O Rei Arthur do Brasil
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 15/05/2012 22h01
Sim, temos o nosso Rei Arthur. Com o contrabaixo no sangue, (seu tio, o lendário Luizão Maia, tocou com alguns ícones da música como Elis, Toquinho, Tom Jobim e Cartola), Arthurzinho, como é carinhosamente conhecido no meio, é o maior nome do país em seu instrumento. Dono de uma técnica impecável e de um bom gosto ímpar em suas composições, o que valoriza ainda mais o instrumentista é a versatilidade para passear com fluência pelos ritmos característicos do Brasil.

Ok, admito: sou um fã inveterado e não há nenhum indício de isenção jornalística neste post. A admiração deste humilde blogueiro pelo contrabaixista vem de longe. Ainda na década de 80, assisti a um show da extinta banda Egotrip, integrada por Arthur e pelo falecido Pedro Gil. Depois, estive em diversas apresentações do espetacular Cama de Gato, banda de música instrumental formada originalmente pelos não menos geniais Pascoal Meirelles, Rique Pantoja e Mauro Senise. Sem contar com os artistas que Arthur acompanhou, como Lulu Santos, Gil e Djavan, entre outros.
Participações de Aline Calixto e Gil
Na quinta-feira passada, o baixista recebeu alguns convidados no palco do Teatro Rival (Rio de Janeiro) para lançar o seu último álbum "O Tempo e a Música", onde mostrou composições próprias e algumas releituras, como o maxixe "Brejeiro" de Ernesto Nazareth. Infestado de brasilidade por todos os lados, o álbum foi lançado lá fora em 2010 e reeditado no fim do ano passado. Aline Calixto, o baterista Jorge Gomes e o tecladista William Magalhães, herdeiro de Oberdan na Black Rio, num maravilhoso improviso do clássico "Maria Fumaça", foram alguns dos convidados. Mas foi Gilberto Gil quem permaneceu por mais tempo no palco. Arthur rendeu várias homenagens a quem chamou de "professor" por diversas vezes. Tocaram juntos o choro "Um Abraço no João", parceria dos dois gravada no álbum "Quanta" e o sucesso "Palco".

Além de propiciar um show musicalmente perfeito (com o luxuoso auxílio do maravilhoso som do Teatro), Arthur esbanjou carisma e bom humor, contando histórias e brincando com o público, identificando amigos e até familiares na plateia. Salve o nosso Rei. A coroa será sua por um bom tempo.
Confira abaixo alguns momentos da carreira de Arthur.
Lulu Santos ao vivo no Maracanãzinho (1987)
Cama de Gato
Programa do Jô
A boa forma do Duran Duran
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 02/05/2012 22h39

Quase quatro anos depois de passar pelo Rio, onde fizeram uma apresentação em 2008 com preços excludentes, o quarteto da terra da Rainha (God save her) voltou a tocar em nosso balneário na noite de segunda-feira. Casa bem cheia, apesar da chuva que azucrinou o carioca durante todo o feriadão, e clima "naftaleico" para curtir os hits de outrora, embora se pudesse perceber alguns filhos de fãs pela plateia.
Sem Andy Taylor, que deixou a banda (de novo) há cerca de seis anos, os quatro rapazes, ops, senhores, trouxeram o auxílio de Dom Brown (guitarra), Simon Willescroft (sax, percussão e teclados) e Anna Ross (vocais). Difícil chamar o Duran Duran de senhores, não? A imagem de rapazotes com cabelos descoloridos e roupas recém saídas da tábua de passar é muito forte. Em seu auge, a banda apostava forte no visual. Hoje em dia, só restou sua boa música, que por aqui influenciou claramente bandas como Egotrip e RPM (ouçam "Rio" ou "Hungry Like the Wolf" e imaginem os gemidos de Paulo Ricardo).
O único que parece resistir ao tempo é o tecladista Nick Rhodes, que mantém seu loiro penteado de antanho. Roger Taylor (não é o mesmo do "Queen") se apresentou à bordo de uma bateria rosa metálica, que podia perfeitamente fazer parte de um "kit-Barbie Rock'n Roll" e John Taylor, antes o rostinho bonitinho e constante alvo de gritinhos femininos (ou masculinos, sabe-se lá) ensandecidos, hoje encontra-se em um avançado estágio no processo de jimcarreyzação, tamanha semelhança com "O Mentiroso" (vejam as fotos e comprovem).
Repertório mistura clássicos com novas canções
Mas esqueçamos os semblantes e vamos à questão auditiva. Quem segura a marimba no DD são os teclados e sintetizadores de Rhodes e a voz ainda afiadíssima de Mister Le Bon. O show, pertencente à turnê do álbum "All You Need is Now", teve o mesmo set list de Brasília e seguiu quase o mesmo roteiro da apresentação no festival SWU, no ano passado. As quatro canções do novo disco que foram executadas seguem a mesma fórmula pop eletrônica utilizada pela banda desde sempre. Uma delas, "Before the Rain", abriu o show. Em "Girl Panic!", o telão (único elemento cênico no palco) mostrava imagens do videoclipe da canção, onde top models como Naomi Campbell e Cindy Crawford se apresentam como se fossem elas as integrantes da banda (Simon Le Bon e John Taylor, respectivamente). "A View to a Kill" foi a terceira música da noite, com direito a todos os efeitos sonoros. Diga-se de passagem, quase todas as canções tiveram seus arranjos originais respeitados. Quando necessários, os pré-gravados apareceram, como em "Wild Boys", onde o grito do refrão era multiplicado várias vezes.
Participação de Fernanda Takai passa em branco
Assim como em Brasília, Fernanda Takai foi chamada ao palco. Com sua voz correspondente ao seu tamanho, a cantora agradeceu, se declarou fã da banda (jura?) e cantou com Le Bon o sucesso "Ordinary World". Bem, cantar é força de expressão. Takai funciona no Pato Fu. Saiu dali, complica um bocado. O mega-hiper-super-giga-sucesso "Save a Prayer" foi incluído especialmente no Brasil. E não há como ficar inerte ao looping que inicia a canção e ao riff de sintetizador da introdução. O povo caiu dentro: cantou, ajoelhou (eu vi, juro) e plantou na banda a dúvida do porquê excluí-la dos shows. Em "Come Undone", foi a vez da cantora de apoio Anna Ross soltar a voz. Covardia com Fernanda. Quando atacaram de "Notorious", alguns poucos e tímidos cartazes onde se lia "NO" apareceram na hora do refrão. Pouco antes do show, um rapaz passou por mim com um destes cartazes (de cabeça para baixo) na mão. Confesso que fiquei matutando durante horas qual seria a música do Duran Duran que teria "ON ON ON" na letra.
Depois de vários sucessos e muitas intervenções de Le Bon com o público, inclusive descendo do palco para pedir a um fã que cantasse com ele e a outra que o apresentasse, voltaram para o bis com "Girls on Film" e fecharam com "Rio", um dos grandes clássicos da banda, composta em homenagem a uma mulher (e não à cidade). Dos sucessos, só faltou "A Matter of Feeling" em um show enxuto, onde o Duran Duran provou que não precisa de muita mis-en-scène pra continuar agradando.
"A View to a Kill"
"Save a Prayer"
Caro 'beatlemaníaco': você é capaz?
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 15/04/2012 14h57
Este desenho com várias referências à canções gravadas pelos Beatles circula há algum tempo pela internet. Não consegui encontrar em lugar nenhum quantas seriam as citações, mas ao que tudo indica, parece rondar pela casa das 40.
Enquanto algumas são bastante óbvias, outras cabem diversas interpretações. Eu descobri apenas 31. Divirtam-se e me contem quando as encontrarem.

O 'choro' fica mais triste
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 28/03/2012 14h17
Com 91 anos de idade, dos quais 71 dedicados à carreira, o Brasil perde a "Rainha do Choro" Ademilde Fonseca. Potiguar de nascimento e carioca por opção, Ademilde foi uma das pioneiras do choro cantado e ganhou o título acima por se destacar na interpretação de diversas canções do gênero.
Estreou gravando, pela primeira vez com letra, o clássico "Tico-tico no Fubá", de Zequinha de Abreu e conviveu com todos os grandes compositores da época, participando, inclusive, como crooner da Rádio Nacional ao lado de gênios como Pixinguinha, Radamés Gnatalli e Jacob do Bandolim. Parafraseando o ator/diretor Jorge Fernando: "o elenco lá de cima anda bem melhor do que o daqui de baixo".
- Ademilde Fonseca morre no Rio de Janeiro
Ademilde Fonseca - "Noites Cariocas"
Sir Paul do Brasil
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 27/03/2012 22h29
Lá vem ele de novo. Em menos de um ano e meio será a terceira visita do velho Macca ao Brasil. Parece muito, ainda mais se levarmos em consideração o hiato de quase 17 anos entre a segunda aparição (em 1993) e a terceira, em 2010. Dessa vez estão programados dois shows em cidades onde Paul ainda não havia dado as caras: Recife e Florianópolis. E o que esperar destas apresentações? Em um breve balanço de tudo que o ex-Beatle fez por aqui, algumas curiosidades e números valem o registro.
74 diferentes canções em nove shows
Foram nove apresentações (duas em 1990, duas em 1993, três em 2010 e duas em 2011) em apenas quatro cidades: Rio de Janeiro (quatro vezes), São Paulo (três vezes), Curitiba e Porto Alegre. Seus set lists tiveram, em média, 33 canções. Paul tocou 74 músicas diferentes e oito delas estiveram em todos os espetáculos. Os sucessos do Wings "Live and Let Die", "Jet" e "Band on the Run", as previsíveis "Yesterday", "Let it Be" e "Hey Jude", e as surpresas "Sgt. Peppers" e "Back in the USSR". Outras que também foram muito executadas (sete vezes) foram "Let 'Em In", "Eleanor Rigby", "All My Loving", "The End", "Lady Madonna", "The Long and Winding Road", "Paperback Writer" e "Let me Roll It".
Nas turnês de 1990 e 1993, Paul tocou várias faixas de seus álbuns de trabalho da época, "Flowers in the Dirt" e "Off the Ground", respectivamente. Duas canções destes discos ("My Brave Face" e "Hope of Deliverance") alcançaram um certo sucesso, porém não retornaram mais aos shows. Nestes mesmos shows, alguns covers foram incluídos, como "Twenty Flight Rock" de Eddie Cochran, "Ain't That a Shame" de Fats Domino, "Good Rockin' Tonight" do Elvis e "Ain't no Sunshine" de Bill Whiters.
Clássicos ficaram de fora
O fato mais curioso é alguns de seus grandes hits jamais terem aparecido nestes set lists. É o caso de "Say, Say, Say" (talvez pela dificuldade de encontrar quem fizesse com qualidade a parte de Michael Jackson), "Pipes of Peace", "Another Day", "Silly Love Songs", "Once Upon a Long Ago" e principalmente "No More Lonely Night", talvez o maior sucesso de sua carreira solo por aqui.
Mas acima de qualquer estatística, o que os públicos recifense e florianopolitano devem observar atentamente são os shows que Paul vem fazendo pela Europa por estes dias. No último sábado, por exemplo, sua apresentação em Rotterdam durou impressionantes 44 músicas. Da época de Beatles, "The Night Before", "I Will", "Yellow Submarine", "The Word" e "All You Need is Love" são as novidades. De sua carreira solo, Paul resgatou a belíssima "Maybe I'm Amazed", que só foi tocada no Brasil nos shows do Maracanã em 1990.
Abaixo, alguns aperitivos para adoçar a boca dos fãs do nordeste ao sul do Brasil. "I Will" e "Maybe I'm Amazed" (com direito à citação de "Lucy in the Sky..." no final), ao vivo em Rotterdam no sábado passado. Apreciem.
Uma estrada musical sem buracos nem pedágios
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 21/03/2012 20h58
Como é bom ter prazer em ouvir um disco do início ao fim. Há muito eu não ouvia um trabalho tão regular (no melhor sentido da palavra) da primeira à última música. "Zeroquarenta", álbum de estreia de Carlos Fernando Cunha, é daqueles discos difíceis de se apontar um ponto fraco.
Pegando emprestado o nome da estrada que liga o seu Rio de Janeiro natal a Juiz de Fora, onde se radicou há cerca de dez anos, o cantor faz do (bom) samba um elo de ligação entre as duas cidades e deixa clara em várias de suas letras a admiração por ambas. Com parceiros variados, as treze canções são assinadas pelo cantor e trazem a sua visão sobre temas comuns aos compositores do estilo.
"Valente, meu samba é pau, é pedra/Certeza latente que não se entrega", verso da canção que abre o disco ("Samba Valente") é um recado ao ouvinte sobre o que vem pela frente: uma voz suave e técnica a serviço de um repertório de extremo bom gosto e muito bem arranjado, apesar do aparente baixo custo da produção, provando que nem sempre a qualidade é produto do dinheiro. Voltado à faixa um, as frases de sax do fantástico Dirceu Leite são a cereja no bolo de uma música que, por si só, já valeria o álbum.
A ideia do disco pode ser sintetizada na faixa título, onde o cantor enfileira referências mineiras e cariocas em levada de bossa nova: "Das serras já vejo o mar...doze profetas/um Redentor...Ary chama Noel/Clara pede passagem...Seu Cartola domina/cruza um acorde pra Esquina". Nesta faixa surge também a primeira citação à Vila Isabel, em homenagem à sua escola de coração ou ao bairro que a abriga.
Duas faixas trazem sambas com andamento de "avenida": em "Ciência para Cantar", Carlos Fernando pega emprestados alguns termos acadêmicos incomuns para declarar o que deseja e espera do samba. A outra é "Meu Carnaval", que narra a sensação de um amante da maior festa popular brasileira e mais uma vez cita o bairro de Noel: "..Lá onde está meu Boulevard/É sexta-feira vou trovar/Tambores, mil amores/Agradeço a cantar". Linda melodia e comovente letra pra quem ama o carnaval. Pra mim, a melhor do disco. Em seguida, a cantora Ana Costa aparece em participação especial na faixa "Dando Pedal", uma deliciosa brincadeira com a palavra "pé" e seus derivados.
O ápice da mineirice adaptada aparece em "Nhá Moça", uma autêntica modinha de viola com direito a linguajar característico. Os arranjos tipicamente caipirescos dos violões de Daniel Goulart emolduram perfeitamente o clima desejado. Outro grande momento do disco é "Serventia". Nela, o compositor senta-se à mesa de um bar para listar conselhos para tentar livrar um suposto amigo das agruras da vida: "Reclama da nêga ingrata/que ela não vai te escutar/levanta esse rosto cansado/a luta não vai te levar/pede mais um tira gosto pra mudar/o gosto da vida amarga que quer te vencer/batuca na mesa e levanta o teu cantar/a noite já virou dia/meu ombro é serventia". Letra genial, assim como o violão de Carlinhos Sete Cordas, presente nos discos de dez de cada dez grandes sambistas do país. O violonista também empresta sua levada à "Tantas Palavras", canção marcada por um trecho de lamento característico dos sambas das décadas de 60 e 70.
Falando em instrumentistas, o pianista André Pires é outro que deixa sua marca talentosa na bossa "Caminho da Paz" e na lindíssima valsa rancho "A Moça e o Cello", uma visão poética sobre a imagem da relação de uma musicista com seu instrumento. A figura feminina aparece novamente em "A Sambista" e "Me Deixe Sambar", esta última um samba de roda com um refrão contagiante: "Ô mainha me deixe sambar/me deixe sambar/me deixe sambar/Ô mainha me deixe sambar/A lua me chama pra beira do mar". O disco é fechado com "Perambulando", canção com a qual o compositor venceu o 1ª Concurso de Marchinhas de Juiz de Fora. Na letra, um folião percorre locais característicos da cidade durante o carnaval.
A "Zeroquarenta" de Carlos Fernando Cunha é uma estrada limpa, onde não há buracos nem pedágios, apenas belas canções que nos levam a diferentes sensações entre suas retas e curvas, entre suas subidas e descidas. Belíssima estreia.
O cantor faz show de lançamento nesta quinta, dia 22, no Centro Cultural Carioca (Praça Tiradentes), a partir das 22h.
"Me Deixe Sambar"
"Samba Valente"
Cheiro de naftalina no topo da Billboard
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 14/03/2012 20h57
Finalmente, depois de várias semanas no topo da Billboard britânica, Adele foi desbancada. O autor da proeza é Bruce Springsteen, com seu recém lançado "Wrecking Ball".
Numa primeira e rápida audição, o novo trabalho do americano exala naftalina por todos os poros. Diferente da aparência do cantor, bem conservado para seus 62 anos, sua música parece seguir uma fórmula pra lá de ultrapassada. A velha receita de bolo inclui o rock básico recheado com harmonias simples e letras não muito poéticas, cantadas pela inabalável e rascante voz do dublê de lenhador. As levadas características dos violões country também continuam firmes na música de Bruce e até as frases de sintetizadores repetindo a melodia vocal parecem remeter aos sucessos que fizeram o cantor estourar por aqui há mais de 20 anos.

Ouvir "We Take Care Of Our Own" por exemplo, e não ter a súbita impressão que já ouviu algo muito parecido com aquilo em "Dancing in the Dark" ou "Glory Days", é missão quase impossível. Até mesmo Tom Morello, ótimo guitarrista do Rage Against the Machine que faz uma participação no disco, parece subaproveitado nas duas faixas que gravou.
Bem, depois destes comentários fica difícil convencer o leitor de que nada disso faz com que o álbum seja ruim. De forma alguma. Apesar de soar repetitivo, o disco traz bons momentos como "You've got it" e "Shackled and drawn". Além disso, vale lembrar que Bruce Springsteen é uma das primeiras apostas de Roberto Medina para a edição do Rock in Rio do ano que vem, portanto é recomendável acompanhar de perto suas novidades. OK. Nem tão novidades assim.
Bruce Springsteen - "Schackled and drawn"
Whitney foi mais uma vítima da gangorra do sucesso
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 12/02/2012 13h57
A vida reservou para Whitney Houston um manjado roteiro, pré-formatado e já protagonizado por dezenas de astros de todo o mundo: ascensão meteórica, megaestrelato, relacionamento conturbado, ostracismo, dependência química, recuperação e tentativa de ressurgimento. Em alguns casos o final desse filme é feliz. Em outros não.
Em entrevista concedida a Oprah Winfrey há pouco mais de dois anos, Whitney abre o coração para falar sobre sua vida da forma mais aberta possível. Apesar de longo, vale a pena assistir a esse bate papo, disponível em versão legendada no Youtube. Falando sobre carreira, família, Michael Jackson, problemas no casamento com Bobby Brown e seu envolvimento com as drogas, aparentava estar com a cabeça no lugar e recuperada da dependência.
No Brasil, a cantora apareceu para o grande público em 1986 quando a canção "The Greatest Love of All", de seu primeiro álbum, fez parte da trilha sonora da novela Cambalacho, onde era o tema romântico dos personagens Amanda e Rogério, interpretados por Susana Vieira e Claudio Marzo.
Com apenas 48 anos Whitney se foi, mas sua obra, emoldurada por uma bela e inconfundível voz, marcará seu nome para sempre na história da música.
Sem medo de assumir, Wando era raio, estrela e luar
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 08/02/2012 13h00
Lá se vai mais um ícone do cancioneiro popular brasileiro. Wando não tinha nenhum receio de falar de amor e paixão utilizando uma linguagem mais próxima possível do povo. E esta proximidade era estreita a ponto de fazê-lo cantar coisas como "Mas juro que estranhei / gozar eu não gozei / meu mundo acabou / Aquele amor filho da puta me deixou". Talvez por isso tenha agradado a todos, ou quase todos.
O rótulo "brega", que lhe foi dado no fim dos anos 80, fez com que se perpetuasse uma imagem de ícone das classes sociais menos favorecidas, o que é uma tremenda injustiça. Sua canção de maior sucesso, "Fogo e Paixão", causa comoção em qualquer lugar onde seja executada, seja num humilde pagode ou em uma grande festa da high society.
Wando era daqueles artistas capazes de despertar a porção mais piegas que existe dentro de cada ser, até mesmo dos piores intelectualóides. Outra dívida que temos com o cantor é abandonarmos a ideia de que sua obra se resume a esta canção. Sua discografia é extensa e quem sabe agora depois de sua morte, suas canções sejam mais valorizadas, como de costume.
Descanse em paz, Wando. Você é luz, onde quer que se encontre.
"Coração Bandido"
Os doze melhores sambas-enredo (segunda parte)
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 07/02/2012 16h00
Antes de listar os seis sambas que completam a lista, gostaria de fazer uma menção honrosa aos que permaneceram quase até o fim, mas ficaram de fora quando tive que fazer minha última escolha: "Chora Chorões" da Estácio de Sá (1985), Bahia de Todos os Deuses do Salgueiro (1969) e Liberdade! Liberdade! Abra as Asas Sobre Nós da Imperatriz (1989). Três lindas e inesquecíveis obras com totais condições de integrar qualquer lista e que eu mesmo ainda posso me arrepender por não tê-los incluído.
Das Maravilhas do Mar fez-se o Esplendor de uma Noite (David Corrêa e Jorge Macedo) - Portela 1981
O início da década de 80 marca uma época de obras antológicas, onde os sambas-enredo estavam na mídia diariamente. David Corrêa, que marcou seu nome com diversas vitórias na Portela, Salgueiro, Vila Isabel e Mangueira, entre outras, assina sua obra prima ao lado de seu parceiro David Corrêa.
Bum Bum Paticumbum Prugurundum (Beto Sem Braço e Aluízio Machado)- Império Serrano 1982
Ainda no início da década de 80, o samba imperiano é profético ao prever que Super Escolas de Samba S.A. e super alegorias esconderiam muita gente bamba, ofuscando a verdadeira essência da festa. Que covardia!
Sublime Pergaminho (Zeca Melodia, Nilton Russo e Carlinhos Madrugada) - Unidos de Lucas
A então recém criada Unidos de Lucas (fusão da Unidos da Capela com Aprendizes de Lucas), o bravo Galo da Leopoldina que hoje transita nos grupos de acesso das escolas de samba, entrou para a história ao escolher este memorável samba para o carnaval de 1968.
Cem anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão? (Hélio Turco, Jurandir e Alvinho) - Mangueira 1988
A Estação Primeira não ficou com o título do ano do centenário da Abolição, mas deixou um colosso de samba-enredo e um verso pra ser guardado na antologia literária desse país: "Pergunte ao criador quem pintou essa aquarela, livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela".
Pra tudo se acabar na quarta-feira (Martinho da Vila) - Vila Isabel 1984
"Mas a Quaresma lá no morro é colorida, com fantasias já usadas na avenida". Na minha opinião, o melhor samba composto por Martinho. Uma linda homenagem aos anônimos que constroem a festa do carnaval carioca.
Bom, Bonito e Barato (Robertinho Devagar, Jorge Ferreira e Edinho Capeta) - União da Ilha 1980
Neste samba, a União da Ilha conta um pouco da sua própria história, de como se transformou de uma pequena escola em uma das mais queridas do povo carioca, com seu estilo leve e contagiante.
E você, querido leitor? Quais são os seus preferidos?
"Das Maravilhas do Mar fez-se o Esplendor de uma Noite"
"Bum Bum Paticumbum Prugurundum"
"Sublime Pergaminho"
"Cem Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?"
"Pra Tudo se Acabar na Quarta-feira"
"Bom, Bonito e Barato"
Os doze melhores sambas-enredo (primeira parte)
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 24/01/2012 23h51
Em épocas pré-momescas, peço licença aos amigos blogueiros da editoria "Carnaval" para dar vazão a uma de minhas paixões e deixar meu humilde pitaco neste espaço.
Antes de mais nada, o querido leitor deve estar se perguntando porque doze e não dez. Eu explico: meu objetivo ao iniciar essa coluna era escolher dez, porém fiz uma lista com uns trinta sambas dentre os meus preferidos e fui excluindo um a um. Quando cheguei aos doze, não consegui tirar mais nenhum sem que me causasse desconforto. Confesso que já foi bastante complicado baixar de trinta para doze. Deixei de fora clássicos consagradíssimos, mas meu critério foi o mais simples possível: emoção. Nada técnico, nenhuma análise detalhada. Utilizei apenas o arrepio e as lágrimas como parâmetro. Busquei o máximo de isenção por mais difícil que seja a missão, haja visto que os sambas da minha escola me levam às lágrimas por piores que sejam.
Irei enumerá-los sem qualquer ordem de preferência. Os doze empataram em primeiro lugar. É importante ressaltar que esta é apenas a minha opinião. Respeitarei aquele que discordar de todos, e certamente haverá esse alguém. Como curiosidade, apenas um dos meus escolhidos conduziu a escola ao título.
Como dividi o post em dois, vamos à primeira parte:
O Mundo Melhor de Pixinguinha (Jair Amorim, Evaldo Gouveia e Velha) - Portela 1974
Segundo Sérgio Cabral em seu livro "As escolas de Samba do Rio de Janeiro", o então presidente Carlinhos Maracanã peitou Deus e o mundo e bancou o samba de dois compositores da MPB sem nenhuma ligação com a escola, o que gerou uma insatisfação que culminaria com a fundação do "Quilombo", foco de resistência criado por Candeia com apoio de alguns dos maiores sambistas da época. Mas nada disso foi capaz de tirar o brilho da obra que levou a águia ao vice-campeonato de 1974. O outro compositor, Velha, é pai de Júlio Nascimento, fantástico mestre-sala atual tri-campeão do "Estandarte de Ouro", cria da Tradição e hoje na Vila Isabel.
Os Cinco Bailes da História do Rio (Silas de Oliveira, Bacalhau e Ivone Lara) - Império Serrano 1965
Dona Ivone Lara, até então integrante da ala das baianas da escola da Serrinha, entrou para a história ao ser a primeira mulher a assinar um samba-enredo, na companhia de Bacalhau e do genial Silas de Oliveira. Naquele ano, todas as escolas levaram para o desfile temas relacionados aos 400 anos da cidade do Rio de Janeiro, comemorados na segunda-feira de Carnaval. O Império ficou com o vice-campeonato e nos deixou um samba antológico.
E Eles Verão a Deus (Mazinho, Ambrósio e Renatinho) - Unidos da Ponte 1983
Com essa obra-prima, a escola de São João de Meriti fazia sua estreia na elite do Carnaval (na época chamado de Grupo 1A). Em 2005, o samba foi reeditado no Grupo de Acesso B. Sua melodia é um primor.
Sonho de um Sonho (Martinho da Vila, Rodolpho e Graúna) - Unidos de Vila Isabel 1980
Baseado em um poema de Carlos Drummond de Andrade, Martinho e Graúna compuseram este belíssimo samba na companhia de "seu" Rodolpho, morador do Morro dos Macacos e tão genial quanto menosprezado compositor.
É Hoje (Didi e Mestrinho) - União da Ilha 1982
Temos uma resistência natural a tudo que se torna popular ao extremo, mas não dá pra ignorar a sensibilidade do mestre Didi ao descrever neste samba o grande dia da vida do sambista. "É Hoje" é mais do que um samba enredo: é um hino do carnaval carioca.
Os Sertões (Edeor de Paula Machado) - Em Cima da Hora 1976
A pequena escola do bairro de Cavalcante que hoje desfila no Grupo C, é a responsável por uma das maiores pérolas do carnaval carioca. Um lamento em forma de samba-enredo, descrevendo a dura vida dos sertanejos e contando a história da "Guerra de Canudos", baseado na obra de Euclides da Cunha
"O Mundo Melhor de Pixinguinha"
"Os Cinco Bailes da História do Rio"
"E Eles Verão a Deus"
"Sonho de um Sonho"
"É Hoje"
"Os Sertões"
As dez mais tocadas em 2011
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 10/01/2012 23h50
Foi divulgada hoje uma lista com as dez músicas mais tocadas nas rádios brasileiras em 2011. A relação é da Crowley Broadcast Analysis, uma empresa multinacional que monitora as estações do Brasil e fornece dados para o ECAD. O resultado, como eu já esperava, é catastrófico. Sinto, ao mesmo tempo, um misto de tristeza pela situação calamitosa de nosso cenário musical, com um pouco de orgulho por não conhecer quase nenhuma das canções mais executadas em meu país.
Vamos a elas:
A décima colocada é "Viver sem Ti", do Exaltasamba. Quando li o título, por um instante achei se tratar de uma versão para "Vivir sin Aire", do Maná. Não sei se feliz ou infelizmente, eu estava enganado. É mais uma mela cueca do pseudo samba que assolou o Brasil no início da década de 90 e que até hoje ainda nos faz aturar alguns herdeiros ou sobreviventes daquela época. Este grupo anuncia uma pausa há quase um ano e diversas vezes li pelas ruas anúncios de shows de despedida. O que falta?
A nona posição é de Eduardo Costa e o nome da música fala por si: "Quem é?". Meu Deus. Teria o jogador do Vasco desistido de sua carreira futebolística e apostado em um novo nicho? Ou seria meu irmão (homônimo do tal cantor), isolado nos Pampas Gaúchos tentando decolar no showbizz? Pensei em ligar pra ele. Nada disso. É mais um dos vários oportunistas da moda da vez, o tal "Sertanejo Universitário", que poderia ser chamado de "Sertanejo de Boutique" ou "Sertanejo Pasteurizado". Um tipo de música que em nada representa o dia a dia do nosso caipira e se aproxima muito mais do country americano do que das raízes interioranas do Brasil. Tenho muita pena de Tonico e Tinoco, Sérgio Reis e Inezita Barroso, entre outros.
O insuportável Luan Santana aparece pela primeira vez no oitavo lugar com a canção "Um Beijo", mais uma que segue a infalível fórmula dos quatro acordes (ver aqui).
Em sétimo, enfim algo que eu conheço, o que não significa grande coisa: "Fireworks" de Katy Perry é chatinha que dói, e tive que conhecê-la quando acompanhei o Rock in Rio.
Paula Fernandes emplaca "Não Precisa" na sexta posição. "Sertanejo Universitário", "Forró Universitário"...por que esse povo não se forma logo e some de uma vez?
O quinto colocado dispensa comentários: o grande Michel Teló, sua mundialmente conhecida "Ai, se Eu te pego" e os indefectíveis quatro acordes. Analisem o tipo de gente que ajudou a divulgar esta música e apliquem o ditado "diga-me com quem andas e eu te direi quem és".
Bruno Mars e a novelística "Talking to the Moon" ocupam o quarto lugar. Esta eu conhecia e, comparando com as outras, é um primor.
Na terceira posição, "Amar não é Pecado". A única vantagem de Luan Santana sobre Michel Teló é que, como ele apareceu antes, nos livraremos dele igualmente mais cedo. A corrente é forte e a esperança é grande.
Os filhos de Francisco ocupam o segundo posto com "Mentes Tão Bem". Mesmo não gostando do estilo, admito que Zezé e Luciano já fizeram coisas melhores.
E a campeoníssima é Paula Fernandes com "Pra Você". Pra mim, Paula? "Não Precisa", juro. Com o perdão pelos trocadilhos.
E aí, Van Halen? Agora vai?
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 28/12/2011 00h19

Com uma silenciosa e enigmática mensagem espalhada através de sua newsletter oficial, o Van Halen avisou aos fãs na manhã de ontem (segunda-feira) que está de volta. O e-mail, que leva o título de "The Future...", traz apenas a misteriosa foto de uma locomotiva e o link para um vídeo pra lá de bizarro, onde o cantor David Lee Roth mostra ao mundo que continua o mesmo fanfarrão, executando dancinhas toscas ao som de trechos de "Jump", "Panama" e "Hot for Teacher". No pé da tela, aparecem as frases "Van Halen on Tour 2012" e "First tickets on sale January 10". E nada mais. Informações básicas como datas e locais da turnê só daqui a 14 dias, provavelmente.
Novo álbum deve sair no início de 2012
Rumores dizem que o novo álbum será lançado no início de 2012 pela Columbia Records, colocando um ponto final em um casamento de 35 anos com Warner. Eddie Trunk, apresentador do programa "That Metal Show" da VH1, garante que esta foto trata-se da capa do disco e o "2-7-12" que aparece abaixo do logo é a data de seu lançamento. O certo é que o hiato entre o último disco (Van Halen III de 1998) e os dias atuais, com direito a brigas, turnês e idas e vindas de integrantes, transformou uma das maiores bandas de hard rock do mundo em um enigma. É fato que o temperamento de Eddie, que neste período passou por um tratamento de câncer na língua, ajuda a conturbar o ambiente. Os últimos a "desistirem" de Eddie foram, novamente, o vocalista Sammy Hagar, que havia retornado para uma turnê e o baixista Michael Anthony. Ambos se juntaram ao baterista Chad Smith do Red Hot Chili Peppers e ao guitarrista Joe Satriani e trataram de tocar a vida em outro projeto, o Chickenfoot.
Filho de Eddie assume o contrabaixo em 2007
No lugar de Michael, Eddie lançou seu filho Wolfgang. O beberrão Michael Anthony jamais foi um exímio instrumentista mas conhecia seu lugar, servindo de escada perfeita para um dos maiores guitarristas de todos os tempos. O problema é que, além de ser uma figura importante como membro das formações clássicas da banda, o ex-baixista era essencial nos vocais de apoio. Para o microfone principal, uma velha solução: o performático cantor original David Lee Roth, que havia saído da banda em 1985 para seguir em carreira solo. Outro percalço é que Dave já declarou em uma entrevista há alguns anos que se recusaria a cantar músicas da época de Sammy Hagar, que o substituiu a partir do excelente álbum "5150". As fases são bem distintas e divide os fãs. Há quem prefira a era Lee Roth. Outros valorizam mais a fase Sammy, com maior presença de teclados e canções mais sóbrias. Apesar de ser inegável que a obra da banda seja excelente em ambas as épocas, é duro estar em um show do Van Halen e não poder ouvir "Dreams", "Can't Stop Loving You" ou "Poundcake" por causa de vaidades. Mas um público que espera por 29 anos (a única aparição da banda por aqui foi em 1983, durante a turnê de "Diver Down"), não pode escolher muito, não.
Vídeo promocional Van Halen 2012
Novo ano, novos e bons shows
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 12/12/2011 22h45

Depois de um ano avassalador em termos de grandes shows internacionais, o público brasileiro já pode ir preparando os bolsos para 2012. Superar o número de astros mundiais que estiveram por aqui em 2011 é tarefa árdua, ainda mais se considerarmos uma edição do Rock in Rio, mas os primeiros meses do próximo ano se mostram promissores.
James Blunt e Bruno Mars abrem o ano
Quem inicia os trabalhos em meados de janeiro é o britânico James Blunt com seu repertório cheio de baladas melosas. O cantor esteve por aqui abrindo as noites para Elton John em 2009 mas seu show não encaixou bem na Praça da Apoteose. Talvez desta vez, numa casa fechada, a coisa flua melhor. A turnê atual divulga o álbum "Some kind of trouble", de 2010, porém seus dois maiores sucessos, "You're beautiful" e "Same mistake", vem sendo incluídos no repertório do show. Nesta mesma época, a italiana Laura Pausini é outra que volta ao país para três apresentações em São Paulo.
Ainda no primeiro mês do ano, Bruno Mars aproveita a crista da onda para uma pequena turnê pelo país. Estourado com as faixas "Talking to the moon" e "Lazy song" (do divertido clipe das máscaras de macacos), o havaiano participa do Summer Soul Festival, o mesmo que trouxe Amy Winehouse ao Brasil neste ano.
Roger Waters retorna com mega-show
Após a pausa para as celebrações momescas, Rio, São Paulo e Porto Alegre recebem em março o maior nome dentre os confirmados até o momento: o ex-Pink Floyd e dublê de Richard Gere, Roger Waters, reaparece por aqui com a turnê do mega-espetáculo "The wall". A última aparição do baixista no país foi em 2007, quando trouxe o show "Dark side of the moon", onde tocava na íntegra o clássico álbum de sua ex-banda. Desta vez, dentre diversos elementos cênicos e efeitos visuais, um singelo muro de 70 metros de comprimento por 11 de altura é construído em frente ao palco durante a apresentação. A produção do espetáculo foi orçada em míseros 15 milhões de dólares. Imperdível, não?
Mesmo que não se confirmem os boatos sobre uma volta de Madonna e Van Halen, sem dúvidas já temos um excelente pontapé inicial.
Roger Waters - Comfortably Numb
Bruno Mars - Talking to the Moon
Uma década sem George
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 29/11/2011 23h16

Visto como tímido e introvertido, George Harrison figurou (mais uma vez) em mais uma das polêmicas listas da Rolling Stone, divulgada na semana passada, como 11º maior guitarrista de rock de todos os tempos. Em outra lista da mesma publicação, duas composições de Harrison aparecem entre as dez melhores canções dos Beatles: "Something" (Abbey Road, 69) e "While my Guitar Gently Weeps" (The Beatles ou White Album, 68).
O fato é que seu talento foi, durante muito tempo, ofuscado pelo brilho máximo da dupla mais famosa do grupo, mas é fácil identificar a grandeza de sua obra ao considerarmos que o guitarrista deixou, além das duas já citadas, "Here Comes the Sun", "Think for Yourself", "If I Needed Someone", "Taxman" e "I Need You", entre outras, além de riffs e solos geniais. Isso sem entrar no mérito do aprofundamento na cultura oriental e a influência de suas infinitas pesquisas sonoras na música da banda. Após o fim dos Beatles não foi diferente: Paul e John tiveram maior projeção em suas carreiras solos, mas George estava lá, produzindo uma extensa e ótima discografia.
Em 29 de novembro de 2002, exatamente um ano após sua morte, vários de seus amigos reuniram-se no Royal Albert Hall para uma grande homenagem. Este show virou o DVD "Concert for George" e foi lançado no ano seguinte. Em um dos vários momentos épicos, Billy Preston interpreta "My Sweet Lord" na luxuosíssima companhia de Ringo, Paul, Eric Clapton, Ray Cooper e de Dhani Harrison, filho de George que mais parece uma reencarnação do pai em cima do palco, de tão impressionante semelhança. Músicos de primeira grandeza num espetáculo maiúsculo, celebrando a memória e a vida do amigo, um dos pioneiros em concertos beneficentes quando idealizou o "Concert for Bangladesh" em 1971. Embora não seja novidade, é uma ótima opção de presente para o Natal que se avizinha.
Concert for George - "My Sweet Lord"
Concert for George - "Something"
Troca de vocalistas: drama ou solução?
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 22/11/2011 22h28
Respondam rápido: existe vida para uma banda após a troca de seu vocalista, sendo a voz, na maioria das vezes, a identidade sonora mais marcante de um trabalho?
Você que negou de imediato, me diga então como sobreviveu o Deep Purple com quatro vocalistas diferentes? Ou o Black Sabbath de Ozzy, Dio, Tony Martin, Glenn Hughes e o próprio Ian Gillan, além de alguns outros? AC/DC de Bon Scott e Brian Johnson? Ou quem sabe puxando para a nossa terra, o Barão Vermelho. Uma figura tão marcante como Cazuza não seria insubstituível?
Agora aos otimistas: vocês imaginariam o The Police sem a voz do Sting? Ou o Pretenders sem a Chrissie Hynde? Smiths sem Morrissey? Cure sem Robert Smith? Paralamas sem Herbert? Por que o Iron Maiden não se sustentou com Blaze Bailey? Ok, este era péssimo e não conta. Como o ex-Extreme Gary Cherone não se deu bem no Van Halen, banda que já havia passado por uma bem sucedida experiência mudando radicalmente seu estilo ao trocar o fanfarrão David Lee Roth pelo sóbrio Sammy Hagar? Qual o motivo de muita gente ter torcido o nariz para o Queen com o ótimo Paul Rodgers?
A verdade é que não há fórmula. Mexer na característica mais marcante de um som é questão delicadíssima e arriscada. Muitos deram certo. Outros afundaram. Certamente o vocalista não é a única identidade de uma banda: o timbre da bateria de Lars Ülrich é a cara do Metallica e o U2 sem os efeitos de The Edge jamais seria o mesmo, só para citar dois exemplos. Porém é inegável que, para o grande público, a melhor forma de se identificar um artista (ou banda) é a voz.
O fato motivador desta pergunta foi uma rápida pesquisa sobre o INXS pois há exatamente 14 anos, Michael Hutchence era encontrado morto em sua casa. Qual foi minha surpresa ao perceber que a banda praticamente não parou suas atividades após a perda de seu cantor. Tenho dúvidas se minha memória falhou, mas até Terence Trent D'Arby ("Wishing Well") ocupou o posto durante um tempo e inclusive há registros de uma passagem pelo Brasil em 2002. Com Hutchence, a banda australiana alçou excelentes voos após os excelentes álbuns Kick (1987) e X (90). Deixou clássicos como "Need you tonight", "Never tear us apart", "New sensation", "Suicide blonde", "Disappear" e "By my side". Boa pinta, Michael era um espetacular frontman e dominava o palco com maestria. Na segunda edição do Rock in Rio, em 1991, fechou a noite em que se apresentava Santana e levou o povo ao delírio. Foi encontrado enforcado em seu apartamento em Sidney às vésperas da turnê comemorativa de 20 anos da banda. De lá pra cá, o INXS tentou vários cantores e caiu no ostracismo, gravando apenas um disco no período ("Switch", de 2005). Se é que isso seja possível, deixou saudades mesmo ainda existindo.
E o que seria um post sobre o fim de uma boa banda virou um tratado sobre a superação após substituições de cantores.
INXS - "Disappear"
Pearl Jam é uma caixinha de surpresas
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 07/11/2011 23h51

Eddie Vedder e seus companheiros não são chegados a uma rotina. Nos três shows já realizados no Brasil (dos cinco previstos), a banda já tocou nada mais, nada menos do que 52 músicas diferentes. O alerta de que novidades poderiam aparecer foi dado ainda em São Paulo, onde as duas apresentações foram bem diferentes. Como vem fazendo em toda a turnê "PJ 20", que comemora as duas décadas do lançamento de "Ten", seu álbum de estreia, o Pearl Jam vem brincando com seu set list a cada noite. Bom para eles, que encontram motivação extra por tocarem coisas diferentes a cada show, melhor para o público, que tem a chance de ouvir coisas inesperadas. E o público carioca tirou do fundo da gaveta suas camisas de flanela xadrez, que vestiam o estilo grunge no início da década de 90, para conferir um grande show (em qualidade e quantidade) na noite de ontem.
Voz de Vedder continua excelente
Embora a turnê privilegie as canções presentes nos quatro primeiros álbuns, a apresentação foi aberta com uma faixa do trabalho mais recente, "Unthought Know", do álbum Backspacer, de 2009. Em um palco sem grandes produções ou cenários (apenas um painel simulando umas caixas de som formando as letras PJ), Vedder apareceu depois de 33 minutos de atraso com uma Fender Telecaster Vintage e mostrou que sua bela voz continua inabalável. Embora o Nirvana de Cobain tenha alcançado um patamar de pioneirismo no movimento das bandas de Seattle, é o angustiante registro vocal do cantor do Pearl Jam o que melhor personifica o estilo. Enquanto isso, o baixista Jeff Ament e o baterista Matt Cameron formam uma cozinha firme que serve de cama para os guitarristas Mike McCready e Stone Gossard deitarem confortavelmente suas distorções e riffs.
"Even Flow" emociona a multidão
Depois de praticamente emendar as músicas seguintes ("Last Exit", "Blood" e "Corduroy"), o cantor iniciou um breve bate-papo com a multidão de 40 mil pessoas. Enquanto aguardava reparos nos problemas com seu monitor, arriscava em português com sua habitual garrafa de vinho na mão: "Lembro muito bem daqui. É bom estarmos de volta". Em "Even Flow", o primeiro momento de comoção coletiva quando a plateia urrou os versos da canção, clássico do primeiro disco da banda. "Daughter", do álbum "Vs.", de 93, ganhou trechos de "Blitzkrieg Pop", a primeira referência da noite aos Ramones. No final da canção, o povo ensaia pedidos de "Olé", canção nova que deverá integrar o próximo trabalho do grupo. A música seguinte, "Habit", começou com aparente problema na guitarra de Mike McCready, mas nada que atrapalhasse a perfomance. Depois de 1h15min, a banda fechou o set com "Rearviewmirror", com direito a um "branco" de Vedder nos primeiros versos da canção.
Nova homenagem aos Ramones
Após um razoável intervalo, Vedder volta ao palco para mais uma prosa com a galera. Apresenta o tecladista Boom Gaspar e o (bom) baterista Matt Cameron, fala algo sobre o asteroide que passará perto da Terra dentro de alguns dias e finaliza com uma declaração de amor ao público brasileiro. Logo após "Just Breathe", a primeira do bis, uma nova homenagem aos Ramones. Eddie provoca risos ao se enrolar no idioma para falar que sente muitas saudades de seu amigo Johnny Ramone e anuncia "I Believe in Miracles", um dos vários covers que o PJ vem tocando na turnê. As porradas "Do the Evolution" e "Jeremy" fecham o primeiro bis e a multidão leva no gogó o refrão da última, mesmo após a saída da banda do palco.
Cover do Pink Floyd é a maior surpresa
Novo retorno, nova resenha, novas rasgações de seda. Eddie elogia mais uma vez o público quando uma bandeira é lançada ao palco. A grande surpresa do show viria a seguir: antes da versão para "Mother" do Pink Floyd, o cantor declara que pela primeira vez tocariam esta canção para um grande público. A sequência de clássicos "Better Man", "Black" e "Alive" indica a reta final do show, mas ainda há espaço para outro cover ("Rockin' in the Free World" de Neil Young) e mais um pedido de auxílio de Eddie à galera ao esquecer a letra de "Indiference". A noite foi fechada com "Yellow Ledbetter", canção meio lado B da banda. Fim de papo após 2h45min de palco. Todos felizes e banda preparada para mais novidades em Curitiba e Porto Alegre.
Set list:
1-Unthought Known
2-Last Exit
3-Blood
4-Corduroy
5-Given To Fly
6-Nothingman
7-Faithfull
8-Even Flow
9-Daughter
10-Habit
11-Immortality
12-The Fixer
13-Got Some
14-Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town
15-Why Go
16-Rearviewmirror
Bis
17-Just Breathe
18-Come Back
19-I Believe In Miracles
20-State Of Love And Trust
21-Of The Earth
22-Do The Evolution
23-Jeremy
Bis
24-Mother
25-Better Man
26-Black
27-Alive
28-Rockin’ in the Free World
29-Indifference
30-Yellow Ledbetter
Confira momentos do show do Pearl Jam:
"Do the Evolution"
"Black"
Black Rio: a Maria Fumaça viajando rumo ao pop
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 28/10/2011 00h40
Depois de nove anos sem lançar material novo (o último foi "Rebirth", de 2002), a Black Rio dá as caras novamente. O álbum "Supernova Samba Funk", que já saiu lá fora e chega agora ao Brasil, conta com a cuidadosa produção de William Magalhães e honra a dimensão que seu pai deu à "Banda" nos anos 70. Com caprichadíssimos arranjos (especialidade da casa), as 16 canções misturam elementos dos diversos gêneros musicais de origem negra, mantendo fidelidade à proposta embrionária do grupo. O que se percebe de novo no som da BBR é uma caracterização um pouco mais pop em suas músicas. E isso de forma alguma deprecia o excelente trabalho. Certos momentos remetem aos bons discos "Na Pista" de Claudio Zoli e "Manual Prático..." de Ed Motta.
Disco conta com várias participações especiais
Um dos atuais expoentes do estilo, Seu Jorge é um dos muitos convidados especiais presentes no álbum. Em "Louis Lane" e "Lindos Olhos", divide os vocais com Mano Brown e Don Pixote, respectivamente. A faixa título (cheia de ingredientes jazzísticos) e "Nove no samba" (que abre o disco), são instrumentais que relembram o ambiente original da banda. O mais pop que podiam alcançar aparece em "Som Preto", um disco/funk com um refrão pegajoso ("não pode parar/não pode parar/a noite inteira vai rolar") gravada originalmente pela banda Mr. Jingle. Outra boa aparição é a de Caetano Veloso em "Aos Pés do Redentor", um samba de atmosfera totalmente bossa nova. Gilberto Gil, Aleh, Cesar Camargo Mariano e Elza Soares (os dois últimos em "Isabela", um funkão com um belo arranjo de metais, outra especialidade) também aparecem no disco. Porém em minha humilde opinião, a melhor faixa do disco não conta com nenhum auxílio de peso: "Nossa Jornada", (muito bem) interpretada pelo próprio William, possui uma deliciosa harmonia pontuada por uma melodia vocal (meio "tim-maiana") que é um primor.
Aproximação com o hip hop americano
No meio do álbum, duas canções buscam uma aproximação com o momento atual da música negra internacional, praticamente um processo de aceitação da tal modernidade por parte da BBR. "Back to the Project" e "Paname" reproduzem o que de mais recente tem surgido no cenário do novo hip hop e daquilo que os americanos costumam chamar de "r&b". Artisticamente soma pouco ao trabalho, mas talvez seja importante para o mercado estrangeiro.
Os CDs podem ser encontrados nos seguintes locais:
-Livraria Cultura (Brasil)
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22826194&sid=76711622513102840649214674
-Loja Arlequim - Paço Imperial - Praça XV (Rio)
http://www.arlequim.com.br/detalhe/1429702/Super%20Nova%20Samba%20Funk.html
-Moviola - Laranjeiras (Rio)
-Livraria da Travessa (Rio)
http://www.travessa.com.br/wpgNossasLojas.aspx
-Loja Perola Negra (Salvador)
-Loja MidiMaxi - Shopping Centro (S.J. dos Campos)
-Acustica CD (Belo Horizonte)
http://www.acusticacd.com.br
A banda se apresenta no Teatro Rival (Rio de Janeiro) no dia 18 de novembro, uma ótima oportunidade para o carioca conhecer um pouco de "Supernova Samba Funk" e relembrar alguns clássicos que fizeram da Black Rio um ícone da música brasileira.
"Nove no Samba"
"Isabela"
Os 30 anos de três importantes discos
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 16/10/2011 22h40
Neste mês de outubro, três gigantes do rock comemoram 30 anos de lançamento de importantes álbuns em suas trajetórias. "Exit...Stage Left", "October" e "Ghost in the Machine", de Rush, U2 e The Police respectivamente, marcaram as carreiras destas bandas por motivos distintos.

Começando pela banda mais antiga, "Exit...Stage Left" é o segundo disco ao vivo dos canadenses. Com este registro, o trio encerra sua segunda fase após quatro álbuns de estúdio: "A Farewell to Kings", "Hemispheres", "Permanent Waves" e "Moving Pictures". No fim deste ciclo, o grupo começa a abandonar sua vertente progressiva e inicia suas experimentações com os teclados e sintetizadores, característica latente a partir de "Signals" de 82, disco que abre a terceira fase. "Exit...", que foi gravado em duas sessões ao vivo, no Canadá e na Escócia, tem seu nome inspirado no Leão da Montanha, personagem da Hanna Barbera que se utilizava da expressão para fugir de situações embaraçosas (por aqui, se transformou em "saída...pela esquerda"). Na capa do LP (acima), o designer gráfico canadense Hugh Syme misturou elementos presentes nas artes dos nove álbuns anteriores da banda e encontrar estas referências é um divertido passatempo. Alguém se arrisca?
"Ghost in the Machine", quarto trabalho do Police, marca um rompimento quase total com o reggae e o punk rock que marcaram os três primeiros discos do trio. O uso de sintetizadores e metais trazem um ar pop à sonoridade da banda, nítido já nas primeiras faixas. O título, inspirado no livro do escritor húngaro Arthur Koestler, cujo foco é a autodestruição humana, influenciou algumas letras como "Spirits in a Material World" e "One World Not Three". Na capa, três enigmáticos símbolos digitais nada mais eram do que uma representação dos rostos dos três integrantes (Summers, Sting e Copeland, na ordem). Apesar de terem alcançado rapidamente o primeiro lugar na parada britânica, a mudança gerou descontentamentos. Enquanto Summers se mostrava contrário ao abandono das raízes da banda, Copeland se incomodava com a monopolização das decisões por parte de Sting. Era o começo do fim.
Por último, aquele que traz no título o nome do mês de lançamento. "October" é o segundo e menos popular de todos os trabalhos de estúdio do U2. O que torna o álbum marcante é a contextualização que o cerca. Após a promissora estreia com "Boy" em 1980, os irlandeses arriscam tudo ao gravar um disco recheado de temas espirituais, impulsionados pela participação de Bono, Larry e The Edge em um grupo cristão denominado "Shalom Fellowship". A banda questionava a relação entre a fé cristã e o "rock’n’roll way of life" e isso era escancarado em "Gloria" ("eu tento cantar esta canção, eu tento entrar, mas não consigo encontrar a porta....Gloria in te Domine") ou em "With a Shout" ("eu quero ir para os pés do Monte Sião, para os pés daquele que me fez ver...Jerusalém"). "Gloria", por sinal, foi a única faixa do disco que se transformou em hit após abrir o clássico álbum ao vivo "Under a Blood Red Sky" de 1983. "October", citado pela CCM Magazine (Contemporary Christian Music) como um dos melhores registros de música cristã de todos os tempos, foi massacrado pela crítica e ignorado até mesmo pelos fãs, mas deixa claro que ali o U2 escolhia trilhar para sempre o caminho da ousadia.
Tears for Fears: sem playbacks ou coreografias, só boa música
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 09/10/2011 23h23

O Ministério da Saúde Auditiva recomenda: contra modismos infanto-juvenis, aplique Tears for Fears. O Rio não tem tempo de respirar. Ainda vivendo a ressaca pós-Rock in Rio e tentando esquecer a farsa Justin Bieber, no último sábado o público carioca pôde deliciar-se em mais um ótimo show. Os fãs enfim mataram uma enorme saudade, pois desde o extinto Hollywood Rock de 1990 a dupla britânica não pintava por aqui (Curt Smith não participou da turnê brasileira em 1996).
Clássico dos anos 80 abre o show
A luz se apaga. Os músicos se posicionam ao som de um trecho de "Montagues and Capulets" de Prokofiev. Orzabal aparece na frente do palco e dedilha a introdução de "Everybody wants to rule the world", do ótimo álbum "Song from the big chair" de 85. Desde o início, fica clara a intenção de reproduzir os arranjos originais com o máximo de fidelidade possível. Quase nenhum detalhe (e são muitos) é esquecido. A voz de Curt Smith aparece, clara e indiferente ao tempo, assim como a de Orzabal. A produção é caprichada e cinco telões retangulares reproduzem imagens que contracenam com uma caprichadíssima iluminação. Em seguida, "Secret world", do último trabalho de estúdio "Everybody loves a happy ending" de 2004, traz uma citação de "Let'em in" de Paul McCartney, a quem Orzabal credita forte influência na concepção do álbum. Porém no meio da canção, parte do som parou completamente durante alguns segundos, causando reprovação imediata na plateia. A música seguinte, "Sowing the seeds of love", também foi prejudicada, mas o povo não deixou a peteca cair e carregou o refrão no gogó.
Problemas no som só melhoraram a partir da quarta música

Antes de iniciarem a quarta música ("Change", do disco de estreia "The hurting", de 83), há uma grande pausa para tentar solucionar o problema. Orzabal dá as boas vindas em português. Smith reclama do forte calor e tenta remediar o contratempo: - Na Inglaterra, costumamos dizer "shit happens", diz o baixista.
Versão de Billie Jean causa surpresa
Após uma sequência de canções menos conhecidas, a surpresa aparece numa versão intensa e arrastada num padrão if-you-don't-know-me-by-now, do clássico "Billie Jean", de Michael Jackson. "Advice for the young at heart", faixa de "Seeds of love" de 89, volta a incendiar e a maravilhosa "Badman song" (do mesmo álbum) prepara o público para a apoteótica sequência final: "Pale shelter", "Break it down again" e "Head over heels". O Citibank Hall, completamente tomado, não arreda o pé e o povo começa a cantar os versos de "Shout", sucesso que lançou a banda no Brasil em meados de 1985. A banda volta e introduz a lindíssima "Woman in chains". Os vocais originais de Oleta Adams são, quase que fielmente, reproduzidos pelo cantor de apoio Michael Wainwright (que também fez o show de abertura). Surpresa e comoção geral em um dos mais belos momentos da noite. Os apelos são atendidos e "Shout" é cantada pelo povo, tanto verbalmente quanto em folhas de papel que parte da plateia levanta com a palavra título da canção. Um belo encerramento para um show que nem os problemas técnicos conseguiram abalar. E as "Tias Fofinhas" (como a garotada chamava a banda antigamente) provam que, para curar um mal súbito causado por febres adolescentes, nada como uma bela dose de bom gosto musical.
Confira aqui alguns vídeos do show
Setlist
1 - Everybody Wants to Rule the World
2 - Secret World
3 - Sowing the Seeds of Love
4 - Change
5 - Call Me Mellow
6 - Everybody Loves a Happy Ending
7 - Mad World
8 - Memories Fade
9 - Closest Thing to Heaven
10 - Billie Jean
11 - Advice for the Young at Heart
12 - Floating Down the River
13 - Badman's Song
14 - Pale Shelter
15 - Break It Down Again
16 - Head Over Heels
Bis
17 - Woman In Chains
18 - Shout
Rock in Rio: balanço da segunda semana
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 03/10/2011 11h14

Sublime
Stevie Wonder: não dá para compará-lo com nada. Não há muito o que dizer senão a perfeição em forma de música. Um show emocionante e lindo do primeiro ao último segundo.
Excelentes
Janelle Monáe: a maior surpresa de todo o festival. No palco, uma grande artista e uma banda genial executando um excelente repertório.
Skank: covardia. Os mineiros têm bagagem para, no mínimo, quatro horas de show só com seus sucessos. O povo caiu dentro.
Coldplay: talvez tenha sido quem mais se aproximou da perfeição de Stevie Wonder e merecia uma posição intermediária, entre excelente e sublime. Show emocionante, set list perfeito e o momento mais bonito de todo o festival, quando Chris Martin pichou na lateral do palco a palavra Rio com um coração no lugar da letra "o", com o fundo musical de "In my place". Lindo!
System of a Down: deveria ter fechado a noite. É uma das bandas de rock mais inventivas e intensas que surgiram nos últimos 20 anos. "B.Y.O.B" e "Radio/Video" são os melhores exemplos de peso aliado à criatividade.
Muito bons
OSB/Dado/Bonfá: emocionante e justa homenagem à única banda do primeiro escalão do BRock a não ter tocado em nenhum Rock in Rio.
Jota Quest - assim como o Skank, tem material de sobra para botar o povão para cantar. A voz de Rogério Flausino parecia pouco à vontade, tendo que alterar algumas melodias para não ficar desconfortável.
Marcelo D2: a mistura de rap e samba deu certo de novo. Numa apresentação com muita energia, o público sabia de cor suas longas e difíceis letras. Fernandinho Beat Box mandou bem levando no gogó alguns clássicos do rock.
Ivete Sangalo: a baiana mostrou (mais uma vez) que tem talento para ser muito mais do que animadora de trio elétrico se deixar de lado as insuportáveis músicas de carnaval baiano.
Cidade Negra/Martinho da Vila/Emicida: A mistura que deu certo, apesar dos improvisos e de alguns momentos chatos do rapper.
Joss Stone: uma voz maravilhosa e belíssimas canções que mereciam o Palco Mundo.
Frejat: usou de toda a experiência para colocar apenas os dois maiores sucessos de sua carreira solo ("Segredos" e "Amor pra recomeçar") em um show repleto de sucessos do Barão Vermelho, Tim Maia e outros. Uma bandaça com os barões Maurício (teclados) e Peninha (percussão) além dos ótimos Billy Brandão (guitarra), Bruno Migliari (baixo) e Marcelinho da Costa (bateria).
Maná: mesmo entrando logo após o devastador Skank e tendo apenas duas ou três músicas conhecidas pelo grande público, fez um belíssimo show onde se destacou o excelente (apesar de presepeiro) baterista Alex González. Certamente ganharam fãs por aqui.
Maroon 5: só o fato de terem substituído o Jay Z já lhe renderiam algum mérito. Mas foram além, com um ótimo show e um final apoteótico com 100 mil pessoas cantando "She will be loved". Era o prenúncio do final apoteótico que viria a seguir com o Coldplay.
Mutantes/Tom Zé: Mesmo sem Arnaldo Baptista, a banda relembrou seus eternos sucessos e levou o povo à loucura. Sergio Dias deveria ser referência para qualquer pessoa que quisesse aprender a tocar guitarra.
Bons
Titãs/Xutos e Pontapés: apesar de relembrarem clássicos como "Porrada" e "Flores", não há banda que resista a um "desmonte". Dos oito originais, só sobraram Paulo Miklos, Branco Mello, Sergio Britto e Toni Belotto. A pressão de antigamente já não é mais a mesma, infelizmente.
Shakira: alguns bons momentos como a abertura com "Estoy aqui" (que não vinha sendo tocada nos últimos shows)/"Te dejo Madrid" e outros bem mornos.
Lenny Kravitz: mal escalado numa noite mais "jovem", fez um bom show para um público que não era o seu.
Guns'n'Roses: uma cópia mal feita do que foi outrora. Axl, que sempre foi mais vigor e energia do que voz, não tem mais nem uma coisa, nem outra. A identidade sonora da banda era o timbre de guitarra de Slash. Sem ele, não há Guns'n'Roses. Os hits salvaram o show.
Fracos
Detonautas: apesar de terem se superado, fazendo um show certinho usando suas canções mais famosas, seu repertório é muito fraco. Quanto ao vocalista Tico Santa Cruz, lhe sobra discurso tanto quanto lhe falta voz.
Jamiroquai: a ótima banda pecou por ignorar vários de seus sucessos e alongar demais algumas canções.
Evanescence: fazem um som extremamente repetitivo. Ouvir duas músicas da banda já seriam mais do que o suficiente. Cansou.
Pitty: um dos shows mais chatos do Rock in Rio. Suas músicas são pra lá de desinteressantes e sua voz é muito cansativa.
Péssimos
Ke$ha: terrível. Um festival de mau gosto, das canções às bizarrices encenadas no palco. O pior show do festival.
Rock in Rio: como curti-lo (parte 3)
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 01/10/2011 12h13
Dicas para os dois últimos dias do festival:
Sábado - 1 de outubro
Satisfação garantida:

Skank - a banda mineira é especialista em botar o povo pra pular. Tem bagagem e repertório para isso.
Fique de olho:
Frejat - o cantor deverá fazer um show repleto de covers, como "Palco", "A noite do prazer" e outros.
Maná - os mexicanos fazem um interessante som pop misturado com elementos da música latina. Gravaram com Santana a música "Corazón espinado", que deve estar no repertório.
Maroon 5 - entrou no lugar de Jay Z, felizmente. Tocam um pop dançante e criativo.
Coldplay - a banda conta com uma legião de fãs, que provavelmente farão do show um dos grandes momentos do festival.
Erasmo Carlos/Arnaldo Antunes - o encontro do Tremendão com as experiências musicais do ex-titã pode dar bons resultados.
Domingo - 2 de outubro
Satisfação garantida:
System of a Down - após cinco anos afastados, a banda volta com tudo e deve fazer um showzaço, digno de fechar a noite.
Titãs/Xutos e Pontapés - os paulistas voltam ao palco para receber a banda portuguesa. Devem privilegiar seus sucessos que ficaram de fora do show de abertura do festival.
Fique de olho:
Guns'n'Roses - dependendo de qual Axl esteja presente, o show pode ser legal ou lamentável. Por incrível que pareça, o show ainda é parte da mesma turnê que o cantor e seus contratados trouxeram ao Rock in Rio 3, em 2001! A banda certamente vai empolgar seus fãs com seus hits das décadas de 80 e 90, o que não necessariamente significará qualidade.
Mutantes/Tom Zé - Sergio Dias e Arnaldo Baptista são dois monstros. A volta da banda, há cerca de quatro anos, rendeu ótimos momentos.
Hora do lanche:
Pitty - a garotada adora, mas seu som é chatinho e, embora cante razoavelmente, sua voz é muito cansativa.
Detonautas - sua época já passou e não deixou muitas marcas.
Rock in Rio: como curti-lo (parte 2)
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 28/09/2011 23h34
Depois de algumas boas surpresas nos três primeiros dias, vamos às dicas para a última semana, divididas em duas partes:
Quinta - 29 de setembro
O chamado dia extra reserva algumas das maiores promessas do festival.
Satisfação garantida:
Stevie Wonder - quando, por volta de uma hora da manhã de sexta-feira, um senhor negro de cabelos compridos e óculos escuros sentar-se ao seu piano, saibam que vocês estarão diante de um dos maiores gênios da música pop do século 20. Elogios nunca serão suficientes. Portanto, apenas ouçam cada ruído com muita atenção. Cada segundo de seu show será uma aula de música.
Jamiroquai - antes do mestre, o pupilo: Jay Kay, líder da banda, é fã confesso de Stevie Wonder e tem um timbre de voz bem parecido com o de seu ídolo. Fazem um som dançante e criativo, resgatando elementos do movimento "disco" da década de 70, misturados com harmonias de jazz.
Baile do Simonal/Davi Moraes/Diogo Nogueira (Sunset) - apesar de não ser um exímio cantor, o filho de João Nogueira está no auge de sua carreira e conta com uma legião de fãs. A obra de Simonal veio à tona após o documentário "Ninguém sabe o duro que dei" de Cláudio Manoel. Max de Castro e Simoninha devem comandar um bailão em homenagem ao pai, na companhia do excelente Davi Moraes, filho de Moraes Moreira.
Joss Stone (Sunset) - a inglesa de apenas 24 anos tem um vozeirão incrível e um repertório de ótimo gosto. Deve arrebentar no Sunset.
Fique de olho:
Janelle Monae - ainda sem um grande reconhecimento no Brasil, a cantora esteve por aqui no início do ano abrindo os shows de Amy Winehouse. Tem boas músicas e canta muito bem, apesar de se utilizar do fato para fazer firulas em exaustão com sua voz.
OSB/Dado/Bonfá/convidados - Os dois ex-integrantes do Legião Urbana executarão, com apoio da orquestra, nove clássicos da banda brasiliense com a participação de convidados. Rogério Flausino, Dinho, Herbert Vianna, Pitty e Toni Platão cantarão "Quando o sol bater...", "Índios", "Quase sem querer", "Tempo perdido", "Será", entre outras. Se a plateia se envolver, será um grande momento.
Afrika Bambataa/Paula Lima/Boss AC (Sunset) - um dos pais do hip-hop se junta à ex-cantora do Funk Como le Gusta e ao rapper português para uma celebração à música negra do fim do século passado.
Hora do lanche:
Ke$ha - A Britney da vez não convence com seu popzinho dançante de gosto duvidoso. Uma boa opção é cobrir o relvado sintético com uma canga para uma bela relaxada antes do gran finale com Jamiroquai e Stevie Wonder.
Sexta - 30 de setembro
Mais um dia de misturas de gêneros que podem causar desconforto a algum artista.
Satisfação garantida:
Jota Quest - A história do Capital Inicial pode se repetir. Rogério Flausino deve conduzir um show recheado de hits que estão na ponta da língua do povo.
Fique de olho:
Ivete Sangalo - para quem gosta do gênero musical, Ivete é um prato cheio. Canta bem, apoiada por uma ótima banda e seu show é uma superprodução. Além disso, tem todo o carisma que falta à Cláudia Leitte.
Shakira - a colombiana faz um pop dançante bem produzido e se mantém há 14 anos no topo.
Lenny Kravitz - se privilegiar seus hits, tem tudo para fazer um ótimo show. Sua trajetória é como um vagalume, alternando momentos acesos com outros apagados.
Marcelo D2 - o cantor carioca tem vários sucessos e deve agradar com sua mistura de rap e samba.
Cidade Negra/Martinho da Vila/Emicida (Sunset) - a mistura da banda de reggae carioca (com o retorno de Toni Garrido) com o consagrado sambista pode ficar interessante, se o rapper não atrapalhar tal e qual Bebel Gilberto.
Monobloco/Macaco/Pepeu Gomes (Sunset) - a banda catalã Macaco faz um pop bem interessante e Pepeu é um baita guitarrista. O encontro com o grupo percussivo carioca deve ser curioso.
Hora do lanche:
Buraka Som Sistema/Mix Hell (Sunset) - fazendo uma pesquisa para ouvir os artistas que desconheço, juro que não consegui chegar ao fim do tal Buraka, grupo português. Fazem um ritmo irritante chamado Kuduro, originário de Angola. Como é cedo, dá pra ignorar e chegar mais tarde. Caso contrário, dê um pulo na Rockstreet para curtir o som de George Israel, saxofonista do Kid Abelha.
Rock in Rio: balanço da primeira semana
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 26/09/2011 23h48
Terminada a primeira parte da maratona musical, vamos às análises dos três primeiros dias de Rock in Rio.
Excelentes
Slipknot: um showzaço dentro da proposta da banda. Pirotecnia, atitude, exploração de efeitos visuais e um som muito pesado e super bem feito. O cantor Corey Taylor e o baterista "Joey" Jordison sobressaem numa banda tecnicamente excelente.
Metallica: sabem tudo de metal. Não à tôa são considerados uma das melhores bandas do estilo em todos os tempos. Um set list recheado de clássicos e uma execução pesada e impecável.

Capital Inicial: Dinho estava iluminado: brincou com a massa como se estivesse num barzinho, distribuiu água, deu bronca em quem estava empurrando, dedicou a Sarney a música "Que país é esse?" e cantou muito bem.
Red Hot Chili Peppers: se redimiram do show fraco na terceira edição. Sua cozinha é perfeita: Flea é um monstro e Chad Smith não fica muito atrás.
Mike Patton/Mondo Cane/Orquestra de Heliópolis: ótima surpresa. Que o vocalista do Faith no More é um autêntico showman, já sabíamos desde a segunda edição, em 1991. Agora, cantar clássicos do cancioneiro italiano botando uma orquestra para dançar foi fantástico.
Muito bons
Elton John: prejudicado por ter sido escalado para se apresentar para fãs de Rihanna e Katy Perry, o inglês tocou vários de seus belíssimos hits para uma platéia pouco interessada em música de verdade.
Titãs/Paralamas/OSB: um setlist enxuto, alternando clássicos das duas bandas, abriu com louvor o festival. Maria Gadú entrou empolgadíssima para cantar "Lourinha Bombril" e também fez bonito. A lamentar, apenas a equivocada abertura com Milton Nascimento tentando cantar "Love of my life" na companhia de Toni Belotto. O cantor não esteve à vontade em nenhum momento e Toni fez figuração. Uma excelente idéia com uma péssima execução.
Motörhead: vovô Lemmy deu uma pequena aula de como se faz o bom e velho rock’n roll de uma forma direta, simples e sem firulas.
Milton Nascimento/Esperanza Spalding: Se redimindo da véspera, Milton subiu ao Palco Sunset no domingo na companhia da ótima cantora e contrabaixista para fazer um pequeno resumo de sua carreira em um show corretíssimo e emocionante.
Sepultura/Les Tambours Du Bronx: uma deliciosa mistura do peso da banda mineira com o grupo percussivo francês. Peso e agressividade na medida exata.
Bons
Coheed and Cambria: ótima surpresa. Um som pesado e bem elaborado. Se sua obra fosse mais conhecida pelo público, seria muito melhor.
Stone Sour: outra grande surpresa. Corey Taylor é excelente cantor e mostrou que não vive só de berros.
Ed Motta/Rui Veloso/Andreas Kisser: um show repleto de clássicos do rock, com cinco guitarristas no palco, incluindo o lendário Paulinho Guitarra, ex músico de Tim Maia. Alguns tons originais ficaram altos para Ed Motta (como "Layla", por exemplo), que também andou inseguro lendo algumas das letras. Andreas Kisser acabou sendo só mais um no palco, mas no fim, valeu a mistura.
Angra/Tarja Turunen: o metal melódico do Angra perdeu bastante depois da saída do cantor André Matos. Edu Falaschi não tem o mesmo nível de seu antecessor. Tarja Turunen arrebentou e "Wuthering Heights" de Kate Bush foi um dos grandes momentos do festival até agora.
Katy Perry: dentro da proposta da cantora, a apresentação surpreendeu. Com um pop rockzinho pegajoso e explorando o impacto visual, o show alcançou seu objetivo: divertir.
Ruins
Gloria: tem algo de errado. O que fazia esta banda no Palco Mundo e o Sepultura no Sunset?
Snow Patrol: a maior decepção. A cansativa voz de Gary Lightbody e o tom melancólico de suas canções fizeram com que o show fosse uma das coisas mais chatas do festival até o momento.

Rihanna: uma boa banda, uma boa produção e uma boa cantora. Se seu repertório não fosse tão ruim, seria perfeito. Suas músicas são descartáveis e lhe garantem um sucesso efêmero. Ainda bem que as modas passam.
Cláudia Leitte: nem uma super banda, uma grande produção e o apelo de inserir "Dyer maker", "Dancin’ Days" e "Manguetown" salvaram o show. Sem voz, sem carisma e sem repertório, uma hora pareceu uma eternidade.
NX Zero: a banda deu sorte de surgir numa época de carência no gênero. Letras bobas, canções mal construídas e um cantor sofrível.
Sandra de Sá/Bebel Gilberto: Bebel fez de tudo para estragar o show como poucas vezes vi na vida: leu as letras (mal), entrou errado nas músicas, semitonou muito e deixou cair seu fone várias vezes. Não foi só: sem o menor carisma, tentou fazer graça com a plateia e brigou com seu vestido durante todo o show. Para coroar a tarde desastrosa, tentou pular a canção "Brasil" por falta de tempo e não foi atendida pelos músicos. Quando percebeu que não havia sido atendida, pediu para que a banda parasse no meio para começar "Eu preciso dizer que te amo" e, com o tempo esgotado, saiu do palco ainda nos primeiros versos da música. Sei não, mas se eu fosse o Cazuza, estaria um pouco chateado.
Rock in Rio: como curti-lo (parte 1)
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 23/09/2011 08h13
Assumindo todos os riscos de incinerar minhas papilas gustativas ao meter o bedelho no Rock in Rio, indico ao leitor o que haverá de melhor no festival nesta primeira semana, dia por dia.
Sexta - 23 de setembro

Estive presente nas aberturas das duas últimas edições de Rock in Rio. Geralmente é um dia de ajustes onde tudo será testado pra valer, mas o charme do primeiro dia e o clima de novidade compensam.
Satisfação garantida:
Paralamas e Titãs - juntos, as duas bandas costumam fazer shows muito bons. A primeira vez foi no encerramento da segunda noite do Holywood Rock de 1992, após um show frio de Seal. E foi antológico. Em 2008, gravaram o DVD "Titãs e Paralamas - Juntos e ao Vivo". Devem privilegiar os maiores sucessos de dois dos principais grupos do movimento BRock.
Elton John - seu repertório é fantástico. Mesmo tendo vindo há pouco tempo ao Rio, Elton é sempre um espetáculo. "Daniel", "Nikita", "Your song", "Goodbye yellow brick road" e vários outros sucessos estiveram no set list do último show do cantor, no dia 15 de setembro. Para ficar melhor ainda, a ordem dos shows foi modificada, invertendo seu show com Rihanna. Portanto, ninguém precisará aturá-la para ver Elton John.
Orquestra Sinfônica Brasileira - após ficar de fora da segunda edição por problemas estruturais no palco (que não aguentaria o peso), abriu o Rock in Rio III com um medley de clássicos do rock, nacionais e estrangeiros. Um belíssimo e emocionante pontapé inicial para um festival desse porte.
Ed Motta/Rui Veloso/Andreas Kisser (Palco Sunset) - Ed divulgou em seu twitter o repertório que apresentará na companhia do cantor português e do guitarrista do Sepultura, calcado em clássicos do rock mundial. É porrada atrás de porrada: "Burn" (Deep Purple), "Purple Haze" (Hendrix), "White Room" (Cream), "Got to get to into my life" (Beatles), "Black Dog" (Led Zeppelin) e mais alguns petardos. Imperdível!
Fique de olho:
Milton Nascimento - esteve na noite de abertura da última edição. Não é o tipo de show adequado para o ambiente, mas sua história dispensa comentários.
Katy Perry - os adolescentes irão adorar. Mas, mesmo que você não esteja incluído neste grupo, vale dar uma olhadinha na superprodução do show. Quanto à música, releve. Talvez uma coisinha legal ou outra.
Sandra de Sá/Bebel Gilberto (Palco Sunset) - Sandra levantou a galera da Tenda Brasil na última edição do festival. Botou todo mundo pra dançar com seu balanço soul funk. Se Bebel Gilberto não atrapalhá-la, pode repetir a façanha.
Móveis Coloniais de Acaju/Letieres Leite e Orquestra Rumpilezz/Mariana Aydar (Palco Sunset) - A mistura do ska da banda brasiliense com os ritmos africanos de roupagem jazzística dos baianos da Rumpilezz deve dar caldo. Por serem os primeiros a subirem no palco numa sexta feira à tarde, devem pegar um pegar um público pequeno, porém empolgado.
Atrações da Rockstreet - Guto Goffi (baterista do Barão Vermelho), Orleans Street Jazz Band (presentes em todas as noites do festival), Cecelo Frony (ex-guitarrista da banda Terra Molhada) e Go East Orkestra (especializada em música dos Balcãs), devem garantir bons momentos para quem quiser dar uma olhada no que há de diferente no Rock in Rio.
Hora do lanche:
A não ser que você seja muito fã do insuportável novo hip hop americano ou se amarre numa micareta, a roda gigante é uma ótima pedida durante os shows de Claudia Leitte e Rihanna. A produção de ambos os shows deverá ser enorme, mas nada que compense a música de péssima qualidade.
Sábado - 24 de setembro

Na minha opinião, o dia mais fraco do festival
Satisfação garantida:
Red Hot Chili Peppers - é preciso saber qual RHCP estará presente desta vez: o do show antológico no Holywood Rock de 1993 ou aquele do morno encerramento da última edição do Rock in Rio. Na apresentação de domingo passado em Buenos Aires, a banda mesclou alguns sucessos antigos com faixas de seu novo disco, "I'm with you". Apesar de tudo, o baixista Flea vale o ingresso.
Fique de olho:
Mike Patton/Mondo Cane/Orquestra de Heliópolis (Palco Sunset) - vale à pena dar uma conferida no cantor que, na segunda edição do festival em 1991, fez um show memorável com sua ex-banda, o Faith no More.
Capital Inicial - a banda paulista tocou nas duas últimas edições do festival. Carregam um bom número de sucessos capazes de botar o público cantar.
Milton Nascimento/Esperanza Spalding (Palco Sunset) - o cantor volta ao palco acompanhado da cantora e contrabaixista americana. Promete ser um dos bons momentos da noite.
Snow Patrol - a banda britânica possui baladinhas melancólicas bem construídas e não deve ser desprezada pelo público. Um dos primeiros posts da coluna foi sobre o clipe de "Open your eyes". Confira aqui.
Hora do lanche:
O Stone Sour tem tudo para ser o Deftones desta edição. Um som pesado, porém desinteressante. O NXZero abre a noite, ou seja: se não for acompanhar os outros palcos, pode chegar um pouco mais tarde.
Domingo - 25 de setembro

Dia do metal. Caso não seja fã do gênero, será difícil acompanhar.
Satisfação garantida:
Metallica - um dos maiores nomes do metal de todos os tempos. Lars Ülrich espancando a bateria e a voz encorpada de James Hetfield lavam a alma de qualquer metaleiro. As clássicas "One", "Enter sandman" e "Nothing else matters" estão presentes no set list. Uma dica: o Metallica vem tocando "Overkill" do Motörhead em seus shows. Pode pintar uma participação especial.
Motörhead - Lemmy Kilmister é um verdadeiro dinossauro e a banda é uma das precursoras do movimento metal, com 36 anos de carreira.
Sepultura/Tambores du Bronx (Palco Sunset) - a banda mineira esteve no palco principal das duas últimas edições. Especialistas em misturar metal com elementos tribais, desta vez dividirão o palco com o grupo percussivo francês.
Fique de olho:
Coheed and Cambria - a banda faz um trabalho conceitual, seguindo uma história de ficção científica em todos os seus álbuns. O vocalista Claudio Sanchez possui um timbre de voz muito parecido com o de Geddy Lee, do Rush.
Angra/Tarja Turunen (Palco Sunset) - a ex vocalista do Nightwish se apresenta com a banda paulista. Vale a conferida.
Slipknot - os mascarados fazem um som pesado e bem construído. Os fãs mais conservadores do estilo torcem o nariz, mas a molecada adora.
Victor Biglione (Rockstreet) - o guitarrista argentino radicado no Brasil é garantia de bom gosto musical e técnica apurada.
Hora do lanche:
Se a história das outras edições se repetir, descer na tirolesa na noite do metal pode transformá-lo num alvo móvel de objetos indesejáveis, portanto escolha outra opção para se divertir na hora do Glória. A banda paulista é desconhecida do grande público e faz um pop rock que não caiu bem na escalação da noite.
BB Video Clip: os primórdios dos clipes no Brasil
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 19/09/2011 16h53
Seria bom se os mais jovens soubessem que havia um tempo em que as coisas não nos chegavam tão facilmente como nos dias de hoje. De artigos importados a notícias das mais variadas, tudo era bem mais inacessível há pouco mais de 25 anos. No âmbito musical não era diferente. Foi exatamente nessa época que aparecia lá fora a MTV, um canal criado para tratar de tudo que fosse ligado aos assuntos musicais, principalmente veiculação de videoclipes, um novo instrumento que surgia para ajudar na divulgação e aumentar a vendagem de discos. Como por aqui a outrora musical MTV só foi inaugurada no princípio dos anos 90, alguns programas com foco no público adolescente foram criados nas emissoras abertas para trazer ao Brasil a nova moda americana. Talvez, por motivos óbvios, o mais lembrado de todos seja o "Clip Clip", da Rede Globo, exibido aos domingos e apresentados por uma dupla de bonecos.
Mas nada era comparável ao BB Video Clip, da Rede Record. Produzido por Billy Bond, um italiano radicado inicialmente na Argentina e posteriormente no Brasil, o programa era uma anarquia contagiante, isso em época de reta final de ditadura militar. Apresentado supostamente de dentro de um caminhão por Eladio Sandoval, então comunicador da Rádio Cidade, veiculava os clipes recém lançados no exterior. Como o orçamento devia ser curto, o material não era grande e a repetição dos mesmos vídeos todos os dias era inevitável. "Karma Chameleon" do Culture Club, "99 Red Baloons" da Nena, "Girls just want to have fun" da Cindy Lauper e "We’re not gonna take it" do Twister Sister eram exemplos de exaustiva exibição diária. Sandoval parecia não seguir nenhum roteiro. Em um cenário pobre com alguns monitores no fundo e um buraco no teto, contracenava apenas com a voz e a mão do produtor Billy Bond, que se escondia atrás do pseudônimo "contra regra maluco" e promovia bizarrices do tipo "Pizza de Mamão", "Orelha Carnívora", "Tchaco de Pepino" e "Picolé de Peixe". Entre os telespectadores, havia disputas pra lá de esquisitas, como competição para ver quem fazia o maior desenho da língua do Gene Simmons. Adolescentes desenhavam línguas quilométricas em folhas de papel emendadas e enviavam para o programa.
O programa saiu do ar e meados da década de 80 e hoje suas imagens são raríssimas. No Youtube, há apenas um registro da época em que era apresentado por Paulo Cintura, com uma gravação bem precária e sem nenhum dos grandes momentos que tornaram o programa um ícone de uma geração. Hoje em dia Sandoval trabalha para a emissora de esportes ESPN e Billy é um dos maiores produtores de teatro infantil do país.
Prêmio Multishow: que fase!
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 07/09/2011 12h09
Programa da noite desta terça-feira com cara de sexta: canal 42, Prêmio Multishow de Música Brasileira. A fase anda muito complicada. É claro que não descobri isso ontem e tampouco é exclusividade nossa. A coisa está feia no mundo todo. Em sua décima oitava edição e apostando numa temática de programas de auditório dos anos 80, a festa acabou sendo mais divertida do que ouvir a boa música que se produziu por aqui no último ano, como propõe qualquer evento como este.
Temática e Bruno Mazzeo salvaram a festa
Em um ótimo cenário inspirado no mau gosto visual oitentista, o onipresente Bruno Mazzeo esteve bem interpretando Sílvio Santos, Xuxa e outros apresentadores. Mas o resto, meus amigos...era só o resto! No momento atual da música brasileira (aquela que chega ao povo pelos grandes canais), nada é o que parece ser: o sertanejo não é sertanejo, o cantor não canta, o músico não toca e até o vesgo vira lindo! A mediocridade parece ter vencido de vez. Fui dar uma bisbilhotada nos vencedores de alguns anos atrás e pude perceber que o panorama foi se desenhando aos poucos. Em 1997 por exemplo, Carlinhos Brown, pasmem, ganhou o prêmio de melhor cantor. Dois anos depois, o troféu de melhor show foi para o Terra Samba! Isso mesmo, o do "carrinho de mão, padá, padá padá pá"! Eram os ecos do sucesso do Gera Samba (que depois virou "É o Tchan"), grupo capitaneado pelo atual "fazendeiro" Cumpadi Washington, que nesta semana declarou que com ele, as coisas são resolvidas "na porrada e na faca". Viram no que deu? Perceberam o que geraram aqueles CDs comprados por vocês em meados dos anos 90 só porque gostavam de imitar as dancinhas da Carla Perez?
Voltando aos prêmios, ano após ano aparecia uma ou outra aberração, mas 2011 passou dos limites. Surpresa agradável mesmo, só com a premiação de Monique Kessous, cantora de excelente voz e muito bom gosto que levou o prêmio de revelação. Quando anunciaram os indicados de "Melhor Sertanejo", juro que morri de pena de Tonico e Tinoco, Milionário e José Rico e outras duplas caipiras que pontearam parte de minha infância no interior do Paraná. Alguns dos premiados sequer apareceram para pegar o troféu. Luan Santana não foi. Melhor assim.
Apresentações ao vivo não funcionaram
Os números musicais juntavam artistas (?) da nova geração com nomes consagrados para executarem clássicos da música nacional, talvez uma tentativa de dar algum toque de qualidade à malfadada noite numa espécie de "museu de grandes novidades", como diria Cazuza. Em uma delas, Léo Jaime na terrível companhia de Paula Fernandes, Fiuk e NX Zero assassinaram "Papai me empresta o carro" de Rita Lee e Roberto de Carvalho e "A Fórmula do amor", do próprio Léo e Leoni. Pobre Léo. Pobre de mim.
Tudo bem, Multishow, a culpa não é sua. A fase é que não ajuda. A festa foi bonita, apesar de alguns percalços na organização, principalmente no trato com os jornalistas que sequer tinham água para beber, entre outros problemas. Quanto ao resultado, botar premiação nas mãos do povo é um perigo (as eleições que o digam) e muitas vezes o resultado deve ser relevado. Portanto, vamos à premiação da crítica, esta sim considerável. Melhor grupo: empate entre Copacabana Club e Holger. Quem?! Meu Deus, como me senti ignorante por não conhecer nenhuma das duas bandas. Como sou inútil sou por criticar tanto a grande mídia, sem estar antenado nas novas tendências que surgem! Vamos, então, ao bom e nem tão velho "Youtube". Opções de músicas para Holger: "She dances", "No break", "Toothless Turtles". Deve ter algo errado. Pulo para o Copacabana Club: "King of the night", "Just do it" e "Mrs. Melody". Deixa eu ver se entendi: os melhores grupos do ano na música BRASILEIRA, na opinião da crítica, cantam em inglês??
Desisto! Me tira o tubo!
Seu Jorge serve um 'Churrasco' à moda da casa
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 03/09/2011 09h21

Sem querer depreciar o evento gastronômico/musical do cantor fluminense, não necessariamente a trilha musical de um churrasco precisa ser samba, como a maioria acredita. Já participei de alguns onde, em meio ao pão com alho, linguicinha calabresa e maminha, rolava muito Rage Against the Machine, Pantera e similares. Sequer é válida a desculpa de que um sambinha combina mais com eventos deste tipo. Sendo o churrasco uma tradição que vem do sul, quando foi que o ritmo baiano/carioca entrou nessa bombacha? Portanto, desculpa descartada. Cada grupo que escolha o fundo musical de seu evento, livre das amarras dos clichês.
Do soul ao samba
É nesse clima que Seu Jorge lança "Músicas para Churrasco, vol.1". O cantor vem se tornando mestre em disfarçar de samba suas canções de pegada soul. Ou seria disfarçar de soul os seus sambas? A conclusão é praticamente impossível. Assim como em seus últimos sucessos, as levadas de bateria e os grooves do baixo são essencialmente soul e funk. Porém, sempre que solicitados, o cavaquinho, a percussão e os arranjos de metais remetem ao samba rock, reverenciando os mestres Jorge Ben, Bebeto e Orlandivo. Em "Quem não quer sou eu" ele vai além ao inserir uma levada de pandeiro numa canção de clima totalmente "charm". Resumindo: tudo de bom que vem da música negra é bem temperado com a potência dos graves do cantor e colocado no espeto.
Nas letras, um romântico irrecuperável
Outro detalhe que permanece é a linha de homenagens aos personagens femininos. Alguns bons acertos como em a "Vizinha" recém chegada na área, que "todo mundo tá ligado/mas ninguém sabe ainda se ela já tem namorado...tem gente casando dinheiro, fazendo bolão...será que tem, geral quer saber/tem fila indiana na porta do seu coração". Em outros momentos, como em "Japonesa" de Gabriel Moura, a brincadeira com a sonoridade das palavras orientais é interessante, mas acaba tropeçando em imagens esquisitas como "quero ser seu tamagotchi" ou "eu anteontem comi o seu sushi" (!!!). Sushi com churrasco não rola.
Vizinha
Sai Jay-Z, entra Maroon 5. Ganha o Rock in Rio, ganha o público.
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 29/08/2011 20h53
"Podem correr a sacolinha!". Com esta frase, o pastor Tim Tones, lendário personagem de Chico Anysio, encerrava seus cultos, ordenando que seus vários filhos recolhessem dos fiéis o quanto fosse possível de dinheiro. Estas palavras resumem a minha sensação frente ao quadro musical atual. Claro que há muita coisa boa sendo produzida, mas infelizmente o que chega à grande massa hoje em dia é o lixo do lixo. Do novo penteado de Beyoncé à gravidez de Rihanna, passando pelo figurino de Lady Gaga, tudo o que se refere à imagem é exaustivamente explorado. Em uma época em que uma celebridade tropeça em Brunei e dez segundos depois a Inglaterra inteira já sabe (e tem imagens!), tudo é capaz de gerar cifras. Aquilo que pode virar dinheiro é sugado até a última gota e a música, pra que música? Que bobagem. Não há essência, não há genuinidade, não há arte, infelizmente. Há somente um cenário desolador favorável à exploração exacerbada da imagem para no final, assim como Tim Tones, correrem a tal sacolinha.
Em meio à lama, louvemos o pouco de qualidade que venha a surgir. Em seu jingle, o falso pastor se autoproclamava um oásis no deserto da dor. Assim podemos definir o Maroon 5: um oásis de bom gosto num deserto da mediocridade. Longe, muito longe de serem uma banda fenomenal, os californianos surgiram em uma época em que a música pop parecia agonizar a cada dia (e ainda parece). Confesso que sorri quando soube da substituição. Com o perdão dos fãs do hip hop, na minha opinião o mal musical da década, Jay-Z é mais do mesmo. Faz um tipo de música onde parece importar mais uma pseudo atitude do que o que se escuta. Integra um grupinho de rebeldes de boutique, alimentados por uma MTV que é um arremedo do que já foi outrora.
Outras substituições
Casos como estes são comuns nas edições brasileiras do Rock in Rio. Em 1985, o Def Leppard anunciou sua desistência dias antes do início do festival, devido a um acidente automobilístico sofrido pelo baterista Rick Allen e que lhe custou uma amputação de braço. Em seu lugar, o Brasil teve a chance de conhecer o Whitesnake e se encantar com David Coverdale e John Sykes. Já na segunda edição, em 1991, o Hanói Hanói substituiu o Barão Vermelho e Billy Idol cobriu o buraco deixado por Robert Plant. Houve também a desistência do Snap!, grupo alemão de música eletrônica (que na época fazia sucesso com a insuportável "I’ve got the Power"), mas nesse caso não houve reposição. Me parece que perceberam que o público não sentiria muita falta e, tal e qual um perna de pau na pelada, é melhor jogar com menos um do que com eles. Já em 2001 o desfalque foi coletivo: comandados pelo O Rappa, bandas nacionais resolveram boicotar o festival devido à discordâncias quanto a alguns detalhes. Ficaram de fora Skank, Charlie Brown Jr., Jota Quest, Raimundos e Cidade Negra. Agora, que venha o Maroon. Meus ouvidos agradecem imensamente.
Maroon 5 - "This love"
Barão Vermelho se reúne novamente
Cláudio Francioni | Cláudio Francioni | 22/08/2011 16h42
O Barão Vermelho está de volta. Mesmo sem plugar seus instrumentos, o quarteto embrionário da banda está reunido em estúdio. Foi ao ar no programa "Altas Horas" do último sábado, uma matéria sobre a remasterização do primeiro disco do então quinteto carioca. Frejat, Guto, Maurício e Dé falaram sobre o projeto que irá comemorar os 30 anos do lançamento do álbum de estreia do Barão. Frejat, hoje em carreira solo, declara que se trata de um disco muito bem gravado porém muito mal mixado, e cita a dificuldade que os técnicos da época tinham em trabalhar com rock.
Nenhuma das dez faixas chegaram a alcançar, na época, um status do que pode-se chamar de hit, o que não significa que não seja um ótimo trabalho. Basicamente um disco de rock com algumas pitadas de blues, puro e sem muitas firulas, "Barão 1", como é conhecido pelos fãs, traz algumas canções que mais tarde ganhariam certo reconhecimento ao serem regravadas, como "Ponto fraco", "Bilhetinho azul" e "Down em mim", esta última um blues delicioso que disserta sobre uma depressão momentânea. "Posando de Star", a primeira faixa, apresenta Cazuza ao mundo já nos seus primeiros versos: "Pouco importa o que essa gente vá falar mal/Falem mal/Eu já tô rouco, louco total". Uma mensagem curta e grossa de quem estava chegando para ficar.
"Todo amor que houver nessa vida", ignorada pelas rádios à época, é um capítulo à parte. Gravada em um andamento bem mais acelerado do que as regravações que a consagraram, a canção foi abraçada por Caetano, que a incluiu em seu show uns dois anos após seu lançamento, dando o empurrão que o Barão precisava para alçar seu voo definitivo. Da letra desta obra prima, Cássia Eller tirou o termo que batizaria o disco que gravou somente com canções de Cazuza: "Veneno Antimonotonia".
O álbum traz ainda "Billy Negão", um rockaço que conta a história de um malandro da baixada que acaba rodando no final, "Rock'n geral", um manual de como se curtir o gênero musical, e outras canções que abordam temas como relações complicadas e solidão, como "Conto de fadas", "Certo dia na cidade" e "Por aí".
Agora é aguardar o lançamento e torcer para que os rapazes motivem-se a tirar o Barão desta hibernação, fazendo uma série de shows comemorativos com os quatro membros originais e a participação especial dos atuais, Rodrigo Santos, Fernando Magalhães e Peninha. No aguardo, Barão!
"Posando de star"
"Todo amor que houver nessa vida" no Rock inRio - 1985
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