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Mônica Bernardes

Mônica Bernardes



* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.SUPERAÇÃO. Formada em Jornalismo pela UFRJ, fez estágio no Jornal dos Sports e trabalhou na Rádio Tupi antes de ingressar, em 1986, nas Organizações Globo. Depois de 9 anos como repórter de "O Globo", foi para a "TV Globo", na qual permanece até hoje. É uma das editoras do projeto "Parceiro do RJ", do "RJ TV Primeira Edição". Também é autora do livro "Sou Feliz, Acredite!", em parceria com Mauro Tertuliano. Livro conta histórias de superação e foi finalista do Prêmio Jabuti 2011 na categoria Reportagem.



01/03/2015 07h40

O Rio comemora, mas também pede respeito


Em entrevista a uma rádio, o polonês naturalizado brasileiro Aleksander Laks - sobrevivente do Holocausto e um dos personagens do meu livro "Sou Feliz, Acredite!" - disse esta semana que adotou o Rio de Janeiro com um amor à primeira vista. Ele se sente não apenas brasileiro, mas carioca. E um dos principais motivos é o jeito de ser dos moradores da cidade. "Nos Estados Unidos, para onde fui logo depois da guerra, se você aparece com o corpo inteiro engessado ninguém pergunta nada. Aqui no Rio, se você corta um dedo todo mundo quer saber o que aconteceu", declarou. De fato, o povo carioca - quando observado de uma forma genérica - tem um estilo expansivo e, em muitos momentos, solidário. Embora a degradação da cidade, com expansão desenfreada, tenha provocado uma sensação de insegurança na maior parte do tempo, na maioria dos lugares, há ainda uma cultura de "companheirismo" em diversas situações. Mas, embora eu seja carioca da gema, aproveito a data para uma reflexão porque nem tudo é festa.

Nasci no Hospital da Lagoa (antigo Hospital dos Bancários), no Jardim Botânico; morei no subúrbio desde que nasci até meus 26 anos; morei também em Copacabana, Rio Comprido, Barra da Tijuca e Tijuca, ou seja, já vivi em todas as regiões da cidade (subúrbio, zona sul, zona oeste, zona norte). Tenho o Rio por meu lar e não gosto nem um pouco de uma parte do que está acontecendo por aqui. O espírito festivo do carioca é bom, mas muitas vezes passa dos limites com o desrespeito ao direito alheio. Muita gente que vive aqui destoa desse conceito de simpatia e camaradagem. Nossa beleza natural é espantosa, uma maravilha, mas vem sendo agredida por muita gente que devasta a natureza com lixo, esgoto, não apenas por ausência de estrutura, mas por falta de educação mesmo. Temos uma enorme quantidade de pessoas que desrespeitam essa cidade diariamente, embora vivam aqui. E temos que conviver com elas todos os dias, sem reclamar - pois, hoje em dia, uma simples queixa pode ser motivo para tomar um tiro. A falta de controle de natalidade tem feito com que um batalhão de novos bandidos ameace a nossa cidade. Basta ver a presença de menores delinquentes a todo instante no noticiário.

Sempre defendi que aniversário de gente não é só um momento de exaltação, mas, também, de possibilidade de renovação. É um ano novo particular de cada um. Um réveillon individual. Para a cidade, deveria ser assim também. Comemorar é sempre válido, mas 450 anos são muito tempo para a cidade estar com tantos problemas graves como hoje. Não podemos fechar os olhos a isso. Pelo contrário. O ideal seria soprar as velinhas com um olho no bolo e outro na realidade lá fora. A única maneira de melhorar é reconhecer erros, identificar os responsáveis pelos danos e agir para alcançar os objetivos. Precisamos não apenas de festa, mas de paz no Rio de Janeiro. Precisamos de tranquilidade para andar na rua, de sossego para viver na cidade, de bons serviços públicos, de educação e civilidade de quem vive aqui. Até uma ida à praia, nosso lazer mais típico, já não é recomendável hoje em dia nos fins de semana, diante da invasão de banhistas rudes que cometem todo tipo de irregularidade.

Diante da sensação de insegurança, não adianta cobrar providências só da polícia. Nunca teremos um policial em cada esquina. O foco exclusivamente sobre a polícia é um equívoco e não resolve o problema. Muitas medidas seriam necessárias - em diversas esferas do poder - para termos, de fato, uma melhora na qualidade de vida do cidadão do Rio. As pessoas que vivem aqui deveriam honrar a importância da cidade, deveriam ser dignas de participar do nosso cotidiano. Este, sim, seria um belo presente para os cariocas que amam o Rio de Janeiro e que se orgulham dos aspectos positivos da cidade. Ilusão? Utopia? Creio que sim. Mas não custa pensar no quanto isso seria bom. 



26/02/2015 20h19

Juiz com carro do Eike: embaraçoso? Ou mais que isso?


Esta semana, chamou atenção o uso da palavra "embaraçoso" para definir o ato do juiz Flávio Roberto de Souza, da 3ª Vara Criminal Federal, que dirigiu e guardou em sua garagem particular um Porsche Cayenne do empresário Eike Batista. Foi o desembargador federal Guilherme Couto de Castro, corregedor regional da Justiça Federal da 2ª Região, que classificou como "fato embaraçoso" o uso particular, por parte de um juiz, de bens apreendidos de réus. É bom saber que a corregedoria vai investigar o caso. E é louvável que o desembargador já tenha demonstrado, prontamente, uma rejeição a esse tipo de comportamento. Mas, ao mesmo tempo, é curioso como certas expressões são escolhidas a dedo para criticar alguém sem causar dor. "Embaraçoso" me pareceu bem pouco diante da repulsa que a atitude do juiz causou no povo. É que, já farto de ver a má conduta de autoridades em diversos níveis e diversas esferas, o povo tenta se apegar à esperança de ter um Judiciário correto e íntegro. Quando a confiança nesse poder cai por terra, resta pouco aos cidadãos. Por isso, creio que "embaraçoso" está bem distante dos termos que as pessoas usariam para tachar o que o juiz fez. Os leitores, certamente, teriam algumas boas ideias.



24/02/2015 13h08

Lady Gaga e o risco do rótulo

 

A surpresa do público com a participação de Lady Gaga no Oscar mostra o quanto é importante romper os rótulos. Que a cantora tem boa voz, qualquer um já poderia saber, mesmo a partir da percepção do repertório típico da artista. Mas vê-la com outro estilo e outra postura fez com que muita gente - que ainda não tinha reparado o alcance de sua voz - passasse a observá-la com outros olhos. Não se trata de gostar do tipo de música que Lady Gaga produz. Mas de reconhecer que, se ela quisesse, poderia cantar outros gêneros. Quem já ouvia Lady Gaga, continuará fã da cantora. E quem não gostava terá, pelo menos, a consciência de que ela é capaz de ser diferente.

Esse tipo de espanto ocorre em diversos tipos de manifestação artística. Neste mesmo Oscar, o ator Steve Carell concorria por um papel bem distante dos personagens cômicos que ele costuma encarnar. A mesma transformação - do humor para o drama - foi um desafio vencido por Jim Carrey e Bill Murray, por exemplo. Murray encantou quem assistiu a "Encontros e Desencontros". Até mesmo nomes incluídos no rol dos gênios em suas especialidades podem ter trajetórias em que há exceções dentro da regra criada em torno de suas figuras. Quem afirma não gostar de Pablo Picasso por rejeitar o Cubismo talvez se surpreenda ao perceber que ele pintou quadros muito diferentes do estilo de traços geométricos que o consagrou. The Barefoot Girl e Retrato de Suzanne Bloch são exemplos disso.

Muitas vezes, escolhemos um caminho dentre vários que temos condições de trilhar. Essas escolhas determinam a maneira como as pessoas nos veem. Mas ninguém deveria nos julgar limitados a essa preferência. Algumas habilidades são deixadas em segundo plano por motivos pessoais ou até estratégicos, mas, quando afloram, revelam um lado até então desconhecido que pode ser admirável. Portanto, devemos ter muita cautela antes de julgar alguém. Ele pode ser bem diferente do que a gente imagina.



22/02/2015 15h51

Hoje é dia de Oscar

Hoje é dia de Oscar. E, embora muitas pessoas gostem de acompanhar a premiação, outras tantas condenam quem se rende ao cinema americano e ao criticado "imperialismo". Um discurso radical que nunca faz bem. Muita gente fala mal do cinema americano, mas não perde uma oportunidade de ver um filme produzido nos Estados Unidos. E o motivo é simples: muitos filmes são bons. Se a festa do Oscar tem piadas sem graça, celebridades vaidosas querendo aparecer e até alguns concorrentes cuja participação é discutível, por outro lado o evento reúne momentos em que bons trabalhos são valorizados pela competência e pelo talento dos envolvidos. Trabalhos que nos atingem aqui e que, de certa forma, nos proporcionam entretenimento e (por que não?) conhecimento. Os americanos, criticados por muitos como afeitos ao belicismo e ao excesso de orgulho do próprio país, também têm uma grande contribuição artística. E não apenas no cinema. Outro dia, uma amiga se surpreendeu quando eu disse que, entre meus pintores preferidos, está Edward Hopper. "Quem?", perguntou. Sugeri que ela desse uma olhada no nome dele no Google. Um americano que deixou um vigoroso trabalho nas artes plásticas. Hoje em dia é tão fácil obter informação que o leque de conhecimento pode se ampliar de maneira muito construtiva.

     Como dizia Oscar Wilde, "influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma". O cinema americano, pelo alcance que conquistou, tem essa responsabilidade de medir o que vai dizer, o que vai mostrar. Mas quem está do outro lado do telão, em plena era da globalização, tem a obrigação de escolher aquilo que poderá - ou não - causar a tal influência. Quem assiste a um filme de determinada linha tem a chance de buscar opiniões diferentes para formar o próprio juízo de valor sobre tudo que acontece. Abrir as portas para o questionamento, para a procura por informações, para uma discussão saudável... já é meritório. Grandes pensadores tiveram pontos de vista diferentes dos nossos. Músicos geniais compuseram obras que nem sempre apreciamos. Renomados filósofos chegaram a conclusões que eles mesmos teriam derrubado se tivessem mais tempo para viver e amadurecer. A arte que chega até nós - seja americana ou não - pode emocionar, comover ou , em alguns casos, revoltar. Cabe a nós fazer o filtro, crescer com cada mensagem, com cada imagem, e separar o joio do trigo. Como não vi todos os filmes que concorrem ao Oscar ainda não poderia, em tese, torcer por um deles. Mas como vi, e adorei , "O Jogo da Imitação", torcerei para que esse filme ganhe o prêmio em alguma categoria. Quem não conhecia a história do homem que, à distância, salvou milhões de vidas certamente se emocionou. E o filme tem diversos aspectos humanos que nos fazem refletir. Boa sorte!



20/02/2015 09h19

Carmen teve alta. Quem é Carmen? Vejam que história bonita...

A Agência de Notícias de Direitos dos Animais, Anda, divulgou informações sobre a alta da cadela Carmen, nos Estados Unidos.  A história comovente de Carmen e de seu dono, Ben Ledford, envolveu milhares de pessoas que doaram dinheiro para ajudar no tratamento do animal. Carmen, uma boxer de 9 anos de idade, sobreviveu a um incêndio no dia 5 de fevereiro e foi encontrada no porão de uma casa em chamas. Ela estava deitada sobre o  dono, que morreu. Carmen sofreu lesões graves nos pulmões e correu risco de morte nas duas semanas em que esteve internada. Chegou a respirar com a ajuda de aparelhos. Mas resistiu bravamente e, de acordo com os veterinários, está sem sequelas neurológicas. 
O irmão de Ben, Phil, criou uma página para receber doações e o apoio superou as expectativas. Ele conseguiu 29 mil dólares. A Anda noticiou que a cadela já foi para uma nova casa com a sua "família humana". Bacana essa referência a uma "família" de seres humanos para um animal de estimação. Felizmente, para muitas pessoas, os bichos fazem, de fato, parte da família. E isso é bonito de se ver. Um contraste gritante com as tristes imagens que vimos, recentemente, no Rio de Janeiro, de um homem agredindo uma cadela na casa da noiva - que o denunciou à polícia. São casos opostos de gente que ama e  respeita os animais; e gente que extravasa ódio em seres incapazes de se defender. Como nosso objetivo, aqui, é enaltecer o que há de bom...fica a alegria de ver a Carmen de volta a um lar, com pessoas que merecem contar com a sua presença.



18/02/2015 09h36

O ano é da Portela: com ou sem título de campeã

 

     Hoje sai o resultado do desfile das escolas de samba do Grupo Especial. E a ansiedade é sempre grande para os torcedores de todas as agremiações. Mas, no caso dos portelenses, a tensão é ainda maior por vários motivos: o jejum prolongado de títulos, a enorme expectativa criada em torno da Portela mesmo antes do desfile e o fato de a escola ter sido a mais empolgante na Sapucaí, mas, ao mesmo tempo, ter cometido pequenos erros que, na avaliação rigorosa dos técnicos, podem causar a perda de pontos preciosos. Diante de tanta expectativa, muitas pessoas encaram a apuração a ferro e fogo, como algo que pode determinar o humor do dia. Prefiro festejar o desempenho da escola, independentemente da avaliação dos jurados. Os portelenses podem se orgulhar de terem feito um desfile envolvente, alegre, vibrante, que levantou o público e que deixou a marca da imagem do ano no carnaval: a águia redentora, capa de todos os jornais.
     A Portela teve um samba dos mais bonitos, que faltou, por exemplo, nos desfiles da Mocidade - com um samba considerado um dos piores do ano - e do Salgueiro, que apesar da beleza das alegorias e das fantasias, tinha um samba fraquinho, que também não caiu no gosto popular.
     A Portela fez um desfile muito animado, que não se viu, por exemplo, na Imperatriz - vencedora do Estandarte de Ouro. Tenho grande simpatia pela escola de Ramos, uma agremiação que sempre atuou com competência, com belos enredos e apresentações (além do mais, é uma escola generosa, que ajuda muito o Império Serrano). Mas quem estava na avenida neste carnaval percebeu que muitos componentes da Imperatriz não cantavam. Um amigo meu, que estava na Sapucaí, chegou a alertar os coordenadores de alas, angustiado ao constatar  a falta de participação dos integrantes: "Eles não estão cantando", ele comentou. Os coordenadores abriam os braços, derrotados, porque não conseguiam fazer todos cantarem. Segundo eles, havia muitos estrangeiros nas alas.
     A Portela teve uma leveza que faltou, por exemplo, à Beija-Flor. Chico Spinoza comentou na rádio Globo o quanto a escola de Nilópolis estava pesada  (além do mau gosto de homenagear um país onde existe uma ditadura sanguinária).
     Por tudo isso, ganhando ou não, a Portela é a escola que mais marcou o carnaval 2015.E isso já deve ser motivo de alegria e de comemoração. Se vai perder pontos porque um chafariz não funcionou, porque um carro não acendeu, ou por outros detalhes técnicos... não faz diferença para quem está orgulhoso de um desfile tão bonito e, depois de tantos anos,  tão "redentor". Parabéns para a Portela!


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16/02/2015 12h00

Sapucaí: imagens que ficam e valem mais que mil palavras

Assistindo ao desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel, veio à minha mente o ditado de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Com o carro alegórico que mostrava pessoas nas camas, o carnavalesco Paulo Barros conseguiu mostrar que a diversidade sexual é algo natural, que já deveria estar fora do rol das discussões polêmicas. Cada um faz o que quer,com liberdade, desde que respeite o direito alheio. E ponto. Havia camas com casais heterossexuais, casais homossexuais, camas com três pessoas, pessoas de diferentes cores de pele, uma bela imagem contra a discriminação. No geral, não me encantei pelo desfile da Mocidade e, portanto, estou isenta para
considerar que a alegoria do motel trouxe uma mensagem de igualdade valiosa que se destacou neste primeiro dia do Grupo Especial na Sapucaí. Uma pena que também esteve na Mocidade o momento mais temerário: um casal de porta-bandeira e mestre-sala é importante demais numa agremiação para ficar preocupado em controlar um sistema que provoca fogo na roupa. O casal estava visivelmente tenso com essa tarefa e deveria estar livre para evoluir sem outras ocupações. De qualquer forma, é bom ter as provocações de Paulo Barros na avenida. Mesmo quando algo não funciona tão bem, ele tentou inovar no script, o que é saudável. Tão válido quanto quem pretende manter a tradição. Me emocionei com as rosas da Mangueira. Assisti ao desfile ao lado de meus pais. E minha mãe, que é uma apaixonada mangueirense sem explicação (numa família portelense), ganhou a noite ao ver a verde e rosa homenageando as mulheres. São momentos mágicos que ficam na memória da gente.



15/02/2015 18h38

Turistas recebem folhetos contra o desperdício de água

O uso racional da água não só é possível como é fácil. Basta lembrar, no dia a dia, de medidas simples para evitar o desperdício. Todos já sabem o que fazer. Muitos ainda abusam e as campanhas estão aí para a conscientização. Mas, com a chegada do carnaval, muitas pessoas estão apenas de passagem pelas cidades mais festivas - como o Rio de Janeiro. Elas vão embora depois da folia. Como convencê-las a economizar água? Como criar o compromisso de respeitar os limites de uma população que luta para evitar a seca? A iniciativa pode partir de cada um. Em Copacabana, um dos bairros cariocas com maior procura por hospedagem nesta época, a síndica de um prédio onde muitos apartamentos são alugados por temporada decidiu imprimir folhetos com explicações sobre a situação do Rio. Ela deixou claro, em português, inglês e espanhol, que precisamos da ajuda de todos. E que o uso racional da água, na verdade, é uma medida necessária em qualquer tempo e lugar. É questão de educação, de boa formação.

Vai dar certo? Não sabemos. Mas Ieda Bezerra fez algo. Agiu. Dona de uma administradora de imóveis, ela conhece bem as dificuldades de influenciar pessoas de diversos perfis, com necessidades distintas e objetivos variados, que dividem o mesmo espaço coletivo e, por isso mesmo, devem ter um espírito de cooperação. Espero que esse tipo de proatividade se espalhe o máximo possível para que os bons exemplos de multipliquem. Afinal de contas, dá para pular o carnaval sem exagerar. Dá para se divertir sem perder a linha. E muita gente boa está aí para provar isso.

 

 

 



14/02/2015 15h32

Quem desfila no carnaval é herói para muitas crianças

Quando eu tinha nove anos de idade, meu tio Hélio morreu. Ele desfilava na Portela e a família acompanhava os desfiles todos os anos, torcendo com fervor pela azul e branca de Oswaldo Cruz. Senti muito a perda porque para mim, além de irmão da minha mãe, ele era uma espécie de herói. Era alguém que, vestindo uma bela fantasia, representava um papel, participava de um espetáculo de alegria, atingia a emoção das pessoas. Sua morte ainda teve um impacto maior porque ele sofreu um acidente após sair de um ensaio da Portela. Era madrugada, ele havia se divertido, sambado, cantado...e morreu na volta para casa. Era 1975, ano de "Macunaíma". Mas o samba que me fazia lembrar de meu tio não era da Portela, e sim da Império Serrano. "Aquarela Brasileira", de 1964, entrou para a história do carnaval e ainda era bastante tocado (aliás, até hoje faz sucesso): "Vejam essa maravilha de cenário / É um episódio relicário / Que o artista num sonho genial / Escolheu para este carnaval". O artista, para mim, era tio Hélio. Lembro disso com a certeza de que desfilar numa escola de samba não é apenas se apresentar diante de uma multidão - hoje bem maior e de forma bem diferente daquela época do tio Hélio. Quem veste uma fantasia e vai para a avenida pode representar um personagem mítico na imaginação de uma criança. E isso gera responsabilidade. Passei anos sem conseguir cantar "Aquarela Brasileira" porque me emocionava e começava a chorar. Fruto de algum trauma desenvolvido com aquela perda. Mas em 2004 o Império Serrano reeditou o samba de Silas de Oliveira e resolvi enfrentar a saudade. A sensação é boa quando vencemos velhos fantasmas. Desfilei na verde e branca de Madureira, cantei o samba, dancei. E creio que, ao tirar o peso  da tristeza associada àquela música, pude absorver a sua beleza e usufruir do que o samba tem de melhor: a capacidade de alegrar.



13/02/2015 17h20

John Wayne no carnaval. Quem vai?

Em dias de carnaval, muita gente que não gosta da festa fica ranzinza, criticando meio mundo, rogando praga principalmente contra os blocos que causam zoeira e sujeira pelas ruas. Mas é preciso ter paciência. E é necessário, também, observar que nem todos os foliões gostam de bagunça. Muitos preferem se divertir de forma saudável, respeitando os direitos dos outros. E aí a festa é bonita, é um momento de alegria coletiva que, se for bem aproveitado, pode trazer um certo alento em meio a tantas dificuldades que vivemos no dia a dia. Há quem argumente que a festa é o ópio do povo, mas tal discurso também soa rabugento. Seria possível ter consciência política, cobrar medidas sérias das autoridades e, ao mesmo tempo, se dar o direito de dançar e cantar no carnaval. Uma coisa não exclui a outra. Não precisamos viver o tempo inteiro preocupados com corrupção e criminalidade. Entretenimento também faz parte das necessidades do ser humano, como já diz a música: "A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte".

Mas quem, ainda assim, acha que o carnaval é chato, a rede Cinemark proporciona uma ótima opção de lazer. Além de manter a programação normal do grande circuito, o Cinemark Botafogo,na zona sul do Rio, está exibindo grandes clássicos do cinema. Uma chance de vermos - no telão - filmes que fizeram sucesso décadas atrás e que deixaram uma marca na história. Neste fim de semana de carnaval haverá exibição de "Rastros de Ódio", de John Ford, estrelado por John Wayne. Bela iniciativa. No dia 8 de fevereiro, tive o prazer de assistir ao meu filme preferido, "Se Meu Apartamento Falasse", de Billy Wilder, meu diretor predileto, com Jack Lemmon, meu ator mais querido. Era dia de meu aniversário. Um presente. E era dia de aniversário de Lemmon, que faria 90 anos se estivesse vivo. Foi uma emoção e um belo momento para guardar. Espero que a ideia se espalhe e tenhamos possibilidade de ver - ou rever - muitos filmes antológicos que intensificam o nosso gosto pelo cinema.

 



12/02/2015 20h03

Caso Dorothy: punição aos olhos da lei; impunidade aos olhos do bom senso. A lei precisa mudar


Hoje faz 10 anos que a missionária americana Dorothy Stang foi assassinada em Anapu, no Pará. A falta de uma punição rigorosa dos envolvidos no crime é o retrato da falência do sistema de segurança de nosso país. Além de estampar a questão da violência no campo, o caso também deixa claro que a sociedade fica muito focada nas cobranças de ações policiais, presentes de forma maciça no noticiário, mas é pouco exigente quando se trata de reivindicar correção na área penitenciária e rigor nas searas judicial e legislativa. Vejamos:

Reportagens dão conta de que os dois mandantes do crime, Vitalmiro Bastos de Moura e Regivaldo Pereira Galvão, não estão na cadeia (Vitalmiro cumpre pena em regime semiaberto, com prisão domiciliar por problemas cardíacos, e Reginaldo aguarda em liberdade o julgamento de um recurso no Superior Tribunal de Justiça, pela condenação a 30 anos de prisão). Clodoaldo Batista, um dos autores do assassinato, foi condenado a 18 anos de reclusão, mas cumpre pena em regime semiaberto em um centro de recuperação em Belém. Rayfran das Neves Sales, autor dos disparos, foi condenado a 27 anos de prisão, cumpriu quase nove anos e teve direito a progressão para prisão domiciliar. Em outubro de 2014, foi detido novamente por envolvimento em outro assassinato. Amair Feijoli Cunha, condenado a 17 anos, também cumpre prisão domiciliar.

Especialistas já declararam que, sob o olhar rígido da lei, os envolvidos estão sendo julgados e recebendo benefícios previstos pelos códigos penais.Tudo em conformidade com a letra da lei.  Ou seja, não haveria, neste caso, propriamente uma impunidade. Mas como? A sensação que fica para quem faz o balanço do caso é, obviamente, de impunidade à medida que ninguém está atrás das grades. É preciso que a sociedade se mobilize para cobrar mudanças na lei, de modo que autores de crimes brutais não possam ser passíveis de progressão de regime, de liberdade na espera por julgamento de recursos, de beneficios moralmente e eticamente incompatíveis com o bom senso e com a necessidade de segurança. Está muito fácil para os bandidos. E o pior: "oficialmente" fácil.



11/02/2015 19h22

Invictus: Mandela senhor de seu destino e de sua alma. Inspiração para todos

 

Há 25 anos, Nelson Mandela deixava a prisão em Robben Island e a história na África do Sul ganhava um novo capítulo. O dia 11 de fevereiro de 1990 ficou marcado por esperanças renovadas na luta contra a discriminação racial. O apartheid foi oficialmente eliminado e Madiba - como era chamado pelos seguidores -  cumpriu uma trajetória que o levaria à presidência do país, tendo nas mãos a chance de se vingar dos antigos perseguidores. Mas o que se viu foi um exemplo de tolerância e de busca por unidade na nação sul-africana. A forma como Mandela tentou criar uma identidade entre brancos e negros por intermédio do rugby deixa claro como um esporte pode ter força na estratégia política de um grande líder. Tal iniciativa é mostrada no filme "Invictus", de Clint Eastwood, com Morgan Freeman no papel de Mandela.

‘Invictus’ é um poema escrito em 1875 pelo inglês William Ernest Henley. Quando aprisionado em Robben Island, onde cumpria pena, o líder sul-africano encontrou nas palavras de Henley a esperança e a força necessárias para sobreviver e, mais que isso, acreditar na libertação. Prova do vigor da arte verdadeira através dos tempos. Henley morreu em 1903. Mandela nasceu em 1918. A influência do escritor inglês no equilíbrio emocional de Mandela realça a beleza do afeto que somos capazes de manter por pessoas distantes no espaço e no tempo. Em homenagem a Mandela e, também, a esse elo que todos cultivamos com grandes nomes que nos inspiram, reproduzo aqui o poema lido e relido tantas vezes por ele na cadeia: 

Invictus


Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Tradução:

Dentro da noite que me cobre
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida

Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.



25/01/2015 11h05

Precisamos de gente assim

A reação solidária e equilibrada dos pais do menino Asafe, de 9 anos, morto por bala perdida ao se divertir em um clube na zona norte do Rio, mostra que é possível, mesmo no momento de dor, refletir e tomar uma decisão em prol do coletivo. O pai do menino, Wagner, resumiu de forma simples o motivo do gesto.

- Tivemos uma perda e ainda vamos sofrer muito. A gente achou melhor, então, fazer uma boa ação e ajudar o próximo.

A família do surfista Ricardo dos Santos tomou a mesma atitude. Doou as córneas e só não o fez com os outros órgãos porque o jovem sofreu parada cardíaca - o que inviabiliza o procedimento.

Pronto. Não precisa mais nada. Não é necessário buscar explicações psicológicas, sociológicas, antropológicas....
Famílias resolveram, simplesmente, ajudar o próximo. Com isso, fazem mais do que beneficiar os receptores dos órgãos. Elas reforçam o senso comum sobre a importância da doação. Se tornam exemplos, espelhos. Precisamos cada vez mais de gente assim, capaz de pensar a sociedade como um todo - sem egoísmo, sem omissão, seja na alegria ou na dor.



25/01/2015 10h46

E daí?


A repercussão da forma física da apresentadora Fernanda Gentil e a maneira como o assunto ganhou corpo nas redes sociais mostram com clareza o vazio do interesse coletivo - na maioria - por temas de relevância social e que influenciem, efetivamente, o nosso cotidiano. No momento em que um surfista foi morto a tiros de forma banal em Santa Catarina, pessoas estão sendo atingidas por balas perdidas no Rio, o terrorismo internacional recrudesce, a escassez de água causa angústia, o escândalo da Petrobras não cessa, parentes de políticos são nomeados para cargos públicos, um brasileiro é executado na Indonésia, e por aí vai, o que "bombou" nas redes sociais, como dizem, foi a suspeita de que Gentil estivesse fora de forma - justificada pelo fato de que a apresentadora está grávida. E se não estivesse? E se ela ficar gorda? O que interessa? As pessoas deveriam ocupar seu tempo com assuntos que possam mudar uma realidade cada vez mais difícil de digerir. E não se preocupar com temas de interesse particular dos outros. Temos dezenas de temas a debater, que precisam de definição, a partir da reflexão de cidadãos que tenham coragem para propor e cobrar mudanças. O Facebook, infelizmente, tem sido um espelho do pensamento raso de uma sociedade que, se não mudar, vai ser seu próprio algoz neste país que tinha tudo para ser diferente - bem mais rico, bem mais respeitado, bem mais independente... Se não fosse essa pobreza de espírito.



30/12/2014 19h34

Há cem anos, uma trégua (para o Natal) entrou para a história


Ouvindo o BBC Take Away English, ferramenta muito útil para o treino do idioma, pude recordar um episódio emocionante que traz, ao mesmo tempo, esperança e desolação. Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1914, alemães e britânicos fizeram uma trégua para a confraternização de Natal em plena zona de combates. Trocaram pequenas lembranças, conversaram, fumaram e até jogaram futebol juntos. Muitos haviam prometido estar de volta às famílias em dezembro para as celebrações. Mas, depois de meses de guerra e milhares de mortos, eles ainda continuavam nas trincheiras. Michael Jurgs, autor de "The Small Peace in the Great War" acredita que os soldados já estavam fartos da guerra. E o cessar-fogo não seria apenas motivado pelo espírito natalino, mas por uma sensação de "não aguento mais isso aqui". Infelizmente, a trégua durou pouco. Mas deixou a marca de que, no fundo, todos são parecidos e buscam as mesmas realizações. Se não houvesse um comando para exigir o confronto, se não houvesse imposições políticas baseadas em interesses escusos, todos poderiam viver em paz. Política e religião levam com frequência a atrocidades descomunais. Mas quando pinçamos da realidade um fragmento surpreendende como esse, percebemos o quanto poderíamos mudar o rumo do planeta se houvesse união contra quem promove o mal.


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