Barão na dose certa
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 22/04/2013 13h53
Atualmente, um show do Barão vermelho não foge muito do script previsível. Com 32 anos de vida e sem lançar um disco de inéditas desde 2004, a banda se reúne esporadicamente (geralmente nas férias da carreira solo de Frejat) para saciar a saudade dos milhões fãs angariados neste tempo. Não tem pra onde correr. Para quem já assistiu a quase 30 shows do Barão, é difícil se surpreender. Uma música um pouco mais obscura incluída no repertório aqui, uma mudança nos arranjos ali, mas o básico é o mesmo. Porém sempre valeu à pena e sempre valerá. O Barão é único por manter-se fiel ao rock, mesmo passeando por outras praias neste tempo de existência. Sua energia no palco é contagiante até nas canções mais batidas, aquelas que você não aguenta mais escutar. O show do último sábado, dia 20, era anunciado como o último da curta turnê "+1 Dose", porém há mais duas datas marcadas, uma em Natal e a outra em Recife.

Após o show de abertura dos Autoramas e um atraso de mais de 45 minutos, o sexteto entrou no palco ao som de uma base pré-gravada como um mantra percussivo que anunciava repetidamente "lá vem o avião do Barão". E a aeronave decolou com "Por que a gente é assim?", do álbum "Maior Abandonado" de 1985, cujo primeiro verso é exatamente o nome da turnê. Vale lembrar que esta canção só se tornou um clássico após seu registro no "Barão Ao Vivo", de 1989, numa versão bem mais pesada que a original. Depois da tradicional emenda, a segunda música foi outra que passou pelo mesmo processo. "Ponto Fraco", do álbum de estreia da banda, só virou hit depois da injeção de peso de "Ao Vivo". Fechando o primeiro set, "Pense e Dance", com Peninha fazendo seu showzinho particular, como de costume. Este se diverte mais do que qualquer um.
O som era perfeito para a ocasião. Alto e muito bem definido. Roberto Frejat, que teve um microfone caindo em seu colo em 1986, evoluiu muito como cantor. Guto Goffi, outrora um baterista pra lá de normal, estudou, correu atrás e hoje é um músico que domina muito bem as técnicas de seu instrumento. Rodrigo é a cara do Barão. Apesar estar longe de seu um Dadi, seu antecessor, é energia pura no palco, a ponto de lhe render a queda do transmissor de seu ear, enlouquecendo seus roadies. Maurício Barros é meu ídolo. Sabe sempre o que as canções precisam. Em alguns momentos encharca as canções com seu Hammond. Em outros, marca o piano característico do bom e velho rock’n roll. E Fernando Magalhães é o complemento perfeito para os arranjos de Frejat.

Boa noite inicial, blá blá blá costumeiro e voltemos ao rock. "Cuidado", do último registro de inéditas em 2004 emendando com "Menina Mimada" (com direito ao riff de guitarra de "Vida Louca Vida"), "Billy Negão" e "Carne de Pescoço", todas dos dois primeiros álbuns. "Meus Bons Amigos" fecha uma sequência de perder o fôlego. Frejat pega o violão e puxa, juntas como sempre, "Política Voz" e "Tão Longe de Tudo", do maravilhoso disco "Na Calada da Noite", de 1990. A balada "Por Você" vem na versão do "MTV ao Vivo" e "O Poeta Está Vivo" tem o lindíssimo e original solo de Fernando. "Bilhetinho Azul", canção que fecha o primeiro disco, tem apenas Frejat no violão e os outros cinco integrantes nos vocais.
Logo depois o cantor conta a história da remasterização deste disco e fala sobre "Sorte e Azar", faixa que ficou de fora do "Barão I", aproveitada agora pela banda. "Pedra, Flor e Espinho" e a versão baronesca para "Vem Quente que Eu Estou Fervendo" vem a seguir, com os metais executados em base pré-gravada. A batidíssima "Bete Balanço" é emendada com a ótima "A Chave da Porta da Frente", de 2004.

A reta final do set regular tem "Puro Êxtase", do disco homônimo que configura um deslize perdoável do Barão, "Quando o Sol Bater..." (prefiro a original), "Declare Guerra" (com momento batidão antes do solo) e "Maior Abandonado". Desta vez foram deixadas de fora do setlist "Todo Amor que Houver Nessa Vida" e "Down em Mim", que vinham sendo executadas nos shows anteriores.
O bis motivacional tem "O Tempo Não Pára" (com citação a Renan Calheiros), "Tente Outra Vez" (com participação do saxofonista Beto Saroldi (ex-Fagner, Eduardo Dussek, Erasmo, Lulu e outros) e "Pro Dia Nascer Feliz". No segundo retorno da banda ao palco, "Codinome Beija-Flor" e "Satisfaction" com a participação dos Autoramas e novamente Beto Saroldi. Antes da última música, Frejat puxa um parabéns para os aniversariantes Fernando Magalhães e...eu! Obrigado, Barão. Não precisava. Como presente, gostaria apenas que vocês não me impusessem hiatos tão longos. Outras muitas doses serão sempre muito bem-vindas.
Set list
1-Por que a Gente é Assim?
2-Ponto Fraco
3-Pense e Dance
4-Cuidado
5-Menina Mimada
6-Billy Negão
7-Carne de Pescoço
8-Meus Bons Amigos
9-Política Voz
10-Tão Longe de Tudo
11-Por Você
12-O Poeta Está Vivo
13-Bilhetinho Azul
14-Sorte e Azar
15-Pedra, Flor e Espinho
16-Vem Quente Que Eu Estou Fervendo
17-Bete Balanço
18-A Chave da Porta da Frente
19-Puro Êxtase
20-Quando o Sol Bater na Janela do teu Quarto
21-Declare Guerra
22-Maior Abandonado
Bis
23-O Tempo Não Pára
24-Tente Outra Vez
25-Pro Dia Nascer Feliz
Bis 2
26-Codinome Beija-Flor
27-(I Can't Get No) Satisfaction
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'Comedown Machine': crítica do novo álbum do The Strokes
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 14/04/2013 21h32
Quando, em 2001, a imprensa especializada resolveu pendurar nos americanos do The Strokes uma etiqueta escrita "Salvadores do Rock", esqueceram de perguntar para Julian Casablancas e seus companheiros se eles queriam carregar esse fardo ou apenas mostrar sua música ao mundo. Agora, 12 anos mais tarde e 5 discos depois, temos a resposta. O álbum "Comedown Machine" aponta para escancaradas influências oitentistas, consolidando o caminho que começou a ser traçado em "Angles", de 2011. Paradoxal, não? A banda que foi taxada como aquela que resgatou o rock, agora faz questão de deixar explícita a sua admiração pela década que os sabichões declaram ter enterrado o gênero. Confesso, adoro essa quebra de rótulos e me encantei com "Comedown..." desde a primeira audição. Como ainda não tinha ouvido o disco anterior, levei um choque no início. Parei e, antes de continuar, corri pro "Angles" para entender o que estava acontecendo. Talvez os fiéis seguidores da banda desde "Is This It" não gostem, mas se ouvirem com carinho, perceberão que algumas características iniciais ainda estão ali. A voz angustiada de Julian e as guitarras agressivas aparecem em vários momentos do disco.
"Tap Out", a faixa de abertura e o motivo do meu susto, é synthpop puro. Ou melhor, é synthpop (muito bem) reinventado. Em vários momentos sentimos o bom cheiro de New Order, A-ha ou David Bowie. "Welcome to Japan", "Happy Ending" e "One Way Trigger" são canções que seguem a mesma linha de influência. Nesta última, o primeiro single retirado do disco, os sintetizadores com um timbre de forró de quinta qualidade remetem subitamente a "Take on Me". Nem as baladas "80's Comedown Machine" e "Partners in Crime" escapam do viés oitentão.
O Strokes com suas particularidades originais, arranjos crus e agressivos, aparece já na segunda faixa, "All the Time" e se repete mais tarde em "50/50" e "Chances". A voz de Julian em falsete também é outra constante do trabalho. Aliás, em vários momentos parece que a mixagem propositalmente enterrou a voz no meio da massa instrumental. O resultado é curioso. Os arranjos são muito bem cuidados e inventivos. Nada cheira a velho apesar da clara inspiração retrô. Até a soturna "Call it Fate, Call it Karma", que fecha o disco num clima diferente de todo o disco, é interessante. Recomendo sem restrições. O Strokes escolheu fazer boa música, independente de salvar ou não um gênero que tenho minhas dúvidas se precisou ser salvo algum dia.
The Strokes - "One Way Trigger"
The Strokes - "Tap Out"
The Strokes - "Welcome to Japan"
The Strokes - "Happy Ending"
The Cure comanda longa noite no Rio de Janeiro
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 07/04/2013 22h24

No palco, Robert Smith é um cara de poucas palavras. Uma meia dúzia de agradecimentos e um "não falo português há seventeen fucking years", para lembrar o tempo em que esteve afastado dos palcos brasileiros. Esse foi o panorama do show do The Cure na quinta-feira última no HSBC Arena, Rio de Janeiro. Pouquíssima falação, muita música. Mas muita mesmo. Não me recordo de ter visto um show com 40 músicas nem nos tempos áureos de Morro da Urca, onde os artistas costumavam se apresentar por horas a fio.
Musicalmente ótimo, funcionalmente péssimo. Um espetáculo com 3h20 de duração em uma sexta ou sábado é uma maravilha. Numa quinta é complicado, começando pelo acesso. Apesar de ter um espaço maravilhoso para eventos deste porte, chegar ao ginásio em dia normal de trabalho encarando a Avenida Abelardo Bueno em hora de rush é um esforço quase hercúleo. Não deu outra. Pouco antes de 21h30, horário marcado para o início do show, havia diversos espaços vazios. Um membro da organização foi ao microfone e anunciou que teríamos meia hora de atraso a pedido da banda, para dar chance de todos chegarem. Mas não chegaram e ficou a pergunta: onde estavam os ingressos esgotados? A casa tinha, numa previsão pra lá de otimista, 60% de sua lotação. Voltando ao horário, imaginem vocês a que horas o show acabou.
Pontualmente atrasado em meia hora, Bob Smith subiu ao palco com sua tradicional maquiagem borrada para abrir a noite com "Open", do álbum "Wish" de 1982. Com arranjos bem ensaiados e próximos dos originais, o Cure passeou por quase toda a sua discografia. Dos treze álbuns de estúdio, apenas dois não tiveram canções no set list: "Faith" de 1981 e "Bloodflowers" de 2000. Ainda no início do show, a banda disparou "Inbetween Days" e "Just Like Heaven", dois de seus grandes sucessos. Além do cantor, o único remanescente do início dos anos 80 é o baixista Simon Gallup. Completam o time o tecladista Roger O'Donell (ex-Thompson Twins), o baterista Jason Cooper e o guitarrista Reeves Gabrels (ex-David Bowie). Gallup era o único a expressar alguma energia no palco, se movimentando o tempo todo, porém em nenhum momento interagindo com as esquisitas e típicas dancinhas de Smith.
O único elemento cenográfico no palco era o telão de fundo, mostrando de imagens desconexas a paisagens aéreas, passando pelos fofos coraçõezinhos de "Friday I'm in Love". O riff de sintetizador de "The Walk" ganhou acompanhamento do povo em um bom momento da noite. Depois de 2h30 a banda volta para o primeiro bis, com apenas três canções. Mas o melhor estava por vir. No segundo retorno ao palco mais dez músicas, incluindo os clássicos "Lovecats", "The Caterpillar", "Close to me", "Why Can't I Be You" e "Boys Don't Cry". No gran finale, a faixa que abria o primeiro disco da banda, "10:15 Saturday Night", de pegada clashiana e "Killing an Arab". Mesmo com 40 canções, o chato do blogueiro sentiu falta de "The Blood" (junto com "The Caterpillar", minha favorita). Uma noite para o fã saciar toda a sede de Cure cultivada por 17 anos, mas da próxima vez, que seja num final de semana.
Set list
1 Open
2 High
3 The End of the World
4 Lovesong
5 Push
6 In Between Days
7 Just Like Heaven
8 From the Edge of the Deep Green Sea
9 Pictures of You
10 Lullaby
11 Fascination Street
12 Sleep When I'm Dead
13 Play for Today
14 A Forest
15 Bananafishbones
16 Shake Dog Shake
17 Charlotte Sometimes
18 The Walk
19 Mint Car
20 Friday I'm in Love
21 Doing the Unstuck
22 Trust
23 Want
24 The Hungry Ghost
25 Wrong Number
26 One Hundred Years
27 End
Bis
28 Plainsong
29 Prayers for Rain
30 Disintegration
Bis 2
31 Dressing Up
32 The Lovecats
33 The Caterpillar
34 Close to Me
35 Hot Hot Hot!!
36 Let's Go to Bed
37 Why Can't I Be You?
38 Boys Don't Cry
39 10:15 Saturday Night
40 Killing an Arab
'What About Now': análise do novo álbum de Bon Jovi
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 31/03/2013 12h26

Feliz Páscoa, amigos, seja lá o que ela signifique para cada um.
Lá se vão 23 anos de sua primeira aparição por aqui. E eu lá estava, meus caros, no saudoso Hollywood Rock. Praça da Apoteose, segunda noite de shows em 1990. Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Marillion do então recém chegado Steve Hogarth e eles, Jon, Alec, David, Ritchie e Tico: o Bon Jovi no auge. Haviam lançado o ótimo "New Jersey" pouco mais de um ano antes. "Born to be my baby", "Bad medicine", "I'll be there for you", "Blood on blood" e "Lay your hands on me" tocavam aqui em casa até furar o vinil, este vivendo seus últimos dias de glória no período pré-CD.
E foi exatamente com o clima inicial de "Lay your hands..." que a noite começou (confira no vídeo abaixo). Escuro total, gritos sincronizados com as luzes, Tico Torres sozinho no palco. Uma simples virada na caixa, uma explosão e lá vem eles. Energia pura. Jon com trejeitos estudados segundo a cartilha poser David Lee Roth, interagindo o tempo todo com Alec John Such, Ritchie Sambora com uma double neck e David Bryan com uma cabeleira à la Irene Ravache. Logo em seguida "I'd die for you", "Wild in the streets" e "You give love a bad name". "Livin' on a prayer" fechou o setlist regular e no bis "Never say goodbye", "Runaway", "Wanted dead or alive" e "Bad medicine". Uma porrada. Épico, amigos. Depois os vi no mesmo local em 1996, na turnê de "These Days", já não tão no auge assim, mas curtindo um rótulo de banda amadurecida.
Por que essa longa introdução saudosista? Porque tenho medo do que verei no próximo Rock in Rio. A julgar pelos últimos trabalhos, verei muito provavelmente uma banda que precisará apelar para os sucessos com mais de 20 anos de idade para agradar aos velhos fãs. Bom, na verdade as velhas fãs, em sua maioria, estarão lá para suspirar pelo sorriso e por outros atributos do cinquentão dono da bola, mesmo que ele cante "Ah, Lelek". Ou mesmo que ele não cante.
O recém lançado "What About Now", décimo segundo álbum de estúdio da banda, gera um misto de tristeza com constrangimento. Tá legal, eu aceito o argumento de que o glam rock caiu em desuso. A popular farofa não tem mais espaço. A guinada na carreira do Bon Jovi não é recente. Buscando continuar sob os holofotes, há algum tempo abandonaram o peso e buscaram um caminho mais pop.
Em "What About...", chegamos a esquecer que a banda conta com um guitarrista de primeira linha. Não há um riff, não há um solo marcante. Apenas pequenas frases pouco inspiradas em alguns momentos. Quem praticamente toma conta do disco é David Bryan, abusando das camas de teclados, buscando um padrãozinho vendável. Jon está longe de merecer uma aposentadoria. Embora o trabalho seja recheado de linhas vocais pouco criativas, o cantor continua com o timbre interessante e bom alcance. As letras são sofríveis. Algumas parecem ter saído de um livro de auto ajuda (ain't no soldier / but I'm here to take a stand / beacuse we can / our love can move a mountain). Nem as baladas, outra forte arma do BJ, conseguem convencer. "Amen" é chatinha de doer.
Claro que há bons momentos no disco. "I'm with you", "Every Road Leads Home to You" (cantada por Ritchie) ou até mesmo a faixa título são boas canções e chegam a grudar na memória durante um tempo. Se formos analisar o disco isoladamente dá até pra ouvir algumas vezes e se divertir. Mas quando lembramos que se trata de um álbum do Bon Jovi a decepção é inevitável. Por isso, em setembro lá estaremos para ouvir as mesmas músicas de 23 anos atrás. O único problema é que eu não tenho mais 21 anos.
Bon Jovi - Lay your hands on me (Hollywood Rock 1990)
Bon Jovi - Livin' on a prayer (Hollywood Rock 1990)
Bon Jovi - What about now
Não existe música ruim
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 18/03/2013 17h10
Calma. É óbvio, queridos leitores, que o título é provocativo. O mesmo tem como objetivo principal chamar a atenção para uma descoberta recente que me foi apresentada pelo amigo e tecladista Alex Feitosa. Trata-se de um trio sueco chamado sugestivamente de "Dirty Loops". Os três insanos reviram as abarrotadas lixeiras da música pop mundial e, dotados de impressionante técnica e criatividade, se propõem a transformar detrito em algo, no mínimo, curioso e audível.
Parece inacreditável, não é mesmo? Ao se deparar com a imagem dos três aqui ao lado, a missão parece mais impossível ainda. Adotando um estranho visualzinho meio emo, meio boyband, o cantor/tecladista Jonah Nilsson, o baterista Aaron Mellengard e principalmente o baixista Henrik Linder, só convencem no momento da primeira audição. Nada tão ruim quanto Justin Bieber, Rihanna, Lady Gaga e Britney Spears, resiste aos maravilhosos arranjos do trio. Há também espaço para algo melhor, como "Rolling in the Deep" de Adele. Bom. Confiram e debatam: há música ruim ou não há nada que um belo arranjo não salve?
Dirty Loops - "Baby" (Justin Bieber cover)
Dirty Loops - "Just Dance" (Lady Gaga cover)
Dirty Loops - 'Prude Girle" (Rihanna cover)
Que venha mais um Rock in Rio
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 18/02/2013 19h48
Estamos de volta, ainda no rescaldo momesco. Como dizia o enredo da minha amada Unidos de Vila Isabel de 1985, parece até que foi ontem. Em meados de 2011 estreei neste espaço falando sobre o Rock in Rio daquele ano. E num piscar de olhos já estamos aqui novamente para especular, elogiar e meter o pau em nosso querido festival. Falatórios e especulações à parte, algumas atrações já foram confirmadas. Alguns bons nomes, outros nem tanto. Prometo tomar cuidado ao criticar antes da hora, pois há um ano e meio tive uma baita dor de corno por não ter comprado ingresso para dois shows especificamente: Coldplay (antológico) e System of a Down.
O formato, ao que tudo indica, será o mesmo de dois anos atrás: cinco atrações no palco principal. Particularmente, prefiro o padrão de Lisboa, onde se apresentam quatro artistas por noite e o tempo para cada um é um pouco maior. Dentre os nomes confirmados, alguns bons déjà-vus como Metallica, Iron Maiden e a dupla Ivan Lins/George Benson. A primeira novidade está exatamente aí. Duas noites de metal, contrariando as últimas edições. Particularmente, eu preferia o AC/DC no lugar da donzela. O Iron praticamente mora no Brasil. Como comentei em outro post, daqui a pouco a Eddie vai travestir-se de Carmem Miranda. Quanto à dupla, acho que foi mal escalada para o palco secundário no dia em que Bruce Springsteen fecha o principal. Acredito que a melhor opção seria colocá-los no Palco Mundo em um dia mais light, antecedendo uma grande estrela. Que tal desaposentar Phil Collins, sr. Medina? Ou Santana, quem sabe?
Voltaremos em breve cornetando o festival, para o bem e para o mal (rimou).
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"É a Vila, chão da poesia, celeiro de bamba", minha escola, amor gigante.
Enquanto existir a Vila, eu lá estarei. E se um dia eu não estiver, é porque quem não existe mais sou eu.
George Benson - Inside Love (So Personal) - Rock in Rio 85
Com 'Acabou Chorare', Circo Voador se despede de 2012
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 30/12/2012 18h06
No ano em que completou 30 anos, o Circo Voador promoveu a interessante série de shows onde artistas tocavam integralmente um de seus álbuns, geralmente o mais importante deles. Passaram pela lona O Rappa (Lado B/Lado A), Plebe Rude (O Concreto Já Rachou) e o que sobrou do Titãs (Cabeça Dinossauro), entre outros. No último sábado foi a vez de Moraes Moreira, que também esteve por lá no início do ano, comemorar os 40 anos do lendário "Acabou Chorare" dos Novos Baianos, grupo que integrou até meados da década de 70.

Sem a companhia ou participação de nenhum de seus ex-colegas de banda, o baiano subiu ao palco ao lado do filho Davi Moraes, além de Cesinha (bateria), Reppolho (percussão), Marcos Moletta (guitarra baiana) e Augusto Albuquerque (baixo). O quase sempre perfeito som do Circo sofreu com algumas sobras de médios no microfone de Moraes, mas não chegou a atrapalhar o maravilhoso clima que cercava a noite. Para abrir os trabalhos, o cantor recitou um cordel que narrava um pouco da história dos Novos Baianos e atacou de "Besta é Tu", indicando que não seguiria a ordem natural das faixas do disco e causando êxtase numa plateia que tinha todas as letras na ponta da língua. Em seguida, o momento arrepio número um: a linda e autorreflexiva "Brasil Pandeiro", de Assis Valente. Incrível a sensação de ver o Circo Voador repleto de gente de todas as idades cantando forte um clássico de 1940, à época rejeitado por ninguém menos do que Carmen Miranda. O show prosseguiu com "A Menina Dança" e "Swing de Campo Grande", esta cantada por Davi.

Moraes faz uma pausa, lembra do apoio de João Gilberto aos Novos Baianos e canta a faixa título do disco, referência a um termo usado por Bebel Gilberto quando criança. "Mistério do Planeta" e "Tinindo Trincando" vem em seguida. O cantor então sai do palco e abre espaço pra "Um Bilhete pra Didi", instrumental composta por Jorginho Gomes, irmão de Pepeu e atual baterista de Gil. Davi larga o dedo e mostra porque é muito bem conceituado como instrumentista. Encerrando a homenagem ao disco, o momento arrepio dois. Composta por Luiz Galvão (principal letrista do grupo) após uma desilusão amorosa em Niterói, "Preta Pretinha" é praticamente uma cantiga de roda. Uma deliciosa cantiga de roda. Enquanto o pai regia o afinadíssimo coro, Davi emulava uma viola caipira em alguns trechos. Mais um belíssimo momento da noite.
Fechado o "Acabou Chorare", Moraes misturou canções gravadas em outros discos de seu antigo grupo ("O Samba da Minha Terra" de Caymmi e "Colégio de Aplicação") com sucessos de sua carreira solo ("Pombo Correio" e "Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira"). Em outro momento instrumental, Davi desceu do palco e, literalmente no meio da galera, anunciou uma homenagem a Chico Science, Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Espremido e pulando junto com o povão, puxou "Maracatu Atômico". Enquanto fraseava a melodia, a galera cantava os versos. No meio da música, improvisos com tapping, lembrando trechos de "Eruption" de Eddie Van Halen. De volta ao palco, não se cansava de repetir "o Circo é demais, o Circo é foda!".

Volta ao palco, Moraes sozinho faz "Canta Brasil" e "Isso Aqui, o Que É". Sem a companhia da banda fica ainda mais clara a habilidade de sua mão direita. Quase percussiva, a mão que dita a batida do violão do baiano é um primor. Canta Caetano com "Cajuína", seu parceiro Pepeu em "Eu Também Quero Beijar" e, aproveitando a proximidade da data, "Ano Novo", de Chico Buarque. Recita "O nordestino do século é o nosso Rei do Baião", um cordel que escreveu em homenagem a Gonzagão e em seguida canta "Asa Branca" e "Sebastiana". Fecha o show com "Chame Gente". Davi estava certo. O Circo é tudo isso e muito mais.
Setlist
- Besta é Tu
- Brasil Pandeiro
- A Menina Dança
- Swing de Campo Grande
- Acabou Chorare
- Mistério do Planeta
- Tinindo Trincando
- Um Bilhete pra Didi
- Preta Pretinha
- O Samba da Minha Terra
- Colégio de Aplicação
- Maracatu Atômico
- Canta Brasil
- Isso Aqui, o Que É
- Ano Novo
- Pombo Correiro
- Lá Vem o Brasil
- Eu Também Quero Beijar
- Bloco do Prazer
- Vassourinha Elétrica
- Asa Branca
- Sebastiana
- Cajuína
- Chame Gente
Gil e Stevie em 'Noite Feliz'
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 26/12/2012 14h38
Eis que nosso prefeito resolve dar um grande presente de Natal ao povo carioca. Sem entrar no mérito dos discutíveis valores astronômicos pagos ao astro ou das outras opções de presentes para melhorar a vida da cidade, Gil e Stevie Wonder é um show para lavar a alma e trazer um pouco de alívio aos nossos pobres ouvidos, bombardeados de porcaria pela mídia durante todo o ano.
Conforme o anunciado, pontualmente às 20h o baiano subiu ao palco com o público ainda pequeno. Apoiado por uma excelente banda onde se destacam (sempre) o baixista Arthur Maia e o baterista Jorginho Gomes, Gil fez um show baseado em grandes sucessos muito bem arranjados e algumas homenagens. Depois de "Realce", "A Novidade", "Não Chore Mais" e "Is This Love" (Bob Marley), a praia de Copacabana foi a primeira homenageada, com a canção homônima de Braguinha e parceiros.
Um pequeno solo de berimbau abriu "Domingo no Parque". Após o hino extra-oficial da cidade "Aquele Abraço", Gil relembra Dona Canô, falecida na manhã do mesmo dia e canta o samba de roda "Marinheiro Só" em sua memória. Seguiram "Andar com Fé" e um pequeno trecho de "Preta Pretinha", dos Novos Baianos, precedendo o primeiro momento nepotismo da noite. Preta Gil sobe ao palco pra cantar (mal) "Meu Corpo Quer Você". Desnecessário. "Esperando na Janela", "Palco", "Vamos Fugir", "Nos Barracos da Cidade" e "Toda Menina Baiana" fecharam um show coeso e enérgico, apesar de Preta.

Após um intervalo de uma hora, Stevie sobe ao palco conduzido por seus filhos Aisha, Kailand e Mandla. Antes de dirigir-se ao piano, vai à frente do palco, deseja um feliz Natal à todos, declara seu amor ao Brasil e apresenta os filhos. Entoa alguns versos de "Santa Claus is Coming to Town", talvez a canção natalina mais popular nos Estados Unidos, porém pouco conhecida por aqui. Espera uma resposta do público mas esta não vem. Senta-se, então, de frente ao seu harpejji (um instrumento de cordas inventado há pouquíssimo tempo) e inicia "(What a) Wonderful World", de Sam Cooke, que durou mais de dez minutos. Stevie tenta, em vão, dividir o coro da plateia em três vozes distintas. Não consegue, dá uma bronca bem humorada e depois de muito tempo, desiste. "Bird of Beauty", de 1974, é a segunda canção, também recebida com frieza.

"Master Blaster", "Higher Ground" e "The Way You Make me Feel" de Michael Jackson, deram uma levantada no ânimo do público, mas novamente o excesso de improvisos e as músicas alongadas em demasia causaram um certo cansaço. A noite teve ótimos momentos, como "Waiting in Vain" de Bob Marley, "Don't You Worry 'bout a Thing", "Ribbon in the Sky" (seguida de "Garota de Ipanema"), "Sir Duke", "Signed, Sealed, Delivered" e "My Cherrie Amour". Porém em outros como "I Just Called to Say I Love You", (com Gil cantando a versão em português e trechos de "Samba de Uma Nota Só"), "You Are the Sunshine of my Life" com um pedaço de "We Are the World" ou então nas canções natalinas puxadas por Gil, ficou a impressão do "feito de qualquer jeito", com a banda (maravilhosa, como de costume) correndo atrás da harmonia puxada por Stevie. O americano chamou novamente os dois meninos para o acompanharem em "Superstition", apresentou a banda e fechou a noite com "Another Star". Não houve bis e o público, cansado da maratona festiva, pareceu satisfeito.

Foram duas horas de um espetáculo musicalmente excelente e com um som impecável, porém Stevie parece ter programado uma noite para se divertir mais do que qualquer um. Se não tivesse se alongado tanto em improvisos, haveria espaço pra "Isn't She Lovely", "Overjoyed", "I Wish" e tantas outras. Fico com a memória de sua antológica apresentação no Rock in Rio do ano passado, talvez o melhor show que já vi em minha vida.
Feliz Natal com Brian Setzer
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 19/12/2012 16h17
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Clima de fim de ano é sempre a mesma coisa, não é mesmo? Festas de confraternização, shoppings superlotados de pessoas ensandecidas e trânsito louco. Pra completar, a manjada trilha sonora de sempre. Canções natalinas interpretadas em diversos modos, ritmos e arranjos, sem contar com a horrorosa versão de "Happy Xmas (War is Over)" de Lennon, cantada por Simone. Portanto, caro leitor, aqui vai uma boa dica pra virar o disco nesta época.
O cantor e (ótimo) guitarrista Brian Setzer apareceu para o mundo com o Stray Cats, trio de rockabilly lançado no fim da década de 70 e que fez um certo barulho com os sucessos "Rock This Town" e "Stray Cat Strut". Após o enfraquecimento da banda, fundou a big band Brian Setzer Orchestra. Além de vários álbuns convencionais, a BSO lançou dois (Boogie Woogie Christmas, de 2002 e Dig That Crazy Christmas, de 2005) com versões de tradicionais canções natalinas executadas em rockabilly, swing, jazz e blues, além de algumas composições do próprio Setzer feitas especialmente para a ocasião.
Algumas faixas são desconhecidas do povo brasileiro, porém os arranjos são primorosos e a massa sonora produzida por uma big band é incrível. Ainda em 2005, a BSO se aproveitou do sucesso da ideia e lançou um DVD ao vivo (Brian Setzer Orchestra Live: Christmas Extravaganza). É um material muito difícil de se encontrar por aqui, mas a grande rede está aí pra suprir nossas carências.
Boas festas a todos, com muita paz, harmonia e ótima música. Ho, ho ho!
BSO - Jingle Bells
BSO - Boogie Woogie Santa Claus
Caetano lança seu 'Abraçaço' para fechar trilogia experimental
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 04/12/2012 18h19
Caetano é um cara que divide opiniões. Muitos o amam, vários o detestam. Porém, mesmo os que se encaixam no segundo grupo, dificilmente criticam sua obra. As broncas são contra suas declarações, seus posicionamentos ou até sua forma de interpretar. A importância de sua arte é quase incontestável.
Caetano carrega consigo desde os primeiros passos uma característica importantíssima pra quem se propõe a produzir arte: a coragem. Há alguns anos o baiano se impôs o desafio de romper os seus padrões. Ou não tinha algo de paradoxal o fato de um artista que lutou fortemente a favor da "despadronização" da MPB, aceitar o conforto de continuar compondo (mesmo que bem) dentro de um modelo repetitivo? Com "Cê", de 2006, Caetano estreou uma sonoridade diferente de tudo que fizera até então. Meio indie, meio experimental, às vezes Los Hermanos, outras Radiohead, os arranjos foram montados em cima de um trio (o guitarrista Pedro Sá, o baterista Marcelo Calado e o baixista Ricardo Dias Gomes) e exploravam timbres obtusos e até angustiantes em certos momentos. Três anos mais tarde, em 2009, o baiano lançou "Zii e Zie", novamente acompanhado do trio (agora batizado como Banda Cê) e seguindo a mesma linha do trabalho antecessor.
Para fechar a trilogia, foi lançado hoje "Abraçaço", 49º álbum da carreira do cantor. A onda é exatamente a mesma, mas é tanta experimentação e criatividade nos arranjos que, por incrível que pareça, não soa repetitivo apesar de denso e tenso como os outros.
"A Bossa Nova é Foda" abre o disco e o compositor se utiliza de citações a Anderson Silva, Lyoto Machida e outros lutadores para homenagear (entre outros versos) João Gilberto, supostamente um fã de lutas (tudo em relação a João Gilberto é "supostamente"). A melancolia é latente em "Estou Triste" (Estou triste, tão triste/ E o lugar mais frio do Rio é o meu quarto). Em uma entrevista, Caetano admitiu que compor esta letra o ajudou a superar um momento difícil.
Carlos Marighella, braço direito da resistência contra o golpe militar de 64, foi homenageado na cansativa "O Comunista", embora não haja nenhuma citação a seu nome na letra. "O Império da Lei" é o momento de maior leveza sonora do disco, remetendo ao seu estilo do início da década de 70 e se utilizando de uma espécie de maracatu estilizado para gerar um ar de modernidade. A letra é uma crítica aberta à onda de assassinatos durante a luta por terras no Pará.
A curiosa "Funk Melódico" cita Noel Rosa ao lembrar da "Mulher Indigesta" e brinca com do poetinha Vinícius de Moraes em "Medo de Amar" ao afirmar que "o ciúme é o estrume do amor". "Quando o Galo Cantou" é uma faixa que poderia ser utilizada pra resumir o espírito da trilogia: um samba simples com uma belíssima melodia, porém arranjada de uma forma completamente peculiar, com o contrabaixo fazendo os graves percussivos enquanto o violão desenha a harmonia.
"Abraçaço" tem momentos enfadonhos e desnecessários, como "Vinco" e "Parabéns" (parceria com Mauro Lima), mas é musicalmente muito melhor do que "Cê" e "Zii e Zie". Após seis anos experimentando, Caetano parece ter encontrado um bom caminho para seu novo estilo, mas como a trilogia está encerrada, aguardemos seu próximo desafio.
"A Bossa Nova é Foda"
O garoto prodígio Joe Bonamassa
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 07/11/2012 18h10
Rodando pela net, pesquisando para escrever sobre superbandas (mais especificamente Chickenfoot e Black Country Communion), me deparei com uma preciosidade. Bloodline seria somente mais uma das inúmeras bandas que não chegaram a quase lugar nenhum se não fossem alguns pequenos detalhes: tinha como integrantes os filhos de Miles Davis, Berry Oakley (Allman Brothers) e Robby Krieger (Doors). Respectivamente baterista, baixista/vocal e guitarrista, Erin Davis, Berry Oakley Jr. e Waylon Krieger contavam com a companhia de um menino de 17 anos chamado Joe Bonamassa, hoje em dia um dos mais conceituados guitarristas do mundo.
Registraram apenas um álbum, homônimo, em 1994 e o single "Stone Cold Hearted" chegou a figurar em alguma lista da Billboard. Abriram alguns shows para o Tesla e Lynyrd Skynyrd e sumiram no limbo, como tantas outras. A curiosidade foi tanta que busquei o disco na rede. E qual não foi minha surpresa ao me deparar com um trabalho digno e superlegal. Impressiona a maturidade musical do garoto Bonamassa. Já àquela altura, demonstrava criatividade e bom gosto, misturando o rock com folk em várias faixas. Há poucos registros em vídeo, mas vale a pesquisa.
Bloodline - "Stone Cold Hearted"
Bloodline - "Dixie Peach"
G3: três estilos de três mestres
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 13/10/2012 10h12
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Rolou, na última quinta-feira, farta degustação de tappings, fast pickings e diving bombs, recheados com muito reverb e servidos por três dos maiores chefs do assunto. O prato principal da noite é guitarra. Capitaneado por Joe Satriani, o projeto G3 voltou ao Citibank Hall com uma formação diferente das outras vezes em que esteve por aqui. Desta vez vieram John Petrucci, do Dream Theater e Steve Morse, do Deep Purple. O público que ocupou quase todos os lugares da casa (com uma ótima configuração de teatro, com todos sentados) conferiu três dos maiores guitarristas do mundo, cada um com suas características e peculiaridades. O formato da apresentação é interessante: cada um se apresenta com sua banda por 45 minutos e no fim, os três se juntam para uma grande jam session. A noite é longa, porém não cansa. Os pequenos intervalos entre um show e outro servem pra dar aquela esticada de pernas.
Morse: versatilidade e clareza
O primeiro a subir ao palco foi Steve Morse. O mais velho dos três apresentou canções de sua ex-banda, Dixie Dregs e da Steve Morse Band, projeto que toca paralelamente ao Purple. Morse é limpo e versátil. Suas notas são escutadas e identificadas uma a uma e suas músicas apresentam estilos completamente distintos, como "John Deere Letter", por exemplo, um delicioso country. Em seu power trio, não há como não citar o excelente baixista Dave LaRue, um monstro que chegou a dividir com Morse a atenção do público.
Petrucci: peso e velocidade
Petrucci é tudo o que a molecada adora. Milhares de notas por segundo, aliadas a uma técnica impressionante. O "garoto" do trio apresentou três músicas de seu disco solo "Suspended Animation", de 2005 e outras três indéitas: "Zero Tolerance", "Cloud Ten" e "Glassy-Eyed Zombies". Para acompanhá-lo, trouxe seu companheiro de Dream Theater, Mike Mangini. Desta vez, seu set de bateria era bem mais humilde do que a nave espacial apresentada por aqui em agosto. Sempre muito enérgico, Mangini casa perfeitamente com o estilo de Petrucci, o mais pesado da noite. LaRue continou no palco e fez hora extra, mas desta vez bem mais contido.
Satriani: técnica e presepada
Satriani é um gênio. Seu repertório de técnicas é inesgotável e prendem a atenção de cada um. Deixa o povo na expectativa de qual seria a próxima novidade a ser mostrada. Mas, sem demérito algum, é um presepeiro. Puxa palminhas, coros, faz caras e bocas, se contorce com a guitarra nas mãos, toca com a língua. Essa postura faz de Satriani um popstar e isso também é importante em seu trabalho. Seu estilo o aproxima do público em geral e até seu visual colabora para isso. Suas músicas são mais acessíveis por ter um caráter um pouco mais pop, tanto é que volta e meia servem de fundo para reportagens ou aberturas de programas na TV. "Ice 9", que abriu o show e "Surfing With the Alien" são exemplos de canções bem conhecidas. O clone do Cazé Peçanha veio acompanhado de uma boa banda: o baixista Allen Whitman (seu companheiro perfeito nas fanfarronices), o ótimo Jeff Campitelli na bateria e o não menos competente Mike Keneally nos teclados. Após seu set, Satriani chamou de volta os outros dois e, juntos, tocaram os clássicos "You Really Got Me" do Kinks, "White Room" do Cream e "Rockin' in the Free World" de Neil Young, com direito à improvisos e duelos. Grande noite, que nem o temporal ou o trânsito louco de véspera de feriadão conseguiram estragar.
Confira as fotos:
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'Qual é a sua cor favorita?'
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 25/09/2012 19h10
E aí, caro leitor? "What's your favorite colour?" A pergunta em questão é lançada em alto e bom som (ótimo, aliás) por quatro rapazes negros criados nos subúrbios de Nova Iorque, em meio ao auge do glam rock dos cabelinhos planejadamente bagunçados, maquiagens exageradas e pirotecnias nos palcos. "Vivid", primeiro álbum do Living Colour, foi lançado em 1988, período que, também vale lembrar, antecedeu a guinada de 180º que o "grunge" impôs ao rock'n' roll. A banda foi descoberta por Mick Jagger em suas andanças pela noite novaiorquina. Rapidamente, o astro arrumou um contrato para a banda e acabou participando da produção do primeiro disco.

"Vivid" é daqueles álbuns que causam paixão à primeira audição. É daqueles que não deixam dúvidas de que se está diante de uma obra prima. Três monstruosos instrumentistas e uma belíssima e potente voz a serviço de uma mistura sonora que faz o ouvinte de primeira viagem alimentar expectativas sobre o que vem pela frente. Alguns estilos estão escancarados, como hard rock, funk e hip hop. mas ouvindo com carinho, se escuta de tudo um pouco.
A faixa de abertura é, talvez, a mais conhecida da banda. "Cult of Personality", que fala sobre pessoas que seguem cegamente seus líderes, é introduzida por um discurso de Malcolm X defendendo os direitos dos negros a uma terra e língua próprias, seguida por um riff infalível de Vernon Reid. Ganhou, merecidamente, o Grammy de melhor performance hard rock de 1989. A canção seguinte, "I Want to Know", é um pouco mais pop e tem um refrão chiclete.
"Middle Man" possui outro riff sensacional numa levada funkeada do genial baterista William Calhoun, graduado com honras em Berklee. Pouco, não? A canção é baseada em anotações que seriam uma carta de despedida do cantor Corey Glover, escrita durante um período de depressão. "Desperate People" é ainda mais explícita na abordagem do assunto.
O momento de Glover é "Open Letter (To a Landlord)". Aberta com uma baladinha, o cantor solta a voz e impressiona pela potência e beleza do timbre. Já o baixista Muzz Skillings, que sairia da banda após o terceiro álbum pra dar lugar à Doug Wimbish, deixa sua marca com um groove funkeado e contagiante em "Funny Vibe", a minha preferida. A canção "Memories Can't Wait", do Talking Heads, ganhou uma versão pesadíssima. Sobre essa canção, acho, eu disse "acho", que foi tema de abertura de um seriado que passou por aqui nos anos 90. Acredito que se chamava "Nova Iorque Contra o Crime" ou coisa parecida. Mas seriados não são o meu forte. Sobre isso, meu amigo e blogueiro da casa, Leonardo Jorge, poderia esclarecer melhor.
Mr. Jagger resolveu participar mais ativamente e gravou fraseados de gaita em "Broken Hearts" e gritinhos afetados em "Glamour Boys", a canção mais pop e dançante do Living Colour, que fala sobre jovens que se encantam com as tentações da alta sociedade. "What's Your Favorite Colour? (Theme Song)", citada no início do post, é a penúltima do álbum e não tem intenção nenhuma que não seja servir realmente de tema da banda, como se fosse um cartão de visitas apresentando seu estilo peculiar ao mundo. "Wich Way to America?" fecha o disco com uma crítica de Vernon Reid à manipulação televisiva sobre a população americana.
Tive a sorte de vê-los ao vivo três vezes. A primeira, num frio Hollywood Rock de 1992 na péssima companhia do EMF, que fazia um sucesso "unbelievable" (ui) na época. A segunda vez foi no Canecão em 2004 e a terceira no Circo Voador em 2007. Este último, um show antológico com três horas de duração. Lá pelo terceiro ou quarto "bis", Calhoun volta pro palco apoiado pelos outros integrantes com um copo de caipirinha na mão. Coisas que só o "Circo" pode proporcionar.
Apreciem sem moderação. Dica: aumentem o volume.
Plebe, Keane, Maroon e Dream Theater em sete dias
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 01/09/2012 15h02
A falta de tempo aliada à pequena maratona musical fez com que este desleixado blogueiro deixasse para um único post as resenhas dos quatro shows que assisti de pouco mais de uma semana para cá.
Plebe Rude racha concreto na Lapa

Na sexta-feira da semana passada o Circo Voador lotou para mais um show comemorativo de seu trigésimo aniversário. Depois de Titãs com "Cabeça Dinossauro" e O Rappa com "Lado B Lado A", foi a vez da Plebe Rude tocar na íntegra seu disco de estreia, "O Concreto já Rachou". E o quarteto brasiliense já começou quebrando padrões ao não apresentar o álbum na sequência original das faixas. "Nós somos a Plebe Rude e não este monte de MPB chato que rola aqui na Lapa". Este foi o boa noite de Philippe Seabra, bem ao estilo punk rock. "Plebiscito", do álbum Plebe Rude III, de 1988, abriu o show, seguida de "O Que se Faz" e "Censura".
A primeira música do "Concreto" foi "Brasília" e logo depois "Minha Renda", esta antecedida por uma gravação onde Chacrinha anunciava a banda, uma crítica aberta ao jabá. Cabelos grisalhos e corpos não tão em forma se debatiam nas rodinhas abertas na pista. Em um determinado momento, um homem de seus 40 e tantos anos subiu ao palco e arriscou um mosh. Ou quase isso. Se conseguiu levantar no dia seguinte, ninguém sabe.
Clemente, ex-Inocentes, ocupa com maestria o lugar de Ameba. Sua guitarra se encaixou muito bem com a de Philippe e em nenhum momento causaram confusão sonora. No baixo, Fred Ribeiro substitui André X, que está no exterior e na bateria, Marcelo Capucci, "enfim um baterista de verdade", segundo o vocalista. Em "Voto em Branco" ("seja alguém, vote em ninguém"), Philippe lembra que esta canção foi composta há quase 30 anos: "das duas uma: ou éramos videntes ou este país é uma palhaçada". "Proteção" e "Até Quando Esperar" levaram o público ao delírio. Durante o show, citações à Celso Blues Boy, Paralamas e Legião, cover de "Pânico em SP", da ex-banda de Clemente, e encerramento com Sex Pistols. Showzaço. Como faz falta uma Plebe Rude para ensinar a essa molecada como se faz.
Keane: gosto de quero mais
No dia seguinte, HSBC Arena igualmente lotada para ver Keane e Maroon5. Quanto ao Keane, sou suspeito por ser tiete, admito de peito aberto. É claro que a grande massa presente era de fãs dos americanos, mas me surpreendi com a quantidade de gente que estava lá para ver os ingleses e não o Maroon5.
Com um show compactado em uma hora cronometrada, o Keane abriu a noite com "You Are Young", faixa inicial do novo álbum, "Strangeland". Logo depois, as arrebatadoras "Everybody's Changing" e "Bend and Break", do disco de estreia "Hopes and Fears". É incrível como o tecladista Tim Rice-Oxley preenche todos os espaços musicais, apoiado apenas por contrabaixo e bateria. Tom Chaplin dispensa comentários. Sua voz é belíssima e não há diferença nenhuma dos registros em estúdio para o palco. Um monstro. No set list, todos os quatro álbuns estiveram representados. O único porém foi a ausência da linda "Disconnect", do novo disco.
Em "Somewhere Only We Know", o grande hit da banda, o público soltou a voz a pedidos de Chaplin, como de costume. "Bedshaped" fechou o show e deixou um gosto de quero (muito) mais. Sensacional. Sem palavras para definir, mas como opinião de fã não deve ser levada muito à sério, respeito quem discordar. No fim, o vocalista se despede com um "see you soon", deixando uma esperança de um breve retorno para um show completo.
Maroon5 surpreende ao trocar recursos eletrônicos por peso

O Maroon5 entrou no palco pontualmente às 23h30min para botar em prática o mesmo repertório do show da véspera, em Curitiba. Desde que optou por uma guinada radical em seu estilo, a banda angariou uma legião de fãs adolescentes, adeptos ao estilo bate estaca característico de seus último trabalhos. Confesso que não gostei da mudança. Sou mais chegado ao Maroon de "Songs About Jane", um suspiro de novidade e bom gosto dentre as bandas que surgiram no início do século. Porém a sonoridade ao vivo me surpreendeu positivamente. No lugar do uso abusivo de recursos eletrônicos, levadas funkeadas com um peso bastante satisfatório.
"Payphone", do novo álbum "Overexposed", abriu o show. A voz de Adam Levine, apesar de afinadíssima e suave, cansa um pouco depois de certo tempo, talvez por causa do excesso de agudos. O cantor mostrou versatilidade executando solos de guitarra e tocando bateria em "Seven Nation Army", do White Stripes. "She Will Be Loved" em versão acústica foi a última do setlist, assim como no Rock in Rio do ano passado.
No bis, um cover de "Don't You Want Me", do Human League e pra fechar, o megahit "Moves Like Jagger". A garotada amou, as menininhas suspiraram por Adam e eu fechei minha semana musical exausto.
No Dream Theater, sobra talento e falta música
Na última quinta-feira, foi a vez do Dream Theater. Perdi as contas das vezes que eles estiveram por aqui e, até então, eu resistia bravamente a vê-los ao vivo. Donos de técnicas invejáveis em seus instrumentos, os membros da banda fazem o que eu costumo chamar de "masturbação musical", onde só sente prazer quem está tocando. Sempre achei muita habilidade a serviço de pouca música. Desta vez me rendi e fui conferir ao vivo o show da turnê do novo álbum "A Dramatic Turn of Events". Por um momento achei que acabaria dando o braço a torcer.

De perto, é tudo muito impressionante. A precisão do baixista John Myung, a simplicidade com que o guitarrista John Petrucci toca as coisas mais complexas possíveis, a velocidade do tecladista Jordan Rudess e o empenho que Mike Mangini demonstrou em reproduzir toda a complexidade criada pelo baterista original, Mike Portnoy. Volta e meia, Rudess o orientava com sinais, talvez para lembrá-lo de algum detalhe. A bateria (o instrumento em si), diga-se de passagem, era um show à parte. Mesmo antes do show, fãs babavam ao admirar o enorme set de Mangini. Sim, não me esqueci de James LaBrie, um exímio cantor que acaba ofuscado pelo gigantismo da massa sonora instrumental.
"6:00", do disco "Awake" de 1994 e a segunda música da noite, é a que mais me agrada na obra dos americanos. Mas depois da terceira ou quarta música, quando passa o choque inicial, começa a sobrar virtuosismo e a faltar música. É tanta nota por segundo que fica difícil identificar mais da metade delas. Nada disso, porém, tira o brilho da apresentação da banda.
Independente do meu gosto, dentro do que se propõem a fazer, são perfeitos. Arranjos mirabolantes e canções com várias partes distintas entremeadas por solos de todos os instrumentos são executados com uma destreza ímpar. Depois de 2h40min de show, os fãs saíram de alma lavada. Talvez com 25 anos a menos nas costas eu adorasse. Hoje em dia prefiro buscar beleza nas coisas mais simples.
Quanta covardia, Londres!
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 13/08/2012 15h33

Assim como nos últimos 17 dias, brilhou na festa que fechou os Jogos Olímpicos a estrela da MPB, a música popular britânica. Já que existe uma rixa entre as cidades-sede para ver quem consegue organizar as melhores cerimônias de abertura e encerramento, fica aqui um singelo conselho para as próximas: busquem alguma alternativa que não seja competir com Londres no aspecto musical. Do início ao fim dos Jogos, nas festas ou nas arenas, o que se ouviu foi a nata da música mundial. Beatles, Stones, Queen, Elton John, David Bowie, The Who, George Michael, Pink Floyd, Annie Lennox, ELO, Massive Attack, Muse, Oasis e tantos outros artistas britânicos serviram como um delicioso pano de fundo aos eventos olímpicos. Ontem não foi diferente. Assim como na abertura, o bom gosto reinou também no último dia. O prelúdio de "Bohemian Rhapsody" emendando com "Imagine" foi um golpe baixíssimo. Uma facada no peito, comparável às lágrimas do Misha em Moscou.
E agora, Rio? Frente à tamanha qualidade, os súditos da Rainha deixaram uma pulga atrás da orelha do carioca: o que teremos por aqui? Andei ouvindo previsões tenebrosas mas prefiro não citar os artistas "sugeridos" pelos pessimistas. Que os deuses do Olimpo iluminem as escolhas dos mentores da edição Tupiniquim e os convençam a passar ao largo da bizarra música popularesca brasileira. Temos totais condições de mostrar ao mundo um pouco do que há de bom por aqui, deixando de lado qualquer tipo de disputa, até porque não há como se equiparar à abrangência mundial que a cultura inglesa atinge de uma forma geral. A julgar pela pequena participação brasileira no encerramento, há muita esperança no caminho a ser seguido. Foi incrível ouvir Villa Lobos, Gilberto Gil e Simonal numa cerimônia de tal porte. É batido, é clichê, mas sobretudo é bom e é nosso.
Celso Blues Boy sempre brilhará
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 07/08/2012 00h00
Interrompo meu pequeno recesso olímpico por uma causa nobre, apesar de inoportuna. Acabo de tomar conhecimento do falecimento de Celso Blues Boy. Logo após o choque inicial da notícia vem a dúvida sobre sua idade. Celso tinha apenas 56 anos e morreu em decorrência das complicações geradas por um câncer de garganta.
Foi músico de Raul Seixas e outros artistas, mas brilhou mesmo durante a década de 80, quando protagonizou madrugadas antológicas no Circo Voador e angariou uma legião de fãs, carregando a bandeira do blues nacional e resistindo às exigências do "esquemão" para se adequar ao modelinho televisivo. Sempre aceitou viver à margem do megaestrelato em prol da essência da arte que produzia, diga-se de passagem muito bem. Sugiro, inclusive, que o Circo crie alguma homenagem ao guitarrista, como dar seu nome a um espaço, talvez.
Descanse em paz, Celso. As noites da Lapa nunca mais serão as mesmas.
"Sempre Brilhará"
Uma viagem no tempo a bordo do 14 Bis
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 22/07/2012 12h37
Duas preocupações me rodeiam a cada vez que imagino um tema para meus posts: não exagerar no saudosismo frente à escassez de qualidade na música atual e não puxar excessivamente a sardinha para as coisas que eu gosto. Mas hoje peço licença ao leitor para deixar minhas neuras de lado e render uma justa homenagem a uma banda que faz parte da minha vida. Será uma espécie de "nossa linda juventude, páginas de um livro bom".
Era uma fria noite de algum sábado de 1986 quando chegou em minha casa um amigo de colégio, Flávio Bisaggio, com a missão de me arrastar para o SESC Tijuca, onde o resto da turma iria assistir ao show do 14 Bis. Relutei muito, pois conhecia pouquíssimo desta banda, talvez umas duas músicas apenas. Andava muito antenado em outras coisas como o B-Rock ou em bandas do período pós-punk, como The Cult, Echo & the Bunnymen, Talking Heads e The Cure. A banda mineira atingia uma geração acima da minha. Seu disco de estreia fora lançado no ano em que eu completava apenas dez anos. Mas após certa insistência, cedi e lá fui eu, a pé, para a Barão de Mesquita. E posso dizer que ali, sem exageros, minha formação musical ganhou uma nova amplitude.
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Ainda com Flávio Venturini, o 14 Bis gerava um som encantador. Era uma mistura de progressivo com rock rural. Meio Yes, meio Sá, Rodrix e Guarabira. As simples levadas de Hely (bateria) e Magrão (baixo) sustentavam uma maravilhosa viagem dos teclados de Vermelho e Flávio. Cláudio Venturini é um capítulo a parte. O Brasil tem ótimos guitarristas, mas poucos possuem o bom gosto de Cláudio. Encontrar o solo perfeito para cada harmonia não é missão para qualquer um. Sei que muitos preferem guitarristas mais técnicos, outros preferem os mais velozes. Eu prefiro Cláudio Venturini. Os riffs de "Nova Manhã", "Uma Velha Canção Rock'n' Roll", "Mesmo de Brincadeira" ou "Perdido em Abbey Road", só pra citar as mais conhecidas, seriam uma perfeita aula de "feeling" se isso fosse algo possível de ser ensinado.
Daquele dia em diante a música do 14 Bis estaria presente na minha vida para sempre. Aprendendo a tocar violão há apenas dois anos, me debrucei sobre seus discos e tirei (de forma rústica) dezenas de canções. Muito, mas muito longe do talento de meu ídolo, me orgulhava de, ao menos, ter o mesmo nome que ele (embora, na verdade, se chame Luis Claudio). No colégio, "Espanhola" tinha espaço garantido nas rodinhas da rapaziada, o que me fez cansar um pouco dessa bela música. Nas bandinhas por onde me aventurava, me juntava a amigos como os saudosos Rolf Neubarth, André Rocha, Luciano Leone ou Eduardinho Dederichs para, nos intervalos dos ensaios, tocarmos (mais uma vez, de nossa maneira) uma ou outra da mineirada.
Desde então, raramente perco um show deles por aqui. Talvez já tenha visto o 14 Bis por volta de 20 vezes. Na última sexta-feira, no sempre aconchegante Teatro Rival, tirando Flávio Venturini que deixou a banda em 1987, estávamos todos lá: Hely, Vermelho, Magrão, Cláudio, eu e todas as mesmas músicas que me emocionaram há 26 anos e continuam me tocando como se fosse a primeira vez. É inevitável a recordação daquele sábado de 86, assim como dos amigos que me carregaram para o ginásio do SESC-Tijuca ou daqueles que dividiam comigo os momentos de estúdio ou rodinhas de violão. Como diz um trecho de "Perdido em Abbey Road": "e os meus amigos / dispersos pelo mundo / a gente não se encontra mais pra cantar aquelas canções / que disparavam nosso coração".
"Perdido em Abbey Road"
"Mesmo de Brincadeira"
"Natural"
Keane reencontra sua essência em novo álbum
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 01/07/2012 12h31

Depois de explorarem outras sonoridades em "Perfect Symmetry" de 2008 e no EP "Night Train" de 2010, os ingleses retomam em seu novo trabalho algumas características que os fizeram estourar nas paradas britânicas em meados da década passada: valorização da melodia vocal sobre harmonias simples e objetivas, arranjos melancólicos e refrãos muito fortes. Lançado no dia 4 de maio, "Strangeland" (quinto álbum da banda) estreou, assim como seus antecessores, alcançando a primeira posição no UK Albuns Chart com cerca de 50 mil cópias vendidas na primeira semana. Embora a recepção dos fãs tenha sido a melhor possível, a opinião da crítica britânica não foi unânime. Alguns especialistas consideraram o disco uma "volta à zona de conforto". Particularmente não vejo motivos para atacar um artista que opta em voltar a fazer o que faz de melhor. Acredito que a qualidade da obra precisa ser despregada desses conceitos, ou seja, independente de rumos ou experimentações, ruim é ruim, bom é bom. E "Strangeland" é muito bom.
"Silenced by the Night" e "Disconnect" são os primeiros singles do álbum
O vocalista Tom Chaplin cita David Bowie e Talking Heads como referências presentes no álbum, mas o que fica nítido para meus ouvidos é uma mistura do bom gosto de Elton John com a melancolia de um Coldplay. Até um pouco de Pet Shop Boys se percebe em algumas faixas, como na ótima "Sovereign Light Café", terceiro single a ser pinçado e que traz referências a Bexhill-on-Sea, vilarejo à beira do Canal da Mancha próximo a Battle, cidade onde viviam Tom, o baterista Richard Hughes e o tecladista Tim Rice-Oxley (Jesse Quinn, baixista, completa o quarteto). Os dois primeiros singles retirados do disco foram "Silenced by the Night" e "Disconnect". Esta última, a minha preferida, exige de Tom algumas notas graves não muito comuns na obra do Keane.
Falando em preferida, a escolhida do cantor é "The Starting Line", segundo ele uma canção sobre a sabedoria de manter as esperanças mesmo nas épocas mais obscuras da vida. Já Tim (que escreveu 80 músicas para selecionar as faixas do disco) prefere "Sea Fog", que fecha o disco citando a permanente névoa sobre o Canal da Mancha, outra alusão à região natal da banda. Outro belíssimo momento é "What How You Go", uma balada que fala sobre aceitar a ruptura de uma relação sem rancor nem ira. Durante 45 minutos espalhados em 12 faixas (a edição Deluxe oferece quatro canções extras), "Strangeland" passeia com extrema fluência por temas soturnos como "Black Rain" e outros surpreendentemente exultantes como "On the Road".
Em agosto, o Keane vem ao país para abrir os shows do Maroon5 no Rio e em São Paulo, o que revoltou vários fãs brasileiros que esperavam por uma apresentação completa desde 2009, última vez que estiveram por aqui durante a turnê de "Perfect Symmetry". De qualquer jeito é uma ótima opção para conferir ao vivo duas das bandas mais influentes do cenário pop atual.
"Disconnect"
"Sovereign Light Café"
Capitão Nascimento faz mais uma vítima: o Legião Urbana
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 30/05/2012 18h03
A MTV Brasil transmitiu na noite de ontem o primeiro dos dois shows "Tributo ao Legião Urbana", realizado no Espaço das Américas em São Paulo. Como já se sabe, a emissora convidou o (excelente) ator Wagner Moura para cantar com os legionários Bonfá e Dado Villa-Lobos. Ao fazer esta escolha, percebe-se que a emissora (que hoje em dia abandonou seu propósito inicial para se especializar em humor adolescente) anda meio enferrujada quando o assunto é música. Nem o ator e muito menos os fãs do Legião precisavam ter passado por isso.
Wagner cometeu todos os erros possíveis para um amador. Brigou com a distância do microfone, se atrapalhou nas respirações e sobretudo teve muita, mas muita dificuldade para acertar a afinação. Não alcançava as notas baixas e berrava pra tentar buscar as mais altas. Foi, sim, prejudicado pelas falhas do seu microfone nas primeiras músicas. Talvez os únicos pontos positivos de sua presença foram ter levado a emoção de fã para cima do palco e ter dado tudo de si ao evento. Mas neste caso o "tudo de si" foi pouco. Substituir Renato Russo para o Brasil inteiro não é o mesmo do que tocar numa bandinha em Salvador para meia dúzia de amigos. Minha filha, com seus nove anos e do alto de sua autoridade de fã de Justin Bieber, Demi Lovato e Selena Gomez, sentou-se ao meu lado e com dois minutos de show declarou: "papai, esse moço tá desafinando demais".
Opções não faltavam. Toni Platão foi muito bem no tributo apresentado no Rock in Rio no ano passado ou até mesmo Dinho Ouro Preto, que pode não ser um exímio cantor mas tem carisma o suficiente e estaria totalmente dentro do contexto. Não foi só. Dado também penou com a afinação de sua guitarra em alguns momentos. Uma pena, pois o público estava ali pra cultuar a obra de uma das bandas mais influentes da história da música brasileira e não fosse a escolha errada da MTV, o show tinha tudo pra ser lindo.
Repertório muito bem escolhido
O set list beirou a perfeição. Um início arrasador, com "Tempo Perdido", "Fábrica", "Daniel na Cova dos Leões", "Andrea Doria" (esta também é a minha preferida, caro Wagner) e "Quase sem Querer", todas pinçadas do "Dois", um dos mais perfeitos álbuns da história do rock no Brasil. A seguir, um passeio por todos os discos da banda e um final apoteótico com "Será". De lavar a alma dos fãs, não? Tentei pescar nas expressões de Dado e Bonfá algum sinal de descontentamento com os erros do "Capitão", mas ambos disfarçaram muito bem. Como atores, se saíram melhores do que Wagner como cantor. Assim como no Rock in Rio, Bonfá cantou "Teatro dos Vampiros", dando uma aliviada nos ouvidos da rapaziada. Dado dividiu vocais com Andy Gill em "Damaged Goods" (do Gang of Four), que também contou com a participação de Bi Ribeiro. Outro ponto positivo da noite foi o telão colocado no teto do palco, servindo para projeções e dispensando efeitos de iluminação. Dado chegou a deitar-se para "viajar" pelo cosmo durante "A Via Láctea".
Apesar da tudo, a apresentação parece ter conseguido emocionar o público presente. Talvez muita gente tenha saído dali satisfeita por ter, mesmo sem Renato, participado de um show do Legião Urbana, afinal de contas lá se vão 17 anos da última apresentação ao vivo da banda. Mas na noite de ontem, faltou alguém com a coragem do Capitão Nascimento para chegar no camarim antes do show e falar: "NÃO VAI SUBIR NINGUÉM", ou então "VAI DAR M..., CAPITÃO".
Rock in Rio Lisboa: balanço da primeira semana
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 27/05/2012 22h20

Terminou na noite de ontem o primeiro fim de semana do Rock in Rio Lisboa. O local é um pouco menor do que o Parque dos Atletas, porém a estrutura é bem parecida: Rock Street, tenda VIP, tirolesa, tenda eletrônica, roda-gigante e montanha russa. Ah, e também tem música. O mesmo Palco Sunset do ano passado com os encontros entre dois ou mais artistas e o Mundo, com uma moldura bem parecida com a versão carioca. Diferente daqui, só mesmo a quantidade de atrações principais. Quatro artistas por noite, como em além-mar, me parece menos cansativo do que as cinco daqui. Que a ideia seja pensada para o ano que vem, trazendo consigo uma justa redução de preços (momento gargalhada).
Semana da pauleira
A primeira parte do festival foi dedicada ao peso. Quem não gostasse de uma distorção ou de um overdrive que se mantivesse afastado do Parque da Bela Vista durante este fim de semana. Na sexta-feira, coube ao Sepultura abrir a festa. Mais uma vez acompanhados dos franceses do Les Tambours du Bronx, o show foi quase o mesmo apresentado no Sunset no ano passado. Capitaneados por Derrick e sua voz de quem acabou de engolir um diabrete, fizeram mais uma vez uma ótima apresentação para alguns poucos heróis que chegaram cedo à Cidade do Rock lusitana após um dia de labuta (ou não). Ainda sob o sol de 20:30h da noite (eles estão em horário de verão), o Mastodon subiu ao palco para agradar a meia dúzia de fãs e encher linguiça para a maioria, enquanto não chegava a hora do Metallica. Tirando as curiosas expressões faciais do cantor e leprechaun Troy Sanders, a banda faz um som que mistura o tal "nu-metal" com progressivo e não acrescenta nada em termos sonoros.
Amy Lee desafinada e Metallica arrasador, pra variar
Tocando a caravela, aí vem o Evanescence. A banda apresentou poucas diferenças em relação ao set list mostrado aqui na noite de encerramento do festival em 2011. Amy Lee, coitada, esteve em uma noite pra lá de infeliz. Com uma voz que já é irritante em condições normais, semitonou em várias ocasiões e não alcançava seus agudos característicos. E um som que para os meus ouvidos já soava chato, tornou-se insuportável. Enfim, Metallica. Com um ano de atraso, a banda comemora os 20 anos de lançamento do "Black Album", mas o set list não se resume às faixas do disco. Após um vídeo western com tema de Ennio Morricone, o show é aberto com "Hit the Lights". O clássico "Master of Puppets" também aparece neste início. Depois de cinco canções, o álbum preto é introduzido por um vídeo com imagens da época, como momentos de estúdio ou colagens de notícias sobre o estrondoso sucesso do disco. As músicas são executadas na ordem inversa, da última para a primeira, começando por "The Struggle Within", passando por "Nothing Else Matters", "Wherever I May Roam", "The Unforgiven" e fechando com "Enter Sandman". No bis, mais sucessos de outros álbuns: "Fight Fire With Fire", "One" e "Seek & Destroy". Através de duas passarelas em frente ao palco que se uniam no meio da galera, James, Robert e Kirk desciam e levavam a galera à loucura, fazendo valer o ingresso de uma noite pra lá de meia-bomba.
Mais peso na segunda noite
No sábado, o Limp Bizkit abriu os trabalhos com suas levadas de rap recheadas de muito peso. Como de costume, o guitarrista Wes Borland usou uma máscara bizarríssima, de rebaixar o Slipknot a Três Porquinhos. Fred Durst fez bem o que sabe: gritar. Quando precisou cantar, como na versão de "Behind Blue Eyes" (The Who), ficou complicado. Com casa cheia desde cedo, agradaram bastante e inspiraram várias rodinhas na galera. Logo a seguir, o punk de boutique do Offspring. Já meio fora de forma, Dexter Holland comandou um bom show onde enfileiraram os hits que colecionaram quando estavam no auge, no fim da década de 90, como "Why don't You Get a Job" e "Pretty Fly". Diversão garantida e uma boa opção para vir ao Rio no ano que vem, quem sabe.
Smashing Pumpkins, mal escalado, faz show morno
Que me desculpem os fãs, mas a atração seguinte, o Linkin Park, é outro som que não me desce. Me incomodam demais os sintetizadores meio kraftkerkianos e as batidas eletrônicas no meio do peso do metal. Não combina, pelo menos para meus ouvidos. Soa angustiante, se é que me entendem. Mas, gosto à parte, arrastaram uma multidão para o festival e parecem ter agradado, exceto no momento em que o desavisado cantor Chester Bennington levantou um cachecol do Futebol Clube do Porto (que acabara de receber de um fã) em plena Lisboa, envolto à uma multidão de benfiquistas e sportinguistas, adversários históricos do time do norte do país. Pra fechar o fim de semana, o Smashing Pumpkins em mais um erro de escalação, afinal de contas é Rock in Rio e esta é uma das especialidades da casa. Completamente fora de contexto, a banda que hoje se resume a Billy Corgan tocando com músicos contratados, optou pelo minimalismo mesmo com todos os recursos que um festival deste porte oferecem. Sem grandes produções, tocaram alguns de seus hits mas acabaram vacilando ao colocarem no set list algumas canções "lado B" e outras ainda inéditas. O público, que já não estava muito a fim, começou a ir embora ainda no início do show. Semana que vem tem mais: Lenny Kravitz, Stevie Wonder, Bryan Adams e Bruce Springsteen, entre outros. Até lá.
"Roots Bloody Roots" - Sepultura e Les Tambours du Bronx
"Enter Sandman" - Metallica
"1979" - Smashing Pumpkins
Divulgado o provável set list da nova turnê de Madonna
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 17/05/2012 22h27
A MDNA World Tour terá sua estreia mundial somente no dia 31 de maio, em Tel Aviv (Israel), porém a MTV americana divulgou o que seria um provável set list que teria vazado antes da hora. Ao todo, 23 canções integram o repertório extra oficial do show da Sra. Ciccone, dentre elas os hits dos anos 80 "Like a Virgin", "Papa Don't Preach" e "Express Yourself".
Madonna virá ao Brasil no fim do ano para se apresentar em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro.
Confira na íntegra:
"Act of Contrition"
"Girl Gone Wild" (meets "Material Girl")
"Revolver"
"Gang Bang"
"Papa Don’t Preach"
"Hung Up" (MDNA remix)
"I Don’t Give A"
"Best Friend"/"Heartbeat"
"Express Yourself" (meets "Born This Way")
"Turn Up the Radio"
"Give Me All Your Luvin’"
"Open Your Heart"
"Masterpiece"
"Justify My Love"
"Vogue"
"Candy Shop"
"Human Nature"
"Like a Virgin"
"Nobody Knows Me"
"I’m Addicted"
"I’m a Sinner" (meets "Cyber-Raga")
"Like a Prayer"
"Celebration"
Leia também:
O Rei Arthur do Brasil
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 15/05/2012 22h01
Sim, temos o nosso Rei Arthur. Com o contrabaixo no sangue, (seu tio, o lendário Luizão Maia, tocou com alguns ícones da música como Elis, Toquinho, Tom Jobim e Cartola), Arthurzinho, como é carinhosamente conhecido no meio, é o maior nome do país em seu instrumento. Dono de uma técnica impecável e de um bom gosto ímpar em suas composições, o que valoriza ainda mais o instrumentista é a versatilidade para passear com fluência pelos ritmos característicos do Brasil.

Ok, admito: sou um fã inveterado e não há nenhum indício de isenção jornalística neste post. A admiração deste humilde blogueiro pelo contrabaixista vem de longe. Ainda na década de 80, assisti a um show da extinta banda Egotrip, integrada por Arthur e pelo falecido Pedro Gil. Depois, estive em diversas apresentações do espetacular Cama de Gato, banda de música instrumental formada originalmente pelos não menos geniais Pascoal Meirelles, Rique Pantoja e Mauro Senise. Sem contar com os artistas que Arthur acompanhou, como Lulu Santos, Gil e Djavan, entre outros.
Participações de Aline Calixto e Gil
Na quinta-feira passada, o baixista recebeu alguns convidados no palco do Teatro Rival (Rio de Janeiro) para lançar o seu último álbum "O Tempo e a Música", onde mostrou composições próprias e algumas releituras, como o maxixe "Brejeiro" de Ernesto Nazareth. Infestado de brasilidade por todos os lados, o álbum foi lançado lá fora em 2010 e reeditado no fim do ano passado. Aline Calixto, o baterista Jorge Gomes e o tecladista William Magalhães, herdeiro de Oberdan na Black Rio, num maravilhoso improviso do clássico "Maria Fumaça", foram alguns dos convidados. Mas foi Gilberto Gil quem permaneceu por mais tempo no palco. Arthur rendeu várias homenagens a quem chamou de "professor" por diversas vezes. Tocaram juntos o choro "Um Abraço no João", parceria dos dois gravada no álbum "Quanta" e o sucesso "Palco".

Além de propiciar um show musicalmente perfeito (com o luxuoso auxílio do maravilhoso som do Teatro), Arthur esbanjou carisma e bom humor, contando histórias e brincando com o público, identificando amigos e até familiares na plateia. Salve o nosso Rei. A coroa será sua por um bom tempo.
Confira abaixo alguns momentos da carreira de Arthur.
Lulu Santos ao vivo no Maracanãzinho (1987)
Cama de Gato
Programa do Jô
A boa forma do Duran Duran
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 02/05/2012 22h39

Quase quatro anos depois de passar pelo Rio, onde fizeram uma apresentação em 2008 com preços excludentes, o quarteto da terra da Rainha (God save her) voltou a tocar em nosso balneário na noite de segunda-feira. Casa bem cheia, apesar da chuva que azucrinou o carioca durante todo o feriadão, e clima "naftaleico" para curtir os hits de outrora, embora se pudesse perceber alguns filhos de fãs pela plateia.
Sem Andy Taylor, que deixou a banda (de novo) há cerca de seis anos, os quatro rapazes, ops, senhores, trouxeram o auxílio de Dom Brown (guitarra), Simon Willescroft (sax, percussão e teclados) e Anna Ross (vocais). Difícil chamar o Duran Duran de senhores, não? A imagem de rapazotes com cabelos descoloridos e roupas recém saídas da tábua de passar é muito forte. Em seu auge, a banda apostava forte no visual. Hoje em dia, só restou sua boa música, que por aqui influenciou claramente bandas como Egotrip e RPM (ouçam "Rio" ou "Hungry Like the Wolf" e imaginem os gemidos de Paulo Ricardo).
O único que parece resistir ao tempo é o tecladista Nick Rhodes, que mantém seu loiro penteado de antanho. Roger Taylor (não é o mesmo do "Queen") se apresentou à bordo de uma bateria rosa metálica, que podia perfeitamente fazer parte de um "kit-Barbie Rock'n Roll" e John Taylor, antes o rostinho bonitinho e constante alvo de gritinhos femininos (ou masculinos, sabe-se lá) ensandecidos, hoje encontra-se em um avançado estágio no processo de jimcarreyzação, tamanha semelhança com "O Mentiroso" (vejam as fotos e comprovem).
Repertório mistura clássicos com novas canções
Mas esqueçamos os semblantes e vamos à questão auditiva. Quem segura a marimba no DD são os teclados e sintetizadores de Rhodes e a voz ainda afiadíssima de Mister Le Bon. O show, pertencente à turnê do álbum "All You Need is Now", teve o mesmo set list de Brasília e seguiu quase o mesmo roteiro da apresentação no festival SWU, no ano passado. As quatro canções do novo disco que foram executadas seguem a mesma fórmula pop eletrônica utilizada pela banda desde sempre. Uma delas, "Before the Rain", abriu o show. Em "Girl Panic!", o telão (único elemento cênico no palco) mostrava imagens do videoclipe da canção, onde top models como Naomi Campbell e Cindy Crawford se apresentam como se fossem elas as integrantes da banda (Simon Le Bon e John Taylor, respectivamente). "A View to a Kill" foi a terceira música da noite, com direito a todos os efeitos sonoros. Diga-se de passagem, quase todas as canções tiveram seus arranjos originais respeitados. Quando necessários, os pré-gravados apareceram, como em "Wild Boys", onde o grito do refrão era multiplicado várias vezes.
Participação de Fernanda Takai passa em branco
Assim como em Brasília, Fernanda Takai foi chamada ao palco. Com sua voz correspondente ao seu tamanho, a cantora agradeceu, se declarou fã da banda (jura?) e cantou com Le Bon o sucesso "Ordinary World". Bem, cantar é força de expressão. Takai funciona no Pato Fu. Saiu dali, complica um bocado. O mega-hiper-super-giga-sucesso "Save a Prayer" foi incluído especialmente no Brasil. E não há como ficar inerte ao looping que inicia a canção e ao riff de sintetizador da introdução. O povo caiu dentro: cantou, ajoelhou (eu vi, juro) e plantou na banda a dúvida do porquê excluí-la dos shows. Em "Come Undone", foi a vez da cantora de apoio Anna Ross soltar a voz. Covardia com Fernanda. Quando atacaram de "Notorious", alguns poucos e tímidos cartazes onde se lia "NO" apareceram na hora do refrão. Pouco antes do show, um rapaz passou por mim com um destes cartazes (de cabeça para baixo) na mão. Confesso que fiquei matutando durante horas qual seria a música do Duran Duran que teria "ON ON ON" na letra.
Depois de vários sucessos e muitas intervenções de Le Bon com o público, inclusive descendo do palco para pedir a um fã que cantasse com ele e a outra que o apresentasse, voltaram para o bis com "Girls on Film" e fecharam com "Rio", um dos grandes clássicos da banda, composta em homenagem a uma mulher (e não à cidade). Dos sucessos, só faltou "A Matter of Feeling" em um show enxuto, onde o Duran Duran provou que não precisa de muita mis-en-scène pra continuar agradando.
"A View to a Kill"
"Save a Prayer"
Caro 'beatlemaníaco': você é capaz?
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 15/04/2012 14h57
Este desenho com várias referências à canções gravadas pelos Beatles circula há algum tempo pela internet. Não consegui encontrar em lugar nenhum quantas seriam as citações, mas ao que tudo indica, parece rondar pela casa das 40.
Enquanto algumas são bastante óbvias, outras cabem diversas interpretações. Eu descobri apenas 31. Divirtam-se e me contem quando as encontrarem.

O 'choro' fica mais triste
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 28/03/2012 14h17
Com 91 anos de idade, dos quais 71 dedicados à carreira, o Brasil perde a "Rainha do Choro" Ademilde Fonseca. Potiguar de nascimento e carioca por opção, Ademilde foi uma das pioneiras do choro cantado e ganhou o título acima por se destacar na interpretação de diversas canções do gênero.
Estreou gravando, pela primeira vez com letra, o clássico "Tico-tico no Fubá", de Zequinha de Abreu e conviveu com todos os grandes compositores da época, participando, inclusive, como crooner da Rádio Nacional ao lado de gênios como Pixinguinha, Radamés Gnatalli e Jacob do Bandolim. Parafraseando o ator/diretor Jorge Fernando: "o elenco lá de cima anda bem melhor do que o daqui de baixo".
- Ademilde Fonseca morre no Rio de Janeiro
Ademilde Fonseca - "Noites Cariocas"
Sir Paul do Brasil
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 27/03/2012 22h29
Lá vem ele de novo. Em menos de um ano e meio será a terceira visita do velho Macca ao Brasil. Parece muito, ainda mais se levarmos em consideração o hiato de quase 17 anos entre a segunda aparição (em 1993) e a terceira, em 2010. Dessa vez estão programados dois shows em cidades onde Paul ainda não havia dado as caras: Recife e Florianópolis. E o que esperar destas apresentações? Em um breve balanço de tudo que o ex-Beatle fez por aqui, algumas curiosidades e números valem o registro.
74 diferentes canções em nove shows
Foram nove apresentações (duas em 1990, duas em 1993, três em 2010 e duas em 2011) em apenas quatro cidades: Rio de Janeiro (quatro vezes), São Paulo (três vezes), Curitiba e Porto Alegre. Seus set lists tiveram, em média, 33 canções. Paul tocou 74 músicas diferentes e oito delas estiveram em todos os espetáculos. Os sucessos do Wings "Live and Let Die", "Jet" e "Band on the Run", as previsíveis "Yesterday", "Let it Be" e "Hey Jude", e as surpresas "Sgt. Peppers" e "Back in the USSR". Outras que também foram muito executadas (sete vezes) foram "Let 'Em In", "Eleanor Rigby", "All My Loving", "The End", "Lady Madonna", "The Long and Winding Road", "Paperback Writer" e "Let me Roll It".
Nas turnês de 1990 e 1993, Paul tocou várias faixas de seus álbuns de trabalho da época, "Flowers in the Dirt" e "Off the Ground", respectivamente. Duas canções destes discos ("My Brave Face" e "Hope of Deliverance") alcançaram um certo sucesso, porém não retornaram mais aos shows. Nestes mesmos shows, alguns covers foram incluídos, como "Twenty Flight Rock" de Eddie Cochran, "Ain't That a Shame" de Fats Domino, "Good Rockin' Tonight" do Elvis e "Ain't no Sunshine" de Bill Whiters.
Clássicos ficaram de fora
O fato mais curioso é alguns de seus grandes hits jamais terem aparecido nestes set lists. É o caso de "Say, Say, Say" (talvez pela dificuldade de encontrar quem fizesse com qualidade a parte de Michael Jackson), "Pipes of Peace", "Another Day", "Silly Love Songs", "Once Upon a Long Ago" e principalmente "No More Lonely Night", talvez o maior sucesso de sua carreira solo por aqui.
Mas acima de qualquer estatística, o que os públicos recifense e florianopolitano devem observar atentamente são os shows que Paul vem fazendo pela Europa por estes dias. No último sábado, por exemplo, sua apresentação em Rotterdam durou impressionantes 44 músicas. Da época de Beatles, "The Night Before", "I Will", "Yellow Submarine", "The Word" e "All You Need is Love" são as novidades. De sua carreira solo, Paul resgatou a belíssima "Maybe I'm Amazed", que só foi tocada no Brasil nos shows do Maracanã em 1990.
Abaixo, alguns aperitivos para adoçar a boca dos fãs do nordeste ao sul do Brasil. "I Will" e "Maybe I'm Amazed" (com direito à citação de "Lucy in the Sky..." no final), ao vivo em Rotterdam no sábado passado. Apreciem.
Uma estrada musical sem buracos nem pedágios
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 21/03/2012 20h58
Como é bom ter prazer em ouvir um disco do início ao fim. Há muito eu não ouvia um trabalho tão regular (no melhor sentido da palavra) da primeira à última música. "Zeroquarenta", álbum de estreia de Carlos Fernando Cunha, é daqueles discos difíceis de se apontar um ponto fraco.
Pegando emprestado o nome da estrada que liga o seu Rio de Janeiro natal a Juiz de Fora, onde se radicou há cerca de dez anos, o cantor faz do (bom) samba um elo de ligação entre as duas cidades e deixa clara em várias de suas letras a admiração por ambas. Com parceiros variados, as treze canções são assinadas pelo cantor e trazem a sua visão sobre temas comuns aos compositores do estilo.
"Valente, meu samba é pau, é pedra/Certeza latente que não se entrega", verso da canção que abre o disco ("Samba Valente") é um recado ao ouvinte sobre o que vem pela frente: uma voz suave e técnica a serviço de um repertório de extremo bom gosto e muito bem arranjado, apesar do aparente baixo custo da produção, provando que nem sempre a qualidade é produto do dinheiro. Voltando à faixa um, as frases de sax do fantástico Dirceu Leite são a cereja no bolo de uma música que, por si só, já valeria o álbum.
A ideia do disco pode ser sintetizada na faixa título, onde o cantor enfileira referências mineiras e cariocas em levada de bossa nova: "Das serras já vejo o mar...doze profetas/um Redentor...Ary chama Noel/Clara pede passagem...Seu Cartola domina/cruza um acorde pra Esquina". Nesta faixa surge também a primeira citação à Vila Isabel, em homenagem à sua escola de coração ou ao bairro que a abriga.
Duas faixas trazem sambas com andamento de "avenida": em "Ciência para Cantar", Carlos Fernando pega emprestados alguns termos acadêmicos incomuns para declarar o que deseja e espera do samba. A outra é "Meu Carnaval", que narra a sensação de um amante da maior festa popular brasileira e mais uma vez cita o bairro de Noel: "..Lá onde está meu Boulevard/É sexta-feira vou trovar/Tambores, mil amores/Agradeço a cantar". Linda melodia e comovente letra pra quem ama o carnaval. Pra mim, a melhor do disco. Em seguida, a cantora Ana Costa aparece em participação especial na faixa "Dando Pedal", uma deliciosa brincadeira com a palavra "pé" e seus derivados.
O ápice da mineirice adaptada aparece em "Nhá Moça", uma autêntica modinha de viola com direito a linguajar característico. Os arranjos tipicamente caipirescos dos violões de Daniel Goulart emolduram perfeitamente o clima desejado. Outro grande momento do disco é "Serventia". Nela, o compositor senta-se à mesa de um bar para listar conselhos para tentar livrar um suposto amigo das agruras da vida: "Reclama da nêga ingrata/que ela não vai te escutar/levanta esse rosto cansado/a luta não vai te levar/pede mais um tira gosto pra mudar/o gosto da vida amarga que quer te vencer/batuca na mesa e levanta o teu cantar/a noite já virou dia/meu ombro é serventia". Letra genial, assim como o violão de Carlinhos Sete Cordas, presente nos discos de dez de cada dez grandes sambistas do país. O violonista também empresta sua levada à "Tantas Palavras", canção marcada por um trecho de lamento característico dos sambas das décadas de 60 e 70.
Falando em instrumentistas, o pianista André Pires é outro que deixa sua marca talentosa na bossa "Caminho da Paz" e na lindíssima valsa rancho "A Moça e o Cello", uma visão poética sobre a imagem da relação de uma musicista com seu instrumento. A figura feminina aparece novamente em "A Sambista" e "Me Deixe Sambar", esta última um samba de roda com um refrão contagiante: "Ô mainha me deixe sambar/me deixe sambar/me deixe sambar/Ô mainha me deixe sambar/A lua me chama pra beira do mar". O disco é fechado com "Perambulando", canção com a qual o compositor venceu o 1ª Concurso de Marchinhas de Juiz de Fora. Na letra, um folião percorre locais característicos da cidade durante o carnaval.
A "Zeroquarenta" de Carlos Fernando Cunha é uma estrada limpa, onde não há buracos nem pedágios, apenas belas canções que nos levam a diferentes sensações entre suas retas e curvas, entre suas subidas e descidas. Belíssima estreia.
O cantor faz show de lançamento nesta quinta, dia 22, no Centro Cultural Carioca (Praça Tiradentes), a partir das 22h.
"Me Deixe Sambar"
"Samba Valente"
Cheiro de naftalina no topo da Billboard
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 14/03/2012 20h57
Finalmente, depois de várias semanas no topo da Billboard britânica, Adele foi desbancada. O autor da proeza é Bruce Springsteen, com seu recém lançado "Wrecking Ball".
Numa primeira e rápida audição, o novo trabalho do americano exala naftalina por todos os poros. Diferente da aparência do cantor, bem conservado para seus 62 anos, sua música parece seguir uma fórmula pra lá de ultrapassada. A velha receita de bolo inclui o rock básico recheado com harmonias simples e letras não muito poéticas, cantadas pela inabalável e rascante voz do dublê de lenhador. As levadas características dos violões country também continuam firmes na música de Bruce e até as frases de sintetizadores repetindo a melodia vocal parecem remeter aos sucessos que fizeram o cantor estourar por aqui há mais de 20 anos.

Ouvir "We Take Care Of Our Own" por exemplo, e não ter a súbita impressão que já ouviu algo muito parecido com aquilo em "Dancing in the Dark" ou "Glory Days", é missão quase impossível. Até mesmo Tom Morello, ótimo guitarrista do Rage Against the Machine que faz uma participação no disco, parece subaproveitado nas duas faixas que gravou.
Bem, depois destes comentários fica difícil convencer o leitor de que nada disso faz com que o álbum seja ruim. De forma alguma. Apesar de soar repetitivo, o disco traz bons momentos como "You've got it" e "Shackled and drawn". Além disso, vale lembrar que Bruce Springsteen é uma das primeiras apostas de Roberto Medina para a edição do Rock in Rio do ano que vem, portanto é recomendável acompanhar de perto suas novidades. OK. Nem tão novidades assim.
Bruce Springsteen - "Schackled and drawn"
Whitney foi mais uma vítima da gangorra do sucesso
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 12/02/2012 13h57
A vida reservou para Whitney Houston um manjado roteiro, pré-formatado e já protagonizado por dezenas de astros de todo o mundo: ascensão meteórica, megaestrelato, relacionamento conturbado, ostracismo, dependência química, recuperação e tentativa de ressurgimento. Em alguns casos o final desse filme é feliz. Em outros não.
Em entrevista concedida a Oprah Winfrey há pouco mais de dois anos, Whitney abre o coração para falar sobre sua vida da forma mais aberta possível. Apesar de longo, vale a pena assistir a esse bate papo, disponível em versão legendada no Youtube. Falando sobre carreira, família, Michael Jackson, problemas no casamento com Bobby Brown e seu envolvimento com as drogas, aparentava estar com a cabeça no lugar e recuperada da dependência.
No Brasil, a cantora apareceu para o grande público em 1986 quando a canção "The Greatest Love of All", de seu primeiro álbum, fez parte da trilha sonora da novela Cambalacho, onde era o tema romântico dos personagens Amanda e Rogério, interpretados por Susana Vieira e Claudio Marzo.
Com apenas 48 anos Whitney se foi, mas sua obra, emoldurada por uma bela e inconfundível voz, marcará seu nome para sempre na história da música.
Sem medo de assumir, Wando era raio, estrela e luar
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 08/02/2012 13h00
Lá se vai mais um ícone do cancioneiro popular brasileiro. Wando não tinha nenhum receio de falar de amor e paixão utilizando uma linguagem mais próxima possível do povo. E esta proximidade era estreita a ponto de fazê-lo cantar coisas como "Mas juro que estranhei / gozar eu não gozei / meu mundo acabou / Aquele amor filho da puta me deixou". Talvez por isso tenha agradado a todos, ou quase todos.
O rótulo "brega", que lhe foi dado no fim dos anos 80, fez com que se perpetuasse uma imagem de ícone das classes sociais menos favorecidas, o que é uma tremenda injustiça. Sua canção de maior sucesso, "Fogo e Paixão", causa comoção em qualquer lugar onde seja executada, seja num humilde pagode ou em uma grande festa da high society.
Wando era daqueles artistas capazes de despertar a porção mais piegas que existe dentro de cada ser, até mesmo dos piores intelectualóides. Outra dívida que temos com o cantor é abandonarmos a ideia de que sua obra se resume a esta canção. Sua discografia é extensa e quem sabe agora depois de sua morte, suas canções sejam mais valorizadas, como de costume.
Descanse em paz, Wando. Você é luz, onde quer que se encontre.
"Coração Bandido"



