SRZD



Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



27/07/2016 16h46

Disputa de sambas-enredo: por uma reflexão
Hélio Ricardo Rainho

Fotomontagem: SRZD

Da ponta da caneta para a ponta da língua! Foi dada a largada. Já começaram a espocar, nas quadras, os sambas-enredo para a disputa do Carnaval 2017.

O mundo mudou muito dos anos 80, quando comecei ainda menino a frequentar a quadra da Portela com meu saudoso padrinho de samba, Jacyr da Portela, que mais tarde me fez parceiro a disputar sambas com ele na Majestade do Samba, já como compositor. Naquela época, os recursos eram outros.

Fazia-se um samba e, quem podia, produzia seu belo CD em estúdio. Ainda cheguei a pegar o tempo do K7! Imprimiam folhetos para divulgar as letras e esses folhetos eram espalhados. Os vizinhos tocavam os k7s ou CDs nas alturas para ajudar na divulgação.  

Tudo isso mudou muito. O mundo mudou?

Potencializados pelas mídias digitais, os sites de internet especializados em Carnaval (como este, SRZD.com) e as redes sociais deram amplitude e visibilidade às obras dos compositores. A televisão e o jornal, mídias convencionais, nunca se deram a divulgar sambas em disputa. Historicamente sempre divulgaram (e muito mal) os sambas definitivos, sem se aterem aos que eram compostos durante as fases seletivas.

Foi o advento da internet e dos sites especializados em samba e carnaval que popularizou, democratizou e ajudou a difundir os sambas concorrentes nas mais diversas escolas dos mais diversos grupos. Hoje, você acessa um site ou uma rede social e consegue ouvir, em sequência, todos os sambas concorrentes de uma determinada escola. Temos gravações de alto nível, videoclipes cheios de produção.

Inegavelmente esse poderio bélico digital incrementou as disputas. E também trouxe suas contrapartidas.

Minha vivência como um profissional de comunicação de 26 anos de mercado, 21 dos quais na maior emissora de televisão da América Latina, sempre lidando com análises de audiências e comportamento do público, somados às minhas leituras acadêmicas sobre a Comunicação Social e seus processos, deram-me alguma noção do que esses instrumentos e suas mediações representam para determinados processos culturais.

Sinto desabafar, com a clareza com que os leitores estão acostumados a ler e ouvir minhas opiniões sobre as coisas do samba, que considero disputa de samba-enredo algo, hoje, desinteressante e exageradamente fútil. Em muitos momentos, mais parece uma disputa de egos inflados e de auto-exaltação do que paixão pela bandeira das escolas.

As parcerias multiplicam sua quantidade de componentes para atender à demanda comercial de investimento e aporte financeiro necessários para se entrar numa disputa. Ou seja: antes mesmo do samba ter qualidade ou poesia, precisa ter "financiadores". Sejam os compositores ou alguém de fora, cujo nome (visível ou invisivel) tornará "possível" tal samba entrar no páreo. Não falo aqui de "samba comprado"- entendam bem! Isso seria o lado mais vil da coisa. O que falo é da necessidade atual de um compositor, para ter um samba em concurso, precisar ter recursos financeiros que sustentem o "evento" que é o concurso de sambas-enredo.

O uso das redes sociais e dos meios de comunicação também é passiel de observação, dentro de toda essa mecânica. Na ânsia de divulgarem suas obras e as tornarem mais cantadas que as demais em disputa, os divulgadores invadem perfis e comunidades com atribuições de eloquência, propriedade, autenticidade e poesia às suas obras. Uma autoinvocação constante, sempre com referências e testemunhais de amigos ou torcedores. Há embates e desfiles de opiniòes e análises nem sempre fundamentadas ou respeitosas: vale mesmo é fazer barulho e, com isso, divulgar o samba. Uma lógica que parece traçar um paralelismo com o conhecido "falem mal, mas falem de mim".

Os sites costumam publicar os audios e videos dos sambas concorrentes. Com isso, começa uma briga inócua dos compositores pela quantidade de acessos e de pageviews de suas obras. Uma briga que muitas vezes é incensada pelas midias, que publicam os dados de enquetes onde os leitores votam nos sambas prediletos. Digo que essa briga é inócua porque não consigo enxergar nenhuma relação entre o "ibope" de um samba na internet e suas reais chances de escolha por uma comissão julgadora dentro da escola. Nenhuma comissão julgadora, salvo engano, vai acessar o site X pra definir que samba representa melhor seu enredo dentro de uma quadra. O que me leva a crer, mais uma vez, que o ato falho dos compositores muito preocupados com isso só revela uma ponta de vaidade pessoal que nada tem a ver com o orgulho de compor um samba para enaltecer a história de seu pavilhão.

Vão dizer que meu relato é pessimista. Que digam! Seguindo a lógica de Umberto Eco, devo estar mais para "apocalíptico" do que para "integrado".

Não faz mal: este aqui, ao menos, sou eu! Um colunista e pesquisador de escolas de samba sincero, apaixonado pelo samba, pela grandeza das escolas, pela poesia dos compositores, pelos desfiles regidos por hinos imortais em nossas memórias. E ainda acredito e ouço muitos sambas belíssimos na contemporaneidade.

Só me lamento pelo enfado dessas vaidades e desse comercialismo fútil e sem freios que transforma, a meu ver, a festa das escolhas de samba-enredo - que, para muitos, sempre foi a maior festa das escolas de samba - num festival de egos sambando e se expondo de forma ostensiva nos sites, nas redes e por onde mais nossos ouvidos e olhos possam alcançar.

Facebook Hélio Ricardo Rainho

Instagram/Twitter @hrainho

- Clique aqui e leia tudo sobre o Carnaval carioca

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?



24/06/2016 00h53

Jonata Santos: Passista Mais que Vencedor!
Hélio Ricardo Rainho

 Passista Jonata Santos - Foto: JM Arruda

Passista: elemento afirmativo dos desfiles de escolas de samba! Dizem os registros que Tijolo da Portela, referência primeva desse tipo de artista na literatura da história das escola de samba, era expulso da roda, tripudiado pelos de sua época, mas afirmou-se e persistiu, até ser ovacionado pelo público e assegurar seu lugar no espetáculo.

Passista de escola de samba: elemento afirmativo na necessidade de inventar seu próprio repertório, dispor-se a fazer roupas caras e custear sapatos que gastam com o exercício de sua arte! Exigido a estar sempre, a sambar sempre, a mostrar-se impecável e alinhado, a jorrar sua fúria e cadência independente da febre, dor no corpo ou enxaqueca! 

Passista: elemento afirmativo contra o desprezo dos diferentes e o despeito dos iguais; contra a ignorância de pessoas que estão dentro da escola de samba e não não sabem o que é a arte do samba no pé; contra a ira indomável dos próprios pares que, envaidecidos e soberbos, disputam os mesmos prêmios e o mesmo espaço!

Passista: elemento afirmativo na hora do desafio de carregar uma fantasia estúpida e inapropriada, bruta e pesada, que cerceia seus movimentos de dança e não lhe empresta respeito; sendo obrigado, muitas vezes, a enfrentar o produto da vaidade do carnavalesco que se acha mais artista que o passista, subjugando sua dança sob um caxangá emplumado. 

O passista é assim: muitas vezes um herói que supera tudo, suplanta as dores, atravessa uma avenida inteira em seu próprio fôlego e amor. Vence o cotidiano, a favela, a dor, o desprezo, a vida! Recebe pedradas, semeia sorrisos!

Uma figura-síntese de tudo isso pode ser resumida no personagem Jonata Santos, passista da São Clemente, passista do carnaval carioca., passista do nosso samba!

Passista Jonata Santos - Foto: JM ArrudaVida dura, muito dura! Desafiado, provocado, ultrajado; de infância e vida de luta, marchando sozinho contra todas as intolerâncias; bravo guerreiro dos riscados e meneios poéticos nas quebradas do samba! De um samba mutante, capaz de converter-se em diferentes criações performáticas para sambar das mais variadas formas possíveis, de acordo com o momento, o show, a proposição.

Reconhecido pelos entendedores por seu talento e habilidade; por vezes ironizado: fez da zombaria da vida o caminho da força e da superação! Venceu, ganhou prêmios, afirmou-se como alforriado das chocarrices e provocações que a má vida lhe lançou: vai escrevendo, passo a passo, a sua própria sorte e destino no riscado mágico de seus pés, na cadência mágica de seu bailado!

Olhamos para Jonata Santos e não vemos o passista que os holofotes queriam, que os mandatários destacam, que os exigentes exigem!

Não vimos nem vamos ver: porque Jonata Santos é passista de revanche, de estirpe, de envergadura própria!

 

Será fácil tentar apequenar o gigante dizendo que ele se engrandeceu; quem o engrandeceu foi a vida, foram as setas, as pedras que lhe atiraram! 

Assim ele cresceu e é, hoje, um astro inimaginado numa constelação imprevista; um menino bamba de lágrimas que regaram pés que sambam; um negrinho do pastoreio que ousou sambar na cara de uma sociedade que dizia que ele não podia, que ele não seria, que ele não faria...vá, Jonata Santos: POSSA! SEJA! FAÇA!

Passista, na arte, na raça!

Tu és Jonatas Santos: passista mais que vencedor!

Facebook: Hélio Ricardo Rainho

Twitter/Instagram: @hrainho



09/06/2016 02h41

Uma Águia, um Falcão e dois Paulos
Hélio Ricardo Rainho

Marcos Falcon - Foto: Divulgação Portela

A magia da Portela está no ar! O portelense de verdade - fiel, intenso, apaixonado! - está feliz com a confirmação da gestão "Portela Verdade", que elegeu, agora como presidente, Marcos Falcon para mais um mandato conduzindo a escola com transparência, ousadia e integração de seus segmentos. E está feliz, também, com o anúncio de seu enredo "Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar", cuja sinopse será anunciada mais adiante.

A eleicão de Marcos Falcon como presidente da Portela nos parece corroborar a força e a pujança que a escola recuperou desde 2013, quando Sergio Procópio (presidente), o proprio Falcon (vice-presidente) e Monarco (presidente de honra) foram empossados e deram origem a uma guinada radical no panorama em que a maior campeã dos carnavais se encontrava. Aos olhos de cada portelense, é um aceno de que a rua Clara Nunes continua um recanto de guerreiros em azul e branco. Muitas coisas foram feitas. Mas pode-se citar, de forma até amiúde, um punhado de coisas que solidificaram e reergueram a escola, inclusive na amortização de dívidas estratosféricas de gestões passadas.

Em 2013, o projeto político "Portela Verdade" ganhou vulto, assumiu a escola com apoio de todos os segmentos, enxergou a Portela com grandeza, deu à quadra os tons azuis exigidos pela saudosa Tia Dodô, outorgou a presidência de honra ao Mestre Monarco, encampou uma gestão moderna que fortaleceu seus departamentos cultural e social para que a Majestade do Samba remodelasse sua quadra, promovesse eventos festivos vultosos, transformasse sua sede num lugar de arrecadação, não de prejuízo. A Portela ganhou mídia e visibilidade. A Velha Guarda triunfal assumiu e espalhou seu legado. Ações comunitárias como o "Portela dá Trabalho" inseriram a escola num contexto de inclusão social, e seu inovador plano de sócios-torcedores "Águia no Coração" revolucionou o conceito de admiradores colaborativos em escolas de samba. A Portela nunca mais saiu do desfile das campeãs e foi considerada favorita ao título em todos os seus desfiles. Fez carnavais vultosos, com barracão profissionalizado e salários pagos em dia.

Mas foi na virada de página do carnaval 2015 para 2016 que Marcos Falcon emplacou sua marca, expressa no lema "Quem Ousa, Vence!". Num espocar de luzes do troca-troca carnavalesco, criou polêmica ao trazer para Oswaldo Cruz a genialidade do campeoníssimo Paulo Barros. Para muitos, uma aposta inusitada que não combinaria com a estética e o legado tradicional da escola. Saía o clássico e também campeoníssimo Alexandre Louzada, portelense nato e identificado com a escola, para a vinda de um carnavalesco de muita ousadia e arrojamento em suas propostas de carnaval. Como dizia um samba portelense, "a lenda deu lugar para a certeza": o carnaval de 2016 teve uma Portela arrebatadora e os gritos de "é campeã" mais retumbantes da avenida! Paulo Barros e a Portela casaram de forma magistral.

Para 2017, novas águas vão rolar! E virão dos rios - os rios da humanidade, os rios das civilizações, os rios que revolvem a períodos e fatos históricos...e desaguam entre Oswaldo Cruz e Madureira, onde reside essa grande paixão a que tantos corações se deixaram levar desde 1923!

Paulo Barros e Paulo Menezes - Foto: Arquivo SRZD

Em 2016, os figurinos exuberantes de João Vitor Araújo abrilhantaram o desfile proposto por Paulo Barros. Para 2017, o figurinista será ninguém menos que Paulo Menezes, que também teve passagens pela Portela em 2012 e 2103 e goza de imenso prestígio junto aos portelenses. Paulo Menezes é requintado, minimalista, perfeccionista. Vai juntar seu estilo barroco e rococó às engenhosas dinâmicas performáticas dos carros e seus componentes de Barros. E a comissão de frente, que há alguns anos vinha sendo questionada, será assinada por um dos mais inventivos e consagrados coreógrafos do país: Renato Vieira. Um time de craques! Só carta forte do baralho!

Com um enredo que, ainda sem revelar sua sinopse, parece favorecer as alquimias criativas dos dois Paulos e com uma gestão séria e madura (que ganha, ainda, Luís Carlos Magalhães como vice-presidente, um braço cultural fortíssimo), a Portela parece mesmo fortalecida para 2017.

Uma Águia, um Falcão e dois Paulos.

Chão de escola nunca faltou à Portela. O que lhe faltava até então, agora sobeja: a força e o talento para que, do chão, voe aos mais altos céus do estrelato!

Facebook: Hélio Ricardo Rainho

Twitter/Instagram: @hrainho


1 Comentários | Clique aqui para comentar

25/05/2016 17h19

Evento 'Leituras de Passistas': Um novo olhar para o segmento
Hélio Ricardo Rainho

Projeto Quem És Tu Passista - Foto: Jeanine Gall

Quando iniciamos, em 2013, as ações pontuais especificas do Projeto Quem É Tu, Passista?, visando à perpetuação e defesa da arte dos dançarinos mais legítimos da dança do samba, identificamos sérios ofensores.

O primeiro deles era o foco desigual e impessoal que as matérias de imprensa, de forma geral, dedicavam à cobertura de seus trabalhos e eventos. Os passistas, salvo mui raras exceções, eram vistos sempre como sujeitos indeterminados, sem muito empenho da mídia especializada em carnaval de citar seus nomes, tipificar seus trabalhos, destacar sua relevância dentro do cenário produtivo do próprio espetáculo das escolas de samba. Identificamos, então, a necessidade de promover, através do braço da imprensa, um foco midiático que pudesse, de forma quase didática, expor as biografias, promover matérias ilustrativas do que era produzido individualmente e dentro das alas de cada escola.

O outro ofensor (a meu ver, ainda bem preponderante) era a dificuldade que o meio acadêmico oferece a seus pesquisadores de terem liberdade, de fato, na depuração das leituras sobre o passista e suas reais motivações. Não raro motivada por construções tendenciosas e viciadas de teorias atreladas a outros nichos que não são exatamente a  escola de samba, grande parte dos estudos parece mais preocupada em favorecer pressupostos teóricos do que traduzir a verdade e a proposição dos passistas atualmente em atividade. Daí o esforço do Projeto QTP em promover o foco acadêmico, indo ao campus universitário para debater com propriedade (e passistas in loco) as questões referentes ao segmento, minimizando a margem de distorção.

AndréDrummond, PabloJales, LeoRamos, RickAngelo, KaioMackenzie, WaldirTavares - Fotos: JM Arruda

Por fim, o último ofensor: o desdobramento das manifestações artísticas dos passistas sendo visto de forma uniformizada e pasteurizada. Pasmem: ainda há quem não os considere  "artistas", considerando até "pejorativo" assim denominá-los! E também quem acredite que ""assista é tudo a mesma coisa". Veio o foco artístico do projeto fortalecer essa visão de que existe diversificação na arte dos passistas.

Passistas FilipeFernandes, JonatasKemper e Valéria Bombom - Foto: JM Arruda

No último domingo, iniciamos uma parceria com o evento Ballet2Passistas, promovido pelo Leviano Bar, na Lapa, no sentido de levarmos quinzenalmente uma apresentação artística que evidencia, por meio de um recorte, cada variação existente na imensa pluralidade do segmento. Não temos apenas "gente sambando" dentre os milhares de passistas atuantes em nossas escolas de samba: temos produtos diversos, concepções diferentes, metodologias e proposições variadas. Da ideia de divulgar e promover o entendimento dessa diversidade veio a série "Leituras de Samba". Serão cerca de dez incursões, com dez apresentações tendo uma palavra de apresentação que destaca características peculiares da arte dos passistas em atividade.

Passistas Bherna Francy, Kriollo Rei e Cristiane Camargo - Foto: Jeanine Gall

A primeira apresentação levou o "Grupo Show Quem és Tu, Passista?", um recorte do que foi apresentado pelo cast que desfilou em janeiro, na Sapucaí, na marcha do Dia do Passista. Sob direção de Bherna Francy, passistas de diversos estilos e diversas escolas com caracteristicas variadas uniram-se para encenar as nuances do chamado "samba malandreado", cultivando a cultura tradicional da Lapa, onde a boemia saudava os bons malandros cortejando suas cabrochas. Passistas como Thiago "Kriollo Rei" (Rei Momo de Niterói e passista Viradouro/Mocidade Independente), André Drummond (Rei Momo de Caxias e passista da Grande Rio), Leandro Hardoim e Pablo Jales (passistas da Viradouro), Filipe Fernandes (passista da Tuiuti), Léo Ramos, Valéria Bombom, Kaio Mackenzie e Rick Ângelo (passistas da Vila Isabel), Jonatas Kemper (passista da Grande Rio) e os "veteranos" Cristiane Camargo e Waldir Tavares fizeram uma belíssima apresentação, contagiando os presentes e ajudando a marcar a presença do segmento e do projeto na abertura da série.

Passista Filipe Fernandes - Foto: JM Arruda

Talvez pareça exagero que um grupo de artistas precise, ao mesmo tempo em que atue, militar em favor de sua arte. Pois é. Mas, lamentavelmente, todo o legado das escolas de samba só se permite ser construído assim. Caso contrário, torna-se "cultura paralela" para os modelos culturais vigentes ou objeto primitivo de pesquisa para teoricistas e suas teses de adestramento intelectual.

Passista Leandro Hardoim - Foto: Jeanine Gall

Facebook Hélio Ricardo Rainho

Twitter/Instagram @hrainho



16/05/2016 16h32

Carnaval 2017: A TV e a Cronometragem
Hélio Ricardo Rainho

Cronometragem - Foto: Reprodução

Há algum tempo venho repensando a realidade das escolas de samba de forma particular e pragmática. Cansado de tantas interlocuções intelectuais tendenciosas e ultrapassadas, de alguns pensamentos nostálgicos infundados e travadores do avanço dessa manifestação, dos blá-blá-blás que não levam a lugar nenhum, da poeira alergênica das conversas de fundos de auditórios acadêmicos,  resolvi exercitar o "pensamento fora da caixinha". Desconstruir frases (mal)feitas, desfazer equívocos consentidos como "verdades absolutas do carnaval", desmentir falácias, acender na mente algumas ideias contrárias a um fluxo irracional de distorções sobre aquele que é, a meu ver, o maior manifesto popular e cultural de nosso país.

Diante da nova negociação feita entre a TV e a Liga, que reduz o tempo de desfile das escolas, ouvem-se dizer algumas coisas que merecem nossa atenção, e não necessariamente nossa concordância. Vamos a algumas delas.

Diz-se por aí que a escola de samba "virou espetáculo". Como se isso fosse crime, pecado ou aborto intencional de virtudes. Desculpem: a escola de samba em desfile SEMPRE FOI espetáculo! Alguém consegue imaginar um cortejo de pessoas fantasiadas, dançando e cantando na rua sob forte percussão e musicalidade - seja em 1935 ou em 2017 - que não seja um fato "espetacular"?! É que o lastro eurocêntrico e as elites racistas (que até hoje enviesam todos os pensamentos sobre a escola de samba numa lógica primitiva e tribal) sempre se negaram a reconhecer naqueles negros alguém que pudesse ser artista, criador, produtor cultural e agente de um espetáculo! Pra eles, o mágico do circo é espetaculo, o bailarino do Bolshoi é espetáculo, o Thriller de Michael Jackson é espetáculo, o trio elétrico de axé music by "ditadura de gravadora" é espetáculo...mas escola de samba "não"! Pra eles, escola de samba "perde a pureza" se for espetacular!

Pois bem, há um viés grosseiro nessa história. A escola de samba é um espetáculo artístico e cultural. Sempre foi. Sempre desfilou com imenso cortejo nas avenidas; sempre reuniu intensa atividade cultural e artística nas quadras e nos seus lugares. Mesmo mantendo suas mais fiéis tradições, mesmo sustentando seu legado histórico imponente e fundamental, ela pode ser espetáculo. A questão é que a escola de samba nasceu para ser espetáculo CULTURAL. Até que vieram os interesses da televisão em pasteurizar seu espetáculo cultural e transformá-lo num espetáculo AUDIOVISUAL. Essa é a diferença. A diferença não é ser ou não ser espetáculo: a diferença é ser ou não ser audiovisual. Ou seja: caber ou não caber na televisão.

O veículo televisão historicamente absorveu movimentos alheios a sua linguagem para criar programas. Não há mal nisso, também. Fez isso com o teatro, com o futebol, com os grandes shows. Aquilo que hoje chamamos de "o tal do ao vivo". No caso do desfile de escolas de samba, é flagrante a dificuldade de se transpor o formato artístico da avenida para o vídeo. Os dvds são sofríveis. A transmissão teve um auge nas coberturas da Manchete nos anos 80 e bons momentos da Globo também naquela época, devido ao pool para a transmissão conjunta. Na soma de tudo, ninguém nunca assistiu pela TV ou por um desses DVDs sequer 10% da verdade e da grandeza de um desfile.

Vamos falar a verdade! Não é ótica distorcida, nem defesa pelo ângulo de quem é sambista. A escola de samba é mágica! Tem errado em enredos horrorosos, homenagens alienígenas, escolhas burras, sim. Mas não perdeu sua força espetacular NA RUA, que é onde ela explode sua força maior.

A TV não é ONG. Mas também não é boba. Não veio fazer favor quando comprou direitos de transmissão. Quis comprar um espetáculo audiovisual, transmitir pro mundo, lucrar com euros, yens, dólares e reais com isso. E sabia que o espetáculo CULTURAL era poderoso o suficiente para valer o desafio que ela, a televisão, teria de transformá-lo em espetáculo AUDIOVISUAL.

Pergunto eu: se a escola de samba sempre teve vida própria para ser espetáculo, por que nunca pensou em modelos autossustentáveis como os do início de sua história? Por que vive mendigando pão das mãos de quem a financia, transmite ou patrocina?

É uma lógica que não alcançará os verdadeiros foliões da festa. Existem verbas de subvenção, existem verbas de arrecadação nos ensaios de quadra e hoje ainda existem os enredos patrocinados. Insisto em dizer que esse "dinheiro todo" da televisão poderia sair sem deixar ninguém sem espetáculo. Com tanto que houvesse ajustes, adequações e planejamento. 

Já que os cartolas do samba modificam tanto a escola de samba - e agora, mais uma vez, vão cortar na carne da escola o tempo que a televisão exigiu que reduzissem -, seria bom repensarem, também, um espetáculo que sustentasse suas tradições, suas verdades, sua força, seus expoentes. E também se mantivesse como espetáculo cultural, pois isso ainda é possível, independente do espetáculo audiovisual que só interessa a quem lucra muito com ele.

Então, o resumo da ópera é este: se a escola de samba caminha para cortar seu tempo e cortar seu número de desfilantes para "sobreviver", deveria pensar o mesmo quanto a cortar sua quantidade de dinheiro para construir seu carnaval! Afinal de contas, o tempo e o número de componentes são cortes que doem na própria escola de samba.

E cortar dinheiro? Doeria exatamente em quem?!

A pergunta permanecerá sem resposta...

Facebook Hélio Ricardo Rainho

Twitter/Instagram @hrainho


1 Comentários | Clique aqui para comentar

03/05/2016 15h19

Harmonia: Brasa Viva da Escola
Hélio Ricardo Rainho

Palestra no Império Serrano - Foto: Divulgação

Tive a oportunidade de participar de um fórum realizado na quadra do Império Serrano, promovido pela Associação Cultural dos Diretores de Harmonia das Escolas de Samba do Brasil. O tema era sempre associar o trabalho da direção de harmonia na escola de samba com os demais segmentos que constituem o desfile das agremiações.

Na oportunidade, fiz duas provocações.

Em minha primeira provocação, evidenciei que, ao contrário do que muitos pensam, a harmonia de uma escola "já existe", e não é um atributo de seus diretores, mas sim da própria escola. Talvez não se possa explicar isso de forma lógica, porque a essência e a virtude de uma escola de samba não são, realmente, explicáveis. A escola de samba é um fenômeno vivo, de dinâmica autêntica e pessoal. É de caráter imensamente subjetivo o seu poder de manifestação cultural. Tornamo-nos incapazes de aprisionar esse poder a um contexto cartesiano, porque não há como parametrizar a glória de uma escola de samba. Falei sobre aquilo que comumente ouvimos chamar de "chão de escola", sobre aquelas escolas de samba que "misteriosamente" parecem desfilar com uma graça extraordinária ano após ano, mesmo quando não possuem bons recursos ou estrutura. São escolas que possuem encanto natural. Esse encanto, esse sopro, essa chama, é a sua harmonia! Porque é a energia combinada de seu canto, sua dança, sua passagem solta e contagiante na avenida.

Algumas escolas são verdadeiros pilares desse tipo de coisa, possuindo um "chã de escola" espetacular. Podemos citar, aqui, quatro que me vêm de imediato à cabeça: Império Serrano, Vila Isabel, Mangueira e Portela. Nossa! Não digo que sejam as únicas, mas seu chão de escola é autoral. Entra e sai carnavalesco; muda a diretoria de harmonia daqui pra ali; trocam alas e modificam enredos; não importa: até quando desfilam desprovidas de sua melhor qualidade, essas escolas são exemplos de um "chão" vibrante, irreprrensível.

O chão de escola aparece, ali, como uma brasa ardente. A função do diretor de harmonia é ter a sensibilidade de perceber a melhor forma para abanar esse fogo, promover a combustão, conduzir os elementos para que favoreçam sua passagem na avenida. São sacerdotes, não são deuses. São responsáveis por planejar e arquitetar muitas coisas, e não devem se isentar de suas funções hoje tão técnicas. Mas precisam lembrar que toda a técnica ou metodologia que for desenvolvida deverá meramente funcionar como o "leque que abana o fogo", devendo primeiro entender a energia e o coração do componente, bem como o legado histórico até ali construído, para que haja antes um cortejo, depois um desfile.

A segunda provocação que fiz foi sobre as atenções dos trabalhos de harmonia parecerem excessivamente voltadas para desempenho de desfile, esquecendo-se os rituais de quadra. A lógica de exigência matemática dos julgamentos transformou o desfile no maior momento das escolas de samba, quando historicamente a disputa veio depois de seu surgimento. Nenhuma escola de samba nasce no meio da avenida: elas nascem nas quadras, nos bairros, nas comunidades. Possuem um rastro de territorialidade, uma cultura intrínseca disseminada por seus baluartes e fundadores. Duas escolas de samba não são iguais, e a lógica de querer igualar ou tornar similar é meramente impositiva da matemática dos pontos do concurso a que elas se submetem. Mas essa lógica não deve, jamais, sufocar a verdadeira essência da escola, que é o seu ritual de quadra, de ensaio, de onde emanam todas as suas energias e poderes. É ali, no arregimentar de suas forças e de sua gente dentro da quadra, que os diretores de harmonia começam a construir suas parcerias, costurar a unidade do corpo da escola. Se esse trabalho não começar no seio de sua gente, no nascedouro de tudo, o mero recurso de tecnologias e teorias próprias não vai conduzir a escola de samba a um contexto harmônico de verdade.

A direção de harmonia de uma escola de samba precisa abraçar e disciplinar seu componente. A diretoria de harmonia de uma escola de samba precisa ser exemplo de doação e carisma, vibração e simpatia, respeito e encanto. O diretor de harmonia é um agente da alegria e do sorriso que a escola deve provocar: seu comando suave e delicado expressa a regência de um maestro. Ainda que os movimentos sejam bruscos com a batuta na mão, um maestro jamais insulta seus músicos, empurra seus solistas, apresenta-se de frente para sua plateia. Ele conduz a orquestra com classe, firmeza e elegância. E, durante o concerto, é uma referência de respeito e condução a seus comandados, pois já construiu essa relação no dia-a-dia de ensaios e convivência.

A Associação Cultural dos Diretores de Harmonia das Escolas de Samba do Brasil vem sondando caminhos e reflexões para dirimir dúvidas e pensar sobre todas essas coisas. É louvável ver todos esses sacerdotes imbuídos de um mesmo ideal: fortalecer e consolidar as escolas de samba como o maior espetáculo da Terra!

Facebook Hélio Ricardo Rainho

Twitter/Instagram @hrainho

 



24/04/2016 12h33

Viriato Na Rocinha: Um 'Saçarico' que honra o Samba
Helio Ricardo Rainho

Carnavalesco João Vitor - Foto: Divulgação

Em priscas eras em que os nomes verdadeiros e autênticos do carnaval perderam prestígio e espaço para celebridades inócuas e "alienígenas" da festa que alavancam patrocinadores para serem incensados, veio de la de São Conrado um grito, um alento, um rompante de esperança de que os grandes nomes não serão esquecidos. A Acadêmicos da Rocinha anunciou seu enredo para 2017: "No Saçarico da Marquês, tem mais um freguês: Viriato Ferreira".

Viriato é figura retórica no carnaval carioca. Não pretendo, aqui nesta coluna, estender-me a descrever a grandeza de seu trabalho ímpar de figurinos, uma marca registrada que até hoje persiste em quem desenha fantasias na Portela. O próprio carnavalesco João Vitor Araújo, autor desse belo enredo da Rocinha e também figurinista responsável pelas fantasias da Portela em 2016, admite ter pensado em Viriato o tempo todo para compor o trabalho que lhe rendeu a nota 40 fechada no desfile da Majestade do Samba.

João Vitor é uma das esperanças contidas que todos nós, críticos de carnaval, temos. Nós, que ano após ano nos damos a assistir aos desfiles em busca de algo que seja conceitual e diferente, sabemos o quanto é difícil encontrar. João Vitor é um jovem e irrepreensível esteta, talentoso requintado, que já nos provou sua capacidade para renovar os quadros cada vez mais repetitivos e pouco animadores prometidos pelo carnaval das escolas. Consegue criar fantasias com volumetria e imponência, sem comprometer a leveza necessária para o desfilante. Além disso, tem extremo bom gosto no desenho e na forma, bom uso das cores e inventividade, tornando didáticos todos os desfiles que preparou até hoje.

 Logo Rocinha 2017 - Foto: Divulgação

Lembrar de Viriato Ferreira pode ser um elo perdido para que a escola de samba destitua-se desse discurso pouco convincente de que é necessário se vender a enredos fora de seu epicentro cultural para que possa se colocar na avenida. Já vimos e temos visto muitas escolas com enredos alienados, exaltando nomes distantes do carnaval. Penso que escolher um tema abstrato soa menos ofensivo do que prestar uma homenagem a um personagem equivocado. Quando se erra no tema, é um pecado menor. Quando se erra por enaltecer um nome que ofusca algum baluarte ou personagem legítimo do samba, fica clara a influência do fator financeiro contra as tradições e a cultura da escola de samba.

E essas gerações mais recentes, como ficam? Se não tiverem a oportunidade de reverem Viriato citado e explanado por uma escola da contemporaneidade, perderão a oportunidade de conhecer mais de perto um dos maiores nomes dessa festa, que contribuiu imensamente para que ela se tornasse espetacular em seu sentido artístico. Pois, se foi Joaosinho Trinta quem conferiu a grandeza apoteótica das escolas de samba com sua verticalização dos desfiles em alegorias gigantes na década de 70, foi Viriato - então figurinista de João - quem trabalhou para redimensionar as fantasias, de modo que pudessem acompanhar essa transformação.

Viriato influenciou e tem influenciado uma geração imensa de carnavalescos. É digna e louvável essa homenagem da Rocinha. Que, enfim, parece retomar seu caminho de acerto e capricho, engajando-se na repaginação de seu projeto de carnaval para 2017.

O tema é nobre, o carnavalesco é de excelência, e até a sinopse do estreante no ofício Daniel Targueta apresenta-se, já na prévia, inspiradíssima, emocionante por trazer a figura do próprio Viriato numa narrativa em primeira pessoa.

Aguardemos, pois, o andamento desse passo de ouro já dado pela Acadêmicos da Rocinha para que o Carnaval 2017 tenha a honra de nos trazer um personagem não invasivo, mas com propriedade para ser enredo na avenida.

Facebook Hélio Ricardo Rainho
Twitter/Instagram @hrainho

 



17/04/2016 21h07

Passistas do Tuiuti: Beatos, Santinhas e Afirmação do Segmento
Hélio Ricardo Rainho

Diretor Jorge Amarelloh - Foto: Hélio Rainho

A dança dos passistas de escola de samba parece mesmo ter saído do ostracismo a que foi historicamente relegada, conseguindo um plano de destaque. Sempre muito associada a um status de "normalidade", entendida apenas como manifestação "simples" da resposta do corpo às batidas do samba, pouco a pouco vem se afirmando como uma das principais atrações das escolas nas quadras, nos ensaios técnicos, nos eventos de encontros de anfitriãs, na pluralidade de premiações.

Que se pode dizer sobre os movimentos importantes para essa afirmação? O agrupamento dos passistas como um segmento, constituindo alas, foi de grande relevância. Antes dos anos 80, o passista era um elemento "isolado", espalhado pela escola, sendo mais individual e menos coletiva a sua afirmação. A partir do momento em que as "alas de passistas" passaram a ser uma representação em grupo, não apenas individual, ganharam destaque, passaram a ter uma direção. Não apenas uma direção de harmonia, mas uma direção artística. Dentro da lógica dos desfiles, os passistas passaram a encenar/representar elementos do próprio enredo. Essa afirmação artística e técnica dos passistas acabou favorecendo os ares de militância, hoje já bastante fortalecidos. O surgimento dos ensaios técnicos, principalmente, foi fator primordial para a afirmação dos passistas: deu aos diretores e suas alas a possibilidade de terem grande visibilidade e aproveitar essa tela para terem a liberdade de criar suas expressões e performances.

Passista Filipe Fernandes - Foto: Hélio Rainho

Nos ensaios técnicos para o carnaval deste ano, uma ala de passistas, em particular, surpreendeu a toda a audiência. Roubando a cena com sua passagem arrebatadora, a ala de passistas do Paraíso do Tuiuti saiu aclamada da Sapucaí. Na oportunidade, os diretores Alex Coutinho e Jorge Amarelloh caracterizaram seus comandados como "beatos da favela" e "santinhas do pau oco", valendo-se de um contexto do enredo "A Farra do Boi".

Passistas femininas - Foto: Hélio Rainho

O que se pôde perceber na avenida foi que o uso dessa caracterização pelos diretores da ala não se limitou tão somente ao figurino impecável dos passistas. As passistas femininas emprestaram à sua dança provocativa e malemolente de cabrochas do samba o contexto performático do cinismo sensual da personagem que representaram na avenida. E o naipe masculino, em particular, deu um show exuberante: os beatos portavam bengalas, um acessório normalmente utilizado por algumas "linhagens" de passistas malandreados. Apesar disso, em fidelidade ao tipo que estavam representando na avenida, eles em momento algum sambaram como "malandros", mas deram um verdadeiro show de energia e samba no pé, manuseando com incrível destreza e elegância o acessório.

Santinhas do Pau Oco - Foto: Hélio Rainho

Esse registro da dança de passistas masculinos do Paraíso do Tuiuti está diretamente relacionado a uma discussão intrínseca às alas de passistas hoje, que é a questão da apreciação do chamado "samba malandreado". Muitas vezes citado como modelo único, e equivocadamente citado por muitos como a "origem da dança do passista", o "samba malandreado" é uma vertente fortalecida somente nos anos 80, portanto quase 50 anos depois dos primeiros desfiles oficiais. E os passistas tuitienses conseguiram apresentar na avenida, com inegável vibração e virtuosismo, um naipe masculino por excelência sem nenhum meneio malandreado, subvertendo pela primeira vez o uso de bengalas para uma nova leitura artística.

Passista Igor Lima - Foto: Hélio Rainho

Que importância teve, além do brilhantismo de sua apresentação, essa passagem dos passistas do Paraíso do Tuiuti? Se estamos falando em afirmação do segmento, enriquecer o debate sobre as diferentes leituras e manifestações artísticas dos passistas na avenida só vem reiterar e valorizar a classe e a grandeza desses artistas. O passista de escola de samba, personagem afirmativo dos desfiles, mais uma vez se faz prevalecer pela singeleza de sua arte, razão pela qual caminha a passos largos para militar em favor de sua sobrevivência nos desfiles. Não como um elemento primitivo, tribal, místico ou secundário da festa popular, mas como um agente único e e representativo daquilo que se convencionou chamar de "maior espetáculo da Terra".

Facebook Hélio Ricardo Rainho

Twitter/Instagram @hrainho

 



12/04/2016 09h12

Portela: amor crônico, crônica de amor!
Hélio Ricardo Rainho

Eu era menino. Bem menino. Tinha 10 anos de idade e costumava passar o carnaval com a família em casa de praia. Mas ainda lembro, porque foi inesquecível. Carnaval de 1980, decidi que queria escolher uma escola pra ser a dona do meu coração.

Queria que fosse azul, porque tinha paixão pelo azul. Esperei o carnaval para ver o que aconteceria. E fui incrivelmente arrebatado de paixão e emoção pela escola de Oswaldo Cruz e Madureira quando aquela águia e aquele circo encantaram uma geração. Lá em Maricá, sem televisão, ouvíamos sobre os desfiles pelo rádio. O cântico "Vem de lá, ô criançada, que hoje tem marmelada, pois o circo já chegou" era a voz da própria Portela me chamando para me envolver naquele azul e renascer de paixão e orgulho!

Foi naquele carnaval que descobri: eu era Filho da Águia, cria do Ninho...a Portela era a escola do meu coração!

Foto: Acervo pessoal

Talvez o leitor se espante: quem pode explicar o que faz a gente amar uma escola? Ah...não se explica! O dia em que houver lógica nos sentidos, matemática nas lágrimas do rosto, regra de três simples no batimento cardíaco, lei da gravidade no arrepiar dos pelos...não haverá mais o amor! Porque o amor é coisa que não se explica; ele nasce de um momento mágico em que a nossa vida tem um encontro devotado com aquilo que se torna parte da gente.

Assim comecei uma história de amor na Portela! Os sambas...ah, os sambas da Portela permearam a minha vida! Depois daquele samba triunfal em que a escola "falava comigo" por causa do circo, estava eu outra vez lá na praia, no carnaval seguinte, ouvindo novamente a Portela a me falar: "O mar (oi, o mar) / Por onde andei mareou (mareou) / Rolou na dança das ondas / No verso do cantador". Mais um ano, 82, e uma frase que até hoje me define: "Eu sou amante / E sou menino sonhador das escolas de samba". Eu crescia e o samba se aproximava do meu corpo. Já ensaiava uns meneios e molejos de samba no pé. Em 83, a Portela cantava: "O rei mandou sambar / o rei mandou vadiar / No carnaval das ilusões".

Foto: Acervo pessoal

E veio 83. Minha casa, onde minha mãe portelense tinha fascínio por Clara Nunes, ficou de luto. A Guerreira passou da vida para a morte e, no dia de seu funeral, fui de braços dados com minha mãe pisar, pela primeira vez, a quadra da Portela. Nunca vi tanta gente em Madureira! Ninguém andava nas ruas! Madureira inteira chorando...o Império Serrano com uma bandeira enorme de luto na porta da quadra. Eu chorava tanto que só enxergava azul. Prometi que aquela dor viraria sofrimento!

Foto: Divulgação RioturOs anos passaram e o meu saudoso mestre Jacyr da Portela me levou para a ala de compositores da escola, onde disputamos alguns sambas. Cresci. Passei a desfilar na extinta Ala do Silencio. Trabalhei no barracão com o carnavalesco Silvio Cunha. Em 1993, desenvolvi o Projeto Clara Nunes para o Museu da Imagem e do Som, com uma exposição de vídeos, fotos e uma peça teatral sobre a vida da cantora, que encerrava com baianas da Portela no palco. Ganhei um título de "Amigo de Clara Nunes" do governo do estado.

A Portela marcou a minha vida. E tem sido assim, também, na vida de uma legião de apaixonados e entusiastas da Majestade dia Samba! Já dizia o poetInha que "beleza é fundamental". É imenso o meu respeito e carinho verdadeiro pela simbologia e pela grandeza de cada escola de samba. Mas peço licença e atrevo-me a dizer: nenhuma é mais bonita, nem mais charmosa que a Portela! Aquela águia na avenida é um orgulho imbatível, um rastro imorredouro de história e legado do samba, um bastião da memória cultural do nosso povo, artifício poético das asas da liberdade do samba diante de todas as amarras de perseguição!

É claro que esse comentário é eivado de paixão. Eu me assumo - e já me assumi - apaixonado pela Portela! Mas não é injusto dizer que essa beleza existe, resiste...permanece 93 anos depois com o mesmo garbo e grandeza que os livros da história registram sobre suas primeiras passagens nas avenidas por onde desfilou!

A Portela é linda! E devo dizer que, ao pisar em tua quadra, minha Portela, o que tu representas para nós, que somos teu povo, supera todas as agruras e tristezas da vida! Teu pavilhão azula nossos sentidos, teu alvo branco pacifica nossas mentes.

Por ti, Majestade do Samba, tantos poetas e artistas passaram: cantadores, passistas, dançarinos do pavilhão, baianas "mães do samba" iluminadas...tuas Dodôs, Docas, Áureas, Suricas, Vilmas, Aldaleas e Nilces...teus Paulos, Candeias, Tijolos, Nocas, Monarcos, Manacéias, Jeronymos e Valcis...todo teu rompante de glórias sobeja e reflete, gloriosamente, um futuro espelhado em teu passado...construído em teu presente!

Somos Portela porque tudo isso já fomos, e porque pra sempre seremos!

Parabéns, Portela, por estes 96 anos!
"Em matéria de samba, o meu sonho de bamba...era mesmo você"!

Foto: Reprodução de Internet

Facebook Helio Ricardo Rainho
Twitter/Instagram @hrainho

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


2 Comentários | Clique aqui para comentar

23/03/2016 19h50

Chão colorido, fogaréu, Semana Santa...e 69 anos do Império Serrano
Hélio Ricardo Rainho

Imagem: ReproduçãoEstes 69 anos de grandeza do Império Serrano me fazem rememorar uma das mais marcantes histórias que sei a seu respeito. No ano de 1988, o Império Serrano havia contratado o então ascendente carnavalesco Oswaldo Jardim, que viria a ser conhecido como "o rei da espuma" pela marca registrada de seus trabalhos ímpares utilizando esse material. Havia uma expectativa sobre o enredo que ele traria para a escola.

- Império Serrano e Portela fecham parceria com 'Projeto Quem És Tu, Passista?'

Em entrevista na Rádio Tropical, o carnavalesco dizia que "o Império não era uma escola para profissional chegar com a presunção de levar enredo". Oswaldinho afirmou que a escola "tinha vida própria" e que seria preciso "pisar sua quadra e olhar sua gente" para "sentir o enredo que o Império pede".

No sábado em que ele seria apresentado na quadra, lá estava eu, ainda menino, para ver de perto como seria aquele laboratório de Oswaldo Jardim na quadra do Reizinho de Madureira. Oswaldo chegou todo de branco, num traje social vistoso, elegantíssimo, muito perfumado. Parecia que era dia de desfile! Os cabelos com gel puxados para trás e os olhos claros reluzindo naquele fundo de roupa branca. Oswaldo caminhava pela quadra lotada por todos os pontos, em todas as direções, no meio de toda gente. Braços cruzados sobre o peito ou nas costas, analisava pessoas, trocava sorrisos, se misturava com a gente simples, passeava ante o busto do poeta Silas de Oliveira. Ele estava "ouvindo" a voz do Império. Dias depois anunciou o belíssimo enredo "Jorge Amado, Axé Brasil".

Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Esse Império Serrano de 69 anos é mesmo uma escola muito peculiar

Seus sambas-enredo são sambas incomuns. Todo mundo sabe e enaltece essa escola por conta de sua excelência nesse quesito. Mas o que há de incomum na excelência que sobeja nos sambas do Império vai além de sua refinada poesia, que já seria motivo de grande galardão. O que sobeja nos sambas do Império Serrano é a sua vocação para cantar a liberdade e a fé!

E por que essa característica distingue o Império Serrano? Não sei, não se sabe, não se explicará. A escola de samba, com sua alma própria, intrínseca, não se dará o luxo de explicar aos outros o que a faz ter esta ou aquela personalidade histórica. A verdade, porém, é que o Império Serrano nasceu de uma dissensão do Prazer da Serrinha, de um anseio de independência e participação conjunta, e foi refletindo isso a cada passo de sua trajetória brilhante. Cantou a liberdade desde o começo, passeou pelos Heróis da Liberdade e chegou até o Eu Quero, grito das Diretas Já ecoando sozinho na Sapucaí. Foi também a única a desafiar a tirania dos jurados com seus versos "sou Império, sou patente, só demente é que não vê".

Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

- Império Serrano: 'Homenagear a escola pelos seus 70 anos é uma possibilidade', diz carnavalesco

A fé também esteve presente nesse Império do Divino. E é curiosa a relação pujante das escolas de samba, filhas do Carnaval pagão e profano, com a religiosidade, sobretudo dos santos católicos. No Império, o que todo mundo diz é que "imperiano de fé não cansa, confia na lança do santo guerreiro". A escola tem verdadeira veneração com o padroeiro São Jorge, o "cavaleiro de Deus". A fé do imperiano vem sendo testada, inclusive, no purgatório em que a escola se encontra, com seus devotos peregrinando por uma Série A onde a escola caiu injustamente e já teve chances de deixar para trás algumas vezes, mas parece enfrentar alguns "dragões da maldade" muito obscuros que o travam - não na jornada da Avenida, mas na floresta sombria dos envelopes de papel dos jurados.

Foto: Diego Mendes/Divulgação

Mas o orgulho, a paixão, a convicção e a grandeza do Império Serrano pouco serão afetados por esses dragões enfurecidos! Nestes 69 anos, lembrar-se-ão do verde esperança de sua bandeira, de sua galeria de poetas do samba, dos estilistas da dança que por tantos anos bailaram com seu divino estandarte ou sambaram no pé como passistas iluminados pelos céus!

"No toque do agogô", "com fé e amor", "cantando em forma de oração"..."avante, imperianos: a luz de Deus iluminou a Serrinha"!

E vai continuar iluminando a vida inteira. Com ou sem detratores, há de prevalecer a sua grandeza acima dos grupos...vai lá na quadra para você ver o orgulho lavado de lágrimas do imperiano a cantar: "pode chegar que aqui tem festa todo mês"!

O porquê não se explica. A semana é santa. E o Império...é "do Divino"!

Facebook Hélio Ricardo Rainho
Twitter/Instagram @hrainho

Hélio Rainho é padrinho da ala de passistas do Império. Foto: Leandro Andrade/Divulgação

- Clique aqui e saiba tudo sobre o Carnaval carioca

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?


3 Comentários | Clique aqui para comentar

01/03/2016 08h32

Pra tudo se acabar nos envelopes...
Hélio Ricardo Rainho

Findos os desfiles, todo mundo já sabe: a "justificativa de jurados" vira literatura. Leitura obrigatória para curiosos, entendidos, pesquisadores, jornalistas. A nós, comunicadores e críticos, imediatamente se cobram as análises e opiniões. Abraçamos essa "literatura das justificativas" para entendermos as notas que foram dadas. Vamos a algumas ponderações.

Foto: Reprodução

Antes de mais nada, quero dizer que as justificativas pouco ou nada esclarecem a nenhum de nós. Não quero citar nomes e nem exemplos diretos porque sei que outros textos serão enxertados desses exemplos. Serei mais genérico e abrangente: o carnaval tem muito erro, e não seria eu o ingênuo a acreditar que o erro está só na hora de abrir envelope ou ler justificativa de jurado!

Tem muita coisa que não é entendida. A nota que desqualifica é justificada, mas a nota injusta que acoberta o erro que todo mundo viu "é 10" e não se explica. O samba bom perde décimo e tem justificativa, mas o samba ruim que tira 10 não precisa ser explicado. Naquele 2004 fatídico da Aquarela Brasileira do Império Serrano injustiçada na avenida, as alegorias da escola foram duramente despontuadas frente às outras, mas seu samba único e singular foi igualado aos demais. O critério é burro, afirmo! Às vezes o jurado escreve linhas e mais linhas para apontar um defeito...e só desconta um décimo. Noutras vezes, só vê uma coisinha e tira três décimos. Teve gente reclamando do vermelho e branco do Salgueiro...como se a bandeira e o enredo não justificassem esse uso! As notas de enredo não se atêm ao tema ou ao seu desenvolvimento lógico: avaliam alegorias, fantasias, cores. Alegoria e fantasia não são outro quesito? Algum gênio da lâmpada vai dizer que elas "explicam o enredo". Mas não é nesse quesito que se julgam acabamento ou tamanho delas...será?!

No Grupo Especial, parece pecado tirar mais de dois décimos numa nota. Na Série A, tiram quantos décimos bem entendem. De umas. A outras..."10", "10", "10","10". E já que o 10 não precisa de justificativa...

Sabem por que seguiremos a cada pós-carnaval nessa lenga-lenga de questionar nota e justificativa? Porque esse modelo retrógrado de julgamento favorece a insanidade. É isso! Julgamento de papel e envelope já era! Já disse que estamos no carnaval de Matrix com um sistema de julgamento de Jurassic Park. Até chegarmos a este distante 2016, mudaram tudo na escola de samba. Sacrificaram muitas de nossas ricas tradições. Mas o julgamento é o mesmo de 1935!!! Até escrito a mão essa tralha desse julgamento é! Tudo muito cafona e retrógrado. Quem se beneficia disso?

O jurado talvez não seja o vilão da história. Ele é escolhido, laureado...eleito! É pago pra fazer o que faz. O que o leva a crer que está fazendo bem. Sobretudo quando o patrão não o adverte, não o questiona...e não o demite. Tem jurado aí fazendo a mesma coisa todo ano, de contrato renovado e rindo pra todos nós. A culpa seria mesmo dele? Será que ele ameaça alguém pra estar na função e por isso tem cadeira cativa? Ou será que ele agrada alguém ou a si mesmo - como nas gravações reveladas este ano, onde um deles acabou suspenso por causa da denúncia, mas abriu precedente pra gente perguntar: quantos dos outros poderiam estar no mesmo raciocínio, livres para atuarem equivocadamente, sem serem denunciados?

Considero esse esquema de julgamento, apuração e justificativas falho. Uma baixa literatura, uma matemática equivocada.

E antes que alguém me pergunte: "ô sabichão, e qual seria a melhor forma de julgar, então?"...eu não diria! Primeiro porque não é uma bula de remédio que diagnostica uma doença. Segundo porque ninguém nunca procurou os críticos para saber se podiam ou deveriam ter alterado tantas coisas no carnaval, e mesmo assim alteraram: andamento de samba-enredo, aceleração de bateria, fantasia de destaque em cima de passista, imposição de paradinha em todas as baterias, eliminação da escola que sobe no desfile das campeãs...que mais?!

Independente de ternos ou não termos o novo modelo de julgamento, precisamos admitir que o atual é retrógrado, decadente, falido. As notas de mestre-sala e porta-bandeira, por exemplo, chegam a ser constrangedoras. Nesse quesito eu vou dar exemplo: como pode o casal da Vila Isabel ter arrebatado a avenida e os principais prêmios diante de todo mundo e não ter agradado aos exigentes sábios, que questionaram entrosamento, "sensualidade", um deles advertindo grosseiramente o casal a não dançar individualmente?! Faltou bom senso e até educação. Um outro, julgando o casal da Tijuca, queria que eles dançassem o minueto em vez de quadrilha, na arrogância de querer ensinar ao casal a "origem histórica de sua dança". Totalmente desapropriado o discurso! Dá vergonha ler umas coisas dessas! Eles se orgulham. E têm contrato renovado.

Enfim, eu acredito que é hora de se discutir esse formato de análise de desfiles que hoje vigora na avenida. Caso contrário, a literatura das justificativas só vai comprovar que tem mais Gloria Pires no samba do que na entrega do Oscar.

Tá feio, muito feio. E não combina com a grandeza da festa essa pequeneza de envelope de carta, texto escrito a mão...e justificativa maluca que ninguém mais tem paciência pra engolir!

Chega de envelopes de papel! O de há fumaça, há fogo! É hora de acabar com esse retrocesso!

Facebook: Hélio Ricardo Rainho
Twitter/Instagram @hrainho


3 Comentários | Clique aqui para comentar

24/02/2016 08h28

Alienação cultural e enredos: outra reflexão
Hélio Ricardo Rainho

As massas sempre foram e sempre serão o alvo de manipulação e engodo dos poderosos. Para isso, a política criou o populismo assistencialista e os impérios da comunicação criaram o lixo cultural. Fato óbvio, indiscutível. Qualquer análise com objetos de estudo devidamente depurados vai evidenciar isso.

Acho perfeitamente natural que as massas absorvam (elejam e consumam) o que não presta. Não é por acaso: o lixo político e o lixo cultural foram criados (e só existem) porque foram "geneticamente" programados para esse grupo consumir. Tipo droga: é feita para viciar e aumentar o número de já viciados, esvaziando suas mentes a cada uso. É um produto fabricado sob medida para enganar em massa, seduzir em massa. E é feito com a malícia e o entendimento de saber que tem gente que "adora". Gente que eles subestimam e cativam, estudam e conhecem a fundo para saber como enredar. Uma lógica construída de mentiras validadas por repetição: de tanto você ouvir nas propagandas, acaba acreditando que é bom.

Domingo passado, o Fantástico, da TV Globo, fez uma matéria muito longa sobre um certo "MC" que gravou um vídeo de Xmilhões de curtidas, anunciando isso como um feito de rara grandeza. Um espaço dito nobre da televisão ocupado por uma flatulência (vide dicionário), eu diria. De quebra, a produção do programa imediatamente levou um "sertanejo" para justar-se a ele. O mesmo sertanejo que não consegue trocar três palavras numa canção ou numa entrevista, mas foi sindicalizado à força pela emissora para protagonizar um dos piores programas que ela insiste há anos em manter no ar. Reparem: tudo que a emissora faz sempre precisa ter um sertanejo no meio. Ou um "karakamuleke" qualquer desses da vida.

Foto: Divulgação

Não sabemos como anda a produção intelectual dos grandes compositores, nem revisitam o histórico de nomes da música que apontaram caminhos para este país. Silas de Oliveira comemora seu centenário e não "mereceu" matéria no tal "programa". Por que será que o autor de "Heróis da Liberdade" não merece tamanho espaço na TV que nasceu do conluio com a ditadura???

Entendo que as massas nunca reflitam sobre isso. Isso não aborrece a turma que "só quer se divertir". Já dizia o pensador francês Jean Baudrillard: "as massas querem o espetáculo"! Os poderosos sabem disso e alimentam essa "descontração". Eles apostam seus milhões no espetáculo justamente porque conhecem tudo de quem eles manipulam!

Talvez vocês comecem a entender o porquê das escolas de samba, até então bastiões de resistência cultural de nosso país, serem hoje, em sua maioria, idealizadas por gente que desrespeita as raízes culturais, sociais, processuais e ideológicas das agremiações. Gente que, há dois anos ou três, crucificava os enredos que, para 2017, estão trazendo pra avenida e assinando embaixo. Gente que quer uma crítica de encomenda engarrafada, falando o que eles querem do jeitinho que eles querem. Gente que pensa que crítico é matéria paga; que está ali pra falar o que a assessoria deles divulga, o que eles querem ouvir!

Esses enredos aí que estão assustando todo mundo têm origem em todo esse processo que alguns não enxergam e outros (inclusive intelectuais populistas) defendem dizendo que "é legal". O erro repetido vira verdade. O erro mercadológico dá dinheiro a uns e sugere portas abertas a outros. Todo mundo quer dinheiro e poder. Ninguém é simpático nem popular: isso é outra mentira!

O jogador de futebol alienado e distante da realidade do povo, milionário desde os 19 anos e com formação escolar quase nenhuma, vira parâmetro de qualidade nacional: a "dancinha" que ele fizer num campo europeu vai dizer o que você deve ouvir e até o enredo que você vai escolher para sua escola de samba aqui no Brasil da crise, do mosquito e do arrocho!

Pra quem só tá a fim de curtir um porre na balada, isso é "padrão de vida show"! Pra quem quiser raciocinar minimamente com três neurônios a mais que a maioria, vai ficar muito claro que isso não é espontâneo nem popular...é pura e flagrante manipulação! Não é à toa que vira matéria de 15 minutos em horário "nobre" de televisão.

Como em Matrix, questão de escolher a pílula azul do mundo virtual ou a pílula vermelha do mundo real.

Estamos irremediavelmente entregues à nossa própria sorte. Nosso maior consolo e esperança é que ainda somos nós que escolhemos a pílula. Ainda dá tempo de refletir sobre o lado em que queremos estar...

Facebook Hélio Ricardo Rainho
Twitter/Instagram @hrainho

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


3 Comentários | Clique aqui para comentar

18/02/2016 10h28

Enredos 2017: A armadilha vem aí
Hélio Ricardo Rainho

Ainda nem começaram a anunciar os enredos 2017 e a gente já pressente os equívocos e os caminhos fáceis para um pretenso sucesso. Os erros, além de terem por base a teimosia e o comércio vulgar, encontram apupos em sugestões ocas nas redes sociais. Este ano tivemos algumas "coças" e alguns tropeços nessas escolhas. Mas nem assim as lições parecem ter sido aprendidas.

Há um grande oba-oba para que 2017 tenha enredos exaltando personalidades, muito provavelmente num raciocínio curto de que a Mangueira sagrou-se campeã tão somente por causa da Maria Bethânia. A maioria sugere até nomes de cantoras - viva o "caminho fácil"! - como se fosse a solução dos problemas! Tal qual vinha ocorrendo com os "enredos-entidade", a proposta das escolas deixa de ser o desenvolvimento de um projeto de carnaval e passa a ser um oportunismo, um "carnaval de situação". Querem escolher temas "unânimes", que acreditam serem "infalíveis".

Acomodação e covardia.

Enredos alusivos a personalidade, nos anais do samba, só aconteciam para exaltarem literatos ou personagens históricos.

Foto: Reprodução de InternetA partir dos anos 70, com a irreverência de Fernando Pinto exaltando Carmen Miranda no Império Serrano, enredos sobre artistas passaram a ganhar alguma força, consolidando-se principalmente nos anos 80.

Mas há um fato muito relevante que pouca gente reflete acerca do enredo sobre a Pequena Notável naquele longínquo 1972. Vejam bem: Fernando Pinto não fez uma aposta no populismo nem na apelação midiática. Além de ser uma estrela internacional de verdade, e absolutamente ligada ao samba, Carmen Miranda favoreceu a chamada "estética tropicalista" que Fernando queria desenvolver com esse desfile. Ou seja, o carnavalesco tinha elementos estéticos e artísticos para trabalhar seu enredo. Não era uma carona, nem um bote: era o tema ideal para que o artista pudesse exacerbar sua criatividade e desenhar sua arte autoral. Tanto que, a partir dali, consagrou aquela forma de carnavalizar como sua assinatura.

Hoje, qualquer artista de gravadora vira enredo, pois aposta-se na banalidade populista da televisão e dos programas de auditório para incensar gente pouco ou nada ligada ao samba, às escolas de samba. Ou, ainda que tendo esse vínculo, sendo lembrados apenas por oportunismo e situacionismo. No caso dos artistas e personalidades midiáticas que nada têm a ver com o samba, fica o vazio de propriedade e fundamento, com a grandeza da agremiação subordinada a uma figura que em nada a engrandece, onde a escola acaba virando tela e outdoor pra promover um alienígena. No caso dos que têm a ver com o samba, essa "lembrança pela lembrança" não quer dizer nada mais profundo: parece apenas oportunismo, tentativa de se usar o nome de alguém para alavancar um punhadinho de notas num envelope. Sem estética, sem proposição nenhuma. Depois vêm aquelas sinopses cheias de arremedo e costura pra tentar engrossar o caldo fino de quem não dá samba!

A vitória da Mangueira no carnaval 2016 não teve "só" Bethânia. Tá difícil de entender? Será? A Mangueira 2016 teve um carnavalesco consciente, autor de seu próprio enredo (sim, o enredo era dele!), cuja estética ele já tinha na cabeça, como um planejamento artístico de desfile. Leandro Vieira suou e sofreu muito pra fazer, inclusive, a escola acreditar em sua proposição, pois quebrou alguns tabus e mexeu até com o uso das cores verde e rosa pra definir sua estética de trabalho. Não foi um enredo entubado pela escola nem um golpe populista pra arrebatar jurado. Se a escola não sabe fazer planejamento, se o carnavalesco não tem proposta de carnaval e se o homenageado traz dinheiro mas não traz conteúdo (ou, ainda pior, não traz nem uma coisa nem outra), não adianta nada.

As escolas que erraram, as que deixaram a desejar em 2016, não deveriam se ocupar de sugestões sem fundamento em rede social, nem tampouco de raciocínios baseados no lugar comum e no caminho fácil. Os presidentes de escola não deveriam impor seu régio poder pra negociar cegamente e escolher enredo nenhum: deveriam empoderar seus diretores de carnaval e carnavalescos e deixar a comissão competente trabalhar o que lhes é de direito, sem ditar ou apitar nada. Quem entende de carnaval é a direção de carnaval. Se a direção entende menos que o presidente, então tem que mudar tudo, porque aí está tudo errado mesmo!

Vencer carnaval não tem receita de bolo. Além da imprevisibilidade dos jurados e de alguns critérios muito estranhos que permeiam suas notas, é preciso enfrentar os erros com correção, não com apelação.

Ter uma aposta artística e temática que manifeste e respeite a escola de samba é o mínimo que se espera dos envolvidos. Porque é doloroso e também ridículo a gente ver um canhão cultural como a escola de samba muitas vezes municiada com balinha de festim, carregando em seus andores gente que nada fez pelo samba, só porque a televisão coloca o dia inteiro chapado na telinha como "celebridade"...

Facebook Hélio Ricardo Rainho
Twitter/Instagram @hrainho

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


8 Comentários | Clique aqui para comentar

11/02/2016 13h15

O Carnaval da transcendência
Hélio Ricardo Rainho

Acabou. Passou muito rápido. Teve uma Mangueira campeã, lavada de alma e emoção, para cantar as cores e louvores de uma abelha rainha mãe da MPB. Uma artista genuína que cantou o samba a vida toda; da Bahia para o mundo, enaltecendo nossa arte, nossa terra, nossa gente. Bethânia é de um tempo em que música boa não comprava gravadora pra fazer monopólio nem colonialismo cultural. Um tempo em que as pessoas admiravam letra e sentimento, não só berro, sofrência e frenesi. A consagração de Bethânia na Mangueira foi tamanha que todo mundo sabia que seus carros apagados poderiam lhe tirar o campeonato, como aconteceu com o Salgueiro. Mas os jurados viram mesmo foi a luz da cantora acesa. A vibe dos jurados não estava em "olhar carros"... estava em "Oyá Bethânia"! A transcendência de um verde e rosa campeão. "Não mexe com ela"...com Bethânia, com Mangueira! E Leandro Vieira entrou, em tempo recorde, para o clã dos campeões do carnaval! 

Foto: Henrique Matos

Uma imagem, no entanto, insiste em não sair de minha cabeça. Aquele Poseidon flutuante da abertura do desfile da Portela era uma metáfora do próprio carnaval. Nele havia transcendência, literatura, mitologia, modernidade, história antiga, impacto visual, emoção. O mover das águas indicava o movimento de uma escola gloriosa que fundamentou tantas coisas nos desfiles, apontando caminhos e gerando, sob a batuta do Paulo criador de mundos, todo princípio de ordenação e encadeamento de sambistas que hoje entendemos como "escola de samba". Paulo da Portela não fundou só a Portela: ele fundou " a escola de samba"! Não esses modelos militaristas que berram samba em vez de cantar, mas o modelo funcional e cooperativo, de sentido conjunto, veio "do mundo que Paulo criou". Poseidon era senhor dos mares e também dos terremotos. Foi ele - aquele Poseidon da Portela - quem mais fez estremecer as arquibancadas e quem lavou a alma de Oswaldo Cruz e Madureira, num desfile feliz. Desculpem-nos os que ignoraram a grandeza de Paulo Barros tentando penalizá-lo por seu ar de poucos amigos: ele se reinventa e se reinventou! É gênio! Casou lindamente com a Portela na avenida! Aposentou a (falsa) literatura que insistia no contrário. E que samba maravilhosamente cantado foi esse da Portela 2016! Anote: nos últimos cinco anos, a Portela cravou 200 pontos no quesito. Cinco anos tirando 10 em samba em todos os jurados!

Foto: Henrique Matos

E havia transcendência, também, nos larôs do Salgueiro! A malandragem histórica e histérica de seu enredo espalhou-se pela avenida. A plástica esteve muito aquém do que Renato Lage sempre demonstrou. A proposta de uma escola mais leve funcionou para a evolução, mas não escondeu um certo acanhamento estético na execução das fantasias e alegorias. Ainda assim, aquela maravilha de samba (eu sempre achei o melhor samba de empolgação do ano) fez a festa de quem queria sambar na avenida. Mas os mesmos jurados que fecharam os olhos pros apagões mangueirenses deram a rasteira matemática do ano na Academia do Samba: num só quesito a tombaram de primeira pra quarta colocada. "Gira sorte, gira mundo"...mas nunca esqueceremos o ano lindo do Salgueiro sacudindo o samba com sua malandragem sensacional! A fabulosa ala de passistas do Salgueiro que o diga!

Foto: Henrique Matos

Vejam só: a ressureição das matriarcas! Como nos tempos antigos, as "grandes" disputando com força o carnaval. 

Foto: Henrique Matos

Na Série A, a única escola que cantou o samba e seus valores numa avenida que ignorou o tema deu um banho de emoção, mais uma vez. O Império Serrano, a quarta matriarca, deslanchou verdade e propriedade na avenida: trouxe o poeta, trouxe a Serrinha, trouxe os serranos. Era também favorita. "É um encanto a tua história", Império de Silas! Que escola é essa, seu Severo Luzardo, seu Paulo Santi, Dona Vera, baianas, velha guarda, passistas?! Avassaladora! Lágrimas poéticas em forma de samba! E mais uma vez as notas daquele grupo foram descaradamente acintosas na cara de quem pôde ver. Umas discrepâncias incompreensíveis. A Unidos de Padre Miguel denunciou todas a mazelas da corte safada do Brasil de ontem e hoje. A Viradouro, com seu samba colossal, num desfile rasgado também de emoção. E os maravilhosos bois da Tuiuti, embalados por um samba maravilhoso, foram gloriosos e campeões. Veio também da Tuiuti a ala de passistas mais animadora do ano, uma das melhores coisas que 2016 nos revelou! Alex Coutinho e Jorge Amarelloh são os "leandros vieira" do segmento! Grata revelação!

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

E ainda tivemos uma Vila Isabel gloriosa, arquitetada na plástica exuberante desse grandioso artista que é Alex de Souza, capaz de imagens lindas e enredos mágicos. Me declaro publicamente fã de Alex. "Silenciar, jamais": o puxão de orelha vai para um peso muito grande nas fantasias. A Vila do casal de mestre-sala e porta-bandeira mais arrebatador do ano. Phelipe Lemos e Dandara Ventapane não pareciam de verdade. Pareciam faunos dançantes, entes encantados! Pura transcendência também! Eu ficaria vendo eles dançar a vida inteira sem jamais me cansar. Definitivamente eu quebro o protocolo e afirmo: tem jurado que não sabe julgar! Desculpem o soco direto de esquerda. É muita burrice tirar ponto de um casal que dança assim. Ofendi?! Foi mal: engulam! Eu também engoli as notas mentirosas que tentaram negar o que vi na minha cara! Injustiça feia! Parabéns, Vila Isabel dos passistas mais felizes que vi no grupo Especial! Mestre Edson Cunha e Claudia Choocolatte arrasando!

Foto: Henrique Matos

Beija-Flor de Selminha e Claudinho trabalhada no ouro, desenvolveu belamente seu enredo, mas não foi entendida. Cassio Dias, monumento de Nilópolis fechando um desfile, é consagrador. Mas não se põe uma lanterna debaixo da mesa: eu ostentaria com orgulho um artista desses num belo lugar de destaque da minha escola.

Sertanejos e jogadores de futebol não deram tom. A pedra que este colunista cantou. O belo samba de Zé Catimba não fez o mesmo efeito na avenida, porque o esforço do nobre poeta não pareceu suficiente pra fazer sambista cantar um tema tão distante. Digno desfile, mas sem a empatia que a popularidade dos sertanejos julgava ser possível alcançar. O "enredo pet" da Caprichosos, desastroso desde a sinopse, serviu pra mostrar que Petkovic não tem moral pra abrir enredo contando pra ninguém quem foi Tia Ciata coisa nenhuma! E que ele também não tem dinheiro pra sustentar enredo self-promotion. Deu tudo errado e a escola foi parar no limbo da Intendentes. Fiquei arrasado, confesso. Por que as pessoas das escolas de samba defendem o erro com tanta convicção? Grande Rio, pra mim, estava linda e foi a que melhor resolveu o laço que armou pra si mesma. Extraordinariamente talentoso, Fábio Ricardo fez das tripas um bom desfile, apesar da "con+fusão" de ideias do papel. Manteve-se uma boa linha de desenvolvimento, e aquela comissão de frente do Pelezinho passista nunca mais me sairá da cabeça. Uma possante bateria que ressuscitou o que seria o pior samba do Especial: agora eu gosto e até canto (confissão do colunista). "Santos conquistou meu coração"! Juro!

Foto: Henrique Matos

Papo extenso, muita coisa pra contar. Pra encerrar, uma dor que eu tenho no peito: que há com você, "Mocidade querida", de Padre Miguel e de todos nós? O que falta pra você dar certo outra vez? Será que é se livrar de tanta mídia e dar o estrelato ao povo da zona oeste? Será que é trabalhar com mais silêncio e menos oba-oba? Será que é parar de explanar publicamente seus problemas e lavar a roupa suja em casa? Que carinho inexplicável eu tenho por essa escola...juro! "Ainda é tempo, não há de faltar bravura"...

Foto: Henrique Matos

Volto ao Poseidon. À Águia que atravessa o mar, ao gigante Gulliver que se ergueu na avenida. E àquela alegoria futurista com a Velha Guarda numa águia versão jato-concorde-avião metaforicamente afirmando que, na escola de samba, é a tradição quem aponta o caminho do futuro.

Entenda: isso é pura transcendência!

Facebook: Hélio Ricardo Rainho
Twitter/Instagram @hrainho


3 Comentários | Clique aqui para comentar

04/02/2016 08h13

O Carnaval 'pensado'
Hélio Ricardo Rainho

Estamos a poucas horas do carnaval e talvez não queiramos "pensar" a escola de samba. 

Sim, talvez não queiramos "pensar" - assim, entre aspas mesmo - porque estejamos mais acostumados ao fluxo corrente de ano após ano, sem nos darmos o trabalho de questionar se tudo isso que estamos fazendo é ou não é escola de samba de verdade.

E talvez não queiramos porque, nesta nossa lógica cruel de empreendedorismo e produtividade, a escola de samba tenha se tornado uma fábrica, uma esfera de produção em larga escala, uma ode à era da reprodutibilidade técnica.

Não queremos "pensar" a escola de samba, porque estamos muito preocupados com a mídia que nos divulga e nos valoriza; com as notas encarceradas dos jurados sentenciadores; com a verba pública que calou a nossa boca na hora de berrar verdades contra elementos escusos da politiquice nacional; com as quadras tomadas pelos sambas de "condomínio empresarial S.A." - "super-anátemas" da liberdade poética de outrora, "escondendo gente bamba...que covardia!". Criaram um modelo frankensteiniano de remendos e colagens, e querem apregoá-lo aos críticos com a mesma persuasão com que já o introjetaram no próprio sambista.

Estamos arregimentados com as "críticas construtivas", banindo qualquer forma de reflexão sobre as inverdades do samba, com medo que que nosso olhar mais apurado possa parecer "pessimismo", "má vontade", "má intenção". Os "gigantes" do sistema coagem e coíbem toda crítica: eles vêm a público pra dizer que têm o melhor samba, o melhor enredo, o melhor carnavalesco, a melhor bateria...cada um boiando em sua poça rasa de jactância, achando que está submerso no oceano da sabedoria.

Foto: SRZD e Reprodução

E mais e mais pajens reverenciando os mesmos falsos deuses em busca de algum Olimpo que os acolha...batendo palminha, se curvando, reverenciando...enviando currículo! Fazer o jogo é a única esperança de se ganhar o jogo.

O grande espetáculo no qual se desenharam os desfiles passou a ser entendido como uma engenharia fria e maquínica, de relações frias e impessoais. As quadras trancafiadas, seus ensaios exaustivos e desgastantes obrigando gente bamba a berrar o samba outrora cantado; a lógica dos diretores de harmonia que se multiplicam como barreiras humanas na avenida ou dos que vibram entre si a esmo, enquanto as alas nada cantam ou apenas marcham, são coisas que saltam aos nossos olhos. Um...dois...três...mil intérpretes: a escola de samba não tem mais uma voz própria, é a voz de várias vozes, e a gente não mais identifica quem fala ou quem está falando.

Carnavalescos vaidosos lançarão sobre os passistas suas fantasias de caxangá, aberrações ultrapesadas que impedem o samba no pé de maneira burra e notória, porém convicta e irresoluta! Passam os anos e os carnavalescos desaprendem cada vez mais sobre o traje que facilita a graciosidade do passista! Teimosia ou retaliação?!

Teremos, sim, a mesma magia e o mesmo encanto que ainda nos será sempre possível, graças às mentes criativas de nossos carnavalescos, à poesia sem fim de nossas baianas girando, ao samba no pé gracioso e verdadeiro de nossos passistas, à pulsação extasiante de nossos ritmistas, ao bailado mágico e reverente do casal diante do pavilhão.

E, ao terminarmos o nosso desfile, sairemos enfileirados naquele mar de grades opressoras que mais parecem corredores de concentração nazista: o sambista é protagonista do "maior espetáculo da Terra", dá audiência na televisão e dinheiro no bolso de muitas pessoas, mas se retira da avenida quase vomitado, escorraçado! Da Apoteose pra trás, quem nunca desfilou não sabe: as saídas e caminhos da avenida parecem um deslanche de navio negreiro desovando escravos espremidos entre gente, paredes, concreto e ferro, com gritos e destrato, e nenhuma segurança, a quem acabou de desfilar. O desfile de escolas de samba é o único espetáculo do mundo onde o artista principal tem um camarim que o esmaga!

Mas vamos que vamos...que é tempo de jogar confete e serpentina, e é proibido refletir, analisar, falar diferente, temer o julgamento de envelopes de papel (volto a dizer: mudaram tudo na escola de samba, mas ainda a julgam como em 1935!!!).

Bonitos, bem-vistos e benquistos são aqueles que nada críticam; "os bons" alimentam a alienação, batem palminha e aprovam tudo. E ainda dizem: "Não tá satisfeito?! Sai da cobertura de carnaval!" Esses terão espaço em todas as mídias, em todas as empresas de comunicação...uau! Serão "queridinhos" de todos, e vão justificar qualquer enredo "com tanto que o samba seja bom"!

Dentre os críticos de escolas de samba, esses serão sempre "os reis"!

Desculpem...prefiro continuar só "Rainho"! Só eu mesmo: um confete perdido nesse chão que todo mundo pisa sem olhar, sem dó nem pena, chamado "chão de escola de samba".

Bem...um bom carnaval pra todo mundo que ainda ama Silas, Candeia, Clementina, Noel, Cartola e Ismael!

Facebook Helio Ricardo Rainho
Twitter/Instagram @hrainho

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 


3 Comentários | Clique aqui para comentar