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Cláudio Francioni

Cláudio Francioni

MÚSICA. Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



04/02/2016 12h36

Meus sambas prediletos
Cláudio Francioni, Leonardo Jorge, Ivan Souza e Pedro de Freitas

Em qualquer assunto ligado ao carnaval, o leitor do SRZD está acostumado a acompanhar as mais variadas opiniões, sempre vindas de gente que frequenta o ambiente do samba carioca há muitos anos. Especialistas que expõem suas visões e audições sobre a festa com base em suas experiências nos mais variados setores de uma escola.

Mas qual seria a opinião daqueles que apenas gostam, porém não acompanham de perto e não vivenciam o dia a dia? Quais são as preferências das pessoas "normais"?

Nossos três colaboradores fizeram uma pequena lista com seus cinco sambas preferidos. Confiram:

Leonardo Jorge

"Aquarela Brasileira" (Império Serrano - 1964) - Descobri essa pérola por acaso. Fazendo uma pesquisa sobre Ary Barroso, procurava sua "Aquarela do Brasil" e acabei sendo levado à obra-prima de Silas de Oliveira. Pra mim, este é o hino nacional informal.

"Bumbum Paticumbum Prugurundum" (Império Serrano - 1982) - Impossível não se deixar contagiar por esse refrão. O manual de como fazer um samba, escrito por Beto Sem Braço e Aluisio Machado, indo na contramão das "Super Escolas de Samba S/A".

"É Hoje" (União da Ilha - 1982) - Didi e Mestrinho compuseram uma verdadeira "Ode à Alegria" tupiniquim.

"Kizomba, Festa da Raça" (Vila Isabel - 1988) - Disparado o mais forte desta lista. O aniversário de cem anos da abolição da escravatura nos presenteou com esse samba que é reconhecidamente como um dos mais icônicos da Vila Isabel e do Carnaval.

"Peguei um Ita no Norte" (Salgueiro - 1993) - A conta é facil: um refrão forte + uma bela história = um dos maiores sucessos do Salgueiro e da história do carnaval carioca.

 

Pedro de Freitas

Mais uma missão impossível! Sintetizar décadas de desfiles de escolas de samba escolhendo os cinco melhores (melhor seria - os cinco que mais gosto, para escapar do julgamento subjetivo).

Muitas vezes acabamos por ser benevolentes demais com o passado, e rigorosos demais com o presente. Em discos antigos vamos achar obras-primas, e bois-com-abóbora também. E recentemente tivemos alguns belos sambas, como os da Portela e Vila Isabel de 2012 e 2013, que não devem nada aos sambas de antigamente. 

Preferi me ater à época que entendo ser a "fase de ouro": entre 1977 e 1988, época de grandes obras-primas. Foi também a época em que o gênero musical chegou ao auge em termos de popularidade, muito além do que vemos hoje. Vamos aos meus preferidos, em ordem cronológica:

"Domingo" (União da Ilha - 1977) - Com enredo inusitado para a época, era um samba que fugia completamente ao lugar-comum. De melodia incomum, lírico e alegre, iniciou a formidável sequência de sambas-enredo clássicos da Ilha (que contou, entre outros, com "O Amanhã", "É Hoje" e "Festa Profana").

"Incrível, Fantástico, Extraordinário" (Portela - 1979) - Para mim, uma das mais belas melodias em um samba-enredo em todos os tempos. A letra é um primor de simplicidade, sem ser banal. David Correa, um dos compositores, arrumou gás para fazer outros grandes sambas para a Portela nos anos seguintes.

"Sonho de Um Sonho" (Vila Isabel - 1980) - Pode um samba baseado em um poema de Carlos Drummond de Andrade rivalizar com sua inspiração original? Na minha opinião, Martinho da Vila, Rodolpho e Graúna mostraram que sim. Na época achavam que a complexidade da letra e melodia não renderia um bom desfile. Engano. A Azul e Branca da terra de Noel desfilou lindamente com esse belíssimo samba.

"Bum Bum Paticumbum Prugurundum" (Império Serrano - 1982) - O samba que deu o primeiro título do carnaval a Rosa Magalhães foi também o maior casamento entre aprovação da crítica e apoio popular. De qualidade indiscutível, vai fluindo sem que você perceba a grande extensão de sua letra. Um dos grandes de todos os tempos, sem dúvidas.

"Cem Anos de Liberdade, Realidade Ou Ilusão" (Mangueira - 1988) - No ano do centenário da abolição da escravatura, a Vila Isabel foi campeã com um belo samba-celebração, que se tornou sucesso nacional. Mas sempre gostei mais deste aqui, com um tom crítico raro entre as obras entoadas pela Nação Verde e Rosa na avenida. Um samba que você termina de cantar com a voz embargada e um nó na garganta.

 

Ivan Souza

Chegou o Carnaval! A mais bonita manifestação popular brasileira (não importa que não tenha nascido aqui) produziu muitas de nossas mais belas obras musicais. Listo aqui os 5 que considero mais bonitos e significativos.

"A Lenda das Sereias, Rainhas do Mar" (Império Serrano - 1976) - O samba-enredo de 1976 do Império Serrano transcendeu o carnaval.  Grandes artistas da música brasileira já gravaram o samba composto por Dionel, Arlindo Velloso e Vicente Mattos. A versão mais famosa é de Marisa Monte e faz jus ao histórico desfile que ficou apenas em 7º lugar.

"O Amanhã" (União da Ilha - 1978) - Esse maravilhoso samba levou a escola insulana ao 4º lugar em 1978. Foi gravado neste mesmo ano pela cantora Elizeth Cardoso, mas ganhou notoriedade em 1983 com a gravação da cantora Simone no disco ao vivo "Delírios e Delícias".

"Pra Tudo se Acabar na Quarta-Feira" (Vila Isabel - 1984) - O samba-enredo vencedor do Estandarte de Ouro em 1984 é de autoria de Martinho da Vila. O desfile ficou apenas em 5º lugar. O enredo retrata os trabalhadores do carnaval carioca.

"Raízes" (Vila Isabel - 1987) - Mais uma vez a Vila Isabel e mais uma vez Martinho da Vila. Desta vez Martinho compôs um samba inteiro sem rimas contando uma lenda indígena sobre como teriam surgido as estações do ano. O desfile é considerado um dos maiores da história, apesar de ter ficado apenas em 5º lugar.

"Festa Profana" (União da Ilha - 1989) - O samba-enredo falando sobre a história do carnaval é atemporal. Antes mesmo do histórico desfile da União da Ilha do Governador, o samba já estava na boca do povo. "Eu vou tomar um porre de felicidade/vou sacudir, eu vou zoar essa cidade" é até hoje cantado em festas e estádios ao redor do Brasil.



01/02/2016 17h04

Pequeno manual de regravações
Cláudio Francioni, Leonardo Jorge, Ivan Souza e Pedro de Freitas

Listas! Ah, as listas! Adoráveis e detestáveis simultaneamente. Mas quem não ama elaborar uma? Também sou desse time.

Desta vez desafiei nossos três colaboradores a fazerem uma pequena relação de dez boas regravações. Os critérios, deixei por conta de cada um. Alguns levaram em consideração apenas as faixas que consideravam melhores do que as originais, outros não.

O resultado é bastante abrangente. Pouquíssimas coincidências em um total de 56 músicas citadas. Segue abaixo a lista de cada um com algumas justificativas.

 

Ivan Souza

1-With a Little Help from my Friends - Joe Cocker: a canção "fofa" dos Beatles ganhou força sobre-humana na versão de Joe Cocker. Além do incrível Joe, a gravação contou com B.J. Wilson, baterista do Procol Harum, Rosetta Hightower, Patrice Holloway e Madeline Bell, três cantoras de soul dos Estados Unidos fazendo os backing vocals, Chris Stainton, famoso músico britânico que, entre outros, já gravou e tocou com The Who, Eric Clapton, Roger Waters, David Gilmour e B.B. King e deixando o melhor pro final, Jimmy Page. Sim, Jimmy Page foi quem gravou a canção de Joe Cocker. O arranjo em 6/8 e a interpretação de Cocker transformam a "Canção da América" dos ingleses num hino irrepreensível.

2-Torn - Natalie Imbruglia

3-Nothing Compares 2 U - Sinéad O´Connor

4-I Will Always Love You - Whitney Houston

5-She - Elvis Costello: a linda canção composta pelo francês Charles Aznavour ganhou ares cinematográficos na gravação de Elvis Costello. Literalmente. A música faz parte da trilha do filme "Nothing Hill" e é difícil não lembrar da bela história interpretada por Julia Roberts e Hugh Grant.

6-Todo Amor que Houver nessa Vida - Cássia Eller

7-Amanhã Não se Sabe - LS Jack: em 1998 a canção de Sérgio Britto foi lançada no álbum Volume Dois, do Titãs e não chega perto do que os cariocas do LS Jack conseguiram fazem com a música, lançada no álbum Tudo Outra Vez, de 2003. A banda, que teve grandes sucessos como Carla, Você Chegou, A Carta e Sem Radar, talvez nunca tenha conseguido uma faixa tão bela e bem executada como Amanhã Não se Sabe.

8-Fico Assim sem Você - Adriana Calcanhotto

9-Brasil - Cássia Eller: mais uma vez Cássia Eller na lista e isso é culpa do incrível álbum Veneno Antimonotonia, de 1997, produzido por Wally Salomão, onde a cantora carioca usou e abusou das músicas compostas por Cazuza e seus parceiros. Brasil é de Cazuza, George Israel e Ezequiel Neves, mas passa a ser um pouco de Cássia com o arranjo ousado que contou até com um cavaquinho. A música virou praticamente um heavy metal e ficou muito boa.

10-Got to Get You Into my Life - Earth Wind and Fire

 

 

Pedro de Freitas

1-All Along The Watchtower - Jimi Hendrix: essa talvez seja A SUPREMA versão. A música de Bob Dylan já era um clássico quando o Deus da guitarra utilizou seu talento único para praticamente tomá-la de seu autor original. Muitos jurariam que a música é de Hendrix.

2-Goodbye Pork Pie Hat - Joni Mitchell

3-Hurt - Johnny Cash: O "Homem de Preto", maior nome da música country em todos os tempos, decididamente teve uma vida agitada. Quando disse que "Hurt", de Trent Reznor, líder dos Nine Inch Nails, era a melhor canção que já tinha ouvido sobre o vício em drogas, falava com conhecimento de causa. A canção foi seu canto de cisne. Cash morreu logo depois, e transformou "Hurt" em um hit.

4-Higher Ground - Red Hot Chili Peppers

5-(Oh) Pretty Woman - Van Halen: A canção de Roy Orbinson também já havia sido um sucesso radiofônico antes do Van Halen colocar suas mãos nela. A destacar, a introdução criada por Eddie Van Halen utilizando poucos fraseados de guitarra e muitos ruídos e microfonia, fora de seu estilo usual (ele estaria ouvindo Neil Young na época?), e a interpretação do crooner Dave Lee Roth, que manteve a veia romântica original.

6-Coração Materno - Caetano Veloso

7-Gago Apaixonado - João Bosco

8-Nervos de Aço - Paulinho da Viola

9-Vapor Barato - O Rappa

10-Maracatu Atômico - Chico Science & Nação Zumbi: os pernambucanos foram responsáveis por uma das últimas revoluções musicais da MPB. E quem melhor do que eles para reescrever esse clássico de Gilberto Gil?

 

 

Leonardo Jorge

1-Cotidiano - Seu Jorge & Marcelinho da Lua: Vou me arriscar dizendo isso, mas alguns compositores, por mais geniais que sejam, não deveriam cantar. Para reforçar minha tese, Seu Jorge cantando esta faixa (mesmo em levada Drum ?n Bass) coloca o Chico Buarque no bolso.

2-Por Enquanto - Cássia Eller

3-Whiskey In A Jar - Metallica

4-Flores Astrais - RPM: Os Synths e bateria eletrônica do RPM deixaram esta canção de 1974 dos Secos & Molhados com a forma de uma faixa típica dos anos 80. E o resultado ficou muito bom!

5-Proibida Pra Mim (Grazon) - Zeca Baleiro

6-With a Little Help From My Friends - Joe Cocker

7-Como Nossos Pais - Elis Regina: Belchior compôs e cantou um diamante bruto, devidamente lapidado pela interpretação de Elis Regina, uma das melhores vozes de ontem, hoje e sempre.

8-Always On My Mind - Elvis Presley

9-Hurt - Johnny Cash

10-I Will Survive - Cake: em matéria de originalidade, a versão da banda californiana para a música de Gloria Gaynor é imbatível. A linha de baixo é arrebatadora e os vocais de John McCrea são únicos. Muito mais do que regravar, eles transformaram essa canção numa coisa absolutamente nova e saborosa.

 

 

Cláudio Francioni

1-Urge Overkill - Girl You'll Be A Woman Soon

2-Jokerman - Caetano Veloso

3-Tropicália - Tantra: uma versão agressiva no instrumental e debochada nos vocais do clássico eternizado por Caetano.

4-Where the Streets Have no Name - Pet Shop Boys

5-Brasil Pandeiro - Novos Baianos

6-The Winner Takes it All - At Vance: a belíssima melodia imortalizada pelo ABBA ganha o peso dos alemães e a incrível voz de Oliver Hartmann.

7-Vale Quanto Pesa - Barão Vermelho

8-(Oh) Pretty Woman - Van Halen

9-She - Elvis Costello

10-Across the Universe - Rufus Wainwright: minha (atual) canção preferida dos Beatles numa versão dilacerante comandada por uma linda voz. Foi incluída na trilha sonora do filme "Uma Lição de Amor". Se você tiver coração fraco (como eu), nem pense em assistí-lo.


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11/01/2016 17h16

David Bowie: O Camaleão e a Espaçonave
Pedro de Freitas

David Bowie não parecia mesmo ser deste planeta. Para seres comuns, mudanças muito frequentes e repentinas trazem desconforto, pois se chocam com outra lei universal, a da inércia. Para David Bowie, porém, as várias mudanças no rumo da carreira foram antes de tudo uma zona de conforto e um estimulante. Não à toa, Bowie ganhou o apelido de "Camaleão do Rock".

Esse anseio por ser uma "metamorfose ambulante" e viver várias vidas em uma impregnou Bowie de tal forma que, visualmente, ao confrontar fotos do artista tiradas nos anos 70, 80, 90 ou 2000, um desavisado juraria serem pessoas diferentes.

Na música essa inquietação também era aparente: o mutante Bowie passou com brilho por vários gêneros e subgêneros da música. Do pop quase perfeito do álbum "Hunky Dory" e do glamour cheio de purpurinas de "Ziggy Stardust", passando pelo Kraut Rock glacial da "trilogia de Berlim" ("Low", "Heroes" e "Lodger") até chegar à Dance Music ("Let?s Dance") e ao Hard Rock ("Tin Machine"), Bowie não só na estética mas também na música desafiava rótulos. Tinha a capacidade de fazer com igual competência músicas pop açucaradas como "Life On Mars?", ou experimentos sonoros radicais como "Warszawa". A influência de Bowie na cultura pop é imensurável mas visível, ao percebermos a grande quantidade de artistas do mundo todo que o citam como influência.

E o momento musical atual era bom para ele. Após alguns discos sem brilho, David Bowie revitalizou sua carreira (de novo!) com o excepcional "The Next Day", lançado em 2013 e sem dúvidas um dos melhores álbuns daquele ano. E lançou "Blackstar", seu novo trabalho, agorinha em 2016, há apenas dois dias atrás!

Bom, vai ver David Bowie não era deste planeta, mesmo. Talvez seu olhar estranho fosse apenas um indício de sua origem alienígena. E talvez Ziggy Stardust, o alter ego espacial que ficou quase tão famoso quanto seu criador, tenha finalmente ganhado vida própria, e à bordo  de sua espaçonave resgatou o velho Bowie deste planetinha, para levar sua arte exuberante para os confins do espaço sideral.

Então, boa viagem, Camaleão. De preferência ao som de "Heroes".

David Bowie - "Heroes"



05/01/2016 08h49

A mini lista de melhores discos de 2015
Pedro de Freitas

Apontar os melhores trabalhos musicais do ano hoje em dia não é fácil. Por causa da revolução pela qual passou a indústria da música, virou uma tarefa ingrata. O consumo do produto "música" espalhado pelas nuvens digitais, o avanço da pirataria e o barateamento dos custos de gravação e de divulgação virou a indústria fonográfica de cabeça para baixo. Duas consequências:

- A indústria passou a investir em artistas com retorno garantido. O que quer dizer na época atual: artistas com grande apelo popular e grande exposição à mídia e ao jornalismo de celebridades. Se antes o músico conquistava respeito pela qualidade artística do seu trabalho, e em seguida buscava apelo popular, hoje o processo é inverso. Popstars de hoje ganham vida primeiro com "curtidas" nas redes sociais e "ostentação" no balcão de celebridades, sem que preste muita atenção à música.

- Existe música boa sendo feita; só que, com a ausência de oportunidades nas grandes gravadoras, e a facilidade em se tornar artista independente, com controle total sobre seu produto, essa boa música está pulverizada pela rede, em grande quantidade, o que torna humanamente impossível conhecer tudo que está sendo feito. O artista revolucionário hoje pode estar escondido em algum cantinho da internet.

Dito isso, vou fazer uma mini lista de trabalhos que me chamaram a atenção este ano. Eu não saberia dizer com certeza se merecem o rótulo de melhores. seria melhor chamá-los de "melhores que chegaram aos meus ouvidos".

Foto: Reprodução1-"Vulnicura" (Bjork): Bjork tem um talento ímpar para misturar gêneros musicais de vertentes diversas - rock, jazz, música eletrônica, erudita, world music. Além disso sua própria imagem é um produto que ela trabalha como ninguém faz no pop atual. O último trabalho de Bjork, Biophilia, tinha todo um conceito multimídia, que se pretendia revolucionário, mas vamos ser francos: era meio chato. "Vulnicura" é Bjork de volta, com pompa e circunstância, ao que ela sabe fazer de melhor: a construção canções e melodias divinas, interpretadas de forma ímpar. Como já havia dito antes, em raros artistas a palavra "belo" faz tanto sentido quanto na música de Bjork.

Foto: Reprodução2-"To Pimp a Butterfly" (Kendrick Lamar): Há ainda quem ainda torça o nariz para Rap/Hip Hop. Mesmo se é o seu caso, não pare de ler: Kendrick Lamar é um artista diferenciado. Lamar não é muito conhecido no Brasil. Mas lá fora muitas expectativas foram criadas depois do seu ótimo disco de estréia dois anos atrás. Pois ele se superou com um trabalho inteligente e rico musicalmente que passa ao largo da "ostentação e egotrip" que inunda a verborragia de 99% dos artistas de rap. Lamar usa um tom confessional em suas crônicas do cotidiano. Musicalmente, não se furta a soar experimental, fazendo as mais bizarras combinações. Com pouco glamour, muito groove e mensagens com conteúdo, Kendrick Lamar faz um bem danado ao rap atual. De quebra, o álbum tem "King Kunta", que poderia ganhar o prêmio de "batidão do ano de 2015".

Foto: Reprodução3-"A Mulher Do Fim Do Mundo" (Elza Soares): O que você acharia se eu dissesse que o trabalho musicalmente e poeticamente mais radical e transgressor em 2015 veio de uma artista de quase oitenta anos de idade? Pois foi exatamente o que aconteceu. Não conheço toda a discografia de Elza Soares. Lembro de "A Bossa Negra", trabalho ainda dos anos 60 e "Do Coccix Até o Pescoço", mais recente. Mas nenhum tem o conteúdo de experimentalismo de "A Mulher Do Fim Do Mundo". Trabalhando em conjunto com compositores da recente vanguarda paulista, encara com paixão e coragem temas polêmicos do cotidiano. Musicalmente, Elza vai muito além do samba, abordando com sua voz "soul" uma ousada mistura de ritmos. Não é fácil atingir seu melhor trabalho depois de 60 anos de carreira. Mas Elza conseguiu.

Foto: Reprodução4-"Carbono" (Lenine): Já disse por aqui que considero Lenine o melhor artista brasileiro da atualidade. Vive o seu auge criativo, e "Carbono" não deixa a peteca cair. "Chão", álbum anterior, já era um trabalho superlativo; "Carbono" adiciona todo um conceito, com uma concepção audiovisual ambiciosa. Impressiona o domínio que Lenine tem da linguagem sonora, que pode ser qualquer uma: regional, pop, erudita, ou o que ele pensar em fazer. De quebra, o disco serviu como base para um dos melhores shows do Rock In Rio 2015.

Isso é tudo. Faltou um disco de Rock na lista? Pois é? esperemos 2016!

 


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29/12/2015 10h15

Adeus, Lemmy
Cláudio Francioni

E foi-se mais uma lenda. Lemmy Kilmister era a personificação do heavy metal em seu estado mais bruto, com sua voz rasgada e seu visual lenhador bizarro. A notícia foi dada em primeira mão por Eddie Trunk, apresentador do programa "That Metal Show" (VH1) em uma rede social no início da noite de ontem. Após alguns rumores de que tudo não passava de uma brincadeira, o fato foi confirmado pela página oficial do Motörhead no Facebook.

Com um álbum recém-lançado, "Bad Magic", Lemmy declarou em entrevista no início de dezembro estar ansioso para voltar ao Brasil, por onde o Motörhead passou algumas vezes, incluindo a edição de 2011 do Rock in Rio. Em abril deste ano, a banda cancelou em cima da hora a sua participação no festival Monsters of Rock, em São Paulo, devido às complicações estomacais no cantor. O guitarrista Phil Campbell e o baterista Mikkey Dee subiram ao palco para uma jam session com o Sepultura. Levaram "Orgasmatron", clássico do Motörhead regravada pela banda mineira, "Ace of Spades" e "Overkill".

Mas o Motörhead era Lemmy e vice-versa. Dificilmente a banda conseguirá superar a ausência de seu líder.

Vá em paz, Lemmy.

Motörhead - Ace of Spades



18/12/2015 09h40

Transmissão dos desfiles pela TV: O cachorro e o rabo
Cláudio Francioni

Muito obrigado, dona TV. Durante a minha infância, foi a senhora quem me apresentou aos desfiles e, não fosse isso, possivelmente eu nem estaria escrevendo este texto agora. Mas agora acho que não precisamos mais da senhora. Sim, resolvi ser polêmico e remar contra todos nessa enxurrada de reclamações contra a castração na transmissão dos desfiles.

Segundo as redes sociais, a culpa é dividida entre a emissora que transmite o desfile, a LIESA e as próprias escolas. As duas últimas nem há o que discutir. São reféns da verba. E quanto à emissora, podemos usar dois prismas. Primeiro o comercial, onde, como uma entidade privada que visa o lucro, tem todo o direito de escolher o que for melhor para ela. E a outra, a questão de que a maior emissora do país deveria fomentar a cultura popular. Ora, ora. Vocês realmente esperam isso? Observem o modelo de transmissão do desfile. Ou então, mais simples ainda, deem uma olhada na grade de programação da emissora e me digam se realmente alguém pode esperar algo diferente.

Nem sei se tenho certeza ou não sobre o que vou dizer, mas não esconderei a pequena pulga que atormenta a parte posterior de minha orelha há algum tempo. A transmissão chegou no início da década de 70 e trouxe consigo uma enorme gama de alterações na estrutura do espetáculo. Começando pelas vantagens, a inegável organização do desfile e seus subitens (respeito aos horários e às ordens de desfile, fim da invasão de pista durante o desfile, etc...), a profissionalização das escolas, o cumprimento do regulamento (afinal, milhões estão de olho), etc...

- Após insatisfação de sambistas, desfiles de 2016 serão transmitidos como em 2015

Foto: Divulgação / Riotur

Porém, também há o lado negro da força. E ele é poderoso, pois também cai na conta da TV uma série de críticas que nós, amantes deste treco, fazemos há décadas. Ou não é a TV a culpada por termos apenas 12 escolas no Grupo Especial? Ou não é a TV a responsável pelos desfiles começarem cada vez mais tarde? E pela ausência da campeã do Acesso no Desfile das Campeãs? Ou não seria a TV a vilã nas questões do pouco tempo de desfile, e consequentemente na aceleração dos andamentos das baterias segundo muita gente afirma (eu discordo!)? Quem seria a culpada pelas pseudo-celebridades que se enfurnam nas escolas ou na beira da pista em busca da telinha, às vezes até atrapalhando a evolução do desfile? E a responsável pela visibilidade que atrai investidores ávidos em ver o seu produto estampado em um enredo tosco, empurrado goela abaixo do pobre carnavalesco? E, pra provocar a reflexão e incitar um debate: qual o principal motivo de Joãosinho Trinta ter criado a tal verticalização nos desfiles que, com o passar dos tempos se transformou nas superalegorias que escondem gente bamba (que covardia!)? Sim. A transmissão dos desfiles tem culpa nisso tudo citado aqui em cima, mesmo que em alguns casos divida a responsabilidade com outros fatores.

Mas é sobre este último item que eu gostaria de desenvolver meu raciocínio. Todo este processo rumo ao gigantismo que tanto criticamos aconteceu principalmente pra enquadrar o espetáculo nos moldes da transmissão e se tornar um produto comercialmente interessante. Isso obviamente causou um aumento frenético nos custos do carnaval e ninguém melhor do que a própria TV, a mais interessada no crescimento, para oxigenar financeiramente as escolas. Assim sendo, há algum tempo a transmissão é responsável por grande parte dos recursos gastos no desfile, direta e indiretamente. Então vamos ao título do texto: as escolas entrariam em desespero se acabasse a transmissão e consequentemente a verba por ela gerada. Porém, a quem interessa um carnaval riquíssimo e grandioso senão à própria transmissão? Ou seja, é o cachorro correndo atrás do próprio rabo.

Afetaria a mim ou aos amantes dos desfiles? Acredito que não. Estaremos lá em quaisquer condições, assim como estamos nos nada ricos ou luxuosos desfiles dos grupos inferiores, por onde a TV passa longe. Precisamos de milhões de pessoas assistindo ou sobreviveremos assim como as escolas sobreviveram (e cresceram!) entre 1930 e 1970 sem TV nenhuma? Quem sabe o carnaval não necessite de uma freada nesse crescimento e um estímulo à busca por soluções criativas? Quem sabe os enredos, livres de algumas amarras, não passem por uma boa transformação? Talvez até muita gente sumisse do Sambódromo por não ter mais o que fazer sem câmeras no recinto.

Mas isso não vai acontecer, obviamente. É claro que o prejuízo afetaria as escolas, o turismo e, como eu disse lá em cima, realmente não coloquei tudo na balança pra saber se concordo integralmente com o que propus. Mas concordo absolutamente com o debate sobre o assunto, nem que este argumento seja usado como recurso para uma pressão na emissora. "Faça direito. Não quer, eu sobrevivo. Diferente, mas sobrevivo."

Leia também:

- Síndrome de Estocolmo no Carnaval

- Cultura popular rendida: desfiles de escolas tradicionais fora da TV

- Desfiles da Estácio, Vila, Ilha e Salgueiro não serão transmitidos na TV

- Eu só queria entender...

- Carnaval 2016: transmissão atravessada

- Escolas evitam falar sobre não tranmissão de alguns desfiles em 2016

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04/12/2015 15h56

Roberto Carlos é atemporal. Bom pra nós.
Yuri Helbourn

Assistir Roberto Carlos é uma experiência incrível. Goste ou não de suas músicas, é um espetáculo a ser apreciado. Me comoveu ver a reação do público quando ele surgiu no palco, principalmente de suas fãs, que aos gritos incessantes de "eu te amo", se comparam às de qualquer astro "teen". 

No show, os sucessos de sempre. Pouca coisa nova, apenas algumas músicas antigas com boas releituras. Releituras essas feitas em seu projeto "Primeira Fila", gravado no lendário Estúdio 2, em Abbey Road. A faixa "Eu te amo, te amo, te amo", por exemplo, vem com uma roupagem reggae, totalmente distinta da original. Uma tentativa clara de saída da zona de conforto. Já a famigerada "Ilegal, Imoral ou Engorda" conta com uma pegada bem rock and roll, assim como quase todo seu show, o que dá bastante liberdade para o guitarrista ligar a distorção e se divertir solando durante quase todas as músicas.

Foto: Yuri Helbourn

O último sucesso do cantor, "Esse Cara Sou Eu", que foi tema de novela das 9, é o que se tem de mais moderno no repertório, o que não necessariamente quer dizer que é bom. A base eletrônica durante toda a música faz seu baterista Norival, que o acompanha há 35 anos, sumir.

Apesar de muitos pedirem que o cantor se reinvente, certas coisas não mudam e nem devem mudar. Não há inicio melhor do que um sonoro "quando eu estou aqui, eu vivo este momento lindo", e nem um final que se compare a "Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui!", que toca até que acabem todas as flores que são jogadas para o público. Uma a uma, as rosas vão sendo beijadas carinhosamente e arremessadas às fãs - de todas as idades, é bom frisar - que não arredam o pé dali enquanto não conseguem sua lembrança. Um clássico do Rei e mais um momento comovente da noite.

Roberto Carlos, comemorando 50 anos de carreira internacional e há 56 fazendo sucesso pelas nossas terras, não precisa provar mais nada a ninguém. Chega aos 74 anos cantando com a mesma afinação de outrora e com a coroa que o povo lhe deu mais brilhante do que nunca.

Vida longa ao Rei.

Yuri Helbourn foi ao show convidado pelo blog

      Setlist

  1. Emoções 
  2. Como vai Você
  3. Além do Horizonte 
  4. Ilegal, Imoral ou Engorda 
  5. Detalhes 
  6. Desabafo
  7. Outra Vez
  8. Lady Laura
  9. Nossa Senhora 
  10. O Calhambeque 
  11. Eu te amo, te amo, te amo
  12. Mulher Pequena
  13. Negro Gato 
  14. Proposta 
  15. Se Você Pensa
  16. Esse Cara Sou Eu
  17. Como É Grande o Meu Amor Por Você
  18. Jesus Cristo 
 



23/11/2015 16h19

Há tempos, 20 anos mais ou menos
Pedro de Freitas

Ocupado com outros escritos e afazeres pessoais, não me dei conta que em outubro fez 20 anos que Renato Russo nos deixou.

Meu apreço pela Legião Urbana é antigo. Mais precisamente desde que tempos atrás fui à Mistura Fina, uma boate minúscula que existia na Barra da Tijuca, em uma semana reservada para apresentar novas bandas de Brasília. Foram Capital Inicial, Plebe Rude, Escola de Escândalos e Legião Urbana. Pouco tempo depois, as músicas da Legião começaram a tocar na velha "maldita" Rádio Fluminense, especializada em rock.

Entretanto, embora reconheça todo o talento de Renato Russo, nunca tive a mesma reverência por ele que uns tantos amigos meus tinham na época. Assim como em Cazuza, outro grande ícone desta geração de artistas dos anos 80, que também já se foi, vejo em Renato Russo e sua obra altos e baixos, e não o monumento sem pontos fracos que alguns alardeiam. Mesmo assim, os pontos altos estão nivelados com o que de melhor se produziu na música popular brasileira até hoje.

Às vezes, vejo na obra de um artista uma música que é uma criação superlativa, definitiva, que se destaca entre todas as demais. Cazuza para mim tem a sua: "Codinome Beija-Flor". Renato Russo também tem: "Há Tempos".

"Há Tempos" não pertence aos vibrantes primeiros discos do Legião; remete a uma fase mais madura de Renato. Mas posso dizer: já tive meus momentos de tristeza em que a visitei, e conheço o poder de sua letra. Poucas músicas descrevem melancolia e desilusão com tanta sinceridade e conhecimento de causa. Ela veste justo na alma de quem as carrega; é quase como se Renato Russo nos enxergando profundamente , soubesse dar expressão ao transbordar desses sentimentos de forma bem mais precisa do que ousaríamos fazer, trazendo ao mesmo tempo uma sensação de solidariedade e um tanto de desconforto. Atrevo-me a dizer que poetas que escreveram sobre o sofrimento espiritual em língua portuguesa, como Fernando Pessoa ou Augusto dos Anjos, assinariam embaixo alegremente (ou nem tanto).

Me resta apenas encerrar este post com a letra de "Há Tempos". Tentem ler e mentalmente abstrair da melodia, se concentrando somente na poesia. Se a melancolia anda invadindo seu espírito, prepare-se para o impacto. Mas há consolo, nem tudo é negativo. Renato Russo oferece alguma acolhida nos últimos versos, um caminho a partir de virtudes bíblicas como disciplina, compaixão, fortaleza, bondade e coragem, que encoraja a quem contempla o escuro do abismo. E que garante que desta forma, mesmo no fundo do poço a água (ou sua alma) se manterá limpa.

HÁ TEMPOS (Renato Russo/Marcelo Bonfá/Dado Villa Lobos)

Parece cocaína
Mas é só tristeza
Talvez tua cidade
Muitos temores nascem
Do cansaço e da solidão
Descompasso, desperdício
Herdeiros são agora
Da virtude que perdemos

Há tempos tive um sonho
Não me lembro, não me lembro
Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso

Os sonhos vêm e os sonhos vão
E o resto é imperfeito
Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira

E há tempos
Nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
E há tempos são os jovens
Que adoecem
E há tempos
O encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura
Abrigo e proteção

Meu amor!
Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
Lá em casa tem um poço
Mas a água é muito limpa


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17/11/2015 12h59

Barulho para iniciantes
Pedro de Freitas

Vocês já viram em livrarias aqueles livrinhos de capa amarelo ovo que explicam qualquer assunto "para leigos"? São livros com texto simples e direto mostrando o básico sobre qualquer assunto ("para leigos" foi uma amenização do humor inglês contido no original, "for dummies", ou "para idiotas" em uma tradução livre). Pois bem, após tentar por anos explicar porque rock barulhento também é música, resolvi fazer minha tentativa de elaborar um manual do barulho para iniciantes. Consiste em 25 músicas, cuidadosamente escolhidas, abrangendo um período que vai dos anos 70 aos 2010, e estilos de rock diferentes, para introduzir o leitor no fascinante mundo do ruído. Optei por indicar músicas, e não discos, porque uma seleção destes seria material para ouvir por dias. Já as 25 músicas são tarefa para umas 2 horas. Uma vez ouvidas, pronto! O leitor se transformará em um iniciado na arte de ouvir barulho. Não requer prática nem habilidade!

Na seleção, utilizei alguns critérios bem subjetivos. Por exemplo, muitos se queixarão da ausência de bandas clássicas como The Who, Led Zeppelin, Black Sabbath, etc. Considerei que estes artistas utilizavam o barulho como um veículo para sua arte, e não como um fim. O barulho como um fim é criação de bandas precursoras do punk como os Stooges; daí evoluiu. Tá legal, haverá hordas de descontentes, mas, enfim, é um critério. Evitei também colocar mais de uma música da mesma banda, o que não faria sentido se o objetivo é uma seleção eclética. São minhas músicas favoritas? Não! Embora algumas delas estejam na lista, o objetivo é uma seleção eclética, representativa, blá, blá, blá, etc, etc.

Bom, chega de papo, não é? Fiz mini verbetes com cada música. Localize cada uma na sua fonte preferida (radio on line, You Tube, etc), ouça e bom divertimento!

RAMONES - BLITZKRIEG BOP (1976) - Os Ramones talvez foram a banda de rock menos glamourosa da história. Três acordes: a receita dos Ramones ditou tendências para a música nas décadas seguintes. "Hey Ho, Let?s Go!", é tudo que basta para o refrão atemporal de "Blitzkrieg Bop".

THE CLASH - SPANISH BOMBS (1979) - Um dos maiores hinos do punk rock. O disco de onde veio "Spanish Bombs" ("London Calling") mudou a cara da música pop da época, e influenciou tudo o que foi feito depois.

AC/DC - SHOOT TO THRILL (1980) - O AC/DC é o Ramones do Heavy Metal: fazem o mesmo show e tocam o mesmo tipo de música há décadas, sem que ninguém se incomode com isso. Pelo contrário. Fãs adoram o rock direto e brucutu da banda. "Shoot to Thrill" faz parte de "Back In Black", um dos discos mais vendidos de todos os tempos, e um tratado de como fazer rock pesado e sem frescura.

DEAD KENNEDYS - HOLIDAY IN CAMBODIA (1980) - Lhe agride uma banda se chamar "Kennedys Mortos"? Então ouça o refrão "Pol Pot, Pol Pot", em "homenagem" ao ditador e genocida cambojano. Na verdade, uma crítica ácida vinda da língua afiada de Jello Biafra, líder dos Kennedys. Outro hino punk.

JESUS AND MARY CHAIN - TASTE THE FLOOR (1985) - Ouçam: a melodia é suave, as vozes também. Mas o que é isso no fundo? Um Boeing dando um rasante? O Jesus And Mary Chain subverteu a lógica, soterrando músicas singelas em toneladas de microfonia. Um espanto. 

METALLICA - DAMAGE INC. (1986) - Eles viraram uma mega banda, mas esse som de quase trinta anos atrás mostra o verdadeiro Metallica: guitarras cortantes, vocal furioso, bateria precisa, e o melhor baixista que passou pelo grupo: o falecido Cliff Burton. A música que encerra essa primeira fase da carreira do grupo hoje deve fazer fãs mais antigos enxugarem lágrimas nos cantos dos olhos.

SLAYER - POSTMORTEM/RAINING BLOOD (1986) - São duas músicas, mas no disco "Reign In Blood" elas aparecem unidas. São tocadas a uma velocidade atordoante, com vocais urrados e riffs de guitarra amorfos. O superbaterista David Lombardo e o produtor Rick Rubin são decisivos e dão a consistência e definição necessárias a um dos trabalhos mais agressivos da história do rock.

BAD BRAINS - I AGAINST I (1986) - Imagine uma banda formada por músicos de jazz e de reggae, e que resolve tocar?punk hardcore! Pois essa banda existe, e a música em questão é a faixa título do melhor trabalho deles. Punk bem tocado, com "positive vibrations"! 

DINOSAUR JR - SLUDGE FEAST (1987) - Dinosaur Jr é uma banda que influenciou todo o rock dos anos 90 e 2000, apesar de não ser tão conhecida. Seu líder e guitarrista, J Mascis, é um fiel discípulo de Neil Young, o que fica claro no solo desta música, carregado de distorção e microfonia.

SONIC YOUTH - CROSS THE BREEZE (1988) - O Sonic Youth é conhecido pelos seus experimentos sonoros com ruídos, afinações diferentes para instrumentos, etc. Não por acaso, se tornou um dos queridinhos da crítica e círculos de arte americanos. Mas não é necessário que você seja fã de arte contemporânea e aprecie imagens sacras desenhadas com bosta de elefante para curtir Sonic Youth. Aposto que você gostará desta música!

PIXIES - WAVE OF MUTILATION (1989) - Essa música tem a marca registrada dos Pixies. Melódica e assobiável, mas com guitarras cortantes e barulhentas. Black Francis e Joey Santiago, dois de seus integrantes, amam surf music. Mas não espere sonhar com coqueiros e praias paradisíacas; mais fácil se imaginar em cima da prancha trocando socos com um tubarão branco em um "swell" gigantesco.

NEIL YOUNG - FUCKING UP (1990) - Esse tinha que estar nesta lista. Pioneiro na arte de tirar microfonia de uma guitarra, o "véio" é inspiração para muitos artistas citados aqui. Fucking Up é um dos seus clássicos dos anos 90, e é até hoje tocada nos shows. 

MUDHONEY - NO ONE HAS (1990) - O Mudhoney é uma espécie de "primo pobre" do Nirvana. E fazia uma zoeira utilizando os seus queridos pedais de guitarra Superfuzz. Confira nesta música!

NIRVANA - TERRITORIAL PISSINGS (1991) - Claro que a última grande banda de rock não poderia faltar! Kurt Cobain se inspirou em muitas das bandas que citei aqui, e queria apenas fazer uma música tão boa quanto a de seus ídolos. Conseguiu superá-los. "Territorial Pissings" é a faixa mais nervosa do multiplatinado "Nevermind". Foi a música que encerrou o bizarro show que deram no Rio de Janeiro pouco antes do suicídio de Cobain.

MY BLOOD VALENTINE - ONLY SHALLOW (1991) - Imagine um artista capaz de superpor 50 gravações de guitarra na mesma música. E que além disso é capaz de passar 23 anos (isso mesmo, 23 anos!) gravando um só disco ("MBV", que saiu ano passado)! O nome deste maníaco é Kevin Shields, o guitarrista do MBV. Apesar da barreira sonora que pode ser cortada com faca, suas músicas são estranhamente líricas e belas.

RAGE AGAINST THE MACHINE - KILLING IN THE NAME (1992) - Nos anos 90 o rock pesado passou a ser matéria prima incorporada por outros gêneros musicais, como o Rap. Várias bandas surgiram fazendo essa fusão, mas a melhor delas foi o Rage Against The Machine. "Killing InThe Name" é a melhor faixa de seu ótimo disco de estréia. Repare os ruídos de scratches feitos por Tom Morello com...uma guitarra!

PANTERA - FUCKING HOSTILE (1992) - Lembro da sensação. Anos atrás, no Rio, em um Imperator lotado no meio de semana (Pantera In Méier!), Phil Anselmo gritou a senha: "One, two, three, four!". Na velha casa de espetáculos do subúrbio carioca, me senti como em um liquidificador. Ou em uma máquina de lavar. Sensação que só terminou com o impronunciável (em inglês) grito em plenos pulmões: "F%$#$ Hostile!". Catarse pura.

NINE INCH NAILS - MARCH OF THE PIGS (1994) - Multi instrumentista, grande produtor e autor da concepção audio visual de seus trabalhos, Trent Reznor, a alma atormentada por trás do NIN, é um faz tudo, uma espécie de Prince do rock pesado. Sua obra prima "The Downward Spiral" é barulho feito em camadas meticulosamente construídas. "March Of The Pigs", tocada até hoje nos shows do NIN, tem uns poucos segundos de angustiante silêncio, que anunciam o esporro que virá. O piano ao final soa no mínimo irônico.

SEPULTURA - RATAMAHATTA (1996) - Nossos patrícios do Sepultura foram autores de um feito inédito: fundir de forma bem sucedida o monolítico thrash metal com ritmos regionais brasileiros. Carlinhos Brown tocando metal extremo? E a mistura dar liga? Se não tivesse ouvido, não acreditaria.

APHEX TWIN - COME TO DADDY (1997) - Vejo a música eletrônica muito mais como uma plataforma para novas idéias que um estilo por si só. Richard D. James, a mente por trás do Aphex Twin, é doido de pedra e também um artista brilhante, cujo trabalho tem desde elementos de música erudita até punk e rock industrial, caso desta música. Vale conferir o hilário e assustador clip (em que todos, inclusive crianças e animais de estimação aparecem com a carranca de James!).

PRODIGY - BREATHE (1997) - Outro integrante da música eletrônica, mas com alma rock and roll! Liam Howlett pilota seus equipamentos com a energia e precisão de um "guitar hero". Confira nesta música, que tomou o mundo de assalto em meados da década de 90.

SYSTEM OF A DOWN - SUGAR (1998) - "Toxicity" foi o segundo disco dos SOAD, que impulsionou a banda para o mega estrelato. Mas é no primeiro disco que o pau come, e a fórmula "guitarras - vocais teatrais - mudanças bruscas de andamento - folclore armênio" soa bem crua. "Sugar" é até hoje uma das favoritas dos fãs, e costuma encerrar os shows da banda.

AT THE DRIVE IN - ONE ARMED SCISSOR (2000) - Várias bandas ganharam o rótulo de pós hardcore, mas poucas o mereceram tanto quanto o At The Drive In. Em "One Armed Scissor" pode-se perceber tanto a brutal energia dos caras quanto a veia pop presente. A banda teve vida curta e se partiu em duas; uma, o Sparta, continuou fazendo um som derivado do punk. Já os portoriquenhos Omar Rodriguez Lopes e Cedric Zavala fundaram o Mars Volta, banda de som anárquico e viajante que fez alguns dos discos mais pirados (e legais) do século 21.

TV ON THE RADIO - I WAS A LOVER (2006) - Com vocalizações inspiradas na "soul music", ritmos e ruídos eletrônicos misturados a guitarras distorcidas, e arranjos grandiloquentes, "I Was a Lover" é o cartão de visita perfeito para o som cerebral e ambicioso do TV On The Radio, em minha opinião uma das melhores bandas de rock da atualidade.

JAPANDROIDS - FIRE?S HIGHWAY (2012) - Menos é mais - foi a lição do punk. E o mínimo pode ainda ser bom segundo o conceito de bandas recentes como White Stripes, The Kills e Yeah Yeah Yeahs. E o caso também dos Japandroids que se apoiam no minimalismo para fazer músicas repletas de Hei-hei-heis e Oh-oh-ohs. "Fire?s Highway" é boa para ouvir com amigos bêbados em um bar lotado.

Por enquanto é só, pessoal. Aos iniciados na arte, quem eu esqueci de colocar na lista? Quem não merecia esta honra? A bronca é livre!


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23/10/2015 21h58

Muse faz show enxuto e vigoroso no Rio
Cláudio Francioni

Como é difícil fugir de clichês para definir em poucas palavras um ótimo show. Então, como sou avesso a eles, façam um exercício de memória e juntem todas aquelas palavrinhas manjadas para tentar imaginar o que foi a noite de ontem proporcionada pelo Muse. Em um HSBC Arena bem esvaziado, culpa dos preços astronômicos aliados ao fator quinta-feira/Barra da Tijuca, o trio apresentou o show da turnê "Drones", em divulgação do último álbum homônimo, que começou em maio deste ano e já passou por 20 países.

Durante hora e meia de muita música e pouquíssimo papo, os britânicos (que no palco deixam de ser um power trio ao receber o apoio do tecladista/percussionista Morgan Nicholls) enfileiraram alguns de seus hits intercalados com novas canções. Foram cinco faixas pescadas de "Drones" e a recepção do público foi a melhor possível. O show inicia com um vídeo onde o sargentão da vinheta "[Drill Sargeant]" dá uma leve escovada em seu soldado, dando início à preparação das máquinas humanas que entrarão na batalha imaginada no álbum conceitual. O público fazia coro com o soldado em todos os "Aye Sir", mostrando desde o início que o disco estava na ponta da língua. A frenética "Pshycho" abriu a guerra e logo entre as seis primeiras canções, outras três novas apareceram: a maravilhosa "Reapers" com seus riffs e variações de levada, "The Handler" e "Dead Inside", o primeiro single do álbum.

O som do Muse é tenso e relaxante, é retrô e moderno, é denso e simples, clássico e inovador, e tudo isso acontece às vezes na mesma canção. No palco é uma banda praticamente perfeita, técnica e tecnologicamente falando. Os três são gigantes em seus instrumentos e o som é impecável. Não fosse a ambientação, teria-se a impressão de estar ouvindo uma gravação. O setlist foi praticamente igual ao executado nos últimos shows. A única diferença foi a saída de "Citizen Erased" para a estreia de "Muscle Museum", do primeiro disco da banda, "Showbiz", de 1999. Em um dos poucos momentos em que abriu a boca pra falar, Matthew Bellamy comunicou: "essa é bem antiga". Logo no início da canção, algum deslize imperceptível ao público gerou gargalhadas no cantor e troca de gozações com o baixista Chris Wolstenholme. No telão, as imagens da banda recebiam a arte de algo como miras eletrônicas ou painés de aviões de combate.

A partir de "Hysteria", que terminou com o riff final de "Back in Black" do AC/DC, começaram a aparecer alguns dos clássicos da banda, como "Supermassive Black Hole" (com direito a uma lambança de Matt ao derrubar a torre de amplificadores enfiando a mão de sua guitarra em um deles em busca de reverb), "Time is Running Out", "Starlight" e "Uprising" com grandes balões infláveis negros jogados à galera. No bis, a nova e deliciosa "Mercy" proporcionando uma chuva de confetes e serpentinas e a indefectível "Knights of Cydonia", com Chris tocando na gaita um tema de Ennio Moriccone na introdução.

Fica o agradecimento a Dom, Matt e Chris por mais um belíssimo show, mas numa próxima vez meia horinha a mais de show para incluir "Resistance", "Panic Station", "Unnatural Selection" e mais umas duas canções não faria mal a ninguém.

Clique aqui para saber mais sobre a banda, no ótimo texto de Hélio Ricardo Rainho

Setlist

[Drill Sergeant]
1 Psycho
2 Reapers
3 Plug in Baby
4 The Handler
5 The 2nd Law - Unsustainable
6 Dead Inside
7 Interlude
8 Hysteria
9 Muscle Museum
10 Apocalypse Please
11 Munich Jam
12 Madness
13 Supermassive Black Hole
14 Time is Running Out
15 Starlight
16 Uprising
BIS
17 Mercy
18 Knights of Cydonia

Galeria de fotos

Foto: Cláudio Francioni

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20/10/2015 11h53

Os vinte anos de 'Purpendicular'
Leonardo Jorge

Parece que 2016 será um bom ano para o Deep Purple. Após lançar em 2015 um trabalho duplo ao vivo que foi bastante elogiado por público e crítica ("From The Setting Sun In Wacken" / "To The Rising Sun In Tokyo"), é praticamente certa a inclusão da banda inglesa na próxima turma do Rock'N' Roll Hall of Fame. Ainda que a honraria tenha vindo tardiamente, parece que os deuses escolheram um momento simbólico, pois o ano que vem também marca os 20 anos de um disco que foi um divisor de águas na banda e um dos meus preferidos de todos os tempos: falo do "Purpendicular".


Foto: ReproduçãoO Purple vinha de um momento conturbado, com a saída nada amistosa do lendário guitarrista Ritchie Blackmore em 1993, no meio da turnê do disco "The Battle Rages On". Após completar os compromissos com o Joe Satriani como backup de luxo, a banda traz Steve Morse (ex-Dixie Driegs e Kansas) para o lugar. Rolou uma leve torcida de nariz, já que o timbre e sonoridade de Morse eram bem diferentes dos de Blackmore. Mas, ao longo de "Purpendicular", o americano conseguiu provar que era o cara certo para a função e o possível ceticismo dos fãs logo virou fumaça (na água).

Embora seja um disco mais conduzido pelos teclados do mito Jon Lord do que o habitual, os riffs de guitarra estão lá mostrando que não estão para brincadeira. Logo na primeira faixa, "Vavoom: Ted The Mechanic", esbanja uma energia com uma guitarra marcada que a garantiu como clássico instantâneo e canção obrigatória em todos os shows. Outra nesse mesmo patamar é a balada "Sometimes I Feel Like Screaming", simplesmente maravilhosa e uma das mais belas da discografia da banda, com um tema de guitarra inspirado e um solo matador. "Cascades: I'm Not Your Lover" completa o meu Top 3 deste disco, com uma pegada mais rock'n roll clássica, com Lord arrancando das teclas de seu Hammond bases e solos perfeitos e Morse vindo logo em seguida e mantendo o alto nível. Sensacional talvez seja pouco para definir.

Ainda nessa vibe roqueira, temos "Hey Cisco", "Somebody Stole My Guitar" e "A Castle Full Of Rascals". Com uma tonalidade mais "bluseira" temos a agitada "Rosa's Cantina" e "The Purpendicular Waltz". "Soon Forgotten" é uma faixa soturna e talvez o único ponto fora da curva do contexto que foi esse disco, mas ainda assim uma canção que não nos dará aquele desejo incontrolável de pulá-la. As baladas "A Touch Away", "The Aviator" e "Loosen My Strings" são leves e até despojadas, mas dão corpo ao disco e passam aquela sensação de que este álbum é um trabalho completo, que passeia por toda a essência do rock'n' roll clássico.

Apesar de ter focado mais em Lord e Morse nesta minha resenha, vale ressaltar que os outros membros (Ian Gillian na voz, Roger Glover no baixo e Ian Paice na bateria) também mostram uma disposição e talento neste disco como já não era comum de se ver (ou ouvir). Parecem mais empolgados e dispostos neste trabalho e parece que se a saída de Blackmore não acontecesse, o clima ruim que era frequente na banda poderia acabar nos impondo um novo fim prematuro do Purple (no início de 1976, a banda então com David Coverdale nos vocais e Glenn Hughes no baixo encerrou suas atividades, voltando com a formação clássica Gillian-Glover-Lord-Blackmore-Paice em 1984). Por diversas vezes, Glover, Lord e Giliian declararam abertamente como era difícil a convivência com o genioso guitarrista e essa mudança de ares era justamente o que precisavam para seguir adiante. Sorte nossa.

"Purpendicular" desfila em 12 faixas e pouco mais de uma hora de duração o Deep Purple em um de seus melhores momentos, com canções belas e criativas, novos clássicos e um rock'n' roll de primeira linha.

Deep Purple - Purpendicular (completo)

 



07/10/2015 20h59

Ir com a correnteza
Pedro de Freitas

Amigos, decididamente ainda sou um roqueiro romântico. Ainda sou capaz de ir às lágrimas, ver meu coração disparar ou os pelos dos braços se arrepiarem ao sentir que alguma música semi obscura de alguma banda de rock tocou no ponto certo. E escrever um post inteiro sobre ela.

Por conta do Rock in Rio, andei tirando a poeira de alguns CDs e revisitando arquivos de músicas de artistas que vieram ao Brasil e por aqui se apresentaram. Alguns não ouvia há muitos anos. E tome Motley Crue, Metallica, System Of a Down, Queen, Faith No More, Queens Of The Stone Age...

Eis que, relembrando Cds do Queens Of The Stone Age, paro em uma música: "Go With The Flow". Tocou no show do Rock In Rio. Passadas duas semanas do festival, ainda não consigo me desgrudar dela. Ouço várias vezes ao dia. 

Foto: Divulgação

"Go With the Flow" foi parida em 2003. Se tivesse sido composta nos anos 70 seria um clássico do rock. Composta fora dessa época, é um diamante bruto oculto naquele que para mim, é o melhor álbum do QOTSA: o magnífico "Songs For The Deaf". Na época, o Queens Of The Stone Age era uma espécie de supergrupo, contando, além do líder e fundador da banda Josh Homme, com David Grohl (ex-batera do Nirvana, líder do Foo Fighters, aproveitando o recesso de sua banda para empunhar as baquetas do QOTSA), Mark Lanegan (voz e guitarra do Screaming Trees, ótima banda de Seattle da época do Grunge), e Nick Oliveri (parceiro de Homme no extinto Kyuss, e mais conhecido como o "baixista peladão" do terrível show do QOTSA na terceira edição do Rock In Rio).

E o que tem de mais em "Go With The Flow"? A resposta é: tudo que importa aos fãs do velho Rock and Roll. É urgente, apaixonada, agressiva, sensual em doses generosas. Feita sob medida para quem é agnóstico aos músicos-celebridades que tristemente dominam o cenário atual com seus exageros e ostentações que geram uma nota nas redes sociais a cada minuto. Aqui, extraímos o prazer simples do som alto de uma guitarra, de ouvir um estéreo em uma estrada, de curtir um som entre amigos e as pessoas quem gostamos.

"Go With The Flow" tem o espirito puro do rock, algo que o guitarrista e cantor do QOTSA Josh Homme, desde os tempos de adolescência, quando empunhava a guitarra no Kyuss, não deixou morrer dentro de si. Para sentir, basta viajar... Viajar literalmente no ritmo alucinante do baixo e bateria, da química entre a voz limpa e clara de Homme e a voz rouca e soturna de Lanegan que se entrelaçam ao longo da música, dos uivos das guitarras, roncando como motores nas "freeways" da vida, do clima hedonista e de celebração.

Para complementar vale uma conferida no belíssimo clipe da música que capta perfeitamente todo esse espírito: uma mistura improvável entre filme no estilo Quentin Tarantino e psicodelia dos Beatles.

O show do QOTSA no Rock In Rio foi meia-boca. Poderia ter sido melhor. Mas apenas ouça "Go With The Flow". Ouça de novo. Mais uma vez. Se apaixone. Agora tente se livrar da música, grudando no seu cérebro como um chiclete. Diz a letra da música: "Eu quero algo bom que valha morrer/mas que faça com que seja bonito viver/Eu quero um erro novo/porque perder é mais que hesitar/Na sua cabeça, você acredita nisso?"

Eu tento acreditar. E você, acredita?

Queens of the Stone Age - "Go with the flow"



28/09/2015 20h33

Rock in Rio: último dia tem temporal, nostalgia com A-Ha e espetáculo visual de Katy Perry
Cláudio Francioni e Leonardo Jorge

Suricato - Leonardo Jorge

Quando fiz meu post de previsões, há pouco mais de um mês, classifiquei a Suricato como uma das mais criativas bandas do rock nacional. E a apresentação que eles fizeram abrindo o Palco Sunset neste domingo provou que eu não estava errado. Tive um contato mais intenso com o repertório da banda neste show de abertura do sétimo dia do Rock in Rio e eles mostraram seu pop rock com pitadas de folk e letras e arranjos que são muito acima da média do que costumamos observar hoje em dia, usando instrumentos pouco convencionais (como Didjeridu, guitarra de colo havaiano, entre outros) de maneira bastante acertada. A performance dos músicos foi impecável e empolgaram os presentes, que pularam e cantaram junto. Destaco as autorais "Talvez" e "Bom Começo", além dos bons covers de "Asa Branca" (de Luiz Gonzaga) e "Pro Dia Nascer Feliz" (do Barão Vermelho).

Foto: Raul Aragão (I Hate Flash) 

A participação de Raul Midon ajudou a elevar ainda mais a qualidade do show. Cantaram juntos canções do guitarrista, como "Don't Hesitate" e "Don't Take It Away", mas o melhor estava por vir quando, sozinho no palco, o americano deu um show à parte e provou ser um verdadeiro one man band, tocando seu violão simultaneamente com percussão enquanto ainda, com os lábios, emulava um som de gaita/trompete entre os versos da música "Sunshine". No final, o hit da banda carioca "Trem" arrebata de vez a audiência, deixando em todos a sensação de que uma hora foi pouco. A Suricato, neste Rock in Rio, deu um importante passo em sua carreira e este momento, certamente, ajudará a mudá-los de patamar, deixando o status de promessa para se consolidar como realidade. 

Aurea e + Bossa AC - Leonardo Jorge

Fiquei bastante animado quando soube da escalação de Aurea para o Palco Sunset. Conheci seu trabalho por acaso e fiquei encantado com sua simpatia em entrevistas e sua voz arrebatadora, que não fica devendo em nada para grandes divas do soul music. Sabia que não faria feio, mesmo diante de uma possível plateia pouco receptiva, mas que foi se desarmando e cedendo ao carisma e charme da cantora. Teve papel fundamental nessa missão o também carismático rapper Boss AC, que dividiu o palco com a cantora numa dobradinha que funcionou muito melhor que eu imaginava. As inserções de linhas de rap e hip hop casaram com os instrumentais soul e criou um clima harmonioso. Destaque para "Busy For Me" e "Scratch My Back" (dela), "Hip Hop" e "Tu És Mais Forte" (dele) e a versão de "Don't Worry, Be Happy", de Bobby McFerrin, que na versão veio com o nome de "Tem Calma, Relaxa", que ganhou os presentes. Para finalizar, cantaram o mega-hit "Happy", de Pharrel Williams, e mostraram que Portugal tem muito mais a oferecer no cenário musical do que somente o fado. 

A-Ha - Cláudio Francioni

Vinte e quatro anos após apinharem mais de 180 mil pessoas no Maracanã na segunda edição do Festival, o A-ha retornou ao Rock in Rio e promoveu uma mistureba na plateia, com seus fãs se cofraternizando com as tietes de Katy Perry. Após encerrarem oficialmente suas atividades em 2010, Morten Harket, Magne Furuholmen e Pal Waaktaar retomaram os trabalhos motivados exatamente pelo convite para participar do Rock in Rio. A empolgação foi tão intensa que um novo álbum, "Cast in Steel", foi lançado pouco antes do Festival. Deste disco saíram duas faixas para o setlist: "Forest fire" e "Under the makeup". O restante da hora em que passaram no palco foi preenchido preferencialmente com clássicos dos primeiros álbuns, como a minha preferida "I've Been Losing You" (que abriu o show), "Cry Wolf" e "Scoundrel Days", por exemplo.

Foto: Nomoto (I Hate Flash)

É fato que uma banda de tecnopop como o A-ha dificilmente consegue executar ao vivo todos os detalhes que suas canções possuem nos discos. O volume de programações do estilo só seria possível de se reproduzir com bases pré-gravadas no fundo, o que não parece ter acontecido com o trio. Mesmo assim, a execução das canções foi bem satisfatória apesar de algumas mudanças, como a exclusão da introdução de "The Sun Always Shine on TV" ou o início (estranho) em "You Are The One". 

Após um dilúvio que fez com que muita gente fosse embora, os noruegueses entraram timidamente no palco e assim permaneceram por toda a apresentação. Em uma entrevista, Morten falou que teve medo do palco molhado, por isso evitou a movimentação. Porém, fui a um show deles em 2009 no eterno (e agora novamente) Metropolitan e a apatia não foi diferente. Morten pouco se comunica, deixando a função para Magne, que também não é nenhum exemplo de espontaneidade. Mas como o mais importante é a música, tá safo. As baladinhas "Crying in The Rain" e "Stay on These Roads" ganharam o coro ensopado de quem sobrou na Cidade do Rock. No fim de "Hunting High and Low", Magne pediu lanternas de celulares ao alto, porque isqueiro é coisa do século passado, e foi atendido. A voz de Morten, conhecida por um belo e encorpado timbre, funcionou bem em notas baixas, mas quando subiu aos falsetes, falhou algumas vezes. No fim do refrão de "Take on Me", o cantor nitidamente disfarçava no verso "...in a day or twoooo" e, possivelmente, era ajudado por algum outro integrante da banda para que não fosse tão nítida a sua dificuldade de alcançar a nota. A idade chega para todos. Uns descem os tons, outros mudam a melodia. Cada um com seu recurso. O que importa é que, apesar da frieza peculiar da banda e da chuva que atrapalhou demais, relembrar o repertório do A-Ha é sempre uma experiência pra lá de nostálgica.

Katy Perry - Cláudio Francioni

No domingo escrevi aqui que o mais importante em um show deveria ser a música, que o resto é apenas acessório e, desta forma, fiz uma leve crítica à Rihanna. Katy Perry tá quase no mesmo barco. 'Quase', porque a música de Katy é um pouco melhor (ou menos irritante, ou mais animada) do que a de Rihanna e porque seu show possui acessórios bem mais interessantes do que a outra. Chamo de 'bem mais interessantes' a mega-produção que cerca a apresentação da californiana, já demonstrada por aqui em 2011 e repetida no encerramento desta edição. Dançarinos, efeitos visuais e figurinos muito bem elaborados e executados fazem com que o público fique curioso para ver o que vem na próxima música.

Foto: I Hate Flash

De "Roar" na abertura até "Firework" no bis, a cantora usou seis roupas diferentes, dançou, chamou fã ao palco, bolinou e foi bolinada. Assim como seu show, Katy é fofa e sabe agradar seu público. Cantar que é bom, necas. Sua frágil voz se dilacera quando a preocupação principal do show é correr, pular e dançar. Ser Madonna é para poucas. Quando a canção exigia um pouco menos de peripécias físicas, as coisas davam uma clareada.

Entretenimento, nota dez. Música, nota dois. Média seis, Katy tá em recuperação. Assim como há quatro anos, consegui me divertir com o visual de sua apresentação. A lamentar, apenas, o fato de muita, mas muita criança mesmo, seu principal público, ter ido embora quando o temporal apertou, deixando centenas de pequenos olhares decepcionados na saída da Cidade do Rock. 

 



27/09/2015 10h36

Rock in Rio: análises do dia 26
Cláudio Francioni, Leonardo Jorge, Ivan Souza e Pedro de Freitas

Brothers of Brazil - Leonardo Jorge

O sábado começou com pouca gente diante do Palco Sunset para prestigiar o show do duo Brothers of Brazil, formado pelos irmãos Supla e João Suplicy. E quem optou por chegar mais tarde à Cidade do Rock perdeu uma apresentação bastante animada e agradável. A mistura de MPB e Punk sendo executado por apenas um violão (alternando momentos clean e distorcidos) e bateria se mostraram bastante funcionais e o som não ficou esvaziado com a ausência do baixo. Méritos para João Suplicy por ter carregado esse piano duplo. Supla, alternando entre a bateria e os vocais performáticos, acumulou altos e baixos. De posse das baquetas, mandou muito bem. Correndo pelo palco cantando e tentando animar os presentes, idem. Mas seus gritos a todo instante particularmente me cansaram e não produziram o efeito desejado. 

Depois, o baixista Glen Matlock (ex-Sex Pistols) se juntou à festa para tocar os clássicos de sua antiga banda ("God Save The Queen", "Pretty Vacant" e "Stepping Stone") além de covers ("Surfin Bird", do Trashmen, e "Rock and Roll", do Led Zeppelin) e outras canções do BoB e o cover de "Garota de Berlim", da Tokyo, antiga banda do "Papito". No geral, fizeram um belo trabalho para abrir esse sexto dia. 

Ultraje a Rigor + Erasmo Carlos - Leonardo Jorge

Na sequência, o encontro entre Ultraje a Rigor e Erasmo Carlos era um dos mais aguardados de todo o festival. E o que se viu foi um desfile de sucessos de ambos os lados, mas com alguns pecados de execução. Roger, com uma voz bastante prejudicada, errou a letra de "Minha Fama de Mau" e deu umas desafinadas esquisitas até em canções do próprio repertório, o baixo do Mingau praticamente inexistiu e as linhas do Marcos Kleine não foram tão 100% como de costume.

Foto: Magalhães (I Hate Flash)

O Tremendão também não saiu ileso. Aparentemente sem fôlego, encurtou diversas frases (alguns finais de verso quase não foram ouvidos), errou algumas entradas e cortou partes instrumentais. Mas, como ele mesmo disse, essa era uma apresentação para brindar o deboche do Rock' n Roll. Por maiores que tenham sido os problemas, a energia dispensada à performance aliada à empolgação dos presentes que cantaram todas as músicas a plenos pulmões ajudou a apagar essa má impressão inicial. Destaque para "Festa de Arromba" e "Nós Vamos Invadir Sua Praia", as últimas do set list, com as duas bandas no palco e a audiência em êxtase completo. Foi um show de pouca inspiração e muita transpiração, mas que não deve ser esquecido por ter promovido esse encontro de gerações do rock nacional. 

Angelique Kidjo + Richard Bona - Ivan Souza

Angélique Kpasseloko Hinto Hounsinou Kango Manta Zogbin Kidjo ou simplesmente Angélique Kidjo. A cantora natural do Benin fez um showzaço no Palco Sunset com o convidado Richard Bona botando todos pra dançar. Uma impressionante banda com um suingue imcomparável e uma frontwoman que não perde o fôlego aos 55 anos. Fã de Miriam Makeba (a quem homenageou cantando "Pata Pata"), Angélique começou cedo a carreira e é reconhecida como uma das maiores cantoras de World Music.

Foto: Marcelo Mattina (I Hate Flash)

Vencedora de um Grammy e embaixadora da Unicef, Angélique mostrou aos brasileiros o melhor do seu repertório e teve o auxílio luxuoso de Richard Bona, um dos maiores baixistas do mundo. Mas diante da hipnotizante Kidjo, ficou como mero coadjuvante. Talvez seja hora dos brasileiros darem uma chance aos músicos que vêm do continente africano. Certamente um dos melhores shows do festival até agora.

Lulu Santos - Cláudio Francioni

Quem nunca saiu de um show comentando com amigos "faltou aquela"? Então vamos ao exercício: "Tão bem", "Um pro outro", "Tudo bem", "Casa", "Satisfação", "Certas Coisas", "Adivinha o quê?", "Tudo com você", "Areias escaldantes". Pra torrar as linhas do texto, vou parar por aqui. Enjaular Lulu Santos em apenas sessenta minutos é o mesmo que enfiar um rinoceronte num saquinho de cocô-de-rato (hoje é dia!). O cantor encaixotou quinze de seus sucessos em uma hora de uma apresentação estonteante que nem as desnecessárias aparições de Pretinho da Serrinha e Catra conseguiram atrapalhar.

Foto: Magalhães (I Hate Flash)

Retornando ao Festival após 30 anos, Lulu abriu o show com o bridge da infalível "Toda forma de amor" e instantaneamente mais de 80 mil pessoas deram início a um karaokê coletivo que só seria interrompido em "Sócio do Amor", única canção do último álbum, "Luíz Maurício", a entrar no repertório. O resto foi catarse. Em "Aviso aos navegantes", brilhou a backing Andrea Negreiros, mantendo característica que Lulu traz há muitos anos em seus shows, de ceder espaço para que sua sempre excelente banda também apareça. O baixista Jorge Aílton e Milton Guedes, responsável pelos sopros, também tiveram seus momentos.

A dobradinha "Um certo alguém"/"O último romântico" teve a participação do ótimo guitarrista Rodrigo Suricato (que abrirá a tarde de hoje no Sunset com sua banda) em uma versão que fez sucesso na internet, puxada para uma onda meio havaiana (perdão pelo trocadilho). Aliás, a opção por arranjos alternativos foi outro fato marcante. Apenas "A Cura" e "Assim caminha a humanidade" tiveram suas estruturas executadas mais perto das originais. No fim do show, a tríade "Sereia"/"De repente Califórnia"/"Como uma onda" aproveitando a mesma levada bolereada. Como já se sabia, não coube tudo, então, que na próxima Lulu seja headliner para ter o tempo que quiser no palco. Combinado.

Sérgio Mendes + Carlinhos Brown - Pedro de Freitas

Sérgio Mendes é, desde a época da bossa nova, um dos maiores divulgadores da música brasileira no exterior, principalmente nos Estados Unidos. Também é um dos brasileiros que mais vendem discos no exterior. Por isso chega a chocar, e mostra o nosso grau de alienação musical, que Mendes tenha que usar crachá para ser reconhecido pela maior parte do público brasileiro. Pelo menos, a partir de ontem, o público que estava em frente ao palco Sunset na Cidade do Rock não precisará mais do crachá para saber quem é Sérgio Mendes. 

Foto: I Hate Flash

Sérgio Mendes dividiu seu show em blocos. Obviamente, o primeiro foi totalmente destinado à bossa nova. Mendes desfiou grandes sucessos do período, com o apoio de uma banda composta de músicos brasileiros e americanos e que, como não podia deixar de ser, mostrou enorme competência. Para mim, o destaque foi a maravilhosa "Surfboard", tema instrumental de Tom Jobim, que não costuma  estar entre as músicas mais lembradas pelo público quando se fala em bossa nova.

A segunda parte abrangeu o trabalho mais cosmopolita desenvolvido a partir dos anos 80. O destaque nessa parte ficou com "Never Gonna Let You Go", sucesso dos anos 80 que muita gente provavelmente não sabia que pertencia ao repertório de Mendes!

A terceira parte do show gerava mais expectativa, por conta da participação de Carlinhos Brown. Eu não achava o crossover entre Brown e Mendes tão inusitado assim: o percussionista baiano desde o início de sua carreira é afeito às mais diversas misturas sonoras (vide sua participação em um trabalho do Sepultura!), e Sérgio Mendes recentemente conduziu o projeto "Timeless", em que buscou repaginar sua música para alcançar plateias mais jovens, fazendo parcerias com astros do rap e rhythm and blues. O meu receio nesta apresentação era que o lado músico de Carlinhos Brown, reconhecidamente competente, fosse sobrepujado pelo lado "animador de auditório" do artista, que acho muitas vezes excessivo e chato. O Carlinhos Brown "animador de auditório" compareceu ao show, mas não em dose suficiente para estragá-lo. Funcionou a mistura rítmica entre Brown e Mendes, com destaque para "Favo de Mel" da trilha sonora do desenho animado "Rio". Resumindo, um show marcante que apresentou o trabalho de um dos maiores artistas brasileiros a um público jovem de seu próprio país.

Sheppard - Cláudio Francioni

Quando juntamos 90 mil pessoas em um festival, mesmo que 80% do público esteja ignorando o show, temos 18 mil pessoas agitando bracinhos e gritando, o que, convenhamos, não é pouco. Foi o que ocorreu durante o insosso show dos australianos do Sheppard. Donos de um hit de internet ("Geronimo"), guardado para o fim do show, o trio de irmãos auxiliado por uma pequena banda não justificou em nenhum momento a escalação para o Palco Mundo (e acho que nem Sunset mereciam).

O início da apresentação acabou atrasando em cerca de dez minutos pela graça que o vocalista/tecladista George resolveu fazer ao abrir o show descendo na tirolesa. Sequer avisaram-no que Jared Leto, do Third Second to Mars, havia feito a mesma coisa na edição de 2013. Mas tá certo. Sabe-se lá quando terão outra chance de participar de algo tão grandioso com tão pouco talento demonstrado até então. Estão perdoadas a tirolesa e as inúmeras selfies da cantora Amy. O que eu não perdoo e tampouco entendo é a abertura com um trecho mal executado de "Bulls on parade", do Rage Against the Machine. Por quê? O estilo da banda está muito mais para fundo de seriado adolescente e nada tem a ver com o tema escolhido para abrir a apresentação.

George e Amy têm até boa desenvoltura no palco e esbanjaram sorrisos e passeios pela galera. O cantor só incomoda quando tenta ir aos falsetes. Mais uma vez, por quê? Se a banda tem uma voz feminina, por quê ele insiste em cantar os trechos mais altos com um falsete quase imperceptível de tão pouca potência? A terceira irmã, a baixista Emma, aparece menos do que os outros dois e só é percebida como membro efetivo da banda por causa de seu figurino extravagante. O telão do fundo mostrava durante todo o tempo o nome da banda em meio a imagens psicodélicas que mudavam conforme a música, talvez uma tentativa de fazer com que o público não esquecesse rapidamente quem estava no palco. Fechando a conta, sobraram duas ou três músicas animadinhas, muito pouco pra justificar a presença do Sheppard naquele lugar.

Sam Smith - Leonardo Jorge 

Sobre o Sam Smith não há muito o que ser dito, a não ser que seu show foi simplesmente mediano. Ele abre com "I'm Not The Only One", um dos maiores sucessos do seu primeiro (e único) álbum: "In The Lonely Hour". Com uma banda mais do que competente, vimos o cantor britânico executar outras 12 músicas deste disco (a versão Premium possui 15 faixas), fez uma homenagem a Amy Winehouse cantando "Tears Dry On Their On" com um medley esperto com "Ain't No Mountain High Enough" (de Marvin Gaye) e "Le Freak" (da banda Chic). Smith ainda encontrou tempo para emendar "Can't Help Falling In Love", de Elvis Presley, na sua "Not In That Way". A plateia correspondeu durante todo o tempo e cantou junto não só as famosas como também as canções mais desconhecidas, mesmo sendo mais tristes e enfadonhas depressivas, pois este trabalho é pautado pelo fim de um relacionamento do cantor.  

Sam Smith mostrou tudo que a audiência esperava dele e, aparentemente, todos pareciam satisfeitos com sua apresentação. Já eu me vi diante da hora mais longa de todo o festival devido ao timbre DETESTÁVEL do cantor. Ele transita entre graves e agudos com muita facilidade, mas quando chega nas notas mais altas, sua voz se transforma num ruído esganiçado que deixou até meu cão um tanto inquieto. O show foi com uma vibe bem desanimada e isso me incomodou demais, principalmente quando se é o Co-Main Event da noite cuja tônica foi o pop mais "animado", com Lulu Santos e Sheppard e terá Rihanna fechando a tampa. Aqui, penso que o Sr. Medina e seus amigos erraram na escalação. Será que não tinha absolutamente mais ninguém disponível para encaixar neste dia? 

Acho que, apesar de todo o sucesso que vem fazendo e reconhecimento que vem conquistando (já tem quatro Grammys sobre a sua lareira), Sam Smith ainda é um artista em início de carreira e com muito a aprender, em especial a dosar esses momentos de falsete que, se usados à exaustão como vem acontecendo, ficam sem brilho e impacto. Minha recomendação: menos é mais. E aqui, menos quer dizer MUITO MENOS.

Rihanna - Cláudio Francioni

Em qualquer show do mundo, a música será sempre a maior estrela. O artista e sua interpretação, sua técnica e seu carisma, assim como iluminação, roteiro, efeitos especiais e cenografia, são um complemento para ornamentar da melhor forma a vedete do momento. Ou pelo menos deveria ser. O que se vê em muitos shows hoje em dia é um gigantismo nestes itens sobressalentes e a música deixada de lado. É isso que acontece com Rihanna. Ícone midiático da atualidade, a cantora é lembrada por tudo que faz, porém pouco por sua obra.

Diferente de sua apresentação em 2011, desta vez, Rihanna pareceu se importar com o Festival. Mostrou um show bem melhor em termos de produção e estava muito mais à vontade no palco. Até seu figurino "Pica-Pau desce as Cataratas" chamou mais atenção (mesmo que para o mal) do que o modelito aqualouco de quatro anos atrás. Só faltou música.

No setlist, vários de seus clássicos enfadonhos em versão editada, o que incomodou até alguns fãs ardorosos. Particularmente, adorei. Assim acabou mais rápido. 


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26/09/2015 20h33

Rock in Rio: análises do dia 25
Cláudio Francioni, Ivan Souza e Pedro de Freitas

Sem dúvida, foi a noite mais vazia do Festival. Bares com filas normais, circulação tranquila e plateia assistindo aos shows confortavelmente sentada no gramado sintético. Ficou a impressão que a lotação de ontem é a ideal para o conforto do público. O calor também deu uma folga e até uma tímida chuva caiu no início do show do Faith no More. 

Vamos aos shows:

Nightwish - Cláudio Francioni

Quando me coloquei à frente do Sunset para fotografar e acompanhar o show do Nightwish, minha expectativa era pequena, embora tenha sido avisado por um amigo que o bicho pegaria. O gênero dos finlandeses não é o meu forte. Pra começo de conversa, o peso do instrumental tremeu todas as minhas vísceras ali na beirada das caixas. E quando Floor Jansen entrou, a plateia entrou em transe.

Foto: Cláudio Francioni (SRZD)

Floor foi o motivo de reconciliação da banda com os fãs mais radicais que não engoliram bem Anette Olzon, substituta da icônica Tarja Turunen. Ontem foi a vez da plateia brasileira saber o porquê do perdão. Eu só havia visto a nova cantora por fotos e não imaginava seu gigantismo em cena. E não há outra palavra pra defini-la senão gigante. Do alto de seus 1,81m, a holandesa preenche o palco inteiro com sua belíssima voz, com uma beleza estonteante e uma presença de palco monstruosa.

As primeiras músicas do show pertencem ao novo álbum, "Endless forms most beautiful", mas nem por isso o povo deixou de cair dentro. As novas foram quase tão cantadas quanto as mais conhecidas. Tony Kakko, cantor do Sonata Arctica, entrou no palco para fazer "The Islander" e "Last ride of the Day". No fim do show a banda ficou alguns momentos apreciando a plateia extasiada, provavelmente pensando o mesmo que eu: "por que não estamos no palco principal?".

De La Tierra - Cláudio Francioni

Para garantir um bom lugar para ver Steve Vai no Sunset, muita gente abriu mão da banda pan-americana formada pelo grão-arroz-de-festa Andreas Kisser. E perderam pouco. Músicos competentes (com destaque para o baterista Alex Gonzalez, do Maná!!!) a serviço de um repertório bem mais do mesmo. Durante as canções, enquanto o vocalista Andrés Gimenez não abria a boca para cantar em espanhol, tinha-se a impressão de já ter ouvido tudo aquilo milhares de vezes em outras bandas. Com apenas um álbum gravado, o De La Tierra achou espaço para incluir "Polícia", dos Titãs, no repertório e só então fazer com que o público prestasse atenção no palco. Cansou.

Steve Vai - Cláudio Francioni

Durante os últimos anos, algumas vezes já expus aqui no blog a minha falta de paciência atual com a tal masturbação musical, aquela onde só quem está no palco atinge o orgasmo. Mas Steve Vai talvez seja o único que esteja de autos deste meu saco cheio. A explicação é que sua música vai além da metralhadora de notas, recurso corriqueiro no estilo. Ouçam "The Crying Machine" do álbum "Fire Garden" (1997), executada ontem no meio do show, e entenderão o que eu digo. Já havia encarado uma fila desumana no Metropolitan (ou alguma coisa-Hall) em 1997 para vê-lo e ontem fiz questão de segurar meu lugar perto do palco porque eu sabia que vinha coisa boa. Bingo.

Foto: Cláudio Francioni (SRZD)

Após um início com alguns improvisos, daqueles ensaiados por Whatsapp com a sensacional Camerata de Florianópolis, o negócio engrenou e aí, amigos, segura o homem. De óculos e cabelos curtos, longe daquele visual farofa da época de Whitesnake e da banda de apoio de David Lee Roth (o auge de sua fase poser), o guitar-hero ficou a cara do chef Olivier Anquier, mas suas receitas dão banho em qualquer cozinheiro. Como ingredientes, Vai tem um estoque inesgotável de técnicas e as expõe com a facilidade de quem está fritando um ovo. O setlist passeou por vários discos de sua carreira solo e foi fechado com a formidável "For the Love of God", clássico imortalizado pela MTV no início dos noventa. Presepada? Claro que rolou, senão não seria ele. Guitarras pro alto, linguadas nas cordas, mas sua música ainda é muito maior do que tudo isso.

Mastodon - Pedro de Freitas

Heavy Metal é um subgênero musical conservador pela própria natureza, o que faz com que, dentro desse ecossistema poucas bandas ousem realmente inovar. Uma banda relativamente recente que ousou um caminho próprio, misturando elementos de metal, indie rock e progressivo, e conquistando popularidade foi o Mastodon, ainda relativamente desconhecido por aqui, mas com respeitável legião de fãs mundo afora. Ontem no Rock in Rio a banda deu seu primeiro sinal de vida em terras brasileiras, procurando aumentar sua base de fãs por aqui.

Em primeiro lugar, o som: o instrumental dos caras é cabuloso. Você não vai achar músico medíocre por aqui, o que eles confirmaram com sobras ao vivo. Pergunte a algum amigo baterista o que ele acha de alguém que canta e desce o porrete como Brann Dailor e ele dirá: "isso é só para os fortes".

Agora, o repertório: o Mastodon chega ao Rock in Rio em plena turnê de divulgação de um trabalho recente: "Once More Round The Sun". Acho que o repertório do show poderia ter sido uma síntese da carreira do grupo, como habitualmente fazem artistas que tocam pela primeira vez por aqui. Não foi o que aconteceu. Praticamente todo o setlist foi tirado de "Once More?", sobrando pouco tempo para mostrar trabalhos mais antigos e mais conhecidos dos fãs. De "Leviathan", saiu uma música. De "Blood Mountain", duas. O Cd deles que gosto mais é "Crack The Skye", de 2009. Já havia feito meu alongamento para bater cabeça ao som de "Oblivion" ou "Divinations", mas desse Cd não saiu uma mísera música! Daí meu desapontamento. E um certo cansaço com o show, atenuado um pouco com "Cristal Skull" e "Blood Thunder", músicas dos trabalhos mais antigos e que foram guardadas para o final.

 

Faith no More - Pedro de Freitas

Shows do Faith No More são, para mim, carregados de expectativas por uma questão histórico/afetiva, afinal, sou uma das testemunhas que estiveram na plateia do Rock in Rio 2, em 1991, e presenciaram o maior massacre já imposto por uma banda de abertura à banda principal em terras tupiniquins. Naquele dia, os então poderosos Guns'n'Roses, talvez a maior banda de rock na época, foram atropelados por cinco insolentes em início de carreira que faziam um som pesado que desafiava convenções: o Faith No More. O FNM experimentou o estrelato, movido pelo multiplatinado álbum "The Real Thing", mas em seguida, sofreu uma espetacular queda de prestígio em função de escolhas musicais fora do comum e comportamento bizarro em shows, notadamente de seu vocalista Mike Patton. Entre idas e vindas, o FNM acabou lançando recentemente o seu primeiro disco de inéditas em 18 anos (o elogiado "Sol Invictus") e voltou à estrada, baixando ontem no Rock in Rio. 

Foto: Marques (I Hate Flash)

"Baixar" não é mera força de expressão. Afinal, em plena sexta-feira, os FNM entraram vestidos todos de branco, portando guias, em um palco igualmente branco e todo florido. Quem sabe isso não tenha protegido Mike Patton, que logo no início do show, ao tentar um "stage dive" no meio da galera, sofreu uma queda medonha que poderia tê-lo levado ao hospital. De qualquer forma, o "louco" Patton parece ter tido sua mobilidade prejudicada durante o resto do show.

Como qualquer banda que tem algum trabalho recentemente lançado, o FNM acabou concentrando seus esforços em músicas deste trabalho. Assim, passaram pela Cidade do Rock "Black Friday", "Separation Anxiety", "Superhero", entre outras. É preciso que se diga que são boas músicas, assim como "Sol Invictus" é um bom disco. Entretanto, nenhuma música nesse trabalho chegou a ter apelo popular, e isso foi uma grande diferença para a banda que varreu o Maracanã com sua "Epic" anos atrás. O resultado é que músicas de "The Real Thing" foram deixadas de lado, e mesmo o maravilhoso e "maldito" disco "Angel Dust" só compareceu com duas músicas ("Caffeine" e "Midlife Crisis"), o que parece ter contribuído para uma certa indiferença da plateia. Ao menos continuaram presentes no repertório da banda as homenagens/paródias com que costumam brindar o público. No caso de ontem, a já tradicional "Easy", dos Commodores, e "I Started a Joke", dos Bee Gees, o que mostra que os FNM parecem se divertir tanto com o show quanto a plateia. Ontem faltou divertir um pouco mais a plateia.

 

Slipknot - Ivan Souza

JUMP THE FUCK UP! Meu pai diz que certas atrações deveriam aparecer em todos os Rock in Rio. O Slipknot é uma delas. O velho adora os mascarados, não sei muito bem a razão, mas adora. Ou talvez eu saiba a razão: o Slipknot é do cacete.

Foto: Marcelo Mattina (I Hate Flash)

O Slipknot apareceu por aqui em 2011 dividindo a noite com Gloria, Coheed and Cambria, Motorhead e Metallica. Dessa vez foi headliner e não decepcionou. A banda afiadíssima, músicos insanamente animados e galera incrivelmente receptiva aos naturais da pequena Des Moines, nos EUA.

O show contou com as músicas mais conhecidas da banda, mas também pudemos conferir algumas das que foram lançadas no ano passado em The Gray Chapter. Os novos integrantes, Alessandro Venturella (baixo) e Jay Weinberg (bateria), nada deixam a desejar em relação aos antigos Paul Grey (falecido em 2010) e Joey Jordison (demitido da banda em 2014). Destaque para Weinberg (filho de Max Weinberg, baterista de Bruce Springsteen), muito veloz e preciso com apenas 25 anos. Os guitarristas se complementam perfeitamente, cada um no seu estilo e influência. Mick Thomson é claramente de origem thrash metal e James Root, além de naturalmente navegar pelo metal, também passou pelo alternativo. Ambos com uma técnica invejável. DJ, programador e percussionistas são apenas um adorno. O palco podia não ter aquele enorme bode que mais parecia um carro alegórico vindo de um grupo de acesso do carnaval de São Paulo, mas todo o resto estava bonito e o pobre animal não tira a nota 10.

O vocalista Corey Taylor merece um parágrafo só pra ele. Talvez um capítulo. Exagero? A facilidade com que interpreta os momentos mais melódicos e aterroriza nos momentos mais guturais é a cereja do bolo em um frontman perfeito. Desde a movimentação até a comunicação com o público. A plateia sentando para que posteriormente pule loucamente às ordens de Taylor é o ponto alto da noite.

Lembro-me do meu velho novamente. "Aquela banda da máscara é muito boa. Tem que estar no Rock in Rio todo ano." Ele tem razão. Na próxima vez, lá estarei. Até porque o Multishow travou uma batalha feroz contra o som. Melhorou conforme o show foi passando, mas ficou aquém do que claramente a banda produzia. Show pra ver e rever. Exemplo pra bandas nacionais saberem como se faz.