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Férias

Redação SRZD-Carnavalesco | Lula | 11/09/2008 23:29

O colunista está de férias.



Madrugada é hora de dormir

Lula Branco Martins | Lula | 22/08/2008 08:25

Escrevo na madrugada de quinta para sexta. São 15 pras cinco da manhã. Não dormi porque estou vendo olimpíada na televisão. É uma rotina quase desumana trabalhar e ao mesmo tempo acompanhar os jogos. Mas a gente gosta de esporte, gosta de torcer, é isso. E lembro do quê? De carnaval. Porque carnaval, senão veja só, carnaval se dá aqui mesmo, no Brasil, sem fuso nem nada, mas também é uma festa que acontece na madruga.

Será que devia ser desse jeito? Claro, não temos mais desfiles que se encerram ao meio-dia, como andou havendo nos anos 80. Mas mesmo assim, cinco da manhã não deve ser legal pra baiana velhinha, né? Por que tem que começar às nove da noite? Por causa dos direitos da TV? Porque não sete da noite? Sete da noite está escuro já, nenhuma escola sairia prejudicada... Bom, sei lá.

E o que dizer destes cortes de samba? A disputa começa, começa, veja bem, começa!!!, uma e meia da manhã em algumas escolas. O que é isso? Pra que isso? Pro pessoal consumir mais cerveja? É só por isso mesmo? Aí em escolas em que há muitos sambas inscritos a coisa só acaba depois de quatro e meia da matina. Pra que isso, minha gente?

Na madrugada daqui é dia lá em Pequim.

Bom, pelo menos se os chineses assistirem ao nosso desfile na TV um dia, lá estarão eles de olhos bem abertos - até onde conseguirem, claro - pois será bem de tardinha, sol claro no país do bilhão.


Até!



Palestra cheia de bossa

Lula Branco Martins | Lula | 18/08/2008 12:06

Fui a uma palestra sobre bossa nova. Aconteceu quarta passada, na Biblioteca Nacional. À mesa, o historiador Paulo César de Araújo, velho amigo. Ele é autor de "Eu não sou cachorro, não", livro sobre música brega, e também da biografia proibida "Roberto Carlos em detalhes". Ancorando o debate, o professor Vitor Iório, que nos anos 80 me deu as primeiras noções de jornalismo, na PUC.

A palestra corria bem. Paulo César tentava explicar à platéia as três diferentes concepções que a expressão "bossa nova" carrega. Segundo ele, há o movimento bossa nova (um fato datado, vivido na virada dos 50 para os 60 por jovens músicos da Zona Sul carioca); o repertório bossa nova (as canções que, por uma razão ou outra, passaram a compor o roteiro básico daquele período); e a linguagem bossa nova, este sim, o aspecto mais importante segundo Paulo César, que é nada mais nada menos que o estilo musical proposto e definido por João Gilberto, artífice maior da bossa nova, inventor, digamos assim, da moderna música brasileira.

Foi então que, depois de muito falar, Paulo César resolveu provar o que falava. Pôs para rodar CDs. Ia assim> um de bossa velha, em seguida um de bossa nova; um com uma canção à moda antiga, outro com a mesmíssima canção, mas a essa altura já remodelada pelo estilo de João. A platéia, de estudantes na maioria, ficava embasbacada com o que ouvia. As diferenças eram gritantes.

A palestra era de bossa, portanto tinha algo de samba nas suas entranhas, e eu com os meus botões fiquei pensando justamente em carnaval. Mais especificamente, fiquei pensando em samba-enredo. Como seria bom se, em vez de só falarmos, em vez de apenas escrevermos, pudéssemos, como fez o historiador Paulo César de Araújo naquela palestra, provar por a mais bê como os sambas se modificaram. Como as novas gerações entenderiam melhor os nossos apelos... Sonho com o dia em que um palestrante, falando de carnaval, vai mandar soltar um CD com um velho samba, e em seguida um CD com um samba de hoje. E sonho que ele mostre, tim-tim por tim-tim, os detalhes que revelam como duas obras com o mesmo nome, samba-enredo, podem ser tão díspares uma da outra.

E não me venham com essa que é por causa do tempo de desfile que a coisa se descaracterizou. Não é (só) por aí. O buraco é mais embaixo.


Até! Por problemas tecnológicos e internéticos, esta coluna só entrou no ar hoje, segunda, e não na quinta passada. Mas esta semana o "Carnavalesco fresco" volta normalmente, na quinta.



Puxando pela memória

Lula Branco Martins | Lula | 07/08/2008 16:48

Amanhã acabam as minhas férias. Sou professor universitário e sempre inicio cada semestre com a expectativa de ver, à minha frente, dentro das novas turmas, garotos e garotas que gostem de samba e de carnaval. É difícil. Ainda mais porque dou aulas numa faculdade de elite, cara, na Zona Sul. Tenho observado, nos últimos anos, que muitos ali, principalmente as meninas, vêm curtindo mesmo é um funk, bem pancadão, por mais contraditório que isso possa parecer.

Com os que levantam a mão quando pergunto quem gosta de escola de samba, sempre faço um teste nos primeiros dias de aula. Gosto de sacar até onde vai a memória dos aficionados. Vou de ano em ano, em ordem cronológica inversa. Quem ganhou este ano no Grupo Especial? Beija-Flor, respondem. E em 2007? Beija-Flor, respondem. E em 2006? Eles engasgam. A tendência é dizer Beija-Flor, só que não foi. Poucos costumam se lembrar do campeonato latino-americano da Vila. E em 2005? Volta-se à ladainha de Beija-Flor, Beija-Flor, Beija-Flor... até chegar à Mangueira de 2002, do Nordeste e tal. O curioso é que meus alunos até se lembram dos títulos seguidos da Beija, mas só um ou outro consegue acertar o enredo qual foi.

O tri da Imperatriz em 2001, 2000 e 1999 não empolga muito a minha alunada. Eles tinham pouco mais de 10 anos de idade, eram crianças e certamente estavam jogando bola, ouvindo Backstreet Boys ou enjaulados no play de algum condomínio de luxo. Não se ligavam em escola de samba ainda. Do campeonato de 1998 muitos têm ainda alguma imagem na lembrança - por causa da força do símbolo Chico Buarque, homenageado pela Mangueira campeã daquele ano (que dividiu o título com a Beija-Flor). Sempre que tem niteroiense na sala, o auge da Viradouro - 1997 - é citado com orgulho.

Agora, exigir precisão daí para trás é judiar da turma. Mas eu lembro. Já estava envolvido profissionalmente com a festa, como jornalista, e não esqueço da Mocidade de 1996, do bi de Rosa na Imperatriz em 1995/1994, do Ita do Salgueiro em 1993, daí vai. Os anos 80 também tiro de cor, falo rapidinho se me perguntarem. Até os anos 70 eu me garanto. Quer saber 1977? Beija-Flor. E 1972? Império Serrano. Chega a década de 60, quando nasci, e aí a coisa já é meio embolada pra mim. Não consigo responder de primeira todas as campeãs. Tenho que pensar. Claro que existe a lembrança lá no cantinho da memória do Salgueiro de 1969, com a Bahia, e do Monteiro Lobato da Mangueira em 1967. Mas aí vêm os anos anteriores e teve título dividido entre cinco, escola que não existe mais sendo campeã... é... aí começo a depender dos livros, dos jornais, da pesquisa, da memória passada oficialmente.

Faça esse teste você mesmo. É divertido ver até onde nos lembramos. É legal também perceber como nos lembramos, por que nos lembramos, ou seja, o exercício mental que fazemos para que, em algum lugar no cérebro, marquemos um xis em Portela quando nos perguntam sobre 1970 e em Mocidade se o assunto é 1979. É por quê? Por causa dos enredos? São os enredos que vêm à mente primeiro? Ou seria por causa das namoradas que tínhamos em cada ano desses? Tipo: ah, naquele ano eu estava com Fulana e a gente desfilou juntos em 1973 e é por isso que eu lembro que foi a Mangueira que ganhou... Ou é por causa das vezes que vimos os desfiles ao vivo e aí jamais esquecemos? Ou por causa da casa em que morávamos na época?

Lembrar das coisas é uma delícia. Às vezes, chego a crer que a memória é o único bem que, na verdade, temos.


Até!



O copo, o ovo e a minhoquinha

Lula Branco Martins | Lula | 31/07/2008 21:09

A história do copo... Não, esse título é simples demais. Afinal, enredo que é enredo não pode ser assim, tem que ter título grande, muito pomposo e às vezes provocando um certo estranhamento. Vamos tentar este: Copo! Objeto de prazer, sonho de vida, reflexo na luz: a Unidos do Trelelê bebe na borda da alegria. Melhorou um pouco. Agora, os setores. Primeiro setor: o copo indígena; o copo no artesanato marajoara; mitos amazônicos sobre o copo. Segundo setor: os copos trazidos pelo imigrante europeu; a relação do colonizador branco com os copos de luxo; o negro escravo. Terceiro setor: lendas e mistérios sobre o copo; o copo na mesa espírita; o copo da água que é do santo. Quarto setor: o copo cultural; os copos presentes em telas de pintores famosos; músicas com a palavra copo; o copo na tela do cinema. Quinto setor: o copo no dia-a-dia; o que fazer com um copo; cozinha, a moradia do copo. Sexto setor: o copo na indústria; o design avançado dos copos de hoje; a ciência melhorando o copo. Sétimo setor: o copo na ecologia e no espaço sideral; o processo de reciclagem do copo; o copo especial dos astronautas; o copo rumo ao infinito. Pronto. Já é.

A história do ovo... Não, esse título é simples demais. Afinal, enredo que é enredo não pode ser assim, tem que ter título grande, muito pomposo e às vezes provocando um certo estranhamento. Vamos tentar este: A Unidos do Trelelê canta o ovo, mata a cobra e mostra o pau mas... cobra que é cobra come ovo: galinheiro, um apelo à preservação. Melhorou um pouco. Agora, os setores. Primeiro setor: o ovo indígena; o ovo no artesanato marajoara; mitos amazônicos sobre o ovo. Segundo setor: os ovos trazidos pelo imigrante europeu; a relação do colonizador branco com os ovos de galinha caipira; o negro escravo. Terceiro setor: lendas e mistérios sobre o ovo; por que o ovo de boteco é rosa; por que o ovo não fica em pé. Quarto setor: o ovo na cultura; os ovos presentes em telas de pintores famosos; músicas com a palavra ovo; o ovo na tela do cinema; artistas que já levaram ovos na cara. Quinto setor: o ovo no dia-a-dia; o que fazer com um ovo; panela, o destino do ovo. Sexto setor: a indústria do ovo; como são embalados os ovos; a caixinha do ovo de codorna; as promoções nos mercados. Sétimo setor: o ovo ecológico e no espaço sideral; o processo de reciclagem do ovo; o ovo que não agride o meio ambiente; ovo, o melhor alimento para viajantes do espaço; o ovo rumo ao infinito. Pronto. Fechou.


A história da minhoquinha... Não, esse título é simples demais. Afinal, enredo que é enredo não pode ser assim, tem que ter título grande, muito pomposo e às vezes provocando um certo estranhamento. Vamos tentar este: Tem minhoquinha no salão e a Trelelê cai de boca na isca: no mar que é de todos, minhoco eu, minhocamos nós, minhoqueis vós. Melhorou um pouco. Agora, os setores. Primeiro setor: a minhoquinha indígena; o índio pescador e sua minhoca; a minhoquinha no artesanato marajoara; mitos amazônicos sobre a minhoquinha. Segundo setor: as minhoquinhas trazidas pelo imigrante europeu; a relação do colonizador branco com as minhoquinhas especiais para pesca; o negro escravo. Terceiro setor: lendas e mistérios sobre a minhoquinha; a minhoquinha que na lua cheia anda até o mar; a temida minhoquinha de cem patas. Quarto setor: a cultura da minhoquinha; as minhoquinhas presentes em telas de pintores famosos; músicas com a palavra minhoquinha; a minhoquinha na tela do cinema; artistas que já comeram minhoquinha na televisão. Quinto setor: a minhoquinha no dia-a-dia; o que fazer com uma minhoquinha; boca do peixe, a morte da minhoquinha. Sexto setor: a minhoquinha industrializada; a criação de minhoquinhas; a minhoquinha fluorescente. Sétimo setor: a minhoquinha ecológica e no espaço sideral; a minhoquinha ecologicamente correta; as minhoquinhas que foram deixadas no solo lunar; a minhoquinha rumo ao infinito. Pronto. Beleza.


Até!



Do Leme ao carnaval

Lula Branco Martins | Lula | 24/07/2008 15:30

Antes de qualquer coisa, perdão, leitores, pela ausência da coluna na quinta-feira passada. Tive uns probleminhas e não deu para cumprir a agenda. Mas retorno hoje à rotina normal: a cada quinta, uma nova frescura. Essa já é a décima oitava. E a de hoje é a seguinte. Tem a ver com almanaquismos.

Bom, a palavra eu inventei. Mas vocês vão entender já.

Há um mês mais ou menos, quando Jamelão morreu, escrevi sobre velhice aqui na minha coluna. Citei um cara que parece não envelhecer nunca, pois desde quase sempre já carregava uma imagem de senhor: Léo Batista, apresentador da equipe de esportes da Rede Globo. E, agora para falar de uma outra coisa, me valho hoje de outra figura televisiva: Reginaldo Leme.

Reginaldo Leme parece um almanaque ambulante. E isso faz dele um personagem essencial neste que deve ser um árduo trabalho: dar algum sentido àquela coisa chamada transmissão de corrida de Fórmula 1. Não fossem sua memória, seus registros, suas anotações, grande parte daquilo perderia a graça. Vou exagerar a seguir, ok? Mas é pra que me faça entender logo.

Assim: "É a primeira vez que três carros com pneus Michelin fazem o pódio de uma corrida na Ásia". Assim: "Este circuito é o único no mundo que tem mais de 10 curvas em sentido horário." Ou assim: "Nunca um piloto brasileiro, correndo com um carro italiano, fora da Europa, num dia de chuva, havia conseguido, até hoje, chegar na zona de pontuação". Ou mesmo: "Desde 1978, ou seja, há 30 anos, não corriam na mesma prova quatro pilotos franceses em quatro equipes francesas distintas." E, finalmente, e esta agora é real: "Este pódio do GP da Alemanha, com Lewis Hamilton, Piquezinho e Massa, é o de menor média de idade de toda história, com apenas 23 anos e lá vai bolinha e tal, e tal e tal."

Isso consegue, às vezes, dar um certo sabor a algo a princípio modorrento: um esporte que nem parece esporte, um esporte em que nem mesmo conseguimos enxergar o ser humano que está competindo.

Fico pensando como seria um Reginaldo Leme nas transmissões de desfiles das escolas de samba - que, também, cá entre nós, é um evento televisivo complicado de se sustentar, por tantas horas, com o mesmo chamativo para o telespectador médio.

Vamos ver. "Deyse Mocinha é a primeira porta-bandeira canhota, desde Fátima Regina, nos anos 60, que segura o estandarte de forma invertida." Ou então. "Nunca o Império Serrano, desfilando com samba em ré sustenido, conseguiu chegar entre as dez escolas primeiras colocadas." Tem mais essa. "Há 50 anos que uma escola vermelha e branca não apresentava um carro abre-alas verde."  E, no limite do almanaquismo, e até misturando os dois "esportes"... "Só nos anos 80 uma escola tinha conseguido chegar ao setor 3 antes da marca de 5 minutos, 0 segundo e 3 milésimos." Ou "cinco duro", como acrescentaria o cara que faria o Galvão.

Gracinhas à parte, exageros obviamente desconsiderados, o clamor é sério: ou essa transmissão melhora, ou nosso amigo carnaval vai ficar cada vez menos comentado.

Conheço gente que não vê mais pela TV desde que reparou que o analista de bateria elogia todas as baterias; que a repórter de celebridades só pergunta "qual é a emoção" para as tais celebridades; que o locutor lê o que vem no livrinho da Liga e nada acrescenta; e que a comentarista de "olha ali naquela ala a Dona Palmira, filha de Nicéia e de Décio das Docas, isso que é tradição" está ali apenas com a incumbência de dizer "olha ali naquela ala a Dona Palmira, filha de Nicéia e de Décio das Docas, isso é que é tradição".

Estou querendo muito?

Até!



Coluna Carnavalesco Fresco

Lula Branco Martins | Lula | 18/07/2008 20:10

Excepcionalmente, a coluna Carnavalesco Fresco não foi renovada na última quinta. Ela estará de volta na quinta que vem, dia 24 de julho.



Quesitos esquisitos

Lula Branco Martins | Lula | 10/07/2008 18:31

Faço listas desde criança, antes mesmo de entrarem na moda. É uma mania. Hoje há inúmeros livros sobre o assunto, reunindo todo tipo de listagem. Entre 2001 e 2006, assinei, com muito orgulho, na revista dominical do Jornal do Brasil, uma coluna chamada "Listas da Domingo". Elas sempre tinham dez itens. Valia tudo, desde "as 10 músicas mais bonitas de Chico Buarque? até ?os 10 jingles políticos mais marcantes da história?, passando por "10 legumes sem a menor personalidade" e "10 artimanhas dos corretores de imóveis sem escrúpulos".

Muitas vezes o tema guardava alguma relação com o carnaval.

Há algumas semanas, reproduzi aqui, atendendo solicitação de amigos e de velhos leitores de papel, um artigo meu que havia saído no JB, intitulado "A Unidos dos Meus Sonhos". Foi escrito em 2004, por ocasião do estouro da Tijuca de Paulo Barros. Desta vez, também a pedidos, republico uma das minhas listas sobre carnaval. Esta, mais especificamente sobre os quesitos do desfile. Ao relê-la, percebi que ainda me divirto com ela. Tomara que vocês também. Foi escrita e publicada na Revista Domingo, do JB, em fevereiro de 2002.

O título era assim: 10 quesitos que deixariam o julgamento das escolas de samba um pouco mais divertido.

O subtítulo era esse: além de harmonia, conjunto e evolução, que tal pedir ao júri para analisar itens mais palpitantes?

E eis, abaixo, a tal lista, devidamente numerada.

1 - Quesito Educação dos Diretores: o quesito premiaria a escola cujos diretores não empurrassem componentes, nem gritassem com baiana velhinha. O estresse na Apoteose quase sempre é desnecessário, mas vai falar isso para diretor bronco? Eles não entendem.
 
2 - Quesito Lixo: a Comlurb recolheria o lixo depois da passagem de cada escola e botaria tudo em sacos com a cor da agremiação. O mais leve ganharia pontos. Pois fantasia bem feita não despedaça.
 
3 - Quesito Discurso na Armação: a qualidade do grito de guerra que o puxador faz para animar o Setor 1 deveria contar pontos. Mas chamar o patrono de "meu presidente", por exemplo, mereceria perda de alguns décimos.
 
4 - Quesito Brindes para a Arquibancada: as boas escolas distribuem bandeirinhas para a galera das arquibancadas. É bonito e respeitoso.
 
5 - Quesito Fogos de Artifício: hoje é a mesma empresa que faz tudo. Fica pasteurizado. Daria-se bem a escola que preparasse um belo foguetório, mas sem barulho demais, que é para não atrapalhar o samba.
 
6 - Quesito Alegria de Empurrador: a animação de quem empurra alegorias tinha que valer pontos. Isso sem falar na beleza. Houve um ano em que a Mangueira, por exemplo, só botou beldades na função.

7 - Quesito Excesso de Índio: é vício de carnavalesco e deveria ser punido, tal qual uma obrigatoriedade ao contrário. Mesmo aparentemente fora do enredo, nossos indígenas sempre marcam presença, não se sabe o motivo. O enredo é a história do copo? Ah, então a primeira ala é "o copo na arte indígena". Chega! Menos dois décimos!
 
8 - Quesito Samba do Esquenta: o quesito avaliaria aquele samba antigo da escola, geralmente usado para aquecer a bateria na armação.
 
9 - Quesito Frase Inteligente: valorizaria o componente que, logo após o desfile, falasse algo melhor que "foi uma grande emoção". A imprensa faria um levantamento e repassaria aos julgadores. Talvez não desse certo. Jornalista adora inventar uma frase...
 
10 - Quesito Página na Internet: e, se no fim da apuração ficassem duas escolas iguais em tudo, que tal um desempate para o site mais bem feitinho?
 
Recordar é viver.

Até!



Sobre a inveja

Lula Branco Martins | Lula | 03/07/2008 19:53

Sou carnavalesco fresco, e até certo ponto invejoso. Sabe aquela inveja que faz a gente querer melhorar, mas sem destruir o objeto da inveja? Pois é, essa aí.

A Band transmitiu Parintins.

Não, eu não queria estar no lugar do Milton Cunha. Não queria ser ele comentando, no ar-condicionado, ao lado do enjoadamente ufanista José Luiz Datena, comendo de graça e assistindo ao espetáculo bem de frente, recebendo imagens de dez câmeras diferentes, dez ângulos distintos, e com toda aquela mordomia. A inveja não é essa.

A inveja também não é das alegorias da festa de lá. Aqueles bichos mexem, sim, mas não vejo tanta graça nisso. Maior esforço do mundo, um monte de operário lá dentro da coisa, e o resultado? Um boneco de onça que fica se parecendo não com uma onça, mas com um boneco de onça. Prefiro as nossas alegorias. Claro, quando as nossas alegorias são criativas.

A inveja tampouco é da música. As toadas são muito bonitas e, para um sujeito do Sudeste, como eu, soam diferentes. É uma batida que não existe por aqui. As melodias, contudo, se tornam, com o passar da noite, repetecos sonoros. E as letras se esforçam para roçar na poesia, mas por vezes escorregam no piegas. O nosso combalido samba-enredo tem mais vibração. Óbvio que tudo isso é relativo, e tem a ver com o ouvido de quem está analisando o tema. Alguém amazônico certamente não veria diferenças relevantes de estilo de samba de uma Imperatriz para o de uma Beija-Flor, de uma Tijuca para uma Mangueira. Mas tem, né... Ainda tem.

Se eu invejo as mulheres de lá? Olha, aqui tem mais mulher. A abundância é maior, e no Rio todo mundo fica mais pelado, né? Mas as de lá me parecem, olhando cá de longe, pela tela, tão mais verdadeiras... Índias de cabelão, aquele sorriso onde cabem 32 dentes, e todas elas cantando! Cantando! Que diferença de umas rainhas daqui que nem sabem o refrão dos nossos sambas... Taí, fico mesmo um pouco chateado de não ver por aqui as mulheres lindas do carnaval de Parintins.

Mas a inveja mesmo, a grande inveja, é o povo.

O povo. O povo. Aquelas arquibancadas parecem estar vivas. E na verdade as milhares de pessoas, que ali estão, estão. A participação do público em Parintins é algo que não se vê por aqui. Aqui é o contrário. Nossas arquibancadas no Sambódromo só ficam vendo, como diria o outro, a banda passar. Isso sem falar naquele setor de turistas, gringos que pedem autos uma da manhã e vão embora. Fica aquela arquibancada vazia, e um monte de desvalidos lá fora, se babando para entrar.

O carnaval de Parintins, do boi azul contra o outro, vermelho, para muitos é sempre igual e um tanto repetitivo, pois conta as mesmas histórias toda vez. É. Pode até ser. Fica meio dejá-vu. Mas alguma magia existe por lá, magia essa que está faltando por aqui.

Sabe o que acontece? Sabe por que lá tem magia?

É que lá o povo está junto. E por isso é uma festa. Festas são assim.

Aqui, com o povo quieto e sem cantar, e isso talvez aconteça pela decadência dos sambas, a coisa parece ser apenas um desfile, e não uma festa.

Quer desfile mesmo? Gosta de desfile? Acorde cedo no 7 de Setembro. É quando se tem um desfile ao pé da letra. Mas a Sapucaí não deveria ser a avenida de um desfile, e sim o palco de uma festa.

Inveja de Parintins.


Até!



Uma dúvida atroz

Lula Branco Martins | Lula | 26/06/2008 19:06

Fui a uma reunião outro dia. De um grupo de profissionais. Juntos, eles tocam um projeto. Não sou o líder. Longe disso. Sou apenas um dos participantes. Bem. O projeto está crescendo. Existem muitos envolvidos. Há um tempo, fez-se uma festa de comemoração pelos resultados. Foi boa. Já se pensa em outra festa, na próxima. Mas agora ela seria num lugar maior, para mais pessoas. Talvez mil. Aí alguém falou: "O risco é a coisa crescer demais; será um problema se for muita gente. Vai descaracterizar, vamos perder o controle."

Há duas semanas, fiz um texto, aqui, quase tão misterioso quanto este. Falava, nas entrelinhas, mas revelo agora, de uma escola pequena, chamada Delírio da Zona Oeste. Dizia, naquela coluna, que dias atrás havia batido um papo com integrantes da diretoria, e que elas (eram mulheres) insistiam em me provar que "o verdadeiro carnaval está lá no Grupo D, na Intendente".

Escrevi sobre isso, levantei opiniões, questionei a informação e fiz, enfim, digressões. Faltou dizer, naquela coluna, que elas querem mais é subir. Fazem força para serem campeãs. Não vêem a hora de chegar ao C e depois ao B (e, conseqüentemente, à Sapucaí) e já falam até em, quem sabe um dia, pegar um Acesso A, projeto maior para os primeiros anos da década de 10.

Ué? Então o que isso quer dizer? Que querem mais é deixar para trás o "verdadeiro carnaval"? Que se renderam? Não. Quer dizer que querem crescer e, uma vez a escola crescida, quem sabe levar consigo, dentro do espírito de cada componente, o "verdadeiro carnaval", para onde quer que se vá.

Pensei nisso naquela reunião da semana passada. Uma empresa, ou um grupo, ou um órgão, ou um clube, ou uma associação, mesmo uma família, o que seja, mal ou bem acaba passando sempre pela fase da dúvida atroz: crescer demais e acabar se descaracterizando; ou manter raízes e uma certa humildade em detrimento da notoriedade, da fama, da expansão?

Não sei. Não tem certo e errado nessa. Mas reflito muito sobre a questão.

Será que um dia alguém do Salgueiro pensou: "Estamos explodindo, é melhor segurar a onda". Será que alguém em Nilópolis anda questionando: "Quase 50 alas não é demais, não?" Sei lá.

Como diria um amigo: é uma dúvida atroz, que não sai de nós.


Até



Velhos

Lula Branco Martins | Lula | 19/06/2008 15:39

Léo Batista, locutor do esporte global, aquele da "voz marcante", sempre me pareceu velho. Ele já era velho no meu tempo de garoto. Quando a gente é menino, todos com mais de 40 anos parecem velhos. Hoje eu mesmo tenho mais de 40, e permanece lá o Léo Batista, firme e forte, na tela da TV, lúcido, profissional, bom no que faz. E velho.

Nem parece ter envelhecido, continua com a mesma cara, pois - que estranho - já era velho mesmo quando era novo.

Esta é a impressão. Não a verdade, claro.

Igual a ele, e apenas para ficar no mesmo metiê, o esporte, também Ademir da Guia, o jogador, é outro que sempre me soou velho. Existem muitos mais assim. Lembrei dos dois por causa da morte, no sábado, de uma das figuras mais velhas do carnaval: Jamelão.

Questiono. Jamelão foi adolescente ou fez alguma mágica e conseguiu pular esta fase chata da vida? Será que era bonito aos 25? Tinha mais cabelo quando jovem? Talvez eu nunca saiba disso direito.

Desde os anos 80 acompanho, em reportagens especiais, programas na TV e mesmo na mídia impressa, tributos a Jamelão. E as imagens dele, com exceção daquele típico registro colegial de infância (a foto com a turminha da escola), são sempre as de um Jamelão mais para velho, cantando samba-canção com a voz triste de quem muito já sofreu na vida.

Não, os arquivos não se queimaram. Não, as fotos não estão bloqueadas pela Justiça. Apenas se revela aí um fato: o respeito do mundo artístico não veio de forma rápida para Jamelão. Sua participação em shows de calouros, no rádio ou na TV, não bate com a época de sua tenra juventude. Foi depois. Por isso quase não há imagens desta fase: ele batalhou muito até poder olhar para uma câmera; melhor, batalhou muito até que uma câmera se prestasse a olhar para ele.

Agora vou divagar. Com i mesmo.

O envelhecimento precoce da imagem de Jamelão me parece ter seguido, de certo modo, movimento oposto à construção da imagem que se tem de um outro ídolo da cultura nacional (e, tal e qual o intérprete da Mangueira, de forte presença em nossas camadas mais populares): Roberto Carlos. Este, forçando a barra, parece não querer envelhecer. Parece que desde sempre foi e é jovem, garotão. Aqueles carrões (outro dia mesmo, um deles foi tema de matéria no "Fantástico"), aquela dúvida permanente se é implante, se é cabelo, se é peruca... De uns anos para cá, aquela camisa mamãe-sou-forte, a malhação, as plásticas...

O mais curioso nessa comparação: também de Roberto não se tem imagem da adolescência. Ninguém foi buscar, ou ninguém pôde buscar, fotos que mostrassem o artista antes da fama, que mostrassem a luta de um menino cantor, também, como Jamelão, de origem humilde, apoiado em muletas, tentando ganhar a vida no mundo artístico.

As histórias destes dois grandes ídolos, Jamelão e Roberto, em certos pontos se confundem e mostram que se pode envelhecer de várias maneiras. Não que um seja mais digno que o outro. Não é isso. Os dois, talentosíssimos, não conseguiram o sucesso de forma fácil e rápida, ambos sofreram preconceitos, se agigantaram, viraram ícones, foram importantes para milhões de pessoas. Prefiro, contudo, os velhos velhos; e os moços moços. Tudo é tão mais bonito assim.

E Jamelão era uma beleza.

Até!



Delírio esquizofrênico

Lula Branco Martins | Lula | 12/06/2008 17:50

Delírio existe de verdade e é um cão. Mas é mentira que ele seja esquizofrênico. Não. Ele é apenas manco.

Esquizofrênico, por sua vez, se trata de um adjetivo. E, aqui neste texto, quem será taxado de esquizofrênico é o carnaval, não o cachorro. A união das duas palavras, porém, me soou legal, ficou bacana, e só por isso elas foram juntas para o título.

Daqui a pouco falo mais do Delírio.

E também sobre esquizofrenia.

Tenho 17 anos de jornalismo, 15 deles no JB, um jornal da Zona Sul, como diriam os reducionistas, e até com certa razão. Sendo assim, no tempo em que estive por lá cobrindo os desfiles das escolas de samba, o foco das reportagens se concentrava tão-somente no Grupo Especial. Leia-se elite. Entenda-se glamour. Uma vez ou outra, negociando-se muito com a chefia, nós repórteres conseguíamos emplacar uma pauta sobre o Grupo A, espécie de segunda divisão do carnaval. Acabei um dia sendo promovido a editor, e aí eu negociava comigo mesmo, ficou tudo mais fácil. Mesmo assim, bem sabia que não teria o mínimo sentido encher as páginas do Jornal do Brasil com matérias sobre os grupos B, C, D ou E. Se assim o fizesse, o diretor da Redação, que lá na hierarquia estava acima de mim, certamente iria me cobrar explicações imediatas. Havia de se ter bom senso.

Anos se passaram. Saí oficialmente do dia-a-dia da mídia impressa. Professor universitário, eu estou, portanto, fora do circo. E, de longe, olho o estado das coisas. Constato que apenas os tablóides de 50 centavos às vezes, às vezes, às vezes, abrem suas páginas para o quarteto B-C-D-E. Já os jornalões importantões vão mesmo de Especial. E de A, aqui e ali.

Alguém me disse uma vez, aliás, vários me disseram várias vezes: esqueça o domingo, esqueça a segunda, pois o verdadeiro carnaval desfila é no sábado, nas escolas do A, com mais garra, com menos compromisso, com mais raiz, mais autenticidade, aquela ladainha toda. Acreditei nisso até anteontem.

Pois, por causa do trabalho de anos a fio na Sapucaí, de colete de imprensa no peito e caneta na mão, nunca tive como ir aos desfiles da Intendente Magalhães. Estive lá apenas duas vezes, mas de passagem, rapidamente, sem um olhar profissional mais atento. E eis que nesta semana dividi uma mesa de bar, por horas, com pessoas da diretoria de uma escola pequenininha, dessas que às vezes estão no C, ou no D, até no E, e que chegam, durante meses, a deixar de existir. Sim, fecham as portas. Depois voltam à vida, sabe-se lá como.

Puxa, elas me contaram muitas histórias. Histórias bonitas, de garra, de luta, de entrega total a uma causa. O que no fundo pareciam querer me mostrar? Que o verdadeiro carnaval não está no Grupo Especial. E nem no Grupo A, como eu acreditava até então. O verdadeiro carnaval estaria nos grupos C e D. Pois lá na Intendente se alguém desfila é porque gosta realmente da coisa, e não porque quer aparecer ou porque tem outros objetivos escusos. Pode ser. Mas fico pensando que, se no boteco houvesse alguém de alguma escola do E, ah, logo falaria que estão todos errados, e que o verdadeiríssimo carnaval só se vislumbra no E.

As letrinhas da Aescrj acabam aí, mas a imaginação é algo livre e pode ir além. E, assim, se pensarmos numa situação limite, o privilégio do verdadeiro carnaval seria certamente reivindicado pelo Grupo H, depois pelo Grupo P, até chegarmos ao Grupo Z. Grupo Z, bem entendido, eu, ou você aí, vestido de pirata tocando tamborim sozinho na varanda, desfilando para lá e para cá, sem holofote, sem mídia e sem jurado, mas ainda assim querendo ganhar seja lá o que for, sonhando subir ao Grupo Y.

A honra do monopólio daquilo que seria o verdadeiro carnaval não tem vencedores. Esta luta é vã e esbarra na profissionalização do evento. Profissionalização que parece ser o cerne, e enfim eu chego à palavra, de uma esquizofrenia, de um disparate, de uma falta de nexo. Senão vejamos: qual é o verbo mais atrelado ao conceito de carnaval? É o verbo brincar. Carnaval se brinca. E quem brinca faz farra, algazarra, e cai, e grita, e erra, e zoa, todo esse tipo de atitude que em nada mais é parecido com o que se vê nos desfiles de agora, especialmente na Sapucaí. O carnaval virou uma festa esquizofrênica: é uma brincadeira, mas vale décimos; é alegre, mas tem que ser sério senão a escola cai e o patrocínio acaba; é todo mundo bêbado, mas o diretor de harmonia vai brigar se a as fileiras da ala se desalinharem; é dispersão e contrição ao mesmo tempo; é bem-humorado na ala das bonecas, mas mal-humorado na comissão de frente de movimentos ultramarcados. Para usar o termo da moda na medicina, o carnaval é bipolar.

À mesa, me emocionei ouvindo relatos sobre o esforço do pessoal que dirige a pequena escola. Fantasias feitas de TNT; via-crúcis pelos mercadinhos do bairro para pedir cola, grampo, pano, tudo e qualquer coisa; roupas de segunda mão emprestadas por agremiações vizinhas; dinheiro do próprio bolso para fazer uma alegoria de dez tostões; quadra simples; samba-enredo sem CD; e, compondo perfeitamente a imagem deste quadro de pobreza e dificuldades, um cachorro mascote que manca de uma perna e que se esconde no banheiro quando a bateria começa a tocar, pois fica com medo. Um vira-lata chamado Delírio.

Parabéns a todos os vira-latas do carnaval. A festa até pode estar um tanto esquizofrênica, mas se é carnaval dentro da gente, creio que ainda há solução.


Até!



Do futebol, do carnaval

Lula Branco Martins | Lula | 05/06/2008 19:19

"Brasil está vazio nas tardes de domingo/ olha o sambão, aqui é o país do futebol". Na voz de Simonal, este refrão antigo, que até outro dia fugia da minha memória, mas que voltou, faz também retornar à minha cabeça uma velha dúvida: seríamos o país do futebol (como diz explicitamente a letra) ou o país do carnaval (como diz implicitamente a letra, ao raspar no conceito de carnaval quando fala em "o sambão")?

Não tive como não pensar nisso ontem, dia de glória tricolor, dentro do Maracanã, contra argentinos. Moro perto do estádio e testemunhei, como a canção, um certo esvaziamento das ruas (no caso, não numa tarde de domingo, mas numa noite de quarta) na hora do jogo. Percebi centenas de televisões ligadas. E, depois, após a meia-noite, fatura já liquidada, vi o burburinho dos torcedores felizes.

Somos o país do futebol.

Não somos o país do carnaval.

O futebol nos integra muito mais que o samba. Para, por exemplo, um gaúcho, para a média dos sulistas (não estou aqui falando de exceções, como Uruguaiana), um desfile de escolas de samba não diz muito. Não toca o coração. Do mesmo modo, não deve ser a coisa mais natural, em Curitiba, um churrasco com pagode na tal tarde de domingo cantada em verso.

Quando, em meados do século passado, o país crescia, deixando de lado características rurais e precisando de novos símbolos, o Rio era a capital da República. O samba ? e o carnaval, a reboque ? virou o traço mais forte de nossa cultura muito pela circunstância de o Rio ser a cidade mais poderosa do Brasil nas décadas de 30, 40 e 50. Era politicamente importante, para a Ditadura Vargas principalmente, elevar um som do Rio à categoria de música nacional. Quero dizer que teve, sim, um dedo político nisso tudo. Por que não é a música caipira o símbolo do Brasil? Porque o interior de São Paulo não mandava tanto assim na época. Agora manda, mas na época, não (Chitões e Zezés são coisa de agora, de 20 anos para cá). O samba, o nosso samba, erguido em cantinhos cariocas lá no início do século 20, despontava assim como a marca principal do país, inclusive para reconhecimento no exterior.

Mas aí vieram as copas: 1958, 1962, 1970, 1982 (sim, ela), 1994 e 2002.

E não houve jeito: o Brasil aos poucos foi se tornando o país do futebol.

Vivo numa cidade. Ela tem barulhos e cores. Minha audição e minha visão, só para ficar nestes dois sentidos principais, elas são estimuladas pela urbe.

Sentidos...

Quando a vizinhança grita o "gol" e todos os palavrões a ele atrelados, este é o som mais bonito que já ouvi. É um barulho de uma cidade. Parece que vem do chão, do concreto. Mas é de gente. É uma boca. É um barulho que, em copas, um país inteiro - e gigantesco - está fazendo, ao mesmo tempo. Isso me emociona.

O desfile das escolas de samba também me emociona. E, a uma certa distância, aquele azul mais claro que a madrugada próxima ao Sambódromo apresenta, por causa dos refletores da Sapucaí, esta é, para mim, a cor mais bonita do nosso céu.

Ouço de longe o "som do futebol". Vejo ao longe "a luz do carnaval".

No meu coração, isso faz sentido.

Até!



Ele, o samba-enredo

Lula Branco Martins | Lula | 30/05/2008 09:57

Esta é minha 11ª coluna aqui. E até agora não havia tocado num assunto que para mim é fundamental nessa história toda: o samba-enredo.

Gosto de carnaval desde menino. Mas o que primeiro me conquistou não foram as alegorias; não foi o fato de ser uma festa popular; não foi o rodopio das baianas; nem as mulheres quase nuas; nem mesmo a bateria tocando do meu lado; nem nada disso. O que me conquistou, inercialmente, principalmente, foi o samba-enredo.

Ainda garoto, já fazia plantão nas lojas para comprar o vinil assim que ele saía. Tenho alguns do tempo do onça. Coleciono os CDs também, claro. E aqui já entrego o que me fez finalmente, após 10 colunas, escrever sobre o assunto: foi a coluna da semana passada do colega Eugênio Leal. Ele listou alguns dos melhores sambas do século - século 21, bem entendido. Deu suas opiniões, recebeu dezenas de comentários, alguns elogiando a lista, a maioria dizendo que ele esqueceu este ou aquele, e tinha gente até que andou atirando pedras virtuais no companheiro Eugênio pois ele não tinha posto este ou aquele... dos anos 80! Mas a lista era só do século 21, minha gente!

Bom, voltando. Concordo aqui e ali com o colega, discordo aqui e ali também, mas o que considerei o mais importante no texto foi a reflexão dele sobre saudosismo e saudosistas. Assino embaixo, Eugênio: o samba se modificou, ficou mais acelerado, tem escola que adora uma marcha (pensando que assim desfilará mais alegrinha), mas mesmo assim - e é neste ponto que estamos juntos - ainda são compostas grandes obras.

Em janeiro agora, a revista Seleções me encomendou uma lista daqueles que seriam, na minha opinião, os 10 melhores sambas-enredo de todos os tempos. E eu publiquei lá. Fiz questão de variar as décadas, justamente por causa disso: para que eu não ficasse parecendo - até porque não sou mesmo - um saudosista que só tem olhos e ouvidos para "Os sertões", "Tiradentes", "Aquarela" e afins.

Claro, são lindos - "Aquarela", inclusive, por sua força popular, sabido de cor por várias classes sociais, até entrou na minha lista. Mas creio que estamos numa batalha. E nossa tática de guerrilha deve valorizar o carnaval como ele é, como ele vem sendo, e não só como ele foi.

E é evidente que não estou dizendo que hoje estamos melhores do que ontem. Não. Estamos piores, bem piores. Hoje vão para a avenida alguns sambas sofríveis, que jamais ganhariam concurso algum no passado. O que estou dizendo é que há, sim, coisa muito boa sendo cantada por aí. Decreto: samba-enredo com qualidade não morreu ali por 1975 ou 1977, como costuma dizer quem tem 30 anos a mais que eu (ou 40 a mais que você, Eugênio).

Na minha lista, que saiu na Seleções, havia espaço para "Heróis da liberdade", do Império, em 1969; mas também para "O dono da terra", da Tijuca, de 1999, de exatos 30 anos depois. Tinha o Círio de São Carlos de 1975; mas tinha também um da Imperatriz - Imperatriz! -, de 1996.

E ainda Salgueiro 1974, Vila 1988, Mocidade 1971, Ilha 1982 e tantos outros.

Mas não quero me alongar mais - até porque sobre este tema, samba-enredo, ainda vou falar muito aqui. Esta coluna foi quase tão-somente para dizer -"Eugênio, nesta questão aí estamos juntos e misturados".

Aliás, de sua seleção do século 21, também gosto muito de Mangueira 2002 ("Cabra da peste"), Tijuca 2003 ("Agudás") e Arranco 2006 ("Gueledés").

Até!



Mudar

Lula Branco Martins | Lula | 24/05/2008 02:35

Mudar é difícil. Talvez seja o verbo mais difícil da língua portuguesa. Não na conjugação (pois nisso é mole, basta reproduzir o "falar" ou o "cantar"), mas na ação real em si. Mudar é complicado. Há quem diga que, por exemplo, os velhos, nem adianta tentar, esses aí não mudam mais, não aprendem mais nada, não repensam coisa alguma. Céticos vão além: asseguram que pessoas com mais de 18 anos também não mudam mais são aquilo e acabou. No máximo, no máximo, podem dar uma melhorada aqui, outra ali, mas na essência não se alteram em necas de pitibiribas.

No nosso habitat, o carnaval, mudar parece ser uma coisa ainda mais difícil. Pois aqui se vive de vangloriar tradições, enaltecer baluartes e solidificar raízes. Tradição, para uma festa como a nossa, é algo que beira o fundamental. Por tudo isso, criamos monstros, vimos nascer xiitas.

Imagino que a Portela resolva trocar de cor. Sai o azul, sai o branco, entram, digamos, o rosa e o preto. Os radicais chiariam um rio inteiro de lágrimas. E que tal se uma bateria inteira resolvesse mudar? Sim, depois de décadas de resistência, a Mangueira desfilaria toda orgulhosa pela qualidade dos seus... surdos de resposta! Reagiriam com contrariedade todos os ouvidos acostumados à tradição da batida do surdo um.

E os delírios da mudança poderiam até ir além: Vila sem samba bom, Grande Rio sem artistas, Beija sem comunidade. Vamos mudar mais ainda, que tal agora uma mudança de conceitos? Mestre-sala rodando com a bandeira e porta-bandeira fazendo-lhe sala; a preferida da bateria se divertindo no meio de uma ala qualquer; um samba sem toque de marcha e sem refrão, puxado por voz de mulher; uma alegoria anã; e uma comissão fechando o desfile. Sei lá.

Mudar, até aonde sinto, devia ser o motivo de tudo. Mudar para depois mudar de novo. E mudar outra vez. E errar! Sim, errar! Pois tem coisa mais humana que isso? Arriscar. Além: arriscar-se.

Hoje o site está mudando de cara. O que ele no fundo faz, que é informar, mantém-se intacto. Mas... e aquela cor ali? Mudou. E essa diagramação, ela está diferente, não está? Está, pois é, mudou. Mas... e a antiga foto dos colunistas? Eles se transformaram em caricaturas, mudaram.

Força pra gente, pois mudar provoca reações, e vamos tê-las.

Sonho com o dia em que o verbo mudar, ele próprio, mude: saindo da primeira conjugação, indo para a segunda ? para ser conjugado rotineiramente, assim como o verbo viver.


Até.



Quem lê tanta notícia?

Lula Branco Martins | Lula | 15/05/2008 01:00

Entre o passado de quatro décadas atrás e o presente recentíssimo, me pautam Caetano Veloso e Joaquim Ferreira dos Santos. “O Sol nas bancas de revista/ me enche de alegria e preguiça/ quem lê tanta notícia?”, cantou e questionou o compositor, nos anos 60, em sua “Alegria, alegria”; e o jornalista, que assina uma coluna às segundas-feiras no Segundo Caderno do jornal “O Globo”, escreveu esta semana sobre o nada, isso, sobre o nada, demonstrando-se cansado de tanta novidade desimportante, revelando-se esgotado com este, digamos assim, “noticiário básico brasileiro do início de 2008”.

Quem ainda agüenta novas revelações sobre o caso Isabella? Bom, eu agüento. Assumo isso: agüento. Digo mais: quero. E vejo até o Datena, no iniciozinho das noites da Band. Ontem, por exemplo, na falta de qualquer novidade sobre o caso, sua equipe tentou entrevistar crianças vizinhas da mãe da menina assassinada. Muitas saíram correndo do repórter, coitadinhas. É estranho. Mas lá fico eu vendo. Quem quer saber mais detalhes sobre o que realmente aconteceu na noitada de Ronaldo com os travestis? Eu! E no duro queria saber a verdade verdadeira, queria ser um mosquitinho dentro daquele motel fajuto, para ter presenciado tudo com mil olhos de inseto. Quem deseja ver mais imagens trêmulas do terremoto na China? Levanto o dedo. Há alguém aí interessado em saber quem enviou para quem o e-mail com o dossiê contra o governo Fernando Henrique? Estou interessado. Existe mesmo uma nova musiquinha de torcida gozando o Flamengo desclassificado da Libertadores? Pois adoraria conhecê-la. E sobre a tragédia em Mianmar? Diga-me tudo, não me esconda nada. E se Hillary desiste? Conte-me também.

Por outro lado, há quem esteja, perdão pela expressão, de saco cheio disso tudo, dando de ombros para os fatos e zombando de quem se interessa por eles.

Existe isso.

E devem acontecer reações parecidas sobre o que andamos publicando aqui, na internet carnavalesca. Aliás, sei que acontecem: só de ler alguns comentários que são postados sobre o conteúdo de nossas matérias e colunas, já percebo isso. Estaríamos noticiando mais do que deveríamos?

Vejamos.

Luma de Oliveira falou em candidatura. Mas, dias depois, desistiu. Puxa, então quer dizer que era um mero factóide? O que ela queria na verdade era aparecer, ganhar manchete aqui e nos jornais de papel? Era só isso? Se era, fizemos bem – nós e os portais concorrentes – em noticiar? Ou caímos todos como tolos na brincadeirinha dela? Ou, só porque ela é lindona, então “brincadeirinhas de Luma” devem sempre ser notícia? E tem mais. No início, mestre Ciça não gostou dessa história de Luma presidenta. Noticiamos isso. Depois, ele se arrependeu do tom e disse que dia desses vai ligar para a musa se desculpando. Noticiamos também. Quando ele resolver ligar, vamos noticiar de novo? E se o telefone der ocupado? Vamos noticiar que “Ciça ligou, mas deu ocupado”? E depois? Vamos noticiar quando ela finalmente atender? E depois? Vamos noticiar quando ela nos revelar o que falou para ele? Às vezes, parece que, iguais a repórteres de plantão em frente ao edifício London, estamos plantados cobrindo o micro do micro do micro do micromundo do samba.

Abrimos manchete quando o carnavalesco dá um espirro. E também quando o Império não paga uma conta no banco. E também quando Zeca Pagodinho inventa de doar um boi. Damos foto grande assim que uma ex-BBB é convidada para desfilar – reforço, apenas para desfilar, não era para ser rainha de bateria, nem queijo principal de carro, nem destaque na comissão de frente, ou seja, nada que fosse assim um enorme acinte à raiz e aos padrões da Grande Rio – mas teve gente que ficou revoltada, eu li lá nos comments. Pensando bem, creio que a revolta é menos com a agremiação caxiense e mais com o fato de que isso seja realmente uma notícia. Explico: duvideodó que algum componente da escola, ao vê-la na avenida desfilando em 2009, ficasse tão chateado com a presença da mulher a ponto de reclamar com a diretoria, escrever cartas para a imprensa ou posts para cá. O que incomoda parece ser a relevância que a mídia dá ao fato.

Resumindo: na visão de muitos seria a mídia a errada, e não o presidente, muito menos a BBB.

E tem mais: agora demos para noticiar também não-fatos. O samba-enredo velho não será mexido. Após isso: aquele samba-enredo velho que não ia ser mexido agora não será nem mais reeditado. E ainda. O puxador Fulano não mudará de agremiação. Ah, e foi cancelada e não vai mais rolar a eleição que antes a gente disse que iria rolar naquela escola ali ao lado.

Um monte de não-coisas.

Mas preciso deixar um negócio bem claro.

Não estou cuspindo no prato em que como. Não pretendo estraçalhar “O Dia” – que deu uma página 3 inteirinha para Luma –, nem reclamar da “Veja”, nem ferrar com o “Expresso”, nem desdenhar da “Folha”, nem falar mal da “Gazeta de Araraquara-Mirim”, nem espinafrar Sônia Abrão e muito menos José Luiz Datena (que são craques naquele jornalismo lá que eles fazem), nem maldizer os jornais popularescos, que chegaram a publicar desenhos e cineminha com os supostos acontecimentos do quarto do Papillon e, finalmente e obviamente, não pretendo atirar nos pés de nós mesmos: o site. Tenho orgulho de estar nesta tela e muito respeito pela equipe.

Então cravo: não estamos errados.

Cravo de novo: temos de agir assim porque, de certa forma, fazemos jornalismo de guerrilha.

Estamos aqui por uma causa, e ela é justa, só que preciso constatar a pequena aberração dos nossos dias. O jornalismo evoluiu, a mídia evoluiu, a tecnologia (câmeras mínimas, gravadores digitais) e a internet levaram e estão levando a cobertura jornalística a um tal estágio que... o que descobrimos? Descobrimos simplesmente que a vida é banal. Que o cotidiano da vida é banal. Acorda-se, arrota-se, às vezes dá-se um boi, noutras vezes dá-se apenas um telefonema. E vamos em frente, agora noticiando banalidades, frugalidades, fatinhos.

E fatinhos e fatões vão surgindo, diariamente, horariamente, minutamente, carregando ênfases por vezes tresloucadas. Chegamos a um ponto em que, ao que parece, noticiaríamos a chegada do homem em Marte com a mesma força e o mesmo destaque que teria a descoberta de uma nova gota de sangue no Ka
nardônico-jatobeiro.

Antes, tínhamos apenas dois ou três jornais e... “oh, você viu aquela notícia?” Pois virava o comentário da semana. Agora temos trocentos jornais de papel, dezenas de canais a cabo, revistas sobre qualquer coisa (existe uma só sobre pitbulls, outra sobre o mundo do caratê, outra para agricultores, uma sobre o movimento hip-hop brasileiro...) e sites especializados em tudo. A sensação é que o jornalismo está aqui do lado, tocando na nossa pele.

E, como ia dizendo, hoje existem sites especializados em tudo.

Até em carnaval.

Aliás... ah... hum…, olha, me desculpe, é que eu estava comendo, engasguei e tossi.

E pode acreditar: quer a gente queira, quer não, neste exato momento essa tosse também acabou de virar notícia.


Até!


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A Unidos dos Meus Sonhos

Lula Branco Martins | Lula | 08/05/2008 20:21

Desde que virei colunista aqui no site, muitos amigos e antigos leitores hoje internautas me pedem para rememorar (já que até agora não aparecia na íntegra no google) um dos meus textos mais conhecidos, entre os que escrevi sobre carnaval na fase JB. Chama-se “A Unidos dos Meus Sonhos”, nome fictício para uma escola de samba, digamos, perfeita. Ele foi publicado em fevereiro de 2005, no dia seguinte ao da vitória da Beija-Flor. A agremiação de Nilópolis tinha vencido por um décimo a Unidos da Tijuca; a Mangueira havia ficado só em sexto naquele carnaval; e a Portela por um triz não era rebaixada de grupo. Dentro da cobertura dos desfiles daquele ano, na página 25 do jornal, com um texto viajandão eu refletia sobre isso e outras coisas mais. Ei-lo:

“Imagine-se a escola de samba perfeita. Aquela cujo folião é feliz, cujo componente desfila com vontade, garra, alegria. A que faz a arquibancada cantar. A que os críticos elogiam no dia seguinte, nos jornais, nas revistas, no rádio e na televisão. A que não barra a velha-guarda. A que exibe samba no pé, mas que também leva para a avenida belos carros. Aquela que, afinal, quase sempre ganha o título – quase, sim, que senão ficaria chato. Pois bem. Vamos combinar que o presidente tem dinheiro suficiente na mão, para contratar quem bem entender; e que a gente pode viajar um bocado, delirar que nem carnavalesco delira. A partir de agora, será montada a Unidos dos Meus Sonhos.

Começando pela torcida. Seria a da Mangueira. Enorme, quase a do Flamengo. E tudo fica mais fácil quando se entra na avenida já sob aplausos, acenos de bandeirinhas e, no fim, se deixa a Apoteose com os gritos de ‘é campeã’ – mesmo que a escola esteja uma decepção. Vamos em frente. A Unidos dos Meus Sonhos teria as tradições de uma Portela. Aqueles velhinhos uniformizados, aquelas senhoras cozinhando e sambando, isso gera um apreço danado. E rende quilos de reportagens, textos enaltecedores invariavelmente. Ponto para a escola, que fica bem na foto. Tem raiz.

Hora de compor a diretoria. O presidente não pode ser bicheiro. Certo que eles, os banqueiros do jogo do bicho, fizeram muito pelo carnaval. Mas, contraventores que são, foram presos, não são vistos com bons olhos, não costumam dar entrevistas na Globo, não geram mídia favorável. O presidente poderia muito bem ser Fernando Horta, empresário do ramo da vidraçaria, que comanda a Unidos da Tijuca – mas isso desde que ele deixasse o mau humor de lado. O diretor do desfile (chamado em algumas escolas de diretor de carnaval, em outras de diretor de harmonia) seria Ricardo Fernandes, jovem revelação, capaz de assegurar a repórteres, semanas antes, que sua escola (na ocasião, Porto da Pedra) passaria em 78 minutos, nem mais, nem menos – e, no dia do desfile, cruzando a linha que marca o fim da pista, ele olhava no relógio para constatar: 78 minutos cravados. Isso sem empurrar ninguém, sem agredir jornalistas (como fazem alguns trogloditas da Beija-Flor), sem apressar baianas. Aliás, neste 2005, o Porto da Pedra, em Evolução e Harmonia, só tirou notas 10. Foi melhor que a campeã e que a vice.

Para completar o primeiro escalão da Unidos dos Meus Sonhos, há de ser escolhido o carnavalesco, figura fundamental, hoje em dia, para o sucesso de um desfile. Mas este teria de ser um mix. Um pouco de Paulo Barros, para ser ousado e criativo nas alas e alegorias. Um tanto de Rosa Magalhães, quase sempre caprichosa nas cores. Um quê de Renato Lage, para bolar um interessante desenvolvimento de enredo ao longo da pista. Paulo Magalhães Lage: eis o nome do artista.

A bateria poderia ser a da Viradouro, mas sem tantas palhaçadas – uma ordem de Paulo Magalhães Lage. O mestre-sala, Rogerinho. Para o posto de porta-bandeira seriam convocadas duas, para decidir só na hora quem seria a primeira e quem seria a segunda: Selmynha Sorrisoz, da Beija-Flor, e Lucinha Nobre, da Tijuca, ambas craques quando o assunto é levar notas 10. Aliás, nossa escola valoriza o 10, mas também poderia contratar quem nos últimos tempos não vem se dando tão bem assim, mas que é uma instituição naquilo que faz. Por isso, a comissão de frente seria comandada pelo coreógrafo Carlinhos de Jesus, da Mangueira. Ele revolucionou o quesito e tem crédito.

Agora, a musa. Luma de Oliveira. Mas não como rainha de bateria. Ela costuma causar muita confusão, os fotógrafos invadem a pista, a harmonia fica prejudicada. Seria então posta em cima de algum carro, o penúltimo, por exemplo. Aí fica tudo mais tranqüilo. À frente da bateria vamos de comunidade. Isso, uma rainha eleita entre os seus. Quem sabe outra “de Oliveira”, como Luma, mas 26 anos mais nova, de prenome Raíssa, da Beija-Flor. Porque além do mais ela é pé-quente. Quase sempre que desfila sua escola é campeã. E, no gogó, puxando o samba, outra mistura haveria de ser feita: Neguinho do Estácio. Ou Dominguinhos da Beija-Flor.

Apesar de seu cargo ser um dos principais, ficou por último a escolha a escolha do diretor geral. Foi só para dar um suspense. Seria Laíla, da Beija. Não se pode mais ignorar a importância dele para os desfiles, como insiste em fazer parte da imprensa especializada. Hoje em dia Laíla é decisivo. Tem boas idéias, carisma e voz firme para congregar num só objetivo toda aquela grande parcela de Nilópolis que desfila na azul-e-branca de lá. Muito graças a ele, o chão da Beija-Flor é o que é. E o chão da Unidos dos Meus Sonhos também seria assim, igualzinho.

As cores da escola? Neste particular ela deve ser diferente, inédita. Nada de azul e branca, verde e branca ou vermelha e branca. Não precisa de branco, o branco já está subentendido, e anda tendo muito branco no samba – sem jogo de palavras. Verde e rosa? Não. É esquisito e já existe uma, bem das antigas. Azul e amarelo? Já tem também, e essa é novidadeira. Verde e vermelho? Há duas com essas cores entre as grandes. Verde e azul? Não havia nos grupos de elite, mas agora a Rocinha vem despontando. Então... verde e amarela! Arriscado? Pode ser. Mas esta escola seria mesmo ousada, e do tamanho do Brasil.”

Até!



Frescura 1: alguém aí também montaria a Unidos dos Seus Sonhos?

Frescura 2: e ponto para o site, que deu detalhes sobre a entrevista da Luma candidata antes de todo mundo.


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A carta

Lula Branco Martins | Lula | 01/05/2008 16:18

Chegou a carta, com palavras que dentro delas não tinham mais amor, nem ódio. Foi ontem. Vieram apenas palavras secas. Parecia não haver sentimento algum ali. Elas, as palavras, não demonstravam mais nada. Como se coisa nenhuma tivesse acontecido. Como se um vão da história houvesse engolido toda aquela passagem de tempo.

Sem possibilidade de perdão. Sem carinho. Sem volta. Sem, sem, sem....

Não há desfiles em maio. E o carnaval dá apenas alguns sinais, bem lá de longe ainda. Um presidente é eleito aqui, um enredo é anunciado ali. Comemora-se uma efeméride na Mangueira. E o velho puxador sonha em retornar à sua escola. Ok. Notícias. Mas não há carnaval, festa da carne, catarse, homens não se vestem de mulher, não vemos blocos nas ruas, ensaios na Sapucaí, bêbados na concentração, compositores denunciando que foram roubados, quadras lotadas, traficantes dizendo no pé, matérias especiais no telejornal da tarde, distribuição de coletes de imprensa, turistas embasbacados. Não, nada disso está rolando.

Vivemos, digamos assim, uma espécie de coffe-break. Mas insistimos em ficar por aqui – no site, no dia-a-dia, na vida enfim – cultivando as sementes, reforçando as raízes. A gente cuida delas talvez para ter a garantia de que, depois do intervalo, a nossa festa estará, sim, de volta. Escrevemos, debatemos, pensamos, meio que para dizer: estamos aqui, não abandonamos o carnaval, precisamos um do outro, somos bonitos juntos. Isso.

Com garra. Com a vontade sincera de ver esta festa melhor, mais livre, mais aberta. Com a esperança de que ela nunca acabe. Com, com, com...

O carnaval não é a minha ex-namorada. Sei disso. Seu intervalo é quase sempre de 11 meses. O outro, de que fala a carta, pressinto que poderá ser de 11 anos, ou ter a duração do infinito.

Entre março e janeiro, aqui no site, cuidamos, com carinho, do espaço de entre-carnavais. Damos atenção justamente a um intervalo de tempo, a uma saudade, a uma lembrança.

Você se lembra?



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Todos estão surdos

Lula Branco Martins | Lula | 24/04/2008 16:15

Toco surdo. Quer dizer, toco surdo mais ou menos. Mas toco. Não me arriscaria, por exemplo, a defender durante 82 minutos uma escola de samba gigante, do Grupo Especial. Mas, de maceta na mão – no bom sentido –, acho que não faria feio num bloco, ou mesmo numa agremiação de grupos menores.

Se eu aprendi sozinho? Não. Minha vontade já era grande desde criança, mas foi só aos 40 que me inscrevi numa escola de percussão. Foi um caminho não muito natural, tenho consciência disso. Pois meu avô não era batuqueiro, e sim dono de um bar. O outro avô era funcionário da Light. Meu pai nunca foi diretor de harmonia; harmonia lá para ele trata-se de um conceito que tem a ver com a dura disciplina militar, com ordem unida, com “ordinário, marche”, essas coisas todas – ele é oficial do Exército. E, por último, minha mãe também não é baiana, nem de nascimento, nem de rodopio – e, sim, professora aposentada, carioca.

Muito mais natural para um pretendente a ritmista, isso eu pensava antes, teria sido, ainda menino, ter recebido de Natal um tarol, um repique. Como o tal menino da Mangueira, feliz dono de “um pandeiro e uma cuíca” na letra do velho samba. Mas não rolou. Vieram, e não das mãos de um “mulato sarará, primo-irmão de Dona Zica”, bolas, meias, carrinhos (mas nunca um autorama, que era caro), camisas de time, jogos de tabuleiro, presentes afinal comuns a uma conhecida classe média brasileira branca dominante – e, no caso, tijucana, portanto de certo ranço pacato e de cabeça tradicionalista.

Adolescente e, depois, adulto, observava ao longe o contingente das baterias e, era flagrante, não me via ali. Notava que, mesmo com a invasão das alas por turistas e afins, mesmo com os queijos dos carros tomados por gente que só quer aparecer, bom, eu notava então que as baterias ainda funcionavam, numa certa medida, como um bastião de resistência. Por isso me debatia em conflito. Eu mereceria estar ali algum dia no futuro? Mais do que isso. Eu poderia estar? É legítimo? Ou estaria invadindo um habitat que, por desmerecimento e não-tradição, não devia ser o meu?

Procurei o Tamborim Sensação há três anos, indicado por um amigo, que conhecia alguém que fazia aulas de percussão lá. Os dois – tanto o amigo como o amigo do amigo – eram e ainda são funcionários do Banco do Brasil. Puxa, quer coisa com mais cara de classe média do que o Banco do Brasil? Pois fui à primeira aula, naquela época ainda na quadra do Tuiuti (agora é no Arranco), com esta... sensação! A de que estava entrando num lugar em que ser de classe média não era ser adversário ou invasor. Eu me sentia, de certa forma, autorizado e estimulado a participar – apesar de saber que essas escolinhas sofrem a maior patrulha.

Lembro o início. E verbos no presente a partir de agora.

Talabartes devidamente postos, baquetas e macetas distribuídas, e eu só quero saber é de surdo, que pode ser de primeira, de segunda, de terceira... (não, de terceira, não, este é mesmo só para craques, logo percebo). Bastam algumas aulas. Tenho ritmo, o que me facilita. E tenho professores dedicados – entre tantos ali, principalmente Claudinho e Henrique. Negões. Com suor de negro. Mestres da vida real, da luta que é vencida todos os dias, um por um.

São os mais próximos, os que nos ajudam a vestir os instrumentos. Eles me chamam de “branco” certamente por três motivos: primeiro, este é meu sobrenome mesmo; segundo, é minha cor e minha raça azeda (nunca terei cor preta, pois evidentemente não dá para virar um Michael Jackson ao contrário); mas mais do que isso tudo, tenho certeza, o apelido pegou pela minha condição de ser um branco no samba, um estrangeiro, um cara de fora.

Eles, como disse, me chamam de “branco”. E eu chamo cada um deles de “negão”. Importante: eles também se chamam de “negão”. E fico pensando quem é que é o preconceituoso nessa história. Só eu? Só eles dois? Todos os três? Ninguém? Nenhum dos três? É apenas uma brincadeira? É uma brincadeira que carrega disfarçadamente um preconceito histórico? É um carinho? Ou estamos reforçando nossas diferenças? Ou estamos aceitando e percebendo nossas diferenças, que afinal são tão visíveis, logo de cara, e mesmo assim conseguindo brincar com elas? Tenho um amigo que é lourão e eu o chamo de... “lourão”! Ué? Não é legal isso? É errado? Não devíamos falar assim? Estamos cegos e não vemos que há racismo aí? Estamos surdos e não ouvimos como deveríamos ouvir essas tais palavras (branco, preto, negro, branquelo, mulata, negão)? Isso é coisa chata, politicamente correta demais? Ou devíamos, mecânica e formalmente, e pra evitar qualquer problema, nos tratarmos só pelos nomes da certidão?

Este assunto é complicado, estamos pisando num terreno pantanoso – o samba, a bateria, o enfrentamento de classes, o poder de quem é dono dos desfiles, dessa festa. E será que acabamos, quando nos valemos de apelidinhos raciais-racistas, contribuindo sem perceber para aumentar esse estranhamento que se dá entre pobres e ricos na época dos desfiles, entre invasores e invadidos, entre remediados e mendigos, entre podres de ricos e ricos podres?

Não tenho as respostas. Mas sei que quando Claudinho levanta a mão e a bateria sobe, eu não me sinto nem branco, nem preto, nem nada.

Eu me sinto feliz, e isso deve ter um nome.

Carnaval, talvez.

Até!


Frescura 1: coluna dedicada, obviamente, aos mestres – hoje amigos – Claudinho e Henrique. Negões. Irmãos.

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O sexo das escolas

Lula Branco Martins | Lula | 17/04/2008 15:37

Diz o nome da coluna que sou fresco. Sim. E isso já não é novidade. Mas tudo tem um limite, que agora creio que vou ultrapassar – e provavelmente serei chamado de neurótico. Vou começar contando uma historinha, que tem a ver com os anos em que trabalhei, no “Jornal do Brasil”, ao lado do jornalista Aydano André Motta (respeitado repórter, hoje em “O Globo”, ex-jurado do Estandarte de lá). Eu e Aydano comandamos, dois anos seguidos, ali pelo começo do século – do atual século, bem entendido –, a cobertura de carnaval do “JB”.

Eis que, dias antes do desfile, ele (que era novo naquela redação; eu já tinha mais de uma década ali) me vê pautando os repórteres que iriam para a Sapucaí. Num dado momento, viro para a equipe e decreto: “Gente, é o Salgueiro, e não a Salgueiro! Gente, se escreve o Império Serrano, e não a Império Serrano. Gente, é a Viradouro, e não o Viradouro!” E eu seguia em frente, para absoluto espanto do colega, listando os “os” e os “as” que eu achava que deviam ser escritos, e como e quando eu achava que deviam ser escritos.

Aydano ria – a cena era mesmo inusitada –, mas eu, já bem neurótico sete anos atrás, levava a coisa a sério: não queria ver meu jornal botando artigos equivocados na frente de nomes às vezes masculinos, às vezes femininos.

Alguém dirá: todas elas são escolas de samba, escolas, uma palavra feminina, então todas são femininas. É a teoria do “a (escola subentendida) Salgueiro”. Claro que não funciona assim, de forma tão simplória. E o refrão mais popular dos anos 90 não nos deixa mentir: “É lindo o meu Salgueiro/ contagiando, sacudindo essa cidade”. Se fosse no feminino, os compositores teriam escrito “É linda a minha Salgueiro...” É ou não é? E, da mesma forma, vejamos que lá na distante década de 70 os imperianos campeões entoavam “que grilo é esse/ vou embarcar nessa onda/ é o Império Serrano que canta/ dando uma de Carmen Miranda”, e não “... é a Império Serrano que canta...”. Prova cabal de que, mesmo “dando uma de Carmen Miranda”, o Império Serrano era, sempre foi e é macho, e que por isso mesmo deve ser antecedido do artigo “o”.

Mas tem repórter – a maioria, de fora, a maioria, paulista – que não se informa direito e sapeca na TV, no rádio, nos jornais e agora até nos sites um “a Salgueiro” para cá, um “a Império” para lá. Fica horrível. E dá a nítida sensação de que quem fala dessa forma não está nada familiarizado com a festa.

Haveria um critério? Sim. Claro que não existe cartilha, nem gramática, sobre isso, mas creio que devemos então seguir a língua real, a língua viva – ou seja, a falada pelas pessoas que vivem o assunto. Pelas pessoas do ramo. Daí, se o pessoal do Arranco começar a falar que “lá vem a Arranco etc e tal”... então que assim seja escrito. Minha teoria é: não devemos lutar contra a vida real. Não adianta tentar forçar um português limpinho e asséptico, se ali na esquina está todo mundo falando outra coisa. Mas, felizmente, neste caso, nos sambas e nos papos de bar, tem prevalecido “o Arranco”...

Então, pelo que tenho ouvido por aí, é o Arranco, é o Salgueiro, o Império Serrano, o Império da Tijuca, a Mangueira, a Portela, a Mocidade, a Imperatriz, a Beija-Flor, a Viradouro, a Rocinha, mas... e o Porto da Pedra?

Caramba, o que fazemos com o/a Porto da Pedra, se eles lá não se decidem nunca e a letra do samba, a cada ano, bota um sexo diferente na simpática escola de São Gonçalo? Cartas e e-mails são bem-vindos, além de comentários aqui embaixo. Alguém aí quer dar pitacos também sobre o/a Boi da Ilha e o/a Cubango? Quem se arrisca?

Até!

Frescura 1: parabenizar não é frescura, não. É sempre bom. Isaac, parabéns pelas reportagens sempre em cima da pinta. A dos 82 minutos foi bola dentro.

Frescura 2: Eugênio repercutindo na imprensa gringa, Thatiana analisando de forma bem legal o que é “ser comunidade” e o Luiz Fernando, com coragem, metendo o pau nos escritórios de enredo. É... se tem uma coisa que eu estou é bem acompanhado.

Frescura 3: e essa coluna toda é dedicada ao chefe Alberto João, pois o mote surgiu depois de um recente papo internético com ele.

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Saudades do futuro

Lula Branco Martins | Lula | 10/04/2008 15:29

Devem estar me achando velho. Não de idade, porque esta eu até já declinei: 44, o que não é pouco, mas também não é muito. Devem estar me achando velho, mas velho da cabeça. Pois na segunda coluna me mostrei contra o luxo dominante na Sapucaí, e na terceira ficou parecendo que torço pela volta das comissões de frente apenas com velhinhos abanando o chapéu.

Eu devo ter me explicado mal. Não sou saudosista, não quero alegorias feitas de feno e cipó, muito menos desejo que voltem à moda comissões com cotas para a terceira idade. Nada disso. Não tenho saudade das invasões de pista, que eram tantas que restavam só uns cinco metros de largura para a escola evoluir. Não fico feliz ao recordar que nos anos 80 havia desfile que acabava quase meio-dia.

O fato de o presente ser difícil não quer dizer que o passado tenha sido sempre bom.

O fato é que penso apenas e tão-somente no futuro, e não no passado. Penso que essa festa pode simplesmente acabar se nela não houver atrativos diferentes, diferentes a cada ano. Meu medo é da extinção total, qual macaco-prego, por absoluto desdém por parte dos cariocas, dos brasileiros, eu e você, nós todos. Dou aula para jovens universitários de 19, 20, 21 anos, e percebo neles a falta de interesse no carnaval. Eles dizem que “todo ano é tudo igual”. E, pior, dizem que “todas as escolas são iguais” entre si. Murmuram algo tipo “lá vem mais um enredo sobre os reis da África”, gozam o espetáculo ressaltando que “é tudo roubado” e tiram onda com escolas que investem em enredo patrocinado: “Macapá, São Lourenço, Paracambi... se continuar assim daqui a pouco haverá refrões como “O povo do Triângulo Mineiro é feliz/ pois Uberaba é raiz” ou “Vem, Taubaté/ diz no pé”.

Brincadeiras à parte, acho sinceramente que só vale pensarmos se for para pensarmos o futuro. Não sei se estou dando uma de Mangabeira Unger, nosso “ministro do Futuro”, das ações de longo prazo. Mas, no meu modo de ver, pensar carnaval (aqui, numa mesa de debate ou num papo de bar) é justamente isso: é pensar para frente.

Até!

Frescura 1: aliás, por falar em pensar carnaval, grande fim de semana foi o do seminário “Carnaval, carnavais?”, lá na Estácio. Não pude ir sexta, pois é meu dia de aula na faculdade, e sábado perdi a hora e não pude curtir mais. Mas o que presenciei foi bem legal. Só de ver Thatiana comandando mesa e dois Paulos lúcidos (enfim comandantes esclarecidos de escolas de samba, o da Mocidade e o da Caprichosos) já valeu a pena.

Frescura 2: bacana ver que as provocações vêm rendendo comentários dos colegas-colunistas. E o mais legal é que ainda – ainda! – não rolou nenhum xingamento!

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Em frente, comissão!

Lula Branco Martins | Lula | 03/04/2008 01:39

Lá pelo meio da década de 90, quando escrevia sobre carnaval na equipe do “Jornal do Brasil”, eu era sempre o primeiro a bolar – e me oferecia para fazer – reportagens sobre comissões de frente. Pois se tem uma coisa que eu acho bacana é comissão de frente. Sei lá, é a primeira impressão. É algo que vem chegando e dá logo o clima de como será o desfile. É, enfim, um alento que se dá aos olhos ávidos de informação após o geralmente longo intervalo entre uma escola e outra.

Comecei a acompanhar os desfiles pela TV no fim dos anos 70, e passei a vê-los ao vivo no início dos 80. Pude, desse modo, testemunhar o fim da era das comissões tradicionais – gente velhinha, gente muito da boa, saudando o público com seus chapéus. Isso foi ficando pra trás, e veio uma fase de transição, com as tradições convivendo com as modernidades. Lembro, por exemplo, do divertido time de basquete da Mocidade. E também dos leques simétricos da Imperatriz. Lindos, lindos.

Mas parece que o conceito de comissão de frente, de uns anos pra cá, extrapolou o bom senso. Faz-se uma prosopopéia danada, os componentes mal olham para as arquibancadas (só para os jurados às vezes), e tem mais: montam-se e desmontam-se estruturas enormes, quase alegorias, de onde saem pessoas, fumaça, pessoas com outras fantasias, fogos, barulhos, água, gelo, mato, petróleo, baleias, constelações, marcianos, tigres-de-bengala. E geralmente o que acontece? Podem comprovar: a produção exigida é muito maior que o efeito desejado.

Abomino o luxo pelo luxo, como já falei aqui, e valorizo sempre a criatividade. Sou fresco com isso, não tem jeito. Então, queria ver na avenida, taí, queria lançar um desafio aos carnavalescos: bolar uma comissão que apresente a escola, que emocione a platéia e que ao mesmo tempo seja criativa, original e – quem sabe pelo menos numa das passagens da coreografia – respeitosa como as de antigamente.

Até!

Frescura 1: seguindo a sugestão do Eugênio, que levantou a bola de haver um fórum interno permanente entre nossos colunistas, aqui vão minhas primeiras provocações.

Frescura 2: pro próprio Eugênio. Você diz em sua mais recente coluna: “Fui o primeiro a gritar aqui contra a imposição de uma festa sem consulta ou debate sobre sua realização.” E eu pergunto a você. Será que, no que diz respeito a essa consulta, a esse debate, seria satisfatório ouvir a direção de cada escola? Bastaria isso? Ou teria obrigatoriamente de acontecer algo maior, mais profundo, como um plebiscito, com as comunidades, e não apenas o voto de cada agremiação?

Frescura 3: pra Thatiana. Primeiro, valeu a citação a meu nome em sua coluna desta semana. Bacana ver alguém comprando a nossa idéia, ou, senão, pelo menos debatendo a nossa idéia. Mas... vem cá. Pra mim não ficou clara sua posição: você é contra ou a favor do luxo? Ou fica em cima do muro?

Frescura 4: pro Luiz Fernando. Meu caro, minha provocação hoje não tem como tema sua recente coluna sobre décimos, mas sim o nosso papo na carona até a Tijuca, sábado passado. Afinal de contas, como você vê este cargo que vem surgindo aos poucos no carnaval, o pesquisador de enredo? Vê com reservas ou acha que é mais um passo no caminho da natural profissionalização da festa?

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Lula é do SRZD-Carnavalesco

Lula Branco Martins | Lula | 23/03/2008 13:59

Cortei o cabelo ontem. Fiz a barba também. Eu parecia o homem das cavernas, e tive então que ir ao barbeiro para resolver esses meus problemas. Nada a fazer, havia mesmo de ficar meia hora ali sob o olhar perigoso da tesoura e das lâminas, por isso acabei pegando no revisteiro uma daquelas publicações que só saem na época do carnaval. Estava abandonada, meio velha, já muito carcomida de tão folheada, semanas a fio, na verdade há mais de um mês, pelos cabeludos anteriores a mim. Era uma revista de folha grande, com páginas coloridas que não falavam quase nada. Parecida, digamos assim, com uma arara – cheia de enfeites, mas completamente calada.

Procurei a revista para me distrair, só que me perturbei. Claro que ela tem o público-alvo lá dela. Claro que tem que ter foto bem aberta, mulher quase pelada, e claro que deve até dar uma forcinha para o combalido e combatente desfile de fantasias do Hotel Glória. Mas, peraí! Quem ler só aquilo vai pensar que carnaval é... só aquilo!

Sites, nos salvem. Portais, nos protejam. Jornais impressos, melhorem. Matérias na TV, que vocês sejam menos dois-mais-dois-igual-a-quatro. Senão o carnaval, empurrado pelos meios de comunicação, um dia acabará se convertendo apenas na ladainha camarotes-famosos-marcas-bebidas-e-tapas-sexo.

Por falar em sites... Alberto João me fez o convite para escrever no SRZD-Carnavalesco. Claro que aceitei, pois aqui só tem fera. Ele deixou o tema livre. Então vou ver se aproveito. Serei aqui um homem menos de responder, e mais de perguntar. A cada coluna, e ela será semanal, toda quinta-feira uma novinha no ar, abordarei um tema que tenha a ver com a nossa – ainda – maior festa.

“Carnavalesco fresco” não é somente uma rima safada. Será que o fresco do título da coluna também terá a ver com o fato de eu ser, quem sabe, meio chato, um tanto ranzinza? Ou seria eu um cara na verdade afrescalhado? Ou a palavra teria mais a ver com frescor, novidade, coisa quentinha saindo fresca do forno? Ou estaria aí para significar que sou novo no pedaço, um novato? Que tal descobrirmos aos poucos?

Sou professor de Comunicação Social na PUC-Rio, por onde me formei em 1990, em Jornalismo. Andei pelas redações da revista “Veja”, do jornal “O Globo” e, principalmente, do “Jornal do Brasil”, essa aí uma história de amor-e-ódio que durou 13 primaveras. Lá, fui repórter da “Domingo”, redator do “Caderno B” e editor-chefe da “Programa”. Ainda no “JB”, estive por anos a fio à frente da cobertura dos desfiles das escolas de samba, coordenando a equipe de repórteres do jornal. Na revista dominical do “JB”, por seis anos seguidos, assinei a coluna “Listas da Domingo”. Também escrevo, desde 2004, para a revista “Rio, Samba & Carnaval”, e integrei a turma pioneira do Curso de Tecnólogo em Festas e Eventos Carnavalescos, da Universidade Estácio de Sá – outros projetos não me permitiram completar o curso, então a matrícula permanece trancada. E, entre tantos frilas, escrevi, em parceria com Itala Maduell e José Júnior, o texto final do livro “Da favela para o mundo”, lançado em 2002, sobre a história do grupo AfroReggae.

De dois anos para cá, resolvi investir numa sonhada carreira de compositor de samba-enredo. Já concorri com quatro sambas, sempre em parceria com Márcio Bijú. Foram dois na Unidos da Tijuca e dois no Império da Tijuca, onde, este ano, consegui disputar minha primeira final. Bateu na trave. Ainda não deu, a coisa é mais difícil do que se pensa, um dia quem sabe eu chego lá.

Carioca, separado, 44 anos, namorada bacana, sócio do América (do clube e do time), atenção sambística sempre dividida entre as quatro escolas da Tijuca, fã da importância histórica de Lula, de Obama, e até da de Osama, gosto dos Beatles, de Caetano Veloso, de samba-enredo em tom menor e da Ilha Grande, onde um dia vou morar, levando meus cabelos pretos, meus olhos castanhos, meu metro e setenta e um de altura e, ontem de manhã me pesei, meus 78 quilos. Meio mal. Ah, mas isso foi antes de ir ao barbeiro, hoje devo estar bem mais leve.

Já sabem mais ou menos quem eu sou? Já. Semana que vem começo a jogar aqui as minhas idéias. Tomara que discordem.

Até!