SRZD



Chico Junior

Chico Junior

DE TUDO UM POUCO: UM BLOG ECLÉTICO. Jornalista e escritor. Trabalhou nos principais veículos de comunicação do estado do Rio e é autor de cinco livros: "Histórias de Sexo, Amor e Porrada" (contos, Ed. Codecri, 1979), "Drogas" (Coleção "Certos Costumes", Ed. Codecri, 1983), "Brincando nas estrelas" (infantil, Ed. Memórias Futuras, 1984), "Roteiros do Sabor Brasileiro" (gastronomia, CJD/Sebrae, 2005) e "Roteiros do Sabor do Estado do Rio de Janeiro" (gastronomia, Ed. Senac Rio, 2007).

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



06/01/2016 18h29

Vinagre balsâmico, jóia rara da culinária
Chico Junior

vinagre balsâmicoSe você é um apreciador da boa comida, certamente já provou o vinagre balsâmico de Modena, à venda até em supermercados e difundido nos melhores restaurantes das principais cidades do país.

Mas talvez você não saiba que o vinagre balsâmico que estamos acostumados a provar em nossas saladas não tem nada a ver com o verdadeiro balsâmico, ou, como é conhecido na Itália, o Vinagre Balsâmico Tradicional de Modena (acetto balsamico tradizzionale di Modena).

A indústria do vinagre pegou o nome, o sabor e, basta ser fabricado naquela cidade italiana com as características gerais do vinagre, para levar no rótulo o pomposo nome Vinagre Balsâmico de Modena. Alguns são até razoáveis, mas há outros que são muito ruins. Risco que não se corre quando se prova o tradicional, porque simplesmente não há ruim, já que cada lote de produção passa por um rígido controle de qualidade feito por especialistas do consórcio que regula a produção e a comercialização do vinagre.

A diferença básica do vinagre que chega aos montes nos supermercados e o tradicional é que o primeiro é feito, geralmente, a partir do vinho (embora se faça vinagre com outras frutas além da uva), e o uso de caramelo e substâncias aromáticas para dar o sabor e o odor característicos; e o outro é feito direto da uva, ou seja, vira vinagre direto, sem passar pelo vinho. Quer dizer, o primeiro vem de um líquido alcoólico e o tradicional, diretamente do mosto da uva. A bem da verdade, diga-se que os outros "vinagres balsâmicos" de Modena usam na fórmula uma quantidade de mosto de uva e, dependendo da quantidade, define-se a qualidade. Quanto mais, melhor.

Em 2003, em visita à Emilia Romagna, tive a oportunidade de conhecer e acompanhar de perto a produção do vero balsâmico.

A produção, até hoje artesanal, depois de centenas de anos, é feita a partir do cozimento do mosto (a uva inteira amassada) da uva branca trebiana (alguns usam também a uva vermelha lambrusco), que fica no fogo em enormes tachos de cobre por até 48 horas. Em seguida, esse mosto cozido vai para a fermentação natural em barris de carvalho de 60 litros e, ao longo dos anos (no mínimo 12), o líquido vai sendo mudado para barris menores de diversos tipos de madeira (castanheira, 50 litros; cerejeira, 40; freixo, 30 e amoreira, 20) até se transformar no verdadeiro balsâmico. Seu perfume é inigualável e totalmente natural, sem adição de qualquer tipo de substância aromática. Há, basicamente, dois tipos: 12 e 25 anos (Extra Velho), mas algumas fazendas produtoras, como a Malpighi, produz o de 50 anos.

As garrafas, com desenho do estúdio de Giorgio Giugiaro, são exclusivas e todas com o mesmo volume: 100 mililitros, ou seja, uma garrafinha. E como toda jóia rara é um produto muito caro, mesmo na Itália. Na época, a garrafinha do vinagre de 12 anos custava, em média, 45 euros; a de 25 anos, 65 euros; e a de 50 anos, 155 euros.

Infelizmente não existe um esquema de importação do balsâmico tradicional para o Brasil e as raras garrafinhas que chegam são trazidas por pessoas que vão a Modena, isso porque, mesmo na Itália, não é fácil encontrar o tesouro. Anualmente são produzidas, em média, apenas 100 mil garrafas. Destas, 70% (70 mil) são exportadas principalmente para os Estados Unidos, Canadá e Japão, que ficam com 80% do que é exportado. Uma curiosidade: o japonês está começando a usar o balsâmico tradicional no acompanhamento do sushi e sashimi, em vez do tradicional shoyo. Fica ótimo, diga-se de passagem. É bom que se diga, ainda, que o balsâmico deve ser usado com parcimônia e não apenas em saladas, mas como acompanhamento e condimento em diversos pratos e como ingrediente em várias receitas. Vai muito bem, por exemplo, com os queijos parmigiano reggiano ou o grana padano (algumas gotas são suficientes. E em sobremesas, acompanhando o sorvete e o morango, com um pouquinho de açúcar.



09/12/2015 23h11

Dilema
Chico Junior

- Meu bem, a gente transa bem porque se gosta, ou a gente se gosta porque transa bem?
- Como assim?
- Assim ué!
- E que importância tem isso? Parece anúncio do Tostines, que nem fabricam mais.
- Ora, tem importância porque, em determinados casos, o sexo é algo simbólico.
- Como simbólico, cara! Sexo é sexo, e pronto. E sexo bom, é bom sempre, em qualquer ocasião.
- Eu sei, você já me disse isso mil vezes. Mas, convenhamos, o sexo com amor e carinho, pode ser melhor. E aí, nesse caso, é que eu digo que é simbólico, pois que representativo de uma união amorosa.
- Mas o sexo pode ter carinho (sempre necessário), e sei lá mais o que, e não é preciso ter amor. No mais, a gente se gosta porque se gosta, ora. Porque tem amor, tem carinho, tem atenção, tem respeito. E tem sexo...
- Sim, mas se a gente não fizesse um sexo bom, talvez gente não se gostasse. Se a gente não se gostasse, não faria um sexo tão gostoso.
- Nem por isso. Conheço gente que passa anos transando com uma determinada pessoa, fazem um sexo muito bom, mas não se amam, só fazem sexo. E vão tocando a vida. Estamos cansados de ver este tipo de situação, até com pessoas bem próximas de nós.
- É, mas no nosso caso é diferente, estamos juntos, construindo uma relação, afetiva e sexual. Continuo achando que, se não tivesse amor, não faríamos um sexo tão bom.
- É pode ser...
- Mas, afinal, você não respondeu. A gente transa bem porque se gosta ou se gosta porque transa bem?
- Meu bem, deixa eu dormir; quando você descobrir a resposta me fala. Te amo.



08/11/2015 14h51

O Estado do Rio é bonito e gostoso
Chico Junior

Que o Estado do Rio é uma região bonita, com suas belas praias e montanhas, todo mundo já sabe. Mas, além de bonito, ele é gostoso, muito gostoso, com uma rica e criativa produção gastronômica.
Ao criar, em 2013, o prêmio Maravilhas Gastronômicas do Estado do Rio de Janeiro, que está em sua terceira edição, a intenção foi a de mostrar e divulgar essa produção gastronômica, além de valorizar o que chamamos de "cultura regional do gosto". Sim, porque gastronomia é, acima de tudo, cultura. Mas, talvez, o mais interessante de tudo foi descobrir verdadeiros tesouros culinários espalhados por todas as regiões do estado, alguns muito importantes para o desenvolvimento socioeconômico de cidades e regiões.

Alguém, da cidade do Rio de Janeiro já provou um doce de jiló? Pois é, quem diria, o amargo jiló virou doce. E gostoso. A compota de jiló é produzida em Magé. Mais há, também, geleia orgânica de tomate, funcho, capim-limão e gengibre e doce de batata-doce roxa, uma iguaria que hoje pouco se faz na cidade grande. Ambos são produzidos no município de Petrópolis; a geleia, no Brejal, e o doce, em Corrêas.

Merece destaque, ainda, a produção de queijos e laticínios em geral, feitos a partir, não só de leite de vaca, mas também de búfala, de ovelha e de cabra. E há sabores para todos os gostos: do queijo de leite de ovelha curado, amanteigado (Miguel Pereira) ao iogurte de leite de cabra feito em Nova Friburgo, passando pelos queijos de leite de cabra de Nova Friburgo e Petrópolis. Há até queijo minas frescal orgânico, em Teresópolis, produzido na fazenda do ator Marcos Palmeiras.

Temos café? Por incrível que pareça sim, temos. São cafés especiais, tipo gourmet, produzidos com grão arábica em Friburgo, Porciúncula, Trajano de Moraes, Miguel Pereira, Bom Jardim, Varre-Sai, São José do Vale do Rio preto e Rio de Janeiro.

Há até uma grande produção de noz macadâmia, em Piraí, a maior do estado, destinada principalmente à exportação, embora se encontre em alguns supermercados e delicatesses na cidade do Rio de Janeiro.

Também temos uma rica produção de trutas, a quarta maior do Brasil, atrás de Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais. A produção de Nova Friburgo é a maior do estado, mas há trutas também, em Petrópolis (Rocio), Teresópolis e Visconde de Mauá.

Palmito pupunha? Angra do Reis é o maior produtor do estado, e Silva Jardim, o segundo maior.

Cachaça? Vários produtores da chamada cachaça de alambique (que alguns denominam artesanais), estão espalhados por todas as regiões do estado, que hoje é um dos maiores e principais produtores desse tipo de cachaça no país. E tudo da melhor qualidade, com vários prêmios nacionais e internacionais, algumas delas já sendo exportadas para o mundo. Uma curiosidade: de todas as regiões e cidades do Brasil só três obtiveram, até agora, o selo de Indicação de Procedência (IP), outorgado pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI): a microrregião de Abaíra (BA), o município de Salinas (MG) e a nossa Paraty, na Costa Verde do Estado.

Uma agradável surpresa foi descobrir a rica e variada produção de cervejas especiais (ou artesanais, como querem alguns), feitas de puro malte, a maioria com alto nível de qualidade. Hoje, são, pelo menos 50, marcas, produzidas no Rio de Janeiro, Niterói, Barra do Piraí, Volta Redonda, Valença, Petrópolis, Santa Maria Madalena, Paraty, Itatiaia (Penedo), Nova Friburgo, para citar alguns municípios. Por enquanto, pois a produção tem crescido nos últimos cinco anos.

Tudo isso é consequência da criatividade e da ousadia de pequenos produtores do estado, que apostam no inusitado, no diferente. Aos poucos, o Estado do Rio de Janeiro está mostrando o seu potencial de produção gastronômica, com produtos de altíssima qualidade.
Estamos falando, portanto de economia, cultura, história, culinária e incentivo à produção local/regional.

Sabe as tais coquilles-saint-jacques, mais conhecidas como vieiras? Pois é, está em Angra dos Reis, mais especificamnet na Ilha Grande, a maior produção do BrAsil. Em tempo: a vieira é um fruto do mar natural da Baía da Ilha Grande.

Bom apetite.



01/11/2015 19h03

Casa da Táta, um belo café da manhã na Gávea
Chico Junior

Casa da Tata_pãesEla já ganhou prêmios de "melhor café da manhã" e "melhor bolo" da cidade, pela revista Veja e o jornal O Globo. Eu não a conhecia e nem nunca tinha provado as verdadeiras delícias preparadas pela goiana Marta Jubé, a Táta, proprietária e chef Da Casa da Táta, que dirige com o marido, Álvaro Albuquerque, com maestria, carinho e dedicação há 15 anos.

Serve almoço, "com um prato único", informa Táta, mas dei com os costados lá para provar e me deliciar com o rico, saboroso e famoso café da manhã. Pra começar, tudo é feito lá, dos pães aos bolos. E é com um brilho nos olhos que Táta vai conversando sobre as receitas que trouxe de Goiás, receitas de família, de amigos e de cozinheiras e doceiras de sua cidade, Goiás Velho.

O inusitado bolo de fubá de arroz é um belo exemplo. "Foram dois anos tentando e errando a receita até que saiu como eu quero", diz, feliz. A receita original ela pegou com uma doceira da cidade, mas nunca que ficava do jeito que queria. Até que..."acho que o meu ticou melhor", diz orgulhosa

casadatata_pamonhaA pamonha, uma das marcas registrada da sua terra, é dos deuses. Vem quentinha, desmancha na boca e não leva coco, só mesmo o milho.

Dos pães, destaque para o brioche, o croissant e o pão de passas.
São duas a variedades de café da manhã: o Café da Casa (R$ 27) e o Café da Táta (R$ 37). Ambos, fartos; éramos três pessoas e comemos bem.

Há ainda uma tal de empada goiana (salgada). Mas essa ficou para uma próxima vez.

Da Casa da Táta fica na Rua Professor Manoel Ferreira, 89, lojas N e O - Gávea, Rio de Janeiro. Tels: (21) 2511-0947 e 98894-2276.



11/10/2015 12h04

Considerações sobre o sexo, o amor e o encanto (2)
Chico Junior

O que leva uma pessoa a se encantar por outra?

Bem, se as duas pessoas são sexualmente ativas, não resta a menor dúvida: sexo é premissa.

Todos sabemos, como eu já disse em outro texto, que sexo é construção, é desenvolvimento. Mas se, na primeira vez, não bater algo diferente, lá no fundinho de cada um de nós, não adianta ficar tentando, pois aí será o sexo pelo sexo, e o encanto não vem. Sexo não é apenas penetração e orgasmo; sexo é um "ato" sexual, que pressupõe uma troca de sentimentos. Na primeira vez, algo tem que nos levar a "praticar" uma segunda vez, quem sabe a terceira, a quarta...

Como eu também já falei no tal outro texto mencionado ali em cima, sexo é bom sempre, ou seja, o sexo casual também pode ser bom, mas se for apenas uma vez, ou em espaços de tempo muito longos, não se construirá o encanto. Pode ser até que, na primeira vez, um dos parceiros fique encantado pelo outro. Mas do que adianta isso se o outro não se encantar também?

Como, ao se construir o encanto, o amor ainda não está consolidado, entram em cena outros fatores relacionados à aproximação de um pelo outro, como a admiração. Ambos têm que encontrar no outro sinais de admiração. Admiração pelo seu trabalho, pela seu modo de levar a vida, pelas suas palavras, pela sua pele. Se apenas um estiver sendo admirado, este um se sentirá um deus, onipresente na relação, discursando - em vez de dialogar - sempre diante do outro, um simples mortal.

A conversa é outro sentimento que faz parte do encanto. Conversar tem que ser bom para ambos; tem que ser bom um ouvir a conversa do outro. Temos que escutar com atenção as histórias que o outro conta. E temos que sentir que as nossas histórias estão sendo bem recebidas pelo parceiro. Falar sozinho em uma relação é o princípio do fim do encanto.

Alegria. O encanto pressupõe alegria, risos e sorrisos. A relação tem que sorrir para ambos. Se não houver risadas, não há alegria, não há encanto. Isso me remete a uma entrevista de Roberto Marinho (fundador das Organizações Globo) falando sobre a sua mulher, na época, Lilly de Carvalho (depois Marinho). Ambos já eram bem "vividos"; ela tinha 70 anos quando se casaram; ele, 86. Ao explicar uma das razões que o levaram a esse casamento, nessa altura da vida, ele disse: "ela me faz rir, me traz alegria (se não foi  isso exatamente, foi quase isso). Ou seja, um tem que fazer o outro rir.

E, finalmente por hoje, o carinho, que deve ser transbordante e recíproco. Tudo com carinho e respeito é mais gostoso; imaginem, então, numa relação a dois. Se o sexo é bom, com carinho é muito melhor. Devemos ser totalmente livres e abertos para dar e receber carinho.

E se, no meio disso tudo, tiver paixão, aí o encanto fica completo. Mas paixão é coisa que dura só um tempo mesmo. E aí a gente tem que aproveitar. E lamber os beiços. Um momento em que possamos, com paz, calma e atenção, passar a energia de um para o outro. Que dure apenas um instante, um dia, uma hora, sei lá, mas que seja pleno, total.



16/09/2015 12h09

Vai aí um doce de jiló?
Chico Junior

Pois é, quem diria, o amargo jiló virou doce. E gostoso.
Há alguém aí que já provou compota de jiló (na foto acima)? Ou uma geleia orgânica de tomate, funcho, capim-limão e gengibre (na foto abaixo)? Que tal um iogurte de leite de cabra ou, ainda, na versão leite de búfala?


E tem mais: queijo amanteigado de ovelha tipo Serra da Estrela, queijo frescal de ovelha, o sutil doce de leite de cabra, doce de batata roxa, geleia de gengibre e, para terminar, um sofisticado e delicioso petit gateau de banana da terra,

Pouco provável que os que me leem tenha tido a oportunidade de degustar uma dessas iguarias, pois só se encontram em algumas delicatesses ou lojas especiais da cidade do Rio de Janeiro. Muitas dessas maravilhas ficam restritas e só circulam nas regiões do Estado do Rio em que são fabricadas. São consequência da criatividade e da ousadia de pequenos produtores do estado, que apostam no inusitado, no diferente.

Todos estes produtos estavam nessa terça-feira (15/9), na unidade de Petrópolis do Senac RJ, entre os 40 que disputam o prêmio Maravilhas Gastronômicas do Estado do Rio de Janeiro nas categorias Doces & Compotas, Laticínios e Queijos. Para avaliá-los, um grupo de 20 especialistas em gastronomia, que estão julgando os melhores em 12 categorias do Maravilhas RJ, coordenado por este que vos escreve.
Com o objetivo de valorizar a cultura do gosto regional, o Maravilhas RJ está proporcionando o encontro dos pequenos e médios produtores gastronômicos do Estado com a capital, onde, em breve, esperamos vê-los em peso.

Na rodada de degustações em Petrópolis foi emocionante ver a alegria dos produtores em poder mostrar as suas criações aos consultores/julgadores, aos profissionais e estudantes do Senac RJ e ao público em geral, que também participou das degustações.

Felicidade seria palavra que traduziria o que os produtores e os nossos consultores sentiram ao participar dessa "maratona gustativa".
O Estado do Rio de Janeiro, por intermédio da Maravilhas RJ, está mostrando o seu potencial de produção gastronômica, com produtos de altíssima qualidade.

Nas duas próximas semanas tem mais degustações: Cachaça, Café, Cervejas e Embutidos, no Senac Barra/Marapendi; e Conservas, Mel, Pastas & Patês, no Senac Copacabana.



08/09/2015 11h05

A Fisiologia do Gosto e a gastronomia
Chico Junior

A crônica de hoje é para falar sobre e indicar um livro. Um dos mais importantes livros do mundo quando o assunto é gastronomia. Um livro escrito em 1825 - e lá se vão 190 anos - por um político, violinista e juiz de direito chamado Jean-Anthelme Brillat-Savarin, um cara que se definia também como "médico amador". Um livro histórico, que, apesar dos seus 190 anos, continua vivo e é considerado a certidão de nascimento da gastronomia, que ganhou, ali, a sua primeira e ampla definição.

O livro é a "Fisiologia do Gosto", que, ao longo de quase dois séculos de existência, foi vezes editado. A minha edição, por exemplo, é de 1995, reimpresso em 2004 (Companhia das Letras).

No prefácio, ele diz: "Ao considerar o prazer da mesa sob todos os seus aspectos, cedo percebi que havia algo melhor a fazer a esse respeito do que livros de culinária, e que havia muito a dizer sobre funções tão essenciais, tão corriqueira, e que influem de maneira tão direta sobre a saúde, a felicidade e mesmo os negócios".

Na época, a palavra gastronomia já era usada aqui e ali, mas coube a Brillat-Savarin estabelecer, brilhantemente, a sua definição e tratá-la como ciência.

Para chegar à gastronomia, ele passeia por todo os cinco sentidos - tato, olfato, visão, audição e gosto. Segundo ele, "o gosto é ainda aquele dos nossos sentidos, que, levado tudo em conta, nos proporciona mais satisfações", pois é aquele que, dentre outras coisas "é um prazer de todos os tempos, de todas as idades" e porque "ao comermos experimentamos um certo bem-estar indefinível e particular...".

Definição da gastronomia
Segundo Brillat-Savarin, "a gastronomia é o conhecimento fundamentado de tudo o que se refere ao homem, na medida em que ele se alimenta. Seu objetivo é zelar pela conservação dos homens, por meio da melhor alimentação possível".

"Ela atinge esse objetivo dirigindo, mediante princípios seguros, todos os que pesquisam, fornecem ou preparam as coisas que podem se converter em alimentos", envolvendo, portanto, os produtores de alimentos, os cozinheiros e "seja qual for o titulo ou a qualificação sob a qual se disfarçam suas tarefas de preparar alimentos".

E diz que a gastronomia está relaciona à história natural, à física, à química, à culinária, ao comércio, "enfim, à economia política".

E, para terminar, e não transformar este texto em um livro: "o assunto material da gastronomia é tudo o que pode ser comido; seu objetivo direto, a conservação dos indivíduos; e seus meios de execução, a cultura que produz, o comércio que troca, a indústria que prepara e a experiência que inventa os meios de dispor tudo para o melhor uso".

Falou e disse!



05/09/2015 19h21

Queremos sexo!
Chico Junior

Neste domingo, 6 de setembro, 6/9 (lembra alguma coisa?), comemora-se o Dia do Sexo, data criada pela Olla, empresa fabricante de preservativos, há alguns anos. E parece que pegou; se não pegou, tá pegando. A propósito, pegando quem?

Então, vamos lá.

Enquanto tivermos vida pulsante, disposição, vontade, desejo, o que nós queremos mesmo é sexo. Paz, amor, paixão, dinheiro, vida saudável, boa comida e... sexo. No fundo, no fundo, vamos para um lado, vamos para outro, damos meia volta, mas o que a gente quer mesmo é sexo. É o que move a nossa vida, pelo menos durante uns bons e longos anos.

Há os que não gostam muito de sexo, é verdade, mas, felizmente, estes são minoria. A maioria quer mesmo ter prazer, e muitas vezes o prazer passa pelo sexo. Um momento único. Dizem que o prazer de uma boa comida é maior do que o prazer sexual, mas eu acho que se comparam. E olha que a comida é um dos meus grandes prazeres.

Foto: Reprodução de Internet

Sexo vem bem, sempre. O sexo de momento, o sexo furtivo, o sexo casual, vêm bem sempre. Por puro prazer.

Mas... o melhor mesmo é o que eu chamo de "construção do sexo", considerando que um ato sexual é sempre o desenvolvimento do anterior. Pra bom ou pra ruim. Para que o ato sexual se torne cada vez mais gostoso é preciso que haja uma aproximação constante com o parceiro, é preciso que se vá perdendo, gradativamente, os pudores, as vergonhas, os medos. Só dessa maneira, e com algum tempo de prática, é que se chega à relação sexual plena.

Sexo é crescimento, desenvolvimento. É liberação e libertação do corpo. É poder suportar todas as carícias, todos os beijos. É ter tempo e disposição para descobrir todos os caminhos da pele, dos poros, dos meridianos, tempo para percorrer centímetro por centímetro o corpo do parceiro, tempo para conhecer a sola do pé, os dedos, a língua, o céu da boca.

Tempo para sentir o cheiro do outro, seu jeito de gemer, seu sorriso, sua maneira de ter prazer, seus desejos. O prazer do sexo é um trabalho que deve ser desenvolvido por dois, abertos, dispostos a se descobrirem, dispostos a serem felizes. E isso pode demorar um tempo, mas que seja o tempo em que existir o prazer de se estar junto, o tempo das descobertas, em que a intensidade do encontro dos dois corpos seja absoluta. Sexo é intensidade, energia.

No mais registre-se que, dentre outras coisas, a ciência concluiu que o ato sexual pode trazer inúmeros benefícios para a saúde. O sexo melhora a aparência da pele, diminui o risco de infarto, fortalece a musculatura, queima calorias, entre outras vantagens.  

E, é claro, traz felicidade.

Curta a página do SRZD no Facebook:



30/08/2015 17h25

Pânico, uma história
Chico Junior

Avenida Presidente Vargas, Rio de Janeiro, meio da manhã, no meu carro, indo para uma reunião de trabalho na Rodoviária Novo Rio.

De repente, assim do nada, taquicardia, falta de ar, boca seca, suando firo. Estou enfartando, vou morrer em plena Presidente Vargas, vai dar a maior merda, engarrafamento, ambulância. Consegui entrar em uma rua transversal e parar o carro. Liguei do celular para o meu médico, Rafael, que, além de ser um ótimo médico, é encontrável, sempre.

"Rafael, tô tendo um enfarte, vou morrer, o que eu faço?"

"Tá sentido dor no peito?'

Não, não estava sentindo dor no peito.

"O braço esquerdo tá dormente?

Não, não estava dormente.

"Tá senitndo isso, tá sentindo aquilo etcétera e tal?"

Não, não estava sentido isso ou aquilo.

"Então fica tranquilo, você não vai morrer agora; você está tendo um ataque de pânico".

O quê?!!!

´'É isso mesmo, ataque, crise de pânico."

Rafael ficou maluco. Eu, Chico Junior, fodão do Bairro Peixoto, tendo ataque de pânico? Isso é frescura. Por via das dúvidas segui as suas primeiras orientações: "pede alguém ir aonde você está, te pegar e dirigir o carro.

Mais tarde fui a uma clínica para ser examinado. Certamente encontrariam indícios do meu infarto, que Rafael não diagnosticara (pelo telefone). Eletrocardiograma, exame clínico e sei lá mais o que. Diagnóstico do médico: você teve, e está tendo, uma crise de ansiedade. E vim a saber que esse era nome bonitinho para o ataque de pânico, crise de pânico. Fui no Rafael, que recomendou várias coisa, que eu simplesmente ignorei. Ataque de pânico, veja só...

São Paulo, eu num palco, dando um workshop para cerca de 150 jornalistas e assessores de imprensa sobre busca na Internet (naquela época ainda não existia o Google (cuja aparição me impediu de continuar ganhando um bom de um dinheirinho). Taquicardia, boca seca, falta de ar, suando frio. Deu um branco total, mico geral, alguns vieram ao meu encontro, subiram no palco. "Acho que ele está enfartando", ouvi alguém dizer. Não minha gente, não estou enfartando, fiquem tranquilos.

Apareceu um cara que disse saber o que eu estava tendo e perguntou se podia fazer um shiatsu em mim. Foi o que me salvou e consegui terminar, a duras penas, o workshop.

Obviamente, fui de novo no Rafael.

"Chico, isso tem ver com depressão, a crise de ansiedade faz parte de um quadro depressivo. Tem, que tratar".

Fiz um tratamento durante cerca de um ano, com antidepressivo e ansiolítico, remédio indicado para o tratamento dos transtornos da ansiedade.

De lá para cá, e lá se vão uns 15 anos, comecei a prestar atenção em síndromes parecidas que estavam atingindo pessoas  próximas, muito próximas. Pânico geral e institucionalizado. Era alguém que começava a tremer sempre que ia trabalhar, era alguém que não conseguia ficar sozinho em casa à noite, era alguém que não conseguia entrar no metrô, outro que não conseguia dirigir no aterro.

Do meu círculo de amigos(as) e pessoas próximas, é muita gente que passou, ou está passando, por crises de ansiedadade. Verifico que a cada dia aumenta mais a turma do Rivotril e do Frontal, entre os quais ainda me insiro.

Sei não, mas é tanta gente que eu acho que depressão está na moda.

Por que resolvi contar essa história, tanto tempo depois?

Primeiro porque fui incentivado por um texto que o jornalista Ricardo Boechat, com quem trabalhei no Globo, publicou recentemente no Facebook, contando o piripaque que teve antes de entrar no ar em seu programa diário na Band News FM. "O que eu tive foi um surto depressivo agudo", contou ele no Face.

Depois porque acho que, quem estiver com sintomas parecidos, se achando mais triste do que deveria estar, sem estímulo existencial e determinado tipo de fobia, como evitar andar de metrô, procure um médico, procure tratamento. Parece que, segundo a ONU, a depressão é a doença que mais cresce no mundo.

E aí, fiquei bom?

Acho que não totalmente, essa coisa vai e volta. Mas há formas de controle. Portanto, procure um médico, procure tratamento. Sugiro, primeiro, um clínico, antes de se consultar com um psiquiatra, que também deve ser ouvido.

Parafraseando o Boechat, que termina o seu texto assim: "Se com isso eu conseguir ajudar algum ouvinte a prevenir a depressão ou a curá-la, já me dou por satisfeito". No meu caso, onde se lê ouvinte, leia-se leitor.

Para ver o texto do Boechat clique aqui.


1 Comentários | Clique aqui para comentar

23/08/2015 18h35

Se eu morrer, que não seja tomando banho
Chico Junior

Não tenho medo da morte. E por uma razão muito simples: eu não vou morrer. Decidi isso noutro dia, embora ainda não tenha descoberto de que forma eu vou conseguir este incrível feito. Acho que estou contando com a ajuda da ciência, sempre inovadora, sempre descobrindo coisas novas. Aí, quem sabe...

O meu problema não é com a morte é com o "deixar de viver", que são coisas distintas. Aqui pra nós, é muito bom viver, apesar de todos os pesares com os quais esbarramos pela vida.

Aí alguém me disse: fique tranquilo, pois você vai deixar de viver nessa vida, mas vai para outro plano, outra vida. O problema é que ninguém desse tal "outro plano" se apresentou a mim, para me dar informações mais precisas sobre como é viver "lá em cima". E, olha, o que tem é gente nessa outra vida! Todo mundo que morreu tá, imagino eu. Nem mesmo minha mãe, que me adorava, já deu sinal de vida. Portanto, não creio em outra vida, outro plano e, por conseguinte, muito menos em reencarnação, que seria um alento.

Aí alguém me disse: você vai virar espírito. Pois é, mas não acredito em espírito, embora tenha o maior respeito pelos meus amigos e amigas espíritas.

Mas, se por acaso, eu vier a morrer, se eu, um dia, partir mesmo, que não seja tomando banho. Moro sozinho e se eu morrer tomando banho vai ser um desperdício danado de água, até descobrirem que morri. E, nesses tempos de pouca água, temos que economizar o precioso líquido. Além disso, o meu chuveiro é elétrico, vai superaquecer, provocar um curto-circuito e o prédio vai pegar fogo. Olha só que problemão! Não acho justo, só porque eu morri, colocar em risco a vida dos outros.

Será que eu devo parar de tomar banho?



16/08/2015 19h04

Portar droga para uso próprio é ou não é crime?
Chico Junior

maconha_camarãoNesta quarta-feira, dia 19 de agosto, o Supremo Tribunal Federal (STF) deverá votar, por vias indiretas, se  portar droga para uso próprio é crime ou não, no Brasil.

Para quem não sabe como esta questão chegou à corte máxima do país, explico. Francisco Benedito de Souza, 55 anos, estava cumprindo uma pena de 10 anos no Centro de Detenção Provisória, em São Paulo, por assalto à mão armada, receptação e contrabando, quando foi flagrado, na cadeia, com três gramas de maconha, que, segundo ele, era de uso coletivo, mas resolveu assumir que a droga era sua "para não criar confusão", segundo declarou ao jornal O Globo do último dia 15.
Abriu-se, então, um processo e, julga daqui, julga dali, o seu advogado, o defensor público Leandro Castro Gomes, baseado (sem trocadilho) no artigo 5º da Constituição Federal, que determina que a condenação pelo porte de drogas para uso pessoal "ofende o princípio da intimidade e vida privada" e que "não afronta a chamada saúde pública, mas, quando muito, a saúde pessoal do próprio usuário", conseguiu que o caso de Francisco chegasse ao STF.

Se o STF acatar a tese da defesa, o porte de drogas para uso próprio estará descriminalizado, ou seja, deixa de ser crime no Brasil. Juízes do Supremo têm dito que uma das questões é saber que quantidade seria essa e em que condições essa pequena quantidade estaria sendo transportada. E citam o caso de "aviões" do tráfico que portam pequena quantidade para a entrega ao usuário final.

Assim como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - militante da campanha de descriminalização da droga para uso próprio - sou contra a penalização dos que portam droga para uso próprio. Portam e a consomem,  por óbvio.

Acho, sinceramente, que a questão do uso de drogas não é uma questão de saúde pública e, no meu entendimento, os prejuízos à sociedade (guerra entre traficante, assassinatos, corrupção, isso para citar uns poucos) são muito maiores do que os que seriam causados pela descriminalização do uso de droga. Países como Holanda e a Espanha, e alguns estados norte-americanos, já adotam esse princípio.
Recentemente publiquei aqui neste espaço o artigo "Drogas, tô dentro (do assunto)" e recomendo a leitura.

Já faz tempo que, no Brasil, juiz nenhum condena à cadeia o usuário de drogas, que recebe uma pena como prestar serviços comunitários durante alguns meses.

Em tempo: não uso drogas, a não ser a cervejinha nossa de cada dia e os remedinhos que nos deixam em pé. Tudo liberado, pois.



09/08/2015 19h20

Estar sozinho / Ficar sozinho
Chico Junior

Estar sozinho é uma coisa.

Ficar sozinho é outra.

Estar sozinho pode ser um estado de conforto, pode ser uma opção, pode ser um contexto interessante, pode ser um estado de segurança, de autoconfiança, enfim, pode ser um momento bom, da gente com a gente mesmo.

Ficar sozinho, ao contrário, dá a sensação de abandono, de perdido no mundo. Por isso o tal do Tinder, aplicativo de encontros pelo celular, faz tanto sucesso. E deve bater o recorde semanal de encontros às sextas-feiras. Ou no sábado, talvez.

Estar sozinho é um aprendizado, pode levar um tempo, mas a gente chega lá. Aos poucos você vai descobrindo as coisas que pode fazer sozinho.

Já o ficar sozinho vem assim, na porrada, mas pode ser o início do tal aprendizado do estar sozinho. Claro, pois, dentro dessa lógica o estar sozinho vem depois do ficar sozinho.

Mas um amigo meu contesta essa história.

- Eu não conheço essa sensação de ficar sozinho, essa barra pesada que você está falando aí. Acho que aprendi muito rápido a estar sozinho, ser feliz comigo mesmo.

- Mesmo depois da separação?

- Sim, mesmo depois da separação. Saí e no dia seguinte já estava vivendo só, tranquilo, sem drama.

- Mas não é bom ficar com alguém?

- Claro que é, mas gosto muito de estar sozinho.

Ah, meu caro, ficar sozinho é barra. Sexta-feira à noite, então, é foda. Sábado também, mas sexta é pior, porque é o início do fim de semana, o qual, provavelmente, você passará sozinho. Somos seres gregários, necessitamos ficar juntos, com alguém.

Ah, mas também não existem mais homens interessantes, elas dizem.

Ah, mas também não existem mulheres interessantes, eles dizem.

- Não é bem assim, há muitas pessoas interessantes dando sopa por ái.

- Dando sopa não, está tudo casado ou namorando.

- Bem, então relaxa.

- Relaxa e...?

- Não, só relaxa, o e... fica para outra hora.

Mas sejamos otimistas, não esmoreça. A sexta-feira ainda não acabou. Vai que você está se preparando para assistir ao Jornal Nacional, cervejinha na mão, potinho de amendoim do lado, cumprindo à risca o seu aprendizado de estar só, e aí liga uma(um) ex-namorada(o) ou amiga(o) colorida(o) (hoje, se diz ficante, mas eu sou da época da amizade colorida).

- OI, tudo bem?

- Tudo e você?

- Está em casa?

- Sim, estou.

- Sozinho?

- Sim.

- Que tal, então, ficarmos sozinhos juntos.

Taí, não é uma boa ideia? Aí é só decidir onde.

Depois você continua o aprendizado de estar só.


2 Comentários | Clique aqui para comentar

28/07/2015 16h43

Quero andar de disco voador
Chico Junior

disco voador

Os planetas inalcançáveis, as estrelas, as luas, os meteoros, os cometas, os buracos negros, enfim, o Cosmo, o Universo despertam em muitos de nós, no mínimo, curiosidade. No meu caso, bem mais do que simples curiosidade, procuro acompanhar pelos jornais, TV e internet o que estão pesquisando aí por cima. Fico encantado com essas novas descobertas, as novas façanhas dos cientistas, astrofísicos, astrônomos. Fico encantado com a Via Láctea, embora não saiba exatamente o que significa (mas isso é detalhe), galáxia na qual nós, os terráqueos, estamos inseridos.

Também me encantam os dinossauros de 25 milhões (!!!) de anos atrás, mas isso é outra história.

Recentemente fiquei profundamente tocado com a história desse artefato que a Nasa batizou de New Horizon, a nave que chegou lá pelas bandas de Plutão depois de nove anos de "voo". Nove anos! Fico imaginando as pessoas que estão há nove anos cuidando diariamente da pequena nave a caminho dos confins do nosso sistema solar. Há que se ter um cuidado diário para ver se o "bichinho" está no rumo certo. E tudo isso tocado da Terra.

Logo em seguida foi anunciada, pela  Nasa, a descoberta um "planeta gêmeo" da Terra com todas as características de abrigar vida mais ou menos parecida com a nossa. Só que não dá para chegar nem perto - só pela imaginação -, pois o tal Kleper 186f está a "apenas" 1.400 anos-luz da Terra. Mesmo que descobríssemos um meio de viajar na velocidade da luz levaríamos 1.400 anos para chegar até lá.

Mas, embora essa história de exploração espacial me exerça um certo fascínio, se há uma coisa em que eu não acredito é na visita periódica que seres extraterrestres e suas naves sensacionais fazem à Terra. Isso sem falar das pessoas que juram que foram abduzidas, ou seja, levadas a passear/viajar em naves extraterrenas. Quando converso com pessoas que tentam me convencer da existência de seres alienígenas e supernaves espaciais, sempre faço duas perguntas.

A primeira é: de onde esse povo vem? Do nosso sistema solar, certamente não é. Ele já foi e está sendo vasculhado há anos e até agora nada de vida parecida com a nossa. Fora do nosso sistema solar, mas dentro da nossa galáxia, a estrela mais próxima de que se tem notícia é Alpha Centauri, distante quatro anos luz da Terra. Ou seja, viajando na velocidade da luz, alguém de um planeta que gire em torno da Alpha Centauri levaria quatro anos para chegar à Terra. E mais quatro para voltar, sem escalas.

Aí vem a segunda pergunta: uma civilização que conseguiu a tecnologia de viajar na velocidade da luz, portanto, altamente sofisticada e inteligente, viria fazer o que na Terra? E por que a maioria das pessoas do mundo não esbarrou com esses caras no meio da rua?

Até hoje ninguém me deu respostas satisfatórias que pudessem me fazer, ou pelo menos tentar, mudar de ideia.

O astrofísico Carl Sagan, cientista falecido em 1996, em seu livro "O mundo assombrado pelos demônios", procura nos convencer da baboseira que é essa história de OVNIs e que tais. Ele passou boa parte da vida envolvido em pesquisas para tentar ver, ou ouvir, algo do espaço e confessa que, em mais de 30 anos, nunca viu ou ouviu nada, nem mesmo uma emissãozinha de rádio que fosse.

Um dia, amigo meu me convidou a fazer parte de um grupo que estuda e acredita na existência de extraterrestres. Inclusive, me disse, o líder desse grupo, já tinha sido abduzido.

- Mas eu não acredito nessas coisas - respondi.

- Por isso mesmo, lá você vai se convencer que os seres extraterrestes existem e que nos visitam de vez em quando.

- Tudo bem eu topo, mas com uma condição: quero andar nessa nave que o seu amigo viajou e conhecer os caras de perto. A propósito, eles falam português?

Ele disse que não era bem assim, só podiam fazer isso os iniciados, mas que ia ver. Nunca mais voltou ao assunto.

Por fim, continuo querendo andar de disco voador. Quem souber de algum à disposição, tô dentro.



10/07/2015 19h25

Drogas, tô dentro (do assunto)
Chico Junior

Em1983 eu publiquei um pequeno  livro de pouco mais de 100 páginas, chamado "Drogas", pela extinta editora Codecri, do Pasquim, no qual eu abordava diversos assuntos relativos ao tema do livro, e onde já me manifestava, mesmo que nas entrelinhas, sobre a descriminalização do uso das drogas, ou, pelo menos, da maconha. O livro foi resultado de anos e anos de pesquisas e leituras.

De lá para cá, e lá se vão mais de 30 anos, tenho acompanhado o que se diz, o que se escreve e o que se pensa em relação às drogas, inclusive a militância do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em relação à descriminalização do uso de drogas.

Em primeiro lugar, devo dizer que voltarei outras vezes ao tema, que não se esgota em um único texto de blog.

Em segundo lugar, uma informação nada animadora aos que pensam, acham e tentam reprimir ou criminalizar o uso de drogas: podem tirar seus respectivos cavalinhos da chuva, pois nada fará com que o ser humano pare de usar droga, nada. Podem reprimir, podem espernear, podem vir com polícia, com religião, com discurso moral, com danos à saúde, com o que for. Uma parcela considerável da humanidade vai continuar usando as drogas chamadas ilegais. Então, partindo-se desse princípio, o que temos a fazer é descobrir uma maneira de como conviver "saudavelmente" com as drogas. Com algumas, como a maconha, dá para conviver com uma certa tranquilidade. Com outras, como a cocaína ou a heroína, a coisa já é mais complicada. Com o crack e outras drogas sintéticas modernas, aí a coisa fica feia. Mas temos que descobrir  um meio, ou meios. Com educação, informação, tratamento, por aí.

No meu livro eu começava com uma citação de um psiquiatra francês, que eu conheci pessoalmente, chamado Claude Olievenstein, morto em 2008, que publicou diversos livros sobre o tema e, na época, referência mundial no tratamento de drogados. Dizia ele: "Não se pode falar decentemente de drogas, em uma sociedade como a nossa, sem citar aquelas das quais se usa e abusa, como o beneplácito da lei e da família, que são o álcool e o tabaco (para não falar dos tranquilizantes)". E hoje, eu acrescentaria, os nossos "amigos" antidepressivos e os ansiolíticos, os nosso rivrotris e frontais da vida. Um parênteses: acho que estou cercado de malucos, eu inclusive, pois no meu ciclo de conhecimento e amizades, raramente encontro alguém que não faz, ou já fez, uso de uma dessas drogas "legais". E lá se vão mais de 30 anos.

O título do primeiro capítulo era: Reprimir não adianta. Lá se vão mais de 30 anos e continuo a dizer, reprimir não adianta, só serve para manter esquemas gigantescos caríssimos, de resultados duvidosos, policialescos; gasta-se uma fortuna na repressão, e o consumo continua aumentando, e a cada ano que passa uma nova droga, ou a variação da mesma droga, no caso da maconha, é colocada no mercado. Isso sem falar que algumas dessas novas e/ou antigas drogas foram, ou são, criadas em laboratórios de grandes multinacionais dos remédios, como é o caso do LSD (criado pela Sandoz) e da heroína (posta no mercado pela Bayer, que a vendeu sem problemas, como remédio, duramente vários anos, até que a comunidade científica conseguisse mostrar que a heroína fazia muito mais mal do que bem).

Para que meus nobres leitores tenham uma vaga ideia do que se gasta com a repressão, só a DEA, a famosa Drug Enforcement Administracion, responsável pela política antidrogas dos Estados Unidos, e talvez do mundo, tem cerca de 5 mil agentes, sendo 1470 fora dos Estados Unidos, atuando em 221 "filiais" em território americano e 86 escritórios em 67 países. Só com o pessoal que trabalha fora dos Estados Unidos, a DEA gasta anualmente 75 milhões de dólares; e o seu orçamento geral para 2015 é de US$ 2,8 bilhões. Um belo de um negócio, não acham? E o consumo de drogas aumentando.

Há que se entender que a história da droga caminha com a história da humanidade e que o ser humano sempre se utilizou de drogas naturais. És vezes de uma forma ritual, mágica, mas sempre usou, desde que descobriu que, comendo determinada raiz, ou flor, ou fruto, ou folhas, poderia ter sensações que transcendiam seu comportamento normal. Descobriu o barato quando experimentou a datura, o ópio, o peitote, o cogumelo, a ayahuasca, a maconha.

Para se ter uma ideia e dar como referência a droga ilegal (legal em alguns países) mais usada da atualidade - a maconha - o documento mais antigo sobre a cannabis é um tratado chinês de botânica, do século XV antes de Cristo. Ele mostra que religiosos da Índia atribuíam à maconha uma origem divina, dando-lhe nomes como "vijahia (fonte de felicidade e sucesso) e "ananda" (que produz vida).

Então, para terminar e prometendo retornar ao assunto, volto a dizer aos que acham que a repressão é o caminho: tirem seus cavalinhos da chuva.

Há muito ainda o que se dizer, como a origem do tráfico de drogas, da consequente repressão, o uso terapêutico da cananabis etecetera e tal.

Até a próxima...



30/06/2015 12h57

Considerações sobre o sexo, o amor e o encanto
Chico Junior

- Sexo é bom.
- Sim, claro que sexo é bom.
- Mas qualquer tipo de sexo?
- Como assim?
- Quero dizer, o sexo a partir de um encontro na Internet, ou de uma balada ou noitada, o sexo com aquele amigo ou amiga que a gente encontra de vez em quando, o sexo inserido naquilo que a gente chamava antigamente de "amizade colorida" e hoje é "ficar".
- É, em se ttratando de sexo, não deixa de ser bom. Em princípio, sexo é bom sempre.
- O problema é que as pessoas não querem compromisso, parece que estão com medo, só querem sexo.
- Opa, aí não é bem assim.
- É sim, a Veja Rio até publicou uma pesquisa com usuários desse tal de Tinder, o aplicativo de encontros pelo celular, em que 72% dos homens e 48% das mulheres - ou seja, quase a metade das entrevistadas - só querem saber de sexo.

Bem, até acho que uma boa parte das pessoas, principalmente os mais jovens, só estão a fim de um sexo casual e, depois, baibai, sejamos bons amigos. Mas, acho eu, é a minoria.

Digamos que duas pessoas se encantem uma pela outra. Não vai ter compromisso? Claro que vai.

E essa é a palavrinha mágica, encanto. Mais do que o amor, o encanto é a chave da relação. É isso que as pessoas querem, serem encantadas. Querem carinho, querem colo, querem companhia, querem amor. E querem sexo, é claro. Tudo isso faz parte do encanto.

Olha só que bonito, se, em vez de dizer "eu estou amando aquela pessoa" ou, então, "me apaixonei por o(a) fulano(a)", a frase for: "eu me encantei por aquela pessoa", "estou encantado(a) por ele(ela)".

Cena 1

Dia desses encontrei uma amiga que não via há um tempo. Papo vai papo vem, ela me informa que está de namorado novo, e diz, feliz:
- Estou apaixonada!
Uns dois meses depois reencontro essa amiga.
- Estou de namorado novo - ela diz.
- Eu sei, você me disse isso na última vez que nos encontramos.
- Não, agora já é outro.
- Ué, mas você não me disse que estava apaixonada?
- O problema é que só eu estava apaixonada.

Ou seja, só uma pessoa estava encantada pela outra. Aí a química não rola mesmo, aí não existe compromisso.

Cena 2

Ela informa ao companheiro:
- Amanhã pego as minhas coisas e vou-me embora, não dá mais pra mim.
E ele, espantado:
- Mas a gente não se ama?
- Sim, a gente se ama, mas o amor não é tudo.

E ele achando que bastava o amor para segurar uma relação. E descobriu que o amor apenas se encaixa num contexto maior, no qual entram uma série de fatores, como sexo, paixão, carinho, a admiração mútua. Acabara-se o encanto, pois.

Aí, alguém me disse: você está confundindo tudo, o que você chama de encanto é simplesmente amor.

Não estou confundido nada, o que eu chamo de encanto é encanto mesmo.

Aí alguém me disse: por que esse encanto tem que significar compromisso? Por que não pode ser em encanto de momento? Por que tem que telefonar no dia seguinte? Posso me encantar por uma pessoa, morrer de tesão, de carinho, e durar só um dia, uma semana, quem sabe.

Então, meus caros e caras, procurem encantar e serem encantados, Às vezes demora um tempinho para que a simbiose dos encantos aconteça. Mas pode valer o investimento.

Se de todo não der, e a coisa ficar só no sexo, nada mal também, pode ser interessante, divertido e saudável. Mas não esperem compromissos. A questão é: pode ser complicado ir fundo numa relação se a outra parte está no raso.


3 Comentários | Clique aqui para comentar