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Maria Apparecida

Maria Apparecida

CARNAVAL. Historiadora, escritora e decoradora, é considerada uma das mais respeitadas autoridades do Carnaval de São Paulo. Há 35 anos começou a se interessar pelo samba, em que desenvolveu vários projetos. Entrou para a história ao se tornar a primeira carnavalesca da folia paulistana.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



14/09/2016 11h49

'...nos dias de desfile, ela não está em nenhum camarote...'
Maria Apparecida Urbano

Certo dia uma amiga me disse: "O que você acha de se fundar uma associação de destaques? Alguns amigos estão me dando essa ideia".

Achei ótima a ideia e comentei: a primeira coisa a fazer é organizar uma diretoria junto aos seus amigos, dentro da qual você será a presidente. Feito isso, deve elaborar uma ata de fundação com o nome completo da associação. Em seguida, vá ao cartório registrá-la. Só então vamos pensar nos regulamentos.

Assim nascia a ADESP, a Associação dos Destaques das Escolas de Samba do Estado de São Paulo, tendo como presidente Izaura Panfili, um mulher que acreditou no bem estar dos destaques ajudando a todos com sua boa vontade, junto a sua diretoria e colaboradores.

Izaura Panfili. Foto: SRZD

Sonhamos juntas em poder proporcionar à sociedade paulistana um grandioso "Baile de Gala" à fantasia, cuja atração principal seria um majestoso desfile de fantasias dos destaques que já faziam parte da associação, recordando os antigos bailes realizados em que São Paulo na década de 60. Por mais empenho e luta que Izaura tenha tido, esse sonho continua em nossas mentes.

A ADESP é uma instituição sem fins lucrativos, que cresceu e continua a sua caminhada. Hoje dá a maior assistência aos destaques, bem como a todas as baianas, não interessando o nome de suas escolas; aos casais, às rainhas de bateria e suas musas, e aos demais foliões que de última hora precisam de ajuda.

Sempre contando com as mãos firmes dessa mulher guerreira, junto comsua diretoria e seus colaboradores, conseguiu um espaço no Anhembi para realizar o seu trabalho. Todas essas fantasias saem do seu espaço felizes, muito bem preparadas rumo ao sambódromo para engrandecer suas escolas de samba.

Onde encontrar Izaura durante os desfiles carnavalescos? Ela não está no camarote do prefeito, nem num camarote reservado para ela; também não está saboreando um bom uísque ao lado de grandes personalidades que vem de fora do país. Sabe onde ela se encontra? Em seu salão, atenta a cada detalhe, dando atenção a todos, correndo para providenciar alguma coisa que falha na hora, de um costeiro a uma armação de saias.

Esta é a Izaura, que eu conheci e conheço, de vida sempre atarefada e de saúde delicada, mas de uma força de luta que não tem precedente; esta é a Izaura, que conseguiu, junto com seus amigos, fazer dessa associação uma necessidade extrema para que o Carnaval de São Paulo continue no seu crescimento.

Máscara. Foto: Reprodução

Na celebração aos cem anos de samba, "1º Prêmio Benemérito do Carnaval Paulistano", na qual tive a honra de ser homenageada, deixando-me emocionada e feliz, pude presenciar o grande valor que hoje tem a ADESP, por ter começado de um sonho, e ver a sua importância atual para o Carnaval Paulistano.

A força de vontade e a garra da presidente Izaura, move a associação dando palestras, organizando encontros e festas, como a que aconteceu no dia 2 de setembro na Assembleia Legislativa. Permita que eu te diga, Izaura, o teu sonho valeu. Você conseguiu, como destaque na sua escola de coração, e com seu jeito simples e carinhoso, chegar a realizar os sonhos dos melhores destaques de São Paulo.

Parabéns ADESP, pela sua diretoria e seus colaboradores, parabéns pela ajuda maravilhosa prestada ao nosso Carnaval.

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27/06/2016 11h28

Que tipo de enredo teremos em 2017?
Maria Apparecida Urbano

Estamos vivendo momentos de expectativas. Escolhas de enredos, momentos de incertezas...

O que será bom para as escolas de samba apresentarem no próximo Carnaval?

Dúvidas, dúvidas...O que será melhor? Vejo que algumas escolas resolveram dar uma volta ao passado e reviver antigos Carnavais.

Perguntas. Foto: Arte

Assim surgem novas dúvidas; cada enredo depende muito de como ele foi apresentado, em que época, qual o seu sucesso...

Muitas vezes o que significou muito em determinado ano do passado, hoje se torna obsoleto...Os tempos mudam e a visão da apresentação já é outra.

Mas também temos que convir que reviver o passado é dar um giro na história de cada escola, trazendo ao público o que era bom e continua sendo, revivendo, por vezes emocionados, antigos dirigentes das escolas, carnavalescos, mestres de bateria e tantos outros que talvez já não se encontram entre nós. Para que não sejam esquecidos tantos sucessos de outrora, devemos recordar também os nomes desses abnegados que fizeram muito pelo samba paulista.

Tempos atrás as escolas se prendiam em trazer para os seus enredos passagens das historias pelas quais o Brasil passou.

Foram Carnavais inesquecíveis. Depois passou-se para momentos modernos em que apenas uma chamada traduzia um enredo como: a luz, as mãos, o amor e tantos outros. Depois vieram enredos com títulos imensos, parecendo mais um verso de poema.

Aconteceram também enredos quase satíricos, como momentos políticos, e críticos sobre determinados momentos.

Porém, os melhores e mais lindos enredos apresentados por quase todas as escolas foram os que se referiam à África, ao seu povo e a sua religiosidade e costumes. Vimos Carnavais maravilhosos sendo aplaudidos por uma elite que pouco conhecia sobre o assunto.

Temos certeza que este ano pelas apresentações dos enredos que foram escolhidos, até bem diversificados, teremos um Carnaval muito bem elaborado e executado, contando com a colaboração, criação e desempenho dos carnavalescos. Embora sabendo que estamos passando por momentos difíceis, com muita recessão financeira, o que para os sambistas não é novidade, pois eles sabem driblar a falta de matéria prima caríssima, substituindo por materiais reciclados, ou até mesmo buscando elementos na natureza.

Não há crise que derrube a força de vontade dos sambistas para apresentarem o seu Carnaval. Já tivemos outras crises, em que, com boa vontade e criatividade, tanto dos carnavalescos como das comunidades, foram conquistados títulos de campeãs, com carros alegóricos decorados somente com pratinhos de festa, ou, então, com capim e bambu. Agora é arregaçar as mangas e ir ao trabalho: a plateia nos aguarda!

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06/04/2016 10h15

A arte popular dos carnavalescos
Maria Apparecida Urbano

Estamos entrando no mês de abril, o quarto mês do ano, que por sinal continua correndo a passos largos. Já está longe o último Carnaval, e quase esquecido.

As grandiosas apresentações de todas as escolas de samba, que tanto emocionaram o público presente, já se tornaram passado, a não ser pelas premiações, organizadas por diversos canais divulgadores dos eventos, as quais se estenderam até quase o fim de março.

Arte popular. Foto: Ilustração

Agora é começar tudo de novo. Começam as incertezas de qual será o enredo que cada escola irá apresentar, quem será o carnavalesco, pois normalmente é hora das mudanças. Há trocas de diretorias, de casais, enfim. E há muitos troca-trocas; na realidade vamos entrar em abril com muitas incertezas e muitas dúvidas.

Enfim, esta é a vida das escolas de samba: a renovação a cada ano; é assim que todas vivem. Vou responder aqui a uma pergunta que me fizeram com muita insistência: "Por que os carnavalescos têm que trocar de escola?".

Para um leigo é difícil entender o porquê, se ele, como admirador do Carnaval, estava acostumado a ver sempre o mesmo carnavalesco numa determinada escola? Então por que do seu afastamento? Devemos esclarecer o seguinte: o carnavalesco é um artista popular e profissional.

Ao ser contratado por uma escola, ele deve vestir a camisa dela e procurar realizar o melhor possível em seu trabalho. Comparamos o carnavalesco com um diretor de teatro ou de TV. Ao desenvolver o seu trabalho, ele organiza todas as atividades que irão ajudar os autores a atuar, inclusive o relacionamento de todos os membros participantes.

Na escola de samba os aspectos do seu relacionamento são maiores e mais complexos, pois há mais pessoas e setores que dependem da sua atuação, principalmente com a própria comunidade.

Ele na realidade não é um componente da escola. Ele está lá para realizar um trabalho específico e muito grande e envolvente, que dependerá muito de sua boa planificação e atuação para a apresentação da escola na Avenida. O mudar de escola é muito saudável. É bom para as duas partes, pois cada carnavalesco tem a sua linha de trabalho.

Quando ele permanece muitos anos na mesma agremiação, cria-se certa acomodação, e o seu trabalho já não atrai tanto como devia. Por outro lado, para as comunidades é sempre um grande estimulo poder contar com trabalhos diferentes.

Para o artista, que é um profissional, a experiência de ser contratado e de participar de novos desafios e conviver com novas comunidades é outra realidade. Ele passa a se reorganizar, a se atualizar. Com isso faz florir a sua criatividade, conseguindo dar maior vida ao seu novo trabalho.

Nos anos 80, quando uma escola despontava na Avenida, pelo som da bateria já se sabia quem vinha lá, e pelas suas alegorias já se sabia quem era o carnavalesco, porque tanto a bateria como as alegorias tinham as mesmas características de suas criações. Naquela época os carnavalescos permaneciam anos na mesma entidade, tornando-se quase um objeto de uso daquela entidade.

O valor dado a eles era mínimo; muitos trabalhavam quase sem ordenado, somente pelo simples prazer de ajudar a entidade. Alguns só começaram a ser reconhecidos como artistas populares, com a vinda de carnavalescos do Rio de Janeiro. Estes chegavam já contratados com bons salários e com acomodações para a sua permanência aqui em São Paulo.

Havia entre nós bons carnavalescos, que batalhavam juntos pelas entidades a que praticamente pertenciam. Com essas trocas de valores os nossos carnavalescos foram sendo "passados para trás", até que muitos se afastaram, muitas vezes definitivamente, até para se dedicarem a outras atividades.

Foi uma pena. Hoje ainda existem muitos carnavalescos que começaram seu aprendizado junto a grandes mestres, sabem realizar bons trabalhos, mas que, por falta de oportunidade, o máximo que conseguem são escolas pequenas, praticamente sem estrutura para arcar com um grande Carnaval.

Assim, para a apresentação de um grandioso espetáculo durante o Carnaval duas coisas são muito importantes: uma escola de samba devidamente estruturada com sua comunidade e um carnavalesco capacitado, organizado e aparelhado para desenvolver o seu trabalho. Juntos caminharão para trazer prazeres e muitas alegrias aos sambistas que passam o ano todo ansiosos para, finalmente, terem momentos de muitas emoções na Avenida.

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22/02/2016 10h00

E agora? O que fazer com as alegorias?
Maria Apparecida Urbano

Fim de mais um grande desfile no sambódromo paulistano.

Fim de mais um sonho vivido durante um ano, em todas as escolas de samba que participaram desse majestoso evento.

Sonhos esperados, sonhos realizados por umas, sonhos desfeitos por outras, decepções.

Quantos projetos foram idealizados durante um ano. Desde a escolha do enredo, escolha do samba-enredo, a busca pelos compositores, intérprete, e a escolha do carnavalesco. Foi um grande trabalho em conjunto de presidente, diretoria, chefes de alas até chegar a envolver toda a comunidade. Sempre na esperança de conseguir um grande sonho: o de ver a escola campeã ou de conseguir uma boa colocação.

Desfile do Carnaval de SP 2016. Foto: SRZD - Claudio L. Costa

Para que toda essa realização aconteça, o primeiro passo é a direção de Carnaval entrar em sintonia com o carnavalesco, buscando acompanhar a sua visão sobre o enredo e entendendo os seus pontos de criação e imaginação, para a realização de um grande espetáculo. São meses e meses de atividades sem cessar numa dedicação absoluta, que envolve uma infinidade de pessoas em busca da perfeição.

Na realidade podemos chamar as escolas de samba de "Fábricas dos Sonhos", cuja engrenagem começa a rodar com a escolha do enredo, movimentando cada setor com as melhores qualidades possíveis.

É o grande sonho de todos os sambistas com o qual concordo plenamente. Porém, apesar de todo esse trabalho e dedicação, o tempo de sua apresentação é tão rápido que às vezes nem o sentimos passar, e, quando nos damos conta, o desfile já terminou.

Aquelas maravilhosas e imensas alegorias que pudemos apreciar nos barracões, na avenida somem diante dos nossos olhos que se perdem na atenção de um destaque ou de uma personagem homenageada. Mesmo quando olhamos um destaque, que está tão alto, não dá tempo de apreciar a beleza e os detalhes que compõem cada carro alegórico.

Que pena, vocês não acham?

Todos nós somos curiosos e apreciadores da beleza, portanto aqui vai uma sugestão, a de que o povo de São Paulo e os turistas, que visitam a capital, pudessem ver de perto as alegorias que desfilaram no sambódromo. Para isso a Liga das Escolas de Samba e a SPTuris poderiam se unir para promover uma grande exposição na passarela do samba, destinada à visitação pública, dos carros alegóricos que desfilaram no Carnaval. Tenho certeza que público não faltaria.

Quem ganharia? Em primeiro lugar, os apaixonados pela beleza das escolas de samba, que é um público imenso. Em segundo lugar, o povo em geral.

Ganharia ainda a SPTuris com estacionamento, e tudo o que envolve um evento, e a Liga, com venda de ingressos, a preço reduzido, que, entretanto, ajudaria tanto a Liga como as escolas de samba.

Desfile do Carnaval de SP 2016. Foto: SRZD - Claudio L. Costa

É muito triste ver as alegorias tão trabalhosas, e tão lindas, em que se emprega muito dinheiro, serem levadas para o pátio ao lado do sambódromo, e de lá para o desmanche. Será que ninguém jamais pensou em mostrar a arte popular feita dentro das escolas de samba com artistas desconhecidos, mas enriquecidos de arte e bom gosto?

Vamos valorizar o nosso trabalho. Isso é arte popular e deve ser divulgada.

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06/11/2015 11h30

Homenagem a Grande Otelo
Maria Apparecida Urbano

Mineiro de Uberlândia, foi ator, comediante, cantor, escritor e compositor. Seu nome artístico, Grande Otelo, foi dado pelo jornalista Jardel Jércoles, por reconhecer ser nele, embora de estatura baixa, um grande personagem dentro da nossa cultura popular e grande também como Otelo de Shakespeare...guerreiro e batalhador.

Nasceu pobre, em 18 de outubro de 1915. Sua vida foi rodeada de tragédias, mas nunca perdeu o bom humor. Sempre teve um comportamento íntegro; era humilde e amigo. Em 18 de outubro de 2015, comemoraram-se, portanto, cem anos de seu nascimento.

Grande Otelo. Foto: Divulgação

Faleceu em 26 de novembro de 1993, aos 78 anos inesperadamente, num voo para Paris, na França, onde iria receber mais uma homenagem e um prêmio. 

Apesar de sua vida ter sido acompanhada por tristes acontecimentos, ele era considerado um dos maiores comediantes brasileiros.

Seu pai, empregado da fazenda da família Prata, foi assassinado; sua mãe era alcoólatra. Aos seis anos o menino Sebastião ficou deslumbrado pela Companhia de Teatro Mambembe que passou por sua cidade, e resolveu fugir com os artistas. A diretora da companhia, Abigail Parecis, o adotou, mas tempos depois ele fugiu e acabou no Juizado de Menores onde foi adotado, novamente, agora pela família de Antonio de Queiroz.

Nessa época estudou no Colégio Coração de Jesus em São Paulo, tendo recebido uma boa educação.

Já moço casou-se em 1941, com Luci Maria, quando sofreu mais uma tragédia: sua esposa assassinou o filho adotivo do casal e suicidou-se em seguida. Voltou a casar em 1954, agora com Olga, e em 1974, com Josephine. Teve quatro filhos: José, Jaciara, Carlos Sebastião e Mário Luiz.

Começou a sua carreira artística participando de shows nos cassinos cariocas na década de 40. Entrou para o cinema e participou de diversos filmes, inclusive um com Orson Welles, quando este esteve no Brasil.

Grande Otelo e Oscarito. Foto: Divulgação

Na década de 40 e 50 fez parceria com o também comediante Oscarito, formando a melhor dupla de comediantes que o Brasil já teve. Os filmes dos quais participavam estavam recorrentemente entre os melhores do ano. Um dos filmes que ficou como referência no cinema nacional em 1969, e que conquistou diversos prêmios, entre os quais um do Instituto Nacional do Cinema, foi Macunaíma (o herói sem caráter) de Mário de Andrade. A interpretação de Grande Otelo foi ótima.

Grande Otelo em Macunaíma. Foto: Divulgação

Ao longo de sua carreira participou de 118 filmes, sendo 17 com Oscarito. Entrou para a televisão, integrando muitas telenovelas, onde a sua atuação foi sempre marcante, principalmente em 1986, na novela "Sinhá Moça". Como sambista, sempre gostou de compor, e muitos dos seus sambas ficaram na história da Música Popular Brasileira.

Em 1940 gravou sua primeira composição; "Vou pra Orgia". Um dos seus sambas que ficou famoso, feito em parceria com Herivelto Martins, foi "Praça XI", gravado pelo famoso Trio de Ouro.

Grande Otelo teve uma carreira brilhante, participando do mundo artístico nas mais diversas modalidades, cinema, teatro, teatro de revista e televisão. Percorreu o Brasil e o exterior, participando de shows e levando o seu carisma.

Em São Paulo, em sua homenagem, quando do seu falecimento em 26 de novembro de 1993, o vereador Osvaldo Sanches, por meio do projeto de Lei nº. 858/93, de 9 de maio de 1994, alterou o nome do Polo Cultural da Cidade de São Paulo, o sambódromo, para Polo Cultural e Esportivo Grande Otelo.

Foi uma das melhores, se não a maior homenagem que São Paulo prestou ao nosso tão querido sambista Grande Otelo.

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29/09/2015 11h30

'A importância da propaganda no Carnaval'
Maria Apparecida Urbano

Toda grande empresa que quer lançar um produto no mercado tem por meta entrar na mídia para se comunicar. Nenhum produto vai para o mercado sem a coisa principal que é a propaganda, pois, como se diz, "A propaganda é a alma do negocio".

Isso também nos atinge, pois o desfile carnavalesco é na realidade um produto, e para tanto, tem que ser comunicado e muito bem divulgado. Todas as escolas de samba que pretendem se promover têm que ter por meta a divulgação e a propaganda.

Divulgação da escola, dos seus feitos durante o ano, divulgação do seu enredo para o próximo Carnaval, divulgação do trabalho que está sendo preparado pelo carnavalesco, e, o que é muito importante, levar ao conhecimento da mídia de um modo geral o lançamento das fantasias. Isso é necessário para a divulgação.

Propaganda. Foto: Arte

A palavra-chave para se obter o ano todo uma grande divulgação é sem dúvida a propaganda. As escolas de samba, que costumam aparecer na mídia por um período muito pequeno na época do Carnaval, sabem muito bem o prejuízo que isso causa, e o quanto é necessária a propaganda para poderem levar para a avenida suas escolas.

Hoje temos diversos canais na internet voltados para a divulgação das escolas de samba, com apresentações de intérpretes e de grandes sambistas, porém é ainda muito pouco.

Pela grande apresentação que se leva para o sambódromo, é necessário muito mais.

Devemos atingir o povo em geral, tanto aqueles que pretendem desfilar, como aqueles que admiram o Carnaval e só assistem pela TV, como, ainda aqueles que, como nós, pesquisam tanto as histórias da nossa cidade, como também os enredos apresentados, e fazem dessas pesquisas matérias que às vezes são publicadas em jornais e revistas, por vezes até no exterior.

A iniciativa que a escola de samba Vai-Vai teve em entrar em contato com o Metrô de São Paulo para, na Estação Sé, poder divulgar e fazer a propaganda do próximo Carnaval foi uma ideia brilhante. Ao mesmo tempo em que pôde, por meio de painéis, levar ao conhecimento do grande público usuário do Metrô, e demais interessados, a sua história, divulgando feitos desde sua fundação, os presidentes que por lá passaram, os nomes dos enredos ao longo dos anos, fez uma belíssima divulgação de todos os seus feitos de modo geral.

Exposição da Vai-Vai no metrô de São Paulo. Foto: Divulgação

Ao mesmo tempo, ainda, está fazendo propaganda de como são as fantasias que vão para a Avenida. Uma propaganda certíssima, pois aguça a imaginação das pessoas que por lá passam, se sentindo desfilando com aquelas fantasias.

E, para a inauguração dessa exposição, nada melhor do que a apresentação de sua bateria, seus compositores, e a presença das "Mães do Samba", o que não deve nunca faltar, porque elas inspiram o respeito pela escola.

E, para que essa exposição se tornasse mais valiosa, dentro de uma redoma de vidro, o tão sonhado troféu de campeão do último Carnaval. Parabéns Vai-Vai!

São muitas as estações de Metrô em nossa cidade, e muitas delas perto de escolas de samba, que poderiam também divulgar e promover propaganda das escolas dos bairros.

Cremos que isso poderia acontecer, e seria maravilhoso poder ver, ao menos em vinte e duas estações, uma belíssima exposição de cada escola de samba, divulgando a sua história, seus feitos durante a sua caminhada, e fazendo propaganda para o Carnaval que se aproxima, movimentando assim os próprios bairros. Esse sonho, se contarmos com a boa vontade dos representantes do Metrô, poderá ser realidade.

Vocês não acham?

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23/07/2015 11h35

E o samba? Durante o ano está aonde?
Maria Apparecida Urbano

Pensamos em São Paulo como a capital e a terra das oportunidades. Tudo o que aqui se faz progride, como é o caso das grandes empresas de renome com filiais por todo o mundo, as quais sempre se empenham em ter uma sede também no Brasil, diretamente em São Paulo.

Em todos os setores que olhamos o seu crescimento é valorizado e realizado em nossa capital. São Paulo é na realidade a terra prometida, onde todos, aproveitando as oportunidades, se desenvolvem. Todos os povos que vêm para cá crescem, claro, com muito trabalho, esforço e boa vontade. E o que ajudam muito são a mídia, a divulgação dos produtos e a valorização da mão de obra. Assim São Paulo cresce cada vez mais.

O Carnaval paulistano também cresceu, deu oportunidades aos mais diversos setores para se desenvolverem e se tornarem grandes indústrias. Acompanhando esse crescimento, ganhamos também um espaço no Anhembi, o sambódromo, que a principio seria destinado somente aos sambistas. As coisas, porém, mudaram; hoje é um local destinado a grandes eventos, culturais, esportivos, feiras, convenções e tantos outros.

Por que o Sambódromo? Na realidade os antigos se lembram: ali era simplesmente um grande terreno abandonado, vazio, para o qual os sambistas insistiam que fossem os desfiles carnavalescos que eram realizados na Avenida Tiradentes. Pediam apenas um asfalto para poderem desfilar. Politicamente os olhos cresceram, sentindo que esse palco poderia ser palco de grandes eventos. E assim foi feito. As escolas de samba obtiveram então o seu lugar próprio e também foram crescendo; hoje muitas são verdadeiras indústrias do samba.

Avenida Tiradentes. Foto: Reprodução

O samba paulista, nascido dos redutos negros espalhados em diversos bairros da capital, sem apoio, reprimido pela polícia, muito sofreu para conseguir ter o seu espaço. Mas será que conseguimos crescer o suficiente para poder tirar vantagens o ano todo? Uma indústria, para valorizar o seu produto, batalha o ano todo, recorrendo a propagandas, promoções, programas na TV; procura, com o seu nome, estar presente em todos os eventos, quer nacionais quer internacionais, nas revistas e nos jornais.

E o samba? Durante o ano está presente onde? As Escolas têm conseguido um bom público que lota as quadras nas semanas que antecedem o Carnaval, chamando a atenção de algumas emissoras de TV e jornais. Durante o ano, porém, não se fala em escolas de samba. O que está faltando? Já que as escolas se tornaram indústrias, teriam que valorizar e vender os seus produtos o ano todo.

Na última vez que fizemos nossos comentários tínhamos sugerido que se fizesse uma grande exposição dos carros alegóricos na passarela do samba logo após o carnaval. Recebi inúmeros e-mails e telefonemas nos felicitando pela ideia. Há uma grande curiosidade do público em ver de perto esses trabalhos grandiosos que são realizados durante o ano, e que passam tão rapidamente no desfile. São obras de arte popular que devem ser valorizadas e mostradas a todos os interessados, tanto em arte popular como os admiradores do Carnaval.

Uma exposição desse porte, dá trabalho? Dá e muito. E as compensações? É só pensar nos prós e contras. Afinal, a passarela do samba foi construída para os sambistas, e eles devem aproveitar essa oportunidade, antes que lhes tirem esse espaço. Pode-se pensar também em termos de lucro: de um lado a venda de ingressos para a exposição, como renda para as escolas, de outro o uso do estacionamento que seria renda para o Anhembi. Quando se veem filas enormes diante de uma exposição de artistas consagrados, sempre estrangeiros, ficamos admirados pelo interesse do paulistano em apreciar essas obras de arte. Pensando nesse interesse, por que não mostrarmos as obras de arte popular brasileira dos artistas que enfeitam tanto o nosso Carnaval?

Isso seria puro imaginário ou estaria na hora de se pisar mais na realidade brasileira, mostrando também o valor dos nossos artistas?

Se as escolas foram transformadas em indústrias carnavalescas, devemos então trabalhar o ano todo dentro dessa filosofia. E que tal uma exposição de fantasias em lugares frequentados pelos paulistanos? Nosso material é uma obra prima, que deve ser exibida e valorizada, e por que não comercializada? Existem na capital muitos museus, casas de espetáculos, centros culturais que podem ajudar em exposições e até mesmo com espetáculos preparados pelas escolas de samba. São trabalhos de dedicação, porém as escolas de samba têm um grande contingente de pessoas, e esses eventos ajudam a valorizar e a unir os participantes.

Apesar de as escolas de samba terem sido muito pequenas outrora, elas organizavam eventos que cativavam os paulistas, como foi o caso da escolha da "Bonequinha do Café", então muito bem divulgado. A chamada para esse evento saía em todos os jornais e revistas da época e todas as emissoras de rádio noticiavam. Está aí um bom exemplo. Não é saudosismo, mas sim fruto de um trabalho bem feito, que deveria ter sua continuidade. Outro evento que chamou muito a atenção na época foi o "Samba de Quadra'. Geralmente esses sambas eram de exaltação às grandes figuras da história do Brasil, ou aos grandes sambistas.

Os sambas eram disputadíssimos no bairro e todos os moradores se envolviam. A "Rua do samba" que reunia uma multidão era outro evento que deveria ser relembrado com uma rua em cada bairro. Isso é um trabalho de formiguinha, para se conseguir chegar até as grandes empresas como patrocinadoras e chamar a atenção da televisão para programas de samba o ano todo, mostrando que o samba existe, persiste.

Estamos em fase dos finais de samba-enredo, grandes festas nas quadras, um movimento muito grande. Lindo, não é? Mas os paulistanos em geral, aqueles que gostam de ver os desfiles na avenida, mas não frequentam as escolas, estão sabendo desses movimentos? Nos jornais não existem manchetes divulgando esses grandiosos eventos; a TV e as rádios nem estão sabendo. A divulgação é feita entre os sambistas e pelo facebook, e alguns canais da internet. É uma pena perder essa grande oportunidade de divulgação da nossa matéria prima. Bem sabemos que a divulgação é a alma do negócio, portanto é pensar...arregaçar as mangas e enfrentar esse trabalho; a mídia nos espera, e vamos chegar até ela, pois precisamos e muito.

Quadra da Mocidade Alegre: Foto: SRZD - Claudio L. Costa

Lembramos que novos eventos estão a caminho, os quais bem divulgados, serão de grande sucesso. Um deles é a apresentação dos pilotos. Que material nobre temos em mãos para mostrar a toda população da nossa capital. As escolas montam um verdadeiro espetáculo nas suas apresentações, mas para um público tão restrito. Por que não divulgar essas apresentações, uma vez que as fantasias vão ser vendidas, precisam de um número muito grande de pessoas, de uma propaganda maior e de oportunidade de maior venda, sem contar que será um chamariz para o próximo Carnaval?

Pretendemos quem sabe nos próximos meses realizar uma exposição, levando ao conhecimento do público os desenhos dos carros alegóricos e figurinos de carnavalescos, verdadeiros artistas populares, trabalhos estes simplesmente desconhecidos pelos paulistanos. Será uma forma de valorizar o que é feito pelo samba de São Paulo, por esses artistas populares que muitas vezes nem tem seus nomes nas manchetes de jornais e televisão, mas que o público realmente deve conhecer.

É mais uma batalha que enfrentamos. Isso acontecendo, quem em primeiro lugar vai ganhar serão os paulistanos, que terão a oportunidade de ver de perto esses riquíssimos trabalhos, e, em segundo lugar, o Carnaval de São Paulo, lembrando que essa exposição poderá até percorrer e ser vista pelo mundo inteiro.

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07/05/2015 12h00

Cida Urbano: 'Os presidentes precisam abrir os olhos para as raízes de suas escolas'
Maria Apparecida Urbano

Mal terminou o Carnaval, e nos deparamos com situações difíceis e complicadas.

A cada dia, fica mais nítido que aquele grande amor pelo pavilhão e pela escola já é uma coisa ultrapassada.

As escolas de samba, por força da chamada evolução, se transformaram em verdadeiras empresas comerciais, que mudam seus funcionários de acordo com as suas necessidades.

Nunca vimos tantos sambistas dos mais diferentes cargos, mudando de escolas.

São compositores, intérpretes, mestres de bateria e até casais de mestre-sala e porta-bandeira que trocam de pavilhão, como se isso fosse uma coisa natural.

E o amor e a dedicação ao pavilhão, como ficam?

Mais uma vez nos deparamos com a evolução. Foto: Reprodução

Continuando nosso pensamento, nos deparamos com os carnavalescos, que transitam entre as agremiações.

Tempos atrás, estes artistas, empenhavam para fazer um grande trabalho em uma entidade, dedicando-se a ela, muitas vezes, até tirando dinheiro do bolso para poderem realizar o seu trabalho. Eram movidos pelo amor a sua arte e pelo amor ao pavilhão. Por amor a ele permaneciam nas escolas por muitos anos. Outro tempo, fato!

Hoje vivem na disputa de contratação e das melhores condições de trabalho. Pelo talento e profissionalismo, possuem o direito e a oção de escolher o melhor caminho para suas carreiras.

Existe ainda um "porém": a impressão de que só são valorizados aqueles profissionais que vêm do Rio de Janeiro.

Para os carnavalescos paulistas parece não haver lugar em muitas das grandes escolas.

Conhecemos mentes criativas, incluindo jovens talentos, que, se houvesse condições financeiras mais favoráveis em suas escolas, poderiam realizar grandes desfiles.

Agora estamos pesquisando e realizando um novo livro sobre a arte popular, que norteia há muitos anos o Carnaval paulistano.

Mais uma vez nos deparamos com a evolução. Foto: Reprodução

Pensamos nos artistas, que se dedicam a esse campo, ou seja, nos carnavalescos. Aqui se coloca o nosso maior dilema: como a maioria dos carnavalescos da atualidade, no Grupo Especial de São Paulo, é carioca, temos procurado contatar e registrar aqueles que já trabalharam por algum tempo em São Paulo.

Pretendemos fazer uma boa pesquisa falando desses artistas populares. Porém, pensamos no seguinte: se, depois desses exaustivos apanhados, esses carnavalescos forem embora para o Rio, como fica esse trabalho todo? E a arte paulista que pretendemos demonstrar e valorizar, como é que fica?

É em São Paulo que encontramos todas as espécies de produtos para a realização do Carnaval: tecidos, com firmas especializadas para o Carnaval; enfeites, com muitas indústrias trabalhando e criando materiais novos todos os anos; fábricas de sapatos e sapatilhas, apropriados para os desfiles. E quantas outras indústrias que se dedicam o ano todo para suprir as necessidades das escolas de samba, como vacoformes, aramagens, plumagens, colas, tintas; enfim uma imensidão de firmas trabalhando em prol do Carnaval.

O Brasil todo compra seus produtos aqui em nossa capital.

E os paulistas vão até a cidade maravilhosa à procura de carnavalescos para fazer o nosso espetáculos.

Por que não criarmos também carnavalescos e darmos oportunidade aos nossos artistas populares?

No início das escolas de samba, preparávamos casais de mestre-sala e porta-bandeira; eles eram sambistas da entidade e começavam desde muito cedo a se dedicarem para exercer esses cargos.

A primeira coisa ensinada a esses casais, era amor ao pavilhão, respeito pelos dirigentes, e comportamento moral. O casal que representava a entidade, permanecia nela por muitos anos, era um grande orgulho ostentar o pavilhão.

Mais uma vez nos deparamos com a evolução. Foto: Reprodução

Outros fatos que já ficaram no passado são a ala dos compositores e o intérprete do samba-enredo. Para participar da ala dos compositores o candidato tinha que frequentar a quadra pelo menos um ano, tinha que compor um samba de quadra e passar por uma comissão da diretoria da Escola para ser aprovado. Sendo aceito, assumia o compromisso de só pertencer a essa entidade.

O mesmo regulamento era aplicado ao intérprete, que trazia o nome de "puxador do samba". O samba sempre esteve em evolução, porém essa evolução está acelerada demais, deixando todas as raízes do samba negro, as memórias e os personagens da história do samba para trás, o que é um grande mal.

Talvez valesse a pena retroceder esse quadro, a começar pelos presidentes.

Seria interessante que eles se preocupassem mais com a parte cultural de suas entidades, promovendo encontros e seminários, para que, desse modo, possam transmitir aos sambistas mais novos a verdadeira história sambística da cidade de São Paulo.

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05/03/2015 00h03

'Exposição de alegorias', a ideia está lançada
Maria Apparecida

Carnaval de 2015!

Foi um dos melhores Carnavais que São Paulo já realizou.

Presenciamos os desfiles incríveis das escolas de samba, maravilhosos em todos os Grupos: Especial, de Acesso e do Grupo 1 da Uesp.

Percebemos que todas as escolas desfilaram, apresentando o seu espetáculo para ser admirado pelo público, quer sambistas ou não, demonstrando muito amor pelos seus pavilhões, com alegria e entusiasmo.

Carnaval de São Paulo 2015. Foto: Liga SP - Fotos Públicas - Robson Fernandjes

Cada agremiação se empenhou muito, levando para a Avenida, em seus enredos, conhecimentos históricos, como o ouro, diamante, pérola, dos contos infantis, com fadas, príncipes, reis e rainhas ladeados de flores, pássaros e borboletas, não esquecendo o circo com os seus personagens e homenagens.

Foram também lembradas as imigrações vindas dos vários continentes do nosso planeta, e extravasadas as saudades, relembrando os antigos Carnavais por meio das marchinhas que tanto embalaram os foliões em décadas passadas.

Foi sem dúvida um magnífico espetáculo preparado, considerado o maior espetáculo da terra, fazendo com que o público chegasse ao delírio.

Foi um trabalho exaustivo, com a duração de quase um ano!

Começou pela escolha do enredo onde muitas pesquisas foram feitas pelos carnavalescos, até chegar ao ponto de criação. São muitos desenhos executados para chegar ao ideal. Pesquisas de materiais, montagens de pilotos, retoques, acabamentos e finalmente a apresentação, na quadra.

E vêm as alegorias, desenhos, projetos diversos de estrutura, que na realidade são os mais importantes.

Carnaval de São Paulo 2015. Foto: Liga SP - Fotos Públicas - Robson Fernandjes

Inicia-se o trabalho nos barracões e consomem-se meses de movimentação e realização. É a máquina do sonho no seu processo de produção, até a etapa final, que é a apresentação na passarela do samba.

Todo esse longo tempo e exaustivos trabalhos foram apresentados em apenas 65 minutos. Um tempo muito curto para que pudéssemos curtir e admirar toda essa beleza que passava diante de nós.

Temos que considerar ainda que, para tanto trabalho, além do envolvimento dos sambistas, houve a participação daqueles que trabalharam continuamente nos barracões. São muitos funcionários especializados, como serralheiros, marceneiros eletricistas, decoradores, pintores, escultores, entre outros. Os barracões são na realidade uma "Fábrica de Sonhos", por meio da qual os sambistas sonham durante meses para que ela funcione e chegue ao seu objetivo.

Então vamos vendo essas alegorias se afastando da pista e dos nossos olhos...

Que pena!

E vão elas sendo retiradas da "dispersão" para um terreno, onde praticamente são amontoadas umas com as outras, esperando a hora de serem levadas para as quadras e serem desmontadas.

As alegorias são consideradas trabalhos de arte popular, realizadas por artistas do povo que, infelizmente, passam despercebidos pelo público, mas são verdadeiros artistas!

Carnaval de São Paulo 2015. Foto: Liga SP - Fotos Públicas - Robson Fernandjes

Como conseguir que o presidente da SPTuris olhe com a devida atenção para esses trabalhos, fazendo com que esses carros alegóricos voltem à passarela do samba, para uma "exposição de visitação pública", eventualmente de turistas do exterior, pelo menos durante o mês de março, que geralmente não tem programação para o uso da pista?

Talvez se o presidente e a diretoria da Liga ajudassem na realização desse evento, colaborando na divulgação e propaganda, poderia até ser uma fonte de renda, com ingresso e estacionamento a preços módicos.

Quantas pessoas gostariam de ver de perto esses carros alegóricos, assim como foi feita a visitação na Pinacoteca do Estado para ver as obras do artista Ron Mueck, um artista australiano, também popular...

Isso poderia acontecer igualmente no sambódromo. É um caso para ser pensado. Já que nenhuma autoridade ainda cogitou a criação do "Museu do Carnaval", que para os sambistas seria muito importante, essa seria uma forma de divulgar e não se perder a arte criada para o Carnaval, feita por sambistas que na realidade são verdadeiros artistas populares.

Concentração do Anhembi. Foto: Liga SP - Fotos Públicas - Rafael Neddermeyer

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08/01/2015 13h00

2015: Um novo ano, um enredo
Maria Apparecida Urbano

O enredo é a parte mais importante para iniciar a preparação do desenvolvimento de um desfile carnavalesco, considerado uma verdadeira peça teatral. Ele é a espinha dorsal e a sustentação do desfile.

Seu sucesso vai depender muito de como será apresentado ao público. Para escolher um enredo e criar condições de levá-lo à avenida, tudo é válido; não existem limites, nem enredos repetidos, tudo resulta da forma da sua apresentação e da imaginação do carnavalesco, que é a pessoa responsável pelo seu desenvolvimento, assim como um diretor teatral.

2015: Um novo ano, um enredo

Por vezes começamos com um simples tema, por exemplo: um livro.

Para desenvolver esse tema e transformá-lo em um enredo, devemos saber que assunto vamos enfocar. Se vamos falar do conteúdo, o ponto de vista pode ser histórico, romântico, político, poético, folclórico ou humorístico.

Também pode-se abordá-lo na sua confecção editorial, como papel, tintas, montagem. Assim é que se começa a formar ideias e montar o enredo. Em todo enredo, seja ele qual for, o tema abordado provoca um rico trabalho de pesquisa.

Vamos fazer um teste, criando um enredo: "2015, um ano novo".

Claro que só teceremos pensamentos positivos. Sabemos muito bem que coisas ruins acontecem, porém não vamos focalizar esse lado da realidade. Imaginemos a nossa escola vivenciando os meses do ano, preparando cada ala para o desfile. Começa sua apresentação na passarela do samba pela comissão de frente.

Com o pensamento nas festas da passagem do ano, que nos emocionam e nos trazem muitas alegrias, o vestir-se de branco em sinal de paz vai ser uma expressiva e simpática apresentação.

Logo após vem o carro abre alas, que traz o nome da escola e do enredo, fazendo a sua apresentação, demonstrada com os detalhes referentes aos doze meses que representarão o 2015.

Máscaras e confetes. Foto: Reprodução

Começam, então, as alas com a demonstração dos acontecimentos que se realizarão a cada mês. Estamos em fevereiro, é Carnaval. Essa será a parte mais importante, ilustrada com alas repletas de fantasias referentes ao reinado de Momo, carros alegóricos, muito brilho, muita alegria. É o mês dos sambistas, e a passarela do samba os espera.

Terminado o Carnaval, vamos pensar no início das aulas; começa tudo de novo: material, uniforme, horário, transporte. Para o comércio quase todo mês é motivo de comemoração, e vamos aproveitar e comemorar juntos, com alas bem significativas.

Já é tempo de Páscoa, coelhinhos saltitantes, rodeados de ovos coloridos muito bem decorados.

Na imaginação do enredo mais um mês que nos emociona é o que celebra o dia das mães. É um dia em que todos os filhos, sejam eles crianças ou adultos, procuram os braços carinhosos de suas mães ou levam uma flor onde elas estão adormecidas. É o dia dedicado à família. Chega então o mês frio, que precisa das festas juninas para aquecer aos sons das músicas do interior, com muitas fogueiras e alegrias, curtindo um quentão, bebida típica dessa época, na expectativa ansiosa de que cheguem as férias, tempo de descanso, de passeios, de dormir sem ter horário de levantar...E assim passou o mês, recomeça-se tudo de novo: volta às aulas, ao trabalho.

E já foi metade do ano.

Como tivemos o dia de homenagem às mães, vamos também fazer nossas homenagens aos pais, lembrando sua dedicação pela família, o exemplo para os pequenos, a ida aos campos de futebol, a prática de esportes e também a participação deles nas escolas de samba junto com a família.

Lápis coloridos. Foto: Arte

E a primavera chegou. É época das flores e dos jardins floridos. Nosso espírito se sente mais leve, o sol brilha, a noite é cheia de estrelas e a chuva cai, molhando os jardins. São realizadas muitas festas em homenagem à primavera. Acontecem campeonatos esportivos com diversas modalidades.

E chega o mês das crianças, que é bem movimentado para o comércio. Elas merecem ter o seu dia, com muita festa, brincadeira, circos, teatros, jogos, muitos doces e presentes.

Entra em cena a ala das crianças, as criaturinhas que mais precisam de aconchego e amor. E o mês das crianças é também o mês da grande festa religiosa em homenagem a Nossa Senhora Aparecida que é a padroeira de todos nós brasileiros, considerada a maior festa do nosso país.

E o futebol? Esse esporte terá alas especiais só para ele, porque é o único esporte que chama a atenção de todos os brasileiros durante o ano todo, com as disputas de campeonatos, tanto no Brasil como em outros países. Chega enfim o último mês do ano, que traz muitas coisas boas com ele, como o Natal.

O nascimento de Deus menino renova, as esperanças e votos de felicitações, os semblantes ficam mais suaves. Encontramos mãos estendidas de amigos, cheias de carinho e amizade, que desejam boas festas. Colocamos para trás todos os maus acontecimentos que nos entristeceram no decorrer do ano que terminou. E novas alas vão surgindo.

Aí está o nosso enredo pronto para ser pesquisado e executado. Agora passaremos o enredo ao carnavalesco que irá trabalhar todo o nosso sonho, criando cenas teatrais e fantasias deslumbrantes. Ele fará uma sinopse daquilo que merecerá mais atenção, para que os compositores componham um belíssimo e maravilhoso samba enredo, esperando-se uma criação para ficar na história da escola que defenderá esse enredo.

É um grande sonho...Porém não impossível; é simplesmente um enredo. O resultado da apresentação desse enredo só daremos no Ano Novo de 2016, esperando ansiosos receber a nota máxima; nota dez!!!.

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17/12/2014 00h04

Esperando pelo próximo ano
Maria Apparecida Urbano

Mais uma vez um ano está terminando, mais uma vez, os pensamentos se voltam para o ano que vai começar, e ficamos refletindo sobre os acontecimentos do ano que está por nos deixar.

Em 2014 fizemos um excelente Carnaval, mesmo debaixo de muita chuva. E, como reclamamos tanto dessa água que desabou, ela foi embora, nos deixando preocupados pela sua falta. Foram muitas as coisas boas que ficaram marcadas na nossa história. Foi o ano da Copa do Mundo. A ansiedade tomava conta de todos os brasileiros, vestimos a camisa verde e amarela, e torcemos...e torcemos...muito. Mas não foi desta vez.

Torcedora brasileira. Foto: Divulgação

Conscientes e decepcionados, estaremos esperando pela próxima copa. Logo após, estávamos vivendo nova ansiedade: era a eleição para presidente; eleição nervosa e agitada, uma grande parte da população não votando ou anulando seus votos. O Brasil passou o ano com notícias intermináveis de corrupção.

Urna eletrônica. Foto: Reprodução

E teve também, talvez, a parte pior: perdemos muitos sambistas importantíssimos para o nosso mundo do samba. Não vou enumerá-los, porque a saudade será guardada em cada coração dos sambistas. Mas, como tudo na vida passa, embora não seja esquecido, devemos ter sempre em mente que o samba continua.

Quanto a mim, embora sentindo muito a falta do meu filho que se foi, mas tendo acompanhado o reconhecimento das suas obras, tanto no Brasil como no exterior; por exemplo, sua participação em grandes exposições como na 32ª Bienal de São Paulo, no Museu de Arte Contemporânea, em Londres, em Taipé na China e em Glasgow, na Escócia, na qual estive presente, representando-o. Também neste ano aconteceu o lançamento do meu novo livro "Quem é Quem no Samba Paulista".

Foi um livro muito trabalhoso, pois realizei oitenta entrevistas com grandes sambistas ou com suas famílias, contribuindo dessa forma para o engrandecimento da história do samba Paulista. Para mim, outro motivo de júbilo que quero compartilhar foi, na vigília do Dia do Samba, ter sido agraciada com o título de Embaixadora do Samba, recebendo a tão honrosa faixa na Uesp, União das Escolas de Samba Paulistanas.

Também neste ano tivemos uma grande homenagem a Américo Garcia pelos seus 50 anos de trabalho em prol do samba. Ele foi merecidamente muito festejado; na verdade trata-se de um grande batalhador, um baluarte do samba, tanto em São Paulo como em Santos.

Agora que estamos esperando o ano novo chegar, vêm as dúvidas: como será esse novo ano, quais as novidades que ele irá nos dar; serão boas ou más?

Sambódromo do Anhembi. Foto: Divulgação

A começar pelo Carnaval, que é a data mais esperada por todos os sambistas, por todo o trabalho realizado durante tantos meses, com ensaios, encontros, festas, até chegar o momento do desfile.

Que 2015 nos reserve bons momentos, tanto no mundo do samba como na nossa vida particular, trazendo muita paz, saúde e segurança; é exatamente do que na realidade precisamos.

Deixo aqui os meus votos de Boas Festas e um Feliz Natal a todos os amigos sambistas, desejando que o Ano Novo seja um ano bom, com muito amor e que nos traga muita paz e esperanças para termos um futuro melhor.

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06/11/2014 00h01

Mantendo as tradições
Maria Apparecida Urbano

Conversando com jovens estudantes, fizeram-me a seguinte pergunta: como deveriam ser os desfiles de Escolas de Samba para que não se perdesse e se mantivesse o respeito às raízes e às tradições?

Componente da Camisa Verde e Branco. Foto: Divulgação

Pois bem, vejamos primeiramente como é hoje: dando início aos desfiles, considerados um grande espetáculo que as escolas de samba apresentam, vem sempre a comissão de frente, que hoje é alegórica, muito bem coreografada.

Mesmo sendo considerada muito interessante, nada impediria de termos logo em seguida, a apresentação da comissão de frente tradicional, como era no principio, integrada pelo presidente da escola e sua diretoria.

A função da comissão de frente, por sinal trajada com roupa de gala, smoking, cartola ou chapéu, e bengala, era a de cumprimentar o público presente e apresentar a escola.

Gestos simples, porém feitos com muito respeito. O presidente fazia a marcação dos gestos. Mais tarde, a comissão passou a ser mais requintada, com doze componentes, de preferência todos com a mesma altura, e seguindo o regulamento ditado pela Uesp. Até há bem pouco tempo o presidente da Mocidade Alegre, Juarez da Cruz, vinha a frente, usando o seu gorro de pele e seu charuto, e isso era a sua marca.

Portanto, mesmo havendo uma comissão de frente alegórica, fazendo a abertura, deveria ser mantida a verdadeira comissão tradicional com o seu presidente e principalmente com a sua diretoria. É uma maneira de valorizar as tradições e fazer uma demonstração pública de quem é o presidente da escola que está desfilando, assim como no teatro na apresentação de um espetáculo onde se vê e se conhece quem é o diretor da peça e seus assistentes, que ajudaram a montar o espetáculo.

Casal de mestre-sala e porta-bandeira da Acadêmicos do Tatuapé em 1975. Foto: USP

Nos idos anos 70 e 80, antes de começar o desfile, eram distribuídos nas arquibancadas para o público livretos ou folhetins, que traziam o resumo do enredo, os autores, o samba enredo e seus compositores e o nome do carnavalesco e de toda a diretoria.

Era muito importante para quem estava assistindo que podia assim acompanhar o desenrolar do desfile lendo o enredo.

É como se faz até hoje nos teatros em que se recebe, na entrada, folhetos que anunciam o nome da peça, o assunto, o nome dos autores e dos diretores.

São dados muito importantes para quem está assistindo. Sem eles, apenas podemos admirar a beleza das fantasias e alegorias, e tentar, durante o desfile, decorar ao menos o refrão do samba enredo, imaginando qual é a história que está sendo contada.

Após a passagem da comissão, entra em cena o carro abre alas, cuja função é anunciar o nome da escola e o nome do enredo. Antes, até da década de 60, quando as escolas tiveram que acrescentar em seus nomes, Grêmio Recreativo Cultural, passou a ser obrigatório que no primeiro carro, figurasse o nome da agremiação.

A Barroca Zona Sul, na sua fundação em 1974, por Sebastião Eduardo do Amaral, com a intenção de formar uma das maiores escolas da cidade, criou o nome: Grêmio Recreativo Cultural Beneficente Escola de Samba Faculdade Barroca Zona Sul, o que não era comum naquela época, pois Faculdades existiam muito poucas; mas ele achava que, como seria a melhor escola, ela seria uma "Faculdade" do Samba. Além do nome completo das escolas, deveriam também trazer o nome do enredo.

Na FESEC, Federação das Escolas de Samba, foram discutidos em simpósios, encontros e reuniões, este dois quesitos. Isto porque antigamente era o abre alas que vinha na frente, pedindo "passagem". Eram faixas ou tripés, onde se lia: a escola tal pede passagem para apresentar o enredo tal. Era o primeiro quesito a entrar na avenida; depois é que vinha a comissão.

Mestre-sala e porta-bandeira, embora tivessem fantasias diferenciadas, não eram tão luxuosas e nem tão grandes, e suas danças eram mais requintadas. A maior atenção era dada ao pavilhão. Hoje, o luxo impera na apresentação dos casais, e creio que muitos casais desconhecem a origem dos desenhos dos seus pavilhões.

Baiana. Foto: Divulgação

Agora, vamos falar das baianas, uma das grandes tradições de todo o Carnaval, as "Mães do Samba", cuja vestimenta tanto lembra as mulheres quituteiras da Bahia, como das Mães de Santo dos terreiros de Candomblé. Saias rodadas, batas rendadas, pano da costa, turbantes, colares, pulseiras e balangandãs. Essa é a verdadeira vestimenta das baianas das primeiras escolas de samba; são as raízes. Elas que por muitos anos conseguiram criar seus filhos que se tornaram grandes sambistas.

Embora hoje exista uma ala chamada "das baianas", usando saias extremamente grandes, já não existem mais os itens tradicionais: são fantasias luxuosas, pesadíssimas, com grandes costeiros e chapéus, quase afogando as senhoras que vestem tais fantasias com tantos enfeites.

Seria muito bom que na frente dessa ala, que de "baiana" não tem nada, se apresentassem ao menos umas trinta baianas com trajes típicos das baianas tradicionais. Seria uma volta ao passado, quando se conservavam as tradições africanas.

Não me parece tão difícil que, dentro desse magnifico espetáculo, pensassemos em conservar as tradições do samba, passando para os jovens essa nossa cultura sambística, que eles devem conhecer e aprender a respeitar. Fica aqui a sugestão de quem vem lutando durante décadas pela conservação da nossa cultura afro-brasileira.

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02/10/2014 00h04

A importância do estandarte
Maria Apparecida Urbano

O estandarte, há muitos séculos, era usado na frente das tropas militares que saíam para a guerra. Ia sempre à frente; era o destaque que abria caminhos.

Quando saíam vitoriosas, fincavam sua bandeira no território inimigo em sinal de vitória.

Ele é muito usado no Brasil nas comunidades religiosas em procissão, sendo desenhadas ou bordadas imagens de santos. Também é usado pelos militares, principalmente da cavalaria.

No início do século XX, o estandarte era a figura principal nos cordões carnavalescos, pela maneira como era apresentado, representando de uma forma simbólica a entidade a que ele pertencia.

Assistindo recentemente a um desfile de uma escola de samba de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, reparei que, logo após a comissão de frente, vinha a porta estandarte, o que me chamou a atenção, é que durante o desfile, estavam o mestre-sala e a porta-bandeira.

Porta estandarte no Carnaval de Porto Alegre. Foto: Divulgação

A explicação que me deram foi a seguinte: o Rio Grande do Sul foi palco de muitas guerras e era normal, quando as tropas saíam para lutar, levarem o estandarte na frente, mostrando que o gaúcho não fugia da luta. E quando a guerra era vencida, era hasteada a bandeira.

Essa tradição foi mantida pelas escolas de samba, que se apresentam com muito orgulho, levando o seu estandarte no início do desfile, de uma forma simbólica, partindo para a luta de uma boa colocação.

Essa tradição de luta das escolas de samba deveria se manter sempre, pois tudo começou com o estandarte, que hoje é representado pela velha guarda. Talvez poucos se dão conta de que a velha guarda não tem pavilhão, mas sim estandarte.

Porta-bandeira. Foto: Arte

Falta passar esta parte da história aos jovens: o que representa o estandarte, e lembrar sempre que ele é a memória da luta que os nossos antigos sambistas enfrentaram com a perseguição da sociedade e da polícia.

Infelizmente hoje já perdemos muito dos nossos rituais e dos nossos símbolos, pois esses fatos são as raízes da nossa história. Não adianta sair na avenida muito bem vestido, batendo no peito, dizendo que traz a escola no coração e não saber os fundamentos básicos da história que norteia toda essa apresentação na avenida.

Costumamos dizer que estamos sempre aprendendo. Essa ida à Porto Alegre para dar uma palestra sobre enredo, me despertou a importância da história dos Estandartes.

Acabei aprendendo o que o estandarte representa para a comunidade, não só para as escolas de samba, como também para todos os gaúchos. Ao mesmo tempo pude ter consciência de como está afastada dos sambistas paulistas a importância do estandarte, que na realidade, deveria ser até mais reverenciado do que o próprio pavilhão, pois ele foi o começo da apresentação do samba paulista.

Pois é, vivendo e aprendendo...

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04/08/2014 02h30

Livro 'Quem é quem no samba paulista' será lançado na próxima quarta-feira
Maria Apparecida Urbano

Terminada a fase em que as atenções do grande público, de um modo geral, se concetraram na Copa do Mundo de Futebol, ficamos com o gosto amargo da derrota, afinal, foi um sonho que ficou para trás.

Quem é quem no samba paulista. Foto: Divulgação

Mas retornemos às nossas vidas diárias como brasileiros, sempre de cabeça erguida. Agora é pensar realmente no que é importante.

Como o samba não pode parar, todas as escolas estão em plena atividade, algumas até com o samba-enredo já escolhido.

Dentro desse clima, estou também muito feliz por poder mostrar mais um trabalho em prol do samba. Estarei lançando no próximo dia 6 de agosto, na Assembleia Legislativa, na sala Franco Montoro, às 19h, o livro "Quem é quem no samba paulista", uma breve biografia dos sambistas que fizeram e fazem história em nossa cidade.

A intenção desse livro foi trazer ao conhecimento dos jovens sambistas e pesquisadores os nomes daqueles que souberam honrar e fizeram crescer o samba paulista, aqueles que enfrentaram, com muitas lutas, humilhações e preconceitos, a sociedade da época, que hoje se vangloria por pertencer as escolas de Samba.

Foram feitas 81 entrevistas e pesquisas com sambistas, alguns dos quais já não estão entre nós, e outros que aqui estão sendo testemunhas dos dados históricos do nosso samba. Todos eles são merecedores do nosso respeito e admiração pelos relatos espontâneos de suas vidas. Levar os nomes desses sambistas ao conhecimento público é de muita importância, pois temos pouquíssimas informações de trabalhos de pesquisas sobre eles.

Tenho consciência de que muitos sambistas de imenso valor com suas histórias de vida da época quando tudo começou, que deveriam constar também dessas páginas, deixaram de ser registrados. Mas, como nem tudo é como queremos e sim como nos é estabelecido, todos eles ficarão para um próximo livro que os sambistas mais novos irão escrever.

Maria Apparecida Urbano e Sidney Rezende. Foto: Walber SilvaSei que foi o início de um grande trabalho de pesquisa que deverá ter continuidade, sob o prisma de outros olhares e de outros segmentos.

A publicação deste livro deve-se, em primeiro lugar, ao Concurso de Apoio a projetos de promoção da Cultura Popular e Tradicional no Estado de São Paulo promovido pela ProArc, do qual concorri e ganhei.

Em segundo lugar, deve-se a venda de uma obra de arte do meu filho, logo após seu falecimento, que muito favoreceu a primorosa confecção do livro, valorizando todos os sambistas documentados.

Espero contar com a presença de todos os amigos, sambistas ou não, e dos participantes do livro e familiares, no próximo dia 6 de agosto na Assembleia Legislativa. A entrada é franca.

Até lá...


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21/07/2014 01h19

José Luiz de Oliveira, o Zelão
Maria Apparecida Urbano

José Luiz de Oliveira, o Zelão, começou sua trajetória de sambista ainda criança, brincando nas escolas de samba, sendo um dos mais antigos conhecedores do Carnaval de São Paulo nas últimas cinco décadas, desde a avenida São João, passando pela Tiradentes até a construção do Sambódromo.

Zelão. Foto: Divulgação

Pertencia ao Camisa Verde e Branco, onde foi diretor de harmonia na época de ouro da agremiação, tendo conquistado vários títulos e feito muitas inovações, melhorando o desempenho da escola.

O Carnaval exige também muita engenharia para a montagem dos desfiles. Esse trabalho, em grande parte, era realizado pelo engenheiro Zelão, que devido a sua capacidade, chegou a ser diretor de infra estrutura da Liga das Escolas de Samba.

Era dono de várias manias curiosas, entre elas, não passar em catracas. Também era avesso ao uso de camisetas e crachás de identificação, dizia "eu só visto camisa, mas não a uso" e assim circulava pelo sambódromo nos desfiles. Utilizava muitas tiradas e jargões próprios, como chamar certos carros alegóricos de carros cenográficos, o que na realidade pode-se classificar de muito certo.

Sambódromo do Anhembi. Foto: Ilustração

Profundo conhecedor de toda estrutura e dos bastidores, tinha o sambódromo mapeado na cabeça e o conhecia como a palma da sua mão. Era dedicado à causa de todos os pavilhões e trabalhava nos bastidores com afinco para tudo dar certo.

Zelão nos deixou no dia 21 de novembro de 2012, ficando o seu legado de amor e dedicação ao Carnaval. Foi um excelente sambista, um grande amigo, que vai ficar na memória de todas as agremiações nos desfiles no Sambódromo.

Se o Carnaval paulistano chegou a essa magnitude, uma boa parcela se deve ao empenho do engenheiro Zelão.

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