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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Carioca, publicitário, MBA em Marketing, ator, diretor teatral, escritor, pesquisador de escolas de samba, futebol e teatro. Twitter: @hrainho

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



24/04/2016 12h33

Viriato Na Rocinha: Um 'Saçarico' que honra o Samba
Helio Ricardo Rainho

Carnavalesco João Vitor - Foto: Divulgação

Em priscas eras em que os nomes verdadeiros e autênticos do carnaval perderam prestígio e espaço para celebridades inócuas e "alienígenas" da festa que alavancam patrocinadores para serem incensados, veio de la de São Conrado um grito, um alento, um rompante de esperança de que os grandes nomes não serão esquecidos. A Acadêmicos da Rocinha anunciou seu enredo para 2017: "No Saçarico da Marquês, tem mais um freguês: Viriato Ferreira".

Viriato é figura retórica no carnaval carioca. Não pretendo, aqui nesta coluna, estender-me a descrever a grandeza de seu trabalho ímpar de figurinos, uma marca registrada que até hoje persiste em quem desenha fantasias na Portela. O próprio carnavalesco João Vitor Araújo, autor desse belo enredo da Rocinha e também figurinista responsável pelas fantasias da Portela em 2016, admite ter pensado em Viriato o tempo todo para compor o trabalho que lhe rendeu a nota 40 fechada no desfile da Majestade do Samba.

João Vitor é uma das esperanças contidas que todos nós, críticos de carnaval, temos. Nós, que ano após ano nos damos a assistir aos desfiles em busca de algo que seja conceitual e diferente, sabemos o quanto é difícil encontrar. João Vitor é um jovem e irrepreensível esteta, talentoso requintado, que já nos provou sua capacidade para renovar os quadros cada vez mais repetitivos e pouco animadores prometidos pelo carnaval das escolas. Consegue criar fantasias com volumetria e imponência, sem comprometer a leveza necessária para o desfilante. Além disso, tem extremo bom gosto no desenho e na forma, bom uso das cores e inventividade, tornando didáticos todos os desfiles que preparou até hoje.

 Logo Rocinha 2017 - Foto: Divulgação

Lembrar de Viriato Ferreira pode ser um elo perdido para que a escola de samba destitua-se desse discurso pouco convincente de que é necessário se vender a enredos fora de seu epicentro cultural para que possa se colocar na avenida. Já vimos e temos visto muitas escolas com enredos alienados, exaltando nomes distantes do carnaval. Penso que escolher um tema abstrato soa menos ofensivo do que prestar uma homenagem a um personagem equivocado. Quando se erra no tema, é um pecado menor. Quando se erra por enaltecer um nome que ofusca algum baluarte ou personagem legítimo do samba, fica clara a influência do fator financeiro contra as tradições e a cultura da escola de samba.

E essas gerações mais recentes, como ficam? Se não tiverem a oportunidade de reverem Viriato citado e explanado por uma escola da contemporaneidade, perderão a oportunidade de conhecer mais de perto um dos maiores nomes dessa festa, que contribuiu imensamente para que ela se tornasse espetacular em seu sentido artístico. Pois, se foi Joaosinho Trinta quem conferiu a grandeza apoteótica das escolas de samba com sua verticalização dos desfiles em alegorias gigantes na década de 70, foi Viriato - então figurinista de João - quem trabalhou para redimensionar as fantasias, de modo que pudessem acompanhar essa transformação.

Viriato influenciou e tem influenciado uma geração imensa de carnavalescos. É digna e louvável essa homenagem da Rocinha. Que, enfim, parece retomar seu caminho de acerto e capricho, engajando-se na repaginação de seu projeto de carnaval para 2017.

O tema é nobre, o carnavalesco é de excelência, e até a sinopse do estreante no ofício Daniel Targueta apresenta-se, já na prévia, inspiradíssima, emocionante por trazer a figura do próprio Viriato numa narrativa em primeira pessoa.

Aguardemos, pois, o andamento desse passo de ouro já dado pela Acadêmicos da Rocinha para que o Carnaval 2017 tenha a honra de nos trazer um personagem não invasivo, mas com propriedade para ser enredo na avenida.

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17/04/2016 21h07

Passistas do Tuiuti: Beatos, Santinhas e Afirmação do Segmento
Hélio Ricardo Rainho

Diretor Jorge Amarelloh - Foto: Hélio Rainho

A dança dos passistas de escola de samba parece mesmo ter saído do ostracismo a que foi historicamente relegada, conseguindo um plano de destaque. Sempre muito associada a um status de "normalidade", entendida apenas como manifestação "simples" da resposta do corpo às batidas do samba, pouco a pouco vem se afirmando como uma das principais atrações das escolas nas quadras, nos ensaios técnicos, nos eventos de encontros de anfitriãs, na pluralidade de premiações.

Que se pode dizer sobre os movimentos importantes para essa afirmação? O agrupamento dos passistas como um segmento, constituindo alas, foi de grande relevância. Antes dos anos 80, o passista era um elemento "isolado", espalhado pela escola, sendo mais individual e menos coletiva a sua afirmação. A partir do momento em que as "alas de passistas" passaram a ser uma representação em grupo, não apenas individual, ganharam destaque, passaram a ter uma direção. Não apenas uma direção de harmonia, mas uma direção artística. Dentro da lógica dos desfiles, os passistas passaram a encenar/representar elementos do próprio enredo. Essa afirmação artística e técnica dos passistas acabou favorecendo os ares de militância, hoje já bastante fortalecidos. O surgimento dos ensaios técnicos, principalmente, foi fator primordial para a afirmação dos passistas: deu aos diretores e suas alas a possibilidade de terem grande visibilidade e aproveitar essa tela para terem a liberdade de criar suas expressões e performances.

Passista Filipe Fernandes - Foto: Hélio Rainho

Nos ensaios técnicos para o carnaval deste ano, uma ala de passistas, em particular, surpreendeu a toda a audiência. Roubando a cena com sua passagem arrebatadora, a ala de passistas do Paraíso do Tuiuti saiu aclamada da Sapucaí. Na oportunidade, os diretores Alex Coutinho e Jorge Amarelloh caracterizaram seus comandados como "beatos da favela" e "santinhas do pau oco", valendo-se de um contexto do enredo "A Farra do Boi".

Passistas femininas - Foto: Hélio Rainho

O que se pôde perceber na avenida foi que o uso dessa caracterização pelos diretores da ala não se limitou tão somente ao figurino impecável dos passistas. As passistas femininas emprestaram à sua dança provocativa e malemolente de cabrochas do samba o contexto performático do cinismo sensual da personagem que representaram na avenida. E o naipe masculino, em particular, deu um show exuberante: os beatos portavam bengalas, um acessório normalmente utilizado por algumas "linhagens" de passistas malandreados. Apesar disso, em fidelidade ao tipo que estavam representando na avenida, eles em momento algum sambaram como "malandros", mas deram um verdadeiro show de energia e samba no pé, manuseando com incrível destreza e elegância o acessório.

Santinhas do Pau Oco - Foto: Hélio Rainho

Esse registro da dança de passistas masculinos do Paraíso do Tuiuti está diretamente relacionado a uma discussão intrínseca às alas de passistas hoje, que é a questão da apreciação do chamado "samba malandreado". Muitas vezes citado como modelo único, e equivocadamente citado por muitos como a "origem da dança do passista", o "samba malandreado" é uma vertente fortalecida somente nos anos 80, portanto quase 50 anos depois dos primeiros desfiles oficiais. E os passistas tuitienses conseguiram apresentar na avenida, com inegável vibração e virtuosismo, um naipe masculino por excelência sem nenhum meneio malandreado, subvertendo pela primeira vez o uso de bengalas para uma nova leitura artística.

Passista Igor Lima - Foto: Hélio Rainho

Que importância teve, além do brilhantismo de sua apresentação, essa passagem dos passistas do Paraíso do Tuiuti? Se estamos falando em afirmação do segmento, enriquecer o debate sobre as diferentes leituras e manifestações artísticas dos passistas na avenida só vem reiterar e valorizar a classe e a grandeza desses artistas. O passista de escola de samba, personagem afirmativo dos desfiles, mais uma vez se faz prevalecer pela singeleza de sua arte, razão pela qual caminha a passos largos para militar em favor de sua sobrevivência nos desfiles. Não como um elemento primitivo, tribal, místico ou secundário da festa popular, mas como um agente único e e representativo daquilo que se convencionou chamar de "maior espetáculo da Terra".

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12/04/2016 09h12

Portela: amor crônico, crônica de amor!
Hélio Ricardo Rainho

Eu era menino. Bem menino. Tinha 10 anos de idade e costumava passar o carnaval com a família em casa de praia. Mas ainda lembro, porque foi inesquecível. Carnaval de 1980, decidi que queria escolher uma escola pra ser a dona do meu coração.

Queria que fosse azul, porque tinha paixão pelo azul. Esperei o carnaval para ver o que aconteceria. E fui incrivelmente arrebatado de paixão e emoção pela escola de Oswaldo Cruz e Madureira quando aquela águia e aquele circo encantaram uma geração. Lá em Maricá, sem televisão, ouvíamos sobre os desfiles pelo rádio. O cântico "Vem de lá, ô criançada, que hoje tem marmelada, pois o circo já chegou" era a voz da própria Portela me chamando para me envolver naquele azul e renascer de paixão e orgulho!

Foi naquele carnaval que descobri: eu era Filho da Águia, cria do Ninho...a Portela era a escola do meu coração!

Foto: Acervo pessoal

Talvez o leitor se espante: quem pode explicar o que faz a gente amar uma escola? Ah...não se explica! O dia em que houver lógica nos sentidos, matemática nas lágrimas do rosto, regra de três simples no batimento cardíaco, lei da gravidade no arrepiar dos pelos...não haverá mais o amor! Porque o amor é coisa que não se explica; ele nasce de um momento mágico em que a nossa vida tem um encontro devotado com aquilo que se torna parte da gente.

Assim comecei uma história de amor na Portela! Os sambas...ah, os sambas da Portela permearam a minha vida! Depois daquele samba triunfal em que a escola "falava comigo" por causa do circo, estava eu outra vez lá na praia, no carnaval seguinte, ouvindo novamente a Portela a me falar: "O mar (oi, o mar) / Por onde andei mareou (mareou) / Rolou na dança das ondas / No verso do cantador". Mais um ano, 82, e uma frase que até hoje me define: "Eu sou amante / E sou menino sonhador das escolas de samba". Eu crescia e o samba se aproximava do meu corpo. Já ensaiava uns meneios e molejos de samba no pé. Em 83, a Portela cantava: "O rei mandou sambar / o rei mandou vadiar / No carnaval das ilusões".

Foto: Acervo pessoal

E veio 83. Minha casa, onde minha mãe portelense tinha fascínio por Clara Nunes, ficou de luto. A Guerreira passou da vida para a morte e, no dia de seu funeral, fui de braços dados com minha mãe pisar, pela primeira vez, a quadra da Portela. Nunca vi tanta gente em Madureira! Ninguém andava nas ruas! Madureira inteira chorando...o Império Serrano com uma bandeira enorme de luto na porta da quadra. Eu chorava tanto que só enxergava azul. Prometi que aquela dor viraria sofrimento!

Foto: Divulgação RioturOs anos passaram e o meu saudoso mestre Jacyr da Portela me levou para a ala de compositores da escola, onde disputamos alguns sambas. Cresci. Passei a desfilar na extinta Ala do Silencio. Trabalhei no barracão com o carnavalesco Silvio Cunha. Em 1993, desenvolvi o Projeto Clara Nunes para o Museu da Imagem e do Som, com uma exposição de vídeos, fotos e uma peça teatral sobre a vida da cantora, que encerrava com baianas da Portela no palco. Ganhei um título de "Amigo de Clara Nunes" do governo do estado.

A Portela marcou a minha vida. E tem sido assim, também, na vida de uma legião de apaixonados e entusiastas da Majestade dia Samba! Já dizia o poetInha que "beleza é fundamental". É imenso o meu respeito e carinho verdadeiro pela simbologia e pela grandeza de cada escola de samba. Mas peço licença e atrevo-me a dizer: nenhuma é mais bonita, nem mais charmosa que a Portela! Aquela águia na avenida é um orgulho imbatível, um rastro imorredouro de história e legado do samba, um bastião da memória cultural do nosso povo, artifício poético das asas da liberdade do samba diante de todas as amarras de perseguição!

É claro que esse comentário é eivado de paixão. Eu me assumo - e já me assumi - apaixonado pela Portela! Mas não é injusto dizer que essa beleza existe, resiste...permanece 93 anos depois com o mesmo garbo e grandeza que os livros da história registram sobre suas primeiras passagens nas avenidas por onde desfilou!

A Portela é linda! E devo dizer que, ao pisar em tua quadra, minha Portela, o que tu representas para nós, que somos teu povo, supera todas as agruras e tristezas da vida! Teu pavilhão azula nossos sentidos, teu alvo branco pacifica nossas mentes.

Por ti, Majestade do Samba, tantos poetas e artistas passaram: cantadores, passistas, dançarinos do pavilhão, baianas "mães do samba" iluminadas...tuas Dodôs, Docas, Áureas, Suricas, Vilmas, Aldaleas e Nilces...teus Paulos, Candeias, Tijolos, Nocas, Monarcos, Manacéias, Jeronymos e Valcis...todo teu rompante de glórias sobeja e reflete, gloriosamente, um futuro espelhado em teu passado...construído em teu presente!

Somos Portela porque tudo isso já fomos, e porque pra sempre seremos!

Parabéns, Portela, por estes 96 anos!
"Em matéria de samba, o meu sonho de bamba...era mesmo você"!

Foto: Reprodução de Internet

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23/03/2016 19h50

Chão colorido, fogaréu, Semana Santa...e 69 anos do Império Serrano
Hélio Ricardo Rainho

Imagem: ReproduçãoEstes 69 anos de grandeza do Império Serrano me fazem rememorar uma das mais marcantes histórias que sei a seu respeito. No ano de 1988, o Império Serrano havia contratado o então ascendente carnavalesco Oswaldo Jardim, que viria a ser conhecido como "o rei da espuma" pela marca registrada de seus trabalhos ímpares utilizando esse material. Havia uma expectativa sobre o enredo que ele traria para a escola.

- Império Serrano e Portela fecham parceria com 'Projeto Quem És Tu, Passista?'

Em entrevista na Rádio Tropical, o carnavalesco dizia que "o Império não era uma escola para profissional chegar com a presunção de levar enredo". Oswaldinho afirmou que a escola "tinha vida própria" e que seria preciso "pisar sua quadra e olhar sua gente" para "sentir o enredo que o Império pede".

No sábado em que ele seria apresentado na quadra, lá estava eu, ainda menino, para ver de perto como seria aquele laboratório de Oswaldo Jardim na quadra do Reizinho de Madureira. Oswaldo chegou todo de branco, num traje social vistoso, elegantíssimo, muito perfumado. Parecia que era dia de desfile! Os cabelos com gel puxados para trás e os olhos claros reluzindo naquele fundo de roupa branca. Oswaldo caminhava pela quadra lotada por todos os pontos, em todas as direções, no meio de toda gente. Braços cruzados sobre o peito ou nas costas, analisava pessoas, trocava sorrisos, se misturava com a gente simples, passeava ante o busto do poeta Silas de Oliveira. Ele estava "ouvindo" a voz do Império. Dias depois anunciou o belíssimo enredo "Jorge Amado, Axé Brasil".

Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Esse Império Serrano de 69 anos é mesmo uma escola muito peculiar

Seus sambas-enredo são sambas incomuns. Todo mundo sabe e enaltece essa escola por conta de sua excelência nesse quesito. Mas o que há de incomum na excelência que sobeja nos sambas do Império vai além de sua refinada poesia, que já seria motivo de grande galardão. O que sobeja nos sambas do Império Serrano é a sua vocação para cantar a liberdade e a fé!

E por que essa característica distingue o Império Serrano? Não sei, não se sabe, não se explicará. A escola de samba, com sua alma própria, intrínseca, não se dará o luxo de explicar aos outros o que a faz ter esta ou aquela personalidade histórica. A verdade, porém, é que o Império Serrano nasceu de uma dissensão do Prazer da Serrinha, de um anseio de independência e participação conjunta, e foi refletindo isso a cada passo de sua trajetória brilhante. Cantou a liberdade desde o começo, passeou pelos Heróis da Liberdade e chegou até o Eu Quero, grito das Diretas Já ecoando sozinho na Sapucaí. Foi também a única a desafiar a tirania dos jurados com seus versos "sou Império, sou patente, só demente é que não vê".

Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

- Império Serrano: 'Homenagear a escola pelos seus 70 anos é uma possibilidade', diz carnavalesco

A fé também esteve presente nesse Império do Divino. E é curiosa a relação pujante das escolas de samba, filhas do Carnaval pagão e profano, com a religiosidade, sobretudo dos santos católicos. No Império, o que todo mundo diz é que "imperiano de fé não cansa, confia na lança do santo guerreiro". A escola tem verdadeira veneração com o padroeiro São Jorge, o "cavaleiro de Deus". A fé do imperiano vem sendo testada, inclusive, no purgatório em que a escola se encontra, com seus devotos peregrinando por uma Série A onde a escola caiu injustamente e já teve chances de deixar para trás algumas vezes, mas parece enfrentar alguns "dragões da maldade" muito obscuros que o travam - não na jornada da Avenida, mas na floresta sombria dos envelopes de papel dos jurados.

Foto: Diego Mendes/Divulgação

Mas o orgulho, a paixão, a convicção e a grandeza do Império Serrano pouco serão afetados por esses dragões enfurecidos! Nestes 69 anos, lembrar-se-ão do verde esperança de sua bandeira, de sua galeria de poetas do samba, dos estilistas da dança que por tantos anos bailaram com seu divino estandarte ou sambaram no pé como passistas iluminados pelos céus!

"No toque do agogô", "com fé e amor", "cantando em forma de oração"..."avante, imperianos: a luz de Deus iluminou a Serrinha"!

E vai continuar iluminando a vida inteira. Com ou sem detratores, há de prevalecer a sua grandeza acima dos grupos...vai lá na quadra para você ver o orgulho lavado de lágrimas do imperiano a cantar: "pode chegar que aqui tem festa todo mês"!

O porquê não se explica. A semana é santa. E o Império...é "do Divino"!

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Hélio Rainho é padrinho da ala de passistas do Império. Foto: Leandro Andrade/Divulgação

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01/03/2016 08h32

Pra tudo se acabar nos envelopes...
Hélio Ricardo Rainho

Findos os desfiles, todo mundo já sabe: a "justificativa de jurados" vira literatura. Leitura obrigatória para curiosos, entendidos, pesquisadores, jornalistas. A nós, comunicadores e críticos, imediatamente se cobram as análises e opiniões. Abraçamos essa "literatura das justificativas" para entendermos as notas que foram dadas. Vamos a algumas ponderações.

Foto: Reprodução

Antes de mais nada, quero dizer que as justificativas pouco ou nada esclarecem a nenhum de nós. Não quero citar nomes e nem exemplos diretos porque sei que outros textos serão enxertados desses exemplos. Serei mais genérico e abrangente: o carnaval tem muito erro, e não seria eu o ingênuo a acreditar que o erro está só na hora de abrir envelope ou ler justificativa de jurado!

Tem muita coisa que não é entendida. A nota que desqualifica é justificada, mas a nota injusta que acoberta o erro que todo mundo viu "é 10" e não se explica. O samba bom perde décimo e tem justificativa, mas o samba ruim que tira 10 não precisa ser explicado. Naquele 2004 fatídico da Aquarela Brasileira do Império Serrano injustiçada na avenida, as alegorias da escola foram duramente despontuadas frente às outras, mas seu samba único e singular foi igualado aos demais. O critério é burro, afirmo! Às vezes o jurado escreve linhas e mais linhas para apontar um defeito...e só desconta um décimo. Noutras vezes, só vê uma coisinha e tira três décimos. Teve gente reclamando do vermelho e branco do Salgueiro...como se a bandeira e o enredo não justificassem esse uso! As notas de enredo não se atêm ao tema ou ao seu desenvolvimento lógico: avaliam alegorias, fantasias, cores. Alegoria e fantasia não são outro quesito? Algum gênio da lâmpada vai dizer que elas "explicam o enredo". Mas não é nesse quesito que se julgam acabamento ou tamanho delas...será?!

No Grupo Especial, parece pecado tirar mais de dois décimos numa nota. Na Série A, tiram quantos décimos bem entendem. De umas. A outras..."10", "10", "10","10". E já que o 10 não precisa de justificativa...

Sabem por que seguiremos a cada pós-carnaval nessa lenga-lenga de questionar nota e justificativa? Porque esse modelo retrógrado de julgamento favorece a insanidade. É isso! Julgamento de papel e envelope já era! Já disse que estamos no carnaval de Matrix com um sistema de julgamento de Jurassic Park. Até chegarmos a este distante 2016, mudaram tudo na escola de samba. Sacrificaram muitas de nossas ricas tradições. Mas o julgamento é o mesmo de 1935!!! Até escrito a mão essa tralha desse julgamento é! Tudo muito cafona e retrógrado. Quem se beneficia disso?

O jurado talvez não seja o vilão da história. Ele é escolhido, laureado...eleito! É pago pra fazer o que faz. O que o leva a crer que está fazendo bem. Sobretudo quando o patrão não o adverte, não o questiona...e não o demite. Tem jurado aí fazendo a mesma coisa todo ano, de contrato renovado e rindo pra todos nós. A culpa seria mesmo dele? Será que ele ameaça alguém pra estar na função e por isso tem cadeira cativa? Ou será que ele agrada alguém ou a si mesmo - como nas gravações reveladas este ano, onde um deles acabou suspenso por causa da denúncia, mas abriu precedente pra gente perguntar: quantos dos outros poderiam estar no mesmo raciocínio, livres para atuarem equivocadamente, sem serem denunciados?

Considero esse esquema de julgamento, apuração e justificativas falho. Uma baixa literatura, uma matemática equivocada.

E antes que alguém me pergunte: "ô sabichão, e qual seria a melhor forma de julgar, então?"...eu não diria! Primeiro porque não é uma bula de remédio que diagnostica uma doença. Segundo porque ninguém nunca procurou os críticos para saber se podiam ou deveriam ter alterado tantas coisas no carnaval, e mesmo assim alteraram: andamento de samba-enredo, aceleração de bateria, fantasia de destaque em cima de passista, imposição de paradinha em todas as baterias, eliminação da escola que sobe no desfile das campeãs...que mais?!

Independente de ternos ou não termos o novo modelo de julgamento, precisamos admitir que o atual é retrógrado, decadente, falido. As notas de mestre-sala e porta-bandeira, por exemplo, chegam a ser constrangedoras. Nesse quesito eu vou dar exemplo: como pode o casal da Vila Isabel ter arrebatado a avenida e os principais prêmios diante de todo mundo e não ter agradado aos exigentes sábios, que questionaram entrosamento, "sensualidade", um deles advertindo grosseiramente o casal a não dançar individualmente?! Faltou bom senso e até educação. Um outro, julgando o casal da Tijuca, queria que eles dançassem o minueto em vez de quadrilha, na arrogância de querer ensinar ao casal a "origem histórica de sua dança". Totalmente desapropriado o discurso! Dá vergonha ler umas coisas dessas! Eles se orgulham. E têm contrato renovado.

Enfim, eu acredito que é hora de se discutir esse formato de análise de desfiles que hoje vigora na avenida. Caso contrário, a literatura das justificativas só vai comprovar que tem mais Gloria Pires no samba do que na entrega do Oscar.

Tá feio, muito feio. E não combina com a grandeza da festa essa pequeneza de envelope de carta, texto escrito a mão...e justificativa maluca que ninguém mais tem paciência pra engolir!

Chega de envelopes de papel! O de há fumaça, há fogo! É hora de acabar com esse retrocesso!

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24/02/2016 08h28

Alienação cultural e enredos: outra reflexão
Hélio Ricardo Rainho

As massas sempre foram e sempre serão o alvo de manipulação e engodo dos poderosos. Para isso, a política criou o populismo assistencialista e os impérios da comunicação criaram o lixo cultural. Fato óbvio, indiscutível. Qualquer análise com objetos de estudo devidamente depurados vai evidenciar isso.

Acho perfeitamente natural que as massas absorvam (elejam e consumam) o que não presta. Não é por acaso: o lixo político e o lixo cultural foram criados (e só existem) porque foram "geneticamente" programados para esse grupo consumir. Tipo droga: é feita para viciar e aumentar o número de já viciados, esvaziando suas mentes a cada uso. É um produto fabricado sob medida para enganar em massa, seduzir em massa. E é feito com a malícia e o entendimento de saber que tem gente que "adora". Gente que eles subestimam e cativam, estudam e conhecem a fundo para saber como enredar. Uma lógica construída de mentiras validadas por repetição: de tanto você ouvir nas propagandas, acaba acreditando que é bom.

Domingo passado, o Fantástico, da TV Globo, fez uma matéria muito longa sobre um certo "MC" que gravou um vídeo de Xmilhões de curtidas, anunciando isso como um feito de rara grandeza. Um espaço dito nobre da televisão ocupado por uma flatulência (vide dicionário), eu diria. De quebra, a produção do programa imediatamente levou um "sertanejo" para justar-se a ele. O mesmo sertanejo que não consegue trocar três palavras numa canção ou numa entrevista, mas foi sindicalizado à força pela emissora para protagonizar um dos piores programas que ela insiste há anos em manter no ar. Reparem: tudo que a emissora faz sempre precisa ter um sertanejo no meio. Ou um "karakamuleke" qualquer desses da vida.

Foto: Divulgação

Não sabemos como anda a produção intelectual dos grandes compositores, nem revisitam o histórico de nomes da música que apontaram caminhos para este país. Silas de Oliveira comemora seu centenário e não "mereceu" matéria no tal "programa". Por que será que o autor de "Heróis da Liberdade" não merece tamanho espaço na TV que nasceu do conluio com a ditadura???

Entendo que as massas nunca reflitam sobre isso. Isso não aborrece a turma que "só quer se divertir". Já dizia o pensador francês Jean Baudrillard: "as massas querem o espetáculo"! Os poderosos sabem disso e alimentam essa "descontração". Eles apostam seus milhões no espetáculo justamente porque conhecem tudo de quem eles manipulam!

Talvez vocês comecem a entender o porquê das escolas de samba, até então bastiões de resistência cultural de nosso país, serem hoje, em sua maioria, idealizadas por gente que desrespeita as raízes culturais, sociais, processuais e ideológicas das agremiações. Gente que, há dois anos ou três, crucificava os enredos que, para 2017, estão trazendo pra avenida e assinando embaixo. Gente que quer uma crítica de encomenda engarrafada, falando o que eles querem do jeitinho que eles querem. Gente que pensa que crítico é matéria paga; que está ali pra falar o que a assessoria deles divulga, o que eles querem ouvir!

Esses enredos aí que estão assustando todo mundo têm origem em todo esse processo que alguns não enxergam e outros (inclusive intelectuais populistas) defendem dizendo que "é legal". O erro repetido vira verdade. O erro mercadológico dá dinheiro a uns e sugere portas abertas a outros. Todo mundo quer dinheiro e poder. Ninguém é simpático nem popular: isso é outra mentira!

O jogador de futebol alienado e distante da realidade do povo, milionário desde os 19 anos e com formação escolar quase nenhuma, vira parâmetro de qualidade nacional: a "dancinha" que ele fizer num campo europeu vai dizer o que você deve ouvir e até o enredo que você vai escolher para sua escola de samba aqui no Brasil da crise, do mosquito e do arrocho!

Pra quem só tá a fim de curtir um porre na balada, isso é "padrão de vida show"! Pra quem quiser raciocinar minimamente com três neurônios a mais que a maioria, vai ficar muito claro que isso não é espontâneo nem popular...é pura e flagrante manipulação! Não é à toa que vira matéria de 15 minutos em horário "nobre" de televisão.

Como em Matrix, questão de escolher a pílula azul do mundo virtual ou a pílula vermelha do mundo real.

Estamos irremediavelmente entregues à nossa própria sorte. Nosso maior consolo e esperança é que ainda somos nós que escolhemos a pílula. Ainda dá tempo de refletir sobre o lado em que queremos estar...

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18/02/2016 10h28

Enredos 2017: A armadilha vem aí
Hélio Ricardo Rainho

Ainda nem começaram a anunciar os enredos 2017 e a gente já pressente os equívocos e os caminhos fáceis para um pretenso sucesso. Os erros, além de terem por base a teimosia e o comércio vulgar, encontram apupos em sugestões ocas nas redes sociais. Este ano tivemos algumas "coças" e alguns tropeços nessas escolhas. Mas nem assim as lições parecem ter sido aprendidas.

Há um grande oba-oba para que 2017 tenha enredos exaltando personalidades, muito provavelmente num raciocínio curto de que a Mangueira sagrou-se campeã tão somente por causa da Maria Bethânia. A maioria sugere até nomes de cantoras - viva o "caminho fácil"! - como se fosse a solução dos problemas! Tal qual vinha ocorrendo com os "enredos-entidade", a proposta das escolas deixa de ser o desenvolvimento de um projeto de carnaval e passa a ser um oportunismo, um "carnaval de situação". Querem escolher temas "unânimes", que acreditam serem "infalíveis".

Acomodação e covardia.

Enredos alusivos a personalidade, nos anais do samba, só aconteciam para exaltarem literatos ou personagens históricos.

Foto: Reprodução de InternetA partir dos anos 70, com a irreverência de Fernando Pinto exaltando Carmen Miranda no Império Serrano, enredos sobre artistas passaram a ganhar alguma força, consolidando-se principalmente nos anos 80.

Mas há um fato muito relevante que pouca gente reflete acerca do enredo sobre a Pequena Notável naquele longínquo 1972. Vejam bem: Fernando Pinto não fez uma aposta no populismo nem na apelação midiática. Além de ser uma estrela internacional de verdade, e absolutamente ligada ao samba, Carmen Miranda favoreceu a chamada "estética tropicalista" que Fernando queria desenvolver com esse desfile. Ou seja, o carnavalesco tinha elementos estéticos e artísticos para trabalhar seu enredo. Não era uma carona, nem um bote: era o tema ideal para que o artista pudesse exacerbar sua criatividade e desenhar sua arte autoral. Tanto que, a partir dali, consagrou aquela forma de carnavalizar como sua assinatura.

Hoje, qualquer artista de gravadora vira enredo, pois aposta-se na banalidade populista da televisão e dos programas de auditório para incensar gente pouco ou nada ligada ao samba, às escolas de samba. Ou, ainda que tendo esse vínculo, sendo lembrados apenas por oportunismo e situacionismo. No caso dos artistas e personalidades midiáticas que nada têm a ver com o samba, fica o vazio de propriedade e fundamento, com a grandeza da agremiação subordinada a uma figura que em nada a engrandece, onde a escola acaba virando tela e outdoor pra promover um alienígena. No caso dos que têm a ver com o samba, essa "lembrança pela lembrança" não quer dizer nada mais profundo: parece apenas oportunismo, tentativa de se usar o nome de alguém para alavancar um punhadinho de notas num envelope. Sem estética, sem proposição nenhuma. Depois vêm aquelas sinopses cheias de arremedo e costura pra tentar engrossar o caldo fino de quem não dá samba!

A vitória da Mangueira no carnaval 2016 não teve "só" Bethânia. Tá difícil de entender? Será? A Mangueira 2016 teve um carnavalesco consciente, autor de seu próprio enredo (sim, o enredo era dele!), cuja estética ele já tinha na cabeça, como um planejamento artístico de desfile. Leandro Vieira suou e sofreu muito pra fazer, inclusive, a escola acreditar em sua proposição, pois quebrou alguns tabus e mexeu até com o uso das cores verde e rosa pra definir sua estética de trabalho. Não foi um enredo entubado pela escola nem um golpe populista pra arrebatar jurado. Se a escola não sabe fazer planejamento, se o carnavalesco não tem proposta de carnaval e se o homenageado traz dinheiro mas não traz conteúdo (ou, ainda pior, não traz nem uma coisa nem outra), não adianta nada.

As escolas que erraram, as que deixaram a desejar em 2016, não deveriam se ocupar de sugestões sem fundamento em rede social, nem tampouco de raciocínios baseados no lugar comum e no caminho fácil. Os presidentes de escola não deveriam impor seu régio poder pra negociar cegamente e escolher enredo nenhum: deveriam empoderar seus diretores de carnaval e carnavalescos e deixar a comissão competente trabalhar o que lhes é de direito, sem ditar ou apitar nada. Quem entende de carnaval é a direção de carnaval. Se a direção entende menos que o presidente, então tem que mudar tudo, porque aí está tudo errado mesmo!

Vencer carnaval não tem receita de bolo. Além da imprevisibilidade dos jurados e de alguns critérios muito estranhos que permeiam suas notas, é preciso enfrentar os erros com correção, não com apelação.

Ter uma aposta artística e temática que manifeste e respeite a escola de samba é o mínimo que se espera dos envolvidos. Porque é doloroso e também ridículo a gente ver um canhão cultural como a escola de samba muitas vezes municiada com balinha de festim, carregando em seus andores gente que nada fez pelo samba, só porque a televisão coloca o dia inteiro chapado na telinha como "celebridade"...

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11/02/2016 13h15

O Carnaval da transcendência
Hélio Ricardo Rainho

Acabou. Passou muito rápido. Teve uma Mangueira campeã, lavada de alma e emoção, para cantar as cores e louvores de uma abelha rainha mãe da MPB. Uma artista genuína que cantou o samba a vida toda; da Bahia para o mundo, enaltecendo nossa arte, nossa terra, nossa gente. Bethânia é de um tempo em que música boa não comprava gravadora pra fazer monopólio nem colonialismo cultural. Um tempo em que as pessoas admiravam letra e sentimento, não só berro, sofrência e frenesi. A consagração de Bethânia na Mangueira foi tamanha que todo mundo sabia que seus carros apagados poderiam lhe tirar o campeonato, como aconteceu com o Salgueiro. Mas os jurados viram mesmo foi a luz da cantora acesa. A vibe dos jurados não estava em "olhar carros"... estava em "Oyá Bethânia"! A transcendência de um verde e rosa campeão. "Não mexe com ela"...com Bethânia, com Mangueira! E Leandro Vieira entrou, em tempo recorde, para o clã dos campeões do carnaval! 

Foto: Henrique Matos

Uma imagem, no entanto, insiste em não sair de minha cabeça. Aquele Poseidon flutuante da abertura do desfile da Portela era uma metáfora do próprio carnaval. Nele havia transcendência, literatura, mitologia, modernidade, história antiga, impacto visual, emoção. O mover das águas indicava o movimento de uma escola gloriosa que fundamentou tantas coisas nos desfiles, apontando caminhos e gerando, sob a batuta do Paulo criador de mundos, todo princípio de ordenação e encadeamento de sambistas que hoje entendemos como "escola de samba". Paulo da Portela não fundou só a Portela: ele fundou " a escola de samba"! Não esses modelos militaristas que berram samba em vez de cantar, mas o modelo funcional e cooperativo, de sentido conjunto, veio "do mundo que Paulo criou". Poseidon era senhor dos mares e também dos terremotos. Foi ele - aquele Poseidon da Portela - quem mais fez estremecer as arquibancadas e quem lavou a alma de Oswaldo Cruz e Madureira, num desfile feliz. Desculpem-nos os que ignoraram a grandeza de Paulo Barros tentando penalizá-lo por seu ar de poucos amigos: ele se reinventa e se reinventou! É gênio! Casou lindamente com a Portela na avenida! Aposentou a (falsa) literatura que insistia no contrário. E que samba maravilhosamente cantado foi esse da Portela 2016! Anote: nos últimos cinco anos, a Portela cravou 200 pontos no quesito. Cinco anos tirando 10 em samba em todos os jurados!

Foto: Henrique Matos

E havia transcendência, também, nos larôs do Salgueiro! A malandragem histórica e histérica de seu enredo espalhou-se pela avenida. A plástica esteve muito aquém do que Renato Lage sempre demonstrou. A proposta de uma escola mais leve funcionou para a evolução, mas não escondeu um certo acanhamento estético na execução das fantasias e alegorias. Ainda assim, aquela maravilha de samba (eu sempre achei o melhor samba de empolgação do ano) fez a festa de quem queria sambar na avenida. Mas os mesmos jurados que fecharam os olhos pros apagões mangueirenses deram a rasteira matemática do ano na Academia do Samba: num só quesito a tombaram de primeira pra quarta colocada. "Gira sorte, gira mundo"...mas nunca esqueceremos o ano lindo do Salgueiro sacudindo o samba com sua malandragem sensacional! A fabulosa ala de passistas do Salgueiro que o diga!

Foto: Henrique Matos

Vejam só: a ressureição das matriarcas! Como nos tempos antigos, as "grandes" disputando com força o carnaval. 

Foto: Henrique Matos

Na Série A, a única escola que cantou o samba e seus valores numa avenida que ignorou o tema deu um banho de emoção, mais uma vez. O Império Serrano, a quarta matriarca, deslanchou verdade e propriedade na avenida: trouxe o poeta, trouxe a Serrinha, trouxe os serranos. Era também favorita. "É um encanto a tua história", Império de Silas! Que escola é essa, seu Severo Luzardo, seu Paulo Santi, Dona Vera, baianas, velha guarda, passistas?! Avassaladora! Lágrimas poéticas em forma de samba! E mais uma vez as notas daquele grupo foram descaradamente acintosas na cara de quem pôde ver. Umas discrepâncias incompreensíveis. A Unidos de Padre Miguel denunciou todas a mazelas da corte safada do Brasil de ontem e hoje. A Viradouro, com seu samba colossal, num desfile rasgado também de emoção. E os maravilhosos bois da Tuiuti, embalados por um samba maravilhoso, foram gloriosos e campeões. Veio também da Tuiuti a ala de passistas mais animadora do ano, uma das melhores coisas que 2016 nos revelou! Alex Coutinho e Jorge Amarelloh são os "leandros vieira" do segmento! Grata revelação!

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

E ainda tivemos uma Vila Isabel gloriosa, arquitetada na plástica exuberante desse grandioso artista que é Alex de Souza, capaz de imagens lindas e enredos mágicos. Me declaro publicamente fã de Alex. "Silenciar, jamais": o puxão de orelha vai para um peso muito grande nas fantasias. A Vila do casal de mestre-sala e porta-bandeira mais arrebatador do ano. Phelipe Lemos e Dandara Ventapane não pareciam de verdade. Pareciam faunos dançantes, entes encantados! Pura transcendência também! Eu ficaria vendo eles dançar a vida inteira sem jamais me cansar. Definitivamente eu quebro o protocolo e afirmo: tem jurado que não sabe julgar! Desculpem o soco direto de esquerda. É muita burrice tirar ponto de um casal que dança assim. Ofendi?! Foi mal: engulam! Eu também engoli as notas mentirosas que tentaram negar o que vi na minha cara! Injustiça feia! Parabéns, Vila Isabel dos passistas mais felizes que vi no grupo Especial! Mestre Edson Cunha e Claudia Choocolatte arrasando!

Foto: Henrique Matos

Beija-Flor de Selminha e Claudinho trabalhada no ouro, desenvolveu belamente seu enredo, mas não foi entendida. Cassio Dias, monumento de Nilópolis fechando um desfile, é consagrador. Mas não se põe uma lanterna debaixo da mesa: eu ostentaria com orgulho um artista desses num belo lugar de destaque da minha escola.

Sertanejos e jogadores de futebol não deram tom. A pedra que este colunista cantou. O belo samba de Zé Catimba não fez o mesmo efeito na avenida, porque o esforço do nobre poeta não pareceu suficiente pra fazer sambista cantar um tema tão distante. Digno desfile, mas sem a empatia que a popularidade dos sertanejos julgava ser possível alcançar. O "enredo pet" da Caprichosos, desastroso desde a sinopse, serviu pra mostrar que Petkovic não tem moral pra abrir enredo contando pra ninguém quem foi Tia Ciata coisa nenhuma! E que ele também não tem dinheiro pra sustentar enredo self-promotion. Deu tudo errado e a escola foi parar no limbo da Intendentes. Fiquei arrasado, confesso. Por que as pessoas das escolas de samba defendem o erro com tanta convicção? Grande Rio, pra mim, estava linda e foi a que melhor resolveu o laço que armou pra si mesma. Extraordinariamente talentoso, Fábio Ricardo fez das tripas um bom desfile, apesar da "con+fusão" de ideias do papel. Manteve-se uma boa linha de desenvolvimento, e aquela comissão de frente do Pelezinho passista nunca mais me sairá da cabeça. Uma possante bateria que ressuscitou o que seria o pior samba do Especial: agora eu gosto e até canto (confissão do colunista). "Santos conquistou meu coração"! Juro!

Foto: Henrique Matos

Papo extenso, muita coisa pra contar. Pra encerrar, uma dor que eu tenho no peito: que há com você, "Mocidade querida", de Padre Miguel e de todos nós? O que falta pra você dar certo outra vez? Será que é se livrar de tanta mídia e dar o estrelato ao povo da zona oeste? Será que é trabalhar com mais silêncio e menos oba-oba? Será que é parar de explanar publicamente seus problemas e lavar a roupa suja em casa? Que carinho inexplicável eu tenho por essa escola...juro! "Ainda é tempo, não há de faltar bravura"...

Foto: Henrique Matos

Volto ao Poseidon. À Águia que atravessa o mar, ao gigante Gulliver que se ergueu na avenida. E àquela alegoria futurista com a Velha Guarda numa águia versão jato-concorde-avião metaforicamente afirmando que, na escola de samba, é a tradição quem aponta o caminho do futuro.

Entenda: isso é pura transcendência!

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04/02/2016 08h13

O Carnaval 'pensado'
Hélio Ricardo Rainho

Estamos a poucas horas do carnaval e talvez não queiramos "pensar" a escola de samba. 

Sim, talvez não queiramos "pensar" - assim, entre aspas mesmo - porque estejamos mais acostumados ao fluxo corrente de ano após ano, sem nos darmos o trabalho de questionar se tudo isso que estamos fazendo é ou não é escola de samba de verdade.

E talvez não queiramos porque, nesta nossa lógica cruel de empreendedorismo e produtividade, a escola de samba tenha se tornado uma fábrica, uma esfera de produção em larga escala, uma ode à era da reprodutibilidade técnica.

Não queremos "pensar" a escola de samba, porque estamos muito preocupados com a mídia que nos divulga e nos valoriza; com as notas encarceradas dos jurados sentenciadores; com a verba pública que calou a nossa boca na hora de berrar verdades contra elementos escusos da politiquice nacional; com as quadras tomadas pelos sambas de "condomínio empresarial S.A." - "super-anátemas" da liberdade poética de outrora, "escondendo gente bamba...que covardia!". Criaram um modelo frankensteiniano de remendos e colagens, e querem apregoá-lo aos críticos com a mesma persuasão com que já o introjetaram no próprio sambista.

Estamos arregimentados com as "críticas construtivas", banindo qualquer forma de reflexão sobre as inverdades do samba, com medo que que nosso olhar mais apurado possa parecer "pessimismo", "má vontade", "má intenção". Os "gigantes" do sistema coagem e coíbem toda crítica: eles vêm a público pra dizer que têm o melhor samba, o melhor enredo, o melhor carnavalesco, a melhor bateria...cada um boiando em sua poça rasa de jactância, achando que está submerso no oceano da sabedoria.

Foto: SRZD e Reprodução

E mais e mais pajens reverenciando os mesmos falsos deuses em busca de algum Olimpo que os acolha...batendo palminha, se curvando, reverenciando...enviando currículo! Fazer o jogo é a única esperança de se ganhar o jogo.

O grande espetáculo no qual se desenharam os desfiles passou a ser entendido como uma engenharia fria e maquínica, de relações frias e impessoais. As quadras trancafiadas, seus ensaios exaustivos e desgastantes obrigando gente bamba a berrar o samba outrora cantado; a lógica dos diretores de harmonia que se multiplicam como barreiras humanas na avenida ou dos que vibram entre si a esmo, enquanto as alas nada cantam ou apenas marcham, são coisas que saltam aos nossos olhos. Um...dois...três...mil intérpretes: a escola de samba não tem mais uma voz própria, é a voz de várias vozes, e a gente não mais identifica quem fala ou quem está falando.

Carnavalescos vaidosos lançarão sobre os passistas suas fantasias de caxangá, aberrações ultrapesadas que impedem o samba no pé de maneira burra e notória, porém convicta e irresoluta! Passam os anos e os carnavalescos desaprendem cada vez mais sobre o traje que facilita a graciosidade do passista! Teimosia ou retaliação?!

Teremos, sim, a mesma magia e o mesmo encanto que ainda nos será sempre possível, graças às mentes criativas de nossos carnavalescos, à poesia sem fim de nossas baianas girando, ao samba no pé gracioso e verdadeiro de nossos passistas, à pulsação extasiante de nossos ritmistas, ao bailado mágico e reverente do casal diante do pavilhão.

E, ao terminarmos o nosso desfile, sairemos enfileirados naquele mar de grades opressoras que mais parecem corredores de concentração nazista: o sambista é protagonista do "maior espetáculo da Terra", dá audiência na televisão e dinheiro no bolso de muitas pessoas, mas se retira da avenida quase vomitado, escorraçado! Da Apoteose pra trás, quem nunca desfilou não sabe: as saídas e caminhos da avenida parecem um deslanche de navio negreiro desovando escravos espremidos entre gente, paredes, concreto e ferro, com gritos e destrato, e nenhuma segurança, a quem acabou de desfilar. O desfile de escolas de samba é o único espetáculo do mundo onde o artista principal tem um camarim que o esmaga!

Mas vamos que vamos...que é tempo de jogar confete e serpentina, e é proibido refletir, analisar, falar diferente, temer o julgamento de envelopes de papel (volto a dizer: mudaram tudo na escola de samba, mas ainda a julgam como em 1935!!!).

Bonitos, bem-vistos e benquistos são aqueles que nada críticam; "os bons" alimentam a alienação, batem palminha e aprovam tudo. E ainda dizem: "Não tá satisfeito?! Sai da cobertura de carnaval!" Esses terão espaço em todas as mídias, em todas as empresas de comunicação...uau! Serão "queridinhos" de todos, e vão justificar qualquer enredo "com tanto que o samba seja bom"!

Dentre os críticos de escolas de samba, esses serão sempre "os reis"!

Desculpem...prefiro continuar só "Rainho"! Só eu mesmo: um confete perdido nesse chão que todo mundo pisa sem olhar, sem dó nem pena, chamado "chão de escola de samba".

Bem...um bom carnaval pra todo mundo que ainda ama Silas, Candeia, Clementina, Noel, Cartola e Ismael!

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19/01/2016 08h58

Passista: É teu dia, é tua vez!
Hélio Ricardo Rainho

Um dia o samba fluiu do batuque, como as águas fluem de uma fonte, e chamou o corpo para sambar. Para alguns, foi um chamado auditivo: a mente captou a canção e respondeu com letra, poesia, melodia. Para outros, foi apenas convite: indução ao gosto musical, ao balanço, ao encanto do gênero.

Mas havia uma raça especial. Uma raça cuja musicalidade do batuque provocaria uma força diferente. Gestação, magia, encanto, transmutação. Uma raça dotada de algum estranho privilégio místico ou mental, físico ou espacial...uma raça estranha que transformaria as vibrações e rufares em uma sinuosidade do corpo; em meneios, em viravoltas e requebros; em molejo incomum de pernas rápidas e saltos; em sorrisos inexplicáveis de prazer; vida e morte assim conjugadas: viver e morrer por esse ofício!

Fotos: JM Arruda

E veio, assim, o PASSISTA!

O passista não tem com o samba a mesma relação que os demais. O passista tem com o samba uma estranha fusão de preceitos: ele gera e é gerado pelo samba! Da mesma forma que o samba é o oxigênio que o passista respira, ele também passa pela alma desse artista para sair transformado e reprocessado. O passista é mesmo a artéria do samba: é o único elemento da escola de samba por quem o samba atravessa, vai ao avesso, passa por dentro, revira a alma e sacode o corpo.

O transe do passista é transeunte: passeia no corpo e vagueia na estrada da alma. O passista, quando fecha os olhos, enxerga o samba. Porque consegue ver dentro de si aquilo que, por fora, a nós parece puro êxtase e estado de pura arte!

Foto: JM Arruda

O passista manifesta, na dança, a fisicalidade do samba: ele desenha, com os volteios do corpo, as notas musicais que a batucada lança ao ar. É um alquimista dos tambores: ele transubstancia a música e é capaz de criar o ouro. Hoje, 19 de Janeiro, é Dia do Passista. É um artista afirmativo, genuinamente brasileiro, de uma arte intuitiva cuja técnica brota da alma, dos sentidos da paixão. Um artista que se faz sozinho, mas que empresta brilho e grandeza sem par ao maior espetáculo da Terra. Deve ser mesmo muito controverso, porque sua grandeza ainda não foi devidamente compreendida. Para isso, vêm sendo testadas sua glória e sua grandeza: ele se impõe e se afirma, se arregimenta e se glorifica em seu ofício.

Queremos saudar a todos os passistas de escola de samba que, não apenas neste dia, vêm lutando para pagarem suas roupas, frequentarem seus ensaios, beberem sua água, tomarem o seu lanche. Porque nem tudo, na vida do passista, é poesia: há muita dor, sangue e sofrimento que permeiam sua caminhada. Uma Via Crucis que o fere e macula, mas também o faz renascer a cada manhã com uma nova disposição para encher de graça não só a avenida, mas também um pouco de cada vida que contempla sua grandiosidade.

Parabéns, Passista! Hoje o dia há de ser teu!

Foto: JM Arruda

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23/12/2015 09h04

Para se entender o passista neste século XXI
Hélio Ricardo Rainho

O SRZD saiu na frente mais uma vez! Tivemos o cuidado de analisar criticamente um dos segmentos mais representativos da escola de samba: as alas de passistas. A ideia era dar visibilidade e apontar a diversidade artística que essas alas possuem. Assim como as baterias, passista não é "tudo igual". Existem elementos que norteiam a identidade de uma escola e proposições de trabalho diferentes.

Os vídeos com as análises técnicas contaram com dois luxuosos protagonistas: Aldione Senna, baluarte dessa segmento; e Fábio Batista, um dos mais renomados e respeitados passistas e estudiosos do assunto.
Passaram apenas seis escolas pela avenida em seus ensaios técnicos, mas já pudemos observar algumas coisas. Ponderações que podem nortear tanto a atividade dos passistas quanto o entendimento de quem os assiste. Observações que farão parte dos fóruns do projeto "Quem És Tu, Passista?", que venho desenvolvendo há alguns anos.

- A ala de passistas, é óbvio, precisa sambar. Pode ter sua marcação, sua coreografia em dado momento do samba, alguma ilustração performática do enredo...mas não pode jamais se omitir de sambar. É o samba no pé que caracteriza e difere o passista de todos os demais componentes de uma escola.
É primeiro fundamento, sempre;

Foto: JM Arruda

- Estamos no século XXI. Lutamos pelas tradições e pela preservação dos legados do samba, sim. Mas não dá pra ficar encarquilhados se espelhando nas fotos dos jornais antigos, brincando de "túnel do tempo". Mudou. E "quem não muda, não dá muda"! Cada ala que passou na avenida, a seu jeito, até aqui, mostrou seriedade e comprometimento com o que está fazendo. Umas acertando mais, outras ganhando experiência, mas todo mundo fazendo seu trabalho com olhos para uma apresentação a um grande público. As alas de Estácio e Mangueira, que puxaram um estilo bem tradicional, foram exuberantes em virtudes de samba no pé e figurino. Quem não ousa no conceito, ousa na performance. Trouxeram seus melhores passistas. São alas que parecem ter clima respeitoso, fidelizando seu elenco. Isso é muito importante. Ala com muito entra-e-sai sugere algum problema na gestão de pessoas. Estado crítico, porque família não vive perdendo filhos nem os lançando ao vento;

Foto: Hélio Ricardo Rainho

- A redefinição do papel dos coordenadores/diretores de ala no século XXI é clara. Quem comanda, tem que apresentar serviço. Sonhar com passistas espalhados pela escola virou anacronismo: a dinâmica dos desfiles não permite essa borrifação de passistas dançando separados. Saudosismos à parte, nenhum de nós vai mudar o carnaval com esse purismo. E é possível fazer um belo espetáculo com os passistas numa ala compacta e harmoniosa. É aí que se precisa entender a função contemporânea de um líder de ala de passistas.

O coordenador/diretor de passistas do século XXI é um diretor cênico, que precisa ter noção estética e visão de distribuição dos passistas (na avenida, no palco, na quadra), definição de figurino, visão de comunicação de seu trabalho com a audiência (aquilo que Fábio Batista chama de "desfile lateral", com os passistas dialogando na dança com quem assiste, não só "caminhando frontalmente"). Percebemos claramente que as fórmulas do passado não funcionam se não forem adaptadas à realidade atual. Tradição não é teimosia; legado não pode ser desculpa para estagnação. Exemplo de grandeza fundindo tradição e modernidade: Valci Pelé inaugurando passistas pandeiristas para a avenida em 2016. A Portela é um grande exemplo de como passistas podem ser técnicos, tradicionais e dialogarem com inovações. Ser uma ala tradicional não estagnou nem deve ser desculpa para estagnar o trabalho de ninguém;

Foto: JM Arruda

- Outro tema polêmico: "formar passistas". Ao que nos parece, essa argumentação muitas vezes procura sustentar um discurso de afirmação mais pessoal do que produtivo. O que seria "formar um passista"? Fazer um convite a um estranho que "samba bem" pra estrear numa ala é "formar um passista"?! Dar um curso, abrir audições, ter um projeto...o que é, efetivamente, "formar um passista"?!

Penso que temos inúmeras formas de fazê-lo. E - discutam-se os meios e os fins pra se chegar lá - temos visto com muita propriedade gente tarimbada e gente nova investindo na formação de novos passistas. A história mais bonita que ouvimos este ano foi de Pedro Telles, da Rocinha. Um jovem que chegou a uma escola de samba para dirigir passistas e tinha apenas...três! Que fez Pedro?! Mudou-se de São Gonçalo pra Rocinha, fez um projeto dentro da comunidade, procurou gente até na praia de São Conrado (perto da Rocinha) para formar um cast com 35 meninas e 15 meninos. Ele reconhece que ainda precisa burilar esse grupo, mas já tem 50 passistas legitimamente formados e saídos de dentro da comunidade pra sambar pela escola. Linda história de devoção e empenho! Pedro é muito jovem: não precisou ter muitos anos de avenida para arregaçar as mangas e produzir. Ele tem o que apresentar, é humilde e emocionou a avenida com seu trabalho. Kaio Mackenzie fez trabalho parecido recuperando passistas da Acadêmicos do Engenho da Rainha. Do jeito deles, estão apresentando trabalho e isso é exemplo de liderança;

Foto: JM Arruda

- Mais uma questão polêmica: "passista masculino samba como?". A resposta mais objetiva é: se é intitulado "masculino", se escolheu dançar com o figurino masculino, deve dançar como tal. Talvez as pessoas só venham a se dar conta de como o gestual invertido é estranho quando aparecer, na avenida, uma passista escultural, de biquini, com trejeitos exageradamente másculos...

Independente da questão sexual, porque dançar não é prática sexual nem ato libidinoso. Misturar as duas coisas numa só discussão é um exagero. As alas apresentam-se com a diversidade da dança feminina e masculina. Cada um deve guardar seu papel e cabe a quem dirige também nortear os parâmetros. Descaracterizar isso é dar murro em ponta de faca: a feminilidade nas alas masculinas é veementemente rejeitada pela maioria dos críticos. Ah: e não dá prêmio a ninguém!

Foto: JM Arruda

- É bom lembrar que a fusão do passista com o chamado "samba malandreado" não é uma tradição antiga, mas contemporânea. Foi a partir dos anos 80 que as alas passaram a trajar seus passistas de terno e chapéu panamá para, segundo depoimentos, "forçarem a postura masculina" em uma época onde, com o configuração dos passistas em alas, o masculino passou a dançar sem precisar cortejar o feminino, o que atraiu muitos afeminados para as alas, gerando uma "necessidade de distinção";

- De bom tom: a visão crítica de que o passista masculino não deve sambar como mulher não dá o direito a ninguém de ser preconceituoso, homofóbico ou discriminativo. Análise crítica é uma coisa, crime é outra! Tem gente escondendo uma coisa sob outra. Melhor moderar. Vamos respeitar a figura humana que está ali, se esforça, tem gastos pessoais, ama uma escola. Orientar não é agredir;

Foto: JM Arruda

- Isso também diz respeito a comentários sobre figurinos simples ou requintados usados pelas alas de passistas. É bom reforçar a generosidade, o respeito e a humildade nos comentários. Estranho precisar dizer isso, porque o carnaval e a escola de samba não são lugares de pessoas abastadas nem de origem nobre. O que nem assim justificaria certas alfinetadas ou intolerâncias. Escola que pode, compra sapato caro, faz terno caro, usa brocado e pedraria. Mas respeita o figurino do outro, que corresponde muitas vezes a meio prato de comida de quem está usando;

Foto: JM Arruda

- Prêmio é coisa que se ganha, não se reivindica. Elogio é coisa que se recebe, não se autoproclama. Uma ala de passistas não desfila pra "provar alguma coisa a alguém": desfila porque precisa defender e afirmar a dança do samba, a tradição do segmento. A dança do passista é a paixão de quem samba no pé. Ponto. Se vai ser premiado ou não, é outra coisa.
Talvez estejamos numa curva filosófica da compreensão de nossos saberes e referências da arte dos passistas nas escolas de samba. A intertextualidade, o diálogo com modalidades cênicas e performáticas e a concepção de um corpo artístico sob a direção de especialistas são desafios que nos sugerem, pouco a pouco, uma necessidade de estudar e melhor compreender a passagem do passista do século passado para o passista deste século XXI.

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17/12/2015 19h32

Carnaval 2016: transmissão atravessada!
Hélio Ricardo Rainho

Ontem ensaiei com a minha Portela, quadra lotada, povo em festa, e a alegria estendeu-se das 23h em que o ensaio terminou até mais de duas da manhã no barzinho da rua Clara Nunes. Povo orgulhoso, inebriado, fascinado, feliz. O intérprete Wantuir e o compositor Samir Trindade não resistiram e juntaram-se aos inúmeros portelenses que cantavam sem parar, nas mesas do bar, o belo samba da escola. Paixão. Emoção. Cultura popular. Rito.

Senhores leitores do SRZD, ninguém vos engane! Esse meu exemplo da noite de ontem não sensibiliza e nunca vai sensibilizar ou ter qualquer relevância para os cavalheiros de raciocínio turvo e cartesiano que programam a transmissão dos desfiles de escola de samba nas salas frias das empresas de comunicação. Em seus féretros e câmaras mortuárias de radiodifusão, os números e a quantificação de pontinhos de audiência constituem o valor acima de todos os demais valores!

Tivemos a notícia de que, para sustentar sua programação no ar, a televisão decidiu cortar as duas primeiras escolas de cada dia de transmissão do carnaval 2016. Nessa tacada, baniram Estácio, Salgueiro, Vila e Isabel e União da Ilha das transmissões! Virarão "compactos" não mais em tempo real! Eis a crônica de uma morte anunciada...

Mas o que é que está morrendo, afinal? A escola de samba ou a televisão? Vamos por partes...como aconselham os canibais!!!

Foto: Reprodução de Internet

Bombardeada pela pluralização das mídias e das plataformas de comunicação, pouco a pouco a televisão foi perdendo seu encanto e credibilidade. Perdeu parte de seu poder de mobilização, porque não podia mais mentir nem manipular milhões de pessoas com celular na palma da mão, conectadas com tudo e com todos ao mesmo tempo, tirando a limpo as mentiras que antigamente eram despejadas sem contraprova. Os produtos televisivos ficaram pobres. A audiência pulverizou. O público foi abandonando as audiências absolutas e os pontinhos mínimos passaram a ser mendigados a pão e água. Trabalhei 21 anos em televisão e vi esse castelo ruir. Acredite, leitor: o seu perfil de rede social passou a ser uma potencial ameaça a todo jogo que a televisão sempre fez! A velocidade de sua resposta é, hoje, maior que a do poderoso veículo que outrora nos dominava. Após a perda de poder, veio a de qualidade.

A cobertura pífia e esdrúxula do carnaval na TV - decrépita e maquiada de "moderninha", como toda sua programação no geral - atenta para um doente que agoniza. Sem um médico capaz de curá-la, resolve sacrificar...o paciente! Cortaram as escolas porque perderam audiência! Tiraram do público o que o público "já não via". Em vez de assumirem a fraqueza e o despreparo para o trabalho, escolheram o corte! Estão admitindo publicamente que não sabem fazer, não sabem levantar o que caiu, não conseguem se repensar! Vão tentar fazer isso esticando os programas anteriores ao desfile para "evitar o tombo" de novo. É uma derrota histórica cujo preço quem paga é o telespectador!

E a escola de samba, como fica?! Veio da Serrinha (como sempre, a louvável coragem histórica do Império Serrano!!!) a frase que me inspira pra explicar essa omissão histórica. Disse-me o menino de ouro dos passistas, Gabriel Castro: "Há tempos que vendemos barato o nosso suor na avenida"! É isso! A escola de samba sai desbaratada atrás do caça-níqueis dos poderosos, e cala suas verdades históricas para dar vez e lugar à subserviência e à cabeça baixa diante de quem a financia.

Quando o crítico fala de colonialismo cultural, acham-no radical e perseguidor! Quando o crítico denuncia um imperialismo de cartéis da subcultura televisiva enfiando garganta abaixo o lixo cultural do país em repetição massiva de forma a legitimá-lo sob a mentira de que é "expressão do povo", acham que é síndrome de perseguição. Este ano tivemos uma Velha Guarda vaiada numa quadra de escola de samba, tivemos enredos alienígenas e outros de vertentes que sabidamente baniram o samba das gravadoras e das rádios. Teve gente alugando escola para fazer enredo que, pelo que andei sabendo, vai pagar uma pindaíba e deixou a escola no maior fiasco. Para dar linha a essa tralha, a escola de samba fica calada, aceita tudo, não fala mal de governo para não perder edital, não fala mal de emissoras para não perder matéria.

Coleguinhas de imprensa fazem o mesmo jogo: estão sonhando com matérias sobre eles ou com mercado de trabalho sob as rédeas de quem despreza a cultura popular. Calam-se e tentam calar os outros! Estão cativos sob mordaça e acham que todo mundo tem rabo preso também. Querem apostar quanto? Ano que vem, essa safadeza vira enredo! E se o samba for bonito..."pronto"..."estamos vingados"..."mostramos que estávamos no caminho certo"! Porque esse é o discurso: errar, mas "fazer bonito"! Assim, a escola de samba engole seco, vomita, derrapa no vômito... e faz de conta que pode sair limpinha do tombo!

"Ora, quem essa crioulada pensa que é para querer fazer o maior espetáculo da Terra???" Pois é...até parece que quem entende de samba são eles!!!

Estamos fartos do conluio entre os poderosos e os que os legitimam! Não vá você achar que isso é apenas uma questão de uma "emissora feudal", não: tem também uma concessão sorridente e cúmplice da própria Escola de Samba - assim, maiúscula - como uma "escrava voluntária" que escolheu ir para o tronco por dinheiro e afagos de quem a molesta!

Se, para essa gente, um Salgueiro poderoso, um Estácio histórico, uma Vila Isabel grandiosa e uma União da Ilha iluminada não representam nada...que rompam os laços entre as partes e exija-se distância onde não houve respeito!

Mas não se surpreendam se, nos próximos anos, a televisão exigir que TODAS as escolas façam os enredos que ela quiser, talvez homenageando os pseudoartistas de alguma gravadora ou de seus infames reality "shows de horrores" de patrocínios milionários. Como eu já disse, se tiverem "um samba bonito", "uma sinopse bonita" e "uma plástica bonita", poderão endeusar quaisquer atrocidades em desprezo às verdades do próprio samba...todo mundo baterá palminha e ninguém criticará ninguém.

E isso só acontece porque cada rato, em sua miserável toquinha, está sempre esperando a vez de beliscar seu queijinho tão querido...

Um dia, Mestre Candeia, as ratoeiras hão de caçar todos os ratos! Ratos que não batucam, não tocam instrumento, não sambam no pé, não fazem e não sabem fazer NADA! Para orgulho de nosso Quilombo...para que nos venha Um Dia de Graça!!!

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Leia mais sobre o assunto:

- Desfiles da Estácio, Vila, Ilha e Salgueiro não serão transmitidos na TV

- Medo? Sobre a não transmissão: escolas evitam falar sobre o assunto

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23/11/2015 22h35

Escolas de samba: medo ou prazer em ser espetáculo?
Hélio Ricardo Rainho

Estamos vivendo um anacronismo e uma dualidade. Nunca antes as escolas de samba precisaram tanto quanto agora redefinir e reafirmar seus papéis dentro do cenário em que estão. Precisam, mais do que nunca, consolidar seu lugar na história e enfrentar seu dilema de serem modernas ou tradicionais.

Desfile Império de Casa Verde. Foto: Reprodução de TV

Historicamente, o tradicionalismo assegurou a pole position das então chamadas "quatro grandes" - Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro. Com o passar dos anos, surgiram as "grandes novatas" - Mocidade, Imperatriz, Beija-Flor - impondo novos conceitos e quebrando a hegemonia. Desde então, pairou sobre o Carnaval da disputa o seguinte dilema: o que é mais importante no samba - inovar ou manter a tradição?

Até hoje essa resposta não veio. Há alguns grupos com pensamento um tanto quanto extremista que impedem a resposta mais equilibrada e sensata para essa pergunta.

Há os puristas que afirmam refutar todo tipo de inovação, preservando - "em nome da tradição" - o conservadorismo e o retrógrado dentro das quadras e na Avenida. Na maioria das vezes, constituem um grupo que não se adaptou ou não se engajou às mudanças. Confundem sentir-se ultrapassados com sentirem-se ultrajados: ofendem-se gratuitamente com os que andam pra frente e acabam também os ofendendo gratuitamente. Atacam achando que se defendem. É uma tentativa sutil de aplacar seu sentimento de inferioridade. Por vezes, estão forçando um anacronismo para fazerem prevalecer seu conhecimento sobre os demais: impor a cultura do passado passa a ser, para eles, causar cegueira aos do presente. Se só os puristas viveram o passado, só eles sabem o que é escola de samba, e os demais devem se submeter a tudo o que eles ensinam. Ao contrário dos baluartes, que detêm o passado e vislumbram o futuro, os puristas não fazem discípulos: fazem subalternos! "Não gostou? Sai!" - é seu lema. "Estou aqui há XX anos!" - é seu brado mais comum, enfatizando as duas casas decimais de sua existência no terreiro.

Há o ranço intelectual - esse travestido de algo garboso e engajado - que situa a escola de samba no limbo entre o tribal e o primitivo, impedindo-lhe o avanço devido a todo e qualquer fenômeno cultural cujo mote é justamente a dinâmica criativa. Os intelectuais do ranço jamais vão admitir artistas nesse espetáculo: eles vão tratá-los sempre como "indivíduos" dessa "manifestação cultural". Tratam o sambista sempre como um "maravilhoso exótico". Essa linha prevê uma escola de samba futura cada vez mais "passadista", apregoando que todo passo em direção ao "espetáculo" é temível e refutável. Para esses, escola de samba modernizada parece "indío de calça jeans". Eles nao querem saber se o índio, afinal de contas, quer ou não a calça jeans: eles decidiram que a escola de samba não pode deixar de ser tribal...e ponto final! Para eles, termos como "artista" ou "espetáculo" são verdadeiras ofensas: eles ainda concebem o desfile como algo "antropológico" no pior sentido - aquele que limita o objeto de estudo ao que o estudioso quer que seja para sustentar suas teses. Querem uma escola primitiva, de pessoas místicas e encantadas pelos sentidos, mas sem nenhuma consciência artística ou consciência criativa.

E há os modernosos empedernidos que aderiram deslavadamente à indústria cultural e ao populismo massivo, travestindo merchandising em patrocínio, comercializando tudo, revestindo a escola de samba de estranhamento e veneno. São os que mais alimentam a ideologia dos puristas: é justamente por sua voracidade em promover um verdadeiro "topa-tudo por dinheiro", confundindo modernização com desprezo à tradição, que os puristas se travam para todas as novidades e fortalecem seu discurso. Para os modernosos empedernidos, primeiro vem o patrocínio e depois vem o enredo. Para eles, o modelo de julgamento não deve considerar as variações das escolas; antes deve impor um chamado "nivelamento dos desfiles". A concepção de espetáculo, para eles, não está na diversidade nem no lastro criativo, muito menos na tradição de cada escola, mas sim num padrão fixo a que todas as escolas devem se curvar. Eles impõem sua "verdade" com pulso tão firme que há quem acredite que estão certos e atté se impressionem com seus feitos!

E onde estão os reflexos de todos esses pensamentos? Estão nas disputas de samba-enredo com seus patrocinadores financiando torcidas que "valem ponto" na hora da escolha; estão nas direções de harmonia que quicam felizes como torcida organizada de futebol e atuam como misto de animadores de auditório e seguranças truculentos de show de rock tirando os espaços das quadras pro povo sambar; estão nos que insistem em afirmar que "não existe mais passista masculino", se negando a ver o que está acontecendo e repetindo o que uma meia dúzia de homofóbicos ou desinformados esbraveja por aí; estão nos que ainda criticam coreografia dizendo que "mata o samba" sem estudarem de perto o belíssimo trabalho dos coreógrafos que emprestaram sua arte para somar - não para anular - o samba; estão nos julgamentos de desfiles que inventaram besteiras como "desfile técnico" ou "disputa por quesitos" para serem o argumento-mentira que esconde resultados injustos contra escolas que emocionam de verdade a Sapucaí; estão na incapacidade de discernir o que é um samba "berrado" e um samba "cantado" na avenida (invenção recente que transformou "harmonia do canto" em "harmonia do berro", e até garante notas dez de jurados); estão nos discursos que cerceiam o aprendizado e a técnica como caminhos para o crescimento artístico porque só concebem os peronsagens da festa como "médiuns incorporados" ou exóticos primitivos.

Estamos com medo do espetáculo! Mas somos os primeiros a afirmar, quando isso nos interessa, que a escola de samba é "o maior espetáculo da Terra"! É preciso entender que o termo "espetáculo" está relacionado ao porte do evento e à sua repercussão, o que não quer dizer que não possa respeitar suas raízes ou manter sua identidade. O problema é que a grandeza do evento "$eduziu" a muitos, e foi o poder econômico - não o espetacular - que convulsionou e tumultuou muita coisa. Acreditem: é possível sermos mais espetaculares e mais puros! Basta resistir ao colonialismo da televisão, ao imperialismo dos mandatários conservadores, à tirania impositiva do sistema de julgamento retrógrado de envelopes na era da informática, ao estrangeirismo dos que não são do samba e ocupam o lugar dos que são!

Não somos vítimas do "espetáculo", como muitos pensam. Somos vitimas da má vontade e da ganância! Em vez das escolas de samba utilizarem a mídia para exaltarem seus valores, elas preferiram utilizar seus valores para exaltarem a mídia! A verdadeira escola de samba - os senhores abram os livros, se possível, e confirmem! - conjugou SEMPRE a tradição e a modernidade, o legado e a inovação, o passado e o futuro, a arte e a intuição, o ritual e o espetáculo.

E tudo isso que só consegue ser uma coisa ou outra, que não consegue combinar as duas forças em equidade, é apenas SIMULACRO...pode virar modinha e até ganhar campeonato, mas não é e nunca será ESCOLA DE SAMBA de verdade!

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24/10/2015 11h36

Enredos e estranhas homenagens
Hélio Ricardo Rainho

A escola de samba tem um histórico de desconhecimento, desfavorecimento e desprestígio no seio do país onde nasceu. Talvez por ser originária do septo cultural de matiz africano, historicamente delegado ao "exótico, primitivo e tribal" em nosso país, a escola de samba sempre foi vista de duas formas distintas: outrora como "folguedo", hoje mais como "espetáculo".

O lado ruim de ser tão somente "folguedo" é deixar de ser devidamente prestigiada pelos entes culturais ditos "oficiais". O lado ruim de ser "espetáculo" é ser resumida a uma gravação de DVD que se julga presunçosamente capaz de "compactar" seus "melhores momentos"(sic). Numa e noutra, estamos dizimados a uma partícula ínfima daquilo que, efetivamente, a escola de samba representa enquanto organismo vivo e gerador de identidades culturais, territoriais e simbólicas de nossa ordem nacional.

Capa do livro Em termos de indústria cultural, o samba teve reconhecimento tardio e difícil acesso às gravadoras e ao chamado show business. Só muito recentemente foi reconhecido como "patrimônio imaterial do Brasil". Rádios, gravadoras e veículos midiáticos que teoricamente deveriam difundir os artistas em sua liberdade de expressão foram se tornando, pouco a pouco, detentores de um poderio a determinar "quem" e "o que" se canta ou se dança no país. Há muita coisa que o povo está cantando ou dançando que ali está por mera imposição massiva. Outras coisas muito mais representativas de nossa cultura acabam, por fim, perdendo seu espaço.

Nos anos 70 e 80, a escola de samba e os sambistas ressentiam-se de perder espaço para a música estrangeira. As gravadoras achavam mais baratas as bases eletrônicas pré-gravadas dos ritmos estrangeiros, e preferiam produzir música com "orquestra mecânica" em vez dos sofisticados arranjos dos grandes sambistas. Pouco a pouco, o samba e o pagode foram substituídos por um pastiche eletrônico, feito em laboratório, com sambistas fakes de fora das escolas de samba, sem nenhuma vocação melódica ou poética, mas bem enquadrados na mercadologia. As exposições massivas dessas músicas ruins dariam "sucesso" também a vários outros "gêneros musicais" que nunca passaram de "degeneração musical".

Qual é o único espaço midiático reservado à escola de samba? O dia de seu desfile, é claro! Preservar esse momento como seu maior poder de exposição, como momento-chave para ela exaltar seus nomes históricos, é questão de honra, sobrevivência. Pois bem: este ano temos, em todas as escolas da Sapucaí, apenas UMA que lembrou um de nossos bambas. O Império Serrano reviverá Silas de Oliveira na avenida. Além disso, vem a Tradição exaltando Clementina de Jesus. E só. Acabou.

Estamos na era dos desportistas e dos artistas de gêneros musicais duvidosamente pré-fabricados. Muitos deles jamais exaltaram nenhum de nossos sambistas ou de nossas escolas em seus palcos. E agora serão exaltados, engrandecidos no único lugar que a segregação cultural delegou a nossos crioulos poetas de morro e asfalto. É caso pra se pensar. Colonialismo cultural vale a pena, quando rende "bom espetáculo" pra jurado ver?!

* Reproduzido do Jornal do Sambista, um periódico impresso mensal distribuído nas quadras e eventos de samba. Helio Ricardo Rainho é um de seus colunistas convidados.

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12/10/2015 13h46

'Samba dos Crias': um legado de Jorge do Batuke para a Portela
Hélio Ricardo Rainho

Feitos nobres devem ser exaltados. O jovem talento do samba e da Portela, Jorge do Batuke, merece o carinho, respeito e - sem favor algum - o reconhecimento dos portelenses. No que deveria ser tão somente uma participação para uma disputa de samba de quadra, sua passagem pelas eliminatórias do concurso da Portela teve um marco digno de registro.

Jorge do Batuke encabeçou e veio defendendo aguerrida e corajosamente seu samba em um nível elevadíssimo de disputa. Mais do que isso, num tempo de tantas vaidades e dissensões nas disputas de samba das quadras, Jorginho deu um exemplo incrível de contribuição para a escola: o "grupo dos crias" - uma tocante sensibilização dos jovens talentos da Portela, a rapaziada que samba, toca, dança e sustentará o futuro da Majestade - virou um movimento gerado dentro da torcida de seu samba.

Foto: Reprodução de Internet

O grupo abraçou a parceria de Jorge do Batuke, Gaucho, Pirique, Rogério Lobo, Claudinho Oliveira, Zequinha Costa, Marcelo Queiroz e Madalena Araguaci, Camarão Neto, Muguinho e Thiago Maciel e deixou esse legado do "samba dos crias" como um importante movimento de unidade pela Portela, que está acima de tudo e de todos.
A diretoria, os segmentos, a comunidade e os sambistas de outras composições entenderam e também repeitaram esse movimento, num afago a essa garotada que está empenhada em construir um futuro para a escola.

Foto: Reprodução de InternetPensar no movimento do "samba dos crias" como uma voz pela inovação e pelo renovo da tradicionalíssima Majestade do Samba - em tempos de Marcos Falcon e seu lema "quem ousa, vence" e de Paulo Barros como carnavalesco - é um prodigioso processo de unidade de propósito da escola. Uma Portela que contempla o futuro de braços dados com a sabedoria ancestral de sua Velha Guarda. É um belo cenário a ser contemplado para a preservação do samba - não apenas o de hoje, mas também o de amanhã. Porque preservar não é só resgatar as glórias e valores do passado: preservar é assegurar, também, a resistência e um legado para o futuro. Anos atrás, a Portela teve a emancipação de uma torcida, a Guerreiros da Águia, tipificando o engajamento de setores participativos na orientação da escola. Hoje surge essa moçada. Os "crias" são embrionários, não precisam ainda dizer a que vieram, mas já nos provocam a curiosidade de saber aonde irão. Maravilhoso sentimento! Fruto de uma disputa de samba. E ainda há quem pense que disputar samba é só vaidade, fama, dinheiro e essas outras coisas secundárias ou terciárias que muitos privilegiam...uma pena!

Ok, Jorginho e companhia! Tá aqui o registro dessa verdade do que vocês plantaram no Ninho da Águia! "Bravo, bravíssimo"!

Precisamos de mais exemplos com essa grandeza.

Jorge do Batuke sempre foi gentil e elegante no trato. Já subiu ao palco para festejar vitória de adversário cantando junto, nunca virou a cara pra quem venceu, e é bicampeão de concurso de samba de quadra da própria Portela. Está lançando CD e tem luz própria.

O "samba dos crias" foi cortado na noite de ontem. Mas eu maior mérito não estava exatamente em ser um samba-enredo para representar a escola. Seu mérito, a nosso ver, transcendeu a disputa.

De Jorginho e dessa parceria, não se poderá dizer que "não ganhou": a vitória simbólica de sua mobilização com "os crias" pode ter valido, para a história da escola, um momento muito mais sublime do que esses que a indústria cultural do samba mobiliza para ter uma música escolhida numa final.

Parabéns, Jorge e parceria!

Tenham a certeza de que todo esse "batuke" não foi e não será em vão!

Foto: Reprodução de Internet

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