Um novo julgamento

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 12/04/2011 17h07

O julgamento do carnaval deste ano gerou muita reclamação. E deu motivos para isso ao quebrar a linha de evolução dos últimos anos. Isso é péssimo para o evento. É hora de dar um basta neste sistema para o bem do próprio carnaval. A sociedade vive um momento de transparência que exige a renovação deste processo.

Há quem defenda a troca de todo o corpo de julgadores, mas o problema não está só nas pessoas. Já tratei muito do assunto, mas esse momento é oportuno para reafirmar algumas posições pessoais. É um assunto de solução praticamente impossível, mas acho que os erros podem ser minimizados.

REFORMA DE CONCEITOS E CRITÉRIOS

A primeira mudança - mais urgente - é a revisão dos conceitos e critérios de julgamento. É fundamental que se minimize a possibilidade de distorções e que se premie o mérito ao invés de punir a falha.

É preciso acabar com esta história de que todos começam com a nota máxima e vão perdendo pontos ao longo do desfile. O julgamento deve começar da nota mínima e graduar cada escola conforme ela for preenchendo os itens pedidos pelo manual do julgador.

É preciso, entretanto, diferenciar quem faz o básico previsto no regulamento de quem faz mais do que isso. E um décimo muitas vezes é pouco para medir esta diferença. Uma escola que preencher todos os critérios básicos deve obter um número limite e de pontos e a partir daí quem fizer melhor vai ser premiado - também com limites para evitar exageros.

Ao mesmo tempo é importante padronizar a pontuação para que não haja distorções. Cada item previsto na redação do quesito vale um determinado número de décimos de acordo com a sua importância. Em cima disso cada julgador vai avaliar com objetividade o que vê. Diminuir o peso da imprescindível subjetividade deveria ser uma das metas.

Alguns quesitos carecem até de uma tabela que ajude a definir o peso dos problemas apresentados. Quanto vale um buraco? Qual a diferença entre um buraco pequeno e um grande? Isso tem que estar previsto.

Para que isto funcione, cada quesito precisa ser estudado a fundo a fim de sabermos o que se pretende de cada um deles. Os textos que norteiam o julgamento atual estão ultrapassados e extremamante vagos. Reunir quem faz o desfile (coreógrafos, casais, carnavalescos, mestres de bateria, diretores de harmonia, etc.) com os julgadores, dirigentes e pesquisadores é o melhor caminho. Após um longo debate é possível chegar a um consenso sobre os critérios a serem adotados. Esta é uma situação que não pode ser decidida de cima pra baixo.

TREINAMENTO

O que para muitos é apenas uma festa, para outros representa o trabalho, o meio de vida. E para um grande grupo, uma verdadeira paixão. É inadmissível que o emprego e a emoção desta gente sejam decididos por um grupo de pessoas despreparadas. O treinamento dos julgadores não pode ser feito numa única palestra.

Um julgamento tão complexo merece um curso sério, com várias palestras, vídeos, simulações, testes. Porque não testes? E mais: deve se exigir dos julgadores um mínimo de qualificação para a função. Alguns deles cometem erros de português inaceitáveis nas suas justificativas. É importante para o mundo do carnaval que o julgador saiba explicar sua nota. É preciso aumentar o nível!

TECNOLOGIA

Estamos em 2011! Porque não usar a tecnologia em nosso favor? Defendo que tudo o que acontece perante as cabines de julgamento seja filmado, fotografado e gravado em áudio. Este material seria usado para ilustrar as justificativas das notas.

CONSENSO

Duas cabeças pensam melhor do que uma. As notas podem ser atribuídas durante uma reunião de todos os julgadores do quesito, comandados por um coordenador com saber notório sobre o tema.

Sairia uma nota única por quesito levando em conta o que foi apresentado ao longo de toda a pista. Nesta reunião cada um faria um relato do que viu e apresentaria suas fotos, vídeos ou áudios para comprovar. O coordenador resolveria eventuais diferenças de opinião.

Esta reunião poderia se realizada no dia seguinte ao final do desfile, com todos descansados e refeitos da "última impressão". Haveria mais tempo para avaliar com calma o que aconteceu.

TRANSPARÊNCIA

Não há porque esperar tanto tempo para divulgar as justificativas. A sociedade exige respostas imediatas. É preciso divulgar as justificativas imediatamente após a leitura das notas. A reunião dos julgadores de cada quesito produziria um relatório com os anexos necessários para ilustração. A divulgação deste documento poderia ser feita, no máximo, no dia seguinte à apuração.

Talvez seja caro fazer tudo isso, mas quanto vale a credibilidade de um evento milionário? Esta é a questão principal.

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Análise do Grupo Especial

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 23/03/2011 14h48

Seguindo a avaliação dos desfiles do carnaval 2011, passo agora ao Grupo Especial.

SÃO CLEMENTE

Ainda não é uma escola pronta para buscar os primeiros lugares, mas mostrou uma enorme evolução em relação a seus últimos carnavais. O trabalho do carnavalesco Fábio Ricardo foi de bom gosto e leveza, com um sopro de criatividade.  O cantor Igor Sorriso fez um desfile de gente grande! Ele tem tudo para ir muito longe.

A escola ainda peca na questão dos componentes - que não passam tanta energia quanto se faz necessário nos desfiles atuais. Faltou uma coordenação melhor de desfile para evitar a abertura de buracos durante a apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira para os módulos de julgamento.

IMPERATRIZ

Começou muito bem com uma comissão de frente inspirada, que soube carnavalizar o difícil tema da medicina. Além dela, funcionaram bem a bateria (terceiras e caixas maravilhosas) e o canto dos componentes - embalado por um samba valente e um bom carro de som.

A Imperatriz voltou a ser uma escola tecnicamente correta, mas pecou no visual pouco apurado e no desenvolvimento precário do enredo. Faltou inventividade. Conseguiu uma vaga nas campeãs porque o ano foi atípico. Ainda precisa melhorar para voltar a brigar pelos primeiros lugares.

PORTELA

A majestade do samba não merece um desfile como esse. Foi o pior do ano. Alegorias inacabadas (não, elas não queimaram no incêndio), enredo sem mensagem e desenvolvido de forma "careta", comissão inexpressiva. Faltou capricho em muitos setores.  

De positivo apenas excelente casal de mestre-sala e porta-bandeira e a execução do samba pela bateria e pelo intérprete Gilsinho. Um belo casamento musical para defender uma obra apenas mediana.

TIJUCA

Excelente apresentação que sofreu inevitável comparação com o desfile de 2010. Todo o público ficou esperando as sacadas de Paulo Barros. E elas estavam lá, mas não conseguiram causar o mesmo impacto do desfile sobre o segredo. O chão da escola, que deu show nos ensaios técnicos, pareceu "travado" no desfile e só melhorou na parte final.

A Comissão de Frente conseguiu a interação esperada, mas se transformou em carro coreografado deixando as pessoas que estavam no nível da pista de lado. O truque das cabeças foi muito repetido e era fácil de ser desvendado. Foi ótimo, mas perdeu para 2010.

Apesar disso, mais uma vez, a escola mostrou sua competência e marcou um estilo de carnaval bem definido. Ela tem a sua cara, seu jeito. E isso é muito bom, mas não significa que os outros sejam obrigados a segui-lo.

VILA ISABEL

A Vila foi bonita, mas comportada. Rosa Magalhães reafirmou seu bom gosto e mostrou capacidade de fazer carnaval em escala maior. Um dos entraves, como esperado, foi o enredo. A enésima viagem pela história das civilizações que termina em carnaval não conseguiu arrepiar os cabelos de ninguém. A leitura era clara, mas o público clama por novidades!

A Comissão de Frente foi a mais estranha de todo o carnaval. O que era aquela medusa? Porque Thatiana Pagung só saía lá de dentro depois da apresentação para os jurados? Um equívoco dos grandes.

A bateria mostra que vive uma crise de identidade: não toca o ritmo tradicional da escola nem repete as inovações que Mestre Átila apresentava no Império Serrano. É complicado mexer numa bateria com tanta essência.

É importante destacar o belo casal Rute e Julinho e a garra dos componentes.

MANGUEIRA

Impressionante a capacidade da velha Manga de reverter situações contrárias a ela. O atraso inexplicável e o discurso mal projetado do Milton Gonçalves irritaram o público, mas quando a escola finalmente pisou a avenida, tudo mudou.

A Comissão de Frente não usou a alegoria apenas como palco, mas como cenário para a teatralização que executou com maestria, resumindo a trajetória de Nelson Cavaquinho no morro. Os malandros saltando como gatos pelos tetos dos barracos estavam sensacionais!

Gelo quebrado, a Mangueira foi contando seu enredo com uma clareza que poucos esperavam. E nada como um enredo sem Egito, Grécia, Roma, etc. Destaque para os carros da Praça Tiradentes e do Zicartola.

Quando a bateria chegou e marcou o samba na sola do pé, veio a explosão consagradora. O resto do desfile serviu para curtir a beleza do samba e reverenciar a história de um ícone da MPB. 

UNIÃO DA ILHA

A tricolor insulana comprovou que poderia disputar o carnaval. Se fosse julgada, a escola estaria com certeza no desfile das campeãs. Seus carros alegóricos estavam intactos, exibindo todo o bom gosto do carnavalesco Alex de Souza. As fantasias que foram refeitas poderiam gerar a perda de alguns décimos, mas estavam dignas e representativas.

De resto, a escola estava excelente! Vibrante, colorida, original. Não foi à toa que levantou a platéia na Apoteose. Repito: foi um erro não tê-la julgado.

SALGUEIRO

Quando a Comissão de Frente chegou à Praça da Apoteose todo mundo na avenida tinha certeza de que ali estava a campeã. Era um desfile perfeito em todos os aspectos: Samba, Enredo, Alegorias, Fantasias, Comissão de Frente, Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Harmonia...

Mas o Salgueiro acabou pagando pela mania de fazer carros que ocupem todos os centímetros da pista. Aliás, não é a primeira vez que isso acontece. Será difícil encurtar as laterais em meio metro? Os problemas com a entrada de quase todas as alegorias na pista obrigaram a escola a ficar dez minutos parada e jogaram um desfile campeão no lixo. Uma pena!

MOCIDADE

Alguns torcedores não entenderam a palavra decepção que eu usei para descrever o desfile da verde e branco. Diante da animação dos componentes e dos elogios ao barracão da escola, eu esperava um desfile para, quem sabe, brigar pelo título. Acreditava mesmo que isso fosse possível, daí a decepção.

A Mocidade não me encantou em momento algum. Desde a Comissão, passando pelo casal, Alegorias, Fantasias, Enredo, Bateria, Samba. Tudo podia ser melhor. Não que tenham ido muito mal, mas apenas passaram sem despertar atenção. Muito pouco para uma escola do tamanho da Mocidade. Acredito que a direção tenha percebido isso, pois já planeja mudanças.

GRANDE RIO

Um dos melhores momentos deste carnaval. Pouca gente imaginava que a Grande Rio pudesse produzir um desfile dessa qualidade em menos de um mês. Uma prova de superação gigantesca que deve ter feito muito bem à escola. Além de tudo o desfile foi debaixo de um dilúvio, mais uma provação depois do incêndio.  Muita garra, muita emoção e a prova de quando se tem vontade e união tudo é possível.

PORTO DA PEDRA

Um desfile bonito, de bom gosto, colorido e passando com perfeição um bom enredo. Pena  ter sido tão frio. Falta emoção ao Porto da Pedra. E não é de hoje. Destaque positivo também para a muito boa bateria de mestre Thiago Diogo.

BEIJA-FLOR

A imagem que não sai da minha mente é da escola flutuando na avenida. Uma aula de canto e evolução. O tal "desfile de escola de samba" que o Laíla defende,  embora seja mal interpretado pelo grande público. Neste aspecto a Beija-Flor voltou a ser a melhor do carnaval, com larga vantagem. Fruto da diminuição no volume das fantasias.

Mas não foi um desfile perfeito. A Comissão de Frente não me convenceu: um carrinho de brinquedo puxando uma mesa com um rádio. Componentes que subiam na mesa pulando (alguns caíram). Alguns se emocionaram com a atuação do menino. Não fui um deles. O casal foi  prejudicado pela pista escorregadia e onde eu estava fez uma apresentação apressada e básica.

A Beija-Flor foi competente no acabamento de suas alegorias, mesmo que para muitos a concepção artística delas tenha sido de gosto duvidoso. Elas estavam completas e luxuosas. O enredo teve leitura fácil, casando-se com a letra do samba que a bateria se propôs a impulsionar com muito vigor. Uma bateria que serviu ao desfile e não a ela própria. É importante que se pense nisso.

Ah... e teve a presença de Roberto Carlos, que para mim era mais um homenageado, mas para a maioria é um mito. Isso ajudou a "levantar o astral" no encerramento do desfile.

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Um carnaval esquecível

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 18/03/2011 15h21

Foi um carnaval esquecível. Não quero ser chato e repetir uma série de questões que já abordei em anos anteriores. É preciso rever conceitos urgentemente. O mundo mudou e a sociedade está cada vez mais atenta a tudo. O carnaval só é um espetáculo internacional de sucesso porque milhares de pessoas dedicam suas vidas a ele. Não é um bom caminho desestimular estes apaixonados que são os verdadeiros donos do carnaval.

Conforme prometi vou fazer uma análise individual sobre cada escola. Não vi todas do mesmo lugar nem do mesmo jeito, devido às minhas diferentes funções na transmissão da rádio. Na maior parte do tempo estive no camarote da Tupi, em frente ao primeiro módulo de julgamento - mas concentrado na transmissão me dividi entre a vista da nossa janela e a da televisão. Em alguns outros casos estive na pista onde a emoção e a percepção são totalmente diferentes. Isso pode influir diretamente na minha percepção dos desfiles.
 
Começo com o Grupo de Acesso e, em breve, comentarei o Especial.
 
Alegria da Zona Sul

Abrir o desfile de sábado é muito complicado. Ainda mais para uma escola que acaba de subir, que passou por incêndio no barracão, perdeu carnavalesco e madrinha de bateria. O caos já estava instalado antes de entrar na avenida. A escola começou sua apresentação com sete minutos de atraso e acabou estourando o tempo, o que neste grupo é fatal. O desfile foi frio.
 
Renascer de Jacarepaguá

Mais um desfile sem comunicação com o público. Apesar da assinatura de Paulo Barros a Renascer não inovou e fez uma apresentação apenas correta. O destaque negativo foi o abre-alas, inteiramente importado do Salgueiro, apenas pintado.

Viradouro

Esperava mais da vermelho e branco. A começar pela comissão de frente, que deixou a impressão de que veio pela metade. Problemas na entrada dos carros geraram alguns buracos e o lindo samba não funcionou como esperado.

A bateria estava fantástica e os componentes cantaram muito.

Acadêmicos de Santa Cruz

A Santa Cruz precisa urgentemente de um choque de alegria. É uma escola fria que a cada ano perde qualidade em seus desfiles - em todos os seus segmentos.
 
Império da Tijuca

Apostou num enredo simples e, bem organizada, foi bela e feliz. Muito superior à escola que a antecedeu - o que lhe favoreceu - teve como destaque a bateria, o excelente Pixulé e a espontaneidade de seus componentes. Um dos desfiles mais agradáveis da noite.

Inocentes de Belford Roxo

A homenagem aos Mamonas não funcionou. E eu não era um dos que rejeitavam a idéia. O desfile foi correto nos itens de chão, mas deixou bastante a desejar no visual e no desenvolvimento do enredo.

Cubango

Um desfile grandioso, bonito, empolgado, passando a proposta do enredo. Alguns carros apresentaram problemas de acabamento, o que não lhe tirou o ar de favoritismo devido ao excelente trabalho da direção de desfile que conduziu a escola com fluência na avenida.

Estácio de Sá

Vir depois da Cubango não fez bem à Estácio. A vermelha e branca não conseguiu apagar o impacto da agremiação anterior embora tenha feito uma apresentação correta e bem resolvida esteticamente. O jovem carnavalesco Marcus Ferreira preferiu uma proposta clássica nas suas bonitas e bem resolvidas alegorias e fantasias frustrando minhas expectativas de inovação.

Império Serrano

É uma escola de samba de verdade. Tem chão, essência, bateria, samba e...só. Desfile de baixo nível em vários quesitos, especialmente os plásticos. Uma pena. Precisa de uma injeção financeira e, acima de tudo, de união.

Rocinha

O melhor e mais completo desfile da noite. Com um enredo inusitado, a escola de São Conrado foi perfeita desde a sua interessante comissão de frente até a última ala. Teve o mérito de criar carros alegóricos totalmente novos e bem resolvidos esteticamente, feitos dentro do espírito do tema. Apresentou um samba muito bem resolvido. Bateria e Anderson Paz perfeitamente entrosados conduziram o canto e evolução dos componentes com fluidez. Um sopro de inovação e competência numa noite que esteve abaixo do esperado.

Caprichosos
Lamentavelmente repetiu o desfile trágico de 2009, só que com menos raça dos componentes. Precisa mudar muita coisa.

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Nota de esclarecimento

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 08/03/2011 16h57

Não sei se esta é a melhor hora para escrever, mas preciso deixar claras algumas situações. Tenho dedicado meu corpo e minha alma para tentar fazer a melhor cobertura possível do carnaval pela rádio Tupi e lamento que muitas pessoas não entendam isso. Os textos divulgados aqui nos últimos dias sobre os desfiles não foram escritos por mim. Não só os meus, mas de todos os outros colunistas.

É desumano pedir para que alguém sente em frente a um computador após uma noite/madrugada de desfiles e escreva um texto. Por isso o procedimento é o seguinte: alguém da redação nos liga e nós passamos o que achamos. Acontece que, naturalmente, quem está do outro lado traduz isso para suas palavras. Nem tudo que é dito é transcrito na íntegra e daí surgem questionamentos. Tenho muito mais a dizer e explicar sobre o que senti de cada desfile. Algumas ideias foram mal interpretadas pelos redatores e aviso que não mais participarei de um processo como este.

Entendo que a festa envolve paixão e que isso gera uma certa "cegueira" por parte dos torcedores. Gostaria que houvesse compreensão do outro lado também. Um desfile de escola de samba é um espetáculo dinâmico, que se apresenta diferente a cada metro de pista. E desperta emoções diferentes em cada espectador. Por isso gera tanta discussão. O que não pode faltar é respeito das partes. Procuro sempre tratar tudo com o maior respeito, mas nunca vou me furtar de expressar minhas opiniões.

Estou agora a caminho da Sapucaí para a transmissão do Grupo B, mas prometo escrever individualmente sobre cada desfile. É importante para mim. Espero que entendam.

Nota da redação: Respeitamos a nota de esclarecimento do colunista Eugênio Leal e explicamos que o sistema é feito desde o Carnaval 2009, onde os colunistas falam com a redação e passam os flashes dos comentários. Erros nessa passagem de ideias acontecem e devem ser corrigidos, como os que ocorreram e foram alterados. Temos uma vasta equipe no Sambódromo e na redação do site. Mesmo com muitas dificuldades nossas e do próprio evento, nós conseguimos realizar um trabalho difícil de ser encontrado na internet em termos de informação. Estamos cientes das nossas deficiências e procuramos melhorar a cada dia. Deixamos claro que o colunista possui plena liberdade editorial para expressar sua opinião e que, em breve, como o mesmo citou, ele vai escrever sobre cada desfile.

 

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O dia da superação

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 08/03/2011 07h43

Foto: DivulgaçãoO grande destaque da noite vai para as escolas que sofreram com o incêndio, e que foram exemplos de garra e superação. Deixaram bem claro, que caso viessem concorrendo ao título, seriam fortes candidatas a vencedoras. Maior destaque à Grande Rio, que mais sofreu perdas com o incêndio, mas que mesmo assim mostrou muita garra e superação ao cruzar a avenida. A escola de Caxias conseguiu mostrar um desfile de qualidade, o que surpreendeu a todos. E nesse mesmo contexto, a União da Ilha também ganha destaque pelo desfile muito bem feito.

O Salgueiro, que era uma das grandes favoritas, chegou a mostrar alegorias bem trabalhadas, fantasias com bastante luxo e enredo muito bem desenvolvido, entretanto se perdeu e conseguiu se perder durante a evolução na avenida, o que fez com que a escola jogasse fora o que seria um desfile de campeão. Mocidade foi uma decepção em todos os sentidos. E a Porto da Pedra apesar de aparecer muito bonita na Sapucaí, mostrou um desfile frio e totalmente distante do público. A Beija-Flor terminou a segunda-feira de desfiles com problemas na comissão logo no início da apresentação, o que fez com que a escola esfriasse. Além de não ter apresentado um diferencial, nem alguma coisa que pudesse levantar o público.

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Nenhuma escola de domingo apresentou desfile arrebatador

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 07/03/2011 07h30

A campeã não chegou ainda. Não teve nenhuma escola com um desfile arrebatador, não houve bons impactos.

A superação da Mangueira surpreendeu a todos pelos problemas. Conseguiram traduzir bem o enredo.

A Unidos da Tijuca foi bem, mas era esperado algo mais acima do ano passado. Ela acabou perdendo para ela mesma, mas teve belos momentos. Paulo Barros mostrou sua capacidade de criar.

A Vila Isabel fez um desfile correto na volta da Rosa Magalhães. Houve problemas na comissão de frente que ninguém entendeu. A falha principal foi na comissão. Também não fez um desfile arrebatador.

A Imperatriz, nem de longe foi um melhores do trabalho do Max Lopes. A combinação de cores e os próprios carros ficaram bonitos na avenida. A comissão de frente foi uma das grandes surpresas da noite de hoje.

A Portela passou. O nível das fantasias foi melhor do que das alegorias, o que não dá para entender, porque as fantasias pegaram fogo. Acho que o fato da escola não estar concorrendo fez com que não fosse com garra para avenida.

A São clemente conseguiu se superar.

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Grupo de Acesso já viveu dias melhores

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 06/03/2011 08h00

O desfile do Grupo de Acesso A foi de nível médio. Não foi bom. As escolas apresentaram dificuldades. Não houve uma que tivesse brilhado intensamente, que merecesse aclamação total. O Grupo de Acesso já viveu dias melhores.

A minha campeã da noite foi a Rocinha. Apresentou o desfile mais redondo. Sem grandes erros, sem grandes problemas. Desfile original. Em todos os sentidos, foi diferenciado. Bom desempenho geral em todos os setores.

Além da Rocinha, a Cubango também foi bem e briga pelo título. Mais abaixo vem Viradouro e Império da Tijuca. Destaque negativo para Alegria da Zona Sul, que apresentou muitos problemas, e Caprichosos, que mais uma vez não honrou a tradição da escola e apresentou um desfile muito fraco. Santa Cruz e Inocentes também não foram bem.

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O Show tem que continuar

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 08/02/2011 11h36

Parecia um pesadelo, mas era realidade. A semana começou com uma verdadeira tragédia para o mundo do samba. As imagens são fortíssimas e servem principalmente como lição: o sistema de prevenção ao fogo é precário ou inexistente. Se eu fosse presidente de uma das outras nove escolas estaria a essa altura comprando centenas de extintores e contratando dezenas de bombeiros. É preciso que este aspecto seja revisto com urgência porque o que aconteceu ontem pode se repetir a qualquer momento em outros barracões e acabar com o carnaval 2011. O mais importante desta história é que não houve vítimas e por isso já devemos agradecer aos céus. Se fosse em outro horário a coisa seria muito pior.

É claro que decisões precisavam ser tomadas, mas acho que elas foram precipitadas. Pensadas em cima do desespero e da emoção, as medidas anunciadas ontem podem ser revistas depois que a poeira baixar. Um mês é pouco tempo sim, para quem perdeu todas as suas alegorias como a Grande Rio. Mas refazer fantasias não é tão complicado, apesar da escassez de material. As escolas receberão verbas extras para tal e as comunidades se organizarão para repor o tempo perdido.

É por isso que eu acredito que o "não julgamento" de Portela e União da Ilha devem ser repensado. Como nenhuma escola será rebaixada (medida correta), e não haverá riscos para elas, não vejo motivo para impedi-las de tentar uma vaga pelo menos no desfile das campeãs - o que já seria uma vitória. Vimos ontem os belíssimos carros que a Ilha fez e que foram salvos. O julgamento é composto por dez quesitos e "fantasias" é apenas um deles. Recentemente a Mangueira, com problemas visíveis em suas alegorias, chegou num honroso sexto lugar porque foi muito bem nos outros itens.

A competição é a motivação do componente. É por ela que o sambista se esforça. O homem está em busca constante por superação, ainda mais numa situação como essa. Fazê-lo entrar na avenida para um "jogo amistoso" significa acabar com seu carnaval. União da Ilha e Portela salvaram suas alegorias e têm o direito de lutar por uma colocação. Seus componentes devem exigir isso junto às suas diretorias. E o tempo vai dizer que isso é possível sim.

O caso da Grande Rio é diferente. A escola perdeu todas as suas alegorias e encontrará dificuldades para refazer um carnaval competitivo. Ainda ssim acredito que será um bonito e emocionante desfile.

Sofremos uma grande perda material, mas não podemos perder a esperança, a garra, a vontade de fazer carnaval. Que a lição seja aprendida quanto à segurança e que os sambistas possam mostrar que podem se superar. Ainda há tempo!

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Sem maquiagem

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 24/01/2011 15h36

Escola de samba em ensaio técnico é como uma mulher nua e sem maquiagem. É ali que a gente vê se ela é bonita de verdade. Na hora do desfile ela vira uma noiva, com vestido, penteado e pinturas que dão uma impressão diferente da realidade.

No ensaio técnico não tem fantasia, alegoria, som espalhado pela pista, bateria microfonada, fogos de artifício, efeitos especiais... nada disso. É a hora de mostrar quem canta, evolui, toca e samba de verdade. E mais: quem sabe como armar um "cortejo", ou "esticar a cobra". Sem duplo sentido, por favor!

Pelo ensaio técnico não dá pra dizer quem será a miss Brasil (ou melhor, a campeã do carnaval) porque a maquiagem tem um peso neste concurso, mas é possível apontar quem tem o corpinho mais bonito, mais charme, mais graça, mais alegria.

Claro que até o dia decisivo ainda há tempo para corrigir alguns detalhes: perder uma barriguinha, queimar algumas calorias, entrar em forma. Mas uma verdade precisa ser dita - quem já está bem agora tem mais chances de estar melhor no desfile oficial.

Ainda não é hora de fazer um ranking destas apresentações, mas não vou fugir desta responsabilidade. Quando acabar a primeira rodada de ensaios vou fazer minha lista de preferidas. E farei uma segunda na semana anterior ao carnaval. Você pode montar a sua também, sem compromisso. Faz parte da brincadeira! Por enquanto o que dá pra adiantar é que temos mulheres bonitas se preparando para o carnaval 2011!!!

PREOCUPA

Trocar diretor de bateria a 40 dias do carnaval não é uma manobra simples. A Ilha, ao que parece, corre o risco de perder Riquinho para uma co-irmã que deve estar insatisfeita. Isso preocupa os insulanos.

A Mangueira já trocou seu diretor principal (saiu Jaguara Filho e entrou Ailton Nunes). Por mais que o Ivo Meirelles entenda do riscado e que a bateria da Manga não precise de um nome de peso à sua frente para arrebentar, achei que algo de errado ocorreu no ensaio de domingo. Embora não tivesse cometido erros, a bateria da Mangueira esteve longe daquela que me encantou no último desfile oficial. Ah... e uma boa bateria não precisa de maquiagem! (mas pode perder uma barriguinha).

 

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Feliz Ano Novo

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 11/01/2011 13h26

"Há os que vão pra mata, pra cachoeira ou pro mar", mas para quem é do samba o início do ano novo foi na noite de domingo, no templo maior da nossa religião. É bem verdade que ele veio com algum atraso, mas por um bom motivo: a inédita e automaticamente clássica lavagem da pista pelas baianas, velha guarda e casais mirins de Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Uma idéia que não podia ter sido mais feliz.

Ver a união dos sambistas do passado com os do futuro ao som de sambas que não eram necessariamente de enredo foi fantástico. Além de provar que se pode desfilar com um andamento mais lento! Só o fato de presenciar o veteraníssimo "Vitamina" do Salgueiro ensaiando alguns passos e arrancando aplausos da platéia já teria feito o evento valer a pena, mas o garoto Gabriel, de seis anos, aluno da escola de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e Porta-Estandarte de Manoel Dionísio completou minha alegria ao "riscar os chão de poesia" sozinho durante o intervalo.

O clima de congraçamento e emoção tomava conta de todos e a reposta do público enorme (cerca de 30 mil pessoas) confirmou que o evento entrou de vez no calendário da cidade. O cansaço ao final foi recompensado pelos momentos de alegria que vivemos.

MESTRE CELINHO

Um dos maiores diretores de bateria do carnaval carioca estava circulando pela pista. Recuperado da doença que o afastou do comando da "Pura Cadência" ele agora dirige seu táxi pelas ruas da cidade. Sua qualidade faz falta ao desfile. Quem sabe alguma escola não o contrate?

FU

O ex-presidente do Salgueiro, Luiz Augsuto Duran, também recuperado de problemas médicos graves, foi acompanhar o ensaio da escola e avisou: após o carnaval vai disputar a eleição. Ele diz que pretende "continuar o trabalho que foi interrompido", mas não quer antecipar o clima eleitoral para não atrapalhar o carnaval da escola.

SEM ORÇAMENTO

Fernando Horta não quis revelar quanto está gastando neste carnaval, mas disse que está bem acima da média. Ele disse que não tem como medir o custo total porque muita coisa vem de parcerias com cessão de serviços e materiais. Ele disse que não pretende deixar a presidência da Tijuca caso seja eleito para comandar o Vasco. A eleição na colina, pra ele, deve ser no meio do ano.

ROCINHA DO FUTURO

É brilhante o trabalho de Deo Pessoa à frente da escola de São Conrado. Nascido e criado na comunidade, ele faz de tudo para integrar a agremiação à população local. Ele revelou que o carnaval já foi forte lá dentro na época dos blocos, mas que a escola se afastou do morro.

Para reforçar a cultura do samba, pensando no futuro, montou uma escola mirim para provar que a comunidade de nordestinos também pode abraçar o samba. Boa sorte!

BATERIAS E CANTORES

Sem sombra de dúvidas as baterias e os intérpretes se destacaram na primeira noite. Todos eles. Prova de que ensaiar dá certo. Falta agora os componentes se soltarem um pouco mais. O canto coletivo do Salgueiro foi um show.

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É o novo sambódromo que queremos?

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 17/12/2010 12h51

Vivemos um momento histórico para o carnaval carioca. A prefeitura anunciou que vai "ampliar" o nosso sambódromo. Este é um sonho antigo de todo sambista, mas será que o projeto apresentado é aquilo que nós queríamos?

Começa errado por que a motivação das obras não é o carnaval e sim a olimpíada. Uma prova de que o carnaval, por si só, não tem força para motivar um investimento oficial. Também não fui informado sobre qualquer tipo de consulta às escolas de samba sobre suas necessidades em relação ao local onde desfilam.

O sambódromo pode ser usado por outras atividades, claro, mas ele foi construído para ser o palco oficial do desfile das escolas de samba e elas deveriam ser sua finalidade principal. A obra é bem vinda, mas uma oportunidade como esta deveria ser aproveitada para que todos os problemas do local fossem discutidos e resolvidos. E eles não são poucos!

Acessos - Algumas das grandes dificuldades de desfilantes e espectadores são as ruas que cercam a pista de desfile. Toda a região precisa ser reurbanizada, limpa, iluminada e os acessos têm que ser claros, bem sinalizados e policiados. Isso inclui concentração e dispersão.

"Monta e desmonta" - Na época da construção da Passarela o motivo principal era acabar com as estruturas tubulares. O tempo passou, a construção ficou obsoleta e hoje temos frisas, HCs e cabines de imprensa montados em cima das mesmas estruturas - além das passarelas dos setores pares. Estas últimas são as únicas que devem acabar, mas ninguém pensou em montar uma base definitiva para as frisas e cabines?

O lado "Ímpar" - Lá se vão mais de vinte e cinco anos sem que uma reforme fosse feita na estrutura já existente. Qualquer um que passe pelo local percebe o desgaste natural que o tempo causa. Não ouvi qualquer referência a reformas na parte já construída da passarela.

Conforto - Ninguém pensou em pedir a Oscar Niemeyer, enquanto ele ainda está entre nós, um projeto de cobertura para as arquibancadas e frisas? O pessoal que lá fica vai continuar pegando chuva. A acústica não é problema, pois existem revestimentos que evitam a reverberação do som. Basta querer. Não seria viável também, pensar em assentos de plástico como os dos estádios de futebol para que cada um tenha seu lugar marcado e delimitado, além de não sentar no concreto? O desfile é um espetáculo internacional que dura a noite inteira. Não é justo expor os espectadores a estes constrangimentos.

Praça da Apoteose - É um absurdo assistir ao desfile daquele local. As pessoas que ali estão só enxergam a escola quando ela passa por ali. E mesmo assim de muito longe. Aquelas arquibancadas precisam ser demolidas para dar lugar a outras mais próximas. Afinal, aquilo é a Passarela do Samba e não uma casa para show de rock.

Arrecadação - Não fiz as contas, mas imagino que o número de camarotes irá diminuir consideravelmente com o fim do atual setor 2, apesar do novo desenho dos setores. Acho também que os novos lugares de arquibancadas e frisas não suprirão a arrecadação que se perderá com os camarotes, o que pode ocasionar um aumento no valor do preço dos ingressos para estes outros setores. Algo a ser checado. Vale lembrar que, para as escolas, a verba dos ingressos passa a ser ainda mais importante com o fim da subvenção.

É verdade que há também pontos positivos na "ampliação" da Passarela do samba. A "possibilidade de ver o arco por inteiro", citada pelo prefeito é o menor deles. O mais legal vai ser o fato de que na teoria teremos mais "povo" assistindo. Quem desfila sabe que um dos momentos mais legais é quando a gente passa entre os setores 4 e 11 porque há uma troca de energia entre o pessoal que está nas arquibancadas que esquenta bastante o desfile. Ter isso ao longo de toda a pista será fundamental para que as escolas reencontrem o "calor humano" em seus desfiles.

Há também a questão técnica da acústica. O som agora se propagará com igualdade para os dois lados favorecendo as baterias e, quem sabe, diminuindo o volume ensurdecedor das caixas de som.

Outra coisa que me preocupa é a execução das obras. O que está lá foi feito em quatro meses, mas com a lentidão que a atual prefeitura trata o carnaval, temo que enfrentemos problemas para 2012. É importante que a obra fique pronta cedo - a tempo dos ensaios técnicos e dos testes necessários antes da festa maior desta cidade.

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O rumo das baterias

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 12/11/2010 12h52

Tenho muito orgulho de ter sido ritmista por muitos anos. Saí em inúmeras baterias de diferentes grupos. Já desfilei em dez escolas num único carnaval - sempre no tamborim. 

É nítida a evolução técnica alcançada na última década. Muitos dos diretores passaram a estudar música, procurando uma profissionalização que o carnaval atual exige. Aumentou a exigência por batidas uniformes de caixa, afinação de surdos e equilíbrio entre os instrumentos. Há desenhos para as terceiras  e escolinhas em profusão. As baterias estão melhores, é fato. Em quase todos os aspectos.

A única coisa que tem me preocupado são as paradinhas, ou "bossas". Depois que Mestre Odilon criou as "conversas" entre instrumentos, com cada um deles tocando num momento, a coisa ganhou rumos estranhos. Nada contra a criação (pelo contrário), mas tudo contra a tendência que se criou a partir dela.

A cada dia surge uma paradinha mais "espetaculosa" e menos integrada com a melodia dos sambas. Com todo respeito aos grandes mestres do samba: tem muita bossa confusa, mal pensada e mal executada. É importante ter em mente que a bateria deve acompanhar o samba, servir a ele, sustentá-lo e valorizar a sua musicalidade. A percussão é um acompanhamento, não o prato principal!

A moda hoje é criar as paradinhas em cima dos compassos, para encaixá-la em qualquer samba. Isso é errado. Fica uma tremenda confusão. A bossa deve ser pensada em cima dos desenhos melódicos, das modulações da melodia. Música é harmonia, gente! Tem paradinha que obriga o cantor a acelerar ou frear o andamento do samba. Fica muito feio!

Amigos mestres, diretores e ritmistas: é hora de deixar vaidade de lado e pensar no rumo que estamos trilhando. Pelo bem de sua escola e do carnaval. Como dizia um samba da Imperatriz, "mais vale a simplicidade a buscar mil novidades e criar complicação". Às vezes uma manobra simples dá um efeito muito maior e mais e bonito do que a maioria das coisas que se tem criado.

O que importa, na verdade, é o "ritmo". Graças a Deus quase todas já acertaram esta parte. Deixem-nos ouvir um pouco mais dele!

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MP x Carnaval

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 09/11/2010 16h17

Prefeitura e LIESA buscam uma maneira de organizar o carnaval 2011 sem maiores atropelos. A notícia de que não haveria subvenção pegou muita gente de surpresa e gerou confusão porque não foi explicada direito. O que acontece é que o Ministério Público ameaça entrar com um processo contra a Prefeitura por "Improbidade administrativa" caso ela assine com a LIESA o mesmo contrato que regula o carnaval há muitos anos.

Há um processo correndo no MP desde 1998 que investiga as ações da LIESA. Até hoje este inquérito não chegou a uma conclusão, mas o Ministério Público não concorda que a administração da festa fique na mão da entidade que congrega as escolas de samba.

A Prefeitura tentou organizar uma licitação para que alguma outra empresa assumisse esta responsabilidade, mas não houve interessados. A única opção é manter esta administração com a LIESA, mas aí o MP acha que a entidade não pode receber a "subvenção" e que deveria administrar o evento com recursos próprios.

Uma das saídas pensadas para diminuir o prejuízo das escolas é acabar com a participação da Prefeitura na bilheteria do evento. Até o ano passado ela ficava com cerca de 6% do total. As negociações, entretanto, não estão encerradas. Haverá mais uma conversa na próxima semana.

Existe a possibilidade também do contrato ser assinado sem previsão de subvenção, apenas para a organização do evento, mas com a Prefeitura pagando diretamente a cada uma das escolas a verba que seria distribuída pela LIESA. Este processo não envolve as agremiações dos grupos de acesso que, entretanto, não estão livres da fúria do MP. Primas pobres do carnaval, extremamente dependentes desta verba, algumas se assustam e admitem que teriam dificuldades em desfilar.

Aqui acaba a informação e começa a opinião. O carnaval do Rio de Janeiro é um evento importantíssimo para o turismo na cidade. Movimenta milhões. E, embora os blocos hoje sejam um fenômeno, o desfile das escolas de samba ainda é a maior atração. Nos últimos anos as questões relativas à administração e ao repasse de verbas vêm sendo discutidas na última hora. Sim, para quem planeja um carnaval nós estamos no limite. Este atraso prejudica a organização da festa que acaba sempre sofrendo com problemas de estrutura.

Os órgãos públicos precisam pensar carnaval profissionalmente. O certo seria que a festa de 2012 já estivesse sendo projetada. Os desfiles são cada vez mais elaborados e caros. Hoje as escolas pagam milhares de fantasias de comunidade, efeitos especiais, inúmeros profissionais. O carnaval é um mercado de trabalho que cresce e assim deve ser observado.

É preciso que se crie uma regulamentação especial para a administração das escolas de samba, observando suas especificidades e dando a elas condições de sobreviverem na legalidade - o que hoje é muito difícil. Não se pode tratar destas entidades como empresas normais, com fins lucrativos, mas elas também precisam prestar contas do dinheiro público que recebem.

Estamos no pré-histórico da história de um evento que ainda vai crescer muito e ensinar ao mundo o que é a nossa arte. Antes, nós sociedade organizada, precisamos entender este fenômeno e aprender a lidar com ele.

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Obrigado, poetas imperianos!

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 04/11/2010 17h34

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Fico muito feliz quando vejo que o que a gente escreve aqui ganha repercussão e se transforma em realidade. Foi assim com a coluna "Samba no pé", que virou tema de seminário no SESC de Três Rios, e agora com meu emocionado texto sobre o samba do Império Serrano para 2011.

Inspirados pelas minhas palavras, Paulinho Valença, Victor Alves, Leo e Vitor Cunha compuseram uma nova obra - um samba de terreiro - e já o gravaram. O samba é lindíssimo e versa sobre a minha prosa: o DNA dos sambas imperianos. Ouça!

A minha casa é a casa de Mestre Fuleiro
Por isso sou feliz em viver aqui
Onde brilhou Molequinho e Mano Décio da Viola
E a lígua oficial é dó ré mi fá sol lá si
No sábado canto samba com Jorginho
Abençodo por Dona Ivone lara

Minha felicidade é renovada ano a ano
Meu lar é quadra do império Serrano

Acordo com versos de Silas de Oliveira
Embalo meu dia com o Beto Sem Braço
Roberto Ribeiro,Aluisio Machado e Arlindo Cruz
A arte que vem dessa gente me enche de luz
Na marcação da Sinfônica do Samba
Zé Luiz,Jorge lucas,Samara,lula e Maurição
Pra Marcão, Marcelo,Henrique, Popeye e Zé Paulo pedimos licença
Victor Alves, Leo, Vitor Cunha e Paulinho Valença

Vou cantar como é bom estar aqui
Ver o sambista sorrir e hoje poder exaltar
Assim como disse o poeta aqui é o meu lugar

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Consagrando a criação

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 04/11/2010 17h18

Festa de protótipos é uma das coisas mais chatas do calendário carnavalesco. Aquele desfile interminável de fantasias, com modelos nem sempre animados não é nada agradável. Na terça-feira, porém, resolvi aceitar o convite da assessoria de imprensa do Porto da Pedra e fui conferir o que o carnavalesco Paulo Menezes preparou para o carnaval 2011.

A escola foi além da mostra de suas fantasias: fez do evento uma apresentação do enredo, do samba e até mesmo de seu novo presidente (além de brindar o público com uma das peças de Maria Clara Machado). A festa foi realizada no teatro Carlos Gomes, aproximando a agremiação do universo da homenageada e criando um clima mágico em torno do enredo. Uma forma inteligente de "vender" a sua imagem e seu projeto.

A apresentação das fantasias não foi num desfile, mas através de uma exposição onde as pessoas podiam ver de perto as criações do carnavalesco por quanto tempo quisessem e ainda ler as explicações sobre cada uma delas.

É deste tipo de iniciativa que o carnaval precisa para crescer enquanto espetáculo, alcançar novos públicos e novas realidades. É preciso criar, pensar, sonhar - como diz o enredo. A escola está de parabéns.

Quanto às fantasias: não sou especialista, mas achei lindas - de fácil leitura, excelente acabamento, muito bom gosto, com um toque infantil e alegres. Só fiquei com pena dos componentes. Quem for desfilar no Porto da Pedra precisa estar em boa forma física e muito hidratado antes de entrar na avenida.

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Aplausos no seu despertar

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 27/10/2010 16h46

A crise imperiana é das mais graves. No Grupo de Acesso, cheia de dívidas e em meio a uma guerra em sua comunidade, a escola vive seus dias mais difíceis. Ainda assim é capaz de mostrar que não é "qualquer uma". O samba-enredo escolhido na madrugada de terça-feira comprova que seu DNA está mantido.

Casa de mestres como Silas de Oliveira, Beto sem braço e Arlindo Cruz (entre outros) o Império Serrano é fonte das mais destacadas no gênero samba-enredo. Isso, desde sempre, faz parte do seu jeito de ser. E não vai mudar - pelo menos no próximo carnaval.

O samba que vai cantar Vinícius de Moraes é, sem sobra de dúvidas, um dos mais bonitos do ano. Suave sem deixar de ser valente, poético sem deixar de ser descritivo, inovador sem perder a tradição... ousado como todo bom samba deve ser. É uma delícia para quem gosta do gênero ouvir sua melodia sinuosa e envolvente. Os refrãos são duas bênçãos!

Axé, Império Serrano! Parabéns aos compositores que o escreveram e à diretoria que soube escolhê-lo para proporcionar mais um desfile emocionante desta escola tão importante para o nosso carnaval. Desperta, Império! Vá à luta! Supere as dificuldades e mostre quem és! Meus aplausos estarão lá para te agradecer!

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O verso sorriu ao te escrever

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 24/10/2010 16h34

Um samba como esse da Viradouro é assim mesmo, até o verso sorri quando o escreve. Tem muito samba que faz o verso, xingar, espernear e chorar! Como bem escreveu o colega Alberto João na reportagem sobre a final, este não é mais um samba: é "o samba" que a Viradouro precisava para retratar o momento mágico que uma escola grande como ela atravessa, mostrando-se forte para encarar as dificuldades que tem pela frente.

É um samba mágico: poético e ao mesmo tempo descritivo. E a linha melódica se encaixa perfeitamente na emoção dos versos. Casamento raríssimo nos dias de hoje. O meu amigo, parceiro e um dos autores deste samba, Diego Moura, costuma dizer que nós compositores não criamos nada, apenas pegamos a música que está vagando pelo ar, numa espécie de mediunidade. Neste caso os caras "lá em cima" que criaram sabiam que a Viradouro precisava de uma obra linda como essa e capricharam.

Estamos em 2010, mas hoje a "Viradouro é só sorriso" com a maravilhosa festa que promoveu na última madrugada. Vi uma comunidade unida, uma diretoria organizada e renovada e uma escola feliz. Não dá pra perceber que está no Grupo de Acesso. Parabéns, comunidade de Niterói! Mostre sua força!

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O remédio pra curar a minha dor

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 23/10/2010 21h09

Mais uma vez a Imperatriz Leopoldinense mostrou que tem uma das melhores alas de compositores do carnaval carioca. De um enredo burocrático (medicina), conseguiu criar uma boa safra de sambas e chegar a quatro finalistas de bom nível.

O samba vencedor tem o mérito de mexer com os brios dos componentes através de uma boa mistura de termos médicos encaixados á paixão do sambista. A melodia tem momentos mais trabalhados e trechos alegres, encontrando um resultado final equilibrado e valente. Não é um samba com o toque épico de "Brasil de todos os Deuses", mas consegue dar um bom gás ao enredo.

LEVANTE A MÃO?

A Mocidade, como já se previa, deu à mesma parceria do ano passado a vitória no seu concurso interno de samba-enredo. A aposta é na alegria que a escola mostrou no último desfile quando, para mim, teve o melhor "chão" do carnaval. Com um estilo parecido, os compositores Hugo Reis, Zé Glória e J. Giovanni colheram os frutos do sucesso do ano anterior.

Não é um estilo que me agrade. Ano passado o samba da escola perdeu mais de um ponto e meio. E a agremiação corre risco de ver isso se repetir. O refrão me parece apelativo ao extremo e a letra não nos ajuda a entender a difícil trama do enredo. E havia opções muito interessantes na safra. Vamos ver no que dá.

SÓ DEUS SABERÁ

A ala de compositores da Ilha está sentindo muita falta daqueles que se tornaram dirigentes como Djalma Falcão e Márcio André, sem falar dos que já nos deixaram como Franco (só pra ficar nos mais recentes). A safra deste ano, mais uma vez, não foi das mais inspiradas.

O samba vencedor se destacou entre os concorrentes, mas não traz qualquer novidade ou diferencial. É um samba leve de melodia e superficial na letra. Cabe à excelente bateria de Mestre Riquinho fazê-lo crescer.

ACESSO FERVE!

Os sambas do Grupo A estão me animando bastante! Eu já tive a oportunidade aqui de elogiar o samba da Rocinha, mas não parou por aí. A Cubango escolheu uma obra valente, daquelas que têm tudo para levantar poeira; a Caprichosos se reencontrou com a alegria e irreverência num samba que também pode dar sacode e a Renascer escolheu um samba de melodia diferente e inovadora.

Como escrevo horas antes da final da Viradouro ainda não posso dizer que a escola tem o samba do ano, mas tem tudo para que isso aconteça. É...acho que depois de muito tempo o CD do Acesso pode ameaçar a qualidade de sambas do Especial.

TRÊS RIOS QUER SAMBA NO PÉ!

Estive terça-feira na cidade para participar de um fórum sobre carnaval promovido pelo SESC local.

O motivo do convite foi a coluna que escrevi aqui, meses atrás, sobre o "samba no pé". Tive uma recepção calorosa dos sambistas locais. Já quem defenda por lá o debate sobre a criação do quesito "Passistas" no carnaval local. Fico muito honrado por ver uma idéia minha ir adiante. Mesmo que isso não aconteça, o simples debate já foi importante para todos que estiveram lá.

O carnaval precisa ser pensado, debatido, discutido!

CIDADE DO SAMBISTA

É uma alegria enorme acompanhar um pouco da gravação do CD na Cidade do Samba. Além de encontrar e conversar com muitos amigos é legal ver ritmistas e comunidades ocupando aquele espaço.

A LIESA quer receber o sambista na sua casa e está se esforçando para isso. No próximo dia 8 (segunda-feira), começa o Botequim da Cidade do Samba. Shows de Arlindo Cruz, Moacir Luz e Grupo Regente. A entrada custa dez reais e dá direito a uma cerveja. O sambista tem obrigação de dar as caras e assumir o seu espaço!

Fica uma sugestão: encerrar a noite com intérpretes das escolas de samba lembrando grandes carnavais! Vamos lá, gente!

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É o "boom", quem não viu? A casa caiu

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 17/10/2010 22h38

O verso que dá título à coluna é do samba da Unidos da Tijuca. Além de estar dentro do espírito do enredo ele tem uma outra interpretação, mais ampla. Podemos entender que a escola está mandando um recado aos tradicionalistas, após a vitória de seu desfile inovador de 2010. Uma sacada interessante, assim como outras que existem ao longo do samba que permitem encenações, coreografias e teatralizações. Como exemplo, no trecho "Apague a luz" a quadra da escola ficava às escuras após o anúncio do samba campeão.

Julio Alves e Totonho venceram mais uma vez porque seus sambas têm conseguido entender o estilo de carnaval que a escola propõe. São enredos pouco convencionais e por isso difíceis para quem está acostumado com temas históricos, romãnticos, e exaltações. A abordagem da letra é diferente: não pode revelar todos os detalhes da história para não quebrar o impacto e a melodia precisa permitir marcações bem definidas para as coreografias.

É verdade também que a sequência de vitórias da dupla desanima outros compositores de concorrerem na escola. Isso torna a disputa mais fácil para eles. Não havia em toda a safra um samba sequer que pudesse lhes fazer frente desta vez. Era uma vitória esperada desde que os concorrentes foram divulgados.

FESTEJANDO NOVAS GERAÇÕES

André Diniz ganhou mais uma vez na Vila. Já são doze vitórias. Ninguém discute o talento dele, mas eu acredito que a escola precisa apostar também nos seus novos valores. Nos últimos a Vila tem conseguido revelar bons grupos de novos compositores. Alguns estiveram na final de ontem com muito brilho. Eles são o futuro da escola.

O samba escolhido tem muitas qualidades - especialmente pela letra - e vai representar bem a escola, mas representa um estilo que já soa um tanto repetitivo pelas inúmeras vitórias que a parceria tem alcançado. Seria bom para a Vila e para o carnaval um sopro de novidade. Daria novo fôlego e mais oxigenação para todos. Além de motivação para os novos talentos que precisam de espaço para mostrar que sabem criar com qualidade também.

A COMUNIDADE ABRAÇOU

Não acompanhei tão de perto a disputa na Grande Rio, mas fiquei feliz porque pela primeira vez na história recente da escola não ouvi fofocas sobre acertos para vitória deste ou daquele samba. Ganhou aquele que conquistou a quadra numa disputa com outras obras de nível muito parecido.

Não é um samba para entrar para antologias do gênero, mas se for realmente "abraçado" pela comunidade vai trazer um brilho muito maior ao desfile do que obras anteriores que foram enfiadas "goela abaixo" dos componentes. Cantar com orgulho é a melhor coisa para os componentes e, consequentemente, para a escola.

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Sem surpresas

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 16/10/2010 05h57

Sem surpresas. Assim foi a manhã deste sábado. Portela e Porto da Pedra confirmaram as expectativas de quem vive os bastidores do mundo do samba e fizeram escolhas previsíveis.

Respeito a opção da diretoria da Portela, mas me decepcionei. A águia tem um bom samba para 2011, mas poderia ter um dos melhores, senão o melhor. Não era o mais bonito nem foi o que mais mexeu com a quadra... foi o que mais investiu, entretanto. Teve três intérpretes de ponta a cantá-lo. Definitivamente meu gosto pessoal não bate com o da diretoria da escola de Madureira.

A letra é bem escrita e descreve o enredo completamente. A melodia é correta, dentro dos padrões atuais... mas carece de um "algo mais". Depois que esquecermos os outros concorrentes o samba vencedor irá se firmar e levar a escola a mais um desfile. Boa sorte!

EM SÃO GONÇALO

O samba do Porto da Pedra é muito melhor do que o do ano passado, feito pelos mesmos compositores. Era uma vitória previsível por todos os motivos inclusive pela falta de concorrentes à altura. A escola só não precisava demorar tanto para divulgar seu resultado. Essa demora desnecessária quando todos já sabem quem é quem desanima muita gente. Agora é trabalhar para "matar mais um leão" em 2011.

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De todas as marias vêm as bençãos

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 15/10/2010 03h35

Quando uma escola cria um estilo é muito difícil se afastar dele. A Beija-Flor, mais uma vez, pediu a seus compositores que fizessem sambas mais "leves". Eles tentaram, mas não estão acostumados a isso. Erraram a mão: os sambas mais curtos e alegres ficaram devendo alguma coisa. A vitória acabou caindo no colo de quem decidiu compor uma obra com jeito e cara de Beija-Flor. Sinceramente, eu acho melhor que seja assim. Acho importante que cada escola tenha sua identidade musical e está provado que em Nilópolis isso existe e é muito forte.

Este samba tem uma melodia muito forte, que favorece o canto dos componentes - um dos pontos altos da escola. Trechos como "Eu, cheio de fantasias", "Calhambeque belos dias", "É inspiração pra nossa canção...poesia", "De todas as marias", "Poema... emoção" e a abertura do refrão "Meu Beija-Flor chegou a hora!" fazem o componente quase "gritar". A letra também tem boas sacadas, embora não cite tantas músicas de Roberto quanto o público há de esperar.

É, acima de tudo, um samba valente. Com ele e fantasias mais leves, a comunidade nilopolitana há de mostrar sua força mais uma vez e proporcionar um desfile de chão muito forte.

SÃO CLEMENTE

O meu amigo e diretor da São Clemente, Wanderley Rocha, me informou que já estava nos planos da diretoria fazer ajustes naquela versão da junção apresentada no dia da final. O resultado encontrado após a reunião da diretoria com os campeões ficou muito bom. Fizeram o que tinham de fazer mesmo. Não se poderia esperar outra coisa de uma ala de compositores de alto nível como a nossa. Agora a São Clemente tem um belo samba para abrir o carnaval!

MANGUEIRA

Quero manifestar aqui minha solidariedade ao presidente da Mangueira Ivo Meirelles, alvo de uma série de ataques após a escolha do samba. Conversei com ele por telefone e disse o quão importante são as atitudes firmes que ele vem tomando no processo de escolha dos sambas da escola. É claro que muita gente não vai gostar, mas o sambista de verdade agradece!

NÊGO

Que fase, hein, meu cantor! Você merece! Parabéns!

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O cenário é perfeito!

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 12/10/2010 05h16

Ao que parece a safra de 2011 pode marcar uma redenção dos sambas de enredo. Está muito cedo, é verdade, mas o Salgueiro seguiu o caminho da Mangueira e rompeu com o estilo que vinha apresentando nos últimos anos.

Não foi uma decisão tão polêmica porque Dudu Botelho e seus parceiros contavam com grande torcida dentro da escola. Mas o que importa é que este samba, indiscutivelmente o melhor da safra salgueirense, tem caminhos melódicos e poéticos bem diferentes do que se chama no mundo do samba de "cara do Salgueiro". A melodia é mais complexa e a letra melhor trabalhada, com muita emoção e sem as apelações de praxe. Não me lembro a última vez que o Salgueiro foi para a avenida, por exemplo, com um refrão que não cita o nome da escola. Isso, por mais simples que pareça, já é uma ousadia.

A atitude da presidente Regina Celi de revelar os votos de todos os segmentos foi interessante para que todos tivessem a verdadeira dimensão do que foi a vitória. Não houve unanimidade, mas um apoio maciço da maior parte dos segmentos. Figuras importantes como Renato Lage, Quinho e a harmonia da escola foram contrariadas, mas isso faz parte do jogo democrático.

Espero que o Salgueiro tenha enfim se libertado do estigma de procurar um "Explode Coração" a cada ano. Agora é torcer para que tudo dê certo na avenida. O cenário, por enquanto, está perfeito.

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"Teu samba ninguém vai calar"

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 10/10/2010 05h52

"Mangueira é resistência", disse Ivo Meireles antes de surpreender o mundo do samba e anunciar o samba menos cotado da final como o vencedor de seu concurso interno. Resistir, nos dias atuais em que a maioria se cala e foge da responsabilidade, é coisa de herói. Por isso estou aqui para aplaudir a coragem de assumir um samba sem lobby, sem rótulo, sem padrões estéticos pré-determinados. Um samba na essência, um samba de resistência. Um samba lindo, poético e de refrão fortíssimo.

Só mesmo uma escola como a Mangueira para assumir um samba como este. É preciso ter lastro para tal. É normal que Ivo seja alvo de inúmeras críticas pela decisão. O Status quo não reage bem quando é desafiado. Na verdade me peguei rindo da revolta de alguns colegas que apostavam ou no pré-moldado 30b ou na "força da comunidade" do 57a. Não imaginavam a possibilidade da vitória do 9a . Sentindo-se traídos em suas certezas, distribuíram críticas. Eu também não acreditava neste resultado, mas gostei de ser surpreendido.

Siga assim, Ivo. Siga assim, Mangueira: revolucionando, chacoalhando, provocando reflexões, sendo pioneira. Vou dormir de alma lavada e de esperança renovada. Há uma luz no fim do túnel para os sambas de enredo! Vale a pena a gente gritar, reclamar, se expor para tentar melhorar o que acha estar no caminho errado.

Não, este não era o meu favorito na disputa. Os meus preferidos caíram nas duas semanas anteriores. Eram o 5a e o 22b. Gostei desse desde a primeira vez que ouvi, mas achava que não iria adiante por ser "pesadão" demais para os padrões de hoje em dia. E a Mangueira deu um "dane-se" aos padrões. Foi além de mim, despindo-se de preconceitos para escolher o que ela achava ser melhor.

Você, Mangueirense que como eu preferia este ou aquele, pare para ler e ouvir o sambão que sua escola levará para a avenida. Emocione-se. Não é difícil. E tenha um grande carnaval!

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Ainda há tempo para corrigir!

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 09/10/2010 12h27

A São Clemente resolveu juntar os seus finalistas. Até aí nada de novo. Embora seja a primeira fusão da história dela, o fato já é corriqueiro no mundo das escolas de samba. O problema é outro.

Depois de dois meses ouvindo as melodias, analisando detalhadamente as letras de sua melhor safra dos últimos anos a comissão julgadora da escola conseguiu criar um samba com dois problemas graves, que podem ser resolvidos com uma simples mudança.

O primeiro deles é na letra. O terceiro setor do enredo ‘Império Tropical", que trará um dos carros mais promissores do desfile (sobre as águas do Rio de D. João), simplesmente não é citado. O samba da parceria de Helinho 107 o abordava na sua primeira parte, mas esta foi "limada". Já a obra de Ricardo Góes trabalhou seu lindo, mas agora desprezado, refrão de meio em cima do tal "Império Tropical". A letra apresentada na hora do resultado pula do segundo para o quarto setor. Uma escola que descarta sambas de seus concursos por ausência de elementos de enredo não poderia cometer tal deslize após tanto tempo de audição dos sambas.

O outro problema é o nítido "tropeço" melódico entre o final da primeira parte do samba e o refrão central. O mesmo fato aconteceu ano passado com a junção feita pela União da Ilha do Governador e os jurados "canetaram" o samba sob esta justificativa.

Mas ainda é tempo de corrigir. A gravação é só no dia 19. E a solução é simples por demais. Trocar o atual refrão do meio animado, mas que não acrescenta nada à descrição dos setores do enredo, pelo de Ricardo Góes que além de completar as necessidades da letra resolveria o problema de encaixe melódico. E, diga-se de passagem, é muito mais bonito. Uma outra solução, ainda que parcial, é mudar a letra original do refrão de Helinho, incluindo alguma referência ao setor.

Espero quero que o "toque" acima não seja visto como crítica, mas como uma ajuda à escola que trago no coração.

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De volta!

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 05/10/2010 12h36

 

Por sugestão do meu editor Alberto João vou mudar o formato deste espaço. Passarei a escrever com mais freqüência com textos mais curtos. Ele disse que alguém reclamou da minha ausência por aqui. Deve estar brincando... Vai ficar mais fácil porque agora eu mesmo tenho acesso ao publicador e posso postar a hora que eu quiser!

 

Estou vidrado na Rocinha!

Um show de organização a final de samba-enredo da Acadêmicos da Rocinha no último sábado. A "Borboleta encantada" está de cara nova sob o comando do jovem presidente Deo Pessoa. A escola apostou em Luiz Carlos Bruno, que tem um estilo moderno de fazer carnaval, construído nos anos em que esteve na Tijuca. De lá ele trouxe a coreógrafa de alas e carros "Xuxu" (é assim que se escreve?) e para a Comissão de Frente o ótimo Sérgio Lobato (que também passou pela Viradouro).

 

O samba escolhido tem um refrão "chiclete", letra correta e melodia fluente. Talvez seja o melhor samba da escola nos últimos anos. Era claramente o preferido da quadra, embora os outros finalistas fossem também muito bons. Todos estão de parabéns. Os compositores campeões também representam uma renovação pois são jovens que pela primeira vez concorreram. Isso sempre traz um público novo para a escola.

 

Ir à quadra da Rocinha nesta temporada promete ser um bom programa. A quadra ganhou até um estacionamento bem a seu lado, confortável e seguro, com as obras do PAC. Pra quem achava que após a saída de Maurício Mattos a Rocinha perderia força, parece será o inverso!

 

Disputa acirrada

Está pegando fogo a disputa de samba na Beija-Flor. Os sambas estão nivelados e as apresentações fantásticas. Merece todos os elogios a proibição de alegorias nas torcidas, determinada pelo Laíla. Assim a gente pode sentir como os sambas se refletem nos seus próprios torcedores. Acabou aquele negócio de se esconder atrás de bolas e bandeiras. Alías, essas torcidas "compradas" que carregam bandeiras e não cantam os sambas são patéticas.

 

Mesmo com o equilíbrio dá pra apontar o samba 39 (Samir Trindade) como favorito. Ele tem uma pequena vantagem sobre o 75 (Amendoim) e o 77 (Marcelo Guimarães), cujas torcidas estão muito vibrantes. A diferença parece estar na manifestação da comunidade a esta obra. Qualquer que seja o escolhido a escola terá a sua disposição um samba com potencial para fazê-la brigar pelo título.

 

 

Convido os amigos a me acompanharem na nova mania da rede. www.twitter.com/eugenioleal

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As finais de samba-enredo

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 13/09/2010 19h26

Este ano não será igual aquele que passou

As quadras já estão no ritmo frenético dos cortes, o burburinho aponta os favoritos aqui e ali, os boatos são "intensos", ou seja: a época das escolhas de samba-enredo está no seu auge. Este tem sido um dos assuntos mais comentados aqui neste espaço nos últimos carnavais, mas este ano não será igual àquele que passou. Decidi que não vou mais escrever críticas aos sambas concorrentes.

Foram oito temporadas acreditando que poderia ajudar de alguma forma a mudar o pensamento dos compositores e das diretorias, achando que as pessoas, com o tempo, entenderiam qual era o verdadeiro propósito das críticas. Um dia talvez isso possa acontecer, mas será através de outros aventureiros que assumam esta árdua tarefa.

O meio carnavalesco ainda não tem amadurecimento suficiente para lidar com opiniões. Para a maioria, qualquer elogio ou crítica tem por trás algum interesse. Não posso exigir que todos acreditem nos meus ideais. Também sou compositor e sei o quanto dói ler algo negativo sobre nossas obras e que tipo de raciocínio vem à mente, mas já passou da hora de aceitar que as coisas mudaram.

A chegada dos sambas concorrentes à Internet, em 2002, foi um salto inimaginável na história das disputas de samba. Este fato aumentou sensivelmente a divulgação dos candidatos e aproximou das escolas um público que não tinha acesso a este processo.

Internautas de todo o mundo passaram a opinar sobre as disputas sem estarem nas quadras. Isso gerou um certo ciúme das pessoas que até então eram as únicas que atuavam neste jogo e que muitas vezes não tinham como dialogar na grande rede.

A Internet passou a ser vista na maioria das escolas como uma "inimiga" pois aqui não há hierarquia nem o "politicamente correto". Qualquer um dá sua opinião nos fóruns e nos "comentários". E tais opiniões muitas vezes criam embaraços para compositores e dirigentes. Gostem os sambistas ou não, a rede passou a ser mais um agente no mundo do carnaval. Pode não ter um papel decisivo, mas já faz parte do nosso "mundo".

É hora de aprender a lidar com esta ferramenta, seus benefícios e os problemas que ela pode causar. Na questão dos sambas-enredo temos um longo caminho a percorrer. O primeiro passo é entender o "quem é quem", separar o "joio do trigo". Há os colunistas (cada um com uma bagagem e um ponto de vista), os torcedores (que dão opiniões sinceras, mas fundamentadas na emoção) e os personagens criados com o interesse de tumultuar as disputas.

Os colunistas foram escolhidos pelos editores dos sites por algum motivo. É uma função nova e todos estão aprendendo. Tanto quem escreve como quem lê. A credibilidade e influência de cada colunista dependem da maneira como ele conduz seu ofício. Acredita e confia quem sente ali sinceridade, embasamento e conhecimento do assunto. A exposição é muito grande e a contestação constante é óbvia, dado que o tema é cercado por interesses e emoção.

Os torcedores têm opinião intuitiva e se manifestam nos fóruns ou nos "comentários". Elegem seus favoritos e manifestam suas opiniões do fundo do coração, sem interesses ou partidarismo. A dificuldade é separá-los dos que se expressam porque têm algum interesse como amizade com os compositores.

O problema maior é a possibilidade de criação de "fakes", perfis falsos criados com a (má) intenção de interferir nas escolhas. São pessoas que não querem assumir seus interesses e se escondem atrás de nomes e imagens falsas para fazer fofoca, agredir e criticar seus adversários. Essa praga irresponsável se alastrou por todas as agremiações e os maus compositores criaram exércitos de "fakes" para fazer campanha na grande rede. Alguns deles hão de comemorar minha decisão nos comentários deste artigo. Esse mal deve ser identificado e descartado no universo das opiniões da Internet.

Por outro lado, há coisas que os internautas precisam entender também: ouvir um samba-enredo sentado diante de um computador, com uma gravação de estúdio, lendo a letra, é muito diferente de ouvi-lo ao som da bateria, com a acústica sempre precária das quadras e cercado de passistas, baianas, torcedores. É ali que as coisas se decidem, afinal. E isso precisa ser respeitado, embora não invalide a opinião de quem leu a letra e ouviu a melodia através de uma gravação. Há muitos lados de uma mesma questão.

Espero ter lançado algumas sementes nestes oito anos. A Mangueira adotou um caminho novo para as disputas (que pode não ser perfeito, mas é um início) e isso já me enche de esperança. Há novos compositores buscando soluções diferentes na construção dos sambas, o que é muito bom. Mas por outro lado ainda resiste a industrialização das disputas com fortes "esquemas" e escritórios espalhados por quase todas as escolas. Isso tem que acabar.

O carnaval precisa de músicas diferentes, inovadoras, populares no melhor sentido. E não é com os mesmos autores ganhando em várias escolas que estes sambas irão aparecer. É hora de democratizar as disputas, de abrir os olhos, os ouvidos e os corações para coisas diferentes... de acabar com a ditadura das fórmulas. Será muito bom para a festa como um todo.

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Inspiração virtual

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 22/08/2010 13h35

A Estácio de Sá acaba de dar uma virada de 180 graus em seu carnaval. Ao trocar o experiente Chico Spinoza pelo garoto Marcus Ferreira, a escola do morro de São Carlos faz um bem que ainda não se pode medir ao carnaval. Longe de mim estabelecer qualquer comparação entre eles (até porque o peso seria grande demais nas costas do garoto), mas o espaço que a Estácio está abrindo soa como o que a Tijuca abriu para Paulo Barros em 2004. A similaridade, repito, é entre a atitude das escolas e não entre os carnavalescos.

Nada contra o Spinoza, que já provou ao longo dos anos a sua capacidade. Tudo a favor do Marcus, que traz com sua juventude, além de uma motivação infinita, um sopro de novidade à festa. Toda manifestação artística vive do novo e a chegada de um artista diferente a uma escola grande pode acrescentar as novas idéias de que a festa precisa.

O diferencial desta "descoberta" é que Marcus mostrou seu potencial no chamado carnaval virtual. Claro que ele tem experiências em escolas de grupos de acesso, como a Mocidade de Vicente de Carvalho. Lá ele deve ter aprendido a "se virar" num barracão, mas foi na tela do computador que mostrou o que pode realmente criar. Pelo que sei é o primeiro carnavalesco a "saltar" do virtual para o real (corrijam-me se estiver enganado). E aí está o fato histórico.

O carnaval virtual é uma grande brincadeira, mas é brincando que se fala a verdade. A garotada que faz parte desta brincadeira só pode ser apaixonada pelo carnaval "real". E usa aquele espaço para exercitar seu talento e testar novas idéias. Ali os enredos são muito mais próximos daquilo que o povo realmente vivencia. Muitos dos temas seriam considerados absurdos para o carnaval da Sapucaí, mas o fato é que eles expressam o que estas pessoas entendem da realidade que as cerca.

Minha última coluna foi exatamente sobre esta busca pela identificação dos enredos com o público do carnaval. É preciso modernizar, trazer temas novos. E o carnaval virtual tem se mostrado uma fonte volumosa de idéias alternativas. Porque não testá-las?

Marcus já tinha feito este marco (sem trocadilho) ao levar para a Unidos de Padre Miguel um enredo que havia desenvolvido na "Virtuafolia". É um enredo histórico, sobre Tia Ciata, mas mesmo os enredos históricos são abordados de maneira diferente no mundo virtual. Agora ele assume uma potência, ex-campeã do carnaval, escola de tradição e comunidade.

Espero muito desta recepção do "berço do samba" ao mundo virtual. Quem sabe "na era da modernidade...uma nova cidade será"?

NOVAS QUADRAS

Duas escolas do Grupo Especial podem ganhar novas quadras da prefeitura, em lugares diferentes de onde estão hoje.

BOA SORTE

Que a nova direção do Império Serrano consiga superar todas as dificuldades e fazer a escola novamente forte. O carnaval precisa do Império Serrano!

E OS PASSISTAS?


Algum dirigente pensou em algo para valorizar o samba no pé?

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Em busca da identificação

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 19/07/2010 17h12

Permitam-me retomar este espaço que ficou tanto tempo "abandonado" com um pedido de desculpas. Como muitos sabem, minha vida profissional é dividida entre o samba e o futebol. E a cada quatro anos o futebol consome mais do que as vinte e quatro horas do dia. Foi humanamente impossível conciliar os afazeres da Copa do Mundo com os deste espaço carnavalesco. Por isso as "férias forçadas" me afastaram daqui. Agora que as quadras estão recomeçando a esquentar os tamborins, volto ao meu lugar.

Durante esta ausência a maior parte das escolas do Grupo Especial divulgou seus enredos. Ainda faltam Portela e Vila, além da sinopse da Porto da Pedra. De qualquer forma é possível fazer uma projeção da "safra". Destaco os temas de Tijuca, Beija-Flor, Salgueiro e Mangueira (sem ordem de preferência) como os que mais me agradaram. Acredito que os enredos devam buscar uma aproximação com a realidade da população média; falar de assuntos que se identifiquem com a indústria cultural atual.

Temas históricos estão "surrados". A miscigenação brasileira e a tradicional viagem pelas civilizações antigas já passaram um milhão de vezes pela avenida. É hora de mudar para trazer de novo o público para perto.

Nos anos oitenta os enredos politizados exerceram este papel. Agora é a vez de Paulo Barros jogar na pista o cinema de terror para arrepiar a platéia. Grande idéia. Carnaval, acima de tudo, precisa ser diversão. Um desfile não é exatamente uma sala de aula. Então, vamos nos divertir e emocionar! Vem aí mais uma temporada excitante da maior festa do mundo!

São Clemente

Um enredo histórico, porém leve e sempre bem vindo. Falar da maravilhosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro não é novidade, mas existem mil maneiras de mostrá-la na avenida. Cabe à promessa Fábio Ricardo mostrar sua criatividade.

A sinopse aborda itens já exaustivamente mostrados, mas tem passagens praticamente inéditas. É uma interrogação.

Imperatriz

Enredo histórico, sobre um tema importante, porém de difícil "carnavalização". Sinopse traz referências a signos já vistos no último carnaval da escola, com uma forte ligação à religião (seu último tema). Corre o risco de virar mais uma "volta ao mundo" terminando no carnaval. Não empolga.

Mocidade

Busca relacionar a agricultura às festas e ao carnaval. Tem sua lógica, mas de agricultura mesmo parece falar pouco. Em alguns trechos se assemelha ao enredo da escola anterior (Imperatriz). Assim como a outra verde e branco, passa por Grécia e Roma, critica a igreja católica e termina no nosso carnaval. Também não empolga.

Unidos da Tijuca

Um sopro de criatividade em meio às caretices reinantes. Paulo Barros busca temas e linguagens diferentes, se aproxima do imaginário popular, traz novos desafios e novos públicos para o carnaval. É o amadurecimento de um artista que já marcou nossa maior festa e pode ser muito importante para sua perpetuação.

Talvez nem todos gostem do cinema de "terror", mas um desfile bem humorado sobre este tema promete. E muito. Estou curioso para ouvir os sambas-enredo. Este é o grande "x" da questão.

Mangueira

Falar de um dos grandes nomes da MPB e da própria escola é fantástico. Resgatar a nossa cultura e reafirmar nossos ícones é um bem que se faz ao país. A Mangueira acertou em cheio ao homenagear Nelson Cavaquinho. É um tema único, cheio de vida e emoção.

União da Ilha

O carnavalesco Alex de Souza não esconde de ninguém: quer impressionar pelo visual. Ele não vai mostrar a ciência de Charles Darwin, mas a exuberância da natureza que o cientista presenciou em sua viagem pelo mundo. Claro que o enredo traz consigo a mensagem de preservação e busca o que há por trás desta natureza que conhecemos. Parece interessante, mas despretensioso.

Salgueiro

Elogiei, ali em cima, a peripércia de Paulo Barros ao buscar no cinema de "terror" a inspiração para seu carnaval. É preciso dizer, aqui, que Renato Lage já busca inspiração nas "telonas" há algum tempo e, que desta vez, extrapolou. Desde já seu enredo está indicado para o "Estrela do Carnaval" de melhor roteiro original. Trazer para a avenida as grandes histórias do cinema, misturando-as e situando-as no cenário carioca é simplesmente genial.

Renato admitiu após o último desfile, que se sentia instigado pela criatividade de Paulo Barros. Ele é o artista com mais potencial para devolver este sentimento em forma de um desfile brilhante. A minha expectativa é enorme!

Grande Rio

Não sou fã de enredos patrocinados do tipo folheto turístico. Mas, se tantas cidades e estados já foram exaltados na avenida, Florianópolis também pode e... até merece. Se o Rio de Janeiro não existisse eu moraria lá. Quem sabe isso um dia não acontece? Adoro a capital catarinense.

O texto está bem escrito, explorando a "magia" das "bruxas" da Ilha e contando um pouco da história do lugar. Não repete fórmulas recorrentes neste tipo de enredo e descreve o local de forma leve e interessante. Se a tradução para alegorias e fantasias for criativa e o samba captar o clima da cidade, o desfile pode ser muito bom.

Beija-Flor

Nada como uma escola gigante mordida. Ver a Beija-Flor, a poderosa Beija-Flor, abandonar os enredos complicados e cair dentro de um tema extremamente emotivo e popular é realmente muito bom. Perceber a trajetória do ser humano Roberto Carlos que entregou sua vida e suas emoções aos fãs, numa narração recheada de citações de músicas que refletiram a vida de tanta gente, que compuseram a trilha sonora de uma geração, é de arrepiar. Confesso que me emocionei ao ler o enredo. E que já estou contando os dias para o carnaval 2011.

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Estamos começando a nos entender

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 13/05/2010 16h32

Saíram as justificativas do carnaval 2010. Não sei porque demoram tanto, mas o que importa é que elas estão disponíveis. Esta transparência tem sido muito benéfica para o carnaval. Ela permite um diálogo maior entre a opinião pública e os julgadores. A cobrança por explicações mais coerentes e o questionamento da imprensa e dos sambistas fizeram com que o júri melhorasse consideravelmente. Ainda há um longo caminho até o julgamento perfeito (se é que ele existe), mas pelo menos esta distância já começou a diminuir.

Estou produzindo mais uma edição da coluna "O dia da caça", onde analiso o trabalho de cada um dos julgadores. A experiência de julgar o carnaval de Uruguaiana me faz compreender melhor muito do que eles escrevem. Antes de escrever sobre o grupo como um todo, me atenho ao quesito samba-enredo. Escolhi este item porque é o que mais comento aqui durante o ano. Traço abaixo um comparativo entre minha análise (publicada aqui no site em 1/12/09) e as justificativas do quesito. As coincidências que não aconteciam em anos anteriores mostram uma maior compreensão de ambas as partes quanto ao que o quesito deve apre sentar.

UNIÃO DA ILHA

Eugênio Leal

Samba simples, mas melodioso, de letra direta e envolvente. O único pecado é o encaixe da primeira parte para o refrão central. É claramente "trepado". Fora isso é muito bom.

Eri Galvão

"a melodia quando muda da primeira estrofe para o primeiro refrão parece não pertencer à mesma música".

Marta Macedo

"O refrão central entra de modo abrupto, forçado, sem preparação na melodia. Não há continuidade...compromete o desenho melódico e a estética do samba".

TIJUCA

Eugênio Leal

"...a letra sofre pela falta de assunto já que não se pode revelar o que acontecerá no desfile... Pode vir a ser funcional..."

Alexandre Wanderley:

"A letra está adequada ao enredo, mas carece de conteúdos e argumentos, possivelmente em virtude do desafio de se fazer um samba sobre o tema do segredo. Talvez seja essa a razão da repetição de algumas palavras".

VIRADOURO

Eugênio Leal

Peca por algumas passagens que não ajudam o componente em desfile, com excesso de letra em tons difíceis de melodia.

Alexandre Wanderley:

"Melodia: de maneira geral, faltou riqueza melódica ao samba, que pouco contribuiu para entusiasmar o canto e a dança dos componentes da agremiação".

Alice Serrano

"O samba não contagiou o público, não causou emoção".

Marcelo Rodrigues

"desenhos musicais de média inspiração não resultou em um grande desfile, ou seja, não funcionou"

SALGUEIRO

Eugênio Leal

"Faltou inspiração tanto na letra quanto na melodia. Destaque apenas para o refrão final".

Marta Macedo

"A melodia, apesar de ser animada e de ter um refrão forte, apresenta poucos desenhos melódicos e pouca originalidade. Letra sem grande riqueza poética não apresentando coesão..."

MOCIDADE

Eugênio Leal

"Não consegue explicar o enredo, por mais que a letra tenha sido mexida. Vira uma simples exaltação à escola. Tem como méritos a força do refrão e a melodia animada da segunda parte".

Alexandre Wanderley:

"O refrão principal...revelou-se bastante funcional, contagiando os desfilantes... há pouca coesão entre os versos do refrão do meio...alguns trechos da letra são um pouco confusos..."

Alice Serrano

"...a letra não explicita alguns aspectos levantados no enredo, deixando em aberto algumas idéias, apresentando versos soltos. A letra trata o enredo de modo superficial".

Marta Macedo

"Letra sem grande riqueza poética, lançando mão de várias expressões muito comuns...esse uso excessivo empobrece a letra esteticamente". "o samba tem força melódica diferente no refrão (mais forte) e nas estrofes (mais fraca).Essa diferença quebra a beleza da melodia como um todo".

PORTO DA PEDRA

Eugênio Leal

"Letra ruim, recorrendo a expressões pobres poeticamente. Melodia alegre, mas sem grande inovação".

Alexandre Wanderley:

Porto da Pedra: "A letra deixou um pouco a desejar do ponto de vista estético...faltou riqueza melódica..."

Alice Serrano

Porto da Pedra: "a letra carece de riqueza poética...melodia pouco criativa, fraca em desenhos melódicos..."

Marcelo Rodrigues

Porto da Pedra: "clichês indesejáveis, o que prejudicou a riqueza poética".

PORTELA

Eugênio Leal

"Excesso de uso da palavra Portela".

Alexandre Wanderley:

"...cabe registrar ainda a repetição excessiva do nome da agremiação durante a letra"

Alice Serrano

"a letra é redundante...repetidamente exalta a Portela..."

Marta Macedo

"Nota-se alguns versos soltos... não acrescentam nada e prejudicam a beleza poética..."

GRANDE RIO

Eugênio Leal

"O encaixe da junção na cabeça do samba não ficou bom. Há uma quebra melódica e poética muito nítida. Letra confusa em algumas passagens".

Alexandre Wanderley:

Grande Rio: "Faltou... um sentido de unidade..."

Alice Serrano

Grande Rio: "a letra não traz riqueza poética"

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Samba no pé, sim!

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 02/04/2010 19h50

Fiquei feliz com o debate que a última coluna ("Samba no pé") gerou. Este é o momento ideal para refletirmos sobre nossa festa. E, dentro deste espírito, me deparo com a entrevista que o nosso repórter Isaac Ismar produziu com o coreógrafo Fábio de Mello. Algumas coisas que ele disse têm ligação direta com comentários que li aqui no SRZD-Carnavalesco e nas listas de discussão sobre a ideia de transformar os passistas em quesito.

O que todo mundo deve entender é que nada é imutável. O ser humano busca o novo diariamente. Fábio, que revolucionou as comissões de frente, agora acha que elas perderam a essência. Mas o que será esta essência a que ele se refere?

Comissão de Frente nunca foi um quesito com fundamentos definidos. Aliás, não sei como se atribuía nota a um grupo de senhores que passavam abanando o chapéu. Nada contra eles (pelo contrário), mas quais eram os critérios para julgamento? Apresentar a escola e saudar o público. Isso pode ser feito de diversas maneiras. As pessoas foram criando, inovando - como fez Fábio de Mello. Foi um sucesso, mas engana-se quem pensa que aquilo era o limite.

O que será que a velha guarda, que abria os desfiles até os anos oitenta, acha do trabalho dele, Fábio, na Imperatriz ? E mais: alguém, por mais tradicionalista que seja, não gostou do que a comissão de Tijuca fez no último carnaval? A fila anda, pessoal. Não existe fórmula. O que se engessa fica parado no tempo. E esquecido. É claro que nem todo mundo acerta. Neste processo tem muita coisa a ser jogada no lixo, claro. Assim como em outros quesitos.

Voltando ao caso dos passistas: alguns críticos à proposta lançada na última coluna vislumbram um futuro onde eles (os passistas) se tornariam profissionais e custariam fortunas às escolas. É um exercício e tanto de futurologia, mas vamos lá: é melhor pagar ao passista ou ao astronauta?

A ideia é valorizar o samba no pé, gente, a essência deste negócio - mostrar que esta essência pode ser tão "impactante" quanto alguns delírios que já vimos na avenida e que de samba não têm nada. E este negócio de profissional do samba custar caro às escolas é ilusão. Procurem saber quanto ganham os casais de mestre-sala e porta-bandeira, os intérpretes, etc.

Além do mais, o quesito seria coletivo e envolveria oitenta, noventa, cem pessoas. Não haveria destaques individuais a serem julgados ou remunerados. Forçaria as escolas a criar escolinhas e selecionar os melhores para o desfile, disseminando e eternizando a arte.

A imaginação de alguns críticos criou uma série de outras situações que a gente não pode dizer se vão acontecer ou não, mas uma coisa é clara, cristalina, óbvia: a arte de sambar no desfile está desaparecendo - com algumas raras exceções que confirmam a regra. E, sejamos realistas, nossos dirigentes se preocupam de verdade com os quesitos. O resto, sai como pode. E de nada adianta sugerir um novo posicionamento no desfile. Não é isso que vai mudar nada.

O importante é dar valor ao samba e à arte que é sambar com beleza, ginga, malandragem. Esta arte precisa ser destacada, valorizada, apreciada. Seria uma contribuição gigantesca ao espetáculo. É só imaginar a cena - passistas com tempo para "dizer no pé" de verdade, sem serem empurrados ou apressados; passos criativos; a volta do passista masculino... Quem sabe o que é isso não pode ser contra a idéia. E não é uma volta ao passado, pelo contrário. É o novo, que a muitos assusta, e por isso é repelido. Mas é o novo com essência, com samba de verdade. Não é o novo pelo novo.

O mundo gira, pessoal. A terra treme... e as mudanças acontecem. Não sejamos acomodados.

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