo de conselho para mulheres que há anos querem engravidar: "não pense mais nisso e você consegue". E, muitas vezes, consegue mesmo. Esse tipo de ironia do destino também acontece em diversas outras circunstâncias. O grande poeta português Fernando Pessoa disse que, ao tentar incorporar um poeta bucólico, nada acontecia. Os dias se passavam e ele não conseguia. Disse Pessoa: "Num dia em que finalmente desistira acerquei-me de uma cômoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever , de pé, como escrevo sempre que posso". Surgia ali Alberto Caeiro, um dos heterônimos do escritor. No fundo, Pessoa não tinha desistido da ideia. Mas havia relaxado, abandonado a autocobrança, eliminado a pressão.

Por isso, pode valer a pena - e muito - exercer a arte de parar, desligar o motor, puxar a tomada da parede. E, como Zeca Pagodinho, deixar a vida levar. De repente (desde que, claro, a semente tenha sido preservada), a árvore floresce.



18/08/2014 21h49

O exemplo de Philipp Lahm

 

A aposentadoria anunciada pelo capitão da seleção de futebol alemã, Philipp Lahm, dá gosto de ver. Por uma simples razão: ele teve ousadia de abrir mão de um posto que muitos gostariam de ocupar,  ainda com uma idade e um desempenho que o permitiriam seguir em frente por bom tempo na equipe. Nem todas as pessoas conseguem "largar o osso", como se diz popularmente. Não abrem mão de ganhar cada vez mais dinheiro - que nem têm como gastar -, impõem sua presença ao público de forma insistente e não percebem nem mesmo quando a fase áurea já ficou para trás e a tendência passa a ser de decadência. Mesmo com fortunas acumuladas, muitos tentam de todas as maneiras preservar cargos, funções, a imagem em evidência, ainda que paguem o preço de serem vistos como defasados, ultrapassados, fora do contexto. Lahm demonstrou inteligência ao anunciar o ponto final na seleção. A imagem que fica para sempre é a da vitória, da taça na mão, do sorriso aberto ao comemorar o tetra germânico. Uma atitude que pode servir de exemplo para pessoas em quaisquer atividades profissionais. Para muita gente, se não houver a razão imperiosa da necessidade financeira, é recomendável um esforço - principalmente psicológico, com suporte de especialista se necessário - para aprender a mudar de fase na vida. Reconhecer que certos momentos ficaram na memória e que a vida exige renovação.  Espero que Lahm tenha a coragem de se aposentar do futebol como um todo também no momento adequado - enquanto ainda tiver energia e vigor. E que não fique se arrastando pelos campos, com performances abaixo do nível que ele próprio merece. Todos deveriam parar a atividade no momento em que estão sob aplausos, para que o novo período - de aposentadoria - seja de lembranças positivas. É melancólico ver o que acontece com pessoas que , depois de importantes conquistas, começam a descer a ladeira. O ideal seria iniciar um novo ciclo, com diferentes interesses e projetos, para que se criasse uma meta a ser alcançada em nova área. Assim a vida pulsa e todos ganham com isso.



12/08/2014 22h09

Robin Williams não conseguiu ouvir a voz de seus grandes personagens

 

A morte do ator Robin Williams, pelas circunstâncias trágicas, surpreende quem se acostumou a vê-lo em papéis que ora divertiam ora mostravam um lado sensível do ser humano, com interpretações tocantes. A depressão vivida pelo ator mostra que os personagens que encarnamos (seja no palco ou, eventualmente, na vida real, quando nos esforçamos para parecer mais equilibrados e mais sensatos do que somos) nem sempre conseguem provocar mudanças verdadeiras na nossa própria personalidade e na nossa maneira de encarar o mundo. Um ator que interpretou"Patch Adams" jamais poderia se matar se levasse em consideração uma mera fração da experiência contagiante do médico-palhaço. Aliás, o subtítulo do filme é "O Amor é contagioso". Um ator que subiu na mesa de um colégio na pele de John  Keating, professor que incentivava os alunos a verem a realidade por um novo ângulo - em "Sociedade dos Poetas Mortos" - não poderia se matar se levasse em conta o próprio discurso do personagem. Aliás, no filme, um dos alunos se suicida, o que provoca sentimento de culpa e imensa tristeza no personagem de Williams. Quem agora imagina a cena da morte do ator, sozinho, deprimido, sem perspectiva de salvação, pode cair na armadilha da pena, sentimento que machuca a alma. Mas, para os amigos e parentes, provavelmente, também surge a culpa. As pessoas sempre acham que poderiam ter feito algo, dito algo, oferecido algo... E se...? E se...? Para os fãs, ficam os filmes que marcaram a história de Williams no cinema - ainda que, agora, prevaleça a sensação de que o ator não conseguiu "escutar" as palavras dos personagens mais iluminados que ele interpretou.

 



20/07/2014 20h53

Não dá pra viver de história


Tradicionalmente, as pessoas diziam que o Brasil era o país do futebol e os Estados Unidos não tinham qualquer vocação para este esporte. Reportagem recente mostrou que, em Seattle, o estádio do Sounders atrai mais de 40 mil torcedores por jogo. No Brasil, o Corinthians, que está no topo da lista de público, não chega nem a 30 mil. E a média entre os clubes é de 14 mil. Isso é mais um item na lista de informações que mostram uma mudança no cenário. Ninguém deve viver de passado, de discurso engessado. É preciso sempre olhar pra frente,sem menosprezar os outros e se empenhando para evoluir. É uma lição também deixada pela Costa Rica nesta Copa do Mundo - a grande surpresa, desprezada por todos, e depois reconhecida. O Brasil ficou à frente dos Estados Unidos, ficou em melhor colocação que a Costa Rica. Portanto, não se trata do resultado em si. Mas o contexto em que tudo se passou...A Costa Rica sai como uma grata surpresa. Os Estados Unidos como melhores do que se poderia supor. E o Brasil abaixo de todas as expectativas. Sinal de que é fundamental observar o ambiente em que os fatos ocorrem, não simplesmente se apoiar no imediatismo de um ranking e muito menos na história de uma trajetória.  


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