Abrindo os olhos
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 01/07/2009 16:21
Parece que as escolas perceberam a importância de bons enredos para o sucesso do carnaval. Como mostrei através da análise das notas este é o segundo quesito mais "canetado" pelos julgadores. E dele derivam outros, como samba-enredo, alegorias e fantasias - sem falar em conjunto e comissão de frente. Posso afirmar sem medo que teremos no próximo carnaval a melhor safra de enredos do milênio. Pode ser a virada, a volta por cima que nossa festa precisava para ser mais atraente na parte artística.
Mais uma rodada de boas sinopses saiu desde a última coluna. Salgueiro, Beija-Flor, Grande Rio, Mocidade e, principalmente, Império Serrano me fizeram acreditar ainda mais que teremos um belo desfile em 2010.
O campeão Salgueiro descobriu um caminho interessante para nos brindar com um belo espetáculo visual. As histórias que recheiam os livros citados indiretamente na sinopse são repletas de imagens fantásticas que devem nos deixar de boca aberta na avenida através do talento de Renato Lage. Falar de literatura é falar de sonho, de imaginação, delírio. Tem tudo a ver com o carnaval.
A Beija-Flor paga o preço do enredo patrocinado e por isso tem um tema mais quadrado, mas que é melhor que a maioria dos demais temas "encomendados". E porque é melhor: a sinopse encontra um caminho poético interessante que dá subsídio aos compositores para que componham bons sambas. Com o talento de seus carnavalescos a escola da baixada tem tudo para realizar mais um carnaval muito forte.
Na última coluna, eu disse que a Grande Rio teria trabalho para inserir o camarote no enredo sobre a passarela do samba. Para o bem de nós, sambistas, eles conseguiram desenvolver o tema deixando de lado o patrocinador. Não é nada de novo - já vimos idéias parecidas antes. Não tem um recorte definido, um fio condutor. Mas fala de carnaval, a nossa paixão. E faz homenagens muito justas, como a do Renato Sorriso. Me ganhou: vai ser interessante.
A Mocidade tem um enredo que lembra os anos oitenta, quando os carnavalescos tinham maior liberdade de criação. E isso me agrada muito. É um tema cheio de devaneios que misturam diferentes períodos da história e situações, em princípio, heterogêneas. É, entretanto, muito bem amarrado em cima da busca pelo paraíso de cada um. Tem história, tem crítica, dá margem a imagens fortes e diferentes. Mais um ponto para Cid Carvalho.
Deixei o Império Serrano por último não por acaso nem por ele estar no Grupo de Acesso, mas porque até agora foi a sinopse que mais me encantou - e olha que eu gostei de quase todas!
O tema é um achado! O texto nos faz viajar por diferentes momentos da nossa cidade e vislumbrar o que será apresentado na avenida: a encantadora alma das ruas da cidade. Amo o Rio de Janeiro e sua história. O Império não poderia estar melhor representado no quesito.
Vai começar tudo de novo
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 13/06/2009 19:48
Tudo indica que está se formando a melhor safra de enredos dos últimos carnavais. À exceção da Grande Rio (que vai precisar de um exercício de imaginação muito grande para empurrar o camarote da empresa que a patrocina num enredo sobre a história recente do carnaval) os temas são simples, diretos e com essência cultural. Nada muito novo nem criativo, mas tudo melhor do que certas coisas que andamos suportando recentemente.
SALVE NÖEL
Um enredo sobre a vida de Noel Rosa - um dos nomes mais importantes da música brasileira - é para ser celebrado (aliás, parabéns a Martinho e à direção da escola pela realização da disputa). A sinopse foi escrita sem floreios, contando de maneira linear a vida do poeta. Isso é um brinde aos compositores que poderão aplicar sua criatividade em cima de uma base coerente e recheada de itens inspiradores.
O enfoque dado à vida e não exatamente à obra de Noel não impede que ele empreste um pouco de suas idéias e versos para enriquecer os sambas concorrentes. Isso é importante para criar uma identificação maior do público com o tema.
MÚSICA POPULAR MANGUEIRENSE
A idéia central do enredo mangueirense é muito boa: destacar a importância da agremiação verde e rosa no cenário da música brasileira. O enredo seria melhor se fosse todo trabalhado em cima desta relação, que é muito rica. As obras de Cartola, Carlos Cachaça, Geraldo Pereira, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento e Padeirinho, sem falar nos grandes nomes do samba-enredo como Hélio Turco e Darcy da Mangueira (entre outros), formam um dos mais ricos acervos da MPB e contém muita coisa a ser explorada num desfile. Isso poderia ser completado com itens que estão na sinopse como as "divas" Alcione e Beth Carvalho, as homenagens que a Mangueira recebeu de poetas "de fora" e as que a escola prestou em seus desfiles.
Entretanto, o texto sai desta trilha e amplia o tema para diversas outras manifestações país afora. O problema é que a história da música brasileira é muito grande e não coube neste enredo. Muita coisa ficou de fora e no final das contas a história não ficou tão bem amarrada. Um enredo precisa de um "recorte" e a Mangueira tem um muito bom, mas desviou dele.
LINDA RELIGIOSIDADE
O "Brasil de todos os deuses" vai proporcionar muitas imagens impressionantes através do talento de Max Lopes. Foi em função disso que ele escolheu as religiões a serem retratadas em sua sinopse. Caiu num problema parecido com o da Mangueira: sobrou muita coisa que não cabia nos oito setores.
Religião e fé são coisas muito profundas e precisam ser tratadas com extremo respeito e cuidado e a ausência de algumas delas pode parecer discriminação.
Plasticamente o desfile deve ter um grande efeito, mas culturalmente é um enredo incompleto, embora muito superior à maioria dos últimos temas que a escola apresentou.
IDÉIAS PROMISSORAS
Algumas idéias que já foram divulgadas me causaram expectativa positiva.
Se Rosa Magalhães realmente trabalhar seu enredo em cima da história de Dom Quixote pode marcar um golaço. Outro que pode surpreender é Cid Carvalho, com um enredo que lembra carnavais passados ( da época em que os carnavalescos faziam viagens "do bem") com muita criatividade e com uma mensagem importante. Se for bem desenvolvido pode "dar samba".
Licitação no Carnaval
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 29/05/2009 23:10
Parece assunto proibido. Ninguém comenta nos fóruns, nenhum dirigente se pronuncia. Engraçado, porque a licitação que o prefeito Eduardo Paes pretende fazer para administrar o desfile das escolas de samba é o tema mais importante do momento neste nosso universo carnavalesco.
Desde que Cesar Maia assumiu a prefeitura, em 1993, o governo municipal repassou à LIESA toda a organização do evento. De tal forma que a entidade passou a ser a "dona" do carnaval. Esta era pode estar chegando ao fim.
Não se sabe ainda o que os burocratas da prefeitura estão preparando para o edital que vai reger este novo momento do carnaval carioca. Eles podem propor uma mudança radical ou apenas inserir mais um "personagem" na festa.
Sempre defendi que o poder público tivesse um papel mais atuante. Não que ele precise "colocar a mão na massa", mas é fundamental que cumpra uma ação reguladora e fiscalizadora. É preciso que a prefeitura (que na última análise deveria ser o poder do povo) determine como deve ser a festa, definindo diretrizes e filosofias. E que mantenha uma relação profissional com o contratado, cobrando resultados e analisando as contas do evento.
Há muita coisa a ser feita para a melhoria do nosso carnaval. Tanto no aspecto artístico quanto no operacional. Uma parte depende da prefeitura e outra das escolas. Algumas destas questões foram levantadas por parlamentares nas comissões instauradas tanto na Câmara de Vereadores quanto na Assembléia Legislativa do Estado. Só que tais comissões não resolvem nada e não parecem interessadas em resolver.
É preciso que se discuta publicamente o número de escolas em cada grupo e quantas sobem e descem após o desfile; que se debata a constituição dos júris e o formato da avaliação dos desfiles; que se repense o desfile das campeãs que um dia já teve até os blocos e hoje é visto como uma festa VIP das grandes escolas; que se reveja a distribuição de verba pública entre as agremiações de diferentes grupos e que se planeje uma maneira de novamente popularizar junto ao carioca a cultura das escolas de samba.
Por outro lado se faz urgente a revitalização do sambódromo e de seus arredores. As áreas de armação e dispersão são vergonhosas. Sujas, mal iluminadas e perigosas, as ruas que cercam a passarela representam perigo para desfilantes, turistas e prestadores de serviço. Não há sinalização (ou é pouca) nos acessos e as distâncias para quem erra o caminho são gigantescas. Lá dentro quem paga caro por um ingresso senta no concreto e corre o sério risco de sair encharcado em caso de chuva (mesmo os que estão nas frisas). Os bastidores dos camarotes também não refletem o glamour de quem gasta fortunas para ter mais conforto no "maior espetáculo da terra". As instalações para a imprensa então... melhor nem comentar.
Aconteça o que acontecer, é bom lembrar que LIESA, LESGA e AESCRJ vão continuar exercendo papel importante no evento. Elas são as representantes das escolas e vão continuar gerenciando a execução dos desfiles. O que pode acontecer é a entrada de uma terceira empresa para cuidar da estrutura dos desfiles e trabalhar verbas publicitárias.
A mudança pode, e deve, ser para melhor. Mas também corre o risco de trazer novos problemas. Afinal, quem entrar vai encarar tudo como um grande negócio exacerbando o caráter mercadológico do qual nós já reclamamos hoje em dia.
Por isso é fundamental que nós, amantes do samba e das nossas escolas, discutamos, debatamos e façamos ver à prefeitura que ela pode e deve inserir neste edital maneiras de proteger o caráter cultural e popular do carnaval.
A melhor maneira eu não sei qual é, mas se cruzarmos os braços estaremos deixando passar uma oportunidade de ouro de melhorar a nossa festa e, quem sabe, deixando passar sob nossos olhares o decreto para a morte definitiva da maior manifestação cultural do país - e nossa maior paixão.
Encomendar é a saída?
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 18/05/2009 17:01
No centenário de Noel, um samba assinado por Martinho da Vila. A idéia parece ótima. Mas será a melhor solução? O que há por trás disso?
Na verdade, mais do que criar uma fato histórico unindo dois ícones da MPB ligados ao bairro, a idéia visa a garantir a nota máxima no quesito samba-enredo, apostando que os julgadores se sentiriam inibidos diante de uma obra com a assinatura de um nome consagrado como Martinho. Tudo em função das notas baixas aplicadas ao samba de 2009.
Martinho não vence o concurso da escola desde 1993. De lá pra cá participou, sem sucesso, de algumas disputas. E não pode reclamar da direção da escola. Suas últimas obras não têm honrado o nome do autor. Nada parecido com os antológicos "Iaiá do cais dourado", "Pra tudo se acabar na quarta-feira" e "Raízes". Além disso, tais sambas não têm sido "abraçados" pela comunidade, mais acostumada com o estilo de André Diniz e parceiros.
Parece fato definitivo também o esgotamento deste tipo de samba. Principalmente junto aos julgadores. O próprio André tem pensado em fazer coisas diferentes, mas ainda não se sente seguro para tal. Só que André e Martinho não são os únicos nomes na ala de compositores da agremiação.
Na última disputa a escola teve uma vasta gama de estilos a seu dispor. Poderia citar vários compositores, mas há uma especial que possui o talento suficiente para fazer aquilo que o grande público espera de Martinho: um samba de qualidade e fora dos padrões vigentes. Seu nome é Eduardo Medrado, autor de dois sambas campeões da Imperatriz (95 e 99). Por exagerar na busca por melodias diferenciadas, Medrado não vem obtendo sucesso nas disputas das várias escolas por que tem passado. Acredito que, sendo um pouco mais comedido em sua construção musical, ele pode fazer a diferença.
Não estou pedindo que encomendem a ele o samba, mas que deixem ele (e os demais) tentarem fazer algo melhor que o Martinho. É importante ter alternativas para o caso de o mestre errar a mão de novo.
A teoria de que o nome de Martinho é garantia de nota máxima faz sentido. Mas, se a Vila acredita ter sido prejudicada neste quesito, teoricamente isto pode acontecer em qualquer outro, especialmente nos mais abstratos como evolução e harmonia, que não têm assinatura consagrada pois dependem da coletividade.
Ainda acredito que o melhor caminho seja a disputa. E, se Martinho fizer bonito - mais bonito que os concorrentes, que vença e nos brinde com uma grande obra. Eu, particularmente, torço para que isso aconteça.
Balanço das notícias do carnaval
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 09/05/2009 11:31
Enquanto o "inventário" não vem
Continuo envolvido com o "inventário" do carnaval 2009. Em breve publicarei mais alguns "balanços" feitos a partir das justificativas dos julgadores. O problema é que, enquanto isso, o mundo do samba não para (já tem até sinopse na praça) e meu editor Alberto João quer produção. E ele tem razão.
NOVA MANGUEIRA
Ivo Meirelles vem surpreendendo muita gente com suas idéias na administração da Mangueira. Reconquistar Beth Carvalho foi um gol de placa. Assim como trazer um grande casal de mestre-sala e porta-bandeira (Raphael e Marcela) e contratar a competente Márcia Lage. O que dizer então desta última? Acrescentar ao Luizito os notáveis Zé Paulo e Rixa (não vou escrever aquela sopa de letrinhas) é a prova de que o novo presidente não veio para brincar. Sâo dois grandes cantores que vão garantir grande qualidade aos ensaios e shows da escola. É apostando na qualidade que se chega aos resultados.
Há outras iniciativas dignas de aplauso, como a proposta de tornar a disputa de samba-enredo menos cara e mais justa, baseada na qualidade musical. Quem sabe esta não é a redenção do gênero? Seria legal que ele tivesse coragem também para escolher um samba fora do lugar comum. Algo que pudesse trazer novos ares para a música das escolas de samba.
Pensar em criar um segundo ensaio semanal é identificar que o potencial comercial da escola é maior do que o que vinha sendo explorado. Pode ser um passo para, no futuro, gerar programação na quadra mesmo nessa época em que as outras escolas estão paradas.
O mais importante disso tudo tem sido a postura que Ivo vem mostrando à frente da escola. Parece um homem mais sereno e ciente da responsabilidade que assumiu. Espero que isso tudo se confirme.
LESGA
Depois de mudar o regulamento e aumentar para doze o número de escolas no grupo de acesso, a LESGA resolve alterar a data da sua apuração para a tarde de terça-feira. Mais um passo na contramão do bom senso.
O aumento no número de agremiações (além de tirar credibilidade do evento pela mudança no que estava proposto) gera uma maior duração do espetáculo, o que significa a necessidade de mais espaço nas programações de rádios e televisões que queiram fazer a transmissão ao vivo. Há também um aumento de custo por conta do pagamento ao pessoal envolvido no trabalho, que provavelmente será maior. A própria entidade pode sentir no bolso a necessidade de comprar mais duas horas na emissora de TV. Tal aumento no tamanho do espetáculo pode desestimular os meios de comunicação a fazer a cobertura do evento.
Efeito semelhante pode ter a mudança da apuração para a tarde de terça-feira. Afinal, o espaço que a grande mídia confere a este grupo é reduzido. Quem faz a cobertura na verdade são os veículos especializados em carnaval, que já estão "virados" após três noites de desfile e ainda vão encarar a apresentação do Grupo Rio de Janeiro. Cobrir uma apuração que começa às 16h prevê a chegada com pelo menos uma hora de antecedência, às 15h. É puxado. Ainda por cima para as emissoras de rádio que precisam deslocar equipamentos e equipe técnica.
Não quero crer que esta atitude seja mais um capítulo da briga com a Associação. Acredito que seja apenas falta de um conhecimento maior sobre as coisas que envolvem a festa. Preço pago pela falta de experiência. Nada que não possa ser repensado, se até o regulamento foi...na última hora.
PROPOSTAS DA LIGA
No final do ano de 2007 eu escrevi uma coluna aqui no "Carnavalesco" sugerindo a redução no tamanho das escolas de samba do Grupo Especial. Muitos leitores não gostaram, acharam que eu queria acabar com o samba, etc.
Pelo contrário, a idéia era fazer renascer o samba. Com menos carros alegóricos e menos componentes haveria enredos mais coerentes, sambas melhores, mais espaço para a evolução dos componentes e mais dinheiro para investir nas alegorias e fantasias. Grandiosidade não é sinônimo de qualidade.
Agora a LIESA propõe exatamente a mesma coisa. Continuo achando uma boa.
OS LOUCOS DA CUBANGO
É muito interessante o enredo da Cubango, mas me deixou uma certa preocupação. O grande Milton Cunha (com quem vou apresentar semana que vem mais uma festa do Sambanet) tem uma capacidade intelectual bem superior à média da população. Seus enredos (e este não foge à regra) são muito inteligentes e quase sempre carregam uma série de informações e interpretações de difícil transposição para a linguagem carnavalesca.
Não será fácil fazer o público compreender todas as sutilezas propostas em "Os loucos da praia chamada saudade". Vale lembrar que este grupo não tem a mesma divulgação do primo rico e muita gente não tem acesso sequer aos sambas de enredo. Muitos vão para a avenida sem saber o que ver.
É quase um desafio para compositores, figurinistas e aderecistas encontrar soluções que consigam traduzir todo o sentimento político contido no texto do Milton. A mensagem é muito forte e importante. Vale a pena tentar.
Descarte faz a diferença no Acesso
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 22/04/2009 00:02
É diferente avaliar um júri formado na última hora para o carnaval deste ano, como é o caso da LESGA. Não é possível apontar uma tendência de longo prazo nem mesmo identificar uma filosofia de julgamento. Tudo é muito novo.
Talvez por isso os resultados de certa forma repitam a tendência do Grupo Especial ao dar maior peso às alegorias e menor às baterias. Há, entretanto, uma diferença fundamental para o impacto dos carros alegóricos no somatário final: o descarte das notas mais baixas de cada quesito. No total, os julgadores tiraram 11,3 pontos das "Alegorias e adereços", mas apenas 5,5 foram descontados de verdade. Nada menos do que 5,8 pontos jogados no lixo. Na outra ponta, assim como entre as "grandes" está o quesito "Bateria" - onde apenas dois décimos foram efetivamente descontados dentre as dez agremiações.
A diferença na ordem hierárquica dos itens julgados está na valorização do samba-enredo (ficou em segundo lugar com 4,5 pontos descontados). Há uma explicação: um dos julgadores teve seu mapa anulado o que cancelou o descarte das notas mais baixas.
O super quesito "Conjunto harmônico", que poderia ser um peso para as escolas por observar vários itens, ficou em terceiro lugar com um total de 3,9 pontos descontados. Confira a classificação geral no quadro abaixo:
Alegorias e adereços
Total: 11,3 Válidos: 5,5
Samba-enredo
Total: 4,5 (6,0 - se o jurado eliminado mantivesse a média) Válidos: 4,5
Conjunto Harmônico
Total: 7,7 Válidos: 3,9
Fantasias
Total: 7,7 Válidos: 3,8
Enredo
Total: 5,7 Válidos: 2,3
Comissão de Frente
Total: 3,5 Válidos: 1,7
Mestre-sala e Porta-bandeira
Total: 2,8 Válidos: 1,4
Bateria
Total: 1,0 Válidos: 0,2
O DESCARTE
O descarte da menor nota em cada quesito é um dos problemas deste julgamento. Além de uma grande injustiça com quem errou menos é uma prova de falta de confiança nos julgadores. Eliminar a nota mais baixa significa fazer vista grossa para os erros mais graves. Se uma escola passa bem nos três primeiros módulos, ela pode encerrar o desfile que a quarta cabine não vai contar.
Podem dizer que a medida visa a inibir eventuais injustiças cometidas por um ou outro julgador - prova de que eles não confiam em quem escolhem para julgar - mas a anulação de erros pode significar um problema ainda maior.
O resultado final seria outro sem os descartes. Não mudaria a campeã, até porque na visão dos julgadores a Ilha foi quase perfeita. Mas o segundo lugar seria da Rocinha e o quarto da Estácio. E a Império da Tijuca ficaria em penúltimo*. E se subissem e caíssem duas escolas ou a troca de posições fosse na primeira liderança? Seria justo?
Resultado sem descarte:
1 - União da Ilha - 309,5
2 - Rocinha - 308,3
3 - Renascer - 307,6
4 - Estácio - 306,6
5 - São Clemente - 306,5
6 - Santa Cruz - 306,1
7 - Tuiuti - 304,4
8 - Inocentes - 302,9
9 - Império da Tijuca - 302,8
10 - Caprichosos - 300,7
Em breve, a análise escola por escola.
* Não estou levando em conta a anulação do relatório de obrigatoriedades, onde com certeza a Inocentes seria punida pela falta de baianas.
Rendimento escola por escola
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 14/04/2009 17:28
Quais os pontos fortes e fracos de cada escola de samba, na visão dos julgadores? Às vezes a gente tem uma impressão errada desta leitura. Os números frios geram interpretações às vezes errôneas. Cheguei a esta conclusão em função da pesquisa que fiz das notas e o peso relativo de cada quesito na classificação geral.
Há quesitos em que perder um décimo configura um erro maior do que a perda de três décimos em outro. Já vimos nos dias anteriores que "alegorias" e "enredo" são os quesitos julgados com mais rigor. Nestes, a perda de três décimos é vista como um bom resultado. Em bateria, por exemplo, tal soma é vista com outros olhos.
Para analisar o desempenho interno de cada escola, vamos partir da comparação de quanto foi perdido em cada quesito com a média geral deste item. Apenas para lembrar, segue a lista com a quantidade de pontos perdidos em cada um dos quesitos. Esta ordem deve guiar a análise de cada agremiação. Quando houver troca de posições haverá configuração de bom ou mau desempenho do quesito.
Alegorias e adereços - Pontos perdidos: 11,5
Enredo - Pontos perdidos: 7,9
Fantasia - Pontos perdidos: 5,9
Conjunto - Pontos perdidos: 5,8
Samba-enredo - Pontos perdidos: 5,0
Comissão de Frente - Pontos perdidos: 4,5
Evolução - Pontos perdidos: 4,1
Mestre-Sala e Porta-Bandeira - Pontos perdidos: 3,7
Harmonia- Pontos perdidos: 3,4
Bateria- Pontos perdidos: 2,7
Império Serrano
Embora a escola tenha sido muito punida na maioria dos quesitos, apenas dois deles saíram da ordem natural de penalização. O samba-enredo, que teve excelente desempenho, foi o único que não perdeu um décimo sequer deixando de ser o quinto item mais punido (no geral) para ser no Império o único que obteve nota máxima.
Na outra ponta está o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Eles perderam um ponto no total, quando a média geral foi de 0,3. Desta forma, o casal passou a ser o quinto quesito mais punido da escola quando nas outras ele normalmente é o oitavo. Não se pode negar, entretanto, o peso absoluto que é perder 2,1 pontos em alegorias quando a média geral é de 0,9.
Alegorias - 2,1
Enredo - 1,5
Conjunto - 1,4
Fantasia - 1,3
MS e PB - 1,0
Comissão - 0,8
Evolução - 0,6
Harmonia - 0,5
Bateria - 0,1
Samba - 0
Mocidade
Destaque negativo para a comissão de frente. Foi o que fugiu da ordem natural dos quesitos mais punidos. Ao invés de repetir a média geral de 0,3 pontos perdido a comissão deixou de conquistar 1,1, saindo do sexto (geral) para o terceiro (na escola) dentre os quesitos mais penalizados. Nos demais itens a escola praticamente seguiu a ordem natural das penalizações. Quase todos perderam o dobro da média geral, exceções feitas a harmonia, bateria e mestre-sala e porta-bandeira. Em harmonia a Mocidade perdeu três vezes a média, o que pode ser considerado um desempenho negativo apesar da pouca perda de pontos absolutos. O casal de Mestre-sala e Porta-bandeira ficou apenas um décimo acima da média geral (pontos perdidos) - foi o segundo melhor quesito da escola. E a bateria foi a púnica a ficar abaixo da média de seu quesito: 0,1 (Mocidade) x 0,2 (média) se tornando assim o melhor dos dez itens da escola.
Alegorias - 1,8 / 0,9
Enredo -1,3 / 0,6
Comissão -1,1 / 0,3
Fantasia -1,0 / 0,4
Conjunto -0,8 / 0,4
Samba -0,8 / 0,4
Evolução -0,6 / 0,3
Harmonia -0,6 / 0,2
MS e PB -0,4 / 0,3
Bateria -0,1 / 0,2
Porto da Pedra
O trabalho plástico de Max Lopes fez a diferença. No Porto da Pedra o quesito "Alegorias" (normalmente o primeiro) foi apenas o quarto mais punido e as "Fantasias" (em média em terceiro) ocuparam o sétimo lugar dentre os mais penalizados. Em "Alegorias" a escola esteve rigorosamente em cima da média geral de pontos desperdiçados. E em Fantasias apenas três décimos acima. Nada mal para uma escola que ficou em décimo lugar. Pode se afirmar que estes quesitos salvaram a escola de um susto maior.
O carnavalesco deixou a desejar apenas no enredo que acabou sendo o pior quesito, com 1,1 ponto perdido, quase o dobro da média. A colocação geral do quesito enredo aponta a escola exatamente na décima posição.
Outro ponto positivo foi o desempenho do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Eles ficaram em cima da média geral, perdendo apenas três décimos, o que se configurou o melhor desempenho em termos absolutos de um quesito da escola. O rendimento da dupla garantiu também um empate em termos comparativos ao com o quesito "Alegorias": ambos acertaram a média geral e foram os melhores do Porto da Pedra.
Nos demais itens a agremiação gonçalense não se houve bem, especialmente em "Evolução" onde perdeu um ponto - três vezes mais que o resultado médio. Evolução foi o segundo quesito mais penalizado da escola, quando deveria ter sido o sexto. Em termos comparativos, o pior quesito.
Enredo: 1,1
Evolução: 1,0
Conjunto: 0,9
Alegorias: 0,9
Samba: 0,8
Harmonia: 0,8
Fantasias: 0,7
Comissão: 0,6
Bateria: 0,4
MS e PB: 0,3
Unidos da Tijuca
O pior desfile da Tijuca desde 2003 teve como maiores vilãs as suas alegorias. É normal ter este quesito como o mais penalizado, o que não é normal -especialmente para uma escola que está acostumada a voltar entre as campeãs - é ficar em penúltimo lugar no conjunto alegórico apenas dois décimos à frente da última colocada. A Tijuca perdeu um ponto a mais que a média neste quesito.
A evolução também não ajudou (conseqüência também das alegorias quebradas). A escola perdeu seis décimos, o dobro da média. A bateria também deixou a desejar ao ser penalizada em seis décimos, o triplo da média do quesito.
Os melhores desempenhos foram em conjunto, samba-enredo e harmonia, que se aproximaram da média geral. Harmonia, por sua vez, foi o único item em que a escola tijucana conseguiu desempenho melhor que a média.
Alegorias: 1,9
Enredo: 1,0
Fantasias: 0,7
Evolução: 0,6
Comissão: 0,6
Bateria: 0,6
Conjunto: 0,5
Samba: 0,5
MS e PB: 0,4
Harmonia: 0,1
Imperatriz Leopoldinense
Conforme chegamos perto da parte central da tabela de classificação começamos a ver as notas refletirem este posicionamento. Na Imperatriz o quesito que fugiu do desvio padrão foi o "samba-enredo", que perdeu sete décimos (três a mais que a média) e se tornou o segundo mais penalizado da escola, atrás apenas do campeão "Alegorias".
Destaques positivos para evolução (sem desconto de pontos) e o temido "Enredo" que custou apenas dois décimos à Imperatriz.
Alegorias: 0,9
Samba: 0,7
Conjunto: 0,5
Fantasias: 0,4
Comissão: 0,4
Harmonia: 0,2
Enredo: 0,2
MS e PB: 0,2
Bateria: 0,1
Evolução: 0
Viradouro
O samba foi o grande problema da Viradouro no carnaval de 2009. Ele foi o quesito que mais perdeu pontos na escola, superando até o temido "Alegorias", que ficou em segundo. O samba-enredo da escola de Niterói, aliás, foi ao lado do da Vila, o de menor pontuação no geral. É compreensível, portanto, que a escola tem apresentado um desempenho inferior à média também em harmonia, que foi o quinto pior desempenho entre os dez itens julgados.
Surpreendeu a excelente pontuação do enredo (apontado como maior problema da escola), que perdeu apenas meio ponto e ficou abaixo da média geral. Segundo quesito na ordem geral dos mais punidos, na Viradouro o "Enredo" ficou em sexto lugar nesta lista.
Comissão de frente (apesar do tema complicado), com apenas um décimo perdido, e bateria - única a "zerar percurso" - foram os destaques da escola.
Samba: 0,9
Alegorias: 0,7
Fantasias: 0,7
Conjunto: 0,6
Harmonia: 0,6
Enredo: 0,5
Evolução: 0,5
MS e PB: 0,3
Comissão: 0,1
Bateria: 0
Mangueira
"Enredo", "Samba-enredo" e "Mestre-sala e Porta-bandeira" colocaram a velha Mangueira no desfile das campeãs. Gabaritar três quesitos, dentre eles um dos mais punidos, dá uma força muito grande a qualquer escola. Some-se a isso os bons desempenhos em harmonia, comissão de frente e bateria e temos a justificativa para a classificação, apesar dos problemas visuais.
Alegorias: 1,3
Conjunto: 0,5
Fantasias: 0,5
Evolução: 0,4
Bateria: 0,2
Comissão: 0,2
Harmonia: 0,1
Samba: 0
Enredo: 0
MS e PB: 0
Grande Rio
O pior desempenho comparativo por quesito foi da "comissão de frente". Seria pior se a queda de um componente do tripé em frente à primeira cabine tivesse sido punida com mais rigor. Destaques positivos para "conjunto" e "evolução" que perderam menos décimos que a média.
Alegorias: 0,8
Comissão: 0,5
Fantasias: 0,4
Enredo: 0,4
MS e PB: 0,3
Harmonia: 0,2
Samba: 0,2
Conjunto: 0,1
Evolução: 0,1
Bateria: 0,1
Vila Isabel
As estranhíssimas notas para "samba-enredo" e "bateria" colocaram o desempenho da escola nestes dois quesitos como os piores do carnaval e tiraram a Vila da briga pelo título. É o tipo de coisa que causa estranheza. Será que realmente eles mereceram este rigor do júri? Aceito que não tenham sido os melhores, mas se tivessem obtido a pontuação média, teriam dado mais nove décimos à escola - e consequentemente o vice-campeonato. Se fosse obtida pontuação máxima nestes itens, a Vila seria a campeã. Talvez ela tenha sido a única escola julgada como deveria nestes quesitos. O que espanta é que as demais não foram.
Destaques para o "chão" da Vila que garantiu notas máximas em evolução e harmonia, e para o visual, que só perdeu um décimo em alegorias e zerou em fantasias. A genial comissão de frente também alcançou pontuação máxima.
Samba: 0,9
Bateria: 0,6
Enredo: 0,4
Conjunto: 0,2
MS e PB: 0,2
Alegorias: 0,1
Comissão: 0
Fantasias: 0
Harmonia: 0
Evolução: 0
Portela
O excelente desempenho dos componentes garantiu à Portela notas perfeitas em evolução e harmonia e contribuiu para a perda de apenas um décimo em conjunto. Houve bom aproveitamento também na Comissão de Frente. Nos demais quesitos a escola se aproximou da média de pontos perdidos o que lhe tirou a chance de brigar pelo título. A campeã não pode perder tanto em "Alegorias".
Alegorias: 0,8
Enredo: 0,3
Fantasias: 0,2
MS e PB: 0,2
Samba: 0,2
Bateria: 0,2
Conjunto: 0,1
Comissão: 0,1
Harmonia: 0
Evolução: 0
Beija-Flor
O grande vilão da Beija-Flor foi o seu enredo. Foram nove décimos perdidos num único item, acima até da média geral, que foi de seis décimos. O casal de mestre-sala e porta-bandeira também perdeu mais do que deveria e se tornou, em termos absolutos, o segundo quesito mais penalizado da escola.
A Beija-Flor brilhou, para os jurados, em fantasias, samba-enredo e conjunto. Nestes três quesitos não perdeu ponto algum.
Enredo: 0,9
MS e PB: 0,3
Alegorias: 0,2
Harmonia: 0,2
Evolução: 0,2
Bateria: 0,1
Comissão: 0,1
Fantasias: 0
Samba: 0
Conjunto: 0
Salgueiro
É complicado apontar pontos fracos na campeã do carnaval. Foram resíduos deixados pelo caminho que não comprometeram o todo. O quesito "Enredo" perdeu três décimos, metade da média das outras escolas.
Ponto forte, sem dúvidas, foi o visual que obteve notas máximas e fez a diferença.
Enredo: 0,3
Conjunto: 0,2
Bateria: 0,2
MS e PB: 0,1
Harmonia: 0,1
Evolução: 0,1
Comissão: 0
Fantasias: 0
Samba: 0
Alegorias: 0
Quesitos na berlinda
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 13/04/2009 11:22
Outro dia li num dos espaços dedicados ao carnaval na internet alguém defendendo a extinção do quesito "Mestre-sala e Porta-bandeira". Já presenciei também o grande Laíla pregando que ele deveria ter um peso menor do que os demais porque era de responsabilidade de apenas duas pessoas.
Sou radicalmente contra. A arte de um casal de Mestre-sala e Porta-bandeira é uma das coisas mais bonitas das escolas de samba. É, também, uma manifestação única e exclusiva deste tipo de evento. Carrega uma simbologia fundamental - é o pavilhão da escola que está sendo apresentado e protegido com graça e arte. Poucas coisas são mais importantes numa escola do que essa magia.
Muita gente ignora os casais e não percebe a beleza da dupla. Pouco se comenta o desempenho deles fora do mundo restrito do samba. Talvez porque as apresentações sejam voltadas para os julgadores e só aconteçam com toda sua graça quatro vezes ao longo da pista, o público em geral não consiga identificar as sutilezas e diferenças de nível entre os casais. Isso precisa mudar. Confesso que eu também não dava muita atenção, mas depois que me interessei pelo assunto fiquei encantado.
Tenho uma sugestão: a volta da criação de bandeiras alusivas aos enredos e o consequente julgamento das mesmas junto com a indumentária. Seria uma atração a mais e tiraria um pouco do peso dos ombros dos dançarinos.
Acredito que, para não prejudicar os profissionais, os julgadores são muito reticentes na graduação das penalizações. Pode parecer bom para quem não se vê responsabilizado pela classificação da escola, mas é ruim para o quesito como um todo. Ele deixa de ter peso na comparação com os demais e as claras diferenças de nível não encontram representação nas notas. Além de ser uma injustiça, isso faz com que não valha a pena investir num casal de primeiríssimo nível se uma dupla apenas mediana pode conseguir notas similares. Gera também uma certa acomodação.
Neste ano só a Mangueira obteve a nota máxima, mas entre ela e a décima primeira colocada no quesito, a diferença foi de apenas quatro décimos.
Pontos perdidos no quesito
1 - Mangueira - nada
2 - Salgueiro - 0,1
3 - Portela, Vila e Imperatriz - 0,2
6 - Grande Rio, Beija-Flor, Viradouro e Porto da Pedra - 0,3
10 - Tijuca e Mocidade - 0,4
12 - Império - 1,0
PARA QUE "CONJUNTO"?
Na teoria, a classificação do quesito "Conjunto" deveria repetir a soma geral. Afinal, este é o "super-quesito", que observa todos os demais. Embora estes números tenham se aproximado este ano, eles não são o retrato fiel da classificação oficial. A campeã, para os julgadores de "conjunto", foi a Beija-Flor. O Salgueiro viria atrás também de Portela e Grande Rio e ao lado da Vila Isabel.
Não tenho a resposta (alguém pode me ajudar?), mas não sei exatamente qual foi a motivo da criação deste quesito que não julga nada especificamente e julga tudo ao mesmo tempo. Se todos os aspectos considerados importantes em um desfile têm seu julgamento, até que ponto é necessário um item para fazer um balanço geral?
Acaba acontecendo uma dupla penalização de alguns erros. Mas só de alguns. Por outro lado há fundamentos das escolas de samba, como os passistas, que estão morrendo porque não são julgados.
Pontos perdidos no quesito:
1 - Beija-Flor - nada
2 - Portela e Grande Rio - 0,1
4 - Salgueiro e Vila Isabel - 0,2
6 - Tijuca, Mangueira e Imperatriz - 0,5
9 - Viradouro - 0,6
10 - Mocidade - 0,8
11 - Porto da Pedra - 0,9
12 - Império - 1,4
COMISSÃO DE FRENTE
Este quesito, na visão dos julgadores, é um dos melhores das escolas de samba. Elas perdem poucos pontos aqui. E porque? Porque as coisas mudaram tanto nos últimos anos que deixou de haver um parâmetro. Vale inventar quase tudo e a avaliação fica de acordo com o gosto pessoal do julgador. Como não é praxe criticar a concepção artística, as punições acontecem geralmente em cima de falhas de sincronia ou problemas de indumentária. É preciso que se defina o que passou a ser uma comissão de frente. Os moldes de antigamente estão mais ultrapassados aqui do que em qualquer outro quesito.
Neste ano Salgueiro e Vila foram unanimidade como as melhores comissões de frente. E a Mocidade foi a única realmente penalizada com rigor.
Pontos perdidos no quesito
1- Salgueiro - nada
2 - Vila - 0
3 - Beija-Flor, Portela e Viradouro - 0,1
6 - Mangueira - 0,2
7 - Imperatriz - 0,4
8 - Grande Rio - 0,5
9 - Tijuca e Porto da Pedra - 0,6
11 - Império - 0,8
12 - Mocidade - 1,1
Quesitos 'musicais' não têm tanto peso
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 09/04/2009 01:00
Somando os pontos perdidos em "Samba-enredo", "Harmonia", "Bateria" e "Evolução" não se alcança o total da dupla "Alegorias e Enredo". A gente não sabe se isto é reflexo de uma desvalorização dos quesitos que formam a base de uma escola de samba ou se estes itens realmente atingiram uma qualidade próxima à perfeição.
Realmente os ensaios técnicos desenvolveram escolas mais afiadas no "chão". Acontece que muitas delas não conseguiram repetir no desfile oficial o desempenho dos treinos.
Acredito que a dificuldade em punir estes quesitos está no aspecto excessivamente subjetivo que ainda rege este julgamento. São itens cujos parâmetros são criados e determinados pelos próprios julgadores. Julgar harmonia, por exemplo, é algo humanamente impossível. Com avaliar o canto de uma escola se, da cabine, você só escuta o que vem das caixas de som? Estes julgadores deveriam estar na pista. E como medir se uma escola foi mais espontânea que a outra? Qual deve ser a punição para um buraco?
Todas estas perguntas não têm respostas e, por medo de virar manchete de jornal, os jurados aliviam: quando muito tiram três décimos, o que acaba desqualificando o quesito. Será que vale a pena investir em ensaios exaustivos se você não corre risco de perder muitos pontos? Senão, vejamos: o Porto da Pedra, que abriu vários buracos e correu no final perdeu, somando evolução e harmonia, 1,8. O Império Serrano perdeu em Alegorias e Fantasias 3,4.
SAMBA-ENREDO
Talvez seja o quesito que mais me traz curiosidade sobre as justificativas. Queria entender porque uma safra apenas mediana teve tantas notas altas. Queria também saber por que tantos erros foram identificados no samba da Vila Isabel (o de menores notas ao lado da Viradouro) e não em outros.
Queria saber, de fato, que tipo de critério existe para julgar um samba-enredo, além da simples subjetividade. Seria importante ter direcionamentos definidos até para que os compositores possam, nos anos seguintes, criar obras melhores. Sambas amplamente criticados pela opinião pública tiraram notas máximas.
PONTOS PERDIDOS
1 - Salgueiro, Beija-Flor, Mangueira, Império - nada
5 - Grande Rio e Portela - 0,2
7 - Tijuca - 0,5
8- Imperatriz - 0,7
9 - Porto da Pedra e Mocidade - 0,8
11 - Vila Isabel e Viradouro - 0,9
HARMONIA
Interessante é perceber que em harmonia, um quesito que depende diretamente do samba-enredo e que de certa forma mede seu desempenho na avenida, a Vila Isabel não perdeu um décimo sequer. O inverso acontece com o Império Serrano, que tirou notas máximas em samba, mas não foi bem avaliado em harmonia.
Dá para compreender que a Viradouro, tendo um dos piores sambas na avaliação dos julgadores, tenha uma das piores harmonias. Porque isso não se repetiu com as citadas acima?
PONTOS PERDIDOS
1 - Vila Isabel e Portela - nada
3 - Salgueiro, Mangueira, Tijuca - 0,1
6 - Beija-Flor, Grande Rio e Imperatriz - 0,2
9 - Império Serrano - 0,5
10 - Mocidade - 0,6
11 - Viradouro 0,6
12 - Porto da Pedra - 0,8
EVOLUÇÃO
O desempenho neste quesito consagra a Portela ao lado da Vila como os melhores desfiles de "chão" de acordo com os jurados. A surpresa é a entrada da Imperatriz no rol das perfeitas em evolução, após desempenhos inferiores em samba e harmonia. Chama atenção a pouca punição para escolas que abriram buracos como Salgueiro e Mocidade.
PONTOS PERDIDOS
1 - Portela, Vila Isabel e Imperatriz - nada
4 - Salgueiro e Grande Rio - 0,1
6 - Beija-Flor - 0,2
7 - Mangueira - 0,4
8 - Viradouro - 0,5
9 - Mocidade - 0,6
10 - Império e Tijuca - 0,6
12 - Porto da Pedra - 1,0
BATERIA
Embora só uma escola tenha conseguido a nota máxima, a maior punição chegou apenas aos seis décimos - somando todos os jurados. É um quesito de alto nível na maioria das escolas, mas um pouco mais de atenção poderia fazer com que os jurados percebessem outros problemas.
PONTOS PERDIDOS
Viradouro - nada
Beija-Flor - 0,1
Grande Rio - 0,1
Imperatriz - 0,1
Mocidade - 0,1
Império - 0,1
Salgueiro - 0,2
Portela - 0,2
Mangueira - 0,2
Porto da Pedra - 0,4
Tijuca - 0,6
Vila - 0,6
O carnavalesco ainda é o rei
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 08/04/2009 02:20
O carnavalesco, ou o papel que teoricamente cabe a ele, ainda é a figura mais importante de uma escola de samba. Isso ficou comprovado com os números apresentados na coluna de segunda-feira, que apontou os quesitos "Alegorias e adereços", "Enredo" e "Fantasias" como os que têm mais peso na decisão de um carnaval.
Não foi à toa que o desfile deste ano deixou a impressão de que Renato Lage deu a vitória ao Salgueiro. Ao garantir notas máximas em "Fantasias" e "Alegorias" e perder apenas três décimos em "Enredo" o carnavalesco conferiu à escola uma vantagem de oito décimos sobre a segunda colocada (a diferença total foi de um ponto).
Você pode argumentar que o quesito "Enredo" foi o "pior" do Salgueiro. Realmente, vamos mostrar mais à frente que numericamente foi onde a escola perdeu mais décimos. Mas se compararmos com a média do quesito (0,6 ponto perdido por escola) o Salgueiro foi bem. Especialmente no confronto direto com a Beija-Flor, que perdeu nove décimos. O que dizer, então, do desempenho em "Alegorias", onde a média geral foi de 0,9 ponto perdido e o Salgueiro não foi penalizado? Fez a diferença.
MELHORES E PIORES - ALEGORIAS E ADEREÇOS
As notas mostram um abismo entre o grupo formado por Salgueiro (sem punição), Vila Isabel (menos um décimo) e Beija-Flor (menos dois décimos) e as demais. A quarta colocada - para a surpresa de muitos - foi a Viradouro (-0,7), meio ponto atrás. Ela encabeça o segundo pelotão que traz ainda Grande Rio e Portela (-0,8); Porto da Pedra e Imperatriz (-0,9). Um pouco atrás vem a Mangueira (-1,3), ainda com boa margem antes do grupo final composto por Mocidade (-1,8), Tijuca (-1,9) e Império (-2,1). É interessante notar que aqui já estão desenhadas a campeã e a rebaixada.
ENREDO
Venho dizendo há tempos que os julgadores de enredo são os melhores do carnaval. Em geral são os que fundamentam suas justificativas de forma mais inteligente e os que têm coragem para punir as escolas independentemente do peso que elas possuem. O número de notas máximas é bem menor que a média embora eles não escapem do mal que aflige todo o corpo de julgamento - a pequena escala de graduação.
Entendo que todos os quesitos devam ter peso igual e ainda terei oportunidade para explicar isso com mais calma. Mas acredito que o enredo seja um dos mais importantes para uma escola de samba. Ele é a base de um desfile, a partir do qual se criam samba, alegorias, fantasias, comissão de frente. Um bom samba, por sua vez, influencia harmonia, evolução e bateria.
Por isso é importante que as escolas percebam a importância de ter um bom enredo. Temas ruins têm sido um dos principais problemas do carnaval atual. Complicam a festa e tiram dela popularidade e alegria.
O julgamento de "Enredo" deste ano reservou algumas surpresas. A Mangueira foi a única com nota máxima. Talvez o peso do nome de Darcy Ribeiro tenha sido decisivo, ao conferir conteúdo cultural, para defender uma história contada sem muita imaginação.
O último colocado no quesito foi mais uma vez o Império Serrano. A dificuldade de construir um enredo a partir de um samba com letra abstrata é realmente grande e deve ter pesado na hora de criar o desfile da escola da Serrinha.
Para muitos a grande surpresa foi o desempenho do enredo da Viradouro, extremamente criticado. Ele perdeu apenas 0,5 ponto e deu à escola o sétimo lugar no quesito - à frente da Beija-Flor, por exemplo, que perdeu nove décimos.
PONTOS PERDIDOS EM ENREDO
1 - Mangueira - nada
2 - Imperatriz 0,2
3 - Salgueiro e Portela - 0,3
5 - Grande Rio e Vila - 0,4
7 - Viradouro - 0,5
8 - Beija-Flor - 0,9
9 - Tijuca - 1,0
10 - Porto da Pedra - 1,1
11 - Mocidade - 1,3
12 - Império - 1,5
FANTASIAS
É importante dizer que as fantasias têm muita influência em outros dois quesitos: harmonia e evolução. Roupas quentes, pesadas e grandes dificultam o desempenho do componente na avenida. Isso fica nítido. Foi mais um dos pontos positivos do Salgueiro, que encontrou um meio termo entre a beleza plástica e a praticidade para o desfilante.
A partir daqui os julgadores começam a ficar mais benevolentes. Três escolas ganham quarenta pontos e a soma das punições diminui bastante. É interessante notar que o quesito repete aproximadamente as posições de "Alegorias", que por sua vez são bem próximas à classificação final. Salgueiro, Vila e Beija-Flor se consolidam como as melhores no aspecto plástico.
PONTOS PERDIDOS EM FANTASIAS
1 - Salgueiro, Beija-Flor e Vila Isabel - nada
4 - Portela - 0,2
5 - Grande Rio e Imperatriz - 0,4
7 - Mangueira - 0,5
8 - Viradouro, Tijuca e Porto da Pedra - 0,7
11 - Mocidade - 1,0
12 - Império - 1,3
Os números mentem?
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 06/04/2009 23:59
O quesito "Alegorias e adereços" é o mais importante no Grupo Especial do Rio de Janeiro. Ele tem peso de 21% no julgamento das escolas de samba, pouco mais de um quinto do total. Logo depois vem "Enredo", com 14%. Somados, estes dois quesitos representam 35% (mais de um terço) dos pontos perdidos neste carnaval. Os outros 65% são divididos entre os demais oito quesitos. Estas e as outras afirmações que serão feitas nas próximas colunas são conclusões tiradas a partir da análise das notas aplicadas pelos julgadores oficiais do carnaval de 2009.
"Alegorias e adereços" é o quesito mais importante porque é mais punido pelos julgadores. No total, as escolas perderam 11,5 pontos em alegorias. Um contraste, quando se compara com o quesito "Bateria" que custou ao todo 2,7 às agremiações. Se somarmos os pontos perdidos em "Bateria", "Mestre-sala e Porta-bandeira" e "Harmonia" não se alcança o total das punições de "Alegorias". Não é de se estranhar, portanto, que a única escola com pontuação máxima no quesito tenha sido a campeã.
Um grande buraco custa apenas um décimo em evolução (quando custa). O mal desempenho de um casal de Mestre-sala e Porta-bandeira não pode valer menos de 9,7. A escola que não canta perde, no máximo, três décimos por jurado. Mas não me apareça com um queijo sem destaque num carro alegórico nem deixe um saco plástico perdido em meio à alegoria. Será fatal!
Para exemplificar: o principal componente da comissão de frente da Grande Rio desabou do tripé em frente ao julgador. O próprio presidente da Liesa foi ajudar a tirá-lo das ferragens. O rapaz foi empurrado pelo traseiro para subir de novo ao lugar correto. Uma cena ridícula. E a nota foi 9,7 - apenas três décimos abaixo das melhores apresentações. No mesmo módulo, o julgador de "Alegorias" (quesito que foi apresentado sem grandes tropeços) deu a mesma nota à escola.
Dentre os quarenta julgadores, só dois (ambos de "Alegorias", óbvio) deram notas inferiores a 9,6. Carlos Marques deu 9,5 para a Mangueira; 9,3 para a Mocidade; 9,2 para o Império Serrano e 9,1 para a Tijuca. Emil Ferreira aplicou apenas uma nota baixo da média geral: 9,4 para o Império Serrano. Nada contra os julgadores de "Alegorias". Eles cumprem o papel razoavelmente. O problema é com os demais trinta e oito julgadores que não usaram a escala de graduação. De um universo de trinta e uma notas possíveis a maioria usou apenas cinco. Equivale a, no sistema antigo, ir de 8 a 10.
Não sei dizer se este ano houve alguma orientação da Liesa para que os julgadores fossem mais rigorosos com os carros alegóricos. Não pudemos presenciar a reunião entre eles e os presidentes. Posso falar sobre os dois anos em que testemunhei tal reunião, quando não houve uma determinação direta neste sentido. Poderíamos imaginar uma queda na qualidade das alegorias em virtude da crise financeira mundial, mas isso não pode ser desculpa porque o quesito em questão é o mais penalizado há tempos.
Fico tentando imaginar o porquê deste fenômeno. A primeira resposta que encontro é a máxima de que "carnaval é luxo". O resto é detalhe. É muito mais grave vir com alegorias ruins do que com um samba "meia-boca", componentes "mascando chiclete" e uma bateria apenas certinha. O que importa é o visual (o quesito "Fantasias" é o terceiro que mais faz as escolas serem penalizadas).
Outra possível explicação pode ser encontrada nas justificativas dos anos anteriores. É muito mais fácil justificar punição apontando as falhas das alegorias, que são mais concretas do que as de outros quesitos. É difícil perceber e explicar as nuances que diferenciam um grande casal de mestre-sala e porta-bandeira de outro apenas mediano. Assim como é complexo analisar o equilíbrio harmônico de uma bateria. Imagina, então, julgar o canto de uma escola sem ouvi-lo (harmonia).
Os jurados, em média, não têm bagagem cultural para questionar a concepção artística das obras que analisam. Alguns não sabem se expressar via escrita. Então passam apenas a fiscalizar erros. A leitura dos cadernos de anos anteriores confirma isso. Um diz que tinha uma escada no fundo do carro, o outro diz que a escultura veio quebrada, e por aí vai. É mais fácil punir assim do que questionar coisas mais profundas. E você, tem outra explicação?
Confira quanto cada quesito tirou das escolas neste carnaval:
Pontos perdidos (somando todas as escolas)
Alegorias e adereços - 11,5
Enredo - 7,9
Fantasia - 5,9
Conjunto - 5,8
Samba-enredo - 5,0
Comissão de frente - 4,5
Evolução - 4,1
Mestre-Sala e Porta-Bandeira - 3,7
Harmonia - 3,4
Bateria - 2,7
A partir de terça-feira vamos analisar, quesito a quesito, como foi o julgamento do carnaval 2009. Assim que terminarmos esta tarefa vamos passar ao Grupo de Acesso com interpretação das justificativas já divulgadas.
NOVOS COLEGAS
Não posso deixar de comemorar a chegada de mais dois companheiros para o site. Anderson Baltar, competente jornalista e amante do carnaval a quem conheço desde o início da década através das listas de discussão, com certeza irá acrescentar conteúdo de alta qualidade a partir de sua análise crítica e seu bom humor.
Walter Nicolau, eu conheci pessoalmente há pouco tempo, mas qual internauta não aprecia seus textos embasados e coerentes?
Sejam bem vindos, companheiros! E preparem-se para as crtíticas!!!
Furacão varre a Cidade do Samba
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 24/03/2009 16:22
Esta é, definitivamente, a entressafra mais marcante dos últimos anos no carnaval carioca. Estão sendo quebrados vínculos muito fortes e antigos. As saídas de Rosa Magalhães da Imperatriz e do casal Marquinhos e Geovana da Mangueira são exemplos deste furacão que está varrendo a Cidade do Samba. E outras grandes novidades ainda podem surgir até que a festa de 2010 esteja desenhada de forma mais clara.
Na coluna anterior falei sobre a quebra de identidade em algumas baterias pela troca de seus comandantes. Será que isso também acontece quando se mexe no carnavalesco? Não é exatamente a mesma coisa, embora seja indiscutível que a identidade visual da Imperatriz esteja diretamente ligada a Rosa Magalhães.
A talentosíssima carnavalesca imprimiu seu jeito de ser à escola da Leopoldina durante os dezoito anos que permaneceu no comando artístico da agremiação. É o tipo do casamento que parece eterno... até que a morte os separe. Mas a verdade é que a relação já vinha desgastada há algum tempo. Não que houvesse brigas, mas havia algum tipo de acomodação. Um já estava muito acostumado com o outro. O resultado era a produção de carnavais pouco inspirados e previsíveis.
Acredito que esta mudança será muito positiva para a Rosa. Não sei para que escola ela vai (espero que não encerre a carreira), mas seja qual for o destino, terá muito a acrescentar com sua cultura e seu talento. Com certeza há de encontrar novos desafios e motivações.
Por outro lado a Imperatriz se permite oxigenar as idéias e buscar soluções diferentes para seus desfiles. O que me preocupa, com todo o enorme respeito que tenho pelo talento do Max Lopes, é que a direção da escola parece estar querendo voltar aos anos oitenta, trazendo não só o carnavalesco como também o intérprete do inesquecível "Liberdade, liberdade". São, de fato, nomes de peso no carnaval, mas indicam conceitos tradicionalistas demais num momento em que a festa se renova.
Há bons valores surgindo no mercado e voltar ao passado não me parece a melhor maneira de encontrar o "gás" necessário para voltar a disputar títulos.
Mas porque a troca de um carnavalesco não assusta tanto quanto a de outros segmentos? Talvez porque ao advento carnavalesco tenha surgido já num momento em que a festa estava se profissionalizando. É um artista que não se forma dentro das agremiações e desde sempre foi visto como um personagem com livre trânsito por várias escolas.
É diferente, portanto, de um casal como Marquinhos e Geovana. Ambos são criados na Mangueira, possuem ligações familiares com a escola de samba que defenderam por quatorze anos (só neste posto) e representavam um pouco do que ainda restava de amor à bandeira.
Há muitos casais profissionais (quase todos). E isso não é problema algum. Mas havia - neste caso - uma identificação, uma verdade única. E isso acabou. Perde muito a Mangueira não apenas porque eles formam um dos melhores casais da cidade (foram os únicos a conseguir todas as notas máximas nos últimos dois anos), mas porque esse "elo de amor à bandeira", essa magia, se desfaz.
Não estou aqui criticando a decisão de ambos. Eles é que sabem os motivos que os levaram a tal decisão que, estou certo, não foi nada fácil. Estou apenas lamentando como amante do carnaval que ainda vê algum romantismo na festa.
ELEIÇÕES NA MANGUEIRA
Quem diria que não haveria nenhuma chapa inscrita para a eleição na verde e rosa! É realmente uma tarefa para quem tem muita coragem assumir o comando da escola a esta altura. O Ivo Meirelles parece ser o único a ter esta coragem. O que os mangueirenses (e todos os amantes do carnaval) precisam, então, é torcer e ajudar para que ele faça uma grande administração. O carnaval precisa da verde e rosa forte.
MOCIDADE RENOVADA
Depois de um ano repleto de decisões erradas a Mocidade começa bem o trabalho para 2010. Cid Carvalho e Tavinho Novello fizeram grandes trabalhos no último carnaval e trazem respaldo à escola de Padre Miguel.
As opções para o comando da bateria são boas: Odilon, Andrezinho e Dudu (filho de Coé). O primeiro é referência no carnaval, mas precisaria respeitar as características da escola. Andrezinho carrega a herança do criador daquela bateria e uma boa imagem devido ao sucesso que fez com o Molejo. Dudu (que dirigiu a Unidos de Padre Miguel este ano) é um desses novos talentos que tem a seu favor o fato de estar vivendo o dia a dia da comunidade.
Isso somado às permanências do casal e da comissão de frente faz com que o torcedor possa sonhar com algo muito melhor em 2010.
ALEX NA PORTELA
Muitos portelenses ficaram assustados com os nomes de Alex de Oliveira e Amauri Santos para comandar o carnaval de 2010. Realmente uma escola do porte da águia de Madureira deveria pensar em nomes de ponta, com currículos mais extensos e vitoriosos. Mas todo portelense sabe que esta não tem sido a política da direção. E, apesar disso, a Portela vem subindo ano a ano na classificação do carnaval.
Não dá para garantir que a aposta será um sucesso. Não conheço o Amauri, mas passei o carnaval dividindo a cabine da Rádio Tupi com o Alex. E vi o desfile dele no Jacarezinho. Fiquei com a impressão de que estava testemunhando o nascimento de um grande artista. Também acho que ele precisa de mais experiência para assumir uma Portela. Mas Alex tem uma visão muito interessante do que deve ser o carnaval em termos de enredo, fantasia e alegoria. E fez, apesar das dificuldades financeiras, um trabalho de bom gosto na terça-feira. Vamos ver o que o futuro nos reserva.
O troca-troca
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 17/03/2009 18:39
Enquanto não chegam as justificativas dos julgadores o vai e vem dos "profissionais" do samba agita o nosso dia-a-dia. Já teve tanta troca que eu nem sei mais. Isso não é novo, mas desta vez a coisa está realmente "nervosa". Há muito tempo não se vê mudanças tão importantes, por exemplo, no segmento bateria. A ida de Mestre Ciça para o lugar de Odilon e a chegada de Átila à Vila Isabel são movimentos históricos.
Odilon criou uma bateria na Grande Rio. Onze anos de trabalho transformaram um grupo de "esforçados ritmistas" numa das mais perfeitas "orquestras de percussão" do carnaval. Foi um salto do nada para o topo. Um trabalho tão importante que virou referência para inúmeras outras baterias que passaram - para o bem do carnaval - a seguir as diretrizes ali estabelecidas: andamento, afinação, arranjo para os surdos de terceira, etc. Uma verdadeira escola.
A Vila Isabel tinha em Mug o diretor de bateria mais antigo da cidade. Eram mais de trinta anos no cargo que garantiam a manutenção de uma identidade sonora própria sustentada pela batida das caixas e o peso nas marcações. E, de repente, tudo vai se transformar.
Os novos mestres vão implantar seus métodos e fazer valer suas concepções, até porque foram contratados para isso. Não quero atrapalhar a vida dos profissionais do carnaval. Tenho imensa admiração pelos trabalhos de Ciça e Átila e profundo respeito pessoal por ambos, com quem tenho excelentes relações. A capacidade deles é inquestionável. O que me incomoda é a perda da identidade cultural das baterias. O próprio trabalho de Ciça, que marcou época na Viradouro, deve ser desfeito pelo seu antecessor e sucessor Jorjão. Dez anos é muito tempo para ser jogado no lixo.
Acredito que, em caso de desgaste de um mestre - como parece ter acontecido com Odilon - alguém que já faça parte da bateria assuma o posto principal. Desta forma, algumas mudanças podem acontecer, mas a base continua mantida. É importante que a bateria seja da escola e não do mestre que, eventualmente, está no comando.
A Imperatriz descobriu dentro de casa (Marcone) a solução para os problemas que enfrentava no quesito. A Tijuca teve a consciência de alçar o segundo diretor (Casagrande) ao primeiro posto quando perdeu Celinho. A Mangueira nem pensa em trazer alguém de fora para comandar sua bateria. Imagina se alguém decide implantar a "segunda" na verde e rosa? O próprio Átila é fruto de uma aposta da diretoria imperiana na prata da casa.
Alguém pode argumentar que o resultado (nota da bateria) é mais importante do que isso. Mas será que a escola que pretende ser campeã tem mesmo que passar por cima de si própria? Tem que renegar seu jeito de ser há décadas?
A análise dos julgadores oficiais não pode ser a diretriz a ser seguida. Até porque uma punição pode vir de um erro individual, ou de um problema que fuja ao controle do mestre de bateria como fantasia pesada, falha no som, etc...
E também porque o julgamento ainda não obedece a critérios claros - por isso clamo há tanto tempo por uma revisão nos manuais de julgamento. A identidade de cada bateria deve ser compreendida e respeitada e o julgamento deveria levar isso em consideração.
CARNAVALESCOS
Entre os carnavalescos o único movimento certo até agora é a volta de Paulo Barros para a Tijuca. Acho que pode ser bom para ambos. Juntos eles viveram seus melhores momentos e a escola não abandonou o estilo mesmo com a saída do artista. No entanto vai ser precisa muita criatividade para superar o que já foi feito antes. Este jeito de fazer carnaval parece estagnado.
URUGUAIANA
Não sei exatamente se fui mal compreendido ou se alguns querem mesmo é distorcer o que escrevo. Como disse no início do texto, o modelo foi criado no Rio (aqui é e sempre será a matriz) e se espalhou por todo o país e, porque não dizer, pelo mundo. Não pretendi estabelecer comparação entre o que se faz aqui e o que se faz lá em Uruguaiana. Disse apenas que gostaria de ter aqui a emoção que senti por parte do público de lá.
Quanto ao dinheiro, que é sempre bem vindo, ele não pagou os cinco dias que passei longe de minha família nem as desgastantes dezoito horas de ônibus. O que pagou foi o arrepio em minha pele durante três noites.
Eugênio Leal: 'Inveja'
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 11/03/2009 15:02
Fui conhecer o carnaval de Uruguaiana, cidade gaúcha que fica na fronteira do Brasil com a Argentina. É longe daqui. Nove horas de ônibus desde Porto Alegre. Aí você me pergunta: carnaval? Isso mesmo, e um lindo carnaval fora de época.
Existe escola de samba em tudo o que é lugar deste país. O modelo carioca se espalhou pelos mais distantes rincões da pátria. E ainda é capaz de nos surpreender. Quem diria que numa pequena cidade no extremo sul teríamos um público mais apaixonado pelas suas escolas do que no Rio de Janeiro?
Pelo menos esta é a impressão que a gente tem ao circular pela pista e testemunhar uma platéia que não apenas canta, mas grita os sambas, chora, vibra, faz coreografia e vai ao delírio com a apresentação de um casal de mestre-sala e porta-bandeira.
É daí que vem o título da coluna. Fiquei com uma tremenda inveja deste público. Imaginei esta alegria aqui no Rio. Sonhei com um público que sabe os sambas, que se encanta com o que vê; que vibra com as coisas mais simples (e bonitas). Descobri que ainda é possível se emocionar com o puro samba.
Sei que aqui já foi assim um dia, mas hoje as coisas são muito diferentes. Nossa Sapucaí é um gelo só. Parece o pólo norte! Fazemos um espetáculo meramente visual pensando na televisão. Falta emoção, que é a mola mestra da vida. Quando é que vamos nos tocar? Precisamos urgentemente trazer o calor humano de volta aos nossos desfiles.
MAIS SOBRE URUGUAIANA
As três maiores escolas (Ilha do Marduque, Rouxinóis e Cova da Onça) desfilariam com sobras no nosso Grupo de Acesso. Cada uma com suas qualidades, elas protagonizaram uma disputa bonita que foi vencida pela agremiação mais equilibrada (Marduque).
Vários profissionais cariocas passaram pela avenida gaúcha como os cantores Wantuir, Serginho do Porto, Bruno Ribas, Leonardo Bessa e Diego Nicolau; os casais Robson e Ana Paula e Claudinho e Janailse (que substituiu com categoria Selminha Sorrisoz) e Sidclei da Grande Rio; o diretor de carnaval Tavinho Novello e musas como Viviane Araújo, Thatiana Pagung, Renata Santos, Quitéria Chagas, Adriana Bombom, Rachel Blanc e Danny Carnutti, entre outras. Figuras que levaram brilho e glamour, mas não tiraram o mérito e a beleza do povo gaúcho que é apaixonado pelo samba e mostrou isso na avenida.
Eu fiz parte do júri que é todo carioca e contou com a participação de profissionais renomados. O resultado não foi contestado!
Foi uma experiência fantástica. Eles têm muito o que evoluir ainda, mas saí de lá com a impressão de que nós é que temos o que aprender com estes carnavalescos apaixonados que existem Brasil afora.
O carnaval da reflexão
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 04/03/2009 12:44
É verdade, demorei um pouco para escrever após este carnaval. Estava procurando o que dizer. Não me basta mais apenas ficar discutindo as justiças e injustiças do resultado oficial. Elas fazem parte de um sistema falido que neste momento é minha maior preocupação.
Não escrevo aqui por esta ou aquela agremiação. Escrevo pelo samba, pela festa, pela manifestação cultural inigualável que é o nosso carnaval. E confesso que termino este ciclo de certa forma angustiado.
Recebemos o "rei", o presidente e - surpresa geral - a "voz oficial" da seleção brasileira (que caiu feito um cometa no desfile das campeãs ao lado de Quinho). Vimos um prefeito se fantasiar para tocar agogô na bateria da Portela.
Por outro lado testemunhamos a reedição da invasão de pista por uma pequena multidão (só que desta vez todo mundo estava credenciado); a pouco comentada queda de uma câmera de trezentos quilos sobre as frisas; a valorização junto aos cambistas de ingressos para o "setor 1" que deveriam ter sido distribuídos às comunidades; a volta das tentativas de virada de mesa no grupo de acesso e com ela as brigas entre entidades organizadoras de desfiles; e a perpetuação de julgamentos não fundamentados e injustos.
Não vimos, entretanto, o brilho do sambista.
Deixo claro que não questiono o título do Salgueiro, pelo contrário. Talvez ele tenha sido o grande ponto de salvação do carnaval. Uma vitória justa e digna, que por ser a notícia de mais relevância aos olhos do grande público, revigora a imagem da festa. Mas o que os jurados fizeram com Vila Isabel, Império Serrano e Estácio de Sá (no acesso) não é aceitável.
A esperança está no fato de que esta sensação de que muita coisa precisa ser melhorada é compartilhada por figuras fundamentais na organização da festa. O prefeito não descarta a entrada de uma empresa para dividir com a Liesa a organização do carnaval e o próprio presidente da liga (que não sabe se continuará no cargo) fala na realização de um simpósio para discutir a festa. Haverá mudanças fundamentais na gestão do carnaval.
A gente tem críticas à Liesa sim, mas é preciso saber quais são as verdadeiras transformações a serem implantadas por uma terceira empresa. Mudar para pior não interessa. Quanto ao simpósio, desde que seja plural e ouça o sambista de verdade, é uma iniciativa excelente que nós pedimos aqui há algum tempo.
Este período de entressafra promete ser o mais importante e ao mesmo tempo o mais perigoso das últimas décadas. É fundamental que estejamos atentos e que sejamos participantes neste processo. O crescimento e fortalecimento da imprensa carnavalesca através da internet é inegável. É nessa hora que nosso papel se acentua. O carnaval não acabou, está apenas começando. Não vamos nos desmobilizar.







Vai começar tudo de novo












