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Maria Apparecida

Maria Apparecida

Historiadora, escritora e decoradora, é considerada uma das mais respeitadas autoridades do Carnaval de São Paulo. Há 35 anos começou a se interessar pelo samba, em que desenvolveu vários projetos. Entrou para a história ao se tornar a primeira carnavalesca da folia paulistana.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



17/12/2014 00h04

Esperando pelo próximo ano
Maria Apparecida Urbano

Mais uma vez um ano está terminando, mais uma vez, os pensamentos se voltam para o ano que vai começar, e ficamos refletindo sobre os acontecimentos do ano que está por nos deixar.

Em 2014 fizemos um excelente Carnaval, mesmo debaixo de muita chuva. E, como reclamamos tanto dessa água que desabou, ela foi embora, nos deixando preocupados pela sua falta. Foram muitas as coisas boas que ficaram marcadas na nossa história. Foi o ano da Copa do Mundo. A ansiedade tomava conta de todos os brasileiros, vestimos a camisa verde e amarela, e torcemos...e torcemos...muito. Mas não foi desta vez.

Torcedora brasileira. Foto: Divulgação

Conscientes e decepcionados, estaremos esperando pela próxima copa. Logo após, estávamos vivendo nova ansiedade: era a eleição para presidente; eleição nervosa e agitada, uma grande parte da população não votando ou anulando seus votos. O Brasil passou o ano com notícias intermináveis de corrupção.

Urna eletrônica. Foto: Reprodução

E teve também, talvez, a parte pior: perdemos muitos sambistas importantíssimos para o nosso mundo do samba. Não vou enumerá-los, porque a saudade será guardada em cada coração dos sambistas. Mas, como tudo na vida passa, embora não seja esquecido, devemos ter sempre em mente que o samba continua.

Quanto a mim, embora sentindo muito a falta do meu filho que se foi, mas tendo acompanhado o reconhecimento das suas obras, tanto no Brasil como no exterior; por exemplo, sua participação em grandes exposições como na 32ª Bienal de São Paulo, no Museu de Arte Contemporânea, em Londres, em Taipé na China e em Glasgow, na Escócia, na qual estive presente, representando-o. Também neste ano aconteceu o lançamento do meu novo livro "Quem é Quem no Samba Paulista".

Foi um livro muito trabalhoso, pois realizei oitenta entrevistas com grandes sambistas ou com suas famílias, contribuindo dessa forma para o engrandecimento da história do samba Paulista. Para mim, outro motivo de júbilo que quero compartilhar foi, na vigília do Dia do Samba, ter sido agraciada com o título de Embaixadora do Samba, recebendo a tão honrosa faixa na Uesp, União das Escolas de Samba Paulistanas.

Também neste ano tivemos uma grande homenagem a Américo Garcia pelos seus 50 anos de trabalho em prol do samba. Ele foi merecidamente muito festejado; na verdade trata-se de um grande batalhador, um baluarte do samba, tanto em São Paulo como em Santos.

Agora que estamos esperando o ano novo chegar, vêm as dúvidas: como será esse novo ano, quais as novidades que ele irá nos dar; serão boas ou más?

Sambódromo do Anhembi. Foto: Divulgação

A começar pelo Carnaval, que é a data mais esperada por todos os sambistas, por todo o trabalho realizado durante tantos meses, com ensaios, encontros, festas, até chegar o momento do desfile.

Que 2015 nos reserve bons momentos, tanto no mundo do samba como na nossa vida particular, trazendo muita paz, saúde e segurança; é exatamente do que na realidade precisamos.

Deixo aqui os meus votos de Boas Festas e um Feliz Natal a todos os amigos sambistas, desejando que o Ano Novo seja um ano bom, com muito amor e que nos traga muita paz e esperanças para termos um futuro melhor.

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06/11/2014 00h01

Mantendo as tradições
Maria Apparecida Urbano

Conversando com jovens estudantes, fizeram-me a seguinte pergunta: como deveriam ser os desfiles de Escolas de Samba para que não se perdesse e se mantivesse o respeito às raízes e às tradições?

Componente da Camisa Verde e Branco. Foto: Divulgação

Pois bem, vejamos primeiramente como é hoje: dando início aos desfiles, considerados um grande espetáculo que as escolas de samba apresentam, vem sempre a comissão de frente, que hoje é alegórica, muito bem coreografada.

Mesmo sendo considerada muito interessante, nada impediria de termos logo em seguida, a apresentação da comissão de frente tradicional, como era no principio, integrada pelo presidente da escola e sua diretoria.

A função da comissão de frente, por sinal trajada com roupa de gala, smoking, cartola ou chapéu, e bengala, era a de cumprimentar o público presente e apresentar a escola.

Gestos simples, porém feitos com muito respeito. O presidente fazia a marcação dos gestos. Mais tarde, a comissão passou a ser mais requintada, com doze componentes, de preferência todos com a mesma altura, e seguindo o regulamento ditado pela Uesp. Até há bem pouco tempo o presidente da Mocidade Alegre, Juarez da Cruz, vinha a frente, usando o seu gorro de pele e seu charuto, e isso era a sua marca.

Portanto, mesmo havendo uma comissão de frente alegórica, fazendo a abertura, deveria ser mantida a verdadeira comissão tradicional com o seu presidente e principalmente com a sua diretoria. É uma maneira de valorizar as tradições e fazer uma demonstração pública de quem é o presidente da escola que está desfilando, assim como no teatro na apresentação de um espetáculo onde se vê e se conhece quem é o diretor da peça e seus assistentes, que ajudaram a montar o espetáculo.

Casal de mestre-sala e porta-bandeira da Acadêmicos do Tatuapé em 1975. Foto: USP

Nos idos anos 70 e 80, antes de começar o desfile, eram distribuídos nas arquibancadas para o público livretos ou folhetins, que traziam o resumo do enredo, os autores, o samba enredo e seus compositores e o nome do carnavalesco e de toda a diretoria.

Era muito importante para quem estava assistindo que podia assim acompanhar o desenrolar do desfile lendo o enredo.

É como se faz até hoje nos teatros em que se recebe, na entrada, folhetos que anunciam o nome da peça, o assunto, o nome dos autores e dos diretores.

São dados muito importantes para quem está assistindo. Sem eles, apenas podemos admirar a beleza das fantasias e alegorias, e tentar, durante o desfile, decorar ao menos o refrão do samba enredo, imaginando qual é a história que está sendo contada.

Após a passagem da comissão, entra em cena o carro abre alas, cuja função é anunciar o nome da escola e o nome do enredo. Antes, até da década de 60, quando as escolas tiveram que acrescentar em seus nomes, Grêmio Recreativo Cultural, passou a ser obrigatório que no primeiro carro, figurasse o nome da agremiação.

A Barroca Zona Sul, na sua fundação em 1974, por Sebastião Eduardo do Amaral, com a intenção de formar uma das maiores escolas da cidade, criou o nome: Grêmio Recreativo Cultural Beneficente Escola de Samba Faculdade Barroca Zona Sul, o que não era comum naquela época, pois Faculdades existiam muito poucas; mas ele achava que, como seria a melhor escola, ela seria uma "Faculdade" do Samba. Além do nome completo das escolas, deveriam também trazer o nome do enredo.

Na FESEC, Federação das Escolas de Samba, foram discutidos em simpósios, encontros e reuniões, este dois quesitos. Isto porque antigamente era o abre alas que vinha na frente, pedindo "passagem". Eram faixas ou tripés, onde se lia: a escola tal pede passagem para apresentar o enredo tal. Era o primeiro quesito a entrar na avenida; depois é que vinha a comissão.

Mestre-sala e porta-bandeira, embora tivessem fantasias diferenciadas, não eram tão luxuosas e nem tão grandes, e suas danças eram mais requintadas. A maior atenção era dada ao pavilhão. Hoje, o luxo impera na apresentação dos casais, e creio que muitos casais desconhecem a origem dos desenhos dos seus pavilhões.

Baiana. Foto: Divulgação

Agora, vamos falar das baianas, uma das grandes tradições de todo o Carnaval, as "Mães do Samba", cuja vestimenta tanto lembra as mulheres quituteiras da Bahia, como das Mães de Santo dos terreiros de Candomblé. Saias rodadas, batas rendadas, pano da costa, turbantes, colares, pulseiras e balangandãs. Essa é a verdadeira vestimenta das baianas das primeiras escolas de samba; são as raízes. Elas que por muitos anos conseguiram criar seus filhos que se tornaram grandes sambistas.

Embora hoje exista uma ala chamada "das baianas", usando saias extremamente grandes, já não existem mais os itens tradicionais: são fantasias luxuosas, pesadíssimas, com grandes costeiros e chapéus, quase afogando as senhoras que vestem tais fantasias com tantos enfeites.

Seria muito bom que na frente dessa ala, que de "baiana" não tem nada, se apresentassem ao menos umas trinta baianas com trajes típicos das baianas tradicionais. Seria uma volta ao passado, quando se conservavam as tradições africanas.

Não me parece tão difícil que, dentro desse magnifico espetáculo, pensassemos em conservar as tradições do samba, passando para os jovens essa nossa cultura sambística, que eles devem conhecer e aprender a respeitar. Fica aqui a sugestão de quem vem lutando durante décadas pela conservação da nossa cultura afro-brasileira.

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02/10/2014 00h04

A importância do estandarte
Maria Apparecida Urbano

O estandarte, há muitos séculos, era usado na frente das tropas militares que saíam para a guerra. Ia sempre à frente; era o destaque que abria caminhos.

Quando saíam vitoriosas, fincavam sua bandeira no território inimigo em sinal de vitória.

Ele é muito usado no Brasil nas comunidades religiosas em procissão, sendo desenhadas ou bordadas imagens de santos. Também é usado pelos militares, principalmente da cavalaria.

No início do século XX, o estandarte era a figura principal nos cordões carnavalescos, pela maneira como era apresentado, representando de uma forma simbólica a entidade a que ele pertencia.

Assistindo recentemente a um desfile de uma escola de samba de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, reparei que, logo após a comissão de frente, vinha a porta estandarte, o que me chamou a atenção, é que durante o desfile, estavam o mestre-sala e a porta-bandeira.

Porta estandarte no Carnaval de Porto Alegre. Foto: Divulgação

A explicação que me deram foi a seguinte: o Rio Grande do Sul foi palco de muitas guerras e era normal, quando as tropas saíam para lutar, levarem o estandarte na frente, mostrando que o gaúcho não fugia da luta. E quando a guerra era vencida, era hasteada a bandeira.

Essa tradição foi mantida pelas escolas de samba, que se apresentam com muito orgulho, levando o seu estandarte no início do desfile, de uma forma simbólica, partindo para a luta de uma boa colocação.

Essa tradição de luta das escolas de samba deveria se manter sempre, pois tudo começou com o estandarte, que hoje é representado pela velha guarda. Talvez poucos se dão conta de que a velha guarda não tem pavilhão, mas sim estandarte.

Porta-bandeira. Foto: Arte

Falta passar esta parte da história aos jovens: o que representa o estandarte, e lembrar sempre que ele é a memória da luta que os nossos antigos sambistas enfrentaram com a perseguição da sociedade e da polícia.

Infelizmente hoje já perdemos muito dos nossos rituais e dos nossos símbolos, pois esses fatos são as raízes da nossa história. Não adianta sair na avenida muito bem vestido, batendo no peito, dizendo que traz a escola no coração e não saber os fundamentos básicos da história que norteia toda essa apresentação na avenida.

Costumamos dizer que estamos sempre aprendendo. Essa ida à Porto Alegre para dar uma palestra sobre enredo, me despertou a importância da história dos Estandartes.

Acabei aprendendo o que o estandarte representa para a comunidade, não só para as escolas de samba, como também para todos os gaúchos. Ao mesmo tempo pude ter consciência de como está afastada dos sambistas paulistas a importância do estandarte, que na realidade, deveria ser até mais reverenciado do que o próprio pavilhão, pois ele foi o começo da apresentação do samba paulista.

Pois é, vivendo e aprendendo...

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04/08/2014 02h30

Livro 'Quem é quem no samba paulista' será lançado na próxima quarta-feira
Maria Apparecida Urbano

Terminada a fase em que as atenções do grande público, de um modo geral, se concetraram na Copa do Mundo de Futebol, ficamos com o gosto amargo da derrota, afinal, foi um sonho que ficou para trás.

Quem é quem no samba paulista. Foto: Divulgação

Mas retornemos às nossas vidas diárias como brasileiros, sempre de cabeça erguida. Agora é pensar realmente no que é importante.

Como o samba não pode parar, todas as escolas estão em plena atividade, algumas até com o samba-enredo já escolhido.

Dentro desse clima, estou também muito feliz por poder mostrar mais um trabalho em prol do samba. Estarei lançando no próximo dia 6 de agosto, na Assembleia Legislativa, na sala Franco Montoro, às 19h, o livro "Quem é quem no samba paulista", uma breve biografia dos sambistas que fizeram e fazem história em nossa cidade.

A intenção desse livro foi trazer ao conhecimento dos jovens sambistas e pesquisadores os nomes daqueles que souberam honrar e fizeram crescer o samba paulista, aqueles que enfrentaram, com muitas lutas, humilhações e preconceitos, a sociedade da época, que hoje se vangloria por pertencer as escolas de Samba.

Foram feitas 81 entrevistas e pesquisas com sambistas, alguns dos quais já não estão entre nós, e outros que aqui estão sendo testemunhas dos dados históricos do nosso samba. Todos eles são merecedores do nosso respeito e admiração pelos relatos espontâneos de suas vidas. Levar os nomes desses sambistas ao conhecimento público é de muita importância, pois temos pouquíssimas informações de trabalhos de pesquisas sobre eles.

Tenho consciência de que muitos sambistas de imenso valor com suas histórias de vida da época quando tudo começou, que deveriam constar também dessas páginas, deixaram de ser registrados. Mas, como nem tudo é como queremos e sim como nos é estabelecido, todos eles ficarão para um próximo livro que os sambistas mais novos irão escrever.

Maria Apparecida Urbano e Sidney Rezende. Foto: Walber SilvaSei que foi o início de um grande trabalho de pesquisa que deverá ter continuidade, sob o prisma de outros olhares e de outros segmentos.

A publicação deste livro deve-se, em primeiro lugar, ao Concurso de Apoio a projetos de promoção da Cultura Popular e Tradicional no Estado de São Paulo promovido pela ProArc, do qual concorri e ganhei.

Em segundo lugar, deve-se a venda de uma obra de arte do meu filho, logo após seu falecimento, que muito favoreceu a primorosa confecção do livro, valorizando todos os sambistas documentados.

Espero contar com a presença de todos os amigos, sambistas ou não, e dos participantes do livro e familiares, no próximo dia 6 de agosto na Assembleia Legislativa. A entrada é franca.

Até lá...


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21/07/2014 01h19

José Luiz de Oliveira, o Zelão
Maria Apparecida Urbano

José Luiz de Oliveira, o Zelão, começou sua trajetória de sambista ainda criança, brincando nas escolas de samba, sendo um dos mais antigos conhecedores do Carnaval de São Paulo nas últimas cinco décadas, desde a avenida São João, passando pela Tiradentes até a construção do Sambódromo.

Zelão. Foto: Divulgação

Pertencia ao Camisa Verde e Branco, onde foi diretor de harmonia na época de ouro da agremiação, tendo conquistado vários títulos e feito muitas inovações, melhorando o desempenho da escola.

O Carnaval exige também muita engenharia para a montagem dos desfiles. Esse trabalho, em grande parte, era realizado pelo engenheiro Zelão, que devido a sua capacidade, chegou a ser diretor de infra estrutura da Liga das Escolas de Samba.

Era dono de várias manias curiosas, entre elas, não passar em catracas. Também era avesso ao uso de camisetas e crachás de identificação, dizia "eu só visto camisa, mas não a uso" e assim circulava pelo sambódromo nos desfiles. Utilizava muitas tiradas e jargões próprios, como chamar certos carros alegóricos de carros cenográficos, o que na realidade pode-se classificar de muito certo.

Sambódromo do Anhembi. Foto: Ilustração

Profundo conhecedor de toda estrutura e dos bastidores, tinha o sambódromo mapeado na cabeça e o conhecia como a palma da sua mão. Era dedicado à causa de todos os pavilhões e trabalhava nos bastidores com afinco para tudo dar certo.

Zelão nos deixou no dia 21 de novembro de 2012, ficando o seu legado de amor e dedicação ao Carnaval. Foi um excelente sambista, um grande amigo, que vai ficar na memória de todas as agremiações nos desfiles no Sambódromo.

Se o Carnaval paulistano chegou a essa magnitude, uma boa parcela se deve ao empenho do engenheiro Zelão.

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20/05/2014 00h10

A escolha de um bom enredo
Maria Apparecida Urbano

É muito interessante analisarmos o procedimento das escolas de samba a cada ano. Logo após o Carnaval, encontramos todas com o gosto de missão cumprida com a suas comunidades, algumas felizes com a sua colocação, outras nem tanto, e ainda outras muito tristes pela classificação.

Descrição de Enredo. Foto: DivulgaçãoComo tudo já passou, continuamos vendo o comportamento de todas nesses últimos meses. Há uma renovação espantosa, cheia de esperanças, sem a preocupação com o que passou, deixando tudo no passado e, com pleno vapor, vão se renovando. Dá a impressão de que foi injetado em todas elas sangue novo e que a vontade e a ansiedade brilham nos olhos dos dirigentes à procura de um melhor enredo para a sua comunidade.

Com esse comportamento de renovação as agremiações a cada ano dão um grande exemplo para todos os brasileiros, que, quando alguma coisa vai mal, se lamentam durante meses. Elas não. Espelhando-se na vida das águias, se levantam, se renovam e seguem em frente com otimismo.

É aí que surge o principal. O enredo. Aquele que motiva e vai dirigir a escola durante o ano. É quando se deve prestar muito a atenção, pois é dessa escolha, e desse novo enredo, que a escola vai depender para construir sua jornada e se dar bem no próximo Carnaval.

O enredo é a peça mais importante para que tudo dê certo. É por um bom tema que se inicia o trabalho, a luta, empenho e vibração de toda comunidade.

Nos últimos Carnavais, notamos que a maioria das escolas ficam presas a determinados enredos por causa de patrocínio. Isso é bom em alguns aspectos.

A escola ter um patrocinador ou apoiador lhe proporciona a oportunidade de trabalhar sem muita preocupação. Para o carnavalesco isso é ótimo, pois ele pode criar sem o risco de sua criação não poder ser executada. Mas tem um porém. Muitas vezes o tema patrocinado é de difícil entendimento para a própria comunidade.

Livro aberto. Foto: DivulgaçãoUma comunidade acostumada com enredos afros passando a desfilar com tema histórico, narrando episódios de outros países ou políticos não tão conhecidos pode encontrar dificuldades pois a comunidade pode não aceitar e o desempenho da escola pode ser comprometido durante o desfile.
    
Também há enredos muito interessantes e que dão verdadeiras aulas de cultura para o publico. E isso abrange diversas categorias. Dependendo da aceitação da comunidade e o bom desenvolvimento do carnavalesco, acontecem enredos muito bem estruturados e lindos para o público, tornando-se muitas vezes trunfos de desfiles campeões.

A escolha de um bom enredo é o carro chefe para que a escola de samba se renove, cresça e faça também com que o Carnaval de São Paulo se torne cada vez mais competitivo.

Mais uma coisa curiosa. Nem sempre o enredo é do carnavalesco. Mmuitas vezes pertence a pessoas da comunidade, terceiros ou então a grandes admiradores do Carnaval.

O que chama a atenção é que nunca é colocado o nome do enredista nas chamadas das escolas de samba. Isso chama a atenção pois o enredo é o ponto principal de um processo que só será finalizado no dia de sua apresentação.


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11/04/2014 00h37

E foi assim...
Maria Apparecida Urbano

Assim terminou mais um Carnaval que ficou na história da cidade de São Paulo.

Carnaval SP 2014. Foto: Claudio Lira

Luzes, fantasias, brilhos, ilusão...tudo foi ficando para trás, envolto em saudades, lembranças, aplausos mas também decepções.

Pensamos como tudo passou tão depressa. Foi um ano de trabalho, de muita luta e de muitas expectativas para todas as escolas, desde as do Grupo Especial da Liga até as dos Grupos da Uesp.

Entendemos, porém, que foi um Carnaval transcorrido com muita paz, mesmo debaixo da chuva de granizo, o que não tirou o brilho dos desfiles nem por um momento. Tivemos a oportunidade de avaliar a garra de cada comunidade. Foi um belo exemplo de amor e fidelidade aos pavilhões. Portanto, devemos parabenizar todos os sambistas que participaram dos desfiles de 2014.

Podemos também dizer que realmente as agremiações se superaram este ano, em beleza, comunicação e organização. Não só as campeãs, mas todas elas procuraram se sobressair em relação ao desfile de 2013. Temos a impressão de que os ensaios técnicosrealizados no sambódromo valeram muito para que toda essa organização se concretizasse.

Mas, na qualidade de comentarista sempre muito interessada no sucesso dos festejos carnavalescos, procuramos fazer uma análise construtiva, expondo nossa opinião sobre as mudanças que observamos durante a montagem dos desfiles.

Entendemos que, para quem assiste aos desfiles, a presença do presidente da Escola na abertura do desfile deveria ser obrigatória. O público deve tomar conhecimento de quem é o presidente, já que não temos mais a comissão de frente que era representada pelos diretores da entidade. Assim como um diretor de teatro ou de novelas é sempre apresentado ao público, é muito importante que todos também conheçam quem é o dirigente da nação que vai se apresentar.

Carnaval SP 2014. Foto: Claudio LiraTambém sentimos muito a falta da ala das baianas, que sempre foi uma presença obrigatória e histórica. Foram pouquíssimas Escolas que apresentaram as baianas com trajes que lembram as tradições. A ala que hoje se diz "Ala das Baianas" não passa de senhoras com saias volumosas e "empetecadas", e de costeiros e chapéus grandes demais para o tamanho dessas mulheres.

Não criticamos as escolas, por terem crescido o visual, o que deu certo charme aos desfiles, mas, essas alas então poderiam ter outra denominação, como, por exemplo, Ala das Mães do Samba; até que seria interessante. Porém, que as escolas, durante os desfiles, trouxessem também uma ala ainda que menor, mas com os trajes típicos das tradicionais baianas, com saias rodadas, pano da costa, turbante e balangandãs, para que a tradição e respeito a essas senhoras permanecessem como exemplo para os mais jovens.

As alas que vemos agora em nada lembram as baianas que foram tradição nos Carnavais de outrora, tendo sido impostas, na época, como alas obrigatórias e não julgadas. Tudo muda e evolui, mas a história é raiz e não pode mudar.

Terminados os desfiles, foi a hora das premiações da Liga, logo após o resultado oficial das notas dadas pelos jurados, cobertas de emoção, transmitidas pela televisão. Em seguida, o Troféu Nota 10 ofertado pelo jornal Diário de São Paulo, e por último o "Prêmio SRZD-Carnaval/SP", realizado por Sidney Rezende e sua equipe, entregue durante uma grande recepção.

Assim deixamos para trás mais um grandioso Carnaval, onde todos os sambistas, dentro de suas comunidades, trabalharam intensamente, numa dedicação sem igual, tanto a diretoria quanto o carnavalesco, os chefes de alas, a harmonia, o mestre de bateria, a bateria, o mestre-sala e porta-bandeira, o chefe de ala, os compositores, o intérprete, enfim, todos unidos
fizeram o grande espetáculo que tivemos a oportunidade de presenciar.

E assim se foi...

Agora é pensar no próximo.

Primeiro os acertos: a troca de diretores, de presidente, os contratos com os carnavalescos, a afirmação com os mestres de bateria, e depois é "mão na massa".

Vamos procurar escolher mais um enredo que será o ponto chave de todo o processo de trabalho.

Boa Sorte para todos!



14/02/2014 12h44

Vídeo: vem aí o livro "Quem é quem no samba paulista"
Maria Apparecida Urbano



29/01/2014 00h05

Uma nação sem registro do seu passado tem seu futuro incerto
Maria Apparecida Urbano

Livro. Foto: Divulgação

Há muitos anos venho insistindo com as escolas de samba de São Paulo, para que se organizem, criando seus departamentos culturais com o intuito de resgatar as memórias de suas entidades, desde sua ata de fundação, que é na verdade o início de tudo, aos primeiros enredos e sambas, compondo uma documentação preciosa dos longos anos de existência.

É importante memorizar todas as pessoas que deram vida e continuidade a essas entidades, documentando, por meio de fotos, revistas, jornais e discos, as pessoas que se destacaram, seja ocupando cargos importantes, seja simplesmente ajudando com seus trabalhos, pelo que se  tornaram queridos por todos.

São bem poucas as escolas que se interessam por essa preservação cultural, que na realidade é uma tarefa muito trabalhosa, e como sempre não dá lucro. Então, logo torna-se esquecida ou adiada para se pensar futuramente.

É comum dizer que São Paulo costuma copiar muitas coisas que o Rio faz, não é mesmo? Pois é, vamos ver se dessa vez esse dito popular vai valer a pena.

Na revista Ensaio Geral, informativo Oficial da LIESA, nº 31, encontrei o seguinte artigo:

"Publicações da LIESA vão para a Biblioteca Nacional", onde se lê:

"Parte da memória do samba carioca, registrada em publicações da LIESA, agora está integrada ao acervo da Fundação Biblioteca Nacional. Coleções dos informativos Ensaio Geral, Liesa News e Cante Com a Gente; e outras de Regulamento do Desfile, Manual do Julgador, Livros de Enredos e Abre-Alas; além de folders dos espetáculos realizados na Cidade do Samba e CDs de sambas-enredo do Grupo Especial foram entregues no mês de outubro à FBN. Em breve, esse material estará à disposição  de pesquisadores e estudiosos - que também podem consultá-los no Centro de Memória do Carnaval LIESA, na Av. Rio Branco nº 4, 2º andar."

Que grande exemplo a Cidade Maravilhosa nos dá, cultuando as memórias do samba, de uma forma que quem se interessar pelo assunto, seja sambista ou não, pode consultar e assim ficar a par do que são as verdadeiras histórias de cada escola de samba.

Livro. Foto: DivulgaçãoAqui em São Paulo, são bem poucas as agremiações que têm sua documentação em dia, que dirá as suas histórias.

Muitos dos dirigentes atuais nem se lembram do nome dos fundadores das suas entidades; por outro lado a LIGA também bem pouco material em seus arquivos.

Nunca foi pensado com firmeza na organização de um grande arquivo, pois geralmente as próprias escolas não colaboram.

Está mais do que na hora de nos reunirmos, seja em congresso ou simpósio, para que todos os sambistas, juntos, possam prestar mais a atenção à história do samba paulista.

Uma nação sem registro do seu passado tem seu futuro muito incerto. Passado temos; hoje, porém, vivemos incertezas sobre o ele. Podemos, entretanto, construir um belíssimo futuro.

O que precisamos é ter força de vontade para documentá-lo.

No momento sabemos que ninguém quer saber de história, porque estamos em véspera de carnaval.

E depois do Carnaval?

Será que a Copa do Mundo é mais importante?

E depois?

Se não nos unirmos com absoluta vontade de realizar esse trabalho, nunca São Paulo poderá ter e contar as suas histórias vividas nesses longos anos, que foram tão difíceis para todos os sambistas.

Parabenizo a LIESA pela sua iniciativa, e também a Fundação Biblioteca Nacional, pela grande oportunidade de aceitar esse acervo e preservá-lo como Memória da Cultura Sambística.  



23/12/2013 01h16

Estamos chegando ao fim do ano...
Maria Apparecida Urbano

Enfeite natal. Foto: Divulgação

Pois é, o ano está terminando e o Natal chegando: é tempo de reflexão sobre todos os acontecimentos que passaram por nós durante o ano de 2013.

Muitas coisas boas aconteceram em nossas vidas, e no meio em que vivemos, mas também tivemos momentos que nos fizeram sofrer, nos angustiaram e ficaram marcados em nossos caminhos.

Todos esses momentos também se passaram no meio do samba. Perdemos alguns sambistas, que ficaram somente na lembrança dos amigos de suas comunidades.

Lamentável foi o grande incêndio que destruiu a parte mais importante do escritório da Mocidade Alegre. Também lembramos a tristeza dos compositores concorrentes, que não chegaram até a final dos concursos de escolhas de samba-enredo.

No entanto, podemos analisar, por outro lado, que muitas coisas boas aconteceram. Uma delas é ver o amigo Raul Machado e o SRZD com diversas novidades para os sambistas, algo muito bom, pois as matérias estão cada vez mais vistas. Também é o único meio de comunicação durante o ano todo sobre Carnaval. Devo dar os parabéns a ele e a toda a sua fiel equipe.

Assim como Raul Machado, que é um batalhador do samba paulista pela internet, vamos encontrar as vozes incansáveis de Moisés da Rocha e Evaristo de Carvalho, que nos deliciam com os seus programas de rádio, e o jornal "QG do Samba", do sambista Américo Garcia, que há muitos anos o distribui gratuitamente pelo mundo do samba, vencendo muitas dificuldades, para levar as notícias, não só de São Paulo como de outros estados.

A todos esses comunicadores desejamos os mais sinceros votos de um feliz natal e um ano novo com muitas esperanças de dias melhores.

A todas as entidades que dirigem o samba em nossa cidade, desejamos que sejam iluminadas para prosseguir a sua caminhada no ano que vai se iniciar, sempre na procura da valorização da nossa cultura, não deixando que a evolução e a renovação os afastem das raízes deixadas pelos nossos antepassados.

Que todas as escolas de samba, tanto as grandes como as iniciantes, procurem crescer em conhecimento sobre a história que deu inicio a todas as comunidades.

Que os jovens sambistas procurem saber como foi o começo de suas entidades, como são os costumes, os rituais e os procedimentos que eles veem e assistem dentro de suas escolas. Somente com esse conhecimento é que se pode ter no coração o amor pelo seu pavilhão.

Para o próximo ano desejamos que todos os dirigentes em geral tenham consciência de que realmente é uma grande luta manter acesa a luz da cultura sambística, mas que vale muito a pena, pois sem história ninguém consegue manter seus impérios. Para tanto, que no próximo ano tenhamos muitos encontros, seminários, simpósios e por que não, um grande congresso.

Também esperamos para o próximo ano lançar mais um livro em prol do samba de São Paulo, resgatando memórias dos antigos sambistas que muito fizeram para que o samba chegasse onde está agora.

O livro terá o título "Quem é Quem no Samba Paulista", onde levantaremos memórias de oitenta sambistas. Será um início para que outros pesquisadores dêem continuidade, pois ainda existem, em nosso meio, muitos sambistas do passado, que infelizmente não pudemos entrevistar.

Desejamos a todo mundo do samba um feliz e abençoado natal, e que 2014 traga muitas novidades boas, muitas esperanças de um mundo melhor, e que cada vez mais haja uma grande união entre todos os sambistas.

Boas Festas!

Feliz Natal!

Feliz Ano Novo !

Maria Apparecida Urbano



14/10/2013 01h03

Ala das baianas ganha dia oficial no calendário do Estado de São Paulo
Maria Apparecida Urbano

Ala das baianas. Foto: DivulgaçãoLEI Nº 15.148, DE 2 DE OUTUBRO DE 2013
(Projeto de lei nº 66/13, da Deputada Leci Brandão - PC do B)

Institui o "Dia Estadual das Tias Baianas das Escolas de Samba de São Paulo"

O GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO:

Faço saber que a Assembléia Legislativa decreta e eu promulgo a seguinte lei:

Artigo 1º - Fica instituído o "Dia Estadual das Tias Baianas das Escolas de Samba de São Paulo", a ser comemorado, anualmente, em 25 de novembro, passando essa data a integrar o Calendário Oficial do Estado.

Artigo 2º - Esta lei entra em vigor na data da sua publicação.

Palácio dos Bandeirantes, 2 de outubro de 2013.

GERALDO ALCKMIN

Marcelo Mattos Araújo
Secretário da Cultura

Edson Aparecido dos Santos
Secretário-Chefe da Casa Civil

Publicada na Assessoria Técnico-Legislativo, aos 2 de outubro de 2013.

Para nós que somos defensores dessas mulheres "Mães do Samba", nossas "Tias Baianas", foi uma grande vitória, uma glória.

Parabéns Jadir Xavier pelo esforço, que não foi em vão. Está aí a recompensa.

Parabéns Deputada Leci Brandão pela sua atitude; a cultura do samba agradece por esse feito.

Parabéns ao Grupo das Baianas Paulistas, que há anos vem lutando para que o Grupo seja reconhecido.

Ala das baianas. Foto: Divulgação

Parabéns a todas as mulheres de todas as Escolas de Samba, que, no Carnaval, dão o grande brilho para as suas Escolas na passarela do Samba, vestidas com suas saias rodadas representando as baianas, fazendo parte da nossa cultura do Samba e relembrando as mulheres negras vindas da África, paramentadas com roupas coloridas.

Parabéns a todas Tias Baianas que trabalham arduamente nas quadras, dando sempre o melhor de si no que fazem, quer nas grandes feijoadas, quer nas recepções com seus salgadinhos e bolos, quer ainda na ajuda à costura das fantasias e ajuda nos barracões.

São elas as guardiãs das Escolas. Geralmente começam a frequentar as rodas de samba ainda crianças ou muito jovens; aprendem a ter amor e respeito ao pavilhão e a sua Escola.

Ala das baianas. Foto: Divulgação

O tempo passa, vêm o casamento e os filhos, e são elas que encaminham essas crianças para a quadra, ensinando o que também aprenderam com seus antepassados.

Sempre os acompanhando com o olhar sereno, veem os filhos crescerem e se tornarem pessoas dignas e respeitadas dentro das Escolas para as quais se dedicam até hoje. E já com mais idade, passam a ala das baianas.

Nas minhas entrevistas com essas mulheres maravilhosas, com suas histórias de vida, senti a emoção de muitas quando diziam que os filhos eram compositores, eram da bateria, e até mesmo o orgulho em dizer que os filhos faziam parte das Diretorias de suas Escolas.

Portanto, e pela sua dedicação e seu comportamento, e por tudo que representam na nossa cultura, são elas merecedoras desse dia 25 de novembro, Dia Estadual das Tias Baianas, as "Mães do Samba" das Escolas de Samba de São Paulo.

Ala das baianas. Foto: Divulgação

É uma grande vitória, mas creio eu que poderá ainda, no futuro, ser maior: o dia em que for oficialmente reconhecida essa data em todo território brasileiro, porque Tias Baianas nós temos em todos os Estados, e todas deveriam ser homenageadas.

Por meio desse Projeto, galgamos mais um degrau, na conquista do crescimento da nossa cultura sambística.

Maria Apparecida Urbano



20/08/2013 13h58

Eterna pergunta: como era?
Maria Apparecida Urbano

Ampulheta. Foto: DiuvlgaçãoHá um interesse muito grande dos mais jovens em querer saber como eram as escolas de samba paulistanas nos anos 70 e 80. É uma pergunta até mesmo normal, pois praticamente não temos históricos fáceis e disponíveis para que possam ser pesquisados.

Existem, sim, alguns grupos que trabalham no resgate da história do samba, porém, praticamente sem condições ou espaços apropriados para que esses trabalhos sejam colocados à disposição dos interessados poderem ver e consultar.

Hoje é praticamente impossível achar os jornais e as revistas da época para se localizar algum detalhe que nos é importante. Temos que nos limitar a bibliotecas e centros culturais. Mesmo assim não é fácil.

O que nos resta é ouvirmos dos antigos sambistas narrações sobre o que se passava em suas escolas nos anos dourados do samba paulista.

Existem muitas informações para serem levadas ao conhecimento de quem pesquisa. São detalhes, usos de materiais, acabamentos. É muito vago falar ou escrever. Para se conhecer, é importante demonstrar.

Damos aqui um exemplo: os carros alegóricos eram construídos inteiramente de madeira. A sua base ou o seu monobloco era feito de caibro de madeira usado em construção. Eram alegoriass muito pesadas e eram usadas rodas de rolimã para poderem deslizar.

Será que dá para entender que hoje as armações e estrutura interna dos carros são feitas de ferro, montadas por serralheiros, e transportados com rodas de pneus?

Será que dá para entender que na decoração dos carros se usavam capim tingido, bambu, pratinhos de festa, copinhos de café, embalagem de marmitex, embalagens usadas do avesso e pó de serragem, entre outros materiais?

Será que dá para entender que as fantasias eram feitas de cetim ou de chita, enfeitadas com ráfia, recortes de plástico colados e com acabamentos de brocal? Será que dá para entender que as fantasias de um ano para outro eram reformadas, que os costeiros eram feitos com tubos de conduítes e vergalhões de ferro usados em construções?

Máquina de escrever. Foto: DivulgaçãoPesquisa é um trabalho muito gratificante. Podemos afirmar isso com certeza, porque, agora elaborando o livro "Quem é quem no Samba Paulista", quantas histórias estou ouvindo de diversos sambistas entrevistados.

São relatos não só da vida de cada um, como dos procedimentos interiores de cada escola, da vivência da escola, e da ajuda que ela prestou ao bairro.

Com este trabalho percebemos o quanto são importantes esses depoimentos. Sempre dizemos que o que se escreve fica e ninguém apaga. E o livro tem esse poder. Quem quiser consultar a respeito de quem foi determinado sambista, provavelmente vai encontrar resposta nessas páginas.

Podemos dizer que tudo evoluiu. Por exemplo, muitos dos quesitos melhoraram, outros, acompanhando o sistema de evolução, foram perdendo o seu conteúdo histórico natural, entrando em espaços modernos e de constante atualização. O que ontem era natural hoje é ultrapassado. Pouca coisa ficou desse passado.

Mais um exemplo: a Comissão de Frente. No início dos desfiles ou logo após o regulamento de 1968, era um orgulho a escola trazer em sua Comissão o presidente e sua diretoria, cuja função era cumprimentar o publico presente e apresentar a agremiação. Depois passou a ser uma Comissão de Elite. E hoje, é uma Comissão Show.

Outro exemplo: os sambas enredos eram realizados por concurso entre os compositores pertencentes a cada entidade. Para participarem, os compositores teriam que ter elaborado durante o ano um samba exaltação. Geralmente as composições eram feitas por dois ou três compositores. Sem falar que os sambas eram lindos, verdadeiros poemas, e muitos ficaram gravados na memória dos paulistanos.

Há uma diferença muito grande nas composições atuais, das quais participam até dez ou mais compositores em praticamente todas as escolas.

Mas a realidade atual é outra: estamos sempre em evolução, nos modernizando; o que hoje é o "máximo" amanhã já será ultrapassado; as informações são momentâneas, nada fica, tudo evolui. Infelizmente não há mais lugar para o passado.     

É muito gratificante encontrarmos jovens pesquisando, interessados em saber "como era".

Isso demonstra que tudo o que foi realizado deixou marcas que podem ainda contar histórias.

Vamos viver intensamente o presente, curtir os sambas que estão sendo escolhidos pelas escolas, esperando que entre eles vai haver algum que passará a pertencer à galeria dos grandes sambas que marcaram o Carnaval paulistano...

Mas não vamos esquecer o passado.


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24/07/2013 14h18

Os tempos modernos do nosso Carnaval
Maria Apparecida Urnano

Maria Apparecida Urbano. Foto: Liga-SPEm primeiro lugar devemos agradecer aos sambistas que estão acreditando em nosso trabalho, dando os seus depoimentos para o livro "Quem é quem no Samba Paulista". É dessa forma que são conhecidas as verdadeiras histórias do samba paulista. Esperamos contar com mais depoimentos.

Tempos modernos. Hoje estamos vivendo intensamente cada momento, cada segundo e cada dia. Muitas vezes não conseguimos absorver tudo o que se passa em nossa volta. A televisão, a grande dominadora e modificadora dos costumes, da cultura, da moral e da política, enfim, praticamente de tudo em nosso país, hoje concorre com outros tipos de comunicações instantâneas, que nos deixam automaticamente muito mais bem informados.

Entrando na era da computação, há o celular, que já se tornou um companheiro inseparável de todas as idades; a criação da internet e do facebook, onde se fala e também onde se veem imagens de qualquer lugar do mundo. Além disso, há outras tantas formas de comunicação instantânea. Quanto mais rápidos somos, mais mudanças acontecem.

O samba não é exceção. Acompanhamos todas essas mudanças tão rápidas que, quando paramos para pensar se certo assunto está correto, ele já está sendo executado. Ah! tempos modernos!

Todo esse modernismo é bom? Sim, é muito bom. Entretanto vem aí uma pergunta: onde foram parar o respeito e a obediência que eram dados aos regulamentos de todas as escolas de samba e seguidos na mais perfeita harmonia? Por que foram ficando esquecidos? Os presidentes mais novos dizem que precisamos seguir os tempos modernos. Mas o respeito e obediência são coisas do passado?

Acompanhamos, sim, o modernismo, porém há coisas que chegam a nos magoar, quando ouvimos, por exemplo, de um presidente que seu casal de mestre-sala e porta-bandeira são pagos para dar show, e não para ficar dançando, lembrando que, nas mãos desse casal, está o símbolo máximo da sua agremiação: o pavilhão.

Outra aberração, ao nosso ver, é alguém que se diz sambista dizer o porquê dar tanto valor a esse "pedaço de pano", o que interessa é o casal, com quem se gasta muito dinheiro.

Representação Raiz. Foto: DivulgaçãoOuvimos certa vez um presidente comentar não saber por que tanto se fala em "nossa raiz", pois a raiz que ele conhecia era a raiz de árvore, que só cresce para baixo. Na ocasião escrevemos um artigo, afirmando que, se não tivesse raiz, nenhuma árvore se sustentaria em pé, não iria florescer e nem dar frutos.

Se não passarmos as raízes da história do samba paulista aos nossos filhos e netos, como será o futuro? Somente um show, onde qualquer um pode participar, talvez até sendo pago para isso?

Tempos modernos, até aceitamos, mas transformar o casal de mestre-sala e porta-bandeira em artistas, contratados apenas para apresentar shows, é demais. Implantar na bateria instrumentos estranhos à tradição, é modernismo? Será? Já não bastam as roupas e costeiros pesadíssimos usados pelas nossas baianas, senhoras idosas, que, por amor às escolas, suportam essa imposição há tantos anos?

Já que há tanta preocupação com a modernidade, pode-se perguntar então: uma vez que tudo é tão moderno, por que não modernizar os sambas que se mantêm há muitos anos numa mesmice?

De um modo geral, as escolas de samba dizem que são obrigadas a crescer, a ter um número muito grande de componentes para se destacar na televisão e também para o patrocinador, à espera de ver o seu capital muito bem empregado, numa escola grande, luxuosa, com muitos artistas, e dando um magnífico show.

Já que o caso é de beleza, por que não valorizar mais os destaques que geralmente são da casa e que gastam fortunas para embelezar os carros alegóricos. Se eles também fazem parte do grande show, por que nem os seus nomes aparecem nas legendas da televisão?

E pensar que a maioria dos verdadeiros sambistas dessas escolas está em casa assistindo aos desfiles pela TV, ou nas arquibancadas, porque não tem dinheiro suficiente para pagar o alto preço de uma fantasia, muitas vezes custando quase o seu salário.

Quem participa dos desfiles na sua maioria são pessoas, que muitas vezes nunca entraram em uma quadra, mas gostam de Carnaval, e a sua grande vontade e atração é sair em uma escola de samba. Muitos turistas, estrangeiros ou de outros estados, se sentem orgulhosos em dizer que são sambistas porque saem no Carnaval.

Os amigos sambistas compreenderão esse desabafo: é que esses "tempos modernos" nos tiram da nossa meta que é resgatar a história do samba e dos sambistas da capital.

Se hoje só se vive o presente e o que menos tem importância é o passado com suas histórias e vivências, às vezes nos perguntamos por que continuar fazer todo esse trabalho. Por amor ao samba, suas raízes e sua história...


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17/06/2013 12h20

Quem é você no mundo do samba?
Maria Apparecida Urbano

Ilustração deum sambista. Foto: DivulgaçãoDocumentar as memórias dos antigos sambistas, dos que já nos deixaram ou dos que ainda estão entre nós, que vivenciaram o inicio do samba paulista, vem a ser um fato muito importante para a nossa história.

Documentar também as memórias dos seus descendentes, que podem nos relatar fatos dos seus antepassados e as suas vivências culturais herdadas de seus familiares, e o mais importante, o que fizeram ou fazem pelo crescimento do samba. Esse é o nosso objetivo no momento.

No decorrer desses trinta e oito anos vividos no mundo do samba, aprendemos muito, principalmente com os sambistas mais antigos, aqueles que nas décadas de quarenta até sessenta, muito sofreram para valorizar o samba. Foram vítimas de perseguições políticas e policiais e dos preconceitos raciais. Por serem negros e sambistas, eram apontados como malandros, marginais, sem caráter; e as oportunidades de emprego eram mínimas. Apesar de serem tão discriminados, souberam manter o mais importante: o amor pelo samba. A duras penas conseguiram conquistar a sociedade, divulgar a cultura sambística e fazer o samba crescer e chegar no patamar em que se encontra.

Nada mais justo do que resgatar as memórias, tanto daqueles que já se foram e deixaram seus nomes gravados por onde passaram como os que estão ainda entre nós prestando suas colaborações as suas agremiações e seus pavilhões. Portanto são pesquisas importantíssimas para a história do samba paulista e para a construção do próximo livro em elaboração.

Esse livro não vai depender só do nosso trabalho de pesquisa. Vai depender principalmente do depoimento de cada um de vocês. Da colaboração e boa vontade de cada sambista que se propuser a dar seu depoimento, que ficará registrado para a posterioridade.

Arte quem é você e máscara. Foto: DivulgaçãoCada sambista terá no livro uma página de depoimento e uma  foto. Será uma obra de grande valia futuramente, para que seja mostrado, como um documento, às novas gerações, quem foram os sambistas que souberam com dignidade não deixar o samba morrer.

No nosso primeiro livro, em 1987, procuramos esclarecer o que se passa numa escola de samba durante o ano, levando ao conhecimento do público de um modo geral o processo e desenvolvimento de todo trabalho feito nos bastidores das agremiações até a sua apresentação nos desfiles na passarela.

Enfocamos todos os trabalhos de bastidores, quadra, escolha do samba enredo, costura, barracão e carnavalescos, que, naquela época, eram praticamente desconhecidos, pois a mídia não tinha tanto interesse para que fossem divulgados. Relatamos o nosso conhecimento e experiência, vivenciados no dia a dia, como a primeira mulher carnavalesca a dirigir todo esse trabalho na capital paulista.   

Participando da Fesec, como conselheira, pudemos ter contato com diversos sambistas, que, após as reuniões, em conversas informais relembravam fatos curiosos e históricos do samba vividos por eles. Aguçando a curiosidade nos propusemos pesquisar todo esse processo carnavalesco. Num trabalho de anos, fomos levantando as origens e costumes do Carnaval pelo mundo, o surgimento do samba no Brasil, a criação das escolas de samba e suas trilhas até chegar ao século XXI. Assim aconteceu o segundo livro, em 2006.

Entretanto percebíamos que havia muitos sambistas importantes, sem que seus feitos tivessem sido documentados. Fizemos então um novo trabalho para trazer a público esse lado do samba ainda não divulgado. Dentre tantos bons sambistas era difícil enfocar um entre eles: um que fosse profundo conhecedor da história do samba, tivesse convivido com ela, fosse compositor, cantor, músico e tivesse levado o ritmo do samba por todos os estados brasileiros e por diversos países. Assim aconteceu o terceiro livro, em 2004.

Assim como falamos dos sambistas, que tanto fizeram para manter o samba paulista por todos esses anos, também nos lembramos das baianas, das velhas senhoras, das mães do samba, que  muito nos ensinaram ao longo dos anos, desde o tempo da escravidão até os dias atuais, juntamente com histórias das mulheres negras tanto na África como no Brasil. Esse foi o nosso quarto livro, publicado em 2012.   

Máscaras de Carnaval. Foto: DivulgaçãoO convite para participar do novo livro está sendo feito a todos os sambistas com mais de trinta anos de contribuição no mundo do samba para o engrandecimento do samba paulista e que souberam de alguma forma valorizar sua vida, suas famílias e suas escolas.  Seu depoimento para as memórias do samba paulista é, pois, muito importante.

Afinal, esperamos por seu depoimento para a composição do livro "Quem é quem no samba paulista".


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23/05/2013 00h00

Parabéns ao SRZD e Sidney Rezende
Maria Apparecida

Lendo uma reportagem de José Ramos Tinhorão, jornalista, crítico musical, pesquisador da história da música popular brasileira, participante das batucadas cariocas, convivendo com as mais altas personalidades do samba, e autor de vários livros, tomei conhecimento de um artigo seu, publicado na Revista "D.O. Leitura", de outubro de 1991, onde trata do jornalismo no século XVIII e XIX, cuja curiosa atividade era o Carnaval.

Num primeiro histórico feito, o autor se refere a jornais de diversos lugares do Brasil com publicações carnavalescas. Assim, menciona, entre outras, os jornais "O Carnaval" e o "O Eco dos Tagarelas", de Pernambuco, respectivamente de 1855 e 1875, anunciando-se o segundo como um "jornal crítico, literário e carnavalesco"; a publicação "O Fantasma", distribuída no Clube Democrático do Rio de Janeiro; o jornal "Zé Pereira", do Belém do Pará, de 1882; e o jornal "O Rabo", do Cordão da Bola Preta do Rio de Janeiro de 1960.

Nota-se por esse breve relato a grande importância que tem um jornal. Se não fosse por eles, como poderíamos contar histórias do Carnaval, dos desfiles, dos bailes e de todas as manifestações realizadas em épocas passadas? Foram e continuam sendo a melhor maneira de nos inteirarmos de todos os acontecimentos do dia a dia.

Hoje vivemos num mundo moderno e as informações são mais precisas: temos a televisão e a internet nos proporcionando a visão da imagem instantânea. Estamos na era dos computadores e dos celulares, cujas informações são imediatas; dos e-mails, que nos dão mensagens rápidas; do Facebook, uma das maravilhas da atualidade, que nos proporciona mensagens instantâneas e diárias.

Mesmo com todas as modernidades, os jornais e as revistas continuam nos chamando a atenção. No mundo das escolas de samba, o único jornal que está atravessando décadas é o QG do Samba, graças ao grande sambista Américo Garcia, que com muito custo vem mantendo essa publicação.

Mas não são os jornais e revistas que nos chamam a atenção no Carnaval, mas sim a televisão. Porém, nas redes normais de televisão, escola de samba é um assunto para ser mostrado e falado somente na época de Carnaval. Os meios de divulgação do mundo do samba são muito poucos.

Nestes últimos tempos, entretanto, o samba tem sido reconhecido durante o ano todo pelo trabalho dinâmico de uma pessoa digna e responsável, Sidney Rezende. Ele conseguiu implantar em seu portal na internet, um fabuloso jornal, que cobre todos os acontecimentos diários pelo Brasil e pelo mundo. Admirador do samba, cedeu espaço em suas editorias para noticiar o Carnaval do Rio de Janeiro e de São Paulo.

No aniversário do seu sétimo ano de vida, os sambistas comemoram a existência deste fabuloso canal que acompanha tudo o que acontece no mundo do samba, desde ensaios, desfiles, cobertura na avenida e todas as festividades durante o ano inteiro.

Os nossos profundos agradecimentos ao Sidney Rezende e sua equipe pelo trabalho realizado através do SRZD.

Que esse trabalho tão importante perdure por longos anos. Agora, diante desse bolo tão bem decorado com alegria, paz, muito carinho e rodeado por todos nós sambistas, elevemos a voz desejando PARABÉNS E MUITAS FELICIDADES!!!


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