SRZD



Cláudio Francioni

Cláudio Francioni

MÚSICA. Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



02/05/2016 10h56

Série 40 anos: Ramones, ou a Revolução dos Três Acordes
Pedro de Freitas

Poucas verdades são tão evidentes na história da humanidade quanto a natureza cíclica das coisas. Seres humanos vivem entre ciclos naturais, de fome e fartura, guerra e paz, ciclos econômicos. Agora mesmo no Brasil, para júbilo de uns e desagrado de outros, vemos o ocaso de um ciclo político. Nada caminha na mesma direção para sempre. Tudo que sobe desce, e vice-versa. Parece ser uma condição da natureza e do ser humano. Culturalmente parece que também somos assim.

E por que abordo este tema na resenha de 40 anos do álbum de estreia dos Ramones? Porque a importância deste trabalho decorre da exaustão de um ciclo. Desde o início do rock,  a descoberta desta nova linguagem musical resultou em uma ampliação dos horizontes da criatividade. Artistas  se sentiram livres para criar mais, e ousar mais. Diversas obras-primas foram criadas a partir do desbravamento destas novas fronteiras. À medida em que esta nova linguagem foi sendo aceita pelo público em geral, resultou em prosperidade e vieram os excessos. Tudo ficou grande demais, ambicioso demais, rico demais, grandiloquente demais?e chato demais. O que era criatividade virou pedantismo, ostentação  e acomodação. Mas, em time que está ganhando (principalmente muito $$$) não se mexe, certo?

Foto: ReproduçãoErrado. Foi o que as grandes bandas de rock começaram a descobrir, quando um bando de adolescentes que sofreram na pele a crise econômica do choque do petróleo no início dos anos 70 começaram a criar nas garagens mundo afora o som que viria a ser conhecido como o Punk Rock. O nome "punk" era um rótulo para vagabundo, desqualificado. Entre as hordas de desempregados e desocupados em Nova Iorque, havia uma banda que tocava em clubinhos no underground, cujos integrantes usavam o mesmo sobrenome artístico, como se fossem uma família: os Ramones.

Sem glamour nenhum, o som que fabricavam também reduzia-se ao básico: três acordes, zero de virtuosismo musical, mensagens diretas vindas das ruas, enfim, um corte radical no exibicionismo artístico em voga até então. Com seis mil dólares e uma produção crua, Johnny Ramone, Tommy Ramone, Joey Ramone e Dee Dee Ramone fizeram um disco que inaugurou uma nova era na música popular: a do "do it yourself"  ou faça sua música você mesmo, independente de dotes artísticos, aulas de jazz ou música clássica, estruturas de marketing ou logística.

No rock despido de glamour e virtuosismo até o osso dos Ramones, o álbum de estreia começa com um simples "Hey, ho, let's go", do refrão de "Blitzkrieg Bop", um dos maiores sucessos da banda, e enfileira clássicos do "rock de três acordes" que marcaram a história, como "I Wanna Be Your Boyfriend", "Judy Is a Punk", "Now I Wanna Sniff Some Glue" e "Havana Affair". As músicas curtas e diretas falavam (ou gritavam) a uma nova geração. Poucos artistas definiram um "antes e depois" do seu trabalho como os Ramones, que influenciaram radicalmente tudo o que foi feito em seguida, e pôs um fim no ciclo das grande e teatrais bandas de rock que haviam na época. Apesar da simplicidade, o som dos Ramones atingiu em cheio o coração inconformista da juventude, gerando muitas vezes reações agressivas e excessivas, como ocorreu no show da banda no Rio de Janeiro em 1992 que foi interrompido entre nuvens de gás lacrimogêneo e o batalhão da Polícia.

O espírito do movimento punk foi levado ao Reino Unido através dos Sex Pistols e do The Clash. Mas em terras americanas o terremoto musical que mudou a estrutura da música pop dos anos 70 tinha um nome: Ramones, denominação da banda e do álbum de estreia que deixou o mundo musical em estado de choque há 40 anos.

 



22/04/2016 07h32

Prince: 'O' Artista
Pedro de Freitas

Fui pego de surpresa ao ler a notícia: Prince morreu. Estranho. Pessoas como Prince nos dão a impressão que não morrerão nunca. Mas se pensava o mesmo de David Bowie?

Se Michael Jackson foi o ícone máximo dos anos 80, Prince Rogers Nelson foi a consciência musical mais rica daquele período. Com um trabalho, em minha opinião, mais criativo e consistente que o do "Rei do Pop", o multi-instrumentista e compositor nasceu com o dom de utilizar como matéria-prima qualquer som ou gênero musical que lhe passasse pela mão. Se os primeiros trabalhos lhe renderam comparações com Sly Stone e James Brown, o álbum "1999" o entronizou como o "novo Michael Jackson"; com "Purple Rain" Prince chegou a ser comparado com ninguém menos que Jimi Hendrix. Os anos 80 foram realmente seu auge. Seu talento incrível produziu uma sucessão ininterrupta de obras-primas. Vale a pena nomear uma a uma, para que o leitor não se perca, e procure conhecê-los: "Dirty Mind", "Controversy", "1999", "Purple Rain", "Around The World In A Day", "Parade", "Sign O' The Times", "Black Album", "Lovesexy". Nove discos em oito anos, sendo dois duplos, nenhum deles menos que excelente. 

Foto: Divulgação

Se pudesse resumir todo este material arrebatador em uma música e um disco, escolheria "Kiss" e "Sign O' The Times". "Kiss" é um dos maiores arrasa-quarteirões da história. Não há esqueleto humano na face da Terra que resista e fique parado diante deste primor de perfeição pop difícil de ser igualado. "Sign O' The Times", em minha opinião, é simplesmente o melhor disco dos anos 80. Apaixonei-me por ele desde a primeira audição. Nele, Prince se despiu dos excessos e extravagâncias e despejou toneladas de música brilhante e eclética produzidas de forma espartana. Cacetadas como "Housequake", "Play In The Sunshine", "It", "Hot Thing", "The Cross", Starfish and Coffee" e principalmente a minimalista faixa-título são muito mais do que qualquer artista normal produziria em várias reencarnações.

Após essa fase, as brigas com a sua gravadora o fizeram abandonar o próprio nome artístico. Suas próprias idiossincrasias diminuíram um pouco o frescor do seu trabalho. Passou a exigir ser chamado de "The Artist" (O Artista) ou se autodenominar através de um símbolo impronunciável. Ainda assim, a visita do "Gênio de Minneapolis" ao Brasil no Rock in Rio de 1991 rendeu um show primoroso e antológico. Mais tarde tornou-se Testemunha de Jeová. Que Deus tenha reservado para ele um lugarzinho no Paraíso, com um coro gospel de anjos, uma guitarra de formato extravagante, e um piano de cauda. Tudo de cor púrpura, é claro.

Prince - Purple Rain



11/04/2016 07h43

Coldplay colore o Maracanã
Cláudio Francioni

Quatro anos e meio se passaram desde aquele inesquecível 1º de outubro de 2011, quando Chris Martin comandou um show épico no Rock in Rio. Dentre os humanos, o Coldplay fez a melhor apresentação daquela edição do festival. Percebam que tirei o extra-terrestre Stevie Wonder da disputa. Mas uma noite como aquela é difícil ser repetida, ainda mais quando se tem um abismo de qualidade entre os álbuns lançados naquela época e os atuais. Viva La Vida or Death and His All Friends e Mylo Xyloto são consideravelmente superiores ao atual A Head Full of Dreams e, principalmente, ao insosso Ghost Stories, trabalhos que mostram uma aproximação da banda com o pop eletrônico. Se no penúltimo álbum havia um certo flerte com o malfadado "tsstum tsstum", no atual, a relação parece consolidada.

Respeitando a proposta gráfica do último álbum, o show é uma explosão de matizes. Pulseiras distribuídas na entrada eram comandadas por uma central que alternava cores durante as canções. Já no início, após uma gravação de Maria Callas em "O Mio Bambino Caro", de Puccini, o quarteto aparece para atacar com "A Head Full of Dreams", a primeira bate-estacas da noite, enquanto o estádio inteiro pulsa em vermelho. Chris dá boas-vindas ao povo indo até o fim da enorme passarela.

Foto: Cláudio Francioni

Logo após a primeira canção, curiosamente as pulseiras se apagam no momento em que seria mais óbvio que se acendessem em amarelo: "Yellow", linda, poderosa. Tão arrebatadora a ponto de me fazer esquecer a aversão que tenho por esta cor. No fim, declarações de amor ao Rio. Ah, Chris, para com isso. Você diz isso pra todas! "Every Teardrop is a Waterfall" vem com chuva de papéis, coloridos, claro, todos em forma de folha de maple (ou era uma gaivota?). Nesta música (e em várias outras a seguir), o guitarrista Johnny Buckland justifica algumas comparações maldosas e exageradas com o U2. Algumas de suas ideias têm cara, cheiro e gosto de The Edge, o que não configura nenhum crime. Pura referência, sem nenhum demérito. O clássico "The Scientist", a animadinha "Birds" e o hit "Paradise" com um final eletrônico desnecessário assinado pelo DJ Tiësto, fecharam a primeira parte, exatamente como em todos os outros shows realizados até então.

Além do palco principal, outros dois espaços foram utilizados pela banda: um deles localizado no final da passarela central e o outro ainda mais embrenhado no povo, pouco mais à direita do gramado. Ótima oportunidade para quem não teve grana ou disposição para encarar o perrengue do gargarejo. Porém, a iniciativa gerou momentos de frieza, com introduções estendidas ou interlúdios, ambos gravados, para que desse tempo da banda se movimentar entre um espaço e outro. Já no palco B, a boa "Everglow" abriu e a enjoada "Magic" fechou a trinca de canções. Entre as duas, o debut de "Princess of China" na turnê, com participação de Rihanna no telão num daqueles feat dispensáveis.

Foto: Cláudio Francioni

De volta ao palco principal, o show retornou à sua dinâmica inicial. "Clocks" abriu a série, mas o auge da noite foi a fodástica "Viva La Vida". Como de praxe, o estádio soltava a voz no coro enquanto o versátil baterista Will Champion largava a porrada no marcante arranjo de bumbo/sino/tímpano. Antes disso, pouca gente parece ter reconhecido a breve homenagem a David Bowie com "Heroes".

O primeiro single do último álbum, "Adventure of a Lifetime", fechou o set. A canção é a prova cabal do avançado processo de "maroonfivezação" pelo qual o Coldplay vem passando. Legalzinha, divertidinha e outros adjetivos no diminutivo servem para definir uma canção que tem pouca coisa além de um riff pegajoso e um ótimo clipe. O povo, acompanhado dos macaquinhos no telão, caiu dentro e pulou como nunca.

No palco C, outra estreia: "Parachutes", canção homônima ao primeiro álbum da banda, não era executada desde 2011. Em seguida, a tal canção escolhida pelo público local. O telão mostra uma fã pedindo "A Message", do álbum X&Y. A canção é executada num clima de frieza total. Deu impressão de que só aquela fã desejava ouvir esta música. Eu, por exemplo, queria "In My Place", canção escolhida em Lima, Peru.

Foto: Cláudio Francioni

A reta final veio com a fofíssima "Amazing Day", na minha opinião a melhor canção do álbum mais recente. A penúltima música, "Sky Full of Stars", foi interrompida, assim como em São Paulo, para que alguns casais subissem ao palco para pedidos de casamento. Momento piegas detectado. "Up & Up", boa faixa que fecha A Head..., encerra também o show.

Na saída, as pulseiras eram recolhidas para reciclagem. Bobagem! Algumas pessoas devolveram, mas a maioria levou o souvenir. Após um show com muitos altos e alguns baixos, o coro de "Viva La Vida" permanecia pelas rampas de saída e chegava às ruas. Acho, inclusive, que ainda tem alguém cantando aqui embaixo de minha janela. "Ô ô ô ô ô ô...ô ô ô ô ô ô".

Setlist

A Head Full of Dreams
Yellow
Every Teardrop Is a Waterfall
The Scientist
Birds
Paradise
Everglow
Princess of China
Magic
Clocks
Midnight
Charlie Brown
Hymn for the Weekend
Fix You
Heroes
Viva la Vida
Adventure of a Lifetime
Kaleidoscope
Parachutes
Shiver
A Message
Amazing Day
A Sky Full of Stars
Up & Up

 

Confira outras fotos do show

Foto: Cláudio Francioni

Foto: Cláudio Francioni 

Foto: Cláudio Francioni

Foto: Cláudio Francioni 

Foto: Cláudio Francioni

Foto: Cláudio Francioni



01/04/2016 19h38

Série 40 anos: A incrível história de Fela Kuti contra os Zumbis
Pedro de Freitas

World Music é um rótulo musical equivocado, que é utilizado para definir todo o tipo de música que venha da África, da Ásia e da América que existe ao sul do Rio Grande. O rótulo resulta de um predomínio da cultura musical americana e inglesa sobre os demais países do Globo ao longo do século XX, e reúne indiscriminadamente toda a música que vem do chamado Terceiro Mundo. Difícil se destacar em meio a esta geleia geral.

Os artistas da bossa nova, por exemplo,  por conta de sua aproximação com o jazz. Dois artistas conseguiram, graças a doses enormes de talento, carisma e polêmica, se destacar neste caldeirão. Um é conhecidíssimo: Bob Marley. O outro nome pode soar estranho a muita gente, mas não é menos brilhante. Fela Kuti, assim como Marley, praticamente criou um gênero musical (o Afrobeat), e sua obra é única no universo musical. O ano de 2016 assinala os 40 anos de sua obra mais marcante, o seminal "Zombie", que possui uma história digna de filme.

Convém uma breve apresentação para contextualizar: Fela Kuti foi o maior artista da história da Nigéria. Morreu de Aids, em 1997, e um cortejo de um milhão de pessoas seguiu seu corpo pelas ruas de Lagos, capital do país. Fela teve formação acadêmica em música em Londres, e em seguida foi para os Estados Unidos. Lá, conheceu os movimentos sociais em defesa da igualdade racial e dos direitos civis, e decidiu retornar à Nigéria. Encontrou um país destroçado por guerras civis, por uma cruel ditadura e corrupção endêmica. Utilizando sua música como arma contra o regime político nigeriano, passou a ser sistematicamente perseguido.

Muitos perguntam por que Fela Kuti não se tornou tão conhecido como Bob Marley. Um motivo talvez seja seu gosto por músicas quilométricas, que muitas vezes ocupavam um disco inteiro, com longos trechos instrumentais, e vocalizações tribais. O outro é que Fela passou vários períodos de sua vida preso ou impedido de sair do país. Muitos somente conseguiram assistir sua mistura única de jazz, funk, soul e ritmos africanos no Shrine, clube mitológico onde ele tocava, em Lagos. Artistas como Paul McCartney, Steve Wonder, James Brown e muitos outros iam até a Nigéria só para assisti-lo no Shrine.

Foto: ReproduçãoNão é preciso dizer que a música de Fela Kuti e sua crescente popularidade incomodavam muito a ditadura nigeriana. Fela provocava: declarou a independência do bairro-comunidade onde vivia: a "República de Kalakuta". Aderiu a costumes ancestrais para enfrentar a imposição pelo governo de costumes ocidentais; o maior símbolo deste confronto foi seu casamento com 24 esposas. Com tanta fervura, faltava muito pouco para entornar o caldo. E aí veio "Zombie", lançado em 1976 na África, e no resto do mundo no ano seguinte.

Apenas duas músicas ocupavam o disco: "Zombie" e "Mr Follow Follow". Musicalmente era Fela no auge, comandando sua afiada banda África 70, onde se destacava o super baterista Tony Allen. Camadas e camadas de ritmo contagiante e irresistível. Tudo isso a serviço de uma mensagem incendiária: a letra de "Zombie" satirizava e provocava diretamente os soldados do exército nigeriano: 

"Zombie no go go, unless you tell am to go (Zombie)
Zombie no go stop, unless you tell am to stop (Zombie)
Zombie no go turn, unless you tell am to turn (Zombie)
Zombie no go think, unless you tell am to think (Zombie)"

E assim ia a letra, em uma sátira feroz, retratando soldados como zumbis descerebrados obedecendo ordens patéticas. A música se espalhou como um vírus, não só na Nigéria, mas em toda África. Em pouco tempo, nenhum soldado nigeriano podia caminhar pelas ruas sem ser ridicularizado pela população com a letra impagável da música.

Em uma ditadura africana, algo assim não fica barato. E não ficou. A reação absurda dos militares nigerianos veio em fevereiro de 1977, com a invasão da "República de Kalakuta" por centenas de soldados.

Foi um dia terrível. A população da comunidade foi agredida, torturada, e mutilada pelos soldados. A casas foram destruídas. A de Fela foi incendiada. O famoso clube Shrine, aniquilado. Fela Kuti quase sucumbiu, com várias fraturas pelo corpo. Sua mãe não teve a mesma sorte, e morreu em decorrência dos ferimentos que sofreu. A imprensa foi proibida de chegar ao local. Um inquérito de fachada atribuiu a agressão a "soldados desconhecidos". Fela teve que deixar o país.

Se abrigou em Gana, o país vizinho. Lá prosseguiu fazendo shows, que invariavelmente terminavam em tumulto e quebra-quebra após a execução da explosiva "Zombie". Acabou sendo "convidado" a deixar Gana, e se abrigou junto com sua banda na distante Alemanha.

"Zombie" hoje é uma referência. Brilhante musicalmente, se eternizou pela polêmica. Permanece sendo um dos poucos trabalhos musicais que se têm notícia a provocar tal reação em um país dominado por um regime de exceção. Não deixa de ser irônico que, quase vinte anos depois de sua morte, após a vida de Fela Kuti ter virado musical na Broadway, o atual governo nigeriano tenha resolvido bancar um museu inteiro em sua homenagem.

 

Fela Kuti - Zombie  



29/03/2016 21h31

Série 40 anos: Elis e seu 'Falso Brilhante'
Cláudio Francioni


Lembro-me de que a música "Velha Roupa Colorida" tinha um tom bem alto e exigia muito da voz dela. Gravamos e fomos escutar. Ela não ficou contente com a sua interpretação, queria refazer aquela música e disse: "vamos deixar essa pro final". Gravamos todas as músicas que comporiam o disco e, após tantas horas cantando, eu pensei: "Acho que vai ser difícil ela cantar a música "Velha Roupa Colorida". A música exigia mesmo um tremendo esforço. Então, ela me pediu: "Mazzola, vamos gravar "Velha Roupa Colorida" de uma vez só?". Acendi a luz vermelha com a palavra silêncio que ficava na porta dos estúdios de gravação e pedi também silêncio aos músicos pelo interfone. Dei play-record na máquina e disse: "Gravando!".

A cada frase que ela cantava, eu sentia que estava possuída, de olhos fechados, sem piscar, punhos cerrados. Ela cantava dentro de um pequeno ambiente separada dos músicos para que o som dos instrumentos não interferisse em seu microfone. Esse ambiente ficava bem ao lado da cabine da técnica e era fechado também com visores de vidro pelos quais podíamos nos comunicar com olhares e gestos. Ao final da gravação, ela abriu os olhos e olhou para a técnica, ainda mais estrábica. Eu pulava de alegria, todos nós emocionados nos abraçamos e ninguém ali conseguiu controlar o choro. Pressentimos que estávamos vivendo um momento importante na MPB, uma gravação que iria fazer história.

Estes parágrafos, que foram retirados do livro "Ouvindo Estrelas" (Editora Planeta, 2007), a autobiografia do super-produtor Marco Mazolla, sintetizam um pouco da magia por trás de "Falso Brilhante", álbum de Elis Regina que comemora 40 anos em 2016.

Foto: Reprodução Foto: Reprodução Foto: Reprodução

"Falso Brilhante" teve sua gênese num processo de trás pra frente. O disco nasceu de uma temporada de shows que lotou durante alguns meses o Teatro Bandeirantes, em São Paulo. Do espetáculo, Elis pinçou algumas canções e partiu para a gravação. As duas faixas que abrem o disco foram garimpadas pela própria cantora e pertenciam a um compositor até então desconhecido: Belchior. "Como Nossos Pais" e a já citada "Velha Roupa Colorida" traziam duros recados para uma juventude que crescia em meio à ditadura. Vale ressaltar que foi a partir deste cartão de visitas que Mazolla foi atrás de Belchior em um muquifo onde vivia em São Paulo e peitou a gravadora onde trabalhava para contratá-lo.

É difícil comparar as diferentes virtudes destas obras, como letra, interpretação, harmonia, mas não há como não se colocar nas alturas os arranjos de César Camargo Mariano. "Como Nossos Pais" virou um hino e dispensa maiores comentários, com seus característicos ataques alternados em tempos e contratempos. "Velha Roupa..." é um rockaço frenético que se transforma em blues em certos momentos e tem um arranjo de contrabaixo tão fenomenal quanto simples.

A mixagem de Mazolla é outra estrela da obra e permite a impecável percepção de todos os instrumentos com seus timbres peculiares à época. A belíssima sonoridade da bateria, crua e seca, é comum às gravações de Secos e Molhados, Tutti Frutti e outros artistas do início dos setenta. O fantástico baixo de Wilson Gomes está "na cara", como se costuma dizer quando um instrumento se sobressai na mixagem.

O álbum prossegue com "Los Hermanos", um falso tango de Atahualpa Yuanqui que traz na letra um clamor pela união dos irmãos latinos contra as ditaduras que se instalavam pelo continente na época. A interpretação de Elis, apesar de primorosa, carecia de uma melhor pronúncia em alguns momentos.

A faixa que fechava o lado A era uma facada no peito: "Fascinação", a versão de Armando Louzada para o clássico francês do início do século, me remete aos meus tenros sete anos de idade, quando a canção foi tema de "O Casarão", novela que minhas mãe e avó acompanhavam diariamente, se debulhando em lágrimas enquanto a voz de Elis embalava o romance entre os personagens de Paulo Gracindo e Yara Côrtes. Que interpretação e que piano! Era o casal Elis/César em sua mais perfeita conjunção artística.

A dupla João Bosco/Aldir Blanc se fez presente no disco com três canções: "Um Por Todos" (outra cutucada na ditadura), "Jardins de Infância" e "O Cavaleiro e os Moinhos", esta uma referência à obra de Cervantes. "Quero", de Thomas Roth, talvez fosse a canção mais "tolinha" do disco, mas nada que Elis colocasse a mão (ou a voz) se tornava desprezível. Um toque rural e mais uma vez um discurso sobre liberdade, mesmo que com outra conotação. A última crítica política estava em "Gracias a La Vida", não tanto pela letra da chilena Violeta Parra, mas sim pelo desejo de Elis em gritar contra o regime de Pinochet. O álbum se encerra em "Tatuagem", uma metáfora romântica genial de Chico Buarque em parceria com Ruy Guerra.

É claro que o talento de Elis foi preponderante para que "Falso Brilhante" se tornasse mundialmente reconhecido, mas é injustiça deixar de creditar ao arranjador César Camargo Mariano, ao produtor Marco Mazolla e aos músicos Nenê, Nathan Marques, Wilson Gomes e Crispim Del Cistia o nível de excelência que esta obra alcançou. Um disco impecável formatado por muitas mãos, por alguns cérebros privilegiados e por uma voz inigualável.

Elis Regina - "Velha Roupa Colorida"



22/03/2016 16h11

Série 40 anos: 'Hotel California' muito além da faixa 01
Leonardo Jorge

Acho que é seguro afirmar que qualquer fã do rock, independentemente da preferência dentro do gênero, já ouviu uma vez na vida "Hotel California", provavelmente a mais famosa das canções dos Eagles. A composição de Don Felder, Don Henley e Glenn Frey, faixa-título do álbum de 1976, não foi o primeiro single deste trabalho, mas alcançou o topo das paradas de sucesso em todo o mundo, impulsionou a banda a um outro patamar e é frequentemente lembrada para as listas de melhores das melhores. E ela é dona de um brilho tão próprio e intenso que quase acabou por me ofuscar a visão para as outras belas composições presentes no disco. Vou lhes contar a história.

Lembro-me de ter ouvido o disco por volta do ano 2000, num período em que abandonei minhas corriqueiras playlists e me permiti conhecer outras coisas fora de minha zona de conforto. Obviamente, já tinha escutado a canção "Hotel California" anteriormente e a adorava, principalmente pelo seu lindo solo na parte final, que consigo cantarolar na minha mente com a mesma facilidade que uma criança hoje canta qualquer um dos temas do DVD da Galinha Pintadinha. Peguei o CD com um amigo e confesso não ter ficado nada impressionado. Para mim, havia um motivo bastante claro para "Hotel California" ser a faixa 01 e ter sido escolhida para batizar o quinto álbum da carreira dos Eagles. Ela era muito superior às outras oito faixas. Uma "Mona Lisa" cercada por várias telas cheias de rabiscos.

           Foto: Reprodução Foto: Reprodução

Hoje, mais experiente e dono de uma visão menos radical, admito que cometi uma injustiça. Ouvi recentemente "Hotel California" por alguns dias para refrescar a memória e escrever esta resenha e percebi que não soube dar a elas o devido valor quando era mais jovem. Como chamar de rabisco "New Kid In Town", com seus vocais belíssimos e seu arranjo com convenções tão surpreendentes? Como chamar de rabisco "Life In The Fast Lane", com riffs e solos tão poderosos que poderiam ter sido compostos por Eric Clapton, Jimi Hendrix ou Stevie Ray Vaughan? Como pude ser tão insensível com a linda "Wasted Time", uma balada/blues onde Don Henley emociona ao cantar com toda sua alma? Neste ponto, já estava despido de todo o resto de preconceito que contraí no passado e segui ouvindo o disco, num misto de surpresa e admiração.

"Wasted Time (reprise)" finaliza a faixa anterior de maneira épica, com um grandioso instrumental orquestrado, digno de filmes Hollywoodianos. Quando pensava que o clima ameno ia prevalecer, levei um golpe ao ouvir "Victim of Love", onde suas guitarras marcadas e cheias de peso se equilibravam harmoniosamente com a sonoridade das linhas de soloslide. "Pretty Maids All In a Row" e "Try And Love Again" são baladas country bem características e ajudam a preparar o terreno para "The Last Resort", uma balada mais robusta que fecha o disco de maneira competente.

No final das contas, aprendi que o tempo é senhor da razão e posso, aqui e agora, me redimir: "Hotel California" é digno de toda a reverência da qual ele é alvo. Não é por acaso que ele é considerado um dos maiores álbuns de todos os tempos e também um dos mais vendidos. Prestes a completar 40 anos, ele merece ser ouvido além da faixa-título, que, na minha opinião, continua sendo a melhor do disco, mas não diminui a beleza e importância das demais. Dê a elas uma chance. Ou você é do tipo que iria ao Museu do Louvre para admirar somente a Mona Lisa?

Eagles - "Victim of Love"


1 Comentários | Clique aqui para comentar

18/03/2016 14h53

Iron Maiden abre seu Livro das Almas
Cláudio Francioni

Ainda não foi desta vez que Eddie se vestiu de malandro batuqueiro. Em meio a um panorama conturbado na política nacional, o Iron Maiden subiu ao palco na noite de ontem para apresentar seu novo álbum "The Book of Souls" e celebrar uma relação de 31 anos, entre idas e vindas, com o público carioca. Em um dia marcado por pedidos para que as pessoas vestissem preto como forma de demonstrar insatisfação com o governo, o povo atendeu às reivindicações, tirou do armário o uniforme básico do metaleiro e lotou a HSBC Arena, apesar da enorme dificuldade de acesso ao local, agravada pela chuva e por outros dois shows que aconteciam no bairro, um deles do Simply Red.

Pouca gente viu a banda The Raven Age, do filho de Steve Harris, abrir a noite antes das 19h. Quando o Anthrax subiu ao palco, a casa já estava com, pelo menos, metade de sua lotação. Como só consegui chegar pouco após o meio do show, cabe apenas a declaração de que foi o segundo show mais esporrento em que já estive presente, perdendo apenas para o...Anthrax no Metropolitan, em 2005, com o PA em um volume que atrapalha qualquer percepção auditiva.

Foto: Cláudio Francioni

A estrela principal da noite abriu sua apresentação de uma forma pra lá de estranha, com a abertura "Doctor, Doctor", do UFO, sendo tocada com a casa ainda acesa e toda a estrutura cenográfica do palco coberta por panos. Ao fim da introdução, o staff retira os panos e a banda ataca com "If Eternity Should Fail", faixa que abre o bom disco lançado no ano passado. Bruce aparece de capuz preto manipulando um caldeirão na parte alta do palco, ladeado por várias tochas. A temática do show, remetendo às extintas civilizações como Maias e Astecas, está presente em todos os cantos, incluindo o pedestal do vocalista.

O curto setlist traz seis canções do novo álbum, fato que obrigou a banda a deixar de fora alguns de seus clássicos e, inevitavelmente, criar alguns (poucos) momentos de baixa durante a apresentação. Das cinco primeiras executadas, apenas "Children of the Damned", quebrava a sequência das novas canções, embora a recepção do público a estas tenha sido excelente. A euforia deu as caras pela primeira vez na dobradinha "The Trooper" e "Powerslave", a primeira com Bruce empunhando a bandeira britânica e vestindo novamente a réplica da farda usada na Guerra da Crimeia, assim como ocorria na turnê anterior, e a segunda com uma máscara de telecatch mexicano.

Foto: Cláudio Francioni

O cantor, diga-se de passagem, merecia um post à parte, tamanha vitalidade e a voz ainda inabalável, apesar de seus 58 anos e da recém recuperação de um câncer. Monstro! Enquanto Bruce corria pelo palco, Adrian Smith, Steve Harris e Dave Murray se continham em um lado ou outro do palco enquanto Jannick Gers desfilava seu repertório de presepadas, com dancinhas e malabarismos com o instrumento. Lá atrás, Nicko McBrain e sua indefectível boca escancarada comandava a pulsação da Donzela como se tivesse entrado na banda semana passada. Um menino! Em um determinado momento, uma bandeira brasileira foi arremessada ao palco. Bruce a retirou do chão e declarou que tem visto com frequência esta bandeira na TV e que espera que as pessoas más se f*.

No fundo do palco, ao invés de costumeiros telões, painéis se alternavam, ora com uma imagem da Pirâmide de Teotihuacán, ora com a figura de Eddie encarnando personagens das civilizações pré-colombianas. E foi na faixa homônima ao disco que ela apareceu em carne e osso (ou látex). Com um machado na mão, ameaçou cortar a cabeça de Jannick, dançou com Steve, mas no fim teve seu coração arrancado por Bruce e jogado para a galera do gargarejo. 

As porradas "Hallowed be thy Name", "Fear of the Dark" e "Iron Maiden" encerraram a primeira parte, com uma gigantesca cabeça de Eddie aparecendo atrás de Nicko. No bis, "The Number of the Beast" contou com a participação especial de ninguém menos do que o próprio homenageado da canção, que apareceu em forma de boneco inflável do lado direito do palco. Em meio às explosões nas tochas ao lado do boneco, uma delas se recusava a apagar e exigiu um bom esforço de um membro do staff, que deve ter gasto um extintor inteiro na missão. Vai! Mexe com ele!

Foto: Cláudio Francioni

Fechando a noite, a dispensável e obscura "Blood Brothers" do igualmente insosso álbum "Brave New World" e a ótima, porém inesperada, "Wasted Years". Poucas bandas podem se dar ao luxo de deixar alguns de seus maiores hinos de fora de um repertório e, mesmo assim, proporcionar um bom show. O Iron é uma delas. E acredito fortemente que todos os seres do mundo, humanos ou não, vivos ou mortos, deveriam um dia na vida (ou na morte) passar pela experiência de assisti-los ao vivo.

If Eternity Should Fail
Speed of Light
Children of the Damned
Tears of a Clown
Red and the Black
The Trooper
Powerslave
Death or Glory
The Book of Souls
Hallowed Be Thy Name
Fear of the Dark
Iron Maiden

BIS:
The Number of the Beast
Blood Brothers
Wasted Years


1 Comentários | Clique aqui para comentar

17/03/2016 07h39

Série 50 anos: 'Blonde on Blonde'
Pedro de Freitas

Com Bob Dylan, fhegamos ao fim da série que homenageia meio século de vida de grandes álbuns. Confira os outros posts da série:

Revolver (Beatles)
Os Afro Sambas (Vinícius de Moraes e Baden Powell)
Pet Sounds (Beach Boys)
Chico Buarque (Chico Buarque de Holanda)

 

No início era o folk.

Trovadores existem há séculos. A figura do artista empunhando um instrumento de cordas e desfiando poemas musicados existia já na época de Shakespeare, e mesmo muito antes. Entretanto, nos anos sessenta, com a Segunda Guerra Mundial ainda bem recente, e com a proximidade de um conflito no Vietnam que poderia vir a ser o início de uma terceira guerra mundial, desta vez envolvendo potencias nucleares, o trovador e a folk music ganharam uma nova dimensão. Fortemente politizados, embebidos na cultura beat, nos movimentos pelos direitos civis e no pacifismo, os trovadores modernos tentaram mudar o mundo tendo como arma um violão. Entre eles destacava-se Robert Zimmerman, rebatizado de Bob Dylan, em homenagem ao seu poeta preferido. E Dylan antes de fazer música já fazia poesia, o que evidenciavam as letras caudalosas e extensas que eram embaladas pela música folk em suas composições. Em pouco tempo já havia composto um hino pacifista ("Blowin´ In The Wind"), e conquistado uma legião de fãs, alguns famosos como John Lennon, por exemplo.

Mas seres humanos são complicados, mesmo aqueles que querem amor e paz mundial. Em 1965, Bob Dylan ousou empunhar uma guitarra elétrica para gravar "Like a Rolling Stone", e se fez acompanhar de uma banda de rock tão boa que um tempo depois tomou vida própria com o nome marrento e desafiador de "The Band". Comprou uma briga com seus fãs. Foi o suficiente para ser rotulado de "traidor do folk" e ser sistematicamente vaiado e hostilizado nos shows. Em resposta, Dylan dobrou a aposta com aquele que até hoje é considerado o seu melhor disco: "Blonde On Blonde", um dos trabalhos mais icônicos da história da música pop.

    Foto: ReproduçãoFoto: Reprodução

Na época dos "bolachões" em vinil, "Blonde On Blonde" era um álbum duplo.  A abertura já era um desafio aos puristas: "Rainy Day Women #12 & 35" parece uma música daquelas bandas típicas de Nova Orleans.  Em clima caótico, Dylan canta o polêmico refrão "Everybody must get stoned", uma suposta apologia ao uso de drogas. Após o impacto inicial, Dylan diminui o ritmo com duas baladas, "Pledging My Time" e a belíssima "Visions Of Johanna". Mas "Blonde On Blonde" segue, eclético e inclassificável. Tem doses generosas de rock?n?roll rasgado como em "Leopard-Skin Pill-Box Hat" e "Obviously 5 Believers". Mas tem também pérolas blues, como "Most Likely You Go Your Way And I'll Go Mine" e "Absolutely Sweet Marie"; influências da música country também permeiam todo o disco. A obra prima se encerra com o épico folk "Sad Eyed Lady of the Lowlands", que na época ocupava um lado inteiro do disco de vinil. Por sobre toda a usina de força e criatividade da música de "Blonde On Blonde", entretanto, reina soberana a poesia sem a qual Dylan não seria Dylan. É simplesmente impossível curtir 100% "Blonde On Blonde" sem apreciar a caneta afiada do menestrel.

Os anos sessenta foram marcantes em termos de produção cultural. Em 66, já havíamos tido trabalhos superlativos de Beatles, Beach Boys e Rolling Stones. No ano seguinte, viriam os trabalhos de estreia de uma banda com nome composto por dois bluesmen, que criaria uma nova vertente do rock (adivinha quem?), e de um guitarrista/bruxo/extraterrestre que transformaria todos os outros guitarristas da época em dinossauros.  Mas mesmo assim, o genial "Blonde On Blonde" está entre os gigantes.  Permanece como o melhor momento de Dylan, um cantor/compositor que segue realizando trabalhos relevantes até hoje, e como um dos maiores monumentos da música popular em todos os tempos.

Bob Dylan - Just Like a Woman 



07/03/2016 09h48

Série 50 anos: Chico Buarque
Ivan Souza

Amanhece no Rio de Janeiro. Um homem se levanta, toma café, lê o jornal e sai para uma caminhada. Ele cumprimenta o porteiro e observa algumas pessoas pelo caminho. Alguns o olham com certa curiosidade, algo que ainda hoje, com 71 anos o incomoda. Outros veem apenas mais um transeunte, desses que se vê todo dia andando pelo Leblon. Assim Chico Buarque leva a vida. Uma pessoa extraordinária tentando ser normal, direito que ele perdeu em 1966 com o lançamento do histórico álbum "Chico Buarque de Hollanda".

                     Foto: ReproduçãoFoto: Reprodução

Chico teve infância, adolescência e juventude com privilégios não só financeiros como também intelectuais. Filho de Sérgio Buarque de Hollanda, grande historiador e jornalista, e Maria Amélia Cesário Alvim, pianista e pintora, Chico morou no Rio de Janeiro, São Paulo e Roma, onde além de italiano, aprendeu a falar inglês. Chegou a cursar Arquitetura na USP e sempre se viu em meio a intelectuais e artistas. Contudo, mesmo com o acesso à nata da sociedade, Chico sempre se interessou pelo cidadão comum, pelo trabalhador brasileiro, o malandro sambista, a dona de casa e quem mais fizesse parte de seu cotidiano.

Passou a produzir, desde textos, passando por poemas até canções. Uma delas o lançou à oportunidade de gravar seu primeiro álbum. "A Banda" foi a campeã (empatada com "Disparada" de Geraldo Vandré) do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record. A gravadora RGE quis aproveitar a popularidade de Chico e o disco homônimo foi então gravado.

O álbum tem 12 faixas, todas compostas por Chico, todas interpretadas por Chico e praticamente todas em ritmo de samba. Alguns poderiam dizer que há apropriação cultural de um estilo que teve origem nas camadas mais pobres da população brasileira, mas Chico é de todos. Consegue falar da realidade com a simplicidade que lhe é peculiar.

"A Rita levou meu sorriso
No Sorriso dela
Meu assunto
Levou junto com ela
O que me é de direito
E arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de São Francisco
E um bom disco de Noel"

Não há como não se identificar com Chico. Ele não usa palavras rebuscadas, usa o diálogo do dia a dia e escreve com a simplicidade que um trabalhador comum se expressaria em uma mesa de bar. Chico não é conhecido pelo talento vocal, mas é o cantor preferido de muitos. Cantor preferido mesmo, diferenciando do compositor extraordinário que é. Como alguém com uma voz tão "pequena" se torna o preferido de tantos? Justamente por ter a voz que tantos teriam ao cantar seus amores e frustrações. Seus olhos azuis não o diferenciam da maioria brasileira castanha quando ele diz que estava à toa na vida vendo a banda passar tocando coisas de amor.

O berço de ouro que Chico nasceu não o impede de jogar futebol toda semana com seus amigos, como faria um malandro sambista qualquer. O povo ama Chico Buarque porque Chico Buarque ama o povo. Este álbum é o início desse casamento tão feliz e duradouro. O Chico Buarque comum, que de maneira tão comum conseguiu descrever o dia a dia do povo, não consegue ser comum. É gênio da genialidade mais complexa, a da simplicidade.

 

Leia os outros posts da série:

Revolver: a Revolução, meio século depois

Os 50 anos de 'Os Afro Sambas'

'Pet Sounds': cinquenta anos da obra prima definitiva



03/03/2016 10h47

Mamonas Assassinas e suas divertidas influências
Cláudio Francioni

Resolvi subir este post somente hoje porque, apesar de ser oficialmente o dia 2 de março de 1996 a data do acidente que vitimou a banda, foi na manhã do dia 3 que o país acordou sob estado de choque. Não há maneiras de esquecer aquele domingo chuvoso, uma espécie de déjà-vu do sombrio 1º de maio que entrou para a história dois anos antes.

Porém, não pretendo aqui registrar a fugaz trajetória dos meninos de Guarulhos em forma de homenagem, assunto já exaustivamente explorado. Quero, sim, reviver em forma de texto o meu prazer em ouvir o único disco da banda enquanto vivos, erroneamente colocado na "prateleira" do gênero infantil. De infantil, o trabalho dos Mamonas não tinha nada. Ou alguém nunca parou pra pensar que temáticas como sexo grupal, traição ou uso de palavrões não são exatamente o que um pai deseja que seu pequeno filho ouça? A verdade é que as crianças se identificavam com as fantasias e com as brincadeiras da banda em suas aparições e, quando se percebeu do que se tratava, era tarde demais.

Foto: ReproduçãoNas 14 faixas de um álbum extremamente cuidadoso em sua gravação e mixagem, o que mais me encantava era a infindável lista de influências que a banda desenrolava em suas debochadas composições. Certa vez em uma entrevista, Dinho declarou que todas as citações eram homenagens aos artistas que eles ouviram durante toda a vida. Há coisas escancaradas a quaisquer ouvidos, como 'Crocodile Rock' de Elton John em 'Pelados em Santos', 'Should I Stay or Should I Go' do Clash em 'Chopis Centis' ou 'Tom Sawyer' do Rush em 'Bois Don't Cry' (título que brinca com o sucesso do The Cure). Em outros casos, um pouco mais escondidas, como o final de 'Mundo Animal', onde repetem um trecho de 'Toda Forma de Amor', de Lulu Santos.

Mas a diversão de quem ouvia a bolacha era ir além da obviedade. A banda não se limitava a incluir trechos instrumentais de outras canções. Explorava também toda a versatilidade da boa voz de Dinho com imitações de trejeitos vocais propositais, como Eduardo Dussek em 'Robocop Gay', onde incluíram algumas rimas que citavam quase que ocultamente a canção 'Barrados no Baile' (plástico, elástico, ginástica, bombástica/plástico, cilíndrico, cínico, místico, cirúrgico). Ou em 'Uma Arlinda Mulher', onde o cantor emula Belchior, além de copiar e colar a chamada da guitarra distorcida de 'Creep' do Radiohead, antes do refrão. Em 'Vira-Vira', primeiro sucesso do quinteto, é Roberto Leal quem incorpora no vocalista.

'Lá vem o Alemão' é uma faixa dedicada ao deboche respeitoso com o pagode mauriçola, terrível moda da época. A primeira parte é "cantada" por Luis Carlos do Raça Negra, e o refrão, por Netinho do Negritude Júnior. Em 'Cabeça de Bagre', a clara homenagem aos Titãs está no estilo da letra e na forma falada de cantar ("Loucura/insensatez/estado inevitável/embalagem de iogurte inviolável"), além dos vocais repetidos no fim de algumas palavras  ("Quando repeti a quinta série/tirava E - E, D - DÊ, de vez em quando C - CÊ").  

O peso da guitarra do ótimo Bento Hinoto e o vocal gutural de Dinho, além do título da faixa, não deixam dúvidas da homenagem em 'Débil Metal'. O álbum 'Chaos A.D.', dos mineiros do Sepultura estava estourado pelo mundo e não poderia faltar a homenagem, embora outras bandas também estivessem credenciadas a levar o crédito, como o Metallica, que ainda curtia o sucesso de seu 'Black Album' de 1991. Voltando à já citada 'Bois Don't Cry', Dinho pula do vocal brega melodramático da primeira parte e entra no refrão brincando com as bandas de metal melódico que faziam sucesso na época, acompanhando a fantástica mudança na levada instrumental. Show de bom gosto e inventividade.

Obviamente, há outras citações que não incluí no texto, ou por falha de memória, ou de ouvido. Mas fica aqui a minha homenagem a uma rapaziada criativa e talentosa que o cruel destino nos levou, mas que deixaram uma pequena obra a ser curtida para todo o sempre.

 


2 Comentários | Clique aqui para comentar

01/03/2016 13h49

Os 50 anos de 'Os Afro-Sambas'
Cláudio Francioni

Apesar de ter completado 50 anos de seu lançamento há pouco tempo, o clássico disco da dupla Baden/Vinícius começou a nascer bem antes de 1966. Em uma viagem à Bahia no início da década de 60, Baden Powell foi apresentado à cultura local pelo compositor Carlos Coqueijo. Frequentou terreiros, rodas de capoeira e voltou ao Rio encantado com a efervescência cultural baiana. Na mesma época, o violonista estudava canto gregoriano com o maestro Moacyr Santos e, misturando todas estas influências, começou a compor obras baseadas na temática vivenciada em sua viagem.

Vinícius andava encantado com o disco 'Sambas de Roda e Candomblés da Bahia', do mesmo Coqueijo, e entre 1962 e 1965, compôs com Baden as canções que viriam a formar um dos álbuns mais emblemáticos da música nacional. As oito canções misturam a impecável técnica de Baden com as percussões e cantos que transportam a atmosfera do candomblé baiano para o berço da bossa nova. Inicialmente, o projeto não levava o nome de 'Afro Sambas'. O título provavelmente teria sido inspirado em 'Afro-Bossa', álbum que Duke Ellington havia lançado em 1963.

Foto: ReproduçãoFoto: Reprodução

Foi no final de 1965 que Roberto Quartin, dono da gravadora Forma, abraçou a ideia levada por Vinícius. Sob o comando do maestro Guerra Peixe, o álbum foi gravado em apenas quatro dias no início de 1966. A rusticidade sonora das canções foi proposital, seguindo a proposta inicial do maestro para que fosse preservada a espontaneidade das criações da dupla. O objetivo era que o disco soasse como se tivesse sido gravado dentro de um terreiro. "Não nos interessava fazer um disco "bem feito" do ponto de vista artesanal, mas sim espontâneo, buscando uma transmissão simples do queriam nossos sambas dizer", declara o próprio Vinícius em um longo texto na contra-capa do disco.

A verdade é que, para ouvidos acostumados com gravações de épocas posteriores, a sonoridade é bem estranha e chega a incomodar em vários momentos. Dos vocais que ouvimos nas canções, apenas a cantora Dulce Nunes e as meninas do Quarteto em Cy eram profissionais do ramo. O resto das vozes foram gravadas pelo próprio Poetinha e por amigos que pouco tinham a ver com o assunto, incluindo a novata atriz Betty Faria (!!!), que divide os vocais de 'Canto de Ossanha' com Vinícius.

Apesar de ser criticado, inclusive por Baden Powell que declarou na época não ter gostado da qualidade da gravação, o disco se tornou um clássico, gerando uma série de regravações e releituras de suas canções. O violonista se tornou evangélico na década de 80 e passou a não mais executar as suas composições que possuíssem citações diretas às religiões de origem africana. Porém, em 1990, Baden regravou o disco com o Quarteto em Cy, incluindo três faixas ('Abertura', 'Labareda' e 'Variações Sobre Berimbau'), para uma campanha promocional de um banco.

'Canto de Ossanha' - Baden Powell e Vinícius de Moraes



26/02/2016 15h23

'Pet Sounds': Cinquenta anos da obra prima definitiva
Leonardo Jorge

"Pet Sounds" é, sem sombra de dúvida, o trabalho mais icônico da extensa discografia dos Beach Boys. Lançado em maio de 1966, este divisor de águas marca a ruptura com o surf rock (trocadilho 1) que levou a banda ao auge e entra na onda (trocadilho 2) do psicodelismo, com pitadas na medida exata de rock e pop, que fizeram dele uma verdadeira referência na história da música.

Ouvir "Pet Sounds" é quase um evento. Os poucos mais de 36 minutos distribuídos em 13 faixas nos leva a uma viagem inovadora e experimental. O capitão deste voo é Brian Wilson, que é coautor das canções, além de produtor e arranjador do disco. Wilson se permitiu ir além dos instrumentos convencionais e usar campainhas, buzinas de bicicleta, flautas e apitos variados, garrafas de refrigerante, latidos de cães e até sons de trens. E a precisão cirúrgica na utilização desses elementos monta o som tão único e especial deste trabalho. Aqui, o jovem de 23 anos, inspirado pelo amadurecimento mostrado pelos Beatles em "Rubber Soul", mostrou que também queria crescer. E o fez, mas em proporções inimagináveis.

Foto: ReproduçãoFoto: Reprodução


"Wouldn't It Be Nice" é a faixa de abertura do álbum e dá o tom do que vem a seguir. Com uma bela melodia e harmonização impecável, não seria exagero dizer que foi aqui o início da transformação da música pop. Destaco também o grande trabalho vocal da banda em "Sloop John B", a simplesmente perfeita "God Only Knows", a instrumental e percussiva "Pet Sounds", com sua vibe 007 (originalmente, a faixa foi pensada para ser um tema do espião britânico e se chamava "Run James Run") e a balada "Carolina No", fechando o disco de forma magistral.

Depois de ouvir "Pet Sounds", fica a certeza de que testemunhamos algo especial: a materialização do estado puro da criatividade musical. Brian Wilson liderou os Beach Boys na criação de uma obra prima do alto de seus 23 anos e isso também serve para justificar o grande reconhecimento de público e crítica ao aclamar esse disco como um dos maiores - senão o maior - de todos os tempos. O lendário produtor dos Beatles, George Martin, disse que não talvez não houvesse "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band" se não fosse por "Pet Sounds" e isso por si só já mostra sua grandiosidade e importância. O mundo da música agradece e torce para que, às margens de seu aniversário de 50 anos, ele ainda sirva de inspiração para muitos por mais 500 anos.

Beach Boys - Wouldn't Be Nice

 


1 Comentários | Clique aqui para comentar

23/02/2016 15h00

'Revolver' : a Revolução, meio século depois
Pedro de Freitas

Caros leitores. Eis a nossa nova série, onde relembraremos álbuns clássicos que completam décadas redondas de lançamento. E não haveria melhor forma de começarmos a não ser Beatles.

 

Há uns anos atrás, conheci Liverpool. 

Estava de passagem por Londres, e lá fiz amizade com outro brasileiro, um recifense completamente fissurado pelos Beatles. Ele insistiu para que fôssemos a Liverpool no fim de semana e concordei. Não me arrependi: Liverpool é uma grande cidade. Mesmo assim não passou incólume ao fato de ser a terra natal da maior banda de rock de todos os tempos. Os Beatles estão devidamente incorporados à cultura e até à economia local.

Algumas atrações da cidade são do tipo "não deixe de ir", como o mitológico Cavern, a casa de espetáculos situada em um antigo abrigo antiaéreo onde os Beatles tocavam no início de carreira. Outras não são tão óbvias assim. Um simpático motorista de taxi nos levou à igrejinha de St Peter. Nos fundos do templo há um pequeno cemitério. Parei na frente de um dos túmulos e li na lápide: "Eleanor Rigby". Cinco passos adiante, estava enterrado um homem de sobrenome Mackenzie. "Father Mackenzie", pensei eu, me lembrando da letra da música. Liverpool faz parte do rol de cidades que têm um cemitério como atração turística.

Foto: ReproduçãoGraças ao magnífico e espetacular "Revolver" o disco que representou uma guinada na carreira do "Fab Four", e que mudou a cara da música e cultura pop para sempre. No álbum "Rubber Soul", os Beatles já davam sinais de que queriam mudar e iriam deixar para trás o passado de "boy band", de grandes turnês e perseguições por hordas de adolescentes histéricas.

Um primeiro passo foi, em 1966, declararem a intenção de não mais se apresentarem em concertos ao vivo, promessa somente quebrada uma única vez, já no final da carreira, no famoso "concerto do telhado", no topo do edifício da gravadora Apple, em Londres. Mas a ruptura somente se consolidou com o lançamento de "Revolver". Absolutamente revolucionário, foi o primeiro disco dessa segunda fase dos Beatles (ainda viriam "Sargent Pepper's", o Álbum Branco e "Abbey Road"). Os Beatles apontaram esse "Revolver" para toda a cultura e arte pop do século XX. E dele saíram flores coloridas e psicodélicas. 

Tudo em "Revolver" é marcante, da capa do disco feita de colagens (técnica repetida com êxito ainda maior em "Sargent Pepper's") ao repertório matador. A aula de música começa com "Taxman",de George Harrison, que satiriza a voracidade do estado britânico (e poderia servir também para alguns países sul americanos!). George passou a ter influência cada vez maior na segunda fase da carreira dos Beatles. Findo esse cartão de visitas, um coro e um quarteto de cordas anunciam os primeiros acordes da majestosa "Eleanor Rigby". Paul McCartney passou a vida negando a mórbida influência do cemitério na letra da música. Porém, creio mais no que meus olhos já viram: os túmulos de Eleanor, Mackenzie & "all the lonely people"?

Na sequência do disco, John Lennon entoa um saboroso hino à preguiça ("I'm Only Sleeping"), e "Love You To" é a primeira música que mostra de maneira explícita a influência oriental na música dos Beatles. Em seguida, a balada "Here, There And Everywhere", que se tornou um dos maiores sucessos românticos da banda. Falando em sucesso, a música seguinte, "Yellow Submarine", conquistou os corações infantis. A partir daí, ouvir Beatles passou a ser coisa de criança também. Cantada por Ringo Starr, utiliza toda uma sonoplastia que dá uma idéia de movimento em uma embarcação, e transforma a canção em um "cartoon em forma de  música". "She Said, She Said" e "And Your Bird Can Sing", com seus "riffs" de guitarra pegajosos, mostram que os Beatles não se descuidaram de suas raízes roqueiras. Mas o diferencial do disco é o mix de experimentalismo frenético e apuro melódico nas composições.

Foto: Reprodução"For No One"  é uma canção perfeita, que poderia ter sido idealizada por um Cole Porter, um George Gershwin, ou outro compositor que não tenha reconhecido barreiras entre o pop e o clássico. Já "Good Day Sunshine" é a melhor música do mundo para se ouvir em um dia ensolarado. Após se maravilhar ao longo de dez músicas, qualquer mortal diria: é o suficiente. Mas ainda tem uma última música. E, em um disco como esse, não poderia ser uma última música qualquer.

Algum tempo antes das gravações de  "Revolver", os Beatles vinham flertando com a música concreta produzida por compositores eruditos de vanguarda como Varèse e Stockhausen. Creio que a ambição artística ilimitada deles fez com que procurassem um meio de unir aquilo à música pop. O  resultado foi "Tomorrow Never Knows" uma música brilhantemente transgressora, que, segundo se viu depois, estava no mínimo uns trinta anos adiante do seu tempo.

A sensação que se tem é que durante a gravação dos três minutos de "Tomorrow Never Knows" abriu-se um portal em uma nova dimensão onde tudo era permitido. A marcação de bateria de Ringo é hipnótica, e inspirada em ritmos indianos. A gargalhada de Paul foi distorcida para se assemelhar ao som de um pássaro. É dele também o estranho solo de guitarra, que foi gravado e em seguida tocado de trás para frente. George toca cítara, tambura e outros instrumentos orientais exóticos. John Lennon solta a voz, meio entorpecida e comprimida por efeitos de estúdio, recitando versos inspirados nos livros sagrados de monges do Tibete:

"Desligue sua mente, relaxe e flutue com a correnteza,
Isso não é morrer, isso não é morrer,
Abandone todos os pensamentos, renda-se ao vazio,
Isso é brilhar, isso é brilhar,
Você pode ainda ver o significado do seu interior,
Isso é ser, isso é ser,
Amor é tudo e amor são todos,
Isso é saber, isso é saber"

Em volta de tudo isso, uma sinfonia caótica feita de ruídos, loops de gravação, colagens de sons, e o que mais viesse na cabeça dos quatro. Hoje vemos ecos deste experimento revolucionário em toda a música pop atual, do Hip Hop à música eletrônica. Toda essa galera deveria reverenciar os Beatles e "Tomorrow Never Knows".

A última prova da atemporalidade de "Revolver" veio com meu filho. Desde que usava fraldas, ele adorava as músicas deste disco. Hoje ele cantarola música após música de "Revolver" sem pular uma sequer. Um dia nós passaremos, e nossos filhos depois de nós. Mas estou certo que "Revolver" sobreviverá por gerações, como uma contribuição da banda de Liverpool para o patrimônio da humanidade.

Beatles - "Tomorrow Never Knows"


1 Comentários | Clique aqui para comentar

21/02/2016 11h21

Stones dão Olé no Maracanã
Cláudio Francioni

Um show dos Stones é mais ou menos como os antigos descreviam uma jogada de Garrincha: todos sabem o que será feito, mesmo assim o encanto é inevitável. Ou, utilizando o título da atual turnê que roda a América Latina, é "Olé" na certa.

Após um temporal que caiu durante o show do Ultraje a Rigor, o atraso de 20 e poucos minutos até que ficou barato. Como vêm fazendo em quase todos os últimos shows, os velhinhos abriram a noite metendo o pé na porta, com "Start me Up" seguida por "It's Only Rock'n'Roll (But I Like It)". 

- Veja fotos do show do Rolling Stones no Maracanã

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

O setlist apresentou poucas diferenças para o que foi apresentado no Chile e Argentina, e a melhor delas veio na primeira metade do show. Mick anunciou que aquela era a canção escolhida pelo público brasileiro. "Like a Rolling Stone" pegou boa parte dos 66 mil presentes de surpresa e milhares de ciscos se espalharam pelos olhos da rapaziada mais velha. 

Pouco depois, outra mudança no roteiro. "Angie" só havia sido executada uma vez nesta turnê, em um dos shows na Argentina. O inacreditavelmente ainda vigoroso Mick era o único a se utilizar com frequência da passarela que invadia o gramado enquanto o resto da banda preferia manter suas posições originais em campo. Assim como no Chile e Argentina, Charlie Watts vestiu as cores do país, uma camisa amarela e uma calça verde.

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

Logo após "Paint it Black" e a clássica "Honky Tonk Women", Keith Richards toma para si o microfone e dispara "You Got the Silver", do lendário álbum "Let it Bleed" (1969) e "Before They Make me Run". Este momento do guitarrista assumindo os vocais tem se repetido em todos os shows, porém as canções se alternam a cada noite. "Happy", "Can't Be Seen" e "Slipping Away" também vêm sendo cantadas por Keith, mas desta vez ficaram de fora.

O deslize da noite ficou por conta do inacabável blues "Midnight Rambler" que beirou os 14 minutos de execução, mas a quina final acabou compensando o sacrifício. "Miss You", "Gimme Shelter", "Brown Sugar", "Sympathy for the Devil" e "Jumpin' Jack Flash"...ufa. Pedrada atrás de pedrada. Haja gogó, perna e coluna, coisas que, convenhamos, os fãs de Stones já não possuem tão saudáveis assim. No bis, nada de mudanças. "You Can't Always Get What You Want" com participação do Coral da PUC e "(I Can't Get No) Satisfaction".

Novidades? Bobagem! Eram os mesmos Stones que vi em 1995, ali mesmo no ex-maior do mundo, e em 2006 em Copacabana. Uma banda coesa contando com o auxílio de alguns músicos de apoio (incluindo a excelente estreante Sasha Allen nos vocais), as mesmas canções de sempre e praticamente a mesma forma de executá-las...but i like it.

SETLIST

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES 

Confira fotos do show:

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

Foto: MARCOS DE PAULA / STAFF IMAGES

Curta a página do SRZD no Facebook:



18/02/2016 12h18

Rolling Stones no Rio: Guia completo
Cláudio Francioni

Foto: Divulgação

A banda Rolling Stones se apresenta neste sábado, dia 20 de fevereiro, no estádio do Maracanã no Rio de Janeiro. Confira o guia completo com informações sobre acessibilidade e segurança.

HORÁRIOS

Abertura dos portões: 16H
Doctor Pheabes: 18h30
Ultraje a Rigor: 19h30
Rolling Stones: 21h30

COMO CHEGAR

- Transporte Público: Para acessar o lado Oeste do estádio (rampa da UERJ e entradas A, B, C), desembarque na estação Maracanã do metrô e para acessar o lado Leste do estádio (rampa do Bellini e entradas D, E, F) desembarque na estação São Cristóvão. Existe também a opção de acesso pela Super Via e ônibus.

- A CET-RIO apoiará na orientação e sinalização do trânsito local. Para maiores informações sobre ruas e vias, acesse o site www.rio.rj.gov.br/web/cetrio.

OBJETOS PROIBIDOS

- Vasilhames, copos de vidro ou qualquer outro tipo de embalagem, contendo bebidas ou refrigerantes de qualquer natureza que, direta ou indiretamente, possam provocar ferimentos; objetos de vidro, plástico ou metal como perfumes e cosméticos;

- Substâncias tóxicas; fogos de artifício e de estampido; inflamáveis em geral; armas de fogo ou armas brancas de qualquer tipo;

- Hastes de selfie ou guarda-chuvas de qualquer tamanho;

- Papel em rolo, jornais, revistas, bandeiras e faixas com mastro;

- Capacetes de motos e similares;

- Correntes, cinturões e pingentes;

- Alimentos: apenas permitido alimentos industrializados, com a embalagem lacrada originalmente como salgadinhos e bolachas. Frutas, apenas cortadas;

- Máquinas fotográficas profissionais com lente intercambiável; filmadoras;

- Não será permitida a entrada de roupas e acessórios com formatos e partes pontiagudas que possam machucar ou causar lesões.

SERVIÇOS E INFORMAÇÕES

Alimentação - Aproveite para comer e beber enquanto o show não começa. Haverá tendas e bares distribuídos pelo estádio onde serão vendidos sanduíches, água, refrigerantes, cerveja, etc.

Lei Antifumo - O fumo é proibido nas áreas cobertas de acordo com a Lei Federal 9.294/1996, regulamentada pelos Decretos 2018/1996 e 8262/2014.

Bebida para menores - De acordo com a lei 14.592 de 19 de outubro de 2011, não vendemos, ofertamos, entregamos ou permitimos o consumo de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos. Venda apenas mediante apresentação de identidade.

Cadeira Cativa: Para acesso ao show, os proprietários utilizarão o mesmo sistema adotado nos jogos de futebol, entrando pelo Portão A - logo após a rampa do Metrô, com o uso do cartão de cadeira cativa.

ACESSOS

SETOR

PORTÃO

CADEIRA MARACANÃ + OESTE

A

CADEIRA MARACANÃ + LESTE

D

CADEIRA INFERIOR LESTE

D

CADEIRA INFERIOR OESTE

A

CADEIRA SUPERIOR LESTE

D

CADEIRA INFERIOR SUL

C

CADEIRA SUPERIOR 2 SUL

B E C

CADEIRA SUPERIOR NÍVEL 5

A

PISTA PREMIUM OUROCARD

E e F

PISTA

10A e 10B

PNE - TODOS OS PORTÕES POSSUEM ACESSO PARA PESSOAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS.

 

DICAS ÚTEIS

- Dê preferência ao transporte público. Verifique o site da Prefeitura para opção de vans.

- Não compre ingresso de cambistas ou pessoas desconhecidas na rua.

- Programe-se. Saia com pelo menos 04 horas de antecedência e verifique eventuais vias que estarão bloqueadas para o evento.

- Caso vá de Táxi: Combine antecipadamente a ida e a volta do show com um taxista próximo de sua casa.

- Use roupas leves e hidrate-se constantemente.

 

Única apresentação: Sábado, 20 de fevereiro de 2016.

Local: Estádio do Maracanã - Rua Professor Eurico Rabelo, Maracanã, Rio de Janeiro

Ingressos: de R$ 130 a R$ 900

Classificação etária: 16 anos. De 05 a 15 permitida a entrada acompanhado de pais ou responsáveis legais. Proibida a entrada de menores de 05 anos.

 

SETORES

½ ENTRADA

INTEIRA

PISTA PREMIUM OUROCARD

R$ 450

R$ 900

PISTA

R$ 220

R$ 440

CADEIRA INFERIOR LESTE

R$ 290

R$ 580

CADEIRA SUPERIOR LESTE

R$ 190

R$ 380

CADEIRA MARACANÃ MAIS - LESTE LOUNGE

R$ 450

R$ 900

CADEIRA INFERIOR OESTE

R$ 290

R$ 580

CADEIRA MARACANÃ MAIS - OESTE

R$ 450

R$ 900

CADEIRA INFERIOR SUL

R$ 170

R$ 340

CADEIRA SUPERIOR NIVEL 2 - SUL

R$ 130

R$ 260

CADEIRA SUPERIOR NIVEL 5 - SUL

R$ 130

R$ 260

 

- Meia-entrada: obrigatória apresentação do documento previsto em lei que comprove a condição de beneficiário: no ato da compra e entrada do evento (para compras na bilheteria oficial e pontos de venda físicos) / na entrada do evento (para compras via internet ou telefone).

- Clientes Banco do Brasil com Ourocard contaram com pré-venda exclusiva de ingressos, com parcelamento da compra em 4X.

- Clientes Banco do Brasil tiveram a opção de trocar os pontos adquiridos no programa Ponto Pra Você por ingressos. Benefício limitado a 2 (dois) ingressos por CPF. Aquisição de ingressos com pontos sujeita aos critérios do regulamento do Programa Ponto pra Você, disponível em bb.com.br. Os clientes que compraram ingressos com pontos do Programa Ponto pra Você PPV receberão de brinde 1 (um) DVD da banda, limitado a 1 (um) DVD por CPF. O benefício foi válido até atingir o volume de ingressos disponíveis.

- Venda para o público em geral disponível desde 14 de dezembro de 2015.

- Durante a venda geral, clientes Banco do Brasil com Ourocard podem parcelar a compra em até 2X.

- Clientes Banco do Brasil com cartão Ourocard Elo tiveram 10% de desconto até o dia 31/01/2016.

- No dia do show, clientes Banco do Brasil contarão com entrada diferenciada no estádio.

 

BILHETERIA OFICIAL - SEM TAXA DE CONVENIÊNCIA

Metropolitan - Av. Ayrton Senna, 3000 - Shopping Via Parque - Barra da Tijuca.

Horário de funcionamento: Segunda-feira: fechada. De terça a sábado: 12h às 20h. Domingo e feriado: 13h às 20h.

 

LOCAIS DE VENDA - COM TAXA DE CONVENIÊNCIA

- Pela Internet: www.ticketsforfun.com.br

Taxa de conveniência e de retirada.

- Pontos de venda no link: http://premier.ticketsforfun.com.br/shows/show.aspx?sh=pdv

 

FORMAS DE PAGAMENTO

Dinheiro; cartões de crédito MasterCard, American Express, Visa e Diners Club; cartões de débito Visa Electron e MasterCard débito.

 

PROVÁVEL SETLIST

Start Me Up
It's Only Rock 'n' Roll (But I Like It)
Tumbling Dice
Out of Control
She's So Cold
Wild Horses
Paint It Black
Honky Tonk Women
Slipping Away
Can't Be Seen
Midnight Rambler
Miss You
Gimme Shelter
Brown Sugar
Sympathy for the Devil
Jumpin' Jack Flash

BIS:
You Can't Always Get What You Want
(I Can't Get No) Satisfaction