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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Carioca, publicitário, MBA em Marketing, ator, diretor teatral, escritor, pesquisador de escolas de samba, futebol e teatro. Twitter: @hrainho

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



18/09/2014 13h53

Dança, mestre-sala!
Hélio Ricardo Rainho

É curioso como o olhar da imprensa, de modo geral, para a festa das escolas de samba, é um olhar distorcido, eivado de desconhecimento. Ainda é assim. Muito se fala da espetacularização dos desfiles, da mudança de paradigmas na construção do espetáculo. Mas parece que a nossa imprensa, com sua cobertura jornalística, ainda não acompanhou o crescimento e a nova dinâmica da festa. Continua presa a parâmetros próprios, desfocados, sem entender com propriedade o evento que cobre.

Por que começar um parágrafo de uma coluna com tom assim, tão ácido? Porque, de fato, alguns dos personagens dessa festa continuam relegados a segundo ou terceiro plano, supostamente por requererem algum tipo de estudo ou informação prévia para serem abordados ou referidos nas matérias que são escritas. E é preciso que esse olhar crítico saia de dentro da própria imprensa - é o que faço, pois, aqui - para que surta minimamente um efeito de mea culpa, provocando a discussão e a reflexão desse fato.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira tem uma dança própria, específica, característica, original. Ambos são os responsáveis pela condução do pavilhão real da escola. É com eles que ficam a graça e a primazia de apresentar a bandeira, símbolo máximo do grêmio recreativo, representação simbólica dos valores e das cores que uma escola de samba ostenta em seu panteão. Esses dançarinos vieram integrar as escolas de samba a exemplo do entrudo português, onde um casal de negros escravos normalmente satirizava a corte da Casa Grande exibindo roupas de gala e trejeitos dançantes, apresentando o luxo dos nobres como forma de protesto, o que acabou originando a formação da dupla dentro da lógica dos desfiles.

Curiosamente pouco se fala e pouco valor se atribui à dança do mestre-sala. Tive a oportunidade, aqui mesmo neste veículo, de publicar uma série de quatro matérias intitulada "Ases da Dança do Samba", onde apresentei perfis pessoais de quatro desses grandes dançarinos: Julinho Nascimento (o Ás de Ouros), Diogo Jesus (Ás de Paus), Phelipe Lemos (Ás de Copas) e Fabrício Pirez (Ás de Espadas). Descobri com esses quatro geniais dançarinos -e tenho descoberto, a cada dia, com tantos outros não menos fantásticos e relevantes - um punhado de histórias riquíssimas, coisas extremamente significativas não apenas por ilustrarem belíssimas histórias pessoais, mas também por contribuem para a divulgação da dança do samba na mídia.

Onde ficam essas histórias? Ninguém delas fala, nem as publica.

A exemplo do que acontece com os passistas, a dança do samba parece estagnada a um público que tão somente tem acesso ao que vê nos desfiles, sem conteúdo de pesquisa ou explanação de sua relevância histórica ou artística. Há poucos interessados em escrever, divulgar, entrevistar esses personagens maravilhosos que compõem o elenco da passarela em dia de desfile. Quando muito, lembram-se dos mestres-sala como coadjuvantes das porta-bandeiras; que são dignas, sim, de reconhecimento e respeito, mas historicamente ficaram em patamar superior de divulgação e midiatização em detrimento dos cavalheiros do samba que são os mestres-sala. A figura da mulher é explorada, como sempre, muito mais por sua beleza do que propriamente pela característica de sua dança: a mulata passista e a porta-bandeira ganham muito mais destaque, parecendo evoluírem sozinhas, sem seus pares masculinos que efetivamente as completam.

Um erro crasso, repetido na lógica ilógica das coberturas jornalísticas.

Foi Maçu da Mangueira quem entrou para a história como o primeiro mestre-sala do carnaval carioca e quem efetivou a dança do casal nos desfiles com a configuração que hoje conhecemos. Um mestre-sala distingue-se pela elegância, pela postura cavalheiresca, pelo duplo cortejo que oferece, em sua dança, à porta-bandeira e ao pavilhão da escola. É ele quem conduz todo o ritual de apresentação da bandeira, pois efetivamente é o mestre-sala quem conduz seu par feminino e é ele, também, quem apela ao público para que reverencie e identifique a presença da escola no lugar. É também o mestre-sala quem oferece o pavilhão para ser cumprimentado (beijado) pelas autoridades ou homenageados presentes, sendo sua função criar todos os elos de ligação entre o simbólico (o pavilhão) e o real (as pessoas, a audiência) durante a lógica do desfile.

A dança do mestre-sala é um gingado específico, rigorosamente técnico, de apuro clássico, alternando eixos circulares e linhas retas, cuja maior característica é apresentar o chamado riscado (sequência de bailados rápidos e movimentos sequenciados dos pés e pernas) sem efetivamente "sambar no pé". O mestre-sala pode ser despontuado se casualmente sambar como um passista.

É importante dizer que muitos mestres-sala começaram como passistas. Podemos citar, hoje, alguns dos mais extraordinários, como Julinho Nascimento (Unidos da Tijuca), Claudinho (Beija-Flor), Diogo Jesus (Mocidade Independente), Thiaguinho Mendonça (Renascer), Jackson Senhorinho (Vila Isabel), Paulo Roberto (Caprichosos). O mais recente exemplo de "conversão" é de Emanuel Lima, um grande passista do Salgueiro que estreará em 2015 como mestre-sala da Acadêmicos da Rocinha. A elegância, o porte majestoso, a classe e o modo bonito de se vestir são elementos comuns entre o passista e o mestre-sala. Que, dentro do universo da escola de samba, são os dois elementos que tipificam a dança masculina do samba na avenida.

O grande bamba desse regimento é o professor Manoel Dionísio, mestre reverenciado por todos os dançarinos por seu trabalho digníssimo formando casais em todo o país. Uma autoridade que merecia capas de jornais e revistas país afora e que aparece vez por outra na imprensa sem o devido valor e importância dentro do processo cultural brasileiro.

São tantos - e quantos podemos citar - nesse ritual de bravura e beleza, com sua dança rica e emocionante: salve salve...além dos já citados... Raphael Rodrigues (Mangueira), Alex Marcelino (Portela), Sidcley (Salgueiro), Peixinho (Império da Tijuca), Feliciano Junior (Império Serrano), Marlon Flôres (Viradouro), Vinícius Antunes (Unidos de Padre Miguel), Jeferson Souza (União do Parque Curicica), Daniel Werneck (Grande Rio), Paulo Roberto (Caprichosos de Pilares), Zé Roberto (Porto da Pedra), Vinícius (Tuiuti), Marcinho (Estácio de Sá), Diego Falcão(Cubango), Marcinho (União da Ilha). São apenas alguns, dentre tantos outros louváveis e admiráveis portadores da gloriosa dança do samba na ponta dos pés!

Um grito de "bravo? em favor dos nossos gloriosos mestres-sala!!!

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17/08/2014 12h28

Gabriel Castro, o reizinho de Madureira, chegou!
Hélio Ricardo Rainho

Idade de discípulo, ofício de mestre. "Sou Império/ Sou patente". Quem caminha nos bastidores do Império Serrano conhece bem o seu jovem diretor de passistas. O comando tático é por sinais: todos entendem sua liderança serena e discreta. Ele tem o respeito e a reverência de gente jovem e mais velha que ele; das meninas-cabrochas que enfeitam sua ala e até dos "cabeça branca". Na quadra da escola da Serrinha, caminha ante o reconhecimento dos veteranos. Sua ala de passistas é hoje top de linha: está entre as três melhores do samba carioca.

Gabriel Castro. Foto: Acervo pessoal

Gabriel estuda (é historiador), trabalha (é bancário) e não vive exclusivamente do samba.
Apesar disso, não abre mão de expressar sua versatilidade atuando em outras frentes, como, por exemplo, a de produtor cultural. É produtor da banda PercusSamba e faz shows como passista praticamente todos os fins de semana. A intensidade com que pratica todas essas coisas parece lhe proporcionar a excelência naquilo que faz: um atleta que treina em tempo integral. Quanto mais faz, mais se aperfeiçoa.

Um semblante aparentemente sério imediatamente revela uma peculiaridade: a simpatia. Gentil, paciente e educado, vive assediado por jornalistas, fotógrafos e amigos. Espécime raro dentre os malandros do samba, Gabriel faz o gênero bom moço: tem sempre uma namorada o acompanhando nas rodas de samba (a atual é a bela Bárbara Moura) e encarna tão bem o gênero "genro-que-toda-sogra-quer" que a atual acompanha ele e a filha nos eventos. Alguma coisa parece luzir no fundo dele, algo que transcende sua vida de luta e superação, galgando intensamente uma longa caminhada desde os tempos de menino.

"Um filho do verde esperança / Não foge à luta...vem lutar!". Parece que é sempre assim. Um samba do Império pode explicar tudo sobre ele.

"Tento divulgar ao máximo que a dança tradicional do samba persiste e está a cada dia mais forte. O samba e todo tipo de cultura popular merece ter melhor espaço e tento de uma forma branda e natural mostrar isso pela minha ótica nada convencional" - revela o menino-prodígio, que desde cedo desfilou em ala mirim da Paraíso do Tuiuti, passando por Mangueira, até iniciar cedo seu trabalho como coordenador de passistas em escolas como Império da Tijuca, Unidos de Padre Miguel, Arranco do Engenho de Dentro e, finalmente, seu amado Império Serrano.

"Hoje, por mais que eu tentasse, seria muito difícil distanciar o nome 'Gabriel Castro' da agremiação Império Serrano. Isto, pra mim, é e será sempre uma honra!" - afirma, consternado. "É muito amor / Essa paixão é carnaval"...

Gabriel Castro. Foto: Acervo pessoalGabriel Renan Gonçalves de Castro tem sobrenome de literatos e pedigree no samba. De uma família de músicos, era afilhado do bamba João Nogueira, mas descobriu na dança do corpo a manifestação de seu dom artístico. Após um período em que a tradicional escola chegou a desfilar por três anos sem passistas, Gabriel foi chamado pelo então presidente Atila para assumir e reestruturar uma ala dentro da escola. Um dos apelos foi o da paixão. Sua paixão confessa pela bandeira verde e branco da gloriosa escola de Madureira. "O Império é muito grande e ter essa marca imponente ajudando as pessoas a me conhecerem é uma grande sorte" - confessa, emocionado. Rapidamente Gabriel usou seu prestígio junto aos passistas para arregimentar um contingente. Montou um grupo, desenvolveu um trabalho. Notório que se diga: gerou uma ala de passistas absolutamente condizente com a identidade e a pegada do Império Serrano, respeitando suas tradições e características, diferenciando-se das demais.

"O Império tem passistas que sambam o samba de Madureira. Observei isso: Portela e Império Serrano têm um samba parecido. Valci Pelé é uma grande inspiração. Nosso samba tem autenticidade, mas todos nós, em Madureira, sambamos o mesmo samba malandreado. Foi isso que eu fiz acontecer na ala" - revelou. É dele, também, uma frase icônica que sintetiza essa ideologia: "Em Madureira, inovar é ser tradicional".

"O meu Império é raiz, herança".
É assim que ele vê seu samba de passista.

"Ser diferente é normal", dizia outro samba imperiano. Recentemente, o inquieto Gabriel (aquele que "não gosta do convencional") observou algo relevante. Usar as redes sociais poderia ser um lugar comum para membros da Geração Y como ele. Mas seu foco particular em explorar o potencial de comunicação do mundo digital adquiriu cores estratégicas para seus trabalhos.

Gabriel Castro. Foto: Acervo pessoal"No Facebook, tenho por volta de 3.400 amigos/seguidores. No Instagram, por volta de 900 seguidores até o presente momento, mas todos os dias esses números crescem. Isso sem contar com as três páginas que administro e um outro Instagram que também fica sob minha responsabilidade". Gabriel refere-se às páginas Passistas do Império Serrano (1.600 seguidores), PercusSamba (900 seguidores) e Vitor Art (2.000 seguidores). "Vitor é cantor e o novo mestre de bateria da Mangueira. Nos tratamos como irmãos e, pelo bom desempenho nas outras páginas que criei, ele pediu pra cuidar da dele" - explica. "Fiz estágio dando aulas sobre redes sociais e inicialização de pessoas da 3º idade à internet, já possuía conhecimento inicial sobre o assunto".

E cita a frase de outra grande sambista para definir sua vibe cotidiana: "Sou historiador, trabalhador, produtor cultural, produtor de eventos...como diz uma amiga Laíza Bastos #milfacesumcaráter" - brinca.

"Avante, imperiano! / A luz de Deus iluminou a Serrinha". É o anjo passista Gabriel do samba...do Império...de Tuiuti...de Madureira! Ele é Império...é patente!

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11/08/2014 09h37

Baryshnikov e os passistas de Portela: Noite de Consagração!
Hélio Ricardo Rainho

Para alguns, apenas um fato jornalístico. Ou um evento midiático. Mais do que isso. Para nós, pesquisadores e mantenedores da cultura de dança do samba expressa pela arte singular de nossos passistas, foi um marco. Que merece registro; o registro que aqui faço, a fim de que se obtenha posteridade nas referências sobre a dança do chamado "samba no pé"

Na noite da última sexta-feira, dia 8 de agosto, a quadra da Portela recebeu a visita ilustre de Mikhail Baryshnikov. O ator, dançarino e coreógrafo russo é considerado, ao lado de Niijinski e Nureyev, um dos maiores bailarinos de todos os tempos. De passagem pelo Brasil para a apresentação da peça The Old Woman, ao lado de Willem Daffoe, Baryshnikov foi visitar a quadra da Majestade do Samba. E protagonizou uma cena interessante.

- Mikhail Baryshnikov visita quadra da Portela e diz que quer voltar para ver desfiles

Foto: JRicardo

Do alto do camarote presidencial da escola de Oswaldo Cruz e Madureira, Baryshnikov encantou-se, em especial, com a apresentação da ala de passistas. Muito provavelmente por ser a arte uma linguagem que, embora diversa, possua encanto e apelo universal. Sendo ele um artista da dança, a dança dos passistas o comoveu e sensibilizou.

A primeira observação que faço acerca da reação do antológico bailarino russo na quadra da escola é quanto à atitude de filmar e fotografar a evolução dos passistas portelenses. Sob o comando dos extraordinários Valci Pelé e Nilce Fran, reconhecidamente nossos "barishnikovs do samba", a fabulosa ala de passistas da Portela apresentou-se com um contingente até reduzido, mas muito bem representado, tendo Flávio Ferreira, Renan Brito, Gabriel Santos, Thamires Luiz, Wallace Safra, Bruna Ferrer, Amanda Oliveira, Tais de Fatima, dentre outros. Durante sua passagem, o bailarino russo mostrou-se encantado e repetiu o feito histórico dos anais da Portela, quando a corte de Walt Disney visitou a quadra em 1941 e registrou tudo em imagens, criando logo depois o personagem Zé Carioca, malandro inspirado no Príncipe Paulo e nos malandros portelenses. Mais uma vez a corte portelense vira objeto de estudo e registro para um importante olhar estrangeiro.

Foto: Acervo Portela

A segunda observação diz respeito à reverência com que Baryshnikov portou-se diante da apresentação. Sem "ousar" interagir ou fazer os trejeitos caricaturais típicos de "turista no samba", respeitou com reverência e sobriedade a passagem dos passistas, numa postura contemplativa de quem está admirando e também estudando a técnica, o improviso, o talento individual e a graça natural de uma dança que possui características únicas e é voltada para o espetáculo, exercendo sua dupla função de "resposta do corpo à batucada" e desempenho artístico-coreográfico. A performance dos malandros cortejando as cabrochas - envolvendo não só a dança, mas também as interações teatrais dos componentes - parecia fascinar o visitante, atento a todos os movimentos e atuações individuais dentro do desempenho coletivo.

O terceiro momento foi quando o bailarino recebeu, no camarote, os passistas para performance mais próxima, demonstrando sua cortesia e também a elegância natural da Portela (e, por extensão, da Escola de Samba, em caráter genérico) em agraciar seus convidados com a magia de seu samba e de suas cores, bem como a arte genuína de seus dançarinos.

Foto: JRicardo

Foi um grande momento, de relevante afirmação do segmento "passistas". É bom que se registre a importância desse feito para a retomada, pelo passista de escola de samba, de sua verdade histórica, de seu papel fundamental dentro do desfile. Muitas vezes considerado um personagem secundário ou terciário na dinâmica dos desfiles, ano a ano esse segmento vem galgando posições, conquistando espaço na midia, reafirmando sua relevância dentro do espetáculo.

Durante muito tempo tratada de forma equivocada como um "mero tapa-buraco de recuo de bateria", hoje a ala de passistas das escolas de samba faz isso aí que se viu na quadra da Portela: encantar uma audiência técnica e qualificada não apenas como dança "folclórica" ou "exótica", não pela superexposição da sensualidade feminina, mas sobretudo pela dança singular, pela técnica, pelo ritmo, pela consciência corporal. Elementos que Baryshnikov precisou registrar e apreciar detalhadamente, como objeto de estudo e significação. Porque a ala de passistas da Portela mostrou, naquela noite, que o samba carioca tem tudo isso, além da magia peculiar da escola. E justamente por serem Valci Pelé e Nilce Fran dois engajados e politizados defensores do movimento em prol dos passistas, enfatizando o uso da técnica na composição de seu grupo, é justo que se registre a simplicidade com que, nessa última sexta-feira, o samba seduziu o balé, Madureira encantou Moscou, a latinidade deslumbrou a Europa!

Foto: JRicardo

Levanta a cabeça, PASSISTA DE ESCOLA DE SAMBA! Sua arte, seu lugar, sua verdade estão aí! A luta pela obrigatoriedade do segmento nos desfiles, o reconhecimento da individualidade criativa de cada ala e a afirmação dessa arte dentro da lógica espetacular dos desfiles têm sido reiterados para expressar quão fundamental é, para a escola de samba, ter alguém que dance de maneira tão expressiva e singular o próprio samba que conduz as escolas na avenida!

Não que precisemos de reconhecimento externo para isso, mas que seja esse registro um exemplo claro, um manifesto de que a arte do passista de escola de samba merece respeito e seu lugar devido dentro do maior espetáculo da Terra que ainda é o nosso carnaval!

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13/07/2014 13h41

Alerta: evasão de passistas!
Hélio Ricardo Rainho

Preservar e valorizar o contexto representativo da figura do passista dentro dos desfiles de escola de samba é um grande desafio. Muito embora sejam unânimes os elogios e o reconhecimento da arte do passista no fenômeno "escola de samba" e mesmo ao espetáculo da avenida, aumentam as dificuldades dos artistas da dança do samba.

Hoje os passistas de escola de samba enfrentam o dilema da comercialização do samba, uma via de mão dupla que tanto trouxe grandeza quanto exclusão socio-cultural nas agremiações. Se hoje a "escola de morro" virou espetáculo internacional para inglês ver, por outro lado o bom crioulo e a linda mulata sambistas estão cada vez mais arroxados para essa lógica de subsistência.

Passistas de escolas de samba. Foto: Montagem SRZD

Explico: a grandiosidade exigida pela escola de samba não vem acompanhando seu investimento na ala de passistas!  Esperam-se grandes apresentações, um padrão "show" para cada apresentação. Os figurinos encarecem; os sapatos dos meninos e das meninas que sambam têm pouca durabilidade pelo desgaste natural da dança e precisam de alto investimento em materiais caros e resistentes ou, pelo menos, substituição frequente. As roupas variam de show para show. O detalhe: dificilmente as escolas bancam essa estrutura. Salvo raríssimas exceções, são os próprios passistas que financiam isso. Muitos deles assalariados, jovens que estudam e trabalham, ou pessoas sem recursos próprios para financiar esse vestuário de vaudeville operístico. Resta-lhes tirar dos próprios recursos dos shows o retorno para investir em tais apresentações. Mas a lógica de escala e convite para esses shows também é dúbia: uns fazem muitos shows, outros fazem nenhum. A escala dificilmente é compreendida, porque há critérios peculiares e controversos na escolha.

Em suma, o que acontece? Temos muitos passistas que estão fora dos desfiles por falta de recursos. Muitos deles são os mais genuínos, os que tiveram infância e o chamado "DNA samba". Em seu lugar, entram os "pedigrees": passistas formados nas academias, bem empregados, com recursos financeiros para "maquiar" a falta de ginga e, indiretamente, "alugarem" suas vagas nas alas.

Alguém precisa dizer e escrever isso para que haja uma profunda reflexão dentro do segmento.

Para efeito de estudo, dentro de meu projeto "Quem És Tu, Passista?", cuja grande colaboração até aqui tem sido fomentar discussões específicas sobre o assunto, fiz uma observação relevante. Apresentei, em um artigo denominado "Construção por Arquétipos nos Passistas Masculinos de Escola de Samba", uma leitura específica da identidade do passista, a ser feita em três diferentes dimensões. A exemplo de uma composição clássica de personagem na técnica teatral, o passista também compõe um personagem para tornar-se sujeito atuante. A leitura da representação dos passistas de escola de samba em três dimensões nos ajuda a entender as esferas de atuação e a diversidade simbólica que eles possuem dentro do grande espetáculo. As três dimensões, a saber:

1. Personagem da escola (caracterização que identifique a escola de samba à qual o passista pertence);
2. Personagem-Indivíduo (caracterização pessoal, única, cotidiana do passista);
3. Personagem do enredo (caracterização temática transitória, intrínseca ao enredo proposto para determinado desfile).

Enquanto "personagem da escola", o passista é uma construção que reúne referências fundamentais da agremiação à qual está vinculado. Fundamentalmente usa as cores do pavilhão, samba conforme a característica de ginga e riscado dos seus antecedentes dentro do panteão daquela escola e segue a linha diretiva de figurinos e, por vezes, "coreografias" que constituem o "padrão" de apresentação daquela escola, submetendo-se a uma direção/coordenação, afinal de contas deverá representar a escola, e não a si mesmo.

Enquanto "personagem-indivíduo", o passista é menos personagem e mais pessoa. Essa leitura aponta para a individualidade, o lado mais "sujeito" do passista, destacado do contexto da escola à qual está ligado. Chamamos atenção para sua forma subjetiva de frequentar o "mundo do samba" ou, sob ótica mais contemporânea, apresentar-se nas redes sociais. O "personagem-indivíduo" faz menos menção à escola do que a si mesmo. Normalmente as cores da escola aparecem como forma de ilustrar o sujeito que ele é, acenando à nossa lembrança onde o vimos anteriormente, sendo que, naquele momento, ele representa a si mesmo, não a escola. Se o "personagem da escola" representa a agremiação, o "personagem-indivíduo" é por ela apresentado.

Por último, o "personagem de enredo" é uma construção temporária, essencialmente teatral, que atende unicamente à necessidade do desfile. O passista pertence a uma ala e deve representar alguma coisa dentro do enredo que a escola apresenta.  Ou seja: é aquilo que sua fantasia vai ilustrar e que ele deverá "interpretar" durante sua passagem na avenida.

A partir de tal leitura tridimensional, pode-se perceber minimamente que duas de suas esferas de atuação dependerão de recursos: a 1ª (quando precisa estar na quadra, fazendo parte das atividades e apresentações dentro da escola) e a 3ª (quando estará na avenida desfilando efetivamente pela escola).

Se hoje a escola de samba caminha para uma via difícil de sobrevivência, no clima hostil de "capitalismo canibal", precisando "virar empresa" e muitas vezes sacrificando suas tradições, a arte dos passistas é algo que merece muito zelo. Corre-se o risco de perdermos esses personagens fundamentais sem sequer se saber. Tenho por certo que essa situação de passistas com dificuldades de se sustentar para sambar está passando desapercebida. Eu não saberia disso se não tivesse um projeto que me condiciona a ouvir e conviver com muitos deles.

Uma dura realidade que está invisível e precisa, urgentemente, ser repensada. Craques saindo de cena, abandonando a ribalta. Não sou favorável a "assalariar" passistas, sinceramente, porque os vejo como componentes da escola, idealistas, não como profissionais. Passista sem alma e paixão é dançarino de gafieira! Na escola, que se dediquem com amor, deixando o cachê para os shows externos. Mas penso que estruturar as alas e dar cobertura aos talentos das comunidades, às escolinhas e, finalmente, prover ou apoiar a feitura de seus figurinos é fundamental para que não se perca os verdadeiros arautos da dança do nosso samba.

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29/06/2014 16h01

Bayano Sapucaí: guerreiro gentil vai deixar saudade
Hélio Ricardo Rainho

Triste. Muito triste. Não é bom amanhecer um domingo com a dor de uma perda latejando no coração. A dor da perda é como uma escola desconexa que atravessa a avenida às avessas. Sem enredo, sem fantasia, sem samba, sem batucada. A dor da perda é um surdo de marcação furado e sem ritmo.

Foto: Acervo pessoalPerde-se um pouco de Bahia no carnaval carioca. Não tinha como não lamentar a morte prematura e surpreendente de uma das pessoas a quem aprendi a considerar e a respeitar dentro do samba. Ousado, irreverente, firme nas opiniões. Muitas vezes desconcertante e exagerado. Intenso no que fazia, no que acreditava, na forma como sambava e vivia.

Perdemos, neste triste dia 28 de junho, o passista da Vila Isabel Bayano Sapucaí.

Não era fácil gostar do Bayano. Mais difícil, ainda, desgostar dele. Polêmico, sem papas na língua, evidenciava suas opiniões de forma muito direta. Tive, a princípio, uma relação indireta e pouco expressiva de amizade com ele, o conhecendo por ser uma figura destacada e já com muitos anos de desfile na avenida. Em dado momento, Bayano procurou-me manifestando admiração por meu projeto "Quem És Tu, Passista" e desferindo algumas críticas severas a muitas coisas que aconteciam dentro do segmento. Por conhecê-lo tão pouco e achar as palavras tão incisivas, julguei-o ofensivo, provocador, deselegante. Pretensioso até. Guardei uma postura indiferente e me mantive distante. Pensei que pudesse ser um agente complicador.
Pois é. A vida surpreende.

Julguei-o mal e precipitadamente. Perfeito não era, como nenhum de nós pode ser. Mas o passar do tempo foi revelando uma pessoa carinhosa, afetiva, dedicada a seu trabalho. Um guerreiro sutil que escolheu sair de sua terra natal para começar uma vida sozinho, com muita luta, preservando seus sonhos e ideais. Esse espírito de luta o fazia repudiar tudo aquilo que ele julgasse contrário à visão de ética e respeito aos outros - o que ele chamava de "pernadas", ou seja, atitudes que, segundo seu juízo, significavam atropelar pessoas em benefício próprio. O meio competitivo e vaidoso do samba lhe trazia essas grandes indignações. Em uma de nossas muitas conversas, assim me revelou o combustível dessas suas constantes indignações:

Foto: Acervo pessoal"Você não sabe o que é ser sambista e ver pessoas ruins tentarem derrubar quem tem talento!"

Compartilhou inúmeros brados de revolta comigo, e passei a melhor compreender os porquês de suas reações. Muitas vezes conversamos e tive a oportunidade de amenizar alguns de seus rompantes. Ele sabia ser feroz, mas também era gentil. Muito! Um guerreiro gentil, apaixonado pelo pequeno Davi, seu filho de 5 anos, a quem ele não esquecia de devotar reiterado carinho o tempo todo.

Sambando, era devotado e sério. Embora acreditando que aquilo não fosse uma profissão, mas tão somente uma paixão ou puramente folia, dedicava-se e tripudiava de quem disputava espaço ou notoriedade no samba.

"A maldade, a inveja e o estrelismo estão acabando com nosso carnaval" - disse-me, certa vez. Ficou registrado. Aprendi muito com ele sobre dobrar a inocência dos sorrisos e interpretar fatos e atitudes por detrás de sorrisos. "As pessoas passam a perna em você rindo pra sua cara! Só o futuro vai te ensinar a descobrir as pessoas"!

Este ano, na cobertura do carnaval, estava na avenida e escolhi um ponto favorável para fazer algumas fotos. Bayano, com uma credencial que o permitia circular em pontos diversos da Sapucaí, me procurou. "Você está bem aí? Essa credencial de imprensa te permite circular onde você quer? Você é um jornalista sério, que luta pelo samba e pelos passistas...eu vou providenciar um colete ou algo mais pra você".

Foto: Hélio Ricardo Rainho

Não precisava daquilo. Mas pude sentir o zelo, a sinceridade, o jeito de cuidar de amigos e de pessoas de quem a gente gosta de verdade. Fez isso durante todos os dias de cobertura dos desfiles. Ele queria tão somente demonstrar que tinha feito uma amizade.Comentei com algumas pessoas o quanto aquilo me surpreendeu e ajudou a reiterar a nova imagem que passei a ter dele.

Ah, meu amigo Bayano...se soubéssemos o momento certo em que todas as palavras se calam, talvez as disséssemos todas de uma vez, para jamais perdermos a oportunidade. Isto que aqui me resta é apenas uma crônica, e as crônicas não têm o poder de mudar o destino, nem o curso de nossas vidas. Não... as crônicas são apenas um pano mágico que se abre, como palco, para desenhar palavras com artesanato em prol de alguma mensagem.

Meu bom Bayano amigo...a mensagem que eu deixaria a você é de que entendi sua luta, entendi sua pujança! Viveu a vida intensamente, com alegria e clareza. Deixou-nos com saudade num giro de passista, num entrelaçar mágico de pernas que sambam, num riscar de chão que se eleva aos céus e esvai-se no ar...longe de nossos ombros amigos...longe de nossos olhares de admiração.

Vá em paz, passista valente, herói de batalhas...guerreiro gentil!

Que Deus possa conduzi-lo a um destino eterno de descanso e paz! E nos fortaleça - tão tristes que estamos - porque sabemos que a perda faz parte da vida, tanto quanto sabemos que estrelas como você não se perdem...apenas mudam de lugar para luzirem em um novo cantinho do céu!

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08/06/2014 12h17

O samba atravessado da Fifa
Hélio Ricardo Rainho

Era só o que nos faltava! Porque, agora, não nos falta mais. A FIFA, uma das entidades mais repudiadas e autoritárias do falso hall dos comerciantes travestidos de empreendedores culturais, conseguiu o inimaginável: comprou (de quem?!?!) direitos temporários do termo "pagode". Com isso, parece ter impedido a execução de nosso gênero representativo na orla de Copacabana, onde estarão os turistas, durante toda a passagem da nada bendita Copa do Mundo 2014.

Pergunto eu: qual é o interesse real de tamanha tirania? É bem verdade que, muito provavelmente, seríamos representados por uns subgêneros de samba de quinta qualidade que andam por aí, infestando gravadoras e trilhas sonoras de novela, com coisas esdrúxulas que eles insistem em chamar de "pagode" ou "samba", sendo, na verdade, música sertaneja com pandeiragem eletrônica.

Entendamos direitinho: o Brasil será o primeiro país do mundo a sediar uma Copa sem poder tocar sua música nativa! Calaram o samba na mesma orla de Copacabana vendida pro mundo inteiro como retrato da "cidade maravilhosa" (como se Acari, Coelho Neto, Belfort Roxo, Jacaré, Manguinhos e outros locais parecidos em desassistência não fizessem parte dessa paisagem também). Assim, de pernas abertas e rabo preso no salto do sapato do estrangeiro, lá vamos nós como pseudo-nação e pseudo-país, assinando nossa subserviência cultural e nossa mediocridade, calando nossos tambores e tamborins, nossos negros sambistas e escolas de samba. A seleção que implora para que os blackblocks fiquem de chuteirinha verde e amarela quer comemorar seu hexa cantando tango, bolero, rock'n roll, funk, jazz e tcha-tcha-tcha...qualquer coisa, menos samba!

Mais uma vez calaram a batucada brasileira! "Guardai os vossos pandeiros, guardai! Porque a escola de samba não sai!". O samba, elevado a patrimônio imaterial do Brasil, parece não corresponder ao "padrão FIFA" de um país sem hospitais, sem delegacias, sem escolas e agora cheio de estádios bilionários em praças onde nem time de futebol com torcida tem!

A informação é de que isso reza em contrato, com o governo brasileiro. Interesses escusos! E, mais uma vez, o samba incomoda. E querem escravizar a arte negra e popular de nosso país em troca de outras vertentes artísticas, desprezando o nosso cancioneiro popular.

Como sempre, nossas escolas de samba, nossa Liga, ninguém se indignará. Hoje em dia, e eu tenho falado e escrito (sozinho!!!) muito sobre isso, perdemos nossa postura política e social como escola de samba. Vão-se ao longe os brados retumbantes de indignação de Império Serrano (exilado num grupo de acesso como num cala-boca), Caprichosos e São Clemente (que agora são "escolas grandes"): ninguém mais faz o que elas fizeram. Nem elas! Hoje a lógica das escolas de samba é fazer fila de pires na mão pra ficarem amiguinhas do poder e conseguirem um patrociniozinho ordinário. Elas não têm culpa: são obrigadas a trocar suas cores, suas tradições, sua vontade de gritar verdades da alma do povo, porque são estranguladas por um sistema que, lá no envelope tirano dos jurados, irá castigar severamente quem não aceitar a doutrina. Se Clara Nunes fosse viva, provavelmente teria de gravar sertanejo com batuque eletrônico, ou ficaria sem gravadora. "Canto das Três Raças"?! Nem pensar, Clara Guerreira: se fosse viva, teria de cantar o que eles agora chamam de "MPB"! Essa tá "liberada" pela dona FIFA, porque, como eles nos sugerem, a música popular brasileira não tem nada a ver com samba! É isso o que todos entendemos...

Se o samba é patenteado por entidade suíça, se a patente do pagode está subjugada e jogada em Genebra, é porque as escolas de samba pararam no tempo e no espaço e deixaram de reivindicar o direito e a importância da nossa arte de vencer barreiras e se impor com qualidade, deixando em segundo plano o "espetáculo" do desfile que a televisão vende. A mesma televisão que está caladinha, e que jamais criticará a opressão ao samba, porque também fatura muito alto sozinha pra ficar comprando briga de preto, pobre, favelado e sambista!

Mas até os sambistas estão correndo atrás do seu dindin...muito ocupados com seus nomes e vaidades para pensarem nisso. Muitos estão se lixando pro desacato que foi essa medida em termos culturais! Estão preocupados é com o "profissionalismo", a "lucratina", a jogatina do lucro! De certa forma, é um castigo merecido! Os sambistas anti-Candeia, de consciência cauterizada antônima à do mestre, correram tanto atrás de dinheiro e da valorização do vil metal...e olha aí: a Dona FIFA e a Dona CBF têm muito dinheiro, elas mandam no país! Cuspiram no prato de vocês e tomaram a comida toda! E, assim, o samba e o pagode de Copa do Mundo voltam pro morro, pra favela, saem do asfalto...é música "suja" pra festa branca dos comitês internacionais!!!

Ok, Dona Fifa! Ok, Dona CBF! Fiquem com suas copas da vergonha e trilhas sonoras alienígenas, que eu não me emociono nem me arrepio com nada disso! De minha parte, sigo indiferente com os apelos ufanos e nacionalistas de mais uma Copa do Mundo.

Sendo aqui, na França ou no Bangladesh, não sou pátria de chuteira...manifesto minha profunda indignação contra toda essa cambada cujo único intento ideológico é segregar, mais uma vez, o nosso samba a um lugar secundário ou terciário.

E nós temos mais é que admitir:  por não sermos pátria coisa nenhuma, abanamos o rabinho, abaixamos as orelhas e acatamos o despautério passivamente. E, é claro, como vira-latas...fazemos festa!

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02/06/2014 13h45

Passistas na Curva!
Hélio Ricardo Rainho

Temos visto, em nossas reflexões e entrevistas do projeto "Quem És Tu, Passista?", dedicado à preservação dos artífices da dança do samba nas quadras e na avenida, algumas questões problemáticas. Indagados sobre temas por eles mesmos fomentados - tais como "identidade" (samba "de passista" ou "samba de malandro") e "valor do passista" (ser ou não ser "valorizado" pela escola) - reflexões apareceram e merecem ser depuradas.

No tocante à IDENTIDADE, muito se ouve falar do chamado "samba de malandro", uma provável fusão cultural entre a releitura da Lapa boêmia com seus malandros ancestrais (figurativamente sempre presentes nas escolas de samba) e a essencial dança de passista celebrizada por Tijolo da Portela, considerado pelos registros históricos o "criador" dessa dança, nos anos 50. Curiosamente, a despeito de um discurso de afirmação atual de que a dança do passista masculino é originariamente "um samba malandreado", o que vemos nas pesquisas sobre o próprio Tijolo acerca dessa manifestação soa bastante diferente:

"(...)sapato de couro, salto carrapeta e meias brancas, cano longo até quase os joelhos. Calça azul, camisa branca de man­gas compridas e colete azul. Passava pela avenida levantando aplausos do público. Ti­jolo, Tijolo, Tijolo!, gritavam à sua passa­gem (...) Para chegar àquele conjunto de coreo­grafias, Tijolo confessa terem sido diversas as suas fontes de inspiração. A maioria delas, contudo, assimiladas no cinema"
[ Fonte: A Dança do Samba - Exercício do Prazer, José Carlos Rêgo ]

Foto: Reprodução de Internet

Como se vê, o figurino daquele que é tido como "passista original" passava longe da caracterização do malandro que aprendemos a admirar atualmente. Somente na segunda metade dos anos 70, com a proeminência dos malandros milongueiros sambando como passistas na ala "Sente o Drama" do Império Serrano, que coincide com a criação do musical "Ópera do Malandro" de Chico Buarque, aparecem as referências ao personagem "malandro" nos figurinos dos passistas. Que, também a partir desse momento, deixaram de se apresentar espalhados na escola e passaram a constituir "alas". O passista vestido de malandro, portanto, não remete à origem desse personagem, mas a um fenômeno ocorrido nos anos 70, que ganhou vulto e integrou, de certa forma, as performances de dança de salão às alas de passistas de escola de samba.

Também é relevante o registro da influência do cinema no repertório coreográfico de Tijolo. Saber que a dança do passista originou-se de elementos coreográficos diversos, inclusive do cinema, via de regra também refuta as constantes associações entre a ginga do passista e a evocação espiritual de entidades que, nem mesmo dentro de seu panteão, jamais se manifestaram "sambando no pé". Recorrente equívoco e temerosa associação que descaracteriza a arte do passista. Entendemos, por respeito e reverência a essa arte, que seus artífices nunca sambaram e nunca sambarão porque estão "encostados" ou "manifestados": passista samba porque é artista, porque cria e reproduz passos de samba. Não obstante a religiosidade inerente ao sambista, essa associação só nos convenceria se um médium sem nenhum vínculo com o samba conseguisse sambar graciosamente como passista quando incorporado de alguma entidade. Como sei que isso jamais será possível, fico no aguardo de que alguém, se for o caso, incorpore, então, não um "malandro", mas o próprio Tijolo, que morreu há algumas décadas e poderia "reaparecer" desfilando lindamente na avenida.
Será que algum "cavalo" se habilitaria?!

No que tange ao VALOR do passista, considero um tanto quanto temerosos os rumos da "corrida do ouro" para a profissionalização desse segmento. Muito provavelmente em busca de holofotes e fama, a grande maioria dos passistas parece muito mais preocupada com "shows", "eventos" e "valor individual" do que com a escola de samba, que é sua real fonte de pertencimento. Quando se usa o termo "valor", são raras as vezes em que vemos um passista considerar um valor intrínseco o simples fato de vestir a camisa de sua escola. Para eles, ter "valor" é receber cachê, ter lanchinho ou ser convidado para os shows da escola. Parece que o vínculo de pertencimento ao pavilhão da agremiação é fator secundário, ou mesmo irrelevante.

Entenda-se que o passista só existe em dois lugares: no frevo (de onde o nome originariamente foi retirado) e na escola de samba. O passista só é passista "de" e "para" a escola de samba! Deveria, portanto, desenvolver uma carreira motivado para as coisas da escola, para valorizar e prestigiar a escola, não o contrário. Afirmar-se como profissional e como artista da dança do samba é uma prerrogativa que deve acontecer em consonância com a escola de samba: construir uma história ligada a uma bandeira, a uma escola, e não reivindicando espaço e destaque para si mesmo. O que temos observado no projeto "Quem És Tu, Passista?" é um elo de pertencimento maior com os diretores/coordenadores do que com as escolas: "Se meu coordenador sair daqui, eu saio". A justificativa é de que o passista sente-se mais "valorizado" pela coordenação do que pela escola. O que também nos revela um considerável descaso na gestão das escolas de samba, que parece terceirizar os cuidados dos passistas ao encargo de seus coordenadores, tornando o segmento vulnerável e dissociado de sua razão de ser, que é pertencer e identificar uma escola de samba.

As escolas/academias de dança são importantes para aprimorar a dança, mas a afirmação técnica do genuíno passista - e sua consequente profissionalização - devem advir de uma alma de passista cujas fontes são a paixão e o orgulho de ser ESCOLA DE SAMBA. Essa lição, pelo visto, vem sendo pouco difundida e incentivada. Omissão das escolas de samba em assumirem e preservarem seus passistas, é preciso ressaltar.

O passista de escola de samba deve pensar primeiro em valorizar a escola, para depois ser valorizado por ela. Foi assim com todos os bambas e mitos do passado. Primeiro eles construíram um legado dentro das escolas de samba, depois tiveram seu reconhecimento. É lá na escola de samba que ele aprende e desenvolve sua habilidade. Fora dali, será dançarino, performer, qualquer outra coisa. As esquinas não são o território dos passistas, senão as quadras e a avenida dos desfiles!

Precisamos que os passistas de escola de samba olhem para si mesmos e se identifiquem como elementos que representam o samba territorial de uma agremiação, embaixadores da ginga e do estilo de sambar de uma escola. Passistas que, independente de sua vocação religiosa, sambem por si sós, provem que estão sambando porque são artistas genuínos, donos de seu corpo e de sua mente, conscientes de sua técnica durante a execução de seus passos; autores de seus movimentos, sem associá-los a rituais místicos que depreciam sua criação artística, descentralizam sua figura do processo criativo de sua própria dança, estando inteiramente dissociados do ofício.

Que nossos gloriosos passistas de escola de samba sobrevivam à ameaça da "modernização", e não se descaracterizem de sua representação do corpo simbólico da escola de samba, cedendo aos apelos do ego e do dinheiro que tantos malefícios já nos causaram e vêm causando a essa manifestação popular.

É preciso ter cuidado pra não derrapar na curva...

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19/05/2014 12h23

Militância pela verdade do samba
Hélio Ricardo Rainho

Estive na Portela e conversei com dois de seus poetas. Poetas e amigos Toninho Nascimento e Luiz Carlos Máximo. Na oportunidade, a azul e branco abria suas portas para um projeto de rara relevância, o Concurso de Sambas de Quadra, para o qual o também amigo e diretor cultural da escola, Luiz Carlos Magalhães, convidou-me a integrar o júri. Antes de iniciar a programação, estávamos numa conversa agradável sobre as tradições do samba, sobre a consciência histórica que a escola de samba deve ter na avenida. Foi o preâmbulo para esta minha presente reflexão.

Hoje assisti ao documentário de Vagner Fernandes sobre vida e obra de Clara Nunes. Ouvi falar, ali, da integração da cantora com o mestre Candeia, de sua busca por valores essenciais da Velha Guarda da Portela para aprender fundamentos do samba.

Foto: Reprodução de InternetDevo dizer, juntando a conversa com os poetas e os depoimentos que ouvi nesse documentário, que o samba está em rota de imenso sucesso comercial e decrescente responsabilidade histórica de seu próprio discurso. Explico: as reflexões de poetas como Máximo e Nascimento (e tantos outros, é claro), os propósitos do engajamento de figuras como Candeia (Quilombo), João Nogueira e Clara Nunes (Clube do Samba) parecem não representar mais nada para uma geração inteira de "sambistas" que, hoje, veem mais sentido em gravadoras e disputas milionárias nas quadras do que em iniciativas como, por exemplo, essa da Portela, de reeditar sambas de quadra, gerando compositores.

Padecemos de um sucesso desnaturado de grupelhos ou artistas simulacros, que não representam o samba verdadeiramente, mas se vendem como "sambistas", "pagodeiros"... que serão, afinal? Chegam à mídia e ganham o espaço que outrora já fora de Clara, Martinho, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho, Nogueira...hoje, de quem são?

Devo dizer sumariamente que todos os citados tiveram o aprendizado, o convívio, a essência do samba entranhada em seu pertencimento a uma escola de samba. E, hoje, como fica essa responsabilidade social, cultural e artística da escola de samba de preservar essencialmente a essência do samba?

Esta não será, certamente, a coluna mais acessada ou lida do site. O tema não interessa, a verdade do samba não interessa. As escolas de samba, neste momento, estão procurando "recursos para fazer seu carnaval 2015". Entenda-se que, nesse caso a palavra "recurso" é sinônimo de "dinheiro". Houve um tempo em que "recurso de escola de samba" era o naipe de sua história, era o talento de seu compositor, era a pertinência discursiva de seu enredo, era a autenticidade de sua história, era sua identidade. Agora não! Agora, o único recurso possível é o dinheiro, a arrecadação, o retorno.

Não sei quanto a Portela "lucrou" financeiramente abrindo suas portas para um trabalho de extraordinária excelência como esse concurso de sambas de quadra, que deu-nos ainda a honra de abrir a noite com o "Samba do Presidente", tendo Serginho Procópio num samba de mesa que reviveu obras primas da Portela e dos poetas do samba. Nãos e pensa, nesse momento, em retorno financeiro, senão em resgatar as raízes, a essência! Um concurso onde aspirantes podem exercitar seu talento antes de integrarem uma ala de escola de samba indevidamente.

O mestre Toninho Nascimento explica tudo: "Se uma ala de compositores de escola de samba está aberta a quem quiser participar, então, ao final das contas, a escola não tem uma ala, porque não tem seus próprios compositores, sua própria linha poética".
Ninguém se importa com isso!

Reparem que toda minha indignação nas matérias que escrevi sobre anticarnaval e equívocos dos jurados não se preocupava tão somente com o resultado ou com a estética, mas sobretudo com a ignorância conceitual dos julgadores - justo deles, tidos ali como autoridades no juízo - acerca dos valores primevos daquilo que constitui uma escola de samba.

Foto: Reprodução de Internet

Falta-nos autocrítica! Falta-nos senso! Falta-nos reprocesso, menos ganância, retomada de ideais!

Não adianta que ninguém jamais conseguirá me fazer olhar o Império Serrano como escola do Acesso, porque não é: eu enxergo um legado, uma força, um anima que transcende! E por que isso ocorre? Por seu legado, por sua força, por sua verve histórica. Portela, com seu jejum de títulos, nunca deixará de ser celeiro; a Mocidade está se reerguendo para o espetáculo, mas nunca foi caída e jamais será; o Estácio tem em si as ruelas, ladeiras e becos de onde nasceu o samba; a Vila não quer abafar ninguém, e nem sua falta de fantasias em 2014 poderá tirá-la do reduto boêmio que sempre foi.

Perdemos isso. A sociedade pós-moderna competitiva e da lógica de desempenho desprezou a antropologia do samba! Estamos em busca de enredos que deem dinheiro e, paralelo a isso, estamos fechando as portas das quadras porque "ensaios dão prejuízo"; estamos acabando com os poetas de reduto - os "pratas da casa" - porque o que dá dinheiro e nota 10 na avenida é o "compositor de condomínio".

Se a gente não se converter desses pecados todos a partir desta fase de reconstrução do carnaval para 2015, nada de diferente acontecerá.

Enfim, este assunto não interessa a quase ninguém. Que sirva, portanto, esta coluna, apenas para aqueles que ainda querem enxergar e vivenciar a escola de samba como elemento vivo, crítico, inerente à realidade sociocultural brasileira, sem a alienação mercadológica da gravadora, da televisão e de alguns batuqueiros equivocados que menos divulgam e mais depreciam o nome do próprio samba.

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24/04/2014 14h52

Passista Matheus Beckford: sambista da nossa esperança!

O Morro do Alemão tem uma estrela.

Não é traficante, não mora em palácio, não anda armado.

Venceu a barreira cultural por causa do samba.

Era um distante 10 de setembro de 1987. Veio ao mundo o menino Matheus Teixeira, nascido no ambiente tenso e hostil do Complexo do Alemão, favela localizada no subúrbio de Ramos, zona norte do Rio de Janeiro. O menino virou um artista que a escola de samba Imperatriz Leopoldinense se encarregaria de revelar ao mundo como um dos mais talentosos passistas do carnaval carioca. Privilégio!

Matheus virou artista, rebatizado num novo destino. Virou Matheus Beckford, sobrenome do modelo americano Tyson Beckford, exemplo de jovem negro que superou as barreiras do preconceito e alcançou um lugar especial.

A elegância, a cadência do samba, a ginga de sua dança e o modo cortês como se porta diante de uma cabrocha na roda de bambas desenhou, para ele, a magia de um personagem. O malandro sambista Matheus Beckford tem o respeito de bambas do ofício como Celynho Show, passista extraordinaire de ofício da Lapa, da Mangueira e das rodas de milonga e samba da cidade que já foi maravilhosa.

Matheus veste terno de linho, põe chapéu de panamá, gravata alinhada, sapato branco, lenço no bolso. Vai pra quadra, pro samba, pra avenida, desdilar seu repertório sensacional de muito samba no pé, bailados e riscados. Esbanja elegância. É um dândi que prima pelo capricho.

Matheus é malandro apenas na composição. No cotidiano, é trabalhador. Sua profissão é modelar roupas, trabalhar com tecelagem. Ele sabe dar vida a um desenho de peça de vestuário. Ele sabe dar alma e elegância a uma roupa de malandro. Quando funde as duas vertentes, empresta virtude ao pano, encorpa a moldagem do figurino, reveste a indumentária, transcende, faz o show.

Talvez o negro menino Matheus seja mais um a nascer sob olhos tortos, de um horizonte perigoso, de uma cidade madrasta que lança seus prodigiosos filhos às margens do destino de seus mapas urbanos. Matheus sobreviveu ao mal destino dos meninos do Brasil: é esclarecido, é trabalhador, é consciente, tem a visão do que é e do que representa a escola de samba.

Graças a Deus o talentoso Matheus Beckford está aí, vibrante e encantador, entre nós. Deus o guarde entre nós! Mas é impossível não partir dessa bela historia de superação de um menino nascido em meio à turbulenta violência carioca para lamentar a perda estúpida e grotesca de outro de nossos dançarinos de favela, o jovem DG, vítima atroz dsa violência desta cidade no fim de semana nada santa do Rio de Janeiro.

Em 2012 foi o "Rei do Passinho", o menino Gualter Damasceno, a vítima. Espancado até a morte após sair da Favela do Mandela de um baile, na Avenida Brasil, "confundido com um ladrão", agredido e asfixiado até o óbito.

As escolas de samba estão cheias de jovens dançarinos e lindas meninas passistas. Infelizmente, num feriado trágico como esse, só nos resta lembrar a poesia para alcançar a resignação. Uma desastrosa operação policial de um governo desastroso de um país que é um desastre, mesmo estando a um mês de um evento internacional, redundando na morte de um jovem trabalhador como o dançarino DG, que fora visitar amigos e sua filha...quando não temos traficantes sanguinários temos tropas assassinas hostilizando os morros...que "pacificação" é essa, que enredo é esse?!

Não há enredo. As escolas de samba estão caladas, silenciosas, aquietadas. Não teremos nenhum protesto, nenhuma escola criticando o mar de mortes e destruição que assolou a Baía de Guanabara neste já sangrento 2014.

Porque o samba das escolas de samba está amordaçado, alienado, dividido entre enredos de empresários, prefeituras ricas e celebridades fora do samba...não pode falar mal de desgovernos, de corruptos, de doenças sociais...o jurado tiraria pontos! Teremos, para 2015, novos enredos místicos e comerciais...nenhum de cunho social ou crítica política. O samba anda amordaçado. E o que é pior: por vontade própria! Sua boca ninguém cala: ele mesmo está com a mão no bolso, apertando maços de dinheiro, calando-se por omissão.

O samba não é mais do povo, do morro, do crioulo, da nega, do pobre, dos meninos da Mangueira, do Salgueiro, do Macaco, da Serrinha...sim, podem morrer todos e muitos mais, que ninguém se comove, nem protesta, nem abre a boca na avenida.

Então, que esse sambista-garoto de rara classe, de uma arte exemplar e magistral que sobreviveu às agruras do mundo cruel verde e amarelo, possa nos brindar, sob a proteção de Deus, com sua graça, seu samba no pé de excelência e afirmação.

Dança, Matheus Beckford, dança! Que a tua dança, arte dos morros e genuína das escolas de samba, fale mais alto e mais bonito do que as vozes espúrias dos que oprimem a nossa nação! Dança, samba, risca o chão com o solado mágico de teu sapato...faz, por todos os que se calam, valer a verdade do samba, que sempre venceu o açoite, a tortura, a discriminação, o preconceito, a morte e a própria sorte!

Dança, Matheus Beckford! Por todos os desvalidos, desprovidos...e que tua arte singular de passista de escola de samba represente o clamor da arte em favor da justiça, da liberdade, do direito à vida...de tudo aquilo que nos foi negado por este país...em especial aos nossos "reis do passinho", "DGs" e tantos outros anônimos que, lamentavelmente, foram abortados da nossa sociedade...tão precocemente...que dor!

Dança pelas lágrimas sem cura das mães enlutadas, dos que perderam o sonho e a esperança e já não podem, como tu podes e sempre poderás, encantar e alegrar as multidões, com uma arte que se origina da vida, da dança salutar do corpo, da apoteose do malandro passista no maior espetáculo da terra!

Salve, salve Matheus Beckford!

Nosso menino de ouro, nossa metáfora do protesto verdadeiro contra a violência que fez atravessar o samba desta triste cidade...seja a tua arte a nossa bandeira, a nossa verdade...sê tu o sambista da nossa esperança!

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11/04/2014 00h01

Portela: 91 anos deste azul!
Hélio Ricardo Rainho

Hélio Rainho. Foto: Arquivo Pessoal

Você sabe o que é ter um coração azul, apaixonado, servil, devotado a uma causa? Você sabe o que é sentir o peito arfar de paixão, a alma se elevar de contento, o braço arrepiar de encanto e a lágrima te descer o rosto por tamanha comoção?

Nisto tudo somos 91 vezes Portela!

Uma chama que não se apaga, um arrastão de emoção que congrega baluartes, passistas, Velha Guarda, mestre-sala, porta-bandeira, ritmistas, baianas, destaques, diretoria, componentes fiéis e um séquito de torcedores devotados a viver e morrer por um pavilhão!

Nós, que somos GUERREIROS DA ÁGUIA, não podemos definir, em vãs palavras, o sentimento que nos inflama quando, irmanados, agregamos nossas forças para representar essa escola! Veste-se o nosso interior de um azul infinito que as tramas de texto não conseguem compor...é um azul que vivifica nossa certeza de ser a Portela a nossa escola, a nossa virtude, a nossa primazia!

Num tempo em que muitos valores estão invertidos, encontram-se aos pares aqueles que pretendem, na escola de samba, serem "valorizados" ou "reconhecidos".

Não penso que deva ser assim.

Como "guerreiro da Águia", embevecido, escolhi eu mesmo valorizar essa escola, reconhecer essa escola, fazê-la mais reconhecida.

Porque nem eu, nem você - portelense inveterado - jamais teremos em nenhum de nossos pares alguém capaz de devolver o amor soberano, distinto, imorredouro que a Portela despertou em nós. Por esta verdade lógica, recuso-me pois a delegar a outrem a obrigação de me valorizar ou reconhecer na mesma medida em que eu amo e reconheço essa escola...a minha escola...o meu azul...a minha paixão!

Vimo-nos radiantes e extasiados no desfile 2014, engrandecidos e grandiosos, exaltando as raízes e glórias do samba com nossa Velha Guarda 18 quilates causando comoção por representar a verdade histórica da avenida.

Temos por essa escola um amor tão genuíno que só nos resta dizer: leva contigo, PORTELA, uma lágrima comovida de cada um de teus portelenses...no riscado de teus passistas, no bailar de teu pavilhão, no giro contínuo de tuas formosas baianas e no canto devotado e vigoroso de cada componente que te faz ser grandiosa, potente...simplesmente MAJESTADE!

Teus tambores não se calam, tua força ninguém contem!
Força do povo, emanada da natureza.
Céu azul de branca pureza.
Cultura, arte, resistência.

"É voz que não se cala, é canto de alegria no ar"...

Parabéns, PORTELA! 91 anos de ESCOLA DE SAMBA!
(coluna transcrita do site Guerreiros da Águia - www.guerrreirosdaaguia.com.br)

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31/03/2014 13h48

Por uma alforria das escolas de samba!
Hélio Ricardo Rainho

Semanas após o carnaval, o enredo é o silêncio.
Pronto. Acabou.
Os erros, os descasos, as injustiças, as justificativas veementemente acéfalas passaram.
E o que fazemos de tudo isso?
Calamos, silenciamos?!
Não. Ah...não mesmo!!!

Não estudei Comunicação Social para tão somente dominar a técnica, manusear a ferramenta, executar os recursos. Meu interesse foi pela Comunicação como ciência social. Ou seja, antes mesmo de aprender a utilizá-la, minha alma me impulsionou a questioná-la, "filosofá-la", pensar sobre a ética em seu uso.

Aqui me intitulam "blogueiro", e confesso que ainda acho esse termo pejorativo. Parece que ser "blogueiro" é sair por aí irresponsavelmente escrevendo o que se quer onde se pode. Mas entendo que o uso desse termo em um site profissional e dedicado como este seja justamente para reforçá-lo como profissional sério, consciente, e distingui-lo de ser apenas "alcunha", a ser usada por qualquer um. Uma professora de Antropologia ensinou-me que os comunicadores sociais seriam os "feiticeiros eletrônicos do século XXI". Juntei a isso a frase-símbolo do personagem Homem-Aranha: "grandes poderes, grandes responsabilidades". Penso assim: não adianta exercer sem servir.

Ora, se não quero ser "qualquer um", não posso me dar ao silêncio e me igualar aos agentes de comunicação monopolistas e seus mancomunados que absorvem o carnaval como festa sazonal e, dentro dela, atiram a escola de samba, subjugada a produto de uma festa, como uma laranja podre dentro de um saco.

Não é!

Foto: Reprodução de Internet

A escola de samba "acontece" o ano todo; ela "apenas" desfila no carnaval. Me desculpem, senhores vendedores de laranja podre! Não queiram nos igualar a seus seus restos de xepa! A escola de samba é alma, é resistência, é quilombo cultural, é ancestralidade. Temos muito mais a dizer do que um enredo fala! A escola de samba "já viu você chorar na hora do seu desfile encerrar"; a escola de samba "é patente, só demente que não vê"..."atrás da escola de samba só não vai quem já morreu"! Insensíveis, dementes e mortos são vocês! Nós, a escola de samba, estamos vivos!

A forma burra, interesseira e usurpadora com que a grande mídia trata a escola de samba tenta nos convencer de que estamos assistindo a uma coisa pequena e oportuna, sem referência nem "representamen", como um objeto de consumo. É o que Guy Debord chamava de "Sociedade do Espetáculo". E é por isso que, dentro dessa lógica, a mídia se cala e consente a insuficiência mental e ética dos nossos jurados: porque ambos - mídia e jurados - são, por consenso, distantes e alheios daquilo que exibem e julgam. Estrangeiros de sua própria festa, acreditam que bundas e carroças de cachorro-quente são figuras mais imponentes do que a águia, a coroa, a estrela, o pavão.

Para eles, o dono do carnaval é o piloto, não o crioulo! Eles querem Michael Jackson, não Nélson Sargento! Assim como, um dia, tentaram envelopar o samba africano, crioulo e favelado num modelito americanizado, jazzístico, zona sul, "pra inglês (branco) ver", substituindo o grito de Zumbi pelo "canto baixinho" de joões&gilbertos sem graça nenhuma, sem respeito por público nenhum, endeusados até hoje por intelectuais burgueses e baba-ovos da vez que cultuam grosserias e destratos.

Reparem como reinventam nossos sambistas aprisionando suas formas em seus conteúdos: o sambista que comenta os desfiles é o animador de auditório do "Esquenta", nunca o compositor célebre de sambas-enredos dignificadores do ofício. Porque a grande mídia faz a escola de samba estar na TV dos brancos e abastados da mesma forma que a favela, os crioulos e pobres estão no cinema e na novela das oito: com a concessão de só ocuparem o espaço se puderem ser retratados como seres primitivos, inferiores, exóticos, extra-sociais. Ou somente após serem redefinidos e redesenhados segundo seu diapasão.

Certa vez contemplei, num desses camarotes de avenida que me dão náusea, disputados a tapa por alguns colegas de ofício, uma cena desoladora. Um passista negro sambando numa nuvem de brancos abastados, sendo abordado como quem solta um bicho de uma jaula e diverte-se ao vê-lo sacolejar em meio aos nobres. Uns queriam tocar-lhe como quem se acha no direito (tipo "paguei por isso"); outros evitavam o contato físico porque admiravam o "profano" sem almejar "corromper-se" tocando.

Pois assim vejo, genericamente falando, a postura de submeter nossos artistas de escola de samba ao crivo desses jurados: é uma reinvenção de nosso antigo ritual de expor os negros escravos à revelia do gosto peculiar dos senhores de engenho, que lhes davam "nota" por uma boa arcada dentária, "premiando" apenas aquilo que lhes serve ou interessa, sem respeitar a individualidade e o valor intrínseco daquele que está se exibindo.

Com o passar dos anos, o negro afirmou seus direitos, reiterou suas lutas. Mas ainda não se conscientizou de que, na escola de samba, está escravo e cativo ao senhorio dos "emissores de nota", numa postura subserviente, sendo obrigado a cortejar e cativar uma bancada de nativos estranhos ao seu meio, na situação degradante de implorar uma nota que não vem. Porque os donos do engenho castigam quem eles querem, engrandecem quem lhes convém, e tripudiam da justiça e da sociedade com justificativas que debocham da racionalidade de todo mundo, gargalhando como hienas em seu abusivo exercício de poder.

Não é de se admirar a sua repulsa "à batucada que se espalha nesse chão"!

Lembrei-me do ritual de lavagem do Sambódromo. Embora não sendo agnóstico, me oponho ao misticismo exagerado que privilegia o ritual em detrimento do rito. A avenida não precisa de descarrego com litros de cachaça, nem de lavagem da passarela com terreiros antes dos desfiles.

A verdadeira lavagem de que se precisa é o descarrego da subserviência, das estruturas de burrice, do monopolismo, do desrespeito e da ignorância desses falsos senhores de engenho que chibatam a nossa cultura e a reduzem a números fracionados e notas burras escondidas num papel, cuspidas na nossa cara ano após ano numa quarta-feira de cinzas...

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20/03/2014 16h05

Descortinando Paulo Barros
Hélio Ricardo Rainho

O ano era 2004. A Unidos da Tijuca lançava-se na avenida com um samba discretamente cantado, um enredo quase desapercebido. Para muitos, o Pavão Azul do Morro do Borel rumava para um provável rebaixamento, até. Desconfiança aumentada sobretudo pela visão de um de seus carros no barracão: uma imensa estrutura de ferro com andares e plataformas, sem qualquer acabamento alegórico visível. Ao desfilar seu singular enredo "O Sonho da Criação e a Criação do Sonho: A Arte da Ciência No Tempo do Impossível", o carnavalesco surpreendeu a audiência com um desfile impecável, fundindo história, ciência, ficção científica, desvario onírico, referências lúdicas...e um extraordinário carro de componentes tingidos de azul representando os filetes de DNA, inserido de imediato na antologia das escolas de samba. A escola surpreendeu a todos e cravou um digníssimo 2° lugar.

Veio 2005 e Paulo Barros já era o carnavalesco mais esperado na avenida. Em um ano, virou coqueluche, esteta, revolucionário, sensação. Repetiu, pois, a dose de genialidade com seu enredo "Entrou Por um Lado, Saiu Pelo Outro... Quem Quiser Que Invente Outro!", propondo uma extraordinária viagem por universos imaginários, civilizações perdidas, "bruxas, vampiros, fantasmas da vida". Na exuberância de seu enredo, ousou trazer de sua abstração temática uma conclusiva reflexão filosófica a todos nós, "humanos dominados pelo mal", acerca do mau uso da inteligência humana na exploração do planeta. Um achado! E novamente um 2° lugar.

Foto: Reprodução de InternetEm 2006, numa proposição mais conceitual e menos filosófica, arrebatou a Sapucaí com o enredo "Ouvindo Tudo Que Vejo, Vou Vendo Tudo Que Ouço", propondo-se a transformar o som - tema de seu enredo - em imagem. Um desafio que só um grande artista ousaria lançar. O público, então já familiarizado com os delírios abstratos do gênio criativo nos anos anteriores, rendeu-se às soluções de fácil leitura e vibrou extasiado com a passagem da Tijuca. Um injusto 6° lugar deixou de conferir ao desfile a grandeza vista na avenida.

Nesses três primeiros anos, Paulo Barros consolidou alguns elementos de sua proposição carnavalesca. Consagrou como autorais as chamadas "alegorias humanas" (notem: não apenas alegorias cheias de gente em cima, criação esta de Fernando Pinto, mas alegorias literalmente formadas por gente, dando-lhe caráter funcional). Reiterou sua predileção pelo uso de referências ao ideário da cultura pop (clones de celebridades, personagens de ficção, super-heróis e muitas citações cinematográficas ilustrando seus enredos). Caracterizou a essência de seus trabalhos numa combinação direta entre recursos de engenharia e efeitos especiais, executados com notória preponderância sobre o requinte plástico e as belas artes - uma contramão da realidade pretendida por todos os carnavalescos desde que o desfile é desfile.

Paulo Barros foi comparado a Joãosinho Trinta. Honra máxima e suscitada polêmica. Para muitos, a genialidade de João estava longe de merecer tal comparação. Este pesquisador que aqui versa acredita caber, sim, alguma comparação. Explico. A "verticalização dos desfiles" - grande revolução estética e conceitual do mago João, fundindo o estilo luxuoso das grandes sociedades ao desfile das escolas de samba - passou a ser padrão adotado por todos. Sob essa ótica, Paulo Barros fez algo ainda mais complexo: reintegrou o componente de chão ao protagonismo dos desfiles ao "fundir" o sambista à alegoria, fazendo com que o elemento alegórico só pudesse funcionar na dependência do elemento humano. Mais que isso: de forma tão autoral que qualquer outra escola que assim o fizesse estaria deslavadamente "imitando" o estilo Paulo Barros de fazer carnaval. Para além de Joãosinho, não só criou o modelo como o tornou irreversivelmente autoral. Reproduzi-lo significaria plágio gritante.

O carnavalesco, já "queridinho da mídia", alavancou os três títulos recentemente conquistados pela Tijuca. Tornou-se, assim, um carnavalesco histórico a reposicionar uma escola de samba, até então vista sempre como mediana e não competitiva. A comissão de frente do enredo "É Segredo!", para muitos, fez a diferença para vencer o campeonato de 2010, fazendo com que , daí pra diante, esperar pelas comissões de frente de Paulo Barros passasse a ser um atrativo a parte no carnaval. Em 2012, fugindo de temas abstratos mais uma vez, Paulo homenageou o rei do baião Luiz Gonzaga e desaguou seus personagens pop figurativos para a coroação do homenageado. Uma impactante alegoria humana feita com homens de barro mais uma vez fez de um de seus carros a vedete do carnaval. Novamente Tijuca campeã!

Neste 2014, foi com a controversa e nada carnavalesca homenagem a Ayrton Senna que Paulo saiu campeão pela Tijuca, surpreendendo outras favoritas.

Das passagens discretas de Paulo Barros fora da Tijuca, pode-se registrar, pela Viradouro, um dos momentos mais emblemáticos dos desfiles na era Sambódromo: uma alegoria virada do avesso representava a "virada de jogo" no enredo "A Viradouro Vira o Jogo" (2007). Seguindo seu conceito de instalação artística, o trabalho surpreendia por conceber, com propriedade e perfeição, o avesso criativo de um dos elementos primordiais da estética dos desfiles. Virar uma alegoria do avesso para que ela pudesse funcionar efetivamente como alegoria foi uma reversão conceitual inusitada e fantástica!

Autêntico, arrojado, ousado. Paulo Barros acaba de ser anunciado pela Mocidade Independente de Padre Miguel para 2015.

O maior feito de todo grande artista é, sem dúvida, saber se reinventar. O incômodo da pulsação artística acaba naturalmente impelindo o artista a isso. O próprio Joãosinho Trinta, bastião dos carnavalescos, soube fazê-lo com muita propriedade. Fernando Pinto adaptou a estética tropicalista a um contexto de crítica política e social. Renato Lage viajou do neón para o rústico com a mesma grandeza. São três de muitos exemplos.

Paulo criou uma proposta de desfile de escola de samba que, ano após ano, saiu de um modelo de carnavalização de temas abstratos para a realização de desfiles no melhor estilo "parada americana". A grande mídia, inadvertidamente, converteu parte da estética desse artista em preâmbulo para apregoar um modelo anticarnavalesco nos desfiles da avenida, privilegiando referências inversamente afeitas às tradições do samba, destacando o descartável em suas coberturas. Correu-se então, pela mídia dominadora e difusora do evento, o risco da escola de samba perder toda a sua proposição e engajamento discursivo originais em prol de uma estética pop, descartável, privilegiando personagens alheios não à tradição conservadora, mas à raiz propagadora das verdades do samba.

A culpa não é de Paulo Barros, é claro, nem tampouco da Unidos da Tijuca. Burrice seria dizer isso. O modelo anticarnaval ameaça, inclusive, o grande artista e a grande escola, sujeitos ao aprisionamento no cárcere da exigência impositiva da mídia e dos jurados alheios ao samba. O próprio carnavalesco parece ter saído da escola tijucana para libertar-se desses estigmas, demonstrando algum desgaste e a necessidade de trabalhar enredos próprios, conceituais, autorais.

Neste momento, acredito eu, precisará se reinventar. Está em uma escola de enorme tradição em inovações artísticas e celeiro de carnavalescos renomados. Deverá levar consigo a essência de sua criatividade e aposta no inusitado, mas certamente encontrará no chão de escola de Padre Miguel a necessidade de revisitar seus temas mais abstratos, mais emblemáticos.

Esperamos, sinceramente, que a arte de Paulo Barros se reencontre consigo mesma e floresça na Mocidade. Afinal de contas, "independente na identidade" é tudo o que ele sempre foi...

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13/03/2014 12h28

Um basta ao anticarnaval
Hélio Ricardo Rainho

Findos os desfiles de 2014, este comentarista e pesquisador de carnaval para, medita, pondera. Por fim, rende-se a uma constatação: o Sambódromo caminha para uma total "descarnavalização"! O princípio da "carnavália", que é a reversão da realidade, a sublimação da vida, o satírico e o lúdico sendo revelados em tom de alegoria na avenida, parece ter perdido o encanto! Reage, minha gente: senão cairemos no alçapão da destruição da verdade do samba, chafurdando num anticarnaval!

O samba - o velho samba mulato velho, procissão festeira dos pobres favelados ao som de rufares de tambor africano - está sendo desprezado e atropelado pelo fascínio televisivo e por uma roupagem comercial que insiste em empastelar a arte popular em forma de DVD espetaculoso para inglês ver. E a escola de samba - coitada! - já não tem mais espaço para mostrar sua verdadeira essência, sendo obrigada a se render a modismos e descaracterizações bizarras em prol de uma espetacularização midiática sustentada pela ditadura da televisão e pelo juízo temerário dos jurados caneteiros.

O que seria, no século XXI, uma "escola de samba", afinal? Não sei... ninguém sabe. Salgueiro e Portela foram, este ano, escolas maiúsculas. Cumpriram todos os quesitos possíveis para isso: tinham sambas de verdade, enredos de verdade, chão de escola de verdade, baterias de verdade e trabalho plástico capaz de agradar aos dois pomos de exigência: requinte estético e grandeza espetaculares, profundidade na tradição e nos valores intrínsecos ao panteão do samba. Foram completas, verdadeiras. Mas não o suficiente para vencerem o "novo carnaval", este que foi "descarnavalizado"...

Sinfônica Império Serrano. Foto: Ary Delgado

Qual seria o destino das escolas de samba de verdade, afinal? Posso citar ao menos duas que vi passando na avenida. Com seus erros e acertos, começo pelos dois Impérios. O chamado "Imperinho", o da Tijuca, numa passagem esplêndida pela avenida, ovacionado, com coro unânime de que "não cairia". Porque não disputou pra não cair: disputou pra voltar no sábado das campeãs. Teve trabalho caprichado, um samba de verdade (raridade no balaio de bruzundangas musicais do Especial deste ano, alguns dignos de pena, cantados como cortejo fúnebre ou berrados como urro de macaco no jardim zoológico!); carros e fantasias lindos e uma comunidade afiada. Adianta isso? Não, não adianta! Faltaram carros alegóricos no feitio "prateleira de supermercado", empilhados de esculturas replicadas (criatividade zero), de acabamento duvidoso, porque é disso que jurado agora gosta. O valente presidente do Império da Tijuca afirmou já não estar certo de querer retornar ao Grupo Especial. Tá certo. Quem sabe fazer não merece botar espetáculo na rua pra gente que não enxerga! Conheço muito sambista de lei que não quer desfilar no Especial também. Ninguém vai considerar, repensar ou pelo menos esconder a cara com vergonha disso?!

Tivemos, na série A, o Império Serrano, que muita gente critica por achar que deve "se modernizar", mas que tem um acerto gigantesco de ser o que muita gente bem vestida, bem patrocinada, "fingida e bem paga" que tem por aí não é: o Império Serrano é um ESCOLA DE SAMBA de verdade! E por isso - por amar a Serrinha, por preservar seu jongo, por ter uma ala de passistas autêntica e comovente (hoje a melhor da cidade), uma bateria de levantar os mortos do Catumbi - o Império vem, há anos, penando num grupo onde, com todo respeito aos demais, ele não cabe. É não cabe não! Se subir, tornar-se-á necessariamente uma vitima da falsa grandeza que o "Grupo da Televisão" (o Especial) impõe a seus desfilantes. É deprimente isso: uma escola com a envergadura e a força de resistência do Império Serrano, em vez de dar aula para tantas outras, sendo sufocada pela descaracterização das demais. A escola que já disse ser "patente", que "só demente é que não vê", conclamando a abrir seu livro quem sabe ler! O mestre sendo obrigado a se emburrecer com os que deveriam ser seus aprendizes. Cabuladores de aula! Dói! Chama-se isto de "modernização"!

Então, se prevalece essa lógica de uma "modernização" que descarnavaliza os desfiles, que tira do cortejo da Sapucaí a autenticidade e a verdade histórica de uma escola de samba em nome de uma suposta "atualização do espetáculo", pergunto eu: porque ainda estamos submetidos ao crivo arcaico e impositivo dos jurados caneteiros, desfilando notinhas pontuais a serem anotadas, somadas e conferidas depois? Por que os empoderamos durante anos, repetindo seus erros, irritando com suas justificativas, trazendo seu olhar distante e frio, seu crivo técnico fajuto para penalizar uma obra do povo, uma arte que eles não dominam e não vivenciam para serem juízes de sua execução?!

Por que o julgamento das escolas de samba é feito de modo tão precário, artesanal, com as mesmas notinhas de 1935 sendo somadas uma a uma, com a novidade do "descarte da menor" sendo vista como "o ápice da tecnologia"?! É contraproducente e contraditório: são Flintstones julgando Jetsons! A comissão de frente de uma escola de samba se descarnavalizou ao ponto de ter carrinho de Fórmula 1 atropelando o lugar que já foi da Velha Guarda, mas a velocidade de aprimoramento dos jurados é em ritmo de marcha ré!

Se estamos aqui na imprensa, como comentaristas, não podemos baixar a cabeça e fingirmos que estamos gostando. Não quero coquetel, não quero salgadinho, não quero bolo: quero confete, serpentina, batucada de gente negra e carnaval de verdade!

Quero samba no pé; fantasias e alegorias lindas e gigantes, sim (obrigado por isso, Joãosinho Trinta!); mas de um enredo conciso e com raiz fincada na essência do carnaval. Sem babar ovo de gente alheia ao samba, celebridades e milionários de outras praias...pra isso temos nossos Cartolas, Zé Kettis, Candeias, Catimbas, Martinhos, Ciatas, Ivones e nomes próprios á festa. Literatos...que o sejam! Mas chega de ETs em letra de samba enredo!!!

Avisem aí aos senhores jurados e aos senhores do monopólio que essa coisa (a eles tão estranha) chamada "escola de samba" não sai na rua pra bajular empresários, nem virar espetáculo de gringo, nem produto comercial, não: isso aí é arte do nosso povo, é essência de nossa história, é gênese da arte e da cultura de nosso país! Que merece respeito e que não tem que se curvar diante de poder nenhum: a Escola de Samba é O PODER! É ela - por ser escola - quem ensina! E os maus alunos que nunca aprenderam as suas lições não podem, de jeito nenhum, transmiti-la nem julgá-la, porque são, lamentavelmente, estrangeiros da festa de seu próprio país!

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06/03/2014 13h14

Apuração: quesitos esquisitos
Hélio Ricardo Rainho

O carnaval acabou e muita gente vai tirar o seu da reta. Sim, é isso mesmo. Para ficarem "bem na fita" com seus pares políticos, artísticos etc, renderão loas e homenagens ao resultado final. E mais uma vez farão mau uso de seus "poderes" de imprensa, ajudando a corroborar o erro e a confusão. Não é o "resultado pelo resultado", porque se respeita e se louva o esforço e a graça da Tijuca campeã. O problema é se ater aos critérios de pontuação que, afinal, acabam definindo um resultado.

O Brasil é vergonhoso quando o assunto é "julgar"! Somos um país que não sabe julgar nada! Nossos mensaleiros ladrões ordinários são absolvidos, nossos juízes de futebol inventam pênaltis e anulam gols estando ao lado do lance. E nossos jurados de escola de samba - com todo respeito e sem nenhum respeito - parecem alucinados! Estão ensandecidos. Se reclamamos de alguma coisa, dizem que é "choro". O termo foi cunhado na ditadura, quando, quem denunciava ou se indignava com alguma injustiça, era torturado e "chorava". Vê-se que carregamos uma herança maldita da repressão militar, que hipocritamente derrubamos, mas fazemos questão de viver em nosso dia-a-dia.

Foto: SRZD - Tatiana Perrota

Não sei como a LIESA tentaria resolver esse problema. Ano após ano erram, fazem justificativas ridículas e voltam a ocupar vergonhosamente as cadeiras no ano seguinte. É proibido demitir jurado incoerente?!

Está instituído que a primeira escola a desfilar deve cair e pronto! Cala a boca todo mundo: quem passa primeiro sofre a "economia de notas" da pão-durice dos jurados insanos. Mais vale uma fantasia de cueca, sem chapéu e sem complemento na avenida, do que um trabalho sério de quem abre o carnaval! O Império da Tijuca foi covardemente agredido pelas canetas dos jurados...quer dizer que o samba do Morro da Formiga não era nota 10?!?! Isso não é subjetividade, é mau trato: senhores jurados, peguem suas canetas e escrevam, agora, um samba melhor do que aquele! Seria despeito?! Foi ridículo pra carreira de todos vocês.

As fantasias mais luxuosas e bem acabadas em requinte deste ano - as da Portela, um trabalho de Alexandre Louzada que a todos surpreendeu desde os protótipos - não atendeu às exigências dos senhores que gostam de macacão, cueca preta e plástico de forro de bombom. O jurado está ficando parecido com a televisão e alguns jornais, que se esmeram em fazer anticarnaval numa cobertura pífia e patética a destacar efeitos especiais, personalidades alheias às tradições do samba e outros oba-obas por aí.

Está ficando muito difícil fazer carnaval quando não se sabe que quesitos serão julgados. Sim, porque os jurados não julgam quesitos, julgam bandeiras, julgam posições em que as escolas desfilam, julgam superficialidades. Como é que alguém pode preparar um barracão de escola de samba que não seja em função dos quesitos, mas sim dos "esquisitos"???

Houve, sim, alguma justiça no âmbito final da apuração. Três gigantes da Sapucaí foram excluídas do hall das campeãs com desfiles quase lamentáveis. Vimos uma Estação Primeira de Mangueira num trabalho irreconhecível de Rosa Magalhães, talvez a pior execução de sua brilhante carreira. A poderosa Beija-Flor decidiu homenagear o amigo Boni (que sempre foi declaradamente Mocidade) e exibiu na avenida provavelmente o pior rendimento de um samba enredo da história do Sambódromo: foi quase um cortejo fúnebre. A escola de Nillópolis precisa repensar a ideia de que pode fazer qualquer coisa: expor gênios como Selminha e Claudinho, fundindo comissão de frente com casal de MS&PB, não fez o menor sentido, bem como um enredo cheio de costuras e que nada contou sobre o homenageado. Foi duro ver a Beija-Flor tão perdida na avenida. E a Vila, querida Vila dos Poetas do Boulevard, susteve-se na bravura do "povo do samba" e na "sorte" de algumas notas boas francamente imerecidas. Uma campeã não pode voltar à Passarela depenada e irregular daquele jeito. Alerta vermelho a essas três!

Louvável a ressurreição da Portela, aposta prometida e cumprida pela excelência de seus dirigentes, que em menos de um ano tiraram a águia do caos administrativo a um desfile de autêntica campeã! Desmentiram a falácia da maioria dos dirigentes que só sabem falar de patrocínio: a Portela não se vendeu a enredo de produto, o patrocínio passou por fora do tema escolhido, e fez seu carnaval como quis, pagando contas, pagando funcionários, com barracão de luxo e samba de verdade. Tudo bem: jurado prefere outra coisa, mas a Portela foi digna até dizer chega. A avenida vai dizer o que achou no desfile das campeãs...

Louvável a Grande Rio, escola vitimada pelo preconceito que o vírus da emissora de televisão causa a todos. É como fazer pacto com o diabo: a princípio parece dar certo, depois vem a maldição. Para os "telespectadores de samba", os que não frequentam quadras e veem desfile na TV: a Grande Rio é Caxias, não é Projac nem Jardim Botânico! Essa turma toda vai passar, podem crer. Este ano ficou bem claro tudo isso na avenida. O carnavalesco Fabinho mostrou um belíssimo painel de Maricá, carnavalizou com excelência um enredo abstrato, fez as alegorias mais inventivas e originais do Especial. O samba não ajudou muito, mas essa escola foi extraordinariamente autêntica. Só precisa eliminar aquele bloco bizarro de camisaria que vem à sua frente e no seu encerramento: um comitê feio de presunção, onde não se vê um negro e um caxiense presentes!

Louváveis o renascimento do canto e da graça da Mocidade, orgulhosa de si na avenida; a alegre brincadeira da União da Ilha, consagrando Alex de Souza como nosso melhor carnavalesco; o canto em oração de escola de samba verdadeira que é o Salgueiro; a vibração da valente Imperatriz.

Meu respeito e meu carinho a todas as pessoas que fazem o carnaval. Pra mim, como comentarista, carnaval na Sapucaí é assim: escola de samba é digna de TODO respeito, está acima de tudo e de todos. Bandeira, instituição! E as pessoas sérias, devotadas, que vivem em função da escola, não de suas vaidades, também terão esse respeito.

Por respeito à bandeira, parabenizo a Unidos da Tijuca, uma escola encantadora, que ressurgiu de seu matiz histórico e engrandeceu-se: de escola considerada pequena, virou grande em uma década, caso único na história dos desfiles!

Mas acho que uma discussão séria e uma profunda reflexão se fazem necessárias. Chega de jurados "especialistas" vindos de outras áreas: tem que ter gente ligada a samba, estudiosos de samba, pesquisadores de samba analisando as escolas na avenida. Cansamos da reincidência de jurados preconceituosos, com vícios de julgamento e justificativas de sanatório. Como todo mau profissional, eles não merecem a avenida, mas simplesmente "o olho da rua" em 2015!!!

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19/02/2014 15h18

'30 anos do Sambódromo': São Clemente 1987, o Carnaval dos meninos de rua
Hélio Ricardo Rainho

Triste e, ao mesmo tempo, arrebatador. Foi o desfile mais sombrio da história da escolas de samba. E não menos belo, marcante e inesquecível. O samba-enredo, melancólico, exibia as primeiras linhas em tom soturno, sendo todo entoado em tom menor. Em vez de uma receptividade festiva e vibrante, o público, atento, recebia com brados a passagem da escola, mas o tempo inteiro em visível reflexão e com certa dose de constrangimento. A escola estava magnífica. Seu tema levava a plateia a pensar.

Foto: Reprodução de InternetNão foi a apresentação de uma das chamadas "grandes", nem exatamente um esplendor de desfile plástico. Não foi a escola campeã. Mas, naquele ano de 1987, a São Clemente emprestou a negra cor de sua bandeira para iluminar em amarelo uma das chagas mais abertas da sociedade brasileira: a questão do menor abandonado. E constituiu um legado antológico para o carnaval carioca. Um desfile memorável, inédito, inesquecível!

Criando um trocadilho com a obra prima de Jorge Amado (Capitães de Areia), "Capitães do Asfalto", enredo de Carlinhos D'Andrade e Roberto Costa, trazia para o grande palco uma discussão dura e muito acertada sobre a problemática social que gerava, descuidava, desamparava e - por fim, - discriminava o menor de idade em nosso país. Seguindo uma linha política de crítica social já adotada nos anos anteriores, a escola da zona sul ascendeu naquele 1987 ao grupo de elite e fez bonito, surpreendendo a todos e mantendo-se para o ano posterior com um digno 7º lugar.

Sintomática, a letra do belíssimo samba tinha versos cuja alusão ao tema era um misto de poesia e constrangimento diante de um problema raras vezes tratado de forma tão ampla diante de uma multidão. Isaías de Paula, um dos compositores junto a Manuelzinho Poeta e Jorge Madeira, tinha propriedade de causa: era também um ex-interno do SAM (Serviço de Assistência ao Menor). A "cabeça do samba" prenunciava o discurso engajado, com o peso dos versos: "Pequenino / Triste feito um cão sem dono / Tão cansado de viver e sofrer / Por aí perambulando". O primeiro refrão tinha forte apelo emotivo, em primeira pessoa: "Seu moço, dê-me um trocado / Eu quero comer um pão / Sou menor abandonado neste mundo de ilusão". E expunha em linguagem muito franca, sem deixar dúvidas, a questão da má distribuição da renda nos versos: "Enquanto o filho do papai rico / Desfruta o bom e o bonito / Do dinheiro que o pai tem / Lá vai o menino pobrezinho / Que acorda bem cedinho pra vender bala no trem". Um achado!

Foto: Reprodução de InternetA comissão de frente, formada por meninos pertencentes à FUNABEM - a assim chamada Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, instituída pelo governo federal - causou choque e emoção. Um banco de praça ilustrava, no abre-alas, as crianças jogadas ao relento, a dormirem nas ruas da cidade diante dos olhares atônitos das autoridades inertes. Crianças pobres catavam comida no lixo, em uma das alegorias, enquanto os "filhos de pai rico" ficavam isolados em gaiolas de ouro com toda sorte de benefícios.

Fazendo bom uso da cor escura presente em sua bandeira, a escola soube ilustrar com beleza e adequação o enredo sombrio proposto por seus carnavalescos. Sob aplausos efusivos e lágrimas de emoção, a São Clemente passou em 1987 com um desfile que marcou história.

Foto: Reprodução de InternetÉ pena que, na lógica atual de desfiles apadrinhados e politicamente corretos, a construção de pontes políticas praticamente excluiu do Sambódromo as temáticas de crítica social e protesto. A escola de samba, que sempre primou por seu viés de resistência, tornou-se tão prisioneira dos gradis capitalistas que, hoje, já não se podem esperar desfiles autênticos e fortuitos como aquele dos clementianos em 1987. Sem dúvida, digno de registro e menção honrosa na historiografia dos grandes carnavais!

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- Noca '30 anos de Sapucaí'

- 'Especial 30 anos de Sambódromo' com Machine, o síndico da Passarela


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