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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Carioca, publicitário, MBA em Marketing, ator, diretor teatral, escritor, pesquisador de escolas de samba, futebol e teatro. Twitter: @hrainho

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



04/02/2016 08h13

O Carnaval 'pensado'
Hélio Ricardo Rainho

Estamos a poucas horas do carnaval e talvez não queiramos "pensar" a escola de samba. 

Sim, talvez não queiramos "pensar" - assim, entre aspas mesmo - porque estejamos mais acostumados ao fluxo corrente de ano após ano, sem nos darmos o trabalho de questionar se tudo isso que estamos fazendo é ou não é escola de samba de verdade.

E talvez não queiramos porque, nesta nossa lógica cruel de empreendedorismo e produtividade, a escola de samba tenha se tornado uma fábrica, uma esfera de produção em larga escala, uma ode à era da reprodutibilidade técnica.

Não queremos "pensar" a escola de samba, porque estamos muito preocupados com a mídia que nos divulga e nos valoriza; com as notas encarceradas dos jurados sentenciadores; com a verba pública que calou a nossa boca na hora de berrar verdades contra elementos escusos da politiquice nacional; com as quadras tomadas pelos sambas de "condomínio empresarial S.A." - "super-anátemas" da liberdade poética de outrora, "escondendo gente bamba...que covardia!". Criaram um modelo frankensteiniano de remendos e colagens, e querem apregoá-lo aos críticos com a mesma persuasão com que já o introjetaram no próprio sambista.

Estamos arregimentados com as "críticas construtivas", banindo qualquer forma de reflexão sobre as inverdades do samba, com medo que que nosso olhar mais apurado possa parecer "pessimismo", "má vontade", "má intenção". Os "gigantes" do sistema coagem e coíbem toda crítica: eles vêm a público pra dizer que têm o melhor samba, o melhor enredo, o melhor carnavalesco, a melhor bateria...cada um boiando em sua poça rasa de jactância, achando que está submerso no oceano da sabedoria.

Foto: SRZD e Reprodução

E mais e mais pajens reverenciando os mesmos falsos deuses em busca de algum Olimpo que os acolha...batendo palminha, se curvando, reverenciando...enviando currículo! Fazer o jogo é a única esperança de se ganhar o jogo.

O grande espetáculo no qual se desenharam os desfiles passou a ser entendido como uma engenharia fria e maquínica, de relações frias e impessoais. As quadras trancafiadas, seus ensaios exaustivos e desgastantes obrigando gente bamba a berrar o samba outrora cantado; a lógica dos diretores de harmonia que se multiplicam como barreiras humanas na avenida ou dos que vibram entre si a esmo, enquanto as alas nada cantam ou apenas marcham, são coisas que saltam aos nossos olhos. Um...dois...três...mil intérpretes: a escola de samba não tem mais uma voz própria, é a voz de várias vozes, e a gente não mais identifica quem fala ou quem está falando.

Carnavalescos vaidosos lançarão sobre os passistas suas fantasias de caxangá, aberrações ultrapesadas que impedem o samba no pé de maneira burra e notória, porém convicta e irresoluta! Passam os anos e os carnavalescos desaprendem cada vez mais sobre o traje que facilita a graciosidade do passista! Teimosia ou retaliação?!

Teremos, sim, a mesma magia e o mesmo encanto que ainda nos será sempre possível, graças às mentes criativas de nossos carnavalescos, à poesia sem fim de nossas baianas girando, ao samba no pé gracioso e verdadeiro de nossos passistas, à pulsação extasiante de nossos ritmistas, ao bailado mágico e reverente do casal diante do pavilhão.

E, ao terminarmos o nosso desfile, sairemos enfileirados naquele mar de grades opressoras que mais parecem corredores de concentração nazista: o sambista é protagonista do "maior espetáculo da Terra", dá audiência na televisão e dinheiro no bolso de muitas pessoas, mas se retira da avenida quase vomitado, escorraçado! Da Apoteose pra trás, quem nunca desfilou não sabe: as saídas e caminhos da avenida parecem um deslanche de navio negreiro desovando escravos espremidos entre gente, paredes, concreto e ferro, com gritos e destrato, e nenhuma segurança, a quem acabou de desfilar. O desfile de escolas de samba é o único espetáculo do mundo onde o artista principal tem um camarim que o esmaga!

Mas vamos que vamos...que é tempo de jogar confete e serpentina, e é proibido refletir, analisar, falar diferente, temer o julgamento de envelopes de papel (volto a dizer: mudaram tudo na escola de samba, mas ainda a julgam como em 1935!!!).

Bonitos, bem-vistos e benquistos são aqueles que nada críticam; "os bons" alimentam a alienação, batem palminha e aprovam tudo. E ainda dizem: "Não tá satisfeito?! Sai da cobertura de carnaval!" Esses terão espaço em todas as mídias, em todas as empresas de comunicação...uau! Serão "queridinhos" de todos, e vão justificar qualquer enredo "com tanto que o samba seja bom"!

Dentre os críticos de escolas de samba, esses serão sempre "os reis"!

Desculpem...prefiro continuar só "Rainho"! Só eu mesmo: um confete perdido nesse chão que todo mundo pisa sem olhar, sem dó nem pena, chamado "chão de escola de samba".

Bem...um bom carnaval pra todo mundo que ainda ama Silas, Candeia, Clementina, Noel, Cartola e Ismael!

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19/01/2016 08h58

Passista: É teu dia, é tua vez!
Hélio Ricardo Rainho

Um dia o samba fluiu do batuque, como as águas fluem de uma fonte, e chamou o corpo para sambar. Para alguns, foi um chamado auditivo: a mente captou a canção e respondeu com letra, poesia, melodia. Para outros, foi apenas convite: indução ao gosto musical, ao balanço, ao encanto do gênero.

Mas havia uma raça especial. Uma raça cuja musicalidade do batuque provocaria uma força diferente. Gestação, magia, encanto, transmutação. Uma raça dotada de algum estranho privilégio místico ou mental, físico ou espacial...uma raça estranha que transformaria as vibrações e rufares em uma sinuosidade do corpo; em meneios, em viravoltas e requebros; em molejo incomum de pernas rápidas e saltos; em sorrisos inexplicáveis de prazer; vida e morte assim conjugadas: viver e morrer por esse ofício!

Fotos: JM Arruda

E veio, assim, o PASSISTA!

O passista não tem com o samba a mesma relação que os demais. O passista tem com o samba uma estranha fusão de preceitos: ele gera e é gerado pelo samba! Da mesma forma que o samba é o oxigênio que o passista respira, ele também passa pela alma desse artista para sair transformado e reprocessado. O passista é mesmo a artéria do samba: é o único elemento da escola de samba por quem o samba atravessa, vai ao avesso, passa por dentro, revira a alma e sacode o corpo.

O transe do passista é transeunte: passeia no corpo e vagueia na estrada da alma. O passista, quando fecha os olhos, enxerga o samba. Porque consegue ver dentro de si aquilo que, por fora, a nós parece puro êxtase e estado de pura arte!

Foto: JM Arruda

O passista manifesta, na dança, a fisicalidade do samba: ele desenha, com os volteios do corpo, as notas musicais que a batucada lança ao ar. É um alquimista dos tambores: ele transubstancia a música e é capaz de criar o ouro. Hoje, 19 de Janeiro, é Dia do Passista. É um artista afirmativo, genuinamente brasileiro, de uma arte intuitiva cuja técnica brota da alma, dos sentidos da paixão. Um artista que se faz sozinho, mas que empresta brilho e grandeza sem par ao maior espetáculo da Terra. Deve ser mesmo muito controverso, porque sua grandeza ainda não foi devidamente compreendida. Para isso, vêm sendo testadas sua glória e sua grandeza: ele se impõe e se afirma, se arregimenta e se glorifica em seu ofício.

Queremos saudar a todos os passistas de escola de samba que, não apenas neste dia, vêm lutando para pagarem suas roupas, frequentarem seus ensaios, beberem sua água, tomarem o seu lanche. Porque nem tudo, na vida do passista, é poesia: há muita dor, sangue e sofrimento que permeiam sua caminhada. Uma Via Crucis que o fere e macula, mas também o faz renascer a cada manhã com uma nova disposição para encher de graça não só a avenida, mas também um pouco de cada vida que contempla sua grandiosidade.

Parabéns, Passista! Hoje o dia há de ser teu!

Foto: JM Arruda

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23/12/2015 09h04

Para se entender o passista neste século XXI
Hélio Ricardo Rainho

O SRZD saiu na frente mais uma vez! Tivemos o cuidado de analisar criticamente um dos segmentos mais representativos da escola de samba: as alas de passistas. A ideia era dar visibilidade e apontar a diversidade artística que essas alas possuem. Assim como as baterias, passista não é "tudo igual". Existem elementos que norteiam a identidade de uma escola e proposições de trabalho diferentes.

Os vídeos com as análises técnicas contaram com dois luxuosos protagonistas: Aldione Senna, baluarte dessa segmento; e Fábio Batista, um dos mais renomados e respeitados passistas e estudiosos do assunto.
Passaram apenas seis escolas pela avenida em seus ensaios técnicos, mas já pudemos observar algumas coisas. Ponderações que podem nortear tanto a atividade dos passistas quanto o entendimento de quem os assiste. Observações que farão parte dos fóruns do projeto "Quem És Tu, Passista?", que venho desenvolvendo há alguns anos.

- A ala de passistas, é óbvio, precisa sambar. Pode ter sua marcação, sua coreografia em dado momento do samba, alguma ilustração performática do enredo...mas não pode jamais se omitir de sambar. É o samba no pé que caracteriza e difere o passista de todos os demais componentes de uma escola.
É primeiro fundamento, sempre;

Foto: JM Arruda

- Estamos no século XXI. Lutamos pelas tradições e pela preservação dos legados do samba, sim. Mas não dá pra ficar encarquilhados se espelhando nas fotos dos jornais antigos, brincando de "túnel do tempo". Mudou. E "quem não muda, não dá muda"! Cada ala que passou na avenida, a seu jeito, até aqui, mostrou seriedade e comprometimento com o que está fazendo. Umas acertando mais, outras ganhando experiência, mas todo mundo fazendo seu trabalho com olhos para uma apresentação a um grande público. As alas de Estácio e Mangueira, que puxaram um estilo bem tradicional, foram exuberantes em virtudes de samba no pé e figurino. Quem não ousa no conceito, ousa na performance. Trouxeram seus melhores passistas. São alas que parecem ter clima respeitoso, fidelizando seu elenco. Isso é muito importante. Ala com muito entra-e-sai sugere algum problema na gestão de pessoas. Estado crítico, porque família não vive perdendo filhos nem os lançando ao vento;

Foto: Hélio Ricardo Rainho

- A redefinição do papel dos coordenadores/diretores de ala no século XXI é clara. Quem comanda, tem que apresentar serviço. Sonhar com passistas espalhados pela escola virou anacronismo: a dinâmica dos desfiles não permite essa borrifação de passistas dançando separados. Saudosismos à parte, nenhum de nós vai mudar o carnaval com esse purismo. E é possível fazer um belo espetáculo com os passistas numa ala compacta e harmoniosa. É aí que se precisa entender a função contemporânea de um líder de ala de passistas.

O coordenador/diretor de passistas do século XXI é um diretor cênico, que precisa ter noção estética e visão de distribuição dos passistas (na avenida, no palco, na quadra), definição de figurino, visão de comunicação de seu trabalho com a audiência (aquilo que Fábio Batista chama de "desfile lateral", com os passistas dialogando na dança com quem assiste, não só "caminhando frontalmente"). Percebemos claramente que as fórmulas do passado não funcionam se não forem adaptadas à realidade atual. Tradição não é teimosia; legado não pode ser desculpa para estagnação. Exemplo de grandeza fundindo tradição e modernidade: Valci Pelé inaugurando passistas pandeiristas para a avenida em 2016. A Portela é um grande exemplo de como passistas podem ser técnicos, tradicionais e dialogarem com inovações. Ser uma ala tradicional não estagnou nem deve ser desculpa para estagnar o trabalho de ninguém;

Foto: JM Arruda

- Outro tema polêmico: "formar passistas". Ao que nos parece, essa argumentação muitas vezes procura sustentar um discurso de afirmação mais pessoal do que produtivo. O que seria "formar um passista"? Fazer um convite a um estranho que "samba bem" pra estrear numa ala é "formar um passista"?! Dar um curso, abrir audições, ter um projeto...o que é, efetivamente, "formar um passista"?!

Penso que temos inúmeras formas de fazê-lo. E - discutam-se os meios e os fins pra se chegar lá - temos visto com muita propriedade gente tarimbada e gente nova investindo na formação de novos passistas. A história mais bonita que ouvimos este ano foi de Pedro Telles, da Rocinha. Um jovem que chegou a uma escola de samba para dirigir passistas e tinha apenas...três! Que fez Pedro?! Mudou-se de São Gonçalo pra Rocinha, fez um projeto dentro da comunidade, procurou gente até na praia de São Conrado (perto da Rocinha) para formar um cast com 35 meninas e 15 meninos. Ele reconhece que ainda precisa burilar esse grupo, mas já tem 50 passistas legitimamente formados e saídos de dentro da comunidade pra sambar pela escola. Linda história de devoção e empenho! Pedro é muito jovem: não precisou ter muitos anos de avenida para arregaçar as mangas e produzir. Ele tem o que apresentar, é humilde e emocionou a avenida com seu trabalho. Kaio Mackenzie fez trabalho parecido recuperando passistas da Acadêmicos do Engenho da Rainha. Do jeito deles, estão apresentando trabalho e isso é exemplo de liderança;

Foto: JM Arruda

- Mais uma questão polêmica: "passista masculino samba como?". A resposta mais objetiva é: se é intitulado "masculino", se escolheu dançar com o figurino masculino, deve dançar como tal. Talvez as pessoas só venham a se dar conta de como o gestual invertido é estranho quando aparecer, na avenida, uma passista escultural, de biquini, com trejeitos exageradamente másculos...

Independente da questão sexual, porque dançar não é prática sexual nem ato libidinoso. Misturar as duas coisas numa só discussão é um exagero. As alas apresentam-se com a diversidade da dança feminina e masculina. Cada um deve guardar seu papel e cabe a quem dirige também nortear os parâmetros. Descaracterizar isso é dar murro em ponta de faca: a feminilidade nas alas masculinas é veementemente rejeitada pela maioria dos críticos. Ah: e não dá prêmio a ninguém!

Foto: JM Arruda

- É bom lembrar que a fusão do passista com o chamado "samba malandreado" não é uma tradição antiga, mas contemporânea. Foi a partir dos anos 80 que as alas passaram a trajar seus passistas de terno e chapéu panamá para, segundo depoimentos, "forçarem a postura masculina" em uma época onde, com o configuração dos passistas em alas, o masculino passou a dançar sem precisar cortejar o feminino, o que atraiu muitos afeminados para as alas, gerando uma "necessidade de distinção";

- De bom tom: a visão crítica de que o passista masculino não deve sambar como mulher não dá o direito a ninguém de ser preconceituoso, homofóbico ou discriminativo. Análise crítica é uma coisa, crime é outra! Tem gente escondendo uma coisa sob outra. Melhor moderar. Vamos respeitar a figura humana que está ali, se esforça, tem gastos pessoais, ama uma escola. Orientar não é agredir;

Foto: JM Arruda

- Isso também diz respeito a comentários sobre figurinos simples ou requintados usados pelas alas de passistas. É bom reforçar a generosidade, o respeito e a humildade nos comentários. Estranho precisar dizer isso, porque o carnaval e a escola de samba não são lugares de pessoas abastadas nem de origem nobre. O que nem assim justificaria certas alfinetadas ou intolerâncias. Escola que pode, compra sapato caro, faz terno caro, usa brocado e pedraria. Mas respeita o figurino do outro, que corresponde muitas vezes a meio prato de comida de quem está usando;

Foto: JM Arruda

- Prêmio é coisa que se ganha, não se reivindica. Elogio é coisa que se recebe, não se autoproclama. Uma ala de passistas não desfila pra "provar alguma coisa a alguém": desfila porque precisa defender e afirmar a dança do samba, a tradição do segmento. A dança do passista é a paixão de quem samba no pé. Ponto. Se vai ser premiado ou não, é outra coisa.
Talvez estejamos numa curva filosófica da compreensão de nossos saberes e referências da arte dos passistas nas escolas de samba. A intertextualidade, o diálogo com modalidades cênicas e performáticas e a concepção de um corpo artístico sob a direção de especialistas são desafios que nos sugerem, pouco a pouco, uma necessidade de estudar e melhor compreender a passagem do passista do século passado para o passista deste século XXI.

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17/12/2015 19h32

Carnaval 2016: transmissão atravessada!
Hélio Ricardo Rainho

Ontem ensaiei com a minha Portela, quadra lotada, povo em festa, e a alegria estendeu-se das 23h em que o ensaio terminou até mais de duas da manhã no barzinho da rua Clara Nunes. Povo orgulhoso, inebriado, fascinado, feliz. O intérprete Wantuir e o compositor Samir Trindade não resistiram e juntaram-se aos inúmeros portelenses que cantavam sem parar, nas mesas do bar, o belo samba da escola. Paixão. Emoção. Cultura popular. Rito.

Senhores leitores do SRZD, ninguém vos engane! Esse meu exemplo da noite de ontem não sensibiliza e nunca vai sensibilizar ou ter qualquer relevância para os cavalheiros de raciocínio turvo e cartesiano que programam a transmissão dos desfiles de escola de samba nas salas frias das empresas de comunicação. Em seus féretros e câmaras mortuárias de radiodifusão, os números e a quantificação de pontinhos de audiência constituem o valor acima de todos os demais valores!

Tivemos a notícia de que, para sustentar sua programação no ar, a televisão decidiu cortar as duas primeiras escolas de cada dia de transmissão do carnaval 2016. Nessa tacada, baniram Estácio, Salgueiro, Vila e Isabel e União da Ilha das transmissões! Virarão "compactos" não mais em tempo real! Eis a crônica de uma morte anunciada...

Mas o que é que está morrendo, afinal? A escola de samba ou a televisão? Vamos por partes...como aconselham os canibais!!!

Foto: Reprodução de Internet

Bombardeada pela pluralização das mídias e das plataformas de comunicação, pouco a pouco a televisão foi perdendo seu encanto e credibilidade. Perdeu parte de seu poder de mobilização, porque não podia mais mentir nem manipular milhões de pessoas com celular na palma da mão, conectadas com tudo e com todos ao mesmo tempo, tirando a limpo as mentiras que antigamente eram despejadas sem contraprova. Os produtos televisivos ficaram pobres. A audiência pulverizou. O público foi abandonando as audiências absolutas e os pontinhos mínimos passaram a ser mendigados a pão e água. Trabalhei 21 anos em televisão e vi esse castelo ruir. Acredite, leitor: o seu perfil de rede social passou a ser uma potencial ameaça a todo jogo que a televisão sempre fez! A velocidade de sua resposta é, hoje, maior que a do poderoso veículo que outrora nos dominava. Após a perda de poder, veio a de qualidade.

A cobertura pífia e esdrúxula do carnaval na TV - decrépita e maquiada de "moderninha", como toda sua programação no geral - atenta para um doente que agoniza. Sem um médico capaz de curá-la, resolve sacrificar...o paciente! Cortaram as escolas porque perderam audiência! Tiraram do público o que o público "já não via". Em vez de assumirem a fraqueza e o despreparo para o trabalho, escolheram o corte! Estão admitindo publicamente que não sabem fazer, não sabem levantar o que caiu, não conseguem se repensar! Vão tentar fazer isso esticando os programas anteriores ao desfile para "evitar o tombo" de novo. É uma derrota histórica cujo preço quem paga é o telespectador!

E a escola de samba, como fica?! Veio da Serrinha (como sempre, a louvável coragem histórica do Império Serrano!!!) a frase que me inspira pra explicar essa omissão histórica. Disse-me o menino de ouro dos passistas, Gabriel Castro: "Há tempos que vendemos barato o nosso suor na avenida"! É isso! A escola de samba sai desbaratada atrás do caça-níqueis dos poderosos, e cala suas verdades históricas para dar vez e lugar à subserviência e à cabeça baixa diante de quem a financia.

Quando o crítico fala de colonialismo cultural, acham-no radical e perseguidor! Quando o crítico denuncia um imperialismo de cartéis da subcultura televisiva enfiando garganta abaixo o lixo cultural do país em repetição massiva de forma a legitimá-lo sob a mentira de que é "expressão do povo", acham que é síndrome de perseguição. Este ano tivemos uma Velha Guarda vaiada numa quadra de escola de samba, tivemos enredos alienígenas e outros de vertentes que sabidamente baniram o samba das gravadoras e das rádios. Teve gente alugando escola para fazer enredo que, pelo que andei sabendo, vai pagar uma pindaíba e deixou a escola no maior fiasco. Para dar linha a essa tralha, a escola de samba fica calada, aceita tudo, não fala mal de governo para não perder edital, não fala mal de emissoras para não perder matéria.

Coleguinhas de imprensa fazem o mesmo jogo: estão sonhando com matérias sobre eles ou com mercado de trabalho sob as rédeas de quem despreza a cultura popular. Calam-se e tentam calar os outros! Estão cativos sob mordaça e acham que todo mundo tem rabo preso também. Querem apostar quanto? Ano que vem, essa safadeza vira enredo! E se o samba for bonito..."pronto"..."estamos vingados"..."mostramos que estávamos no caminho certo"! Porque esse é o discurso: errar, mas "fazer bonito"! Assim, a escola de samba engole seco, vomita, derrapa no vômito... e faz de conta que pode sair limpinha do tombo!

"Ora, quem essa crioulada pensa que é para querer fazer o maior espetáculo da Terra???" Pois é...até parece que quem entende de samba são eles!!!

Estamos fartos do conluio entre os poderosos e os que os legitimam! Não vá você achar que isso é apenas uma questão de uma "emissora feudal", não: tem também uma concessão sorridente e cúmplice da própria Escola de Samba - assim, maiúscula - como uma "escrava voluntária" que escolheu ir para o tronco por dinheiro e afagos de quem a molesta!

Se, para essa gente, um Salgueiro poderoso, um Estácio histórico, uma Vila Isabel grandiosa e uma União da Ilha iluminada não representam nada...que rompam os laços entre as partes e exija-se distância onde não houve respeito!

Mas não se surpreendam se, nos próximos anos, a televisão exigir que TODAS as escolas façam os enredos que ela quiser, talvez homenageando os pseudoartistas de alguma gravadora ou de seus infames reality "shows de horrores" de patrocínios milionários. Como eu já disse, se tiverem "um samba bonito", "uma sinopse bonita" e "uma plástica bonita", poderão endeusar quaisquer atrocidades em desprezo às verdades do próprio samba...todo mundo baterá palminha e ninguém criticará ninguém.

E isso só acontece porque cada rato, em sua miserável toquinha, está sempre esperando a vez de beliscar seu queijinho tão querido...

Um dia, Mestre Candeia, as ratoeiras hão de caçar todos os ratos! Ratos que não batucam, não tocam instrumento, não sambam no pé, não fazem e não sabem fazer NADA! Para orgulho de nosso Quilombo...para que nos venha Um Dia de Graça!!!

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Leia mais sobre o assunto:

- Desfiles da Estácio, Vila, Ilha e Salgueiro não serão transmitidos na TV

- Medo? Sobre a não transmissão: escolas evitam falar sobre o assunto

- Cultura popular rendida: desfiles de escolas tradicionais fora da TV

- Eu só queria entender...

 

 

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23/11/2015 22h35

Escolas de samba: medo ou prazer em ser espetáculo?
Hélio Ricardo Rainho

Estamos vivendo um anacronismo e uma dualidade. Nunca antes as escolas de samba precisaram tanto quanto agora redefinir e reafirmar seus papéis dentro do cenário em que estão. Precisam, mais do que nunca, consolidar seu lugar na história e enfrentar seu dilema de serem modernas ou tradicionais.

Desfile Império de Casa Verde. Foto: Reprodução de TV

Historicamente, o tradicionalismo assegurou a pole position das então chamadas "quatro grandes" - Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro. Com o passar dos anos, surgiram as "grandes novatas" - Mocidade, Imperatriz, Beija-Flor - impondo novos conceitos e quebrando a hegemonia. Desde então, pairou sobre o Carnaval da disputa o seguinte dilema: o que é mais importante no samba - inovar ou manter a tradição?

Até hoje essa resposta não veio. Há alguns grupos com pensamento um tanto quanto extremista que impedem a resposta mais equilibrada e sensata para essa pergunta.

Há os puristas que afirmam refutar todo tipo de inovação, preservando - "em nome da tradição" - o conservadorismo e o retrógrado dentro das quadras e na Avenida. Na maioria das vezes, constituem um grupo que não se adaptou ou não se engajou às mudanças. Confundem sentir-se ultrapassados com sentirem-se ultrajados: ofendem-se gratuitamente com os que andam pra frente e acabam também os ofendendo gratuitamente. Atacam achando que se defendem. É uma tentativa sutil de aplacar seu sentimento de inferioridade. Por vezes, estão forçando um anacronismo para fazerem prevalecer seu conhecimento sobre os demais: impor a cultura do passado passa a ser, para eles, causar cegueira aos do presente. Se só os puristas viveram o passado, só eles sabem o que é escola de samba, e os demais devem se submeter a tudo o que eles ensinam. Ao contrário dos baluartes, que detêm o passado e vislumbram o futuro, os puristas não fazem discípulos: fazem subalternos! "Não gostou? Sai!" - é seu lema. "Estou aqui há XX anos!" - é seu brado mais comum, enfatizando as duas casas decimais de sua existência no terreiro.

Há o ranço intelectual - esse travestido de algo garboso e engajado - que situa a escola de samba no limbo entre o tribal e o primitivo, impedindo-lhe o avanço devido a todo e qualquer fenômeno cultural cujo mote é justamente a dinâmica criativa. Os intelectuais do ranço jamais vão admitir artistas nesse espetáculo: eles vão tratá-los sempre como "indivíduos" dessa "manifestação cultural". Tratam o sambista sempre como um "maravilhoso exótico". Essa linha prevê uma escola de samba futura cada vez mais "passadista", apregoando que todo passo em direção ao "espetáculo" é temível e refutável. Para esses, escola de samba modernizada parece "indío de calça jeans". Eles nao querem saber se o índio, afinal de contas, quer ou não a calça jeans: eles decidiram que a escola de samba não pode deixar de ser tribal...e ponto final! Para eles, termos como "artista" ou "espetáculo" são verdadeiras ofensas: eles ainda concebem o desfile como algo "antropológico" no pior sentido - aquele que limita o objeto de estudo ao que o estudioso quer que seja para sustentar suas teses. Querem uma escola primitiva, de pessoas místicas e encantadas pelos sentidos, mas sem nenhuma consciência artística ou consciência criativa.

E há os modernosos empedernidos que aderiram deslavadamente à indústria cultural e ao populismo massivo, travestindo merchandising em patrocínio, comercializando tudo, revestindo a escola de samba de estranhamento e veneno. São os que mais alimentam a ideologia dos puristas: é justamente por sua voracidade em promover um verdadeiro "topa-tudo por dinheiro", confundindo modernização com desprezo à tradição, que os puristas se travam para todas as novidades e fortalecem seu discurso. Para os modernosos empedernidos, primeiro vem o patrocínio e depois vem o enredo. Para eles, o modelo de julgamento não deve considerar as variações das escolas; antes deve impor um chamado "nivelamento dos desfiles". A concepção de espetáculo, para eles, não está na diversidade nem no lastro criativo, muito menos na tradição de cada escola, mas sim num padrão fixo a que todas as escolas devem se curvar. Eles impõem sua "verdade" com pulso tão firme que há quem acredite que estão certos e atté se impressionem com seus feitos!

E onde estão os reflexos de todos esses pensamentos? Estão nas disputas de samba-enredo com seus patrocinadores financiando torcidas que "valem ponto" na hora da escolha; estão nas direções de harmonia que quicam felizes como torcida organizada de futebol e atuam como misto de animadores de auditório e seguranças truculentos de show de rock tirando os espaços das quadras pro povo sambar; estão nos que insistem em afirmar que "não existe mais passista masculino", se negando a ver o que está acontecendo e repetindo o que uma meia dúzia de homofóbicos ou desinformados esbraveja por aí; estão nos que ainda criticam coreografia dizendo que "mata o samba" sem estudarem de perto o belíssimo trabalho dos coreógrafos que emprestaram sua arte para somar - não para anular - o samba; estão nos julgamentos de desfiles que inventaram besteiras como "desfile técnico" ou "disputa por quesitos" para serem o argumento-mentira que esconde resultados injustos contra escolas que emocionam de verdade a Sapucaí; estão na incapacidade de discernir o que é um samba "berrado" e um samba "cantado" na avenida (invenção recente que transformou "harmonia do canto" em "harmonia do berro", e até garante notas dez de jurados); estão nos discursos que cerceiam o aprendizado e a técnica como caminhos para o crescimento artístico porque só concebem os peronsagens da festa como "médiuns incorporados" ou exóticos primitivos.

Estamos com medo do espetáculo! Mas somos os primeiros a afirmar, quando isso nos interessa, que a escola de samba é "o maior espetáculo da Terra"! É preciso entender que o termo "espetáculo" está relacionado ao porte do evento e à sua repercussão, o que não quer dizer que não possa respeitar suas raízes ou manter sua identidade. O problema é que a grandeza do evento "$eduziu" a muitos, e foi o poder econômico - não o espetacular - que convulsionou e tumultuou muita coisa. Acreditem: é possível sermos mais espetaculares e mais puros! Basta resistir ao colonialismo da televisão, ao imperialismo dos mandatários conservadores, à tirania impositiva do sistema de julgamento retrógrado de envelopes na era da informática, ao estrangeirismo dos que não são do samba e ocupam o lugar dos que são!

Não somos vítimas do "espetáculo", como muitos pensam. Somos vitimas da má vontade e da ganância! Em vez das escolas de samba utilizarem a mídia para exaltarem seus valores, elas preferiram utilizar seus valores para exaltarem a mídia! A verdadeira escola de samba - os senhores abram os livros, se possível, e confirmem! - conjugou SEMPRE a tradição e a modernidade, o legado e a inovação, o passado e o futuro, a arte e a intuição, o ritual e o espetáculo.

E tudo isso que só consegue ser uma coisa ou outra, que não consegue combinar as duas forças em equidade, é apenas SIMULACRO...pode virar modinha e até ganhar campeonato, mas não é e nunca será ESCOLA DE SAMBA de verdade!

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24/10/2015 11h36

Enredos e estranhas homenagens
Hélio Ricardo Rainho

A escola de samba tem um histórico de desconhecimento, desfavorecimento e desprestígio no seio do país onde nasceu. Talvez por ser originária do septo cultural de matiz africano, historicamente delegado ao "exótico, primitivo e tribal" em nosso país, a escola de samba sempre foi vista de duas formas distintas: outrora como "folguedo", hoje mais como "espetáculo".

O lado ruim de ser tão somente "folguedo" é deixar de ser devidamente prestigiada pelos entes culturais ditos "oficiais". O lado ruim de ser "espetáculo" é ser resumida a uma gravação de DVD que se julga presunçosamente capaz de "compactar" seus "melhores momentos"(sic). Numa e noutra, estamos dizimados a uma partícula ínfima daquilo que, efetivamente, a escola de samba representa enquanto organismo vivo e gerador de identidades culturais, territoriais e simbólicas de nossa ordem nacional.

Capa do livro Em termos de indústria cultural, o samba teve reconhecimento tardio e difícil acesso às gravadoras e ao chamado show business. Só muito recentemente foi reconhecido como "patrimônio imaterial do Brasil". Rádios, gravadoras e veículos midiáticos que teoricamente deveriam difundir os artistas em sua liberdade de expressão foram se tornando, pouco a pouco, detentores de um poderio a determinar "quem" e "o que" se canta ou se dança no país. Há muita coisa que o povo está cantando ou dançando que ali está por mera imposição massiva. Outras coisas muito mais representativas de nossa cultura acabam, por fim, perdendo seu espaço.

Nos anos 70 e 80, a escola de samba e os sambistas ressentiam-se de perder espaço para a música estrangeira. As gravadoras achavam mais baratas as bases eletrônicas pré-gravadas dos ritmos estrangeiros, e preferiam produzir música com "orquestra mecânica" em vez dos sofisticados arranjos dos grandes sambistas. Pouco a pouco, o samba e o pagode foram substituídos por um pastiche eletrônico, feito em laboratório, com sambistas fakes de fora das escolas de samba, sem nenhuma vocação melódica ou poética, mas bem enquadrados na mercadologia. As exposições massivas dessas músicas ruins dariam "sucesso" também a vários outros "gêneros musicais" que nunca passaram de "degeneração musical".

Qual é o único espaço midiático reservado à escola de samba? O dia de seu desfile, é claro! Preservar esse momento como seu maior poder de exposição, como momento-chave para ela exaltar seus nomes históricos, é questão de honra, sobrevivência. Pois bem: este ano temos, em todas as escolas da Sapucaí, apenas UMA que lembrou um de nossos bambas. O Império Serrano reviverá Silas de Oliveira na avenida. Além disso, vem a Tradição exaltando Clementina de Jesus. E só. Acabou.

Estamos na era dos desportistas e dos artistas de gêneros musicais duvidosamente pré-fabricados. Muitos deles jamais exaltaram nenhum de nossos sambistas ou de nossas escolas em seus palcos. E agora serão exaltados, engrandecidos no único lugar que a segregação cultural delegou a nossos crioulos poetas de morro e asfalto. É caso pra se pensar. Colonialismo cultural vale a pena, quando rende "bom espetáculo" pra jurado ver?!

* Reproduzido do Jornal do Sambista, um periódico impresso mensal distribuído nas quadras e eventos de samba. Helio Ricardo Rainho é um de seus colunistas convidados.

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12/10/2015 13h46

'Samba dos Crias': um legado de Jorge do Batuke para a Portela
Hélio Ricardo Rainho

Feitos nobres devem ser exaltados. O jovem talento do samba e da Portela, Jorge do Batuke, merece o carinho, respeito e - sem favor algum - o reconhecimento dos portelenses. No que deveria ser tão somente uma participação para uma disputa de samba de quadra, sua passagem pelas eliminatórias do concurso da Portela teve um marco digno de registro.

Jorge do Batuke encabeçou e veio defendendo aguerrida e corajosamente seu samba em um nível elevadíssimo de disputa. Mais do que isso, num tempo de tantas vaidades e dissensões nas disputas de samba das quadras, Jorginho deu um exemplo incrível de contribuição para a escola: o "grupo dos crias" - uma tocante sensibilização dos jovens talentos da Portela, a rapaziada que samba, toca, dança e sustentará o futuro da Majestade - virou um movimento gerado dentro da torcida de seu samba.

Foto: Reprodução de Internet

O grupo abraçou a parceria de Jorge do Batuke, Gaucho, Pirique, Rogério Lobo, Claudinho Oliveira, Zequinha Costa, Marcelo Queiroz e Madalena Araguaci, Camarão Neto, Muguinho e Thiago Maciel e deixou esse legado do "samba dos crias" como um importante movimento de unidade pela Portela, que está acima de tudo e de todos.
A diretoria, os segmentos, a comunidade e os sambistas de outras composições entenderam e também repeitaram esse movimento, num afago a essa garotada que está empenhada em construir um futuro para a escola.

Foto: Reprodução de InternetPensar no movimento do "samba dos crias" como uma voz pela inovação e pelo renovo da tradicionalíssima Majestade do Samba - em tempos de Marcos Falcon e seu lema "quem ousa, vence" e de Paulo Barros como carnavalesco - é um prodigioso processo de unidade de propósito da escola. Uma Portela que contempla o futuro de braços dados com a sabedoria ancestral de sua Velha Guarda. É um belo cenário a ser contemplado para a preservação do samba - não apenas o de hoje, mas também o de amanhã. Porque preservar não é só resgatar as glórias e valores do passado: preservar é assegurar, também, a resistência e um legado para o futuro. Anos atrás, a Portela teve a emancipação de uma torcida, a Guerreiros da Águia, tipificando o engajamento de setores participativos na orientação da escola. Hoje surge essa moçada. Os "crias" são embrionários, não precisam ainda dizer a que vieram, mas já nos provocam a curiosidade de saber aonde irão. Maravilhoso sentimento! Fruto de uma disputa de samba. E ainda há quem pense que disputar samba é só vaidade, fama, dinheiro e essas outras coisas secundárias ou terciárias que muitos privilegiam...uma pena!

Ok, Jorginho e companhia! Tá aqui o registro dessa verdade do que vocês plantaram no Ninho da Águia! "Bravo, bravíssimo"!

Precisamos de mais exemplos com essa grandeza.

Jorge do Batuke sempre foi gentil e elegante no trato. Já subiu ao palco para festejar vitória de adversário cantando junto, nunca virou a cara pra quem venceu, e é bicampeão de concurso de samba de quadra da própria Portela. Está lançando CD e tem luz própria.

O "samba dos crias" foi cortado na noite de ontem. Mas eu maior mérito não estava exatamente em ser um samba-enredo para representar a escola. Seu mérito, a nosso ver, transcendeu a disputa.

De Jorginho e dessa parceria, não se poderá dizer que "não ganhou": a vitória simbólica de sua mobilização com "os crias" pode ter valido, para a história da escola, um momento muito mais sublime do que esses que a indústria cultural do samba mobiliza para ter uma música escolhida numa final.

Parabéns, Jorge e parceria!

Tenham a certeza de que todo esse "batuke" não foi e não será em vão!

Foto: Reprodução de Internet

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16/09/2015 14h52

Enredos pré-julgados?
Hélio Ricardo Rainho

Depois de uma enxurrada de manifestações (a maioria esmagadora de apreço e até agradecimento pelo trabalho realizado), percebemos quão grande foi a repercussão de nossas análises críticas sobre os enredos das escolas do Grupo Especial e da Série A para o carnaval 2016. Não é tarefa fácil debruçar-se sobre a análise de um objeto artístico tão envolvido em questões passionais como a escola de samba. Não é fácil, nem tampouco convencional, executar essa tarefa. É algo que mexe com subjetividade, ponto de vista, interpretação, mas também com brios. E deve ser assim mesmo, dada a natureza a que se destinam os enredos.

Durante todo o curso de sua história, a escola de samba foi identificada pela sociedade, de uma maneira geral, tão somente como "folia", "carnavália" ou "tribalismo". Até mesmo os estudiosos academicistas que se dedicaram ao assunto, via de regra, deram um tratamento cujo antropologismo exagerado causou uma sensação de que os sujeitos comuns que integraram historicamente a escola de samba eram "personagens tribais", seres exóticos distantes de nossa realidade.

O que perdemos com tudo isso? Perdemos o senso identitário da escola de samba como elemento produtor de sentido cultural e identidade artística para o Brasil. O negro alforriado e favelado era melhor entendido como um "tribal em transe" no meio da escola de samba, não como um agente artístico fomentador e produtor de cultura e arte. Sabem aquela piada grotesca de que "branco correndo é atleta, preto correndo é ladrão"? Pois é: infelizmente esse pensamento tribalista e folião acerca das escolas de samba parecia dizer que "branco dançando é artista, negro dançando está em transe". Com uma série de afirmações e explanações teóricas para consolidar esse argumento. Um modelo excludente e apequenador da escola de samba e do negro, de forma geral.

Foto: SRZD

Qual seria, portanto, a importância de uma crítica especializada em formalizar a análise dos enredos e das escolas de samba?

O primeiro sinal de mudança seria considerar o desfile de escola de samba como uma expressão cultural intrínseca de uma classe social cujo domínio e manuseio de suas ferramentas artísticas é um domínio de especialista. Ou seja: aqueles que estão envolvidos com um desfile de escola de samba, em todo o processo criativo, são artistas especialistas num ofício. São estetas. O segundo sinal decorre do primeiro: se o sambista é um esteta, seu fazer artístico tem relevância e é passível de análise crítico-interpretativa. É um movimento artístico que merece ser devidamente avaliado e compreendido. Vem daí, então, o exercício crítico.

O termo "crítica" está relacionado ao grego "kritike", que pode ser traduzido como "arte de discernir", ou seja, capacidade de refletir/interpretar o valor de alguma coisa.

O papel do crítico é uma via de mão dupla: ele precisa estabelecer uma fundamentação para seus apontamentos, mas não deve omitir sua visão pessoal da análise. Presume-se que essa visão pessoal não esteja relacionada a "gosto", mas a um conhecimento de causa, visto que o crítico é um especialista estudioso no assunto em questão. Essa especialização se dá não exatamente pelo "fazer", mas pelas análises comparativas de outras manifestações similares àquela que está sendo estudada. Por esse paralelismo, se estabelece um ponto focal que será orientador da visão crítica.

Analisar as sinopses, no entanto, não quer dizer de maneira nenhuma analisar o desempenho da escola nos desfiles. São duas análises em tempos distintos. O dia dos desfiles é mágico, sublime! O único momento em que algo sobrenatural acontece e transforma todas as coisas é o dia dos desfiles. E o aparato artístico que é elaborado pelas escolas só está na cabeça e na concepção de seus executores, nunca de quem critica. Logo, considerar que uma análise prévia dos enredos constitui numa base para o julgamento das escolas na avenida é uma afirmação que jamais poderia ser considerada. O júri precisa ter olhares e apontamentos atentos ao seu mapa de pontuação, nunca e de forma alguma em paralelismo com as análises críticas de uma sinopse. Até porque a sinopse é ideia, e a construção material da ideia se dá no barracão e na avenida.

É bom que se entenda: sinopse não vale ponto! E por que damos tanta relevância, então, às análises críticas das sinopses de enredos das escolas de samba?

Porque, como mediadores da relação entre leitores e agremiações através do site, nos vemos numa responsabilidade de não apenas cobrirmos um espetáculo ou darmos noticiário dos fatos marcantes do mundo do samba. Queremos - nos textos, nas análises, nos seminários, nas críticas - interagir de forma reflexiva e fundamentada com as pessoas que fazem, que admiram, que acompanham, que pensam e que constroem a magia que é o carnaval!
A crítica aponta caminhos. A crítica destoa e acerta; mas nunca sentencia nem pune!

Não damos nem tiramos pontos da lógica matemática dos envelopes de apuração. O que fazemos - e fazemos com fundamentação, zelo e muito amor por esse ofício - é celebrar as escolas de samba também como ritual, mas sem esquecer que existe uma construção artística cujo legado é digno, sim, de merecer a mesma análise crítica que o cinema, o teatro, a música e outras manifestações artísticas recebem.

Buscamos valorizar e engrandecer a arte de nossos sambistas! Por isso não trabalhamos com notas nem com penalizações: o nosso julgamento em nada deve pesar (e não pesa) sobre o momento absolutamente distinto que é o desfile propriamente dito.

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- Clique e reveja as análises dos enredos do Grupo Especial e Série A do Rio de Janeiro

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25/08/2015 16h25

Um Império de dois sambas
Hélio Ricardo Rainho

Não sei fazer as coisas se não for por amor, idealismo, paixão e verdade. Íntegro, inteiro, corpo e alma. Indomável na paixão e nos ideais.

Fui homenageado pelo Império Serrano de uma das maneiras mais extraordinárias que jamais sonhei na vida. Tenho amigos e um carinho imenso ali; fui abraçado pelo povo da Serrinha mesmo tendo histórico, origem e formação na Portela, escola do meu coração.

Frequento o Império desde muito jovem, quando Wilson da Cuíca, Jorge Lucas, Beto Sem Braço e Roberto Ribeiro sentavam à mesa com meu saudoso pai. O velho Helio Rainho se foi e deixou o Império como legado e herança pra eu defender na avenida. Esse garoto iluminado chamado Gabriel Castro me deu a gloria de ser padrinho de uma das mais poderosas alas de passistas do samba brasileiro em todos os tempos. Se alguém acha que estou exagerando, aceito botar em xeque tudo o que pesquiso e ouço dos bambas como estudioso específico desse segmento nas escolas de samba! Vem comigo que eu explico e topo o desafio!

Foto: Leandro Dias

Que fardo, que honra! Não sou passista de ofício, mas sou ator profissional: eu ali enceno a performance dos malandros galantes e aguerridos da escola. Eu não mereço, não saberia nem como fazer: pois foram os próprios passistas, a Velha Guarda, a harmonia, a diretoria, ritmistas, compositores e o povão maravilhoso da Serrinha que me fortaleceram e ali me "empurraram" pra cima, de onde abençôo e guardo meus afilhados! Louvado seja Deus!

Eu vou pra avenida gritar, lutar, bradar e defender as cores do Império com essa gente toda, com esse verde todo, com essa raça toda, com a mesma raça com que faço isso na quadra e eu sei que todos os que veem - graças a Deus! - sentem orgulho disso.

Eu admiro muitíssimo os campeões e vencedores da noite. Dos baluartes Arlindo Cruz (gentilíssimo e afável com os passistas em nosso camarim) e Seu Aluízio Machado, a esse menino talentoso e querido da gente, meu amigo em particular Luquinhas Donato, que eu gosto e admiro demais. A eles, que são poetas desse celeiro, meu carinho, meu respeito, minha dignidade.

Eu vou pra avenida defender o Reizinho de Madureira com qualquer samba, de qualquer poeta, de qualquer rima, de qualquer melodia, de qualquer maneira, porque vou por AMOR a essa escola que frequentei a vida toda e me acolheu como "um filho do verde esperança"...não fujo à luta, vou lutar!

Eu vou e vou com apoio e carinho até da minha Portela, que está com o coração aceso para reencontrar sua coirmã e vizinha de volta ao lugar a que ela sempre pertenceu. O povo da Portela inteira e em especial a minha diretoria azul e branco - Serginho Procópio, Marcos Falcon, Valci Pelé, Nilce Fran, Jeronymo, Luis Carlos Magalhães, Tia Jane Carla, Tia Aldalea, Paulinho Renato, Marcelo Moura, Selma Candeia, Vanderlei Santanna - sempre me fortaleceu e apoiou como padrinho verde de sangue azul!

Eu vou defender com grito, com suor, com as mesmas lágrimas que derramei ontem ouvindo "Brasil, Berço dos Imigrantes", que meu pai me ensinou a cantar menino (gravado num "compacto"!) de Roberto Ribeiro. Chorei muito atrás do palco! De saudade, de emoção. Isto é muito Império!!!

Foto: Leandro Dias

Mas...
É, tem, sim, um "mas".

Como jornalista, crítico, cronista, pesquisador de escolas de samba há 30 anos, eu tenho a dizer que uma dúvida perscruta minh'alma: como é que eu vou fazer, meu Deus, para não se perder um hino, uma obra-prima em forma de oração, que transcende a nossa emoção, arrepia a gente, uma raridade poética em feitio de oração que Silas de Oliveira (olhei pro busto da quadra e vi!!!) aplaudiria?

Meu Deus...o que eu poderia fazer por esse samba de Paulinho Valença, Henrique Hoffmann, Popeye, Victor Alves, Daniel Teles e Carlitos do Império para que se eternize como relíquia sagrada da Serrinha, jóia preciosa de um tempo em que quase não vemos vultosa emoção e venerável verdade nos enredos e desfiles da avenida?!?!

Meu Deus...o que eu posso ou devo ou deveria fazer por isso?!
Me perdoem...me desculpem este desabafo apaixonado...eu juro que não escrevo contra a escolha que fizeram, porque escolheram um grande samba e eu vou cantar também! Ao que venceu, segue-se o destino.

Perturba-me, como idealista que luta pelo samba, saber o destino do outro...o Samba não pode esquecer esse samba!!!
Clamo em alta voz como quem grita do mais alto cume da Serrinha: como preservar um diamante musical desses?!
Eu não poderia calar minha voz de sambista sem fazer a devida menção ao samba mais bonito de todos os sambas que ouvi em todas as escolas de todas as séries deste ano! Não sou eu que exagero: foram os autores que exageraram na poesia! Paulinho Valença e Cia fizeram isso!

E, se uma obra desse quilate se perde numa quadra (e eu RESPEITO e NÉO DESMEREÉO a escolha, que considero limpa e honesta, tão somente um critério dessa diretoria de gente séria que vem levantando a escola), eu vejo que esse samba nunca se perderá de quem teve o privilégio de ouvir e ver nascer "uma nova aquarela" em pleno 2015...eu pensei que isso não mais fosse possível...que lindo...me provaram que ainda é possível!!!

Obrigado, poetas!
Obrigado, Império Serrano!

Foto: Leandro Dias

"A arte e a cultura que mantêm a chama acesa / Eu canto com o Império Serrano"

Nunca mais...nunca mais esquecerei que esse Império me deu lições de vida e de samba até quando não satisfez a minha vontade!

Pois seja: assim mesmo estarei com ele no cortejo de 2016, mas jamais poderia deixar de fazer esta manifestação e exacerbar a grandeza de um poema que a alma nunca esquecerá...
Não se separem! Não se dissipem! Unidos, meus irmãos do Império, de estiva, de luta para ascender! Vamos todos

unidos, sem dissensão, pra avenida! Amemos uns aos outros também nesta hora: a avenida espera e clama por nossa união!

E pela primeira vez em minha vida, uma crônica de final de samba para um samba que não venceu.
Salve Silas!
Salve a Serrinha!
Salve o verde da mata e da minha bandeira!
Salve o solo sagrado de Madureira, fonte de raça e da nossa raiz!
Vejo com muita clareza, para esse 2016...a força do imperiano!

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03/08/2015 11h39

Edson Santos: lendário passista de ouro
Hélio Ricardo Rainho

 

Foto: Kelly CassenesUm país de memória curta ainda não aprendeu a preservar seus baluartes. Os verdadeiros, os originais, expressão de sua mais genuína cultura, que é a escola de samba. Tivesse em algum momento aprendido, certamente entronizaria a figura sorridente, simpática e elegante de Edson Santos Cunha ao lugar que lhe é devido.

Edinho - como o povo do samba o chama - é uma dessas lendas vivas, raridade de excelência, príncipe fidalgo no trato e na arte da dança do samba. Um gênio, um extraclasse! Um admirável artista...passista com todas as letras!

Edinho começou a sambar ainda menino. Sua história é bonita, de grandeza e superação. O samba que há tantos anos encanta sua audiência foi a força que o fez vencer uma luta pessoal, uma história particular de superação. Hoje, esse passista psicólogo tem estrutura e propriedade para ensinar as duas coisas para seus comandados: lições de samba e lições de vida.

Edinho sambava na antológica ala da divina Marilene, decana das alas de passistas, que dirigiu a Mocidade Independente nos anos 80 e entrou para a história. Ele chegou jovem à quadra da escola na Vila Vintém e foi desafiado: "Garoto, tu sabes sambar mesmo???". O modesto menino não podia ser recatado ao ponto de não impressionar a exigente diretora. "Sei, sim, senhora!". Ela retruca: "Mas tu sabe sambar muito???", desafiou novamente a interlocutora. "Sei sim!". Marilene gosta da afronta e pisa fundo, com palavrão e tudo: "Mas tu sabes sambar pra cara...?".

Foto: Hélio Ricardo RainhoEdinho aceitou o desafio. Teve de sambar movendo-se pela quadra toda, percorrendo de ponta a ponta o perímetro destinado. Acabou sob aplausos generosos da diretora. Estava consagrado.

De lá pra cá, sua arte inspirou e segue inspirando os melhores passistas em atividade. Desde a chamada "fase malandreada do samba" - um fenômeno que se consagrou justamente a partir dos anos 80, caracterizando o samba dos passistas masculinos com os trajes e os trejeitos dos antigos malandros boêmios da Lapa - poucos encarnaram com tanta propriedade e elegância o protótipo desse personagem. Dirigindo a ala de passistas da Vila Isabel, Edson preserva a elegância dos malandros históricos do Boulevard, quando a Vila era um reduto de sambistas de classe média, vistosos e vaidosos, charmosos e sofisticados, espécies de dândis do samba. Seus passistas usam chapéu arredondado, gravata borboleta, casaca, colete. Ele sabe que existe uma linha histórica entre seu trabalho de hoje e a história de sua escola através do tempo.

Edinho tem um samba cadenciado de estilo pessoal inconfundível. Seus riscados têm pisada forte, os gestos são abertos: ele evolui com graça e leveza, utilizando muita ginga e quebra de corpo que remetem à cadência da capoeira. Um autêntico samba malandreado, com passos de irresistível apelo, pela elegância e pela simpatia que seu sorriso inigualável transmitem durante sua dança.

Hoje esse artista espetacular completa 50 anos! Parece mentira que um homem tão atuante, com aparência e energia de iniciante, seja já este jovem senhor de meia-idade! Pois, para nós, amantes do samba e da arte dos passistas, Edinho é uma enciclopédia viva do samba. Engajado, atuante, disciplinado, educado, gentil. Temos, no Brasil, a estranha mania de transformar maus artistas regionais em "celebridade da mídia" a custo da exploração de suas origens humildes. A mídia propaga os tristes milionários, donos de jatinhos e lanchas, que começaram pobres, mas esquece os sambistas que muitas vezes nascem e morrem pobres. Edinho lutou e venceu: é hoje um homem de bem. Mas nunca esqueceu as suas origens populares. Pois esse espetacular artista do povo e do Brasil chamado Edson Santos teve infância humilde e encanta há muitos anos a Sapucaí e a vida de todos nós! Faz bodas de ouro de vida: merece o nosso tributo, o nosso respeito, a nossa lembrança!

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Parabéns, Edinho da Vila Isabel! Não apenas por seu aniversário, mas pela glória daquilo que você, com tanta humildade e talento, ostenta, riscando o asfalto não apenas com sua arte, mas com a sua bandeira pessoal de grandeza e dignidade!

Foto: Jeanine Gall

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20/07/2015 09h16

MaraVILA ISABEL!
Hélio Ricardo Rainho

"Desperta, Seu China!

Acorda, Noel!

Para ver a nossa escola nesse branco azul do céu!"

Há algo sintomático, emblemático e profético no fato de a Vila Isabel, após alguns anos, voltar a cantar os versos de um de seus mais lindos sambas. Já havia percebido isso quando a escola apresentou-se na quadra do Salgueiro, quando, subitamente, me veio uma emoção. Pois sexta-feira passada, no show da escola realizado no Centro de Tradições Nordestinas do Pavilhão de São Cristóvão, o samba voltou...a emoção voltou...e eu chorei!

Chorei, sim. Chorei de emoção.

E acho muito bom que, nestes tempos bicudos de comercialismo, crises políticas e tanto crítico especializado analisando e comentando tudo, ainda exista escola de samba capaz de fazer simplesmente a gente se emocionar.

E eu acho que a Vila é isso! É tudo isso!

Não é média, porque não é a minha escola-mãe. Do coração, não posso dizer que não seja: certamente a guardo como uma das mais queridas e representativas bem aqui dentro do peito. Mas estou aqui falando da verdade, do que sinto, do que vi.
A Vila apresentou seu enredo e seu carnavalesco (a meu ver, hoje, um dos mais extraordinários e plasticamente o melhor) saudando os presentes com um belo vídeo ilustrativo e um discurso simples, "devagar, devagarinho", mas tocante, do Negro Rei Martinho. "Não é um enredo político ideológico nem político partidário, mas sim um enredo político cultural".

Corajosa essa Vila! Valente! Garbosa!

- Clique aqui e saiba tudo sobre o Carnaval carioca

Fotos: SRZD - Hélio Rainho

Em crise, já falou da Kizomba (1988) e saiu campeã. Em tempos bicudos, falou de Direitos Humanos num tempo em que esse assunto não era lugar comum de debate oco em rede social ("Direito é Direito", 1989), falou de reforma agrária quando esse era o tema político mais relevante do país ("Se Esta Terra, Se Esta Terra Fosse Minha" (1990). Agora, em meio a um turbilhão de coisas, afirma-se novamente com seu gracioso enredo "Memórias de Pai Arraia - Um Sonho Pernambucano, Um Legado Brasileiro".

Corajosa porque, numa era em que as escolas de samba alugam seu discurso pra homenageado pagar e ver seu nome como em letreiro de outdoor, a escola se sensibiliza com a carência de um povo que vê muito político e pouca política: estão mortos os projetos em função das pessoas! Há discussões e nomes todo dia nas pautas políticas, mas a cambada não resolve nada. Enquanto isso, a Sapucaí tirou da voz de nossos crioulos o direito de defenderem o país, protestarem, acusarem as mazelas. Os enredos parecem de escolas da Suíça! E a Vila Isabel, em notória sabedoria, traz para o povo modelos estruturais de cultura e educação: traz Paulo Freire, Dom Hélder Câmara, Ariano Suassuna e todo o bastião cultural que o político Miguel Arraes alavancou em Pernambuco para engrandecer o Leão do Norte. Vamos olhar para esse modelo de desenvolvimento que infelizmente o descontinuísmo da ambição política ignorou. Mas "a Vila vê o ovo e põe às claras" corajosamente na avenida.

A Vila Isabel chegou à "feira dos paraíbas", subiu ao palco e tomou conta do lugar. Mostrou que tem seus trunfos, e eu posso citá-los desde já.

Não conheço seu presidente pessoalmente, mas achei admirável e contagiante a vibração e o carinho que ele transmitiu com palavras e com gestos a seus comandados. A política não me interessa - repito - mas ele emocionou e estava emocionado. Gostei! Igor Sorriso é um showman espetacular: ele canta em qualquer lugar com classe, elegância e um carisma absurdo: não podia ter outra alcunha que não fosse "Sorriso". Eu bato palma e paro pra ver! A seu lado, uma lenda tão respeitável e de fino trato que dispensa nossos comentários: o amável Gera, um bamba. Que cantoria doce tem a Vila dos Poetas!

Foto: Acervo Pessoal

A encantadora bateria da escola tem no comando um mestre Wallan que parece iluminado: ele flutua, brinca, se diverte! O ritmista da Vila parece entender seus pensamentos! Tudo ali é carinho e afetividade, impressionante!!!

Com esse turbilhão de samba da Suingueira, impossível não fazer girar com graça sublime a divina ala de baianas da escola. E o que não dizer dessa ala de passistas, com Edson Santos - Edinho, um dos maiores passistas do carnaval carioca - e Claudinha no comando? "Levantar a poeira, balançar a roseira" é com essa moçada mesmo.

Os casais do pavilhão - Phelipe, Dandara, Amanda e Senhorinho - estão voando felizes! Lindo bailar! E Dandara Oliveira é uma deusa: espetáculo de beleza e encanto sambando divinamente também!

E sempre fico feliz quando vejo Décio Bastos vibrante, inteiro, apaixonado, harmonizando literalmente o povo da Vila, o povo dos Macacos, o "povo do samba"! Ele tem alma e dá alma à escola!

Encerro meu texto voltando àquele samba que me parece emblemático de 1994. Além de evocar as vozes de China e Noel, ele fala de um "Zé Ferreira saudando a multidão". É Martinho, autor do enredo deste ano também. Não pode ser coincidência: "os três apitos cantados por Noel ainda ecoam pela Vila Isabel"!

Eu respeito e acredito nessa coroa...

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14/07/2015 09h27

Dança dos Passistas e Conexões Urbanas
Hélio Ricardo Rainho

Valci Pelé é um sujeito corajoso. Nós, admiradores e estudiosos da dança dos passistas, caminhamos por muitos terrenos áridos e desafiadores: históricos de descaso, discriminação, ameaça de extinção etc. Contra todos os percalços, Valci segue firme e convicto, pensando e atuando como agente de seu ato. Sobretudo nesta última década, nenhum outro passista em atividade teve maior envergadura de militância e visão conjunta do segmento passistas do que ele, Valci Pelé da Portela. Sua propriedade de enxergar passistas como um todo - não apenas como grupos isolados de cada escola - faz a diferença. Não é demérito para ninguém. É mera constatação.

Valci Pelé. Foto: SRZD

Tudo começou quando ele - ao lado de sua inseparável companheira de trabalho e militância Nilce Fran - preocupou-se em conceber um modelo teórico-instrumental para transformar a dança do samba dos passistas em algo referencial: uma pauta própria para ensino. Isso quer dizer que ambos - Valci e Nilce - tiveram a preocupação de sistematizar pedagogicamente um apanhado das técnicas dos passistas, de forma a inserir elementos de valência, força, consciência corporal etc na prática, até então, apenas intuitiva e espontânea do samba.

Há muito o que se debater sobre a questão da dança dos passistas ser ou não ser passível de um tecnicismo ou emprego de sistematização para seu aprendizado. Mas, enquanto as polêmicas ou discussões sobre o tema acontecem oculta ou reveladamente, Valci e Nilce fazem um trabalho digno de registro: literalmente registram os passos, movimentos e a técnica para um ensino posterior. Com eles, o ensino da dança do samba de passistas não apenas difere de outras modalidades de dança por emprego de uma técnica específica: tal ensino também assegura, a priori, uma sobrevivência - por um novo modelo, baseado na eficácia e na aplicação - da dança do samba para as gerações futuras.

Nilce Fran e Valci Pelé. Foto: Acervo Pessoal

Valci idealizou, para o mês de agosto próximo, um evento de inegável relevância. Sendo ele um passista tradicional, não está acomodado aos preâmbulos do tradicionalismo estagnante. Abriu sua mente e seus horizontes para propor um entrelaçamento da dança dos passistas com outras duas modalidades de dança - a gafieira (dança de salão que também tem notório vínculo histórico com a dança do samba) e a dança do charme. A ideia é abrir os horizontes dos passistas para se relacionarem com outras duas modalidades de dança que acontecem em espaços diferentes - o salão e os bailes de charme. Lugares onde a dança dos passistas não está.

Valci Pelé. Foto: Acervo PessoalO 1º Festival da Dança do Samba, a se realizar no dia 8 de agosto na Arena Fernando Torres, no Parque Madureira, tem algumas premissas relevantes. A primeira delas é o fato de ser uma iniciativa promovida, pela primeira vez, por um passista a convocar passistas fora dos territórios da escola de samba. Lá na Arena do Parque Madureira, todas as alas de passistas estarão representando suas escolas. Mas não para se apresentarem numa quadra ou na Marquês de Sapucaí: eles simplesmente trocarão experiências com duas outras modalidades de dança para tomarem os palcos da Arena, encenarem sua arte para outros públicos, levarem o talento dos passistas de escola de samba para uma interdisciplinaridade com a metodologia e a coreografia de outras danças (foram designados Marcus Azevedo e Patrick Carvalho, respectivamente coreógrafos de charme e gafieira, para apoiarem as alas de passistas participantes). Ora, Valci não escolheu a gafieira e o charme por acaso: são culturas musicais de enorme influência na cultura suburbana e já muito presentes na vida dos passistas. Com essa iniciativa, Valci aproxima os jovens passistas da possibilidade de conhecerem e se aprimorarem em algo que muitos deles apenas admiram, mas não tiveram oportunidade de desenvolver. Culturas urbanas que se abraçam e não se digladiam; se retroalimentam e não se anulam; congregam pessoas e não as separam. Ponto para Valci, de novo!

Esse movimento nos leva a crer que a dança dos passistas de escola de samba encontra caminhos para se reafirmar e se reinventar. Quando não se limita a estruturas que se apoderam do segmento para "engordar dentro de casa", o passista pode extravasar sua arte e conectá-la com outras modalidades artísticas e performáticas sem perda nenhuma de seu conteúdo intrínseco. Pelo contrário: espera-se que, com essa extensão artística do passista numa atuação fora das quatro paredes da quadra, num espaço público destinado à juventude e ao público em geral, os passistas reafirmem seu talento, engrandeçam sua arte e levem a bandeira da escola de samba que defendem para outras fronteiras e universos.

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23/06/2015 09h21

Lá Vem o Império Serrano
Hélio Ricardo Rainho

Foto: DivulgaçãoGarboso, vultoso, majestoso, triunfal. Descendo a serra, adornando o asfalto com seu verde esmeraldino da esperança, lá vem ele, o menino gigante do samba, enaltecendo sua raiz, seu bamba mais prestigiado, sua história, no próximo carnaval.

Serrinha, Congonha, Tamarineira..."lá vem" o Império Serrano, o Reizinho de Madureira!

Essa escola gigante com apelido de menino - o "Menino de 47", do ano em que despontou para a grandeza dos desfiles - é um celeiro exemplar. E o exemplo se reafirma e consolida no enredo escolhido para 2016: "Silas canta Serrinha", segundo carnaval de Severo Luzardo na luta para resgatar o Império Serrano a seu lugar devido, ascendendo ao Grupo Especial.

Enquanto muitas escolas só têm janela, o Império Serrano tem espelho. Se enxerga, se valoriza, se dignifica. Está menos interessado em "aparecer" e mais interessado em "ser o que é". Graças a Deus! Espelho que se reflete para transmitir seu saber ancestral, seu relicário de lições, preceitos  e fundamentos. O Império Serrano é um Gigante que não cede com facilidade à marola dos tempos modernos. Sendo grande, tem consigo mesmo e com seus correligionários esse sagrado compromisso de preservar a riqueza de sua história. Comovente e encantadora essa sua jornada!

Para isso, a escola apanhou muito. Apanhou lá atrás, quando quebrou a hegemonia das grandes e tornou-se, num relance, grande também. Apanhou quando seu poeta-símbolo, Silas de Oliveira, foi chamado para depor sobre um certo samba que enaltecia a liberdade em dias de ditadura política. Apanhou, também, quando essa história de patrocínio começou no carnaval. Quando abriu seu livro pra contar a história de um empresário, no longínquo 1997: ali o Império entendeu que distanciar-se de sua verve histórica não combina com seu pavilhão. Mal poderia imaginar que, depois daquele incidente, o erro se tornaria regra, e ele seria o último bastião do samba a lutar e resistir contra a fúria invasiva dos temas patrocinados, personalidades e elementos estranhos ao samba. Hoje, penalizados são os que não se rendem à mercadologia. Mas, já que "imperiano de fé não cansa", a briga tá comprada, e o Império não desiste.

Foto: DivulgaçãoO Império é assim. Tem suas peculiaridades. É escola maiúscula, imperativo do masculino..."O" Império é homem com H! "Um filho do verde esperança não foge à luta / Vem lutar!" - proclama em um de seus versos poéticos e autoexplicativos. E mesmo que nossos filhos, e os filhos de nossos filhos um dia comecem a perder a referência do que leva uma escola de samba a desfilar, do que leva um povo a cantar com lágrimas um samba-enredo; e mesmo que um dia se perca a noção de que o espetáculo das escolas de samba pode crescer sem perder suas raízes fundamentais...bastará que alguém procure, onde quer que esteja desfilando, o Império Serrano!

Com sua luta, sua coragem, seu encanto, seu exemplo, sua paixão. Então todo aquele que quiser conhecer um pouco mais do samba original e verdadeiro, poderá pisar pés descalços ou sapatos brancos - no jongo da Serrinha ou na quadra do Império - para entender que um passado morre para quem não o preserva, mas vive e sobrevive lindo e límpido para quem nele projeta seu futuro.

Obrigado, Império Serrano, por esse enredo que, antes de contar a sua história, mostra a todos nós, aprendizes das escolas de samba, que nem tudo se perdeu! Não serão os ricos, nem abastados, nem patrocinados os professores da avenida em 2016! Virá do Império, da Serrinha, de Madureira, a maior lição de samba que a avenida já espera.

Bendita coroa imperial! E é por isso que se diz: "Império Serrano: Uma Escola de Samba". Quem não tem essa patente, que corra atrás!

* Reproduzido do Jornal do Sambista, um periódico impresso mensal distribuído nas quadras e eventos de samba. Helio Ricardo Rainho é um de seus colunistas convidados.

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23/05/2015 17h52

Meu Carnaval SRZD 9 Anos: 'O Mistério da Vida' (União da Ilha 2011)
Hélio Ricardo Rainho

Foi uma aula de ciência, de vida, de flora, fauna e beleza na Avenida! A Marquês de Sapucaí adornou-se com um enredo extremamente criativo, original, bem desenvolvido, notoriamente aprofundado em irretocável pesquisa e exuberante execução plástica. No ano em que a União da Ilha do Governador desfilava como uma das escolas hors concours em função de um lastimável incêndio que destruiu barracões da Cidade do Samba, sua passagem pela avenida foi impactante. A escola insulana brilhou, com o talento de Alex de Souza, no ano de 2011. Parecia, de fato, um desfile hors concours!

Foto: Divulgação

Foi um enredo de raríssima felicidade. Nada fácil, porém. A ideia de levar para a avenida um emaranhado de teses científicas, ainda por cima polêmicas e constestáveis, como a Origem das Espécies e a Teoria da Evolução, soava, a princípio, complexa e pouco flexível. Mas a proposição do carnavalesco, segundo a justificativa do enredo, de "trazer através da cor e alegria o mosaico complexo do darwinismo para um desfile bem solto de celebração da vida" teve efeito primoroso e uma leitura fácil que surpreendeu a audiência. Muito embora grande parte do projeto concebido pelo artista estivesse comprometido pelo famigerado incêndio, com o roteiro do desfile permeado de observações como "Parte da fantasia foi destruida", "Acabamento comprometido", "Destruida, fantasia modificada" etc. Imagino se estivesse tudo a 100%...

Foto: Divulgação

Logo de entrada, a comissão de frente era impressionante. Representando os "Apontamentos de um Jovem Naturalista", com coreografia do experiente Roberto Lima, a comissão trazia um jovem Charles Darwin rodeado por 14 homens fantasiados de forma muito inovadora: eles representavam as folhas de papel dos apontamentos do cientista em sua viagem de circunavegação, retratando as formulações de suas muitas teorias. A ideia de personalizar/humanizar os blocos de apontamentos foi extraordinariamente realizada por uma concepção de figurino com efeito sensacional: a montagem da roupa, toda em branco, tinha inúmeras camadas para dar o efeito do "desfolhar" de blocos, mas o efeito conjunto dava a impressão de que os rostos se fundiam e formavam um só monte de papéis.

Foto: Divulgação

Foi um desfile de alegorias muito inspiradas e de extremo requinte. O acabamento de carros como o impactante abre-alas "A Memória da Terra", o carro dos oceanos, da botânica, da tartaruga das llhas Galápagos e o grand finale estupendo com a imagem do Darwin ancião formando uma árvore da vida adornado pela arquitetura da Abadia de Westminster foram de uma grandeza tão exuberante que pareceu quase impossível acreditar na referência da sinopse a alegorias afetadas pelo tal incêndio.

Foto: Divulgação

Em meio a um conjunto plástico impecável, a imagem que por muitos anos ficará na memória desse desfile (não obstante sua justificativa de também ter sido avariada no incêndio) será mesmo a da aranha Darwin Bark, batizada pelo cientista com seu próprio nome durante suas incursões nas florestas tropicais brasileiras. A representação da aranha na avenida causou enorme simpatia da escola com o público e foi a mais aplaudida do desfile. Um fenômeno!

Foto: Divulgação

"O Mistério da Vida" foi uma proposta de enredo de cunho notoriamente científico, portanto enriquecedor e de abordagem reflexiva sobre um dos teóricos mais polêmicos da história da humanidade. Ao realizar com singeleza e perfeição esse tema, e ainda conseguir "abrasileirá-lo" com o foco na viagem do cientista ao Brasil e "carnavalizá-lo" de forma tão didática e contextualizada (as "baianas-abelha" foram um achado), Alex de Souza realizou um dos mais importantes desfiles da história recente de nosso carnaval. E, mais uma vez, sobrevivendo à intempérie de um incêndio, provou que a criatividade e o talento do artista superam quaisquer adversidades quando se prima pelo bom gosto.

Foto: Divulgação

Foto: Acervo PessoalO desfile da União da Ilha em 2011 reiterou a categoria de Alex de Souza como um dos mais extraordinários carnavalescos e artistas plásticos da história recente do carnaval. Um artista que, a cada ano, afirma-se como um esteta de raríssimo requinte cenográfico, capaz de projetar um desfile cujo riquíssimo repertório criativo de imagens, cores e soluções é visivelmente reforçado por suas virtudes de grande pesquisador. O talento de Alex nos soa como um alento na incessante luta para que as escolas de samba sobrevivam e preservem, com talento e propriedade, não só a exuberância de seus quesitos plásticos, mas fundamentalmente a identidade histórica de fazer da avenida uma sala de aula com prodigiosas lições a serem aprendidas.

Se tenho de citar um, eu citaria este como meu desfile irretocável nos nove anos de SRZD-Carnaval!

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18/05/2015 08h35

'Velha Guarda da Beija-Flor: Grandeza que Cala a Mediocridade!'
Hélio Ricardo Rainho

"Com as pedras que me atiraste, construirei o meu castelo". Venho escrevendo algumas colunas sobre a responsabilidade das escolas de samba, a partir das escolhas de seus enredos, de afirmar seus valores, prestigiar suas tradições, fazer serem representados por seus nomes fundamentais. Afirmei, nas duas últimas colunas, a importância de exaltar nomes e temas que contribuam para a afirmação das escolas como entidades socioculturais com valores próprios, dignos de reverência.

A perda desses referenciais teve como exemplo uma manifestação, neste final de semana, que sintetiza a deformidade mental reinante. Durante um evento de premiação de escolas de samba - realizado numa quadra de escola de samba, constituído por pessoas do samba (a repetição é intencional) - um ato indigno e de profunda infelicidade causou uma mancha no já tão combalido e perseguido samba que "agoniza, mas não morre". Em dado momento, parte do público presente ao evento vaiou a Velha Guarda da Beija-Flor de Nilópolis, a atual campeã do carnaval.

Foto: Divulgação

Sim, leitor, você está lendo exatamente aquilo que eu jamais imaginei que pudesse publicar em meu blog. A notícia de uma Velha Guarda vaiada dentro de uma quadra! Num tradicional evento de premiação do samba com ingresso pago, onde pressupõe-se que, de fato, tenha ido somente gente que gosta de samba e entende de samba. Vaias para uma Velha Guarda!

Ora, ora, minha gente...a que ponto chegamos! Uma Velha Guarda vaiada num evento de samba! Chegamos ao auge do indecoro, do ultraje, da irracionalidade, do espúrio, do infortúnio!

Porque uma coisa é se indignar ou questionar um resultado de carnaval, um campeonato. Isso acontece desde os anos 30 do século passado, as rusgas são históricas. Mas a presença de uma Velha Guarda, que é um conselho régio e a representação formal de uma escola de samba, é algo digno de tanto respeito que eu jamais poderia imaginar tal tipo de agressão.

A minha escola de samba, eu não escondo de ninguém, é a gloriosa Portela. Pois foi lá que nasceu a primeira Velha Guarda, e dali saiu o exemplo que maravilhosamente rege todas as escolas: o tributo maior e o respeito a seus sacerdotes régios, seus baluartes. Que já eram dignos desse respeito em todas as coirmãs antes mesmo de se chamarem Velha Guarda a partir dos anos 70, lá em Oswaldo Cruz. Porque o samba sempre soube respeitar e preservar a sua ancestralidade, seus guardiões dos segredos, seus fundadores, seus fundamentadores. Tenho imenso respeito por todas, absolutamente todas, as Velhas Guardas do samba. Aprendi isso na Portela, convivi com isso também no Império Serrano toda a minha vida de sambista. Meu pai me falava isso; o bamba Jacyr que me levou para a Portela me ensinou isso; as canções de Clara Nunes, Roberto Ribeiro e Beth Carvalho que meus pais tocavam quando eu era menino me ensinaram isso. E agora? O que posso pensar?

Vaiar uma Velha Guarda é de uma descompostura execrável! É ato grotesco, chulo, autodepreciativo! Vergonha pros que vaiam, não pra quem é vaiado! Entrar num evento de samba, pagar um ingresso para lá estar e fazer esse tipo de confronto é muito mesquinho.

Nem mesmo a vaia a uma presidente da república, como aconteceu na Copa do Mundo, pode ser comparada a isso. Porque a presidente ali estava como representante de um povo, e mesmo sendo indecorosa, aquela vaia simbolizava o não-reconhecimento dessa representação. No caso de uma Velha Guarda, ela ali está não porque foi eleita, não porque esteja representando pessoas ou intenções protocolares; a Velha Guarda ali está porque representa um universo simbólico, um lastro cultural, um legado de conhecimento, uma entidade sociocultural que familiariza e congraça pessoas em torno da arte, da cultura e da vivência de um povo.

Vejo que essa situação é motivo para que hoje paremos e pensemos: que mensagem educativa temos dado todos nós, que hoje vivemos o samba e temos conhecimento do que é verdadeiro, para essas pessoas alienadas do meio? Que tipo de defesa, engajamento e militância exercemos diante de enredos espúrios a pessoas e coisas distantes de nossas tradições, que clamor levantamos pelo respeito às cores, às batidas, aos passistas, a todas as coisas genuínas que a escola de samba criou e, pouco a pouco, a lógica cartesiana dos desfiles esvaziou? Porque é esse descaso, essa perda de referência que, homeopaticamente, vai instituindo o desprezo aos nossos senhores de cabeça branca.

Não veremos a top model, o piloto de F1, o ex-BBB, o craque do futebol, a cantora de axé, o sertanejo ou o empresário serem vaiados na quadra! Veremos, pois, neste frívolo século XXI de tantos avanços tecnológicos e decantado progresso, as vaias truculentas e insidiosas contra uma Velha Guarda dentro de uma quadra de escola de samba! Lugar que eles criaram, árvore cujas raízes eles cultivaram, seu solo sagrado, desacatados e desonrados em seu próprio quintal!

Mas não é assim não, Velha Guarda da Beija-Flor! Não há de ser nada, meus bambas queridos de Nilópolis! Não há de ser uma vaia pequena, um apupo descerebrado de um grupelho descabido a intimidar o poder e a legitimidade do que vocês são! Não há de ser um acinte que vai calar a arte genuína e a força dessa gente toda...Débora Rosa, Márcio Frigideira, Sebinho, Paulinho Sapury, Tuninho Januário, Marly Alvarenga, Célia Natalino, Wanderly de Oliveira, Neusa Célia, Alan Vinícius, Gisele Figueira, João da Paz, Celso Paduana, Odracir Sisi, Julio de Assis e quantos mais...eheh...oh, que lista maravilhosa, que nomes de pompa, que elite de respeito!

Eu bato palma, tiro chapéu, canto loas...salve, salve a Velha Guarda da Beija-Flor de Nilópolis!

E saibam, pois, que, na minha pequeneza, tudo que aqui tenho neste meu espaço e neste meu modesto cantinho de rabiscos irá sempre aplaudir, reconhecer, saudar e reverenciar não só esta Velha Guarda linda e vultosa da campeã do carnaval, mas TODAS as outras de igual expressão ou menor tamanho! Qualquer que seja! Porque enquanto eu me chamar Rainho, chamarei Velha Guarda de Rainha! E proclamarei seu reinado e afirmarei seu respeito no samba! Salve a Velha Guarda Show da Beija-Flor: um canto de grandeza que cala as vaias da mediocridade!

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