SRZD | Luiz Fernando


A vitória da emoção

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 06/03/2010 17:03

Existe uma coisa que não é quesito, mas é mais importante que qualquer um deles. Esse mecanismo inexistente é o quesito EMOÇÃO. Não adianta um enredo maravilhoso, se ele não nos emocionar, não adianta uma comissão de frente perfeita, adequada, correta e muito bem ensaiada, se ela não nos emocionar. 

De nada vale uma alegoria riquíssima, perfeita e muito bem acabada se ela não mexer com nossa emoção. Ela será apenas mais um carro alegórico muito bonito e frio que passa na avenida. O mesmo posso colocar para as fantasias, para os sambas-enredo, baianas e baterias. Sem emoção a coisa não acontece, a escola de samba passa e a gente nem se lembra. 

O carnaval de 2010 trouxe inegavelmente muita emoção. O campeonato da Unidos da Tijuca começou a ser arquitetado na emoção que sua comissão de frente nos proporcionou. O arrepio que sentimos a cada troca de roupa nos encantou e foram vários "oh oh oh" de admiração e aplausos de agradecimento por aquele momento mágico, literalmente, que nos brindou a genialidade do carnavalesco Paulo Barros. E foi ali que a Unidos da Tijuca nos emocionou, colocou a mão na taça e soube segurar por todo o seu desfile. A Tijuca nos emocionou com a biblioteca de Alexandria sendo incendiada, como os jardins suspensos da Babilônia feito todo em plantas naturais e com os escravos egípcios. Emocionou com a rainha de bateria Adriane Galisteu que encenou a preferida dos gangsters e se fez presente no enredo e nos mostrou que uma rainha de bateria pode ser muito mais que seios, botox e bundas siliconadas. A Unidos da Tijuca foi fantástica, a verdadeira e grande campeã do carnaval 2010. E venceu esse carnaval num quesito inexistente. Na emoção.

A vice campeã, Acadêmicos do Grande Rio, sempre foi uma escola pesada, nervosa, tensa e cheia de artistas. Eles estavam lá novamente, mas nem nos importamos. A escola de Caxias passou leve, colorida, rica, mas dessa vez emocionantemente gostosa de se assistir. Ele nos arrepiou quando colocou Wilma e Bagdá e Maria Helena e Chiquinho, dois dos maiores casais de mestre-sala e porta-bandeira de nosso carnaval, e manteve o arrepio quando homenageou com seus pavilhões todas as escolas que já pisaram na Marques de Sapucaí. E a EMOÇAO seguiu num enredo alegre e de uma leitura fantástica. O único erro da Grande Rio, que na verdade foi um erro do destino, foi a presença da Unidos da Tijuca, que colocou uma barreira inquestionável em seu caminhar rumo ao título. Que a Grande Rio aprenda a lição. O grande segredo da Sapucaí não é apenas o luxo, a grandiosidade e o requinte. O grande segredo é saber emocionar e o povo de Caxias guiado pelas mãos do carnavalesco Cahê Rodrigues foi muito bem nesse "quesito" emoção.

Outra escola que trouxe emoção foi a Mangueira. Ela veio rejuvenescida, alegre, solta e brincando de carnaval. Não merecia o campeonato, mas fez juz ao sábado das campeãs. Não sei de quem foi a idéia de prender a bateria que nos lembrava a censura musical. Não sei qual dos dois malucos, e aqui no melhor sentido possível, teve essa idéia. Se foi do Ivo Meireles ou do Carlinhos de Jesus, mas foi um momento de rara felicidade e emoção. Parabéns, Mangueira.

Outra emoção veio com a Mocidade Independente de Padre Miguel que superou o desastre do ano passado e até nos fez lembrar daquela Mocidade que sempre nos emocionou e sempre disputava o topo das melhores. A Mocidade renasceu e não veria problema algum se ele estivesse no sábado das campeãs.

Um outro momento e esse é muito pessoal. A alegria, o colorido e a criatividade venceram nesse carnaval. E quando me emocionei tanto ao ouvir "A União voltou". Na gravação de sua faixa me emociono e agora como homenagem a quem me ensinou a fazer carnaval canta com muito alegria que "a União ficou". Só peço para União da Ilha que não esqueça seu passado de alegria, leveza e colorido e seja em 2011 tudo que fez ser uma das mais queridas escolas de samba do carnaval carioca.

Gostaria de encerrar falando da comissão de frente da Viradouro, mas deixarei esse papo para a nossa próxima coluna. Agradeço ao Carnaval Carioca por me dar esse presentaço de EMOÇÃO em 2010.

Um abraço aos amigos
Luiz Fernando Reis



Enredo é sempre polêmico

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 06/02/2010 17:36

Conversava com um grupo de amigos sobre as escolas do Grupo Especial e seus enredos para o próximo carnaval. E eis que o amigo Coriolano da Silva bradou em alto e bom som: Se a Beija-Flor não criticar o mar de lama político que se abateu sobre Brasília, ela irá perder décimos preciosos... Será que o amigo Coriolano está correto em sua afirmativa?

Na verdade, essa discussão  é antiga e bastante polêmica. O que é um enredo, como entendê-lo e consequentemente, como julgá-lo? O enredo é uma história ou tema a ser contado em versos, poesia, fantasia e alegoria. Esses quatro elementos, apesar de representarem quesitos diferentes irão ajudar em muito a compreensão do que é o enredo.

Vamos analisar alguns enredos do Grupo Especial e tentarmos clarear um pouco mais essa discussão. O enredo do Salgueiro "Histórias sem fim" fala sobre o livro. E esse enredo não é meu, não é seu e nem tampouco é do julgador. Esse é o enredo do Salgueiro, do Renato Lage e ninguém sabe mais do seu enredo que o próprio Renato e o Salgueiro. 

O enredo a ser julgado na avenida é o argumento apresentado no livreto "Abre-Alas". Será esse argumento que servirá de orientação para a compreensão e julgamento do enredo. Não cabe ao julgador ou mesmo a cada um de nós, questionarmos se esse ou aquele autor, esse ou aquele livro mereceria ser lembrado. Nós e nem os julgadores do quesito enredo somos autores do enredo salgueirense ou enredistas da academia, como dizem meus amigos porto-alegrenses. 

Por isso, analisar um enredo apenas pela ideia que ele nos transmite é um grave erro. Um enredo só poderá ser analisado convincentemente na avenida e devidamente acompanhado da leitura do texto apresentado como enredo ou tema. 

Vamos atravessar a Baía e aportarmos em São Gonçalo, em terras da Unidos do Porto da Pedra. O enredo para 2010 será "Com que roupa... eu vou ? Pro samba que você me convidou", de autoria do carnavalesco Paulo Menezes. Ele fala da moda e dos vestuários do homem. 

Na minha opinião, as vestimentas dos antigos Etruscos são fundamentais nesse enredo, mas se o Paulo Menezes não considerar isso, e é um direito dele e de sua escola, eu tenho que guardar e esquecer meus Etruscos. Eles não estão no enredo e não podem ser considerados na análise e nem no julgamento da escola. O que importa é o argumento e o enredo que a escola apresentar.

De São Gonçalo viajemos para Nilópolis e por lá encontraremos a Beija-Flor e seu enredo "Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília: do sonho à realidade, a capital da esperança", que comemora o cinqüentenário da capital federal Brasília. Com já vimos anteriormente o que importa é o argumento apresentado pelo carnavalesco Alexandre Louzada e a Comissão de Carnaval da Beija-Flor e não o que nós, em nosso enredo imaginarmos como o tema da escola nilopolitana. Portanto, o que cada um de nós, ou mesmo os julgadores imaginarem para o enredo da Beija-Flor será irrelevante e não poderá ser considerado. O que importa é o argumento apresentado pela escola e esse será o parâmetro para a análise e julgamento do quesito enredo.

Portanto, meu amigo Coriolano da Silva você está enganado. Não é o seu, não é o meu e nem será o enredo imaginado por cada um de nós, e incluo aí os julgadores do quesito, que será analisado. A análise será balizada pela argumentação apresentada pela Beija-Flor. Se nesse argumento não é citado a crise política de Brasília, se o samba enredo não o citou, não poderá ser penalizado a ausência dessa crítica política.

A exemplo do que vemos no futebol, onde cada um de nós tem sua seleção brasileira ideal, mas só a equipe do Dunga contará pontos e cabe a nós, no mínimo criticá-la, em enredo é a mesma coisa. Cada um tem o seu enredo na cabeça, mas só o oficial contará pontos e o que podemos fazer é criticá-lo extra oficialmente.

Deixo os parâmetros de julgamento de 2009 do quesito enredo para a recordação dos amigos. A discussão está aberta.

Um abraço
Luiz Fernando Reis
 
Enredo, em desfile de Escolas de Samba, é a criação e a apresentação artística de um tema ou conceito.

Para conceder notas de 08 à 10 pontos, o Julgador deverá  considerar:

O argumento ou tema, ou seja, a idéia básica apresentada pela escola;

O desenvolvimento geral do tema proposto:

- apresentação seqüencial das diversas partes (alas, alegorias, fantasias, etc.) que irá possibilitar o entendimento do tema ou argumento proposto, de acordo com o roteiro previamente fornecido pela Escola (Livro Abre-Alas);

- criatividade (não confundir com ineditismo);

- adaptação, ou seja, a capacidade de compreensão do enredo a partir da associação entre o Tema ou Argumento proposto e o seu desenvolvimento apresentado na Avenida (Fantasias, Alegorias e outros elementos plásticos).

Penalizar:

A troca de ordem e/ou a presença, em desfile, de Alegorias ou Alas que estejam em desacordo com o roteiro fornecido pela Escola;

A ausência de Alegorias ou Alas que estejam previstas no Roteiro fornecido pela Escola (Livro Abre-Alas).

Não levar em consideração:

a brasilidade do enredo, ou seja, se a Escola, por ventura, não apresentar enredo baseado em tema exclusivamente nacional;

a inclusão de qualquer tipo de merchandising (explícito ou implícito) em Enredos;

questões inerentes a quaisquer outros Quesitos.



Protótipos: ver ou não ver?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 27/10/2009 16:25

O falecido, e para mim, muito saudoso, presidente Fernando Leandro sempre colocava que a Caprichosos de Pilares foi a primeira escola de samba a fazer uma festa de apresentação de protótipos. Não tenho certeza disso e até gostaria de saber até onde é verdadeira essa afirmativa do presidente. 

Me lembro muito bem de algumas dessas festas, ora eu era o carnavalesco da escola, e quando não, lá estava eu como convidado. E realmente era uma festa muito bonita, a quadra sempre cheia, muito bem decorada, uma bela passarela central por onde desfilavam modelos previamente escolhidos e ensaiados. Era, sem sombra de dúvida, a maior festa da Caprichosos. Na verdade, o evento era organizado numa parceria entre a escola e, principalmente, pela diretoria das alas reunidas. Cada presidente de ala recebia cem convites, que seria a quantidade de seus componentes, revendiam e como isso bancavam o custo da festa e da confecção dos das fantasias piloto. Como carnavalesco tive a oportunidade de apresentar duas delas e confesso saudoso daquele tempo. 

Mas o carnaval mudou e mudou muito. O apego popular às escolas caiu muito, não falo do carinho e do amor pelas escolas e nem da apreciação de seus desfiles, falo da vontade de adquirir uma fantasia e desfilar numa escola. Isso sim, caiu muito, o povo perdeu o interesse pelas alas comerciais, seja porque as fantasias cresceram muito em tamanho e consequentemente em preço e o componente começou a pagar caro para carregar nos ombros e cabeças verdadeiras alegorias. As direções de harmonia, e nem as culpo por isso, começaram a exigir mais e mais de componentes que pagavam, e caro, por suas fantasias. Isso acabou afastando em muito o componente pagante. Isso merece um debate exclusivo de como esse processo se desenvolveu.

Com todo esse quadro formado, as escolas de samba se viram na obrigação de convocar a até então esquecida e abandonada comunidade. E essa coisa de se imaginar que as escolas a elas se curvaram por agradecimento é historinha para boi dormir. A valorização das comunidades acontece no exato momento em que começaram a faltar os componentes pagantes e a verba vinda da Liesa já comportava esse patrocínio comunitário. Assim, começou essa valorização das comunidades, não por merecimento delas, mas por real necessidade de componentes.

E o amigo deve estar se perguntando: Aonde o Luiz Fernando quer chegar com esse papo de comunidade, alas comerciais e componentes? Quero chegar no assunto protótipos. Se antes essa festa precisava ser pública para a divulgação das fantasias da escola para o mercado consumidor (leia-se componente pagante), hoje em dia, isso não é mais necessário. Já não precisamos expor, como numa vitrine, o nosso produto.

Será que vale mesmo a pena expor todas as fantasias de uma escola de samba, ou apenas algumas delas, para todo o público? Será interessante expor fantasias e se expor às críticas contundentes que virão depois de suas apresentações? E muitas delas serão críticas infundadas, sem conhecimento de causa, de estilo e de enredo. Serão apenas críticas vazias e destrutivas. 

Se acessarmos aqui no Carnavalesco a página de apresentação dos protótipos da Grande Rio perceberemos críticas e mais críticas, sobretudo, destrutivas. Vale a pena passar por isso?

Esse negócio de mostrar ou não mostrar protótipos é uma coisa complicada, e se antes eu percebia nessa festa um bom momento de divulgação de um enredo, de um carnaval e de suas fantasias, hoje, eu vejo como um desgaste desnecessário. Nunca serei contra a apresentação das fantasias para o corpo de uma escola, para seus componentes e dirigentes, mas na conjuntura atual sou contra a sua apresentação pública.

Por isso, parabenizo Tijuca, Vila Isabel e Beija-Flor que compreenderam que seu trabalho somente a elas interessa nesse momento. A nós, críticos de toda hora, aguardemos o desfile, lá poderemos externar nossa opinião.

O amigo colunista Eugênio Leal já disse tudo, só me resta concordar em gênero, número e grau com a sua matéria sobre o sambaço que a Vila Isabel vai apresentar nessa ano. Parabéns, Martinho da Vila. Parabéns, Vila Isabel. Noel Rosa merecia essa homenagem e melhor ainda quando emoldurada por esse samba que deve fazer a diferença esse ano.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Descartar notas é o grande erro

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 12/09/2009 14:45

Até uns dois anos atrás, eu me incluía na listagem dos defensores do descarte de notas para a classificação das escolas de samba nos desfiles do carnaval carioca. Sempre me pareceu que igualava mais as escolas, deixando-as com pontuações niveladas, evitava uma possível desonestidade, ou mesmo, má vontade de algum julgador para com esta ou aquela escola. Reconhecia que aumentava muito as possibilidades de empate na classificação das escolas. Mas, ainda assim, defendia o descarte como o grande justiceiro dos desfiles.

Mas como sempre coloco por aqui, de que em samba, ou em qualquer coisa dessa vida, não existe a verdade absoluta, um dia a gente cai na real e repensa alguns dos conceitos. E foi assim que num bate papo com o meu amigo e padrinho, afinal, foi ele que me indicou para o site Carnavalesco, Eugênio Leal, em um debate sobre o assunto, ele me alertou para o fato do descarte perdoar erros graves que numa competição nos moldes dos desfiles de escolas de samba se torna inadmissível.

Tentei retrucar e defender minha ideia, mas ao fim de longos 43,5 segundos dei o braço a torcer e passei a não mais aceitar o descarte de notas para os desfiles de nosso carnaval. Pensemos um pouco mais sobre isso. O carnaval atual é muito igual para todas as escolas. O lado financeiro de cada uma delas passa de 3,5 milhões e isso iguala os orçamentos e a qualidade dos desfiles. Mas se precisamos classificá-las, necessitamos de seus pequenos deslizes para diferenciá-las e é justamente essa diferença que o descarte elimina.

Se uma porta-bandeira cai em frente a um módulo de julgamento, ela perderá décimos que o descarte eliminará. Se a coreografia de uma comissão de frente der tudo errado o julgador tirará décimos que o descarte esquecerá. Se uma bateria se apresentar de forma impecável, emocionante e espetacular o descarte não levará essa apresentação em conta.

Imaginemos, agora, uma escola que evoluiu perfeitamente, e por isso, mereceu quatro notas dez no quesito evolução e uma outra errou muito no primeiro módulo e recebeu 8.8, melhorou um pouco e teve 9.7 no segundo módulo e quando acertou seu desfile teve duas notas dez. A primeira escola teve um desempenho perfeito e mereceu os 40 pontos, a segunda escola que acertadamente foi punida e, por isso, recebeu 28,5, com a queda da maior e da menor nota ela passa a ter 19.7 e a escola perfeita teve, com os descartes, 20 pontos. Será justo diferenciarmos esses dois desfiles, tão distintos, em apenas 3 décimos? Com o descarte nós aproximamos muito os dois desfiles, que na realidade foram diferentes em 15 décimos, mas o regulamento jogou fora 12 décimos dessa diferença.

Imaginemos, agora, uma situação possível e inusitada. A bateria de uma determinada escola atravessa o ritmo, embolando sons e vozes de uma maneira inacreditável e é punida pelo julgador do primeiro módulo com a nota mínima 8.0. A partir daí, a escola acerta e crava a nota máxima em todos os demais quesitos e módulos. Com o descarte dessa nota desastrosa a escola será a campeã do carnaval. Será justo perdoarmos um erro tão grave?

Como muito bem colocou o amigo Jorjão, Jorge Mendes Carneiro, também colunista de nosso site, e como eu fundador da Velha Guarda da premiação Samba Net, (risos) o descarte de notas se justifica em modalidades olímpicas, onde o corpo de julgadores vê a mesma apresentação do atleta (s) competidor (es) e aí os exageros para mais e para menos são eliminados. No entanto, em apresentações distintas e feitas para julgadores distintos o descarte me parece sem lógica e prejudicial para qualidade do espetáculo.

E sem querer me alongar mais: A regulamentação do descarte pune o espetáculo quando descarta a maior nota dada num quesito, ou seja, não pontua o melhor momento daquela escola naquele quesito e piora ainda mais as coisas quando não pune o pior momento de uma escola num certo quesito.

Nessa, eu estou contigo Eugênio Leal. O descarte de notas será o grande erro do próximo carnaval. E já que estou numa maré de concordar com tudo. Vou concordar com os elogios do Eugênio ao samba do Martinho da Vila. Que samba é aquele? Não me canso de ouvir e aplaudir. Não será um épico, até por que merece pequenos ajustes, mas será muito gostoso ouvir esse samba cantando Noel na Avenida. Bom. Assim espero.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Baianas não se julga

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 24/08/2009 15:45

Muitas vezes me sentei à frente do computador, na verdade, não é bem por aí a história. Eu estou sempre à frente de um computador e muitas vezes abri meu editor de texto para escrever uma matéria nova para o Carnavalesco e quando abro, me deparo com mais uma tonelada de sambas- enredo: Ouça 89 sambas da Acadêmicos de não sei lá o que, ouça 42 sambas da Unidos do Coqueiral e 73 sambas da União da Vila São Thomas... E como o papo é ouvir sambas, fecho meu editor de textos e adio a minha matéria. Cansado de tanto adiar e já com receio do Alberto João me chamar à atenção (essa foi pra rimar e entrar no clima) aí vai a matéria.

Que os amigos me perdoem a sinceridade. Eu fujo como um evangélico radical dessa tarefa de ouvir tanto samba-enredo e cá entre nós alguns deles nem mereciam ser assim denominados. Tem coisa muito ruim a nossa disposição. A volumosa produção de sambas continua carecendo de maior qualidade e eu que sempre achei que numa safra de sambas, apenas 30% deles mereciam audição, hoje em dia, só me contento com 20% deles para uma audição preliminar e desses já descarto quase a metade. Não sei se a idade está me deixando mais exigente e me fazendo mais chato e ranzinza, mas tá feia a coisa... Como o amigo Eugênio Leal adora essa tarefa, é com muito prazer que deixo para ele essa laboriosa e pra mim nada agradável atividade de analisar sambas concorrentes. Boa Sorte Eugênio.

E já que me lembrei do Eugênio, o orkut me lembrou de seu aniversário nesse mês de agosto e cavucando na internet descobri uma matéria que gostaria de com ela presenteá-lo. E não será apenas um presente, será também um convite para um bom debate sobre esse tema. 

Matéria Publicada no Caderno B do Jornal do Brasil numa 6ª feira, dia 24 de Agosto de 1962, há exatamente 47 anos atrás. O relato do pesquisador José Ramos Tinhorão é extenso, mas de excelente conteúdo. Vale a pena lê-lo. 

José Ramos Tinhorão

"A primeira vez que alguém se dirigiu a um público de nível universitário para falar de samba foi em 1951, durante o 1º Congresso Brasileiro de Folclore, realizado aqui no Rio, por coincidência também num mês de agosto.
  
Por essa época o fenômeno da música popular urbana do Rio de Janeiro começava a interessar aos folcloristas, que acertaram em cheio ao convidar para uma palestra o radialista e autodidata Henrique Foréis, o conhecido Almirante, considerado a maior patente do rádio"...
  
...Agora, 11 anos passados, quando me cabe a honra de vir aqui, nesta Faculdade que freqüentei como aluno, para retomar um tema de certa maneira caído no vazio há uma década, não quis deixar de trazer ao menos um dos artistas que contribuíram para o sucesso daquela conferência de Almirante, e que representa pessoalmente — como todos verão — um pouco da história do samba no Rio de Janeiro — Heitor dos Prazeres... 

... No que se refere à criação do samba, essa resposta ainda não foi dada. E é por faltar essa resposta que até hoje o comum das pessoas acredita, por exemplo, que o samba nasceu no morro. Heitor dos Prazeres, que já era gente quando o samba apareceu, sabe que isso não é verdade. 
 
A criação do samba, no Rio de Janeiro, deu-se numa área da Cidade claramente delimitada, num tempo perfeitamente localizado, e por efeito de uma série de contingências de caráter econômico-social, que agora procuraremos expor.
  
Era no início do século. A libertação dos escravos, pouco mais de 10 anos antes, havia liberado numerosa mão-de-obra no momento em que se iniciava um rápido processo de urbanização nas principais cidades do litoral. Esses antigos escravos — trabalhadores do eito, artífices e empregados domésticos — viriam engrossar as camadas populares do Rio de Janeiro e fazer transbordar o estreito quadro social herdado do Império.

Os morros, até então, ainda não eram habitados pela maioria da população pobre, como hoje. O Morro da Mangueira, por exemplo, que era o antigo Morro do Telégrafo, permaneceu um extenso matagal até o início do século, e a fama dos seus ares era tal que os contemporâneos o conheciam, popularmente, como Petrópolis dos pobres. Seus primeiros barracos seriam construídos apenas em 1916, quando um incêndio no Morro de Santo Antônio obrigou a dezenas de famílias a mudarem-se para aquele arrabalde.
  
Assim, pode-se afirmar que o grosso da população vivia já nos subúrbios, que começavam a crescer, ou para os lados de São Cristóvão, ao Norte, Catete e Botafogo, ao Sul, e, principalmente, no Centro, na chamada Cidade Nova.
  
A Cidade Nova abrangia a vasta área urbana compreendida pelas dezenas de ruas situadas onde hoje passa a Avenida Presidente Vargas, e cujos limites extremos confinavam com a zona do Porto, com o Morro de São Diogo, com o Canal do Mangue e o Estácio.
  
É isso, desde logo, que explica o renome da Praça XI, que nada mais era, no inicio do século, do que um extenso gramado situado entre as Ruas Visconde de Itaúna, Senador Eusébio, Santana e Marquês de Pombal, com um chafariz desenhado por Grandjean de Montigny no centro, e onde, durante o carnaval, se encontravam os cordões que vinham da Zona Sul e da Zona Norte para as disputas que terminavam, invariàvelmente, em brigas memoráveis.
  
Pois foi por essa época, dentro desse acanhado quadro urbano, que um pequeno fato nascido de um episódio histórico alheio à cidade viria provocar o surgimento de um novo componente social destinado a resultar, nada mais nada menos, do que no aparecimento de um gênero novo de música popular — o samba — e no batismo dos nascentes barracos dos morros com o nome de favela. 

Não se deve depreender, diante disso, que não existissem alguns barracos começando a trepar pelos morros, ou que o ritmo do samba não andasse já insinuado em uma ou outra composição da época, rotulado de polca ou maxixe.
  
O que se quer dizer é que, em dado momento, nos primeiros anos do século, um terminado processo de reestruturação da paisagem urbana deu lugar à tomada de consciência do fenômeno dos barracos de morro como um fato novo, da mesma forma que, como resultado da contribuição cultural de um grupamento humano estranho, que se vinha radicar na Cidade, se tomaria consciência, de repente, do aparecimento de uma toada que já não era mais a da polca, do tanguinho ou do maxixe.
  
Pois, que momento foi esse, e que grupamento humano estranho à cidade foi esse? 
Foi exatamente a partir de 1897, quando o Exército, após a suada derrota dos fanáticos de Antônio Conselheiro, em Canudos, na região da Serra da Favela — vejam lá o nome — resolveu regressar com seus batalhões, permitindo aos soldados que trouxessem na sua companhia as mulheres que haviam conquistado, à margem da vitória.

Ora, como os batalhões foram recolhidos aos quartéis situados onde existe até hoje o Ministério da Guerra, as mulheres dos soldados procuraram estabelecer-se o mais perto possível dos seus maridos — digamos assim — iniciando-se, então, a construção apressada do núcleo de barracos destinados a ocupar gradualmente os morros de São Diogo, da Providência — onde já havia numerosa população — e do Livramento.

Esse contingente de baianas, que se vinha juntar aos muitos conterrâneos que havia anos, chegavam em levas, fugindo ao empobrecimento da Bahia, atraídos pelas oportunidades de trabalho nos cafezais fluminenses, era constituído por crioulas e mulatas belíssimas, a que deu oportunidade — segundo testemunho de Donga a muitos dramas passionais.
 
Assim, como o Morro de São Diogo, com o seu alto platô descampado, lembrava muito aos soldados o Morro da Favela, de onde viam, em baixo, o casario de Canudos começarem a chamar o morro de Favela. Foi o quanto bastou para que o povo, que desconhecia o toponímicos, entendesse por gente da Favela a gente que ocupava os barracos do Morro de São Diogo, passando favela a designar o amontoado das habitações.

No tempo em que as baianas eram baianas já havia samba antes do samba 
 
O fato é que, tão logo se viram estabelecidas no morro, as baianas passaram a ter um ideal: deixar os barracos desconfortáveis e mudarem-se para a Cidade Nova, que se estendia, embaixo, na planície, cortada pelo intrincado das ruas estreitas que tinham na Praça Onze o grande respiradouro. 
 
A partir desse momento, e dentro de uma seleção estabelecida estritamente pelo critério de possibilidades econômicas, as velhas casas com quintal de ruas como São Domingos, Luís de Camões, Visconde de Itaúna, General Câmara, Alfândega, Senador Pompeu, Barão de São Félix, e outras adjacentes, começaram a ser ocupadas por aquelas alegres baianas, mulheres dos antigos soldados, agora devolvidos na sua maioria à antiga atividade, isto é, à mais absoluta inatividade. 
 
E é aqui que cabe, desde logo, uma primeira observação muito interessante, do ponto-de-vista sociológico: o recrutamento dos soldados para Canudos fora feito mais ou menos a laço, completando-se os batalhões com centenas de bambas das próprias imediações da Cidade Nova, principalmente da Saúde, que era o seu reduto principal. É isto que explica, desde logo, o fato de as baianas, na sua maioria ótimas doceiras, terem ficado com o encargo econômico da família, passando a tal ponto para o primeiro plano do casal, que os seus maridos e amantes eram conhecidos por apelidos como Chico da Baiana, Dudu da Hortência, Didi da Gracinda — o genitivo fazendo a devida honra à superioridade das mulheres. Quando se dava o exemplo contrário, quando por qualquer razão o homem se sobrepunha à companheira, então eram os casos mais raros da Alzira do Habitaó, da Joana de Paçu ou da Carmem do Chibuca, caso este em que funcionava a importância resultante da hierarquia: o Chibuca era Capitão.
  
O certo é que, fixando residência na Cidade Nova, essas baianas vinham engrossar, com suas saias de renda, seus panos nas costas e suas sandálias, o contingente das baianas chegadas ao Rio nos últimos 30 anos, via Seu Miguel, uma espécie de cônsul da Bahia na Cidade Nova, pois era na sua casa que a maioria das famílias se alojava, até encontrar residência própria.

Mais dos que os homens, foram essas mulheres baianas que contribuíram para a conjugação de fatores que levaria ao aparecimento de um gênero novo de música popular, o samba, e de uma estilização do velho entrudo que seria o ponto de partida para aquilo que carnaval carioca, tantos anos depois, ainda conserva de mais característico: as escolas de samba.
  
Iniciadas nos segredos do candomblé, cujos pontos sempre foram um dos mais ricos filões para os músicos populares, essas baianas eram todas também grandes festeiras, tendo sido na casa de uma delas, Tia Dadá, moradora na Pedra do Sal, na Saúde (onde hoje está o edifício dos Diários Associados) que o compositor Caninha ouviu pela primeira vez falar em samba-raiado — o samba de partido alto.
  
E não se pense que se está exagerando aqui o papel dessas baianas pioneiras, apenas para justificar uma tese. A memória dos velhos sambistas, que estão aí para dar o testemunho do nascimento do samba, guarda ainda os nomes de dezenas dessas mulheres, que eram, respeitosamente conhecidas por tias: Tia Teresa, também conhecida por Tetéia, da Rua Luís de Camões, Tia Gracinda e Tia Bibiana, de São Domingos, Tia Amélia, mãe de Donga — até hoje grande dançador de partido alto — Tia Presciliana, de Santo Amaro, mãe de João da Baiana — especialista em pontos de macumba — e Tia Tomásia — posterior organizadora de blocos no Morro da Mangueira — das Ruas Senador Pompeu, Barão de São Félix e adjacentes.
  
Pois seria aí na Cidade Nova, na casa de uma dessas baianas — exatamente a mais famosa de todas, a Tia Ciata — que, afinal, viria a ganhar forma o samba destinado a ser, quase simultaneamente, do morro e da Cidade.
 
Tia Ciata, a Sra. Hilária Batista de Almeida, que, ao vir da Bahia, morara inicialmente nas Ruas General Câmara e Alfândega, fixara-se no fim do século na Rua Visconde de Itaúna, 117 — próximo da Praça Onze — em um casarão de seis quartos, longo corredor e quintal, onde residiria quase meio século na companhia do médico João Batista da Silva, que chegaria a oficial de gabinete do Chefe de Polícia, ao tempo de Venceslau Brás, e a quem ela daria, a par de outras alegrias, nada menos de 26 filhos.
  
E aqui é que entra, afinal, a participação do nosso Heitor dos Prazeres. Como todos podem ver, Heitor não é exatamente um velho, mas já era mais do que um menino quando, por volta de 1915, as festas na casa da famosa doceira Tia Ciata estavam no auge da moda. Não havia um único boêmio, cantor, músico ou compositor da época que não conhecesse a Tia Ciata e não lhe freqüentasse a casa. Nas festas em que a cachaça rolava ao ponto de o abacateiro do quintal andar sempre pelado — tantas eram as folhas que lhe arrancavam para fazer chá de curar bebedeira — podiam ser encontrados os maiorais da época: José Barbosa da Silva, o Sinhô, José Luís de Morais, o Caninha, Marinho Que Toca (realmente grande tocador de cavaquinho, e adaptador, para o instrumento, de uma batida, de samba), além de vários outros, como Ernesto Santos, o velho Donga, Buci Moreira, João da Baiana, Getúlio da Praia, Pixinguinha e o próprio Heitor dos Prazeres, aqui presente...".


Te mando esse presente Eugênio para mostrar minha posição sobre o novo quesito criado no Grupo Rio de janeiro I. Sou e sempre serei contrário ao quesito baianas. Baiana não se julga, se reverencia e admira. Baiana não se avalia e nem se pondera. Nos curvamos em sinal de respeito e carinho. Afinal, foram elas essas nossas queridas tias, que nos relegaram esse tesouro precioso chamado samba.

E ao serem avaliadas, nós diretores de harmonia e evolução seremos obrigados a avaliarmos sua idade, evolução e desenvoltura e nos veremos obrigados a substituí-las por baianas mais jovens que cantem e evoluam com mais ímpeto e disposição e não comprometam as notas de um quesito. E aos poucos as velhas tias baianas serão apenas lembranças na Velha Guarda, até que um dia alguma sapiência do samba não decida por julga-los também.

Tem coisas no mundo do samba que não podem ser julgadas. Baianas e Velha-Guarda são duas delas.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Vamos debater o estilo das escolas?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 30/07/2009 17:03

Quando comecei no carnaval a internet nem era um sonho e ainda ensaiava seus primeiros passos nas universidades americanas. Com a chegada da grande rede ao nosso convívio procurei me adaptar à nova realidade. E como poderia um internauta calouro saber de sua paixão - o samba, conectado a um daqueles PCs antigos com conexão ainda discada? 

Eram pouquíssimos os sites especializados em samba e não me recordo de nenhum exclusivo no contexto das escolas de samba. O meu encontro com as escolas de samba aconteceu nas listas de discussões, que são fóruns onde se debatem assuntos pertinentes a um mesmo tema e no meu caso a busca foi por listas que falassem e discutissem carnaval.

E foi assim que aliei o samba com a internet e sei que esse foi o caminho seguido por tantos outros amigos amantes de carnaval. Esse casamento foi tão sério que meus amigos mais próximos todos foram inicialmente amigos virtuais, conhecidos nos fóruns de e-mails. Inclusive, a premiação SambaNet nasceu nesse ambiente internet carnaval. E nesse ambiente das listas de discussão a gente aprende a debater e a trocar idéias. Aprende a mudar ou aprimorar seus conceitos, muda ou melhora os conceitos alheios. E nessa interação diária a gente acaba aprendendo muito, no entanto, a grande lição que todos dela tiramos é a de reconhecer a importância de um debate sadio onde aprendemos e ensinamos.

E essa breve introdução é para responder e propor um debate para o amigo e colunista Walter Nicolau sobre sua última matéria. "Escola de samba tem estilo?" 

E respondo que escola de samba tem estilo, cara e característica, mas nem todas. Algumas ainda não encontraram sua personalidade e ainda procurando essa essência personificadora. E sem querer ser corporativista vou afirmar sem medo de errar. Quem define as características de uma escola de samba é o profissional carnavalesco. É ele que chega na escola e trás consigo seu estilo de fazer carnaval e se tudo der certo a comunidade da escola entende que esse deve ser o estilo a ser seguido. É sempre bom recordarmos que comunidade nesse caso não é sinônimo de vizinhança, e sim, do povo que vive a escola, seja ele vizinho ou não da agremiação. E esse sucesso não quer dizer campeonato, quer dizer um bom resultado aceito pela escola e elogiado pela mídia. É assim que vejo o nascimento do estilo de uma escola.

Quando Fernando Pamplona chega ao Salgueiro e impõe seu estilo de fazer carnaval os resultados aparecem e a comunidade referenda esse como sendo o estilo da Academia do Samba. 

Quando João Jorge Trinta se transfere para a Beija-Flor, ele leva seu estilo, um pouco do que aprendera com Pamplona e acrescenta mais luxo e requinte e esse é ainda hoje o estilo Beija-Flor de fazer carnaval. 

Quando Maria Augusta, também aprendiz de Fernando Pamplona, atravessa o mar e vai fazer carnaval na União da Ilha, ela leva um pouco do estilo Salgueiro e pela falta de maiores recursos financeiros da escola insulana dá-lhe um toque mais alegre, solto e colorido e cria o famoso BBB do Bem - Bom, Bonito e Barato. 

Quando a dupla Carlinhos de Andrade e Roberto Costa chega na São Clemente, na época, ainda sem um estilo próprio, a temática alegre, colorida, descontraída e social passa a ser seu estilo de carnaval. E até hoje a gente cobra essa característica em seus enredos.

Quando este amigo, Luiz Fernando Reis chega na Caprichosos de Pilares, uma escola ainda sem definição clara de estilo, segue a linha de Maria Augusta e acrescenta uma toque político, crítico e irreverente à escola e esse torna-se o estilo Caprichosos de fazer carnaval. E essa coisa de estilo é tão séria que o talentoso carnavalesco Renato Lage adapta um pouco seu modo de fazer carnaval para se adaptar ao jeito Caprichoso de desfilar.

E esse mesmo Renato Lage criou um estilo vitorioso na Mocidade Independente de Padre Miguel e até hoje cobramos isso da verde e branco da Zona Oeste.

Tenho duas experiências nessa coisa de personalidade de escolas que gostaria de externar para os amigos. A primeira se deu na Imperatriz Leopoldinense no carnaval de 1989. 

O patrono Luiz Pacheco Drummond se desgastou muito com o carnaval anterior do grande Arlindo Rodrigues e preferiu se afastar um pouco da escola. Formou-se uma comissão dirigente formada por quatro diretores que me convidaram para tocar o carnaval da escola e me solicitaram que desse continuidade ao meu estilo Caprichosos de fazer carnaval, afinal, Luizinho se afastara e não haveriam grandes recursos financeiros para fazer valer o estilo Arlindo Rodrigues.

Se a empreitada tivesse dado certo quem sabe se a Imperatriz não teria um novo estilo de carnaval, mas como a coisa degringolou e não deu certo prevaleceu a cara da Imperatriz de Arlindo e no ano seguinte o carnavalesco Max Lopes segue o mestre e torna-se o grande campeão com o Liberdade Liberdade. E o povo gresilense que nunca engoliu muito essa coisa de enredo leve, solto e descontraído engajou-se definitivamente na linha Arlindo Rodrigues de fazer carnaval. E o talento de Rosa Magalhães deu continuidade e consolidou de vez a cara da Imperatriz Leopoldinense.

No ano seguinte acontece a minha segunda experiência no tema estilo de carnaval. Fui convidado e, sem pensar muito, aceitei ser carnavalesco do Acadêmicos do Salgueiro, em parceria com meu amigo Flávio Tavares. E vínhamos de experiências leves, críticas e descontraídas tanto na Caprichosos, como na Imperatriz e me lembro com se fosse hoje o conselho que nos foi dado pelo patrono Miro Garcia:

"Olha aí meninos, isso aqui é Salgueiro e aqui não tem essa coisa de fantasia de crepon ou cetim e de escola colorida não. Aqui tem que ter luxo e muito vermelho e branco. O Salgueiro é escola pra ganhar o carnaval".

E como "manda quem pode, obedece quem tem juízo". Lá se foi o nosso estilo de fazer carnaval e nos adequamos à realidade salgueirense, pesquisamos muito, compramos uma coleção de revistas antigas de carnaval e acho que aprendemos um pouco da personalidade dos Acadêmicos do Salgueiro em fazer carnaval.

Mas nem só dos talentos dos carnavalescos nascem as características e caras de nossas escolas. As vozes de nossos intérpretes também entram nos estilos de cada uma delas. Quem imagina a Beija Flor sem a voz do Neguinho? Quem imagina o Salgueiro sem o irreverente Quinho? Quem não sente saudades do Carlinhos de Pilares e do Jackson Martins nos sambas da Caprichosos? de Dominguinhos nos sambas da Viradouro, do Aroldo Melodia na Ilha do Governador, do Nei Viana na Mocidade?

Em menor proporção, os casais de mestre-sala e porta-bandeira e os diretores de carnaval deixam marcas fundamentais em suas escolas. Ver a Beija Flor sem o Laíla e a Imperatriz sem o Wagner é preocupante. Ver a dupla Claudinho e Selminha fora da Beija-Flor é impensável. E a gente que gosta desse troço chamado carnaval vai lembrar um pouco da Mangueira quando Marquinhos e Giovanna tirarem seus "dez" pela Unidos da Tijuca.

E eu que cheguei querendo debater com o amigo Walter Nicolau acabei reforçando sua matéria e convido os amigos a debatermos um pouco mais desse assunto

Um abraço com o estilo do carnaval carioca
Luiz Fernando Reis



Qual o motivo do sorteio?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 02/07/2009 16:02

Qualquer semelhança dessa matéria com a matéria publicada nesse mesmo período do ano passado não será mera coincidência. Será intencional. E não é por falta de assunto, apenas acredito de verdade nessa minha proposta. Como o mundo do samba reedita sambas-enredo, permito reeditar essa matéria fazendo as devidas correções.

Sorteio depende de sorte e como sorte nunca foi o meu forte, nunca gostei desse tipo de seleção. Se eu peço par dá ímpar, se eu peço ímpar dá par. Se na roleta escolho preto dá vermelho, se escolho vermelho dá preto. Enfim, eu sou um autêntico exemplar de azarado.

Qual o motivo da sorte ser o orientador da ordem de desfiles? Se esse espetáculo depende de talento, de samba, de ritmo, de beleza, bom gosto e criatividade, porque a sorte deve influenciá-lo? Com certeza, ela acaba por influenciá-lo. 

Eu nunca vi uma escola de samba escolher seu mestre-sala ou sua porta-bandeira por sorteio. Nunca um carnavalesco escolhido com mão no saco. Também nunca vi um samba-enredo ser escolhido por sorteio. A escolha sempre leva em consideração o talento e o desempenho do profissional. E no caso do samba-enredo o que melhor se adaptar ao desfile da escola. E porque devemos sortear a ordem de nossos desfiles?

E porque não podemos premiar o desempenho das escolas do ano anterior como o grande parâmetro para a escolha da ordem de desfiles? Não precisamos de sorteio algum. As próprias escolas, a partir de critérios, por elas mesmas determinados, escolherão suas ordens de desfiles.

Criei para o Grupo Especial um critério, que em nenhum momento se propõe a ser o correto, o verdadeiro ou o ideal, apenas o utilizarei para mostrar como os sorteios me parecem totalmente desnecessários. 

A primeira escola a escolher sua posição de desfile seria a campeã do Grupo Especial do ano anterior. Neste caso, seria a Acadêmicos do Salgueiro a primeira escola a escolher sua posição e seu dia de desfile. Imaginemos que a escola tijucana escolhesse a segunda-feira e sendo a quarta escola a desfilar.

A segunda escola a escolher sua posição seria a vice-campeã do ano anterior. E nesse ano seria a Beija-Flor a fazer a segunda escolha. Imaginemos que a escola de Nilópolis preferisse também a segunda-feira, mas não colada na campeã Salgueiro e optasse por ser a sexta escola a desfilar no último dia de carnaval.

E nesse momento entraria em cena uma regulamentação específica para esse tipo de escolha: A diferença entre a quantidade de escolas de um dia e de outro nunca poderá ser maior que dois. Com isso, a terceira colocada no ano anterior, em nosso exemplo, a Portela teria que, obrigatoriamente, escolher o domingo como seu dia de desfile. Isso faz com que haja um maior equilíbrio entre os dois dias de desfile. Vamos supor que a Portela escolhesse a quarta posição de domingo de carnaval.

A quarta escola a escolher sua posição seria a quarta colocada do Especial do ano anterior. E nesse caso seria a Unidos de Vila Isabel. Como a diferença entre as quantidades de escolas de um dia e outro é agora de 1, a escola do bairro de Noel poderia escolher qualquer um dos dois dias de desfile. Se ela escolher desfilar na segunda, ele enfrentará num mesmo dia a campeã e a vice do ano anterior e isso pode não ser muito interessante. Se preferir o Domingo, lá estará a terceira colocada, Portela. E aí me parece uma situação bastante interessante: a escola determinará, independente da sorte, uma estratégia de desfile. Enfrentar as duas melhores colocadas no ano anterior num dia aparentemente melhor - a segunda-feira ou em um dia considerando mais fraco, mas enfrentando diretamente a terceira colocada no ano anterior. Considero essa escolha de estratégia muito salutar para o mundo do samba.

E assim continuaria nossa escolha, sempre respeitando que a diferença entre as quantidades de escolas de um dia e outro nunca ultrapasse o valor 2, sempre seguindo a ordem de classificação do ano anterior.

A última escola a escolher seria, nesse caso, a Mocidade, penúltima colocada em 2009. Restando para a campeã do Grupo A, em 2009, a União da Ilha a derradeira vaga na ordem de desfile.

Aparentemente essa forma de escolha parece ser complicada, mas aos poucos o seu entendimento acontecerá e deixaremos de ter o sorteio também no Grupo Especial.

Mas uma coisa merece ser elogiada no critério de sorteio da LIESA, ela tenta equilibrar as escolas de uma maneira bastante eficiente e, de certa maneira, tem conseguido isso com os pares equilibrados de escolas. Outra novidade que merece nosso elogio no sorteio desse ano foi a determinação de que escolas de grandes torcidas fechassem os desfiles de domingo e segunda. Nada mais triste para um sambista que desfilar para um público pequeno.

Mas faço uma crítica para LIESA. E isso ficou bem claro nessa minha proposta de extinção dos sorteios. Lamentei muito o fato da campeã de 2009, o Salgueiro, não ter sido privilegiado com a escolha de seu dia e horário de desfile. Ela e toda escola campeã merece essa premiação extra.

Mas uma coisa continua me entristecendo. Essa festa não poderia ser fechada, ela poderia e deveria ser aberta ao público, não na Cidade do Samba, mas na Apoteose, por exemplo. E como encerramento da festa uma grande noite de samba para todos nós, pobres sambistas.

Um abraço reeditado
Luiz Fernando Reis



O que é um enredo?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 23/06/2009 18:48

Preferia estar falando um pouco sobre um quesito muito desvalorizado ultimamente - o quesito conjunto. Na minha opinião é esse, talvez, o mais importante dos quesitos em julgamento num desfile de escolas de samba. Mas, como o assunto do momento é enredo, vamos papear um pouco sobre ele. O quesito conjunto pode esperar algumas semanas a mais.

Antes de mais nada, gostaria de deixar bem claro que não estarei ensinando o que é o enredo, até por que não sinto gabaritado para tal, mas como já coloquei quase quarenta enredos na avenida, posso dar esse pontapé inicial para um salutar debate sobre esse assunto fundamental numa escola de samba. 

Por isso, peço aos amigos que não vejam a verdade absoluta no que colocarei. Serão apenas minhas impressões sobre enredo, com um bom respaldo de experiência, mas nada que vá muito além disso. A participação dos amigos comentaristas será muito proveitosa para todos nós.

Os enredos podem seguir dois caminhos bastante distintos. Eles podem ser temas enredos ou simplesmente temas. Nos carnavais de outrora, os enredos eram quase sempre temas enredo, eram históricos, fielmente descritivos e cronologicamente montados. Nos carnavais atuais, os temas são bem mais frequentes. Os enredos deixaram de ser históricos nesse visão cronológica que eles tinham e passaram a ser bem mais interpretativos. Mas a coisa não é tão simples assim, muitas vezes não sabemos definir se um enredo é um tema enredo ou simplesmente um tema, por exemplo, em alguns enredos: O Domingo da talentosa Maria Augusta claramente foi um tema, O Descobrimento do Brasil do Mestre Arlindo Rodrigues foi um tema enredo. Chica da Silva do grande Fernando Pamplona foi um tema enredo, Tambor do grande campeão Renato Lage foi um tema. Ratos e Urubus do Mestre João Jorge Trinta foi um tema fantástico. E o inesquecível Fernando Pinto nos brindou com o maravilhoso tema,  Tupinicópolis. Mas tentem os amigos diferenciar outros enredos que a coisa complica um pouco.

Mas esqueçamos um pouco esse classificar de enredos e conversemos mais sobre ele. Todo enredo, é claro, nasce de uma idéia. E de preferência uma boa idéia e se for inédita, melhor ainda.

Estamos falando de carnaval e uma temática triste, pesada ou mórbida não combinará muito com ele. 

Desde que acompanho carnaval e nisso já se vão quase meio século, nem sempre uma boa idéia se transforma num bom enredo. Eu já vi idéias brilhantes se transformarem em enredos medíocres e já vi, também, idéias apenas razoáveis se transformarem em enredos inesquecíveis. Já vi ideias não inéditas se transformarem em enredos bem melhores que o original e vice-versa também.

O que faz uma boa idéia se transformar num belo enredo é o seu desenvolvimento, mas para isso é necessário que essa idéia permita a criação de belas, adequadas e diferentes fantasias e de bonitas, pertinentes e variadas alegorias, além, é claro, e fundamentalmente, de um belo samba-enredo. Com isso, entendo que uma idéia necessita de quatro fundamentos para se transformar num bom enredo:

1 - Desenvolvimento em alas e alegorias. 

Muitas vezes um tema é pequeno e limitado e para isso precisamos viajar um pouco na maionese, ou seja, acrescentar desvios que nos permitam uma melhor plástica para o desenvolvimento, e aí mora o perigo. Se exagerarmos na dose perderemos o rumo do tema e o retorno a ele nem sempre será natural. Sonhar demais pode deturpar por completo um enredo e ferir seu caminhar natural. A transição entre alas precisa ser sequencial, uma mudança brusca de estilos, época ou cores pode macular sem retorno um bom desenvolvimento. O mesmo conselho vai para a transição de alas e alegorias. Se uma ala não complementa uma alegoria e a alegoria não faz cenário para a ala que a precede a coisa desanda e muito. O grande problema de um tema não cronológico pode ser a falta de continuidade de um setor para outro.

2 - Possibilidade de criar fantasias adequadas, bonitas, de bom gosto e diferentes.

Uma idéia por si só não nos brindará com um bom enredo se não nos permitir sua transformação em fantasias identificáveis, pertinentes, de bom gosto e que sejam agradáveis de se ver. A repetição de indumentárias torna o enredo cansativo, chato e enfadonho. Uma boa idéia precisa possibilitar a criação de fantasias diversas e não a repetição de vestimentas diferenciadas por detalhes. Uma bom planejamento cromático tornará leve a transposição das diferentes fantasias. 

3 - Possibilidade de criar alegorias adequadas, bonitas, de bom gosto e diferentes.

Uma ideia se tornará um bom enredo se nos permitir a livre criação dos elementos alegóricos. Alegorias que sejam originais e de temática diferentes entre si sempre desenvolvem bem um enredo. A dosagem cromática e a possibilidade na criação de indispensáveis esculturas será um bom começo. Também é importante a adequação da alegoria para as alas que a precedem, e se possível, com a ala que a segue.

4 - Possibilitar aos compositores a criação de um belo samba-enredo.

E aqui precisamos diferenciar duas coisas bastante distintas. Uma é o texto do enredo que servirá de base para a análise do julgador de enredo. Esse texto deverá ser descritivo, com todo o enredo explicado e poderá ser monográfico, não precisará emocionar, ele precisa é não deixar dúvidas sobre as pretensões do enredo. A outra é a sinopse do enredo que é um resumo do que é fundamental na letra do samba-enredo. É a sinopse que será entregue aos compositores e esse texto precisa inspirar e emocionar a ala de compositores, ele precisa transmitir tesão (me perdoem o termo, mas não vejo palavra melhor) aos poetas da escola. Ela não pode ser um relato frio e enfadonho do enredo. Ela precisa ser poética, ter um jogo diferenciado de palavras, ser bastante adjetivada e mais rebuscada em poesia. Na verdade, ela é um texto intermediário entre o monográfico enredo e a letra do samba-enredo.

Tem um ditado que se aplica muito bem ao que acabei de escrever: 

Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço ...

E digo isso por que em meus enredos não consegui colocar o que penso na prática. Na verdade, a realização de um carnaval e o desenvolvimento de um enredo é bem mais complexo que meia dúzia de palavras num site de carnaval. Mas o importante é ter dado esse pontapé inicial para um amplo debate sobre a mágica de um enredo.

No relato dos enredos, não citei três feras na arte de um bom enredo:

Paulo Barros, Oswaldo Jardim e propositadamente a artista Rosa Magalhães que soube transformar uma idéia maravilhosa numa outra idéia mais maravilhosa ainda. João das ruas do Rio, o enredo do Império Serrano, é para mim até agora, o enredo destaque deste ano.
 
Um abraço
Luiz Fernando Reis



Resposta ao desafio de harmonia

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 06/06/2009 17:45

Na minha última coluna, eu falei da direção de harmonia. No fim, eu questionei os amigos sobre uma situação desafio. Vamos relembrar: "Um grande espaço, digamos de 50 metros, entre uma alegoria e a ala seguinte deve ser penalizado em harmonia ou em evolução?"

Vou dar a minha resposta e deixo bem claro que essa pode não ser a resposta oficial. Alguns diretores de harmonia, com mais experiência, podem discordar. E até seria interessante, pois debateríamos um pouco esse desafio.

Com a abertura desse "buraco", a partir do início do desfile, que fica ali no setor 3, a escola deveria ser punida, a meu modo de ver, em três quesitos. No quesito Evolução, já que foi quebrada a coesão do desfile. Em Conjunto, pois deixou de haver uniformidade na apresentação da escola. E também no quesito Harmonia, já que por 50 metros deixou de existir o canto dos componentes.

Aproveito para esclarecer que fui convencido dessa penalização em harmonia pelo nosso colunista Eugênio Leal, após debatermos o assunto.

Reafirmo que essa é apenas a minha interpretação sobre o assunto e pode não ser a interpretação oficial das diferentes direções de harmonia.

Falando baixinho pra ninguém escutar. Que julgador de conjunto teria coragem de tirar décimos numa situação como essa? Que julgador de harmonia arriscaria descontar décimos nesse caso. E não raro até os julgadores de Evolução tentariam minimizar essa cratera em plena Sapucaí.

Na verdade, as escolas ditas favoritas deveriam perdem 1 ou 2 décimos em evolução e olhe lá. As escolas do segundo escalão deveriam perder décimos em evolução e conjunto, mas as escolas que disputam o rebaixamento perderiam preciosos décimos nos 3 quesitos e no embalo perderiam décimos em fantasia, em alegoria e até mesmo em comissão de frente. Quem está na rabeira perde sempre mais que merece e quem tá na dianteira perde sempre menos que merece. Mas isso é assunto para um próximo papo.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



O que é um diretor de harmonia?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 21/05/2009 16:15

Antes de mais nada gostaria de deixar bem claro que não sou especialista na arte da harmonia. Diferente das funções de carnavalesco que já exerci em quase trinta carnavais e da função de diretor de carnaval que ocupei em quatro oportunidades. Mas como em desfile todos nós somos direção de harmonia me sinto em condições de passar alguma coisa.

Começo lembrando de uma reunião que tive como diretor de carnaval na Caprichosos de Pilares. Estávamos apresentando para a direção de harmonia as diretrizes e o planejamento de nosso carnaval. De repente um de nossos diretores de harmonia se levanta e começa a falar coisas e coisas, "issos" e "aquilos" do que seria harmonia. Algumas verdades, mas muitas inverdades e o companheiro falava e falava sem chegar a uma conclusão convincente. Foi aí que pedi a palavra e fiz uma colocação que parece bastante pertinente repetir:

- Concordo em boa parte com as colocações de nosso diretor, mas ele nos faz parecer que o conhecimento de harmonia de uma escola de samba é uma vasta enciclopédia de alguns volumes. Mas não é essa a minha impressão. A meu ver harmonia de uma escola de samba pode ser explicada numa simples folha de papel e com letras graúdas e que pode ser sintetizada em duas simples palavras: BOM SENSO. É claro que alguns diretores e para ser sincero a grande maioria não gostou muito desse meu conceito. Olharam-se e me olharam com aquele ar de quem pensa: Esses diretores de carnaval pensam que sabem tudo e que são os donos da cocada preta...  

Com sinceridade: A meu ver Harmonia é antes de tudo BOM SENSO.

Na primeira matéria de nosso colunista Walter Nicolau, ele colocou sua preocupação com essa confusão entre direção de harmonia e direção de evolução e inclusive propôs a separação das duas direções. Pessoalmente não vejo necessidade nesse aumento de funções numa escola de samba. Considero que todo diretor de harmonia precisa ser diretor de evolução e todo diretor de evolução precisa ser diretor de harmonia. Para mim, as duas funções convivem sem maiores preocupações.

Relembremos o que é pedido nos parâmetros do quesito harmonia.

1 - a perfeita igualdade do canto do Samba-Enredo, pelos componentes da Escola, em consonância com o "Puxador" (Cantor Intérprete do Samba) e a manutenção de sua tonalidade;

Com o volume de som da avenida sabemos que esse primeiro ítem tornou-se obsoleto, não há como acontecer o atravessamento do samba, como acontecia antigamente e ainda acontece frequentemente nos ensaios técnicos, onde o som não é uniformizado por toda a avenida. E quanto a tonalidade isso é um problema do carro de som e sua harmonia musical. Pode ser que um dos diretores de harmonia participe desse entrosamento, mas essa não é função principal do conjunto dos "harmonias" de uma escola.

2 - o canto do Samba-Enredo, pela totalidade da Escola

Aqui sim a direção de harmonia é fundamental. Cabe a ela exigir o canto de todos os componentes de uma agremiação. É esse canto da escola que ditará a excelência da harmonia, imaginando-se que a harmonia do carro de som esteja perfeita, pois é de lá e somente de lá que sai a qualidade do canto de uma escola de samba. E o que o diretor deve fazer é exigir o canto com alegria e descontração e passando para o componente esse seu cantar e sua alegria. Essa coisa de diretor de harmonia de cara amarrada e com jeitão de capataz de ala já se foi há muito tempo. Ele precisa transmitir a todo o corpo da escola alegria, descontração e externar sua felicidade de estar desfilando.

3 - a harmonia do samba.

E novamente temos a harmonia musical gerada no carro de som como fundamental nesse sub-ítem.

Relembremos o que é pedido nos parâmetros do quesito evolução.

Evolução, em desfile de Escola de Samba, é a progressão da dança de acordo com o ritmo do Samba que está sendo executado e com a cadência da Bateria.

1 - a fluência da apresentação penalizando, portanto, a ocorrência de correrias e de retrocesso e/ou retorno de Alas, Destaques e/ou Alegorias;

2 - a espontaneidade, a criatividade, a empolgação e a vibração dos desfilantes;

3 - a coesão do desfile, isto é, a manutenção de espaçamento o mais uniforme possível entre Alas e Alegorias, penalizando, portanto, a abertura de claros (buracos) e a embolação de Alas e/ou Grupos (ex: uma Ala penetrando na outra).

E agora nossa direção de harmonia se fantasiará de direção de evolução e irá evitar um maior espaçamento entre alas e alegorias. E aí as direções de harmonia são fundamentais. O comando de carnaval e ou harmonia não pode estar em todos os locais da avenida e cabe ao diretor de harmonia setorizado preservar um correto distanciamento entre as partes de um desfile. As alas não podem vir muito juntas pois representam momentos distintos do enredo, mas não podem estar muito separadas quebrando o conjunto da escola e é aí que entra o BOM SENSO de se dar um espaçamento exato. 

Um erro que ainda percebemos é de diretores de harmonia desfilando à frente da ala e voltados de costas para a ala seguinte. Ele segura a ala e permite o distanciamento da ala seguinte. O melhor local para o desfile de um diretor de harmonia é na lateral direita das alas, no lado dos setores pares da Sapucaí, assim, ele não atrapalha os assistentes das frisas que pagaram caro por aquela localização.

O segundo item do quesito evolução fala da espontaneidade, da criatividade, da empolgação e da vibração dos desfilantes. Será espontâneo e criativo um componente desfilar preso a uma fila e uma coluna? Será espontâneo e criativo um componente estar preso a uma predeterminada coreografia?

E normalmente são coreografias simplórias, parecendo apresentação de alunos do ensino fundamental. E aí deve entrar o BOM SENSO das direções de harmonia evitando os componentes enfileirados como numa parada militar. O BOM SENSO de não ficar nas laterais de uma ala coordenando filas e colunas certinhas. O que as direções de harmonia-evolução precisam entender é que a grande função deles é exigir o canto alegre, criativo e espontâneo de seus componentes. É evitar uma maior espaçamento entre as partes de um desfile. É desfilar com alegria transmitindo a cada um dos componentes de uma escola o prazer de estar ali cantando e evoluindo alegremente. 

E sem querer me alongar mais, reafirmo: Harmonia é antes de tudo BOM SENSO.

Procurei dar uma visão mais geral do que me parece ser direção de harmonia, mas deixo claro que alguns setores da escola, como bateria, casais de mestre-sala e porta-bandeira, comissões de frente, ala de crianças e baianas, e ala de passistas têm vida e harmonia própria e diferem um pouco do que aqui coloquei.

E para finalizar deixo aos amigos um desafio: Um grande espaço, digamos de 50 metros, entre uma alegoria e a ala seguinte deve ser penalizado em harmonia ou em evolução? 

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Parte II - Diretor de Carnaval

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 30/04/2009 16:34

Compreendo o desfile de uma escola de samba como a conclusão de um amplo projeto de carnaval. Esse projeto será tocado por várias mãos, mas seis delas são fundamentais em seu desenvolvimento. O presidente da Escola, que é o homem do dinheiro, o carnavalesco, que o responsável plástico pelo projeto, e o gestor ou coordenador desse projeto que é o diretor de carnaval". 

Na coluna passada, estávamos no momento de criação do carnaval e deixamos bem claro que não deveria haver influência da direção de carnaval no processo criativo do carnavalesco. Apenas uma suave supervisão para evitar exageros que possam comprometer o bom andamento de um desfile. Citemos, como exemplo, uma situação comprometedora num desfile: O artista carnavalesco decide que a quarta alegoria deverá ser formada por dois tripés acoplados a uma grande alegoria. A coisa é gigantesca, bonita e grandiosa, mas a sua montagem com a escola em desfile pode ser catastrófica. Um atraso nessa montagem pode abrir um buraco que acabe penalizando a escola, no mínimo, em três quesitos: Evolução, Harmonia e Conjunto. Essa preocupação deve existir na direção de carnaval.

Deixemos o carnavalesco criar a plástica do carnaval e vamos partir para o processo mais importante no pré-desfile de uma escola de samba e, também, da função do diretor de carnaval - Vem aí, a escolha do samba enredo. É claro, que essa escolha não passa apenas pela direção de carnaval. São fundamentais na comissão de escolha do samba, pelo menos, quatro nomes:
O presidente por ser o cargo majoritário da entidade, e é nele que recairá a maior culpa de uma escolha errônea. O diretor de carnaval que é o gestor do projeto e o conhece em sua amplitude. O carnavalesco que é, naquela oportunidade, o único a conhecer detalhadamente sua proposta plástica de desfile e reconhecer numa palavra, num verso ou estrofe de um dos sambas um ponto fundamental para a compreensão de seu trabalho e a direção de harmonia-evolução, que conhecendo a forma de desfile da escola pode optar por essa ou aquela obra. 

Com certeza outros nomes podem e devem figurar nessa comissão de escolha do samba-enredo, mas uma coisa, no meu modo de ver, é fundamental. Esse colegiado precisa ser uma equipe, um time e estar unida com a difícil missão de escolher a melhor obra que será levada à avenida. E não tem essa de voto secreto, não pode ter o samba do amigo ou o do inimigo e eu não conto pra ninguém minha opinião. Toda eliminatória precisa ser encerrada com uma reunião fechada onde essa comissão discutirá abertamente cada uma das obras apresentadas. 

Nessa fase a seriedade e a discrição são fundamentais. O que acontece numa dessas reuniões precisa ficar em sigilo até a próxima eliminatória. E como toda unanimidade é burra, alguns perderão, mas a maioria terá feito sua vontade e preferencialmente a vontade do corpo da escola, por isso, nesse processo eles precisam ser ouvidos. Você como julgador não pode e nem deve externar sua opinião fora do colegiado de escolha, mas deve, obrigatoriamente, ouvir as opiniões do maior número possível de componentes. A voz que cantará o samba na avenida precisa ser ouvida desde esse momento.

A escola já tem seu samba escolhido, o carnavalesco já deve estar com os protótipos das fantasias executados e as alegorias projetadas e já em execução. Cabe ao diretor de carnaval numa parceria com a direção de harmonia-evolução e com a benção do presidente dar inicio ao planejamento do desfile da escola. E aí vem as reuniões com cada um dos segmentos da escola e nessas reuniões, direção de carnaval e direção de harmonia devem esclarecer como será o desenvolvimento da escola na avenida.

Uma releitura e uma análise dos regulamentos de desfile será excelente numa reunião como todo o departamento de carnaval e harmonia-evolução. A escolha do nome que puxará ( não confudir com o puxador ou intérprete) , na verdade, é uma missão técnica importantíssima. É ele que controlará o tempo de desfile. Então quando você avistar um cara sério e com jeito de metidão a frente da escola e com uma parafernália de fones de ouvido, microfone e rádio na mão, não se espante. Ele até parece mais um presepeiro, mas é o fundamental cronometrista da escola. Desculpem o termo presepeiro, mas com ele, me autodenomino, pois fiz esse trabalho nos últimos cinco anos da Caprichosos de Pilares, com exceção de 2009, pois estava, como carnavalesco na Império da Zona Norte, em Porto Alegre e por lá fiz a mesma coisa, mas sem a parafernália dos rádios, que não são usados por lá.

Outra escolha muito importante num desfile é a designação do diretor de joelho, ou seja, a passagem da escola da concentração da Avenida Presidente Vargas para a Marques de Sapucaí. Muita escola já ganhou e já perdeu carnaval ali. A função dele é coordenar a curva das alegorias e das alas. Uma manobra perfeita é quando a alegoria entra direta e sem manobras, nesse joelho, não permitindo o tão indesejado espaçamento carros-alas. Ele também tem um rádio e comunica ao cabeça da escola, se alguma alegoria teve problemas de entrar em desfile e se é necessário parar a escola.

O terceiro ponto chave de uma escola é o diretor que acompanhará a bateria em suas manobras de saída e entrada nos recuos. Ele também tem um rádio e se comunica com os demais rádios, especialmente ao cabeça da escola, informando o momento da escola parar para o ingresso da bateria no segundo recuo.

Se o casal de mestre-sala e porta-bandeira não vier à frente da escola, como atualmente acontece na maioria das agremiações, um quarto rádio se faz necessário para possibilitar, com a parada de escola, a apresentação do casal à frente dos módulos de julgadores.

Como os amigos podem perceber, é bastante árdua a tarefa de um diretor de carnaval. Esse cargo não nasceu do nada e nem para agradar ninguém. Ele, com a grandiosidade dos desfiles de hoje, é, sem dúvida, fundamental.

Esse pequeno relato é uma homenagem aos grandes diretores de carnaval de nossa festa maior. Apesar da truculência e da cara feia de sempre nossa homenagem ao grande mestre Laíla, esse sabe tudo e um pouco mais de carnaval. Mesmo com a aparente arrogância, não podemos esquecer do outro monstro em dirigir um carnaval, Wagner Araújo, sabe muito de carnaval. Um de seus discípulos também segue uma linha de muito conhecimento de carnaval, Ricardo Fernandes.

Três outros nomes que me merecem respeito, apesar de não mais atuando na área, Jorginho Harmonia, Chiquinho Pastel, o Chiquinho do Babado da Folia e os falecidos amigos do peito Roberto Costa e Jorginho Moreira. Com cada um deles eu aprendi um pouco do pouco que sei de carnaval. Quem sabe um dia consiga desempenhar essa função com tanto talento quanto eles.

Um Abraço
Luiz Fernando Reis (por quatro vezes diretor de carnaval da Caprichosos de Pilares e por uma vez do Paraíso do Tuiuti)



O que é um diretor de carnaval?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 21/04/2009 03:41

Na coluna passada comentei sobre a figura do profissional carnavalesco. E darei continuidade a essa série profissionais falando da figura do diretor de carnaval. Antes, eu gostaria de agradecer ao amigo e jornalista Vinicius Brito pela reprodução da matéria no Samblog do grupo RBS, espaço obrigatório de leitura dos carnavalescos de Porto Alegre (em Porto Alegre, o sambista e o amante de carnaval recebem a denominação de carnavalesco). E antes que o Alberto João fique preocupado, a fonte SRZD-Carnavalesco não deixou de ser registrada.

Eu compreendo o desfile de uma escola de samba como a conclusão de um amplo projeto de carnaval. Esse projeto será tocado por várias mãos, mas seis delas são fundamentais em seu desenvolvimento. O presidente da escola, que é o homem do dinheiro, o carnavalesco que é o responsável plástico pelo projeto e o gestor ou coordenador que é o diretor de carnaval. 

Inicialmente, o cargo diretor de carnaval nasceu como um elo de ligação entre a diretoria de uma escola e o seu carnavalesco. A coisa acontecia mais ou menos dessa forma: Cabia ao diretor de carnaval convencer à diretoria e mais especificamente ao presidente que as idéias do carnavalesco eram viáveis e que trariam um bom resultado no desfile e em contra-partida era ele mesmo quem trazia do presidente o recado de que financeiramente muitas das idéias propostas não teriam recursos disponíveis. 

E pra que esse intermediário, se o próprio presidente poderia negociar diretamente como o carnavalesco? É que nem sempre, ou quase sempre, o cargo de presidente, que apresenta uma forte conotação política, de uma liderança comunitária, é um homem de carnaval. O pouco que entende de carnaval não é bastante para coordenar e debater de igual para igual com o seu carnavalesco, um projeto amplo para o desfile. É por isso que surge o diretor de carnaval. Com isso compreendemos que direção de carnaval não é um cargo político e sim um cargo técnico a ser ocupado por alguém que conheça, com propriedade, todo o processo de realização de um carnaval.

O diretor de carnaval era quase um moleque de recados e uma ponte entre carnavalesco e presidente e/ou sua diretoria. Porém, o carnaval evoluiu e deixou de ser aquela manifestação folclórica, romântica, simplória e passou a ser o maior show, o maior espetáculo a céu aberto do mundo.

A função de diretor de carnaval ganhou novas atribuições e responsabilidades. As escolas compreenderam que a era de ditadura dos carnavalescos já não tinha mais razão de ser. O espetáculo crescera muito para ficar restrito a uma única cabeça.

Dias atrás li de alguns de nossos comentaristas algumas pérolas assustadoras. "Qualquer um pode ser diretor de carnaval". "Qualquer presidente de ala pode levar um desfile até seu final". "Um compositor pode coordenar um desfile" e outras coisas do tipo. Que os amigos me perdoem, mas a coisa vai muito, mas muito além disso. Seria insano de minha parte se colocasse o diretor de carnaval como o cargo mais importante de uma escola de samba, mas não hesito em afirmar que em desfile o diretor de carnaval é, sem pensar duas vezes, a figura mais importante.

Todo o planejamento de um desfile passa pelo controle da direção de carnaval e um desfile de escola de samba não é apenas colocar alas entre os carros, cantar o samba e esperar o resultado. A coisa é muito mais complicada. Voltemos ao nosso projeto de carnaval lá no seu inicio.

A coisa toda começa na preparação da sinopse que pode ser feita pelo carnavalesco ou por pessoa de sua confiança e aí o diretor de carnaval não precisa participar, mas o segundo passo que é o desenvolvimento do carnaval em alas e alegorias ou o cronograma da escola, a participação do diretor de carnaval é fundamental. Não cabe a ele determinar se as baianas serão brancas ou azuis, isso é função do carnavalesco, mas se a roda das baianas tiver 5 metros, isso influenciará no desfile, pois em sua montagem teremos apenas quatro ou cinco baianas por fila o que levará a ala de baianas a ter mais de 150 metros de comprimento. E isso prejudicará a harmonia da escola. As baianas pelo peso de suas fantasias e de sua idade cantam pouco normalmente. 

Não deve o diretor de carnaval interferir em que parte do enredo as baianas desfilarão, mas é sua competência mostrar ao carnavalesco que, tecnicamente, as baianas vindo à frente da escola causarão menos problemas caso uma pane numa das alegorias as obrigue a passar por ela, o que em desfile, pela tamanho e morosidade das senhoras desfilantes será praticamente impossível.

O cronograma de desfile é uma parte do projeto-carnaval que deverá ser executado a quatro mãos. Que o carnavalesco a faça, mas a supervisão do diretor de carnaval é muito importante. 

O trabalho de criação do carnavalesco não precisa e nem deve ser supervisionado pelo diretor de carnaval, mas o artista precisa compreender que alguns de seus exageros podem comprometer o desempenho da escola na avenida.

Encerro essa primeira parte para não tornar muito enfadonha essa coluna. Que os críticos peguem leve, ainda tem mais sobre o diretor de carnaval em nossa segunda parte.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



O que é um carnavalesco?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 31/03/2009 15:16

Com o troca-troca de profissionais quase terminando já podemos conversar um pouco sobre o próximo carnaval, mas antes vou dar algumas colocações muito pessoais sobre algumas funções profissionais de nosso carnaval.

Começo por uma das funções mais importantes em nossa festa maior, tão importante que dá nome a esse site, o Carnavalesco. O que é um carnavalesco? Vou tentar desmistificar esse conceito de carnavalesco. Ele não precisa ser obrigatoriamente homossexual, afinal, talento nunca teve sexualidade. Um carnavalesco não precisa, obrigatoriamente, saber desenhar, mas, com certeza, ele precisa ter criatividade, bom gosto e um bom conhecimento geral de arte. Max Lopes e João Jorge Trinta nunca desenharam, mas cada fantasia e cada elemento alegórico que desfilou em cada um de seus carnavais foi por eles criado, desenvolvido e aprovado. 

Um carnavalesco não precisa ser aderecista, pintor, estilista ou escultor, mas ele precisa de ter a visão geral de todo o processo de confecção de um carnaval. Um carnavalesco não precisa ser letrado e formado nisso ou naquilo, mas ele precisa para que seu trabalho tenha êxito de uma visão cultural abrangente. Não basta apenas uma pesquisa no Google da vida e nas enciclopédias escolares para se desenvolver um carnaval. É preciso bem mais que isso. É necessário muito embasamento cultural, que sabemos nem sempre se aprende nas salas de aula. Além disso, é importante gostar muito de carnaval. 

Nem coloco a questão da cultura pensando na confecção das sinopses, já que muitas escolas contam com profissionais para essa função. Penso na cultura geral como desenvolvedora de um enredo, do que dele se aproveitar plasticamente, o que será ala e fantasia, o que será escultura, adereço e alegoria, o que do enredo podemos projetar para um samba-enredo que seja abrangente, melódico, poético e que possa acrescentar a uma bela obra musical.

E falo essas coisas, pois tenho percebido em alguns de nossos dirigentes muito pouco conhecimento do que é a figura do carnavalesco. Não basta dar pinta para ser carnavalesco. Não basta apenas saber desenhar para ser um carnavalesco. Não basta ser um aderecista e conhecer tudo de barracão e já se considerar apto a ocupar a função de carnavalesco. A Mocidade errou ao considerar o excelente aderecista Cláudio Cebola apto a tocar um projeto para uma escola do tamanho da Mocidade Independente. Tenho receio se dois homens de barracão, excelentes profissionais em suas áreas, não se assustem com a responsabilidade de colocar a Unidos do Viradouro em 2010 na Sapucaí. O mesmo receio sinto ao ver meu amigo e Rei Momo eterno, mas ainda inexperiente Alex de Oliveira e o talentoso projetista Amauri Santos com a missão de conduzir os destinos plásticos da gigantesca Portela para o desfile de 2010.  

O aprendizado de um carnavalesco acontece quase sempre nos grupos de acesso. É por lá que o profissional-carnavalesco conhece as dificuldades de se colocar um carnaval na avenida e nesse processo ele vai aprendendo e crescendo profissionalmente e um dia, numa processo quase natural, os dirigentes das escolas do Grupo Especial percebem talento e qualidade naquele artista e o convocam para fazer parte do seleto quadro de carnavalesco Especial. Assim foi como o Alex de Souza que começou como desenhista do Renato Lage e procurou nas escolas de baixo seu espaço e ralou muito até ser um carnavalesco especial. 

Paulo Barros e Paulo Menezes seguiram esse mesmo caminho de dificuldades e aprendizado até chegarem ao reconhecimento especial. Vou citar um nome que já desponta como uma grata revelação e vem seguindo o mesmo caminho. Fábio Ricardo, carnavalesco da Rocinha, e por muitos anos assistente do Max Lopes está batalhando numa escola do Acesso e já tem o seu talento lembrado por escolas do Especial. 

Mas o carnavalesco, apesar de sua fundamental participação não é o único profissional de um carnaval. Ele precisa estar bem assessorado, com assistentes e compreender que um projeto de carnaval tem em sua figura o grande responsável plástico, mas não é apenas ele o grande nome de um desfile. Um carnaval não é, nunca foi e nunca será um projeto pessoal de um artista. Em torno dele existem vários outros profissionais com o mesma intenção de fazer um grande carnaval.

Na próxima matéria falo do profissional diretor de carnaval, que é tão importante como o carnavalesco numa escola de samba.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Profissionalismo no carnaval

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 19/03/2009 11:18

Na matéria que noticiava a ida do Mestra Átila para a Vila Isabel pude ler alguns comentários que me indignaram. Até quando nós imaginaremos um evento da magnitude do carnaval carioca sendo feito de forma amadora? É muita inocência imaginarmos um mestre de bateria de uma escola do Grupo Especial ou mesmo em algumas do Grupo de Acesso não ter um comprometimento de seriedade e trabalho que implica num compromisso profissional. 

Um mestre de bateria, assim como um casal de mestre-sala e porta-bandeira e um primeiro intérprete de samba-enredo ensaia, pelo menos, três ou quatro noites por semana. Esses ensaios normalmente começam às 21h e se estendem no mínimo até a 1 da madrugada. O abnegado integrante da escola espera um ônibus, se ainda estiver circulando, e chega em casa por volta das 3 da manhã, dorme até às 5h, levanta e vai para o batente de verdade. 

Ele consegue seus R$ 800 mensais... Esse relato ainda acontece em escolas dos grupos de acesso B, C, D e E. Claro numa rotina bem menos exagerada, mas não há dinheiro e ele vai na empolgação mesmo, mas espera que um dia essa experiência o leve ao sonho "Especial" e de onde seu talento possa lhe valer o tão sonhado profissionalismo.

Um carnaval merece seriedade e responsabilidade de quem ocupa uma função, seja ela qual for, e isso merece ter um preço. A esse preço chamamos profissionalismo. Quem paga pode cobrar e quem recebe sabe que precisa justificar seu ganho. Só com o profissionalismo o nosso carnaval deu o necessário salto de qualidade. E esse salto será tão maior quanto maior for a profissionalização de nosso carnaval. 

E numa boa; imaginar amadorismo de um evento que rende em torno de 4 milhões-ano por escola de samba é muito romantismo pro meu gosto.

Indignação

Sempre acompanho todos os comentários aqui postados e confesso que alguns me deixam bastante indignado. Seja pela falta de conhecimento de causa e até mesmo pela falta de sensibilidade de compreender o que rola de verdade no mundo do samba. 

Inveja de Uruguaiana

Bastou o Eugênio Leal colocar da inveja que sentira ao assistir, como julgador, ao carnaval de Uruguaiana e presenciar, assim como eu, a alegria e paixão com que as arquibancadas recebiam suas escolas de coração. Os aplausos entusiasmados quando da apresentação dos casais de mestre-sala e porta-bandeira e a receptiva alegria ao perceberem um notável do carnaval carioca, ou mesmo de Porto Alegre, desfilando em suas escolas. A proximidade das arquibancadas da pista de desfile nos deu inveja. Inveja da fantástica interação público - componentes. O samba era cantado e público respondia cantando ainda mais alto. Mas não sentimos inveja do carnaval de Uruguaiana, percebemos, apenas, que o nosso carnaval carioca tem problemas e o maior deles é o afastamento do público assistente dos componentes de nossas escolas, e isso, em Uruguaiana é simplesmente emocionante.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Só hoje, 30 anos depois, a história do "Z" me fez chorar...

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 12/03/2009 11:36

A primeira vez que desfilei numa escola de samba foi no ano de 1980. O desfile foi na Avenida Rio Branco, onde na época desfilavam as escolas dos grupos 2A e 2B, que formavam o que hoje chamaríamos de 3º e 4º grupo. Em meu primeiro desfile numa escola de samba fui campeão ajudando a Santa Cruz a subir para o que conhecemos como Grupo de Acesso A e de onde ela nunca mais saiu a não ser para desfilar no Grupo Especial.

Me vesti com as cores da Acadêmicos de Santa Cruz, da qual era diretor cultural e dei meus primeiros passos numa avenida de desfile. Essa foi a minha primeira sinopse e foi feita para o enredo de autoria do então presidente, já falecido, José Lima Galvão - Um Domingo na Quinta da Boa Vista. 

O barracão era lá em Santa Cruz, no antigo matadouro e algumas vezes, apesar da distância, estive por lá acompanhando os trabalhos de execução das alegorias. 

Assim que cheguei na avenida percebi que o "Z" de Santa Cruz estava colocado no carro de maneira incorreta e o coloquei da maneira correta. Ele era de isopor cru sem pintura sob um fundo de tecido verde e o apoio eram pregos sem cabeça. Fui ver o restante da escola e quando retornei ao abre-alas lá estava o Z, novamente colocado de forma incorreta. Insisti em consertar o Z, quando fui impedido por um diretor que eu não conhecia, e era mesmo diretor, pois estava vestido com um terno branco e uma blusa verde como a minha. E acerta o Z não acerta o Z, eu e esse diretor quase saímos na "porrada", que só não se consolidou quando eu percebi que a maioria dos demais integrantes da escola conheciam o diretor e não a mim.

Coloquei o rabinho entre as pernas e deixei o Z como estava e fui para o final da escola. Quando a escola terminou o seu desfile percebi que o Z estava colocado corretamente, da forma que eu avisara na concentração. E na comemoração pelo belo desfile que fizemos aquele diretor teimoso me cumprimentou sorrindo e me disse:

- Você estava certo, o Z era mesmo ao contrário e num abraço nos desculpamos. 

Esse diretor passou a ser meu grande amigo em terras de Santa Cruz. Fui por duas vezes carnavalesco de Santa Cruz e sempre pude contar com ele apoiando e ajudando meu trabalho. E sempre fiz questão de abraçá-lo e desejar-lhe boa sorte no pré-desfile de sua querida Acadêmicos de Santa Cruz, fosse qual fosse o ano.

O nome desse diretor era Mario José de Siqueira Campos, o Zeca, há muito anos diretor de carnaval da Santa Cruz e que nos deixou nessa quarta-feira.

Descanse em paz meu bom amigo e junte-se a nossa amiga Rosele, apaixonada como você pela Acadêmicos de Santa Cruz. Um dia, que espero demore um pouco ainda, nos reencontraremos e relembraremos, como tantas vezes fizemos, essa confusão do Z.

Um abraço e dessa vez muito triste pela perda de um grande amigo que o samba me presenteou.

Luiz Fernando Reis



Análise dos desfiles do Carnaval 2009

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 25/02/2009 08:01

O ano de 2009 não foi dos melhores anos para o carnaval carioca. Eu sempre considero que um carnaval deve ser inferior ao do ano seguinte e superior ao ano anterior. O carnaval de 2008 foi muito acima do carnaval de 2009 e o carnaval de 2007 foi melhor que ambos. Fica a esperança de que o carnaval 2010 seja bem melhor que esse fraco carnaval de 2009, o que não será difícil de acontecer. Não tivemos desfiles exuberantes, nem alegorias fantásticas, nem fantasias que nos impressionassem. Tivemos um carnaval morno, de enredos sem pé, corpo e cabeça. Um ano de sambas abaixo de nossa média. Vou comentar os desfiles.

No domingo duas escolas se destacaram - Vila Isabel e Beija-Flor e ambas podem levar o carnaval 2009.

O Império Serrano foi uma grata surpresa ao abrir os desfiles. Uma excelente bateria, um samba reeditado e muito bem levado pelos componentes e pelo público. Fantasias e alegorias leves, simples, mas adequadas e que contaram com o bom gosto de Márcia Lage e passaram muito bem o enredo proposto. O Império que poderia disputar as últimas colocações desponta muito bem no bloco intermediário. Não acredito que esteja entre as campeãs, mas ficou bem longe da Lesga.

A Grande Rio novamente perde para ela mesma. As fantasias e alegorias, requintadas contaram bem o enredo. O carnavalesco Cahe Rodrigues vem crescendo a cada ano. Os erros nos quesitos de chão evolução, conjunto e harmonia tiram a Grande Rio da disputa pelo campeonato, mas ainda coloco no sábado das campeãs.

A Vila Isabel concretizou o casamento da noite: a criatividade de Paulo Barros e o requinte de Alex de Souza fizeram das alegorias da Vila um ponto muito positivo. O samba foi muito bem cantado e o chão da Vila foi impecável. A Vila Isabel é uma das favoritas e só pode perder para a Beija-Flor e o Salgueiro.

A Mocidade Independente de Padre Miguel foi uma grande decepção e nem de longe lembrava a escola impecável de anos atrás. Um enredo confuso, fantasias e alegorias muito fracas. A bateria sofrível e a mais fraca comissão de frente da noite devem levar a Mocidade para a rabeira da pista. Uma pena, mas a Mocidade pode estar na Lesga em 2010.

A Beija-Flor veio firme para o tricampeonato. Em fantasias e alegorias foi insuperável. Fez um desfile muito bom nos seus quesito mais fortes evolução, harmonia e conjunto. Apesar de não apresentar o mesmo desempenho dos dois últimos carnavais é forte candidata ao título. Só pode perder para a Vila Isabel e o Salgueiro.

A Unidos da Tijuca entrou numa pista exageradamente e desnecessariamente molhada pela Beija-Flor e escorregou literalmente na avenida. O enredo, as fantasias e alegorias estavam muito fraquinhas e o forte da Tijuca, a criatividade, passou longe do Borel esse ano. Não estará no sábado das campeãs e estará com o Império Serrano disputando o bloco intermediário.

Na segunda-feira, o grande destaque foi a Acadêmicos do Salgueiro forte candidata ao título do carnaval 2009.

O Porto da Pedra não esteve numa noite feliz. O enredo não era muito claro e repetia soluções já vistas tantas vezes na Sapucaí. As alegorias eram corretas, mas com falhas de requinte e acabamento. Gostei das fantasias mas nada que a tire de uma colocação ruim. Disputa com Mocidade e Unidos da Tijuca a rabeira da tabela de classificação. Não acredito em rebaixamento, mas não vejo o Tigre de São Gonçalo acima do décimo lugar.

O Acadêmicos do Salgueiro pisou forte e bonito na Sapucaí. O enredo, as fantasias e alegorias estavam com a tradicional marca de qualidade do gênio Renato Lage. O chão, a bateria e o samba foram muito bem. É a grande campeã de 2009. Se perder só poderá ser para a Beija-Flor ou para a Vila Isabel. Um tambor que não para de ressoar me avisa: Salgueiro Campeão 2009.

A Imperatriz Leopoldinense veio solta, alegre e descontraída e bem diferente da certinha que nos acostumamos a ver há alguns anos atrás. Mas o talento de Rosa Magalhães passou muito discreto esse ano. Pode até estar nas campeãs, mas longe do campeonato.

A Portela chegou bonita e preparada para disputar o carnaval. Não foi impecável, mas claramente nos mostra um Portela em crescimento e de volta à elite do carnaval carioca. Não disputa o título, mas certamente estará numa boa colocação e no desfile das campeãs.

A Mangueira foi, como era esperado pelos problemas no pré carnaval, uma caricatura da Mangueira que aprendemos e respeitar. O samba passou muito bem na voz de Luizito, a bateria foi correta e o chão mangueirense cumpriu o seu papel. Mas as alegorias, bem inferiores às fantasias e um enredo batido e confuso tiram a tradicional Manga do sábado das campeães. Disputa um posição intermediaria entre o sétimo e décimo lugar.

A Viradouro me decepcionou muito. A começar por um enredo pífio, confuso e sem sentido algum. A Bahia e os orixás merecem mais carinho e respeito. Alegorias e fantasias muito aquém do que poderíamos esperar. O samba fluiu bem, a bateria de Mestre Ciça deu show e ficou só nisso. A exemplo da Mangueira está longe das campeãs e pode disputar as três últimas colocações.

É muito complicado fazer prognóstico da classificação desse ano. Mas vou sair de cima do muro e arriscar um palpite, muito pessoal e intransferível. Eu não sou adivinho e não tenho bola de cristal. Esse é apenas o meu palpite. Mas as três primeiras serão essas, não necessariamente nessa ordem, apesar do tambor que insiste em me apontar - Salgueiro campeão do carnaval.  

Campeã - Acadêmicos do Salgueiro
Vice Campeã - Beija Flor
3ª colocada - Vila Isabel
4ª colocada - Grande Rio
5ª colocada - Portela
6ª Colocada - Imperatriz Leopoldinense
7ª Colocada - Império Serrano
8ª Colocada - Mangueira
9ª Colocada - Unidos da Tijuca
10ª Colocada - Unidos do Porto da Pedra
11ª Colocada - Acadêmicos do Viradouro
12ª Colocada - Mocidade Independente
 
Um abraço de um orgulhoso carnavalesco vice-campeão do Carnaval de Porto Alegre
Luiz Fernando Reis



Boa sorte para os carnavalescos

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 20/02/2009 01:51

Estamos na semana mais esperada do ano. Na verdade, nós já estamos, há um bom tempo, com olhos e mente totalmente focados nele. E para nós que abraçamos a carreira de carnavalesco, essa semana é tensa, nervosa, preocupante e a cada minuto que passa alternamos tensão com o que ainda temos por fazer e alivio e tranqüilidade com as coisas que estão sendo resolvidas. 

Seria bom que os amigos estivessem na pele de cada um de nós carnavalescos nesse pré carnaval e sentissem a forte carga emocional a que estamos sujeitos. 

Aquele tecido que chegaria na segunda feira ainda não chegou e a alegoria 4 ainda depende dele para o acabamento final. 

O ferreiro que conseguiu uma empreitada em outra escola, viajou para São Paulo e me prometeu que voltaria no domingo, a coisa atrasou e ele ainda está por lá e preciso dele para o encaixe dos esplendores dos destaques do carro 5 e só ele tem as medidas da ferragem.

E o nosso escultor ainda está concluindo aquela escultura numa escola do Acesso A e já era para ter terminado alguns adereços de nosso carro abre-alas. E o pintor de arte já está me pressionando, pois ele precisa pintar, ainda, todas as esculturas de uma escola do Grupo B.

Como se eu estivesse tranqüilo, chega o destaque principal do carro 7 reclamando que a grande escultura que vai estar na sua frente cobre sua bota importada e cravejada de strass tchecos.

Chega um diretor nervoso questionando o motivo de sua filha ter sido posicionada no lado esquerdo do carro, quando ele havia me pedido que sua composição desfilasse do lado dos camarotes, onde estará toda a sua família.

O carpinteiro, o cara da fibra, e o aderecista do carro 2 me cobrando ingressos para o desfile. Como se eu tivesse. Não tenho nem para mim.

A costureira reclama dos forros que chegaram atrasados e de alguns aviamentos erradamente comprados. O servente me pede emprestado um qualquer, que sei que nunca receberei de volta.

E quando penso que vou poder almoçar um desses sanduíches da vida, chega o presidente com seus "aspones" (assessores de por... caria nenhuma) e me pede para explicar todo o carnaval para a sua nova conquista amorosa.

Parece brincadeira, mas essa é a rotina de um carnavalesco, que tem seus momentos de glória, de luzes e foco, mas precisa passar por tudo isso. É dura a vida de um carnavalesco.

E aí vem meu querido e preferido editor-chefe, Alberto João, e me pede pra qualificar as escolas e apresentar minhas expectativas para o desfile que se aproxima, quem pode ganhar, quem pode descer, quem pode supreender.

Me perdoe Alberto, mas dessa não poderei atender seu pedido. Esse carnavalesco travestido de colunista, travestido não caiu legal (rsrsrs). Esse carnavalesco fantasiado de colunista prefere tirar a fantasia e ser, se você permitir, apenas carnavalesco nesse momento.

Serei corporativista e me colocarei ao lado de cada um de meus companheiros carnavalescos. Dessa vez ficarei em cima do muro aplaudindo e desejando boa sorte a todos os carnavalescos de nosso carnaval.

Boa Sorte Márcia Lage e suas sereias no Império Serrano.
Boa Sorte Cahê Rodrigues e sua França na Grande Rio.
Boa Sorte Alex de Souza, Boa Sorte Paulo Barros no Municipal da Vila Isabel.
Boa Sorte Cláudio Cebola contando Machado e Guimarães na Mocidade Independente.
Boa Sorte Alexandre Louzada e sua Comissão de Carnaval banhando-se na Beija Flor. 
Boa Sorte Luiz Carlos Bruno e sua Odisséia  Espacial na Unidos da Tijuca.  Boa Sorte Max Lopes curiando no Porto da Pedra. 
Boa Sorte Renato Lage nos tambores do Salgueiro. 
Boa Sorte Rosa Magalhães fazendo samba e arte na Imperatriz Leopoldinense. 
Boa Sorte Lane Santana, Boa Sorte Jorge Caribé falando de amor na Portela. 
Boa Sorte Roberto Szaniecki falando de Brasis na Mangueira. 
Boa Sorte Milton Cunha falando Vira-Bahia na Viradouro. 

E já que estou em estado de boa sorte, vou fugir um pouco do Especial e desejar a todos os carnavalescos dos Grupos A e dos Grupos Rio de Janeiro 1, 2, 3 e 4 muito boa sorte.

E puxando a brasa pra família. Boa sorte Fernanda Reis, minha filha, como coreógrafa da Comissão de Frente do Unidos do Cabral. Papai te ama e te deseja toda sorte nesse carnaval. E se teu irmão não coreografar direito pode dar uns cascudos no moleque por mim (até parece que eles precisam de minha autorização para trocarem socos, xingamentos e pontapés... rsrs).

Fiz questão de desejar esse boa sorte coletivo, pois sei que cada um de meus amigos carnavalescos me desejará o mesmo e entrarei na avenida, nesse sábado, como carnavalesco do Império da Zona Norte, no Rio Grande do Sul, com boa sorte de muita gente talentosa.

Me desculpem se não dei meu prognóstico sobre os desfiles, mas nesse momento o corporativismo carnavalesco falou mais alto.

Boa sorte para todos nós que amamos esse troço chamado carnaval.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Seriedade e simplicidade fazem bem

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 06/02/2009 15:07

De modo geral nossos amigos acertaram, quase por completo, a nossa primeira história-desafio. Até que o amigo e jornalista Jose Carlos Netto chegou e contou em maiores detalhes nossa história.

Eis as respostas:

Quem é a escola de samba A? Caprichosos de Pilares

Quem é a escola de samba G? Estácio de Sá

Quem é o presidente B da escola de samba A? Fernando Leandro

Quem foi o intérprete C da escola de samba A, em 1993? Márcio Souto

Quem era o intérprete F da escola de samba G, em 1993/1994? Dominguinhos do Estácio

Quem é o intérprete D que ganhou, mas não levou? Wantuir

Quem é o intérprete E que perdeu, mas acabou sendo o intérprete da escola de samba A, em 1994? Luizito

Eu não perguntei, mas responderei. O carnavalesco da Caprichosos era essa pseudo-escriba Luiz Fernando Reis

Amigo não tem defeito ...

Tem um ditado que eu gosto muito. Ele diz: Amigo não tem defeito. E inimigo quando não tem, a gente inventa um e coloca nele. O meu amigo Eugênio Leal, que conheço há mais de uma dúzia de anos e como eu é colunista deste site, até pode ter seus defeitos, mas dentre eles não figura a parcialidade. Ele sempre me passou imparcialidade em suas colunas e em seus comentários. Discordei de muitos deles e espero continuar discordando de outros tantos. Afinal somos pessoas distintas e portanto, com pontos de vista diferentes. E tem mais: Não acredito que uma conceituada empresa radiofônica da capital do samba, a Rádio Tupi, a ele confiasse a coordenação de seu carnaval se ele não fosse conceituado para tal.

O problema é que algumas de nossas escolas de samba, e talvez deva colocar, todas as nossas escolas, de todos os grupos, não sabem conviver com a crítica, por mais leve e branda que possa ser. O nosso samba merece ganhar maturidade e encarar cada crítica como algo positivo, não que sejamos donos da verdade. Já é tempo de nossas escolas de samba e de nossos dirigentes compreenderem que a mídia é um termômetro de suas ações e atitudes. Parem de sempre nos encarar como se fôssemos inimigos, compreendam vez por todas que estamos num mesmo barco e queremos a mesma coisa; o melhor para o nosso samba e o desfile de nossas escolas de samba.

Estou contigo Eugênio e se decidires colocar receitas de bolo por aqui, deixa que eu coloco as receitas de salgadinhos.

E mais Paulo Barros ...

Eu tenho a mania de ler todos os comentários por aqui postados, percebemos claramente a seriedade com que muitos dos companheiros comentaristas postam as suas opiniões. Evidentemente concordo com muitos e discordo de outros comentários, mas gosto de lê-los todos e confesso que aprendo um pouco com cada um deles. E é uma pena quando deparamos que nicks exdrúxulos, infantis e bossais são aqui postados. Vai só um recadinho para vocês. Nós colunistas e comentaristas levamos esse espaço muito a sério. Isso aqui não é uma brincadeira. Desculpem o desabafo, mas Tomás Turbando e Piro Cadura é o cacete. Procurem sua turma, aqui não é lugar pra bobeiras.

E vou reproduzir um comentário que se parece muito com o meu

Postado por: Baby da Glória | 05/02/2009 19:12:00
"Tbm acho que os desfiles ficam muito parecidos, daí a chatice! É tão legal quando uma escola vem com uma proposta diferente do luxo, da riqueza, do brilho e isso o Paulo Barros sabe fazer muito bem, ele botou a Tijuca lá em cima, a Tuiuti e a Estácio tbm deram o seu recado. Como exemplo vou citar um carnaval da Vila inesquecível e ousado: ZUMBI ! Talvez seja disso que ele esteja falando, com Zumbi a Vila causou um impacto tão forte sem medo de apostar na contra-mão do luxo, resultado: foi campeã daquele ano! Viva a ousadia, abaixo a mesmice!"

Eu faço mais ou menos a mesma interpretação da Baby e a reforço com três perguntinhas:

1) Quem não sente saudade de irreverência gaiata, satírica, politicamente incorreta e descontraída dos carnavais da Caprichosos de Pilares? (desculpem se puxei a brasa pra minha sardinha)

2) Quem não sente saudades da irreverente crítica social realizada com tanto humor e propriedade pela São Clemente?

3) Quem não sente saudades da irreverente, solta, despojada e alegre União da Ilha do Governador?

O Grupo Especial realmente tá muito igual e não é apenas em fantasias e alegorias, os sambas são formatados da mesma forma, as baterias pouco diferem umas das outras, excetuando-se a original Mangueira com seu surdo um. As alas de passistas são cópias uma das outras, as baianas desfilam enfileiradas como soldados. As alas preocupam-se mais com seu local de desfile do que evoluir e cantar. Está faltando originalidade em nosso carnaval e um  profissional que tem tentado mexer nessa coisa é o Paulo Barros.

Só um senão amigo Paulo Barros. Não deixa que a arrogância e a prepotência tirem o brilho de seu talento.

Batam de leve que estou recém chegado de terras gaúchas

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Uma história-desafio para os amigos

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 27/01/2009 02:18

Um dia desses lembrei de um fato que gostaria de dividir com os amigos. Farei um relato-desafio para resolvermos.

Estamos numa escola A do Grupo Especial, o ano é 1993, e, portanto, nos preparativos para o carnaval de 1994. O presidente administrativo (B) na época não gostou muito da apresentação de seu puxador (C) no carnaval anterior e resolveu promover um concurso para a escolha do novo intérprete de sua escola.

E assim foi realizado o concurso com quadra bastante movimentada. O vencedor obteve uma votação até certo ponto apertada, intérprete D 5 x intérprete E 3. 

Esse resultado foi apresentado ao presidente B, que fez a seguinte colocação: - Uma diretora me procurou e relatou que ouviu do intérprete oficial F da co-irmã G, também do Grupo Especial, presente no evento, que se o vencedor for o intérprete D, ele poderá puxar o samba aqui, mas continuará com o segundo puxador da escola G.

Um dos julgadores muda o seu voto, que mais tarde soubemos ter sido pressionado pelo presidente, e dessa forma, acontece um empate de 4 x 4 entre os dois concorrentes.

Então o nosso presidente, detentor do voto de minerva, decide o concurso. O intérprete E foi o puxador oficial da escola A no carnaval 1994.

E ficam aos amigos as perguntas:
Quem é a escola de samba A?
Quem é a escola de samba G?
Quem é o presidente B da escola de samba A?
Quem foi o intérprete C da escola de samba A em 1993?
Quem era o intérprete F da escola de samba G em 1993/1994?
Quem é o intérprete D que ganhou, mas não levou?
Quem é o intérprete E que perdeu, mas acabou sendo o intérprete da escola de samba A, em 1994?
 
Duas dicas para os amigos:  

Dica 1 - Os intérpretes que acabaram empatados no concurso são ambos primeiros intérpretes de escolas do Grupo Especial.

Dica 2 - O primeiro intérprete que provocou o empate, ainda é primeiro intérprete, mas não está mais no Grupo Especial.

Aguardo as respostas dos amigos.

Diretamente do "exílio", em terras de Porto Alegre, no barracão da Império da Zona Norte. Eles pensam que estou projetando o Carro 5, mas estou voando e papeando com os amigos.

Carnavalesco sofre, mas nem tanto (risos).

Um abraço
 Luiz Fernando Reis



Não estamos exigindo dos ensaios?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 05/01/2009 17:00

O assunto do momento são os ensaios técnicos. As escolas se movimentam e se preparam, a cidade se agita como se já estivéssemos no carnaval. As arquibancadas ficam apinhadas de gente na expectativa de assistirem os ensaios de suas escolas preferidas. E o momento é de encontrarmos, na pista de desfiles, velhos amigos de samba. Tempo de reencontro e abraços afetuosos. Tempo de ouvirmos os sambas e baterias em desfile. Sem dúvida alguma, os ensaios técnicos foram um achado para o mundo do samba.

Mas confesso apreensivo e preocupado com eles. Não estaremos valorizando por demais esses ensaios? Cá entre nós, os ensaios já não tem nada. São na verdade pré-desfiles sem fantasias e alegorias. São apresentações de cada uma de nossas escolas.

Reconheço ser inegável que cada uma dessas apresentações serve, e muito, para a melhoria dos desfiles de cada uma das escolas. As falhas que ali ocorrem podem ser corrigidas e certamente vão ser. O entrosamento samba, bateria, intérprete e harmonia do carro de som melhoram a cada apresentação, portanto, nenhum de nós pode negar a importância dos ensaios técnicos.

O que me preocupa é a demasiada ansiedade com que esses ensaios têm sido aguardados e a crescente cobrança que estamos fazendo deles. A mídia de carnaval vem, cada vez mais, exigindo qualidade na apresentação e quantidade de componentes e ritmistas. 

Não me espantarei se daqui a alguns poucos anos, das 150 baianas de uma escola só aparecerem 145 delas no ensaio técnico e exigirmos explicações por essas 5 baianas faltantes. Se dos 320 ritmistas só aparecerem 307 e perguntarmos ao mestre de bateria pelos outros 13. Se as camisetas do segundo ensaio forem iguais ao do primeiro ensaio acharemos inadmissível a repetição das camisetas e por aí vai.

Uma outra coisa me preocupa: Não podemos equiparar uma escola do Grupo de Acesso A com as escolas da Liga. As primeiras desfilam com um número bem menor de componentes e recebem 20% do que é recebido por uma escola do Especial. Para as escolas do Especial, 2 mil camisetas e 20 ônibus não pesam tanto no orçamento, mas no Acesso isso tem um peso razoável. 

Vamos debater esse assunto?  Seria muito bom ouvirmos a opinião dos amigos comentaristas.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Recado para os diretores de harmonia

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 16/12/2008 17:22

Uma das coisas mais gratificantes da vida é a conquista de um amigo. E nas minhas andanças pelo mundo do samba consegui fazer vários. Por cada escola que eu tenha passado eu sempre mantive um ótimo relacionamento com todos os seus segmentos. Por isso, tenho amigos ritmistas, compositores, dirigentes, passistas, baianas e muitos amigos diretores de harmonia, e que não são poucos. 

Eu era apenas um entusiasta pelas coisas do samba e mais um garoto curioso com tudo o que o samba nos oferecia. Era daqueles meninos que acordava cedinho para poder comprar, se fosse possível, o primeiro LP dos sambas-enredo das escolas daquele ano e aquela bolacha tocava, sem parar, numa vitrola de minha casa por todo o dia e toda a noite. E imaginava enredo, fantasias e alegorias a partir dos sambas que ouvia. Me via desfilando em cada uma das escolas. Amava e ainda amo muito essa coisa carnaval.

Um dia, um diretor de harmonia, ainda hoje um grande amigo, me deu a oportunidade de apresentar um enredo numa escola de samba. E foi aí que tudo isso começou. 1982 - Caprichosos de Pilares. De lá para cá aprendi muito e confesso ainda estou aprendendo samba a cada dia que passa.

Me entristeço muito quando algum comentário, alguma frase ou algumas palavras não são muito bem compreendidas por alguns de meus amigos. E esse amigos ficam tristes e magoados comigo. Mas tenham a certeza que nunca foi essa a minha intenção. Quem me conhece sabe que sou puro, desprovido de ódio ou maldade, até ingênuo em muitas situações. Polêmico, às vezes, mas longe de querer ferir ou magoar pessoas, especialmente pessoas amigas.

Alguns diretores de harmonia me procuraram, indignados, pela matéria anterior. Em nenhum momento eu tentei denegrir a figura e a importância das direções de harmonia. Concordo que falhei em não ter dado o valor que a grande maioria dos diretores de harmonia merece. Errei em não citar o quanto meus carnavais, como carnavalesco, como diretor de carnaval ou como comissário de carnaval, foram engrandecidos pelo trabalho da harmonia. Em nenhum momento, eu generalizei e não personalizei em ninguém o personagem criado na matéria anterior.

Meus amigos Chope, Dudu Azevedo, Jorginho Harmonia, Almir Fortunato, Jaiminho, Jandyr Antunes, Jorginho Moreira, José Carlos, Paulinho Careca, Lamosa, Rony e tantos outros, me perdoem se não me fiz entender, me perdoem se magoei, se no afã de polemizar exagerei nas palavras e denegri, sem querer, a figura das direções de harmonia. Vocês, que me conhecem, sabem que não trago comigo o rancor que, inadvertidamente, acabei passando na matéria.

De coração me desculpem. Pois se reclamei da truculência de alguns, acabei, em letras e palavras, fazendo o mesmo, sem perceber, com toda uma categoria. Não, era essa, de verdade, a minha vontade. Foi tão difícil conquistar a amizade de vocês e não posso aceitar que meia dúzia de palavras possa ferir o carinho e a amizade que tenho por todos vocês.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Truculência não combina com harmonia

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 14/12/2008 02:47

A cada segundo, a cada minuto, a cada hora que o tempo passa, mais próximo do carnaval estamos. Está chegando o momento de apreciarmos essa festa anual que elegemos a melhor de todas; o nosso carnaval.

E com o início dos ensaios técnicos, fica evidente essa proximidade. É verdade, amigo sambista, o carnaval, mesmo com Natal e o Ano Novo tão perto, já está batendo em nossa porta. E não venha com essa história de que você não é sambista; sambista não é apenas o ritmista, o passista, o compositor, o dirigente de escola; sambista é também toda pessoa que dedica um pouco de seu tempo a curtir, debater, ler e escrever sobre o assunto. Portanto, somos todos sambistas. E já que estamos entre sambistas e papo de sambista é samba, vamos conversar um pouco sobre os ensaios técnicos, a conversa do momento.

Umas figuras sempre me chamam muito a atenção nos desfiles e nos ensaios técnicos: alguns diretores de harmonia. Normalmente, eles aparecem com os olhos esbugalhados, face emburrada, e não estou chamando de burro, um desagradável apito na boca, sempre preparados a dar uma corrida louca e desnecessária. 

Ele olha pro nada, como se aguardasse uma brisa provocativa e nela pudesse descontar todas as suas  frustrações. Ele não fala, apenas grita e esbraveja sem pensar. Ele não ouve, mas exige que escutemos para acatar suas ordens, muitas vezes, estapafúrdias. Ele empurra, aos berros, os componentes imaginando que isso é a correta postura de um diretor de evolução ou harmonia.

Que poder esse moço acha que tem para tratar de forma tão deselegante e sem cortesia um desfilante como ele; uma pessoa, que como ele, quer o melhor desfile para a sua escola. Mas ele empurra, ele grita, ele esbraveja e aos berros, ergue seus braços, como se aos céus pedisse perdão por toda aquela truculência.

Amigo diretor de harmonia, você está enganado. Você não está fazendo harmonia, você está desarmonizando e tumultuando, você está desestimulando seu companheiro desfilante a cantar, a evoluir e a desfilar com alegria, descontração e prazer. Você, me perdoe dizer isso, não está ajudando em nada, pelo contrário, você está atrapalhando, e muito o desfile de sua escola e atrapalhando o maior espetáculo da terra.

No Orkut tem uma comunidade chamada "Eu tenho uma teoria". E o que tem de doideira por lá... E como sou mais um desses loucos, vou compartilhar com vocês uma teoria, imaginada por mim, sobre esse assunto e nascida há algum tempo atrás.

A classe média descobriu as escolas de samba e invadiu. Com isso, os carnavalescos puderam extravasar toda a sua criatividade. Era um componente com maior poder aquisitivo e podia pagar mais por uma fantasia. E aí o luxo se fixou em definitivo em nossos desfiles. E aparece o diretor de harmonia, preocupado com aquela invasão e percebe naquele burguesinho da Zona Sul a imagem de seu patrão, que o oprime e o esculacha durante todo o ano. Mas naquele espaço de avenida ele é o senhor, ele é o poder, ele pode tudo. E aí ele grita, empurra e esbraveja em altos brados, dando a "forra" ao seu "patrão" ali representado.

Reconheço que grosseria é uma coisa que está dentro de cada um de nós, ela não depende de raça, cor, credo ou fator social, mas parece que uma das lições da harmonia é ser indelicado, deselegante e truculento. Que as direções de carnaval e harmonia façam uma reflexão séria sobre o colocado aqui. No grito não se chega a lugar nenhum. Empurrões e truculência nunca fizeram bem a nosso carnaval.

Mas, por sorte, essa minoria de sambistas vem aos poucos perdendo poder e importância. Já não vemos mais os bastões de madeira, pequenos cassetetes que atingiam e oprimiam os sambistas. Já estão sumindo os desnecessários apitos que só assustam e não organizam nada. Os "harmonias", ainda bem, estão evoluindo e percebendo que com carinho tudo se harmoniza melhor.

Quem nunca levou uma broca ou um empurrão de um diretor de harmonia que atire a primeira pedra.

Essa matéria dedico para grande maioria dos diretores de harmonia, como eu já fui por tantas vezes, e que já compreenderam a importância e a sutileza de se organizar um desfile de escola de Samba.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Vamos debater a rainha de bateria?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 01/12/2008 16:12

Esse mundo do samba aparece com cada uma... Será mesmo importante para a Portela ter a Luma de Oliveira à frente de sua bateria? Pessoalmente, eu acho que não. Nada contra a bela modelo que tem muito carisma quando à frente de uma bateria, mas a Portela não precisa dela. 

Que ganho a escola terá, com ou sem rainha de bateria? Um pouco mais de mídia? Um pouco mais de divulgação? Provavelmente isso acontecerá, mas a grande divulgada será a rainha Luma, a Portela somente vai a reboque. 

A uns meses atrás, Luma de Oliveira nos apareceu como candidata à presidência da Unidos do Viradouro. Eu até postei, aqui mesmo, um comentário considerando bastante legal essa candidatura, mas a coisa não foi avante e o presidente Marcos Lira acabou sendo reeleito. E para nosso espanto o "avião" atravessou a baía e foi cair na quadra da Rua Clara Nunes. Luma de Oliveira é uma paraquedista a cair nas asas da águia.

A história toda começa com a dispensa da modelo Adriana Bombom e a justificativa era a de que ela não comparecia aos ensaios.  E será mesmo que a rainha Luma estará presente nos ensaios da Portela? Acho que não. Ela deverá comparecer a uns dois ensaios, a um dos ensaios técnicos na Sapucaí e já estará de bom tamanho. E se não "engravidar" novamente, teremos Luma na avenida.

E aí é que mora o perigo. Ela traz consigo toda a mídia. Serão uns trinta fotógrafos, câmeras, cinegrafistas e técnicos na cola de uma foto, de uma imagem da celebridade. Atrás dela estarão o Mestre Nilo Sérgio e os súditos da rainha, relegados a um plano inferior. O tumulto será inevitável. Brigas, empurrões e xingamentos e como o enredo se propõe a falar de amor, à frente da bateria da Portela não teremos o enredo representado, pois será uma truculência só.

A beleza e o encanto da rainha Luma de Oliveira que deveriam ajudar a Portela só a atrapalhará. Deixo bem claro que adoraria ver esse ícone de nosso carnaval - Luma de Oliveira em qualquer lugar de desfile, mas nunca à frente da bateria.

E a partir do assunto colocado, proponho um amplo debate sobre esse assunto. Vamos lá:

1 - A escolha da rainha de bateria não deveria ser uma posição decidida pelos ritmistas da escola e não um cargo político da presidência e alguns diretores?

2 - Será mesmo importante termos a frente da bateria uma celebridade, em nenhum momento identificada com a comunidade da escola e especialmente com seus ritmistas?

3 - Será mesmo importante termos uma rainha de bateria?

Espero a participação de nossos comentaristas nesse debate polêmico.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



É cômodo ser pedra. Difícil é ser vidraça

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 21/11/2008 01:17

Vamos envelhecendo e a vida insiste em nos ensinar algumas coisas. Nesses dias, eu aprendi que sou imbecil, ou idiota, sei lá. Me rotularam de imbecil por ter dado nota nove para o bi-reeditado samba-enredo do Império Serrano. onfesso que me senti aliviado ao perceber que um outro julgador foi chamado de imbecil por ter dado 10 para o mesmo samba, ou seja, eu seria idiota, ou imbecil, da mesma maneira. E cá entre nós, eu já desconfiava que o era, só nunca tinham me colocado dessa forma tão direta (risos).

A grande verdade nisso tudo é que é muito fácil e cômodo ser pedra. O difícil é ser a vidraça, sempre pronta a ser apedrejada. Como bem colocou o Eugênio Leal em sua última coluna, uma análise de sambas-enredo é sempre polêmica, difícil e subjetiva. Eu duvido que duas pessoas tenham exatamente as mesmas opiniões e mesmas notas para os sambas desse ano, do ano passado ou do ano que vem. E que tal se nossos comentaristas colocam suas notas e se transformassem só um pouco em vidraças? 

Nessa análise entra  emoção e paixão em detrimento da razão. A pessoa não consegue, mesmo que se esforce, esquecer de seu amor por uma escola. Se o sambista é portelense e acompanha de perto o samba da Portela, em sua quadra, ele sempre olhará em melhores condições que os sambas das outras escolas. E aí ele vira pedra e esse pobre analista vira vidraça. Ele não tem o direito de discordar da minha opinião? É claro que tem. Afinal, nenhum de nós é dono de verdade alguma. Apenas temos um pouco mais de vivência e experiência, mas nem por isso somos a opinião correta e definitiva. Respeitar a opinião alheia é fundamental e discordar dela é essencial. 

Uma coisa nisso tudo me incomoda. Esse rótulo de formador de opinião que querem dar para às pessoas, que por algum mérito, ou por pura sorte escrevem numa revista, jornal ou mesmo em um site como o nosso, isso não me convence de maneira alguma. Seria muita pretensão da minha parte, se acreditasse, de verdade, nisso. Não quero formar a opinião de ninguém. O que cada um de nós colunistas pode fazer é dar embasamento para que vocês formem as suas próprias opiniões. E essa é a sua opinião, que eu posso ou não aceitar, mas sempre saberei respeitá-la. Uma opinião não merece aplausos, nem vaias, merece reflexão e dela filtrarmos o que nos for conveniente. Uma coisa ela não merece: pedradas e xingamentos desnecessários e provocativos.

E voltando à nossa análise dos sambas e como já nos lembrou o Eugênio. Fomos instruídos a darmos notas de sete a dez com a permissão de aplicarmos o meio ponto. Pessoalmente, eu escolhi fazer um julgamento em escadinha e aplicando as notas 10; 9,5; 9,0; 8,5; 8,0 e 7,5 e para tal classifiquei os sambas nesses seis degraus e foi por isso que os sambas da Imperatriz e Portela ficaram no último degrau e confesso com notas bem aquém do que mereceriam. Se os décimos fossem permitidos os gresilenses e portelenses não me olhariam com tanta mágoa.

E para mostrar que eu não formo nem a minha própria opinião, na minha análise atual, o melhor samba é o samba da Mangueira e o samba da Portela já teria subido alguns degraus. Tijuca e Salgueiro, possivelmente desceriam um ou dois degraus. Reafirmo que a safra é mediana, não temos obras primas e nem sambas medíocres. As obras estão niveladas e acredito que nenhuma delas levem, na avenida, uma nota inferior a 9,4.

Mas, por favor, essa é apenas a minha opinião. Que venham vaias, críticas ou aplausos, mas evitem as pedradas. Muitas vezes elas machucam, especialmente quando assinadas por pseudônimos banais.
 
 
Um abraço
Luiz Fernando Reis (esse é o meu nome de batismo. Eu não me escondo em pseudônimos)



É correto o intérprete oficial não participar do concurso de samba?

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 02/11/2008 23:03

Com as escolhas dos sambas-enredo entramos numa fase melancólica de nossas escolas de samba. As quadras cheias, festivas e alegres dão lugar ao vazio e a tristeza. O povo se afasta e parece tirar férias de samba e já começa a pensar no Natal e Ano Novo. A coisa só volta ao normal após as festas de fim de ano.

O samba não pode parar e o verdadeiro sambista só vai pensar em fim de ano quando dele estiver bem perto. É hora de ouvir o intérprete oficial dando os retoques finais no hino da escola. Conhecermos o povo da harmonia musical ajeitando a obra final que aos poucos vai ganhando molde com o samba que ouviremos na avenida. 

Enganam-se os amigos que imaginam que a gravação no CD deu por encerrado o quesito samba-enredo. Muita coisa ainda precisa ser acertada, arrumada e ensaiada. Num samba-enredo temos três fases bastante distintas. O samba na voz do puxador no concurso, na voz do intérprete oficial na gravação do CD e finalmente o samba final que só ouviremos na avenida e de hoje até lá muita coisa muda e se adapta até a obra final.

Muda-se até mesmo a tonalidade do samba, adequando-a melhor à tonalidade do coro de componentes da escola, muda-se o seu andamento, acelerando-o, bem mais que o visto na obra comercial do CD. Pra se ter idéia um samba que tenha a duração de 2 minutos no início de um ensaio pode chegar ao fim de umas quarenta passadas com 2 minutos e 8 segundos, 2 minutos e 10 segundos. Isso é normal. Por isso, quase todas as escolas aceleram tanto seus sambas no início de desfile, já que ele cairá no decorrer da apresentação. As marcações e intérpretes, aos poucos, vão dando ar de cansaço e os demais instrumentos e cantores no carro de som vão seguindo e também ficam cansados.

É importante que nessa fase de pós-escolha seja feito o verdadeiro controle de como deve ser a partida do samba para que tenha seu melhor desempenho no desfile e que nessa cadência ideal permaneça o maior período de tempo possível. Então, quando você perceber um diretor de harmonia de cronômetro na mão não pense que isso é apenas exibição, o controle do tempo de cada passada do samba é fundamental para um bom desfile. Nem só de cerveja e mulher bonita vivem nossos ensaios, muita coisa precisa ser acertada até o desfile.

Nêgo

Fiquei muito triste quando soube que a Viradouro havia dispensado meu amigo Nêgo como seu intérprete, mas sorri aliviado quando soube que a diretoria do Império Serrano o convocou de volta. A voz desse grande intérprete faria muita falta em nossos desfiles.

David do Pandeiro

Uma coisa muito boa é saber que teremos o grande David do Pandeiro de volta ao Grupo Especial. Eu peço juízo para o David. Ele é muito bom para estar fora.

Dominguinhos do Estácio

Uma outra noticia que incomodou foi ouvir que o intérprete Dominguinhos do Estácio não sabia que deveria ter aprendido os sambas concorrentes na Inocentes de Belford Roxo. Menos Dominguinhos, menos. Mas acho que o maior erro foi permitir que o intérprete oficial da escola participasse da disputa de samba-enredo. Isso nunca deu certo e nunca dará. E não é a toa que a grande maioria das escolas não aceita a participação de seu puxador oficial no concurso de sambas enredos. E por isso, num acordo cavaleiros, as diretorias permitam que o seu canor ajude parcerias nos concursos das escolas co-irmãs.

E lanço aqui um debate para que nossos comentaristas do site e internautas participem com suas opiniões. O intérprete oficial da escola deve participar como intérprete e/ou compositor do concurso de samba-enredo de sua escola? A minha resposta já dei, mas gostaria de debater esse assunto com os amigos.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



Palpite Infeliz

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 14/10/2008 17:40

No Grupo Especial, as escolas estão concluindo uma etapa fundamental em seus projetos de carnaval: As escolhas de seus sambas-enredo. Alguns são escolhidos de forma unânime e inquestionável. Outros, nem tanto. Não pareciam e nem tinham cara de samba campeão, mas no decorrer do processo cresceram e aos poucos foram ganhando adeptos que acabaram por fazê-lo o grande vencedor. E tem outros que quase não cresceram, mas acabaram sendo os vitoriosos.

E aí chovem críticas, que esse não era o samba, os refrões não tinham vibração, o samba é chato e repetitivo. Nem a harmonia e nem a bateria queriam esse samba. Esse samba, eu não vou cantar na avenida e por aí vai ...

Sinceramente, eu não acredito que uma escola de samba escolha um samba que não lhe agrade. Eu não consigo imaginar uma escola escolhendo um samba errado, porque o seu autor é simpático, amigo do mestre de bateria ou parente do presidente. É claro que muitos erros são cometidos, sambas fracos e inferiores a outros já foram cantados na avenida. Obras maravilhosas na quadra e excelentes na gravação, simplesmente foram um fiasco na avenida e não aconteceram. E outros, sem carisma na quadra, e com gravações regulares foram excelentes na avenida e deram, com perfeição, seu recado no desfile.

E como seria bom se pudéssemos avaliar, ainda na escolha dos sambas, qual deles seria perfeito na avenida. Mas essa mágica ainda não existe. Não temos como pré-avaliar um bom samba de avenida. Não é tão difícil percebermos um boi com abóbora desde cedo, mas reconhecermos um bom samba de desfile já é uma outra história.

Na verdade, eu vejo a obra samba-enredo como uma semente que aos poucos vai gerando frutos, alguns muito saborosos e outros bem amargos. Vou pegar esse gancho e comentar um pouco sobre esse crescimento de um samba-enredo.

Enganam-se os amigos ao imaginarem que um samba-enredo é escolhido na noite-madrugada da grande final. Um concurso de samba é na verdade um torneio de pontos corridos. A cada apresentação o samba vai sendo lapidado, aprimorado e melhorado. E essas mutações são percebidas e avaliadas pela comissão de julgamento. Por isso, eu sou um defensor forte das comissões julgadoras formadas por um mesmo grupo de pessoas. 

Esse mesmo grupo caminha com os sambas desde o lançamento e vai julgando até a escolha final. Esse grupo não pode se fechar em opiniões pessoais e secretas. É importante que dialogue sempre, analise a cada eliminatória o desempenho dos sambas concorrentes. E aos poucos a decisão dos finalistas vai sendo naturalmente formada e a final acontece, quase sempre de forma tranqüila. Alguns julgadores saem perdendo, mas o importante é que a escolha do samba-enredo seja a mais amigável possível e seja do agrado da maioria.

É importante que todos os segmentos da escola estejam representados nessa comissão julgadora e se não estiverem que sejam ouvidos e quanto mais componentes forem ouvidos melhor será a avaliação de um samba-enredo. Nem sempre a diretora de baianas representa as opiniões de suas componentes. Muitas vezes o mestre de bateria tenta fazer de sua opinião a opinião de cada um de seus ritmistas. Portanto, quanto mais componentes apresentarem suas posições, melhor será a avaliação num concurso.
 
Já participei como carnavalesco, como diretor de carnaval e como membro de comissão de carnaval de mais de 30 escolhas de sambas e vou confessar uma coisa para vocês: Nunca entrei numa final sem saber quem seria o campeão. Já entrei derrotado muitas vezes, já convenci diretores que aquele samba era o melhor. Já fui convencido e convertido para uma outra obra. Já defendi veementemente um samba e ganhei. Já o fiz e perdi. Já modifiquei minha opinião compreendendo que a voz do povo (no caso o componente) é a voz de Deus. 

Por isso, as opiniões de quem foi apenas a final de samba-enredo não parecem muito embasadas. Analisar uma obra numa gravação de CD ou pela internet é muito pouco. Pra avaliar com  critério e firmeza um samba-enredo tem que participar o maior número de vezes possível. Esse coisa de afirmar que terceiro samba da noite foi o melhor e não ganhou, que o quarto a se apresentar não foi vibrante, mas ganhou, não significa nada. Um concurso de samba-enredo é por pontos corridos. 

Nesse guerra de samba-enredo, perder a batalha de uma noite pode não significar tanto, para quem venceu batalhas anteriores.  As obras precisam e devem ser analisadas por todo o processo. E se eu chegar na minha querida Caprichosos de Pilares, no próximo sábado, na final de samba-enredo e der a minha opinião, não a relevem. Eu não participei do processo de escolha do samba-enredo e a minha opinião será apenas um palpite infeliz.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



As fantasias para o Carnaval 2009

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 03/10/2008 09:53

Antes de analisarmos as fantasias da Beija Flor, Grande Rio e da Unidos da Tijuca vou recordar os parâmetros de julgamento do quesito Fantasia.

"Neste Quesito estão em julgamento as fantasias apresentadas pela Escola, com exceção das que estiverem sobre as alegorias, as fantasias do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira e a fantasia da Comissão de Frente.

Para conceder notas de 07 à 10 pontos, o Julgador deverá considerar:

- a concepção e a adequação das Fantasias ao Enredo, as quais, com suas formas, devem cumprir a função de transmitir as diversas partes do conteúdo desse Enredo;
- a capacidade de serem criativas, mas devendo possuir significado dentro do Enredo;
- a impressão causada pelas formas e pelo entrosamento, utilização, exploração e distribuição de materiais e cores;
- os acabamentos e os cuidados na confecção;
- a uniformidade de detalhes, dentro das mesmas Alas, Grupos e/ou Conjuntos (igualdade de calçados, meias, shorts, biquínis, soutiens, chapéus e outros complementos, quando ficar nítida esta proposta).

Penalizar:
- a ausência significativa de chapéus, sapatos e outros complementos de Fantasias, quando ficar nítido que a proposta era originariamente com a presença desses elementos das indumentárias.

Não levar em consideração:
- a inclusão de qualquer tipo de merchandising (explícito ou implícito) em Fantasias;
- a presença de desfilantes com a genitália à mostra, decorada e/ou pintada;
- a quantidade de Diretores com camisas da Escola, desde que desfilem pelas laterais ou na parte final da Escola;
- questões inerentes a quaisquer outros Quesitos".
 

Percebemos que em nenhum momento o luxo, a opulência e o requinte são citados. A concepção, a criatividade, os acabamentos e a adequação ao enredo são os pontos primordiais do quesito. A subjetiva impressão causada pelas formas e pelo entrosamento e a distribuição de cores e materiais que poderíamos traduzir com bom gosto é que sempre me deixou preocupado. 

Como o julgador faz a sua análise desse tópico? Considera materiais como qualidade de materiais e nisso fica implícito o luxo e o requinte? Considera que o cetim é um material inadequado? Considera o preço do tecido fundamental? São respostas que somente o julgador pode nos dar. 

Uma coisa é inevitável por mais puristas que desejamos parecer, o luxo pode ser exagerado, desnecessário, mas ele enche os olhos. Ele não está no quesito, mas não há julgador que por ele não se deixe levar. O luxo e principalmente o bom gosto fazem tão bem aos olhos e certamente são transformados em indispensáveis décimos.

Unidos da Tijuca

É inegável o crescimento do trabalho do amigo Luiz Carlos Bruno. O conjunto de fantasias é bem superior ao trabalho do ano passado. Eu gosto de fantasias leves que permitam uma evolução solta do componente e nisso o Bruno foi bastante cuidadoso. A presença das cores da escola é percebida. No entanto, algumas fantasias me pareceram leves demais, e até um pouco pobres em detalhes e materiais. 

O que não podemos negar é que esse é o estilo da Tijuca, ela não tem o poderio econômico de suas co-irmãs e vem optando por um estilo mais para a originalidade e tem com isso, e desde o carnavalesco Paulo Barros, beliscado excelentes e merecidas colocações. Não adianta apresentarmos fantasias grandes e luxuosas se a alegoria que vem a seguir for original. Considero a fidelidade ao estilo o ponto marcante nos protótipos da Unidos da Tijuca. O componente da Tijuca gosta de desfilar com leves, ele já se acostumou a elas.

Grande Rio

A Grande tem um estilo bastante diferente da Unidos da Tijuca, portanto é muito difícil compará-las e não será essa a minha intenção. Percebo algumas fantasias de altíssimo bom gosto e outras nem tanto. Alguns exageros de detalhes poderiam ser evitados e deverão ser enxugados nas reproduções. Não percebi as cores da escola, não que isso seja fundamental, mas senti falta do verde e vermelho nas fantasias.

Em algumas delas a evolução será comprometida, salvo limpeza nas reproduções. A fantasia da corte brasileira está irretocável, rica, adequada e de muito bom gosto, o mesmo não posso afirmar da corte francesa, com adereços em exagero. 

Como apresentação de protótipos tem uma frase famosa: "Veja aqui o que você não verá na avenida", acredito que o carnavalesco Cahe Rodrigues reavalie os exageros e na avenida vejamos fantasias menos gigantescas e mais funcionais. Apesar disso, eu percebi coerência nas características da Grande Rio.

E ainda tem a Beija-Flor...

Cada escola tem o seu estilo e a Beija tem o seu. A garra dos componentes e a fidelidade deles com a escola nilopolitana são invejáveis. Êta povo pra cantar com garra e vibração o seu samba. E eles saberão suportar todo o peso de suas fantasias. 

O meu amigo Alexandre Louzada, quem não sabe ele começou no mundo do samba como compositor e passista, sempre gostou de plumas. Não me lembro de fantasias dele sem o característico mar de plumas. Ele sempre teve bom gosto e parece que a Comissão de carnaval da Beija acrescentou um pouco mais. 
As fantasias da Beija-Flor estão fantásticamente bonitas. O bom gosto impera, um exagero aqui e outro ali, mas nada que as reproduções não possam corrigir. Não é o meu estilo de fantasias, prefiro leves, coloridas e mais originais. Mas sei respeitar o talento, o requinte e o bom gosto. As fantasias da Beija-Flor deram um show. Gostei muito do conjunto, da leitura, da opulência e da adequação de cada uma delas. Parabéns Beija-Flor. Meus olhos agradecem terem conhecido um trabalho tão bonito.

Como carnavalesco me emocionei com o trabalho do Alexandre e da Comissão de Carnaval. Show de bola, ou melhor, show de fantasias. Tudo dentro de seu estilo. Se o Bruno nos apresentasse na Tijuca esse conjunto da fantasias, eu o chamaria de louco, esse não é o estilo da escola do Borel. E seu a Beija-Flor apresentasse os protótipos da Tijuca, eu estaria criticando, pois aquela não seria a escola de Nilópolis.

Essa vida de crítico tem suas particularidades. É tão fácil falar, tão fácil criticar, mas trabalhar é outra coisa, Ser pedra é fácil e cômodo, difícil é ser vidraça. 

Com os dedos no teclado, sabemos de tudo, mas combinar formas, cores, penas, adereços e materiais diversos é outra coisa e garanto, muito mais difícil. Por isso, parabenizo os meus amigos Alexandre Louzada, Cahe Rodrigues e Luiz Carlos Bruno pelo belo trabalho e esforço. São estilos diferentes, mas cada um com o seu modo trouxe um pouco do que veremos no próximo carnaval. E teremos, com certeza, um belo carnaval.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



A Lesga e seus regulamentos

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 21/09/2008 23:19

Conforme prometi vou dar continuidade na análise das alterações promovidas pelas LESGA para o próximo carnaval. Antes gostaria de responder a um comentário sobre a minha matéria anterior. Mesmo discordando de alguns pontos do novo regulamento da LESGA, continuo bastante entusiasmado com a sua criação. Para mim, o salto de qualidade que esse grupo estará dando é inegável. 

A festa de apresentação dos enredos, na última segunda-feira, na impecável quadra de ensaios da Estácio de Sá, já é uma mostra de que a LESGA não nasceu pra brincadeira e nem da vaidade de alguns presidentes. Ela não é, simplesmente, uma dissidência política da AESCRJ e sim um grupo que se formou pela necessidade de valorização e plena autonomia do Grupo de Acesso A. 

Até agora, sou fã incondicional da Liga das Escolas do Grupo de Acesso, mas me permitam criticá-la, se críticas, dentro do meu modo de ver as coisas, ela fizer por merecer.

Voltams para análise:

Não é obrigatória a presença da Ala das Crianças no desfile - É verdade que toda obrigatoriedade tem o seu lado irracional, mas me preocupo muito em não ver as crianças nos desfiles do grupo A. Confesso que no Grupo Especial não me incomodaria muito em não ver as crianças, já que as escolas mirins preenchem, de uma certa maneira, essa ausência, pois quase todas, ou todas elas têm sua representação nas escolas infantis. 

Já no grupo A essa representatividade quase não existe. E essa falta de continuidade pode não ser muito interessante para as escolas. Imaginemos um grande clube carioca de futebol terminando com suas equipes de base. Isso não seria muito interessante, pois em breve, a renovação se faria necessária. 

O mesmo vejo para as escolas de samba. É fundamental que nossas crianças tenham amor pelo samba e pelo desfile de escolas de samba. E o momento maior para isso é o desfile na passarela do samba. Só fantasiada e cantando samba-enredo a criança se contagia, como nós, por esse mundo mágico dos desfiles de escolas de samba. O funk está esperando de braços abertos...

Torço para que os presidentes das escolas da LESGA não se deixem levar por essa não obrigatoriedade e continuem levando a alegria da criançada para a Marquês de Sapucaí. A renovação e a continuidade de uma escola de samba começa com a gurizada.

A escola de samba que descer do Grupo Especial irá para sorteio da ordem de desfile. A escola que subir do Grupo B irá abrir o desfile e a vice-campeã do Grupo A poderá escolher o seu horário de apresentação - Ainda não consigo entender o motivo da São Clemente abrir os desfiles de sábado. Toda a escola que vem do Especial vem com uma bagagem e uma estrutura invejável, não apenas material e ou financeira, mas de contingente humano. Alguém ousaria não colocar a escola da Zona Sul como uma das favoritas para subir para o Especial? E por quê ela tem de abrir os desfiles?

A escola que vem do B abre os desfiles - É correto. Aprendemos assim e por tradição já aceitamos isso com naturalidade. 

A Vice-campeã escolhe sua posição em desfile - É coerente, se a campeã foi pro Especial, a vice-campeã é a melhor colocada do grupo e merece escolher sua posição.

E mudando de assunto: Fiquei triste quando li a notícia da saída do Fábio de Mello da Mocidade. Fiquei muito feliz quando o presidente Paulo Vianna e seu diretor de carnaval e meu amigo pessoal José Luiz Azevedo voltaram atrás e reconduziram esse grande profissional ao seu posto. O Fábio de Mello foi o mentor dos shows das comissões de frente e seria muito ruim não termos seu talento na Sapucaí. Parabéns para Mocidade por ter humildade e reconhecer um erro, afinal, um Fábio de Mello não se encontra em cada esquina.

Que voltem os comentários,
contrários ou a favor,
mas agora, por favor
com firmeza, mas com carinho e respeito ao nosso leitor

Um abraço e desculpem o versinho.. Pelo menos rimou
Luiz Fernando Reis



Análise das mudanças na Lesga

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 11/09/2008 10:26

Quando a idade vem chegando é comum nos tornarmos mais reacionários, mais conservadores. Toda e qualquer mudança parece assustar e o pessimismo nos envolve e toma conta da gente. Parece que nada vai dar certo. A fundação da LESGA, surpreendentemente, me encheu de otimismo em relação ao futuro do Grupo de Acesso A. Soltar as amarras que prendiam esse grupo seleto à Associação parece que foi o melhor caminho a ser seguido.

Não espero uma melhora significativo do Grupo ou mesmo das escolas, até por que esse será seu primeiro ano e a inexperiência em comandar um desfile dessa grandiosidade pode permitir algumas falhas operacionais. No entanto, e como um apaixonado pelos desfiles dos Grupos de Acesso, torço muito para que tudo dê certo para a Liga das Escolas do Grupo A. É com esse espírito otimista que faço uma breve análise das mudanças já propostas pelos dirigentes da LESGA para o próximo desfile.

Acesso e rebaixamento

Como muitos sambistas prefiro o acesso de duas escolas do Grupo A para o Grupo Especial e consequentemente o rebaixamento de duas agremiações do Especial  para o A. Explico: Sempre que uma escola sobe de grupo, ela ganha um ânimo novo, uma nova e surpreendente motivação em crescer e se fazer parecer com o seu novo grupo. A escola cresce, se movimenta e mesmo que ela não tenha sucesso no desfile e seja rebaixada no ano seguinte, só o crescimento que ela viveu e conquistou já valeu a pena. E quando retorna ao seu grupo original, ela está muito fortalecida, perde muito do que conquistou, mas está, com certeza, melhor e maior que antes. Por isso, eu prefiro que duas escolas cheguem ao Especial. São duas escolas que crescerão e fortalecerão seu grupo de origem, num possível e até provável insucesso.

Da mesma forma que o rebaixamento de duas escolas do Especial cria uma motivação em fazer melhores carnavais. O sobe e desce com duas escolas é bom para ambos os grupos. Uma escola é pouco, duas é o ideal, mas três já acho demais. Sinceramente, preferia a LESGA lutando pelo acesso de duas escolas do A para o Especial. Assim com queria o acesso de duas agremiações do B para o A.

Ensaios Técnicos

Sou plenamente favorável aos ensaios técnicos das escolas da LESGA na Sapucaí. Isso só melhorará o desempenho dessas escolas nos desfiles de sábado. Mas tenho uma preocupação com o custo desses ensaios. Uma escola do Grupo Especial tem uma receita que permite com folgas patrocinar a ida de sua comunidade para a Sapucaí. Será que bancar de 5 a 10 ônibus para um ensaio está no pequeno orçamento das escolas da Lesga? Tomara que sim, mas que isso não enfraqueça o seu carnaval.

Homem fantasiado na Ala das Baianas

Sou um crítico da Associação, mas a permissão de homens fantasiados de baianas foi uma regulamentação acertadamente proposta naquela casa. As escolas dos grupos menores vinham sendo constantemente punidas por não apresentarem as quantidades mínimas de baianas exigidas em regulamento e a solução encontrada foi permitir que homens complementassem essas quantidades. Apesar da Rocinha ter apresentado problema nessa regulamentação nos dois últimos carnavais, não vejo necessidade alguma da LESGA manter homens fantasiados de baianas em seus desfiles.

Por que estamos carentes de baianas? Esse assunto merece, em breve, uma coluna. Semana que vem continuo analisando as mudanças no regulamento da LESGA.

Que os comentaristas se manifestem, contra ou favor, vamos reacender nossos debates.

Um abraço
Luiz Fernando Reis



A polêmica da cerveja

Luiz Fernando Reis | Luiz Fernando | 03/09/2008 13:46

Meus amigos de samba, me chamam de polêmico, chato e ranzinza, sempre que dou razões para tal. Não gosto muito de ouvir esses adjetivos, mas, muitas vezes faço por merecer. Verdadeiramente, eu gosto de polemizar e com a idade avançando já começo a "ranzinzar".

Então vou polemizar um pouco com a matéria do nosso companheiro Isaac Ismar: "Lei Seca: o samba arruma seu jeito". 

Seria uma falta de bom senso tamanha se eu afirmasse que sambista não tem carro. Preconceituoso demais e até injusto de minha parte, mas qual seria a porcentagem de sambistas que têm carro? Seriam 5%, 10% ou um pouquinho mais que isso.

Se estivermos numa escola do Grupo Especial essa porcentagem é certamente maior, mas se descermos de grupo essa porcentagem cai e cai muito. E aqui deixo bem claro que definição de sambista é para o freqüentador assíduo de nossas escolas de samba. Não me refiro ao visitante que vai num Salgueiro ou numa Mangueira, mas o sambista de presença constante em nossos ensaios.

Nesse caso, a quantidade de carros diminui sensivelmente. Mas valeu o alerta Isaac, sambista de carro também precisa estar ligado na frase do momento: Se beber, não dirija.

Vou polemizar mais um pouco: Há alguns anos atrás, eu e um amigo, numa dessas cervejadas da vida criamos uma frase: Cerveja não é bom, bom é beber cerveja. Por isso, não adianta vender cerveja sem álcool, não é o gosto da cerveja que nos apetece e sim o álcool que nela aparece. Você já imaginou caipirinha sem álcool, vinho sem álcool ou uísque não alcoólico? Não tem jeito: Samba e cerveja formam um par perfeito e como um é pouco, dois é bom e três é demais, se tiver carro esqueça dele quando o papo for beber no samba. 

E já que estamos em época de concursos de samba enredo, vou juntar cerveja nessas eliminatórias. Muitas vezes, um compositor tem um samba pra lá de sofrível, um típico boi de corte, aquele tipo de samba que parece ter sido feito pra ser cortado, daqueles sem chance alguma de vitória. E eis que surge o bajulador de samba e começa a elogiá-lo:

- Não tem pra ninguém. O teu samba é o melhor, o refrão do meio é o mais animado da quadra. O samba é valente e é o meu samba. Esse ano é teu... e segue falando e sorrateiramente levando o compositor pra bem perto do bar.

E o compositor acredita, se empolga e começa a acreditar em seu samba e já no balcão ouve o famoso:

- Só de pensar na animação do teu samba, já me dá sede...

E o compositor acreditando nas palavras do bajulador paga uma, paga duas e sabe se lá quantas cervejas mais por aqueles elogios. 

Parece brincadeira, mas essa figura existe mesmo em nossas quadras. O elogio gratuito por alguns goles de cerveja.

E quando o samba é cortado, o carnavalesco é safado, o presidente já escolheu o samba, o diretor de carnaval ta comprado, isso pra poder ser publicado por aqui. 

Sai caro disputar um samba enredo. Gasta-se mais em cerveja que nos CDs de divulgação.

Um abraço
Luiz Fernando Reis


Galeria do Carnavalesco