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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Carioca, publicitário, MBA em Marketing, ator, diretor teatral, escritor, pesquisador de escolas de samba, futebol e teatro. Twitter: @hrainho

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



20/07/2015 09h16

MaraVILA ISABEL!
Hélio Ricardo Rainho

"Desperta, Seu China!

Acorda, Noel!

Para ver a nossa escola nesse branco azul do céu!"

Há algo sintomático, emblemático e profético no fato de a Vila Isabel, após alguns anos, voltar a cantar os versos de um de seus mais lindos sambas. Já havia percebido isso quando a escola apresentou-se na quadra do Salgueiro, quando, subitamente, me veio uma emoção. Pois sexta-feira passada, no show da escola realizado no Centro de Tradições Nordestinas do Pavilhão de São Cristóvão, o samba voltou...a emoção voltou...e eu chorei!

Chorei, sim. Chorei de emoção.

E acho muito bom que, nestes tempos bicudos de comercialismo, crises políticas e tanto crítico especializado analisando e comentando tudo, ainda exista escola de samba capaz de fazer simplesmente a gente se emocionar.

E eu acho que a Vila é isso! É tudo isso!

Não é média, porque não é a minha escola-mãe. Do coração, não posso dizer que não seja: certamente a guardo como uma das mais queridas e representativas bem aqui dentro do peito. Mas estou aqui falando da verdade, do que sinto, do que vi.
A Vila apresentou seu enredo e seu carnavalesco (a meu ver, hoje, um dos mais extraordinários e plasticamente o melhor) saudando os presentes com um belo vídeo ilustrativo e um discurso simples, "devagar, devagarinho", mas tocante, do Negro Rei Martinho. "Não é um enredo político ideológico nem político partidário, mas sim um enredo político cultural".

Corajosa essa Vila! Valente! Garbosa!

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Fotos: SRZD - Hélio Rainho

Em crise, já falou da Kizomba (1988) e saiu campeã. Em tempos bicudos, falou de Direitos Humanos num tempo em que esse assunto não era lugar comum de debate oco em rede social ("Direito é Direito", 1989), falou de reforma agrária quando esse era o tema político mais relevante do país ("Se Esta Terra, Se Esta Terra Fosse Minha" (1990). Agora, em meio a um turbilhão de coisas, afirma-se novamente com seu gracioso enredo "Memórias de Pai Arraia - Um Sonho Pernambucano, Um Legado Brasileiro".

Corajosa porque, numa era em que as escolas de samba alugam seu discurso pra homenageado pagar e ver seu nome como em letreiro de outdoor, a escola se sensibiliza com a carência de um povo que vê muito político e pouca política: estão mortos os projetos em função das pessoas! Há discussões e nomes todo dia nas pautas políticas, mas a cambada não resolve nada. Enquanto isso, a Sapucaí tirou da voz de nossos crioulos o direito de defenderem o país, protestarem, acusarem as mazelas. Os enredos parecem de escolas da Suíça! E a Vila Isabel, em notória sabedoria, traz para o povo modelos estruturais de cultura e educação: traz Paulo Freire, Dom Hélder Câmara, Ariano Suassuna e todo o bastião cultural que o político Miguel Arraes alavancou em Pernambuco para engrandecer o Leão do Norte. Vamos olhar para esse modelo de desenvolvimento que infelizmente o descontinuísmo da ambição política ignorou. Mas "a Vila vê o ovo e põe às claras" corajosamente na avenida.

A Vila Isabel chegou à "feira dos paraíbas", subiu ao palco e tomou conta do lugar. Mostrou que tem seus trunfos, e eu posso citá-los desde já.

Não conheço seu presidente pessoalmente, mas achei admirável e contagiante a vibração e o carinho que ele transmitiu com palavras e com gestos a seus comandados. A política não me interessa - repito - mas ele emocionou e estava emocionado. Gostei! Igor Sorriso é um showman espetacular: ele canta em qualquer lugar com classe, elegância e um carisma absurdo: não podia ter outra alcunha que não fosse "Sorriso". Eu bato palma e paro pra ver! A seu lado, uma lenda tão respeitável e de fino trato que dispensa nossos comentários: o amável Gera, um bamba. Que cantoria doce tem a Vila dos Poetas!

Foto: Acervo Pessoal

A encantadora bateria da escola tem no comando um mestre Wallan que parece iluminado: ele flutua, brinca, se diverte! O ritmista da Vila parece entender seus pensamentos! Tudo ali é carinho e afetividade, impressionante!!!

Com esse turbilhão de samba da Suingueira, impossível não fazer girar com graça sublime a divina ala de baianas da escola. E o que não dizer dessa ala de passistas, com Edson Santos - Edinho, um dos maiores passistas do carnaval carioca - e Claudinha no comando? "Levantar a poeira, balançar a roseira" é com essa moçada mesmo.

Os casais do pavilhão - Phelipe, Dandara, Amanda e Senhorinho - estão voando felizes! Lindo bailar! E Dandara Oliveira é uma deusa: espetáculo de beleza e encanto sambando divinamente também!

E sempre fico feliz quando vejo Décio Bastos vibrante, inteiro, apaixonado, harmonizando literalmente o povo da Vila, o povo dos Macacos, o "povo do samba"! Ele tem alma e dá alma à escola!

Encerro meu texto voltando àquele samba que me parece emblemático de 1994. Além de evocar as vozes de China e Noel, ele fala de um "Zé Ferreira saudando a multidão". É Martinho, autor do enredo deste ano também. Não pode ser coincidência: "os três apitos cantados por Noel ainda ecoam pela Vila Isabel"!

Eu respeito e acredito nessa coroa...

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14/07/2015 09h27

Dança dos Passistas e Conexões Urbanas
Hélio Ricardo Rainho

Valci Pelé é um sujeito corajoso. Nós, admiradores e estudiosos da dança dos passistas, caminhamos por muitos terrenos áridos e desafiadores: históricos de descaso, discriminação, ameaça de extinção etc. Contra todos os percalços, Valci segue firme e convicto, pensando e atuando como agente de seu ato. Sobretudo nesta última década, nenhum outro passista em atividade teve maior envergadura de militância e visão conjunta do segmento passistas do que ele, Valci Pelé da Portela. Sua propriedade de enxergar passistas como um todo - não apenas como grupos isolados de cada escola - faz a diferença. Não é demérito para ninguém. É mera constatação.

Valci Pelé. Foto: SRZD

Tudo começou quando ele - ao lado de sua inseparável companheira de trabalho e militância Nilce Fran - preocupou-se em conceber um modelo teórico-instrumental para transformar a dança do samba dos passistas em algo referencial: uma pauta própria para ensino. Isso quer dizer que ambos - Valci e Nilce - tiveram a preocupação de sistematizar pedagogicamente um apanhado das técnicas dos passistas, de forma a inserir elementos de valência, força, consciência corporal etc na prática, até então, apenas intuitiva e espontânea do samba.

Há muito o que se debater sobre a questão da dança dos passistas ser ou não ser passível de um tecnicismo ou emprego de sistematização para seu aprendizado. Mas, enquanto as polêmicas ou discussões sobre o tema acontecem oculta ou reveladamente, Valci e Nilce fazem um trabalho digno de registro: literalmente registram os passos, movimentos e a técnica para um ensino posterior. Com eles, o ensino da dança do samba de passistas não apenas difere de outras modalidades de dança por emprego de uma técnica específica: tal ensino também assegura, a priori, uma sobrevivência - por um novo modelo, baseado na eficácia e na aplicação - da dança do samba para as gerações futuras.

Nilce Fran e Valci Pelé. Foto: Acervo Pessoal

Valci idealizou, para o mês de agosto próximo, um evento de inegável relevância. Sendo ele um passista tradicional, não está acomodado aos preâmbulos do tradicionalismo estagnante. Abriu sua mente e seus horizontes para propor um entrelaçamento da dança dos passistas com outras duas modalidades de dança - a gafieira (dança de salão que também tem notório vínculo histórico com a dança do samba) e a dança do charme. A ideia é abrir os horizontes dos passistas para se relacionarem com outras duas modalidades de dança que acontecem em espaços diferentes - o salão e os bailes de charme. Lugares onde a dança dos passistas não está.

Valci Pelé. Foto: Acervo PessoalO 1º Festival da Dança do Samba, a se realizar no dia 8 de agosto na Arena Fernando Torres, no Parque Madureira, tem algumas premissas relevantes. A primeira delas é o fato de ser uma iniciativa promovida, pela primeira vez, por um passista a convocar passistas fora dos territórios da escola de samba. Lá na Arena do Parque Madureira, todas as alas de passistas estarão representando suas escolas. Mas não para se apresentarem numa quadra ou na Marquês de Sapucaí: eles simplesmente trocarão experiências com duas outras modalidades de dança para tomarem os palcos da Arena, encenarem sua arte para outros públicos, levarem o talento dos passistas de escola de samba para uma interdisciplinaridade com a metodologia e a coreografia de outras danças (foram designados Marcus Azevedo e Patrick Carvalho, respectivamente coreógrafos de charme e gafieira, para apoiarem as alas de passistas participantes). Ora, Valci não escolheu a gafieira e o charme por acaso: são culturas musicais de enorme influência na cultura suburbana e já muito presentes na vida dos passistas. Com essa iniciativa, Valci aproxima os jovens passistas da possibilidade de conhecerem e se aprimorarem em algo que muitos deles apenas admiram, mas não tiveram oportunidade de desenvolver. Culturas urbanas que se abraçam e não se digladiam; se retroalimentam e não se anulam; congregam pessoas e não as separam. Ponto para Valci, de novo!

Esse movimento nos leva a crer que a dança dos passistas de escola de samba encontra caminhos para se reafirmar e se reinventar. Quando não se limita a estruturas que se apoderam do segmento para "engordar dentro de casa", o passista pode extravasar sua arte e conectá-la com outras modalidades artísticas e performáticas sem perda nenhuma de seu conteúdo intrínseco. Pelo contrário: espera-se que, com essa extensão artística do passista numa atuação fora das quatro paredes da quadra, num espaço público destinado à juventude e ao público em geral, os passistas reafirmem seu talento, engrandeçam sua arte e levem a bandeira da escola de samba que defendem para outras fronteiras e universos.

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23/06/2015 09h21

Lá Vem o Império Serrano
Hélio Ricardo Rainho

Foto: DivulgaçãoGarboso, vultoso, majestoso, triunfal. Descendo a serra, adornando o asfalto com seu verde esmeraldino da esperança, lá vem ele, o menino gigante do samba, enaltecendo sua raiz, seu bamba mais prestigiado, sua história, no próximo carnaval.

Serrinha, Congonha, Tamarineira..."lá vem" o Império Serrano, o Reizinho de Madureira!

Essa escola gigante com apelido de menino - o "Menino de 47", do ano em que despontou para a grandeza dos desfiles - é um celeiro exemplar. E o exemplo se reafirma e consolida no enredo escolhido para 2016: "Silas canta Serrinha", segundo carnaval de Severo Luzardo na luta para resgatar o Império Serrano a seu lugar devido, ascendendo ao Grupo Especial.

Enquanto muitas escolas só têm janela, o Império Serrano tem espelho. Se enxerga, se valoriza, se dignifica. Está menos interessado em "aparecer" e mais interessado em "ser o que é". Graças a Deus! Espelho que se reflete para transmitir seu saber ancestral, seu relicário de lições, preceitos  e fundamentos. O Império Serrano é um Gigante que não cede com facilidade à marola dos tempos modernos. Sendo grande, tem consigo mesmo e com seus correligionários esse sagrado compromisso de preservar a riqueza de sua história. Comovente e encantadora essa sua jornada!

Para isso, a escola apanhou muito. Apanhou lá atrás, quando quebrou a hegemonia das grandes e tornou-se, num relance, grande também. Apanhou quando seu poeta-símbolo, Silas de Oliveira, foi chamado para depor sobre um certo samba que enaltecia a liberdade em dias de ditadura política. Apanhou, também, quando essa história de patrocínio começou no carnaval. Quando abriu seu livro pra contar a história de um empresário, no longínquo 1997: ali o Império entendeu que distanciar-se de sua verve histórica não combina com seu pavilhão. Mal poderia imaginar que, depois daquele incidente, o erro se tornaria regra, e ele seria o último bastião do samba a lutar e resistir contra a fúria invasiva dos temas patrocinados, personalidades e elementos estranhos ao samba. Hoje, penalizados são os que não se rendem à mercadologia. Mas, já que "imperiano de fé não cansa", a briga tá comprada, e o Império não desiste.

Foto: DivulgaçãoO Império é assim. Tem suas peculiaridades. É escola maiúscula, imperativo do masculino..."O" Império é homem com H! "Um filho do verde esperança não foge à luta / Vem lutar!" - proclama em um de seus versos poéticos e autoexplicativos. E mesmo que nossos filhos, e os filhos de nossos filhos um dia comecem a perder a referência do que leva uma escola de samba a desfilar, do que leva um povo a cantar com lágrimas um samba-enredo; e mesmo que um dia se perca a noção de que o espetáculo das escolas de samba pode crescer sem perder suas raízes fundamentais...bastará que alguém procure, onde quer que esteja desfilando, o Império Serrano!

Com sua luta, sua coragem, seu encanto, seu exemplo, sua paixão. Então todo aquele que quiser conhecer um pouco mais do samba original e verdadeiro, poderá pisar pés descalços ou sapatos brancos - no jongo da Serrinha ou na quadra do Império - para entender que um passado morre para quem não o preserva, mas vive e sobrevive lindo e límpido para quem nele projeta seu futuro.

Obrigado, Império Serrano, por esse enredo que, antes de contar a sua história, mostra a todos nós, aprendizes das escolas de samba, que nem tudo se perdeu! Não serão os ricos, nem abastados, nem patrocinados os professores da avenida em 2016! Virá do Império, da Serrinha, de Madureira, a maior lição de samba que a avenida já espera.

Bendita coroa imperial! E é por isso que se diz: "Império Serrano: Uma Escola de Samba". Quem não tem essa patente, que corra atrás!

* Reproduzido do Jornal do Sambista, um periódico impresso mensal distribuído nas quadras e eventos de samba. Helio Ricardo Rainho é um de seus colunistas convidados.

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23/05/2015 17h52

Meu Carnaval SRZD 9 Anos: 'O Mistério da Vida' (União da Ilha 2011)
Hélio Ricardo Rainho

Foi uma aula de ciência, de vida, de flora, fauna e beleza na Avenida! A Marquês de Sapucaí adornou-se com um enredo extremamente criativo, original, bem desenvolvido, notoriamente aprofundado em irretocável pesquisa e exuberante execução plástica. No ano em que a União da Ilha do Governador desfilava como uma das escolas hors concours em função de um lastimável incêndio que destruiu barracões da Cidade do Samba, sua passagem pela avenida foi impactante. A escola insulana brilhou, com o talento de Alex de Souza, no ano de 2011. Parecia, de fato, um desfile hors concours!

Foto: Divulgação

Foi um enredo de raríssima felicidade. Nada fácil, porém. A ideia de levar para a avenida um emaranhado de teses científicas, ainda por cima polêmicas e constestáveis, como a Origem das Espécies e a Teoria da Evolução, soava, a princípio, complexa e pouco flexível. Mas a proposição do carnavalesco, segundo a justificativa do enredo, de "trazer através da cor e alegria o mosaico complexo do darwinismo para um desfile bem solto de celebração da vida" teve efeito primoroso e uma leitura fácil que surpreendeu a audiência. Muito embora grande parte do projeto concebido pelo artista estivesse comprometido pelo famigerado incêndio, com o roteiro do desfile permeado de observações como "Parte da fantasia foi destruida", "Acabamento comprometido", "Destruida, fantasia modificada" etc. Imagino se estivesse tudo a 100%...

Foto: Divulgação

Logo de entrada, a comissão de frente era impressionante. Representando os "Apontamentos de um Jovem Naturalista", com coreografia do experiente Roberto Lima, a comissão trazia um jovem Charles Darwin rodeado por 14 homens fantasiados de forma muito inovadora: eles representavam as folhas de papel dos apontamentos do cientista em sua viagem de circunavegação, retratando as formulações de suas muitas teorias. A ideia de personalizar/humanizar os blocos de apontamentos foi extraordinariamente realizada por uma concepção de figurino com efeito sensacional: a montagem da roupa, toda em branco, tinha inúmeras camadas para dar o efeito do "desfolhar" de blocos, mas o efeito conjunto dava a impressão de que os rostos se fundiam e formavam um só monte de papéis.

Foto: Divulgação

Foi um desfile de alegorias muito inspiradas e de extremo requinte. O acabamento de carros como o impactante abre-alas "A Memória da Terra", o carro dos oceanos, da botânica, da tartaruga das llhas Galápagos e o grand finale estupendo com a imagem do Darwin ancião formando uma árvore da vida adornado pela arquitetura da Abadia de Westminster foram de uma grandeza tão exuberante que pareceu quase impossível acreditar na referência da sinopse a alegorias afetadas pelo tal incêndio.

Foto: Divulgação

Em meio a um conjunto plástico impecável, a imagem que por muitos anos ficará na memória desse desfile (não obstante sua justificativa de também ter sido avariada no incêndio) será mesmo a da aranha Darwin Bark, batizada pelo cientista com seu próprio nome durante suas incursões nas florestas tropicais brasileiras. A representação da aranha na avenida causou enorme simpatia da escola com o público e foi a mais aplaudida do desfile. Um fenômeno!

Foto: Divulgação

"O Mistério da Vida" foi uma proposta de enredo de cunho notoriamente científico, portanto enriquecedor e de abordagem reflexiva sobre um dos teóricos mais polêmicos da história da humanidade. Ao realizar com singeleza e perfeição esse tema, e ainda conseguir "abrasileirá-lo" com o foco na viagem do cientista ao Brasil e "carnavalizá-lo" de forma tão didática e contextualizada (as "baianas-abelha" foram um achado), Alex de Souza realizou um dos mais importantes desfiles da história recente de nosso carnaval. E, mais uma vez, sobrevivendo à intempérie de um incêndio, provou que a criatividade e o talento do artista superam quaisquer adversidades quando se prima pelo bom gosto.

Foto: Divulgação

Foto: Acervo PessoalO desfile da União da Ilha em 2011 reiterou a categoria de Alex de Souza como um dos mais extraordinários carnavalescos e artistas plásticos da história recente do carnaval. Um artista que, a cada ano, afirma-se como um esteta de raríssimo requinte cenográfico, capaz de projetar um desfile cujo riquíssimo repertório criativo de imagens, cores e soluções é visivelmente reforçado por suas virtudes de grande pesquisador. O talento de Alex nos soa como um alento na incessante luta para que as escolas de samba sobrevivam e preservem, com talento e propriedade, não só a exuberância de seus quesitos plásticos, mas fundamentalmente a identidade histórica de fazer da avenida uma sala de aula com prodigiosas lições a serem aprendidas.

Se tenho de citar um, eu citaria este como meu desfile irretocável nos nove anos de SRZD-Carnaval!

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18/05/2015 08h35

'Velha Guarda da Beija-Flor: Grandeza que Cala a Mediocridade!'
Hélio Ricardo Rainho

"Com as pedras que me atiraste, construirei o meu castelo". Venho escrevendo algumas colunas sobre a responsabilidade das escolas de samba, a partir das escolhas de seus enredos, de afirmar seus valores, prestigiar suas tradições, fazer serem representados por seus nomes fundamentais. Afirmei, nas duas últimas colunas, a importância de exaltar nomes e temas que contribuam para a afirmação das escolas como entidades socioculturais com valores próprios, dignos de reverência.

A perda desses referenciais teve como exemplo uma manifestação, neste final de semana, que sintetiza a deformidade mental reinante. Durante um evento de premiação de escolas de samba - realizado numa quadra de escola de samba, constituído por pessoas do samba (a repetição é intencional) - um ato indigno e de profunda infelicidade causou uma mancha no já tão combalido e perseguido samba que "agoniza, mas não morre". Em dado momento, parte do público presente ao evento vaiou a Velha Guarda da Beija-Flor de Nilópolis, a atual campeã do carnaval.

Foto: Divulgação

Sim, leitor, você está lendo exatamente aquilo que eu jamais imaginei que pudesse publicar em meu blog. A notícia de uma Velha Guarda vaiada dentro de uma quadra! Num tradicional evento de premiação do samba com ingresso pago, onde pressupõe-se que, de fato, tenha ido somente gente que gosta de samba e entende de samba. Vaias para uma Velha Guarda!

Ora, ora, minha gente...a que ponto chegamos! Uma Velha Guarda vaiada num evento de samba! Chegamos ao auge do indecoro, do ultraje, da irracionalidade, do espúrio, do infortúnio!

Porque uma coisa é se indignar ou questionar um resultado de carnaval, um campeonato. Isso acontece desde os anos 30 do século passado, as rusgas são históricas. Mas a presença de uma Velha Guarda, que é um conselho régio e a representação formal de uma escola de samba, é algo digno de tanto respeito que eu jamais poderia imaginar tal tipo de agressão.

A minha escola de samba, eu não escondo de ninguém, é a gloriosa Portela. Pois foi lá que nasceu a primeira Velha Guarda, e dali saiu o exemplo que maravilhosamente rege todas as escolas: o tributo maior e o respeito a seus sacerdotes régios, seus baluartes. Que já eram dignos desse respeito em todas as coirmãs antes mesmo de se chamarem Velha Guarda a partir dos anos 70, lá em Oswaldo Cruz. Porque o samba sempre soube respeitar e preservar a sua ancestralidade, seus guardiões dos segredos, seus fundadores, seus fundamentadores. Tenho imenso respeito por todas, absolutamente todas, as Velhas Guardas do samba. Aprendi isso na Portela, convivi com isso também no Império Serrano toda a minha vida de sambista. Meu pai me falava isso; o bamba Jacyr que me levou para a Portela me ensinou isso; as canções de Clara Nunes, Roberto Ribeiro e Beth Carvalho que meus pais tocavam quando eu era menino me ensinaram isso. E agora? O que posso pensar?

Vaiar uma Velha Guarda é de uma descompostura execrável! É ato grotesco, chulo, autodepreciativo! Vergonha pros que vaiam, não pra quem é vaiado! Entrar num evento de samba, pagar um ingresso para lá estar e fazer esse tipo de confronto é muito mesquinho.

Nem mesmo a vaia a uma presidente da república, como aconteceu na Copa do Mundo, pode ser comparada a isso. Porque a presidente ali estava como representante de um povo, e mesmo sendo indecorosa, aquela vaia simbolizava o não-reconhecimento dessa representação. No caso de uma Velha Guarda, ela ali está não porque foi eleita, não porque esteja representando pessoas ou intenções protocolares; a Velha Guarda ali está porque representa um universo simbólico, um lastro cultural, um legado de conhecimento, uma entidade sociocultural que familiariza e congraça pessoas em torno da arte, da cultura e da vivência de um povo.

Vejo que essa situação é motivo para que hoje paremos e pensemos: que mensagem educativa temos dado todos nós, que hoje vivemos o samba e temos conhecimento do que é verdadeiro, para essas pessoas alienadas do meio? Que tipo de defesa, engajamento e militância exercemos diante de enredos espúrios a pessoas e coisas distantes de nossas tradições, que clamor levantamos pelo respeito às cores, às batidas, aos passistas, a todas as coisas genuínas que a escola de samba criou e, pouco a pouco, a lógica cartesiana dos desfiles esvaziou? Porque é esse descaso, essa perda de referência que, homeopaticamente, vai instituindo o desprezo aos nossos senhores de cabeça branca.

Não veremos a top model, o piloto de F1, o ex-BBB, o craque do futebol, a cantora de axé, o sertanejo ou o empresário serem vaiados na quadra! Veremos, pois, neste frívolo século XXI de tantos avanços tecnológicos e decantado progresso, as vaias truculentas e insidiosas contra uma Velha Guarda dentro de uma quadra de escola de samba! Lugar que eles criaram, árvore cujas raízes eles cultivaram, seu solo sagrado, desacatados e desonrados em seu próprio quintal!

Mas não é assim não, Velha Guarda da Beija-Flor! Não há de ser nada, meus bambas queridos de Nilópolis! Não há de ser uma vaia pequena, um apupo descerebrado de um grupelho descabido a intimidar o poder e a legitimidade do que vocês são! Não há de ser um acinte que vai calar a arte genuína e a força dessa gente toda...Débora Rosa, Márcio Frigideira, Sebinho, Paulinho Sapury, Tuninho Januário, Marly Alvarenga, Célia Natalino, Wanderly de Oliveira, Neusa Célia, Alan Vinícius, Gisele Figueira, João da Paz, Celso Paduana, Odracir Sisi, Julio de Assis e quantos mais...eheh...oh, que lista maravilhosa, que nomes de pompa, que elite de respeito!

Eu bato palma, tiro chapéu, canto loas...salve, salve a Velha Guarda da Beija-Flor de Nilópolis!

E saibam, pois, que, na minha pequeneza, tudo que aqui tenho neste meu espaço e neste meu modesto cantinho de rabiscos irá sempre aplaudir, reconhecer, saudar e reverenciar não só esta Velha Guarda linda e vultosa da campeã do carnaval, mas TODAS as outras de igual expressão ou menor tamanho! Qualquer que seja! Porque enquanto eu me chamar Rainho, chamarei Velha Guarda de Rainha! E proclamarei seu reinado e afirmarei seu respeito no samba! Salve a Velha Guarda Show da Beija-Flor: um canto de grandeza que cala as vaias da mediocridade!

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07/05/2015 18h24

Enredo vendido e bem pago!
Hélio Ricardo Rainho

Não é nada, não é nada, são quase 100 anos de escola de samba! Do surgimento como fenômeno cultural nos anos 20, chegando aos desfiles oficiais e à competição nos anos 30; passando pelos anos 60, em que as Belas Artes transformaram o cortejo em instalação artística em movimento. Nos anos 80, veio o auge da espetacularização. A partir do fim dos anos 90 e início do novo milênio, temos, afinal, a era da comercialização.

A escola de samba dos anos 20, tal qual se originou e se constituiu, tinha uma proposição de descer o morro e trazer para o asfalto o lastro de uma ancestralidade cultural intrínseca, afirmando seus valores, sua gente, sua poesia própria, seus nomes, seus heróis ou seus vultos nacionais (patrióticos, históricos, literatos ou até políticos). Com a inserção das Belas Artes (notoriamente pelo Salgueiro nos anos 60), as escolas passaram a ser potenciais difusoras da cultura brasileira de forma genérica, abrangendo outros temas artísticos. Mais tarde entraram os temas da cultura universal para, enfim, o grande espetáculo se globalizar. Eram, de fato, "escolas", porque tinham "aulas" a dar.

Foto: Reprodução de InternetConvém lembrar, aqui, a afirmação do antropólogo Roque de Laraia, em sua obra clássica "Cultura - Um Conceito Antropológico". Nela, o autor afirma que, sendo a cultura um saber transmitido passível de mudança, "cada mudança, por menor que seja, representa o desenlace de numerosos conflitos". A partir daí o leitor passará a entender o título desta coluna...

Afinal...o que é uma escola de samba nos dias de hoje? A que se propõe? Sendo os enredos os seus discursos propriamente ditos, do que estão falando as escolas de samba no Século XXI? Estão fiéis a seus princípios, estão contextualizadas com o espírito da nova época ou estão francamente descaracterizadas e longe de seus propósitos originais?

O caminho para essas respostas, a meu ver, passa pela estrada do dinheiro. Criaram um discurso (uma das muitas falácias repetidas como verdades absolutas) de que "nenhuma escola consegue fazer carnaval com os 'poucos milhões'(!) da subvenção". Isso tornou as escolas reféns do fator econômico. A opressão, e meu ver, está relacionada a uma via de mão dupla: a transmissão dos desfiles e o patrocínio.

O que temos a dizer sobre a transmissão dos desfiles? Hoje dependentes das benesses da televisão, as escolas foram, pouco a pouco, renunciando seus princípios e propósitos em função do resultado da telinha e do DVD que elas viram depois. Ora, a televisão é produtora de conteúdo, conteúdo é discurso, e as escolas precisariam - para "ganhar mais" o espaço da televisão, se adequarem aos discursos da telinha. Sai Candeia, entra a celebridade da vez! Senão vejamos: as escolas passaram a ser sutilmente despontuadas, por exemplo, numa de suas mais expressivas representações de identidade, que é o uso das cores de sua bandeira. Essa lógica bestial já despontuou a Mangueira, por exemplo, por apresentar-se "pouco criativa" usando "muito verde-e-rosa"!!! O esplendor dessas cores representando a identidade dessa escola é considerado algo "muito monocromático" para a telinha de televisão. A orientação é "colorir", porque "colorir é sinônimo de criatividade"(?). Este é apenas um dos exemplos. O rigor da cronometragem, para não ferir as grades de programação da TV, é outro exemplo de como a transmissão interfere e sufoca a cultura própria das escolas de samba. Muito embora, na cobertura, a TV perca grande parte de seu tempo com quadros, entrevistas e assuntos que privilegiam besteiras e gente oca que nada têm a ver com o samba. A cobertura de TV envolve muita gente sem conhecimento do assunto e comete o descaso de comprar a exclusividade da transmissão dos desfiles e acintosamente DESCARTAR o desfile das primeiras escolas de cada dia para privilegiar programas próprios e manter o lucro vindo de seus anunciantes. É venda própria o tempo todo! E ninguém fala nada...

Dos prejuízos com a transmissão, partimos para a alienação do patrocínio. Que quase nunca é patrocínio de verdade. O termo é usado de forma absolutamente inadequada. Na maioria das vezes, o que se faz é merchandising, que significa, à luz do marketing, negociar um espaço publicitário para vender um produto expondo sua imagem. Para o leitor entender a diferença: a Coca-Cola patrocina uma peça de teatro, mas não exige que Shakespeare reescreva a peça toda pra falar da empresa, nem que Romeu venha engarrafado com gás e Julieta venha vestida de Fanta Laranja! Entendam, portanto, a diferença entre "patrocínio" e "merchandising". Isso aí que estamos vendo deveria se chamar "enredo pago"! Acham feio? Pois é: é feio mesmo! Que não nos desmintam os jingles travestidos de samba-enredo, onde compositores foram "orientados" (um eufemismo que tenta substituir o termo "obrigados") a citar nomes de empresas, produtos e outros vexames mais! Patrocínios estes que levaram escolas de samba a cantar "coisas e objetos" ridiculamente alheios à festa e às suas tradições.

As escolas não escolhem mais seus enredos! Como se fossem veículos midiáticos, vendem seu espaço para o discurso dos outros!

De uns anos para cá, entramos em nova esfera, e é bom que comecemos a dar nome a isso. É a era das "homenagens pagas". Funciona assim: "eu sou escola de samba e, se você pagar meu desfile, eu falo sobre você"! Sim, seria constrtangedor para qualquer um de nós, sambistas. Mas pra muita gente isso é "o maior barato"!

Você, leitor, vai decidir pra que lado isso fica mais feio - o de quem paga ou de quem recebe. Ou decidir, até, se isso fica bonito. Também pode. Não duvido que muita gente ache. Pois esta parece ser, definitivamente, a fashion trend do momento!

Suponho que todos devamos refletir seriamente sobre tudo isso. É bom lembrar que nada, nem ninguém está sendo violado. As escolas de samba estão consentindo naturalmente todas essas coisas, salvo raras exceções. Na "busca pelo título" e pela "matemática dos jurados", pouco a pouco vemos as escolas mudarem suas características, deixarem de fazer o que sempre fizeram, levarem para a avenida "temas bem pagos". Há carnavalescos e dirigentes de escola de samba que, sufocados pela maioria que bate continência pra isso, veem-se forçados a aderir a esse movimento. Pouco a pouco, mudam seus discursos de que acham tudo isso absurdo e passam a fazer a mesma coisa.

A realidade é que paira no ar um silêncio sobre toda essa necessária reflexão. Seja porque alguns têm se dado muito bem com tudo isso, seja porque quem não concorda vai sendo lentamente "exterminado da vitrine". A verdade é que as escolas de samba estão desfilando por uma lógica de sobrevivência. E seus enredos - a saber, a fonte principal de seu discurso e ideologia na avenida - foram trocados por qualquer coisa "vendida e bem paga" que possa assegurar um lugar ao sol.

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16/04/2015 09h07

Enredo e Alegoria pra quê?
Hélio Ricardo Rainho

Os anos 60 são apontados como a era em que o academicismo das artes plásticas passou a ter preponderância na concepção dos desfiles de escola de samba. Até então, a plasticidade era menos importante do que o discurso, expresso no tema/enredo. No carnaval de 59, uma escola de samba - a Acadêmicos do Salgueiro - revolucionou os desfiles após ter apresentado, pela primeira vez, um enredo contrário à dominante tendência de exaltação a vultos patrióticos e militares. Baseado na obra do pintor francês Jean-Baptiste Debret, o enredo "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil" enfatizou a questão estética em seu desfile. Ficou em segundo lugar (a campeã foi a Portela), mas não só abriu a mentalidade das escolas para novos temas, como arrebatou os elogios e a paixão de um personagem que seria definitivo para a própria história das artes plásticas no carnaval. Naquela oportunidade, um certo Fernando Pamplona, que estreara como jurado do desfile, teceu elogios à inovação e foi convidado a desenvolver o enredo do Salgueiro no ano seguinte. De 1960, com seu enredo sobre Zumbi dos Palmares desenvolvido com Arlindo Rodrigues e Nilton Sá, veio todo o legado histórico que já se conhece. Inaugurava-se a era das belas artes no carnaval carioca.

O avanço das artes plásticas dentro da escola de samba, muitas vezes visto como vilão, carece de real interpretação e entendimento. A despeito de todas as discussões que se possa ter sobre a tradição, a manifestação folclórica, a construção identitária através do pertencimento às comunidades etc, inegavelmente a escola de samba só alcançou grandeza e expressão aos olhos do mundo a partir do momento em que pluralizou seu discurso e suas afirmações estruturais através das artes plásticas. Não foram o gigantismo das alegorias nem o perfeccionismo dos artistas que expulsaram muitas coisas intrínsecas ao caráter das escolas. A grandeza e o perfeccionismo deveriam continuar sendo - como se propusera naquele início de anos 60, até parte dos anos 70 e momentos dos 80 - ferramentas possíveis para se afirmar o discurso. O grande problema, porém, é que houve uma inversão (consentida, não invasiva, porque foram as próprias escolas e os próprios sambistas que admitiram isso) nesse processo. As grandes "ferramentas" artísticas que deveriam reafirmar a grandeza e a cultura das escolas passaram a se vender e a se "pluralizar" em busca de recursos financeiros. Os administradores do samba, infelizmente, viram tantos rios de dinheiro fluindo diante de seus olhos que perderam o sentido atávico do samba, perderam o tino histórico das escolas. Via de regra, perderam o espetáculo da escola de samba para o mercantilismo espetacular. A culpa, senhores - volto a dizer - não é das artes plásticas. É do uso indiscriminado que passaram a fazer delas.

Como já vimos, lá em 59 estava o Salgueiro descartando os temas patrióticos com um desfile voltado para o artístico. Pamplona, no ano seguinte, com seu Zumbi, evocava pela primeira vez um herói não-oficial na avenida. Nos anos 70, já instituídas as revoluções temática e artística pelo Salgueiro, vieram a exuberância do folclore e da natureza brasileira com Clóvis Bornay na Portela ("Lendas e Mistérios da Amazônia", campeã de 1970), a consagração do tropicalismo de Fernando Pinto com o "Alô, Alô, Taí Carmem Miranda" no Império Serrano (campeão de 72), a genialidade subversiva de Joãosinho Trinta (também saído do Salgueiro) consolidando a Beija-Flor, os discursos de pesada temática social com a São Clemente de Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa nos anos 80, a Mocidade "high tech" de Renato Lage nos anos 90, o apogeu das pesquisas histórico-folclórico-literárias de Rosa Magalhães também nos 90 pela Imperatriz, o carnaval lúdico e as alegorias vivas de Paulo Barros na virada do Milênio. Muita coisa se afirmou e reiterou do discurso das escolas de samba dentro dessas - e de muitas outras não citadas - proposições temáticas e artísticas. Nada se perdeu, e muto se ganhou, com o avanço dos artistas e intelectuais dentro da marcha do samba. E onde está o ponto crítico dessa polêmica entre arte e escola de samba, então?

Foto: Divulgação

Me parece coerente afirmar que, não obstante toda a sua representatividade cultural nas quadras e nas comunidades, a escola de samba precisava mesmo conquistar um território "além-avenida". Sim. Porque, da mesma forma como estaria sujeita ao isolamento do morro, mas afirmou-se como cultura oficial do país quando "territorializou-se" no asfalto, a escola de samba conseguiu levar sua força e sua pujança para além do espaço a que a elite sempre tentou mantê-la cativa. É o que todo pesquisador sabe, e está registrado na história: a trajetória de afirmação do samba deu-se quando ele sai da restrição ao morro e se reafirma no asfalto. E reforçou isso, no caso da escola de samba,  através do espetáculo, da grandiosidade com que impôs-se, ano após ano, na projeção de seus desfiles, na avenida. Qual foi o erro, então?  

Vou polemizar, talvez. Mas vou defender meu ponto de vista. A escola de samba, no momento em que deteve o poderio do espetáculo para fazer irradiar sua cultura peculiar, perdeu a mão no tempero. Em vez de valorizar suas figuras notórias, está perdida em homenagens a personagens inócuos da elite brasileira. Muitos deles, inclusive, constituintes de indústrias de monopólio cultural que jamais deram ao verdadeiro samba o espaço verdadeiro para ser reconhecido. O cortejo das escolas de samba, que deveria proclamar seus VALORES próprios, está colocando azeitona na empada dos outros: dos empreiteiros políticos, dos artistas de gravadora entubados goela adentro do povo, dos esportistas alheios ao sentido da festa, dos alienígenas do samba. Consideram o "valor nacional" de certos homenageados, mas esqueceram que, em termos de enriquecimento cultural, é infinitamente melhor ver um Hans-Christian Andersen fabuloso de Rosa Magalhães na Imperatriz ou um Charles Darwin extraordinário de Alex de Souza na União da Ilha... do que uma Luma de Oliveira no Estácio (pronto...dei nome aos bois!). Esse xenofobismo é outra falácia que só interessa às elites dominantes: rejeitar o a cultura clássica mundial em prol do lixo nacional não se justifica! Se o povo brasileiro - além de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Drummond e tantos outros gênios nossos - também pudesse ler mais Dostoiévski, Kafka, Joyce e Grass, certamente pensaríamos muito mais e melhor a nossa consciência cívica do que vendo enredos sobre sertanejos, big brothers ou personagens alheios a uma quadra de samba. Estão reclamando muito da Broadway e do Soleil na avenida...sabem por quê? Porque odeiam a ideia de se trazer a Broadway e o Soleil, reinterpretados, para o povo! Isso era monopólio de elite, agora pode ser visto numa "festa de crioulos"! Quem se incomoda com isso???

Foto: DivulgaçãoVou mais fundo nessa ferida: nas escolas de samba, cresce um discurso que sempre foi muito bem visto pela inteligentsia acadêmica, que é a afirmação do negro na sociedade brasileira através do tribalismo, do primitivismo e do misticismo. São 60 anos de desfile e o negro continua sendo "vendido" nos desfiles por aspectos que o tribalizam ou estigmatizam como um personagem "diferente e exótico". São milhares de alegorias de navios negreiros, fantasias de escravos, negros sangrando, chibatas, entidades espirituais etc. Tudo isso sob o manto de um discurso de "militância", que só faz repetir o rastro de inferioridade e sujeição do negro na história da humanidade. Em suma: o "coitadinho"! A elite imperialista - claro! - adora essas caricaturas, que delegam ao negro somente o papel de minoria oprimida e exótica da nossa história.

E a contribuição do negro na Arquitetura, na Engenharia, na construção de prédios e fachadas históricas (a maior mão-de-obra de toda a construção arquitetônica do país foi feita pelas mãos dos pedreiros negros)? E o legado do negro na Agricultura, tida como domínio da Ciência da Terra, do arado, do cultivo, enaltecidos num país onde "tudo que se planta dá", definitivamente um conhecimento dos africanos que nunca é mostrado com a real dimensão que merece? Nada! Nos desfiles, negro é favela, misticismo e escravidão! E todo mundo se comove, e todo mundo bate palma...e tome palha, ráfia, sisal, "carnaval rústico"- que sai barato e agrada a todo mundo e conquista os jurados suecos do sambódromo! O jurado sueco olha tudo, não vê nenhuma criatividade artística em nada, fica embasbacado com "o tamanho"... e solta as maiores notas da cartola! Depois despontua os criativos, os pesquisadores, os que estão fora da curva, cobrando justamente a "criatividade". E demonstram o que é ser criativo com a forma surreal e alucinógena com que redigem suas estapafúrdias justificativas - estas sim um "arroubo de criatividade"!

Foto: Divulgação

Infelizmente, os enredos "afro" das escolas de samba parecem acometidos da mesma síndrome do cinema brasileiro: a paixão pela tragédia, pela miserabilidade, pelo descaso, pela violência, pelo coitadismo. O cinema brasileiro abandonou a arte e abraçou o jornalismo: empresta sua câmera para romantizar tudo o que o noticiário de televisão escrutina. Já a escola de samba emprestou a potência de sua visibilidade enquanto espetáculo para fazer publicidade de heróis pré-fabricados da indústria cultural e potencializar o discurso das elites sobre o "exotismo" do negro brasileiro. E ainda falam em "igualdade racial", depois de confinar pobres e negros como diferentes e "exóticos" o tempo todo...

Vem aí o Carnaval 2016. Veremos mais do mesmo, de novo. Tudo isso aí que eu relacionei acima, minimamente para uma proposta de reflexão, vai voltar (está voltando!), com argumentos e defesas apaixonadas e cheias de justificativas da parte de seus executores! Ouvindo entrevistas e lendo sinopses, parecerá tudo "perfeito", "interessante", "cultural". Dirão até que, "economicamente, seria impossível fazer de outra forma". Mas, se pensarmos que a escola de samba "ganha" a avenida para reforçar os aspectos sociológicos de sua cultura e que as artes plásticas deveriam ser utilizadas para potencializar esse discurso com grandeza e propriedade, veremos que alguma coisa se perdeu no rumo dessa história. E que, de 1959 pra cá, o binômio enredo+plástica perdeu sua autonomia não porque um tenha prevalecido sobre o outro, mas porque um terceiro elemento - o mercantilismo - comprou e vendeu as mentes sadias para fazer prevalecer outros discursos.

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11/04/2015 10h03

'Portela, Um Poema Pra Você!'
Hélio Ricardo Rainho

Foto: Divulgação

Portela,
Teus tambores reunidos
Acalentam os ouvidos
Dos que seguem teu pendão

Revolvem
As cortinas do passado
Dos batuques, dos gingados
Do samba de pé no chão

Abrimos
Nosso peito, nossa vida
Nos fazemos avenida
E tu passas... que emoção!

Teremos para ti novos planos
Nestes 92 anos
De tão vultosa paixão

Lembramos
Tuas honras, tuas glórias
És fazedora de histórias
Que garboso pavilhão!

Nascida
Sob a sombra da jaqueira
Oswaldo Cruz, Madureira
Tua gente em comunhão

Saúda
Tua festa, teu reinado
De azul e branco, enfeitado
Do poeta és o afã

Orgulho
Ser a única torcida
A gritar, envaidecida:
"21 vezes campeã"!

De bambas
Tens o céu mais impoluto
Aqui, sabemos, deu fruto
O que a Velha Guarda plantou

Portela
Somos filhos de teu ninho
Teu amor e teu carinho
Celebramos com emoção

Portela
És paixão que não se explica
Tudo passa, a Águia fica
Viva em nosso coração

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23/03/2015 08h20

Império Serrano: 68 anos sem grilhões
Hélio Ricardo Rainho

Há um verde que não se explica na história deste Brasil! Um verde vultoso, saído de uma bandeira que não é a do país, mas igualmente exprime o sentimento e as conquistas de uma nação.

Há um verde que inflama corações, incendeia pés e quadris, arranca sorrisos e lágrimas, lava almas e purifica quem o contempla.

O dono desse verde se chama G.R.E.S. Império Serrano! Ele será eternamente jovem como um Menino de 47 e inquestionavelmente maduro e sábio como um Reizinho de Madureira.

Foto: Jeanine Gall

Esqueça tudo o que se possa pensar sobre uma escola tradicional, convencional, submissa aos velhos chavões e ditames da hora. Esqueça tudo o que se possa pensar sobre o conservadorismo e a subserviência dos antigos, sobre os medos e recuos que favorecem as benesses e acomodam os encostados.

O Império Serrano é diferente! E é diferente porque é de verdade! Uma escola de samba de verdade!

O Império Serrano gritou a liberdade quando ninguém gritava, reivindicou o que a ditadura comeu quando todo mundo comia junto, chamou jurado de demente no meio da avenida e mandou "abrir o livro pra ler" quando muitas outras já estavam cada vez mais se curvando e mesmo se prostituindo pros desfiles mornos, mortos e envelopados de geladeira de necrotério intelectual.

Ah, não! Não é assim, não! Com o Império - vão logo os senhores sabendo, ó dilapidadores e depreciadores do samba - com o Império é diferente!

O Império Serrano atravessou crises, perdeu status, perdeu até o seu lugar no Olimpo...mas nunca se poderá dizer que o Império Serrano perdeu a sua propriedade de dizer "não"! Ele sabe, sim, dizer "não" ao falso samba, à falsa sabedoria, ao falso carnaval!

As mordaças, as cadeias, os grilhões e os alforjes da miséria...a quem queira! O Império não precisa...os rejeita..."obrigado"!!!

Porque o Império Serrano, se você quiser tratar como "senhor" por estar completando 68 anos neste dia 23 de março...que o trate, sim, como "senhor"...mas como "Senhor do Samba"!

Um Senhor que não se curva à mentira do espetáculo que traveste suas tradições; um Senhor que não se rende à desqualificação generalizada do samba-enredo hoje banalizado e secundarizado; um Senhor que carrega uma ala de passistas de envergar o piso da avenida e fazer tremer as arquibancadas: homens sambando como homens, mulheres como mulheres!; um Senhor que lembra, relembra, canta e recanta sua Velha Guarda e seus valores!

Se pra muitos o Império Serrano não se atualiza... saibam pois: a glória maior dessa escola é que ela não se desmoraliza, isto sim! A história recente das escolas de samba vem tendo uma leitura tendenciosa e equivocada: o que significa, afinal, "avançar"?!?! Porque se "avançar" for tão somente se render às exigências e aos homicidas com seu modelo de desfile imposto; se "avançar" for tão somente crescer em proporção e esvaziar-se de conteúdo; se "avançar" for tão somente abandonar a essência e privilegiar o espetáculo; se "avançar" for tão somente descaracterizar a alma do chão de escola e transformar componente em fantoche de senhor de engenho...então o Império Serrano mandará ÀS FAVAS o pressuposto do avanço e da modernidade, a tirania impositiva do espetáculo televisivo, a orgia lisérgica dos falsos inovadores do samba!

Virá, sim, o Império Serrano, com sua peregrinação de fé e samba, dizendo seu corajoso e maiúsculo "Não" aos ilustres entronizados.

Foto: Jeanine Gall

E fará prevalecer, sim, a sua forma elegante e característica de inovar, se renovar e avançar, mas sempre do seu jeito, com sua marca, respeitando as páginas de sua história. Ou por ser diferente respeitando a história que tem ou por ser diferente tendo história - coisa que muita gente aí nem tem!

Nós, os amantes do samba, sendo ou não imperianos, vestindo ou não as suas cores na avenida, saberemos respeitar e saudar essa vultosa bandeira. Porque, quando ela passa hasteada na avenida, não está ali pra virar pacote de presente em dvd de prateleira nem pra saciar a fome nefasta da câmera de televisão. Quando a bandeira do Império Serrano passa na avenida, ela arrasta consigo um legado de poesia, história, emoção, grandeza, democracia e liberdade - valores que, infelizmente, não pontuam pra matemáticos, mas gloriosamente enobrecem a vida e a alma de quem sabe apreciar o que é um verdadeiro cortejo de escola de samba na avenida!

Foto: Jeanine Gall

E assim, passarão mais 68 anos, aparecerão mais novos teóricos e novos insanos, novos histéricos e novos tiranos...e o samba e a escola de samba continuarão sendo o que sempre foram, porque ali estará o verde do Império Serrano a nos mostrar o que é ter a verdadeira esperança de que a nossa cultura não se ajoelha nem se vende por esse punhado de falsas glórias jogado como se fosse areia nos olhos de quem quiser!!!

Parabéns ao Império e aos imperianos; aos de hoje e aos de 47; aos de 2016 e aos que com ele seguirão futuro adiante; bradando a verdade e a coragem, defendendo aquilo em que acreditam...fazendo-se enredos vivos..."Heróis da Liberdade" desse "Império do Divino"!!!

Foto: Jeanine Gall

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13/03/2015 13h46

Escolas de Samba: 'É o Juízo Final'
Hélio Ricardo Rainho

Estamos diante de um impasse. Uma real necessidade. O carnaval mudou, a estética dos desfiles mudou, o mundo mudou...e continuamos os mesmos dos anos 30! Julgamos escolas de samba da era da hipermodernidade com a mesma metodologia arcaica dos julgamentos de quase 100 anos atrás: papel, caneta, envelope. Homens de Neanderthal na era de Tony Stark.

Infelizmente, o carnaval é genial mas é também emburrecido: não há dirigentes capazes de refletir sobre isso. Eles se acham tão bons que não conhecem o espelho. E esquecem que, quem não se reflete, não se conhece. Acabam virando burros funcionais: a festa acontece, o evento acontece, tudo acontece, mas o atraso continua. Há até quem bata palminha pra isso. O carnaval perdeu a galhofa, a sátira, o espírito crítico. A mesmice é agraciada com prêmios, as melhores notas são para o "mais do mesmo". Não se entende mais de enredo crítico ou abstrato: os metidos a graduados não passam de incentivadores do beabá.

Estamos andando de carruagem numa pista de F1. E todo mundo se acha competente, talentoso, corajoso, audacioso etc.

Não é. Não é mais nada disso. As escolas de samba estão mais cartesianas do que nunca. Desfilam amarradas, chatas, com seus quatrilhões de diretores de harmonia gritando, falando em radinhos bestas, com metrônomos de Jetsons incapazes de medir sua truculência de Flintstones. À frente das escolas vem uma espécie de "comitê da vergonha" formado por camiseteiros de ocasião; são as pessoas mais corajosas do mundo: se expõem ao ridículo cantando e pulando alucinadamente, desfilando fora da escola como se estivessem dentro. Eles se enganam tão bem que acreditam que as pessoas querem vê-los. Deprimentes sem depressão! São expatriados embriagados, poluindo o que vem atrás. E parecem orgulhosos de seu vexame...

Nosso "primor de organização" deixou várias escolas de samba sem som na avenida, e algumas sem voz para expressarem seu verdadeiro sentimento quando passam. Precisam de enredos que atraiam dinheiro, não que atraiam gente ou vibração das arquibancadas. Não é crítica ao mercantilismo: é crítica ao uso distorcido da verba de patrocínio, embrutecendo a lógica da escola.

Fotos: SRZD

Todo mundo acha que entende de enredo. As redes sociais mostram quanta besteira e opinião pessoal - sem critério, sem análise crítica reflexiva, sem metodologia - são espalhadas na base do "eu sei", "eu vi", "eu acho". Uma estranha assertividade em favor da autoafirmação. Serve pra que essa impáfia toda?

Os enredos estão cada vez mais subordinados, mais medrosos, com escolas acuadas sem discurso próprio, apelando para o que possa agradar os jurados. Em vez do jurado servir à escola, é a escola que serve aos jurados. Assim...numa relação "bonita" tipo "senhor de engenho & escravo". E aí os enredos mergulham em recorrências improdutivas. Querem ver um exemplo? As Áfricas que a avenida mostra. Sob o pretexto servil e utilitário de que "enredo africano ninguém discute", a avenida nunca mostrou uma África que não fosse sofrida, desgraçosa, mística, oprimida etc. Cadê a arte, o teatro, a dança, o artesanato, o legado artístico e cultural desse continente? Não tem?! Não comove jurado?! Nada!!! E tome chibata, misticismo, navio negreiro, violência. Acho muito importante lembrar o fardo de opressão e discriminação que os negros sofreram historicamente. Não sou louco de negar isso. Mas tenho uma consciência de que certos discursos repetidos à exaustão são tão vitimizadores que nos dão a sensação de que nada do que temos no país foi construído por esse povo. Africano na avenida é só lamúria, chororô e feitiçaria. Cadê o legado histórico, artístico e cultural?!

Foto: SRZDE quanto vale a comoção? Nada! Não é "quesito"! Os "quesitos" são algo concebido para ter valores frios, matemáticos, cartesianos. O "metrônomo da emoção" não existe. Estamos num filme futurista, entre o "Fahrenheit 451" de Truffaut e a "Alphaville" de Godard: proibidos de construir literatura ou de nos emocionar. Os enredos que ousam discutir, refletir, transpor o mundo real para o irreal, não são entendidos nem respeitados.

Estamos mal amparados dialeticamente. Construímos um espetáculo visual que sofreu inúmeras alterações no decorrer nas décadas, mas não instituímos um modelo coerente de avaliação do espetáculo. Não existe uma norma avaliativa decente, uma crítica formada, especializada. Não temos! Não nos deixarão mentir as justificativas dos jurados, que virão tanto tardias quanto eivadas de surrealismo.

Falta-nos uma criteriosidade. Falta ao brasileiro entender melhor a festa que o brasileiro faz. Falta a coragem de abandonar esse vício de ser "pau mandado" e "ouvido de mercador", com tanta gente repetindo as mesmas besteiradas que escuta na esquina. Quando um carnavalesco é autoral, dizem que ele "se repete". Quando um desfile é mecânico, chamam de "técnico". Tem gente que pouco entende e tudo quer palpitar. Temos poucos carnavalescos com a cara e a coragem de fazerem enredos autorais, com assinatura estética e proposta conceitual. A grande maioria está em busca do apelo fácil, de "temas nobres gratuitos", de homenagens a gente que nunca contribuiu em nada para as escolas de samba. Eu acho uma vergonha a gente homenagear personalidades ou artistas (sic) de gosto duvidoso e apelo comercial em detrimento de baluartes reais de nossa cultura e de nossa gente. Uma perda de tempo dedicar 70 minutos de desfile a gente que nunca sequer levantou uma bandeirinha ou vestiu uma camisa de escola de samba por um minuto.

Infelizmente você não vai ler isso em outras colunas: as pessoas que deveriam exigir e brigar por isso estão fazendo média (ou seria "fazendo mídia?"), brincando de imprensa, lavando as mãos de Pilatos antes de publicar um texto escrito. As faculdades de Jornalismo deveriam ter matérias sobre cobertura e análise de carnaval como têm várias sobre futebol e esportes. Nem a crítica devida aos profissionais sem talento que muitas vezes se perpetuam na avenida os analistas sabem fazer. Valei-me, meu São Pamplona dos inconformados!!!

Pois é. Para o brasileiro desenfreado e desembestado, toda regra é chamada de "censura". Besteira. Acho mesmo que uma comissão especializada deveria se reunir e criar um código de regras para as escolas terem seus enredos aprovados. Vai cortar na carne: muita gente iria espernear, mas teríamos maior propriedade nos desfiles, maior respeito na seleção dos temas e no discurso desses enredos.

O problema é que, se criassem essa comissão, o tiro sairia pela culatra. Porque isto aqui é Brasil: em vez de nortearem s escolhas de enredos com especialistas de verdade, juntariam um punhado de insanos escusos para aprovarem as coisas de uns e reprovarem as de outros.

É difícil consertar o Brasil até quando o assunto é carnaval. E isso daria um bom enredo. Só não sei é se saberiam julgar depois...

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27/02/2015 23h56

Poema da Saudade ao Passista Breno Brown
Hélio Ricardo Rainho

É...

Pois é...

À noite já escureceu

O dia vai clarear

E você não vai sambar

Pra gente ver

Foto: Divulgação

É...

Pois é...

Os tambores vão rufar

Os surdos vão enlouquecer

E você não vai sambar

Pra gente ver

 

É...

O apito vai tocar

Setor 1 vai estremecer

E o riscado malandro

Fagueiro, matreiro

De mais um mulato inzoneiro

Deste Brasil brasileiro

Não vai pisar na avenida

Pra gente ver

 

Foi

Como Hermes, deus grego

Havia um segredo

Um estranho revés  

Sob os sapatos brancos

O menino passista

Tinha asas nos pés!

 

É...

Qual um anjo barroco

Sambando igual louco

Partiu a voar

Nunca mais ninguém viu

Sob o chão do Brasil

O passista sambar

 

Vai....

Sambar noutra avenida

Além desta vida

Que você deixou

Vai...

Encantar tantos bambas

Ao som de outros sambas

Que o céu já levou

 

Sim

Vêm a dor da saudade

E a cumplicidade

Com o que você deixou

Foi 

Um legado imponente

Uma dança que a gente

Já eternizou

 

E...

Enquanto houver riscado

Um bom samba sambado

Um boêmio ao sereno

Nós...

Com os olhos molhados

E aplausos cerrados

Diremos: SALVE, BRENO!

  

(Ao passista menino Breno Brown, que hoje nos deixou, na flor de seus 20 anos de idade)

Leia também:

- Mundo do samba chora a morte do passista Breno Brown

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19/02/2015 03h31

Sobre tudo o que acabou na quarta-feira...
Hélio Ricardo Rainho

Acabou mais um carnaval. E paira novamente sobre nossas cabeças aquele mundaréu de perguntas, provocações, indiretas, chocarrices, coisa e tal. Todo mundo quer saber se ganhou quem mereceu, se houve justiça, lisura etc.

Comentarista não é mestre-sala de Paulo Barros, mas precisa aprender a entrar no fogo... e não se queimar!

Pois bem, este ano vou copiar a gloriosa São Clemente e também homenagear Pamplona. Não como carnavalesco, mas como comentarista. Ele falava as coisas na lata, sem meias palavras.

Me acompanha, leitor... vou "pamplonar" também!

Hélio. Foto: Acervo Pessoal

E já começo assim, provocativo: não julguem a moral de um enredo, porque enredo não tem moral! Pode ser de ditadura, de estrangeiro ao samba, de carrinho de corrida...o escambau!!! Enredo bom é aquele que jurado gosta! Entraram 12 jurados novos e o gosto continua o mesmo!

Ponto.

E nunca mais brincaremos de inventar a roda no carnaval!!! A Portela entrou pro Guiness com a comissão de frente mais longa da história da avenida. Deve estar se apresentando até agora... Resultado: linda, criativa, mas atrasou a escola inteira. E corrida que jurado gosta - volto a dizer - é com carrinho de F1, não a pé. Jurado é "chique, bem"! 

Devolvam o gingado ímpar de Valci Pelé à sua gloriosa ala de passistas! Precisamos vê-lo em seu lugar de direito, ao lado da deusa Nilce Fran; não muito a inventar!

Sou Pamplona, não sou Saramago. Mas, neste "Ensaio sobre a Cegueira dos Jurados", buracos gigantescos diante de suas cabines representam alguma coisa dentro do enredo que eles veem, nós não. Disseram por aí que os buracos da Beija-Flor eram alas representando a "alma africana". Ah, tá: então tá entendido...

Ainda sobre cegueira: que tal despontuar a verdadeira exposição artística a céu aberto de criação plástica de Alex de Souza na Ilha?! Queremos bonecos de plástico de camelô, não aquelas esculturas deslumbrantes como dos carros das artes e do Olimpo. Requinte? Acabamento? Estética refinada? Não, Alex: tá errado! Bobinho você...gastando seu francês nesta avenida que vai de um mangue a um cemitério...eu, hein!!!

E não vamos misturar alhos com bugalhos. Nem mestre-sala e porta-bandeira com comissão de frente! É o fim do mundo! Mas ninguém sobrevive ao desafio de dançar para o jurado e se concentrar nas baratas voando ao redor. Baratas?!?! Pavilhão de escola - coisa sublime - não pode se apresentar rodeado por...baratas! Aliás, sexo e banho de chuva nu também podem ser sublimes. O mundo "ao pé da letra", sem poesia, é muito hostil! Melhor que acabe mesmo...

E quem é você, Dona Rosa, pra ousar se reinventar, tomar em vão meu "santo nome Pamplona" e me reeditar??? Quem é você pra fazer, num desfile de abertura de dia (desses que a imponente tv até rejeita!!!) um trabalho exuberante? Como ousa levantar arquibancadas, emocionar gerações, dar AULA na avenida? Quem é você, São Clemente "debochada", pra mostrar tão extraordinário trabalho de carnaval? Tá querendo roubar essa festa?! 

Não deixo! Não deixo! No sábado você não volta...atrevida assim é demais!!! 

Da Rosa da Zona Sul para a Verde-e-Rosa mais querida do planeta...

Salvem! Salvem! Alguém salve o uso das cores dessa escola! Alguém salve sua plástica! Alguém admita que grandeza precisa de grandeza e pare de se enganar! Devolvam à Grande "Mãegueira" - mãe do samba - um trato de requinte, de bom gosto, de filigranas! "Teu cenário é uma beleza"..."É raça, é fibra, é jequitibá!"...com todo respeito, devolvam-lhe essa beleza! Mangueira merece mãos caprichosas para colherem seus frutos!

"E nessa briga da maré contra o rochedo", o Paulo, de novo, entrou numa fria sem a Tijuca...e a Tijuca entrou numa fria Suíça, deitou e rolou sem o Paulo! Mas não era pra celebrar o desfile frio e técnico? Então porque não foi vencedora a perfeição da Tijuca?!?!

E não me venham com o canto emocionado de Mandela: eu já disse que a liberdade é muito corretinha...viva a ditadura!!! 

Eu vou levar 100 anos pra apagar da minha mente talvez a cena mais bonita deste carnaval: Mestre Jorge Magno, o passista mais antigo da avenida, desfilando de sacerdote africano pela Imperatriz!

São mais de 40 anos de samba no pé! "Nada é maior que o amor, entenda!". Ícone vivo da tradição dos passistas! Tenho imenso respeito por essa pessoa e por seu legado. Mas a televisão prefere o carro da novela das oito...sabe até o que come o ator antes de sair de casa pra desfilar...e onde vai "despejar" o que comeu, também! Haja catimba! Salve Zé!

Querem saber? Certa mesmo estava a Grande Rio! "Começou o carteado!". Hahaha...alguém duvida???

A Rainha de Copas, jurada de escola de samba, manda no jogo e esquarteja todo mundo! Depois empurra a mesa e exalta o "jeito malandreado" de se julgar carnaval. Graças a Deus por essa escola e por esse carnavalesco Fabio Ricardo, garoto dos desfiles com talento de gigante! Sem eles, como seria séria essa avenida!

Eu vi a deusa Selminha e vi o gênio da folia chamado Carlinhos do Salgueiro enaltecendo a festa! Mãos doloridas de aplaudir esses dois!

A pobre Viradouro pegou chuva e pagou a conta indevida. E a Vila? Escola tão linda...por que anda tão distante?! Queremos de volta sua sinfonia, lindo Povo de Noel!

Malandro é o velho Salgueiro: caprichou no tempero e fez descer garganta abaixo um samba que comeu quietinho as três notas 10 do jurado. A moda vem da velha cozinha mineira: "fazer o samba render". Se render, ganha 10 e pronto! Foi lá e ganhou! Não gostou? Não escuta! Já levou nota boa mesmo...e com trabalho plástico de Renato Lage, ninguëm discute, ô sinhá!!!

Com todo respeito, em quatro dias de carnaval na avenida, Madureira mostrou o que significa EMOÇÃO. Assim mesmo: com letra maiúscula! A procissão do Império Serrano comoveu até as vigas das arquibancadas. E aquela águia virando o Cristo Redentor foi a imagem do carnaval 2015, razão pela qual arrebatou os maiores gritos de "campeã" do ano!

"Sou carioca, sou de Madureira"..."meu samba nunca vai morrer"!!! Samba de Madureira é religião. Portela e Império são escolas que ensinam seus sambistas o que é chorar de alegria. Coisa que não tem preço. Por isso não "compra" jurado...

Adeus, ano velho!

Feliz ano novo!

Que, de novo, não tem nada...parece tudo tão igual no final...

(Texto inspirado nos quatro grandes gênios do carnaval 2015: Louzada dos Olhos Surreais, Rosa Genio Maior, Fabinho O Trunfo Lúdico e Alex A Cara da Riqueza)

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28/01/2015 08h48

Passistas da Mocidade, com 'O chão se abrindo a seus pés'!
Hélio Ricardo Rainho

Quem é que dança e ostenta, com os pés, a mais original vertente representativa de resposta aos batuques do samba?

Quem é que apresenta, no desfile de escolas de samba, a dança mais autêntica, original e inigualável em qualquer outra cultura ou manifestação artística popular?

Sim, são eles, os "passistas" - os donos do passo, os donos do ritmo, os donos da dança do samba.

Desde sua configuração específica em agrupamentos (as chamadas "alas") a partir dos anos 80, a primeira escola de samba a constituir uma ala tida em depoimentos de especialistas como "a melhor de todos os tempos" foi a Mocidade Independente de Padre Miguel. Sob a direção da lendária Marilene, a Mocidade consagrou-se e abriu o mote para a consagração do termo "ala de passistas".

Não é necessário fazer comparações. Os tempos são diferentes e os talentos são diversos. Hoje, a glória que perseguimos todos nós - admiradores desse ofício e dessa arte - é preservar cada ala de cada escola com suas características e seus devotados lutadores se empenhando no que sabem e amam fazer. A diversidade faz a diferença.

É com base nesse argumento - o empenho, o esmero, a paixão - que discorro as linhas seguintes para falar de minha visita, no último sábado, à quadra da Mocidade Independente, para passar uma noite na companhia dos passistas da escola.

Foi sublime! Encantador! Quão mágico e feliz o momento de reencontro e resgate por que passa toda a escola! O torcedor está rindo de orelha a orelha, a bateria da escola está enfurecida a acompanhar as altas temperaturas da própria cidade para justificar-se como aquela que "não existe mais quente". Uma harmonia feliz, com as baianas encantadas de Tia Nilda, baiana ícone do samba, abençoadas por Deus e bonitas por natureza. Lucinha e Diogo Jesus parecem duas crianças no parque: leves, soltos, brincantes, dançando de uma forma tão sutil que parecem ter descoberto ontem o prazer de serem aquilo que são. Estado de graça!

E vieram os "Passistas Independentes de Padre Miguel", vencedores do último prêmio SRZD de Melhor Ala de Passistas! Era hora de "ver tudo ruir, a terra tremer / o chão se abrindo aos seus pés"! E foi o que eles fizeram: botaram Padre Miguel abaixo!

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Sob a nova direção de Danyel Rodrigues, com Laíza Bastos como coordenadora, a ala apresentou-se como num grande musical, integrando uma série de quadros diferentes, com performances, figurinos e tipos variados. A proposta sugerida pelos passistas independentes não é a de se apresentarem como num micro desfile análogo ao que realizam na avenida: há uma percepção clara de teatralização, com diversas entradas e saídas dos passistas, obedecendo a marcações de palco, espaço e realização cênica. Manteve-se um estilo muito próprio das tradições dessa escola, já muito bem executado pelo diretor anterior da ala, Marcos Maya: a entrada dos passistas não em fileiras, mas em naipes separados, com o elenco dividido em blocos, tomando o espaço de apresentação com evolução alternada dos grupos. E o "elenco" estava "de enlouquecer, amor"!

Foto: Hélio Ricardo Rainho

De tudo se pôde ver um pouco. Teve a tradicional "roda de malandros", uma caracterização comum aos passistas somente a partir do final da década de 70, com provável influência na "Ópera do Malandro" de Chico Buarque. Dignamente trajados, com a aposta firme no chapéu panamá, sapatos brancos ou bicolores e também em ternos brancos alinhadíssimos, reproduziram a cena clássica do "desafio de roda" (suposta "briga de malandros" encenada de forma lúdica como uma "capoeira dançada") e do "jogo de conquista" (malandros cortejando lindas cabrochas em disputa). Em todos o quadros, não obstante os "desafios", percebe-se o cumprimento e a cordialidade encerrando os riscados, caracterizando a reverência entre os participantes do jogo. Destaque para a elegância absoluta de Lucas Pedro, em extraordinária postura de malandro, em contracena com a cabrocha Suzy Gomes. Passistas de destaque da nova geração - como Coimbra Mocidade, Villela Locutor, Thiago Martins, José O Sereno, Leandro Gomes, Diego Mendes, Sidnei Souza, Marcos David, Alex Lion e o tarimbado Gabriel Castro - dentre outros, juntaram-se a veteranos eternos como Pedrinho e Luiz Gonzaga, e deram seu show.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

O grupo apresentava-se, também, como mediador da cena. Em dados momentos, celebrava o público, dançando em direção aos presentes. Em outros momentos, cumprimentavam a direção de harmonia ou as baianas da escola, que formavam outra roda, remetendo às tradições do movimento circular do samba, cujo matiz é essencialmente característico da tradição africana.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

É interessante observar que as marcações e a disposição dos elementos em cena não os impede de evoluir e criar toda sorte de trejeitos, requebros, riscados e passos inventivos que seu naipe de passistas pode exibir. A dança está ali: ela tão somente permite uma distribuição dos elementos de forma a constituir um conjunto, mas o samba no pé se faz presente, com talentos variados e muita versatilidade. No naipe feminino, destaque para o samba e a beleza de Millene Figueiredo, Paulina Reis, Suzy Gomes, Josi Cruz e Raíssa Câmara.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Convém diferenciar a dança do passista da dança de todos os demais componentes de uma escola de samba. É preciso olhar e analisar a manifestação dessa dança como algo muito peculiar. A dança do passista não é uma dança que se encerra em si mesma. Diferente da evolução das demais alas, onde cada componente evolui expressando seu próprio prazer com a música, a dança do passista acontece necessariamente para uma interação. Como uma força da natureza que brota do chão e arremete com ímpeto de vida, a dança de um passista busca o contato e a comunicação, a provocação e o desafio, o despertamento e a interação com o outro. O passista contagia! Na sociedade africana, a construção do saber é conjunta. No samba, cuja origem é a roda, a mesma força se faz presente. E, na dança do passista de escola de samba, provocar e interagir é sempre um caminho.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

A ala de passistas da Mocidade tem hoje quarenta casais, todos graciosamente bem vestidos em seus shows de quadra e ensaios técnicos. A vibração e o entusiasmo com que se dedicam ao ofício é visível. E, para completar seu timaço, o Reizinho de Madureira Gabriel Castro, do Império Serrano, aceitou o convite dos amigos diretores e também reforça a ala, dividindo o verde de seu coração com a escola da zona oeste, que, com isso, passa a ser a segunda em que ele mais vezes passou pela avenida.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Pois é. Motivos não faltam para que a Mocidade se encontre tão celebrante e festiva neste 2015. E, no que depender dessa turma, pode-se esperar muito samba no pé. Não é promessa: é profecia. "Vai acontecer"!

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19/01/2015 21h15

Hélio Rainho: 'Turbilhão de Passistas'
Redação SRZD*

 

Senhoras, senhores, crianças
Amantes do samba...vem lá
Um turbilhão de passistas!
Abram alas...eles vão passar!


Descendo o morro, a ladeira,
A serra, a Serrinha, a favela
O Salgueiro, a Estação Primeira,
O Império Serrano, a Portela


Eles vão sambar com a alma
Com a essência e a raiz
A Mocidade, a Beija-flor
A Caprichosos, a Imperatriz


Vão riscar o chão de arte
Derramar todo seu ouro
A Tijuca, a Cubango
A Grande Rio, a Viradouro


Sambam, assim, com encanto
E parece até que é fácil
A Vila Isabel, a Ilha
A Vizinha Faladeira, o Estácio


Benditos filhos da ginga
Nosso povo, nossa gente
A Grande Rio, o Arranco
O Tuiuti, a São Clemente


Nossos fabulosos passistas
Os dançarinos sambistas
Trabalhadores devotados
"Malandros"??? Só fantasiados!


Nilce Fran, Valci, Gabriel
Beckford, Pablo, Celynho
Aldione, Magno, Queila
Tina Bombom, Carlinhos


Cassio, Senra, Flavinho
Safra, Faustino, Dandara
Clovis, Edson, Katia e Ricardo
Rafaela, Evelyn, Juliana Clara


Leandro, Kauan, Dedé
Millene, Larissa, Bebel
Bherna, Ciro, Dudi, George
Bayano e Vitamina no céu


Índio, Jeronymo, Silvia
Avelino, Renans Brito e Oliveira
Gaspar, Lanes, Rei Mayombe
Salve todos, de tantas bandeiras!


Dando nome aos poetas do riscado
Devotados incondicionais sambistas
Todo amor, respeito e reverência
Celebremos: salve o DIA DOS PASSISTAS!

(Lei municipal 4462/2007 - "Lei Valci Pelé", do vereador José Carlos Rego, instituindo o dia 19 de janeiro como Dia do Passista)

Confira, agora, vídeo em que Hélio entrevista a passista Aldione Sena durante ensaio técnico deste domingo  (18):

Nilce Fran e Valci Pelé. Foto: Arquivo SRZD

Hélio Ricardo. Foto: Arquivo SRZD

*Hélio Ricardo Rainho

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07/01/2015 09h34

Crônica para Tia Dodô
Hélio Ricardo Rainho

Maria das Dores Rodrigues. Ou simplesmente Dodô.
No nome, trazia as dores; no corpo, a felicidade!
Nasceu, cresceu, apareceu, conquistou vitórias.

Dodô da Portela, Dodô da dança do samba, Dodô do pavilhão, Dodô da Alegria.
A rainha negra da Portela se foi.

Um rastro de luz, de saudade, de 21 carnavais de vitória, de uma vida inteira dedicada ao azul que não é do céu, nem do mar.
Só Dodô sabia de onde vinha o azul que a Portela tem!
Voou como voam as águias, atingindo as alturas, ocupando com sua dança encantada e singela o céu dos bambas, a constelação dos poetas, o infinito destinado aos que fizeram a história dos carnavais.

Dodô foi a Portela, e a Portela será sempre Dodô.
Visto que a Portela não morre, Dodô será sempre imortal!

Dodô da Saúde, Dodô de Oswaldo Cruz, Dodô de Madureira;
Dodô da Sapucaí lotada, em festa, aplaudindo a procissão do samba portelense com sua santa negra aclamada - não no andor: no chão, no meio da folia, na vibração de seu povo!
Dodô porta-bandeira: símbolo de tudo, gênese da arte de bailar conduzindo o pavilhão, ponto de partida para a longa caminhada de vitórias da escola de seu coração.
Dodô, rainha das damas: porte de nobreza, fidalguia do samba, maestria na elegância ao comandar um séquito de senhoras donas dos tesouros e riquezas da Portela.
Dodô do Ninho da Águia: mãe de todos nós, portelenses; divina rainha do samba, exemplo vivo de dedicação, crença, incentivo, perseverança e amor incondicional a uma bandeira.
Dodô, Tia do Samba, rastro de saudade, luz para as gerações futuras, lenda viva, expoente da arte de transformar o árduo cotidiano brasileiro em carnaval para o mundo ver e aplaudir.
Dodô, a alquimista: transformou suor e sofrimento em alegria e samba! Fez a dor do povo virar ouro!

A benção, Tia Dodô da Portela!

Que seja hoje, na glória de Deus, o seu mais inspirado e divino bailar de porta-bandeira,
Divina, inspirada, encantada, alegre, com aquele longo sorriso que levantava as arquibancadas da Sapucaí e arrancava emocionados aplausos dos que tinham o privilégio de vê-la se apresentar!

A bênção, Tia Dodô da Portela!

A ti,
Oswaldo Cruz e Madureira; Tjuca e Mangueira, Estácio e Vila Isabel; Serrinha e Padre Miguel; São Gonçalo e Niterói; Saúde e Gamboa, Cavalcante e Cascadura; Nilópolis e os dois Engenhos; Botafogo, a Ilha e todo o mundo do samba deitarão lágrimas de saudade;

De ti, o exemplo ficou...guarda contigo nosso eterno amor...
A bênção! Voa aos céus do Criador...
A bênção...adeus, Tia Dodô!

Hélio Ricardo Rainho


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