Personalidade dá enredo?
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 15/05/2013 13h21

Comentar enredo, a meu ver, é uma tarefa fracionada. Temos quatro momentos específicos para analisar um enredo. O primeiro é quando se anuncia o tema. O segundo, quando a sinopse o elucida. O terceiro, sua confecção no barracão. E o quarto - efetivamente aquele que vale - quando se assiste ao desfile na avenida. Em cada etapa, é possível discutir e refletir a respeito.
Que bom que a internet (unicamente este veículo, nenhum outro mais) nos tem proporcionado um ambiente de discussão e interação sobre as questões do carnaval, agora não mais restrito ao "calendário" (comercial) da televisão e da mídia em geral, que só vislumbra as escolas de samba como produtos. Aqui podemos antecipar análises e debates sobre o que ainda está sendo tramado nos bastidores do samba.
Enredos sobre personalidades: o que se pode pensar a respeito? Claro, quando se trata de figuras retóricas do próprio samba ou de alguma área artístico-cultural, a aceitação é mais clara. Mas como podemos analisar enredos cujo tema seja um personagem além da dimensão do samba?
Imperatriz, Beija-Flor e Unidos da Tijuca saíram na frente com essa aposta para 2014. A escola de Ramos escolheu o ex-craque Zico como tema. A de Nilópolis vai homenagear o empresário Boni. O Pavão do Borel, Ayrton Senna. A primeira, acredito eu, buscará forças no apelo popular do jogador e do clube no qual fez história - o Flamengo. A segunda apostará no legado profissional do homenageado como maior trunfo para render boas alegorias e adereços. A terceira certamente investirá no potencial dramático que a lembrança desse herói das pistas sempre desencadeia quando lembrado.
Tenho que opinar...! E o que eu acho disso, a priori?
Como tenho dito, e seguirei dizendo aqui e acolá, vejo a escola de samba como vejo a tradição africana. A transmissão do saber atávico, ou seja, vindo num ciclo onde a renovação acontece com base nas tradições e no legado cultural previamente construído. As sociedades africanas se organizam dessa forma na transmissão de seu saber. E a escola de samba é uma legítima semente desse legado cultural no seio de nosso país. Assim sendo, ela não desce à avenida apenas para exibir um espetáculo midiático ou para se empacotar num belo DVD comercial de gravadora, emissora ou qualquer outra coisa empresarial que o seja. A escola de samba tem o seu discurso. E cada uma delas tem um discurso típico, em particular. Então me parece sempre coerente que os enredos de escola de samba, sejam eles ilustrados pelas personalidades que forem, devam sempre fazer menção a elementos a ela pertinentes. Com todo respeito aos homenageados anunciados para 2014, este colunista que vos escreve não se animou nem se sensibilizou com nenhuma das três escolhas. É minha opinião, sem pessimismos nem conclusões apressadas. Os temas não me agradaram.
Sei lá. Penso assim: qual é o único canal que existe hoje para propagar a escola de samba, senão ela mesma? Onde mais se pode aprender a fazer samba de verdade, a cantar a arte e a cultura genuínas do nosso povo, nossa terra, nossos poetas do morro, nossa gente, senão na avenida? Onde mais se pode celebrar Monarco, Pinah, Cartola, Candeia, Roberto Ribeiro, Pixinguinha ou vultos e fatos históricos de nosso país?
Estamos imersos numa poluição cultural onde só as próprias escolas de samba podem se defender e preservar seus bambas, seus tesouros, seus baluartes. A hora em que escolhem seus enredos é o momento-chave em que podem se afirmar, defender sua raiz histórica, brigar por sua legitimação. E aí, o que elas fazem? Escolhem personagens dignos de homenagem (sim, grandes vultos), mas que são alheios ao discurso essencial do samba.
Penso sempre no viés antropológico quando concebo a entrada de uma escola de samba na avenida. Vejo não apenas o que ela tem para me mostrar naquele momento, mas todo o seu peso de construções simbólicas no decorrer de muitos anos. O julgamento é sobre o que está ali, mas a mensagem maior não é a do julgamento: é a do legado cultural. E é exatamente por ter essa visão dos desfiles que reitero minha opinião de que, antes de tudo, a escola de samba precisa privilegiar seus valores, sustentar seu discurso, firmar-se em sua identidade. E é a partir da escolha de seu enredo que ela tem a oportunidade de fazer isso.
Que os três escolhidos são grandes personagens de nosso país, não tenho dúvida. Que até merecem homenagens, também. Mas, respeitosamente e particularmente, não acho que eles tenham uma grandeza compatível com o que se exige de um enredo para o porte das três escolas que os escolheram.
Acho as três escolas maiores do que os homenageados.
(Ufa...suei para ter coragem de escrever isso!)
Vamos ver como a Imperatriz vai fazer para contornar a incompatibilidade de suas cores com o vermelho e preto que inevitavelmente terá de registrar em seu enredo. Vamos ver como a Beija-Flor vai extrair apelo emotivo de um personagem frio e distante da realidade comum do brasileiro (a TV é comum, empresário não). Vamos ver como a Tijuca vai defender um tema que parece muito restrito tão somente ao carisma de um personagem, sem muito mais o que ilustrar.
Enfim, a reflexão aqui está. Sem falsas previsões e com muita curiosidade. Agora, só nos resta aguardar...
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Repensando o samba-enredo à sombra do Grupo Jaqueira
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 06/05/2013 15h14
Semana que vem a quadra da Portela vai abrigar um evento que considero da maior relevância para o status quo do samba. Um show do grupo Jaqueira, semente viva do samba, cujo intuito é preservar a tradição do gênero estudando e difundindo o cancioneiro clássico do samba de verdade. Para quem não aguenta mais a mídia vomitando pagodes degenerados nos ouvidos, é um alento ouvir um samba perfeito como aquele defendido por Paulinho da Viola no clássico "Argumento". O Jaqueira não apenas é um alento, como aponta caminhos e reeduca nossos ouvidos para uma oportuna reflexão.
Vem de longe, muito longe, a discussão sobre purismo e qualidade musical dentro do samba. Não apenas pela luta obstinada do gênero em preservar suas raízes contra um histórico de perseguição, discriminação e desqualificação artística. Mas também pela grande luta de resistência para sobreviver durante períodos de ostracismo midiático e negação profissional. O samba levou muito tempo para ser visto pelos empreendedores como negócio rentável, digno de investimento comercial.
À exceção de expoentes que extrapolaram a fronteira estabelecida pelos donos do jogo - exemplos de sambistas acima da excelência como Clara Nunes, Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Paulinho da Viola, Beth Carvalho e (não pelo repertório de hoje, mas pelo inicial) Alcione - poucos sambistas conseguiam ocupar a mídia nas décadas de 70/80. Um novo boom aconteceu com o "fenômeno pagode" ocorrido nos anos 80/90 (Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Reinaldo, Jovelina Pérola Negra, Fundo de Quintal etc). E, quando alcançou esse nível de privilégio, passou a sofrer um agravante: a partir desses artistas ainda genuínos, oriundos da primeira fornalha de sambistas de sucesso, as gravadoras passaram a criar clonagens comerciais, replicantes culturais misóginos, fundindo o que havia de pior no sertanejo comercial com pagodeiros de teclado para criar subprodutos apelativos e de parco talento.

Chegamos, então, ao apogeu do "samba melado", uma síntese frankenstein das piores modalidades artísticas do mercado, descambando para oportunismos parasitários que sugam um pouco de cada seiva para, afinal, gerarem artigos de baixa categoria. Por força da mídia, de seus programas de auditório de animação fake e de suas telenovelas com trilhas vendidas por gravadoras impositivas, essas músicas são repetidas à exaustão, formando um público cativo hipnotizado que lhes assegura a aceitação e a rentabilidade. O espetáculo deprimente chegou ao nível de releituras vexatórias - tanto de clássicos do próprio samba, como de "versões" para outros ritmos - onde pretensão, vaidade artística e intenções$ comerciai$ descaradas destroem clássicos da música nativa ou degeneram obras originais em versões que de samba não têm nada, não passando de música de fundo pra animar festinhas ou karaokês de aniversários. É a garota do reality show que quer "melhorar a música do Cartola", o pasteurizado de gravadora que acredita ter "revolucionado o samba", a banda que regrava música internacional e rock brasil em sofríveis versões mais gemidas do que cantadas... até onde vai essa onda de terror???
Emburrecidos pelo consenso geral do "samba"(?) imposto pela mídia, passamos a lotar casas de show ouvindo coisas que fariam revolver o túmulo de bambas e originais do gênero. E ainda por cima criamos um termo que supostamente tenta preservar as duas vertentes: chamamos o que é tradicional de "samba de raiz". Por sincera falta de coragem de dizer que, se não tem raiz, nem samba é. Assim sendo, deveríamos admitir: "é samba, não é samba". Sem essa lenga-lenga de raiz ou não-raiz. Um é samba, o outro é simplesmente pastiche. E quanto pastiche vemos que rola solto por aí...
O samba-enredo, pouco divulgado, parecendo menor do que os outros elementos da festa espetacular que viraram os desfiles de escolas de samba, acabou atingido por esse espectro. Não tendo mais por referência o samba autêntico - o samba de roda, o samba de quadra, praticado pelas antigas alas de compositores como "teste de aceitação" - as alas de compositores passaram a abarcar essa leva de pseudopagodeiros eletrônicos ou influenciados pelo samba(?) pouco digerível, pouco palatável, mas muito vendável do outdoor, da megalomania, da fama. E é essa gente que faz samba para a maioria das escolas de samba, também. As disputas de samba passaram a ser eventos onde muita bandeira, muito prospecto e muitos ônibus com torcidas de alienígenas do samba fazem "a diferença". Naquele dia, o samba "mais cantado" na quadra é validado não pelo chão de comunidade da escola, mas pelos marcianos&jupiterianos&plutonianos de outro planeta - chegados via ônibus de torcida paga com cervejada - que validaram o canto equivocado, em detrimento do samba que realmente expressa a verdade da escola.
Particularmente, faço menção de um trabalho de excelência artística, tanto no propósito como na execução. Trata-se do Grupo Jaqueira, um trabalho de autenticidade musical que viabiliza a compreensão do samba como origem e legado a ser transmitido. A linha de trabalho musical do Jaqueira empreende pesquisa musical, uso de acervo e também inspiração para perpetuação do antigo criando novas pérolas no presente. É a velha sonoridade autoral do samba emanada com novos ares, literalmente relida, com propriedade e respeito, sem a pretensão da releitura que viola e fere o original.
Vejo nessa linhagem de Aline Calixto, Orquestra Imperial, Moyseis Marques e esse Grupo Jaqueira um apuro da construção original do samba. Não é purismo, é pureza - tenho dito. Agrada-me a essência de sambistas partideiros de verdade. Pois é dessa essência dos sambistas de verdade que deve se alimentar o samba-enredo, nosso ponto de partida para a grande vitrine que é o carnaval.
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Primeira das estações: Mangueira, 85 anos
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 29/04/2013 14h48

Desce o morro, aquece o asfalto, colore a avenida.
Irradia, emociona, contagia.
É força, é raça, vibração, sangue do povo, grito da galera, arte verde-e-rosa que transborda poesia, efervesce encanto e paixão sem igual.
Quem conhece, ao ouvir de longe a potência de seu surdo único a estrondar no carnaval, sabe de quem estou falando.
É ela...derradeira...pioneira...altaneira...brasileira...Estação Primeira de Mangueira!
Altar dos poetas do samba, berço de Cartola, Nélson Cavaquinho, do Sargento Nélson do Samba, do vozeirão imortal do negro rei Jamelão.
Mangueira de Sinhá Olímpia, de Chiquinha Gonzaga, de Dom Obá dos Esfarrapados, de Chico, de Drummond, de Braguinha...Yes, nós temos 85 anos de Mangueira!
Mangueira é uma das escolas de samba que melhor traduzem esse inexplicável sentimento passional que enche de lágrimas os olhos e de esperança os corações de seus integrantes. Este ano, durante meu trabalho de cobertura nos desfiles, estava achando tudo muito dentro dos conformes - não obstante alguns arroubos de criatividade e riqueza estética de algumas escolas.
Veio Mangueira.
Nem achei que estivesse bem cuidada. Plasticamente parecia muito irregular. Mas eis que, no meio de seu desfile ( e nem associei isso, de imediato, ao belo trabalho de mestre Aílton com suas duas baterias, necessariamente), alguma coisa aconteceu. Fui tomado de súbito por uma energia solta, por uma torrente de emoção...o samba incendiou-me os sentidos, abreviou-me o juízo crítico...esqueci que era cronista, colunista, analista...o samba de Mangueira estava me chamando.
Olhei para trás e havia um monte de pessoas arrepiadas com a mesma pulsação. O refrão mencionava um "trem da emoção" que parecia ter descarrilado em encanto e arrastado a plateia samba abaixo, samba adentro, samba afora! Olhei para o chão de escola e vi a fulgurante imagem do genial passista Celynho Show, um desses artistas genuínos do samba, esteta de sua arte. Celynho era a representação clara da euforia e do fascínio de ser Mangueira. Vibrante, apaixonado. Razão de ser admirado e elogiado por uma geração inteira de novos passistas...ele é tão raiz e tão Mangueira que, me fez entender tudo ali!

Eu - que não sou Mangueira mas em tudo a respeito e admiro, sem jamais ter negado seu fascínio -assisti à sua passagem com a convicção de ter sido, de modo único e particular, arrebatado pelo verde-e-rosa no desfile 2013!
Mangueira é assim: não precisa ser favorita, nem a melhor plasticamente...nem precisa ser campeã pra ganhar de todos nós! Única e fascinante: Mangueira!!! Em 85 anos, só felicidade!
Não tenho como, numa crônica como esta, esquecer a menção a José Carlos Netto. Esse gênio controverso, de palavras curtas e coração longo, gentilezas incontidas e verborragia sensacional, ensinou-me um pouco de tudo isso que é Mangueira em pouco tempo de idas e vindas, encontros e eventos, situações de convívio que em mim se tornaram marcantes. Ele foi, no Olimpo Verde-e-Rosa, um desses deuses resplandecentes que nos ensinam com olhar, com testemunho de vida. Lembro-me dele, ano passado, passando pela avenida no carro dos baluartes da escola, com o olhar pitoresco, acenando para o povo. No meio daquele mundo de gente, suas vistas já cansadas mas muito vigorosas encontraram, no chão do sambódromo, a minha presença. Ao reconhecer-me, acenou e sorriu.
Foi pra mim um presente e um aceno da própria Mangueira.
Naquele dia - assim posso bem dizer - a Estação Primeira quis sorrir pra mim!
Salve, salve, salve, salve!
Do morro dos bambas..da emoção de ser escola de samba...parabéns, Mangueira!
Primavera, Verão, Outono, Inverno.
Dentre as Estações...sempre serás a Primeira!

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Portela: 90 anos, 21 estrelas!
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 11/04/2013 07h08

Falar de 90 anos de Portela não é fácil. Mexe com a gente. O peito acelera, a voz recua, a boca treme, o olhar mareja. Lembrar que, em 90 anos, toda poesia a serviço dos bambas foi utilizada para tentar definir sua glória, seu vulto, suas cores e grandeza, é desafio de força sem igual!
"O rio que passou em nossas vidas", "a deusa do samba que o passado revela" , "a maravilha de aquarela que surgiu", "a Majestade do Samba", "tudo na vida pra mim", "rainha de Oswaldo Cruz", "o próprio céu azul de dia bonito", "eterno amor", "luz de Oswaldo Cruz e Madureira", "sonho de bamba", "fenômeno que não se pode explicar", "meu orgulho suburbano", "cheia de encantos", "voz que não se cala", "canto de alegria no ar", "água da fonte, raiz, tradição", "mais fascinante, deslumbrante, mais amor"...
Do relicário de poetas do samba, quantas riquezas de paixão, enlevo e inspiração geraram liras inesquecíveis para definir o que é a grandeza da Portela?
Hoje, aos 90 anos, resplandece como linda menina, vultosa mulher, soberana azul-e-branca no fascínio que exerce sobre sua corte, legião de apaixonados que não têm recorte de idade, referência geográfica nem financeira: todos se unem, enamorados, para enaltecer a águia vultosa de seu pavilhão vencedor!
Pavilhão que há anos sobrevive de sua grandeza genética, de seu DNA glorioso, contra as frustrações e opacidades demandadas por um período infértil de jejum de títulos, o mais longo de sua jornada, incoerente com seu legado de vitorias arrebatadoras e consagrados triunfos na passarela dos desfiles. Graças a essa emoção sem igual que sua bandeira ainda exerce sobre o séquito de fiéis guerreiros da águia, o descaso e a distância do pódio fizeram da Portela talvez a mais expressiva e surpreendente história de resistência onde o amor por uma escola transcende a necessidade de vitórias: ela agrega uma gigantesca nação de torcedores apaixonados que nunca a viram campeã. E, ainda por cima, nunca foi alcançada em quantitativo de títulos por suas respeitáveis coirmãs. Algumas delas, juntando-se em grupos de três ou quatro, não somariam as vitórias que só a Águia de Madureira tem!
Nesses 90 anos de Portela, que poucos viveram e estão vivos para contar (acho que a vultosa Tia Dodô e uma meia dúzia) , muitas historias, muitas lendas, muitos mitos, muitas irrefreáveis paixões.

Portela é uma escola com peculiaridades. Capaz de tecer mitos sem igual. Minha primeira visita à quadra da escola deu-se em um de seus dias mais tristes: a morte de Clara Nunes. Eu era menino, lembro do amontoado de gente se acotovelando, das ruas de Madureira - do viaduto pela Estrada do Portela afora - caminhando para a quadra da azul-e-branco num sábado nublado e triste, com um enorme manto negro de luto cobrindo o símbolo da coirmã Império Serrano na entrada de sua quadra. Madureira era toda tristeza, pessoas sentadas ao chão com as mãos no rosto, chorando,sem paradeiro. Imagens inesquecíveis! E hoje, mesmo sem jamais terem visto Clara Nunes, crianças, jovens e visitantes lotam a quadra da escola, nas feijoadas de sábado, cantando com a Velha Guarda músicas da Clara Guerreira, vestindo camisas com a Clara Guerreira, falando dela como se estivesse presente numa das muitas curvas e caminhos que a quadra da Portela tem (outra de suas características marcantes: ter uma quadra com múltiplos ambientes).
Pois a Portela, com seus 90 anos, vive à espera de mãos hábeis que reconduzam os troféus e as taças de campeã ao seu ninho feliz, rememorando seu passado de glórias, em respeito às suas tradições históricas. Que sempre foram controversas no trato com seus bambas, é verdade. Paulo da Portela e Candeia, dois de seus maiores mitos, morreram afastados do lugar. Mas ainda renasce a esperança de vermos a Portela do século XXI com a mesma força e o mesmo encanto de antigos carnavais...sacudindo a poeira, dando nó na madeira, arrebatando a avenida no desfile principal!

Obrigado, Portela, por teres constituído esta nação irmanada que hoje somos, regidos por teu azul, encantados pelo branco da tua paz!
Obrigado, Portela, por tuas lendas, mistérios e encantos sem par, por tua vibração que incandesce nosso corpo e faz nossos olhos marejar, emocionados com a tua onda de amor!
Parabéns, Portela! Pelos 90 anos de uma força e de uma paixão inabaláveis...nosso orgulho é ser Portela..nosso orgulho é ser você!
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Exclusivo: Julinho Nascimento despede-se em carta da Vila Isabel
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 26/03/2013 16h04

Julinho Nascimento é uma das unanimidades do Carnaval carioca. Um mestre em seu estilo, um profissional consagrado e fonte de referência para as novas gerações do bailado de mestres-sala na avenida.
Um dos protagonistas citados na série do SRZD-Carnaval "Ases do Samba", Julinho é mais um dos nomes que confirmaram seu afastamento da Unidos de Vila Isabel. Com a diplomacia, a elegância e a idoneidade que marcaram sua trajetória como artista e como sambista, Julinho enviou um emocionante relato à redação do SRZD-Carnaval para, com exclusividade, despedir-se de sua escola, de sua comunidade e de todos aqueles a quem reputa o sucesso e o brilho de sua trajetória. É o fim de um ciclo, com o devido reconhecimento e estimado apreço a todos os que estiveram a seu lado na vitória da Escola do Bairro de Noel.
"A gente precisa escolher caminhos na vida. Tenho um carinho enorme por essa escola e por tudo o que ela fez por mim. São pessoas a quem eu quero manifestar minha gratidão com essas palavras" - disse Julinho, afirmando não ter mágoa nem ressentimento algum.
Leia a carta na íntegra:
"Penso que neste momento a vida me pregou uma peça... Quando consigo alcançar algo que tanto almejei na minha carreira enquanto profissional do carnaval e amante da minha arte de ser mestre-sala, que é conquistar um título de campeão do carnaval juntamente com minha agremiação, as coisas tomam um rumo no qual se levaria tempo e muita reflexão para entender, no que pese a emoção em detrimento da razão.
Emoção pela relação intensa com o G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel em todos os aspectos, principalmente na relação humana, ao longo desses seis últimos anos de aprendizado, crescimento e amadurecimento como pessoa e como sambista. Emoção em reconhecer que se não fosse o carinho e o respeito com que fui acolhido pelo "Povo do Samba" desde a minha chegada à escola, nada do que eu possa representar ou vir a representar naquilo que me proponho como sambista se tornaria possível de se alcançar. Acredito que se hoje me considero um sambista repeitado como meu saudoso pai, agradeço em grande parte a essa "Escola de Samba" de fato e de direito, seu povo, sua gente simples e aguerrida, uma família ilustre do nosso carnaval, a qual aprendi a respeitar na essência.
No entanto, em alguns momentos da vida, agir com a razão se faz necessário. Por motivos particulares e significativos que envolvem, principalmente, a minha família e tudo o que eu acredito como pessoa de bem, tomo uma difícil decisão neste momento ímpar desta gloriosa agremiação.
Na minha vida aprendi a valorizar demais a relação humana, a minha família e, principalmente, a Fé que tenho Naquele que rege o tempo e o curso da minha existência. Por isso, confio mais uma vez Nele, e O entrego a minha direção e caminhada daqui pra frente, pois nada acontece por acaso e o nosso tempo nem sempre é o tempo Dele. Confiando nisso, comunico a todos que fazem parte direta e indiretamente do G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel do meu desligamento do quadro profissional da escola.
Agradeço do fundo do coração ao G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel, ao presidente Wilsinho, a D. Rita e toda família Alves, D. Beta, ao Evandro Bocão, a Rosa Magalhães, a Marcelo Misailidis e Dani Marie e toda Comissão de Frente, ao Nando, ao Mestre Mug, aos Mestres Walan e Paulinho, aos ritmistas da Bateria Swingueira de Noel,ao Junior Schall, Julio Cerqueira, ao Décio e toda a Harmonia, ao seu Aladir e a Velha Guarda, a Lucimar e a Ala das Baianas,
ao Edson e os Passistas, ao André Diniz, Leonel e todos os Compositores, ao Tinga e os demais Cantores, a Diego e Natália, a Jackson e Dandara, a Delma Careca, ao Luciano, ao Herdeiros da Vila, ao Marcelo Pacífico, ao Cigano, a Segurança e os Funcionários da Quadra e do Barracão,enfim, além de todos esses amigos e outros não citados que conquistei nesta agremiação, agradeço também aos que fazem da "Vila" uma Escola Campeã... sua "Comunidade Forte e Unida".
A todos, o respeito, o carinho e a admiração daquele que enquanto "esteve" mestre-sala ao lado da sua "parceira de fé" Rute Alves, procurou ao máximo merecer estar a altura de representar este Glorioso Pavilhão, e ao mesmo tempo contribuir de alguma forma com enriquecimento histórico e cultural da Escola de Samba do bairro de Noel, de Martinho e cia.
Obrigado.
Julinho Nascimento"
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Império Serrano de Glórias: O Menino de 66
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 23/03/2013 21h45
"Menino de 47 / De ti ninguém esquece / Serrinha, Congonha, Tamarineira / Nasceu o Império Serrano / O reizinho de Madureira"

O belo poema de Nilton Campolino e Sebastião Molequinho cita, em versos, a glória de uma das mais imponentes e expressivas instituições culturais do nosso país: o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Império Serrano.
Pois eis que o "Menino de 47", o ano em que nasceu, é agora um glorioso e valioso guerreiro, a completar 66 anos de idade e de história, neste dia 23 de março.
Se fossemos aqui destacar todas as inovações e contribuições dessa linda escola ao panteão do samba e à grandeza dos desfiles, seríamos apenas ressonância. Muito se sabe e já se falou disso. Mas, nesta data tão feliz, tenho o prazer de destacar, no Império Serrano, a sua gloriosa verve de escola da liberdade.
O canto imperiano é um canto diferente. Não obstante todo esse sufoco que a escola vem passando há anos - traída por sua própria grandeza, a desfilar em um grupo ao qual ela não pertence e que o seu tamanho não comporta -, há uma força de canto, uma garra de chão, um encanto de superação desenhado em rastros de lágrimas que correm o rosto, em giros de baianas que ventaneiam a avenida, em risco de passistas que atravessam o asfalto...é o Império Serrano uma locomotiva de paixão e de emoção a cada ano, com sua passagem na Sapucaí.
Seu grito, sua arte, seu samba de lamento...tudo isso nos remete a um carnaval que não veremos mais, a uma escola de samba genuína, pura verdadeira que parece ter "saído de moda", mas que não consegue - e jamais conseguiria! - sair de nossos corações.
Não temos, pelo Império Serrano, nostalgia. Antes, temos, em seu verde sem igual, memória viva e aflitiva (porque nos inquieta e perturba) daquilo que sempre foi o samba de verdade e que, hoje, parece-nos sobrepujado por alguma tendência de moda que sufocou baluartes, espremeu sambistas natos, dissecou o tesouro das baquetas. O Império Serrano representa, na avenida, talvez o último elo de escola tradicional e forte que ainda evoca o samba derradeiro. A Serrinha, senhora do jongo, é também esse quilombo cultural de resistência às modelações do carnaval espetacularizado e igual. Sabemos, é claro, que é uma escola em processo também de modernização, mas seu anseio constante de liberdade é sua grandeza, é sua maior glória.
Lembremos de como ela se fez imponente, ainda caçula, quebrando um monopólio das grandes Portela e Mangueira, então reinantes.
Lembremos de como ela teve um ícone magistral do samba-enredo, Professor Mestre Doutor Silas de Oliveira, autoridade no assunto, e um samba chamado "Heróis da Liberdade" - das mais raras preciosidades da música mundial - que evocou sobremaneira a liberdade. Isso em tempos férreos de ditadura sisuda, onde todas as grandes cantavam e encantavam-se com a ditadura, e mestre Silas era chamado para depor ante a polícia do governo por ter em seus versos uma certa palavra "revolução" que nem sequer figurava no cardápio de permissões do governo controlador daquela época.
E teve mais: na abertura, vem novamente o Império Serrano gritar na avenida o brado do povo brasileiro, com seu "Eu Quero" de 1986 cuspindo cobras, lagartos, jacarés e marimbondos, a exigir nossos direitos:
"Chega de ganhar tão pouco / Chega de sufoco e de covardia / Me dá, me dá / Me dá o que é meu / Foram vinte anos que alguém comeu".
A "Coroa do Samba Sobre o Carnaval" teve, ainda, a coragem e a petulância de dizer, em plena avenida, a plenos pulmões, aquilo que todo mundo sempre quis dizer aos jurados, numa verdadeira aula de sua história e - por conseguinte - da história do samba em geral:
"Sou Império, sou patente / Só demente é que não vê / Do samba sou expoente /Abra meu livro, pois tu sabes ler"
("Fala Serrinha - A Voz do Samba Sou Eu Mesmo, sim, Senhor" - samba de 1992 por Beto Sem Braço, Jangada, Maurício)
Por tudo isso, por esse verde sem fim, por essa coragem de ser a escola da liberdade, quero saudar e parabenizar o Império de Bambas...escola querida a quem devo meu respeito, por ouvir em casa, desde menino, as canções do imortal Roberto Ribeiro, amigo de meu pai na quadra de Madureira.
Império de gente querida como minha amiga-madrinha Rachel Valença, como meu amigo-irmão Gabriel Castro, que tem ainda gente como Joacyr (o primeiro pesquisador de escolas de samba que conheci na vida, que virava noites comigo estudando o samba na juventude, hoje ritmista da escola), rainha das rainhas linda Quitéria Chagas, Fabrício Cruz tão querido, presidente Átila Gomes (um diplomata do samba, pessoa especialíssima)...salve, salve...parabéns, Império Serrano!!!
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Zoeira, Quilombola e Kizomba... A Império da Tijuca tem!
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 06/03/2013 17h55
Ainda sem poder esquecer a vitória e a ascensão do Império da Tijuca à elite do samba! Uma conquista suada e sambada...emocionante!
Finalmente pudemos ver o que, com todo respeito e sinceridade, não víamos há anos: uma campeã legítima no grupo de acesso. Ao contrário das "surpresinhas" anteriores, a escola do Morro da Formiga apresentou um belíssimo carnaval, emocionando a avenida com um enredo tão sublime e, ao mesmo tempo, de tão fácil entendimento.
Já em 2012, com o enredo "Utopias - Viagem aos Confins da Imaginação", do carnavalesco Severo Luzardo, a escola mostrava que tinha se cuidado e queria deixar uma aparência de quem pisava na avenida para competir, não apenas para passear. O cuidado plástico com as alegorias e fantasias (e eu tenho dito que Severo Luzardo ainda vai figurar num escalão dos carnavalescos consagrados já, já!) era notório.
Pois foi neste enredo "Negra, Pérola, Mulher", do carnavalesco Júnior Pernambucano, estreante na passarela do samba, que a escola tijucana novamente confirmou essas virtudes, fazendo-se faceira e imponente diante da Sapucaí.
Vale falar que Junior Pernambucano teve participação muito peculiar nessa aclamação. O samba - linda obra dos compositores Samir Trindade, Serginho Aguiar, Wallace Menor, Araújo e Alexandre Moreira - fez as vezes de incendiador do desfile. Mas Junior soube dar personalidade e assinatura ao belo conjunto de alegorias e fantasias que exibiu na avenida. O conjunto artístico exposto por Junior rememorou as tradições tijucanas de outra escola do bairro - o Salgueiro - em seu período áureo da dobradinha Fernando Pamplona-Arlindo Rodrigues, quando a temática africana idealizada pelo primeiro tinha execução primorosa em requinte pelo segundo. Analisei um conjunto de fotos do conjunto da escola, tiradas frontais às alas, e percebi o quanto Junior trabalhou bem a distribuição dos elementos e das cores nas formas dos carros, dando equilíbrio visual às esculturas. Nada parecia sobrar ou "tombar" um lado mais que outro. O visual era limpo, entendia-se cada alegoria mesmo à distância. Atrevo-me a opinar que, em dados momentos do desfile, Junior reviveu a eterna soberania de Arlindo Rodrigues na criação de alegorias para escolas de samba. Pensei nisso o tempo todo em que vi a escola verde-e-branco passar.
A comissão de frente da escola foi uma preciosidade. As mulheres vestidas de suntuosa fantasia, numa concepção simples (apesar do luxo na indumentária) e sem os exageros que assolaram o segmento nos últimos anos (e teve sua "apoteose de mau gosto" este ano, com os pavorosos tripés gigantes presentes em quase todas as escolas), foram uma sensação. Vencedoras do Prêmio SRZD de Melhor Comissão de Frente da Série A, permitiu que este colunista observasse de perto, e no detalhe, com que singeleza a arte é capaz de converter uma concepção simples em uma luxuosa apresentação.
Lembro-me dos dias de menino em que aprendi a admirar e ter um carinho especial por essa escola. Lá pelos anos 80, sambas-enredo como "Iara, ouro e pinhão na terra da gralha azul" 1982), "Se a Lua contasse (Homenagem a Custódio Mesquita)" (1985), "Viva o povo brasileiro" (1987), "Nosso Sinhô rei do samba" (1988) e o antológico "Tijuca, cantos, recantos e encantos" (lançado em 1986 e reeditado em 2006) me levavam a andar com os encartes dos LPs pela casa a decorar as letras e aprender o que seus enredos me ensinavam.
Parabéns, presidentes Te e Paulo Tenente, diretor de carnaval Thiago Monteiro, diretor de harmonia Alemão, Curupira (barracão), mestre Capoeira (bateria), mestre-sala e porta-bandeira Peixinho e Jaçanã, Odimar Silva (diretor de passistas) e Cristina Teles (alas de comunidade)!
Eu - nascido na Tijuca, criado na Praça XI, crescido no Irajá e com o coração azul de paixão carregado para Oswaldo Cruz e Madureira - rendo minhas severas saudações ao outro Império a quem tanto admiro. Não o glorioso Império que divide território com a Portela do meu coração, mas o Império da Tijuca...o tijucano..."em alto astral", cuja festa vai ter zoeira o ano todo...merecedor dessa conquista!
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Carnaval 2013: reflexões necessárias
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 15/02/2013 12h03
Acabou. Deu caldo. Mais uma grande festa se encerrou com a temporada 2013, cujas apresentações da Sapucaí este cronista acompanhou uma a uma - da maratona inconcebível da Série A ao Grupo Especial.
Foram 31 escolas de samba mostrando a que vieram. Uma campeã justa e emocionante em cada grupo - Unidos de Vila Isabel confirmando seu favoritismo e Império da Tijuca ascendendo em grande gala ao pódio das melhores. Foi glorioso! As duas estão de parabéns.
E muita coisa mais deve ser dita. Com tons de louvor e de crítica, cabíveis a cada circunstância.
A Avenida reservou-nos momentos gloriosos. Bailados inesquecíveis de mestres-sala e porta-bandeiras, cada vez mais difíceis de serem julgados na matemática obrigatória da pontuação. No Grupo Especial foi uma lavagem de ponta a ponta: os casais apresentaram-se todos com excelência. Não houve escorregões, nem roupas tortas, nem acidentes. Destaque para Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro, divinos, confirmando sua graça e leveza pela Imperatriz; Marquinhos e Geovana iluminados (independente das lâmpadas) na Tijuca, Selminha e Claudinho flutuando em arte pela Beija-Flor, Julinho e Rute em bailado de gala pela campeã Vila Isabel, a dupla Sidclei e Gleice na melhor apresentação de sua carreira pelo Salgueiro.
Pela Série A, além de Alex Marcelino e Raphaela Caboclo divinos pelo Império Serrano, eu destacaria três casais que me encheram os olhos: Diogo Jesus e Ana Carolina, esbanjando graça pela Acadêmicos da Rocinha, NIel Werneck e Alcione contagiantes pela Estácio e Nathalia e Rogerio Jr, exuberantes pela União de Jacarepaguá.
Algumas coisas precisam ser repensadas nos desfiles, acredito eu. A começar por esses tripés de comissão de frente, definitivamente tornados "inimigos públicos" em 2013. Até aqui ainda duvidávamos. Este ano, personalidades como Maria Augusta deram o pontapé na crítica precisa: os tais tripés viraram alegorias invasivas, que não apenas descaracterizam a função original de apresentar a escola como, de quebra, escondem o casal de mestre-sala e porta-bandeira e o próprio abre-alas da escola. Que tal se estabelecer, agora, o tamanho possível desse tripé, para que ele não se exceda e vire alegoria nunca mais?
Enredos de merchandising também soaram mal na avenida. Tipo: fazer propaganda de um festival de rock em lugar de contar a história do rock ou mostrar as novelas de uma emissora só em vez de contar a história da telenovela brasileira (cadê Os Imigrantes, que entrou pro Guiness como a novela mais longa da história? E Dona Beija? E Pantanal?). Ir à avenida pra ver marcas desfilando na nossa cara, me desculpem, é abuso de discurso. Ofende o bom senso de quem assiste. Assim como a ideia infeliz de reproduzir um discurso do governo em favor dos royalties do petróleo redundou no mais cansativo e pesado desfile dos quatro dias de sambódromo. Mas parece que nossos sábios julgadores, esbanjando isenção e bom gosto, decidiram premiar a escola e redirecioná-la ao desfile das campeãs. Quem deve estar feliz com isso é o governador do Rio, que não perdeu a oportunidade de fazer de uma escola de samba seu cabo eleitoral na avenida. Lamentável.
Das grandes, três precisam se repensar. Portela, Império Serrano e Mangueira têm que aposentar a ideia de que são gloriosas, imbatíveis, eternas, imorredouras etc... e que não precisam de barracão! Fizeram desfiles harmoniosos em chão de escola e emoção, sim, porque - doa a quem doer - até o ar que elas exalam na avenida, quando passam, é diferente. Mas não podem se manter num mar de alegorias retrógradas, recursos parcos, fantasias simplórias e expor tanto retrocesso. Digo isso com o amor e o respeito imenso que essas três gigantes merecem. O bom exemplo é o Salgueiro, quase tão antigo e tão tradicional quanto elas: remodelar-se, rejuvenescer, entrar no ritmo competitivo do carnaval. A permanecerem brigando só pelo nome, vão acabar sem nome, se bobearem...
A vitória da Vila foi também a vitória da simplicidade. Um enredo simples, um tema simples, um desfile leve, didático, de leitura fácil. Exemplo a ser seguido. O extremo oposto, por exemplo, da Caprichosos de Pilares, uma maravilhosa escola de tradicional leveza, com seu carnavalesco complicando tudo num enredo que parecia tese de pós-douturado em ciência! A comissão de frente com canibais fanáticos sacrificando uma mulata passista (por que logo uma passista???) foi, a meu ver, o pior momento do ano. O abre-alas com "sinapses elétricas e químicas"... bom, melhor nem falar.
Jurados erram muitas coisas e são absolutamente estranhos. Não pretendo perder muito tempo falando sobre o que me irrita, e eles me irritam muito. Por exemplo: o Diogo Jesus, excelente mestre-sala que eu citei anteriormente, teve duas notas 10, uma 9.9 e uma 9.6. O que foi que essa quarta nota penalizou que sequer passou diante dos olhos dos outros três colegas? Qual teria sido o critério do "quarto sábio"? O mesmo para as notas de Rogerinho e Lucinha Nobre, pela primeira vez tirando três notas abaixo de 10...só porque a escola era menor.
E as notas de samba-enredo? Por que não penalizam com a mesma dureza que as de alegorias e fantasias? Uma fantasia ruim é 9.4, mas um samba que nem é samba (no Especial, a maioria tinha refrões de grito de torcida organizada, pra serem berrados na avenida) tira um 9.9. Ou até um 10! Desaprendemos o que é samba-enredo! Qualquer coisinha animada que "descreva o enredo" é assim classificada, independente de sua pobreza melódica ou poética. Isso dói. Pra ficar claro: um monte de gente cantando um samba ruim não fará dele um samba bom. Deve dar boa nota de harmonia, não se samba. Samba ruim é samba ruim e ponto final. Cantado ou não cantado, deve ser julgado por sua qualidade própria.
Sobre passistas, cada vez menos possíveis de serem reconhecidos na avenida, em figurinos que nem de longe lembram malandros e cabrochas, méritos para a ala de malandros na comissão de frente e atrás da bateria da Portela. Obra e graça de Mestre Valci Pelé e Nilce Fran, bambas do regimento, comandando um naipe de craques como Guilherme Camará, Diego Nascimento, Flávio Portela e Anderson Costa, para citar alguns. Gabriel Castro elegantíssimo num terno verde-e-branco da nobreza imperiana. Bruno Diaz brilhando no Salgueiro e dirigindo os passistas da Renascer: sensacional sempre. Emoção: a volta triunfal de Malandrinho do Salgueiro, brilhando no Jacarezinho e abrindo o desfile da Sereno de Campo Grande como destaque de chão, foi um show à parte! Quem sabe de seus problemas, do acidente que sofreu e o tirou quase o ano todo das quadras, vibrou com seu show de talento e malandragem autênticas. O mestre Celynho Show e Serginho do Pandeiro imponentes como sempre na Mangueira. E craques do riscado como George Louzada (Mocidade), Cássio Dias (Beija-Flor) e Carlinhos do Salgueiro não me pareceram muito favorecidos com as fantasias (no caso dos dois primeiros) e a performance (no caso do último) que apresentaram na avenida. São muito importantes como representantes do segmento, preferível vê-los mais "a rigor".
O carro de som falhando na avenida é de uma vergonha sem par. É tanta punição pras escolas, tanto critério, tanta exigência da TV, tanto papo barato de que "exigimos um espetáculo"... e esse som cheio de cabos se arrastando em poças d’água, passando rente a grades de ferro (um passo pra um grande acidente!) falha grosseiramente no meio da festa. Quem é multado? Quem perde ponto? Quem é rebaixado na administração desse recurso essencial à festa?
No mais, saudamos o empenho dessa gente bronzeada, o lirismo de nossas baianas, a glória dos velhos bambas veteranos, a magia de nossos artífices dos barracões, transformando sonho em verdade, matéria bruta em delírio, fazendo a arte brotar do chão!
E que venham os desfiles de 2014! Com a mesma paixão de sempre. De preferência, começando a pensar, agora, no que já se pode melhorar para o próximo espetáculo.
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Apoteose de Cássio Dias: passista 'mangalarga do riscado'!
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 21/01/2013 13h25
Num dia de festejos emocionantes, com a glória e a arte dos passistas exaltada em sua legítima expressão e relevância na avenida, um fato "isolado" foi digno de nota. A passagem contagiante da Beija-Flor em seu ensaio técnico teve um grande momento, uma apoteose das tradições e da graciosidade do samba: a extraordinária apresentação de Cássio Dias, passista-show da escola de Nilópolis.

Com a graça e o talento que lhe são abundantes, Cássio foi colocado no encerramento da escola, como um legítimo príncipe do samba que despedia a Deusa da Passarela de seu séquito. Arrojado nos movimentos, misturando em sua evolução a riqueza ímpar da dança do samba com movimentos oriundos da dança clássica, Cássio impôs-se como um rei na passarela, e foi saudado efusivamente por uma plateia enlouquecida com as suas evoluções. Deram a ele um momento solo e ele então, na excelência de sua arte, brilhou e arrastou as arquibancadas em favor de sua escola. Bravo, bravíssimo, Cássio Dias!
Com esse gesto simples e raro de se ver na lógica atual dos desfiles, a Beija-Flor presta um grande serviço ao carnaval carioca, elevando ao patamar que lhe é devido a arte da dança do samba no pé. Encaixados em um desfile que se quer e se requer espetacular (por vezes, até, "espetaculoso"), os passistas - pouca gente sabe disso - não são, hoje, sequer uma exigência obrigatória das escolas de samba! Isso significa que, caso alguma delas decida, pode simplesmente eliminá-los de seus quadros sem sofrer qualquer punição por isso.
Pois a Beija-Flor de Nilópolis, com esse ato singelo e único, ao elevar um dos maiores passistas do carnaval a um lugar de destaque, reedita o que a Mangueira fazia anos atrás com o ilustre Gargalhada: dá lugar a um riscador de asfalto em ponto de destaque da escola. Com tantas musas, rainhas, artistas e celebridades espalhadas em suas alas, o espaço dos passistas acaba sendo uma ala comprimida e pouco percebida, raramente caracterizada com indumentária que lhe seja pertinente. O que, aliás, também deveria ser repensado e respeitado pelos carnavalescos e pela direção das escolas: fantasias que não lhes descaracterizem nem inibam sua dança.
Mas esse momento do ensaio técnico da Beija-Flor nos fez lembrar que nem tudo está perdido, e que nem mesmo a disposição para ser inovadora e revolucionária como essa escola tão categoricamente sabe ser no carnaval carioca, a impediu de celebrizar a glória dos passistas, essa arte singular de dançar com tamanha elegância.
E não podia ter sido de forma mais retumbante! Como convém a um regente, a um artista genuíno que encanta e entorpece a audiência, Cássio Dias foi emocionantemente aplaudido do começo ao fim, recebendo abraços e afagos dos presentes, sempre solícito, enquanto exibia sua dança elegante e seu gingado vibrante de autêntico sambista. Foi provavelmente uma das imagens mais marcantes dos preparativos para a grande festa de 2013! Um negro rei de passos mágicos transformando a passarela num palco, derramando sua arte, fascinando o público presente!
Nós, amantes da dança do samba, apaixonados por essa magia que transforma seres humanos em entes encantados capazes de nos transportar para outra realidade, aplaudiremos e reconheceremos a cartada certa da Beija-Flor, devolvendo ao passista o seu lugar de direito, de destaque, de valor singular nas tradições das escolas de samba.
Quer saber, escola de samba, o lugar do passista? Dê a ele, por um dia, a glória de um momento-solo, e então a resposta virá!
E aclamaremos o talento divinal de Cássio Dias, grande passista, mestre de cerimônias, rei negro da arte do samba, representante digno e valioso da classe, do segmento, da imponência dos mestres da cena, do riscado dos malandros sambistas da folia... que veio brilhar com a Beija-Flor..."valente, guerreiro, amigo fiel" do samba no pé!
Salve, Salve Cássio Dias! O "mangalarga do riscado" que alcançou o pódio pela Beija-Flor!
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"Quem és tu, passista?"
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 19/01/2013 11h56
Quem és tu, passista?
Que nome tu tens?
Quem és tu - chão de escola, alma de bamba, corpo encantado incandescente qual meteoro da galáxia samba, riscando o chão de estrelas da Avenida do Sonho, qual resplandecente astro celeste?
Quem és tu, passista?
Quem és tu, rosto na multidão, força de cadência desconhecida, sublime transgressão do corpo em rotações múltiplas de ginga e bailado, graça e poesia que o corpo desenha no chão, emprestando arte, suor, sacrifício, doação, amor e beleza, traduzidos em gingas, requebros e bailados que encantam multidões?
Quem és tu, malandro trabalhador, homem de bem, guerreiro do morro, gladiador do asfalto, negro ou branco, chapéu de lado, lenço no pescoço, poeta dançante que faz converter notas musicais e acordes de batuque em cortesia, elegância, dança contagiante, beleza sem par?
Quem és tu, mulata não-assanhada, mulher brasileira em primeiro lugar, sexo não-frágil, amazona da passarela, debutante do dia-a-dia, princesa encantada do castelo mágico do samba, fazedora de ventos com o tufão dos quadris que turbilhonam os caminhos por onde passas?
Quem és tu, passista - homem, mulher, malandro, cabrocha, menino, menina, branco, negro, rico, pobre, do asfalto, do morro, azul, verde, rosa, vermelho, branco, amarelo, preto - quem és tu, filho da dança, irmão do movimento, portador da poesia, ente alado do samba?
Quem és tu, estrela do cotidiano, gente simples que se veste de nobreza, de plumagem, de brilho, paetê, cor e fantasia, pra reinar soberano na passarela dos menosprezados, no conglomerado de artistas suburbanos do povo, na elite da arte mais expressiva e mais autêntica jamais inventada em nosso país?
Na grandeza de sua arte, de sua genialidade, de seu papel fundamental nos meandros do samba, saudamos teu rosto suado
Teu rosto de largo sorriso
Teu rosto de alma pura e brasileira
Teu rosto que passa, imaculado e oculto
No meio desse povo, no meio dessa RAÇA que se chama... "ESCOLA DE SAMBA!
*Esta crônica é um trbuto ao Dia do Passista, promulgado com a Lei Municipal Valci Pelé, comemorado neste dia 19 de janeiro. Salve os poetas que riscam o chão de samba na avenida!
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Escolas de Samba e Caos Financeiro na Era do Patrocínio
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 16/01/2013 13h31
Quando todo mundo elogiava essa era vendilhona dos enredos patrocinados, escrevi e tive a oportunidade de propagar, em alguns vídeos e debates, críticas sobre a forma descabida (publicidade em vez de patrocínio) com que os gestores de carnaval estavam fazendo as coisas. Procurei fazer alguma distinção entre mercadologia e modernidade, subserviência e investimento, descaracterização cultural e apoio financeiro.
Muita gente não entendeu. Ou fingiu que não entendeu.
Pois bem, no "apogeu" do falso mecenato, a realidade grita nos barracões: um monte de escolas de samba ditas patrocinadas sendo massacradas pelo descaso dos investidores, com barracões à míngua e condições tão adversas que nem nos tempos de barracão escalpelado e apertado foram enfrentadas.
Confundiram uma invasão distorsiva de princípios culturais com uma possibilidade de mudança. Acreditaram no discurso imposto da espetacularização, na "escola-de-samba-empresa". Mais uma vez, o elemento negro (se considerarmos a escola de samba um quilombo representativo de vertentes culturais afro-brasileiras) viu-se subjugado pela ótica do senhor feudal que lhe impunha enredos distópicos, temas forçosos, uma verdadeira chibata cultural. Pior que isso: agora virou "trabalho forçado", porque os enredos chegam do jeito que querem, exigem parte a parte como querem ser apresentados, mas fazem mil concessões. E, apesar de toda essa dominação, deixam as escolas de samba à míngua. Ou porque recuam as verbas destinadas ou porque não se preocupam com a forma como elas são administradas. De um jeito ou de outro, o elemento patrocinador acaba isentando-se de responsabilidades. E o que vemos são escolas de samba passando por grandes apertos financeiros, contrariando a lógica de que o patrocínio é a salvação do samba.
Não é! Vamos parar com isso! Vamos parar de repetir o discurso inflamado de quem não conhece chão de samba, suor de samba, gente de samba, alma de samba! O que salva o samba não é esse dinheiro que subverte a história, a tradição cultural e os valores das escolas! A subvenção pública dada a cada uma delas deveria ser o teto - com prestação devida de contas, enxugando excessos e sem hipervalorizar exageradamente uns em detrimento de outros -pois é suficiente para se fazer grandes carnavais. O problema é que impuseram uma estranha necessidade das escolas de samba se agigantarem, se tornarem monstruosamente ricas. Isso é uma balela! Que a televisão acabou impondo como regra, da mesma forma como indiretamente impôs a atriz de novela como rainha de bateria e escondeu os passistas do cenário principal da festa. A transmissão de televisão só quer vender uma imagem escultural, alegórica, cenográfica. Que todos nós também amamos e consideramos importante, mas muito - infinitamente! - menos relevante do que os bambas, a melodia, a poesia, a ginga, a dança, o riscado livre e improvisado dos dançarinos e cabrochas geniais do samba.
E se hoje vemos escolas de samba com mais patrocinadores e mais dívidas, é mais do que a hora de repensar tudo, sentar, conversar, reprocessar esse modelo. Tem muita rede de televisão, não é preciso se submeter a nada. Tem muito patrocinador, não é preciso se permitir escravizar por esse ou aquele. E tem muita gente fazendo pouca coisa para que essa realidade se modifique, infelizmente.
Tive alguns convites para visitar barracões na Cidade do Samba e conferir tudo isso, mas preferi uma abordagem genérica, reflexiva, sobre o tema em geral. Não vou citar nomes nem exemplos para não ferir instituições ou pessoas. Mas o carnaval 2013 nos trará surpresas. E não serão boas, não estarão de acordo com o que nos prometeu a pretensiosa "era dos patrocínios".
Uma realidade que, doa a quem doer, precisa ser urgentemente repensada. Ainda que fure os bolsos de muitas pessoas... fazer o que, né?
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Passistas na Roda de Samba: A Arte de Riscar o Chão
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 26/12/2012 00h36
Quadra da Portela. Madrugada de sexta-feira para sábado. Após apresentações arrebatadoras de segmentos da anfitriã, da Estação Primeira de Mangueira, da campeã Unidos da Tijuca e da fortuita Mocidade Independente de Padre Miguel, um grupo de passistas - com o famoso mangueirense Fábio Fully na roda - iniciava, discretamente, atrás do box da bateria, uma roda de desafio.
A roda de passistas, que abre em meio à quadra e apresenta seus malandros sambando em encenações provocativas, é uma tradição do samba que merece nota e registro. Nesse tipo de apresentação peculiar, que sempre atrai olhares e contagia os passantes, a dança do samba é expressa em sua forma mais características: no improviso, no talento individual, no charme e na provocação encenada dos artífices que, durante o jogo de cena, reproduzem as velhas e históricas rixas de malandros da Lapa boêmia do início do século passado. Só que, graças a Deus, sem nenhum propósito de violência. Muito pelo contrário: exaltando e celebrando, com graça e arte, a elegância e a confraternização do samba.
É bonito esse ritual de elegância sem par dos malandros passistas alinhados e bem vestidos, trajando as cores de suas bandeiras, num desafio que nada mais é do que a camaradagem entre as escolas, expressa na alegria da dança, traduzida na celebração da roda. Cada malandro exibe seu incrível repertório de passos e provocações cênicas. As respostas e tempos de respostas variam de acordo com a marcação da bateria ou com as sequências de improviso de cada participante. Nessas rodas, percebemos a originalidade do samba: os malandros passistas não repetem os passos: eles criam - uns inspirando aos outros - seu repertório, e cada um acaba interagindo de forma participativa com os outros. É uma roda de aprendizado, e normalmente os mais experientes (no caso da roda citada, Fábio Fully) ditam o ritmo do desafio da dança até mesmo enquanto assistem, sem dançar, aos desafios dos demais.
Lembro-me de ter aprendido com um de meus professores mais importantes na vida, o eterno mestre Roberto Moura, um pouco mais sobre a dança do samba e a ginga dos passistas. Segundo ele, a origem de tudo isso está nas rodas de samba realizadas nas casas de antigas baianas festeiras como Tia Ciata, na eterna Praça XI. Também baseada nessa leitura da manifestação artística, a tese Samba aqui, samba ali, samba acolá: análise das novas configurações do samba como construtor e demarcador identitário de gênero e raça entre as sambistas no Rio de Janeiro e Pelotas, do pesquisador Thiago Passos, nos esclarece um dado importante sobre as rodas de passistas nas escolas de samba:
"Para que o samba possa ser entendido como produtor de identidades, devemos pensar como base de investigação os locais onde se processa essa criação e re-significação constante, ou seja, as rodas de samba, sejam elas em terreiros, casas de shows, botequins ou clubes sociais, pois mesmo esses locais sendo tão diversificados, todos esses eventos possuem o nome de roda, uma categoria genérica de configuração altamente simbólica que ultrapassa uma simples reunião baseada na manifestação de cantar e sambar assumindo a função de índice de identidade."
Ou seja, as "rodas" representam, no samba, muito mais do que uma apropriação de espaço físico para apresentação artística: elas evidenciam a identidade do samba, sua afirmação. Meu encanto, meu regozijo, minha admiração e meu registro de uma roda de passistas masculinos elegantes e faceiros como aqueles - de Mangueira, Portela, Unidos da Tijuca e Mocidade - no evento de sexta-feira passada. É um retrato fiel e autêntico da verdade do samba, da exponência de seu valor único como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
E nós - jornalistas, imprensa, mídia, redes sociais, sites, blogs e todos os comunicadores - deveríamos dar mais ênfase e maior cobertura aos sambistas de chão, riscadores de asfalto, passistas malandros. São esses artistas que encantam, abrem rodas nas quadras, atraem olhares. E muitas vezes têm pouco ou nenhum reconhecimento da grande mídia ou dos setores que mais se interessam na comercialização do samba empacotado como "carnaval" do que na riqueza cultural e na tradição genuína das escolas de samba.
É hora de prestigiarmos, lutarmos, mantermos, preservarmos a tradição da roda de passistas, nossos extraordinários artistas brasileiros, geniais no improviso, espetaculares na vocação, tarimbados na disciplina... é deles este espaço, devemos a eles o privilégio do samba!
E que as escolas e a organização dos desfiles nunca lhes neguem o respeito, o carinho, o valor e o destaque merecido! E nunca nos privem de apreciar essa arte tão singular e emocionante dos malandros e cabrochas, passistas e mulatas... salve Valci Pelé, Nilce Fran, Fábio Fully, Carlinhos do Salgueiro, Tina, Vania Vulcão, Pelezinho, Fernanda Cristina, Rhuanderson, Danuza do Salgueiro, Flávio Portela, Nathalia Araújo, Mayombe Masai, Malandrinho do Salgueiro, Marinaldo, Guilherme Camará, Jerônimo, Nega Pelé, Soninha Capeta, Careca do Império e todos os que eu não citei porque não cabem, mas estão na roda e na constelação: salve, salve!!!
Abram alas para os passistas! Abram a roda, abram espaço! Salve os malandros poéticos dos desafios de samba!
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Leonardo Bessa lança CD com DNA Salgueiro
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 07/12/2012 00h26

Diz a letra do samba-enredo que, no Salgueiro, "seus trovadores são poetas da canção". A corte salgueirense apresenta, assim, a voz de um de seus intépretes, Leonardo Bessa, com seu álbum de estreia , "Parece Um Sonho".
O cantor e compositor, um dos mais respeitáveis e reconhecidos da nova geração do samba, deu sequencia a um mote de onde vieram nomes de peso como Jameão, Roberto Ribeiro, Dominguinhos do Estácio e Neguinho da Beija-Flor:
"A ideia é mostrar que os intérpretes de samba-enredo também podem cantar outro tipo de samba" - explica Leonardo, que despontou para as escolas de samba em 1986 na escola mirim Alegria da Passarela, o embrião do que hoje conhecemos por Aprendizes do Salgueiro.
Tendo nas veias o DNA de seu pai, o maestro Reginaldo Bessa, Leonardo nasceu em casa de bamba e fez jus ao legado. Além de ser uma das vozes oficiais da Academia do Samba na avenida, emprestou seus dotes vocais de intérprete para uma outra vertente: a romântica.
"O cd é de sambas românticos. mas também há espaço para os pagodes mais agitados" - anuncia Leonardo, que começou a carreira de intérprete em escolas de samba no Arranco do Engenho de Dentro em 2004, tendo passado ainda pela São Clemente antes de chegar ao Salgueiro.. Mas, fugindo do lugar comum do "neo-pagode" que impera nas rádios, Bessa abriu espaço em seu repertório para letristas refinados como seu pai Reginaldo Bessa em parceria com o genial Nei Lopes (Amor de Fevereiro) e o poeta Delcio Carvalho (Fragmentos). E ainda dois nomes fortes em disputas de sambas-enredo nas quadras cariocas: Sivio Paulo e Espanhol.
"Além deles, algumas composições são minhas e também do Xande de Pilares, Gilson Bernine, André Renato e Sereno. Foram praticamente dois anos de trabalho. foi tudo feito com muito cuidado e carinho. Os músicos foram fundamentais, sem eles nada disso seria possivel" - reconhece, com humildade, o artista.
Mas, como bom trovador vermelho e branco que é, Leonardo não podia deixar de prestar tributo à sua escola de coração. É emocionante a sua regravação do hino clássico de Branca Di Neve, o samba exaltação "Salgueiro é a Minha Raiz".
O álbum "Parece Um Sonho" terá um show de lançamento em janeiro, em data e local a serem marcados, mas já está à venda nas lojas e também no site da gravadora www.saladesom.com.br
"O CD tem um pouco do meu jeito de ser. Tá bem suave de se ouvir e curtir" - diz Leonardo. Quem conhece seu jeito alegre e carismático não duvida disso. Salve os mestres do Salgueiro!
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'Ases do Samba': Ás de Ouros - Julinho Nascimento (Vila Isabel)
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 23/11/2012 14h23
Sabedoria. Intuição. Fé.
Reverência aos antigos, referência para os novos.
A maestria do Ás da dança se reflete na serenidade, no trato, na doçura.
A elegância do bailado do negro esguio, com porte de príncipe, inigualável classe, traduz-se na firmeza das palavras, na impostação clara e serena da voz com que nos fala e revela seu íntimo, seu ouro, sua paixão.
Vida e ritmo ligados ao seu ofício.
Caminhos ditados pela crença infalível saída de um coração forjado no ouro da preciosa fé.
O cetro, o bastão, o cajado: artefato simbólico do legado e da tradição que fazem parte da indumentária desse guardião encantado do pavilhão do samba.
Classe e nobreza na dignidade do samba. Jóia rara, artista de quilate.
Ouro!!!
Julinho Nascimento é o ÁS DE OUROS que encerra esta série ASES DA DANÇA DO SAMBA!
A FÉ QUE MOVE MONTANHAS

"Estude, para você nunca se humilhar. Nem por causa do samba, nem por nada nesta vida. Humildade e simplicidade! Você deve ser respeitado pelo que você é, não pelo que você faz!". A lição de vida do pai ficou. Ele acreditou. E, pela fé, trilhou os caminhos que o levaram à consagração.
Júlio César da Conceição Nascimento olha pra a vida que está vivendo como quem acorda de manhã e abre uma janela com vista para o sol. "Estou feliz. Família, profissão, amigos, escola de samba, projeto social. É um momento em que Deus está me abençoando e eu sou grato!" - afirma.
Julinho veio de uma família de bambas ligados ao samba. Sua mãe, Dona Delza, foi integrante da antológica comissão de frente de mulheres apresentada pela Imperatriz Leopoldinense em 1970. Sua madrinha é ninguém menos que Vilma Nascimento, a grande porta-bandeira da Portela, considerada "o cisne da passarela". E seu pai, Eusébio Nascimento - o famoso Velha da Portela (autor, dentre outros sambas, do clássico portelense de 1974 "O Mundo Melhor de Pixinguinha") -, Cidadão Samba 1983, rememorando o título também concedido a Paulo da Portela. Linhagem de príncipes negros do samba. Julinho veio com porte, atitude e elegância de príncipe. Não raro, é o que se vê na dança, no sorriso e no trato. Forjado desde cedo para ser assim...


Fé. Força que vale ouro. O menino de ouro entendeu que sonhos poderiam se tornar realidade quando, aos 16 anos, recebeu um telefonema de sua madrinha.

Após peregrinar pelas escolas mirins Corações Unidos dos CIEPs e Alegria da Passarela (hoje Aprendizes do Salgueiro) e ter nascido junto com a Tradição, onde já era segundo mestre-sala, o jovem mestre-sala atendeu à ligação. Era Vilma Nascimento. "Você não dizia que queria dançar com a dindinha? Eu escolhi você para dançar comigo!". O mestre-sala Paulo Roberto saía da escola e Julinho era escolhido para ser o primeiro. As palavras redesenham o sentimento daquele momento na narrativa do Ás.
Oportunidade de ouro. Bailar ao lado da premiadíssima Vilma parecia ser o prenúncio de que Julinho também encantaria a avenida. Ali, ao lado do mito, viu-se na trajetória de maravilhar a Sapucaí à altura de sua companheira.
Brilhou 15 anos pela Tradição, até desfilar em 2006 e 2007 pela Unidos do Viradouro. E se encontrar, em 2008, com o pavilhão onde se consagraria. Bairro encantado, banhado de afeto. A Vila mais melódica do Brasil. Aquela que tem "um feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém que nos faz bem", como rezam os versos de Noel. Pisou no chão de ouro daquele lugar de paixão e contemplou: coroa, ouro, azul e branco. Eis a Unidos de Vila Isabel! A escola dos poetas do Boulevard, do lirismo de Noel, do "negro rei Martinho" o encantara. Ali, seus pés de arauto da dança riscariam as calçadas musicais mais famosas do mundo. Ali Julinho receberia um presente: a amiga e parceira Rute. Seus pés escreveriam, com arte e poesia, novas partituras no chão de sua escola. "Eu entro na Marquês de Sapucaí e minha missão é proteger e cortejar o pavilhão da Vila. Se eu perceber que a Rute está bem, que ela está feliz, o resto é consequência" - afirma.

Mulheres de ouro enriqueceram o tesouro de sua vida. A mãe Delza, a madrinha Vilma, a companheira Rute. E esse tesouro do Ás se reflete na paixão com que fala de Cláudia, sua esposa e "companheira da vida toda", como diz. Cláudia deu-lhe de presente um novo tesouro, Jorge Henrique. E está grávida do que será a segunda herança do amor entre ambos, Pedro Henrique, esperado para dezembro deste ano. Um amor que, mais uma vez na vida de Júlio, o fez percorrer caminhos de luta, aprendizado e fé.

"Sempre acompanhamos a procissão de São Jorge no mês de abril. Minha esposa estava grávida em 2007 e perdeu o bebê no dia 21 de abril, data em que meu pai fazia aniversário de morte. Por conta de seu repouso, perdemos, pela primeira vez, a procissão daquele ano. Logo depois, Cláudia engravidou e nosso menino Jorge Henrique nasceu no dia 23 de abril do ano seguinte, no dia de São Jorge!" - conta o Ás de Ouros, ciente de que um milagre traçou seu destino.

Premiadíssimo, reconhecido, respeitado. Mas fiel à lição original de humildade que seu pai plantou como semente no coração. Assim, Julinho formou-se em Educação Física, concluiu seu curso com um tese sobre a dança do samba e hoje compartilha seus conhecimentos com um trabalho social na Vila Olímpica Clara Nunes, em Acari, próxima ao Quilombo do mestre Candeia. Fala de samba, ensina futebol. Inspira meninos a serem cavalheiros de ouro como ele é.

Legado dos sábios. Que ele, ao carregar sempre o bastão como adereço, procura associar às lembranças daquilo que o originou:
"O mestre-sala, com malemolência e malandragem, tem que ter a imponência de um rei. Ele conduz a dança, como um autêntico cavalheiro a cortejar sua dama. O cetro é símbolo da realeza. Devemos ter a elegância de um lorde!" - revela, sem deixar nenhuma dúvida.
Nele reside a elegância. Ele é o lorde. O Ás de Ouros, apaixonado e feliz, na avenida da fé, da vida e do samba!
O CARTEADO DO ÁS DE OUROS
Ofício de mestre-sala
"Sou de uma família de sambistas, onde meu pai, o saudoso Velha da Portela, meu espelho e maior ídolo, me ensinou a sambar o "miudinho" e suas variações. Sou afilhado de Vilma Nascimento, e desde garoto sonhava que um dia seria mestre-sala e dançaria com minha madrinha, a quem sou eternamente grato por minha primeira oportunidade e de ouro, e aos ensinamentos que obtive ao seu lado. Além do mais, na década de 80, acompanhando meu pai quando compositor da Imperatriz Leopoldinense, tive a oportunidade de frequentar aos ensaios e assistir a inúmeras exibições de Chiquinho e Maria Helena, exemplo de garra e amor pelo pavilhão e cumplicidade de um para com o outro.
Preparação
"Procuro me cuidar fisicamente durante o ano, pois acredito que um bom desempenho no desfile, no que pese o aspecto técnico, tático e psicológico, está diretamente ligado a uma boa condição física. No dia do desfile me dedico ao repouso, uma boa alimentação, às minhas orações, à família (minha esposa Cláudia, meu filho Jorge, minha mãe, irmãos, ...), às orientações de Marcelo Misaillidis e Dani Marie, e as inúmeras reflexões com minha amiga, irmã, parceira e cúmplice de bailado, Rute Alves."

O que pode x O que não pode
"O mestre-sala não pode esquecer que o casal, e muito menos ele, não estão acima e/ou à frente do pavilhão. Sendo assim, não pode dançar para si, abandonando sua 'dama', a qual tem a honra direta de conduzir o símbolo maior de uma escola de samba. O mestre-sala não pode nunca deixar de proteger, cortejar, circundar e conquistar sua porta-bandeira e consequentemente seu pavilhão, sempre provido de garbo, imponência, maestria e simpatia."
A Dança dos Pares
"Na minha opinião, o entrosamento do casal está diretamente ligado ao tempo de parceria e de ensaio, mas ao mesmo tempo acredito que o entrosamento pleno está ligado, além desses dois aspectos, à alquimia e cumplicidade da dupla, onde por presente de alguém ou algo maior é concedido ao par. Particularmente, eu e Rute buscamos incansavelmente alcançar ou merecer atingir este estágio em nossa dança."

Jurado sabe julgar?
"Acredito na seriedade do curso e nas orientações que os jurados recebem para o julgamento/avaliação dos quesitos. Acredito também que somos seres humanos passíveis de erros e acertos, sucessos e insucessos, de certezas e incertezas. No que pese o saber julgar, não por uma questão de competência ou incompetência, mas pela situação conflitante de, no momento de avaliar, o julgador ter como principais instrumentos de avaliação a objetividade técnica exigida pelas obrigatoriedades e a subjetividade peculiar ao aspecto artístico do quesito naquele momento singular da apresentação do casal. Com relação a mudanças, se pudesse acrescentaria alguma forma de compensar o desempenho do casal quando da interferência direta de fatores externos e inerentes ao desfile, prejudicando-o em sua exibição frente às cabines julgadoras. Por exemplo: óleo diesel ou produto similar na pista de desfile e intensidade do vento provocada por algum tipo de aeronave."
O que falta?
"Não creio que falte espaço, pois o samba é abrangente por essência e oferece inúmeras possibilidades e oportunidades, e pelo nível de estrutura e organização atingido pelas agremiações, independente do grupo, região ou estado da federação, seria apenas uma questão de momento e oportunidade, e este sambista, de uma forma ou de outra, estar preparado para tal."
Meu Ídolo, Meu Espelho
Não poderia deixar de citar dois grandes ícones do bailado de mestre-sala, dos quais sempre fui fã: o Mestre Delegado e o Mestre Élcio PV. Aproveito a oportunidade para agradecer a dois grandes sambistas que foram fundamentais em minha iniciação: o Machine e o saudoso Jorge Paes Leme.
O Desafio de Conduzir o Pavilhão
"É um momento ímpar, onde a ficha começa de fato a cair, onde agradeço a Deus e peço-Lhe a benção para desempenhar o meu verdadeiro papel de proteger, tranquilizar e transmitir alegria e confiança a minha "parceira de fé" Rute Alves. Juntos por essa reciprocidade de defendermos com garra, maestria e elegância o pavilhão da Unidos de Vila Isabel.
Símbolo que, como todos os outros, traduz a história da agremiação, suas lutas, conquistas e glórias, sua gente, que se faz representar por aqueles cerca de 4.000 componentes que vêm logo atrás de nós dois e de nossa comissão de frente, depositando muita confiança em nosso trabalho."
Do Coração de Um Ás da Dança do Samba...
"Seria entender o porquê dele estar lá, e uma vez conscientizado disto, aceitar o fato de que tal estágio só foi possível de ser alcançado porque alguém o fez antes dele, tendo reconhecimento ou não, mas certamente deixando de alguma forma um legado, o qual temos hoje por compromisso e obrigação, preservar e repassar às próximas gerações, com respeito, amor e muita dedicação."

Criação/Reportagem/Texto: Hélio Ricardo Rainho
Editora Responsável: Luana Freitas
Arte: Simone Marçal
Pesquisa sobre acervo pessoal dos entrevistados
Leia as outras matérias do quadro 'Ases do Samba':
- 'Ases do Samba': Ás de Paus - Diogo Jesus (Rocinha)
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'Ases do Samba': Ás de Copas - Phelipe Lemos (Imperatriz)
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 16/11/2012 11h39
Substantivo: paixão.
Vocação: seguir os caminhos do coração para trilhar um ideal.
Phelipe Lemos abriu os olhos e enxergou um pavilhão. Queria dançar, evoluir, bailar em direção à moça que o conduzia. Aprendeu desde cedo que a arte tem por premissa o princípio da superação. Pôs a mão sobre o peito e achou, dentro dele, um instrumento singular, individual, de ritmo personalizado: o batimento cardíaco.
Condensou em seu íntimo dias de sorrisos e festa com outros de lágrimas e frustração. O menino nascido e criado na dura realidade brasileira viveu seus dias de infância no Morro Boa Vista, no bairro Fonseca, cidade de Niterói. Foram 21 anos dentro daquele espaço, até que a enchente de 2010 destruiu o lugar e acabu com a casa que o abrigara.
Viu a casa cair, mas não permitiu que, com isso, o sonho descesse ladeira abaixo.
Assim, no compasso de seu próprio coração, no ritmo interior da bateria que se impunha e reverberava dentro de seu próprio peito, enlevou-se em paixão e fez-se artífice e artista de sua arte singular. Desse coração, fortalecido e apaixonado pela seiva do samba, surge o naipe de copas que caracteriza e justifica a escolha do dançarino para personalizar o terceiro Ás desta série.
Consagrado, reconhecido. Menino soberano da Imperatriz do samba.
Phelipe Lemos é o ÁS DE COPAS desta série ASES DA DANÇA DO SAMBA!


UM CORAÇÃO QUE SONHA
Lágrima de sambista é semente de árvore frondosa.
Phelipe Lemos regou com amor e esperança os sonhos que o fizeram descer o morro e engrandecer a festa do carnaval com sua arte. Era ainda menino quando, nas rodas de samba da escola local - a Acadêmicos do Cubango - encantava-se com o bailado mágico dos cavalheiros elegantes a cortejarem lindas moças portadoras de um pavilhão. Seus familiares freqüentavam a escola e, com isso, o ar que o menino respirava era samba. "Íamos todos juntos, porque meus pais, avós e amigos desfilavam em uma ala da comunidade. Eram integrantes que levavam seus filhos para desfilarem em alas" - conta. Envolveu-se com a ala de crianças e, no ano seguinte, já estava na ala de mestres-sala da escola.
Dentro do peito a paixão falou mais forte. Seguindo o caminho do coração, o menino Phelipe deu sequência a uma caminhada frutífera de aprendizado e sonho: foi para a ala de mestres-sala e porta-bandeiras da Porto da Pedra, foi mestre-sala mirim da Escola de Samba Mirim de Petrópolis, defendeu a Golfinhos da Guanabara (da qual menciona a época de ouro do saudoso Sérgio Murilo), foi terceiro mestre-sala da Alegria da Zona Sul em 2005 e primeiro na escola de samba capixaba Independentes de Boa Vista.

O menino Phelipe permaneceu na escola da Zona Sul até o ano de 2007, quando teve a alegria de ser o segundo casal dos antológicos protagonistas Maria Helena e Chiquinho durante dois anos consecutivos. A trilha continuou no ano de 2008, quando foi segundo mestre-sala da União de Jacarepaguá e da Renascer de Jacarepaguá. "Quem vê essa carinha aqui não acha que eu já dancei por tanta escola e passei por tanto lugar. Aprendi muita coisa!" - brinca o Ás de Copas, com ar travesso de menino.

A essas alturas, o brilho e a desenvoltura do dançarino do samba reluziam ante os olhares atônitos das escolas do Grupo Especial. Seu talento, sua elegância caracterizada por passos de incrível leveza, pareciam conduzi-lo a novos patamares. No íntimo, dentro de seu coração forjado em paixão, desenhava-se o Ás de Copas que figuraria, tão cedo, na lista dos melhores do carnaval. Phelipe fez um teste na quadra da Unidos de Vila Isabel. Tinha sonhos. Tinha paixão. Venceu o concurso para segundo mestre-sala e, ali, conheceu sua grande parceira no samba, Rafaela Theodoro.
Mas, como diz o poeta Chico Buarque, "a vida gosta de uns ardis". No auge de sua felicidade, uma fatalidade ameaçou tirar do rosto de Phelipe o sorriso que encantava a passarela do samba. As chuvas do ano de 2010 causaram uma das maiores tragédias no bairro do Fonseca. Misto de acidente natural com criminoso descaso das autoridades, a região foi assolada por uma enxurrada cujas águas trouxeram abaixo a casa de Phelipe. "Graças a Deus não houve vítimas. morávamos quatro famílias no mesmo quintal. Logo que as casas caíram, uma das famílias foi morar em uma casa que estavam construindo há algum tempo e as outras dividiram juntas uma outra casa. Depois disso, minha família foi morar em Itaboraí, em uma casa que na época era de um amigo. Hoje conseguimos comprar essa casa!" - conta, emocionado.

Humilde. Mas não menos vitorioso. A grande lição que aprendeu cedo com os pais Cláudio e Mônica. "Queria homenageá-los nessa matéria. Porque passei por várias barreiras e eles nunca me deixaram desistir. Eles sempre me ensinaram que ‘com humildade se chega no topo, e com humildade se permanece nele". Era do coração que saía a motivação para o passo seguinte. Riscar a vida era como riscar o chão: escrever/ desenhar, com os pés e a emoção, o caminho a ser percorrido.

No ano de 2010 veio um convite que a princípio lhe pareceu duvidoso. "O mestre-sala Toninho e meu pai tinham umas brincadeiras de passar trote. Acreditei, ao receber a ligação do (diretor) Wagner Araújo para ser primeiro mestre-sala da Imperatriz, que tinha alguma coisa a ver com aquela brincadeira entre eles" - diverte-se contando. Nem mesmo a ligação da porta-bandeira Rafaela parecia tê-lo convencido. Até que uma ligação do diretor de carnaval Júnior Schall reiterando o convite o levou, de fato, a ser o primeiro mestre-sala de uma escola. O brasão real da Imperatriz Leopoldinense teria, por defensor, o Ás de Copas Phelipe Lemos.

De realeza em realeza, dos caminhos do coração aos dias de gala na Avenida Principal. Uma trajetória fundamentada em amor e superação. Em lágrimas que se convertem em sorriso. Em passos destemidos que, em ritmo de samba, percorrem as trilhas da vida.
O CARTEADO DO ÁS DE COPAS
Ofício de mestre-sala
"Tudo começou em uma festa de família, precisavam de alguém para dançar como mestre-sala e, mesmo sem saber o que era, eu aceite e gostei da nova ‘brincadeira’. Desde cedo muito ligado em carnaval, procurei o que significava e o que fazia um mestre-sala. Então, em 1998, dei meus primeiros passos exercendo a função em uma escola de samba. A partir daí não consegui mais parar de AMAR essa arte..."
Preparação
"Minha preparação não tem mistério nenhum. Durante o ano pratico esportes, em especial meu futebol ‘sagrado’. Para manter a forma, faço um trabalho de academia, nada muito pesado para não perder minha leveza. Conto também com o apoio de uma coreógrafa bailarina, que ajuda em minha postura e auxilia em alguns passos. No dia do desfile fico concentrado com minha porta-bandeira e nossos familiares assistindo a alguns vídeos de apresentações nossas e de nossos colegas de profissão, para que o objetivo maior seja alcançado."

O que pode x O que não pode
"Acho que um mestre-sala dança e ou evolui em função da sua porta bandeira, e isso é uma regra básica da dança: jamais dançar ignorando a porta-bandeira ou até mesmo dando as costas para ela. E o principal de tudo: o cortejo nunca pode faltar!"
A Dança dos Pares
"Tudo vai depender muito da cumplicidade do casal. Entrosamento é uma coisa que adquirimos com confiança, se não houver confiança entre o casal não tem entrosamento. Claro que uma parceria eterna é excelente, mas mesmo os parceiros eternos têm que ensaiar para que esse entrosamento se aprimore sempre. Em minha opinião, a confiança é a base e o ensaio a estrutura. Sem isso, certamente o entrosamento não acontecerá!"
Jurado sabe julgar?
"É uma questão muito difícil saber ou não saber julgar. Só acho que devem ser usados os mesmo critérios para todos os casais e, em algumas vezes, isso não acontece. Digo isso porque alguns casais evoluem da mesma forma em meu ponto de vista e a nota vem diferente. É a minha opinião."

O que falta?
"Não vejo que falta espaço para esse profissional, pois, assim como na música, a dança também abre as portas para todos. Mas acho que cada um tem que criar sua identidade. Sabe-se que nada se cria e tudo se copia, mas copiando com personalidade, adequando tudo da nossa forma, dentro do nosso estilo de dança."
Meu Ídolo, Meu Espelho
"Tenho vários ídolos a quem admiro muito. Meu primeiro ídolo foi Toninho, mestre-sala da época na Porto da Pedra. Veio dele a minha inspiração para a dança. Sou fã do trabalho do Julinho (Vila Isabel), do Claudinho (Beija-Flor) e do Raphael (Mangueira)! Antes sonhava ser um deles e hoje me vejo como companheiro de trabalho deles... isso é muito gratificante pra mim!"
O Desafio de Conduzir o Pavilhão
"É um orgulho imenso defender esse pavilhão da Imperatriz Leopoldinense, que um dia foi defendido por Maria Helena e Chiquinho, casal mais que consagrado na passarela! Toda vez que penso nisso vejo que meu sonho não poderia ser realizado de melhor forma... desfilar entre os maiores casais de mestres-sala e porta-bandeiras e ainda em uma das maiores instituições do carnaval. Não poderia haver realização profissional melhor que essa!"
Do coração de um Ás da Dança do Samba...
"Acredito que, quando fazemos algo de coração, o ressarcimento é o prazer. Mminha dica é que, antes de pensar em reconhecimento financeiro, pense que você ama essa arte e que dinheiro nenhum no mundo vai fazer você deixar de amá-la! Dance sempre com o coração, e o reconhecimento profissional e financeiro aparecerão conforme o merecimento."
Criação/Reportagem/Texto: Hélio Ricardo Rainho
Editora Responsável: Luana Freitas
Arte: Simone Marçal
Pesquisa sobre acervo pessoal dos entrevistados
'Ases do Samba': Ás de Espadas - Fabrício Pirez (São Clemente)
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 10/11/2012 12h05
Disciplina. Força. Concentração.
O guerreiro em pose de combate.
Precisão felina, olhar centrado. Cada movimento é milimetricamente testado, medido.
A maior virtude desse guerreiro não está no corpo: está na mente.
O golpe mais preciso, a cadência mais correta.
A elegância. Postura e porte de quem está pronto para o combate.
Destino: andarilho. Vocação: guerreiro.
Fabrício Pires Bernardino protagoniza este segundo capítulo da série sobre uma história recente da arte dos mestres-sala na Avenida Principal.
Desde cedo, bem menino, trocou de cidade, conheceu o mar, aprendeu a manejar o sabre, escolheu a sua filosofia, desenvolveu a habilidade da arte marcial. Como um passageiro da vida a percorrer trilhas em busca de novas aventuras, desbravando caminhos proibidos.
Um dia viu a dança do samba. Precisou lutar para dela se aproximar. Precisou da disciplina dos grandes mestres para se concentrar e dominar seu alvo. Apropriou-se do ritmo, da cadência. Dominou a dança marcial do samba africano!
Da arma branca que representa o naipe de espadas no carteado do baralho está a simbologia desse Ás da dança. Sim, da espada, símbolo da disciplina para a luta, do brado guerreiro dos grandes vencedores que dizem a que vêm.
Fabrício Pirez é o ÁS DE ESPADAS desta série ASES DA DANÇA DO SAMBA!

GUERREIRO DESBRAVADOR
Filho de militar. Destino de aventureiro. Ainda menino, aos 10 anos de idade, Fabrício deixou a cidade-modelo Brasília, onde nasceu, e desembarcou na Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro para iniciar uma história marcante. A memória do exímio mestre-sala do novo milênio guarda reflexos de lembrança do garoto cor de cacau que saía da escola efusivo, fascinado com a ideia de tirar o uniforme e cair no mar.
A praia da Princesinha do Mar desenhava e coreografava seu delírio infantil. As ondas, em seu vaivém, quebravam e lhe traziam lições: cair e levantar, submergir e vir à tona. O quebra-mar ensinou ao corpo as modulações e a postura firme que, mais tarde, encantariam as quadras e passarelas com a graça de sua dança. Seu destino parecia traçado nas ondas de prata do mar azul da baía de Guanabara.
De Copacabana, fez a triagem necessária para se enamorar do samba verdadeiro: foi conhecer o suingue do subúrbio. Aportou no Méier. Perto dele, debaixo do viaduto de Pilares, juntou-se a uma seleta do samba que tem por alcunha um adjetivo que remete ao capricho.
Fabrício Pirez chegara à Caprichosos de Pilares. Fascinado por aquele universo de luzes, cores e sons, o ainda menino Fabrício chegava com a família na quadra, mas queria algo mais. Queria fazer parte do brilho, do colorido, do barulho. Fabrício não queria mais tão somente "ir à festa": ele queria "fazer a festa"! Impossibilitado pela tenra idade, mesclava-se aos ritmistas para aprender o manuseio dos instrumentos cujo som reverberante o fascinava e intrigava.
Antes disso, porém, lá pelos oito anos, enamorou-se de uma arte marcial. Ao ver os amigos comentando que praticavam esta ou aquela modalidade de luta, procurou entregar-se à curiosidade, pesquisar e escolher a sua. "Um dia fui assistir a uma aula do tal Kung Fu e foi paixão à primeira vista" - conta. Apaixonou-se pela filosofia e pela metodologia do Kung Fu. Desenvolveu-se, dominou a técnica. Fez-se mestre, instrutor. Foi bicampeão brasileiro e campeão sul-americano na Argentina. Hoje é referência e inspiração para os meninos que instrui.

E foi essa luta, esse âmbito de lutador, que inflamou desde cedo o Ás de Espadas, o revestindo de armadura de guerreiro do bem, para batalhar por algo mais. A disciplina, o equilíbrio do corpo, a postura e a consciência com que praticou e dominou a mais performática das artes marciais conferiram a Fabrício duas características marcantes de seu trabalho: o movimento corporal e o porte elegante.

O menino não desistiu: ele queria mais. O Ás de Espadas queria dançar. O Ás de Espadas queria o samba.
Vestiu a "faixa branca". Com o surgimento das escolas mirins, tornou-se o primeiro mestre-sala da Inocentes da Caprichosos em 1992 e na própria Caprichosos como o segundo. Brilhou ainda na Unidos do Cabuçu, no Acesso, além de passar pela Imperatriz.
Fabrício era, enfim, faixa preta no ofício. Brilhou durante anos na Imperatriz Leopoldinense. Até vencer um concurso na quadra da Portela e ser primeiro mestre-sala da Majestade do Samba. Junto dele, Cristiane Caldas, alvo de sua admiração mais fremente. Juntos, os dois encantaram a realeza: dançaram para deslumbramento da rainha Margrethe II, da Dinamarca.

O jovem mestre-sala sabe reverenciar os amigos e os antigos. É engajado, apregoa uma ética entre os companheiros de ofício. "O meu primeiro professor foi o Machine, sindico da passarela. Um grande mestre!". E cita, em suas conversas, o eterno Manoel Dionísio, professor dos professores, referência desse riscado. "O trabalho dele é ímpar e extremamente significativo. Se ele não tivesse sonhado anos atrás com o projeto certamente não teríamos nem metade dos talentos que temos hoje" - pontua. Defende as tradições da dança, o reconhecimento do bailar original dos pares. Dispõe-se a discutir e a refletir sobre o trabalho que faz.
A filosofia do Kung Fu, que ensaia e redesenha movimentos de animais, está nele como símbolo de sua paixão por animaizinhos como sua pequena Kiki, a cachorrinha de estimação tratada por ele e pela esposa Marcela como "filha". No entremeio desta entrevista, Kiki passou por delicada cirurgia de fratura na cabeça do fêmur. O Ás sofreu, lutou. Fez de tudo, comovido. Kiki recuperou-se. A gratidão a faz, muitas vezes, trocar o ar condicionado do quarto fechado para sair atrás dele, no rigor do verão carioca. Pelo simples prazer de estar do lado de seu zeloso cuidador...

Do simples ao sofisticado. Fabrício Pirez teve infância de luta - "nunca fui abastado" -, mas superou as adversidades no tatami da vida, enfrentou desafios, perseverou. Hoje, definiu seu estilo. Gosta das quadras, de sorrir pra gente simples, de instruir meninos. Mas é adepto da sofisticação que a vida lhe proporcionou, como viajar e abraçar lugares como Nova Iorque - a Big Apple - quase uma cidade-síntese de seu jeito de ser. Zeloso com a aparência, não com "as aparências". Transparente, elegante e requintado no gosto, como facilmente se percebe nos modos e na apresentação. Impecável, sempre!


O Kung Fu ensinou-lhe uma harmonia interior que, na passarela do samba, é sua nota 10, sempre. "O que mais trago do Kung Fu é o preparo psicológico, a calma, o equilíbrio para encarar a Sapucaí e toda sua grandiosidade" - afirma o guerreiro, mesclando as vocações. O s estrela brilhou na Mocidade Independente de Padre Miguel, o astro resplandeceu na Porto da Pedra (o tigre chinês do simbolismo marcial?!) e conduz, agora, a bandeira da irreverência e da ousadia na provocativa e charmosa São Clemente.

O CARTEADO DO ÁS DE ESPADAS
Ofício de mestre-sala
"Acho que, na verdade, fui escolhido para o oficio de mestre-sala. Eu era bem moleque, participei de uma pequena seleção para escolher um dançarino mirim... eu nem sabia do que se tratava, mas fui. Chegando lá, o único que não sambou fui eu. Achei muito louco aquilo: a molecada sambava muito e eu apenas sorria com os braços abertos olhando para o alto com um gingado diferente. Fui escolhido! Depois entendi que mestre-sala não samba..."
Preparação
"Me preparo com alimentação adequada e exercícios específicos. Agora estou com um trabalho muito legal de funcional e com uma nutricionista também. No dia do desfile, apenas descanso, pois todo o trabalho já fora realizado o ano todo. Procuro ficar sozinho, celular praticamente desligado."
O que pode x O que não pode
"Mestre-sala nunca pode sambar e realizar uma evolução que o coloque em uma concepção individual. Existe a porta-bandeira. Devemos dançar para ela e em função dela!"
A Dança dos Pares
"Ensaio é a base de tudo! Porém, se não houver uma mínima empatia entre o casal, fica praticamente impossível. Passa sempre algo fake! Um bom casal precisa de tempo para o perfeito entrosamento e associação das pessoas com a figura deles dançando juntos."
Jurado sabe julgar?
"O julgamento é muito subjetivo e nesse sentido fica difícil entender a concepção de dança de cada julgador. Nós temos uma ideia do estilo que cada jurado gosta, mas nunca sabemos se vai agradar aos olhos deles. Penso que o mais importante de tudo é realizar um grande desfile, apresentar-se de forma que o momento do casal na avenida seja impar. A nota é consequência!"
O que falta?
"Acho que, em um espetáculo tao grande como o carnaval, a função do mestre-sala e porta-bandeira ainda é pouco entendida. Tem muita gente que nem sabe ainda a função da dupla. O carnaval, como um dos maiores legados de nossa cultura, ainda precisa dar mais espaço para os casais. Por vezes vejo estampado nos grandes jornais a rainha de bateria tal, a musa tal fez isso ou aquilo. As pessoas não têm ideia do que passamos e trabalhamos durante o ano todo; na madrugada, às vezes, em condições adversas. A mídia carnavalesca melhorou muito, nos deu maior visibilidade, mas ainda falta espaço."
Meu Ídolo, Meu Espelho
"Tenho poucos e bons modelos, mas vou citar o Mestre Peninha, que, para mim, é o maior da história."
O Desafio de Conduzir o Pavilhão
"O momento do desfile é mágico e me ver na função de guardião do pavilhão oficial da escola é um misto de orgulho e responsabilidade. Defender uma escola tem que ter cabeça boa, preparo e sangue frio. Tem muita gente que chega na hora do 'vamos ver' ali na avenida e trava. Se a cabeça não vai bem, o corpo também não. Até chegar o momento na frente do jurado no desfile oficial, passamos por muitas situações boas e ruins. O bom é que sempre os melhores momentos são tão mágicos que suplantam os ruins."
Do Coração de Um Ás da Dança do Samba...
"Minha dica do coração é acreditar em si e ir em frente. Tive alguns alunos na minha época de Portela, uma garotada do projeto de lá , que hoje em dia estão despontando aos poucos aí no cenário . Daqui a alguns anos serão grandes mestres-salas. Sempre dizia: acredite e vá!"

Criação/Reportagem/Texto: Hélio Ricardo Rainho
Editora Responsável: Luana Freitas
Arte: Simone Marçal
Pesquisa sobre acervo pessoal dos entrevistados
- 'Ases do Samba': Ás de Paus - Diogo Jesus (Acadêmicos da Rocinha)
'Ases do Samba': Ás de Paus - Diogo Jesus (Acadêmicos da Rocinha)
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 01/11/2012 13h57
Artista, menino, sonhador.
Diogo Conceição de Jesus, um capítulo que abre esta série sobre uma história recente da arte dos mestres-sala na Avenida Principal.
Neste universo mágico de reis, astros e personagens antológicos do carnaval, há lugar também para meninos. Meninos que descem a ladeira, que percorrem o asfalto e convertem lágrimas de emoção em desejos a serem realizados. Em meio ao peso das armações, ao manto de paetês e pedrarias, plumagens e artefatos que escondem almas e corações, há lugar para meninos como Diogo Jesus deitarem sonhando e acordarem realizando a obra gloriosa de brilhar na passarela do carnaval.
Menino de olhos apertados e largos anseios, um sorriso aberto de quem resolveu encarar a dureza da vida com um cativante e irrepreensível carisma. Quem sabe a ginga do dia-a-dia não tenha sido o ponto de partida para defender tão soberanamente a glória de seu pavilhão?
Da árvore que representa o naipe de paus no carteado do baralho está a simbologia desse Ás da dança. Sim, da árvore, símbolo da semente que deu fruto, que irrompeu tempo e trouxe a genealogia do samba em suas veias.
Diogo Jesus é o ÁS DE PAUS desta série ASES DA DANÇA DO SAMBA!
DNA SAMBA
Diogo tem raiz! A árvore de onde saiu o fruto ficava logo ali, na Capital do Samba. Veio de Madureira, terreno fronteiriço onde as duas potências do samba - Império Serrano e Portela - aproximaram seus QGs, saindo de seus territórios originais (Vaz Lobo e Oswaldo Cruz, respectivamente) para engrandecerem a pujança dos carnavais. Criado entre o prazer da Serrinha e o sino de São José, ouviu muito cedo o batucar de jongos e a cadência dos partideiros dividir sua família entre o verde da Coroa Imperial e o azul da Águia Guerreira. Irrompeu a avenida pela primeira vez ainda na barriga da mãe Valdirene, que tocava chocalho na Tabajara do Samba. A avó Dulcinéia, baiana da escola, foi quem o influenciou, levando-o às rodas de samba por ela frequentadas. Foi ela quem o incentivou a descobrir a sua vocação e fazê-la prevalecer como destino no samba.
Desde cedo acompanhando familiares, envolveu-se com a dança do samba. Entre 3 e 5 anos estudou no Projeto do Galo, tradicional escola de mestre-sala e porta-bandeira em Madureira. No Império do Futuro, foi segundo mestre-sala quando o casal principal - Alexandro e Deusiane - eram seus irmãos. Ali ficou até os 12 anos de idade.
Desfilou pela Portela, sua escola de coração, pela primeira vez no ano de 2000, com um enredo sobre o ex-presidente Getúlio Vargas cujo samba falava de um "Brasil menino pintado em aquarela". Quando Osni, irmão de Wilma Nascimento, criou a Filhos da Águia - escola-mirim da Portela - em 2004, a aquarela do menino ganhou, finalmente, as cores azul e branco para defender. Foi intérprete, mestre-sala, ritmista e chegou a ser passista na Portela.
Até ser convidado para defender o pavilhão de uma escola nova e inovadora, jovem e sonhadora como ele mesmo no panteão dos desfiles. As asas de águia continuaram batendo no Grupo Especial, onde é 3º mestre-sala na sua Portela ao lado companheira de pavilhão Jeane, sua fiel companheira nessa trajetória, motivo de carinho e orgulho para Diogo. Mas outras asas - de borboleta - da Acadêmicos da Rocinha lhe deram espaço também no Acesso, onde ele e Ana Carolina Valle formam o primeiro casal.

Diogo cresceu contemplando a arte de outros ases desse carteado. E cita, em suas referências, gente do naipe do grande Carlinhos Brilhante, do extraordinário Claudinho do Império Serrano e do eterno Charles Eucy. Com eles, aprendeu a procurar toda aquela felicidade que a dança lhe proporciona e está estampada em seu rosto.
"As coisas mudaram muito no carnaval depois do profissionalismo. O dinheiro não é a maior recompensa do samba. Posso ser o terceiro mestre-sala e me sentir realizado pelo simples fato de estar dançando dentro da minha casa" - filosofa.
Autêntico, reflexivo, pensante. O Ás de Paus que deu samba tem como trunfos a fé e o sorriso de menino. O que mais vem por aí?

O CARTEADO DO ÁS DE ESPADAS

Ofício de mestre-sala
"Na verdade, o que eu penso sobre isso é que a gente não escolhe ser: a gente nasce sendo. Como no meu caso. Eu nasci mestre-sala! Já fui intérprete, passista, ritmista na bateria. Mas, na verdade, meu sonho sempre foi este: dançar. E é o que eu mais sei fazer!"
Preparação
"Todos nós, mestres-sala, nos dedicamos bastante. E eu me preparo sempre me apegando à minha fé. Primeiro em Deus, que está acima de todos nós e depois nas minhas crenças no dia a dia. Quando acaba o carnaval, já temos que pensar no próximo. tirar o que foi negativo e aprimorar o que foi bom. No dia do desfile eu procuro estar bastante concentrado em minha coreografia para não deixar nada em branco e procuro também não me estressar para não levar isso para o meu desempenho na Marquês de Sapucaí."
O que pode x O que não pode
"O mestre-sala, hoje em dia, está preso em coreografias. Não podemos fazer muitas coisas. Mas o primordial, o que podemos dizer de mais importante, é pedir que o MS não deixe a tradição fugir! Precisamos estar sempre ligados ao passado para que, lá na frente, possamos dar um passo longo . O cortejo é a base de tudo, além, é claro, da proteção ao pavilhão."
A Dança dos Pares
"São poucos os casais de mestre-sala e porta-bandeira que ficam bastante tempo juntos, porém o ensaio é a base de tudo. Mas é preciso tempo para o entrosamento fazer parte do casal. Não é da noite para o dia que os dois estarão bem para encarrar uma avenida. Podemos dizer que o tempo é o remédio para as dores. Temos que parar para pensar e ver que podemos, sim, mas é preciso querer vencer e estar apto a isso. Tempo e ensaios são palavras iguais para mim: um depende do outro."
Jurado sabe julgar?
"Como artista dessa dança, eu colocaria julgadores que fossem, de fato, sabedores da dança do mestre-sala e porta-bandeira, não esses jurados bailarinos do teatro ‘tal tal tal’. Não sei bem o que eles pensam. Pessoalmente discordo da forma julgadora. O que significa, por exemplo, dar uma nota 9.9 e dizer que ‘faltou algo mais’???"
O que falta?
"Não acho que nos falte nada. Estamos prontos para exercermos a nossa arte. O que nos falta é os profissionais já qualificados, os que ‘dizem melhor’, sem precaverem contra um certo mal estar no mundo do samba, valorizando a classe. Assim, os "maiorais" nos olharão com outros olhos, nos respeitando e nos oferecendo qualidade de vida. Fazemos o que sabemos e temos que ser bem remunerados por isso."
Meu Ídolo, Meu Espelho
"Julinho da Vila Isabel é o meu maior ídolo. Cresci o vendo dançar na Tradição. Então, hoje, se ele está no lugar em que está, é com muita luta e responsabilidade. Ele é muito bom profissional e uma ótima pessoa."
O Desafio de Conduzir o Pavilhão
"Na hora em que estamos lá na avenida, passa um filme em nossa cabeça. Os momentos de luta, de choro, de dores, de alegrias. Passa um filme longo e o que podemos fazer é transformá-lo em um trabalho digno de aplausos."
Do Coração de Um Ás da Dança do Samba...
"Minha dica a quem está começando é que tenha muita sabedoria, pés no chão, nunca tentando passar por cima do outro, sendo sempre o mesmo do inicio ao fim. Para que, lá na frente, você possa ser recompensado quanto ao seu trabalho. Não desejar o mal a ninguém, DEUS acima de tudo. Então Ele verá sua luta e saberá o agradar na hora certa."


Criação/Reportagem/Texto: Hélio Ricardo Rainho
Editora Responsável: Luana Freitas
Arte: Simone Marçal
Pesquisa sobre acervo pessoal dos entrevistados
O valor de um samba-enredo
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 14/10/2012 22h31
Muito se discute, na atual conjuntura do carnaval, a "estrutura de desfile", a "festa dos protótipos", o "cronograma de produção da escola" e outras milongas estéticas e administrativas do gênero. A bem da verdade, todo o conjunto de procedimentos para efetuar um carnaval de boa performance deve ser levado em conta. É claro que tudo isso é de extrema relevância para o desempenho de uma agremiação na avenida. Ninguém duvida, ninguém contesta.
Mas a grande realidade é que, antes de mais nada, uma agremiação é uma escola "de samba".
Acho que posso repetir ou frisar para melhor ser entendido: não é uma "escola de alegoria", nem "escola de enredo", nem "escola de gestão", nem "escola de estrutura". É fundamental e visceralmente uma escola DE SAMBA!
Acontece que o país vem passando por um processo (irreversível?) de emburrecimento musical. E isso nada tem a ver com nostalgia. É fato. Desde as trilhas sonoras de novelas até os hits do momento e as músicas de maior vendagem no país, percebe-se um descarado constrangimento do gosto musical brasileiro ano após ano. Estamos consumindo e "admirando" (eu diria "proliferando", porque me parece um mau gosto viral) as piores composições, as piores letras, os piores intérpretes... o lixo musical esparrama-se dia e noite na mídia, e todo mundo finge que é bom e consome. Você vai a uma churrascaria e encontra um Frank Sinatra, porque na loja de discos e na casa de shows só tem bagaço!
Essa lógica invertida de decomposição musical prestigiada parece tentar invadir o terreno das escolas de samba.Fizemos aqui um debate sobre os enredos e algumas pessoas se ofenderam ou não entenderam que nossos critérios tentaram privilegiar duas coisas fundamentais na escola de samba: o componente e o compositor. Um enredo visto apenas sob a lógica de sua execução é um enredo limitado. Explico: se um enredo dá boas fantasias mas não inspira uma ala de compositores e não emociona a comunidade, não é bom enredo. É egoísta demais pensar num enredo que pode dar asas à imaginação do carnavalesco e desprezar a ala de compositores. Converse com os compositores, veja quantos deles estão satisfeitos com as sinopses que andaram recebendo. Claro que estou me referindo aos compositores de verdade, não a uma turma que parece ter nascido junto com esse novo movimento, que só visa o "sucesso" e a "parceria da moda", sem ter vínculo real com a raiz das escolas...
A sinopse que vai para as mãos de um compositor fala muito da forma como a escola o trata. Sinopses confusas, bagunçadas, ou abordando temas frios e sem emoção, denotam um descaso, um desrespeito com a ala dos compositores. É como se os bambas do ofício, ou mesmo os novos valores das quadras, fossem esses músicos a que me referi no início da coluna - os "novos astros da MPB", que cantam qualquer coisinha com duas onomatopeías e saem por aí vendendo milhões (de dejetos musicais) para uma massa hipnotizada.
Não. Não é por aí!
A escola é de samba! E esse samba se aprende na escola!
Neste momento em que as escolas definem seus hinos oficiais, perceberemos a distância abissal entre as que escolheram enredos profundos, arraigados em sua identidade, e as que passearam na "criatividade" e no "patrocínio" (que, como tenho dito, muitas vezes nem é patrocínio: é pura propaganda!). Há sambas dignos de nota - como, de tacada, se podem citar Portela e Vila Isabel. As duas escolas repetiram a cartilha do ano passado: enredos com a cara e a alma de sua comunidade. Não vamos discutir, neste momento, a necessidade óbvia e inquestionável de um barracão à altura. É claro que o desfile não é só samba-enredo. Mas também é claro que não é só o resto. Estrutura sem alma ou alma sem estrutura: nenhum dos dois é válido, mas o que estou falando é que enredo não é relevante apenas por sua execução, mas fundamentamente por sua concepção. A execução acontece só em fevereiro. A concepção acontece agora: motiva componentes, inspira compositores, emociona torcedores, alavanca legionários... é por meio dela que as coisas acontecem.
Infelizmente o samba-enredo ficou submisso a uma visão mercadológica de enredos que poucas vezes o permitem alcançar seu patamar de dignidade e destaque. Temos hoje uma novela das seis na televisão que vem comovendo o país não só por contar a história do samba, mas por ter, em sua abertura, um dos mais belos sambas-enredo de todos os tempos, obra-prima da Imperatriz Leopoldinense. Que exemplo de dignidade a ser seguido! E só nasceu porque adveio de um lindo tema, de um lindo enredo. Executado, sim, com extraordinário primor, campeão nota 10 em todos os quesitos no ano de 1989. Mas que tinha um samba que não se perdeu no tempo: está aí, na antologia dos dias atuais.
Esperamos, ainda, que nossos bravos jurados saibam considerar a diferença entre os bons e os maus sambas com a mesma pretensão com que parecem saber diferenciar casais de mestre-sala e porta-bandeira, alegorias, baterias e outros quesitos mais. E que não se repita a vergonha que foi feita com o Império Serrano na reedição da Aquarela do Brasil, em 2004, quando seus quesitos plásticos foram despontuados em comparação com as outras e não vimos a escola da Serrinha ganhar notas muito superiores em samba-enredo, quesito onde ela estava anos-luz à frente das demais com a obra antológica de Silas de Oliveira.
Enfim, este é um brado em favor dos compostores. Os únicos capazes de nos resgatar a primazia de ouvirmos um samba-enredo de verdade...
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Mestre-sala e Porta-bandeira: a honra de conduzir a alma da escola
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 24/09/2012 19h17
Certa vez, ainda bem jovem, quando costumava passar muitas noites nas quadras de ensaios da Portela e do Império Serrano, tive uma experiência inesquecível. Estava eu com o amigo Joacyr, a primeira pessoa com quem comecei a estudar mais profundamente escolas de samba, quando entramos em um ônibus da linha 774 e vimos, sentada no banco atrás do motorista, a saudosa porta-bandeira Juju Maravilha.
O comentário do amigo Joacyr eu nunca mais esqueci: "Isso é um absurdo! Uma figura ilustre e graciosa como Juju dentro do ônibus e ninguém avança para pedir autógrafo!".
Pois é. Houve um tempo em que as figuras ilustres do samba, gloriosas e dadivosas como elas só, não eram essas celebridades de hoje em dia.

Não tinham cachês vultosos, não eram capas de revista. Reconhecidas por sua glória nos desfiles, sua glória era apresentar e conduzir o pavilhão da escola. Não recrimino o profissionalismo, pois acho que todo artista que derrama seu suor na avenida deve ter a devida paga de seu valor. Mas hoje eu fico perguntando a mim mesmo: quanto tempo durará o casal da escola tal à frente de sua bandeira?

Foi a São Clemente, em seu grito-desacato no antológico "E o samba sambou!", quem deu as cartas desse jogo:
"O mestre-sala foi parar em outra escola / Carregado por cartolas do poder de quem dá mais" - bradava em versos de protesto.
Os tempos são outros. Polpudos cachês inspiram não só a migração, mas também (pior ainda) o aliciamento e a rasteira. Já que a vida tá dura pra geral, ninguém pode negar uma boa proposta e ficar ali, plantado, enraizado no lugar onde nasceu. E já que "quem pode, pode", também não custa nada balançar um saco de moedas para tentar seduzir quem já está empossado. Essa não é uma crítica a pessoas, mas uma leitura reflexiva de um sistema que - felicidade para uns, tristeza para outros - aí está e não pode mudar.

Mas, se o viés crítico existe, a poesia não morre. E sobrevive. Graças a Deus. Pois é de arte, não de tristeza, que esta coluna se propõe a falar. Rememorei aquela cena de Juju Maravilha sozinha, quase invisível, em um ônibus para Madureira, para lembrar que é grande a responsabilidade de conduzir o pavilhão da escola na avenida. Ainda que, fora dela, quem ali se reveste de tamanho vulto possa parecer um ilustre desconhecido. O antropólogo Roberto DaMatta falou sobre a associação entre a escola de samba e a procissão, comparando a virgem do altar à mulata do carro alegórico. Pois eu entraria nessa fatia do bolo com uma outra analogia: a bandeira da escola de samba, no desfile, é a epifania da procissão. Ou seja: é a manifestação da divindade.
O desfile - todo o desfile! - muda a cada ano. A cada ano, de acordo com um enredo, veremos carros e fantasias diferentes. Mas o pavilhão, a bandeira da escola, é sagrado: invariável, imutável. O momento em que a bandeira da escola é conduzida elegantemente pelo casal é, ou deveria ser reconhecido como tal, o ápice do desfile.
Todo mundo passa. Todos os carros passam. A bandeira, não. Ela não muda. Nunca. As gerações futuras e vindouras ostentarão, por cada escola, a mesma insígnia que os dançarinos de agora apresentam. É nesse ato simbólico de condução e apresentação da bandeira que a verdade, a identidade e a marca da escola estão presentes. A bandeira da escola é o espelho que reflete seu rosto. A escola, de fato, "chega" quando a bandeira passa!
Olhar para o casal de mestre-sala e porta-bandeira e vê-los bailando, flutuando como cisnes em um lago (ou como "o beija-flor cortejando a flor", na definição clássica de Wilma Nascimento) é um momento de grande reverência do desfile. Temos a arte da dança, a riqueza da indumentária, a simpatia e a graciosidade do convite ao público para saudar a escola. A verdadeira emoção do componente, o lastro de história e verdade de uma escola de samba estão ali, impregnados naquela metragem de pano onde o símbolo e as cores da escola estão devidamente representados.

E, para conduzi-los e apresentá-los ao povo, o divino casal cumpre as honras de sacerdotes da festa. Ela, linda, princesa da noite, adornada com pedrarias, iluminada e reluzente como uma estrela que enfeita o céu. Ele, de porte altivo e elegante, um príncipe cortês e diligente que majestosamente conduz a dama e, com ela, o estandarte. Em seus rostos, o sorriso e a alma de quem enverga a verdade da escola!
Sob esse ponto de vista, é quase leviano imaginar que um momento tão digno e tão glorioso como esse possa ser submetido a juízo crítico, a nota de jurado. Imaginem isso... nessa leitura divinizada da passagem da bandeira da escola, quem estaria efetivamente habilitado a julgar o momento em que a divindade se manifesta em meio à procissão? Quem estaria, afinal, capacitado para distribuir notas diferenciadas para as muitas escolas de samba que ali passam, justamente quando elas fazem aquilo que lhes parece mais digno de reverência e admiração, que é a exposição de seu pavilhão diante da multidão?
Então que esta coluna possa, com muito carinho e respeito, prestar uma grande homenagem a esses artistas extraordinários e apaixonados, encantadores e resignados, a esses elegantes personagens do maior espetáculo da terra que nos proporcionam o momento extasiante e incomparável em que os pavilhões das escolas são apresentados para deleite do povo!
Obrigado, Juju Maravilha, por reviver nesse texto que só nasceu porque lembrei de você! Obrigado ao eterno professor-mestre Manoel Dionísio, dono do meu respeito e gratidão. E minhas saudações especiais aos "quatro ases da dança do samba" - Fabrício Pirez, Phelipe Lemos, Diogo Jesus e Julinho Nascimento - que, breve, estrelarão uma série que estou preparando para este espaço no SRZD-Carnaval.
Vida longa aos nossos mestres-sala e porta-bandeiras (todos, de todos os grupos e lugares!), os donos da "epifania" na "procissão do samba"!

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A polêmica dos enredos 2013
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 25/08/2012 21h22
Esta semana tive o prazer de gravar, nos estúdios do SRZD, com os companheiros de ofício Claúdio Russo e Rachel Valença, um vídeo com debate sobre os enredos das escolas do Grupo Especial para 2013. A tarde foi muito agradável e a conversa, ainda mais.
Antes de mais nada, é bom que se diga que essa função de "crítico" é das mais complicadas do ramo. Findo o trabalho, ficamos todos com aquela impressão: teríamos sido injustos em algum comentário? Pretensiosos? Pouco informados sobre algum detalhe que poderia renortear nossa opinião?
Sim, porque essa função de analisar debater e criticar é sempre muito complexa. Procuramos estabelecer critérios que privilegiassem as escolas de samba em si para opinar, então, sobre os enredos por elas escolhidos. De minha parte, prezados leitores, já antecipo que não sou dono da verdade nem manifesto minha "opinião pela opinião". Quando dou meu crivo pessoal, não o dou levianamente: exponho argumentos (e argumentos, eu bem sei, podem ser contestados). Somos todos, como diz aquele samba da Portela, "amantes e meninos sonhadores das escolas de samba". Amamos e respeitamos todas elas! Então jamais nos levantaríamos contra as escolas. Muito além disso: a crítica é para privilegiar as escolas em detrimento daquilo que não é samba e tenta se impor dentro do samba!
Antigamente não existia patrocínio. Era proibido. Lá pelos idos de 90 veio a liberação. Com ela, a confusão. Porque, como disse no debate, posso afirmar com autoridade - sendo publicitário e pós-graduado em Marketing - que a maior parte do que temos visto por aí não é patrocínio, é publicidade! Não estamos vendo empresas financiando enredos, estamos vendo empresas fazendo propaganda delas mesmas dentro dos enredos!
A escola de samba virou um outdoor! Samba-enredo virou jingle! Já vimos o samba que teve que falar da marca de computador, de leite condensado, da cerveja com número e tudo. De minha parte, acho um profundo mau gosto. E pior: essas empresas ainda não se deram conta de que a propaganda forçosa é um tiro no pé? Eu recomendaria que fizessem uma pesquisa: quantas pessoas acharam simpático o samba-enredo que vendia seus produtos na avenida? Sendo ou não puristas, tradicionalistas ou o que quer se seja, todos admitirão: é feio! Vai na contramão das tradições do samba.
Parece que, ano após ano, os enredos têm se tornado ainda mais publicidade do que patrocínio. A onda agora já não é mais falar do produto, mas anunciar a marca. Sim, a marca é o enredo. E vejam vocês o autêntico "samba do crioulo doido": uma escola faz um enredo sobre uma marca de cerveja, mas a emissora que transmite o desfile precisa baixar o áudio no refrão do samba, porque o anunciante de cerveja da TV é um e o que "patrocina" a escola é outro!
Gente, isso é vergonhoso!
As escolas de samba são e não são culpadas disso. Digo que não são porque a atual lógica dos desfiles e dos jurados só proporciona algum sucesso a quem tem dinheiro. Uma lástima, mas é verdade. Jurado gosta de luxo, Joãosinho Trinta!!! Mas não o luxo que o mestre ensinou. Porque Joãosinho nunca revolucionou nada pelo luxo do patrocínio, mas pelo luxo na concepção estética. Tanto que, além de consagrar a Beija-Flor como deusa da passarela em luxo e riqueza, maravilhosa escola que é, mostrou que poderia ser genial vestida de lixo... e foi! Hoje, enredos patrocinados tentam injetar nas escolas a criatividade luxuosa que Joãosinho Trinta tirava de suas mãos, de suas ideias, de suas sucatas. Diferença gritante...
É preciso que não se confunda críticas como esta a "purismo", "conservadorismo" etc. Não é.
Continuar acreditando que as escolas de samba têm vida, têm alma, têm discurso próprio, têm uma comunidade que as representa, não é "coisa da antiga". Quem quer alguma coisa diferente disso, que vá ao teatro, ao cinema. Escola de samba tem história, tem legado, tem raízes. É uma manifestação cultural. Eu não posso pegar o Bumba-Meu-Boi, a Festa do Divino, o Frevo e o Maracatu e transformar em outdoor. Nota zero para os publicitários, inclusive, que abusam de sua atuação e fazem isso. Patrocínio em escola de samba tem de ser igual em teatro e cinema: sem interferir nem querer aparecer no roteiro! Bote o dinheiro que quiser, distribua a marca nos ensaios, nas paredes...mas não dentro da história. Porque o público não está pagando ingresso para assistir a comercial publicitário. Só por isso. E é muito!
Essa lógica comercial desenfreada tem por justificativa a necessidade de se fazer "grande espetáculo" por causa da televisão que a transmite e comercializa. Escola de samba é escola de samba, não é programa de televisão nem DVD de prateleira de loja! A escola não tem que fazer a vontade da televisão e se descaracterizar, virar espetáculo visual segundo critérios impostos, precisando de dinheiro para "valorizar o produto televisão". A televisão que se valorize e se aproxime do produto que quer mostrar! Tem que se prestigiar a cultura, não o espetáculo!
Acredito, porém, que essa reflexão e essa imposição de limites ao patrocinador deva vir das escolas de samba, não de governos ou governantes. É uma reflexão interna, necessária, mas sem chancela política. Vem dai a minha reprovação a qualquer tentativa do poder público de controlar os patrocínios ou de negar subvenção às escolas usando critérios seus para definir o que é e o que não é cultural. Que o poder público requeira a necessária prestação de contas e a utilização das verbas destinadas às escolas com rigor, evitando desvios de recursos, tudo bem. Mas formar comissões para julgar se esse ou aquele enredo receberá subvenção?
Vai ter truta! Acreditar que uma secretaria ou departamento ou seja-lá-o-que-for decidirá se um enredo é ou não digno de receber subvenção? Isso é risível: duas semanas depois de instituído, quem me garantirá que este não será mais um setor do poder público recebendo propina para aprovar enredos escabrosos?
Acho que esta é uma importante questão a ser discutida dentro do carnaval. Mais do que ofender ou agredir escolas - e isso ninguém pode, nem deve fazer - deve-se repensar a lógica das escolhas dos enredos.
Mais patrocínio, menos publicidade agressiva dentro dos enredos das nossas escolas de samba! E que elas comecem a privilegiar o seu legado, em detrimento das exigências do "espetáculo".
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Portela convoca rapazes para integrar ala de malandros
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 15/08/2012 12h43
A ginga dos malandros de Madureira anda mesmo em alta. Sob a batuta de Valci Pelé - ninguém menos que o premiadíssimo coordenador de passistas da Portela -, uma nova turma de legítimos representantes do samba está em formação. Para atender ao desenvolvimento proposto pelo carnavalesco Paulo Menezes para a escola em 2013, com o enredo "Madureira... onde meu coração se deixou levar!", Valci vai começar um trabalho a quatro mãos com o coreógrafo Márcio Moura. A partir do próximo dia 21, a Portela receberá candidatos para integrarem uma ala específica que representará a fina flor da malandragem na Sapucaí. O anúncio foi dado:
O G.R.E.S. PORTELA CONVOCA RAPAZES, QUE QUEIRAM FAZER PARTE DA " ALA DE MALANDROS ", PARA O CARNAVAL 2013.
DATA | 21/08/2012 (terça-feira)
HORÁRIO | 20h
LOCAL | PORTELINHA
ENDEREÇO | ESTRADA DO PORTELA, 446 - MADUREIRA.
COORDENAÇÃO : VALCI PELÉ | MÁRCIO MOURA
Valci está contido. Pelo visto, a Portela promete segredos para esse enredo. Coisas que ainda não podem ser reveladas. Ele, reconhecido no meio do samba como um lutador incansável pela tradição dos passistas e pela simbologia dos malandros dentro das escolas, é reticente quando perguntado sobre como diferenciar a ala de passistas e essa ala de malandros a ser formada para 2013:
"Existe uma diferença entre a ala de malandros e ala de passistas masculinos da Portela, porém preciso manter segredo!" - pontua.
O brilho da entrega a esse novo trabalho, porém, não é nada contido. Valci deixa escapar uma fagulha de contentamento, que rapidamente incendeia, ao revelar seus planos para a Portela em 2013:
"Fico muito feliz ao ser convidado pelo carnavalesco Paulo Menezes e pelo diretor de carnaval Alex Fab, para realizar esse grande trabalho. Vejo que é valorizando que você é valorizado. Será um momento muito especial na minha vida, poder mostrar e valorizar a cultura da dança do samba." - explica, exultante.
Em um ano em que a maior parte dos enredos das escolas do Grupo Especial tem causado celeuma por estar longe da alma e da história do carnaval, a Portela, que desfilará falando de sua história enraizada no bairro do subúrbio da Central, parece priorizar seu legado e sua identidade. Sem abrir mão da "carnavalização do tema" (uma justificativa frequente das demais escolas para defenderem enredos atípicos), a águia azul-e-branca, imbuída desse intuito de revigorar suas origens, quis não apenas fantasiar uma ala de malandros, mas criar toda uma caracterização específica, com preparação e adequação ao tema. Não que seja uma novidade apresentar malandros na avenida. Mas é que, no ponto em que o carnaval está, resgatar tradições e amor às raízes de uma escola é quase um contrassenso à logica comercial imposta pelo fascínio dos patrocinadores.
Valci Pelé, que tem se destacado no mundo do samba por lutar pela afirmação do segmento passista e dos dançarinos do samba dentro das escolas, não poderia estar mais feliz por estar realizando essa dupla jornada (ala de passistas e ala de malandros) dentro de sua escola de coração. Com a garra, a fibra e a entrega com que sempre se dedicou à Portela. E esse será um dos critérios para o processo seletivo dos personagens a integrarem esse grupo.
"Precisamos de pessoas que tenham o respeito e o carinho pela arte da dança do samba, além da disponibilidade para os ensaios. E que sejam pessoas que realmente queiram fazer parte da família portelense!" - afirma Valci.
Após a convocação, cujo contingente ainda não está definido e vai depender da quantidade de candidatos a surgirem no dia da inscrição, a dupla Valci Pelé e Márcio Moura iniciará os trabalhos numa divisão artística bastante específica. Valci cuidará da preparação dos malandros em relação às aulas de dança do samba e às performances, enquanto Márcio Moura ajudará ficará responsável pelo andamento coreográfico.
Coordenador de passistas da Portela, instrutor do projeto Passistas do Futuro (Império Serrano), à frente do Projeto Primeiro Passo, da Cia Dança do Samba e do Grupo Jaqueira, Valci está mesmo com a corda toda. E mesmo comedido nas palavras, não perdeu a oportunidade de deixar em aberto que sua atuação na escola, para o carnaval 2013, irá um pouco mais além:
"Quero que saiba que vem mais novidades por aí. Porém ainda não posso divulgar." - provoca, fazendo mistério.
Pois é. Valci tem tudo a ver com esse conhecido "mistério do samba" de que tanto se fala por aí...
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Portela apresenta sambas 2013 em tarde de exaltação a Madureira
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 29/07/2012 12h43
A Capital do Samba está na moda. E, como não podia deixar de ser, a Portela tem muito a ver com isso. A tarde do último sábado, dia 28, foi marcada por dois momentos dignos das tradições portelenses. No Parque de Madureira, o eterno mestre Monarco e o inovador Marquinhos de Oswaldo Cruz desfraldavam a bandeira dos sambas de Velha Guarda num show. E na quadra da Portela, 23 sambas eram apresentados para conhecimento do público. É a safra 2013, que redundará na escolha definitiva do hino oficial para o enredo "Madureira... Onde meu coração se deixou levar", sintetizando 400 anos do bairro, 90 anos de Portela e 70 de Paulinho da Viola.
Programado a princípio para as 14h, o evento começou, de fato, por volta das 16h30min, e levantou o público com o já tradicional show da Tabajara do Samba e com a levada de sambas antigos na voz do intérprete Gilsinho.
"A fase de criação do samba foi um processo muito intenso, de mergulho, estudo. Tomou todo o nosso tempo e nos deixou muito concentrados" - contou o poeta Toninho Nascimento, autor de pérolas clássicas gravadas por Clara Nunes (Conto de Areia é referência obrigatória) e também um dos compositores da obra-prima da Portela 2012 (...E o Povo nsa Rua cantando, é Feito Uma Reza, Um Ritual), a mais premiada e aclamada do novo século.
"Estamos mudando muitas coisas e pretendemos promover mais novidades. A Portela tem muitos desafios, mas acreditamos ter encontrado um caminho certo a percorrer" - explicou Júnior Escafura, diretor de carnaval.
"Certamente teremos grandes novidades. Nosso trabalho trará surpresas e boas notícias. Aguarde, porque breve vamos divulgar coisas bem bacanas" - comentou, com certo ar de mistério, o premiadíssimo coordenador de passistas Valci Pelé.
Carlos Ferreira, passista da azul-e-branco e integrante do Grupo Jaqueira, mostrou-se otimista quanto ao concurso: "A Portela tem mostrado sua identidade através de sambas como o de 2012, e acho que vai conseguir isso de novo em 2013" - afirmou. Opinião também compartilhada por Marcelo Moura, presidente da Guerreiros da Águia,
primeira torcida organizada de escolas de samba: "O samba conduziu tudo em 2012. Esperamos, de novo, um samba do coração da comunidade para 2013" - concluiu.
Mesmo ressentindo-se de nomes de peso como Monarco, Mauro Diniz, Espanhol, Noca da Portela, Ciraninho, Diogo Nogueira, Sérgio Procópio, que não inscreveram sambas para a disputa, a tarde de samba revelou muita integração da comunidade e animação dos presentes. Um dado bastante elogiado por todos foi a citação constante, em diversos
sambas, do nome de outra jóia do bairro, o glorioso Império Serrano, indubitavelmente necessário em um enredo voltado para esse tema. A justa reverência da Majestade do Samba à coirmã imperial comoveu e agradou aos presentes.
Grandes intérpretes como Tinga, Wantuir, Wander Pires, Leonardo Bessa, Nêgo e Igor Sorriso estiveram presentes, defendendo sambas concorrentes e despertando a atenção do público.
O evento terminou por volta das 20h com todos muito animados e satisfeitos quanto aos rumos da Águia para 2013.
Afinal de contas, falar de Madureira é, por essência, uma questão de propriedade e autoridade no assunto para a Portela.
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'Série Ouro' ou Novo Acesso: não entendi o enredo desse samba!
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 17/07/2012 15h29
A noite de sorteio dos desfiles das escolas de samba acabou tendo, como grande novidade, a criação da chamada Série Ouro. Uma compilação dos grupos A e B, formando um só Acesso em duas noites de desfile, compactando todas as escolas em uma única disputa.
Sinceramente, achei essa decisão preocupante. E mais digna de nota do que os comentários que, a meu ver, seriam triviais sobre a posição das escolas no Grupo Especial (onde não houve nenhuma surpresa, ficando tudo dentro da ordem natural das coisas).
Desculpem, mas essa Série Ouro assusta. Assusta porque faz um engavetamento de escolas (19!!!) numa disputa só. Senhoras e senhores, voltamos aos tempos em que os desfiles do Especial eram uma gigantesca maratona. Pior: agora cm desfiles até na sexta-feira, dia em que muita gente ainda trabalha e nem se tem como preparar escolas para estarem na avenida. Se o problema das escolas abaixo do Grupo Especial é a estrutura, nem imagino que qualidade de espetáculo se poderá ter com uma decisão dessas. Ou será que estamos todos muito pessimistas e a gestão do carnaval providenciou uma revolução conceitual que permita organizar tudo com tamanha perfeição que nos surpreenda a esse respeito? Se usarmos como base o que vimos nos desfiles deste ano, daria para arrancar os cabelos com pinça!
Como venho batendo há meses na tecla de que o maior problema dos grupos não é a quantidade, mas a qualidade precária dos jurados, não resolvemos nada. Só pioramos as coisas! Vamos fingir, agora, que jurados altamente equivocados (ou sei lá que outras forças ocultas por detrás dos envelopes) serão capazes de suportar uma maratona de 19 escolas em um grupo só? Vamos fingir, agora, que as escolas do Acesso, que já penam para ter alguma estrutura, estarão equiparadas no mesmo nível das que vieram do Grupo B, algumas melancolicamente pré-moldadas em formato de bloco, apesar de suas respeitáveis e admiráveis tradições?
Que campeonato motivador pode ser esse onde 19 desfilam e só uma sobe? Isso foi uma decisão com vistas à real melhoria dos desfiles do Acesso ou um aceno de jogo político para amealhar gatos e lebres num mesmo saco?
No caso dos profissionais que trabalham com a cobertura dos desfiles, imaginem vocês: teremos quatro noites seguidas de uma gigantesca maratona quase sem sentido. Ok, a princípio os foliões compenetrados e os workaholics de ofício dirão que será "a glória". Mas racionalmente falando, isso será uma overdose. Pior: as mentes trabalham muito melhor quando têm algum descanso ou algum equilíbrio mental para avaliarem o que estão vendo. Com tanta coisa pra assistir (fora os que ainda cobrem os desfiles da terça-feira) fica meio difícil discernir tanta coisa.
E os jurados? Mal conseguem avaliar o que vêem e, agora, terão que decidir uma campeã entre 19. Na gangorra classificatória criada com essa nova situação, temos ainda outros disparates: uma escola do Grupo B poderá subir direto pro Especial, "pulando" dois degraus. Em compensação, uma escola do Grupo A poderá derrapar feio e cair sentada direto na Intendente Magalhães. Acabou o purgatório: céu ou inferno aguardam os melhores e piores.
As subvenções serão iguais, acredito eu. Mas os níveis de endividamento e de investimento são muito diferentes. Como equacionar isso? Quem pode garantir um equilíbrio minimo, por exemplo, entre uma Viradouro e uma União do Parque Curicica? Que garantia de nivelamento e "boa qualidade de espetáculo" - uma (falsa) palavra de ordem tão em voga para justificar, por exemplo, atrocidades histórico-culturais como imposição de paradinhas de bateria, imposição de "colorido" prevalecendo sobre as cores originais das escolas etc?
Uma vez encaixotadas em um só grupo, eu já nem discutiria a questão complicada do deslocamento de comunidades mais distantes quando escaladas nas primeiras posições do desfile de sexta-feira, o dia mais difícil. Não seria mesmo possível criar um sorteio que considerasse distância. Sorteio é sorteio: todo mundo tem que acatar o que cair e pronto. Então, deu-se, de fato, a melódia: não há muito o que evitar quanto a isso. Embora seja outro problema seríssimo a acometer Porto da Pedra (que vem de São Gonçalo) e Acadêmicos de Santa Cruz ( da distante zona oeste).
Não é o caso de se bancar o urubulino nem ficar agourando o que se tem de inovação. Não sei se ainda estamos - nós, comentaristas - muito crus (haveria falta de informação suficiente da parte dos organizadores? estamos mal briefados?) sobre a real mudança para avaliarmos, de fato, o que trará de melhoria. Mas, a princípio, assim como nos foi revelado, o drama da LESGA em 2012 tornou-se um grande engodo (e novo drama) para 2013.
Tivemos sérios problemas de apuração no Acesso 2012 (fato comum nos anos anteriores), a Prefeitura interveio, prometeram grandes mudanças e um senso de justiça para compensar os prejuízos do resultado final. De repente, a notícia que nos veio foi essa da chamada Série Ouro.
Vamos aguardar pra ver o que mais nos dirão a esse respeito.
Por enquanto, fico a ouvir a voz potente de Sandra de Sá cantando a meus ouvidos:
"Não entendi o enredo desse samba, amor..."
Não entendi mesmo!
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Grupo Jaqueira estreia entre os bambas na feijoada portelense
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 05/07/2012 09h29
O que era bom pode ficar ainda melhor! Sobretudo quando um olhar para as coisas do passado pode trazer o renovo e o reforço para eternizar as raízes do samba no futuro.
A tão festejada Feijoada da Família Portelense - já uma referência no calendário cultural da cidade - terá, neste mês de julho, uma boa novidade. Além de astros consagrados como Marquinho Sathan, Velha Guarda Show da Portela e bateria Tabajara de mestre Nilo Sérgio, um grupo iniciante está exultante por ter sido convidado para o evento. É o Grupo Jaqueira, formado por discípulos do "mestre" Valci Pelé, coordenador de passistas da escola de Oswaldo Cruz e Madureira e outro bamba consagrado do carnaval.
O grupo - cujo repertório, nas próprias palavras de Valci, "é regado por sambas de saudosos compositores das ‘Velhas Companheiras’ Portela e Mangueira" - promete pisar forte na quadra da escola justamente para saudar as velhas guardas dessas duas instituições do samba brasileiro
Em conversa com o SRZD CARNAVAL, Valci comentou sua expectativa para o evento: "Será a primeira vez que estaremos subindo ao palco da nossa querida Portela e participando de um evento de tamanha importância. A nossa expectativa é muito grande, pois temos a responsabilidade e o compromisso com os grandes compositores que marcaram o gênero samba. Falar de Candeia e de Cartola não é simples; interpretá-los, então, é bem mais complexo. Pois é valorizando o que se faz que você tem valor. E valorizar, representar, homenagear velha guarda e compositores renomados exige muito estudo, trabalho, gosto pelo que se faz" - afirmou, exultante.
O Jaqueira terá, na feijoada, a participação do cantor André Leonno, uma parceria estabelecida com Valci desde 2001, quando o Projeto Primeiro Passo - a escolinha de passistas - foi idealizado. "André Leonno, cantor e amigo tão especial, passou a participar de eventos realizados pelo Projeto Primeiro Passo com seus grandes shows beneficentes e ao mesmo tempo agregando valores com nossas crianças e adolescentes" - explica Valci. André Leonno "misturou-se com os meninos do Jaqueira este ano, durante a temporada do grupo no Centro Cultural Carioca. Desde então, participou de ensaios com o grupo, abraçou o projeto do Jaqueira e tem acompanhado seus trabalhos.
E atenção para a agenda do mês de julho do grupo: dia 14 no SESC de Madureira às 14h e dia 15 inicia a "Feijoada D’Baixo da Jaqueira", no espaço Baixo Madureira, às 14h, com uma roda de samba e a sempre deliciosa feijoada da Tia Surica.
Com sua proposta saudosista e inovadora, o Grupo Jaqueira é formado por Carlos Ferreira e Guilherme Santos (percussão), Nilson Santos (banjo), Vinicius Ferreira (cavaquinho) e tem Juliana Clara e Diogo Figueiredo nos vocais.
Perguntado se considera especial esse momento para o grupo Jaqueira, o Pelé da dança do samba foi enfático: "Sim! Afinal, é a a nossa estréia para os amantes portelenses"!
Então tá avisado: quem for portelense, é só chegar lá!
SERVIÇO:
Feijoada da Família Portelense
Sábado, dia 7 de Julho, a partir das 13h
Quadra da Portela - Rua Clara Nunes, 81 - Madureira
Entrada: R$15,00 Feijoada R$ 15,00
OBS: A direção da escola anuncia que está com promoções para os camarotes e instalações da nova quadra, a serem informadas no telefone 21- 2489-6440.
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Borel, Formiga e seus Mundos Imaginários
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 25/06/2012 13h59
O desfile de escolas de samba é essencialmente uma viagem pela imaginação. Alguém concebe uma ideia, concretiza sua proposta por meio de recursos artísticos (cenários e figurinos devidamente explicados por uma canção, o samba-enredo) e expõe sua elocubração aos olhos do público. O momento em que a escola de samba ocupa a avenida, ela transforma o espaço físico da rua em um reflexo do imaginário irreal concebido pelo artista.
Essa transposição da ideia subjetiva e abstrata para o plano objetivo e concreto é o grande desafio do artista e também a razão de tamanho fascínio (catarse) exercido sobre a plateia.
São muitos os exemplos de transposições de lugares imaginários para a passarela do samba. Lembro-me do Império Serrano visitando o Eldorado em lindo desfile de 1980, da Mocidade no delírio tropicalista do mestre Fernando Pinto e sua fictícia Tupinicópolis em 1987 e do universo caótico que reproduzia a construção e a desconstrução do mundo em "Já Vi Este Filme" (São Clemente, 1991).
Tomemos por exemplo, para uma dissertação, duas situações específicas em que duas escolas vizinhas, em períodos diferentes, levaram para a avenida não apenas o seu imaginário, mas - pode-se dizer - o "imaginário do imaginário". Unidos da Tijuca (2005) e Império da Tijuca (2012) apresentaram na avenida enredos de grande similaridade, ambos versando sobre lugares imaginários, saídos da mente e do devaneio humano.
"Entrou por um lado, saiu pelo outro...quem quiser que invente outro" foi o enredo desenvolvido pelo fulgurante Paulo Barros para o Pavão Real do Morro do Borel. Um ano depois de ter surpreendido a Sapucaí com seus delírios científicos e sua antológica "alegoria viva" representando o DNA, a Unidos da Tijuca estava em alta. Ansiosamente aguardada, com grande expectativa acerca do talento de seu então emergente carnavalesco, a escola propôs uma delirante viagem no tempo e na mente, tendo por base as obsessões do cavaleiro Dom Quixote de La Mancha.
Paulo Barro propôs-se a "abrir portas" por meio das quais "quem ousa imaginar é capaz de se aventurar e percorrer mundos surpreendentes: paisagens estranhas, exóticas e inusitadas, cidades, paraísos, mundos subterrâneos, utopias, cenários de fantásticas e absurdas aventuras" - afirmava a sinopse. A abertura dessas portas tornaria possível acreditar que "(...) o imaginário infantil, o medo, a conquista, a crítica social, a busca pelo lugar ideal ou mundos que antecipam catástrofes, como forma de alertar a humanidade, tornam-se reais".
Mais uma vez Paulo Barros usou figuras em movimento, trouxe bruxas, vampiros, zumbis e outros seres imaginários para o carnaval, todos com plena adequação ao tema e, ainda assim, conotando uma pecha de humor fino e sutil ironia, como requer a irreverência do carnaval.
Menos mordaz e mais sóbrio, o carnavalesco Severo Luzardo propôs, este ano, uma viagem semelhante com a garbosa coroa imperial da Formiga. A Império da Tijuca surpreendeu no bom gosto de cores e na inspirada narrativa mítica de seu enredo "Utopias - Uma viagem aos confins da imaginação". Numa trip bem semelhante à de sua coirmã vizinha, a escola também se propôs a percorrer "Lugares utópicos deslumbrantes onde o tempo e o espaço desafiam a lógica para constituir reinos, províncias, regiões, povoados, cidades, países, mundos redimensionados, ambíguos e acolhedores, frutos do delírio de quem os concebeu" (dados da sinopse).
Em seu desfile, mostrou reinos encantados (muitos deles desencavados na pesquisa e não tão conhecidos) como Seráfia, Agartha, Lórien, Foxville, Cocanha, Calonack, Utopia, Avalon, Kradac, Cantahar e Benzalém. Universos fabulísticos de grandes literatos também não foram esquecidos: a Macondo de Garcia Marquez, a Antares de Érico Veríssimo e a Pasárgada de Manuel Bandeira.

As duas escolas fizeram belíssimos desfile. A Unidos da Tijuca foi vice-campeã e a Império da Tijuca, terceira colocada.
Ao trazerem para a avenida seus enredos inspirados em lugares incomuns e surreais, as escolas da Tijuca (bairro que representa seu espaço físico comum e real) celebraram a paixão e o devaneio da mente humana. Que desde suas origens buscou transcender seus limites físicos e explorar imagens do inconsciente na esperança de fazer do abstrato um ponto de partida para reflexões sobre o mundo concreto em que vivemos.
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Leandro do Samba, da Favela, da 'Sapucahy'
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 12/06/2012 19h52
Confesso que, a princípio, eu tinha alguma restrição. Olhei meio de banda. Por não ter afeição aos "pagodeiros" (com aspas, porque nem sempre a adjetivação dada procede) dessa tiragem mercadológica e melosa que todo mundo consome, olhava com alguma desconfiança a figura daquele jovem galante, anunciado como produtor e "novo cantor de samba". Aparentava ser "mais um dentre seus mesmos".
Achava, ainda, que seu sobrenome - uma versão modificada do "sobrenome" da avenida dos desfiles de escola de samba do Rio - ajudava a reforçar esse rótulo, quase sempre ameaçador, de "novos sambistas" que adaptam nomes conhecidos, fazem corruptelas, esquadrinham numerologias para trilharem um oco sucesso.
Juízo equivocado.
Um dia, fui pego de surpresa. Assisti a um vídeo, iniciado por Marcelo D2, onde, de súbito, uma bela voz de afinação destacada e impostação convincente cortava os versos sincopados do rapper com elogiável presença de cantor-intérprete.
"♪ Bateu de frente / Um bandido e um subtenente lá do batalhãããããão... ♫"" - entoava a bela voz.
Estava quebrado o gelo. Passei a admirar o talento de Leandro Sapucahy.
A admiração aumentou quando, naquele mesmo ano, pedi, no amigo oculto do trabalho, um DVD com seu show "Favela Brasil". Assisti àquele show como quem assiste a uma ópera urbana, um "concerto favelado". Chamou-me a atenção a retomada do termo "favela" em lugar daquele politicamente correto "comunidade". Que, a meu ver, desprende o samba de seu principal nascedouro. Chamar favela de comunidade é, para mim, como chamar "negão" ou "crioulo" de "moreninho".
Detesto!
Passei a infância ouvindo Clara Nunes, inspiradíssima, cantar os versos de Candeia e Jaime em "Ê Favela", proclamando com aquela força arrebatadora de canto que só ela tinha, que este nome (favela) "na vida do samba, não pode morrer". Andava carente dessa retomada. Ao chamar seu show de "Favela Brasil", Leandro parecia ter reposicionado o valor daquilo que eu julgava perdido. Tive vontade de abraçá-lo e agradecê-lo pessoalmente - em nome de Cartola, Carlos Cachaça, Ismael, Silas e tantos outros representantes de morros e favelas - nunca de "comunidades"!
Desde a concepção do show, realizado na Fundição Progresso, estava clara a premissa. Propondo-se a conferir à favela o devido reconhecimento como principal elemento gerador da cultura brasileira, fez um liquidificador festivo com rap, funk, MCs, samba, grupo Nós do Morro e um pouco mais. Mais uma vez, lembrei-me de Clara Nunes: a diva, com suas pulseiras e colares de ouro, atando as mãos aos esquálidos meninos pobres do morro, na capa de seu antológico álbum "Clara Esperança". Sem estabelecer comparações entre uma obra e outra, a força do propósito acabou por confirmar minha aceitação e admiração pelo trabalho de Leandro.
Depois disso, o cara não teve pena de mim: estraçalhou-me o coração ao regravar, em belo tributo a Roberto Ribeiro, algumas das lindas canções do grande e saudoso gênio do canto do samba. Não quis fazer comparações entre o celebrante e o celebrado: bastou-me a alegria de saber, enfim, que Leandro Sapucahy é safra jovem, é mistura de tendências e estilos, tem um link com as novas gerações do samba, mas tem "pedigree". Amadureceu seu trabalho, ganhou a televisão, revelou-se um de nossos artistas mais respeitados e queridos da nova geração. De quebra, transborda uma simpatia que ofusca, em simplicidade, a luz de neón falsa e fria das estrelas desfavelizadas do hit parade contemporâneo.
Certa vez, em entrevista ao Jô Soares, Leandro Sapucahy disse que canta em vários lugares. Quando "bem ou mal pago". Ou até não sendo pago. "Aí, eu canto até melhor!" - disse, sob risos e aplausos da entusiasmada plateia do programa.
Por este "Leandro Favela Brasil", que se faz Sapucahy para receber amigos em desfile e deixar correr solto seu canto bonito, ficam a minha admiração e a certeza de que Nélson Sargento estava certo: o samba "agoniza, mas não morre"!
E, se o samba ameaçar morrer, Leandro Sapucahy provavelmente se colocará a cantar de graça. Assim, "cantando até melhor", certamente fará levantar o moribundo.
Porque Leandro não é "comunidade": ele é favela! Favela Brasil!
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Salgueiro recebe Portela e Caprichosos em noite de festa
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 28/05/2012 14h28
A Furiosa Bateria arrepiou e esquentou a Academia no último sábado.
A Acadêmicos do Salgueiro abriu suas portas para receber, em seu grito para o carnaval 2013, as coirmãs Portela e Caprichosos de Pilares. Madrinha e afilhada, respectivamente, levaram seus matizes de azul e branco para uma bela noite de congraçamento na quadra da vermelho e branco mais vencedora do carnaval carioca.
As imediações da rua Silva Telles, onde fica a quadra do Salgueiro, já davam o tom da festa. Era grande a concentração de pessoas misturando as cores azul e vermelho pelo local, sugerindo a presença massiva de segmentos das escolas visitantes.
O show foi aberto com um conjunto de samba do Salgueiro, e a passagem para a bateria do Mestre Marcão foi feita com uma performance da ala de passistas da escola, dirigida por Carlinhos Coreógrafo. A ala teve o auxílio luxuoso de Nilce Fran, a premiadíssima coordenadora de passistas da Portela, que não exitou em retribuir o carinho e vestir-se de vermelho para participar de um número especial com os malandros da casa.
Feita a abertura, a quadra virou uma enorme passarela e cada uma das três escolas - a anfitriã e suas duas convidadas - desfilou com segmentos e integrantes, abrilhantando uma noite de samba autêntico e de alto nível. Cada escola levou sua bateria, o que também contribuiu para uma diversificação musical enriquecedora.
Fazendo as vezes de dono da casa, o Salgueiro emplacou seus sambas antológicos "Bahia de todos os deuses" e "Nossa madrinha, Mangueira querida - Tengo, tengo", clássicos contemporâneos como "Me Masso se não passo pela Rua do Ouvidor", "O negro que virou ouro nas terras do Salgueiro" e o campeoníssimo "Peguei um Ita no Norte"; passando por "Salgueiro Apresenta: o Rio no Cinema" e encerrando com o samba deste ano, "Cordel Branco e Encarnado", que assegurou o vice-campeonato da escola. Os segmentos da vermelho-e-branco foram muito aplaudidos.
Por volta de 1h15min, a Caprichosos trouxe sua contagiante simpatia para acender o pavio da festa. Homenageou Chico Anysio com seu samba "A visita da corte da nobreza do riso a Chico Rei num palco nem sempre iluminado", lembrou sucessos como a clássica "Moça bonita não paga" e "Um Cardápio à Brasileira", passou por "Xuxa e seu reino encantado no carnaval da imaginação", "Goiás, um sonho de amor no coração do Brasil" e arrepiou de vez a audiência com "E Por Falar em Saudade", fazendo a quadra vibrar com o refrão "tem bumbum de fora pra chuchu / Qualquer dia é todo mundo nu".
O povo de Pilares mostrou que a Nova Caprichosos vem com tudo para ficar entre as grandes. A bateria estava impecável e a escola deixou o clima lá em cima para a entrada da outra convidada.
A Portela entrou em cena às 2h30min e levou sua gente de Oswaldo Cruz e Madureira para fazer bonito na Tijuca. As torcidas Guerreiros da Águia e Amigos da Águia levaram seus contingente animados para a festa, e segmentos da escola disseram "presente" também. Jane Carla - líder das baianas, Aldaléia - presidente do departamento feminino e os premiadíssimos Valci Pelé e Nilce Fran estiveram presentes com a corte portelense, que encerrou os "desfiles" em grande estilo. Os passistas da escola vieram elgantíssimos de malandros, enquanto as cabrochas exibiam um belo visual de africanas.
A Tabajara do Samba fez jus à grandeza da casa: emplacou os hinos "Portela na Avenida" e "Foi Um Rio que Passou em Minha Vida" para emocionar a audiência com Clara Nunes e Paulinho da Viola. Depois, desfilou sambas clássicos como "Das maravilhas do Mar, fez-se o esplendor de uma noite", "Contos de Areia", "Os olhos da noite" e "Tributo à Vaidade", incendiou a quadra com "Gosto que me enrosco", lembrou outros mais recentes como "E Por Falar em Amor, Onde Anda Você" e "Reconstruindo a Natureza, Recriando a Vida: O Sonho Vira Realidade" até encerrar sua participação com o aclamado samba deste ano, "...E o povo na rua cantando, é feito uma reza, um ritual...". Baianas, passistas e todos os segmentos aplaudidíssimos.
Foi uma linda noite de congraçamento e de kizomba. Felizes, todos estampavam sorrisos no rosto e expressaram a verdadeira face da tradição e da cordialidade entre as escolas de samba.

A próxima semana promete: Salgueiro receberá a vizinha Vila Isabel e a vitoriosa Beija Flor de Nilópolis. E a Portela fará sua feijoada na bela quadra de Madureira.
É... o samba tem caprichado!!!
As fotos foram gentilmente cedidas pela fotógrafa Kátia Regina Henriques, da Guerreiros da Águia, para o SRZD.

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Saudosista ou Não-Saudosista: Eis a Questão!
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 24/05/2012 14h08
Saudosismo não faz bem a ninguém. Mal também não faz. Se for exagerado, vira dor de nostalgia. Se for desprezado, vira desapego. O importante de se ter um elo no passado é, a partir dele, refletir mais e melhor sobre o presente no intuito de aprimorar as coisas futuras.
As escolas de samba, por serem oriundas do panteão afro-brasileiro de influências culturais, têm forte apelo na tradição. Estão arraigadas nos saberes antigos, na transmissão do conhecimento. Escola de samba é uma arte atávica: passa de geração a geração. Pouco ou muito ouvidas, todas têm as suas Velhas Guardas para confirmarem que, de um jeito ou de outro, os novos só caminham ouvindo os antigos. Independente do nível de influência, os baluartes existem, estão lá e segue transmitindo conhecimento.
Retomo esse tema por achar importante ressaltar que, não obstante seu esforço constante em privilegiar as tradições, as escolas de samba, historicamente, sempre foram inovadoras e essencialmente criativas. Uma coisa não exclui a outra: você pode ser inovador e manter sua identidade ao mesmo tempo. Sendo uma manifestação cultural, a escola de samba é necessariamente dinâmica, mutante. Para efeito de sua sobrevivência ela precisa, sim, se renovar. Quando discutimos temas como escolhas de enredo e influência de patrocínios - tal como os discuti no post anterior - estamos distante de um dilema cruel: ou as escolas sobrevivem adequadas ao modelo comercial ou perecem sob a cisma com suas tradições.
É isso?
A meu ver, não. Está errada a linha de raciocínio.
O ponto crítico é exatamente este: tentar dissociar modelo comercial e identidade, inovação e tradição. Alguém determinou como opção para a sobrevivência comercial das escolas de samba a negação de suas raízes históricas. Ora, desde que o mundo é mundo e a arte é arte, o mecenato e a curadoria existem exatamente para isso: tornar possível que investimentos financeiros melhorem e incentivem a essência do produto artístico. Em termos práticos: se uma empresa patrocina um evento de balé no Theatro Municipal ela não precisa, necessariamente, obrigar as bailarinas a vestirem saias que tenham o nome do patrocinador. Ou que as sapatilhas sejam no formato da embalagem do anunciante. Ou - pior! - que a 5° sinfonia de Beethoven toque adaptada ao jingle do último comercial do produto.
O refrigerante que patrocina a peça de teatro não obriga que a peça fale sobre sua história.
O remédio que patrocina o time de futebol não obriga a equipe a jogar com uma bola em formato de comprimido.
Pois bem, na escola de samba, o que temos visto é essa invasão. Ao que parece, como bem comentou o amigo antropólogo, professor e especialista no assunto, Fábio Pavão, "Acredito que, para as escolas de samba, falta a capacidade de compreender e implantar o patrocínio cultural".
É isso.
Ao contrário do que se pensa, enredos repetidos, enredos que nada arriscam, temas pretensiosos a esmo ou outros de apelo deslavadamente comercial acabam transformando o desfile das escolas de samba em uma apresentação meramente estética, sem nenhum peso de emoção ou comoção. A cada ano os critérios de avaliação tornam-se mais técnicos e o impacto é menor para a audiência.
A escolha do enredo é de suma importância porque ela não se dá em um momento em que a avaliação técnica dos jurados é feita. Pelo contrário: a escolha dos enredos é feita na quadra, e vai impulsionar todos os corações e mentes que conduzem a escola. É na quadra, no meio do ano, que a escolha dos enredos vai mobilizar corações apaixonados; vai inspirar compositores, ritmistas e passistas. Esse termômetro, hoje, funciona muito mais como mobilização (ato voluntário) do que comoção (apelo emotivo). Ou seja, em vez das comunidades apoiarem enredos nos quais elas acreditem, acabam o fazendo quase por militância. "Blindagem" é o termo.
Sabemos, no entanto, que é possível combinar um elemento patrocinador e uma proposta de enredo pertinente às tradições da escola. Temos como exemplos as escolhas de enredo de Portela e Vila Isabel para 2012, desde o início muito bem entendidas pelas comunidades, redundando em desfiles emocionados e emocionantes, bem como nos sambas mais bonitos do ano. Ambas tiveram investimento e patrocínio ( a Portela, a bem da verdade, não refletiu tal investimento em alguns de seus carros e em alguns atrasos de salário de seu barracão). De um jeito ou de outro, foram apenas dois exemplos de escolas que tentaram conciliar patrocínio e tradição.
Mas, enfim, o que se quer dizer é que estamos sempre militando equivocadamente nessa instância: onde falta dinheiro, até tem emoção. Onde o dinheiro entra, só entra com uma condição: impor regras, fazer prevalecer o gosto de quem investe.
Não deve ser assim. É preciso que haja um equilíbrio entre os investidores e os gestores. As escolas de samba precisam se unir em prol da manutenção de suas identidades. Deveriam criar, juntas, um código de ética mais forte, que privilegiasse não o conservadorismo ou o saudosismo, mas o seu pleno domínio e a sua plena autonomia no escolher e executar enredos.
É um ponto que se deve rever para que o pensamento não mais coxeie entre modernidade e tradição: as duas podem andar lado a lado, como sempre andaram, sem que as escolas de samba percam a rédea de seus desfiles.
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A Hora e a Vez dos Enredos Chapa Branca
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 17/05/2012 11h11
Estamos na época do ano em que são anunciados os enredos das escolas para o desfile do ano vindouro. É uma época de muita especulação e também de muita curiosidade. Todo mundo quer saber que enredo será, quer fazer suas apostas, quer dar sua opinião. Nem sempre a informação sobre o enredo pode apontar o sucesso da escola: já vimos carnavalesco tirando leite da pedra e outros empedrando um seio farto. Mas fica sempre aquela sensação de que, ao revelar seu enredo, a escola já dá sua cartada para o que pode vir no ano seguinte.
Infelizmente, se querem saber a minha opinião, os enredos que surgem me preocupam muito.E eu adoraria dizer o contrário...
Houve um tempo em que as escolas de samba tinham forte personalidade, impunham-se contra todo um sistema que as desprezava o ano inteiro, expunham seus preceitos culturais ardilosamente sufocados pela grande mídia. A escola de samba valorizava suas raízes culturais, fazia crítica social e cultural, tinha cunho político. A escola de samba manifestava insatisfação com toda forma de injustiça social que acometia o povo. Era um momento de catarse, de aproveitar a força daquele teatro de rua para revogar direitos, bradar contra injustiças sociais.
Tudo isso se perdeu.
Com a força dos patrocinadores, com a intervenção de governantes fazendo gracinha na pista ou trazendo benesses às quadras, lamentavelmente o espetáculo perdeu sua espontaneidade na escolha dos enredos. Se me permitem, são os piores possíveis! Ou acostumaram-se aos ufanismos e delírios dos tempos da ditadura ou submeteram-se aos piores espólios comerciais possíveis nas mãos de ávidos anunciantes. As escolas estão topando qualquer coisa como enredo! Qualquer prefeitura, qualquer lugar, qualquer estado! Qualquer produto, qualquer serviço, qualquer anunciante fervoroso! As empresas e os homens de marketing que apresentam esses temas nem se dão conta de que o tiro quase sai pela culatra: fica feio, polui, suja, descaracteriza, desambienta a festa.
O oba-oba desse "quem dá mais" parece impedir as escolas de samba de desfilarem com enredos políticos, de crítica incisiva sobre desvios sociais. Pagou-se o preço do silêncio. Já que a elite da política está de braços dados com o desfile, as escolas ficam constrangidas de falarem de mensalão, corrupção, desvio de verbas públicas, violência, desgraceira política, máfias do congresso e das esquinas... enfim, todo mundo parece desfilar satisfeito com o momento atual. Todos entonam um mantra do "país perfeito", ninguém mais satiriza, nem ridiculariza, nem expõe, nem cobra: os enredos estão todos "simpaticozinhos" ou travestidos de "boa pesquisa" ou "homenagem" para acobertarem a necessidade real de uma escola de samba que atravesse esse "samba politicamente correto" e volte a fazer carnavais mais condizentes com a realidade do povo.
A última a tacar pedra no telhado de vidro foi a São Clemente em 2004, com seu extraordinário "Boi Voador Sobre Recife: Cordel da Galhofa Nacional", do irrequieto Mílton Cunha. Foi injustamente rebaixada. Porque os jurados também não querem saber de nada que seja comprometedor ou desacatador do sistema. Tá todo mundo satisfeito. Os novos roqueiros de calças coloridas são esquálida caricatura dos engajados dos anos 80: têm, no máximo, uma só musiquinha falando mal da corrupção política! O povo brasileiro deixou de consumir música inteligente e de reflexão incontida para cantar onomatopéias do tipo "ai", "ui", "tche", "tcha", "tchu". Nesse cenário de morte estética, o samba também parece satisfeito: alguns sambistas estão milionários, "profissionalizaram" o samba! Tem medalhão de sobra na televisão! Então, azar de quem se deu mal nesse jogo: não é mais preciso revogar as causas da classe e pleitear o espaço do negro, do povo, do sambista: deixa tudo pra lá, "tá bom como tá"!
Assim, com todas as arestas podadas, todas as portas e janelas fechadas, todos os exaltados em exílio, segue a pajelança de enredos deslumbrados consigo mesmos ou com temas pouco razoáveis.
E fica no ar uma estranha sensação de que os discursos necessários, aqueles que reafirmam o samba como legítima arte popular e provocadora, dando voz ao povo, sendo "a voz do morro", ficaram para trás. Só enredo "chapa branca", só "puxação de saco", só mercenarismo e ranço político! Sempre com dinheiro...muito dinheiro! Chamam isso de "modelo competitivo": chegam a afirmar que "só sobrevive quem adere". Ninguém questiona, ninguém arregaça a manga, ninguém aproveita o ensejo para tentar fazer diferente!
Ressuscitem, Joãosinho Trinta e Fernando Pinto, para sacudirem as almas dos acomodados!!!
Parece até que vivemos numa terra encantada que não tem nenhum tipo de problema...
Sim, é claro: a genialidade dos artistas, o coração do componente, a força das bandeiras, o talento dessa gente bronzeada e a graça dos construtores do maior espetáculo da terra vão superar todas essas deficiências e até nos fazer esquecer isso tudo.
É nisso que apostam os manipuladores: na arte da superação para embelezar o que é feio!
Poucos perceberão que a escolha de enredos escaborosos e pouco engajados tem a ver com benesses políticas e royalties investidos em merchandising na avenida. Mas quem conhece a sombra da jaqueira, quem conhece o fruto da mangueira, quem conhece os ramos do salgueiro, a coroa que desce a serra, o berço dos bambas do samba, as calçadas de notas musicais e tantos outros celeiros de resistência, vai lembrar de um velho samba de Wilson Moreira e Nei Lopes, feito para o Quilombo, de Candeia, cujo título dizia tudo: "Ao Povo em Forma de Arte"!
É preciso que as escolas reaprendam a lição: antes mesmo de ser "forma de arte", é para ser professado "ao povo"!
Volta, Candeia, para ensinar a essa gente!
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Grupo Jaqueira: Dando Frutos!
Hélio Ricardo | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 04/05/2012 13h50
Difícil essa luta inglória do samba em conciliar suas vertentes tradicionais com a inovação. Acredito que, de todas as expressões artísticas, seja justamente o samba a que mais precisa ter apego às suas raízes para ter representação. O sentido histórico do samba influi diretamente em sua representatividade: quanto mais arraigada em sua verdade, mais a arte do samba é arte e é samba.
Vem daí a minha rejeição a esse termo "samba de raiz" como cunho descritivo. Creio eu: se é samba, tem raiz. Sem raiz, já não é samba. Portanto, a meu ver, o termo serve não apenas para fazer distinção entre o novo e o antigo, mas sobretudo para expressar com precisão se "é" ou "não é" samba.
Se não tem raiz, não é.
Pensando assim, o bamba portelense Valci Pelé, mago da dança do samba acostumado a riscar a avenida com suas encantadoras evoluções, apostou na formação de um grupo musical com raízes firmadas no samba de berço da azul e branco de Madureira e da verde e rosa de Mangueira. Com o enigmático título de Jaqueira, rememorando a sombra da árvore onde foi fundada a Majestade do Samba, o grupo faz um importante resgate das tradições do samba, com as bênçãos do patrono Carlos Monte e a inspiração de sambistas do celeiro portelense.
O Grupo Jaqueira é, assim dizendo, a expressão natural dos trabalhos de Valci. Não apenas como coordenador de passistas da Portela, mas em seus projetos pessoais como o Projeto Primeiro Passo, outro foco de preservação em sua luta pelas tradições da dança do samba. Carlos Ferreira, Guilherme "Camará" Santos e Nilson Santos são passistas da Portela, e ajudam seu mentor a preservar a memória do samba agora também através do canto. No Projeto Primeiro Passo, Valci ensina aos meninos-passistas a essência do samba, estimulando pesquisas e estudos teóricos para o conhecimento de seus nomes fundamentais.
Juliana Clara e Diogo Figueiredo fazem o canto afinado e harmônico do grupo. A Velha Guarda da Portela conhece e os prestigia. Já tive a oportunidade de assisti-los abrido um show de Noca, por exemplo. É tudo "jaca do mesmo quilate"! Passado e presente sustentando o futuro do samba.
É relevante considerar que, em tempos de muita descalcificação do samba verdadeiro, o grupo propõe uma releitura de clássicos aliada à sua proposta autoral. Mais ou menos a linha de sucesso seguida por outro portelense, o hoje renomado Diogo Nogueira. O artista abriu caminhos para o estrelato revivendo clássicos do gênero (sobretudo as pérolas compostas por seu pai, o poeta João Nogueira) e, hoje, tem diversificado o repertório e gravado canções inéditas dele e de outros parceiros. Diogo chegou a fundir seus acordes com os de Marcelo D2, criando um samba-rap conceitual em seu primeiro CD.
Não se sabe exatamente que caminhos apontarão os meninos do Jaqueira e o guerreiro veterano Valci para o futuro do grupo. Mas a força imorredoura do samba do passado, das rodas de bambas de Mangueira e Portela, parece se fazer presente na envergadura do grupo, que foge dos padrões do "samba-pastelão" imposto por muitas gravadoras como descaracterização do gênero. O Grupo Jaqueira quer fazer samba com o molho das grandes escolas, com a poesia dos mestres fundamentais. E, se quer trazer algo de novo ao riscado, pretende fazê-lo por consequência natural dessa árvore-mãe que é o legado dos bambas. Sem a tosca pretensão dos que, submersos na vala comum do lamaçal pasteurizado, ainda julgam terem mudado a história do samba.
Não é de bazófias nem de firulas que se sustenta o Grupo Jaqueira, mas de um senso de responsabilidade em sustentar a árvore frutífera do verdadeiro samba!
Ouvir os acordes e o canto do Jaqueira nos traz uma estranha felicidade. Uma sensação prazeirosa de que a Lapa boêmia, o Buraco Quente, o Largo do Estácio, as calçadas de notas musicais da Vila de Noel e os recantos de Oswaldo Cruz e Madureira estão vivos! Dali surge uma geração inspirada pela poesia verdadeira, pelos mestres do samba autêntico, que preocupa-se em fazer samba de verdade e recuperar a honra e o prazer de semear, para o futuro, todas as riquezas dessa arte do passado.
Se o samba "agoniza mas não morre", deve ser porque ainda temos a sombra de uma Jaqueira para acalentar essa nossa arte tão elementar!
Abram alas... deixa o Grupo Jaqueira passar!!!
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Personalidade dá enredo?
Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 15/05/2013 13h21
Primeira das estações: Mangueira, 85 anos
Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 29/04/2013 14h48



