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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval



* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.CARNAVAL RJ. Carioca, publicitário, MBA em Marketing, ator, diretor teatral, escritor, pesquisador de escolas de samba, futebol e teatro. Twitter: @hrainho



19/02/2015 03h31

Sobre tudo o que acabou na quarta-feira...
Hélio Ricardo Rainho

Acabou mais um carnaval. E paira novamente sobre nossas cabeças aquele mundaréu de perguntas, provocações, indiretas, chocarrices, coisa e tal. Todo mundo quer saber se ganhou quem mereceu, se houve justiça, lisura etc.

Comentarista não é mestre-sala de Paulo Barros, mas precisa aprender a entrar no fogo... e não se queimar!

Pois bem, este ano vou copiar a gloriosa São Clemente e também homenagear Pamplona. Não como carnavalesco, mas como comentarista. Ele falava as coisas na lata, sem meias palavras.

Me acompanha, leitor... vou "pamplonar" também!

Hélio. Foto: Acervo Pessoal

E já começo assim, provocativo: não julguem a moral de um enredo, porque enredo não tem moral! Pode ser de ditadura, de estrangeiro ao samba, de carrinho de corrida...o escambau!!! Enredo bom é aquele que jurado gosta! Entraram 12 jurados novos e o gosto continua o mesmo!

Ponto.

E nunca mais brincaremos de inventar a roda no carnaval!!! A Portela entrou pro Guiness com a comissão de frente mais longa da história da avenida. Deve estar se apresentando até agora... Resultado: linda, criativa, mas atrasou a escola inteira. E corrida que jurado gosta - volto a dizer - é com carrinho de F1, não a pé. Jurado é "chique, bem"! 

Devolvam o gingado ímpar de Valci Pelé à sua gloriosa ala de passistas! Precisamos vê-lo em seu lugar de direito, ao lado da deusa Nilce Fran; não muito a inventar!

Sou Pamplona, não sou Saramago. Mas, neste "Ensaio sobre a Cegueira dos Jurados", buracos gigantescos diante de suas cabines representam alguma coisa dentro do enredo que eles veem, nós não. Disseram por aí que os buracos da Beija-Flor eram alas representando a "alma africana". Ah, tá: então tá entendido...

Ainda sobre cegueira: que tal despontuar a verdadeira exposição artística a céu aberto de criação plástica de Alex de Souza na Ilha?! Queremos bonecos de plástico de camelô, não aquelas esculturas deslumbrantes como dos carros das artes e do Olimpo. Requinte? Acabamento? Estética refinada? Não, Alex: tá errado! Bobinho você...gastando seu francês nesta avenida que vai de um mangue a um cemitério...eu, hein!!!

E não vamos misturar alhos com bugalhos. Nem mestre-sala e porta-bandeira com comissão de frente! É o fim do mundo! Mas ninguém sobrevive ao desafio de dançar para o jurado e se concentrar nas baratas voando ao redor. Baratas?!?! Pavilhão de escola - coisa sublime - não pode se apresentar rodeado por...baratas! Aliás, sexo e banho de chuva nu também podem ser sublimes. O mundo "ao pé da letra", sem poesia, é muito hostil! Melhor que acabe mesmo...

E quem é você, Dona Rosa, pra ousar se reinventar, tomar em vão meu "santo nome Pamplona" e me reeditar??? Quem é você pra fazer, num desfile de abertura de dia (desses que a imponente tv até rejeita!!!) um trabalho exuberante? Como ousa levantar arquibancadas, emocionar gerações, dar AULA na avenida? Quem é você, São Clemente "debochada", pra mostrar tão extraordinário trabalho de carnaval? Tá querendo roubar essa festa?! 

Não deixo! Não deixo! No sábado você não volta...atrevida assim é demais!!! 

Da Rosa da Zona Sul para a Verde-e-Rosa mais querida do planeta...

Salvem! Salvem! Alguém salve o uso das cores dessa escola! Alguém salve sua plástica! Alguém admita que grandeza precisa de grandeza e pare de se enganar! Devolvam à Grande "Mãegueira" - mãe do samba - um trato de requinte, de bom gosto, de filigranas! "Teu cenário é uma beleza"..."É raça, é fibra, é jequitibá!"...com todo respeito, devolvam-lhe essa beleza! Mangueira merece mãos caprichosas para colherem seus frutos!

"E nessa briga da maré contra o rochedo", o Paulo, de novo, entrou numa fria sem a Tijuca...e a Tijuca entrou numa fria Suíça, deitou e rolou sem o Paulo! Mas não era pra celebrar o desfile frio e técnico? Então porque não foi vencedora a perfeição da Tijuca?!?!

E não me venham com o canto emocionado de Mandela: eu já disse que a liberdade é muito corretinha...viva a ditadura!!! 

Eu vou levar 100 anos pra apagar da minha mente talvez a cena mais bonita deste carnaval: Mestre Jorge Magno, o passista mais antigo da avenida, desfilando de sacerdote africano pela Imperatriz!

São mais de 40 anos de samba no pé! "Nada é maior que o amor, entenda!". Ícone vivo da tradição dos passistas! Tenho imenso respeito por essa pessoa e por seu legado. Mas a televisão prefere o carro da novela das oito...sabe até o que come o ator antes de sair de casa pra desfilar...e onde vai "despejar" o que comeu, também! Haja catimba! Salve Zé!

Querem saber? Certa mesmo estava a Grande Rio! "Começou o carteado!". Hahaha...alguém duvida???

A Rainha de Copas, jurada de escola de samba, manda no jogo e esquarteja todo mundo! Depois empurra a mesa e exalta o "jeito malandreado" de se julgar carnaval. Graças a Deus por essa escola e por esse carnavalesco Fabio Ricardo, garoto dos desfiles com talento de gigante! Sem eles, como seria séria essa avenida!

Eu vi a deusa Selminha e vi o gênio da folia chamado Carlinhos do Salgueiro enaltecendo a festa! Mãos doloridas de aplaudir esses dois!

A pobre Viradouro pegou chuva e pagou a conta indevida. E a Vila? Escola tão linda...por que anda tão distante?! Queremos de volta sua sinfonia, lindo Povo de Noel!

Malandro é o velho Salgueiro: caprichou no tempero e fez descer garganta abaixo um samba que comeu quietinho as três notas 10 do jurado. A moda vem da velha cozinha mineira: "fazer o samba render". Se render, ganha 10 e pronto! Foi lá e ganhou! Não gostou? Não escuta! Já levou nota boa mesmo...e com trabalho plástico de Renato Lage, ninguëm discute, ô sinhá!!!

Com todo respeito, em quatro dias de carnaval na avenida, Madureira mostrou o que significa EMOÇÃO. Assim mesmo: com letra maiúscula! A procissão do Império Serrano comoveu até as vigas das arquibancadas. E aquela águia virando o Cristo Redentor foi a imagem do carnaval 2015, razão pela qual arrebatou os maiores gritos de "campeã" do ano!

"Sou carioca, sou de Madureira"..."meu samba nunca vai morrer"!!! Samba de Madureira é religião. Portela e Império são escolas que ensinam seus sambistas o que é chorar de alegria. Coisa que não tem preço. Por isso não "compra" jurado...

Adeus, ano velho!

Feliz ano novo!

Que, de novo, não tem nada...parece tudo tão igual no final...

(Texto inspirado nos quatro grandes gênios do carnaval 2015: Louzada dos Olhos Surreais, Rosa Genio Maior, Fabinho O Trunfo Lúdico e Alex A Cara da Riqueza)

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28/01/2015 08h48

Passistas da Mocidade, com 'O chão se abrindo a seus pés'!
Hélio Ricardo Rainho

Quem é que dança e ostenta, com os pés, a mais original vertente representativa de resposta aos batuques do samba?

Quem é que apresenta, no desfile de escolas de samba, a dança mais autêntica, original e inigualável em qualquer outra cultura ou manifestação artística popular?

Sim, são eles, os "passistas" - os donos do passo, os donos do ritmo, os donos da dança do samba.

Desde sua configuração específica em agrupamentos (as chamadas "alas") a partir dos anos 80, a primeira escola de samba a constituir uma ala tida em depoimentos de especialistas como "a melhor de todos os tempos" foi a Mocidade Independente de Padre Miguel. Sob a direção da lendária Marilene, a Mocidade consagrou-se e abriu o mote para a consagração do termo "ala de passistas".

Não é necessário fazer comparações. Os tempos são diferentes e os talentos são diversos. Hoje, a glória que perseguimos todos nós - admiradores desse ofício e dessa arte - é preservar cada ala de cada escola com suas características e seus devotados lutadores se empenhando no que sabem e amam fazer. A diversidade faz a diferença.

É com base nesse argumento - o empenho, o esmero, a paixão - que discorro as linhas seguintes para falar de minha visita, no último sábado, à quadra da Mocidade Independente, para passar uma noite na companhia dos passistas da escola.

Foi sublime! Encantador! Quão mágico e feliz o momento de reencontro e resgate por que passa toda a escola! O torcedor está rindo de orelha a orelha, a bateria da escola está enfurecida a acompanhar as altas temperaturas da própria cidade para justificar-se como aquela que "não existe mais quente". Uma harmonia feliz, com as baianas encantadas de Tia Nilda, baiana ícone do samba, abençoadas por Deus e bonitas por natureza. Lucinha e Diogo Jesus parecem duas crianças no parque: leves, soltos, brincantes, dançando de uma forma tão sutil que parecem ter descoberto ontem o prazer de serem aquilo que são. Estado de graça!

E vieram os "Passistas Independentes de Padre Miguel", vencedores do último prêmio SRZD de Melhor Ala de Passistas! Era hora de "ver tudo ruir, a terra tremer / o chão se abrindo aos seus pés"! E foi o que eles fizeram: botaram Padre Miguel abaixo!

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Sob a nova direção de Danyel Rodrigues, com Laíza Bastos como coordenadora, a ala apresentou-se como num grande musical, integrando uma série de quadros diferentes, com performances, figurinos e tipos variados. A proposta sugerida pelos passistas independentes não é a de se apresentarem como num micro desfile análogo ao que realizam na avenida: há uma percepção clara de teatralização, com diversas entradas e saídas dos passistas, obedecendo a marcações de palco, espaço e realização cênica. Manteve-se um estilo muito próprio das tradições dessa escola, já muito bem executado pelo diretor anterior da ala, Marcos Maya: a entrada dos passistas não em fileiras, mas em naipes separados, com o elenco dividido em blocos, tomando o espaço de apresentação com evolução alternada dos grupos. E o "elenco" estava "de enlouquecer, amor"!

Foto: Hélio Ricardo Rainho

De tudo se pôde ver um pouco. Teve a tradicional "roda de malandros", uma caracterização comum aos passistas somente a partir do final da década de 70, com provável influência na "Ópera do Malandro" de Chico Buarque. Dignamente trajados, com a aposta firme no chapéu panamá, sapatos brancos ou bicolores e também em ternos brancos alinhadíssimos, reproduziram a cena clássica do "desafio de roda" (suposta "briga de malandros" encenada de forma lúdica como uma "capoeira dançada") e do "jogo de conquista" (malandros cortejando lindas cabrochas em disputa). Em todos o quadros, não obstante os "desafios", percebe-se o cumprimento e a cordialidade encerrando os riscados, caracterizando a reverência entre os participantes do jogo. Destaque para a elegância absoluta de Lucas Pedro, em extraordinária postura de malandro, em contracena com a cabrocha Suzy Gomes. Passistas de destaque da nova geração - como Coimbra Mocidade, Villela Locutor, Thiago Martins, José O Sereno, Leandro Gomes, Diego Mendes, Sidnei Souza, Marcos David, Alex Lion e o tarimbado Gabriel Castro - dentre outros, juntaram-se a veteranos eternos como Pedrinho e Luiz Gonzaga, e deram seu show.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

O grupo apresentava-se, também, como mediador da cena. Em dados momentos, celebrava o público, dançando em direção aos presentes. Em outros momentos, cumprimentavam a direção de harmonia ou as baianas da escola, que formavam outra roda, remetendo às tradições do movimento circular do samba, cujo matiz é essencialmente característico da tradição africana.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

É interessante observar que as marcações e a disposição dos elementos em cena não os impede de evoluir e criar toda sorte de trejeitos, requebros, riscados e passos inventivos que seu naipe de passistas pode exibir. A dança está ali: ela tão somente permite uma distribuição dos elementos de forma a constituir um conjunto, mas o samba no pé se faz presente, com talentos variados e muita versatilidade. No naipe feminino, destaque para o samba e a beleza de Millene Figueiredo, Paulina Reis, Suzy Gomes, Josi Cruz e Raíssa Câmara.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Convém diferenciar a dança do passista da dança de todos os demais componentes de uma escola de samba. É preciso olhar e analisar a manifestação dessa dança como algo muito peculiar. A dança do passista não é uma dança que se encerra em si mesma. Diferente da evolução das demais alas, onde cada componente evolui expressando seu próprio prazer com a música, a dança do passista acontece necessariamente para uma interação. Como uma força da natureza que brota do chão e arremete com ímpeto de vida, a dança de um passista busca o contato e a comunicação, a provocação e o desafio, o despertamento e a interação com o outro. O passista contagia! Na sociedade africana, a construção do saber é conjunta. No samba, cuja origem é a roda, a mesma força se faz presente. E, na dança do passista de escola de samba, provocar e interagir é sempre um caminho.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

A ala de passistas da Mocidade tem hoje quarenta casais, todos graciosamente bem vestidos em seus shows de quadra e ensaios técnicos. A vibração e o entusiasmo com que se dedicam ao ofício é visível. E, para completar seu timaço, o Reizinho de Madureira Gabriel Castro, do Império Serrano, aceitou o convite dos amigos diretores e também reforça a ala, dividindo o verde de seu coração com a escola da zona oeste, que, com isso, passa a ser a segunda em que ele mais vezes passou pela avenida.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Pois é. Motivos não faltam para que a Mocidade se encontre tão celebrante e festiva neste 2015. E, no que depender dessa turma, pode-se esperar muito samba no pé. Não é promessa: é profecia. "Vai acontecer"!

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19/01/2015 21h15

Hélio Rainho: 'Turbilhão de Passistas'
Redação SRZD*

 

Senhoras, senhores, crianças
Amantes do samba...vem lá
Um turbilhão de passistas!
Abram alas...eles vão passar!


Descendo o morro, a ladeira,
A serra, a Serrinha, a favela
O Salgueiro, a Estação Primeira,
O Império Serrano, a Portela


Eles vão sambar com a alma
Com a essência e a raiz
A Mocidade, a Beija-flor
A Caprichosos, a Imperatriz


Vão riscar o chão de arte
Derramar todo seu ouro
A Tijuca, a Cubango
A Grande Rio, a Viradouro


Sambam, assim, com encanto
E parece até que é fácil
A Vila Isabel, a Ilha
A Vizinha Faladeira, o Estácio


Benditos filhos da ginga
Nosso povo, nossa gente
A Grande Rio, o Arranco
O Tuiuti, a São Clemente


Nossos fabulosos passistas
Os dançarinos sambistas
Trabalhadores devotados
"Malandros"??? Só fantasiados!


Nilce Fran, Valci, Gabriel
Beckford, Pablo, Celynho
Aldione, Magno, Queila
Tina Bombom, Carlinhos


Cassio, Senra, Flavinho
Safra, Faustino, Dandara
Clovis, Edson, Katia e Ricardo
Rafaela, Evelyn, Juliana Clara


Leandro, Kauan, Dedé
Millene, Larissa, Bebel
Bherna, Ciro, Dudi, George
Bayano e Vitamina no céu


Índio, Jeronymo, Silvia
Avelino, Renans Brito e Oliveira
Gaspar, Lanes, Rei Mayombe
Salve todos, de tantas bandeiras!


Dando nome aos poetas do riscado
Devotados incondicionais sambistas
Todo amor, respeito e reverência
Celebremos: salve o DIA DOS PASSISTAS!

(Lei municipal 4462/2007 - "Lei Valci Pelé", do vereador José Carlos Rego, instituindo o dia 19 de janeiro como Dia do Passista)

Confira, agora, vídeo em que Hélio entrevista a passista Aldione Sena durante ensaio técnico deste domingo  (18):

Nilce Fran e Valci Pelé. Foto: Arquivo SRZD

Hélio Ricardo. Foto: Arquivo SRZD

*Hélio Ricardo Rainho

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07/01/2015 09h34

Crônica para Tia Dodô
Hélio Ricardo Rainho

Maria das Dores Rodrigues. Ou simplesmente Dodô.
No nome, trazia as dores; no corpo, a felicidade!
Nasceu, cresceu, apareceu, conquistou vitórias.

Dodô da Portela, Dodô da dança do samba, Dodô do pavilhão, Dodô da Alegria.
A rainha negra da Portela se foi.

Um rastro de luz, de saudade, de 21 carnavais de vitória, de uma vida inteira dedicada ao azul que não é do céu, nem do mar.
Só Dodô sabia de onde vinha o azul que a Portela tem!
Voou como voam as águias, atingindo as alturas, ocupando com sua dança encantada e singela o céu dos bambas, a constelação dos poetas, o infinito destinado aos que fizeram a história dos carnavais.

Dodô foi a Portela, e a Portela será sempre Dodô.
Visto que a Portela não morre, Dodô será sempre imortal!

Dodô da Saúde, Dodô de Oswaldo Cruz, Dodô de Madureira;
Dodô da Sapucaí lotada, em festa, aplaudindo a procissão do samba portelense com sua santa negra aclamada - não no andor: no chão, no meio da folia, na vibração de seu povo!
Dodô porta-bandeira: símbolo de tudo, gênese da arte de bailar conduzindo o pavilhão, ponto de partida para a longa caminhada de vitórias da escola de seu coração.
Dodô, rainha das damas: porte de nobreza, fidalguia do samba, maestria na elegância ao comandar um séquito de senhoras donas dos tesouros e riquezas da Portela.
Dodô do Ninho da Águia: mãe de todos nós, portelenses; divina rainha do samba, exemplo vivo de dedicação, crença, incentivo, perseverança e amor incondicional a uma bandeira.
Dodô, Tia do Samba, rastro de saudade, luz para as gerações futuras, lenda viva, expoente da arte de transformar o árduo cotidiano brasileiro em carnaval para o mundo ver e aplaudir.
Dodô, a alquimista: transformou suor e sofrimento em alegria e samba! Fez a dor do povo virar ouro!

A benção, Tia Dodô da Portela!

Que seja hoje, na glória de Deus, o seu mais inspirado e divino bailar de porta-bandeira,
Divina, inspirada, encantada, alegre, com aquele longo sorriso que levantava as arquibancadas da Sapucaí e arrancava emocionados aplausos dos que tinham o privilégio de vê-la se apresentar!

A bênção, Tia Dodô da Portela!

A ti,
Oswaldo Cruz e Madureira; Tjuca e Mangueira, Estácio e Vila Isabel; Serrinha e Padre Miguel; São Gonçalo e Niterói; Saúde e Gamboa, Cavalcante e Cascadura; Nilópolis e os dois Engenhos; Botafogo, a Ilha e todo o mundo do samba deitarão lágrimas de saudade;

De ti, o exemplo ficou...guarda contigo nosso eterno amor...
A bênção! Voa aos céus do Criador...
A bênção...adeus, Tia Dodô!

Hélio Ricardo Rainho


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27/12/2014 19h42

Cartada certeira!
Hélio Ricardo Rainho

Não duvidem: ela vai dar as cartas na Avenida!

Pouco se tem falado ou ouvido falar da escola tricolor como uma das favoritas para 2015. Seu enredo foi anunciado por último, soando para muitos como "improviso". Seu samba está numa esfera mediana: não é uma catarse quando cantado, nem um primor poético se visto mais de perto.

Ainda assim, posso apostar na Grande Rio como uma das mais fortes candidatas no próximo desfile. E explico por quê.

Tive a oportunidade de conversar, no Seminário SRZD-Carnaval, com o carnavalesco Fabio Ricardo para entender melhor o sucesso estrondoso de seu desfile 2014 sobre Maricá. Saí do evento surpreso. Os elogios ao artista sempre foram os melhores, mas ele, ao vivo, foi de uma coerência, uma inventividade, um domínio da técnica e do planejamento de seu carnaval que eu duvidaria de alguém tão jovem com tamanha clareza.

Para além de todo esse gabarito, Fabinho surpreende por ser imensamente irrequieto. Ele é capaz de revirar um barracão pronto e reinventar seus projetos em outra coisa diferenciada ou inventiva para aprimorar seu carnaval. A cabeça ferve de ideias, surpresas o acometem a todo instante: ele gera ordem em meio a sinapses e impulsos que, em outros, talvez configurariam o caos.

O enredo sobre carteado, tão atrativo e ao mesmo tempo inovador, tem forte apelo popular, didática fácil e inúmeros desdobramentos para facilitar o entendimento e a leitura pelo público. O samba tem rendido muito bem com a bateria e possui um bom apelo de comunicação para emplacar seu refrão. Se o enredo hermético e até então pouco sugestivo de Maricá foi uma exuberante aula de narrativa, pesquisa e concepção plástica em 2014, que diríamos pois deste de agora, com tantas outras facilidades de realização e expressão?

Pra não se dizer que a força da Grande Rio está apenas em seus feitos estéticos, vale destacar que a escola fez mais do que um pomposo e criativo desfile no carnaval passado: ela reafirmou a força de sua comunidade caxiense, fiel e vibrante, leal e apaixonada, aguerrida e consciente. Por muitos anos ofuscada pela cobertura ignóbil da televisão, que insistia em esconder sua gente de chão para parlapatear artistas de novela e celebridades vazias da emissora que monopoliza o carnaval, a comunidade da Grande Rio apareceu forte na avenida justamente quando precisou defender com rigor e bravura o enredo da escola. A partir do enredo sobre Maricá, reencontramos aquela chama e aquele fervor do componente que conhecemos desde os enredos africanos que a trouxeram para a elite dos desfiles. A Grande Rio tem uma linda bateria do maestro mestre Thiago Diogo, o que também incinera um desfile - é fato.

Por essas e outras - muitas outras que só no grande dia saberemos -, faço minhas apostas na linda Grande Rio como uma das poderosas para 2015.

Esse Fabinho carnavalesco, esse mestre Thiago, esse mestre-sala Niel Werneck, essa comunidade de Caxias, esses passistas comandados por mestre Avelino...são do baralho! Tal qual nos promete ser a Grande Rio!

Pode apostar!

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28/11/2014 17h17

Rei Mayombe do Estácio!
Hélio Ricardo Rainho

Este ano, a avenida terá um encanto especial. Ao rufarem os tambores ancestrais do Velho Estácio, uma força radiante irromperá frente à bateria como um cometa do samba, iluminando a passarela e emocionando a audiência. Uma ginga de malandro fundida ao bailado sem par de pernas velozes, gestos tridimensionais e ziguezagues, uma elegância inexplicavelmente contagiante.

Parece magia! O samba no pé de Mayombe Masai é encantado. Um fauno dançante do samba. Mayombe será coroado, na noite desta sexta-feira, o Rei de Bateria do GRES Estácio de Sá.

Lépido, fagueiro, malandro, veloz. Poético, hipnotizante. A ginga de seu samba se distingue por uma impressionante cadência que mistura a velocidade dos riscados com a graça da capoeira e o autêntico samba no pé.

Estamos falando de um jovem rapaz negro, estatura mediana, corpo franzino, que passaria despercebido pelas ruas da cidade, não se tratasse de um dos maiores passistas de escola de samba do país. Se nossa mídia prestigiasse os artistas genuínos do carnaval como prestigia os subprodutos de gravadora e pseudocelebridades de telenovelas ou reality shows, certamente o teríamos como um astro. Mas, como escola de samba para a grande mídia é apenas "festa", ficamos nós - graças a Deus, os genuínos difusores e admiradores dessa arte - privilegiados com o ímpeto e a graciosidade de sua dança.

Foto: Alex Nunes

Ele é conhecido por ter em seu nome a fusão de dois outros nomes africanos: de uma região montanhosa da África (Mayombe) e de uma tribo do Quênia (os masai ou massai). Dançarino nato, é conhecido e reverenciado por todos os amigos passistas e por toda gente do samba. O Estácio marca um gol de placa ao prestar essa homenagem que, embora a um jovem personagem, prestigia a grandeza e o lastro histórico de um grande movimento dentro dos desfiles de escolas de samba: a arte dos passistas e seu samba no pé.

Há que se louvar o momento privilegiado de afirmação e conquista do passista de escola de samba! Outrora perseguido, ultrajado, ameaçado até mesmo de extinção, hoje tem ocupado espaços importantes de discussão sobre a cultura popular e a consciência negra dentro da sociedade. Como um quilombola que é, o passista chegou a ser banido até mesmo de seu próprio território - a escola de samba. Mas reinventou-se, rompeu as barreiras, reorganizou a sua simbologia dentro do carnaval e reviu seu espaço. Temos alas de passistas brilhando, personagens renomados e respeitados por todos os setores. Nossa primeira iniciativa com o "Projeto Quem És Tu, Passista?" de devolver mídia e espaço de comunicação aos protagonistas dessa dança redundou em uma necessidade das demais mídias também promoverem e divulgarem essa arte. Mais pesquisadores têm se debruçado sobre os mistérios desses personagens extraordinários do samba. A afirmação deles está aí! As fotos dessa matéria, ilustradas por verdadeiros "bambas da fotografia", incansáveis fotógrafos Alex Nunes e JM Arruda, são exemplo de gente com talento singular que tem voltado seu foco para esses artistas divinos do samba.

Foto: Alex Nunes

Quando Mayombe Masai, o "passista encantado", for corado na quadra da escola que se originou do lugar onde o samba foi embalado menino, algo importante acontecerá. Rei Mayombe representará a voz dos passistas que reinaram por tantos anos no carnaval e foram desprezados, lançados ao relento, como se nada representassem. Ele ostentará sobre si a coroa dos Dom Obás sambistas, dos passistas que sempre reinaram e nunca receberam a coroa. O Velho Estácio - glorioso Estácio, reduto do samba! - manifestará a sua autoridade de Leão do Samba para delegar a esse menino mágico, "passista encantado", a glória de sambar de verdade à frente de sua bateria, levantando a poeira e fazendo as vezes do mestre de cerimônias da escola.

E nós, amantes dessa dança divina, aplaudiremos e reconhecemos na grandeza de Mayombe Masai a "voz que não se cala", o "grito de Zumbi", a manifestação única e fascinante da figura do passista de carnaval retomando seu posto de "dono do samba’, outrora confiado a personalidades alheias a essa festa por força do colonialismo cultural que alijou os nossos crioulos e mulatas dos requebros que a eles pertencem.

É justo que se mencione a presença da linda mulata passista Luana Bandeira a seu lado, fazendo par como deusa e rainha da bateria do Leão do Samba. Juntos, eles representam a dignidade dos passistas, a raiz do samba genuíno, a glória da batucada.

Salve, salve...Salve o Velho Estácio de Ismael, glória do samba brasileiro! Salve a arte genuína dos passistas de escola de samba!

Salve Luana Bandeira, divina musa e rainha da bateria vermelha e branca!

E salve o Rei Negro Mayombe Masai! Nossa reverência, nosso carinho, nossas palmas ao dono da coroa real do samba no pé!

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17/11/2014 16h20

Metrossexuais do samba!
Hélio Ricardo Rainho

O mundo mudou. Pesquisas de marketing registram que, hoje, o consumo de moda masculina disputa meio a meio a compra de roupas, acessórios etc com as mulheres. É a ascensão dos novos dândis, os "metrossexuais", habitantes antenados das metrópoles que associam com perfeição estilo e masculinidade.

E, já que a roupa traduz não apenas estilo, mas também personalidade, fizemos uma visita pelo mundo do samba para destacar dez personagens cheios de cuidados com o look, mandando ver na produção. Entre mestres-sala, presidentes, ritmistas e passistas, todos encontraram um estilo de se destacar. Aproveite para tirar ideias e compor o seu visual.

Manda ver, malandragem!!!

Yan Nascimento. Foto: Reprodução

Marcos Falcon . foto: Reprodução

Matheus Beckford. foto: Reprodução

Bruno Diaz. Foto: Reprodução

Thiaguinho Mendonça. Foto: ReproduçãoVitinho. Foto: Reprodução

Valci Pelé. Foto: Reprodução

Diogo Jesus. Foto: Reprodução

Gabriel Castro. Foto: Reprodução

 Felipe Nascimento. foto: Reprodução

* Hélio Ricardo Rainho, blogueiro SRZD-Carnaval

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12/11/2014 15h57

Independente na identidade!
Hélio Ricardo Rainho

Em tudo, por tudo, ela é original. Parece ter sido uma escola de samba nascida para fazer a diferença. Por ela passaram, historicamente, os carnavalescos mais expressivos e inovadores. Seu povo, sua gente, expressam a força de uma região cuja territorialidade (a zona oeste) - a partir dela - passou a afirmar-se como reduto de samba, expresso em títulos, conquistas e carnavais inesquecíveis.

Estamos falando, é claro, da gloriosa Mocidade Independente de Padre Miguel. A escola, que no último dia 10 completou 59 anos, é uma das mais importantes agremiações do carnaval carioca e, por extensão, patrimônio da cultura nacional.

O Descobrimento do Brasil. Foto: Jornal Extra

Nada é por acaso. Brasileira como ela é, a Mocidade tornou-se escola de samba a partir de um time de futebol, o Independente Futebol Clube. E é por isso que seus correligionários são tão apaixonados e fervorosos quanto torcedores de arquibancada. Taí a rede social para mostrar isso.

Afilhada da Beija-Flor, foi a Mocidade Independente quem revelou ao mundo a cadência de uma bateria capaz de realizar paradinhas e efeitos diferenciadores da sonoridade das demais escolas de samba. Ao ascender ao grupo principal dos desfiles em 1958 com seu enredo "Apoteose ao Samba", a escola apresentou a bateria mágica de Mestre André, caracterizada por suas "paradinhas". Um fenômeno que durante anos tornou-se "assinatura" dos ritmistas de Padre Miguel. Com o passar do tempo, outras baterias assimilaram a performance, mas a bateria da Mocidade permaneceu única em seu estilo de fazer as paradinhas. Lamentavelmente, por uma imposição inaceitável dos organizadores dos desfiles, hoje todas as escolas de samba são obrigadas a realizar paradinhas, o que tornou comum um estilo peculiar e identitário até então característico dos independentes...

Carnaval 2001. Foto: Reprodução de internet

É grande a contribuição artística da Mocidade Independente no desenvolvimento plástico do carnaval. Sua primeira vitória foi conquistada com o genial Arlindo Rodrigues apresentando "O Descobrimento do Brasil" em 1979. A Mocidade celebrizou o estilo irreverente e a estética daquele que efetivamente "casou-se" com a escola e deu-lhe personalidade: o eterno gênio Fernando Pinto.

Ao desenvolver o enredo "Tropicália Maravilha" em 1980, Fernando consolidou sua forma tropicalista de fazer carnaval, iniciada em 1972 com o "Alô, Alô, Taí Carmem Miranda" campeão pelo Império Serrano. Seguiram-se o aclamado "Como Era Verde Meu Xingu", o irreverente "Mamãe Eu Quero Manaus" e a antologia "Ziriguidum 2001 - Um Carnaval nas Estrelas", onde a escola conquistou seu campeonato numa leitura futurista em que o carnaval visitava o espaço sideral, protagonizando um dos momentos mais extraordinários da história dos desfiles.

Nos anos 90, a Mocidade teve sua fase "bicho-papão" consagrando outro grande nome dos carnavais, o perfeccionista Renato Lage. Foi lá que o carnavalesco ganhou seu primeiro campeonato com o "Vira, virou, a Mocidade chegou!", no qual a escola comemorava seu aniversário rememorando suas grandes "viradas" históricas.

Marilene, passista Mocidade. Foto: Reprodução Facebook

Foi também a Mocidade Independente quem celebrizou aquela que, para muitos, foi a melhor ala de passistas de todos os tempos, na década de 90, dirigida por Marilene, referência absoluta de célebres passistas atuais. Como se sabe, até o final dos anos 70 e início dos 80 os passistas desfilavam espalhados pela escola. É comum ouvir deles que sua afirmação como um segmento disposto em alas consagrou-se justamente na Mocidade. Marilene é uma figura mítica, antológica, reverenciada por seu trabalho nessa época.

A Mocidade chega para 2015 se reinventando e reinventada. Pronta para surpreender e impactar. Em seu compromisso de inovação e ousadia, trará para a avenida um dos desfiles mais esperados do ano: um enredo sobre o fim do mundo, desenvolvido por ninguém menos do que Paulo Barros!

O que temos aprendido, nesses muitos anos de pesquisa e estudo das escolas de samba, é que sua fenomenologia transcende os desfiles, as competições, os campeonatos.
A razão de ser da escola de samba é agregar sentido, territorialidade, conjunção de ideais e símbolos culturais espelhados por uma determinada bandeira, um pavilhão.

E, sob o manto verde e branco da Estrela Guia de Padre Miguel, há 59 anos a comunidade da zona oeste da Cidade Maravilhosa faz brilhar o seu orgulho, a sua devoção e a sua paixão por esta que é uma das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro.

É com honra, carinho e respeito que se comemora a o aniversário da grandiosa Mocidade Independente de Padre Miguel...
Não existe mais quente! Salve a Mocidade!!!

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20/10/2014 11h16

O samba-enredo em questão
Hélio Ricardo Rainho

O samba-enredo, razão de ser e de viver da escola de samba, vem se constituindo, em meu juízo critico, num elemento perturbador do cenário das escolas de samba. Não obstante a sua importância dentro da lógica dos desfiles, vem adquirindo, a meu ver, contornos negativos em alguns de seus aspectos. E antes de fugir das discussões sobre os problemas que envolvem esse elemento dos desfiles (e passa mesmo, porque cronistas sempre preferem jogar confete em vez de filosofar), fica aqui a minha proposta de reflexão sobre esse assunto.

Foto: Reprodução de InternetDisputa de samba-enredo nunca foi muito pacífica. Ok, isso é lugar comum do samba e, se fosse esse tão somente o meu tema, não haveria muita necessidade de discorrer sobre ele aqui nas linhas que sucedem. O problema é que a rivalidade adquiriu contornos tão estranhos que, por sua conta, criaram-se esferas de pensamento, a meu ver, totalmente equivocadas sobre essa forma de disputa.

Vamos lá. O primeiro grande vilão disso foi, desde sempre, o comercialismo envolvendo as disputas. Fator claro. No meu entendimento, em meio a tantas coisas que se faz de graça e com esforço próprio dos sambistas, o valor do prêmio aos vencedores do samba-enredo sempre me pareceu discrepante, alto demais. Desnecessário até. Razão pela qual começou a ocorrer todo tipo de situação para uma disputa que notoriamente tornou-se mais financeira que ideológica, descaracterizando muitas vezes a escola e até afastando os notórios da comunidade do processo seletivo. Em bom português: o dinheiro passou até a comprar resultados!

As escolas de samba passaram a se preocupar menos com a qualidade de suas alas de compositores, a desenvolver menos as habilidades musicais e o conhecimento histórico do panteão de seus poetas, trazendo "estrangeirismos" inusitados (muitas vezes por exigência, também, dos carnavalescos). Morreram os sambas-exaltação, os sambas de quadra. Compositor de escola de samba não precisou mais compor hino à escola, declarar seu amor a uma bandeira para constituir uma ala: bastava chegar e entrar...tá tudo certo..."traz seu ônibus com torcida e confete que você tá na disputa".

Bem, eu sou purista nesse assunto, e acho isso tudo horroroso! (Tinha outros termos, mas preferi usar este: "horroroso"!).

Mas aí é que tá: "a toda força de ação corresponde uma reação". E, sob a égide desse raciocínio, ou tentando reagir contra a força dele, veio uma onda de "reinvenção musical". Que me causa o mesmo medo. O samba-enredo precisa ser "reinventado", "reprocessado", "recuperado", "re-re-re"...! É tanto "re" na jogada que corre-se o risco de, por um acento, ativar-se uma "marcha ré"!

Teoriza-se tanto sobre esse assunto...e eu fico pensando se, alguma vez na vida, Mestre Silas de Oliveira - o maior de todos - teve essa pretensão teórica de idealizar os sambas antológicos que compunha. Venho um pouco mais perto: o genial Martinho da Vila, contemporâneo, mentor de coisas absurdamente geniais e inigualáveis como um samba de versos arquitetados matematicamente com a cadência literária do poeta Drummond ("Sonho de Um Sonho" - Vila Isabel 1980) ou a ousadia máxima de um samba impecavelmente construído sem nenhuma rima ("Raízes" - Vila Isabel 1987). Nunca vi Martinho dar uma entrevista sequer dizendo que "queria mudar a história do samba" ou que "queria reeditar o samba autêntico". Bastou-lhe a nobreza da inspiração! O resto foi mera consequência.

Imaginem vocês se, de fato, houvesse, em meio a tantos compositores, uma mente iluminada capaz de, em 2014, "ressuscitar a "poesia perdida" do gênio Silas...! Meu Deus, com tanto dinheiro em jogo, quantas escolas não se esfalfariam para comprar seu passe, ter sambas só dele, eternizar sua mente privilegiada ou vocação sobrenatural diferenciada!!! Pensando nisso, sinceramente, desacredito totalmente dessa pretensão descabida. Fico só aguardando o melhor samba, o grande samba, a obra-prima, sem esse discurso institucional que diferencia um dos demais, criando - a meu ver - dissensão.

Aliás, nunca vi Martinho concorrer em doze ou dezenove escolas ao mesmo tempo. Eu devo mesmo ser um anacrônico com esse meu discurso...

Mas a grande ameaça dessa lógica toda é que, à mercê de tantos juízos e pretensões, as alas de compositores estão se digladiando, as vaidades estão aumentando. E nós, a imprensa virtual, único reduto da comunicação onde se cobre carnaval como MANIFESTAÇÃO CULTURAL que acontece O ANO TODO, percebemos quão intensas são as disputas, as provocações, as inimizades, as sensações de abandono ou perda da parte de nossos compositores. Muitos deles já consagrados, outros ainda novatos... não importa: é absoluto o número de compositores que rapidamente se enfurecem ou se envaidecem por seus feitos, por acharem que foram lesados, que sofreram críticas injustas etc. Uns não falam com os outros! Aquela Velha Guarda linda de compositores que morrem amigos não inspira mais ninguém. A lógica que prevalece é outra: em vez de valorizarem a escola, valorizam seu próprio valor. Talvez isso seja apenas efeito das redes sociais, que rapidamente nos fazem saber o que, antes, só se reclamava numa rodinha de amigos para os mais chegados. Agora, toda difamação, toda vaidade, toda arrogância, toda cisão e todo aborrecimento se tornam públicos muito rapidamente.

Minha hashtag é: #MedoDeQuemLegislaEmCausaPropria !

E a audiência acalora o debate: tá cheio de "analistas", gente "dando aval", difusores do que se quer e do que não se quer ouvir! Os sites publicam 30 sambas concorrentes de cada 12 escolas do Grupo Especial e 17 da Série A...e, no dia seguinte, todo mundo "já sabe" - dentre 870 obras - quem são "os melhores", quem descreveu melhor o enredo, quem tem mais poesia, quem "traduziu melhor a ideia do canvavalesco" (sim, eles sabem o que os carnavalescos pensam...) etc etc etc. Como assim???

Meu temor é perceber que a disputa assume cores tão comerciais ao ponto de, muitas vezes, privar uma escola de fazer uma festa de confraternização, em vez de rivalidade. Porque o momento em que a escola de samba mais se parece com a rivalidade estulta do futebol é justamente o momento da disputa de samba. E torna-se ainda pior do que o futebol, porque, aí, a rivalidade não é nem ao menos entre bandeiras diferentes: é dentro da mesma torcida! E time cuja torcida briga sozinha, sinceramente, não tem o meu respeito.

Tenho me posicionado há alguns anos um pouco distante das análises dos sambas-enredo. Porque estou trabalhando no carnaval para comentar o coletivo, o trabalho da escola. E o samba-enredo anda tão "à parte", tão "ele mesmo", tão "do dono" que eu prefiro não emitir muito juízo nem valor sobre isso...

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29/09/2014 14h33

A teatralidade caprichosa dos passistas de Pilares
Hélio Ricardo Rainho

Um fenômeno interessante e extremamente relevante na compreensão e estudo dos passistas de escolas de samba contemporâneos diz respeito á teatralidade que, cada vez mais, é emprestada à organização e à apresentação das alas. Como bem sabem os que acompanham essa manifestação artística dentro das escolas de samba, a dança do passista evoluiu de seu sentido original - onde era executada de forma individual, isolada - para um contexto coletivo - agrupada em alas a partir dos anos 80. Nessa reorganização espacial dos artistas da dança do samba, algumas características foram sendo modificadas para acompanhar a lógica de suas apresentações e também o contexto cada vez mais "espetacular" dos desfiles.

Os figurinos "individualizados" dos passistas, que a princípio desfilavam "espalhados" pela escola dentro de outras alas, passaram a ser padronizados para que pudessem constituir um conjunto uniformemente estético em uma ala que os congregasse. Vieram então as "fantasias", e a consequente "personalização" para tipificar os enredos. Não obstante as nossas reiteradas críticas à falta de entendimento de boa parte dos carnavalescos de que "fantasiar" um passista não pode nunca descaracterizar sua imagem tradicional ou prejudicar a sua dança com roupas pesadas demais, é conveniente citar que esse novo modelo potencializou os dançarinos como performers, permitindo-lhes atuar como atores de um teatro musical ou "vaudeville de rua", que seria a ópera bufa do carnaval.

Pouco a pouco, as alas passaram a desenvolver conteúdos performáticos em suas apresentações. Não apenas na avenida, mas principalmente nas quadras de ensaio ou shows da escola. Tivemos vários exemplos já citados por este colunista em matérias anteriores (Portela, Vila Isabel, Império Serrano, Mocidade, Salgueiro). Em meu estudo específico sobre arquétipos do samba, que culminou numa palestra acadêmica e numa de minhas colunas aqui no SRZD também, destaquei a relevância desse trabalho.

Tivemos, na final de samba-enredo da Caprichosos de Pilares, um relevante e representativo exemplo dessa manifestação. A diretora responsável pelo grupo da Caprichosos é ninguém menos que Kátia Suzuki, uma das mais conceituadas e respeitáveis passistas de ofício de nosso carnaval. Kátia é exemplo dentro do meio em que atua: uma mulher dinâmica, inteligente, bem articulada, capaz de conduzir uma ala de faixa etária muito jovem (das mais jovens de nosso cenário atual) com grande eficiência, implantando pouco a pouco um trabalho autoral que possa conferir aos caprichosos uma marca significativa no carnaval carioca.

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

A ala fez uma representação dramática, na final de samba-enredo, que destacava o enredo a ser apresentado em 2015, "Na Minha Mão é Mais Barato". Em consonância com a proposta da escola de falar sobre o comércio popular, foi apresentada uma coreografia destacando algumas formas de comércio presentes ao longo da história do Brasil.

Na abertura, foi retratado o comércio do europeu com os índios, o conhecido "escambo", retratando o uso do pau-brasil como moeda de troca por espelhos. O comércio das mulheres negras - as "pretamandingueiras" identificadas na sinopse - foi retratado por vendedoras de quitutes. Essa primeira parte foi encenada pelas cabrochas passistas de Pilares. O passista masculino Jonathan ribeiro destacou-se com uma levada de dança afro perfeitamente inserida no contexto da apresentação, em meio às belas mulatas da escola.

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

Os malandros passistas entraram em cena no que seria o segundo ato dessa apresentação teatral: ao som de "Moça Bonita Não Paga", samba enredo de 1982 que homenageia a feira livre e o mercado popular. os trejeitos malandros foram emprestados cenicamente à cadência descontraída dos feirantes, personagens típicos de um comércio popular ainda bastante comum nos subúrbios cariocas. E as passistas representaram as consumidoras charmosas a provocar o encanto e a cortesia dos vendedores de flores e outros produtos na rua.

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

Como se pode perceber, o esforço desse segmento em sobreviver ao esmagamento cultural proposto pela espetacularização é surpreendente! Num dado momento em que todas as circunstâncias do carnaval parecem acuar o passista, tirando-lhe as forças e a estrutura para mostrar aquilo que ele sabe melhor fazer, que é dançar graciosamente o samba, o passista se reinventa. Como uma fênix nascida das cinzas, o passista de escola de samba reedita seu papel, insere-se no contexto espetacular, reinventa sua arte sem perder o fio de sua tradição. O trabalho excepcional de Kátia Suzuki e dos maravilhosos passistas da Caprichosos de Pilares é uma prova viva de que essa arte genuína e original não está morrendo; sequer agoniza: estão vivos e plenos de criatividade, força e pujança, se reinventando e, por extensão, reinventando o carnaval.

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

Se analisarmos a apresentação dinâmica e contextualizada da ala de passistas da Caprichosos de Pilares, percebemos um complexo sentido de organização dramatúrgica, desde a concepção de um roteiro temático que descreve cena a cena a proposição do enredo, até a construção dos personagens e sua disposição cênica, misturando princípios da marcação teatral (noção de espaço procênico) até os aspectos coreográficos constitutivos de um corpo de dança. Ao fim de tudo - e o que é mais bonito! - a soltura, a graça, a originalidade, o improviso e o requebro de nossos graciosos passistas...a dança do samba, o samba brasileiro, a cadência que só existe nesta terra, neste chão, neste lugar! Todos juntos num grande "bloco de rua", carnavalizando a história, de forma exemplar. Um achado!

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

Saibamos todos, pois, que, debaixo do viaduto, existe vida artística, furor cultural, excelência! Salve nossos gloriosos passistas da Caprichosos de Pilares... Diego Andrade, Jonathan Ribeiro, Fábio Galvão, Marlon Tavares, Gabriel Lima, André de Paula, Daniel Santos, Leandro Ramos, Michelle Baixinha, Tatiane Silva, Elaine Oliveira, Keyce, Bella Bombom, Mari Carvalho, Nicole Musa, Jana Lima, Thaís Martins, Nega Lu, Adriana Brum, Carol Dorico, Thamires e Vitoria Carvalho... à frente do pelotão, Katinha Suzuki e Ricardo Fernandes! Nossa reverência, carinho e apreço a esse povo que se mantém fiel às tradições, sabendo, contudo, abrilhantar com amor e empenho, a grandeza do samba!

Como são lindos os nossos malandros e cabrochas exibindo sua arte sem par! Mais uma vez, o Povo de Pilares caprichou! Salve, salve!

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18/09/2014 13h53

Dança, mestre-sala!
Hélio Ricardo Rainho

É curioso como o olhar da imprensa, de modo geral, para a festa das escolas de samba, é um olhar distorcido, eivado de desconhecimento. Ainda é assim. Muito se fala da espetacularização dos desfiles, da mudança de paradigmas na construção do espetáculo. Mas parece que a nossa imprensa, com sua cobertura jornalística, ainda não acompanhou o crescimento e a nova dinâmica da festa. Continua presa a parâmetros próprios, desfocados, sem entender com propriedade o evento que cobre.

Por que começar um parágrafo de uma coluna com tom assim, tão ácido? Porque, de fato, alguns dos personagens dessa festa continuam relegados a segundo ou terceiro plano, supostamente por requererem algum tipo de estudo ou informação prévia para serem abordados ou referidos nas matérias que são escritas. E é preciso que esse olhar crítico saia de dentro da própria imprensa - é o que faço, pois, aqui - para que surta minimamente um efeito de mea culpa, provocando a discussão e a reflexão desse fato.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira tem uma dança própria, específica, característica, original. Ambos são os responsáveis pela condução do pavilhão real da escola. É com eles que ficam a graça e a primazia de apresentar a bandeira, símbolo máximo do grêmio recreativo, representação simbólica dos valores e das cores que uma escola de samba ostenta em seu panteão. Esses dançarinos vieram integrar as escolas de samba a exemplo do entrudo português, onde um casal de negros escravos normalmente satirizava a corte da Casa Grande exibindo roupas de gala e trejeitos dançantes, apresentando o luxo dos nobres como forma de protesto, o que acabou originando a formação da dupla dentro da lógica dos desfiles.

Curiosamente pouco se fala e pouco valor se atribui à dança do mestre-sala. Tive a oportunidade, aqui mesmo neste veículo, de publicar uma série de quatro matérias intitulada "Ases da Dança do Samba", onde apresentei perfis pessoais de quatro desses grandes dançarinos: Julinho Nascimento (o Ás de Ouros), Diogo Jesus (Ás de Paus), Phelipe Lemos (Ás de Copas) e Fabrício Pirez (Ás de Espadas). Descobri com esses quatro geniais dançarinos -e tenho descoberto, a cada dia, com tantos outros não menos fantásticos e relevantes - um punhado de histórias riquíssimas, coisas extremamente significativas não apenas por ilustrarem belíssimas histórias pessoais, mas também por contribuem para a divulgação da dança do samba na mídia.

Onde ficam essas histórias? Ninguém delas fala, nem as publica.

A exemplo do que acontece com os passistas, a dança do samba parece estagnada a um público que tão somente tem acesso ao que vê nos desfiles, sem conteúdo de pesquisa ou explanação de sua relevância histórica ou artística. Há poucos interessados em escrever, divulgar, entrevistar esses personagens maravilhosos que compõem o elenco da passarela em dia de desfile. Quando muito, lembram-se dos mestres-sala como coadjuvantes das porta-bandeiras; que são dignas, sim, de reconhecimento e respeito, mas historicamente ficaram em patamar superior de divulgação e midiatização em detrimento dos cavalheiros do samba que são os mestres-sala. A figura da mulher é explorada, como sempre, muito mais por sua beleza do que propriamente pela característica de sua dança: a mulata passista e a porta-bandeira ganham muito mais destaque, parecendo evoluírem sozinhas, sem seus pares masculinos que efetivamente as completam.

Um erro crasso, repetido na lógica ilógica das coberturas jornalísticas.

Foi Maçu da Mangueira quem entrou para a história como o primeiro mestre-sala do carnaval carioca e quem efetivou a dança do casal nos desfiles com a configuração que hoje conhecemos. Um mestre-sala distingue-se pela elegância, pela postura cavalheiresca, pelo duplo cortejo que oferece, em sua dança, à porta-bandeira e ao pavilhão da escola. É ele quem conduz todo o ritual de apresentação da bandeira, pois efetivamente é o mestre-sala quem conduz seu par feminino e é ele, também, quem apela ao público para que reverencie e identifique a presença da escola no lugar. É também o mestre-sala quem oferece o pavilhão para ser cumprimentado (beijado) pelas autoridades ou homenageados presentes, sendo sua função criar todos os elos de ligação entre o simbólico (o pavilhão) e o real (as pessoas, a audiência) durante a lógica do desfile.

A dança do mestre-sala é um gingado específico, rigorosamente técnico, de apuro clássico, alternando eixos circulares e linhas retas, cuja maior característica é apresentar o chamado riscado (sequência de bailados rápidos e movimentos sequenciados dos pés e pernas) sem efetivamente "sambar no pé". O mestre-sala pode ser despontuado se casualmente sambar como um passista.

É importante dizer que muitos mestres-sala começaram como passistas. Podemos citar, hoje, alguns dos mais extraordinários, como Julinho Nascimento (Unidos da Tijuca), Claudinho (Beija-Flor), Diogo Jesus (Mocidade Independente), Thiaguinho Mendonça (Renascer), Jackson Senhorinho (Vila Isabel), Paulo Roberto (Caprichosos). O mais recente exemplo de "conversão" é de Emanuel Lima, um grande passista do Salgueiro que estreará em 2015 como mestre-sala da Acadêmicos da Rocinha. A elegância, o porte majestoso, a classe e o modo bonito de se vestir são elementos comuns entre o passista e o mestre-sala. Que, dentro do universo da escola de samba, são os dois elementos que tipificam a dança masculina do samba na avenida.

O grande bamba desse regimento é o professor Manoel Dionísio, mestre reverenciado por todos os dançarinos por seu trabalho digníssimo formando casais em todo o país. Uma autoridade que merecia capas de jornais e revistas país afora e que aparece vez por outra na imprensa sem o devido valor e importância dentro do processo cultural brasileiro.

São tantos - e quantos podemos citar - nesse ritual de bravura e beleza, com sua dança rica e emocionante: salve salve...além dos já citados... Raphael Rodrigues (Mangueira), Alex Marcelino (Portela), Sidcley (Salgueiro), Peixinho (Império da Tijuca), Feliciano Junior (Império Serrano), Marlon Flôres (Viradouro), Vinícius Antunes (Unidos de Padre Miguel), Jeferson Souza (União do Parque Curicica), Daniel Werneck (Grande Rio), Paulo Roberto (Caprichosos de Pilares), Zé Roberto (Porto da Pedra), Vinícius (Tuiuti), Marcinho (Estácio de Sá), Diego Falcão(Cubango), Marcinho (União da Ilha). São apenas alguns, dentre tantos outros louváveis e admiráveis portadores da gloriosa dança do samba na ponta dos pés!

Um grito de "bravo’ em favor dos nossos gloriosos mestres-sala!!!

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17/08/2014 12h28

Gabriel Castro, o reizinho de Madureira, chegou!
Hélio Ricardo Rainho

Idade de discípulo, ofício de mestre. "Sou Império/ Sou patente". Quem caminha nos bastidores do Império Serrano conhece bem o seu jovem diretor de passistas. O comando tático é por sinais: todos entendem sua liderança serena e discreta. Ele tem o respeito e a reverência de gente jovem e mais velha que ele; das meninas-cabrochas que enfeitam sua ala e até dos "cabeça branca". Na quadra da escola da Serrinha, caminha ante o reconhecimento dos veteranos. Sua ala de passistas é hoje top de linha: está entre as três melhores do samba carioca.

Gabriel Castro. Foto: Acervo pessoal

Gabriel estuda (é historiador), trabalha (é bancário) e não vive exclusivamente do samba.
Apesar disso, não abre mão de expressar sua versatilidade atuando em outras frentes, como, por exemplo, a de produtor cultural. É produtor da banda PercusSamba e faz shows como passista praticamente todos os fins de semana. A intensidade com que pratica todas essas coisas parece lhe proporcionar a excelência naquilo que faz: um atleta que treina em tempo integral. Quanto mais faz, mais se aperfeiçoa.

Um semblante aparentemente sério imediatamente revela uma peculiaridade: a simpatia. Gentil, paciente e educado, vive assediado por jornalistas, fotógrafos e amigos. Espécime raro dentre os malandros do samba, Gabriel faz o gênero bom moço: tem sempre uma namorada o acompanhando nas rodas de samba (a atual é a bela Bárbara Moura) e encarna tão bem o gênero "genro-que-toda-sogra-quer" que a atual acompanha ele e a filha nos eventos. Alguma coisa parece luzir no fundo dele, algo que transcende sua vida de luta e superação, galgando intensamente uma longa caminhada desde os tempos de menino.

"Um filho do verde esperança / Não foge à luta...vem lutar!". Parece que é sempre assim. Um samba do Império pode explicar tudo sobre ele.

"Tento divulgar ao máximo que a dança tradicional do samba persiste e está a cada dia mais forte. O samba e todo tipo de cultura popular merece ter melhor espaço e tento de uma forma branda e natural mostrar isso pela minha ótica nada convencional" - revela o menino-prodígio, que desde cedo desfilou em ala mirim da Paraíso do Tuiuti, passando por Mangueira, até iniciar cedo seu trabalho como coordenador de passistas em escolas como Império da Tijuca, Unidos de Padre Miguel, Arranco do Engenho de Dentro e, finalmente, seu amado Império Serrano.

"Hoje, por mais que eu tentasse, seria muito difícil distanciar o nome 'Gabriel Castro' da agremiação Império Serrano. Isto, pra mim, é e será sempre uma honra!" - afirma, consternado. "É muito amor / Essa paixão é carnaval"...

Gabriel Castro. Foto: Acervo pessoalGabriel Renan Gonçalves de Castro tem sobrenome de literatos e pedigree no samba. De uma família de músicos, era afilhado do bamba João Nogueira, mas descobriu na dança do corpo a manifestação de seu dom artístico. Após um período em que a tradicional escola chegou a desfilar por três anos sem passistas, Gabriel foi chamado pelo então presidente Atila para assumir e reestruturar uma ala dentro da escola. Um dos apelos foi o da paixão. Sua paixão confessa pela bandeira verde e branco da gloriosa escola de Madureira. "O Império é muito grande e ter essa marca imponente ajudando as pessoas a me conhecerem é uma grande sorte" - confessa, emocionado. Rapidamente Gabriel usou seu prestígio junto aos passistas para arregimentar um contingente. Montou um grupo, desenvolveu um trabalho. Notório que se diga: gerou uma ala de passistas absolutamente condizente com a identidade e a pegada do Império Serrano, respeitando suas tradições e características, diferenciando-se das demais.

"O Império tem passistas que sambam o samba de Madureira. Observei isso: Portela e Império Serrano têm um samba parecido. Valci Pelé é uma grande inspiração. Nosso samba tem autenticidade, mas todos nós, em Madureira, sambamos o mesmo samba malandreado. Foi isso que eu fiz acontecer na ala" - revelou. É dele, também, uma frase icônica que sintetiza essa ideologia: "Em Madureira, inovar é ser tradicional".

"O meu Império é raiz, herança".
É assim que ele vê seu samba de passista.

"Ser diferente é normal", dizia outro samba imperiano. Recentemente, o inquieto Gabriel (aquele que "não gosta do convencional") observou algo relevante. Usar as redes sociais poderia ser um lugar comum para membros da Geração Y como ele. Mas seu foco particular em explorar o potencial de comunicação do mundo digital adquiriu cores estratégicas para seus trabalhos.

Gabriel Castro. Foto: Acervo pessoal"No Facebook, tenho por volta de 3.400 amigos/seguidores. No Instagram, por volta de 900 seguidores até o presente momento, mas todos os dias esses números crescem. Isso sem contar com as três páginas que administro e um outro Instagram que também fica sob minha responsabilidade". Gabriel refere-se às páginas Passistas do Império Serrano (1.600 seguidores), PercusSamba (900 seguidores) e Vitor Art (2.000 seguidores). "Vitor é cantor e o novo mestre de bateria da Mangueira. Nos tratamos como irmãos e, pelo bom desempenho nas outras páginas que criei, ele pediu pra cuidar da dele" - explica. "Fiz estágio dando aulas sobre redes sociais e inicialização de pessoas da 3º idade à internet, já possuía conhecimento inicial sobre o assunto".

E cita a frase de outra grande sambista para definir sua vibe cotidiana: "Sou historiador, trabalhador, produtor cultural, produtor de eventos...como diz uma amiga Laíza Bastos #milfacesumcaráter" - brinca.

"Avante, imperiano! / A luz de Deus iluminou a Serrinha". É o anjo passista Gabriel do samba...do Império...de Tuiuti...de Madureira! Ele é Império...é patente!

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11/08/2014 09h37

Baryshnikov e os passistas de Portela: Noite de Consagração!
Hélio Ricardo Rainho

Para alguns, apenas um fato jornalístico. Ou um evento midiático. Mais do que isso. Para nós, pesquisadores e mantenedores da cultura de dança do samba expressa pela arte singular de nossos passistas, foi um marco. Que merece registro; o registro que aqui faço, a fim de que se obtenha posteridade nas referências sobre a dança do chamado "samba no pé"

Na noite da última sexta-feira, dia 8 de agosto, a quadra da Portela recebeu a visita ilustre de Mikhail Baryshnikov. O ator, dançarino e coreógrafo russo é considerado, ao lado de Niijinski e Nureyev, um dos maiores bailarinos de todos os tempos. De passagem pelo Brasil para a apresentação da peça The Old Woman, ao lado de Willem Daffoe, Baryshnikov foi visitar a quadra da Majestade do Samba. E protagonizou uma cena interessante.

- Mikhail Baryshnikov visita quadra da Portela e diz que quer voltar para ver desfiles

Foto: JRicardo

Do alto do camarote presidencial da escola de Oswaldo Cruz e Madureira, Baryshnikov encantou-se, em especial, com a apresentação da ala de passistas. Muito provavelmente por ser a arte uma linguagem que, embora diversa, possua encanto e apelo universal. Sendo ele um artista da dança, a dança dos passistas o comoveu e sensibilizou.

A primeira observação que faço acerca da reação do antológico bailarino russo na quadra da escola é quanto à atitude de filmar e fotografar a evolução dos passistas portelenses. Sob o comando dos extraordinários Valci Pelé e Nilce Fran, reconhecidamente nossos "barishnikovs do samba", a fabulosa ala de passistas da Portela apresentou-se com um contingente até reduzido, mas muito bem representado, tendo Flávio Ferreira, Renan Brito, Gabriel Santos, Thamires Luiz, Wallace Safra, Bruna Ferrer, Amanda Oliveira, Tais de Fatima, dentre outros. Durante sua passagem, o bailarino russo mostrou-se encantado e repetiu o feito histórico dos anais da Portela, quando a corte de Walt Disney visitou a quadra em 1941 e registrou tudo em imagens, criando logo depois o personagem Zé Carioca, malandro inspirado no Príncipe Paulo e nos malandros portelenses. Mais uma vez a corte portelense vira objeto de estudo e registro para um importante olhar estrangeiro.

Foto: Acervo Portela

A segunda observação diz respeito à reverência com que Baryshnikov portou-se diante da apresentação. Sem "ousar" interagir ou fazer os trejeitos caricaturais típicos de "turista no samba", respeitou com reverência e sobriedade a passagem dos passistas, numa postura contemplativa de quem está admirando e também estudando a técnica, o improviso, o talento individual e a graça natural de uma dança que possui características únicas e é voltada para o espetáculo, exercendo sua dupla função de "resposta do corpo à batucada" e desempenho artístico-coreográfico. A performance dos malandros cortejando as cabrochas - envolvendo não só a dança, mas também as interações teatrais dos componentes - parecia fascinar o visitante, atento a todos os movimentos e atuações individuais dentro do desempenho coletivo.

O terceiro momento foi quando o bailarino recebeu, no camarote, os passistas para performance mais próxima, demonstrando sua cortesia e também a elegância natural da Portela (e, por extensão, da Escola de Samba, em caráter genérico) em agraciar seus convidados com a magia de seu samba e de suas cores, bem como a arte genuína de seus dançarinos.

Foto: JRicardo

Foi um grande momento, de relevante afirmação do segmento "passistas". É bom que se registre a importância desse feito para a retomada, pelo passista de escola de samba, de sua verdade histórica, de seu papel fundamental dentro do desfile. Muitas vezes considerado um personagem secundário ou terciário na dinâmica dos desfiles, ano a ano esse segmento vem galgando posições, conquistando espaço na midia, reafirmando sua relevância dentro do espetáculo.

Durante muito tempo tratada de forma equivocada como um "mero tapa-buraco de recuo de bateria", hoje a ala de passistas das escolas de samba faz isso aí que se viu na quadra da Portela: encantar uma audiência técnica e qualificada não apenas como dança "folclórica" ou "exótica", não pela superexposição da sensualidade feminina, mas sobretudo pela dança singular, pela técnica, pelo ritmo, pela consciência corporal. Elementos que Baryshnikov precisou registrar e apreciar detalhadamente, como objeto de estudo e significação. Porque a ala de passistas da Portela mostrou, naquela noite, que o samba carioca tem tudo isso, além da magia peculiar da escola. E justamente por serem Valci Pelé e Nilce Fran dois engajados e politizados defensores do movimento em prol dos passistas, enfatizando o uso da técnica na composição de seu grupo, é justo que se registre a simplicidade com que, nessa última sexta-feira, o samba seduziu o balé, Madureira encantou Moscou, a latinidade deslumbrou a Europa!

Foto: JRicardo

Levanta a cabeça, PASSISTA DE ESCOLA DE SAMBA! Sua arte, seu lugar, sua verdade estão aí! A luta pela obrigatoriedade do segmento nos desfiles, o reconhecimento da individualidade criativa de cada ala e a afirmação dessa arte dentro da lógica espetacular dos desfiles têm sido reiterados para expressar quão fundamental é, para a escola de samba, ter alguém que dance de maneira tão expressiva e singular o próprio samba que conduz as escolas na avenida!

Não que precisemos de reconhecimento externo para isso, mas que seja esse registro um exemplo claro, um manifesto de que a arte do passista de escola de samba merece respeito e seu lugar devido dentro do maior espetáculo da Terra que ainda é o nosso carnaval!

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13/07/2014 13h41

Alerta: evasão de passistas!
Hélio Ricardo Rainho

Preservar e valorizar o contexto representativo da figura do passista dentro dos desfiles de escola de samba é um grande desafio. Muito embora sejam unânimes os elogios e o reconhecimento da arte do passista no fenômeno "escola de samba" e mesmo ao espetáculo da avenida, aumentam as dificuldades dos artistas da dança do samba.

Hoje os passistas de escola de samba enfrentam o dilema da comercialização do samba, uma via de mão dupla que tanto trouxe grandeza quanto exclusão socio-cultural nas agremiações. Se hoje a "escola de morro" virou espetáculo internacional para inglês ver, por outro lado o bom crioulo e a linda mulata sambistas estão cada vez mais arroxados para essa lógica de subsistência.

Passistas de escolas de samba. Foto: Montagem SRZD

Explico: a grandiosidade exigida pela escola de samba não vem acompanhando seu investimento na ala de passistas!  Esperam-se grandes apresentações, um padrão "show" para cada apresentação. Os figurinos encarecem; os sapatos dos meninos e das meninas que sambam têm pouca durabilidade pelo desgaste natural da dança e precisam de alto investimento em materiais caros e resistentes ou, pelo menos, substituição frequente. As roupas variam de show para show. O detalhe: dificilmente as escolas bancam essa estrutura. Salvo raríssimas exceções, são os próprios passistas que financiam isso. Muitos deles assalariados, jovens que estudam e trabalham, ou pessoas sem recursos próprios para financiar esse vestuário de vaudeville operístico. Resta-lhes tirar dos próprios recursos dos shows o retorno para investir em tais apresentações. Mas a lógica de escala e convite para esses shows também é dúbia: uns fazem muitos shows, outros fazem nenhum. A escala dificilmente é compreendida, porque há critérios peculiares e controversos na escolha.

Em suma, o que acontece? Temos muitos passistas que estão fora dos desfiles por falta de recursos. Muitos deles são os mais genuínos, os que tiveram infância e o chamado "DNA samba". Em seu lugar, entram os "pedigrees": passistas formados nas academias, bem empregados, com recursos financeiros para "maquiar" a falta de ginga e, indiretamente, "alugarem" suas vagas nas alas.

Alguém precisa dizer e escrever isso para que haja uma profunda reflexão dentro do segmento.

Para efeito de estudo, dentro de meu projeto "Quem És Tu, Passista?", cuja grande colaboração até aqui tem sido fomentar discussões específicas sobre o assunto, fiz uma observação relevante. Apresentei, em um artigo denominado "Construção por Arquétipos nos Passistas Masculinos de Escola de Samba", uma leitura específica da identidade do passista, a ser feita em três diferentes dimensões. A exemplo de uma composição clássica de personagem na técnica teatral, o passista também compõe um personagem para tornar-se sujeito atuante. A leitura da representação dos passistas de escola de samba em três dimensões nos ajuda a entender as esferas de atuação e a diversidade simbólica que eles possuem dentro do grande espetáculo. As três dimensões, a saber:

1. Personagem da escola (caracterização que identifique a escola de samba à qual o passista pertence);
2. Personagem-Indivíduo (caracterização pessoal, única, cotidiana do passista);
3. Personagem do enredo (caracterização temática transitória, intrínseca ao enredo proposto para determinado desfile).

Enquanto "personagem da escola", o passista é uma construção que reúne referências fundamentais da agremiação à qual está vinculado. Fundamentalmente usa as cores do pavilhão, samba conforme a característica de ginga e riscado dos seus antecedentes dentro do panteão daquela escola e segue a linha diretiva de figurinos e, por vezes, "coreografias" que constituem o "padrão" de apresentação daquela escola, submetendo-se a uma direção/coordenação, afinal de contas deverá representar a escola, e não a si mesmo.

Enquanto "personagem-indivíduo", o passista é menos personagem e mais pessoa. Essa leitura aponta para a individualidade, o lado mais "sujeito" do passista, destacado do contexto da escola à qual está ligado. Chamamos atenção para sua forma subjetiva de frequentar o "mundo do samba" ou, sob ótica mais contemporânea, apresentar-se nas redes sociais. O "personagem-indivíduo" faz menos menção à escola do que a si mesmo. Normalmente as cores da escola aparecem como forma de ilustrar o sujeito que ele é, acenando à nossa lembrança onde o vimos anteriormente, sendo que, naquele momento, ele representa a si mesmo, não a escola. Se o "personagem da escola" representa a agremiação, o "personagem-indivíduo" é por ela apresentado.

Por último, o "personagem de enredo" é uma construção temporária, essencialmente teatral, que atende unicamente à necessidade do desfile. O passista pertence a uma ala e deve representar alguma coisa dentro do enredo que a escola apresenta.  Ou seja: é aquilo que sua fantasia vai ilustrar e que ele deverá "interpretar" durante sua passagem na avenida.

A partir de tal leitura tridimensional, pode-se perceber minimamente que duas de suas esferas de atuação dependerão de recursos: a 1ª (quando precisa estar na quadra, fazendo parte das atividades e apresentações dentro da escola) e a 3ª (quando estará na avenida desfilando efetivamente pela escola).

Se hoje a escola de samba caminha para uma via difícil de sobrevivência, no clima hostil de "capitalismo canibal", precisando "virar empresa" e muitas vezes sacrificando suas tradições, a arte dos passistas é algo que merece muito zelo. Corre-se o risco de perdermos esses personagens fundamentais sem sequer se saber. Tenho por certo que essa situação de passistas com dificuldades de se sustentar para sambar está passando desapercebida. Eu não saberia disso se não tivesse um projeto que me condiciona a ouvir e conviver com muitos deles.

Uma dura realidade que está invisível e precisa, urgentemente, ser repensada. Craques saindo de cena, abandonando a ribalta. Não sou favorável a "assalariar" passistas, sinceramente, porque os vejo como componentes da escola, idealistas, não como profissionais. Passista sem alma e paixão é dançarino de gafieira! Na escola, que se dediquem com amor, deixando o cachê para os shows externos. Mas penso que estruturar as alas e dar cobertura aos talentos das comunidades, às escolinhas e, finalmente, prover ou apoiar a feitura de seus figurinos é fundamental para que não se perca os verdadeiros arautos da dança do nosso samba.

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29/06/2014 16h01

Bayano Sapucaí: guerreiro gentil vai deixar saudade
Hélio Ricardo Rainho

Triste. Muito triste. Não é bom amanhecer um domingo com a dor de uma perda latejando no coração. A dor da perda é como uma escola desconexa que atravessa a avenida às avessas. Sem enredo, sem fantasia, sem samba, sem batucada. A dor da perda é um surdo de marcação furado e sem ritmo.

Foto: Acervo pessoalPerde-se um pouco de Bahia no carnaval carioca. Não tinha como não lamentar a morte prematura e surpreendente de uma das pessoas a quem aprendi a considerar e a respeitar dentro do samba. Ousado, irreverente, firme nas opiniões. Muitas vezes desconcertante e exagerado. Intenso no que fazia, no que acreditava, na forma como sambava e vivia.

Perdemos, neste triste dia 28 de junho, o passista da Vila Isabel Bayano Sapucaí.

Não era fácil gostar do Bayano. Mais difícil, ainda, desgostar dele. Polêmico, sem papas na língua, evidenciava suas opiniões de forma muito direta. Tive, a princípio, uma relação indireta e pouco expressiva de amizade com ele, o conhecendo por ser uma figura destacada e já com muitos anos de desfile na avenida. Em dado momento, Bayano procurou-me manifestando admiração por meu projeto "Quem És Tu, Passista" e desferindo algumas críticas severas a muitas coisas que aconteciam dentro do segmento. Por conhecê-lo tão pouco e achar as palavras tão incisivas, julguei-o ofensivo, provocador, deselegante. Pretensioso até. Guardei uma postura indiferente e me mantive distante. Pensei que pudesse ser um agente complicador.
Pois é. A vida surpreende.

Julguei-o mal e precipitadamente. Perfeito não era, como nenhum de nós pode ser. Mas o passar do tempo foi revelando uma pessoa carinhosa, afetiva, dedicada a seu trabalho. Um guerreiro sutil que escolheu sair de sua terra natal para começar uma vida sozinho, com muita luta, preservando seus sonhos e ideais. Esse espírito de luta o fazia repudiar tudo aquilo que ele julgasse contrário à visão de ética e respeito aos outros - o que ele chamava de "pernadas", ou seja, atitudes que, segundo seu juízo, significavam atropelar pessoas em benefício próprio. O meio competitivo e vaidoso do samba lhe trazia essas grandes indignações. Em uma de nossas muitas conversas, assim me revelou o combustível dessas suas constantes indignações:

Foto: Acervo pessoal"Você não sabe o que é ser sambista e ver pessoas ruins tentarem derrubar quem tem talento!"

Compartilhou inúmeros brados de revolta comigo, e passei a melhor compreender os porquês de suas reações. Muitas vezes conversamos e tive a oportunidade de amenizar alguns de seus rompantes. Ele sabia ser feroz, mas também era gentil. Muito! Um guerreiro gentil, apaixonado pelo pequeno Davi, seu filho de 5 anos, a quem ele não esquecia de devotar reiterado carinho o tempo todo.

Sambando, era devotado e sério. Embora acreditando que aquilo não fosse uma profissão, mas tão somente uma paixão ou puramente folia, dedicava-se e tripudiava de quem disputava espaço ou notoriedade no samba.

"A maldade, a inveja e o estrelismo estão acabando com nosso carnaval" - disse-me, certa vez. Ficou registrado. Aprendi muito com ele sobre dobrar a inocência dos sorrisos e interpretar fatos e atitudes por detrás de sorrisos. "As pessoas passam a perna em você rindo pra sua cara! Só o futuro vai te ensinar a descobrir as pessoas"!

Este ano, na cobertura do carnaval, estava na avenida e escolhi um ponto favorável para fazer algumas fotos. Bayano, com uma credencial que o permitia circular em pontos diversos da Sapucaí, me procurou. "Você está bem aí? Essa credencial de imprensa te permite circular onde você quer? Você é um jornalista sério, que luta pelo samba e pelos passistas...eu vou providenciar um colete ou algo mais pra você".

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Não precisava daquilo. Mas pude sentir o zelo, a sinceridade, o jeito de cuidar de amigos e de pessoas de quem a gente gosta de verdade. Fez isso durante todos os dias de cobertura dos desfiles. Ele queria tão somente demonstrar que tinha feito uma amizade.Comentei com algumas pessoas o quanto aquilo me surpreendeu e ajudou a reiterar a nova imagem que passei a ter dele.

Ah, meu amigo Bayano...se soubéssemos o momento certo em que todas as palavras se calam, talvez as disséssemos todas de uma vez, para jamais perdermos a oportunidade. Isto que aqui me resta é apenas uma crônica, e as crônicas não têm o poder de mudar o destino, nem o curso de nossas vidas. Não... as crônicas são apenas um pano mágico que se abre, como palco, para desenhar palavras com artesanato em prol de alguma mensagem.

Meu bom Bayano amigo...a mensagem que eu deixaria a você é de que entendi sua luta, entendi sua pujança! Viveu a vida intensamente, com alegria e clareza. Deixou-nos com saudade num giro de passista, num entrelaçar mágico de pernas que sambam, num riscar de chão que se eleva aos céus e esvai-se no ar...longe de nossos ombros amigos...longe de nossos olhares de admiração.

Vá em paz, passista valente, herói de batalhas...guerreiro gentil!

Que Deus possa conduzi-lo a um destino eterno de descanso e paz! E nos fortaleça - tão tristes que estamos - porque sabemos que a perda faz parte da vida, tanto quanto sabemos que estrelas como você não se perdem...apenas mudam de lugar para luzirem em um novo cantinho do céu!

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