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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Carioca, publicitário, MBA em Marketing, ator, diretor teatral, escritor, pesquisador de escolas de samba, futebol e teatro. Twitter: @hrainho

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11/04/2014 00h01

Portela: 91 anos deste azul!
Hélio Ricardo Rainho

Hélio Rainho. Foto: Arquivo Pessoal

Você sabe o que é ter um coração azul, apaixonado, servil, devotado a uma causa? Você sabe o que é sentir o peito arfar de paixão, a alma se elevar de contento, o braço arrepiar de encanto e a lágrima te descer o rosto por tamanha comoção?

Nisto tudo somos 91 vezes Portela!

Uma chama que não se apaga, um arrastão de emoção que congrega baluartes, passistas, Velha Guarda, mestre-sala, porta-bandeira, ritmistas, baianas, destaques, diretoria, componentes fiéis e um séquito de torcedores devotados a viver e morrer por um pavilhão!

Nós, que somos GUERREIROS DA ÁGUIA, não podemos definir, em vãs palavras, o sentimento que nos inflama quando, irmanados, agregamos nossas forças para representar essa escola! Veste-se o nosso interior de um azul infinito que as tramas de texto não conseguem compor...é um azul que vivifica nossa certeza de ser a Portela a nossa escola, a nossa virtude, a nossa primazia!

Num tempo em que muitos valores estão invertidos, encontram-se aos pares aqueles que pretendem, na escola de samba, serem "valorizados" ou "reconhecidos".

Não penso que deva ser assim.

Como "guerreiro da Águia", embevecido, escolhi eu mesmo valorizar essa escola, reconhecer essa escola, fazê-la mais reconhecida.

Porque nem eu, nem você - portelense inveterado - jamais teremos em nenhum de nossos pares alguém capaz de devolver o amor soberano, distinto, imorredouro que a Portela despertou em nós. Por esta verdade lógica, recuso-me pois a delegar a outrem a obrigação de me valorizar ou reconhecer na mesma medida em que eu amo e reconheço essa escola...a minha escola...o meu azul...a minha paixão!

Vimo-nos radiantes e extasiados no desfile 2014, engrandecidos e grandiosos, exaltando as raízes e glórias do samba com nossa Velha Guarda 18 quilates causando comoção por representar a verdade histórica da avenida.

Temos por essa escola um amor tão genuíno que só nos resta dizer: leva contigo, PORTELA, uma lágrima comovida de cada um de teus portelenses...no riscado de teus passistas, no bailar de teu pavilhão, no giro contínuo de tuas formosas baianas e no canto devotado e vigoroso de cada componente que te faz ser grandiosa, potente...simplesmente MAJESTADE!

Teus tambores não se calam, tua força ninguém contem!
Força do povo, emanada da natureza.
Céu azul de branca pureza.
Cultura, arte, resistência.

"É voz que não se cala, é canto de alegria no ar"...

Parabéns, PORTELA! 91 anos de ESCOLA DE SAMBA!
(coluna transcrita do site Guerreiros da Águia - www.guerrreirosdaaguia.com.br)

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31/03/2014 13h48

Por uma alforria das escolas de samba!
Hélio Ricardo Rainho

Semanas após o carnaval, o enredo é o silêncio.
Pronto. Acabou.
Os erros, os descasos, as injustiças, as justificativas veementemente acéfalas passaram.
E o que fazemos de tudo isso?
Calamos, silenciamos?!
Não. Ah...não mesmo!!!

Não estudei Comunicação Social para tão somente dominar a técnica, manusear a ferramenta, executar os recursos. Meu interesse foi pela Comunicação como ciência social. Ou seja, antes mesmo de aprender a utilizá-la, minha alma me impulsionou a questioná-la, "filosofá-la", pensar sobre a ética em seu uso.

Aqui me intitulam "blogueiro", e confesso que ainda acho esse termo pejorativo. Parece que ser "blogueiro" é sair por aí irresponsavelmente escrevendo o que se quer onde se pode. Mas entendo que o uso desse termo em um site profissional e dedicado como este seja justamente para reforçá-lo como profissional sério, consciente, e distingui-lo de ser apenas "alcunha", a ser usada por qualquer um. Uma professora de Antropologia ensinou-me que os comunicadores sociais seriam os "feiticeiros eletrônicos do século XXI". Juntei a isso a frase-símbolo do personagem Homem-Aranha: "grandes poderes, grandes responsabilidades". Penso assim: não adianta exercer sem servir.

Ora, se não quero ser "qualquer um", não posso me dar ao silêncio e me igualar aos agentes de comunicação monopolistas e seus mancomunados que absorvem o carnaval como festa sazonal e, dentro dela, atiram a escola de samba, subjugada a produto de uma festa, como uma laranja podre dentro de um saco.

Não é!

Foto: Reprodução de Internet

A escola de samba "acontece" o ano todo; ela "apenas" desfila no carnaval. Me desculpem, senhores vendedores de laranja podre! Não queiram nos igualar a seus seus restos de xepa! A escola de samba é alma, é resistência, é quilombo cultural, é ancestralidade. Temos muito mais a dizer do que um enredo fala! A escola de samba "já viu você chorar na hora do seu desfile encerrar"; a escola de samba "é patente, só demente que não vê"..."atrás da escola de samba só não vai quem já morreu"! Insensíveis, dementes e mortos são vocês! Nós, a escola de samba, estamos vivos!

A forma burra, interesseira e usurpadora com que a grande mídia trata a escola de samba tenta nos convencer de que estamos assistindo a uma coisa pequena e oportuna, sem referência nem "representamen", como um objeto de consumo. É o que Guy Debord chamava de "Sociedade do Espetáculo". E é por isso que, dentro dessa lógica, a mídia se cala e consente a insuficiência mental e ética dos nossos jurados: porque ambos - mídia e jurados - são, por consenso, distantes e alheios daquilo que exibem e julgam. Estrangeiros de sua própria festa, acreditam que bundas e carroças de cachorro-quente são figuras mais imponentes do que a águia, a coroa, a estrela, o pavão.

Para eles, o dono do carnaval é o piloto, não o crioulo! Eles querem Michael Jackson, não Nélson Sargento! Assim como, um dia, tentaram envelopar o samba africano, crioulo e favelado num modelito americanizado, jazzístico, zona sul, "pra inglês (branco) ver", substituindo o grito de Zumbi pelo "canto baixinho" de joões&gilbertos sem graça nenhuma, sem respeito por público nenhum, endeusados até hoje por intelectuais burgueses e baba-ovos da vez que cultuam grosserias e destratos.

Reparem como reinventam nossos sambistas aprisionando suas formas em seus conteúdos: o sambista que comenta os desfiles é o animador de auditório do "Esquenta", nunca o compositor célebre de sambas-enredos dignificadores do ofício. Porque a grande mídia faz a escola de samba estar na TV dos brancos e abastados da mesma forma que a favela, os crioulos e pobres estão no cinema e na novela das oito: com a concessão de só ocuparem o espaço se puderem ser retratados como seres primitivos, inferiores, exóticos, extra-sociais. Ou somente após serem redefinidos e redesenhados segundo seu diapasão.

Certa vez contemplei, num desses camarotes de avenida que me dão náusea, disputados a tapa por alguns colegas de ofício, uma cena desoladora. Um passista negro sambando numa nuvem de brancos abastados, sendo abordado como quem solta um bicho de uma jaula e diverte-se ao vê-lo sacolejar em meio aos nobres. Uns queriam tocar-lhe como quem se acha no direito (tipo "paguei por isso"); outros evitavam o contato físico porque admiravam o "profano" sem almejar "corromper-se" tocando.

Pois assim vejo, genericamente falando, a postura de submeter nossos artistas de escola de samba ao crivo desses jurados: é uma reinvenção de nosso antigo ritual de expor os negros escravos à revelia do gosto peculiar dos senhores de engenho, que lhes davam "nota" por uma boa arcada dentária, "premiando" apenas aquilo que lhes serve ou interessa, sem respeitar a individualidade e o valor intrínseco daquele que está se exibindo.

Com o passar dos anos, o negro afirmou seus direitos, reiterou suas lutas. Mas ainda não se conscientizou de que, na escola de samba, está escravo e cativo ao senhorio dos "emissores de nota", numa postura subserviente, sendo obrigado a cortejar e cativar uma bancada de nativos estranhos ao seu meio, na situação degradante de implorar uma nota que não vem. Porque os donos do engenho castigam quem eles querem, engrandecem quem lhes convém, e tripudiam da justiça e da sociedade com justificativas que debocham da racionalidade de todo mundo, gargalhando como hienas em seu abusivo exercício de poder.

Não é de se admirar a sua repulsa "à batucada que se espalha nesse chão"!

Lembrei-me do ritual de lavagem do Sambódromo. Embora não sendo agnóstico, me oponho ao misticismo exagerado que privilegia o ritual em detrimento do rito. A avenida não precisa de descarrego com litros de cachaça, nem de lavagem da passarela com terreiros antes dos desfiles.

A verdadeira lavagem de que se precisa é o descarrego da subserviência, das estruturas de burrice, do monopolismo, do desrespeito e da ignorância desses falsos senhores de engenho que chibatam a nossa cultura e a reduzem a números fracionados e notas burras escondidas num papel, cuspidas na nossa cara ano após ano numa quarta-feira de cinzas...

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20/03/2014 16h05

Descortinando Paulo Barros
Hélio Ricardo Rainho

O ano era 2004. A Unidos da Tijuca lançava-se na avenida com um samba discretamente cantado, um enredo quase desapercebido. Para muitos, o Pavão Azul do Morro do Borel rumava para um provável rebaixamento, até. Desconfiança aumentada sobretudo pela visão de um de seus carros no barracão: uma imensa estrutura de ferro com andares e plataformas, sem qualquer acabamento alegórico visível. Ao desfilar seu singular enredo "O Sonho da Criação e a Criação do Sonho: A Arte da Ciência No Tempo do Impossível", o carnavalesco surpreendeu a audiência com um desfile impecável, fundindo história, ciência, ficção científica, desvario onírico, referências lúdicas...e um extraordinário carro de componentes tingidos de azul representando os filetes de DNA, inserido de imediato na antologia das escolas de samba. A escola surpreendeu a todos e cravou um digníssimo 2° lugar.

Veio 2005 e Paulo Barros já era o carnavalesco mais esperado na avenida. Em um ano, virou coqueluche, esteta, revolucionário, sensação. Repetiu, pois, a dose de genialidade com seu enredo "Entrou Por um Lado, Saiu Pelo Outro... Quem Quiser Que Invente Outro!", propondo uma extraordinária viagem por universos imaginários, civilizações perdidas, "bruxas, vampiros, fantasmas da vida". Na exuberância de seu enredo, ousou trazer de sua abstração temática uma conclusiva reflexão filosófica a todos nós, "humanos dominados pelo mal", acerca do mau uso da inteligência humana na exploração do planeta. Um achado! E novamente um 2° lugar.

Foto: Reprodução de InternetEm 2006, numa proposição mais conceitual e menos filosófica, arrebatou a Sapucaí com o enredo "Ouvindo Tudo Que Vejo, Vou Vendo Tudo Que Ouço", propondo-se a transformar o som - tema de seu enredo - em imagem. Um desafio que só um grande artista ousaria lançar. O público, então já familiarizado com os delírios abstratos do gênio criativo nos anos anteriores, rendeu-se às soluções de fácil leitura e vibrou extasiado com a passagem da Tijuca. Um injusto 6° lugar deixou de conferir ao desfile a grandeza vista na avenida.

Nesses três primeiros anos, Paulo Barros consolidou alguns elementos de sua proposição carnavalesca. Consagrou como autorais as chamadas "alegorias humanas" (notem: não apenas alegorias cheias de gente em cima, criação esta de Fernando Pinto, mas alegorias literalmente formadas por gente, dando-lhe caráter funcional). Reiterou sua predileção pelo uso de referências ao ideário da cultura pop (clones de celebridades, personagens de ficção, super-heróis e muitas citações cinematográficas ilustrando seus enredos). Caracterizou a essência de seus trabalhos numa combinação direta entre recursos de engenharia e efeitos especiais, executados com notória preponderância sobre o requinte plástico e as belas artes - uma contramão da realidade pretendida por todos os carnavalescos desde que o desfile é desfile.

Paulo Barros foi comparado a Joãosinho Trinta. Honra máxima e suscitada polêmica. Para muitos, a genialidade de João estava longe de merecer tal comparação. Este pesquisador que aqui versa acredita caber, sim, alguma comparação. Explico. A "verticalização dos desfiles" - grande revolução estética e conceitual do mago João, fundindo o estilo luxuoso das grandes sociedades ao desfile das escolas de samba - passou a ser padrão adotado por todos. Sob essa ótica, Paulo Barros fez algo ainda mais complexo: reintegrou o componente de chão ao protagonismo dos desfiles ao "fundir" o sambista à alegoria, fazendo com que o elemento alegórico só pudesse funcionar na dependência do elemento humano. Mais que isso: de forma tão autoral que qualquer outra escola que assim o fizesse estaria deslavadamente "imitando" o estilo Paulo Barros de fazer carnaval. Para além de Joãosinho, não só criou o modelo como o tornou irreversivelmente autoral. Reproduzi-lo significaria plágio gritante.

O carnavalesco, já "queridinho da mídia", alavancou os três títulos recentemente conquistados pela Tijuca. Tornou-se, assim, um carnavalesco histórico a reposicionar uma escola de samba, até então vista sempre como mediana e não competitiva. A comissão de frente do enredo "É Segredo!", para muitos, fez a diferença para vencer o campeonato de 2010, fazendo com que , daí pra diante, esperar pelas comissões de frente de Paulo Barros passasse a ser um atrativo a parte no carnaval. Em 2012, fugindo de temas abstratos mais uma vez, Paulo homenageou o rei do baião Luiz Gonzaga e desaguou seus personagens pop figurativos para a coroação do homenageado. Uma impactante alegoria humana feita com homens de barro mais uma vez fez de um de seus carros a vedete do carnaval. Novamente Tijuca campeã!

Neste 2014, foi com a controversa e nada carnavalesca homenagem a Ayrton Senna que Paulo saiu campeão pela Tijuca, surpreendendo outras favoritas.

Das passagens discretas de Paulo Barros fora da Tijuca, pode-se registrar, pela Viradouro, um dos momentos mais emblemáticos dos desfiles na era Sambódromo: uma alegoria virada do avesso representava a "virada de jogo" no enredo "A Viradouro Vira o Jogo" (2007). Seguindo seu conceito de instalação artística, o trabalho surpreendia por conceber, com propriedade e perfeição, o avesso criativo de um dos elementos primordiais da estética dos desfiles. Virar uma alegoria do avesso para que ela pudesse funcionar efetivamente como alegoria foi uma reversão conceitual inusitada e fantástica!

Autêntico, arrojado, ousado. Paulo Barros acaba de ser anunciado pela Mocidade Independente de Padre Miguel para 2015.

O maior feito de todo grande artista é, sem dúvida, saber se reinventar. O incômodo da pulsação artística acaba naturalmente impelindo o artista a isso. O próprio Joãosinho Trinta, bastião dos carnavalescos, soube fazê-lo com muita propriedade. Fernando Pinto adaptou a estética tropicalista a um contexto de crítica política e social. Renato Lage viajou do neón para o rústico com a mesma grandeza. São três de muitos exemplos.

Paulo criou uma proposta de desfile de escola de samba que, ano após ano, saiu de um modelo de carnavalização de temas abstratos para a realização de desfiles no melhor estilo "parada americana". A grande mídia, inadvertidamente, converteu parte da estética desse artista em preâmbulo para apregoar um modelo anticarnavalesco nos desfiles da avenida, privilegiando referências inversamente afeitas às tradições do samba, destacando o descartável em suas coberturas. Correu-se então, pela mídia dominadora e difusora do evento, o risco da escola de samba perder toda a sua proposição e engajamento discursivo originais em prol de uma estética pop, descartável, privilegiando personagens alheios não à tradição conservadora, mas à raiz propagadora das verdades do samba.

A culpa não é de Paulo Barros, é claro, nem tampouco da Unidos da Tijuca. Burrice seria dizer isso. O modelo anticarnaval ameaça, inclusive, o grande artista e a grande escola, sujeitos ao aprisionamento no cárcere da exigência impositiva da mídia e dos jurados alheios ao samba. O próprio carnavalesco parece ter saído da escola tijucana para libertar-se desses estigmas, demonstrando algum desgaste e a necessidade de trabalhar enredos próprios, conceituais, autorais.

Neste momento, acredito eu, precisará se reinventar. Está em uma escola de enorme tradição em inovações artísticas e celeiro de carnavalescos renomados. Deverá levar consigo a essência de sua criatividade e aposta no inusitado, mas certamente encontrará no chão de escola de Padre Miguel a necessidade de revisitar seus temas mais abstratos, mais emblemáticos.

Esperamos, sinceramente, que a arte de Paulo Barros se reencontre consigo mesma e floresça na Mocidade. Afinal de contas, "independente na identidade" é tudo o que ele sempre foi...

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Leia também:

- Blog da Rachel Valença: 'Troca-troca de Quaresma'


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13/03/2014 12h28

Um basta ao anticarnaval
Hélio Ricardo Rainho

Findos os desfiles de 2014, este comentarista e pesquisador de carnaval para, medita, pondera. Por fim, rende-se a uma constatação: o Sambódromo caminha para uma total "descarnavalização"! O princípio da "carnavália", que é a reversão da realidade, a sublimação da vida, o satírico e o lúdico sendo revelados em tom de alegoria na avenida, parece ter perdido o encanto! Reage, minha gente: senão cairemos no alçapão da destruição da verdade do samba, chafurdando num anticarnaval!

O samba - o velho samba mulato velho, procissão festeira dos pobres favelados ao som de rufares de tambor africano - está sendo desprezado e atropelado pelo fascínio televisivo e por uma roupagem comercial que insiste em empastelar a arte popular em forma de DVD espetaculoso para inglês ver. E a escola de samba - coitada! - já não tem mais espaço para mostrar sua verdadeira essência, sendo obrigada a se render a modismos e descaracterizações bizarras em prol de uma espetacularização midiática sustentada pela ditadura da televisão e pelo juízo temerário dos jurados caneteiros.

O que seria, no século XXI, uma "escola de samba", afinal? Não sei... ninguém sabe. Salgueiro e Portela foram, este ano, escolas maiúsculas. Cumpriram todos os quesitos possíveis para isso: tinham sambas de verdade, enredos de verdade, chão de escola de verdade, baterias de verdade e trabalho plástico capaz de agradar aos dois pomos de exigência: requinte estético e grandeza espetaculares, profundidade na tradição e nos valores intrínsecos ao panteão do samba. Foram completas, verdadeiras. Mas não o suficiente para vencerem o "novo carnaval", este que foi "descarnavalizado"...

Sinfônica Império Serrano. Foto: Ary Delgado

Qual seria o destino das escolas de samba de verdade, afinal? Posso citar ao menos duas que vi passando na avenida. Com seus erros e acertos, começo pelos dois Impérios. O chamado "Imperinho", o da Tijuca, numa passagem esplêndida pela avenida, ovacionado, com coro unânime de que "não cairia". Porque não disputou pra não cair: disputou pra voltar no sábado das campeãs. Teve trabalho caprichado, um samba de verdade (raridade no balaio de bruzundangas musicais do Especial deste ano, alguns dignos de pena, cantados como cortejo fúnebre ou berrados como urro de macaco no jardim zoológico!); carros e fantasias lindos e uma comunidade afiada. Adianta isso? Não, não adianta! Faltaram carros alegóricos no feitio "prateleira de supermercado", empilhados de esculturas replicadas (criatividade zero), de acabamento duvidoso, porque é disso que jurado agora gosta. O valente presidente do Império da Tijuca afirmou já não estar certo de querer retornar ao Grupo Especial. Tá certo. Quem sabe fazer não merece botar espetáculo na rua pra gente que não enxerga! Conheço muito sambista de lei que não quer desfilar no Especial também. Ninguém vai considerar, repensar ou pelo menos esconder a cara com vergonha disso?!

Tivemos, na série A, o Império Serrano, que muita gente critica por achar que deve "se modernizar", mas que tem um acerto gigantesco de ser o que muita gente bem vestida, bem patrocinada, "fingida e bem paga" que tem por aí não é: o Império Serrano é um ESCOLA DE SAMBA de verdade! E por isso - por amar a Serrinha, por preservar seu jongo, por ter uma ala de passistas autêntica e comovente (hoje a melhor da cidade), uma bateria de levantar os mortos do Catumbi - o Império vem, há anos, penando num grupo onde, com todo respeito aos demais, ele não cabe. É não cabe não! Se subir, tornar-se-á necessariamente uma vitima da falsa grandeza que o "Grupo da Televisão" (o Especial) impõe a seus desfilantes. É deprimente isso: uma escola com a envergadura e a força de resistência do Império Serrano, em vez de dar aula para tantas outras, sendo sufocada pela descaracterização das demais. A escola que já disse ser "patente", que "só demente é que não vê", conclamando a abrir seu livro quem sabe ler! O mestre sendo obrigado a se emburrecer com os que deveriam ser seus aprendizes. Cabuladores de aula! Dói! Chama-se isto de "modernização"!

Então, se prevalece essa lógica de uma "modernização" que descarnavaliza os desfiles, que tira do cortejo da Sapucaí a autenticidade e a verdade histórica de uma escola de samba em nome de uma suposta "atualização do espetáculo", pergunto eu: porque ainda estamos submetidos ao crivo arcaico e impositivo dos jurados caneteiros, desfilando notinhas pontuais a serem anotadas, somadas e conferidas depois? Por que os empoderamos durante anos, repetindo seus erros, irritando com suas justificativas, trazendo seu olhar distante e frio, seu crivo técnico fajuto para penalizar uma obra do povo, uma arte que eles não dominam e não vivenciam para serem juízes de sua execução?!

Por que o julgamento das escolas de samba é feito de modo tão precário, artesanal, com as mesmas notinhas de 1935 sendo somadas uma a uma, com a novidade do "descarte da menor" sendo vista como "o ápice da tecnologia"?! É contraproducente e contraditório: são Flintstones julgando Jetsons! A comissão de frente de uma escola de samba se descarnavalizou ao ponto de ter carrinho de Fórmula 1 atropelando o lugar que já foi da Velha Guarda, mas a velocidade de aprimoramento dos jurados é em ritmo de marcha ré!

Se estamos aqui na imprensa, como comentaristas, não podemos baixar a cabeça e fingirmos que estamos gostando. Não quero coquetel, não quero salgadinho, não quero bolo: quero confete, serpentina, batucada de gente negra e carnaval de verdade!

Quero samba no pé; fantasias e alegorias lindas e gigantes, sim (obrigado por isso, Joãosinho Trinta!); mas de um enredo conciso e com raiz fincada na essência do carnaval. Sem babar ovo de gente alheia ao samba, celebridades e milionários de outras praias...pra isso temos nossos Cartolas, Zé Kettis, Candeias, Catimbas, Martinhos, Ciatas, Ivones e nomes próprios á festa. Literatos...que o sejam! Mas chega de ETs em letra de samba enredo!!!

Avisem aí aos senhores jurados e aos senhores do monopólio que essa coisa (a eles tão estranha) chamada "escola de samba" não sai na rua pra bajular empresários, nem virar espetáculo de gringo, nem produto comercial, não: isso aí é arte do nosso povo, é essência de nossa história, é gênese da arte e da cultura de nosso país! Que merece respeito e que não tem que se curvar diante de poder nenhum: a Escola de Samba é O PODER! É ela - por ser escola - quem ensina! E os maus alunos que nunca aprenderam as suas lições não podem, de jeito nenhum, transmiti-la nem julgá-la, porque são, lamentavelmente, estrangeiros da festa de seu próprio país!

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06/03/2014 13h14

Apuração: quesitos esquisitos
Hélio Ricardo Rainho

O carnaval acabou e muita gente vai tirar o seu da reta. Sim, é isso mesmo. Para ficarem "bem na fita" com seus pares políticos, artísticos etc, renderão loas e homenagens ao resultado final. E mais uma vez farão mau uso de seus "poderes" de imprensa, ajudando a corroborar o erro e a confusão. Não é o "resultado pelo resultado", porque se respeita e se louva o esforço e a graça da Tijuca campeã. O problema é se ater aos critérios de pontuação que, afinal, acabam definindo um resultado.

O Brasil é vergonhoso quando o assunto é "julgar"! Somos um país que não sabe julgar nada! Nossos mensaleiros ladrões ordinários são absolvidos, nossos juízes de futebol inventam pênaltis e anulam gols estando ao lado do lance. E nossos jurados de escola de samba - com todo respeito e sem nenhum respeito - parecem alucinados! Estão ensandecidos. Se reclamamos de alguma coisa, dizem que é "choro". O termo foi cunhado na ditadura, quando, quem denunciava ou se indignava com alguma injustiça, era torturado e "chorava". Vê-se que carregamos uma herança maldita da repressão militar, que hipocritamente derrubamos, mas fazemos questão de viver em nosso dia-a-dia.

Foto: SRZD - Tatiana Perrota

Não sei como a LIESA tentaria resolver esse problema. Ano após ano erram, fazem justificativas ridículas e voltam a ocupar vergonhosamente as cadeiras no ano seguinte. É proibido demitir jurado incoerente?!

Está instituído que a primeira escola a desfilar deve cair e pronto! Cala a boca todo mundo: quem passa primeiro sofre a "economia de notas" da pão-durice dos jurados insanos. Mais vale uma fantasia de cueca, sem chapéu e sem complemento na avenida, do que um trabalho sério de quem abre o carnaval! O Império da Tijuca foi covardemente agredido pelas canetas dos jurados...quer dizer que o samba do Morro da Formiga não era nota 10?!?! Isso não é subjetividade, é mau trato: senhores jurados, peguem suas canetas e escrevam, agora, um samba melhor do que aquele! Seria despeito?! Foi ridículo pra carreira de todos vocês.

As fantasias mais luxuosas e bem acabadas em requinte deste ano - as da Portela, um trabalho de Alexandre Louzada que a todos surpreendeu desde os protótipos - não atendeu às exigências dos senhores que gostam de macacão, cueca preta e plástico de forro de bombom. O jurado está ficando parecido com a televisão e alguns jornais, que se esmeram em fazer anticarnaval numa cobertura pífia e patética a destacar efeitos especiais, personalidades alheias às tradições do samba e outros oba-obas por aí.

Está ficando muito difícil fazer carnaval quando não se sabe que quesitos serão julgados. Sim, porque os jurados não julgam quesitos, julgam bandeiras, julgam posições em que as escolas desfilam, julgam superficialidades. Como é que alguém pode preparar um barracão de escola de samba que não seja em função dos quesitos, mas sim dos "esquisitos"???

Houve, sim, alguma justiça no âmbito final da apuração. Três gigantes da Sapucaí foram excluídas do hall das campeãs com desfiles quase lamentáveis. Vimos uma Estação Primeira de Mangueira num trabalho irreconhecível de Rosa Magalhães, talvez a pior execução de sua brilhante carreira. A poderosa Beija-Flor decidiu homenagear o amigo Boni (que sempre foi declaradamente Mocidade) e exibiu na avenida provavelmente o pior rendimento de um samba enredo da história do Sambódromo: foi quase um cortejo fúnebre. A escola de Nillópolis precisa repensar a ideia de que pode fazer qualquer coisa: expor gênios como Selminha e Claudinho, fundindo comissão de frente com casal de MS&PB, não fez o menor sentido, bem como um enredo cheio de costuras e que nada contou sobre o homenageado. Foi duro ver a Beija-Flor tão perdida na avenida. E a Vila, querida Vila dos Poetas do Boulevard, susteve-se na bravura do "povo do samba" e na "sorte" de algumas notas boas francamente imerecidas. Uma campeã não pode voltar à Passarela depenada e irregular daquele jeito. Alerta vermelho a essas três!

Louvável a ressurreição da Portela, aposta prometida e cumprida pela excelência de seus dirigentes, que em menos de um ano tiraram a águia do caos administrativo a um desfile de autêntica campeã! Desmentiram a falácia da maioria dos dirigentes que só sabem falar de patrocínio: a Portela não se vendeu a enredo de produto, o patrocínio passou por fora do tema escolhido, e fez seu carnaval como quis, pagando contas, pagando funcionários, com barracão de luxo e samba de verdade. Tudo bem: jurado prefere outra coisa, mas a Portela foi digna até dizer chega. A avenida vai dizer o que achou no desfile das campeãs...

Louvável a Grande Rio, escola vitimada pelo preconceito que o vírus da emissora de televisão causa a todos. É como fazer pacto com o diabo: a princípio parece dar certo, depois vem a maldição. Para os "telespectadores de samba", os que não frequentam quadras e veem desfile na TV: a Grande Rio é Caxias, não é Projac nem Jardim Botânico! Essa turma toda vai passar, podem crer. Este ano ficou bem claro tudo isso na avenida. O carnavalesco Fabinho mostrou um belíssimo painel de Maricá, carnavalizou com excelência um enredo abstrato, fez as alegorias mais inventivas e originais do Especial. O samba não ajudou muito, mas essa escola foi extraordinariamente autêntica. Só precisa eliminar aquele bloco bizarro de camisaria que vem à sua frente e no seu encerramento: um comitê feio de presunção, onde não se vê um negro e um caxiense presentes!

Louváveis o renascimento do canto e da graça da Mocidade, orgulhosa de si na avenida; a alegre brincadeira da União da Ilha, consagrando Alex de Souza como nosso melhor carnavalesco; o canto em oração de escola de samba verdadeira que é o Salgueiro; a vibração da valente Imperatriz.

Meu respeito e meu carinho a todas as pessoas que fazem o carnaval. Pra mim, como comentarista, carnaval na Sapucaí é assim: escola de samba é digna de TODO respeito, está acima de tudo e de todos. Bandeira, instituição! E as pessoas sérias, devotadas, que vivem em função da escola, não de suas vaidades, também terão esse respeito.

Por respeito à bandeira, parabenizo a Unidos da Tijuca, uma escola encantadora, que ressurgiu de seu matiz histórico e engrandeceu-se: de escola considerada pequena, virou grande em uma década, caso único na história dos desfiles!

Mas acho que uma discussão séria e uma profunda reflexão se fazem necessárias. Chega de jurados "especialistas" vindos de outras áreas: tem que ter gente ligada a samba, estudiosos de samba, pesquisadores de samba analisando as escolas na avenida. Cansamos da reincidência de jurados preconceituosos, com vícios de julgamento e justificativas de sanatório. Como todo mau profissional, eles não merecem a avenida, mas simplesmente "o olho da rua" em 2015!!!

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19/02/2014 15h18

'30 anos do Sambódromo': São Clemente 1987, o Carnaval dos meninos de rua
Hélio Ricardo Rainho

Triste e, ao mesmo tempo, arrebatador. Foi o desfile mais sombrio da história da escolas de samba. E não menos belo, marcante e inesquecível. O samba-enredo, melancólico, exibia as primeiras linhas em tom soturno, sendo todo entoado em tom menor. Em vez de uma receptividade festiva e vibrante, o público, atento, recebia com brados a passagem da escola, mas o tempo inteiro em visível reflexão e com certa dose de constrangimento. A escola estava magnífica. Seu tema levava a plateia a pensar.

Foto: Reprodução de InternetNão foi a apresentação de uma das chamadas "grandes", nem exatamente um esplendor de desfile plástico. Não foi a escola campeã. Mas, naquele ano de 1987, a São Clemente emprestou a negra cor de sua bandeira para iluminar em amarelo uma das chagas mais abertas da sociedade brasileira: a questão do menor abandonado. E constituiu um legado antológico para o carnaval carioca. Um desfile memorável, inédito, inesquecível!

Criando um trocadilho com a obra prima de Jorge Amado (Capitães de Areia), "Capitães do Asfalto", enredo de Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa, trazia para o grande palco uma discussão dura e muito acertada sobre a problemática social que gerava, descuidava, desamparava e - por fim, - discriminava o menor de idade em nosso país. Seguindo uma linha política de crítica social já adotada nos anos anteriores, a escola da zona sul ascendeu naquele 1987 ao grupo de elite e fez bonito, surpreendendo a todos e mantendo-se para o ano posterior com um digno 7º lugar.

Sintomática, a letra do belíssimo samba tinha versos cuja alusão ao tema era um misto de poesia e constrangimento diante de um problema raras vezes tratado de forma tão ampla diante de uma multidão. Isaías de Paula, um dos compositores junto a Manuelzinho Poeta e Jorge Madeira, tinha propriedade de causa: era também um ex-interno do SAM (Serviço de Assistência ao Menor). A "cabeça do samba" prenunciava o discurso engajado, com o peso dos versos: "Pequenino / Triste feito um cão sem dono / Tão cansado de viver e sofrer / Por aí perambulando". O primeiro refrão tinha forte apelo emotivo, em primeira pessoa: "Seu moço, dê-me um trocado / Eu quero comer um pão / Sou menor abandonado neste mundo de ilusão". E expunha em linguagem muito franca, sem deixar dúvidas, a questão da má distribuição da renda nos versos: "Enquanto o filho do papai rico / Desfruta o bom e o bonito / Do dinheiro que o pai tem / Lá vai o menino pobrezinho / Que acorda bem cedinho pra vender bala no trem". Um achado!

Foto: Reprodução de InternetA comissão de frente, formada por meninos pertencentes à FUNABEM - a assim chamada Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, instituída pelo governo federal - causou choque e emoção. Um banco de praça ilustrava, no abre-alas, as crianças jogadas ao relento, a dormirem nas ruas da cidade diante dos olhares atônitos das autoridades inertes. Crianças pobres catavam comida no lixo, em uma das alegorias, enquanto os "filhos de pai rico" ficavam isolados em gaiolas de ouro com toda sorte de benefícios.

Fazendo bom uso da cor escura presente em sua bandeira, a escola soube ilustrar com beleza e adequação o enredo sombrio proposto por seus carnavalescos. Sob aplausos efusivos e lágrimas de emoção, a São Clemente passou em 1987 com um desfile que marcou história.

Foto: Reprodução de InternetÉ pena que, na lógica atual de desfiles apadrinhados e politicamente corretos, a construção de pontes políticas praticamente excluiu do Sambódromo as temáticas de crítica social e protesto. A escola de samba, que sempre primou por seu viés de resistência, tornou-se tão prisioneira dos gradis capitalistas que, hoje, já não se podem esperar desfiles autênticos e fortuitos como aquele dos clementianos em 1987. Sem dúvida, digno de registro e menção honrosa na historiografia dos grandes carnavais!

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31/01/2014 13h50

Eu e o Império Serrano, o Império Serrano e eu
Hélio Ricardo Rainho

Tenho pelo Império Serrano um carinho mais do que especial. Nem precisaria, para tanto, citar o sem número de amigos queridos que possuo na gloriosa escola da Serrinha. O elo de ligação que tenho e sempre tive com a escola é fundamentado essencialmente em um sentimento: a emoção.


Bem cedo descobri a Portela e por ela fui descoberto. É minha escola de coração, meu berço no mundo do samba. Levado pelo saudoso bamba e amigo Jacyr da Portela, tive passagens pela ala de compositores e pelo atelier de chapéus do barracão com o então carnavalesco Sylvio Cunha, promovi trabalhos de teatro divulgando a escola. O convívio e a frequência nos meandros do samba em Madureira me fez, por todo o tempo, estar próximo da quadra do Império Serrano. A Portela é a escola de minha mãe e o Império foi a escola de meu pai.

Ano passado, meu pai estava inerte em uma cama e eu tinha uma viagem a trabalho no exterior. Arrumava a mala com receio de partir e ter a notícia de sua perda. Decidi colocar no som do quarto uma sequência de sambas do Império Serrano, cantando junto em alta voz. Ele era apaixonado pela escola, a qual frequentou durante muitos anos, tendo como amigos gente como Roberto Ribeiro, Wilson da Cuíca e outros célebres. Debilitado, deitado no leito, sorria. Fiz-lhe uma promessa: "Se esforce para comer bem! Assim que eu voltar de viagem, quando você estiver saudável, vou leva-lo a uma feijoada imperial". O velho Hélio pai sorriu. Voltei de viagem dias depois, numa quinta-feira, e na sexta ele partiu. Quando me pediram que providenciasse o traje para seu sepultamento, abri o armário dele com os olhos cheios de lágrimas e uma camisa verde-esperança...verde-floresta...verde-Serrinha!...saltou-me aos olhos. Era o blusão com que ele orgulhosamente gostava de frequentar a quadra de sua escola. O último traje que ele levou desta vida. Escolha minha. Um tributo.

Por tantas e tamanhas razões, passei a infância e sigo meus dias assim: portelense no sangue, como minha mãe; apaixonado pelo Império Serrano, como meu pai.

Ao fim do ano, veio uma das coisas mais bonitas que já me aconteceram nesta caminhada de escola de samba. O amigo querido e talentoso diretor de passistas do Reizinho de Madureira, Gabriel Castro, fez-me o convite para uma bela homenagem. Chamou-me, em agradecimento ao meu projeto de preservação à dança do samba e divulgação constante da arte dos passistas, a desfilar à frente da ala de passistas do Império Serrano, como um representante das tradições do "samba de malandro" que mora em Madureira e que essa escola maravilhosa tanto defende.

Não tenho palavras. Quem as teria? Não tenho tamanho nem porte para tamanha grandeza! Reconheço: é maior do que eu, eu ali não caibo! Vou desfilar representando um pouco de cada coisa: o carinho que tenho desde a juventude pelo Império, quando frequentava sua quadra maravilhado com aquele busto de Silas de Oliveira que havia à sua porta; a memória de meu pai, que certamente está sendo prestigiado com essa lembrança; a grandeza ímpar do quilate de samba autêntico dos malandros e cabrochas do Império Serrano, gloriosos nessa tradição.

A ala de passistas do Império Serrano, independente de qualquer homenagem, é hoje uma das mais elegantes, expressivas e autênticas do carnaval. Tudo isso graças a uma visão fantástica de seu presidente Átila Gomes, que enxergou no menino imperiano Gabriel o talento e a paixão necessários para impor, com arte e conhecimento, a patente que a escola da Serrinha sempre teve com seus passistas históricos sobretudo desde os anos 70. Gabriel dirige um naipe de exímios passistas do carnaval carioca, gente como Malandreado, Felipe Nascimento (foto abaixo), Walter Falcon, André Bebel, Nego Lanes, Henry Jefferson, Lucas Pedro, Anderson Silva, Yan Nascimento, Breno Brown, André Martins, Bianca Bastos, Dayana Vargem, Dedé "Rainha Show", Marco Kauan, Suzy Gomes, Monique Brito, Juliana Moraes, Monique Bahia, Laiza Bastos e tantos outros...uma constelação! A marca característica dos passistas imperianos está lá: o samba no pé autêntico, a ginga dos malandros de capoeira, os "requebros febris" das cabrochas com a cadência harmônica do jongo da Serrinha.

Não é uma ala coreografada: Gabriel Castro e Bianca Bastos, sua co-diretora, ensaiam movimentos de evolução sincronizados, cujas passadas privilegiam a apresentação de seus passistas pelo samba no pé e pela graciosidade com que cortejam os presentes.

Fico muito grato com esse carinho. É uma honra, um prazer, uma emoção indescritível estar dentro do Império de Bambas, o Império do Samba, o Império de meu saudoso pai, o Império de tantos amigos - Rachel Valença, Fabrício, Joacyr Nogueira, o presidente Átila, Foguinho de Vaz Lobo, o próprio Gabriel, Jeanine Gall, Lucas Donato, o "velha guarda" Capoeira Machado (foto abaixo)...muita gente de ouro! Olhar para trás e ver uma ala inteira de passistas com esse porte atrás de mim, tão perto...eles são realmente gloriosos! Amo muito essa gente!

Os ensaios de rua estão lindos, o povo se emociona com a nossa passagem por Madureira. A escola da Serrinha está encantada...

E lá no céu, tenho certeza, o velho Hélio Rainho (o pai) estará sorrindo. Vai haver uma estrela brilhando no céu na noite de desfile do Império Serrano em 2014.

"O Reizinho de Madureira chegou"!

Fotos: Eduardo Senra, Jeanine Gall e Ary Delgado

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20/01/2014 20h56

Passista Celynho Show: da Lapa, dos cabarés, da Avenida

Foto: Reprodução de InternetVem aí mais um desfile de escolas de samba, e o povo carioca tem um personagem ilustre e digno de respeito, que há mais de 30 anos enfeita a avenida e as esquinas da Lapa com seu brilho, sua graça, sua arte singular. A figura esguia, de rosto negro salientado por um cavanhaque que remete ao estereótipo da malandragem cadenciada do samba antigo, é uma figura facilmente lembrada e conhecida nos meandros dos batuques, modernos quilombos urbanos de nossa sociedade.

Seu nome inspirou e inspira muito gente.

Ele é Celynho Show!

Estamos próximos do carnaval, e a referência a esse passista/promotor cultural é uma das mais notórias deste cenário. Celynho é passista de ofício. Quando o assunto é samba no pé, Celynho não é gestor: ele é "o espetáculo". Razão pela qual, sendo um passista da casa dos 40 anos, declina todos os convites para liderar alas ou se destacar como professor em escolinhas. A vocação anímica do artista e a alma errante de malandro não combinariam com o cerceamento que a gestão do carnaval muitas vezes impõe aos responsáveis pelo espetáculo. Celynho é escola viva, ambulante: modelo pronto de inspiração, citado por "onze a cada dez passistas" como referência obrigatória.

Foto: Reprodução de Internet

Celynho Show samba. E samba muito. E muito lindamente! É brincante, lúdico. Empreende técnica rara de samba, fundindo elementos performáticos com passos de base e outros criados com brilhante criatividade para diversas situações: cumprimentos, evocações, saudações, provocações etc. Seu samba é o autêntico "samba de malandro", fusão conceitual da ginga do arquétipo malandro da Lapa (que não sambava, apenas gingava) com o requebro cadenciado do passista nascido na escola de samba. A dança do corpo de Celynho fala! Ele é lépido, fagueiro, e nunca toma para si a roda de samba; pelo contrário: esbanja cortesia e elegância como um lorde inglês tingido de matizes africanos. Sob suas vestes de autêntico malandro carioca, esconde e revela um cicerone da festa dos milongueiros.

Foto: Reprodução de Internet

Celynho passou por inúmeras escolas de samba, mas nunca deixou de reconhecer sua raiz na Acadêmicos do Engenho da Rainha, escola onde começou e que sempre está presente em suas referências e reverências. Ali tudo começou. Até finalmente defender a bandeira de sua Estação Primeira, com as cores verde e rosa de sua alma e seu coração. O teor do samba no pé apresentado por Celynho é fruto de uma personalidade vibrante e comunicativa, espécie de "boêmio sóbrio" ou "malandro trabalhador" (o passista é também profissional de hotelaria) da noite carioca. Celynho é, hoje, o passista do Rio de Janeiro de maior vivência e ligação direta com as ruas da Lapa, os bares da Lapa, os redutos da Lapa. A Lapa é tão território de Celynho quanto fora dos malandros históricos no passado.

Na tarde do dia 18 de janeiro, Celynho apresentou mais uma edição de seu "Cabaré do Malandro", que leva sua assinatura artística em um evento único, jamais realizado por outrem, que reúne diversos cantores, passistas, performistas e músicos com o pretexto claro e simples de difunfir a riqueza do cancioneiro popular desde a Era de Ouro do Rádio no Brasil. Para Celynho, nomes como Ismael Silva, Carmem Miranda, Noel Rosa, Pixinguinha, Donga, Cartola, Ataulfo Alves e seus afins soam como "companheiros de labuta". Ele dissemina essa cultura musical em seu perfil nas redes sociais durante o ano todo, e os destaca também no Cabaré, cuja edição deste ano foi no Leviano Bar, na famosa zona boêmia da rua Mem de Sá, nas artérias culturais da Lapa. Celynho consegue reunir todo o cast de artistas da Lapa em seu show tão somente por prestígio e incentivo a essa causa: falamos de Aninha Portal, Regina Mazza, Lu Fogaça, Deanise Mattos, Lizza Dias, Margarete Mendes, Dilma Diva Oliveira, Flavia Saolli, Gil Flores, Mariano Maia, Genaro Bispo, Nelsinho Pereira, Chiquinho Vírgula e Ricardo Moreno. Uma constelação de estrelas num evento sem cachê. Feito prodigioso, tamanho o respeito que esse malandro tem na Lapa!

Foto: Reprodução de Internet

Ao propagar esses nomes de astros fundamentais da música popular brasileira em seu gênero representativo "samba", Celynho eleva substancialmente a referência dos novos passistas das gerações que o admiram. Bombardeados por músicas de gosto duvidoso equivocadamente rotuladas como samba, falta aos passistas iniciantes esse tornado de temperos originais do samba verdadeiro. São poucos os que não se renderam aos apelos comerciais ou cargos circunstanciais de autopromoção dentro do cenário espetacular das escolas de samba. No caso de Celynho Show, a grande virtude é - sendo ele um passista em nível inequívoco de excelência e grandeza - ter se lançado em ampla defesa das raízes de nossa música e de seu próprio ofício, destinando sua vida e seus atos artísticos a um modelo de resgate das tradições e do nascimento de novos e futuros passistas de verdade.

Celynho não costuma tratar esse assunto, mas sabe-se que seu acervo pessoal de figurinos (uma indumentária característica onde o malandro típico é sempre o personagem principal, com muitos acessórios e cores fortes justamente para acentuar a caracterização) é fonte inesgotável de apoio para passistas que iniciam a carreira e muitas vezes não têm sequer condições de apresentar um figurino numa quadra. Celynho apóia e dá sentido à arte de muitos desses jovens talentos com seu sorriso terno, seu admirável senso de afetividade com os pares de dança e uma incomparável facilidade para levantar o astral de qualquer um que dele se aproxime. Além, é claro, da inegável bagagem de experiência, conhecimento e talento raros dentre seus pares.

Respeitado e reverenciado pelos melhores e mais importantes nomes da dança do samba, Celynho é, provavelmente, a maior de todas as unanimidades no reino dos passistas do carnaval carioca. Laureado com os mais diversos prêmios como passista, Celynho chama para si todos aqueles que porventura ainda não ganhou, dado o prestígio inefável de que desfruta no meio do segmento. É o tipo de premiado cujo nome reforça e dá sentido ao prêmio concedido. Grife, estampa. Signo referente de qualidade.

Para muitos, o melhor. Para ele mesmo, apenas um menino negro de alma verde e rosa cujo maior sonho é entrar, ano após ano, na avenida e ver o sorriso brasileiro realizar-se com o cortejo das escolas de samba.

Não estamos falando apenas de um grande passista. Estamos falando de Celynho, uma lenda viva do cabaré carnavalesco que temos em favor das raízes do samba, da Lapa, da malandragem histórica do Rio de Janeiro.

Salve Celynho Show da Mangueira, salve Celynho Show da Lapa, salve Celynho de todos os shows da malandragem!

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24/12/2013 17h10

Passista Anderson Costa: Jovem Malandro da Portela
Hélio Ricardo Rainho

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Ele tem 23 anos e é cria de um projeto de dança do samba. Há sete anos esbanja vitalidade e ginga de malandro desfilando como passista na grandiosa Portela. De longe, percebem-se a elegância, a postura e a fina classe que os especialistas associam imediatamente ao discipulado do mestre Valci Pelé. É um dentre muitos exemplos de jovens talentos que espelham o renovo do samba no pé. Anderson Costa desce a avenida, dá o nome e faz a diferença!

"Dizem que o samba no pé vem de berço. Sou uma prova de que não é. Tudo se aprende. Não sabia nada sobre samba no pé, sempre fui da dança, porém de outros ritmos. Até que, um dia, conheci o Projeto Primeiro Passo. Hoje não me imagino mais sem o samba" - conta Anderson.

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O projeto social a que se refere o jovem Anderson é idealizado por Nilce Fran e Valci Pelé, com aulas atualmente no Parque Madureira, mas que há anos vem construindo um vigoroso amparo sociocultural para crianças e jovens em situação de "vulnerabilidade social" - termo usado como alvo dessa ação. Aprender samba, sim. Mas reintegrando socialmente.

Anderson foi levar a irmã, Andressa Costa (ex-passista da Portela, hoje musa de bateria da Unidos de Lucas), que fazia aulas no projeto, e acabou arriscando alguns passos. Sua família tinha gente da comunidade portelense: o tio Waguinho era apoio no carro de som, a tia Vania Garcez foi também passista (hoje é rainha da bateria da Unidos de Lucas ao lado de Andressa). Ainda assim, Anderson parecia indiferente. "Eu sempre viajava no carnaval, apenas assistia aos desfiles. Depois que comecei a fazer passos, marcações, coreografias, passei a ter aquele dia da aula como o mais esperado da semana. Ali fiz amigos que são verdadeiros irmãos para mim" - conta o jovem malandro portelense. Com total apoio de sua família de sambistas.

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Depois que aprendeu a sambar, vieram os elogios. Anderson participou da Cia Dança do Samba, onde aprendeu canto, dança, interpretação, tornando-se um dos passistas-intérpretes do espetáculo "Malandros e Mulatas", com direção de Valci Pelé, Nilce Fran e Marcus Azevedo. O menino viajou cidades, países. Seu samba, que ele diz fluir do próprio corpo ("não posso escutar uma bateria de escola de samba que os pés vão sozinhos"), contagiou.

O jovem passista admite que sua ginga estava mais ligada à dança baiana, o axé music. Mas ele se esmerou no aprendizado da técnica e da postura, no Projeto Primeiro Passo, onde acredita ter conhecido os autênticos mestres da dança que hoje executa com graça e beleza:

"Acho que o samba é belo quando você tem uma técnica adquirida por quem realmente entende de samba no pé, como Valci e Nilce. A gente acaba se tornando mais crítico consigo mesmo e tende a ver mais a forma de outros passistas sambarem, observar se aderem às mesmas técnicas que aprendemos. Acho mega importante isso!" - afirma.

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Anderson filosofa sobre a dança que pratica. E opina sobre o delicado território da "limpeza de movimentos", tema que causa certa polêmica por alguns que o consideram invasivo à arte do improviso natural no ofício do passista:

"Acredito em limpeza de movimentos, sim. Porém quando você já está condicionado a fazer de uma forma, chega a ser um pouco difícil entender que A não é B. Levo o samba como uma zona de escape de problemas. É lá que concentro minhas energias: se estou triste, é no samba que encontro minhas maiores alegrias". E reitera a máxima de Hermano Vianna: "Quanto mais você escuta o samba, mais o seu corpo quer sambar!" - afirma o jovem bamba.

Sobre fidelidade à escola, a juventude não o impede de ter uma opinião clara a respeito:

"É difícil chegar em outra agremiação e conquistar amigos como conquistei. Ali na Portela é mais que uma ala de passistas: chega se tornar uma família. Acho que por esse motivo não conseguiria sair. Já saí como passista na Mangueira, uma emoção única, indescritível. Mas não troco a Portela. Não vou dizer 'nunca', pois não sei o dia de amanhã. Mas, por enquanto, é isso. Estar em uma agremiação, abraçar aquela bandeira é mais que tudo!" - afirma.

O jovem passista é adrenalina pura! E prefere o ritmo acelerado dos sambas mais modernos do que a levada mais melódica dos sambas da antiga. Questão de contemporaneidade.

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Anderson ajeita o chapéu de malandro, olha para o alto em busca de palavras. Suspira e deixa sair, de dentro do peito, a frase com que acredita sintetizar a paixão que sente:

"É...acho que é isso. Eu amo o samba e amo sambar!" - conclui, sem mais delongas. E já ajeita o terno branco pra correr pra roda e sambar. Coisa de malandro portelense.

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25/11/2013 13h50

Noel, o mito revisitado pelos passistas da Vila Isabel
Hélio Ricardo Rainho

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Um dos mais extraordinários personagens do samba carioca é, sem dúvida, Noel Rosa. Poeta que dignificou a história do bairro mais charmoso da zona norte do Rio, engrandecido com a referência única de ter uma avenida - a Boulevard 28 de setembro - adornada com uma calçada de partituras musicais. Um marco histórico e cultural da cidade, símbolo absoluto da devoção desse lugar à musicalidade inerente ao carioca, reiterando sua identidade de "território-samba" no Rio de Janeiro. A calçada de notas musicais da Vila Isabel é patrimônio cultural de nosso país, um extraordinário relicário de nossa riqueza artística.

Esta introdução tem por objetivo destacar que Noel, o poeta que morreu em 1937 precocemente aos 26 anos, deixou um legado de canções tão perfeitas quanto poderosas o suficiente para consagrar Vila Isabel como reduto de samba. Ele elevou o lindo bairro a essa posteridade. Fundada em 1946, portanto quase uma década após sua morte, a tradicional escola de samba Unidos de Vila Isabel, nossa memorável campeã atual, não teve a presença de seu mito maior em sua fundação. Foi consagrada, posteriormente, na poesia do gênio "negro rei" Martinho, e seguiu sua rota como uma das grandes do samba carioca. Apesar dessa extemporaneidade, nunca deixou de cantar e evocar esse personagem como fonte de toda sua inspiração.

Foto: Hélio Ricardo RainhoA ala de passistas da Unidos de Vila Isabel, dirigida por Édson Cunha, um exímio passista de reconhecida categoria, unanimemente respeitado e reverenciado pelas gerações de artistas do samba no pé, tem assumido um "compromisso", por assim dizer, com esse legado do bairro. Historicamente reconhecido como um reduto de boêmios e poetas do porvir, o bairro de origens nobres e nome de princesa sempre foi, desde a pompa do nome francês de sua via principal, uma região tão popular quanto aristocrática. Sabe-se que o próprio Noel Rosa era um compositor de classe média muito diferente de seus colegas de época, não obstante o fato de frequentar as mesmas rodas e morros de todos eles. A "malandragem da Vila", então, era aquela do "feitiço sem farofa", empolada, mais elegante e pomposa. E isso se reflete na indumentária e no porte com que Édson procura sempre caracterizar seus passistas, não apenas por uma adesão a padrões modernos de "luxo", mas para alinhar os malandros e cabrochas atuais com a referência histórica desse personagem no bairro.

Na festa de passistas realizada na quadra da Vila neste sábado último, dia 23, Edson preparou um número musical de extrema relevância. Ao som do samba-enredo da escola "Noel: A Presença do Poeta da Vila", obra-prima de Martinho da Vila, dirigiu uma performance coreográfica - uma tendência nas alas de passistas deste milênio - na qual os malandros em extrema elegância, de casaca, colete e bengala, abriam um corredor para o passista Wallace Louzada interpretar o poeta Noel, chegando com duas mulatas a um cabaré, representado por uma mesa com naipes de carteado. A encenação reproduziu o contexto do enredo de 2010, tendo três atos fundamentais: a entrada do poeta, sua morte ou "passagem pro espaço sideral" (quando foi conduzido, em posição horizontal, elevado ao alto pelos passistas, para fora de cena) e seu retorno "vivo hoje em nosso carnaval" (quando manifesta-se junto a todo o elenco de sambistas da escola, em apoteótica evolução com muito samba no pé de todo esse elenco). Um trabalho memorável, impactante, com a alma e a cara daquela escola! Aplausos e lágrimas se confundiam na audiência, em reconhecimento ao belo trabalho.

A Vila Isabel dispõe, hoje, de um naipe de passistas em nível de excelência. Alem do próprio Édson Cunha, conta com um staff de respeito, com nomes fortes como Clovis Costha, Pedro Gaspar, Hudson Gaspar, Wallace, Dandara, Kelly Simpatia...e por aqui segue uma lista imensa de renomados e talentosos. Toda essa extraordinária performance cênica dos passistas da Vila exemplifica um caminho que parece surgir dentre os passistas das escolas de samba contemporâneos, vislumbrando uma nova relevância para esse importante personagem dentro da lógica do samba. Para citar alguns exemplos: Carlinhos e suas execuções no Salgueiro (matéria minha duas colunas atrás), Valci Pelé em número especial de malandros milongueiros no conjunto-show da Portela (também registrado como matéria por mim, neste site), Cássio Dias (Beija-Flor) em performance-solo na final de samba da Império da Tijuca, Gabriel Castro em número especial ocupando o palco do Império Serrano à frente de cortinas teatrais em recente Cozido das Passistas e, agora, o povo da Vila. Na dinâmica da relevância do passista dentro da configuração dos desfiles, a performance cênica - com Emanuel Lima representando Cartola no batizado do Salgueiro ou Wallace Louzada representando Noel Rosa - evidencia um momento de reafirmação desse segmento. O passista do novo milênio é versátil, conseguindo associar seu histórico e sua tradição numa fusão de elementos coerentes que, juntos, culminam em encenações e apresentações especiais em quadras, casas de show ou quaisquer outros ambientes.

Foto: Hélio Ricardo RainhoPara a afirmação desses artistas e sua preservação como elementos primordiais na lógica das escolas de samba, essa evolução não deve ser vista com olhares retaliadores. Pelo contrário: o esforço do passista em consolidar os valores do passado, dos mestres antigos, transparece nessas teatralidades. É preciso enxergar para além do que se vê: quando esses grupos desenvolvem tais trabalhos, cercam-se de pesquisas, de consultas a baluartes, de referências dos anais de suas escolas de samba. E, quando transformam tudo isso em encenação, transmitem esse saber, ensinam, utilizam de pedagogia para repassar tal conhecimento.

Considero uma grande contribuição essa tendência. Em termos teatrais, ela tem raiz brechtiana: foi o grande dramaturgo alemão Bertolt Brecht quem associou a musicalidade ao teatro, e criou a cena didática para transmitir mensagens de engajamento social e político em sua época. Antes dele, Meyerhold já o fizera na Rússia, num teatro engajado, reafirmando valores dentro de uma lógica de encenação. Intuitivamente, mas com plena consciência da técnica empregada, nossos passistas estão seguindo esse rastro.

Considerando o passista o elemento primordial da cena do carnaval, elo de ligação com a legitimidade da dança do samba propriamente dita, é ele - esse rico personagem - o mais capacitado a trazer lições antigas e reviver a mitologia autêntica do samba. É ele o portador do discurso, o autêntico representante da ginga do samba, símbolo vivo de uma história escrita não apenas com a pena, a caneta ou os impressos...mas, fundamentalmente, com o riscado de seus pés!

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16/11/2013 09h49

Carnavalescos ou Comissão de Carnaval?
Hélio Ricardo Rainho

Fotos: Reprodução de Internet

A figura do carnavalesco, dentro dos desfiles de escola de samba, tem sua origem histórica no carnaval de 1935, quando Antonio Caetano criou para a pioneiríssima Portela uma alegoria que ilustrava o enredo "O Samba Dominando o Mundo". O carro exibia uma baiana repousando sobre um globo terrestre giratório. O grupo que realizou o trabalho com o carnavalesco Antônio Caetano tinha ainda Candinho, Juca, Lino Manoel dos Reis e Arlindo Costa, referidos no texto de pesquisa como "a afinada equipe de barracão" (fonte: site Portela Web - www.portelaweb.com.br)

O que vemos nessa informação é que, desde a sua origem, o carnavalesco já trabalhava com uma equipe criativa. Ou seja, não obstante ser o idealizador/mentor de um projeto, tinha outros assessores ou cooperadores a ajudá-lo no exercício de sua função. E isso perdurou durante anos e anos, passando pela fase de afirmação propriamente dita do carnavalesco como profissional a partir de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, à consagração de artistas autorais como Joãosinho Trinta e Fernando Pinto, passando pela era dos carnavalescos midiaticamente consagrados como Max Lopes, Rosa Magalhães, Alexandre Louzada, Renato Lage e, numa época mais recente, Paulo Barros. Todos com equipes e grupos de trabalho, porém assinando individualmente suas obras como autores.

Viajando 78 anos da origem histórica das alegorias, vemos, neste milênio, algumas escolas trabalhando com um conceito recente; assim por dizer, "novo". Em lugar de carnavalescos, trabalham com grupos não-autorais, no sentido de não assinarem seus nomes numa criação conjunta, mas apresentando-se como as chamadas "comissões de carnaval". No que me recordo, foi a Beija-Flor quem cunhou esse modelo (como as outras escolas adoram seguir o "modelo Beija-Flor", achando que pra ganhar carnaval da escola de Nilópolis é preciso ser seu clone!!!). Com a morte de Joãosinho Trinta, que era a identidade da escola, a Beija-Flor preferiu apostar em um modelo misto de criadores do que associar seu nome a um novo conceito estético - o que muito provavelmente aconteceria se outro carnavalesco trouxesse seu trabalho autoral para a escola.

Como não analiso desfiles necessariamente por títulos conquistados (considero outros fatores mais relevantes, porque "cabeça de jurado é terra que ninguém pisa"), atrevo-me a opinar e a dizer que, no decorrer dos anos, a maior parte das vezes em que se ouviu falar em "comissão de carnaval" foi um arremedo de discurso para justificar a não contratação de um profissional qualificado, competente e capaz de centralizar as decisões em torno de um projeto criativo. Se a Beija-Flor estruturou-se para isso a princípio (e, em minha franca opinião, seu trabalho plástico vem demonstrando visível queda de qualidade ano após ano, mesmo em seu mais recente campeonato), as "copiadoras" parecem usar dessa estratégia muito mais como tapa-buraco do que propriamente como recurso.

Acabamos de descobrir que a Vila Isabel, valorosa campeã atual, perdeu seu carnavalesco faltando quatro meses para o desfile e que, convicta de seu trabalho, dará sustentação a seu enredo por meio de uma "comissão de carnaval". A Vila fica sem Cid Carvalho, um carnavalesco solo oriundo de uma comissão de carnaval da Beija-Flor. Ele saiu e deixou um projeto pronto na Vila. A ser executado, agora, por sua comissão. Ou pela comissão que acaba de ser criada, que pode não ser necessariamente a equipe com que ele contava. Pelo que lemos, trata-se de uma estrutura interna de profissionais da escola. Alguém vai continuar o trabalho de outrem.

Em particular, penso que a dimensão requerida pelo atual modelo espetacular das escolas de samba envolve, sim, cada vez mais necessidade de gente criando, pensando, arte-finalizando. Uma comissão é importante? Sim, é. Mas como apoio. Precisa de muita gente, sim. Mas, talvez exatamente por isso, precisa de uma cabeça única e pensante, uma mente criativa que considere todas as nuances, os desdobramentos, concentrando e mantendo a linha de desenvolvimento e a coerência plástica, executando um trabalho com linearidade artística.

Pensando sobre a questão, tomo por referência quatro carnavalescos de uma "safra" mais recente do sambódromo. O requinte exacerbado com que Paulo Menezes apresenta seu estilo barroco e suas linhas de enredos, como fez no "Império do Divino" e na Porto da Pedra falando de Maria Clara Machado (sem considerar, é claro, os martírios que passou numa Portela abandonada no barracão pelo ex-presidente) ; a plasticidade extraordinária e o acabamento indefectível de Alex de Souza (a meu ver, o carnavalesco que mais evolui no cenário atual, de um perfeccionismo e um bom gosto incríveis, um esteta!), a grandeza e a técnica com que Jayme Cesário concebe seus projetos (o fracasso temático do enredo forçado sobre o iogurte, uma imposição, teve desse artista um trabalho plástico louvável, irrepreensível); o belíssimo trabalho de Cahê Rodrigues que "despertou" a Imperatriz num dos desfiles mais emocionantes deste ano. Trabalhos com marca autoral, concebidos de ponta a ponta, nitidamente por mentes que acompanharam, como diretores artísticos (e tem que ser artista, não adianta ser diretor de outra coisa pra exercer tal função) toda a execução.

Sou reticente. Não vejo nessas "comissões de carnaval" a mesma produtividade e o mesmo cuidado estético de um investimento num carnavalesco responsável por uma linha de trabalho. Lá atrás, no distante dezembro de 87, o carnavalesco Fernando Pinto morreu em um trágico acidente de automóvel dois meses antes da Mocidade Independente levar para a avenida seu enredo "Beijim, Beijim, Bye Bye Brazil" em 88. O projeto praticamente pronto, tendo um peso de assinatura com aquele quilate de Fernando. Ainda assim, a escola teve grande dificuldade de executar o que faltava com a sua...comissão de carnaval.

Não é fácil. Um carnavalesco é uma pessoa, não é um grupo de idealizadores diluídos em uma comissão, penso eu, sem nenhum demérito e com todo respeito aos resignados profissionais que assim atuam. O trabalho é conjunto, mas alguém precisa ter a linearidade e a coerência na cabeça. É o diretor geral do espetáculo. Onde tem muita opinião, tem muita divagação. Já vimos casos recentes de parcerias: Alex de Souza e Paulo Barros, Marcia Lávia e Renato Lage, Cahê Rodrigues e Mário Monteiro, por exemplo. Mas sempre de carnavalescos autorais, combinando singularidades. Plasticamente, tem assinatura. Me corrijam se eu estiver errado ou se isso é em mim um sentimento peculiar, mas o princípio da comissão de carnaval me sugere ou pretensão demasiada ("a gente aqui sabe fazer, não precisa de carnavalesco") ou contenção de despesas maquiada com um discurso de auto-suficiência.

Em outras situações, é a solução recorrente para uma perda de carnavalesco inesperada. O caso recente da Vila Isabel. Que me soa bastante preocupante. Penso que o carnavalesco que deixou a escola não tem exatamente um peso autoral, o que possibilitaria aos seus "sucessores" ter uma linha de trabalho pautada para uma linearidade. Ainda que tivesse, voltaria àquele exemplo do "autoralíssimo" Fernando Pinto, quando nem a linha de trabalho foi suficiente para evitar desníveis na execução com a ausência do idealizador inicial de todo o projeto.

Carnaval se faz no barracão e se mostra na avenida. Claro. O trabalho final é o que importa. E toda regra tem a sua exceção. O que eu acredito é que, numa lógica de competitividade tão acirrada como se transformou o desfile das escolas de samba, apostar na exceção é uma linha muito tênue entre a ousadia e o risco. Um trabalho bem planejado precisa ter começo, meio e fim. Nesse caso, não acho que várias cabeças possam pensar melhor do que uma.

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13/10/2013 19h50

Passistas da Academia: Uma Noite no Salgueiro
Hélio Ricardo Rainho

Na noite de escolha do hino do Salgueiro para 2014, uma apresentação mais do que especial de sua ala de passistas chamou a atenção e mereceu de minha parte, como pesquisador e estudioso dessa arte, um conjunto de observações à parte.

Salgueiro - passistas

Procuro ocupar meu espaço jornalístico dando visibilidade e destaque a essa arte da dança do samba, visto que o tema raramente ocupa as páginas de nossa mídia, geralmente mais interessada em assuntos vendáveis impostos pela indústria cultural em detrimento de nossa verdadeira cultura.

Antes da apresentação dos sambas-enredo concorrentes, um grupo de samba tocava no palco e a ala de passistas, dirigida pelo showman Carlinhos do Salgueiro, apresentou sequências ininterruptas de coreografias e performances musicais com seus passistas atuando na quadra.

Salgueiro - passistas

No show apresentado pelos passistas do Salgueiro convém destacar uma característica, já há tempos trabalhada por Carlinhos: não obstante o fato de o termo "passistas" ser cunhado na escola de samba para a dança do samba-enredo, a dança do samba - o ato de sambar propriamente dito - é único, podendo ser executado com outros ritmos desse gênero. No caso da apresentação, Carlinhos "emprestou" seus passistas de ofício (de desfile, de quadra, de escola) para sambarem outros gêneros além do samba-enredo. Nas encenações prevaleceu a composição dos personagens "malandro" e "cabrocha" dentro da tipologia do samba.

Cabrochas do Salgueiro

Os números musicais mostraram sempre os dois personagens atuantes: as cabrochas sensuais, provocantes, sedutoras; os malandros desafiadores, inzoneiros. Os números performáticos envolviam jogos de conquista (mulheres disputadas por malandros numa roda), desafios (malandros se impondo uns diante dos outros), "rinha de mulher" (cabrochas se afrontando em disputa de beleza). Sempre com números que, além da dança do samba propriamente dita, apresentavam elementos coreográficos, ainda que para unificar "passos de samba" e criar uma dança conjunta dos passistas.

MAlandros do Salgueiro

A concepção de Carlinhos de fazer interagirem seus passistas com outras modalidades de samba além do samba-enredo é relevante porque destaca a atuação desses artistas em uma dimensão além daquela a que estão naturalmente destinados na lógica dos desfiles: eles foram anfitriões da festa, abrindo a noite de apresentações da escola. O dado importante é que o Salgueiro tem, hoje, não apenas uma ala de passistas, mas um autêntico corpo de dança, alçados ao nível do profissionalismo, versáteis, capazes de exibir números coreográficos diversificados e completos.

Passistas do Salgueiro

É uma dinâmica criativa inusitada e interessante. Considerando-se que originariamente o "passista" era um elemento solto, versando seus passos no improviso, e que a junção dos passistas dentro de uma ala é uma concepção mais recente, a reordenação desse grupo como "corpo coreográfico" vai requerer do integrante dessa ala uma nova aplicação, um novo empenho, um aprimoramento funcional. Nessa linha-show desenvolvida por Carlinhos, seus passistas vão sendo formados como bailarinos, dançarinos profissionais. Isso inegavelmente os valoriza e lhes dá vulto, sendo esse esforço do coreógrafo salgueirense um importante trampolim para a afirmação profissional do segmento.

Passista Emerson Faustino

Deve-se destacar que as coreografias idealizadas por Carlinhos para os números musicais não são invasivas ou alheias ao samba: antes complementam os quadros, compondo roteiros temáticos para contarem pequenas histórias, como clips musicais. A formação teatral do coreógrafo o deixa à vontade para fazer essas composições com desenvoltura e qualidade. Sem perder sua marca inovadora de artista irreverente, Carlinhos vai além e atropela as convenções: um de seus quadros apresenta um momento lúdico em que suas passistas se transformam em funkeiras e apresentam uma coreografia do "show das poderosas". Independente do juízo negativo que se possa fazer desse tipo de música, o aspecto brincante da proposta é outro: traduzir os dois elementos musicais - o funk e o samba - presentes na favela, no morro, no lugar comum entre ambos. Se, para alguns estudiosos, o funk carece de uma elaboração estética para se permitir sair dos meandros da discriminação a que está sujeito enquanto música essencialmente de "preto" e "favelado", a ala de passistas do Salgueiro tripudia da discriminação e aposta na fusão momentânea dos dois ritmos, permitindo-se dividir o mesmo espaço físico com essa apresentação.

Passistas funkeiras

O trabalho proposto por Carlinhos do Salgueiro se faz presente em diversas frentes inovadoras e diferenciadas. É um profissional do samba e um artista que alcançou a maturidade em seu trabalho, sem se ater a críticas ou conceitos divergentes do seu: segue firme sua proposta, consegue seu espaço e reafirma sua ala, seus passistas e seus segmentos por caminhos diferenciados, inovadores, autênticos. Desde a criação da Ala do Maculelê, Carlinhos vem fazendo a ponte entre a tradição e a inovação sem perda conceitual para ambas. O samba tem essa pluralidade, e foi o próprio Salgueiro quem nos deixou a eterna lição do "nem melhor, nem pior: apenas diferente". Há espaço certo para alas de passistas tradicionais, bem como há campo para outras inovações. No samba, o tradicional terá sempre a sua ressalva e a sua força, bem como a inovação também será sempre reconhecida e necessária.

Salve essa gente do samba, essa gente do Salgueiro...pupilos do genial Carlinhos... grandes passistas como Alex Coutinho, Wellington Ricardo, Henrique Lameiras, Bruno Diaz e Emerson Faustino, Mayombe Masai, Marcos Correa, Rafaela Dias, Baiana do Salgueiro, Tainá Patrocínio, Thainá Paiva, Larissa Neves, Sabrina Ginga, Eloah Rosa, Stephanie Ferrari e tantos outros que lá estão... crescendo, aprendendo, apontando caminhos! Que bom que a presidente Regina Celi (ela mesma sendo uma passista) abre esse espaço importante para um trabalho desse porte ter tamanho grau de alcance dentro de sua escola. Estão todos de parabéns!

Com a humildade que o sambista deve ter..."salve os mestres do Salgueiro"!

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22/09/2013 21h31

Passistas e Malandros: Iguais ou Diferentes?
Hélio Ricardo Rainho

Este foi um fim de semana com ginga de samba e de passistas. Minhas observações se deram na quadra da Caprichosos de Pilares, memoravelmente enfeitada e organizada para escolher seu hino oficial de 2014, e na Portela, que apresentou seu Grupo Show em Madureira.

Na primeira oportunidade, acompanhado pela pesquisadora e amiga Sílvia Borges, que me auxilia na elaboração do projeto "Quem És Tu, Passista?", cujo foco é preservar a arte dos passistas e sua dança do samba, encontrei vários nomes desse ofício. Além de ser recebido com carinho pela anfitriã da casa, a diretora de passistas Kátia, também encontrei amigos queridos como Celynho Show (Mangueira) e Gabriel Castro (Império Serrano), bambas do regimento como Diego Nascimento (Portela), Mayombe Masai (Salgueiro), Eduardo Telles, Luíz Alves, Dido Dionísio e Sorriso (os quatro últimos, de Mangueira). Além deles, integrando um grupo de musas apresentado na quadra, Nilce Fran (Portela) também esteve presente.

Mais samba de passistas na Portela, que exibiu no sábado seu grupo de show, com direção geral de Jeronymo e participações de Nilce Fran e Valci Pelé, tendo um grupo de passistas a integrar o corpo de dança do espetáculo. E as presenças de Aldione Sena, decana no assunto, e Eduardo Senra, passista de Portela, trazendo luz às análises.

Quero registrar aqui a felicidade da Caprichosos em fazer desse enredo sobre a Lapa uma revisitação à figura histórica do malandro, com quem evidentemente os passistas masculinos, de forma geral, muito se identificam. O simples fato de a escola de Pilares ter aderido a essa temática e vir propondo, desde a apresentação de seu enredo, um destaque para a figura emblemática dos malandros, serviu como chamariz para que vários passistas visitassem a quadra da escola na escolha final de seu samba. Na oportunidade, a Cia. Carlos Bolacha apresentou seu número de dança de salão e exibiu uma bela coreografia com performances de malandros.

A busca da reafirmação do samba dos passistas tem sido um desafio no que diz respeito às suas origens. E um ponto relevante para se tecer considerações sobre o tema nos leva a crer que o atual cenário da dança dos passistas masculinos é uma fusão da ginga dos malandros capoeira (inclusive na indumentária) com a dança do samba propriamente dita - o chamado "samba no pé". Muito embora, historicamente, essas duas vertentes sejam distintas: a evolução dos estudos começa a revelar que esse encontro de personagens - o malandro e o sambista - é uma adequação contemporânea, pois nem o malandro da Lapa sambava, nem o passista autêntico (Tijolo da Portela, tido como o primeiro a criar passos e assim ser reconhecido) era um "malandro".

Trata-se de uma discussão que causa frisson no meio. Muitos querem adequar essa lógica de agora a um contexto histórico ao qual não existe pertinência. Outros querem dissociar uma coisa de outra e, atribuindo a isso um senso de "liberdade criativa", emprestar à dança do samba elementos considerados "impuros" ou "invasivos" pelos especialistas. É uma faca de dois gumes...

Tomarei por exemplo dois trabalhos paralelos contemplados neste fim de semana: a coreografia dos malandros exibida na Caprichosos de Pilares pela Cia. Carlos Bolacha e outra dirigida por Valci Pelé para o Grupo Portela Show, que apresentou-se na noite de sábado no Portelão. Nas duas oportunidades, percebeu-se que os quadros com malandros não tinham elementos de samba no pé, senão a ginga e os passos coreografados remetendo à capoeira, ao desafio. Tanto em Pilares quanto em Madureira, dentro de seus respectivos shows, os dois momentos foram distintamente separados: o da coreografia com os malandros e o do samba no pé com os passistas.

O que viria a ser, então, esse "samba de malandro", conjugando as duas vertentes, citado hoje por algumas pessoas e caracterizado em algumas alas de passistas das escolas de samba?

Para além de algumas discussões entre o histórico, o tradicional e a origem dessa dança, percebe-se haver um certo consenso, no atual cenário, de que o modelo mais recorrente para se preservar a arte dos passistas dentro dos desfiles, ou mesmo nas rodas de samba nas quadras, é vinculá-lo à figura do malandro. Traduza-se: quem é favorável a uma retomada do espaço do passista dentro das escolas, apregoa a caracterização dos passistas masculinos como malandros. Talvez pelo fato da malandragem ser um dos discursos mais antigos na musicalidade do samba, tão presentes nas obras de compositores como Noel Rosa, Bide, Ismael Silva e Wilson Batista.

Seguirão, então, as audições, observações e estudos para a construção de um modelo capaz de brigar pela preservação da arte dos passistas dentro do carnaval carioca. Uma arte fundamental, elementar, de raro valor, porém tão arraigada em sua prática espontânea e intuitiva que, face às pressões e castrações da lógica comercial presente nos atuais desfiles, perdeu seu espaço durante muito tempo, mas parece ressurgir e se impor. E é dessa busca de espaço e afirmação que pretendemos tratar nesse projeto "Quem És Tu, Passista?".

Salve os nossos passistas, glória e graça das escolas de samba!

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28/08/2013 13h41

A disputa de sambas e a fuga do palpite infeliz
Hélio Ricardo Rainho

A pauta atual são as disputas de sambas-enredo. Ao contrário dos enredos, a que sempre me proponho analisar nos três estágios distintos (a saber: sinopse, barracão e avenida), não gosto de meter a mão no vespeiro dos sambas-enredo. Sobretudo nesta fase em que amontoados de obras são apresentadas para, criteriosamente, os cortes eliminarem várias delas. Morro de pena. Nenhuma outra forma de arte dá-se a esse desperdício, mesmo considerando as obras incipientes.

Uma das "heranças" que o gênio da Vila, Noel Rosa, deixou-me como lição foi devidamente aprendida em sua jóia musical denominada "Palpite Infeliz". Observando a máxima do poeta, tenho muito medo de cair no erro por ele citado, A despeito do que me requer essa pretensa condição de "crítico", considero ainda mais pretensiosa a ideia de ouvir 30 sambas de uma escola, 28 de outra, 45 de mais outra (são mais de 30 escolas nos desfiles chamados "principais") e imediatamente sentenciar: "o melhor é o de fulano", "a safra daqui é boa", "a safra dali é ruim", "o samba do sicrano tá fraco" etc. Por eu ser um analista do assunto, essa deve ser a razão de eu ser tão cobrado, no corpo-a-corpo das visitas às quadras, sobre o que acho, o que penso etc.

Foto: Reprodução de Internet

Sem querer fugir do assunto, adotei meu critério: prefiro, ante essa fase em que inúmeras obras são conhecidas nas quadras, esperar que os júris específicos - delegados pelas diretorias das escolas - façam suas "peneiras" e, deixando quantidades menores de obras na disputa, então me permitam ter uma visão mais clara e objetiva para analisar. Penso assim: se cada escola preparou um júri orientado para julgar sambas sobre seu enredo, como posso eu sair julgando sozinho todas as obras de todos os enredos? Particularmente consideraria incoerente publicar algo desse jeito. É minha lógica de trabalho.

Prefiro ir às quadras como "curioso" ou "apaixonado"...ouço todos os sambas e, não raro, um me salta, de cara, aos olhos. Nele me agarro e não mudo mais de opinião. Me conquista, vai crescendo e aí passa a ser meu favorito. Na minha Portela, por exemplo, passei por um que, até agora, me parece incomparável: é meu favorito imutável! Fui ao tão querido Império Serrano (e como me tratam bem naquela escola, obrigado, Serrinha!) e também tive uma visão clara do meu melhor samba.

Segredo de estado, amigos leitores! Foi o Helinho - não o Hélio Rainho colunista - quem esteve lá pra conferir os sambas.

Como comentarista, no entanto, tenho algo sério a dizer sobre sambas-enredo. Ao que me parece, pelo que andei lendo e ouvindo (falo, portanto, de letra e melodia), há algo meio preocupante no ar. Tem um monte de gente fazendo samba com rimas de carnavais passados, com frases soltas e apelos fáceis de suposta empolgação. Piora, a meu ver, esse quadro, quando se percebe a dificuldade de muitos para construírem frases de exaltação à escola, algo que sempre foi intrínseco à natureza desse tipo de compositor, que sempre começava sua carreira compondo hinos às escolas. Poucos são os que conseguem citar/engrandecer/elogiar/tributar suas escolas com criatividade: a maioria repete fórmulas e elogios de sambas passados.

No que isso me preocupa? Temo que a pobreza que se enxertou comercialmente na música popular brasileira, hoje vultosa geradora de maus representantes para os auditórios de televisão e trilhas sonoras de novelas, invada nossos quilombos culturais que são as escolas de samba. Porque, se não posso me defender de um surto comercial de gravadoras e da mídia em geral a valorizar músicas ruins por aí afora, entendo que as escolas de samba - geradoras/tutoras de seus próprios compositores - ainda detêm o poder de evitar esse mal. Se cada samba escolhido vence numa lógica de 30 ou 40 para 1...como errar na qualidade do escolhido? É a escola de samba quem deve zelar pela qualidade, pela formação e pela instrução de seus compositores. Antes de se formarem os "condomínios", minimamente cada "apartamento" deveria ser submetido a alguma apreciação para ingressar numa ala de compositores. O teste do samba exaltação reprovaria certamente muitos que aí estão. E nivelaria por cima a preparação de outros, também.

Na avenida, gostaria que o jurado tivesse o mesmo critério de distanciamento, no quesito samba-enredo, que tem em outros quesitos. Se a má alegoria dista em dois pontos da boa, por que o samba ruim perde apenas meio ponto (quando muito, se não tira 10 redondo também)?

Enfim, não quero pensar nem falar muito de sambas-enredo antes que eles cresçam e se imponham dentro da sua própria disputa. Ficou-me a lição do bom Noel, ele mesmo um mito de um bairro, frequentemente citado por uma escola de samba da qual foi extemporâneo. E que nunca fez sequer um samba-enredo pra gente poder ouvir. Salve o bardo do Boulevard mais charnmoso do Brasil!

E que Deus me livre sempre de algum palpite infeliz!

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12/08/2013 16h12

Parabéns, sabiá Clara guerreira!
Hélio Ricardo Rainho

Eterna. Divina. Inesquecível.
O mais extraordinário sabiá que o Brasil ouviu cantar.
Houve um 12 de agosto distante em que nasceu Clara Nunes. E nunca mais a música popular brasileira seria igual.

Foto: Reprodução de Internet

Cantora popular, de samba, dos poetas do povo, da riqueza das favelas, do chão de terra socada, das rodas de forró, dessa gente faceira e suada, sofrida e perseverante.

Vozeirão alto, imponente, extenso, que transcorria os suores e calores da alma negra, indígena e branca miscigenada no DNA Brasil, expressando luta, sacrifício, brio, conquista, dor e sofrimento. Mais do que simplesmente cantar, Clara emprestou sua alma, seu corpo e sua beleza ao povo brasileiro.

Foi além, muito além, do proselitismo religioso: pode-se estudar toda a sua obra e lá se constatar que nenhuma - absolutamente nenhuma - de suas canções era de natureza essencialmente religiosa: ela não gravava pontos, antes interpretava canções folcloricamente estilizadas pela arte de grandes compositores populares a quem eternizou com seu canto. Era uma artista brasileira na maisoura essência. Linda, linda, linda como ela só.

Devo, talvez, a Clara Nunes, meu rastro de fixação com a grandeza das escolas de samba. Em sua morte, no ano de 1983, era eu bem menino quando, pela primeira vez, pisei a quadra de minha Portela. O dia mais triste da história da escola. Minha mãe, portelense convicta e inveterada fã da cantora, chorava muito, e fazia coro com um bairro inteiro de Madureira que por ali de lamentava.

Eu menino, em meio àquela multidão tive um sonho. Imaginei transformar, um dia, todo aquele lamento em homenagem. Eu queria, de alguma forma, trazer de volta a alegria e a beleza da arte de Clara.

Dez anos depois, criei um projeto artístico para o Museu da Imagem e do Som com exposição de fotos e adereços de Clara (acervo do artista plástico e carnavalesco Barthô), uma mostra de vídeos da cantora no Japão e uma peça teatral, escrita e dirigida por mim, "Clara Nunes, o Despertar da Guerreira".

Foto: Reprodução de Internet

Naquela oportunidade, coloquei baianas da Portela em cena, e era um espetáculo emocionante de se ver. Porque Clara era puro fascínio, emoção, comoção diante de seus admiradores. Antes de dar início ao projeto, organizei um debate no MIS que teve depoimentos de Noca da Portela, Monarco e Wilson Moreira, todos representantes da Velha Guarda da Portela, falando da relevância e da grandeza de Clara no cenário de nossa MPB.

A primeira temporada teve a atriz Patrícia Alves como intérprete. A segunda, Lena Oliveira. O espetáculo ficou um ano em cartaz, eu tinha apenas 23 anos e foi a glória!

Foto: Reprodução de Internet

Recebi do Museu da Imagem e do Som e do Governo do Estado o título de "amigo de Clara Nunes", um orgulho e um atestado de fã incondicional da maior cantora que o país já teve.

 

Foto: Reprodução de Internet

Se Clara fosse viva, completaria hoje 70 anos. Muito provavelmente, estaria esbanjando a mesma beleza e a mesma graça que tinha aos 40, quando tão precocemente nos deixou naquele triste 2 de abril de 1983.
Sua obra, sua lembrança e sua grandeza estarão para sempre perpetuados em nossa memória.

E onde quer que se veja uma águia azul e branco, uma saia de baiana nessas cores ou mesmo o manto da Majestade do Samba conduzido por um casal de mestre-sala e porta-bandeira lembraremos da voz marcante de Clara Nunes, de sua paixão por aquela escola, de seu virtuosismo e gana na mais singela alegoria do que é e do que sente o povo brasileiro.
Saudades da mineira guerreira. Linda, eterna, radiante.
Canta, meu sabiá...hoje é seu dia!

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