SRZD



Leonardo Guedes

Leonardo Guedes

Jornalista, trabalhou de 2010 a 2012 no SRZD. Escreve sobre MPB.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



23/05/2013 00h00

Estímulo à criatividade: um dos diferenciais do SRZD
Leonardo Guedes

Nos dois anos que atuei como repórter do SRZD, pude acompanhar de perto vários momentos que entram para a História do Brasil e do mundo, que me proporcionaram experiências de muito destaque, valiosas para o meu profissionalismo como jornalista. A principal delas foi a série que realizei durante a Copa de 2010, quando cobri a torcida dos jogos da Seleção Brasileira em lugares incomuns.

A estreia, contra a Coreia do Norte, acompanhei em um dos presídios do Complexo de Bangu, junto com uma equipe de documentaristas. A ideia dos "torcedores que ninguém mostra" surgiu daí e a sequência foi assim: contra a Costa do Marfim, no Retiro dos Artistas (junto com a Sabrina Pirrho, e ainda fizemos os últimos registros em vida de duas grandes cantoras do rádio, Carminha Mascarenhas e Carmélia Alves); contra Portugal, no Seminário São José, em Niterói; contra o Chile, na Avenida Chile, em pleno Centro do Rio. Infelizmente, não pude sair da redação no jogo que eliminou o Brasil, contra a Holanda, mas todas as outras matérias tiveram grande repercussão. Isso mostra um dos diferenciais do SRZD, que é o estímulo à criatividade nas reportagens.



07/05/2013 09h55

'Geraldo Vandré': um artista além de 'Pra não dizer que falei das flores'
Leonardo Guedes

Em 1973, o cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré retornou ao país após um período de exílio no Chile e na França. Sob impacto do Regime Militar vigente, lançou o disco "Das terras de Benvirá" e se retirou voluntariamente do meio comercial da música brasileira, gerando diversas especulações até hoje não totalmente esclarecidas sobre o que aconteceu realmente com o artista no momento que retornou ao Brasil. Pode se dizer que uma delas já se dissipou por completo: a suposta loucura de Vandré provocada por também supostas torturas. Em 2010, o compositor concedeu uma raríssima entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto, da "Globo News", aparentando completa lucidez (embora demonstrando um certo ar de amargura). Na conversa, o autor de "Disparada" falou sobre o desinteresse em produzir música com finalidade comercial.

Curiosamente, um dos últimos discos de Geraldo Vandré (cujo nome de batismo é Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, com o artístico sendo uma homenagem ao pai, chamado Vandregísilo) foi lançado no mercado com uma ponta de apelo comercial ao qual o compositor tanto rejeita. O disco de compilação de sua obra divulgada na década de 1960, cujo título é o nome do artista, foi lançado em 1979 pela gravadora Som Maior (uma divisão da antiga RGE) com um chamariz em faixa vermelha diagonal na ponta da capa: a inclusão de duas gravações da música mais famosa de Vandré, "Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando)". Naquela ocasião, primeiro ano da chamada Abertura promovida pelo governo do general João Figueiredo, algumas canções proibidas de execução pública cerca de dez anos antes pela Ditadura foram liberadas. Uma delas foi a incendiária "Pra não dizer...". As gravações abrem e finalizam o disco. O registro de abertura é o áudio original da apresentação de Vandré no ginásio do Maracanãzinho (Rio de Janeiro), por ocasião do 3º Festival Internacional da Canção. A contra-capa oferece a mensagem de que a RGE "prazeirosamente" incluíra a gravação, sinalizando que até então, a divulgação de tal faixa estava proibida. Nela, diante da manifestação do público agitado, Vandré pedia respeito ao júri que não lhe oferecera a vitória na disputa e aos compositores da música vencedora, Chico Buarque e Tom Jobim, que fizeram a modesta (e considerada derrotista para o tenso momento político vivido) "Sabiá". "A vida não se resume a festivais", encerrava o artista parabiano, para em seguida interpretar nervosamente "Para não dizer..." somente em voz e violão, par instrumental que se repetiria na última faixa da obra tema desta resenha (cantada de forma mais agradável), desta vez gravada em estúdio.

O tempo tornou Geraldo Vandré e o refrão "Vem vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer" indissociáveis até os dias atuais. Mas o disco de 1979 colabora para verificarmos que o compositor obviamente não se limitava a isso, mostrando que sua obra tinha vertentes de Bossa Nova e música nordestina, algo bem detalhado no texto que ilustra a contra-capa, assinado por um certo Franco Paulino. Embora o autor chegue até a partir para a ofensa alheia ao comparar o trabalho de Vandré com outros artistas da música brasileira ("Nada a ver com as exibições caricatas de Tonicos, Tinocos, etc."), o texto resume as características do talento de Vandré: "Trata-se da utilização - pela primeira vez em centros urbanos - de instrumental autêntico da moda de viola do Centro Sul do país".

Fato é que antes mesmo do eterno hit, Vandré já se tornara bastante conhecido durante a década de 1960 com outros sucessos, que estão presentes no disco. Com relação à Bossa Nova, no período em que o gênero usava e abusava dos temas "amor, sorriso e flor" (e dos quais ele aparentemente romperia em "Caminhando") cantados em batida jazística, ele emplacou "Quem quiser encontrar o amor", parceria com Carlos Lyra que também mereceu registro bem-sucedido de Sylvia Telles ("Quem quiser encontrar o amor / Vai ter que sofrer / Vai ter que chorar / Amor que pede amor / Somente amor há de chegar / Pra gente que acredita / E não se cansa de esperar"). Na mesma vertente musical e poética, o disco também apresenta "Depois é só chorar", de Vandré ("Ama que tudo é só amar / Sonha que a vida é só sonhar / Toma do amor tudo que é bom / Toma depressa enquanto é bom / Que depois o amor é só chorar"); "Tristeza de amar" e "Ninguém pode mais sofrer", parcerias com Luiz Roberto; "Canção do breve amor", parceria com Alaíde Costa; e"Rosa flor" e "Se a tristeza chegar", parcerias com Baden Powell. Na maioria das faixas, a predominância é da voz e do violão.

Nos momentos de influência nordestina com andamento mais acelerado, Geraldo Vandré obteve sucesso com "Fica mal com Deus" na voz de Wilson Simonal ("Fica mal com Deus quem não sabe dar / Fica mal comigo quem não sabe amar"). Uma curiosidade sobre esses dois artistas que foram colocados em rótulos extremamente opostos é que Vandré sempre demonstrou não acreditar nas acusações de delação que destruíram a carreira de Simonal, que recebeu a visita do compositor de "Pra não dizer..." em uma de suas derradeiras internações hospitalares (o intérprete de "País tropical" morreu em 2000).

Voltando ao gênero da moda de viola nordestina, o disco também apresenta "Requiem para Matraga", composição do próprio para o filme "A hora e a vez de Augusto Matraga"; "Canção nordestina" e "Pequeno concerto que virou canção", também de Geraldo Vandré. Em todas essas faixas, ele confere interpretação em tom quase messiânico.

Dos célebres festivais da canção realizados na época, há a simpática e esperançosa marcha-rancho "Porta-estandarte", feita em parceria com Fernando Lona e que venceu a disputa realizada pela antiga TV Excelsior (atual RedeTV!) na interpretação de Tuca (uma versão mais ou menos parecida e paulistana de Preta Gil na ocasião): "Eu vou levando a minha vida enfim / Cantando e canto sim / E não cantava se não fosse assim / Levando pra quem me ouvir / Certezas e esperanças pra trocar / Por dores e tristezas que bem sei / Um dia ainda vão findar").

Formado em Direito, Geraldo Vandré entrou na Justiça para reaver seu emprego de fiscal da antiga Superintendência de Nacional de Abastecimento (Sunab), do qual havia sido demitido pela Ditadura Militar. No mesmo ano em que "Pra não dizer que falei de flores" voltou a ser liberada para o público, a cantora Simone obteve grande sucesso com uma emocionada regravação da música em um show ao vivo, mas o compositor desdenhou do fato na época: "Pensam que isso vai me deixar feliz. É inútil. Só serve para a Simone ganhar uma Mercedes do ano". Na entrevista concedida à "Globo News", Vandré refutou que "Pra não dizer..." tivesse caráter de ideologia anti-militarista, além de negar de forma monossilábica que tenha sido torturado fisicamente. No mesmo período, a canção foi regravada pela recentemente extinta banda de hardcore Charlie Brown Jr., e também foi utilizada em um comercial de TV do programa Universidade para Todos, do Governo Federal.



19/04/2013 15h40

'Vira virou': o 'novo mar' do MPB-4
Leonardo Guedes

A escolha do título "Vira virou" para o disco lançado em 1980 pelo MPB-4 (gravadora Ariola) não foi uma questão aleatória: era uma mudança nos rumos da apresentação do grupo vocal (formado por Aquiles, Magro, Miltinho e Ruy) naquele ano. A ideia da produção, a cargo de Mazola e Wellington Luiz, era arejar a música do quarteto para a modernidade da ocasião. Até então, embora contasse com sucessos de mídia pontuais, o MPB-4 era mais tido como um grupo musical panfletário, voltado para a crítica à Ditadura Militar durante a década de 1970, com vendagens modestas de discos e constantes embates com a censura da época. A obra que abria o decênio seguinte fez com que o grupo tivesse uma presença mais maciça nos meios de comunicação, ou seja, tivesse uma audição menos marcada para o protesto e a sátira de teor político e sim pelo agrado popular, com um clima mais alegre e deixando o tom soturno de lado. O resultado foi bom e garantiu algumas presenças nas paradas de sucessos, ainda que ouvidos mais críticos considerassem o conjunto do trabalho marcado pelo processo de "pasteurização" dos arranjos e das gravações que marcaram o período.

Pela capa, o tratamento gráfico realizado por Elifas Andreato chamava a atenção pela pouca convencionalidade: os rostos do quatro integrantes aparentando maturidade e as letras das músicas gravadas espalhadas ao redor. A produção contou com a participação direta dos compositores que tiveram seus trabalhos escolhidos para gravação, como Ivan Lins (piano), Dominguinhos (sanfona), Geraldo Azevedo (violão), Mú e Dadi da Cor do Som (piano elétrico e contra-baixo, respectivamente).

Dois sucessos presentes na obra são interpretados até hoje pelo MPB-4 em seus shows: a faixa-título "Vira virou", a última do disco, um fado de refrão vibrante composto pela dupla gaúcha Kleiton e Kledir, que também já começavam a fazer sucesso pelo país ("Ah, vira virou / Meu coração navegador / Ah, vira virou / Essa galera...") e "A lua", uma engenhosa composição de Renato Rocha marcada pela presença dos sinos no arranjo que se tornou um fundo sonoro preferido para ilustrar reportagens de televisão e rádio sobre o satélite natural da Terra. A ideia era sinalizar que o grupo estava em mutação permanente: "A lua / Quando ela roda / É nova / Crescente ou meia lua / É cheia / E quando ela roda / Minguante e meia / Depois é lua novamente / Quem diz que a lua é velha / Mente quem diz que a lua é velha...".

- Clique aqui para ouvir "Vira virou"

Outra canção que virou sucesso nas vozes do quarteto foi a divertida e acelerada "Olhar de cobra", composição de Moraes Moreira e Rizério ("Ela tem olhar de cobra / Que toda a hora paralisa o meu / E toda vez que ela olha / Brisa beija a flora / Estrelas brilham no breu"). Falando nesta citação, a presença dos compositores e ritmos nordestinos marcam a produção: além de "Olhar de cobra", o MPB-4 também gravou "Semente de Adão" (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando), "Depende" (composição de Fagner e Abel Silva já gravado por Amelinha em 1977), "Fruta de vez" (Dominguinhos e Abel Silva) e "Por toda lã" (Alceu Valença), esta última impressionando pela perfeita sincronia do grupo no arranjo vocal presente na rapidíssima parte final da música:

Embora interessado em ser mais palatável ao gosto do ouvinte médio, o MPB-4 não deixou totalmente de lado o viés social-político, representado na curiosa faixa "Linha de montagem" (Chico Buarque e Novelli). Registre-se que naqueles tempos o sindicalismo operário, em especial o do ABC Paulista, tinha renascido após anos de sufocação imposto pelo Regime Militar então vigente, fazendo surgir uma liderança e um partido que muitos anos depois alcançariam o Palácio do Planalto. Atenção para a interessante letra de Chico Buarque:

Além de "Vira virou", Kledir Ramil também teve outra composição gravada pelo quarteto na produção de 1980: o tema regional com pitada de crítica política "Viração" ("Mas o que eles não sabem / Não sabem ainda não / É que na minha terra / Um palmo acima do chão / Sopra uma brisa ligeira / Que vai virar viração"), desta vez em parceria com Fogaça. Trata-se de José Fogaça, que anos mais tarde foi eleito para comandar a Prefeitura de Porto Alegre. Há ainda no disco a louvação "Compadres" (Novelli e Nelson Ângelo) cujo destaque é a introdução de guitarra em ritmo latino tocada por Paulo Rafael e "Bilhete", conhecido tema de separação conjugal composto por Ivan Lins e Vitor Martins que só fez real sucesso dois anos depois, na voz de Fafá de Belém.

A formação original do MPB-4 com Aquiles, Magro, Miltinho e Ruy durou de 1965 a 2004, algo raro entre formações musicais coletivas. Ruy Faria deixou o grupo após desentendimentos profissionais e foi substituído por Dalmo Medeiros. Em 2012, Magro morreu vitimado por um câncer. A formação atual é completa por Paulo Malaguti.



07/04/2013 14h10

'As forças da natureza': o 'manifesto ambiental' de Clara Nunes
Leonardo Guedes

A preocupação mais mobilizada com a preservação ambiental e com os rumos que as inovações tecnológicas estavam tomando na humanidade começaram a tomar forma na década de 1970. Em 1977, a cantora Clara Nunes lançou um disco que pode ser citado como um exemplo de manifesto em defesa do meio ambiente e da paz. E de excelência autoral e instrumental também: "As forças da natureza", pela gravadora Odeon. O momento profissional de Clara era de continuidade de auge: as vendas de seus discos passavam da casa das cem mil cópias e, comercialmente, a artista ficou consagrada como a primeira cantora brasileira a superar um tabu da época no mercado musical brasileiro, o de que mulher cantando não era sinônimo de recorde de vendas. A produção de "As forças da natureza" esteve à cargo de Milton Miranda, Renato Corrêa e do marido de Clara, o compositor Paulo Cesar Pinheiro.

Pela primeira vez desde que começou a carreira, a cantora mineira não teve a imagem estampada na capa. Desta vez, o que estava presente era a foto de uma pedra sendo atingida por uma gota d'água, uma imagem que remete ao dito popular "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". A intenção artística reforça a mensagem de sintonia intensa com a natureza e a espiritualidade tão marcante na vida de Clara, cuja imagem estava presente na contra-capa, em saudação à imensidão do mar. A produção era aberta pela faixa-título composta por Paulo Cesar e João Nogueira, uma emocionada transcrição de um Apocalipse ao contrário: "Vai resplandecer / Uma chuva de prata do céu vai descer / O esplendor da mata vai renascer / E o ar de novo vai ser natural / Vai florir / Cada grande cidade o mato vai cobrir / Das ruínas um novo povo vai surgir / E vai cantar afinal...".

A sequência apresentou uma divertida denúncia sobre os tempos modernos e, ao mesmo tempo, uma homenagem à uma artista reverenciada: "Partido Clementina de Jesus", autoria de Candeia, que contava com a participação da citada. A música tornou-se uma espécie de "carteira de identidade" da Rainha Quelé, com o refrão "Não vadeia Clementina / Fui feita pra vadiar... Vou vadiar, vou vadiar, vou vadiar, eu vou..." sendo uma das primeiras lembranças quando seu nome é citado. O termo "vadiar" na composição, ao contrário do que se possa imaginar, não tem o significado literal de desocupação ou vagabundagem, mas de "curtir" a vida com bom humor apesar dos pesares. O sucesso foi tanto que mereceu até uma paródia antológica de Renato Aragão e Mussum no humorístico "Os trapalhões".

A louvação e a preocupação com a natureza prosseguiu em pelo menos outras três musicas do disco. Em "Senhora das Candeias", composta pela dupla Ronildo e Toninho, Clara fazia uma interpretação exuberante e marcava presença com sua intensa afinidade com as religiões afro-brasileiras. No caso, a homenagem era para a orixá Oxum, associada à Nossa Senhora das Candeias no sincretismo com a religião católica: "Eu não sou daqui, não sou / Eu sou de lá... / A noite ficou mais faceira / Pois dentro da ribeira apareceu / Com suas prendas e bordados / Seus cabelos tão dourados / Que o sol não conheceu / A menina moça debutante / Que namora pelas fontes / Que a natureza lhe deu é Oxum..."; também na saudosista "Rancho da primavera", obra de Monarco: "Não vejo a primavera, já era / A triste margarida, a desaparecida / O pobre beija-flor / Que não vejo voar sobre o meu jardim / Não tem a quem beijar / Que tristeza sem fim"; e ainda em "Fado tropical", música composta por Chico Buarque e Ruy Guerra para a censurada peça de teatro "Calabar, o elogio da traição". A gravação de Clara, última faixa de "As forças da natureza", era mais uma mostra do esforço por parte da cantora em demonstrar que sabia ser versátil nos gêneros musicais e não simplesmente uma sambista. O interessante na faixa é que, ao final, ela não completa o verso que é o refrão, como se quissesse deixar unicamente nas mãos do tempo a resposta sobre o destino da terra brasileira:

Além de ter colocado a voz para interpretar um fado, Clara Nunes também foi fundo em gravar outros estilos na produção. Teve um momento raro de compositora (junto com Maurício Tapajós e Paulo Cesar Pinheiro) no samba-tango "À flor da pele", interpretando a resignada e atormentada personagem perseguida pelo amante: "Não sei quando ou como começou / Só sei que me alucina / Me perdi do fio condutor / Do amor que me domina / E você me usa a seu favor / Igual mulher de esquina / E me leva embora, traidor / Assim que se termina". Um outro momento saudosista ocorre em "Homenagem à Velha Guarda" (Sivuca e Paulo Cesar Pinheiro), onde Clara, de forma magnífica, chega a dialogar com os instrumentos presentes no arranjo: "Era uma flauta de prata / A chorar serenatas, modinhas, canções / Pandeiro, um cavaquinho e dois violões / Um bandolim bonito e um violão sete cordas / Fazendo desenhos nos bordões / Um clarinete suave / E um trombone no grave a arrastar os corações".

Junto com "Partido Clementina de Jesus", outros dois sucessos populares presentes em "As forças da natureza" são a hoje clássica "Coração leviano" (de Paulinho da Viola) e a também saudosista e didática "Coisa da antiga", de Wilson Moreira e Nei Lopes: "Hoje mamãe me falou de vovó, só de vovó / Disse que no tempo dela era bem melhor / Mesmo agachada na tina e soprando no ferro de carvão / Tinha-se mais amizade e mais consideração...":

Completam o trabalho o samba-canção "Palhaço", autoria de Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes, que já havia sido sucesso na voz de Dalva de Oliveira na década de 1950 como "desaforo" ao ex-marido, o compositor Herivelto Martins: "Sei que é doloroso um palhaço / Se afastar do palco por alguém / Volta, que a plateia te reclama / Sei que choras, palhaço / Por alguém que não te ama..."; a comovida música "Perdão", composta por Mauro Duarte, Maurício Tapajós e Paulo Cesar Pinheiro ("Ai. perdão, venha ao encontro de mim / Já ando necessitado de também ser perdoado / Para dar perdão no fim") e "Sagarana", onde Paulo Cesar Pinheiro (junto com João de Aquino) fez um retrato musical da literatura regionalíssima de Guimarães Rosa. Apesar de algumas derrapadas na dicção, Clara Nunes consegue impor sua interpretação com alegria para a difícil letra: "Um moço êveio / Viola enfeitada de fitas / Vinha atrás de uns dias para descanso e paz / Galardão, mississo-redó, falanfão / No que se abanque / Que ele deu nos óio o verdêjo / Foi se afogando / Pensou que foi mar, foi desejo...".

Neste mês de abril de 2013, marcado pela tensão de uma guerra nuclear insinuada pela Coreia do Norte, a morte de Clara Nunes (vitimada por complicações decorrentes de uma cirurgia para retirada de varizes) completa 30 anos.


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25/03/2013 13h23

'Cosmotron': o 'futurismo nostálgico' do Skank
Leonardo Guedes

"O céu está no chão / O céu não cai do alto / É o claro, é a escuridão / O céu que toca o chão / E o céu que vai no alto / Dois lados deram as mãos...". Assim que as primeiras frases foram cantadas de supetão pelo vocalista do grupo Skank, Samuel Rosa, na música de trabalho do lançamento do disco "Cosmotron", em 2003, os fãs do grupo de rock perceberam uma modificação na sonoridade, já habituados ao estilo mais pesado e dançante dos trabalhos anteriores, na década de 1990. A música em questão era "Dois rios" (autoria do próprio Samuel, de Lô Borges e do antigo titã Nando Reis), uma balada que mostrava a aproximação do grupo mineiro com as influências conterrâneas do Clube da Esquina (movimento musical da década de 1970 que tinha Lô, Beto Guedes e Milton Nascimento como os nomes mais conhecidos) e estrangeiras da fase psicodélica dos Beatles e também do Oasis, fazendo com que "Cosmotron", uma produção do próprio Skank com Tom Capone e direção artística de Ronaldo Viana, fosse marcado por um viés nostálgico-futurista, algo que se desenhava desde o trabalho anterior, "Maquinarama" (lançado em 2000), em cujo repertório havia uma das primeiras parcerias entre Samuel Rosa e Lô Borges ("A última guerra", junto com Rodrigo Leão).

Não que o grupo formado por Samuel, Henrique Portugal, Haroldo e Lelo Zanetti tenha deixado de lado o peso e a fúria dos metais, pois além de "Dois rios", outra música do disco que também entrou no rol de sucessos midiáticos foi "Vou deixar", um rock zangado e desafiador composto por Samuel e Chico Amaral ("É, não quero hora pra voltar, não / Conheço bem a solidão, me solta / E deixa a sorte me buscar"). A introdução das guitarras e bateria da música virou uma marca registrada do Skank:

Voltando ao viés psicodélico do disco, outras músicas mantinham o ar de pop-baladismo romântico e um tanto quanto sonhador: em "As noites", de Samuel e Chico ("E lá no céu, constelações / Num arranjo inusitado / O teu nome desenhado / Pelo menos tinha ilusão") e "Pegadas na lua", de Samuel e Humberto Effe, onde a beleza de dedicar a poesia à pessoa amada foi descrita no belo trecho "Eu sou uma força / Jorrando palavras / Pelos canos de vitrines e ruas / Por onde você vai trafegar".

"Cosmotron" apresentava outras canções cujas letras focavam na essência dos relacionamentos amorosos. As de andamento musical mais acelerado eram "Amores imperfeitos (Samuel e Chico), que começa com convite de convivência civilizada após o fim de um relação e termina com uma esperança de reatamento ("Não precisa me lembrar / Não vou fugir de nada / Sinto muito se não fui feito um sonho seu... Deixa a luz daquela sala acesa / E me peça para voltar..."); na agressiva e rebuscada "Por um triz", de Samuel e Chico ("Só o amor pode juntar / O que o desejo separou / Não poderia ontem / Se vestir de amanhã"), com um andamento musical mais lento, destaca-se a leve e entristecida "Formato mínimo", de Samuel e Rodrigo Leão, uma descrição quase psicanalítica de um namoro fugaz de balada (uma "pegação", na gíria popular): "Para ele, uma transa típica / O amor em seu formato mínimo / O corpo se expressando clínico / Da triste solidão, a rúbrica".

O tom rascante de crítica social de linhas universais em todos os aspectos da música (arranjo e letra) surge em "Os ofendidos", com direito à uma alegoria da eterna luta entre o mal e o bem representado em um jogo de xadrez ("Num trecho entre o inferno e o céu, os dois tão absortos / Torre, bispo, diabo e Deus, e um silêncio só / Segui em frente e pude ouvir um fio de conversa / Ele disse em claro som: o mundo não me assusta / O mundo só me insulta"):

Pitadas de outros gêneros em fusão com o rock do Skank aparecem em pelo menos duas faixas de "Cosmotron". Há citações à MPB tradicional da década de 1960 e 1970 na última música do disco, "Sambatron" (Samuel e Chico), em cuja letra há referências aos clássicos "Reza", de Edu Lobo e Ruy Guerra, e "Águas de março", de Tom Jobim ("Laia ladaia sabadana, ave-maria / É pau, é pedra / É toda alvenaria, eu sei") e um toque de bossa nova na simpática e solidária dor-de-cotovelo "É tarde", de Samuel e Chico ("Se você olhar um pouco ao seu redor / Vai poder notar que a tarde já caiu / Se você voltar pra casa e não achar ninguém / Vai notar que na cidade falta alguém"):

Completam a produção as faixas "Resta um pouco mais" (Lelo Zanetti e Chico Amaral), "Um segundo" e "Nômade" (ambas de Samuel e Chico). Além de ser título do cd, o nome "Cosmotron" batiza o time de futebol da banda.



05/03/2013 11h55

'Almanaque': o 'disco de variedades' de Chico Buarque
Leonardo Guedes

A julgar pela capa produzida pelo artista plástico Elifas Andreato de forma a parecer mesmo um almanaque (calendário com o santo do dia, charadas e horóscopo), fora de padrões gráficos muito rígidos, Chico Buarque quis apresentar uma nova fase em sua carreira nesta obra produzida em 1981 e lançada no ano seguinte pela gravadora Ariola, exatamente com o nome de "Ariola". As histórias e curiosidades de cada destaque: Chico esteve muitos anos sem se apresentar na "Rede Globo" por considerá-la colaboradora do Regime Militar. Para se ter uma ideia do distanciamento, há uma lenda relatando que o compositor, quando foi a um bar refinado da Zona Sul do Rio, retirou um retrato emoldurado de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni (então diretor de operações da emissora) nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas. A música que marcou a reconciliação definitiva entre as partes foi a poética "As vitrines" ("Já te vejo brincando, gostando de ser / Tua sombra a se multiplicar / Nos teus olhos também posso ver / As vitrines te vendo passar / Na galeria..."). A música foi tema de abertura da novela espiritualista "Sétimo sentido":

"Almanaque" apresentou um dos refrões mais populares da MPB: "O meu guri" (cuja apresentação em vídeo é até dispensável, já que tal refrão já faz parte do inconsciente coletivo), inserida nesta crônica trágica da realidade social do país. O tom de protesto pela falta de atenção à infância brasileira também está retratado no encarte, onde um menor infrator aparece segurando uma pistola.

Em "A voz do dono e o dono da voz", Chico faz uma crítica irônica às gravadoras. O artista havia se desligado de forma tensa e hostil da gravadora Philips no ano anterior com um disco desanimado ("Vida"). A situação está explícita no trecho "Enfim, a voz firmou contrato / E foi morar com novo algoz" e em uma caricatura do encarte que aparece junto à letra: um cachorrinho com semblante pouco confortável ouvindo um lp no fone de ouvido, referência à marca de outra gravadora, a antiga RCA Victor.

Há também uma homenagem à uma das vítimas mais conhecidas da então decadente Ditadura: "Angélica", parceria de Chico Buarque com Miltinho (integrante do grupo vocal MPB-4), foi feita em memória da estilista Zuzu Angel, que lutou para descobrir o paradeiro do filho, o guerrilheiro Stuart, morto pela repressão. Faixa de tom extremamente triste, a letra fala sobre a versão do que os militares fizeram com o corpo do jovem: "Quem é essa mulher / Que canta sempre esse estribilho / Só queria embalar meu filho / Que mora na escuridão do mar". Zuzu Angel morreu em um acidente de automóvel provocado na saída do túnel que atualmente leva o seu nome, em São Conrado (Zona Sul do Rio):

Outro destaque de "Almanaque" é a inauguração da parceria com Edu Lobo, que produziu muitas parcerias para o teatro durante a década de 1980. A música de lançamento foi a engenhosa "Moto-contínuo", que traz para o mundo da poesia a ideia de uma estrutura que poderia funcionar de forma infinita, mas que não existe por contrariar as leis da Física. O trecho final da canção pode ser tido como um dos mais preciosos da lavra de Chico: "E quando um homem já está de partida, da curva da vida ele vê / Que o seu caminho não foi um caminho sozinho porque / Sabe que um homem vai fundo e vai fundo e vai fundo se for por você...".

Outras canções que fazem parte do disco são "Ela é dançarina" (Chico), que retrata o romance desencontrado entre um funcionário público e uma dançarina; "Tanto amar" (Chico), obra com influências latinas; o sambão "Amor barato", composto em parceria com Francis Hime e gravado junto com Carlinhos Vergueiro; e a faixa-título "Almanaque":



20/02/2013 11h05

'Da cor do Brasil': a 'miscigenação musical' de Alcione
Leonardo Guedes

O disco "Da cor do Brasil", lançado pela cantora maranhense Alcione em 1984 (pela gravadora RCA Victor) pode ser considerado em duas vertentes: a manutenção da fidelidade da artista às suas origens e gostos regionalizados e a consolidação de mais um estilo que produziu alguns sucessos no restante da década de 1980 (e que continua até hoje): as canções de romantismo no limite do despudoramento. E a produção, desde à capa (onde a Marrom aparece docemente bonita e sorridente) e atingindo a seleção de repertório, indicam o objetivo de tornar o trabalho o mais atraente possível, tanto na parte comercial quanto artística.

O título do disco denota exatamente a coexistência entre a miscigenação da cultura e a singularidade de cada gênero musical apresentado. Além das canções românticas, Alcione finalizou o tripé de "Da cor do Brasil" com o samba e o pagode carioca e as vertentes nordestinas. Começando pela samba e o pagode, o disco é aberto com "Mangueira Estação Primeira", composição de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro. Mais do que homenagear a eterna escola de coração, a cantora fez a gravação com a finalidade de manter uma tradição iniciada pela amiga Clara Nunes no começo da década de 1980: em cada lançamento, apresentar um samba em louvor às grandes agremiações do Carnaval do Rio. Clara morreu em 1983 tendo gravado homenagens à Portela e ao Império Serrano (as duas compostas por Duarte e Pinheiro) e Alcione fez a festa cantando "Salve a Mangueira / Que mantém-se original / E até no nome é a primeira / Acima do bem e do mal / Representa a última guerreira / Na tradição do carnaval". Exatamente naquele ano, a Verde-e-Rosa foi a primeira campeã do então recém-inaugurado Sambódromo (com a nomenclatura especial de "supercampeã", já que a Portela foi declarada campeã do primeiro dia de desfile, regra que não vingou).

O trabalho também teve duas gravações que remetiam à diversão dos blocos carnavalescos: "Vida boa", de Zé Catimba e Serjão, que tem um refrão em ritmo de batuque ("O desamor é danado / Machuca calado / Dói o coração / Mas comigo não / Você dá o pé, ele que a mão / Vou gozar com a cara dele mãe, vou gozar / Vou gozar com a cara dele mãe, vou gozar...") e "Tá que tá", composição de Franco resgatada de uma disputa de samba-enredo na União da Ilha naquele ano ("Quem pode, pode / Embala o sonho até sonhar / Tô que tô, tá que tá / E nesse embalo sou criança, sou folia / Êta vida, chego lá").

Alcione contou com a participação especial de Nei Lopes no sambalanço trava-língua "Sambeabá", autoria do próprio Lopes em parceria com Sereno: "Pra poder soletrar o beabá do samba / Não tem que ser bamba / Só tem que querer / A Dona Iracema chegou de Ipanema / Cheia de sistema, cheia de chiquê / Mas não 'guentou' quando escutou / O pandeiro esticando o ganzá / Rapidinho ela veio pro esquema / Versando no tema do sambeabá"). A Marrom faz aliança entre o pagode e o romantismo em no desabafo de reação "Na mesma proporção" (Jorge Aragão e Nilton Barros) e, encerrando o passeio pelo samba no disco, ela gravou o samba de filosofia moral "A luz do vencedor", autoria dos saudosos Candeia e Luiz Carlos da Vila.

Indo pelo caminho de outros ritmos regionais: a cantora gravou junto com Maria Bethânia a música mais conhecida de "Da cor do Brasil": "Roda ciranda", autoria de Martinho da Vila, onde cada uma mostra sua reverência pela terra local da outra. Era o segundo dueto gravado entre as duas, já que Alcione fez participação especial na gravação de "O meu amor" (Chico Buarque) no disco "Álibi", lançado por Maria Bethânia em 1978. No vídeo, Alcione e Bethânia em uma apresentação ao vivo:

Não deixando de lado suas raízes nordestinas, a artista esbanjou alegria na gravação especial de "Forrofiar" (Luiz Gonzaga e João Silva), onde ela cita seu próprio apelido ("Esse forró tá muito bom / Pra lá de bom / Deixa um pouquinho pra Marrom / Mas aqui pra Marrom"). Gonzagão fez uma curta participação falada no final da música.

Alcione também manteve o costume de gravar composições do pai, o maestro de banda militar João Carlos, desta vez com "Proa", onde ocorre o momento mais curioso e surpreendente do disco. Na contracapa de "Da cor do Brasil", aparece o aviso de que "Proa" havia sido vetada para a execução pública pela Censura Federal (que, conforme já explicado em outros posts, ainda existia na década de 1980 e indo em cima de questões ligadas à "moral e bons costumes"). O indicativo do que motivou o corte está presente logo nos primeiros versos da música repleta de expressões regionais:

- Clique aqui para ouvir 'Proa'

O timbre grave e pesado de Alcione foi aproveitado nas três músicas que são a parte mais romântica do disco: em "Desiguais", um tenso e denso aviso de rompimento conjugal composto por Prentice e Ronaldo Monteiro de Souza ("Com você no quarto eu não entro mais / Agora parto para um outro cais / De corpo farto e não tendo paz ... Ah, eu vi que a gente é muito desigual / Você só sente o amor carnal / Se parto agora não é casual"); na apaixonada "Quem é você", de Ed Wilson e Cury, e em "Pedrinhas de cor", um samba-canção autoria de Armando e Cícero Nunes cuja letra faz lembrar com perfeição os clássicos de Dolores Duran sobre o que é uma decepção amorosa:

"Da cor do Brasil" teve a direção artísitca de Miguel Plopschi e a produção executiva de Ivan Paulo.

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31/01/2013 13h46

'Modo livre': o 'desabafo desaforado' de Ivan Lins
Leonardo Guedes

"Deixa, deixa, deixa eu dizer / O que penso desta vida / Preciso demais desabafar". O refrão atualmente é conhecido na voz de Cláudia (cantora de sucesso na década de 1970), incluído como sampler no rap "Desabafo", hit de Marcelo D2. Além desses dois artistas, "Deixa eu dizer" se transformou em um dos sucessos no disco que sinalizou de vez a virada de foco no trabalho de um dos seus autores, Ivan Lins: foi em "Modo livre", lançado em 1974 pela gravadora RCA Victor. O tom agressivo fazia sentido por causa das circunstâncias da época no qual a produção (à cargo de Raymundo Bittencourt) foi realizada.

O compositor vinha de três discos (todos lançados pela gravadora Phillips-Forma) questionados pela parcela politizada do grande público. Seu primeiro sucesso popular, o soul "O amor é o meu país" (parceria com Ronaldo Monteiro de Souza) foi identificada como um hino de ufanismo adequado à propaganda do Regime Militar. As críticas e acusações de alienação pelo fato de Ivan ter mais preocupações com a boa finalização das harmonias e melodias foram aumentando até que a mudança de apresentação, de mostrar que o artista e a pessoa Ivan Lins também estavam atentos ao momento do país, foi necessária. Primeiro, ele mudou de gravadora e em seguida partiu para o trabalho em "Modo livre", cujo título é uma referência à uma das faixas do disco: na desesperada e emocionada "Espero" (Ivan e Ronaldo Monteiro), onde Ivan parece afirmar que também era vítima do arbítrio pelo qual o Brasil passava: "Espero um dia na vida / Rever nas luas vadias / Frases, cançoes, boemia / Fases do tempo em que fui feliz".

- Clique aqui para ouvir 'Espero'

Além de "Deixa eu dizer" (Ivan e Ronaldo), que escapou milagrosamente da censura da época, "Modo livre" também obteve outros dois sucessos populares: a simpática "Essa maré", parceria com Ronaldo Monteiro ("O nosso amor já está de um jeito que não dá mais pé / Tá ruim essa maré / Tá vendo só, mulher?") e "Abre alas", que marcou a estreia da longa parceria com o letrista Vítor Martins. Com alto teor de politização, a letra expressava ao mesmo tempo a tensão e o desafio diante de um clima asfixiante, uma vez que naquele ano a subida do general Ernesto Geisel, tido como "moderado", representava maior liberalização do regime: "Abre-alas pra minha folia / Já está chegando a hora (...) Encoste essa porta / Que a nossa conversa não pode vazar / A gente não era assim, não era assim...":

Além de Martins, Ivan também investia na composição com outro letrista conhecido, Paulo Cesar Pinheiro. A música feita por ambos, "Rei do Carnaval" abria o disco e contava com a bela presença do coro formado pelos grupos vocais mais requisitados da época, MPB-4 e Quarteto em Cy, além da mulher do artista na época, Lucinha Lins:

O artista exerceu seu lado intérprete de outros colegas em duas faixas: em "Avarandado", uma canção rara e modesta da lavra de Caetano Veloso ("Cada palmeira da estrada / Tem uma moça recostada / Uma é minha namorada / E essa estrada vai dar no mar"); e em um pot-pourri formado por três marchinhas carnavalescas antigas que Ivan gravou em tom de protesto: "General da banda", autoria de Satiro de Melo, Tancredo Silva e José Alcides e sucesso na voz de Blecaute ("Chegou general da banda, ê ê..."), "A fonte secou", composto por Monsueto Menezes, Raul Moreno e Marcléo ("Eu não sou água / Pra me tratares assim / Só na hora da sede é que procuras por mim / A fonte secou / Quero dizer que entre nós tudo acabou") e "Recordar é viver", de Aldacir Louro, Aluísio Marins e Adolfo Macedo ("Recordar é viver / Eu ontem sonhei com você").

Voltando ao tema do trabalho autoral, Ivan colocou em "Modo livre" uma rara composição em que atuou sozinho, tanto na música quanto na letra: em "Chega", um tema de resistência frente ao ciúme e ao clima de sufocação:

Na sequência da parceria com Ronaldo Monteiro (que começava a se desfazer naquele ano, devido ao casamento do parceiro letrista), ainda houve espaço para mais duas músicas de teor amargurado e ao mesmo tempo desafiador: em "Tens (Calmaria)" ("...Tens na minha dor tua moradia / Tens no quarto um cão vigia, tens a valentia / Mas só na minha morte então terás tua calmaria") e no samba-discussão "Não tem perdão" ("O que acontece que quem faz o meu Carnaval sou eu / Pra quem sabe você morreu / Falsidade não tem perdão"). Em ambas as gravações, o destaque fica por conta do arranjo vocal do MPB-4.

O disco ainda cedeu espaço para um momento mais romântico e dócil no bolero "Desejo", também composta com Ronaldo: "Quando você / Por aí me encontrar / Escravo que sou / Do sabor que deixou seu beijo / Nas noites finais / Nas portas do cais...". Resumidamente, o compositor apresentava no disco um rosário de desabafos existenciais e políticos, o que fica evidenciado desde a capa de tons escuros: com um semblante sisudo e barba cerrada sob um mar aparentemente começando a se revoltar. Sem contar que conseguiu fazer de "Deixa eu dizer" um hino atemporal de revolta contra qualquer coisa:



23/01/2013 16h31

'Seduzir': a 'pré-consagração' popular de Djavan
Leonardo Guedes

"Durante todos esses anos, muita gente me ensinou muita coisa. E confesso que não aprendi nem metade. Mas o pouco que aprendi está aqui. Pleno. Dos pés a cabeça", explicou o cantor e compositor alagoano Djavan neste trecho do texto presente na capa interna de "Seduzir", disco lançado em 1981 pela gravadora EMI-Odeon. O sorriso pleno estampado na foto da mesma capa interna tinha motivos de sobra. Naquele lançamento, Djavan começava lentamente a sua consagração pública como intérprete de suas composições de harmonias sofisticadas, que se consolidaria no ano seguinte, com o lançamento de "Luz". Por ser ainda tido como um artista cujos discos tinham mais o respaldo da crítica e algumas músicas tocadas no rádio com frequência (como "Álibi", na voz de Maria Bethânia), "Seduzir" teve resultado modesto de vendas (40 mil cópias), mas pode ser considerado um marco para a popularidade do compositor marcar terreno na MPB.

Em "Seduzir", Djavan fez um apanhado de todas as influências recebidas desde o início de sua carreira em Maceió, passando pelo aprendizado obtido com o jazz, o samba e outros ritmos africanos, sempre acompanhado pela banda de apoio Sururu de Capote, formada pelos músicos Luiz Avelar, Sizão, Téo Lima, Café, Zé Nogueira, Marquinhos e Moisés. Imediatamente, logo na primeira faixa, ele convidava o ouvinte a seguir o sorriso no samba "Pedro Brasil", onde fazia citações à História do país (Pedro Álvares Cabral e Dom Pedro I), com destaque para a presença dos saxofones. Na letra, Djavan dizia ter levado tempo para compor um tema otimista: "Sorria para mim, meu Brasil / Assim, ria largo do fundo, aqui / Ria aqui do nada / Não vá trair / O seu dom de cair de pé / Logo agora que eu escrevi / Uma canção de fé / Atenção: quem descobriu o Brasil foi Pedro / Quem libertou o Brasil foi Pedro / Quem construiu o Brasil foi Pedro...".

Neste trabalho, Djavan acabou gravando a sua versão para uma música já bastante conhecida do grande público: "A ilha", que foi registrada na voz de Roberto Carlos no ano anterior ao lançamento de "Seduzir". Existem duas diferenças entre as duas gravações. A primeira é que enquanto a versão de Roberto tem um arranjo orquestral, com predominância das muitas cordas e violinos, a de Djavan é mais simplificada, com a marcação do violão de Djavan, do baixo de Sizão e dos pianos de Luiz Avelar. A segunda diz respeito à letra: quando recebeu "A ilha" para gravar, RC achou a palavra "empestado" no trecho "E um cheiro de amor empestado no ar" pesada demais para seus cuidados com a espiritualidade por remeter ao vocábulo "peste". A solução foi facilmente encontrada e Roberto gravou o trecho cantando "cheiro de amor espalhado". Djavan cantou e gravou do jeito que fez a letra original:

Duas canções do disco dispensam até a apresentação em vídeo nesta resenha, pois continuam sendo tocadas à exaustão até hoje nas programações de rádio: a faixa-título "Seduzir", conhecida por sua letra simples e refrão balançante ("Vou andar, vou voar / Pra ver o mundo / Nem que eu bebesse o mar / Encheria o que eu tenho de fundo") e "Faltando um pedaço", um dos mais densos e belos temas românticos da MPB que também obteve um registro bem-sucedido na voz de Gal Costa (""O amor é como um raio galopando em desafio / Abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios / Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho / Na pureza de um limão ou na solidão do espinho"). Em sua versão, Djavan colocou uma rápida introdução de violão nordestino para firmar suas raízes locais.

A obra tem mais dois momentos interessantes. O primeiro está na faixa "Êxtase", um samba com toques de funk e soul music resultado de uma rara parceria com Aldir Blanc. Embora sem a fúria dos chamados "Anos de chumbo" do Regime Militar, a Censura ainda agia com relativa força, desta vez para evitar os chamados "atentados à moral e aos bons costumes". No caso, implicou com a carioquíssima letra de Aldir que remetia a "um bêbado babaca em estado de coma" e "ao presunto na Baixada Fluminense", em uma época em que as chacinas na região eram quase diárias. Graças à mediação de um radialista, a música escapou da tesoura e foi gravada, para simpatia dos vascaínos: 

O segundo destaque está no sambinha "Jogral", composto em parceria com Filó e Negrão. Após apresentar um relato autobiográfico, falando de sua saída de Maceió para tentar a sorte no Rio de Janeiro ("Um dia ainda sou cantor / Faz um ano que eu te disse brincando / Eu fui pensar no meu amor / Agora tô aqui quase chorando"), Djavan encerra a música com um gemido. Na transcrição das letras e na relação dos músicos presentes na capa interna, a onomatopéia foi citada como uma espécie de "instrumento" com o seu devido dono: "Uuuuh!: Djavan".

Outras presenças em "Seduzir" são do (mais um) sambinha "Total abandono", cujo personagem conclui que agiu certo em terminar um relacionamento ("Você feriu meu coração / Porém não se tocou que homem não é leão / Nada é mais sensato do que esquecer / E recomeçar / Apesar do tempo que passou / A vida vai continuar") e da modinha "Morena de endoidecer", composta em parceria com Cacaso, onde o dedilhar solitário do violão de Djavan dá o toque sofrido à canção:

Para finalizar, as influências africanas que marcaram o trabalho do compositor estão presentes na ritmada "Luanda", feita pelo próprio Djavan ("...Ou foi o ar que incendiou / Num grito da mãe Oxum / Dizendo: "menino, onde é que tu anda? / Eu te batizo africamente / Com o fogo que deus lavrou tua semente / Luanda, luanda, luanda, luanda") e na última faixa de "Seduzir", "Nvula", uma adaptação de duas composições do angolano Filipe Mukenga. O baiano Gilberto Gil participou da gravação:


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16/01/2013 21h16

'Essas parcerias': as 'balas sortidas' de Francis Hime
Leonardo Guedes

Um relançamento feito em 2005 chamou a atenção de quem é apreciador de uma MPB mais sofisticada e obteve mais visibilidade do que o próprio lançamento original: "Essas parcerias", do consagrado maestro Francis Hime. O disco, lançado com o selo da tradicional gravadora Elenco, foi produzido em 1984. Na época, o artista chegou a fazer alguns shows apresentando o repertório da obra. O segundo lançamento ocorreu 21 anos depois com a chancela da gravadora Biscoito Fino, com modificações na capa e com a presença de fotos de arquivo pessoal de Francis com outros colegas contemporâneos.

O próprio site oficial do maestro frisa que o trabalho é um dos menos conhecidos de sua carreira e ao mesmo tempo destaca que é um dos mais importantes. Compositor de formação clássica de produção inquieta e intensamente criativa, Francis Hime apresenta em "Essas parcerias" o que pode ser avaliado como um musical de "balas sortidas". Falando novamente na capa e na contra-capa, com os nomes dos cantores e músicos participantes como se estivessem pichados em um muro, é outra demonstração do clima festeiro e extremamente autoral.

A já conhecida parceria com Chico Buarque, que lhe rendeu sucessos de grande público como "Atrás da porta" e "Trocando em miúdos", prosseguia em "Essas parcerias": Chico participou como intérprete na primeira faixa, "Parceiros", composição de Francis e de Milton Nascimento (que também participou da gravação, no auge da improvisação vocal). A letra era uma alegoria do processo criativo na arte musical até a precisão e o reconhecimento: "E as vozes se tornaram tantas / Que não há mais palco e platéia / A gente que canta conosco / É o presente que Deus nos legou / É parceiro / A gente que canta conosco / É a resposta que a vida mandou".

Outra participação de Chico no disco é como parceiro de composição com Francis na faixa "Qualquer amor". A gravação integral deste tema feminino e fragilizado ficou a cargo de Olívia Hime (mulher de Francis), onde é possível perceber a emoção interpretativa para realçar a densidade da música:

Com um total de doze faixas, incluíndo as já citadas, "Essas parcerias" apresentava um vasto painel de gêneros. Havia a presença do samba boêmio e chorado em "Promessas, promessas", de Francis e Abel Silva ("... E andar perdido / Na rua acesa / E disfarçando, olhar a mesa / Daquele nosso bar vazio / Me esgueirar, me dispersar / Suando frio"); do xaxado divertidamente sensual em "Cara bonita", de Francis e Olívia, cuja gravação conta com a participação de Elba Ramalho ("Eu tava sonhando e você me acordou pra assanhar / Me provocar, me arrepiar / Vai me acabar / Mexe que mexe, remexe as cadeiras num esse / Pobre do meu coração nesse sobe que desce") e do bolero em "Perdición", parceria com Geraldo Carneiro, onde a letra cita antigos sucessos de Antônio Maria e Vicente Celestino no final "Ninguém me ama / Tornei-me um ébrio / Ninguém me chama / Lucho Gatica".

Duas cantoras que viviam o auge popular do sucesso na época em que "Essas parcerias" foi produzido também fizeram suas participações: Simone e Gal Costa. A primeira gravou a densa "O sinal" (Francis e Alberto Abreu) e a segunda esteve presente em "Um dueto" (Francis e José Carlos Capinam). Outra companhia de destaque foi Gilberto Gil. Com Francis, o compositor baiano fez o baião de toques tropicalistas "Um carro de boi dourado":

O trabalho ainda apresentou raros encontros do maestro com Fátima Guedes (na serena "Movimento da vida") e com a dupla Ivan Lins/Vítor Martins (em "Mariana", onde o personagem faz uma ode à lembrança da companheira desaparecida na luta armada contra a ditadura militar) e composições com quem já tinha costume de trabalhar: com o poeta Cacaso (em "Flor de laranjeira") e com Toquinho (na vibrante "Laços de serpentina"). Embora "Essas parcerias" não é tido como uma das realizações mais conhecidas de Francis Hime, o resultado é um dos álbuns mais interessantes da MPB.



08/01/2013 11h28

'Me ajude a morrer': o inusitado tributo a Paulo Sérgio
Leonardo Guedes

No dia 27 de julho de 1980, o cantor Paulo Sérgio foi afetado por um derrame cerebral (atualmente chamado de acidente vascular cerebral) enquanto se apresentava na cidade paulista de Itapecerica da Serra. Levado às pressas para um hospital da região, não resistiu e morreu dois dias depois da internação. O enterro no Cemitério do Caju, no Centro do Rio, foi uma verdadeira manifestação de comoção popular, a mesma comoção que continuou (e ainda continua) por muitos anos. Passou a ser costume informar que um dos túmulos mais visitados na cidade durante o Dia de Finados é o de Paulo Sérgio.

As circunstâncias da morte até hoje são obscuras, mas o que se sabe é que o cantor se envolveu em discussão com uma suposta fã durante sua última apresentação na tv (no "Programa do Bolinha", na "Rede Bandeirantes"). Enquanto algumas testemunhas disseram que quem começou a confusão foi a moça (ao fazer insinuações a respeito do casamento do artista e lhe atirar uma pedra), a mesma alegou que foi assediada por Paulo Sérgio nos corredores da emissora e que precisou se defender afirmando que Roberto Carlos era melhor cantor do que ele. Os fatos relatados mostram as marcantes na vida deste artista: a estranha citação constante de temas soturnos em suas obras (com destaque para a tristeza) e as comparações com RC, tanto no repertório quanto no timbre de voz. Para maior destaque, os dois eram oriundos do mesmo estado, o Espírito Santo: Paulo nasceu na cidade de Alegre, enquanto Roberto é de Cachoeiro do Itapemirim. Se há semelhanças, a diferença estava no alcance de público: enquanto o Rei conseguia ser apreciado por todas as classes socioeconômicas do país, Paulo Sérgio era o cantor do chamado "povão", o que atualmente pode ser enquadrado no conceito "classes C, D e E".

Além do choque com a morte de PS, o mais espantoso veio depois, no final daquele ano de 1980: o lançamento de um disco pela gravadora Magazine reunindo músicas gravadas em compactos e sobras de estúdio da década de 1970 com o título inacreditavelmente oportunista e "lisonjeiro" de "Me ajude a morrer", referência ao nome da assustadora faixa de abertura composta pelo próprio Paulo Sérgio em parceria com Alberto Luiz: "Me ajude a morrer / Não posso viver lembrando você / Me ajude a morrer / Se já não me ama, tem pena de mim... Se Deus perguntar / Prometo falar / Que a culpa foi minha...". A capa e a contra-capa totalmente ainda reforçavam o clima que poderia ser classificado de "dark-brega".

Mas o interessante em "Me ajude a morrer" é que, se do ponto de vista estético-crítico, as faixas podem ser vistas com alguma reserva (mesmo com o relançamento em cd, é possível notar que algumas músicas tiveram gravação precária), do lado musical-sociológico o trabalho desperta uma surpreendente atenção. Embora com letras banais sobre temas de amor popularesco (a dor-de-corno, o abandono, a rejeição, o desejo de reatar negado, a decepção e a volta por cima atualmente conhecida como "a fila anda") adquirem um sentido universal com a força interpretativa de Paulo Sérgio em conjunto com os bons arranjos. O lado triste e soturno está presente em "Um amor nascendo e outro morrendo", dele e de Eustáquio Sena ("Toda vez que eu olho pra você / Sinto um amor nascer e outro morrer"); "Eu bem sabia", de Getúlio Côrtes ("Só porque pude abrir os meus olhos e ver / Que sou bem mais feliz com você / E por isso voltei aqui / Ficarei desta vez para sempre ao seu lado / Não reclamo, pois fui o culpado / E preciso do seu perdão") e "Benzinho", versão de Maurileno Lopes para "Dear Someone", de Cy Cohen: "Benzinho / Por que deixou-me assim / Sozinho / E triste e a recordar / O seu beijo, seu carinho / O seu modo de falar / Não consigo viver assim / Benzinho tenha dó de mim":

Paradoxalmente, pelo fato de Paulo Sérgio ter sempre gravado temas tristes, várias músicas presentes em "Me ajude a morrer" são marcadas pela interpretação quase humorística e por arranjos em orquestrações divertidas de big-band. Assim foi em "Vou pedir outra vez" e "Você não é como eu quis" (composições de Paulo Sérgio e Eustáquio Sena), "Logo agora" (Tony Danilo e Eustáquio Sena) e no charleston "Eu não sou o que você está pensando" (Paulo Sérgio e Maurileno Lopes). Nesta última, a semelhança com a voz de Roberto Carlos é bastante acentuada e percebe-se que PS parece forçar um pouco a fanhosidade, dando motivo aos que acusavam de ser um mero imitador do conterrâneo:

Além do mais, o disco também traz o início do cantor na Jovem Guarda com o ingênuo e infantilizado rock "Lagartinha", de Rossini Pinto e Paulo Bruner ("Eu fui ver no sítio uma lagarta infernal / Que deu na lavoura, destruiu meu milharal / E dizem que a lagarta, a lagarta / A lagarta é o fim / Tudo já comeu, tudo já roeu / Não deixou nenhum capim"), uma leitura do tema pós-separação "Tudo isso me faz lembrar que o nosso amor morreu" do colega contemporâneo Odair José, e um surpreendente "sambalanço" de tom auto-biográfico (e quase profético) "Minha madrinha", outra parceria de Paulo Sérgio e Eustáquio Sena, cujo destaque fica para o órgão psicodélico no arranjo: "Vou contar, a cidade em que eu nasci / No lugar onde a infância eu vivi / Fui passear, ninguém me deu atenção / Só porque sou cantor e não tenho fama / Virou-me o rosto a dama que um dia me batizou / Minha madrinha, vou ser grande e um dia vou voltar...":

No total, ele gravou 13 discos e fez extremo sucesso popular com as músicas "Última canção", "Amor tem que ser amor" e "Índia". Em uma de suas últimas entrevistas, ao radialista paulista Altieres Barbiero, o cantor respondeu se tinha medo de morrer: "Não sei se tenho, às vezes tenho, às vezes não. Acredito que todos nós temos medo de morrer? Se ela vier agora, vai me pegar desprevenido e não vou ter medo. Mas tenho certeza de que daqui a alguns anos, quando eu estiver mais velho e souber que ela está chegando, vou ter medo, sim". Paulo Sérgio tinha 36 anos quando passou mal em seu último show.



03/01/2013 13h36

'Corrupião': o 'erudito popular' de Edu Lobo
Leonardo Guedes

"Ele é fino demais para o Brasil". Esta avaliação foi feita em 1993 pelo cineasta e atual comentarista de generalidades Arnaldo Jabor sobre o trabalho de Edu Lobo (em depoimento dado à revista "Veja"). Naquele ano, Edu interrompia um hiato de cerca de uma década sem entrar em estúdio para gravar um disco como intérprete autoral com "Corrupião", embora não tenha deixado de se dedicar em outros projetos, como compor para peças de teatro. As circunstâncias da ocasião mais o resultado ressaltam a definição dada por Jabor. O compositor não fazia mais questão da aclamação midiática vivida na década de 1960, quando fez sucesso com obras da envergadura de "Ponteio" e "Reza", mas mantinha a competência profissional para realizar um trabalho com precisão musical, tanto teórica quanto prática. Para exercer a liberdade criativa, só encontrou portas abertas em uma gravadora pertencente a quem realmente compreendia tal desejo: a Velas, pertencente a dupla Ivan Lins e Vítor Martins. E assim, "Corrupião" foi produzido, com os arranjos do próprio Edu Lobo e do igualmente respeitado músico Gilson Peranzetta.

Apesar do disco não ter muitos exemplos de sucesso popular a serem destacados, pelo menos duas músicas podem ser recordadas na memória afetiva dos ouvintes médios por terem sido incluídas em trilhas sonoras de novela. A começar pela faixa-título. A obra instrumental com nome de pássaro melodioso fez parte da trilha de "Fera Ferida", exibida pela "Rede Globo" nos idos de 1993. A outra é bastante conhecida e se inclui no rol das músicas que agradam ao grande público anos depois de terem sido gravadas: é o choro "Falando de amor" (autoria de Tom Jobim), que foi tema de abertura da novela "Por amor", também da "Rede Globo" (1997), nas vozes do Quarteto em Cy e MPB-4. No disco, a gravação em estúdio conta com uma abertura citando "Prelúdio nº 3", de Heitor Villa-Lobos, por parte da flauta de Mauro Senise. A letra fala de timidez e sentimentalismo: "Vem depressa, vem sem medo / Foi pra ti meu coração / Que eu guardei esse segredo / Escondido num choro canção". O vídeo que segue é uma apresentação ao vivo realizada em 1993:

Falando em timidez, duas características marcantes na obra musical de Edu Lobo são a melancolia e a distância sentimental. Em "Corrupião", há pelo menos duas canções que tratam da presença do mar como elemento de separação e despedida: assim foi na suave "Dos navegantes", composta em parceria com Paulo Cesar Pinheiro ("Não foi fantasia, feitiço, suspeita, presságio / O vento vadio é que fez meu navio voltar pro mar / Por isso, senhora, perdão / Eu não vim pra ficar") e em "A mulher de cada porto", feita com Chico Buarque para a peça "O corsário do rei" (do dramaturgo Augusto Boal) e gravada junto com Zizi Possi. No dueto, os dois interpretam a efemeridade dos relacionamentos ("Minha vida, querida / Não é nenhum mar de rosas / Chora não / Segue em paz"):

O clima de densidade e leveza (e da mesma distância sentimental) está em duas músicas da bem-sucedida parceria com Chico Buarque: "Valsa brasileira" ("Vivia a te buscar / Porque pensando em ti corria contra o tempo / Eu descartava os dias em que não te vi / Como de um filme, a ação que não valeu...") e na extremamente lírica "Choro bandido", em cuja gravação fica o destaque para a pureza do coro feminino ao final, formado por Ana Leuzinguer, Bettina Graziani, Cecília Spyer e Nair de Candia ("Mesmo que os cantores sejam falsos como eu / Serão bonitas, não importa, são bonitas as canções / Mesmo miseráveis os poetas / Os seus versos serão bons ... E aí nasceram as baladas / E os arroubos de bandidos como eu cantando assim / Você nasceu pra mim, você nasceu pra mim...").

Mas não havia somente melancolia em "Corrupião". Edu Lobo se mostra um intérprete sem presunções ou frescuras em faixas mais festeiras do disco, todas as duas compostas com Chico Buarque: na humoristicamente profana "Frevo diabo" ("É o barro, é o berro na garganta / Olha a ginga da santa / Devagar com o andor / Meu corpo já não sabe o que faz, Satanás / Diz para parar que eu não posso mais") e em "Nego maluco", uma versão masculina da antiga marchinha carnavalesca "Nega maluca" (composta pelo pai de Edu, Fernando Lobo, junto com Evaldo Ruy na década de 1950, cuja letra dizia "Tava jogando sinuca, uma nega maluca me apareceu / Vinha com um filho no colo / E dizia pro povo que o filho era meu..."). Na versão do filho, ao invés de criança, a paternidade em questão era sobre a autoria de um samba ("Eu tava jogando vinte e um / Um nego maluco apareceu / Vinha com um baita de um rádio no colo / Tocando um samba a mil / E dizia pro povo que o samba era meu").

E a produção ainda apresentou dois encontros com a poesia de Aldir Blanc, em "Sem pecado" e "Ave Rara". Na primeira, Edu limitou-se a interpretar alguns trechos como contracanto, já que a canção (cantada integralmente por Rita de Cássia) fala de uma personagem feminina que trata de suas angústias conjugais e sexuais: "Trancada no banheiro, mordo os braços / Meu amor são minhas mãos / E alguém me assalta o coração / Menino sim, gozando em mim, diz que é feliz...". A outra, "Ave rara", é a última faixa de "Corrupião" e chama a atenção pelo extremo requinte da letra neste samba de ritmo bem dividido: "Minha vida peregrina / Vai em busca de você / Como se eu fosse um malê / E você fosse a revelação... Ah, tanta sede é meu destino / Esse amor é beduíno / E o oásis teu lençol / Mas, sempre no fim da viagem / Você volta a ser miragem / Areia e sol...". Um rebuscamento que leva a conclusão da boa "fineza" da obra de Edu Lobo dentro dos gêneros populares da música brasileira.



29/12/2012 11h28

'Entradas e bandeiras': o difícil 'desbravamento' de Rita Lee
Leonardo Guedes

No estudo clássico de História do Brasil, a expressão "entradas e bandeiras" trata dos primeiros passos da exploração e colonização dos "descobridores" portugueses no século 16, ou seja, o desbravamento por uma terra ainda por conhecer. Em 1976, ano do lançamento de "Entradas e bandeiras" (pela gravadora Som Livre), a ideia proposta pelo trabalho de Rita Lee e da banda Tutti Frutti era a de desbravar o máximo da sonoridade que o rock pode oferecer. O resultado, mesmo com a sensação de som pasteurizado, é de impressionar, a ponto de existir entre os aficcionados quem considere o grupo musical formado pelo guitarrista Luis Carlini (cujos solos instrumentais sempre chamam a atenção) como a melhor banda do gênero no Brasil. E que não era exatamente uma banda independente, mas sim, de apoio (atenção: isso não é um desmerecimento).

Embora "Entradas e bandeiras" atualmente tenha um status "cult" para os apreciadores, as circunstâncias da época revelam que o disco não foi tranquilo de se produzir e descambou em um resultado dramático, em especial para Rita. Em uma entrevista concecida para a jornalista Ana Maria Bahiana, cerca de um ano após o lançamento , Rita Lee resumia: "Eu detesto esse disco, nem ouço". Isso porque Rita Lee, que já vinha de um rompimento complicado dos eternos Mutantes, acabou adoecendo por conta do ritmo fortíssimo dos trabalhos de produção e o disco foi finalizado sem sua participação. Coincidência ou não, o disco tem uma música chamada "Superstafa", autoria de Lee Marcucci, Luis Carlini e Paulo Coelho. A letra trata dos contratempos mais comuns do mundo: "Chove só nos fins de semana / Quando a gente quer ir à praia / A caneta vive falhando / Sempre pinga café na saia".

Falando no atual escritor esotérico, a lavra de Paulo Coelho se fez presente em mais duas gravações de "Entradas e bandeiras": em "Posso contar comigo" (composta também com Carlini e Marcucci), cujo destaque é o refrão acompanhado de palmas "Posso contar comigo numa solidão / Mas ter algum alguém do lado é melhor pro coração"; e também em "Bruxa amarela" (junto com o eterno maluco-beleza Raul Seixas), onde além de fazer referências a velhas figuras dos contos infantis (Alice no País das Maravilhas e a bruxa voando na vassoura), a letra passa uma lição de maturidade nas relações humanas: "Aprendi a ler no rosto / O que as pessoas não querem me dizer / Aprendi a ler na alma / O que pessoas não podem me esconder).

Voltando às questões de produção, a capa impressiona pela beleza de Rita nos anos 1970: ombros nus, colar de pedras e a presença de um respeitável papagaio. Mas ela não ficou satisfeita com a imagem: "Detesto desde a capa (...): eu estou muito séria, muito circunspecta", avaliou, pois sempre foi conhecida pelo jeito "moleca". A contra-capa trazia a imagem dos cabeludos (um estilo desafiador de se exercer na década de 1970) integrantes do Tutti Frutti. Além dos já citados Luis Carlini (guitarras e vocais) e Lee Marcucci (baixo), também estavam presentes Sérgio Della Monica (bateria), Paulo Maurício (teclados), Rubens Nardo e Gilberto Nardo (vocais e percussão).

Rita e a banda vinham de um sucesso anterior de crítica e público ("Fruto proibido", com os hits "Ovelha negra" e "Menino bonito"). A situação não se repetiu em "Entradas e bandeiras". As únicas músicas mais conhecidas do grande público são a rebelde e questionadora "Coisas da vida" (composição feita unicamente por Rita), onde a própria roqueira toca o piano de base no arranjo ("É o fim da picada / Depois da estrada começa uma grande avenida / No fim da avenida, existe uma chance, uma sorte, uma nova saída / São coisas da vida / E a gente se olha, e não sabe se vai ou se fica") e "Com a boca no mundo" (Rita, Carlini e Marcucci), cuja regravação obteve sucesso na voz de Ney Matogrosso ("Uh, quantas vezes eles vão me perguntar / Se não faço nada, a não ser cantar?").

A avaliar por outras letras do disco de 1976, há outra sensação além do "desbravamento" musical: a de prenúncio dos rompimentos que estavam por vir e acabaram vindo. Isso é notado em "Lady Babel", mais uma composição do trio Rita-Carlini-Marcucci ("Talvez, talvez, é o sucesso que sobe a cabeça / Talvez, talvez, antes mesmo que ele apareça") e "Corista de rock", de Rita e Carlini ("O que eu era ou sou por enquanto / É tudo aquilo que eu digo e canto...). Em "Entradas e bandeiras", há ainda a debochada "Departamento de criação" (Rita-Carlini-Marcucci) e a lenta e maliciosa "Troca-toca" ("Toco minha guitarra / Quando ninguém me toca / Nunca fico sem jeito / Mesmo se alguém me sufoca").

Ao fim de tudo, uma série de fatos e mudanças inaugurou uma nova fase na vida de Rita Lee após a complicada produção de "Entradas e bandeiras": depois de desentendimentos, a artista rompeu com sua então empresária, Mônica Lisboa, iniciou o relacionamento profissional e afetivo com Roberto de Carvalho, engravidou de seu primeiro filho (mais conhecido como Beto) e chegou a ser presa por porte de maconha.

Quanto à banda Tutti Frutti, a parceria com Rita durou até 1978. Em 2007, alguns integrantes da formação clássica (Carlini, Marcucci, Rubens e Gilberto Nardo) chegaram a fazer alguns shows.



20/12/2012 10h52

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Leonardo Guedes

Prezados leitores,

Com esta republicação de resenha sobre Chico Buarque, encerro o período de "flashback" do nosso blog sobre as histórias e curiosidades dos discos e cds da Música Popular Brasileira. A partir de semana que vem, voltaremos com os posts inéditos.

Cordialmente,

Leonardo Guedes

Clique no link e confira:

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18/12/2012 13h17

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