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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Carioca, publicitário, MBA em Marketing, ator, diretor teatral, escritor, pesquisador de escolas de samba, futebol e teatro. Twitter: @hrainho

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16/04/2015 09h07

Enredo e Alegoria pra quê?
Hélio Ricardo Rainho

Os anos 60 são apontados como a era em que o academicismo das artes plásticas passou a ter preponderância na concepção dos desfiles de escola de samba. Até então, a plasticidade era menos importante do que o discurso, expresso no tema/enredo. No carnaval de 59, uma escola de samba - a Acadêmicos do Salgueiro - revolucionou os desfiles após ter apresentado, pela primeira vez, um enredo contrário à dominante tendência de exaltação a vultos patrióticos e militares. Baseado na obra do pintor francês Jean-Baptiste Debret, o enredo "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil" enfatizou a questão estética em seu desfile. Ficou em segundo lugar (a campeã foi a Portela), mas não só abriu a mentalidade das escolas para novos temas, como arrebatou os elogios e a paixão de um personagem que seria definitivo para a própria história das artes plásticas no carnaval. Naquela oportunidade, um certo Fernando Pamplona, que estreara como jurado do desfile, teceu elogios à inovação e foi convidado a desenvolver o enredo do Salgueiro no ano seguinte. De 1960, com seu enredo sobre Zumbi dos Palmares desenvolvido com Arlindo Rodrigues e Nilton Sá, veio todo o legado histórico que já se conhece. Inaugurava-se a era das belas artes no carnaval carioca.

O avanço das artes plásticas dentro da escola de samba, muitas vezes visto como vilão, carece de real interpretação e entendimento. A despeito de todas as discussões que se possa ter sobre a tradição, a manifestação folclórica, a construção identitária através do pertencimento às comunidades etc, inegavelmente a escola de samba só alcançou grandeza e expressão aos olhos do mundo a partir do momento em que pluralizou seu discurso e suas afirmações estruturais através das artes plásticas. Não foram o gigantismo das alegorias nem o perfeccionismo dos artistas que expulsaram muitas coisas intrínsecas ao caráter das escolas. A grandeza e o perfeccionismo deveriam continuar sendo - como se propusera naquele início de anos 60, até parte dos anos 70 e momentos dos 80 - ferramentas possíveis para se afirmar o discurso. O grande problema, porém, é que houve uma inversão (consentida, não invasiva, porque foram as próprias escolas e os próprios sambistas que admitiram isso) nesse processo. As grandes "ferramentas" artísticas que deveriam reafirmar a grandeza e a cultura das escolas passaram a se vender e a se "pluralizar" em busca de recursos financeiros. Os administradores do samba, infelizmente, viram tantos rios de dinheiro fluindo diante de seus olhos que perderam o sentido atávico do samba, perderam o tino histórico das escolas. Via de regra, perderam o espetáculo da escola de samba para o mercantilismo espetacular. A culpa, senhores - volto a dizer - não é das artes plásticas. É do uso indiscriminado que passaram a fazer delas.

Como já vimos, lá em 59 estava o Salgueiro descartando os temas patrióticos com um desfile voltado para o artístico. Pamplona, no ano seguinte, com seu Zumbi, evocava pela primeira vez um herói não-oficial na avenida. Nos anos 70, já instituídas as revoluções temática e artística pelo Salgueiro, vieram a exuberância do folclore e da natureza brasileira com Clóvis Bornay na Portela ("Lendas e Mistérios da Amazônia", campeã de 1970), a consagração do tropicalismo de Fernando Pinto com o "Alô, Alô, Taí Carmem Miranda" no Império Serrano (campeão de 72), a genialidade subversiva de Joãosinho Trinta (também saído do Salgueiro) consolidando a Beija-Flor, os discursos de pesada temática social com a São Clemente de Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa nos anos 80, a Mocidade "high tech" de Renato Lage nos anos 90, o apogeu das pesquisas histórico-folclórico-literárias de Rosa Magalhães também nos 90 pela Imperatriz, o carnaval lúdico e as alegorias vivas de Paulo Barros na virada do Milênio. Muita coisa se afirmou e reiterou do discurso das escolas de samba dentro dessas - e de muitas outras não citadas - proposições temáticas e artísticas. Nada se perdeu, e muto se ganhou, com o avanço dos artistas e intelectuais dentro da marcha do samba. E onde está o ponto crítico dessa polêmica entre arte e escola de samba, então?

Foto: Divulgação

Me parece coerente afirmar que, não obstante toda a sua representatividade cultural nas quadras e nas comunidades, a escola de samba precisava mesmo conquistar um território "além-avenida". Sim. Porque, da mesma forma como estaria sujeita ao isolamento do morro, mas afirmou-se como cultura oficial do país quando "territorializou-se" no asfalto, a escola de samba conseguiu levar sua força e sua pujança para além do espaço a que a elite sempre tentou mantê-la cativa. É o que todo pesquisador sabe, e está registrado na história: a trajetória de afirmação do samba deu-se quando ele sai da restrição ao morro e se reafirma no asfalto. E reforçou isso, no caso da escola de samba,  através do espetáculo, da grandiosidade com que impôs-se, ano após ano, na projeção de seus desfiles, na avenida. Qual foi o erro, então?  

Vou polemizar, talvez. Mas vou defender meu ponto de vista. A escola de samba, no momento em que deteve o poderio do espetáculo para fazer irradiar sua cultura peculiar, perdeu a mão no tempero. Em vez de valorizar suas figuras notórias, está perdida em homenagens a personagens inócuos da elite brasileira. Muitos deles, inclusive, constituintes de indústrias de monopólio cultural que jamais deram ao verdadeiro samba o espaço verdadeiro para ser reconhecido. O cortejo das escolas de samba, que deveria proclamar seus VALORES próprios, está colocando azeitona na empada dos outros: dos empreiteiros políticos, dos artistas de gravadora entubados goela adentro do povo, dos esportistas alheios ao sentido da festa, dos alienígenas do samba. Consideram o "valor nacional" de certos homenageados, mas esqueceram que, em termos de enriquecimento cultural, é infinitamente melhor ver um Hans-Christian Andersen fabuloso de Rosa Magalhães na Imperatriz ou um Charles Darwin extraordinário de Alex de Souza na União da Ilha... do que uma Luma de Oliveira no Estácio (pronto...dei nome aos bois!). Esse xenofobismo é outra falácia que só interessa às elites dominantes: rejeitar o a cultura clássica mundial em prol do lixo nacional não se justifica! Se o povo brasileiro - além de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Drummond e tantos outros gênios nossos - também pudesse ler mais Dostoiévski, Kafka, Joyce e Grass, certamente pensaríamos muito mais e melhor a nossa consciência cívica do que vendo enredos sobre sertanejos, big brothers ou personagens alheios a uma quadra de samba. Estão reclamando muito da Broadway e do Soleil na avenida...sabem por quê? Porque odeiam a ideia de se trazer a Broadway e o Soleil, reinterpretados, para o povo! Isso era monopólio de elite, agora pode ser visto numa "festa de crioulos"! Quem se incomoda com isso???

Foto: DivulgaçãoVou mais fundo nessa ferida: nas escolas de samba, cresce um discurso que sempre foi muito bem visto pela inteligentsia acadêmica, que é a afirmação do negro na sociedade brasileira através do tribalismo, do primitivismo e do misticismo. São 60 anos de desfile e o negro continua sendo "vendido" nos desfiles por aspectos que o tribalizam ou estigmatizam como um personagem "diferente e exótico". São milhares de alegorias de navios negreiros, fantasias de escravos, negros sangrando, chibatas, entidades espirituais etc. Tudo isso sob o manto de um discurso de "militância", que só faz repetir o rastro de inferioridade e sujeição do negro na história da humanidade. Em suma: o "coitadinho"! A elite imperialista - claro! - adora essas caricaturas, que delegam ao negro somente o papel de minoria oprimida e exótica da nossa história.

E a contribuição do negro na Arquitetura, na Engenharia, na construção de prédios e fachadas históricas (a maior mão-de-obra de toda a construção arquitetônica do país foi feita pelas mãos dos pedreiros negros)? E o legado do negro na Agricultura, tida como domínio da Ciência da Terra, do arado, do cultivo, enaltecidos num país onde "tudo que se planta dá", definitivamente um conhecimento dos africanos que nunca é mostrado com a real dimensão que merece? Nada! Nos desfiles, negro é favela, misticismo e escravidão! E todo mundo se comove, e todo mundo bate palma...e tome palha, ráfia, sisal, "carnaval rústico"- que sai barato e agrada a todo mundo e conquista os jurados suecos do sambódromo! O jurado sueco olha tudo, não vê nenhuma criatividade artística em nada, fica embasbacado com "o tamanho"... e solta as maiores notas da cartola! Depois despontua os criativos, os pesquisadores, os que estão fora da curva, cobrando justamente a "criatividade". E demonstram o que é ser criativo com a forma surreal e alucinógena com que redigem suas estapafúrdias justificativas - estas sim um "arroubo de criatividade"!

Foto: Divulgação

Infelizmente, os enredos "afro" das escolas de samba parecem acometidos da mesma síndrome do cinema brasileiro: a paixão pela tragédia, pela miserabilidade, pelo descaso, pela violência, pelo coitadismo. O cinema brasileiro abandonou a arte e abraçou o jornalismo: empresta sua câmera para romantizar tudo o que o noticiário de televisão escrutina. Já a escola de samba emprestou a potência de sua visibilidade enquanto espetáculo para fazer publicidade de heróis pré-fabricados da indústria cultural e potencializar o discurso das elites sobre o "exotismo" do negro brasileiro. E ainda falam em "igualdade racial", depois de confinar pobres e negros como diferentes e "exóticos" o tempo todo...

Vem aí o Carnaval 2016. Veremos mais do mesmo, de novo. Tudo isso aí que eu relacionei acima, minimamente para uma proposta de reflexão, vai voltar (está voltando!), com argumentos e defesas apaixonadas e cheias de justificativas da parte de seus executores! Ouvindo entrevistas e lendo sinopses, parecerá tudo "perfeito", "interessante", "cultural". Dirão até que, "economicamente, seria impossível fazer de outra forma". Mas, se pensarmos que a escola de samba "ganha" a avenida para reforçar os aspectos sociológicos de sua cultura e que as artes plásticas deveriam ser utilizadas para potencializar esse discurso com grandeza e propriedade, veremos que alguma coisa se perdeu no rumo dessa história. E que, de 1959 pra cá, o binômio enredo+plástica perdeu sua autonomia não porque um tenha prevalecido sobre o outro, mas porque um terceiro elemento - o mercantilismo - comprou e vendeu as mentes sadias para fazer prevalecer outros discursos.

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11/04/2015 10h03

'Portela, Um Poema Pra Você!'
Hélio Ricardo Rainho

Foto: Divulgação

Portela,
Teus tambores reunidos
Acalentam os ouvidos
Dos que seguem teu pendão

Revolvem
As cortinas do passado
Dos batuques, dos gingados
Do samba de pé no chão

Abrimos
Nosso peito, nossa vida
Nos fazemos avenida
E tu passas... que emoção!

Teremos para ti novos planos
Nestes 92 anos
De tão vultosa paixão

Lembramos
Tuas honras, tuas glórias
És fazedora de histórias
Que garboso pavilhão!

Nascida
Sob a sombra da jaqueira
Oswaldo Cruz, Madureira
Tua gente em comunhão

Saúda
Tua festa, teu reinado
De azul e branco, enfeitado
Do poeta és o afã

Orgulho
Ser a única torcida
A gritar, envaidecida:
"21 vezes campeã"!

De bambas
Tens o céu mais impoluto
Aqui, sabemos, deu fruto
O que a Velha Guarda plantou

Portela
Somos filhos de teu ninho
Teu amor e teu carinho
Celebramos com emoção

Portela
És paixão que não se explica
Tudo passa, a Águia fica
Viva em nosso coração

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23/03/2015 08h20

Império Serrano: 68 anos sem grilhões
Hélio Ricardo Rainho

Há um verde que não se explica na história deste Brasil! Um verde vultoso, saído de uma bandeira que não é a do país, mas igualmente exprime o sentimento e as conquistas de uma nação.

Há um verde que inflama corações, incendeia pés e quadris, arranca sorrisos e lágrimas, lava almas e purifica quem o contempla.

O dono desse verde se chama G.R.E.S. Império Serrano! Ele será eternamente jovem como um Menino de 47 e inquestionavelmente maduro e sábio como um Reizinho de Madureira.

Foto: Jeanine Gall

Esqueça tudo o que se possa pensar sobre uma escola tradicional, convencional, submissa aos velhos chavões e ditames da hora. Esqueça tudo o que se possa pensar sobre o conservadorismo e a subserviência dos antigos, sobre os medos e recuos que favorecem as benesses e acomodam os encostados.

O Império Serrano é diferente! E é diferente porque é de verdade! Uma escola de samba de verdade!

O Império Serrano gritou a liberdade quando ninguém gritava, reivindicou o que a ditadura comeu quando todo mundo comia junto, chamou jurado de demente no meio da avenida e mandou "abrir o livro pra ler" quando muitas outras já estavam cada vez mais se curvando e mesmo se prostituindo pros desfiles mornos, mortos e envelopados de geladeira de necrotério intelectual.

Ah, não! Não é assim, não! Com o Império - vão logo os senhores sabendo, ó dilapidadores e depreciadores do samba - com o Império é diferente!

O Império Serrano atravessou crises, perdeu status, perdeu até o seu lugar no Olimpo...mas nunca se poderá dizer que o Império Serrano perdeu a sua propriedade de dizer "não"! Ele sabe, sim, dizer "não" ao falso samba, à falsa sabedoria, ao falso carnaval!

As mordaças, as cadeias, os grilhões e os alforjes da miséria...a quem queira! O Império não precisa...os rejeita..."obrigado"!!!

Porque o Império Serrano, se você quiser tratar como "senhor" por estar completando 68 anos neste dia 23 de março...que o trate, sim, como "senhor"...mas como "Senhor do Samba"!

Um Senhor que não se curva à mentira do espetáculo que traveste suas tradições; um Senhor que não se rende à desqualificação generalizada do samba-enredo hoje banalizado e secundarizado; um Senhor que carrega uma ala de passistas de envergar o piso da avenida e fazer tremer as arquibancadas: homens sambando como homens, mulheres como mulheres!; um Senhor que lembra, relembra, canta e recanta sua Velha Guarda e seus valores!

Se pra muitos o Império Serrano não se atualiza... saibam pois: a glória maior dessa escola é que ela não se desmoraliza, isto sim! A história recente das escolas de samba vem tendo uma leitura tendenciosa e equivocada: o que significa, afinal, "avançar"?!?! Porque se "avançar" for tão somente se render às exigências e aos homicidas com seu modelo de desfile imposto; se "avançar" for tão somente crescer em proporção e esvaziar-se de conteúdo; se "avançar" for tão somente abandonar a essência e privilegiar o espetáculo; se "avançar" for tão somente descaracterizar a alma do chão de escola e transformar componente em fantoche de senhor de engenho...então o Império Serrano mandará ÀS FAVAS o pressuposto do avanço e da modernidade, a tirania impositiva do espetáculo televisivo, a orgia lisérgica dos falsos inovadores do samba!

Virá, sim, o Império Serrano, com sua peregrinação de fé e samba, dizendo seu corajoso e maiúsculo "Não" aos ilustres entronizados.

Foto: Jeanine Gall

E fará prevalecer, sim, a sua forma elegante e característica de inovar, se renovar e avançar, mas sempre do seu jeito, com sua marca, respeitando as páginas de sua história. Ou por ser diferente respeitando a história que tem ou por ser diferente tendo história - coisa que muita gente aí nem tem!

Nós, os amantes do samba, sendo ou não imperianos, vestindo ou não as suas cores na avenida, saberemos respeitar e saudar essa vultosa bandeira. Porque, quando ela passa hasteada na avenida, não está ali pra virar pacote de presente em dvd de prateleira nem pra saciar a fome nefasta da câmera de televisão. Quando a bandeira do Império Serrano passa na avenida, ela arrasta consigo um legado de poesia, história, emoção, grandeza, democracia e liberdade - valores que, infelizmente, não pontuam pra matemáticos, mas gloriosamente enobrecem a vida e a alma de quem sabe apreciar o que é um verdadeiro cortejo de escola de samba na avenida!

Foto: Jeanine Gall

E assim, passarão mais 68 anos, aparecerão mais novos teóricos e novos insanos, novos histéricos e novos tiranos...e o samba e a escola de samba continuarão sendo o que sempre foram, porque ali estará o verde do Império Serrano a nos mostrar o que é ter a verdadeira esperança de que a nossa cultura não se ajoelha nem se vende por esse punhado de falsas glórias jogado como se fosse areia nos olhos de quem quiser!!!

Parabéns ao Império e aos imperianos; aos de hoje e aos de 47; aos de 2016 e aos que com ele seguirão futuro adiante; bradando a verdade e a coragem, defendendo aquilo em que acreditam...fazendo-se enredos vivos..."Heróis da Liberdade" desse "Império do Divino"!!!

Foto: Jeanine Gall

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13/03/2015 13h46

Escolas de Samba: 'É o Juízo Final'
Hélio Ricardo Rainho

Estamos diante de um impasse. Uma real necessidade. O carnaval mudou, a estética dos desfiles mudou, o mundo mudou...e continuamos os mesmos dos anos 30! Julgamos escolas de samba da era da hipermodernidade com a mesma metodologia arcaica dos julgamentos de quase 100 anos atrás: papel, caneta, envelope. Homens de Neanderthal na era de Tony Stark.

Infelizmente, o carnaval é genial mas é também emburrecido: não há dirigentes capazes de refletir sobre isso. Eles se acham tão bons que não conhecem o espelho. E esquecem que, quem não se reflete, não se conhece. Acabam virando burros funcionais: a festa acontece, o evento acontece, tudo acontece, mas o atraso continua. Há até quem bata palminha pra isso. O carnaval perdeu a galhofa, a sátira, o espírito crítico. A mesmice é agraciada com prêmios, as melhores notas são para o "mais do mesmo". Não se entende mais de enredo crítico ou abstrato: os metidos a graduados não passam de incentivadores do beabá.

Estamos andando de carruagem numa pista de F1. E todo mundo se acha competente, talentoso, corajoso, audacioso etc.

Não é. Não é mais nada disso. As escolas de samba estão mais cartesianas do que nunca. Desfilam amarradas, chatas, com seus quatrilhões de diretores de harmonia gritando, falando em radinhos bestas, com metrônomos de Jetsons incapazes de medir sua truculência de Flintstones. À frente das escolas vem uma espécie de "comitê da vergonha" formado por camiseteiros de ocasião; são as pessoas mais corajosas do mundo: se expõem ao ridículo cantando e pulando alucinadamente, desfilando fora da escola como se estivessem dentro. Eles se enganam tão bem que acreditam que as pessoas querem vê-los. Deprimentes sem depressão! São expatriados embriagados, poluindo o que vem atrás. E parecem orgulhosos de seu vexame...

Nosso "primor de organização" deixou várias escolas de samba sem som na avenida, e algumas sem voz para expressarem seu verdadeiro sentimento quando passam. Precisam de enredos que atraiam dinheiro, não que atraiam gente ou vibração das arquibancadas. Não é crítica ao mercantilismo: é crítica ao uso distorcido da verba de patrocínio, embrutecendo a lógica da escola.

Fotos: SRZD

Todo mundo acha que entende de enredo. As redes sociais mostram quanta besteira e opinião pessoal - sem critério, sem análise crítica reflexiva, sem metodologia - são espalhadas na base do "eu sei", "eu vi", "eu acho". Uma estranha assertividade em favor da autoafirmação. Serve pra que essa impáfia toda?

Os enredos estão cada vez mais subordinados, mais medrosos, com escolas acuadas sem discurso próprio, apelando para o que possa agradar os jurados. Em vez do jurado servir à escola, é a escola que serve aos jurados. Assim...numa relação "bonita" tipo "senhor de engenho & escravo". E aí os enredos mergulham em recorrências improdutivas. Querem ver um exemplo? As Áfricas que a avenida mostra. Sob o pretexto servil e utilitário de que "enredo africano ninguém discute", a avenida nunca mostrou uma África que não fosse sofrida, desgraçosa, mística, oprimida etc. Cadê a arte, o teatro, a dança, o artesanato, o legado artístico e cultural desse continente? Não tem?! Não comove jurado?! Nada!!! E tome chibata, misticismo, navio negreiro, violência. Acho muito importante lembrar o fardo de opressão e discriminação que os negros sofreram historicamente. Não sou louco de negar isso. Mas tenho uma consciência de que certos discursos repetidos à exaustão são tão vitimizadores que nos dão a sensação de que nada do que temos no país foi construído por esse povo. Africano na avenida é só lamúria, chororô e feitiçaria. Cadê o legado histórico, artístico e cultural?!

Foto: SRZDE quanto vale a comoção? Nada! Não é "quesito"! Os "quesitos" são algo concebido para ter valores frios, matemáticos, cartesianos. O "metrônomo da emoção" não existe. Estamos num filme futurista, entre o "Fahrenheit 451" de Truffaut e a "Alphaville" de Godard: proibidos de construir literatura ou de nos emocionar. Os enredos que ousam discutir, refletir, transpor o mundo real para o irreal, não são entendidos nem respeitados.

Estamos mal amparados dialeticamente. Construímos um espetáculo visual que sofreu inúmeras alterações no decorrer nas décadas, mas não instituímos um modelo coerente de avaliação do espetáculo. Não existe uma norma avaliativa decente, uma crítica formada, especializada. Não temos! Não nos deixarão mentir as justificativas dos jurados, que virão tanto tardias quanto eivadas de surrealismo.

Falta-nos uma criteriosidade. Falta ao brasileiro entender melhor a festa que o brasileiro faz. Falta a coragem de abandonar esse vício de ser "pau mandado" e "ouvido de mercador", com tanta gente repetindo as mesmas besteiradas que escuta na esquina. Quando um carnavalesco é autoral, dizem que ele "se repete". Quando um desfile é mecânico, chamam de "técnico". Tem gente que pouco entende e tudo quer palpitar. Temos poucos carnavalescos com a cara e a coragem de fazerem enredos autorais, com assinatura estética e proposta conceitual. A grande maioria está em busca do apelo fácil, de "temas nobres gratuitos", de homenagens a gente que nunca contribuiu em nada para as escolas de samba. Eu acho uma vergonha a gente homenagear personalidades ou artistas (sic) de gosto duvidoso e apelo comercial em detrimento de baluartes reais de nossa cultura e de nossa gente. Uma perda de tempo dedicar 70 minutos de desfile a gente que nunca sequer levantou uma bandeirinha ou vestiu uma camisa de escola de samba por um minuto.

Infelizmente você não vai ler isso em outras colunas: as pessoas que deveriam exigir e brigar por isso estão fazendo média (ou seria "fazendo mídia?"), brincando de imprensa, lavando as mãos de Pilatos antes de publicar um texto escrito. As faculdades de Jornalismo deveriam ter matérias sobre cobertura e análise de carnaval como têm várias sobre futebol e esportes. Nem a crítica devida aos profissionais sem talento que muitas vezes se perpetuam na avenida os analistas sabem fazer. Valei-me, meu São Pamplona dos inconformados!!!

Pois é. Para o brasileiro desenfreado e desembestado, toda regra é chamada de "censura". Besteira. Acho mesmo que uma comissão especializada deveria se reunir e criar um código de regras para as escolas terem seus enredos aprovados. Vai cortar na carne: muita gente iria espernear, mas teríamos maior propriedade nos desfiles, maior respeito na seleção dos temas e no discurso desses enredos.

O problema é que, se criassem essa comissão, o tiro sairia pela culatra. Porque isto aqui é Brasil: em vez de nortearem s escolhas de enredos com especialistas de verdade, juntariam um punhado de insanos escusos para aprovarem as coisas de uns e reprovarem as de outros.

É difícil consertar o Brasil até quando o assunto é carnaval. E isso daria um bom enredo. Só não sei é se saberiam julgar depois...

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27/02/2015 23h56

Poema da Saudade ao Passista Breno Brown
Hélio Ricardo Rainho

É...

Pois é...

À noite já escureceu

O dia vai clarear

E você não vai sambar

Pra gente ver

Foto: Divulgação

É...

Pois é...

Os tambores vão rufar

Os surdos vão enlouquecer

E você não vai sambar

Pra gente ver

 

É...

O apito vai tocar

Setor 1 vai estremecer

E o riscado malandro

Fagueiro, matreiro

De mais um mulato inzoneiro

Deste Brasil brasileiro

Não vai pisar na avenida

Pra gente ver

 

Foi

Como Hermes, deus grego

Havia um segredo

Um estranho revés  

Sob os sapatos brancos

O menino passista

Tinha asas nos pés!

 

É...

Qual um anjo barroco

Sambando igual louco

Partiu a voar

Nunca mais ninguém viu

Sob o chão do Brasil

O passista sambar

 

Vai....

Sambar noutra avenida

Além desta vida

Que você deixou

Vai...

Encantar tantos bambas

Ao som de outros sambas

Que o céu já levou

 

Sim

Vêm a dor da saudade

E a cumplicidade

Com o que você deixou

Foi 

Um legado imponente

Uma dança que a gente

Já eternizou

 

E...

Enquanto houver riscado

Um bom samba sambado

Um boêmio ao sereno

Nós...

Com os olhos molhados

E aplausos cerrados

Diremos: SALVE, BRENO!

  

(Ao passista menino Breno Brown, que hoje nos deixou, na flor de seus 20 anos de idade)

Leia também:

- Mundo do samba chora a morte do passista Breno Brown

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19/02/2015 03h31

Sobre tudo o que acabou na quarta-feira...
Hélio Ricardo Rainho

Acabou mais um carnaval. E paira novamente sobre nossas cabeças aquele mundaréu de perguntas, provocações, indiretas, chocarrices, coisa e tal. Todo mundo quer saber se ganhou quem mereceu, se houve justiça, lisura etc.

Comentarista não é mestre-sala de Paulo Barros, mas precisa aprender a entrar no fogo... e não se queimar!

Pois bem, este ano vou copiar a gloriosa São Clemente e também homenagear Pamplona. Não como carnavalesco, mas como comentarista. Ele falava as coisas na lata, sem meias palavras.

Me acompanha, leitor... vou "pamplonar" também!

Hélio. Foto: Acervo Pessoal

E já começo assim, provocativo: não julguem a moral de um enredo, porque enredo não tem moral! Pode ser de ditadura, de estrangeiro ao samba, de carrinho de corrida...o escambau!!! Enredo bom é aquele que jurado gosta! Entraram 12 jurados novos e o gosto continua o mesmo!

Ponto.

E nunca mais brincaremos de inventar a roda no carnaval!!! A Portela entrou pro Guiness com a comissão de frente mais longa da história da avenida. Deve estar se apresentando até agora... Resultado: linda, criativa, mas atrasou a escola inteira. E corrida que jurado gosta - volto a dizer - é com carrinho de F1, não a pé. Jurado é "chique, bem"! 

Devolvam o gingado ímpar de Valci Pelé à sua gloriosa ala de passistas! Precisamos vê-lo em seu lugar de direito, ao lado da deusa Nilce Fran; não muito a inventar!

Sou Pamplona, não sou Saramago. Mas, neste "Ensaio sobre a Cegueira dos Jurados", buracos gigantescos diante de suas cabines representam alguma coisa dentro do enredo que eles veem, nós não. Disseram por aí que os buracos da Beija-Flor eram alas representando a "alma africana". Ah, tá: então tá entendido...

Ainda sobre cegueira: que tal despontuar a verdadeira exposição artística a céu aberto de criação plástica de Alex de Souza na Ilha?! Queremos bonecos de plástico de camelô, não aquelas esculturas deslumbrantes como dos carros das artes e do Olimpo. Requinte? Acabamento? Estética refinada? Não, Alex: tá errado! Bobinho você...gastando seu francês nesta avenida que vai de um mangue a um cemitério...eu, hein!!!

E não vamos misturar alhos com bugalhos. Nem mestre-sala e porta-bandeira com comissão de frente! É o fim do mundo! Mas ninguém sobrevive ao desafio de dançar para o jurado e se concentrar nas baratas voando ao redor. Baratas?!?! Pavilhão de escola - coisa sublime - não pode se apresentar rodeado por...baratas! Aliás, sexo e banho de chuva nu também podem ser sublimes. O mundo "ao pé da letra", sem poesia, é muito hostil! Melhor que acabe mesmo...

E quem é você, Dona Rosa, pra ousar se reinventar, tomar em vão meu "santo nome Pamplona" e me reeditar??? Quem é você pra fazer, num desfile de abertura de dia (desses que a imponente tv até rejeita!!!) um trabalho exuberante? Como ousa levantar arquibancadas, emocionar gerações, dar AULA na avenida? Quem é você, São Clemente "debochada", pra mostrar tão extraordinário trabalho de carnaval? Tá querendo roubar essa festa?! 

Não deixo! Não deixo! No sábado você não volta...atrevida assim é demais!!! 

Da Rosa da Zona Sul para a Verde-e-Rosa mais querida do planeta...

Salvem! Salvem! Alguém salve o uso das cores dessa escola! Alguém salve sua plástica! Alguém admita que grandeza precisa de grandeza e pare de se enganar! Devolvam à Grande "Mãegueira" - mãe do samba - um trato de requinte, de bom gosto, de filigranas! "Teu cenário é uma beleza"..."É raça, é fibra, é jequitibá!"...com todo respeito, devolvam-lhe essa beleza! Mangueira merece mãos caprichosas para colherem seus frutos!

"E nessa briga da maré contra o rochedo", o Paulo, de novo, entrou numa fria sem a Tijuca...e a Tijuca entrou numa fria Suíça, deitou e rolou sem o Paulo! Mas não era pra celebrar o desfile frio e técnico? Então porque não foi vencedora a perfeição da Tijuca?!?!

E não me venham com o canto emocionado de Mandela: eu já disse que a liberdade é muito corretinha...viva a ditadura!!! 

Eu vou levar 100 anos pra apagar da minha mente talvez a cena mais bonita deste carnaval: Mestre Jorge Magno, o passista mais antigo da avenida, desfilando de sacerdote africano pela Imperatriz!

São mais de 40 anos de samba no pé! "Nada é maior que o amor, entenda!". Ícone vivo da tradição dos passistas! Tenho imenso respeito por essa pessoa e por seu legado. Mas a televisão prefere o carro da novela das oito...sabe até o que come o ator antes de sair de casa pra desfilar...e onde vai "despejar" o que comeu, também! Haja catimba! Salve Zé!

Querem saber? Certa mesmo estava a Grande Rio! "Começou o carteado!". Hahaha...alguém duvida???

A Rainha de Copas, jurada de escola de samba, manda no jogo e esquarteja todo mundo! Depois empurra a mesa e exalta o "jeito malandreado" de se julgar carnaval. Graças a Deus por essa escola e por esse carnavalesco Fabio Ricardo, garoto dos desfiles com talento de gigante! Sem eles, como seria séria essa avenida!

Eu vi a deusa Selminha e vi o gênio da folia chamado Carlinhos do Salgueiro enaltecendo a festa! Mãos doloridas de aplaudir esses dois!

A pobre Viradouro pegou chuva e pagou a conta indevida. E a Vila? Escola tão linda...por que anda tão distante?! Queremos de volta sua sinfonia, lindo Povo de Noel!

Malandro é o velho Salgueiro: caprichou no tempero e fez descer garganta abaixo um samba que comeu quietinho as três notas 10 do jurado. A moda vem da velha cozinha mineira: "fazer o samba render". Se render, ganha 10 e pronto! Foi lá e ganhou! Não gostou? Não escuta! Já levou nota boa mesmo...e com trabalho plástico de Renato Lage, ninguëm discute, ô sinhá!!!

Com todo respeito, em quatro dias de carnaval na avenida, Madureira mostrou o que significa EMOÇÃO. Assim mesmo: com letra maiúscula! A procissão do Império Serrano comoveu até as vigas das arquibancadas. E aquela águia virando o Cristo Redentor foi a imagem do carnaval 2015, razão pela qual arrebatou os maiores gritos de "campeã" do ano!

"Sou carioca, sou de Madureira"..."meu samba nunca vai morrer"!!! Samba de Madureira é religião. Portela e Império são escolas que ensinam seus sambistas o que é chorar de alegria. Coisa que não tem preço. Por isso não "compra" jurado...

Adeus, ano velho!

Feliz ano novo!

Que, de novo, não tem nada...parece tudo tão igual no final...

(Texto inspirado nos quatro grandes gênios do carnaval 2015: Louzada dos Olhos Surreais, Rosa Genio Maior, Fabinho O Trunfo Lúdico e Alex A Cara da Riqueza)

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28/01/2015 08h48

Passistas da Mocidade, com 'O chão se abrindo a seus pés'!
Hélio Ricardo Rainho

Quem é que dança e ostenta, com os pés, a mais original vertente representativa de resposta aos batuques do samba?

Quem é que apresenta, no desfile de escolas de samba, a dança mais autêntica, original e inigualável em qualquer outra cultura ou manifestação artística popular?

Sim, são eles, os "passistas" - os donos do passo, os donos do ritmo, os donos da dança do samba.

Desde sua configuração específica em agrupamentos (as chamadas "alas") a partir dos anos 80, a primeira escola de samba a constituir uma ala tida em depoimentos de especialistas como "a melhor de todos os tempos" foi a Mocidade Independente de Padre Miguel. Sob a direção da lendária Marilene, a Mocidade consagrou-se e abriu o mote para a consagração do termo "ala de passistas".

Não é necessário fazer comparações. Os tempos são diferentes e os talentos são diversos. Hoje, a glória que perseguimos todos nós - admiradores desse ofício e dessa arte - é preservar cada ala de cada escola com suas características e seus devotados lutadores se empenhando no que sabem e amam fazer. A diversidade faz a diferença.

É com base nesse argumento - o empenho, o esmero, a paixão - que discorro as linhas seguintes para falar de minha visita, no último sábado, à quadra da Mocidade Independente, para passar uma noite na companhia dos passistas da escola.

Foi sublime! Encantador! Quão mágico e feliz o momento de reencontro e resgate por que passa toda a escola! O torcedor está rindo de orelha a orelha, a bateria da escola está enfurecida a acompanhar as altas temperaturas da própria cidade para justificar-se como aquela que "não existe mais quente". Uma harmonia feliz, com as baianas encantadas de Tia Nilda, baiana ícone do samba, abençoadas por Deus e bonitas por natureza. Lucinha e Diogo Jesus parecem duas crianças no parque: leves, soltos, brincantes, dançando de uma forma tão sutil que parecem ter descoberto ontem o prazer de serem aquilo que são. Estado de graça!

E vieram os "Passistas Independentes de Padre Miguel", vencedores do último prêmio SRZD de Melhor Ala de Passistas! Era hora de "ver tudo ruir, a terra tremer / o chão se abrindo aos seus pés"! E foi o que eles fizeram: botaram Padre Miguel abaixo!

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Sob a nova direção de Danyel Rodrigues, com Laíza Bastos como coordenadora, a ala apresentou-se como num grande musical, integrando uma série de quadros diferentes, com performances, figurinos e tipos variados. A proposta sugerida pelos passistas independentes não é a de se apresentarem como num micro desfile análogo ao que realizam na avenida: há uma percepção clara de teatralização, com diversas entradas e saídas dos passistas, obedecendo a marcações de palco, espaço e realização cênica. Manteve-se um estilo muito próprio das tradições dessa escola, já muito bem executado pelo diretor anterior da ala, Marcos Maya: a entrada dos passistas não em fileiras, mas em naipes separados, com o elenco dividido em blocos, tomando o espaço de apresentação com evolução alternada dos grupos. E o "elenco" estava "de enlouquecer, amor"!

Foto: Hélio Ricardo Rainho

De tudo se pôde ver um pouco. Teve a tradicional "roda de malandros", uma caracterização comum aos passistas somente a partir do final da década de 70, com provável influência na "Ópera do Malandro" de Chico Buarque. Dignamente trajados, com a aposta firme no chapéu panamá, sapatos brancos ou bicolores e também em ternos brancos alinhadíssimos, reproduziram a cena clássica do "desafio de roda" (suposta "briga de malandros" encenada de forma lúdica como uma "capoeira dançada") e do "jogo de conquista" (malandros cortejando lindas cabrochas em disputa). Em todos o quadros, não obstante os "desafios", percebe-se o cumprimento e a cordialidade encerrando os riscados, caracterizando a reverência entre os participantes do jogo. Destaque para a elegância absoluta de Lucas Pedro, em extraordinária postura de malandro, em contracena com a cabrocha Suzy Gomes. Passistas de destaque da nova geração - como Coimbra Mocidade, Villela Locutor, Thiago Martins, José O Sereno, Leandro Gomes, Diego Mendes, Sidnei Souza, Marcos David, Alex Lion e o tarimbado Gabriel Castro - dentre outros, juntaram-se a veteranos eternos como Pedrinho e Luiz Gonzaga, e deram seu show.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

O grupo apresentava-se, também, como mediador da cena. Em dados momentos, celebrava o público, dançando em direção aos presentes. Em outros momentos, cumprimentavam a direção de harmonia ou as baianas da escola, que formavam outra roda, remetendo às tradições do movimento circular do samba, cujo matiz é essencialmente característico da tradição africana.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

É interessante observar que as marcações e a disposição dos elementos em cena não os impede de evoluir e criar toda sorte de trejeitos, requebros, riscados e passos inventivos que seu naipe de passistas pode exibir. A dança está ali: ela tão somente permite uma distribuição dos elementos de forma a constituir um conjunto, mas o samba no pé se faz presente, com talentos variados e muita versatilidade. No naipe feminino, destaque para o samba e a beleza de Millene Figueiredo, Paulina Reis, Suzy Gomes, Josi Cruz e Raíssa Câmara.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Convém diferenciar a dança do passista da dança de todos os demais componentes de uma escola de samba. É preciso olhar e analisar a manifestação dessa dança como algo muito peculiar. A dança do passista não é uma dança que se encerra em si mesma. Diferente da evolução das demais alas, onde cada componente evolui expressando seu próprio prazer com a música, a dança do passista acontece necessariamente para uma interação. Como uma força da natureza que brota do chão e arremete com ímpeto de vida, a dança de um passista busca o contato e a comunicação, a provocação e o desafio, o despertamento e a interação com o outro. O passista contagia! Na sociedade africana, a construção do saber é conjunta. No samba, cuja origem é a roda, a mesma força se faz presente. E, na dança do passista de escola de samba, provocar e interagir é sempre um caminho.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

A ala de passistas da Mocidade tem hoje quarenta casais, todos graciosamente bem vestidos em seus shows de quadra e ensaios técnicos. A vibração e o entusiasmo com que se dedicam ao ofício é visível. E, para completar seu timaço, o Reizinho de Madureira Gabriel Castro, do Império Serrano, aceitou o convite dos amigos diretores e também reforça a ala, dividindo o verde de seu coração com a escola da zona oeste, que, com isso, passa a ser a segunda em que ele mais vezes passou pela avenida.

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Pois é. Motivos não faltam para que a Mocidade se encontre tão celebrante e festiva neste 2015. E, no que depender dessa turma, pode-se esperar muito samba no pé. Não é promessa: é profecia. "Vai acontecer"!

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19/01/2015 21h15

Hélio Rainho: 'Turbilhão de Passistas'
Redação SRZD*

 

Senhoras, senhores, crianças
Amantes do samba...vem lá
Um turbilhão de passistas!
Abram alas...eles vão passar!


Descendo o morro, a ladeira,
A serra, a Serrinha, a favela
O Salgueiro, a Estação Primeira,
O Império Serrano, a Portela


Eles vão sambar com a alma
Com a essência e a raiz
A Mocidade, a Beija-flor
A Caprichosos, a Imperatriz


Vão riscar o chão de arte
Derramar todo seu ouro
A Tijuca, a Cubango
A Grande Rio, a Viradouro


Sambam, assim, com encanto
E parece até que é fácil
A Vila Isabel, a Ilha
A Vizinha Faladeira, o Estácio


Benditos filhos da ginga
Nosso povo, nossa gente
A Grande Rio, o Arranco
O Tuiuti, a São Clemente


Nossos fabulosos passistas
Os dançarinos sambistas
Trabalhadores devotados
"Malandros"??? Só fantasiados!


Nilce Fran, Valci, Gabriel
Beckford, Pablo, Celynho
Aldione, Magno, Queila
Tina Bombom, Carlinhos


Cassio, Senra, Flavinho
Safra, Faustino, Dandara
Clovis, Edson, Katia e Ricardo
Rafaela, Evelyn, Juliana Clara


Leandro, Kauan, Dedé
Millene, Larissa, Bebel
Bherna, Ciro, Dudi, George
Bayano e Vitamina no céu


Índio, Jeronymo, Silvia
Avelino, Renans Brito e Oliveira
Gaspar, Lanes, Rei Mayombe
Salve todos, de tantas bandeiras!


Dando nome aos poetas do riscado
Devotados incondicionais sambistas
Todo amor, respeito e reverência
Celebremos: salve o DIA DOS PASSISTAS!

(Lei municipal 4462/2007 - "Lei Valci Pelé", do vereador José Carlos Rego, instituindo o dia 19 de janeiro como Dia do Passista)

Confira, agora, vídeo em que Hélio entrevista a passista Aldione Sena durante ensaio técnico deste domingo  (18):

Nilce Fran e Valci Pelé. Foto: Arquivo SRZD

Hélio Ricardo. Foto: Arquivo SRZD

*Hélio Ricardo Rainho

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07/01/2015 09h34

Crônica para Tia Dodô
Hélio Ricardo Rainho

Maria das Dores Rodrigues. Ou simplesmente Dodô.
No nome, trazia as dores; no corpo, a felicidade!
Nasceu, cresceu, apareceu, conquistou vitórias.

Dodô da Portela, Dodô da dança do samba, Dodô do pavilhão, Dodô da Alegria.
A rainha negra da Portela se foi.

Um rastro de luz, de saudade, de 21 carnavais de vitória, de uma vida inteira dedicada ao azul que não é do céu, nem do mar.
Só Dodô sabia de onde vinha o azul que a Portela tem!
Voou como voam as águias, atingindo as alturas, ocupando com sua dança encantada e singela o céu dos bambas, a constelação dos poetas, o infinito destinado aos que fizeram a história dos carnavais.

Dodô foi a Portela, e a Portela será sempre Dodô.
Visto que a Portela não morre, Dodô será sempre imortal!

Dodô da Saúde, Dodô de Oswaldo Cruz, Dodô de Madureira;
Dodô da Sapucaí lotada, em festa, aplaudindo a procissão do samba portelense com sua santa negra aclamada - não no andor: no chão, no meio da folia, na vibração de seu povo!
Dodô porta-bandeira: símbolo de tudo, gênese da arte de bailar conduzindo o pavilhão, ponto de partida para a longa caminhada de vitórias da escola de seu coração.
Dodô, rainha das damas: porte de nobreza, fidalguia do samba, maestria na elegância ao comandar um séquito de senhoras donas dos tesouros e riquezas da Portela.
Dodô do Ninho da Águia: mãe de todos nós, portelenses; divina rainha do samba, exemplo vivo de dedicação, crença, incentivo, perseverança e amor incondicional a uma bandeira.
Dodô, Tia do Samba, rastro de saudade, luz para as gerações futuras, lenda viva, expoente da arte de transformar o árduo cotidiano brasileiro em carnaval para o mundo ver e aplaudir.
Dodô, a alquimista: transformou suor e sofrimento em alegria e samba! Fez a dor do povo virar ouro!

A benção, Tia Dodô da Portela!

Que seja hoje, na glória de Deus, o seu mais inspirado e divino bailar de porta-bandeira,
Divina, inspirada, encantada, alegre, com aquele longo sorriso que levantava as arquibancadas da Sapucaí e arrancava emocionados aplausos dos que tinham o privilégio de vê-la se apresentar!

A bênção, Tia Dodô da Portela!

A ti,
Oswaldo Cruz e Madureira; Tjuca e Mangueira, Estácio e Vila Isabel; Serrinha e Padre Miguel; São Gonçalo e Niterói; Saúde e Gamboa, Cavalcante e Cascadura; Nilópolis e os dois Engenhos; Botafogo, a Ilha e todo o mundo do samba deitarão lágrimas de saudade;

De ti, o exemplo ficou...guarda contigo nosso eterno amor...
A bênção! Voa aos céus do Criador...
A bênção...adeus, Tia Dodô!

Hélio Ricardo Rainho


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27/12/2014 19h42

Cartada certeira!
Hélio Ricardo Rainho

Não duvidem: ela vai dar as cartas na Avenida!

Pouco se tem falado ou ouvido falar da escola tricolor como uma das favoritas para 2015. Seu enredo foi anunciado por último, soando para muitos como "improviso". Seu samba está numa esfera mediana: não é uma catarse quando cantado, nem um primor poético se visto mais de perto.

Ainda assim, posso apostar na Grande Rio como uma das mais fortes candidatas no próximo desfile. E explico por quê.

Tive a oportunidade de conversar, no Seminário SRZD-Carnaval, com o carnavalesco Fabio Ricardo para entender melhor o sucesso estrondoso de seu desfile 2014 sobre Maricá. Saí do evento surpreso. Os elogios ao artista sempre foram os melhores, mas ele, ao vivo, foi de uma coerência, uma inventividade, um domínio da técnica e do planejamento de seu carnaval que eu duvidaria de alguém tão jovem com tamanha clareza.

Para além de todo esse gabarito, Fabinho surpreende por ser imensamente irrequieto. Ele é capaz de revirar um barracão pronto e reinventar seus projetos em outra coisa diferenciada ou inventiva para aprimorar seu carnaval. A cabeça ferve de ideias, surpresas o acometem a todo instante: ele gera ordem em meio a sinapses e impulsos que, em outros, talvez configurariam o caos.

O enredo sobre carteado, tão atrativo e ao mesmo tempo inovador, tem forte apelo popular, didática fácil e inúmeros desdobramentos para facilitar o entendimento e a leitura pelo público. O samba tem rendido muito bem com a bateria e possui um bom apelo de comunicação para emplacar seu refrão. Se o enredo hermético e até então pouco sugestivo de Maricá foi uma exuberante aula de narrativa, pesquisa e concepção plástica em 2014, que diríamos pois deste de agora, com tantas outras facilidades de realização e expressão?

Pra não se dizer que a força da Grande Rio está apenas em seus feitos estéticos, vale destacar que a escola fez mais do que um pomposo e criativo desfile no carnaval passado: ela reafirmou a força de sua comunidade caxiense, fiel e vibrante, leal e apaixonada, aguerrida e consciente. Por muitos anos ofuscada pela cobertura ignóbil da televisão, que insistia em esconder sua gente de chão para parlapatear artistas de novela e celebridades vazias da emissora que monopoliza o carnaval, a comunidade da Grande Rio apareceu forte na avenida justamente quando precisou defender com rigor e bravura o enredo da escola. A partir do enredo sobre Maricá, reencontramos aquela chama e aquele fervor do componente que conhecemos desde os enredos africanos que a trouxeram para a elite dos desfiles. A Grande Rio tem uma linda bateria do maestro mestre Thiago Diogo, o que também incinera um desfile - é fato.

Por essas e outras - muitas outras que só no grande dia saberemos -, faço minhas apostas na linda Grande Rio como uma das poderosas para 2015.

Esse Fabinho carnavalesco, esse mestre Thiago, esse mestre-sala Niel Werneck, essa comunidade de Caxias, esses passistas comandados por mestre Avelino...são do baralho! Tal qual nos promete ser a Grande Rio!

Pode apostar!

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28/11/2014 17h17

Rei Mayombe do Estácio!
Hélio Ricardo Rainho

Este ano, a avenida terá um encanto especial. Ao rufarem os tambores ancestrais do Velho Estácio, uma força radiante irromperá frente à bateria como um cometa do samba, iluminando a passarela e emocionando a audiência. Uma ginga de malandro fundida ao bailado sem par de pernas velozes, gestos tridimensionais e ziguezagues, uma elegância inexplicavelmente contagiante.

Parece magia! O samba no pé de Mayombe Masai é encantado. Um fauno dançante do samba. Mayombe será coroado, na noite desta sexta-feira, o Rei de Bateria do GRES Estácio de Sá.

Lépido, fagueiro, malandro, veloz. Poético, hipnotizante. A ginga de seu samba se distingue por uma impressionante cadência que mistura a velocidade dos riscados com a graça da capoeira e o autêntico samba no pé.

Estamos falando de um jovem rapaz negro, estatura mediana, corpo franzino, que passaria despercebido pelas ruas da cidade, não se tratasse de um dos maiores passistas de escola de samba do país. Se nossa mídia prestigiasse os artistas genuínos do carnaval como prestigia os subprodutos de gravadora e pseudocelebridades de telenovelas ou reality shows, certamente o teríamos como um astro. Mas, como escola de samba para a grande mídia é apenas "festa", ficamos nós - graças a Deus, os genuínos difusores e admiradores dessa arte - privilegiados com o ímpeto e a graciosidade de sua dança.

Foto: Alex Nunes

Ele é conhecido por ter em seu nome a fusão de dois outros nomes africanos: de uma região montanhosa da África (Mayombe) e de uma tribo do Quênia (os masai ou massai). Dançarino nato, é conhecido e reverenciado por todos os amigos passistas e por toda gente do samba. O Estácio marca um gol de placa ao prestar essa homenagem que, embora a um jovem personagem, prestigia a grandeza e o lastro histórico de um grande movimento dentro dos desfiles de escolas de samba: a arte dos passistas e seu samba no pé.

Há que se louvar o momento privilegiado de afirmação e conquista do passista de escola de samba! Outrora perseguido, ultrajado, ameaçado até mesmo de extinção, hoje tem ocupado espaços importantes de discussão sobre a cultura popular e a consciência negra dentro da sociedade. Como um quilombola que é, o passista chegou a ser banido até mesmo de seu próprio território - a escola de samba. Mas reinventou-se, rompeu as barreiras, reorganizou a sua simbologia dentro do carnaval e reviu seu espaço. Temos alas de passistas brilhando, personagens renomados e respeitados por todos os setores. Nossa primeira iniciativa com o "Projeto Quem És Tu, Passista?" de devolver mídia e espaço de comunicação aos protagonistas dessa dança redundou em uma necessidade das demais mídias também promoverem e divulgarem essa arte. Mais pesquisadores têm se debruçado sobre os mistérios desses personagens extraordinários do samba. A afirmação deles está aí! As fotos dessa matéria, ilustradas por verdadeiros "bambas da fotografia", incansáveis fotógrafos Alex Nunes e JM Arruda, são exemplo de gente com talento singular que tem voltado seu foco para esses artistas divinos do samba.

Foto: Alex Nunes

Quando Mayombe Masai, o "passista encantado", for corado na quadra da escola que se originou do lugar onde o samba foi embalado menino, algo importante acontecerá. Rei Mayombe representará a voz dos passistas que reinaram por tantos anos no carnaval e foram desprezados, lançados ao relento, como se nada representassem. Ele ostentará sobre si a coroa dos Dom Obás sambistas, dos passistas que sempre reinaram e nunca receberam a coroa. O Velho Estácio - glorioso Estácio, reduto do samba! - manifestará a sua autoridade de Leão do Samba para delegar a esse menino mágico, "passista encantado", a glória de sambar de verdade à frente de sua bateria, levantando a poeira e fazendo as vezes do mestre de cerimônias da escola.

E nós, amantes dessa dança divina, aplaudiremos e reconhecemos na grandeza de Mayombe Masai a "voz que não se cala", o "grito de Zumbi", a manifestação única e fascinante da figura do passista de carnaval retomando seu posto de "dono do samba’, outrora confiado a personalidades alheias a essa festa por força do colonialismo cultural que alijou os nossos crioulos e mulatas dos requebros que a eles pertencem.

É justo que se mencione a presença da linda mulata passista Luana Bandeira a seu lado, fazendo par como deusa e rainha da bateria do Leão do Samba. Juntos, eles representam a dignidade dos passistas, a raiz do samba genuíno, a glória da batucada.

Salve, salve...Salve o Velho Estácio de Ismael, glória do samba brasileiro! Salve a arte genuína dos passistas de escola de samba!

Salve Luana Bandeira, divina musa e rainha da bateria vermelha e branca!

E salve o Rei Negro Mayombe Masai! Nossa reverência, nosso carinho, nossas palmas ao dono da coroa real do samba no pé!

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17/11/2014 16h20

Metrossexuais do samba!
Hélio Ricardo Rainho

O mundo mudou. Pesquisas de marketing registram que, hoje, o consumo de moda masculina disputa meio a meio a compra de roupas, acessórios etc com as mulheres. É a ascensão dos novos dândis, os "metrossexuais", habitantes antenados das metrópoles que associam com perfeição estilo e masculinidade.

E, já que a roupa traduz não apenas estilo, mas também personalidade, fizemos uma visita pelo mundo do samba para destacar dez personagens cheios de cuidados com o look, mandando ver na produção. Entre mestres-sala, presidentes, ritmistas e passistas, todos encontraram um estilo de se destacar. Aproveite para tirar ideias e compor o seu visual.

Manda ver, malandragem!!!

Yan Nascimento. Foto: Reprodução

Marcos Falcon . foto: Reprodução

Matheus Beckford. foto: Reprodução

Bruno Diaz. Foto: Reprodução

Thiaguinho Mendonça. Foto: ReproduçãoVitinho. Foto: Reprodução

Valci Pelé. Foto: Reprodução

Diogo Jesus. Foto: Reprodução

Gabriel Castro. Foto: Reprodução

 Felipe Nascimento. foto: Reprodução

* Hélio Ricardo Rainho, blogueiro SRZD-Carnaval

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12/11/2014 15h57

Independente na identidade!
Hélio Ricardo Rainho

Em tudo, por tudo, ela é original. Parece ter sido uma escola de samba nascida para fazer a diferença. Por ela passaram, historicamente, os carnavalescos mais expressivos e inovadores. Seu povo, sua gente, expressam a força de uma região cuja territorialidade (a zona oeste) - a partir dela - passou a afirmar-se como reduto de samba, expresso em títulos, conquistas e carnavais inesquecíveis.

Estamos falando, é claro, da gloriosa Mocidade Independente de Padre Miguel. A escola, que no último dia 10 completou 59 anos, é uma das mais importantes agremiações do carnaval carioca e, por extensão, patrimônio da cultura nacional.

O Descobrimento do Brasil. Foto: Jornal Extra

Nada é por acaso. Brasileira como ela é, a Mocidade tornou-se escola de samba a partir de um time de futebol, o Independente Futebol Clube. E é por isso que seus correligionários são tão apaixonados e fervorosos quanto torcedores de arquibancada. Taí a rede social para mostrar isso.

Afilhada da Beija-Flor, foi a Mocidade Independente quem revelou ao mundo a cadência de uma bateria capaz de realizar paradinhas e efeitos diferenciadores da sonoridade das demais escolas de samba. Ao ascender ao grupo principal dos desfiles em 1958 com seu enredo "Apoteose ao Samba", a escola apresentou a bateria mágica de Mestre André, caracterizada por suas "paradinhas". Um fenômeno que durante anos tornou-se "assinatura" dos ritmistas de Padre Miguel. Com o passar do tempo, outras baterias assimilaram a performance, mas a bateria da Mocidade permaneceu única em seu estilo de fazer as paradinhas. Lamentavelmente, por uma imposição inaceitável dos organizadores dos desfiles, hoje todas as escolas de samba são obrigadas a realizar paradinhas, o que tornou comum um estilo peculiar e identitário até então característico dos independentes...

Carnaval 2001. Foto: Reprodução de internet

É grande a contribuição artística da Mocidade Independente no desenvolvimento plástico do carnaval. Sua primeira vitória foi conquistada com o genial Arlindo Rodrigues apresentando "O Descobrimento do Brasil" em 1979. A Mocidade celebrizou o estilo irreverente e a estética daquele que efetivamente "casou-se" com a escola e deu-lhe personalidade: o eterno gênio Fernando Pinto.

Ao desenvolver o enredo "Tropicália Maravilha" em 1980, Fernando consolidou sua forma tropicalista de fazer carnaval, iniciada em 1972 com o "Alô, Alô, Taí Carmem Miranda" campeão pelo Império Serrano. Seguiram-se o aclamado "Como Era Verde Meu Xingu", o irreverente "Mamãe Eu Quero Manaus" e a antologia "Ziriguidum 2001 - Um Carnaval nas Estrelas", onde a escola conquistou seu campeonato numa leitura futurista em que o carnaval visitava o espaço sideral, protagonizando um dos momentos mais extraordinários da história dos desfiles.

Nos anos 90, a Mocidade teve sua fase "bicho-papão" consagrando outro grande nome dos carnavais, o perfeccionista Renato Lage. Foi lá que o carnavalesco ganhou seu primeiro campeonato com o "Vira, virou, a Mocidade chegou!", no qual a escola comemorava seu aniversário rememorando suas grandes "viradas" históricas.

Marilene, passista Mocidade. Foto: Reprodução Facebook

Foi também a Mocidade Independente quem celebrizou aquela que, para muitos, foi a melhor ala de passistas de todos os tempos, na década de 90, dirigida por Marilene, referência absoluta de célebres passistas atuais. Como se sabe, até o final dos anos 70 e início dos 80 os passistas desfilavam espalhados pela escola. É comum ouvir deles que sua afirmação como um segmento disposto em alas consagrou-se justamente na Mocidade. Marilene é uma figura mítica, antológica, reverenciada por seu trabalho nessa época.

A Mocidade chega para 2015 se reinventando e reinventada. Pronta para surpreender e impactar. Em seu compromisso de inovação e ousadia, trará para a avenida um dos desfiles mais esperados do ano: um enredo sobre o fim do mundo, desenvolvido por ninguém menos do que Paulo Barros!

O que temos aprendido, nesses muitos anos de pesquisa e estudo das escolas de samba, é que sua fenomenologia transcende os desfiles, as competições, os campeonatos.
A razão de ser da escola de samba é agregar sentido, territorialidade, conjunção de ideais e símbolos culturais espelhados por uma determinada bandeira, um pavilhão.

E, sob o manto verde e branco da Estrela Guia de Padre Miguel, há 59 anos a comunidade da zona oeste da Cidade Maravilhosa faz brilhar o seu orgulho, a sua devoção e a sua paixão por esta que é uma das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro.

É com honra, carinho e respeito que se comemora a o aniversário da grandiosa Mocidade Independente de Padre Miguel...
Não existe mais quente! Salve a Mocidade!!!

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20/10/2014 11h16

O samba-enredo em questão
Hélio Ricardo Rainho

O samba-enredo, razão de ser e de viver da escola de samba, vem se constituindo, em meu juízo critico, num elemento perturbador do cenário das escolas de samba. Não obstante a sua importância dentro da lógica dos desfiles, vem adquirindo, a meu ver, contornos negativos em alguns de seus aspectos. E antes de fugir das discussões sobre os problemas que envolvem esse elemento dos desfiles (e passa mesmo, porque cronistas sempre preferem jogar confete em vez de filosofar), fica aqui a minha proposta de reflexão sobre esse assunto.

Foto: Reprodução de InternetDisputa de samba-enredo nunca foi muito pacífica. Ok, isso é lugar comum do samba e, se fosse esse tão somente o meu tema, não haveria muita necessidade de discorrer sobre ele aqui nas linhas que sucedem. O problema é que a rivalidade adquiriu contornos tão estranhos que, por sua conta, criaram-se esferas de pensamento, a meu ver, totalmente equivocadas sobre essa forma de disputa.

Vamos lá. O primeiro grande vilão disso foi, desde sempre, o comercialismo envolvendo as disputas. Fator claro. No meu entendimento, em meio a tantas coisas que se faz de graça e com esforço próprio dos sambistas, o valor do prêmio aos vencedores do samba-enredo sempre me pareceu discrepante, alto demais. Desnecessário até. Razão pela qual começou a ocorrer todo tipo de situação para uma disputa que notoriamente tornou-se mais financeira que ideológica, descaracterizando muitas vezes a escola e até afastando os notórios da comunidade do processo seletivo. Em bom português: o dinheiro passou até a comprar resultados!

As escolas de samba passaram a se preocupar menos com a qualidade de suas alas de compositores, a desenvolver menos as habilidades musicais e o conhecimento histórico do panteão de seus poetas, trazendo "estrangeirismos" inusitados (muitas vezes por exigência, também, dos carnavalescos). Morreram os sambas-exaltação, os sambas de quadra. Compositor de escola de samba não precisou mais compor hino à escola, declarar seu amor a uma bandeira para constituir uma ala: bastava chegar e entrar...tá tudo certo..."traz seu ônibus com torcida e confete que você tá na disputa".

Bem, eu sou purista nesse assunto, e acho isso tudo horroroso! (Tinha outros termos, mas preferi usar este: "horroroso"!).

Mas aí é que tá: "a toda força de ação corresponde uma reação". E, sob a égide desse raciocínio, ou tentando reagir contra a força dele, veio uma onda de "reinvenção musical". Que me causa o mesmo medo. O samba-enredo precisa ser "reinventado", "reprocessado", "recuperado", "re-re-re"...! É tanto "re" na jogada que corre-se o risco de, por um acento, ativar-se uma "marcha ré"!

Teoriza-se tanto sobre esse assunto...e eu fico pensando se, alguma vez na vida, Mestre Silas de Oliveira - o maior de todos - teve essa pretensão teórica de idealizar os sambas antológicos que compunha. Venho um pouco mais perto: o genial Martinho da Vila, contemporâneo, mentor de coisas absurdamente geniais e inigualáveis como um samba de versos arquitetados matematicamente com a cadência literária do poeta Drummond ("Sonho de Um Sonho" - Vila Isabel 1980) ou a ousadia máxima de um samba impecavelmente construído sem nenhuma rima ("Raízes" - Vila Isabel 1987). Nunca vi Martinho dar uma entrevista sequer dizendo que "queria mudar a história do samba" ou que "queria reeditar o samba autêntico". Bastou-lhe a nobreza da inspiração! O resto foi mera consequência.

Imaginem vocês se, de fato, houvesse, em meio a tantos compositores, uma mente iluminada capaz de, em 2014, "ressuscitar a "poesia perdida" do gênio Silas...! Meu Deus, com tanto dinheiro em jogo, quantas escolas não se esfalfariam para comprar seu passe, ter sambas só dele, eternizar sua mente privilegiada ou vocação sobrenatural diferenciada!!! Pensando nisso, sinceramente, desacredito totalmente dessa pretensão descabida. Fico só aguardando o melhor samba, o grande samba, a obra-prima, sem esse discurso institucional que diferencia um dos demais, criando - a meu ver - dissensão.

Aliás, nunca vi Martinho concorrer em doze ou dezenove escolas ao mesmo tempo. Eu devo mesmo ser um anacrônico com esse meu discurso...

Mas a grande ameaça dessa lógica toda é que, à mercê de tantos juízos e pretensões, as alas de compositores estão se digladiando, as vaidades estão aumentando. E nós, a imprensa virtual, único reduto da comunicação onde se cobre carnaval como MANIFESTAÇÃO CULTURAL que acontece O ANO TODO, percebemos quão intensas são as disputas, as provocações, as inimizades, as sensações de abandono ou perda da parte de nossos compositores. Muitos deles já consagrados, outros ainda novatos... não importa: é absoluto o número de compositores que rapidamente se enfurecem ou se envaidecem por seus feitos, por acharem que foram lesados, que sofreram críticas injustas etc. Uns não falam com os outros! Aquela Velha Guarda linda de compositores que morrem amigos não inspira mais ninguém. A lógica que prevalece é outra: em vez de valorizarem a escola, valorizam seu próprio valor. Talvez isso seja apenas efeito das redes sociais, que rapidamente nos fazem saber o que, antes, só se reclamava numa rodinha de amigos para os mais chegados. Agora, toda difamação, toda vaidade, toda arrogância, toda cisão e todo aborrecimento se tornam públicos muito rapidamente.

Minha hashtag é: #MedoDeQuemLegislaEmCausaPropria !

E a audiência acalora o debate: tá cheio de "analistas", gente "dando aval", difusores do que se quer e do que não se quer ouvir! Os sites publicam 30 sambas concorrentes de cada 12 escolas do Grupo Especial e 17 da Série A...e, no dia seguinte, todo mundo "já sabe" - dentre 870 obras - quem são "os melhores", quem descreveu melhor o enredo, quem tem mais poesia, quem "traduziu melhor a ideia do canvavalesco" (sim, eles sabem o que os carnavalescos pensam...) etc etc etc. Como assim???

Meu temor é perceber que a disputa assume cores tão comerciais ao ponto de, muitas vezes, privar uma escola de fazer uma festa de confraternização, em vez de rivalidade. Porque o momento em que a escola de samba mais se parece com a rivalidade estulta do futebol é justamente o momento da disputa de samba. E torna-se ainda pior do que o futebol, porque, aí, a rivalidade não é nem ao menos entre bandeiras diferentes: é dentro da mesma torcida! E time cuja torcida briga sozinha, sinceramente, não tem o meu respeito.

Tenho me posicionado há alguns anos um pouco distante das análises dos sambas-enredo. Porque estou trabalhando no carnaval para comentar o coletivo, o trabalho da escola. E o samba-enredo anda tão "à parte", tão "ele mesmo", tão "do dono" que eu prefiro não emitir muito juízo nem valor sobre isso...

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29/09/2014 14h33

A teatralidade caprichosa dos passistas de Pilares
Hélio Ricardo Rainho

Um fenômeno interessante e extremamente relevante na compreensão e estudo dos passistas de escolas de samba contemporâneos diz respeito á teatralidade que, cada vez mais, é emprestada à organização e à apresentação das alas. Como bem sabem os que acompanham essa manifestação artística dentro das escolas de samba, a dança do passista evoluiu de seu sentido original - onde era executada de forma individual, isolada - para um contexto coletivo - agrupada em alas a partir dos anos 80. Nessa reorganização espacial dos artistas da dança do samba, algumas características foram sendo modificadas para acompanhar a lógica de suas apresentações e também o contexto cada vez mais "espetacular" dos desfiles.

Os figurinos "individualizados" dos passistas, que a princípio desfilavam "espalhados" pela escola dentro de outras alas, passaram a ser padronizados para que pudessem constituir um conjunto uniformemente estético em uma ala que os congregasse. Vieram então as "fantasias", e a consequente "personalização" para tipificar os enredos. Não obstante as nossas reiteradas críticas à falta de entendimento de boa parte dos carnavalescos de que "fantasiar" um passista não pode nunca descaracterizar sua imagem tradicional ou prejudicar a sua dança com roupas pesadas demais, é conveniente citar que esse novo modelo potencializou os dançarinos como performers, permitindo-lhes atuar como atores de um teatro musical ou "vaudeville de rua", que seria a ópera bufa do carnaval.

Pouco a pouco, as alas passaram a desenvolver conteúdos performáticos em suas apresentações. Não apenas na avenida, mas principalmente nas quadras de ensaio ou shows da escola. Tivemos vários exemplos já citados por este colunista em matérias anteriores (Portela, Vila Isabel, Império Serrano, Mocidade, Salgueiro). Em meu estudo específico sobre arquétipos do samba, que culminou numa palestra acadêmica e numa de minhas colunas aqui no SRZD também, destaquei a relevância desse trabalho.

Tivemos, na final de samba-enredo da Caprichosos de Pilares, um relevante e representativo exemplo dessa manifestação. A diretora responsável pelo grupo da Caprichosos é ninguém menos que Kátia Suzuki, uma das mais conceituadas e respeitáveis passistas de ofício de nosso carnaval. Kátia é exemplo dentro do meio em que atua: uma mulher dinâmica, inteligente, bem articulada, capaz de conduzir uma ala de faixa etária muito jovem (das mais jovens de nosso cenário atual) com grande eficiência, implantando pouco a pouco um trabalho autoral que possa conferir aos caprichosos uma marca significativa no carnaval carioca.

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

A ala fez uma representação dramática, na final de samba-enredo, que destacava o enredo a ser apresentado em 2015, "Na Minha Mão é Mais Barato". Em consonância com a proposta da escola de falar sobre o comércio popular, foi apresentada uma coreografia destacando algumas formas de comércio presentes ao longo da história do Brasil.

Na abertura, foi retratado o comércio do europeu com os índios, o conhecido "escambo", retratando o uso do pau-brasil como moeda de troca por espelhos. O comércio das mulheres negras - as "pretamandingueiras" identificadas na sinopse - foi retratado por vendedoras de quitutes. Essa primeira parte foi encenada pelas cabrochas passistas de Pilares. O passista masculino Jonathan ribeiro destacou-se com uma levada de dança afro perfeitamente inserida no contexto da apresentação, em meio às belas mulatas da escola.

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

Os malandros passistas entraram em cena no que seria o segundo ato dessa apresentação teatral: ao som de "Moça Bonita Não Paga", samba enredo de 1982 que homenageia a feira livre e o mercado popular. os trejeitos malandros foram emprestados cenicamente à cadência descontraída dos feirantes, personagens típicos de um comércio popular ainda bastante comum nos subúrbios cariocas. E as passistas representaram as consumidoras charmosas a provocar o encanto e a cortesia dos vendedores de flores e outros produtos na rua.

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

Como se pode perceber, o esforço desse segmento em sobreviver ao esmagamento cultural proposto pela espetacularização é surpreendente! Num dado momento em que todas as circunstâncias do carnaval parecem acuar o passista, tirando-lhe as forças e a estrutura para mostrar aquilo que ele sabe melhor fazer, que é dançar graciosamente o samba, o passista se reinventa. Como uma fênix nascida das cinzas, o passista de escola de samba reedita seu papel, insere-se no contexto espetacular, reinventa sua arte sem perder o fio de sua tradição. O trabalho excepcional de Kátia Suzuki e dos maravilhosos passistas da Caprichosos de Pilares é uma prova viva de que essa arte genuína e original não está morrendo; sequer agoniza: estão vivos e plenos de criatividade, força e pujança, se reinventando e, por extensão, reinventando o carnaval.

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

Se analisarmos a apresentação dinâmica e contextualizada da ala de passistas da Caprichosos de Pilares, percebemos um complexo sentido de organização dramatúrgica, desde a concepção de um roteiro temático que descreve cena a cena a proposição do enredo, até a construção dos personagens e sua disposição cênica, misturando princípios da marcação teatral (noção de espaço procênico) até os aspectos coreográficos constitutivos de um corpo de dança. Ao fim de tudo - e o que é mais bonito! - a soltura, a graça, a originalidade, o improviso e o requebro de nossos graciosos passistas...a dança do samba, o samba brasileiro, a cadência que só existe nesta terra, neste chão, neste lugar! Todos juntos num grande "bloco de rua", carnavalizando a história, de forma exemplar. Um achado!

Foto: Fátima Sombra - Ritmo Carioca

Saibamos todos, pois, que, debaixo do viaduto, existe vida artística, furor cultural, excelência! Salve nossos gloriosos passistas da Caprichosos de Pilares... Diego Andrade, Jonathan Ribeiro, Fábio Galvão, Marlon Tavares, Gabriel Lima, André de Paula, Daniel Santos, Leandro Ramos, Michelle Baixinha, Tatiane Silva, Elaine Oliveira, Keyce, Bella Bombom, Mari Carvalho, Nicole Musa, Jana Lima, Thaís Martins, Nega Lu, Adriana Brum, Carol Dorico, Thamires e Vitoria Carvalho... à frente do pelotão, Katinha Suzuki e Ricardo Fernandes! Nossa reverência, carinho e apreço a esse povo que se mantém fiel às tradições, sabendo, contudo, abrilhantar com amor e empenho, a grandeza do samba!

Como são lindos os nossos malandros e cabrochas exibindo sua arte sem par! Mais uma vez, o Povo de Pilares caprichou! Salve, salve!

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