Nos sete anos de existência do portal SRZD, o que me vem à mente de imediato é a relevância da leitura para a formação de cada indivíduo e para o amadurecimento da sociedade como um todo. Por meio da leitura, todos nós ampliamos a capacidade de refletir de forma crítica, de construir uma história pessoal mais produtiva e de contribuir para a evolução da sociedade em direção a um maior equilíbrio. Informação, análise dos fatos, exposição de ideias, tudo isso enriquece o pensamento e, mais do que isso, pode mudar rumos, alterar vidas.
Lembro que, ao lançar meu livro, em 2010, ele foi classificado em duas categorias: reportagem (por ser baseado em fatos reais) e autoajuda (por narrar histórias de vida que poderiam influenciar os leitores de maneira positiva). Na ocasião, pensei: o que é, na verdade, essa autoajuda? E, a partir de minhas próprias experiências, concluí que a autoajuda pode ser obtida em qualquer obra - não apenas nos livros assim rotulados. Foi lendo um pensamento de Jean Paul Sartre que me convenci da importância de saber ficar sozinha quando necessário. Afinal, se não fico bem sozinha é porque sou "uma má companhia"... Foi lendo Fernando Pessoa que apreendi o sentido poético da morte. Foi com Voltaire que encontrei na ironia fina e inteligente uma inspiração para suportar absurdos que afetam nosso cotidiano. Foi com Mário Quintana que aliviei a carga pesada de momentos de tensão com a leveza e o humor de sua poesia inigualável. Nenhum desses autores está nas prateleiras da autoajuda, mas todos - e muitos outros - me ajudaram - e ajudam sempre - a compreender melhor o mundo em que vivo e minha própria personalidade. Na verdade, todos me mostraram um caminho para que eu mesma me ajudasse. Daí o termo AUTOajuda, pois sempre somos nós mesmos que operamos as mudanças em nossas vidas. Só precisamos de um empurrãozinho.
O portal SRZD dá esse empurrão, a cada dia, a cada hora, com muita categoria. Com uma cobertura ampla, diversificada e de qualidade, auxilia os leitores em cada segmento de suas vidas. Fazer parte desse grupo, mantendo um blog para exposição de minhas ideias, é uma honra. Como jornalistas e, de certa maneira, formadores de opinião, temos a responsabilidade de aderir a veículos cujos gestores agem com ética e consciência de seu papel na "educação" dos leitores. Sim, informar também é educar. Estou certa de que muitos aniversários virão pela frente e que o SRZD sempre cumprirá sua missão com brilho. Espero estar sempre à altura dessa empreitada.
A notícia de que Catherine Zeta Jones faz tratamento contra um transtorno bipolar pode surpreender quem pensa que esse tipo de doença não acometeria uma atriz famosa, vencedora de prêmios importantes (inclusive um Oscar), linda e rica. Mas os transtornos que afetam nossa mente e nos torna incapazes de viver de forma equilibrada não se fundamentam na conquista (ou não) de êxitos financeiro e profissional. Resultam de um misto de diversos fatores, inclusive genéticos em alguns casos. Sempre me impressionei com a felicidade de pessoas que aparentemente não teriam a menor possibilidade de viverem bem e o abatimento de outras que, aos olhos do mundo, deveriam estar sempre sorridentes e saltitantes. O ser humano é muito complexo e o primeiro passo para cuidarmos de nós mesmos e de ajudarmos os outros é ter a consciência de que nada é simples e tudo requer estudo e aplicação. E é fundamental assumir a própria condição para que o problema não se torne um fantasma e acabe prejudicando a autoestima. Há dois anos, Catherine surpreendeu ao revelar que sofria desse transtorno. E prossegue o tratamento, em busca de um equilíbrio. As notícias sobre a atriz podem ajudar a jogar luz sobre uma questão que tem incomodado os psiquiatras. Hoje em dia, por falta de informação, qualquer pessoa que alterne momentos de bom humor e de irritação já é passível de ser apontada por leigos como bipolar. Psiquiatras têm alertado para a banalização dessa referência. Todos nós temos momentos de ira e de alegria ao longo de um dia comum, numa sociedade tensa como a nossa e lendo as notícias que estão nos jornais. Quem não se revolta ao saber da dentista queimada por jovens bandidos em Itapevi? Quem não fica abatido com o receio de também ser vítima desse tipo de gente? Medo, raiva, revolta e tantos outros sentimentos negativos abalam nosso humor diariamente. Mas nos apegamos ao que há de bom para que a balança fique favorável. O bipolar é diferente. Os períodos de tristeza são longos e alternados com períodos igualmente duradouros de euforia, à margem do controle do paciente. Não trata-se de uma simples mudança de humor. Espero que o exemplo de Catherine ajude a esclarecer esse tipo de doença e que as pessoas, como ela, busquem apoio da maneira correta em busca de uma vida melhor.
Sempre gostei de ouvir Daniela Mercury, dona de uma das mais belas vozes do país. A união da cantora com uma mulher não mudou em nada minha opinião sobre ela. E não afetou em nada a minha rotina - a não ser pelo fato de que achei revelante escrever aqui sobre esse assunto.Por um único motivo. A repercussão sobre o caso é tão grande que gera uma dúvida: será que essa avalanche de reportagens e comentários sobre Daniela ajuda a reduzir - ou até eliminar - o preconceito de muita gente ou revela apenas o quanto as pessoas ainda consideram "espantosa" a opção sexual da cantora? Recentemente a rádio BandnewsFM lembrou uma entrevista dada pelo ator Morgan Freeman ao jornalista Mike Wallace. Morgan disse que a melhor maneira de evitar o racismo, atualmente, é não falar sobre ele. Datas que homenageiam a tal consciência negra, na visão do artista, só servem para criar um distorção, pois não existem datas comemorativas dos brancos. Talvez o mesmo ponto de vista se aplique a quem costuma sofrer discriminação em geral. Talvez a melhor maneira de reagir à homossexualidade ou bissexualidade seja justamente encará-las como algo natural e não alardeá-las com tamanha perplexidade como tem sido feito. A partir do momento do anúncio feito pela cantora, notícia dada ao público, o assunto deveria ser deixado de lado. E vida que segue. Enfatizar, dezenas de vezes, o quanto Daniela tem o direito de se relacionar com uma mulher pode revelar, no fundo, uma tentativa de justificar a escolha da cantora. Isso não deveria ser necessário. Ela tem o direito. E ponto. Já é hora de tratar o tema de modo mais natural. Caso contrário, em vez de contribuir para a igualdade, o efeito pode ser o oposto. Daqui a pouco, quem gosta da Daniela - mas não está interessado em sua vida particular - não vai mais aguentar ouvir o nome da artista, tamanho o tédio de vê-la como tema exaustivo de disse-me-disse. Cabe a Daniela, também, se poupar de virar figura fácil em discussões vazias. E viver feliz, como ela merece, sem dar satisfação dos seus atos.
O assassinato de um estudante por um bandido de 17 anos em São Paulo trouxe à tona pela enésima vez a discussão sobre a legislação de proteção aos menores. Muito já se falou e muito ainda se fala sobre a lei que ampara criminosos antes dos 18 anos. Ele é tão bandido aos 18 como aos 17, 16 ou qualquer idade em que tenha a capacidade de agir racionalmente. É revoltante abrir os jornais e ver que o nome do assassino nem sequer pode ser revelado. O nome da vítima está lá. Mas o código impede que as pessoas saibam quem cometeu o crime - pelo simples fato de ser menor de idade. Ou seja, quem vive perto de uma pessoa capaz de matar uma outra com um tiro na cabeça de forma banal não tem nem o direito de saber com quem está lidando.
A proteção da lei faz com que criminosos adultos usem a "mão-de-obra" de crianças e adolescentes para certos tipos de atividades ilícitas, sabendo que eles não são passíveis de uma grande punição. Em vez de discussão a respeito do assunto, seria necessária uma ação vigorosa e urgente para acabar com tal distorção. Caso contrário, a sociedade vai estar cada vez mais a mercê do humor de menores bandidos que não têm muito a perder ao cometerem as atrocidades.
Esta semana, diante de mais uma notícia de fraude veiculada pela tv, ouvi um desabafo do meu pai: "É muito pilantra por aí. Assim não dá. Explode coração". As palavras não foram ditas para mim ou minha mãe, que estávamos na sala. Ficaram soltas no ar, como um desabafo espontâneo de quem tem dificuldade para lidar com a realidade de um país onde a conduta ilegal ou imoral de muitas - muitas - pessoas se torna um fardo emocional bem pesado para quem tem retidão de caráter. Basta um passeio rápido pelas páginas de notícias para se perceber que fraudes e golpes acontecem por todo o país, em todos os setores, em diversos níveis - desde pessoas com cargos mais simples até figurões que recebem altos salários. São tantos... mas tantos... casos de fraudes, golpes, maracutaias, que o cidadão comum, comprometido com o trabalho honesto, tem a sensação de que a maioria das pessoas tem algum grau de envolvimento em algum tipo de ato ilícito. É como se mal pudéssemos olhar para o lado. Fiz um teste com amigos lançando uma pergunta simples e direta: "Você acha que existem mais pessoas boas ou más no mundo?". Todos disseram acreditar que, no mundo, há uma quantidade maior de pessoas boas. As más chamariam mais atenção justamente por serem foco de notícias frequentes. Será? Vamos, então, mudar a pergunta: "Você acha que as pessoas que cometem crimes ou atos de corrupção, sejam grandes ou pequenos, são mais numerosas do que as pessoas que agem sempre direito?" A resposta veio com mais dificuldade. Ainda assim, disseram que a maioria é honesta. Será? Talvez a honestidade como conceito seja algo além da compreensão da maioria. Como disse Tchekhov, "Todos nós sabemos o que é uma ação desonesta, mas o que é a honestidade, isso, ninguém sabe".
Notícias de crimes que envolvem relacionamentos de casais deixam claro que relações pessoais podem se transformar em tragédias para famílias inteiras. Tudo depende da maturidade das pessoas envolvidas na relação e da capacidade de fazer concessões, de aceitar perdas, de reconhecer falhas. Hoje, o psiquiatra Flávio Gikovate respondeu a uma pergunta curiosa de uma ouvinte: a prima dela está sendo alvo de chantagem do marido, que ameaça se matar ("parar em um caixão") em caso de separação. Ela não sabe o que fazer. A plateia chegou a rir quando o psiquiatra, de maneira bem objetiva, disse que parar no caixão era um direito natural dele.Gikovate fez questão de deixar claro que cada pessoa é responsável por suas próprias decisões e que ninguém deve ceder a chantagens emocionais, que podem se tornar uma armadilha com desdobramentos imprevisíveis. Deve ser muito difícil agir de forma independente quando se lida com alguém imaturo que recorre a subterfúgios dramáticos para obter vantagens na relação. Mas vale lembrar que a felicidade de cada um depende da coragem de escolher o melhor para si mesmo, pois ninguém consegue oferecer aos outros o que não tem. E só quem alcança um bem-estar pessoal pode compartilhá-lo com as pessoas ao redor.
O estupro da turista suíça na Índia, diante do marido que foi amarrado pelos criminosos, é mais um caso de atrocidade naquele país, dentre tantos que vêm sendo divulgados pela imprensa. Cabe ao governo indiano uma medida enérgica para eliminar esse tipo de banditismo. E cabe aos turistas, pelo menos por enquanto, riscar a Índia do mapa. O boicote a lugares onde práticas criminosas hediondas se tornam uma constante é a melhor maneira de os cidadãos comuns de outros países se posicionarem. Afinal, para muitas pessoas e instituições - inclusive governamentais - o bolso ainda é a maior preocupação. Uma agressão desse tipo - que marca a vida de uma pessoa e de uma família para sempre - tem que atrair a solidariedade de pessoas de diversas partes do planeta para que algo seja feito com urgência. Até porque diversas indianas já sofreram o mesmo tipo de ataque e, no caso delas, nem teriam para onde ir. Mas os turistas, estes sim podem dar uma boa resposta, planejando viagens para outros lugares.
A influência do sono na qualidade de vida das pessoas é maior do que muitos pensam. Uma entrevista que ouvi hoje com a vice-presidente da Associação Brasileira do Sono, Andréa Bacelar, foi bastante esclarecedora sobre aspectos que envolvem a nossa rotina em casa e no trabalho. Apesar de ser um tema já abordado outras vezes, ela deu uma informação que eu desconhecia e que achei interessante: quem trabalha a noite inteira e sai do trabalho ao amanhecer deveria usar óculos escuros para atenuar o impacto da luz no organismo, num momento em que a pessoa está predisposta a acordar (em vez de ir dormir). Curioso como existe uma predisposição biológica para dormir à noite e acordar de manhã. Ela também ressaltou que é possível até se ajustar a um horário estranho desde que seja rotineiro. O pior dos mundos é a mudança frequente de horário no ambiente de trabalho. Isso mostra o quanto é grande a responsabilidade das empresas e como é importante a fiscalização dos órgãos que lidam com os direitos do trabalhador. A submissão a regras que agridem o organismo - por causa da necessidade de manter o emprego - pode causar sérios danos a médio ou longo prazo. Problemas no sono podem causar depressão, fadiga, falhas de memória, má digestão, hipertensão, diabetes, etc. Uma bola de neve destrutiva que todos devemos evitar. Aqui vai uma dia. Segundo Andréa, quatro especialidades médicas já lidam com a questão do sono de maneira direta: neurologia, psiquiatria, pneumologia e otorrinolaringologia. Vale procurar um médico de uma dessas áreas e pedir orientação para tentar melhorar a qualidade do sono e, consequentemente, da vida como um todo.
A desoneração da cesta básica pelo governo federal ainda não causou o efeito esperado e são muitas as reclamações dos consumidores. Empresários argumentam que não poderiam reduzir preços porque há estoques anteriores à medida oficial. Mas é curioso como, em caso de aumento de preço, os comerciantes rapidamente se apressam em fazer reajustes sem levar em conta os tais depósitos. Foi o que aconteceu com o valor do combustível. Mal o aumento foi liberado nas refinarias, a gasolina já armazenada nos postos subiu de preço da noite para o dia.
Hoje, uma notícia deixou claro que o consumidor terá dificuldade em obter alguma vantagem: o valor da cesta básica em São Paulo, em vez de cair, até subiu (0,55% entre 8 e 14 de março). A presidente Dilma pede "consciência" aos empresários. Alguém tem esperança?
Os tributaristas, claro, têm mil explicações.E os empresários alegam que o custo elevado de itens específicos encarecem a produção. Mas basta recorrer à memória para perceber que a exploração do consumidor é um mal que assola toda a sociedade. Quem não lembra dos preços abusivos cobrados por motoristas de vans na última greve de rodoviários no Rio de Janeiro?
Mais de um mês depois do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), mais um jovem morreu em consequência dos ferimentos e da inalação de fumaça tóxica. Isso mostra como os incidentes que envolvem fogo são traiçoeiros. Mesmo depois de quatro semanas de tratamento - período que seria bem razoável para outros tipos de males - o risco de morte decorrente de incêndio ainda era um fantasma a assombrar a família da vítima. Imagino o drama vivido por parentes e amigos de Pedro Falcão Pinheiro, de 25 anos. Para eles, a tragédia se prolongou por todo esse tempo em que o caso ficou fora das manchetes.
O mesmo está acontecendo com as pessoas ligadas a 21 vítimas que ainda estão internadas em hospitais. A ansiedade deve ser brutal. Minha experiência em entrevistas com pessoas que sofreram perdas mostra que o melhor caminho é a união. Quem passa por uma tragédia precisa, geralmente, de identificação com outras que estão em situação semelhante. Lembro que, no caso da chacina de Acari,em que 11 jovens desapareceram (e foram mortos, embora os corpos jamais tenham aparecido), Vera Lúcia, uma das mães mais ativas na luta por justiça, comentou que havia mulheres reticentes na participação nas campanhas que lembravam seus filhos. Vera disse que elas ficaram à margem por escolha pessoal,mas sofreram com o isolamento. Para Vera, a sensação de comprometimento com o grupo e o apoio que as mães ofereciam umas às outras foram determinantes para o enfrentamento das dificuldades. Espero que as famílias que hoje sofrem as consequências da tragédia de Santa Maria tenham uma união capaz de atenuar os males causados pelo trauma decorrente de tamanha dor. E que possam buscar em outros grupos - que se formaram a partir de situações dramáticas- um apoio e uma orientação. Eles estão sempre dispostos a ajudar.
A campanha "Homem de verdade não bate em mulher", do Banco Mundial, tem o mérito de usar homens para transmitir a mensagem contra a violência. Isso afasta a ideia equivocada de que a Lei Maria da Penha é contra os homens em geral. Lá estão Cauã Raymond, Flávio Canto, Gabriel Braga Nunes, entre outros, que não cobraram cachê e participam de um esforço nobre de proteger a integridade das mulheres. Mas tenho dúvidas sobre a eficácia desse tipo de iniciativa. Será que homens agressivos, capazes de atos de violência contra as mulheres, se sensibilizam com os cartazes nas mãos dos famosos? Será que fariam mea culpa e mudariam a conduta para se tornarem "homens de verdade"? Ou será que, pelo pensamento torto desse tipo de homem truculento, a campanha vai ser motivo de deboche como se os participantes fossem paspalhões? Talvez fosse mais eficaz mostrar fotos de homens violentos que hoje estão atrás das grades. Sabe aquelas fotos de pessoas doentes nas embalagens de cigarro? Creio que surtem mais efeito do que qualquer "orientação" sobre os males do tabagismo. POucas pessoas sabem ouvir; pouquíssimas dão ouvidos a campanhas de esclarecimento.
Nada pode atenuar a dor sentida pela família do menino de 14 anos que morreu ao ser atingido por um sinalizador no Estádio Jesus Bermúdez, na Bolívia. Mas a atitude do treinador Tite, ao abordar o tema com emoção na coletiva, faz, ao menos, com que os parentes do garoto sejam tratados com dignidade pelo responsável pelo time. Tite não tentou livrar a barra da torcida. Da mesma forma elogiosa agiu o lateral Fabio Santos, que declarou concordar com a exclusão do time da Libertadores caso esse afastamento sirva para botar uma pá de cal nesse tipo de violência. Tanto Tite como Fábio demonstraram que não se deixam levar pela euforia do sucesso. Antes de serem técnico e jogador, eles são seres humanos,comprometidos com a coletividade. Tite chegou a declarar que trocaria o título mundial pela vida do menino. Poderia parecer demagogia, mas ficou claro que não é. E poderia parecer algo normal de se dizer, mas sabemos que muitos não trocariam a vida de um desconhecido por uma façanha pessoal. Geralmente, os episódios trágicos trazem personagens que, se não modificam a realidade produzida pelo drama, ao menos nos trazem um alento ao percebermos gestos e pensamentos dignificantes. Esse foi um belo exemplo.
A presidente Dilma festejou: 22 milhões de brasileiros deixaram de pertencer à faixa de pobreza extrema. O governo considera miseráveis aqueles que têm renda per capita abaixo de 70 reais por mês. Pelo critério dos burocratas, bastam 280 reais mensais - menos de um salário mínimo - para tirar da miséria um casal com dois filhos. Hoje cedo, na Bandnewsfm, Ricardo Boechat levantou a questão: qual a diferença prática entre ganhar 70 reais ou 71? 75? 80? Os nossos parâmetros sobre o que é pobreza são, certamente, bastante equivocados do ponto de vista de quem vive na miséria. Pesquisadores em gabinetes bem refrigerados, com água e cafezinho, fazem cálculos, analisam possibilidades de consumo,somam, subtraem, dividem e multiplicam. Ao fim, concluem que 71 reais por mês não deixam ninguém na miséria. Como?
Falta a eles uma vivência da situação. Como sugeriu Boechat, eles deveriam ter que passar um dia de suas vidas com menos de 3 reais no bolso. Sempre achei que as estatísticas deveriam servir como base para melhorias - mas, muitas vezes, elas oferecem pretexto para comemorações tolas. E nesses momentos, para piorar, seres humanos são vistos apenas por um prisma técnico, matemático, sem o merecido peso emocional. Deixam de ser pessoas e viram números, marcados em gráficos vergonhosos. Com todo respeito à presidente Dilma, o foco deveria ser outro. E o discurso também.
Dá pra ser feliz com tão pouco? Olha, é preciso fazer muito esforço...
O filme "Voo", estrelado por Denzel Washington, traz mensagens que podem ser úteis para uma mudança de rumo na vida das pessoas. Quem ainda não viu o filme não deve ler esse texto, pois aborda aspectos da trama que podem anular a surpresa do espectador.
O filme mostra como uma pessoa pode ser derrotada por si mesma, apesar do talento, da competência e da aptidão indiscutível para uma determinada atividade. O personagem de Denzel é um piloto raro - conseguiu a proeza de evitar muitas mortes ao virar um avião de cabeça para baixo (literalmente) para ganhar tempo e alcançar um local para um pouso de emergência. Mas ele não conseguia se livrar do vício da bebida alcoólica, o que comprometeu a sua carreira.
Curiosamente, a grande virada na vida do personagem foi durante o julgamento, quando ele não teve coragem de atribuir a uma comissária que morreu no acidente (namorada dele) a responsabilidade pelo consumo de duas garrafinhas de vodca. Uma grande foto da aeromoça foi mostrada no tribunal e Denzel Washington, grande ator, conseguiu passar a emoção da crise de consciência que ele sofria naquele momento. Em vez de fingir que a comissária havia consumido a bebida, ele admitiu ter tomado a vodca - e foi além... assumiu que era alcoólatra. Na prisão, cumprindo pena por ter exposto passageiros ao risco, ele disse que , apesar de detido, pela primeira vez se sentia livre.
Para nós, que vemos o filme, fica a lição de que, muitas vezes, a verdadeira liberdade está na consciência leve e na certeza da conduta digna. Um bom caso para reflexão. Um exemplo de como o cinema - assim como outras formas de manifestação cultural - pode indicar caminhos e apontar soluções para as pessoas que desejam mudar suas vidas.
Em meio à comoção provocada pela tragédia em Santa Maria, chama atenção a morte de pessoas que já tinham conseguido
escapar do incêndio, mas voltaram à boate para tentar salvar vidas. Vão permanecer na memória como heróis por terem
arriscado a própria vida em benefício de terceiros. Esse é o tipo mais nobre de heroísmo - que conjuga perigo
e altruísmo.
Muito já se falou sobre o heroísmo de atletas olímpicos que conquistaram medalhas para os seus países.
Mas eles são movidos por motivação pessoal de superar limites e derrotar concorrentes. O heroísmo está na bravura de conseguir feitos extraordinários. Mas os atletas olham para si mesmos quando buscam a vitória.
Da mesma forma, são muitos os heróis em guerras - mas a própria natureza dos confrontos impele os combatentes à
ação. Ou agem ou morrem.
Também há os heróis mitológicos, sobre os quais a evolução já tratou de desqualificar.
E, numa sociedade abalada pela decadência de valores éticos e morais, há quem considere herói alguém que age com honestidade - o que deveria ser mera obrigação.
Portanto, o herói verdadeiro - que surpreende pela coragem inexplicável - é aquele que, em frações de
segundo, abre mão da própria segurança para socorrer alguém. Ele pode ser treinado (como bombeiros e
policiais, cujas atividades pressupõem um heroísmo em potencial) ou um cidadão comum que, movido pelo instinto de solidariedade, se envolve numa situação de risco sem pensar nas consequências. Ele pode ser um parente, que se arrisca movido pelo amor. Ou um desconhecido, cujo heroísmo brota da empatia, da capacidade de se colocar no lugar de alguém e viver as aflições, as angústias, os medos dos outros - e querer saná-los. Os heróis da tragédia da boate Kiss são do tipo mais inesperado, mais surpreendente. Sua ousadia teve um preço alto além da perda da própria vida: o sofrimento de suas famílias. Para elas, com certeza, tamanha bravura deixou marcas que nunca serão apagadas. Mas
resta um consolo: a certeza de que esses heróis serão lembrados para sempre.
Neste momento terrível para os parentes das vítimas do incêndio na boate em Santa Maria (RS), a presença da presidente Dilma Rousseff mostra que, pelo menos, temos uma governante que faz questão de se solidarizar pessoalmente com brasileiros que sofrem as consequências da irresponsabilidade tão comum em nosso país. Muitas perguntas estão no ar e serão respondidas ao longo da investigação. Mas, ao decidir interromper uma agenda internacional para se dirigir ao local da tragédia, em vez de emitir nota oficial ou enviar um representante, Dilma consegue - se não diminuir a dor das famílias - ao menos conferir uma dignidade no tratamento oferecido a elas. Dignidade que ainda estamos aguardando do dono do estabelecimento. Ele prestou depoimento à polícia, mas ainda deve, no mínimo, uma manifestação pública de pesar, pedido de desculpas, explicações sobre o caso, apoio às vítimas e às famílias. Mas não me lembro de nenhuma tragédia em que um dos responsáveis tenha assumido o seu papel e aparecido em público para tentar, pelo menos, dar um auxílio às vítimas. Alguém se lembra?
A cantora Ivete Sangalo recebeu cachê de 650 mil reais para fazer show na inauguração de um hospital público em Sobral, reduto eleitoral do governador Cid Gomes, no Ceará. Dinheiro do contribuinte, que mal consegue atendimento decente na rede de saúde do estado. Houve muitas queixas contra o governador, mas pouco alarde sobre a postura da cantora. Porém, a conduta de Ivete - que já é rica e não teria nem o pretexto da necessidade - abre espaço para uma reflexão: todos devemos ter nossos limites morais e éticos na hora de aceitar uma tarefa. Por melhor que seja a remuneração, é reprovável fazer certos tipos de trabalho. Show com dinheiro público, nas circunstâncias em que o da Ivete ocorreu, é de uma desfaçatez intolerável. Certamente a cantora não mediu as consequências. Um pedido de desculpas cairia muito bem. Devolver o dinheiro para que ele fosse usado onde é necessário (remédios e materiais hospitalares, por exemplo) seria ainda mais nobre.
Esta semana seguidores de diversos credos se reuniram para um ato ecumênico no Centro do Rio. É importante demonstrar, nesse tipo de encontro, que pessoas com diferentes crenças podem conviver em harmonia com base numa palavrinha simples: respeito. Mas sempre sinto falta dos ateus e dos agnósticos nesses eventos. Assim como deve haver tolerância entre as religiões, é preciso estimular o respeito à escolha de não acreditar em Deus ou, pelo menos, de achar inaceitável o Deus apresentado por cada doutrina religiosa. Nesse aspecto, é fundamental que, de um lado, os religiosos aceitem a falta de fé dos outros. E, da mesma forma, os ateus devem ser condescendentes quando ouvem teorias baseadas na fé religiosa - algumas claramente ultrapassadas pelas descobertas da Ciência. Há quem defenda o ateísmo com um fanatismo equivalente ao fervor religioso. Ambos são condenáveis. Sabemos que, muitas vezes, a religião pavimentou caminhos que levaram a tragédias e ao atraso na evolução do homem. Graças a Deus (!?) homens de inteligência rara alcançaram resultados extraordinários em diversos campos da pesquisa. E representam um contraste monumental quando comparados a fiéis com pensamento pouco refinado que, por exemplo, ainda acreditam em Adão e Eva e creem cegamente na Bíblia. O filósofo britânico Bertrand Russel, um dos maiores pensadores da história, era crítico feroz das religiões justamente por causa das teorias arcaicas que afastaram o homem do seu potencial de criação e de aprimoramento. Russel ousou fazer críticas contundentes às religiões e aos seus seguidores. No nosso dia a dia, no mundo atual, não deixa de ser espantoso que a fé se sustente sobre pilares tão frágeis. Mas é desgastante abrir qualquer discussão nessa seara - exatamente por causa da falta de questionamento da maioria. O caminho possível é, de fato, o da tolerância. Por mais absurda e fantasiosa que seja uma doutrina, é preciso aceitar a preferência alheia, desde que isso não prejudique ninguém diretamente. Os prejuízos causados à evolução do homem ao longo dos tempos...sobre o qual Russel falava...são um preço inevitável a se pagar pela ignorância e pela defesa de teses toscas.
Esta semana seguidores de diversos credos se reuniram para um ato ecumênico no Centro do Rio. É importante demonstrar, nesse tipo de encontro, que pessoas com diferentes crenças podem conviver em harmonia com base numa palavrinha simples: respeito. Mas sempre sinto falta dos ateus e dos agnósticos nesses eventos. Assim como deve haver tolerância entre as religiões, é preciso estimular o respeito à escolha de não acreditar em Deus ou, pelo menos, de achar inaceitável o Deus apresentado por cada doutrina religiosa. Nesse aspecto, é fundamental que, de um lado, os religiosos aceitem a falta de fé dos outros. E, da mesma forma, os ateus devem ser condescendentes quando ouvem teorias baseadas na fé religiosa - algumas claramente ultrapassadas pelas descobertas da Ciência. Há quem defenda o ateísmo com um fanatismo equivalente ao fervor religioso. Ambos são condenáveis. Sabemos que, muitas vezes, a religião pavimentou caminhos que levaram a tragédias e ao atraso na evolução do homem. Graças a Deus (!?) homens de inteligência rara alcançaram resultados extraordinários em diversos campos da pesquisa. E representam um contraste monumental quando comparados a fiéis com pensamento pouco refinado que, por exemplo, ainda acreditam em Adão e Eva e creem cegamente na Bíblia. O filósofo britânico Bertrand Russel, um dos maiores pensadores da história, era crítico feroz das religiões justamente por causa das teorias arcaicas que afastaram o homem do seu potencial de criação e de aprimoramento. Russel ousou fazer críticas contundentes às religiões e aos seus seguidores. No nosso dia a dia, no mundo atual, não deixa de ser espantoso que a fé se sustente sobre pilares tão frágeis. Mas é desgastante abrir qualquer discussão nessa seara - exatamente por causa da falta de questionamento da maioria. O caminho possível é, de fato, o da tolerância. Por mais absurda e fantasiosa que seja uma doutrina, é preciso aceitar a preferência alheia, desde que isso não prejudique ninguém diretamente. Os prejuízos causados à evolução do homem ao longo dos tempos...sobre o qual Russel falava...são um preço inevitável a se pagar pela ignorância e pela defesa de teses toscas.
O Hemorio está lançando mais uma campanha de incentivo à doação de sangue. Mais uma. A iniciativa é reflexo da falta de hábito do brasileiro de fazer a doação. Mesmo quem tem cadastro no Hemorio nem sempre mantém a regularidade no voluntariado. O chefe de Comunicação Social da instituição, Marcos Araújo, explica:
- O Brasil não tem uma história de grandes guerras ou catástrofes. Na Europa, o hábito de doar sangue já está incorporado. Na Inglaterra, 5% da população doam sangue. No Brasil, o índice é de 1,8%. O Centro-Oeste é a região com maior contribuição, mas a taxa só chega a 2,5%.
O Hemorio recebe, diariamente, 250 a 300 voluntários. Seriam necessários 500 para dar conta da demanda nos hospitais. A preocupação cresce nessa época: estoque baixo após as festas de fim de ano; colaboração pequena porque muitos não doam sangue nas férias; e proximidade do carnaval, quando os acidentes se tornam mais frequentes. Informações no site http://www.hemorio.rj.gov.br
Geralmente, as pessoas passam a colaborar em determinadas causas quando vivem uma situação difícil. São movidas pela dor. Mas existe uma palavra mágica que pode mudar esse cenário: empatia. Se nos colocarmos no lugar do outro, mesmo sem vivenciar o problema, veremos que sempre vale a pena ajudar alguém a viver - e a ser feliz.
Começa hoje em São Paulo a internação compulsória de dependentes do crack. Apesar do risco que os viciados representam para eles mesmos e para as pessoas em geral, há especialistas que condenam a iniciativa. Em geral, alegam que a internação por si só não basta e que seria necessário oferecer assistência social, reintegração familiar, medidas paralelas que pudessem dar uma base melhor aos dependentes químicos para a superação desse drama. Mas o fato de defenderem uma ação multidiciplinar para o tratamento dos viciados não deveria excluir o apoio à internação involuntária. Seria mais útil cobrar que todas as providências necessárias fossem tomadas em conjunto. Se a presença dos usuários de crack nas ruas é perigosa - e isso ninguém nega nem poderia negar - como é possível criticar a internação? Por que esses especialistas não defendem que ela seja feita, sim, mas acompanhada de todos os procedimentos complementares necessários? Se as pessoas sob o efeito de drogas não têm discernimento para tomar decisões, como é possível exigir que elas procurem tratamento por conta própria? Essa ideia soa como escárnio numa sociedade chocada com o avanço do crack e temerosa das consequências que isso pode acarretar - como a morte de viciados, atropelados no Rio de Janeiro, ao atravessarem a movimentadíssima Avenida Brasil sem o menor cuidado, expondo eles próprios e os motoristas ao risco de um grave acidente. Se usuários de crack ficassem nas portas das casas desses especialistas, eles mudariam o discurso.
Em recente entrevista na Globonews, o advogado criminalista Sergei Cobra Arbex fez o seguinte comentário, referindo-se ao antigo adágio popular "A ocasião faz o ladrão":
- Na verdade, a ocasião faz o furto. O ladrão já nasce feito.
Curiosa observação, pois alguém que não tenha propensão ao furto não aproveitará uma eventual oportunidade de se apropriar de bens alheios. Eu não diria que "nasce", pois seria atribuir à genética uma tendência à má conduta. Mas o ladrão já "está" feito. É alguém que absorveu mensagens nocivas e se deixou influenciar por desvios de caráter. A reportagem se referia a pequenos delitos, que a maioria das pessoas comete: levar para casa um copo de um restaurante, uma toalha de hotel; comprar produtos falsificados; baixar ilegamente conteúdo na internet. A discussão trouxe à tona questões inquietantes: será que alguém consegue cumprir a lei à risca, o tempo todo? Será que alguém consegue resistir sempre a tentações de quebrar a ética?
Talvez esse indivíduo de conduta perfeita seja raro. Mas assim como muitos defendem que a verdadeira felicidade está na caminhada, quem sabe a busca por uma honestidade plena pode ser um passo para a autorrealização? A consciência da correção no comportamento pode reforçar a autoestima e o orgulho de si mesmo.
Isso me faz lembrar da surpresa de meu sogro, muitos anos atrás, na época em que ele tinha um bar. Um morador de rua perguntou quanto custava uma média. E, ao ouvir a resposta, contou as moedas e pediu meia xícara. Meu sogro ofereceu o café com leite (caneca cheia) sem cobrar. Mas ficou uma lição para sempre: um mendigo é capaz de se comportar com dignidade diante das maiores dificuldades. Por que, então, uma pessoa abastada comete delitos, ainda que pequenos? A resposta pode estar na observação do advogado. O ladrão ou o desonesto em potencial está (ou não) dentro de cada um.
A cremação do corpo do ator Walmor Chagas indica que a investigação sobre as circunstâncias de sua morte representam apenas uma formalidade, já que, em caso de constatação de um crime, não haveria possibilidade de exumação - como muitas vezes ocorre em processos sobre assassinatos. Conforme mostram reportagens sobre o assunto, os próprios parentes e amigos reconhecem que o suicídio foi a solução encontrada pelo ator para não enfrentar os problemas de saúde que tanto o incomodavam. Walmor não admitiria a hipótese de depender de terceiros para cuidar de sua vida. O que surpreende, além da decisão do suicídio, é a falta de uma carta de despedida.Pessoas que optam pelo fim da própria vida poderiam deixar algumas palavras de conforto para aquelas que vão sofrer com a perda. Quem sabe essa manifestação seria atenuante da dor provocada por uma ruptura tão repentina? Há casos em que, diante do suicídio de alguém, pessoas se sentem até culpadas por não terem tomado alguma providência que evitasse essa medida extrema. Creio que não temos o direito de julgar os suicidas - cada um conhece as próprias dores e os próprios limites. Mas nunca deixo de considerar que o suicídio contém uma dose de egoísmo, pois expõe outras pessoas a um sofrimento intenso - e, muitas vezes, a uma culpa que pode durar uma vida inteira.
No prefácio do livro "Memórias, Sonhos, Reflexões", autobiografia do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, dois pensamentos chamam atenção para a influência exercida pelas pessoas umas sobre as outras. Um deles é do poeta alemão Goethe: "Se suprimisse tudo que devo aos meus predecessores, restaria pouco. Minha obra é a de um ser coletivo que se chama Goethe". O outro é do próprio Jung: "Nós não somos os criadores de nossas ideias, mas apenas os seus porta-vozes; são elas que nos dão forma... e cada um de nós carrega a tocha que no fim do caminho outro levará".
Goethe e Jung ficaram para a posteridade e, ainda assim, não se vangloriaram com soberba da própria inteligência e do legado cultural-filosófico-científico deixado para as gerações seguintes. Eles sabiam que eram frutos de um aprendizado e de uma experiência cujas bases foram formadas na convivência com pessoas,na troca de informações, na leitura de livros de pensadores que os antecederam. Uma bagagem indispensável.
Ninguém deve ser humilde em demasia a ponto de negar o próprio valor e atribuir aos outros o mérito exclusivo das realizações. A própria capacidade de absorver os bons conceitos e de evoluir na sabedoria é uma virtude que merece aplausos - e que nem todos possuem. Mas, ao mesmo tempo, ninguém deve se achar soberano a ponto de abrir mão do reconhecimento dos méritos alheios e da importância da influência recebida em diversos níveis. Às vezes, os exemplos de humildade vêm daqueles que, teoricamente, teriam menos motivos para isso.
O ator Francisco Cuoco, homenageado no quadro "Arquivo Confidencial", do Domingão do Faustão, escapou do previsível ao - em vez de chorar - declarar que cada pessoa da plateia, cada dançarina do palco, cada artista presente, todos, enfim, têm histórias de vida com altos e baixos que revelam o quanto somos semelhantes uns aos outros. A presença de Cuoco chamou atenção pela simplicidade do discurso e pela serenidade. Depoimentos gravados por porteiros do prédio em que ele mora deram conta do caráter solidário do artista, capaz de oferecer dinheiro a um funcionário do condomínio em um momento de necessidade. Pode haver quem questione: " E daí? Assim como ele, muita gente faz o mesmo e não é badalada". É o mesmo tipo de crítica de quem esnobou o gesto de Zeca Pagodinho ao apoiar as vítimas da enchente em Xerém, Duque de Caxias. Não faltou quem dissesse: "Pagodinho ajudou porque são vizinhos", "Pagodinho não fez mais do que outros fizeram" , e por aí vai... Mas há uma diferença relevante entre o que os artistas e os anônimos fazem: a repercussão do bom exemplo. Muitas pessoas tendem a imitar gente famosa. Daí a responsabilidade de cada artista com o comportamento adotado na sociedade. Eles servem de espelho para quem se deixa influenciar por quem tem notoriedade. Espero, então, que os exemplos de Cuoco e Zeca possam gerar frutos.
Com raras exceções - como ocorreu certa vez com Al Pacino - os candidatos ao Framboesa de Ouro costumam ser, de fato, atores que, por mais esforço que façam, não conseguem se livrar de um jeito segunda-classe de ser. Eles chamam atenção pelo estilo pouco refinado de atuar, por um jeito canastrão, um excesso de caras e bocas ou pela absoluta falta de expressão. Quem sabe seriam excelentes médicos, engenheiros, arquitetos? Secretários, administradores, enfermeiros? Quem sabe possuem talento para algo que ainda não descobriram? Mas, ainda assim, persistem nas carreiras artísticas e, pasmem, fazem sucesso, com legiões de fãs. Como não exercem uma profissão que mexa com vida ou morte, eles têm todo o direito de lucrar com a falta de talento. Muitos demonstram competência para administrar carreiras teoricamente fadadas ao fracasso. Por este aspecto, merecem parabéns. Milla Jovovich, Nicolas Cage, Adam Sandler...e Taylor Lautner, para mim invencível na categoria... Quem disse que ele poderia ser ator, meu Deus? De qualquer maneira, o aspecto mais interessante no Framboesa de Ouro é a reação dos candidatos. E Sandra Bullock é um capítulo à parte. Em 2010, ela ganhou o Framboesa pela comédia "Maluca Paixão" no mesmo ano em que concorreu ao Oscar de melhor atriz por "Um Sonho Possível"- o que prova que, em muitos casos, a indicação ao Framboesa é motivada não exatamente pela falta de talento do artista, mas pela má escolha do papel - do tipo que derruba qualquer um... Sandra deu um show de bom humor e amor próprio ao comparecer ao Teatro Barnsdall, em Los Angeles, para receber o Framboesa. Pouco tempo depois, seria laureada com o Oscar. Apenas pessoas com autoconfiança e senso de humor especial se sujeitariam a buscar um prêmio de "pior do ano" em alguma categoria. Bullock conquistou a simpatia de muita gente com uma humildade cativante. Ela inverteu o jogo. Hoje, quando pesquisamos a dobradinha Bullock-Framboesa, os textos não realçam um suposto mau desempenho da atriz numa obra menor, mas sim o seu espírito divertido na entrega do prêmio infame. É algo sobre o qual vale a pena refletir...
Assisti a um programa nesta quinta-feira que lançou luz a uma questão que envolve psicologia, comportamento humano e, acima de tudo, tolerância pelas necessidades das pessoas que nos cercam. O documentário abordava a vida de personagens que encontraram a felicidade em atitudes inusitadas, que, a princípio, destoam do que se espera na vida em sociedade. Uma mulher, que não pode ter filhos, vive com as chamadas bonecas renascidas, que parecem de verdade. Ela chega a levá-las para passear em carrinhos de bebê.Também foi mostrado um homem que tem ótimo desempenho como lutador, mas, fora do ringue, adora se vestir como personagens femininos de animação. O programa ainda exibiu o caso de um homem que é carpinteiro, mas, à noite, se comporta como bebê. A caracterização é completa. Ele se veste, age, dorme e se alimenta como recém-nascido. E tem até uma cadeira gigantesca que imita as usadas por bebês nos restaurantes. Cada um tem sua justificativa para os estranhos comportamentos que adotaram. Mas o curioso é o envolvimento de terceiros na ficção criada por esses personagens. A "mãe" das bonecas tem o apoio do marido e do enteado. E, quando leva o "bebê" para passear, algumas pessoas que a conhecem acabam participando da ilusão, fazendo comentários sobre a "criança"... O "bebezão" carpinteiro tem uma senhora que cuida dele, o tratando como se fosse um neném de verdade. Claro que eles, certamente, também enfrentam resistência, discriminação. Mas foi bacana ver que algumas pessoas os aceitam da forma como são, com a consciência de que aquela farsa é necessária - é um passe para a felicidade.
Uma psiquiatra explicou que, ao adotarem ilusões como realidades, aquelas pessoas produzem substãncias químicas no organismo da mesma forma como outras que vivem, de fato, aqueles tipos de experiência. Assim, a mulher que cuida das bonecas acreditando que são bebês produz oxitocina da mesma maneira que as mamães de verdade. Concluímos, então, que cada um está agindo de maneira a beneficiar o próprio corpo e a própria mente, ainda que pagando o preço de ser avaliado negativamente.
Pelo visto, vale o risco. Eles assumiram suas condições e melhoraram a saúde e o humor a partir da autoaceitação. Cabe às pessoas compreenderem que, diante de dramas pessoais, o caminho que leva à felicidade pode parecer torto, mas o que importa é chegar lá.
Foi com grande tristeza e muita indignação que vi a notícia da morte de um homem em São Paulo após ter o pescoço cortado por linha de pipa com cerol. É uma morte estúpida demais, banal demais. Poderia ser evitada se garotos e jovens fossem um pouco mais educados, mais civilizados, mais cientes da coletividade, menos selvagens, menos pobres de espírito, menos irresponsáveis. E não adianta a desculpa de que são crianças ou adolescentes. Eles sabem perfeitamente que podem ferir alguém. Não se trata de um conhecimento acadêmico que exige um estudo aprofundado. Qualquer garoto com inteligência abaixo da média sabe que cerol corta e, portanto, pode matar. A desculpa da ingenuidade é tão irritante quanto a postura de moradores da localidade onde ocorreu esse assassinato. Reclamaram de uma suposta demora dos bombeiros (que negaram o atraso), mas ninguém apareceu para dizer quem empinava a pipa. O alvo está errado. Os bombeiros tentaram reparar o dano causado pelo criminoso. Mas quem tem coragem de apontar o dedo para uma criança "inocente"? Pais que protegem cegamente os filhos não faltam por aí. São muitos os que acobertam atrocidades em nome de uma pretensa inocência infantil. Balela. Quem empinou a pipa é um criminoso que, se for menor de idade, será poupado da cadeia e poderá, em breve, fazer novas vítimas.Ednaldo Macedo Gomes estava prestes a fazer 46 anos.Tinha muito a viver. Mas passou por uma área onde, como mostram as imagens da reportagem, pipas estão por todos os lados, presas em fios de alta tensão. São crianças e jovens criminosos que expõem as pessoas ao risco. E não tem desculpa.
"O show de Stevie Wonder na praia de Copacabana foi chato". É uma opinião que deve ser tão respeitada quanto à de pessoas que gostaram da apresentação. Mas, em meio ao espetáculo na noite desta terça-feira, uma mulher reclamou da crítica feita pelo marido (ou namorado):"Que isso? O cara é cego. Dá um desconto". A observação é absurda por diversos aspectos.
Primeiro porque um cego pode fazer um show de música chato, sim. A deficiência visual não é empecilho para um bom espetáculo - tanto que Stevie Wonder - cego de nascença - é quem ele é... um dos grandes no cenário musical do planeta. Além disso, a postura da mulher revela uma forma de discriminação, ainda que com o efeito às avessas. Quem acha que deficientes físicos, visuais ou auditivos, por exemplo, não podem ser criticados os trata como inferiores quase da mesma forma como as pessoas que os discriminam gratuitamente.
A melhor maneira de demonstrar que um portador de deficiência é como qualquer um de nós é exercitar a capacidade de julgá-lo de forma imparcial - exceto, claro, naquilo que depende de uma capacidade que a própria deficiência inibe.
Criticar um cadeirante por não andar seria ridículo. Mas ele pode estar exposto ao risco de crítica - como todos estamos - se for fraco em outras atividades, para as quais não é necessariamente inábil. Assim, um surdo pode pintar mal um quadro; um cego pode cantar mal; um cadeirante pode escrever mal. E a única maneira de não discriminá-los é desprezar suas deficiências na hora de uma avaliação.
Muita gente que estava na praia não gostou do show do Stevie Wonder por motivos bem claros. Ele gastou muito tempo pedindo que as pessoas repetissem palavras em coro - mesmo percebendo que a maioria não estava disposta a isso. Parou de cantar no meio de várias músicas esperando que a plateia completasse as frases - o que não aconteceu. Usou muito tempo mostrando habilidades nos instrumentos musicais, deixando de lado o canto. Alongou-se muito em certos trechos de músicas, repetindo exaustivamente refrões e gritos que cansaram o público. E chegou a pedir silêncio à plateia, num dado momento. Vi várias pessoas deixando o espetáculo antes do fim, reclamando de tédio. Logo num show de Stevie Wonder, autor de tantos sucessos, com potencial para um espetáculo de primeira linha. Uma pena. E isso não tem nada a ver com cegueira.
O caso das mulheres atropeladas por um carro desgovernado no aeroporto de Congonhas traz à tona sentimentos contraditórios. Quem nunca dirigiu com sono? Quem nunca esteve ao volante após ingerir uma pequena dose de bebida alcoólica? Exames comprovaram que o motorista Wagner Alvarenga, 23, tinha no sangue uma porcentagem alcoólica inferior à que seria necessária para configurar crime por embriaguez. Ele assumiu que dormiu ao volante, após uma festa na qual consumiu bebiba alcoólica. Se arrependeu da atitude e pediu perdão à família das vítimas (Clarice, 56, que morreu, e a filha Camila, 27, internada). Wagner ainda disse que vai levar a culpa pelo resto da vida.Os documentos estavam em ordem, ele não tem antecedentes criminais, assumiu a culpa e pediu perdão. O que mais poderia fazer? Poderia ter pensado melhor, antes de cometer o erro.
Wagner foi perdoado. O filho de Clarice, Robson, 36, deixou claro: "Não sou ninguém para condená-lo" e "Ele e a família dele também devem estar sofrendo".
Robson teve uma nobreza rara e, certamente, a capacidade de perdoar lhe fará bem, pois raiva e rancor prejudicam a quem alimenta esses sentimentos. Mas...
Vale uma reflexão sobre o episódio, que foi filmado e choca pela brutalidade do atropelamento. Por mais que Wagner esteja, agora, fazendo o mea culpa, nada vai mudar a realidade vivida pela família das vítimas. Wagner deveria ter pensado no risco antes de dirigir com sono e depois de beber. Não faltam campanhas alertando para o perigo. Ninguém pode, hoje em dia, alegar falta de aviso. Tanto ele assumiu o risco de causar um acidente que vai responder por homicídio doloso (e não culposo,quando não há intenção). O dolo não ocorre apenas quando a pessoa quer matar alguém, mas quando assume esse risco. Mais do que pedir perdão, lamentar e levar a culpa para sempre, Wagner pode, daqui para frente, fazer algo mais útil: aderir às campanhas de esclarecimento do público. Se ele se engajar nessa causa, poderá ajudar a evitar novos casos e ainda conseguirá, quem sabe, atenuar a angústia de ter matado uma pessoa. A melhor maneira de superar dramas é transformá-los numa lição que possa trazer benefícios para o maior número possível de pessoas.