Samba no pé
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 16/03/2010 02:38
Samba é música ou dança? Os dois na verdade, mas quando você diz que vai sambar não significa que vai tocar um instrumento, mas que vai "dizer no pé". Então como podemos falar em "escola de samba" quando cada vez menos a arte de sambar é valorizada?
Não é papo de velho retrógrado, nem daqueles chatos que não gostam de carnaval e procuram algo pra reclamar. É apenas uma triste constatação: se alguma decisão urgente não for tomada, dentro de pouquíssimo tempo ninguém mais vai sambar nas escolas de samba.
O passista é um elemento desvalorizado dentro dos desfiles. Escondido atrás do carro de som, é usado para tapar buraco quando a bateria entra no recuo. Sambar, que deveria ser a tarefa dele, não é possível.
Fruto de um processo que começou quando enredo, alegorias e fantasias começaram a valer mais que o samba. Aquela história de "ópera popular", inventada pelo Joãsinho Trinta, que fez do carnavalesco a estrela solitária de uma festa que deveria ser de uma constelação. Mulheres nuas, plumas e carros gigantescos ganharam destaque. E o samba sambou.
Veio a era do "desfile técnico" e a coisa piorou. Sambar passou a ser quase um crime, pois "atravanca" o desempenho da escola. Nem mesmo a valorização do "chão", promovida pela Beija-Flor na última década, conseguiu despertar o interesse pela arte de sambar.
Isso resultou no sumiço de figuras legendárias das escolas de samba e na queda de qualidade dos passistas. Hoje quase todo mundo samba igual à "Globeleza". Não há mais improviso, criatividade, gingado. Os passistas masculinos, além da malandragem, perderam a personalidade e seguem o modelo feminino. Não há mais sorriso no rosto, comunicação, samba na veia. É um samba mecânico e padronizado.
O público adora o passista. O melhor exemplo disso é o Gari Renato "Sorriso". Ele consegue mais aplausos que as escolas porque tem espaço e tempo para mostrar sua arte com carisma, talento e simpatia. Virou sucesso e ícone de um carnaval em que as escolas escondem os seus passistas. E quando Renato, que este ano foi homenageado por duas escolas, desfila dentro de uma delas o resultado não é o mesmo. Porque ele entra na paranóia técnica dos desfiles.
Só vejo uma saída - transformar os passistas em quesito. É a única maneira de fazer com que os dirigentes valorizem este segmento tão importante. O fato de contar ponto é o que ainda sustenta a magia do casal de mestre-sala e porta-bandeira, por exemplo. Os critérios podem ser definidos pelos próprios passistas, mas são muito fáceis de se estipular: gingado, leveza, criatividade, simpatia, etc. Seria um ganho enorme para o espetáculo.
Unidos da Tijuca é a grande campeã da primeira noite do Grupo Especial
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 15/02/2010 06:21

A Unidos da Tijuca foi a grande campeã da noite. O carnavalesco Paulo Barros acertou a mão e fez a diferença. A escola foi a única que conseguiu mexer com o público e causou impacto na avenida. Tecnicamente teve um desempenho muito bom, contando o enredo de forma clara.
Beija-Flor e Salgueiro fizeram um desfile no mesmo nível, porém um degrau abaixo da Unidos da Tijuca. Embora tenham feito uma apresentação de alto nível, elas perderam força diante da Tijuca.
A Viradouro foi decepcionante, em especial nas alegorias e fantasias. A escola demonstrou nível aquém do Grupo Especial e é seriamente candidata ao rebaixamento.
A União da Ilha fez um desfile bem acabado, com história simples, de fácil entendimento, e deve permanecer no Grupo Especial.
Esperava mais da Imperatriz. Acredito que a escola se perdeu na grandiosidade de alguns carros e nas fantasias pesadas, que atrapalharam a evolução. Alas comerciais, com grande presença de gringos também atrapalharam. Além disso, o samba maravilhoso não rendeu o esperado.
Em noite bastante nivelada, decisão será nos detalhes
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 14/02/2010 07:10
Primeiro é bom destacar a eficiência da organização na noite dos desfiles do Grupo de Acesso, pois tudo aconteceu dentro do que estava estipulado. O diretor de carnaval da Lesga, Edson Marcos, fez com que as escolas saíssem certinho, sem atrasos.
Em relação aos desfiles, foi uma noite bastante nivelada, com poucos erros e a decisão será nos detalhes. Vai depender da criatividade de cada carnavalesco. Os meus quatro destaques ficam para a Renascer de Jacarepaguá, Cubango, Rocinha e Império Serrano.
Os desfiles não foram ricos nem luxuosos, mas foram muito organizados. Destaque para as baterias e para todos os intérpretes estreantes este ano, que tiveram bom desempenho nas apresentações.
Cheiro de empate?
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 06/02/2010 10:03
Vai ser um grande carnaval, sem dúvida. Há pelo menos sete escolas que entram na avenida pensando seriamente em conquistar o título. Isso é fantástico!
Interessante é perceber que teremos uma variedade de estilos muito benéfica para o espetáculo. Quem dá uma voltinha pela passarela da Cidade do Samba (quem de nós não o faz - ou tem vontade?) vislumbra propostas estéticas diversificadas.
O refino e a limpeza de Renato Lage; o luxo e a grandiosidade da comissão de carnaval da Beija-Flor; a leitura muito própria de Alex de Souza para a homenagem a Noel; a suntuosidade e o colorido de Max Lopes em sua volta à Imperatriz; o detalhismo e o bom gosto de uma Rosa Magalhães mais motivada; a ousadia no projeto dos jovens carnavalescos da Portela; os mistérios ao que parece mais carnavalizados de Paulo Barros; a originalidade delirante de Cid Carvalho; o tom retrô modernoso da verde e rosa... e por aí vai.
Isso se reproduz nos sambas, que vão do encantamento emotivo da oração gresilense até a empolgação quase infantil (no bom sentido) do Salgueiro, passando pela construção diferente de Martinho da Vila e pela estrutura melódica mais densa da Beija-Flor. Há o retorno dos sambas alegres da Ilha e o que estão chamando de "samba para piranhar" (com todo respeito) da Mocidade, que contrasta com a letra mais trabalhada da Viradouro. O que falar, então, da melodia envolvente do samba Mangueirense?
Talvez seja o ano mais difícil para se apontar os favoritos. E a mudança de regulamento (com a qual não concordo) facilita o nivelamento no momento em que os erros eventuais não serão punidos, apenas os contínuos. Pequenas falhas serão descartadas e quem já estava muito próximo pode acabar empatando. É isso... este carnaval 2010 tem cheiro de empate. Será?
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As Escolas Mirins não aceitam a proposta de dividir seu espetáculo em dois dias como preliminar do acesso. É muito justo. Muita gente ainda não entendeu a grandiosidade do evento. É, fácil, o dia em que o Sambódromo recebe maior público. Isso porque a entrada é grátis e a rotatividade é enorme. São quarenta mil crianças desfilando e cada uma leva seus familiares.
Imagina misturar com o acesso.
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Repito mais uma vez: o poder público precisa interferir, sim, no aspecto artístico da festa. Não se pode deixar todas as decisões nas mãos dos presidentes das escolas. Tanto do Especial quanto do Acesso. A legislação em causa própria não é benéfica para o carnaval.
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Peço desculpas aos leitores pela ausência neste espaço tão querido. O tempo é cada vez mais escasso em virtude do voume de trabalho na preparação para o carnaval da Tupi. Conto com a audiência de vocês durante a festa!
80%??? É isso mesmo???
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 09/01/2010 10:03
Estou perplexo com a decisão das escolas de samba do Grupo de Acesso de aumentar em 80% o preço dos ingressos para as frisas. Nenhum preço subiu tanto em um ano como este. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor - Amplo) registrou alta de 4,18% em todo o ano de 2009. O que pode explicar este aumento abusivo?
O argumento de que os preços eram baixos demais não procede. Muito menos o de que os ingressos não eram reajustados há muitos anos. Eles vêm sofrendo aumentos sim, menores, mas constantes. Acredito até que os preços pudessem ser majorados, mas nunca nestes termos. Não conheço do assunto, mas suponho que possa ser feita uma consulta aos órgãos de defesa do consumidor sobre a legitimidade deste aumento.
O Grupo de Acesso não tinha público até o início desta década. Os desfiles eram melancólicos pois eram realizados para frisas e arquibancadas vazias. Aos poucos, devido a uma série de fatores, a família carioca foi descobrindo ali uma boa alternativa ao Grupo Especial. Um carnaval mais barato e mais simples, sem deixar de lado a essência do samba. O desfile de sábado virou um ponto de encontro dos sambistas e de suas famílias. Quase todo mundo se conhecia, pelo menos de vista. O clima era dos melhores, uma grande confraternização. E a casa começou a encher.
Isso tende a acabar. Mais uma vez o "olho grande" dos dirigentes não se preocupa com nada a não ser com seu caixa. Esta medida não só afasta o carioca e o sambista da avenida como também quebra uma corrente positiva que ajudava este grupo a crescer. Talvez a intenção seja esta - trocar este público pelos turistas, o que seria uma covardia e uma tremenda falta de inteligência.
A ganância pode se transformar num tiro no próprio pé. Ninguém sabe como os compradores reagirão a estes preços. Nem se haverá outro tipo de consumidor interessado (turistas). A tendência inicial é uma corrida atrás das arquibancadas (ainda baratinhas) e o esvaziamento das frisas. Se isso ocorrer a arrecadação cairá.
Torço para que este não seja o ponto de partida para a derrocada do desfile de sábado, que vinha crescendo e ganhando credibilidade lentamente, até o carnaval de 2008.
Cabem aqui algumas perguntas que cada de um de nós - principalmente os dirigentes - devia se fazer regularmente: para que serve o carnaval? o que estamos fazendo? onde queremos chegar?
Luxo nunca foi um quesito esperado neste grupo. Ele nunca rivalizará com o Especial pois sempre será a "segunda divisão". Precisa encontrar seu próprio caminho para ser mais organizado e rentável. E não é impondo aumentos abusivos que isso irá acontecer.
Volta por cima do samba-enredo
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 06/01/2010 11:52
Tentei. Juro que tentei ver o "especial" que a Rede Globo fez com os sambas-enredo para o carnaval 2010. Imaginei que poderia ser um passo importante para, quem sabe, a abertura de mais espaço para as escolas de samba na linha de shows da emissora. Os mais novos não sabem, mas houve um dia em que as escolas participavam ativamente dos programas de auditório das televisões e os sambas de enredo tinham mais espaço nas emissoras de rádio. A esta altura da temporada não havia na cidade quem não soubesse cantar pelo menos os melhores sambas do ano. Quem tem mais de trinta há de lembrar disso.
A boa safra de 2010 - há, sem dúvida, alguns belíssimos sambas - me enche de esperanças sobre uma "volta por cima" do gênero. Mas isso depende também da mídia. Não adianta apenas ter bons sambas e uma excelente gravação como temos neste ano. A divulgação bem feita é essencial.
Final de ano é hora de encontrar familiares. Minha tia-avó, que durante muitos anos era a primeira da família a comprar o disco, me disse sábado que ainda não tinha ouvido nenhum samba-enredo para 2010. Uma prova de que o samba não sabe "fidelizar" seus consumidores. Indiquei a ela que visse o programa de TV citado no início do texto...
Fiquei até com vergonha de ligar para saber o que ela achou. Se eu mesmo não consegui ver o programa direito (cochilei a maior parte do tempo), imagina ela, uma senhora de idade. O negócio passou na alta madrugada, quando a audiência é baixíssima. E foi muito mal produzido. Não havia sequer a letra dos sambas para que o telespectador pudesse entender o que era cantado.
Não sei se houve direção musical: o andamento apresentado foi fora dos padrões e a mixagem dos microfones fez alguns cantores de apoio encobrir a voz dos respectivos intérpretes oficiais. Não houve cuidado algum com a produção ou interesse em trazer mais informações sobre o espetáculo.
E o pior é que tem muita gente comemorando. Este é o problema: o samba se apequenou. Nos contentamos com migalhas, quando temos potencial para muito mais. Falta visão dos dois lados. O produto é muito bom e pode ser mais bem explorado.
No rádio, por exemplo, a gravadora deu exclusividade a uma emissora (que não lidera audiência nem abre espaço em sua programação para o carnaval) e simplesmente não distribuiu o disco às demais. Quem toca é porque comprou o CD por conta própria nas lojas. Parece piada, não é? Mas é o profissionalismo mundo do samba.
"Para não dizer que não falei de flores", a Mangueira merece todos os aplausos pela iniciativa de produzir o seu próprio vídeo, com qualidade, e por encaixá-lo - aí sim - no horário nobre. Prova de que tem percepção do que representa no cenário cultural e de que tem vontade de buscar algo mais. O samba como um todo precisa entender esta mentalidade. Talvez esteja faltando uma direção de marketing à Liga.
Primeiros ensaios
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 24/12/2009 07:48
A primeira parte dos ensaios técnicos serve como uma espécie de "aquecimento" para o que vem por aí. Não é fácil arregimentar componentes que estejam com o samba afiado antes do Natal. Só mesmo as escolas que possuem comunidades extremamente ensaiadas. Apesar disso o que se viu neste mês de dezembro na Sapucaí foi uma prova de que as agremiações estão cada vez mais organizadas. Os primeiros ensaios da temporada foram muito superiores aos últimos de anos anteriores. E, com certeza, serão melhores quando janeiro chegar.
As escolas da LESGA superaram as dificuldades inerentes à falta de dinheiro e de motivação das comunidades e fizeram bonito, alcançando um nível próximo ao do Grupo Especial. Destaque para a estreante Unidos de Padre Miguel, que mostrou um grande e empolgadíssimo contingente. O Império Serrano também foi bem, mas este já tem rodagem neste tipo de evento. Cubango e Império da Tijuca não decepcionaram e mostraram organização.
Sei que ensaio não é desfile, mas é difícil deixar de estabelecer comparação entre as escolas. A Vila Isabel foi a mais "redonda": vibrante, compacta, alegre e com seu maravilhoso samba cantado no andamento correto. A bateria também se houve muito bem. Difícil encontrar problemas.
Gostei muito também da Beija-Flor e da Unidos da Tijuca. Cada uma com seu estilo. A azul e branco de Nilópolis mais densa, encorpada e escola do Borel mais empolgada com seu mar de bracinhos para um lado e para o outro. Achei que a Beija-Flor ainda está se acostumando às muitas coreografias de suas alas. Os componentes se preocupavam muito com a marcação do espaço e não cantavam com tanta liberdade e alegria. Na Tijuca me incomoda um pouco, além do vai e vem das mãos, o pouco espaço entre os componentes - quase amontados nas alas.
A bateria da Beija-Flor está diferente sim. Não muito, mas está. As marcações são mais pesadas e o andamento um pouco mais lento. As frigideiras perderam um pouco do espaço e as caixas aparecem um pouco mais. A qualidade continua muito boa.
A Mangueira teve a responsabilidade de abrir os ensaios num dia em que a cidade estava comemorando o final do campeonato brasileiro. O ensaio foi bom, mas ainda sem aquele clima. A verde e rosa está buscando união e pode voltar a brigar pelo título. Quem sabe?
A Mocidade precisa acertar os ponteiros entre seu samba e sua bateria. Apesar dos problemas apresentados, acho que Mestre Bereco está no caminho certo. Já o samba... ainda não me conquistou. E não é problema só dos cantores que precisam acertar o tom e o andamento. Por outro lado, os componentes da escola estão mordidos e cantaram com muita emoção. É a esperança de Padre Miguel.
Veja justificativas das notas de Eugênio Leal
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 01/12/2009 16:27
Salgueiro - 9,4 - Faltou inspiração tanto na letra quanto na melodia. Destaque apenas para o refrão final.
Beija-Flor - 10 - Melodia original, forte, contrastante. Letra descritiva com algumas belas passagens.
Portela - 9,5 - Refrão final ruim, sem criatividade. Excesso de uso da palavra Portela. Melodia previsível.
Vila Isabel - 10 - Diferente de tudo o que se faz atualmente e muito bem escrito em todos os sentidos. Uma aula.
Grande Rio - 9,3 - O encaixe da junção na cabeça do samba não ficou bom. Há uma quebra melódica e poética muito nítida. Refrão final apletivo para o lado comercial. letra confusa em algumas passagens.
Mangueira - 9,9 - Algumas mudanças na letra tiraram um pouco da beleza poética do samba e pouco acrescentaram na descrição do tema. Samba precisa de um andamento um pouco mais rápido.
Imperatriz - 10 - Maravilhoso. Consegue melhorar o enredo e dar a ele um tom antológico.
Viradouro - 9,8 - Bela letra e algumas boas passagens de melodia. Peca por algumas passagens que não ajudam o componente em desfile, com excesso de letra em tons difíceis de melodia.
Tijuca - 9,7 - A Gravação ficou muito boa, mas a letra sofre pela falta de assunto já que não se pode revelar o que acontecerá no desfile.Pode vir a ser funcional, mas tende a acabar junto com a apresentação da escola pela ausência de uma mensagem mais forte.
Porto da Pedra - 9,2 - Letra ruim, recorrendo a expressões pobres poeticamente. Melodia alegre, mas sem grande inovação.
Mocidade - 9,4 - Não consegue explicar o enredo, por mais que a letra tenha sido mexida. Vira uma simples exaltação à escola. Tem como méritos a força do refrão e a melodia animada da segunda parte.
União da Ilha - 9,8 - Samba simples, mas melodioso, de letra direta e envolvente. O único pecado é o encaixe da primeira parte para o refrão central. É claramente "trepado". Fora isso é muito bom.
Análise dos sambas do Grupo A
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 23/11/2009 17:21
Mais uma vez Leonardo Bessa produziu um álbum de excelente qualidade para o grupo de acesso. Um trabalho que vem há anos destacando as baterias das escolas com muita precisão. Mesmo sem grande estrutura, feito na base do amor, mais uma vez é um disco que dá prazer de ouvir - apesar da safra ser apenas mediana.
Como sou o chato de plantão, gostaria que o coral ficasse um pouco mais solto. Mesmo com a participação da comunidade ficou com cara de coral profissional e não ganhou destaque na mixagem da maioria das faixas. De resto, produção maravilhosa.
Pedi ao Alberto João para ficar de fora do júri deste grupo por questões pessoais. Este negócio de dar notas pode gerar interpretações erradas principalmente pelo fato de eu ser torcedor de uma das escolas participantes e de ter participado do processo de escolha de samba como compositor. Mas não vou fugir da responsabilidade de comentar os sambas - sem graduá-los.
Renascer de Jacarepaguá
A melodia é muito interessante, vigorosa e original, mas precisa de um andamento menos acelerado para ser valorizada. Já a letra, embora possua soluções poéticas até refinadas, peca em alguns pontos. O principal é a pouca objetividade na explicação do enredo. A história não está clara e fala sobre uma cidade imaginária cujo nome não é citado. A referência ao nome da escola no refrão parece solta, sem interligação com o restante dos versos.
Rocinha
Samba correto. Embora não possua um diferencial artístico, cumpre a função de descrever o enredo através de uma letra compreensível (apesar dos termos indígenas) e tem melodia fluente e de fácil assimilação.
São Clemente
A melodia, embora leve e valente, é extremamente simples - sem qualquer inovação ou momento de maior destaque. A letra é confusa e sem grande inspiração. Começa elogiando a cidade, mas depois fala que o "caos" é geral. Sai de um trecho que relembra os antigos carnavais e entra nos problemas urbanos como se eles fossem relativos à folia. Cita "O samba sambou" como um aviso, quando o título prova que era uma constatação. Não diz que o Rei Momo é quem lidera o movimento de "choque de ordem".
Estácio
Samba encorpado com um bom refrão central e trechos melódicos interessantes. A letra é descritiva e conta o enredo sem atropelos, mas não incorpora o espírito de malandro, previsto na sinopse, em seu linguajar. A melodia tem algumas passagens previsíveis e repetitivas.
Santa Cruz
O enredo simples facilitou a criação de um samba leve, alegre e bonito. A letra, embora curta, conta a história e é recheada de emoção, com destaque para os versos que fazem referência aos sambistas da escola que morreram no último ano: "Nossas estrelas no céu estão a bailar, nos passos do compasso a nos guiar". Muito bonito!
O único senão são alguns pequenos trechos de melodia reaproveitados
Tuiuti
Destaque total para o refrão central romântico, tocante, original. A letra é correta e descreve o enredo com clareza. Escorrega apenas na melodia do refrão final que é truncada, impedindo o samba de "acontecer".
Império da Tijuca
Um dos melhores do grupo. Melodia valente, fluente e original. Letra inteligente, contando o enredo com propriedade e emoção. Refrão final fortíssimo. O andamento pode ser um pouco mais lento para valorizar a beleza da obra.
Inocentes de Belford Roxo
Destaque para a melodia sinuosa e envolvente. Dois refrões fortes e bonitos. A letra é simples e direta, mas carece de um pouco mais de sentido no final da segunda parte quando fala apenas sobre a localização geográfica do torcedor da escola sem agregar valor ao enredo.
Caprichosos
Um clássico delicioso. Difícil estabelecer julgamento. Peca por estar "desatualizado" no contexto histórico.
Império Serrano
Gravação muito valorizada pela bateria. Samba valente demais, com pegada muito forte e um lindíssimo refrão central (o trecho mais bonito de toda a safra). Deve proporcionar um belo desfile em termos de harmonia e evolução.
Mas há também alguns escorregões. "A diversidade" virou "adversidade". A "primeira cidade" deveria ser "a primeira da cidade". Na segunda parte há o uso de um "calço" de letra para sustentar a melodia: "Ah! e nas ruas..." comprovando que faltou uma palavra para encaixar na música. Há ainda a listagem de ambulantes e camelôs como figuras distintas, quando na verdade são a mesma coisa.
Unidos de Padre Miguel
A gravação não ficou legal. Baixaram o tom demais, tirando um pouco do brilho do excelente refrão principal que á melhor parte da obra. A letra, descritiva, é apenas correta, assim como o restante da melodia. Faltou ousadia.
Cubango
Samba alegre e valente, tem sacadas inteligentes na letra, mas algumas delas são de interpretação complicada para quem não leu a sinopse. Há alguns trechos musicais reciclados o que tira um pouco da originalidade da criação artística.
Polêmica desnecessária
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 03/11/2009 13:03
Fiquei muito triste com a polêmica entre os cantores de samba-enredo. Acho que este tipo de coisa não leva a lugar nenhum. Ninguém sai ganhando, pelo contrário: todo mundo sai com a imagem um pouco arranhada.
O Nêgo é um grande intérprete que está sem escola. Tive a oportunidade de conhecê-lo um pouco melhor durante as eliminatórias da São Clemente, quando ele defendeu o meu samba. É uma figura doce e humilde. Precisa de um emprego como todos nós. E o emprego dele é cantar samba-enredo. Ele vive disso e a voz dele faz falta ao carnaval.
O Wantuir é outro grande intérprete que também faria falta ao carnaval se estivesse na situação do Nêgo. Graças a Deus está empregado e bem empregado. Acho que se precipitou ao reclamar publicamente do colega da forma como fez. Soou tão anti-ético quanto a "cavada" que ele acusa Nêgo de ter feito. Wantuir canta muito, é uma excelente figura, e não precisa disso para garantir seu emprego. Assim como os demais, que fizeram coro com ele.
Nêgo está buscando um espaço, lógico. Assim como qualquer outro faria em qualquer segmento da sociedade. No futebol essas acusações acontecem todo dia. Mas nenhum dirigente das escolas citadas disse que ele usou de artifícios baixos para "derrubar" outro cantor. E só os dirigentes sabem realmente o que acontece.
Por isso, acho que teria sido melhor que este tipo de episódio não ganhasse tal proporção. Essas coisas devem ser resolvidas internamente, na base da conversa sincera. Não na mídia. Afinal, os intérpretes são personagens públicos e representam suas agremiações.
Balanço das finais
Terminou a segunda etapa do carnaval 2010. Os hinos que as agremiações cantarão na avenida estão definidos. Como sempre acontece teve escola que escolheu certo e escola que errou. Acertou quem escolheu o melhor samba e errou quem quis usar o quesito como força de manobra para atender a outros interesses. Lamentavelmente isso ainda acontece.
Não é possível fazer uma análise da safra antes de ouvir como ficaram as versões definitivas das obras. Muita coisa muda com os ajustes de letra e melodia e as interpretações dos cantores "oficiais". Vamos esperar mais um pouco. Dá pra dizer apenas que tem tudo para ser a melhor "colheita" dos últimos anos.
Apenas três escolas do Grupo Especial repetiram os compositores do ano passado: Portela, Grande Rio (fusão) e Ilha (fusão). Nos casos de junção de samba as parcerias de 2009 entraram com os menores pedaços no samba definitivo.
Isso significa uma grande e bem-vinda renovação que oxigena a musicalidade da festa. Há compositores que pela primeira vez terão sambas seus cantados na avenida, como o pessoal que ganhou na Mangueira, na Mocidade e no Porto da Pedra.
Entre os cantores, Nêgo cantou dois vencedores e um que entrou na fusão, seguido de perto por Luizinho Andanças e Wantuir que cantaram dois campeões cada. Foram os nomes com mais destaque nas quadras este ano.
No acesso quase todos os vencedores são "tarimbados". Temos nomes fortes que não assinam obras vencedoras no especial, como Gusttavo Clarão que volta à sua escola de origem (Estácio) e Claudio Russo que retornou á Renascer. Além deles vale destacar o peso de nomes como Márcio André e Djalma Falcão que venceram na Império da Tijuca, Fernando de Lima que mais uma vez assina o samba da Santa Cruz, e a turma de Diego Nicolau na Cubango. Nomes novos apenas na Inocentes e na São Clemente.
Neste grupo Luizinho Andanças gravou mais dois campeões se tornando na voz mais vitoriosa somando-se os dois grupos. Zé Paulo e Gonzaguinha também defenderam dois campeões cada.
Agora é aguardar as gravações oficiais, que prometem muito, e curtir o carnaval de 2010.
Análise dos sambas da Mocidade
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 18/10/2009 22:24
A Mocidade esteve no purgatório no último carnaval. Salvou-se por pouco do rebaixamento. Com a volta de Cid Carvalho, tenta agora se reerguer. O bom enredo, que lembra os temas de Fernando Pinto nos anos oitenta pela liberdade criativa e irreverência, não encontrou a sustentação necessária na safra de sambas.
Os bons compositores da escola não conseguiram mesclar o estilo clássico que a agremiação vinha mostrando nos últimos anos com a crítica proposta neste tema. Alguns bons sambas (aparentemente os melhores) ficaram pelo caminho provavelmente por não terem buscado o tom satírico da segunda parte do enredo. Quem procurou este caminho também não foi tão feliz no uso das expressões. Não é fácil dosar a irreverência num samba-enredo.
Jefinho Rodrigues, Marquinho Índio, Domenil & Marcelo do Rap
Com base da parceria campeã no ano passado, os autores deste samba não apostaram na irreverência (assim como as parcerias de Dico da Viola e Igor Leal). É um samba, entretanto, mais leve do que os que ficaram pelo caminho. Conta o enredo sem brilho, mas com correção, e tem melodia original. O refrão alegre pode emplacar e dá a condição de favorita à obra.
Antônio da Conceição, Marcelo Buda e Marinho
É um samba de melodia muito trabalhada e refinada, mas com cara e jeito de Beija-Flor. A letra, clássica, também não captou a jocosidade do enredo.
J. Giovanni, Zé Glória e Hugo Reis
Foi a parceria que tentou de forma mais clara tratar o tema com irreverência. Não acertou a mão, entretanto. A letra não ajuda a entender o enredo nem seu desenvolvimento e recorre a um vocabulário pouco expressivo. A melodia é correta, mas sem brilho.
Análise dos sambas da União da Ilha
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 18/10/2009 21:24
De volta ao especial a tricolor insulana teve também o retorno de uma boa safra de sambas de enredo. Seis sambas chegam à decisão e cada um tem suas qualidades. O enredo é fácil e permitiu interpretações variadas e poéticas.
Gugu das Candongas, Marquinhos do Banjo, Barbosão, Ito Melodia e Léo da Ilha
É o que tem mais "cara de Ilha". Possui melodia alegre e letra simples, contando o enredo de maneira descontraída e emotiva ao mesmo tempo. É todo bem construído e faz lembrar a Ilha de outrora.
Grassano, Gabriel Fraga, Márcio André Filho, João Bosco e Arlindo Neto
O refrão final, muito bonito, é o ponto alto da obra. Tem melodia um pouco mais trabalhada sem fugir, entretanto, do espírito insulano de sambas mais alegres. Outro ponto a se destacar é o grito de "Ilha" no refrão central.
Almir da Ilha, Milton Tubarão, Dudu, André Malheiros e Carlos Eduardo
Recorre a expressões muito usadas nos sambas do saudoso Franco, compositor que marcou uma época na escola: "vou que vou", "tô aí", "vem amor", etc. Não tem, por outro lado, a característica melódica de Franco que era marcada por uma ginga muito característica dele. Se os autores não buscassem esta identificação e mantivessem em todo o samba a qualidade poética demonstrada em algumas passagens teriam feito uma obra mais coerente. O resultado híbrido ficou pouco convincente.
Raphael Ilha, David Lima, Cesinha, Thiago Rocha e Pablo Lima
Cresce muito a partir da segunda parte e explode num refrão final fácil e cheio de sentimento. Não é um samba inovador, mas tem belas passagens. Informações dão conta de que tem conquistado a comunidade e isso pode ser um diferencial na hora da decisão.
Walkir, C.Gaspar, Jefferson Martin, Marquinho Simpatia e Carlinhos do Sete
Possui um tom mais romântico do que alegre, sem seguir a característica da agremiação. Isso não tira dele a qualidade artística. É um samba original, sensível e muito bem acabado.
Ronald, Beto Mascarenhas, Jorginho, Marinho e Jaú
Análise prejudicada pela gravação. Quinho parace não acertar todas as notas e isso dificulta a compreensão da melodia. Samba de versos curtos onde a proposta melódica parece privilegiar um andamento mais "swingado", com a Ilha sabe fazer. Tem um refrão final interessante mas não se nivela aos favoritos.
Análise dos sambas da Unidos da Tijuca
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 17/10/2009 21:35
Sem segredos
Pelo menos em sua disputa de samba a Unidos da Tijuca não tem segredo: os três finalistas têm condição de representar a escola na avenida. Basta escolher o estilo que a agremiação pretende cantar na pista. Não há obras primas na final, mas sambas que mantém o nível dos últimos carnavais tijucanos.
É um bom tema e deve gerar um desfile interessante, mas dificulta o trabalho do compositor que não pode revelar o que estará sendo mostrado na avenida. A maioria entendeu a necessidade de complementar uma informação visual que será revelada no carnaval. Isso limitou bastante a criatividade dos poetas e gerou letras bem parecidas.
Henrique Badá,Serginho Machado, Leco da Alerj e Marquinho Marino
É o mais animado dos finalistas e tem neste fato sua principal virtude. Propõe um desfile mais vibrante. Tem boas idéias na letra que não são mantidas em toda a extensão da obra.
Julio Alves, Marcelo e Totonho
É a letra mais trabalhada da final e busca sair do lugar comum que o enredo impõe. A melodia é mais pesada, sem tanta "pegada", mas bonita.
Beto Savanna, Daniel D´almeida, Telmo Augusto e André Kbça
Aqui o destaque é a melodia sinuosa que não deixa o samba enjoar em momento algum, sempre saindo para uma solução diferente. Falta, entretanto, maior "explosão" nos refrões. A letra é apenas um complemento correto.
Análise dos sambas da Grande Rio e da Viradouro
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 17/10/2009 11:13
Iluminada Viradouro
Sempre digo que um bom enredo é meio caminho andado para um bom samba. Continuo acreditando que a Viradouro tem tudo para fazer um belo desfile em 2010. O enredo tem cor, tem história, tem beleza. E os sambas seguem este nível. Qualquer uma das quatro obras finalistas pode ir para a avenida sem susto. Eles têm estilos diferentes, mas todos retratam muito bem o enredo.
Floriano, Gustavo da Marbela e Sacadura Cabral
Destaque total para a letra, que é muito bem construída e que conta o enredo com inteligência e beleza. Há algumas tiradas muito interessantes e emoção na dose certa. A melodia também é muito boa e acompanha a poesia com densidade e boas variações. O refrão final é excelente.
Gilberto Gomes, J. Lambreta, P.C. Portugal, Tamiro, Evaldo e Vanderlei Sena
Aqui o ponto forte é a melodia sinuosa que caracteriza compositores como Gilberto Gomes e PC Portugal desde a época em que eles ganhavam todo ano junto com Gusttavo e Dadinho. Como foram muitas vitórias este tipo de samba se identifica muito com a escola. É leve e alegre, com pegada. A letra, mais econômica, é menos descritiva que a anterior para se encaixar com mais facilidade aos desenhos musicais, mas cumpre seu papel.
Heraldo Faria, Flavinho Machado, Edu Velocci, Renan Gêmeo, Rodrigo e Fernando Johara
Este lindo samba possui um tom romântico muito bonito. Tem melodia refinada, original e muito gostosa. A letra privilegia os principais artistas mexicanos, ao contrário dos concorrentes. O refrão final é belíssimo com muita emoção.
José Antônio, Julio Louzada e Washington Motta
Samba alegre e vibrante, com rimas fáceis e melodia valente. Dá grande destaque á passagem do saque à esquadra espanhola, o que não acontece com os demais.
Carnaval caxiense
A Grande Rio pretende mudar a "cara" neste carnaval. Quer um desfile mais solto, mais leve, mais alegre: que mexa com o público. Para isso, além de uma bateria mais ousada e de fantasias mais leves, aposta num enredo que toque o coração do sambista. Para alcançar este objetivo precisa de um samba empolgante.
O que é um samba empolgante? Esta é a questão. Um samba pode empolgar pela emoção ou simplesmente pela alegria. O resultado nos dirá o futuro do carnaval da escola.
G.Martins, Barbeirinho, Levi Dutra, Chico da Vila, Isaac, Juarez Pantoja
O refrão é belíssimo. Diferente, toca o coração do componente. Aliás, o samba, todo escrito em primeira pessoa, destila emoção a cada verso. Há passagens muito interessantes, porém, em alguns pontos há dificuldade de transição poética entre os segmentos do enredo. A letra, que procura contemplar toda a extensa sinopse, poderia ser mais enxuta. Vale a pena curtir a interpretação de Nego, cheia de vigor e sem gracinhas. Ele canta. E muito.
Marcio das Camisas, Mariano Araújo, Sylvinho, Melo, Foca e Barbosa Jr.
Em contraponto ao samba acima, este tem letra mais "redonda", sem arestas a serem aparadas. A poesia procura resumir o enredo com figuras de linguagem e citações criativas, mas não consegue alcançar a mesma emoção. A melodia obedece ao padrão atual, sem grande criatividade.
Mingau, Arlindro Cruz, Da Lua, Rafael Ribeiro, Carlos Senna e Emerson Dias
Letra e melodia superficiais. Tudo muito certinho, redondinho, mas sem ousadia e criatividade. O refrão final parece ter sido feito para virar comercial da patrocinadora na televisão. Não emociona.
Marcio Paiva, Elias Bililico, Regis, Gegê, JL Monteiro e Riquinho
De todos os finalistas este é o mais encorpado em sua melodia. A letra busca uma interpretação diferente e única. O refrão final é forte, mas a palavra "Brahmeiro" é por demais apelativa.
Análise da Renascer e Santa Cruz
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 15/10/2009 18:51
No embalo das águas
Eu não gostaria de maneira nenhuma de estar na pele do presidente da renascer de Jacarepaguá, Salomão, na próxima sexta-feira. Ele terá de fazer uma escolha muito difícil. Tem três sambas niveladíssimos, cada um com suas qualidades. Parece fácil escolher assim, com obras de boa qualidade. É melhor do que quando se tem sambas fracos, claro. Mas a dúvida deve ser enorme. Boa sorte à escola.
Cláudio Russo, Adriano Cesário, Tinga, Fábio Costa e Beto Lima
Samba fortíssimo. Tem melodia original e vigorosa, com destaque para o diferenciado refrão central e as partes internas (primeira e segunda) construídas de maneira refinada.
A letra é inteligente e, com vocabulário diferenciado, passa pelos setores de desfile com beleza. Entretanto, não ajuda a explicar as idéias do enredo que são muitas e pouco comuns. Faltou traduzir a mensagem para o público leigo.
Moises Santigo, Jayme Cesar, Branco, Isaias Anatur e Di Bamba
Uma leitura mais atenta desta letra explica o que eu quis dizer quanto ao samba anterior. Aqui você entende a história passo a passo. Poesia simples, direta e clara. E com melodia alegre, fluente e cheia de ginga. Não me agrada o refrão final que recorre a uma fórmula já batida de resposta quebrando a originalidade presente no resto da obra.
Gabriel da Penha, Leandro Nogueira, Luiz Gustavo, Deco e Igor do Cavaco
Outra bela obra da garotada que fez o melhor samba do acesso em 2009. É um samba redondo, sem arestas a serem aparadas. Conta o enredo com clareza e imaginação (há algumas belas sacadas de letra). A melodia é boa, mas não está no mesmo nível da poesia.
Bailando em Santa Cruz
Dois sambas brigam pela condição de representar a escola da Zona Oeste. A turma que venceu ano passado e o pessoal do Fernando de Lima, que ganhou durante todo o resto da década. Os demais não chegam a incomodar.
Doutor, Ditão, Bolão, Macumbinha e Fernando de Lima
Tem mais que assinatura, o DNA de Fernando de Lima. Melodia alegre e leve. Letra simples e eficiente. Apesar de algumas frases melódicas "recicladas", desta vez o multi-campeão criou coisas novas e muito interessantes. É um samba muito gostoso de ouvir e cantar.
A letra, curtinha, tem seu grande mérito na homenagem que faz às personalidades da escola que faleceram recentemente: "nossas estrelas no céu estão a bailar/nos passos do compasso a nos guiar". Solução emotiva, singela e inteligente no encaixe ao enredo.
Marcelo Borboleta, Charuto, Marcelo 18, Isaías e Julinho Goleiro
O legal deste samba é a busca por soluções diferentes. Não exatamente novas, mas diferentes da média que se apresenta no carnaval hoje em dia. São exemplos disso o "ôôô" do refrão final, e o bis nos versos que antecedem o refrão central. Pelo menos para quem está analisando uma sequência inesgotável de finalistas é muito bom algo que sai do padrão.
É um samba que alterna emoção com animação. Tem bom casamento de letra com melodia e mexe com a gente quando fala da composição de um samba-enredo.
Ferreira21, Zieco Santa Cruz, Tim Amendoeira, Vitor Delegado e Ronye do Banjo
Samba correto, apenas. Não há novidades melódicas nem grande inspiração poética. Conta o enredo com simplicidade e melodia repetitiva.
Paulinho Faleiro, Naldo da Nova, Carlinhos Moleque, Edinho Santa Cruz e Adilson Corte
Completa a final. "Are baba".
Portela digital
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 14/10/2009 00:58
Já escrevi por aqui que não sou fã deste enredo portelense. Acho uma propaganda política muito escancarada que mistura a Águia "Backbone" com um clássico de Candeia (deve estar furioso) para exaltar um Rio de "Paz" que na verdade é de "Paes".
Coube aos excelentes compositores da escola (muitos deles nomes de sucesso fora do carnaval) a tarefa de transformar isto em poesia. Não é fácil. Nada fácil. É como tirar leite de pedra. Por mais talentosos que eles sejam, não conseguiram produzir um samba que se destaque ou que possa entrar para a galeria da escola. Há boas passagens melódicas, como sempre, e alguma inspiração poética. Falta "conexão" do tema com a personalidade da escola.
Uma coisa une quase todos os concorrentes: o uso excessivo do nome da escola. Ele está em toda parte, na tentativa de sustentar a motivação do componente.
Ciraninho, Rafael dos Santos, Diogo Nogueira, Naldo e Jr Scafura
A letra forças algumas barras. Fala, por exemplo, que "o dia de graça que o mestre cantou já raiou...". Falta muito para isso...muito. Há expressões como "amor digital" e outras soluções duvidosas.
A melodia é bem melhor, embora alguns trechos da segunda parte sejam por demais leves e inocentes, previsíveis.
O refrão final começa bem e atinge seu auge com o "viajar". Mas depois se perde com versos pouco inspirados.
Portela - 3 vezes.
Serginho Procópio, Celso Lopes, Bandeira Brasil, Charles André, João Carlos Filho
Tem letra mais poética e menos panfletária, contando com serenidade e beleza o enredo. Melodia refinada e bem encadeada, à exceção da passagem da segunda parte para o refrão principal. Há uma quebra muito estranha. O refrão não dá sequência à linha melódica que o antecede. A palavra Portela aparece nestes dois versos seguidos desnecessariamente.
O primeiro verso do refrão central parece o jingle da emissora de TV que transmite a festa.
Portela - 2 vezes
Ary do Cavaco, Ari Jorge, Paulinho Rocha, Felipe Carvalho e Walter Alverca
Um samba "redondo", mas sem grande brilho. Tem um refrão forte, mas que fala em "dar um link no coração". De resto é fluente, mas sem grande inspiração poética, com letra apenas correta.
Portela - 2 vezes
Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo e Carlos Ortiz
É o samba mais "valente" dentre os finalistas. A melodia tem beleza e vigor, chamando o componente para o canto e a evolução. A letra é correta e traduz com bastante competência a mensagem do enredo. Destaque para os refrões: ambos muito fortes. Também usa "Portela" em versos muito próximos.
Portela - 2 vezes
Neizinho do Cavaco, Flávio Viana, Sdinei Good e Vinícius Ferreira
Talvez a surpresa da final, pelo nome dos compositores. É um samba bem construído com melodia agradável e letra correta. Usa a expressão "on line" no refrão central. É um ousadia que, a mim, não agrada. De resto cumpre bem o seu papel.
Portela - 2 vezes
Análise dos sambas finalistas do Império da Tijuca, Inocentes e Tuiuti
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 11/10/2009 16:07
Cheia de "Jinga"
Não é novidade que enredo afro costuma dar bom samba. A Império da Tijuca, portanto, com seu enredo sobre a Rainha Jinga e uma boa ala de compositores, está tranqüila neste quesito. Já eliminou algumas boas obras. E tem outras excelentes para sua grande final. É, inclusive, séria candidata a ter o melhor samba do grupo.
Guilherme Sá, Alípio Carmo, Noronha, Zé Paulo e Augusto JR
Costurado por uma melodia sensível, refinada e leve este concorrente traz uma intensa carga de "africanidade". Pode ser uma sensação pessoal - deixo claro que este sentimento é muito subjetivo - mas este samba me dá uma sensação muito forte de identificação musical com o tema.
A letra tem boas tiradas e conta o enredo com propriedade, embora não seja o ponto alto do samba. Os dois refrões são excelentes !
Marcio André, Djalma Falcão, Ito Melodia, Grassano e J. Carlos
Com as assinaturas acima o samba não poderia ser ruim. É a verdadeira "união" da Ilha. Tem compositores que estão disputando cabeça a cabeça na escola insulana e que se encontram juntos neste belo samba. Além dos hoje dirigentes da tricolor que já ganharam muitos carnavais por lá.
O samba tem como grande mérito a fluência melódica. A obra flui com uma grande facilidade de canto e evolução. O refrão final, fortíssimo, chama atenção pela força harmônica. Destaque também para a segunda parte, muito bonita.
Thiago Lepletier, Vinicius Ferreira, Freddy Ferreira, Dida Ferreira, Renato Buarque e Macaco Branco
Este samba tem uma força incrível e uma vibração intensa. Fruto de sua melodia valente e original. A letra, muito bem trabalhada, se encaixa perfeitamente ao estilo guerreiro da música. Refrões fortíssimos e cheios de sentimento. Arrepia.
Paulo César, Henrique Badá e André Barradão
A letra descritiva e poética é perfeita. Traduz os fortes sentimentos de revolta, esperança e vitória contidos no enredo - na medida certa. A melodia não tem tantas variações nem inovações, mas serve de acompanhamento perfeito para a letra, ajudando a valorizá-la.
Bola e Rui Só
A letra, quase didática, explica o enredo como nenhuma outra. Este é o ponto forte da obra. A melodia cresce na segunda parte do samba e explode no refrão final após uma primeira apenas correta.
Romantismo no Paraíso
O enredo sobre Eneida de Morais tocou o coração dos compositores do Tuiuti. Inspirados pela história do Pierrot, Colombina e Arlequim eles criaram obras sensíveis e bem interessantes.
Rodrigo Raposa, James Bernardes, Junior Santana, Leandro Kfé e Thiago Meiners
A gravação deste samba dá a impressão de que ele pode e deve ser muito melhor na quadra. Há passagens melódicas que devem ter outro efeito com um cantor mais firme. Tem um belíssimo refrão e várias viradas melódicas interessantes. A letra é romântica e transmite poesia.
Aníbal, Jr. Fionda, Luis Caxias, Marcio de Campos Novos, Reza e Cei
Só não gosto do refrão final que me parece sem a mesma inspiração dos outros trechos. De resto, o samba é perfeito. Bonito, poético, com melodia envolvente. O que dizer da sensibilidade do refrão central? O cantor (Zé Paulo) ajuda, mas o samba é muito bom.
D. Zezé, Jurandir, Erik, Tico da Mikinha e Marcelo Terreirão
Samba cadenciado, traduz um sentimento nostálgico que está presente necessariamente num enredo sobre Eneida. Tem passagens muito bonitas na parte musical. A letra é descritiva, com detalhes da vida da homenageada.
Waltinho, Beto Tatá, Bahia, Luiz Pinheiro, Maurício Mariano e Catimba do Tuiuti
Destoa no grupo por não possuir o mesmo refinamento melódico e poético. Carece de criatividade e poesia.
Inocentes de Belford Roxo
A escola da baixada tem uma final equilibradíssima. Dois bons sambas disputam, cabeça a cabeça, a honra de representar a agremiação na avenida. Ambos têm qualidades parecidas. Eu não gostaria de estar no lugar dos responsáveis pela escolha. Cada detalhe acaba pesando na hora da decisão.
Billy Conty, Licinho Jr, Marcelinho Santos, Edispuma e Robson Moratelli
Samba valente, bom para a harmonia do canto. Possui letra correta, transmitindo a mensagem do enredo com objetividade. A Melodia é criativa e fluente, com uma bela passagem na primeira parte. Destaque para o refrão final: consciente e educativo.
Jair PQD, Zé Carlos, Peniche, Gilmar e Estevão
A musicalidade diferenciada desta obra é a base para um samba original e alegre. Com certeza mexe mais com o componente do que o anterior. Os refrões são bonitos, empolgantes e não recorrem a fórmulas melódicas conhecidas.
A letra tem alguns escorregões como a falta de espaço para o "s" de Inocentes na abertura e o desencontro no refrão central: "Rodas...faz mover". Problemas, entretanto, de fácil correção.
Surpresa em Padre Miguel
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 09/10/2009 11:20
Confesso que o enredo sobre o aço me surpreendeu. A sinopse dá margem a um belo desfile, com imagens fortes e grandiosas. Os sambas estão nivelados, mas possuem características diferentes. Resta saber o que a diretoria espera do quesito.
Andrezinho, Carlos Junior, Eli Penteado e Marquinho Sorriso
O refrão principal é fortíssimo. Muito valente mesmo, daqueles que podem mexer com o público. De resto, mescla momentos confusos (abertura do samba) com outros apenas corretos, mas sem grande inspiração.
Diego Rodrigues, Tuninho do Trailler, Guará, Gulle, Baiano, Fernando Macinho e Tustão
É o samba mais "valente" de toda a safra. Tem melodia fluente e alegre, do tipo que "empurra" o componente. A letra descreve o enredo sem grande riqueza, mas com muita objetividade, privilegiando o encaixe à melodia.
Hélio PQD, Tom Tom, Adilson China, Carlinhos Detran
É o samba mais completo da disputa: consegue traduzir com clareza e poesia o trecho inicial do enredo, passagem mais difícil para os compositores devido à sua complexidade e quantidade de informações. Fala também dos demais segmentos do desfile com propriedade. A melodia é mais cadenciada e trabalhada. É densa, criativa e fluente.
Marquinho Marino, Cimazinho, Cabeça do Ajax e Gabriel Azevedo
Melodia agradável, construída com beleza e inspiração. Letra com altos e baixos, buscando levantar o astral da escola. Não é o mais completo, nem o mais animado. O mais emotivo, com certeza.
Imperatriz: Inspiração divinal
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 07/10/2009 19:29
A ala de compositores da Imperatriz é realmente uma das mais talentosas e equilibradas do carnaval. Digo isso todo ano, apesar de nem sempre concordar com as escolhas da direção da escola. Para 2010, entretanto, os caras exageraram. Dos inscritos uns quatro sambas, pelo menos, excelentes! Do tipo que entra na briga para disputar os principais prêmios do carnaval. Estranhamente dois deles já foram cortados (devem saber o que estão fazendo). Nada como um enredo sem patrocínio! E parabéns aos poetas, inspirados pelos Deuses!!!
06 - Zé Katimba, Armenio Poesia, Fredy Vianna, Mauricio Paiva e Inácio Rios
Samba que marca a volta de um dos maiores nomes da ala (Zé Catimba). Aliado à turma de São Paulo (que vem fazendo bonito nos últimos anos), o veterano renovou o estilo de compor e colocou seu talento a serviço de uma obra moderna, vigorosa e muito inteligente.
Destaque para a maravilhosa segunda parte: com melodia inspirada e letra muito poética, descreve o enredo com rara beleza.
16 - Leandro Thomaz, Clebinho da Imperatriz, Ronaldo Faria, Neto e Edu da Penha
Talvez a grande surpresa da safra. Bela e agradável surpresa. Destaque para a melodia. Diferente, ela consegue conjugar momentos mais cadenciados com trechos alegres como o refrão central. A cada verso há um caminho musical bonito e inesperado. Tipo do samba que não dá pra não cantar. A letra não atinge o mesmo nível, mas também não compromete.
31 - Amaurizão, Frank, Edson Cruz, Iuri e Luquinha Conceição
A segunda parte é inspiradíssima e levanta o resto do samba, que é apenas mediano. A parte que diz "Faz refletir na alma, tocar o coração...a fé que me acalma é devoção" é muito bonita.
Gosto muito do Wander Pires, mas não quando ele resolve exagerar neste tipo de interpretação melosa. E mais: alguém tem que avisá-lo que a pronúncia da letra "z" está muito estranha - pelo menos na gravação: ele canta "fasss", "Imperatrissss", "Felissss". Por favor!!!
32 - Jeferson Lima, Flavinho, Gil Branco, Me Leva e Guga
O que dizer? Acertaram em cheio em tudo. Encontraram o tom poético certo para falar do tema e uma melodia que se casa com a letra de forma rara. É o tipo de inspiração que não vem sempre. É um samba todo bonito, sem uma vírgula a se reparar e sem um trecho que se destaque mais do que os outros porque tudo é muito bom.
Alegra. Emociona. Toca o coração. Consegue se destacar em uma safra de altíssimo nível.
37 - Di Andrade, Aldir Senna, Joca, Claudia Brasil e Bira Da Globo
Mais uma bela obra! Refrão central excelente, com força melódica e suingue. Destaque também para a cabeça "valente" do samba. A letra também é muito bem escrita.
38 - Carlinhos China, Brandãozinho, Felipe Dias Black, Fernando Vasconcelos e Eduardo Pau Queimado
Destoa na safra. Samba mediano, sem maior inspiração. Letra e melodia apenas corretas, com alguns trechos infantis.
Estácio, velho Estácio!
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 06/10/2009 00:45
Como é bonito ver uma escola cantar sua história! E a Estácio tem história pra contar. O enredo foi muito bem escrito, em primeira pessoa, cheio de ginga e malandragem. Nem todo mundo captou este ponto de vista na hora de compor. De qualquer forma, todos os que continuam na disputa têm seus méritos. É uma safra bem interessante.
1 - Magrão, Betinho Santana, Luis Fernando, Sylvio, Silvano
A sagaz poesia da rapaziada estaciana conseguiu resumir o extenso enredo com um toque interessante de malandragem. A letra se destaca por conseguir encadear as idéias e fazer o tema compreensível. A melodia, entretanto, não é do mesmo nível. Excessivamente "apertada" fica corrida demais e dificulta o canto. Falta, também, um trecho mais emotivo o que é fundamental num tema como esse.
2 - Ricardo Mendes, Jacy Inspiração, Claudinho do Cavaco, Romário, Armando Alves
Destaque para o belo refrão central: Romântico, melódico, original. A letra não entra no detalhamento do concorrente acima e procura caminhos mais interpretativos, mas sem grande inspiração. A melodia, cadenciada, tem boas passagens.
3 - Gusttavo Clarão, Thiago Daniel, Da Latinha, Igor, Claudinho Vagareza
Tem na sinuosa construção melódica seu ponto forte. É um samba todo "conectado" musicalmente, fluente e de fácil assimilação. Gostoso de ouvir, mas sem grandes inovações. O melhor trecho é o delicioso refrão central.
A letra segue o modelo atual e vai "jogando" os setores do enredo sem se preocupar com a interligação entre eles. Cita literalmente trechos de sambas antigos, o que costuma mexer com a emoção do componente. Tem cara de samba vencedor por seguir mais de perto do que os demais os padrões estéticos do momento.
4 - Alexandre Naval, Rildo Guedes, Magú, Bacalhau, Baú
A "cabeça" do samba é linda! Um casamento maravilhoso dos versos com os desenhos musicais. O que a letra diz, a melodia expressa. É difícil alcançar este feito com tanta precisão.
É o samba que melhor captou o fato de o enredo estar sendo contado sob o ponto de vista de um malandro da localidade, que vai costurando os diferentes momentos da história.
Pena que esta qualidade não esteja presente em todo o samba. O refrão central e a segunda parte estão um pouco abaixo do refrão principal e da "primeira", embora não sejam ruins. Se fossem do mesmo nível, entraria como grande favorito na final.
A libertação do samba-enredo
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 04/10/2009 17:11
Meu editor Alberto João me pede para escrever sobre a vitória de Martinho. Já disse há algumas semanas que o samba é maravilhoso. Martinho disse que fez um samba pra emocionar e não para "empolgar". Esta é a maior vitória deste samba. Este sistema viciado de disputas costuma privilegiar o samba que "passa bem" na quadra. Passar bem quer dizer "animar" a torcida normalmente comprada. Não se leva em consideração o refinamento poético ou a criatividade melódica. As pessoas olham que samba é cantado mais alto e leva maior número de bandeiras.
Espero com sinceridade que este lindo samba de Martinho ajude a abrir os olhos dos nossos dirigentes que tantas e tantas vezes erram na escolha de seus hinos. Espero, do fundo do coração, que ele prove na avenida que ainda é possível desfilar com um samba diferente, original e refinado. Escola de samba não é "pula-pula" nem coreografia. Escola de samba precisa de emoção. E isso só os sambas autênticos feitos com a verdadeira arte da criação possibilitam. Chega de fórmulas, chega de resumos de sinopses, chega de politicagens.
É verdade que um samba como este só foi escolhido por ter a assinatura de Martinho. Que sorte a da Vila de ter um nome como o dele para bancar. Que sorte do carnaval de possuir alguém com um respeito tão grande ainda querendo participar das escolas de samba. Martinho não precisa disso. O carnaval ganha mais com ele do que o inverso. O carnaval ganha a chance de desviar a rota dos sambas de enredo padronizados que caminhavam para o fundo do poço.
Torço demais pelo sucesso deste samba para que ele abra caminhos a outros compositores sem tanto nome quanto Martinho, mas também talentosos. Que eles possam ousar, criar, buscar caminhos diferentes: fazer arte! Que ele seja a libertação do samba de enredo!!!
Eugênio Leal: 'CD do Grupo Especial ao vivo é a melhor notícia do ano'
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 23/09/2009 21:11
Para quem gosta de samba-enredo e de curtir gravações bem feitas, a notícia de que o CD do Grupo Especial de 2010 será gravado "ao vivo" na Cidade do Samba é a melhor da temporada.
Eu, particularmente, já tinha desistido deste sonho. Não acalentava mais nenhuma esperança de que pudesse acontecer. Acreditava que a Gravasamba estava acomodada com o sistema adotado desde 1999 e não voltaria atrás. Graças a Deus, tudo muda neste mundo! Nossas reclamações foram ouvidas! Valeu encher o saco todo ano dizendo que o CD era "frio" (e realmente era).
Acredito que, diante desta notícia, tenhamos em 2010 o melhor CD do novo milênio. Não só pelo desenvolvimento tecnológico, mas também pela qualidade dos sambas. Repito: teremos, se tudo der certo, pelo menos três sambas inesquecíveis no Grupo Especial.
Confio muito também no profissionalismo e na competência da equipe de produção. Um time que já fez discos como os de 85, 93, 94 e 95, sabe o caminho da pedras. Precisava apenas querer ir até lá. E agora quer! Estou ansioso!
Preocupação
Já escrevi aqui sobre a questão da licitação. Não é um processo simples e a entrada do Tribunal de Contas explicita isso. Só que carnaval tem data para acontecer e muita coisa precisa ser feita até lá. Não é um evento simples.
Sou a favor da licitação, da transparência. Sempre cobrei isso aqui. Mas este processo está muito atrasado. Isso deveria estar acontecendo em maio, junho. Não em setembro, quase outubro. As escolas, que a esta altura, já deveriam estar começando os trabalhos de barracão, estão paradas.
Elas dependem da primeira parcela da subvenção e do início da venda de ingressos para dar andamento a seus trabalhos. Mas até agora não têm nada. Não se pode planejar nem mesmo os ensaios técnicos porque ainda não conhecemos a vencedora da concorrência.
Ah, esses políticos!!!
Safra da Beija-Flor: Sem a mesma quantidade, mas ainda com qualidade
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 22/09/2009 12:28
A Beija-Flor costuma ter pelo menos cinco sambas de excelente qualidade para escolher. E mais uns dez que se aproximam muito deste nível. É, com certeza, a escola que nos últimos anos, teve maior quantidade de bons sambas nas suas disputas. Para 2010 esta quantidade diminuiu. Nem todo mundo atingiu o nível de excelência da escola. Mas a escola não precisa de dez sambas bons, apenas de um. Por isso, a Beija-Flor não terá problemas no quesito para o próximo carnaval. Os sambas abaixo estão na ordem em que se encontram aqui no site, pois não consegui a numeração oficial de disputa da escola.
Picolé da Beija Flor, Serginho Sumaré, Samir Trindade, Serginho Aguiar, Dison Marimba e André do Cavaco
Um dos sambas do ano, sem dúvidas. Tem na melodia seu ponto forte (muito forte). Ela é de uma ousadia maravilhosa contrastando trechos muito baixos com outros altíssimos numa mistura diferente, mas de uma força incrível. Há tempos não se ouve um samba com o "volume", a consistência, o vigor que este apresenta. Pesado, no melhor sentido da palavra, só poderia mesmo ser cantado pela comunidade de Nilópolis.
É difícil destacar este ou aquele trecho porque todo o samba é gostoso de ouvir e cantar. Mas a preparação para o refrão final é de arrepiar. Parabéns aos autores!
Marcelo Guimarães, Ribeirinho, Paulo Lopitas, Jorge Augusto, Veni Vieira e Domingos PS
É a parceria com maior número de campeões do ano passado. Eles seguiram, claramente, a mesma cartilha do samba de 2009. A estrutura melódica é muito parecida. É um samba valente, denso, encorpado. Transmite com perfeição a idéia do enredo. Faltam, entretanto, momentos de maior liberdade criativa na parte melódica. Não há uma passagem que seja totalmente inovadora, diferente.
Carlinhos Detran, Tomtom, Adilson China, Hugo Leal, Gilson Doutor, Aroldo do CAC
Brilhante construção melódica. Especialmente na segunda parte do samba. Percebe-se a mão de um músico talentoso nos desenhos rítmicos que são muito bem encadeados. E também o cuidado com todos os detalhes da gravação que está excelente. É um samba que dá sempre vontade de ouvir um pouco mais. A exceção é o trecho que talvez seja o mais importante: o refrão final não acontece. Falta pegada, ousadia.
Cláudio Russo, Veloso, JR, Miguel, Derê e Marquinho Beija-Flor
Ninguém "acerta a mão" todo ano. Depois de uma sequência de grandes obras esta parceria não conseguiu criar um samba com a mesma força para 2010. Não que ele seja ruim. Mas sempre se espera mais de quem sabemos que tem muito talento. Esta obra tem algumas boas passagens, mas carece de um maior vigor melódico e de mais criatividade poética. Não consegue se destacar.
Marquinho Lessa, Joel Menezes, Chopinho, Dimenor e Nêgo Lindo
Alterna bons e maus momentos. A letra parece confusa em alguns trechos. A melodia é muito boa na primeira parte, mas se repete na segunda sem grande efeito. O refrão é interessante, mas não traduz a característica poética da escola nos últimos anos.
Ademir, Betinho de Pilares, Cirino Nóbrega, Márcio Garcia, Marcos Lauriano e Raimundo Sena
Impressiona pela narrativa simples e direta e pela fluidez da construção melódica. Gosto da continuidade musical que ambos os refrões representam em relação aos trechos que os antecedem. Não há cortes, mas sim uma sequência natural.
Há um trecho na primeira parte que está mal resolvido na gravação. Talvez a inserção de contra cantos tenha prejudicado a percepção do andamento musical naquela parte. Ainda assim merece aplausos pela beleza singular.
Sidnei de Pilares, Jorginho Moreira, Professor Laranjo e JB
Mais uma vez a parceria de Pilares cumpre seu papel com beleza. O samba é poético, emotivo, suave. Muito bonito. A construção é toda redondinha, tanto na música quanto na letra. A boa interpretação de Zé Paulo valoriza ainda mais a obra.
Bello, Gonzaguinha, Anchieta, Bareta e Marquinho Gravino
Tem algumas passagens interessantes de melodia. É uma obra equilibrada e de letra correta.Não figura, entretanto, entre os destaques da safra.
Sem muita imaginação
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 16/09/2009 11:35
O Salgueiro não tem uma safra como a de Candaces, por exemplo. Os compositores talvez tenham ficado um pouco acomodados com um enredo tão fácil e não colocaram em prática toda sua veia poética. Há algumas exceções, mas na média os sambas são previsíveis.
Talvez isso se justifique pela escolha do ano passado e pelo seu resultado na avenida. Ficou claro que a escola opta por refrões fortes e melodias alegres. Não importa muito o nível de elaboração da letra. E desfila bem assim.
Há obras com estas características na safra. E há também algumas coisas diferentes. Vamos, em ordem de inscrição, viajar pelos sambas que ainda estão na briga.
Adalto Magalha, Pedrinho da Flor, Andrezinho e Beto Pipa
Alegre, fácil, fluente. Do jeito que agrada ao público salgueirense. É o tipo de melodia que causa impacto imediato pela sua previsibilidade. A letra, se não é brilhante, conta o enredo sem sustos. Assim como na parte melódica, recorre a alguns "lugares comuns" poéticos.
Líbero, Sereno, Gregório, Wanderlei, Luiz Fernando
É um contraponto ao samba anterior. Possui letra mais trabalhada poeticamente, interpretando o enredo mais do que resumindo-o. Isso é interessante. Tem passagens melódicas diferentes e bonitas. Falta, entretanto, a explosão que caracteriza a escola. É um samba mais tradicional neste aspecto.
Antes que me critiquem, não estou aqui defendendo sambas "oba-oba", mas constatanto que o Salgueiro não tem por costume levar sambas cadenciados para a avenida.
Josemar Manfredini, Brasil do Quintal, Jassa, Betinho do Ponto e Fernando Magaça
Destaque para o refrão final, muito forte. Um ponto importante em se tratando da vermelha e branca da Tijuca. É um samba de empolgação, leve e fácil de ser aprendido.
Possui duas passagens melódicas que não me agradam pessoalmente. Uma delas é o trecho "Divina criação, primeira impressão" que não bateu bem no meu ouvido: parece "forçar uma barra" que não se encaixa no desenvolvimento melódico do início da obra. A outra é o verso "Quanta riqueza na nossa literatura", que não encaixa na música. Parece que o "nossa" está sobrando.
João Conga, Bello do Andaraí, Maralhas, Valdair Silva e Marquinhos Dentinho
Samba original, tanto em letra quanto em melodia. Procura sair dos clichês que são armadilhas perigosas neste tipo de enredo. Talvez por isso alguns versos pareçam um pouco "estranhos" aos ouvidos menos abertos a novidades. Há frases melódicas já ouvidas e repetição de idéias (como a de virar a página), mas são ocorrências pontuais que não tiram da obra a condição de maior surpresa da safra.
Felipe Rodrigues, Marcio Pina, Rodrigo Cachaça, Edu Silva, Rafal Paixoto
Percebe-se uma clara evolução na obra da parceria. Entretanto, ainda não se pode apontá-la como concorrente direta à vitória. Falta um pouco mais de malícia na composição.
O samba deste ano tem uma primeira parte muito boa: letra redonda e melodia fluente. O refrão do meio carece de mais criatividade e impacto. Não acontece. Aliás, o mesmo pode ser dito do refrão final. A segunda parte começa sem muita inspiração e melhora perto do final.
Dudu Botelho, Marcelo Motta, Roberto Zuk, Anderson Benson e Luiz Pião
Um samba que vai crescendo conforme seus versos vão passando. Tem uma excelente letra (melhor que a melodia) que interpreta o enredo e cria em cima dele. O melhor exemplo disso é o trecho final que imagina o salgueirense entrando na fantasia de um livro, mas afirmando sua paixão pela escola: "Se um mago um dia me levar / e além da vida eu viajar/ decerto renasceria / vermelho e branco nessa folia". Apesar de um deslize de concordância (relevado em nome da liberdade poética) é a passagem mais interessante de toda a safra. E levanta o astral para o refrão final que é muito forte, com explosão e poesia.
Por outro lado o refrão central peca pela falta de criatividade melódica. E os últimos versos da primeira parte têm melodia muito corrida, dificultando o canto e perfeito casamento com a letra.
A Vila de Noel e Martinho
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 08/09/2009 23:56
Defendi aqui, meses atrás, que a Vila desistisse da idéia de "encomendar" seu samba a Martinho. A escola pensava em abrir mão do concurso. Argumentei que o mestre poderia "errar a mão" na sua composição. Caso isso acontecesse, a escola teria outras opções.
Não aconteceu. Martinho acertou a mão. Fez um samba maravilhoso que sobra na turma. Fica até difícil comentar os demais. Com todo respeito que os poetas da escola merecem. Martinho foi além, fugiu do lugar comum com um talento incrível. É um samba. É o samba. Talvez o melhor do ano. Talvez o melhor da década. Isso tudo porque ainda "podaram" a criatividade do mestre cortando os contra-cantos revolucionários da segunda parte. Eles mereciam permanecer. Arte é inovação. A escola que encontrasse um jeito de cantar na avenida.
Ainda assim Martinho deu uma aula de como compor um samba e não um resumo de sinopse; de fugir das melodias já batidas; de dividir a obra sem a obrigação dos refrões de quatro linhas. É uma alegria ouvir um samba assim.
Não me cabe aqui discutir se a obra foi inspirada num samba anterior dele próprio. É uma questão que cabe a ele e aos herdeiros do antigo parceiro resolver. Analiso a obra apresentada. E essa me agradou em cheio. É a volta por cima de um dos nomes mais importantes da história do gênero samba-enredo. Um revolucionário. Isso faz bem à Vila e ao carnaval.
A safra, que sente a falta de André Diniz, tem sambas interessantes para a média do carnaval. O enredo ajuda muito. Mas não se pode estabelecer um termo de comparação com o de Martinho, que parte de uma proposta totalmente diferente. Como já escrevi muito sobre o samba do mestre, vou analisar os demais.
Pedrinho, Markinhos Poesia e Cláudio Emiliano
Samba melodioso, casa perfeitamente letra e música. Os versos descrevem o enredo com objetividade e alguma inspiração. Falta inovação, uma idéia diferenciada, um trecho musical totalmente novo.
Alexandre Fernandes, Geraldo Castro, Fábio Castelli e Fabinho do Cavaco
Gravação prejudicada pela interpretação do cantor. A melodia tem trechos interessantes, embora soe pouco criativa. A letra é bem clara e conta o enredo. Não gostei da expressão "overdose" no refrão.
Dedé Aguiar, Eduardo Katata, Miro Jr. e Ivanízia
Se não fosse a "presença de Martinho" seria o grande favorito. É um belo samba. Melodia com trechos muito bonitos e diferentes. A Letra é inspirada e tem algumas boas sacadas. Parceria vem crescendo muito nos últimos anos.
Guilherme Benaion, Geraldo da Silva, Zé do Bié e Carlinhos do Peixe
Como a maioria, a letra tem suas qualidades. Falar de Noel é muito bom para quem é da Vila. Mas a melodia não acontece.
Rafael Zimmermann, Guilherme Salgueiro e Márcio Hilário
Bela surpresa! Melodia sinuosa, valente e inovadora. Letra original, saindo do lugar comum. É renovação de boa qualidade para a Vila. Parabéns.
Haroldo Filho, Chico da Sueca e Sergio
Estilo antigo, com gravação cadenciada. Tem alguns bons momentos de melodia, mas escorrega numa letra irregular.
Kedek, Claudinho Orvalho, Bira do Banjo, Willian Defensor
Tem um refrão diferente e interessante. Procura, em seu desenvolvimento, caminhos inovadores - nem todos, entretanto, tão bonitos. Mérito pela ousadia.
Porto da Pedra: quadra vai decidir
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 03/09/2009 18:35
Se eu fosse o presidente Uberlan estaria preocupado com a ala de compositores do Porto da Pedra. A escola viu a quantidade de inscrições despencar nos últimos concursos de samba-enredo. E, de repente, perdeu também a parceria tri-campeã. O resultado é uma safra sem grandes destaques e muito nivelada.
Há quatro ou cinco sambas que se equivalem nas gravações. A decisão vai ficar para o desempenho de cada um na quadra.Vai pesar muito também a opção da escola por uma letra mais trabalhada ou por uma melodia mais valente. Com a palavra o Tigre de São Gonçalo.
1 - Vadinho, Fernando Macaco, Tião Califórnia, De Mello e Niber
Melhor letra da disputa. Conta o enredo com poesia, clareza e inteligência. Não recorre a expressões corriqueiras e traduz a mensagem sem dificuldade de compreensão. A melodia é bonita, mas poderia ser mais vibrante. Falta alegria.
2 - Alessandro Falcão, Sidney Sã, Prof. Niltão, Mascote e Orlando
Samba alegre, com letra correta - mas sem brilho. Não traz inovações melódicas. Em alguns versos há excesso de letra para a melodia.
3 - W. Canoa, Valdir Papel, Ricardo Rulck, Coelho e Robinho PV
Conta o enredo sem criatividade. Tem musicalidade repetitiva tendendo a "arrastar". Falta inovação.
4 - Paulinho Ramos, Cláudio Café, Luiz Antonio, Jacaré e Dudu
Tem um belo momento melódico na segunda parte: "Surge um novo tempo, o século virou.. / O traço vira arte / No estilo brota a cor". Aliás a musicalidade é mais forte que a poesia nesta obra. A letra tropeça em alguns momentos com expressões pouco poéticas.
5 - JC Couto, Beto Grande, Jorginho JB, Zizi e Buchecha
Talvez o mais equilibrado entre os dois sub-quesitos. Tem uma boa letra, construída com belas sacadas, e melodia valente. Não chega a ser inovadora, mas a música é forte.
6 - João Paulo, Duda SG, Miguelzinho, Jairo Passos e Fabrício Mineirinho
O verso "Quem tem poder pode pagar pra ver" traz um jogo interessante em cima das consoantes e soa diferente. O refrão central é o ponto forte do samba. A letra tem altos e baixos, o mesmo acontecendo com a melodia.
7 - Bira, Porkinho e Heitor Costa
Tem o refrão mais forte da disputa. Isso pode ser um diferencial importante. O samba é todo "pra cima" buscando tirar o máximo do componente. Não chega a ser emocionante, mas também não deixa cair. A letra é simples e direta. Conta o enredo, mas em alguns momentos, carece de um pouco mais de poesia.
8 - Dadinho, Waldeir Melodia, Laudelino, Manolo e Cláudio Silva
Os compositores optaram por uma letra interpretativa, sem citar os setores do enredo, mas desenvolvendo as principais idéias do carnavalesco. Sou a favor deste tipo de letra, mas acho que algumas mensagens ficaram para trás. A melodia é alegre e bem construída, com força no refrão e uma segunda parte bonita.
Vai ter carnaval!
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 31/08/2009 00:27
Fiquem tranquilos, vai haver carnaval. Essa gritaria da LIESA é normal e a posição das escolas previsível. Não se faz qualquer mudança sem chiadeira. Quem estava acostumado e confortável com a situação (qualquer que seja ela) tende a repelir a transformação.
Acho engraçado que algumas pessoas tratem a LIESA como uma entidade paralela às escolas de samba. Ela nada mais é do que a representante das mesmas. As escolas não estão apoiando uma terceira entidade, mas a si próprias. Se há um comando na liga este é indicado pelas escolas.
Seja a LIESA vencedora da licitação ou não, o carnaval vai acontecer. Afinal, para quê existem as escolas senão para desfilar? A finalidade principal é a apresentação de fevereiro e, à reboque dela, vêm as demais atividades. Tem mais: sem desfile, onde vão parar os patrocínios já firmados? E os salários já pagos, os enredos divulgados, os sambas já lançados? O que dizer às comunidades? O que fazer durante a festa?
E se a prefeitura for durona (não acredito que seja) e decidir passar por cima dessa decisão puxando as escolas dos grupos inferiores para desfilar na elite? E se ela decidir rever a cessão da Cidade do Samba?
Na verdade, a briga não é boa para nenhum dos lados porque um carnaval sem as grandes escolas não teria o mesmo brilho. Por isso acredito que tudo se acertará entre as partes e a LIESA sairá vencedora da licitação.
O maior problema é o atraso. A esta altura tudo já deveria estar resolvido. Estamos praticamente em setembro e a estrutura é muito grande para ser montada "em cima do laço".
O ponto positivo é o estabelecimento de uma concorrência e isso sempre traz vantagens: exige melhoria nos serviços prestados e acaba com a acomodação. A infra-estrutura do sambódromo precisa de melhorias sim, mas a maior parte delas em função de que o espaço está obsoleto. Uma grande reforma se faz urgente. E isso é responsabilidade da prefeitura.
Eu sempre defendi uma participação mais direta do poder público na organização do carnaval. Acredito, entretanto, que esta participação deveria discutir também a parte artística da festa. Mas isso parece não passar de utopia mesmo.
Uma disputa diferente
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 18/08/2009 15:59
Estou empolgado com a disputa de samba da Mangueira para 2010. Ivo Meirelles implantou uma série de novidades que vagavam pela imaginação de quem sonhava com um processo mais justo, onde o nome e o dinheiro não tivessem peso na escolha do vencedor.
A escola está colocando seus próprios cantores para defender os sambas concorrentes, liberando os compositores de um gasto imenso. Também estão proibidas as alegorias, bandeirinhas e afins. Inscrições feitas pela internet facilitaram o acesso de compositores de todos os lugares.
Outra idéia legal, que vai dar um "glamour" à disputa, é a realização da semifinal na casa de shows VIVO RIO. Valoriza o festival, aproximando-o de um público que não está acostumado com este momento do carnaval.
A idéia de divulgar os números e não os autores dos sambas é interessante, mas não esconde os compositores. Basta uma passada na quadra para vê-los defendendo suas obras.
O único senão do processo é que a decisão final caberá única e exclusivamente a ele, o presidente da escola. Não acho a mais democrática das opções, mas entendo que nossas agremiações não chegaram ainda a um nível político que permita uma distribuição de votos pelos segmentos. Haveria muitas influências externas. Este ponto precisa ser mais estudado para o futuro.
Não me preocupo se o samba deste ano será o maior da história. Pode não ser. Nem se haverá uma grande novidade nos nomes dos vencedores. Até porque os atuais campeões são muito talentosos. O que importa neste processo é o início da democratização de um ciclo viciado.
A iniciativa da Mangueira é pioneira e faz muito bem ao carnaval. Vai atrair novas mentes, novas concepções, novas idéias. Vai oxigenar o mundo do samba-enredo. Isso, claro, se a proposta for mantida por alguns anos. E se os resultados refletirem o sentimento do povo mangueirense. Torço muito para que tudo dê certo. Pelo bem do samba-enredo.
CONCORRENTES
A safra é bem diversificada, com estilos bem diferentes entre os sambas. Tem sambas que remetem aos anos 80, outros que lembram a década de 90. Tem os modernos, que seguem o padrão vigente, e também os que possuem um toque de ingenuidade, simplicidade até. Resta saber o que a direção da escola está buscando. Vale lembrar que a Mangueira conseguiu as notas máximas não só no samba, mas também nos quesitos que dele dependem diretamente, como harmonia e evolução, no último desfile.
Vamos fazer a análise seguindo a numeração. Para melhor identificação, coloco o refrão de cada samba.
SAMBA 1A
"A VERDE E ROSA EXALA
O PERFUME DA FLOR
O SAMBA LEVANTA POEIRA
A MÚSICA DO BRASIL, MEU BEM
É DE PRIMEIRA"
Destaca-se o refrão final que tem força e empolgação. Tem trechos musicais que lembram a década de oitenta. Não apresenta novidades melódicas e a letra é pouco apurada poeticamente.
SAMBA 2A
"ABRAM ALAS
CHEGOU MANGUEIRA
AO SOM DO BRASIL, CRUZANDO FRONTEIRAS,
MINHA ESTAÇÃO PRIMEIRA"
Tem algumas passagens interessantes, mas no todo é um samba apenas mediano. Tanto letra quanto melodia deixam a desejar em criatividade e riqueza.
SAMBA 2B
"VERDE E ROSA É POESIA
CANTA ESTAÇÃO PRIMEIRA
VEM MANGUEIRA
VEM NO COMPASSO DESSA PÁTRIA MÃE GENTIL
MANGUEIRA É MÚSICA DO BRASIL"
Aqui a coisa muda de figura. Samba fortíssimo, embalado por uma melodia vibrante, vigorosa e alegre. A letra se preocupa mais em descrever o enredo cronologicamente e o faz com correção, embora sem acompanhar a força da música.
Refrão final fortíssimo, com suingue e apelo popular. Peca por repetir a palavra Mangueira em versos muito próximos. Destaque para o trecho que homenageia Jamelão, incluído com felicidade entre o que seria o final do samba e o refrão principal. Dá um toque de emoção muito grande.
A gravação conta com um intérprete que é o destaque da temporada de eliminatórias: Nego é o nome do ano deste processo. Está cantando muito e defendendo ótimos sambas em várias escolas.
SAMBA 3A
"SOU NAÇÃO, SOU EMOÇÃO
EU SOU MANGUEIRA
CORRE PELAS VEIAS POESIA POPULAR
NO MUNDO DA ESTAÇÃO PRIMEIRA"
Outro bom samba. Este trabalha melhor a letra e suas construções poéticas. Possui sacadas inteligentes na descrição do tema. Mas não a mesma força melódica do anterior.
Tem refrão final forte, com apelo, e uma excelente segunda parte, especialmente no trecho que vai de "Misturar o erudito com o popular" até o final.
SAMBA 3B
"O TOM DA MINHA VOZ É VERDE E ROSA
SOU A "MÚSICA POPULAR BRASILEIRA"
EXPRESSÃO EM VERSO E PROSA
O LINDO CANTO QUE ECOA É DE MANGUEIRA"
Obra muito bem construída, com melodia fluente, equilibrada e cadenciada. A letra é trabalhada para contar o enredo com ordem e beleza. Falta, entretanto, um diferencial. Aquele momento que mexe com o público.
SAMBA 6A
"ONDE MORA A POESIA? MANGUEIRA!
QUERO OUVIR A MARCAÇÃO DE PRIMEIRA
POETAS IMORTAIS, ARTISTAS GENIAIS
BERÇO DA CULTURA BRASILEIRA"
O que dizer? Faz a diferença. Letra muito talentosa e inteligente, melodia alegre, diferenciada e emotiva. Tem tantas passagens merecedoras de citação positiva que é mais fácil dizer o que foge a essa regra.
Não gosto, por exemplo, do refrão central. Embora bonito, acho difícil de cantar pelo excesso de letra. Há uma repetição melódica em "eu faço da vida uma linda canção" e "o rock também embalou o país", que não tira o brilho da melodia. O andamento na gravação também podia ser mais lento para valorizar a musicalidade da obra.
O resto a gente só pode aplaudir.
SAMBA 7A
"MEU CORAÇÃO É VERDE E ROSA
DESCENDO O MORRO EU VOU
A MÚSICA, ALEGRIA DO POVO
CHEGOU A MANGUEIRA CHEGOU"
A disputa se mantém em seu nível mais elevado. Outro fortíssimo concorrente. A letra é mais enxuta que a anterior o que torna a melodia um pouco mais leve e fluente. É quase um samba de embalo, com musicalidade muito alegre e toda "pra cima", mas sem perder a emoção. O que é o refrão central, citando os grandes mestres mangueirenses? Excelente!
A segunda parte cresce muito a partir do trecho "atrás do trio eu quero ver". É o tipo do samba "levanta poeira".
Também poderiam ter tirado o pé do acelerador na gravação. Ficaria muito melhor um pouco mais lento.
SAMBA 8B
"VEM DO GUETO
TEM FUNK NO CARNAVAL BRASILEIRO
O SAMBA TRÁS O MUNDO PRA CÁ
SOU BAMBA SOU DO RIO DE JANEIRO"
Andamento maravilhoso na gravação, com cara de samba de verdade. Boas passadas melódicas: fluentes e agradáveis. Finalização da segunda muito diferente e bonita, quando diz "música....brasileira...está no ar". A letra, entretanto, não alcança o nível de outros concorrentes especialmente no refrão final que não é dos mais felizes em sua abordagem do enredo.
SAMBA 9A
"PRIMEIRA ESTAÇÃO, A INSPIRAÇÃO PRO MEU CANTAR
CHEGOU MANGUEIRA, VERDADEIRA FACE DO AMOR
A OBRA-PRIMA QUE O POVO CONSAGROU"
Samba bem construído. Correto, traduz o enredo em sua poesia com algumas passagens muito bonitas. Tem música fluente e construída de maneira suave, mas não possui a força melódica que caracteriza a verde rosa.
SAMBA 11A
"O SHOW ESTÁ NO AR
E VAI LEVANTAR POEIRA
QUEM FAZ A ARQUIBANCADA DELIRAR
É A ESTAÇÃO PRIMEIRA"
Destaque para a segunda metade do samba, inspirada na fidelidade do mangueirense e para o pré-refrão "o samba é o rei" que é seu diferencial.
A letra se utiliza de expressões muito usadas no vocabulário do samba-enredo como no refrão acima. Há ainda versos como "levantar o seu astral". A poesia aborda o tema de forma simplificada A parte musical, embora corretamente construída, não apresenta grandes novidades.
Quesito 'baianas'
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 11/08/2009 11:59
Acho muito interessante a idéia de transformar a ala de baianas em quesito. É um setor fundamental da escola e precisa ser valorizado. Acontece que hoje em dia só se valoriza o que traz dinheiro ou nota. Por isso eu apoio a idéia e vou além: quero que a ala de passistas também ganhe esta benção.
Mas as coisas não são tão simples. É preciso tomar muito cuidado com os critérios de julgamento. Nosso companheiro Jorge Mendes alertou para algumas questões que clamam por um debate mais cuidadoso. Me preocupa muito o item "coreografia". Baiana não deve ser coreografada, gente!!! Dêem liberdade às nossas senhoras caso contrário o tiro sai pela culatra.
Quanto à diminuição da pontuação do casal de Mestre-sala e Porta-bandeira, acho a intenção errada, mas a prática inócua. O impacto na soma geral não vai mudar em nada, como destacou o mesmo Jorge Mendes. O casal é uma das coisas mais bonitas do carnaval e merece respeito, investimento e admiração.
Mais enredos do Especial
Porto da Pedra
A escola de São Gonçalo mantém suas características. Tem um enredo com início, meio e fim. O desenvolvimento é claro e se baseia no argumento de que a moda acompanhou a história. Esta defesa permite a criação de cenários bonitos e grandiosos, além de belos figurinos. Não é algo para emocionar o público o que dificulta a criação de um samba contagiante, mas permite um desfile correto, como sempre faz o tigre.
Viradouro
Tem um prato cheio, a escola de Niterói. Uma história riquíssima, repleta de símbolos e calor humano. A sinopse - bem escrita, simples e direta - cria uma imagem interessante para os compositores: uma terra mágica onde tudo pode acontecer. É um dos temas mais promissores deste carnaval, porque ousa buscar uma cultura diferente daquela que estamos acostumados a ver e rever nos desfiles. A expectativa é grande.
Portela
Confesso que tive dificuldades para ler a sinopse. Logo de início constatar que a águia é um "backbone" me assustou um pouco. Acho o tema moderno, mas com pouca identificação com a personalidade romântica e tradicionalista da azul e branca de Madureira. Fica muito claro o conteúdo "chapa branca" a fim de valorizar o trabalho do governo estadual. Isso não é carnavalesco. Tem compositor quebrando a cabeça para incluir expressões da informática nos sambas. Mas como a Portela é a Portela... espero que isso seja superado.
Safra promissora
Sou um apaixonado e empolgado com o gênero samba-enredo. Nesta época do ano sempre me deixo levar pelo lançamento das obras. Mas acredito que, desta vez, a empolgação se justifique. Tem pelo menos três sambas aqui no site com cara de antologia. E melhor: com grandes chances de vitória. Em breve falarei de cada escola.
Papel do samba-enredo - Cubango 2010
Eugênio Leal | Eugênio Leal | 27/07/2009 11:55
Qual o papel do samba-enredo no desfile de uma escola de samba? Tecnicamente falando, ele deve impulsionar os componentes a uma apresentação fluente e ajudar a contar o enredo. A primeira missão é da melodia e a segunda da letra. Vamos nos ater, aqui, à poesia.
Um enredo é uma história contada na avenida através de fantasias, alegorias, comissão de frente, teatralizações e do samba. A trilha sonora precisa completar a informação visual e não simplesmente repeti-la ou legendá-la. É a única maneira que a escola possui de dizer por que está contando aquela história.
A letra de um samba-enredo deve, acima de tudo, transmitir a mensagem principal do desfile. Há, nos últimos anos, uma tendência que virou quase obrigação e impõe a citação de todos os setores do desfile em ordem cronológica. O problema é que nem sempre detalhar as passagens do tema garante a compreensão da história como um todo.
O desenvolvimento dos enredos tem privilegiado a procura por ícones visuais que são inseridos na história muitas vezes aleatoriamente, sem interligação. É uma quantidade enorme de informação que os compositores - muitas vezes de forma talentosa e inteligente - condensam em dois ou três versos através do uso de duplo sentido ou de referências imaginárias.
Acontece que quase sempre a letra fica compreensível apenas para quem teve acesso à sinopse (indisponível na hora do desfile para a maioria). O público tem a impressão de estar ouvindo o "samba do crioulo doido". Exemplos para isso não faltam.
O compositor deve, antes de dividir o enredo em setores e destinar a eles determinada quantidade de versos, entender o que o carnavalesco pretende dizer com o tema. A partir daí precisa traduzir isso para versos com beleza e criatividade. A letra de um samba não deve ser um resumo da sinopse e sim a interpretação do poeta em cima dela. Essa é a diferença. Parece fácil, mas não é. Principalmente obter a aprovação das diretorias.
Dá para contar nos dedos os sambas interpretativos que venceram as eliminatórias na última década. Não sei exatamente porque, mas lamento. Quase todos os grandes sambas que marcaram época têm esta característica. O melhor caminho, então, é tentar unir as duas coisas: explicar o enredo e, em algum momento, traduzi-lo.
CUBANGO 2010
A explanação acima serve como prefácio para o início do período mais turbulento desta coluna durante o ano: as eliminatórias de samba-enredo. Mais uma vez vamos comentar os sambas concorrentes nas escolas cariocas. Sei, antes de começar, que não vou agradar a todos. Vou sofrer algumas críticas e até ameaças - não é novidade. Continuo achando, ainda assim, que este tipo de avaliação é válida. Não começo pela Mangueira pois a safra ainda não está integralmente disponível. A Cubango, então, passa a ser a primeira da lista.
Quando foi divulgada a sinopse demonstrei, aqui, minha preocupação pela complexidade do enredo. "É quase um desafio para compositores, figurinistas e aderecistas encontrar soluções que consigam traduzir todo o sentimento político contido no texto do Milton", escrevi. É aí que o prefácio encontra o corpo da coluna. É um enredo extenso, repleto de referências. Mais importante do que descrever todos os setores é preciso explicar porque a história deste palácio merece estar na avenida.
A Cubango tem tradição na produção de bons sambas, mas como era esperado o tema deixou muita gente boa na estrada. Escolhi quatro, dos vinte e dois sambas, para analisar aqui. São os que, pessoalmente, mais me agradaram. Não significa que a escola não possa escolher outro.
Sardinha, Carlinhos da Penha, Junior Duarte, Diego Nicolau, Dílson Marimba e Raphael Prates
Desponta como um dos favoritos pela modernidade e valentia da melodia, que não cai em momento algum, e pela inteligência na tradução de algumas passagens do enredo. Há belas sacadas poéticas e trechos musicais bastante agradáveis. Bate bem no ouvido logo de primeira.
Mas tem problemas na letra. Um deles é que em nenhum momento a poesia consegue ser clara o suficiente para quem não leu a sinopse. O outro reside na explicação que foi feita lá em cima nesta coluna. Todos os setores foram descritos de maneira inteligente, mas a obra não alcança o porquê do enredo. Fica a sensação de que falta dizer alguma coisa.
José Antônio, Julio Louzada e Washington Motta
Este grupo de compositores conseguiu aliar uma letra curta e muito objetiva a uma melodia simples, mas valente. Eles deram a um tema pesado uma cara leve e alegre. Sem perder a consciência da importância política do tema.
A abordagem simplifica a descrição dos setores sem deixar de tocar no ponto principal do enredo: o histórico de luta pela liberdade dos que habitaram o edifício. É inteligente e fácil.
Alguns versos, entretanto, não estão no mesmo nível dos demais e parecem destoantes - especificamente no refrão do meio.
Renan Gêmeo, Fernando Johara, Rodrigo, Pedrão, Mosquito e Cristiano
Este samba me encantou pelo belo casamento da letra com a melodia. A música consegue expressar a emoção dos versos. Não há preocupação com o "pula pula", mas sim com frases melódicas bem encaixadas e que facilitam a harmonia do canto. Há também originalidade nas construções melódicas.
O que mais atraiu minha atenção, entretanto, foi a interpretação do enredo. Alguns versos traduzem perfeitamente a mensagem do enredo. São eles - "Abrigo da história de uma nação desigual" e "esse palácio de loucura desperta a bravura pela liberdade". Aqui os autores transmitem o foco principal do enredo com beleza e poesia. E ainda há espaço para descrever as principais passagens da extensa história de forma compreensível para os leigos. Para finalizar, um verso de extrema beleza: "Não deixe que a voz da razão cale o seu coração".
Heraldo Faria, Flavinho Machado, Edu, Gatto, Beto Gama, Robson
Essa letra é o maior exercício de liberdade dentre todos os concorrentes. Os autores fugiram totalmente dos padrões e buscaram uma interpretação bem pessoal do tema. É uma proposta interessante acompanhada de melodia igualmente fora do que se usa nos dias atuais. Até a estrutura é diferente, com três refrãos. Digamos, então, que é um samba anarquista.
Acho legal que tenhamos este tipo de postura, embora se saiba que hoje em dia as direções das escolas não costumem aprovar tanta autonomia. Mas como o enredo versa sobre loucura e a liberdade, porque não?
Está longe de ser um samba esclarecedor sobre o tema. Mas a partir do momento em que o narrador se assume louco, faz sentido. Afinal, a letra se propõe "um mistério a decifrar".
Totonho, Derê, André Malheiros, Regina, Cabral, Angélica e Emerson
Este samba, por outro lado, se encaixa exatamente na fórmula que vem dando certo nas disputas internas das escolas de samba. Refrão forte; letra descritiva e inteligente; melodia alegre e fluente. A divisão (refrão/primeira/refrão segunda) obedece exatamente ao padrão vigente.
A letra inicialmente brinca com o carnavalesco e depois resume o tema com simplicidade excessiva tocando levemente no foco central do enredo. Não há uma carga mais pesada de emoção. Um verso do refrão final, entretanto, é muito feliz na crítica política - "O Brasil me leva à internação". Forte concorrente.





















