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Mônica Bernardes

Mônica Bernardes

SUPERAÇÃO. Formada em Jornalismo pela UFRJ, fez estágio no Jornal dos Sports e trabalhou na Rádio Tupi antes de ingressar, em 1986, nas Organizações Globo. Depois de 9 anos como repórter de "O Globo", foi para a "TV Globo", na qual permanece até hoje. É uma das editoras do projeto "Parceiro do RJ", do "RJ TV Primeira Edição". Também é autora do livro "Sou Feliz, Acredite!", em parceria com Mauro Tertuliano. Livro conta histórias de superação e foi finalista do Prêmio Jabuti 2011 na categoria Reportagem.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



03/05/2015 10h31

Quem tem medo de ser preso ou de passar vergonha?

 

A avalanche de imagens gravadas por cinegrafistas amadores e câmeras de monitoramento instaladas por toda parte pode ser, quem sabe, um importante freio para a conduta moral das pessoas. Hoje em dia, somos vigiados 24 horas, seja pelos equipamentos apontados em nossa direção nas ruas, seja pelos celulares de quase todos que nos cercam. E tenho esperança de que o medo de ser filmado durante uma infração possa ajudar na redução dos casos escabrosos que temos testemunhado pelas lentes alheias. O psicólogo americano Lawrence Kohlberg foi um dos mais importantes no estudo do comportamento humano diante de situações em que os dilemas morais poderiam ditar os rumos da vida de cada um. É interessante perceber que, dependendo dos aspectos que norteiam determinados casos, uma atitude pode ou não ser condenável. Mas algumas condutas são, por si só, execráveis. E as pessoas que não têm intimamente um valor moral bem construído costumam se pautar nas atitudes pelo nível do risco de punição. Há pessoas que só não cometem crimes por medo de serem presas. Outras, quando têm fé religiosa, se apavoram com um eventual castigo divino. Há quem só respeite as leis nos momentos em que estão sendo observadas. Se ninguém está vendo, agem sem escrúpulos e até sem culpa, pois não enxergam o quanto a desonestidade e a maldade são manchas que as tornam indignas de viver em sociedade. Há quem deixe de cometer um ato imoral por medo do constrangimento. Medo de passar vergonha. Medo ser julgado e condenado. Medo de não conseguir mais encarar as pessoas. Então, que seja pelo menos assim. Se a maioria das pessoas não tem como freio a própria formação moral, que sejam pelo menos contidas pelo receio de serem filmadas. Mas é importante, também, que as imagens sejam uma base sólida para efetivas punições. Assim, pessoas que não se importam nem mesmo com o desprezo público, teriam que se preocupar em pagar pelo que fizeram. Se as imagens, de fato, surtem efeito e pavimentam o caminho até as grades ou à repulsa da sociedade, pouco a pouco - ou talvez até rapidamente, como acontece com tudo hoje em dia - um número cada vez maior de pessoas pensará duas vezes antes de cometer uma barbaridade ou de abusar de alguém.



31/03/2015 18h08

Imagens e gestos que surpreendem

 

Impressionantes as imagens divulgadas pelo "The Washington Post" que mostram parentes de estudantes passando cola para alunos durante uma prova. Eles escalaram as paredes da escola, tamanha a ânsia para que os jovens conseguissem uma oportunidade. No país de 1,2 bilhão de habitantes, a educação é um bem disputado, não acessível a todos. E faz muita diferença para a economia em desenvolvimento. Reportagens dão conta de que a má formação de alunos com sucessivos casos de cola - passada por parentes e amigos - já é crônica no país. Mas a imagem das pessoas escalando as paredes se torna um retrato desse misto de desespero e irresponsabilidade.

Uma realidade distante da nossa, apesar das dificuldades e das limitações impostas no Brasil. Mas, como certos conceitos devem ser universais, trapacear é nocivo em qualquer lugar e fere os direitos alheios em qualquer circunstância. Seria ótimo se os pais tivessem com os filhos o rigor que cobram dos outros. Recentemente, uma amiga comentou que a filha perdeu pontos em uma prova na escola porque desobedeceu o limite de espaço para escrever na folha de papel. Ou seja, pôde se expressar com mais detalhes do que os colegas. Uma irregularidade simples, para muitos inofensiva...Revoltada com a atitude do professor, que foi rigoroso e reduziu sua nota, ela se queixou com a mãe. Mas ouviu o que não queria. A mãe apoiou o professor. Gestos simples de lisura no nosso dia a dia , como esse, podem dar a medida da nossa maturidade. E isso, sim, faz toda a diferença.



21/03/2015 17h51

Incrível história (de ódio, perdão e amizade) nascida na guerra e eternizada em livro e filme


   Histórias de guerra costumam ser comoventes pela tragédia que desaba sobre a vida dos combatentes, das suas famílias, dos militares e civis que vivem nos países envolvidos nas batalhas. Guerra é um horror permanente e carrega uma dramaticidade intrínseca que mexe com a emoção das pessoas sem necessidade de agravantes. Mas há raras histórias de batalhas que, além da comoção usual - sempre acompanhada de revolta e indignação - trazem uma emoção mais contida, um sentimento que traduz até uma certa beleza em meio às lembranças de crueldade. São as histórias de perdão. 
   O filme "Uma Longa Viagem", protagonizado por Colin Firth e Nicole Kidman, narra um desses episódios em que o personagem precisa adquirir uma incrível capacidade de superação para abrir mão de uma antiga ânsia de vingança. Quem não viu o filme e não quer saber o fim não deve continuar a ler esse texto. Mas quem conhece a trama - baseada em fatos reais - ou não se importa em saber o desfecho, pode seguir em frente.
   Firth interpreta o tenente Eric Lomax, inglês que fez parte de uma tropa detida por japoneses na Tailândia durante a Segunda Guerra Mundial. Ele foi submetido a intensas torturas e viveu atormentado pela lembrança do tradutor japonês Takashi Nagase, que participou de cada momento de seu terror. Na década de 1980, Lomax teve a chance de reencontrar o antigo algoz e poderia até matá-lo. Mas percebeu que o vilão havia se transformado em monge budista, que denunciou compatriotas criminosos de guerra e cuidou de crianças que perderam os pais, submetidos a trabalho escravo nas obras de construção da ferrovia que liga Bangcoc a Birmânia (atual Mianmar).
   O reencontro dos dois, revelado pelo próprio Eric Lomax em livro autobiográfico, causa um suspense tão grande que prendemos a respiração aguardando se a vítima vai ou não eliminar o antigo agressor. E o impacto emocional é tão intenso que somos levados, com o personagem, ao dilema da decisão correta a ser tomada. Não queremos torcer por vingança. Mas quem disse que conseguimos raciocinar com clareza? Podemos torcer para que Lomax perdoe Nagase. Mas quem disse que acreditamos de fato nessa possibilidade? A carga de tensão vai se intensificando até percebermos que o caminho encontrado pelo militar inglês foi mesmo o da conciliação. Lomax e Nagase tornaram-se amigos pelo resto da vida. O japonês morreu em 2011. O inglês, em 2012. O filme mostra fotografias de cada um, ainda jovens, nos tempos da guerra. E uma foto dos dois juntos, já idosos.
   É o tipo de filme em que, na cena final, sentimos um nó na garganta e um imenso ponto de interrogação na cabeça. Como é possível? O próximo passo é um dos maiores méritos da arte cinematográfica: o de levar à reflexão. A história de Lomax e Nagase é mesmo feita para se pensar.


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11/03/2015 15h13

Velho problema. Não resolvem porque não querem

 

Lendo o livro "No que acredito", de Bertrand Russell, encontrei o seguinte trecho:

"Se as prisões fossem humanizadas a ponto de um detento receber uma boa educação gratuitamente, é possível que as pessoas viessem a cometer crimes a fim de qualificar-se para elas. Não há dúvida de que a prisão deva ser menos aprazível que a liberdade; porém, a melhor maneira de assegurar esse resultado é fazer com que a liberdade seja mais agradável do que por vezes é. Não desejo, contudo, envolver-me na questão da Reforma Penal. Desejo simplesmente sugerir que deveríamos tratar o criminoso tal como tratamos alguém que sofra de uma epidemia (obs: ele certamente quis dizer "de uma doença contagiosa"). Cada qual é um perigo público e cada qual deve ter a liberdade limitada até que deixe de representar uma ameaça à sociedade. Entretanto, enquanto o homem que sofre de uma pestilência é objeto de solidariedade e comiseração, o criminoso é objeto de execração. Isso é totalmente irracional. E é por causa dessa diferença de postura que nossas prisões são muito menos bem sucedidas em curar as tendências criminosas do que nossos hospitais em curar enfermidades".

Russell nasceu em 1872 no País de Gales. Escreveu "No que acredito" em 1925.  Alguém vê semelhança com nossa realidade atual, aqui mesmo, no Brasil? Incrível como certos erros se perpetuam na sociedade em diversas partes do mundo.



06/03/2015 08h05

Zoo para quê?

 

O Zoológico do Rio corre risco de fechar se não melhorar as condições de manutenção do parque e reformar os recintos onde vivem os animais. O Ministério Público Federal informou que não constatou maus tratos, mas verificou a necessidade de obras. Bem, o conceito de maus tratos é relativo. Deixar um animal em um recinto mal conservado - levando-se em conta que ele está preso e vive em um espaço bem menor do que seu instinto natural exige -, já pode ser avaliado como uma crueldade dependendo do ponto de vista. Já estive no Tiergarten Schönbrunn, o zoológico de Viena - o mais antigo e um dos melhores do mundo. E, ainda assim, apesar da qualidade do serviço e dos cuidados oferecidos aos animais, fiquei incomodada ao vê-los sem liberdade, fora do seu habitat natural. Antigamente, a existência dos zoológicos ainda cumpria uma função educativa para que as pessoas pudessem ver os bichos, conhecer as espécies, observá-las de perto. Hoje em dia, com a internet e os vídeos cada vez mais sofisticados, acredito que os zoos poderiam, simplesmente, acabar. Pode parecer radical, mas é triste ver animais presos. E atualmente não temos nem a desculpa da necessidade para efeito didático.


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06/03/2015 07h40

Juventude perdida por nada

 

A morte de um rapaz de 23 anos depois de uma competição para ingestão de bebida alcoólica em Bauru (SP) ressalta aspectos tão bizarros que causa um misto de perplexidade, pena e indignação. Em primeiro lugar porque muitos são culpados - inclusive a vítima. Em segundo porque tal culpa incide sobre uma besteira tão grande que não carrega nem mesmo uma justificativa em potencial. É, simplesmente, uma enorme tolice. E levanta duas questões: que tipo de pessoa organiza um evento assim e que tipo de pessoa aceita participar?  O jovem que morreu tomou cerca de 25 doses de vodca. Outras seis pessoas que também exageraram no consumo de bebida passaram mal; três foram internadas. Os organizadores foram presos sob acusação de homicídio e vão responder ao processo em liberdade. Eles podem alegar que não obrigaram ninguém a beber. Mas quem propõe uma competição desse tipo tem que assumir a responsabilidade por uma tragédia que venha a acontecer. Pior ainda é perceber que tudo isso aconteceu dentro de um ambiente universitário, onde, teoricamente, as pessoas deveriam estar mais interessadas em viver de forma saudável, construtiva. Para muitos, a prioridade é obter uma afirmação pessoal que acaba sendo buscada de maneira torta, equivocada. Fico com pena das famílias dos jovens que se envolvem nessas armadilhas. Temos tanta gente desequilibrada ao nosso redor que imagino como seria a procura por um concurso para quem se enforca mais rápido. É triste, mas talvez houvesse fila.



01/03/2015 07h40

O Rio comemora, mas também pede respeito


Em entrevista a uma rádio, o polonês naturalizado brasileiro Aleksander Laks - sobrevivente do Holocausto e um dos personagens do meu livro "Sou Feliz, Acredite!" - disse esta semana que adotou o Rio de Janeiro com um amor à primeira vista. Ele se sente não apenas brasileiro, mas carioca. E um dos principais motivos é o jeito de ser dos moradores da cidade. "Nos Estados Unidos, para onde fui logo depois da guerra, se você aparece com o corpo inteiro engessado ninguém pergunta nada. Aqui no Rio, se você corta um dedo todo mundo quer saber o que aconteceu", declarou. De fato, o povo carioca - quando observado de uma forma genérica - tem um estilo expansivo e, em muitos momentos, solidário. Embora a degradação da cidade, com expansão desenfreada, tenha provocado uma sensação de insegurança na maior parte do tempo, na maioria dos lugares, há ainda uma cultura de "companheirismo" em diversas situações. Mas, embora eu seja carioca da gema, aproveito a data para uma reflexão porque nem tudo é festa.

Nasci no Hospital da Lagoa (antigo Hospital dos Bancários), no Jardim Botânico; morei no subúrbio desde que nasci até meus 26 anos; morei também em Copacabana, Rio Comprido, Barra da Tijuca e Tijuca, ou seja, já vivi em todas as regiões da cidade (subúrbio, zona sul, zona oeste, zona norte). Tenho o Rio por meu lar e não gosto nem um pouco de uma parte do que está acontecendo por aqui. O espírito festivo do carioca é bom, mas muitas vezes passa dos limites com o desrespeito ao direito alheio. Muita gente que vive aqui destoa desse conceito de simpatia e camaradagem. Nossa beleza natural é espantosa, uma maravilha, mas vem sendo agredida por muita gente que devasta a natureza com lixo, esgoto, não apenas por ausência de estrutura, mas por falta de educação mesmo. Temos uma enorme quantidade de pessoas que desrespeitam essa cidade diariamente, embora vivam aqui. E temos que conviver com elas todos os dias, sem reclamar - pois, hoje em dia, uma simples queixa pode ser motivo para tomar um tiro. A falta de controle de natalidade tem feito com que um batalhão de novos bandidos ameace a nossa cidade. Basta ver a presença de menores delinquentes a todo instante no noticiário.

Sempre defendi que aniversário de gente não é só um momento de exaltação, mas, também, de possibilidade de renovação. É um ano novo particular de cada um. Um réveillon individual. Para a cidade, deveria ser assim também. Comemorar é sempre válido, mas 450 anos são muito tempo para a cidade estar com tantos problemas graves como hoje. Não podemos fechar os olhos a isso. Pelo contrário. O ideal seria soprar as velinhas com um olho no bolo e outro na realidade lá fora. A única maneira de melhorar é reconhecer erros, identificar os responsáveis pelos danos e agir para alcançar os objetivos. Precisamos não apenas de festa, mas de paz no Rio de Janeiro. Precisamos de tranquilidade para andar na rua, de sossego para viver na cidade, de bons serviços públicos, de educação e civilidade de quem vive aqui. Até uma ida à praia, nosso lazer mais típico, já não é recomendável hoje em dia nos fins de semana, diante da invasão de banhistas rudes que cometem todo tipo de irregularidade.

Diante da sensação de insegurança, não adianta cobrar providências só da polícia. Nunca teremos um policial em cada esquina. O foco exclusivamente sobre a polícia é um equívoco e não resolve o problema. Muitas medidas seriam necessárias - em diversas esferas do poder - para termos, de fato, uma melhora na qualidade de vida do cidadão do Rio. As pessoas que vivem aqui deveriam honrar a importância da cidade, deveriam ser dignas de participar do nosso cotidiano. Este, sim, seria um belo presente para os cariocas que amam o Rio de Janeiro e que se orgulham dos aspectos positivos da cidade. Ilusão? Utopia? Creio que sim. Mas não custa pensar no quanto isso seria bom. 



26/02/2015 20h19

Juiz com carro do Eike: embaraçoso? Ou mais que isso?


Esta semana, chamou atenção o uso da palavra "embaraçoso" para definir o ato do juiz Flávio Roberto de Souza, da 3ª Vara Criminal Federal, que dirigiu e guardou em sua garagem particular um Porsche Cayenne do empresário Eike Batista. Foi o desembargador federal Guilherme Couto de Castro, corregedor regional da Justiça Federal da 2ª Região, que classificou como "fato embaraçoso" o uso particular, por parte de um juiz, de bens apreendidos de réus. É bom saber que a corregedoria vai investigar o caso. E é louvável que o desembargador já tenha demonstrado, prontamente, uma rejeição a esse tipo de comportamento. Mas, ao mesmo tempo, é curioso como certas expressões são escolhidas a dedo para criticar alguém sem causar dor. "Embaraçoso" me pareceu bem pouco diante da repulsa que a atitude do juiz causou no povo. É que, já farto de ver a má conduta de autoridades em diversos níveis e diversas esferas, o povo tenta se apegar à esperança de ter um Judiciário correto e íntegro. Quando a confiança nesse poder cai por terra, resta pouco aos cidadãos. Por isso, creio que "embaraçoso" está bem distante dos termos que as pessoas usariam para tachar o que o juiz fez. Os leitores, certamente, teriam algumas boas ideias.



24/02/2015 13h08

Lady Gaga e o risco do rótulo

 

A surpresa do público com a participação de Lady Gaga no Oscar mostra o quanto é importante romper os rótulos. Que a cantora tem boa voz, qualquer um já poderia saber, mesmo a partir da percepção do repertório típico da artista. Mas vê-la com outro estilo e outra postura fez com que muita gente - que ainda não tinha reparado o alcance de sua voz - passasse a observá-la com outros olhos. Não se trata de gostar do tipo de música que Lady Gaga produz. Mas de reconhecer que, se ela quisesse, poderia cantar outros gêneros. Quem já ouvia Lady Gaga, continuará fã da cantora. E quem não gostava terá, pelo menos, a consciência de que ela é capaz de ser diferente.

Esse tipo de espanto ocorre em diversos tipos de manifestação artística. Neste mesmo Oscar, o ator Steve Carell concorria por um papel bem distante dos personagens cômicos que ele costuma encarnar. A mesma transformação - do humor para o drama - foi um desafio vencido por Jim Carrey e Bill Murray, por exemplo. Murray encantou quem assistiu a "Encontros e Desencontros". Até mesmo nomes incluídos no rol dos gênios em suas especialidades podem ter trajetórias em que há exceções dentro da regra criada em torno de suas figuras. Quem afirma não gostar de Pablo Picasso por rejeitar o Cubismo talvez se surpreenda ao perceber que ele pintou quadros muito diferentes do estilo de traços geométricos que o consagrou. The Barefoot Girl e Retrato de Suzanne Bloch são exemplos disso.

Muitas vezes, escolhemos um caminho dentre vários que temos condições de trilhar. Essas escolhas determinam a maneira como as pessoas nos veem. Mas ninguém deveria nos julgar limitados a essa preferência. Algumas habilidades são deixadas em segundo plano por motivos pessoais ou até estratégicos, mas, quando afloram, revelam um lado até então desconhecido que pode ser admirável. Portanto, devemos ter muita cautela antes de julgar alguém. Ele pode ser bem diferente do que a gente imagina.



22/02/2015 15h51

Hoje é dia de Oscar

Hoje é dia de Oscar. E, embora muitas pessoas gostem de acompanhar a premiação, outras tantas condenam quem se rende ao cinema americano e ao criticado "imperialismo". Um discurso radical que nunca faz bem. Muita gente fala mal do cinema americano, mas não perde uma oportunidade de ver um filme produzido nos Estados Unidos. E o motivo é simples: muitos filmes são bons. Se a festa do Oscar tem piadas sem graça, celebridades vaidosas querendo aparecer e até alguns concorrentes cuja participação é discutível, por outro lado o evento reúne momentos em que bons trabalhos são valorizados pela competência e pelo talento dos envolvidos. Trabalhos que nos atingem aqui e que, de certa forma, nos proporcionam entretenimento e (por que não?) conhecimento. Os americanos, criticados por muitos como afeitos ao belicismo e ao excesso de orgulho do próprio país, também têm uma grande contribuição artística. E não apenas no cinema. Outro dia, uma amiga se surpreendeu quando eu disse que, entre meus pintores preferidos, está Edward Hopper. "Quem?", perguntou. Sugeri que ela desse uma olhada no nome dele no Google. Um americano que deixou um vigoroso trabalho nas artes plásticas. Hoje em dia é tão fácil obter informação que o leque de conhecimento pode se ampliar de maneira muito construtiva.

     Como dizia Oscar Wilde, "influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma". O cinema americano, pelo alcance que conquistou, tem essa responsabilidade de medir o que vai dizer, o que vai mostrar. Mas quem está do outro lado do telão, em plena era da globalização, tem a obrigação de escolher aquilo que poderá - ou não - causar a tal influência. Quem assiste a um filme de determinada linha tem a chance de buscar opiniões diferentes para formar o próprio juízo de valor sobre tudo que acontece. Abrir as portas para o questionamento, para a procura por informações, para uma discussão saudável... já é meritório. Grandes pensadores tiveram pontos de vista diferentes dos nossos. Músicos geniais compuseram obras que nem sempre apreciamos. Renomados filósofos chegaram a conclusões que eles mesmos teriam derrubado se tivessem mais tempo para viver e amadurecer. A arte que chega até nós - seja americana ou não - pode emocionar, comover ou , em alguns casos, revoltar. Cabe a nós fazer o filtro, crescer com cada mensagem, com cada imagem, e separar o joio do trigo. Como não vi todos os filmes que concorrem ao Oscar ainda não poderia, em tese, torcer por um deles. Mas como vi, e adorei , "O Jogo da Imitação", torcerei para que esse filme ganhe o prêmio em alguma categoria. Quem não conhecia a história do homem que, à distância, salvou milhões de vidas certamente se emocionou. E o filme tem diversos aspectos humanos que nos fazem refletir. Boa sorte!



20/02/2015 09h19

Carmen teve alta. Quem é Carmen? Vejam que história bonita...

A Agência de Notícias de Direitos dos Animais, Anda, divulgou informações sobre a alta da cadela Carmen, nos Estados Unidos.  A história comovente de Carmen e de seu dono, Ben Ledford, envolveu milhares de pessoas que doaram dinheiro para ajudar no tratamento do animal. Carmen, uma boxer de 9 anos de idade, sobreviveu a um incêndio no dia 5 de fevereiro e foi encontrada no porão de uma casa em chamas. Ela estava deitada sobre o  dono, que morreu. Carmen sofreu lesões graves nos pulmões e correu risco de morte nas duas semanas em que esteve internada. Chegou a respirar com a ajuda de aparelhos. Mas resistiu bravamente e, de acordo com os veterinários, está sem sequelas neurológicas. 
O irmão de Ben, Phil, criou uma página para receber doações e o apoio superou as expectativas. Ele conseguiu 29 mil dólares. A Anda noticiou que a cadela já foi para uma nova casa com a sua "família humana". Bacana essa referência a uma "família" de seres humanos para um animal de estimação. Felizmente, para muitas pessoas, os bichos fazem, de fato, parte da família. E isso é bonito de se ver. Um contraste gritante com as tristes imagens que vimos, recentemente, no Rio de Janeiro, de um homem agredindo uma cadela na casa da noiva - que o denunciou à polícia. São casos opostos de gente que ama e  respeita os animais; e gente que extravasa ódio em seres incapazes de se defender. Como nosso objetivo, aqui, é enaltecer o que há de bom...fica a alegria de ver a Carmen de volta a um lar, com pessoas que merecem contar com a sua presença.



18/02/2015 09h36

O ano é da Portela: com ou sem título de campeã

 

     Hoje sai o resultado do desfile das escolas de samba do Grupo Especial. E a ansiedade é sempre grande para os torcedores de todas as agremiações. Mas, no caso dos portelenses, a tensão é ainda maior por vários motivos: o jejum prolongado de títulos, a enorme expectativa criada em torno da Portela mesmo antes do desfile e o fato de a escola ter sido a mais empolgante na Sapucaí, mas, ao mesmo tempo, ter cometido pequenos erros que, na avaliação rigorosa dos técnicos, podem causar a perda de pontos preciosos. Diante de tanta expectativa, muitas pessoas encaram a apuração a ferro e fogo, como algo que pode determinar o humor do dia. Prefiro festejar o desempenho da escola, independentemente da avaliação dos jurados. Os portelenses podem se orgulhar de terem feito um desfile envolvente, alegre, vibrante, que levantou o público e que deixou a marca da imagem do ano no carnaval: a águia redentora, capa de todos os jornais.
     A Portela teve um samba dos mais bonitos, que faltou, por exemplo, nos desfiles da Mocidade - com um samba considerado um dos piores do ano - e do Salgueiro, que apesar da beleza das alegorias e das fantasias, tinha um samba fraquinho, que também não caiu no gosto popular.
     A Portela fez um desfile muito animado, que não se viu, por exemplo, na Imperatriz - vencedora do Estandarte de Ouro. Tenho grande simpatia pela escola de Ramos, uma agremiação que sempre atuou com competência, com belos enredos e apresentações (além do mais, é uma escola generosa, que ajuda muito o Império Serrano). Mas quem estava na avenida neste carnaval percebeu que muitos componentes da Imperatriz não cantavam. Um amigo meu, que estava na Sapucaí, chegou a alertar os coordenadores de alas, angustiado ao constatar  a falta de participação dos integrantes: "Eles não estão cantando", ele comentou. Os coordenadores abriam os braços, derrotados, porque não conseguiam fazer todos cantarem. Segundo eles, havia muitos estrangeiros nas alas.
     A Portela teve uma leveza que faltou, por exemplo, à Beija-Flor. Chico Spinoza comentou na rádio Globo o quanto a escola de Nilópolis estava pesada  (além do mau gosto de homenagear um país onde existe uma ditadura sanguinária).
     Por tudo isso, ganhando ou não, a Portela é a escola que mais marcou o carnaval 2015.E isso já deve ser motivo de alegria e de comemoração. Se vai perder pontos porque um chafariz não funcionou, porque um carro não acendeu, ou por outros detalhes técnicos... não faz diferença para quem está orgulhoso de um desfile tão bonito e, depois de tantos anos,  tão "redentor". Parabéns para a Portela!


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16/02/2015 12h00

Sapucaí: imagens que ficam e valem mais que mil palavras

Assistindo ao desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel, veio à minha mente o ditado de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Com o carro alegórico que mostrava pessoas nas camas, o carnavalesco Paulo Barros conseguiu mostrar que a diversidade sexual é algo natural, que já deveria estar fora do rol das discussões polêmicas. Cada um faz o que quer,com liberdade, desde que respeite o direito alheio. E ponto. Havia camas com casais heterossexuais, casais homossexuais, camas com três pessoas, pessoas de diferentes cores de pele, uma bela imagem contra a discriminação. No geral, não me encantei pelo desfile da Mocidade e, portanto, estou isenta para
considerar que a alegoria do motel trouxe uma mensagem de igualdade valiosa que se destacou neste primeiro dia do Grupo Especial na Sapucaí. Uma pena que também esteve na Mocidade o momento mais temerário: um casal de porta-bandeira e mestre-sala é importante demais numa agremiação para ficar preocupado em controlar um sistema que provoca fogo na roupa. O casal estava visivelmente tenso com essa tarefa e deveria estar livre para evoluir sem outras ocupações. De qualquer forma, é bom ter as provocações de Paulo Barros na avenida. Mesmo quando algo não funciona tão bem, ele tentou inovar no script, o que é saudável. Tão válido quanto quem pretende manter a tradição. Me emocionei com as rosas da Mangueira. Assisti ao desfile ao lado de meus pais. E minha mãe, que é uma apaixonada mangueirense sem explicação (numa família portelense), ganhou a noite ao ver a verde e rosa homenageando as mulheres. São momentos mágicos que ficam na memória da gente.



15/02/2015 18h38

Turistas recebem folhetos contra o desperdício de água

O uso racional da água não só é possível como é fácil. Basta lembrar, no dia a dia, de medidas simples para evitar o desperdício. Todos já sabem o que fazer. Muitos ainda abusam e as campanhas estão aí para a conscientização. Mas, com a chegada do carnaval, muitas pessoas estão apenas de passagem pelas cidades mais festivas - como o Rio de Janeiro. Elas vão embora depois da folia. Como convencê-las a economizar água? Como criar o compromisso de respeitar os limites de uma população que luta para evitar a seca? A iniciativa pode partir de cada um. Em Copacabana, um dos bairros cariocas com maior procura por hospedagem nesta época, a síndica de um prédio onde muitos apartamentos são alugados por temporada decidiu imprimir folhetos com explicações sobre a situação do Rio. Ela deixou claro, em português, inglês e espanhol, que precisamos da ajuda de todos. E que o uso racional da água, na verdade, é uma medida necessária em qualquer tempo e lugar. É questão de educação, de boa formação.

Vai dar certo? Não sabemos. Mas Ieda Bezerra fez algo. Agiu. Dona de uma administradora de imóveis, ela conhece bem as dificuldades de influenciar pessoas de diversos perfis, com necessidades distintas e objetivos variados, que dividem o mesmo espaço coletivo e, por isso mesmo, devem ter um espírito de cooperação. Espero que esse tipo de proatividade se espalhe o máximo possível para que os bons exemplos de multipliquem. Afinal de contas, dá para pular o carnaval sem exagerar. Dá para se divertir sem perder a linha. E muita gente boa está aí para provar isso.

 

 

 



14/02/2015 15h32

Quem desfila no carnaval é herói para muitas crianças

Quando eu tinha nove anos de idade, meu tio Hélio morreu. Ele desfilava na Portela e a família acompanhava os desfiles todos os anos, torcendo com fervor pela azul e branca de Oswaldo Cruz. Senti muito a perda porque para mim, além de irmão da minha mãe, ele era uma espécie de herói. Era alguém que, vestindo uma bela fantasia, representava um papel, participava de um espetáculo de alegria, atingia a emoção das pessoas. Sua morte ainda teve um impacto maior porque ele sofreu um acidente após sair de um ensaio da Portela. Era madrugada, ele havia se divertido, sambado, cantado...e morreu na volta para casa. Era 1975, ano de "Macunaíma". Mas o samba que me fazia lembrar de meu tio não era da Portela, e sim da Império Serrano. "Aquarela Brasileira", de 1964, entrou para a história do carnaval e ainda era bastante tocado (aliás, até hoje faz sucesso): "Vejam essa maravilha de cenário / É um episódio relicário / Que o artista num sonho genial / Escolheu para este carnaval". O artista, para mim, era tio Hélio. Lembro disso com a certeza de que desfilar numa escola de samba não é apenas se apresentar diante de uma multidão - hoje bem maior e de forma bem diferente daquela época do tio Hélio. Quem veste uma fantasia e vai para a avenida pode representar um personagem mítico na imaginação de uma criança. E isso gera responsabilidade. Passei anos sem conseguir cantar "Aquarela Brasileira" porque me emocionava e começava a chorar. Fruto de algum trauma desenvolvido com aquela perda. Mas em 2004 o Império Serrano reeditou o samba de Silas de Oliveira e resolvi enfrentar a saudade. A sensação é boa quando vencemos velhos fantasmas. Desfilei na verde e branca de Madureira, cantei o samba, dancei. E creio que, ao tirar o peso  da tristeza associada àquela música, pude absorver a sua beleza e usufruir do que o samba tem de melhor: a capacidade de alegrar.