Quase colocando tudo a perder
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 16/02/2013 17h52
No carnaval, prestamos atenção a alguns fatos que passam desapercebidos para alguns, mas que podem pesar demais na hora do resultado. São erros, "atravessadas", bossas mal executadas e desencontros harmônicos que podem custar pontos preciosos, mas que, em alguns casos, acontecem fora dos olhos dos jurados.
Foi isso que aconteceu com o Império da Tijuca, campeão incontestável do grupo A numa subida mais do que merecida. Um problema que poucos notaram quase colocou tudo a perder. Mestre Capoeira montou três bossas para o desfile, duas delas sustentadas pelos atabaques. Para a realização de bossas como essas é preciso que andamento e ritmo estejam integrados e que haja um perfeito entendimento entre carro de som e bateria, para não dar chance ao azar. Mas o Imperinho deu.
Durante a execução da bossa do refrão principal, quando a bateria parava e mantinha só algumas batidas compassadas, o cantor Pixulé se perdeu completamente e desmantelou a bateria no meio da paradinha. A "atravessada" durou todo o refrão e o problema só foi corrigido na volta dos surdos na cabeça do samba.
A sorte é que isto aconteceu entre os módulos 1 e 2 de julgamento. A partir deste momento, a confiança desabou como um castelo de areia no vento, a bateria não fez mais as bossas (lindas, por sinal) e passou quase reta pelos outros módulos. Mestre Capoeira só parava os surdos, numa bossa mais simples, para justificar a passagem pelos julgadores seguintes. Como o ritmo da bateria estava muito bom, não houve problema de perda de pontos. Mas fica a dica para que os intérpretes e carros de som redobrem a atenção no andamento e se concentrem no canto, especialmente durante a execução das bossas.
Leia outro texto do blogueiro Cadu Zugliani:
Julgamentos: melhoraram, mas ainda não podemos comemorar
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 15/02/2013 12h10
Uma análise fria do mapa de apuração nos traz algumas boas conclusões. Os resultados finais, no geral, me agradaram. Vi algumas notas bem coerentes, mas ainda acho que os jurados precisam ser analisados, individualmente, para que voltemos a ter total confiança nestes julgamentos.
São algumas notas que nos fazem acreditar que não entendemos nada de carnaval e que há um mundo paralelo entre o que vemos e o que realmente acontece na Sapucaí. Notas, no mínimo, muito estranhas. Por isso, vou deixar no ar algumas questões e este post, que, para ficar completo, precisará da ajuda de vocês, leitores do SRZD, para podermos respondê-las.
Vou começar por uma nota que me irritou bastante, um 9,8 dado ao samba da Vila. Tudo bem que, no descarte, não atrapalhou, mas este samba já estava consagrado antes mesmo dos desfiles começarem. Que disparidade é essa???
A vice-campeã Beija-Flor tem motivos para reclamar, mas foi beneficiada também. Explico: a escola de Nilópolis perdeu décimos importantes no quesito alegorias e adereços (9,9 em todos os jurados), a meu ver injustos. Podem até dizer que viram erros aqui e ali, tudo bem, mas como deram duas notas 10 para a Grande Rio ,que passou com um dos conjuntos alegóricos mais mal acabados entre as doze desfilantes???? Um tripé imitando um posto de saúde que, com todo respeito às nobres escolas que desfilam em Campinho, parecia retirado de uma das últimas colocadas do grupo D da Intendente Magalhães. Quer dizer que os carros da Grande Rio estavam melhores do que os da Beija-Flor??? Precisamos rever os desfiles. Aliás, o sábado das campeãs nos dá esta grande chance.
Por outro lado, houve um desacoplamento e um enorme buraco se abriu em frente ao primeiro módulo de jurados, nas barbas do julgador, e a Beija-Flor, com estes dois graves problemas, foi penalizada em apenas um décimo. Penalização justa????
Rogerinho e Lucinha, da Inocentes de Belford Roxo, um dos melhores casais do nosso carnaval, tiveram um ótimo desempenho na Sapucaí mas foram duramente penalizados. Alguém pode me ajudar com estas justificativas???
A Mocidade pode ter tido inúmeros problemas neste carnaval, mas se teve uma coisa que funcionou na escola foi a evolução. Pois bem, a escola foi penalizada em sete décimos neste quesito. A Mangueira, que já chegou bem atrasada no último módulo, teve um carro enganchado na torre de tv, retrocedeu e perdeu seis minutos de desfile, foi descontada em apenas três décimos. Na opinião de vocês, houve justiça nestas avaliações???
Sabemos que algumas notas são dadas de forma subjetiva. A análise dos enredos, por exemplo, passa pelo desenvolvimento e pelo que foi mostrado na avenida. Por isso, não adianta a gente reclamar e tentar comparar um tema com outro. Prefiro me fixar nas notas que são mais práticas e objetivas e, a partir de agora, espero a ajuda de vocês nos comentários para que possamos entender melhor o mapa de notas e, até mesmo, cobrar e fazer com que a LIESA entenda que só o que queremos é um julgamento mais justo.
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Kizomba na Roça
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 13/02/2013 22h35
Em toda a minha história no carnaval, a principal marca é a lembrança dos sambas, daqueles que basta um verso, um acorde, para que eu cante a letra toda. Outro dia me peguei cantando um sambaço do Império da Tijuca ("Tudo que vamos contar veio de lá de Itaparica...") e a homenagem do Cabuçú a Roberto Carlos ("sou um mensageiro do amor, no esplendor da madrugada...").
Era uma época em que o samba mandava, ditava as regras e fazia com que uma escola saísse favorita para a avenida só por escutar e gostar da faixa no LP. O tempo mudou, o LP deu lugar ao CD e ao Pen Drive e o carnaval evoluiu para melhor na plástica, mas, ao permitir a desvalorização do samba, derrubou tudo. Cheguei a um ponto que, mesmo acompanhando o carnaval de perto em todos os desfiles, não consigo lembrar alguns sambas de dois anos atrás e, o pior, não consigo lembrar os sambas de escolas campeãs nos últimos anos. Lembro dos carros, da estética e até de algumas fantasias, mas o samba não vem...
A Beija-Flor foi campeã em 2011 homenageando o mesmo Roberto Carlos da Cabuçú e preciso de um esforço sobre-humano para lembrar do samba. Porque falo isso tudo???? Porque, meus amigos, o carnaval 2013, apesar de uma safra fraquíssima, devolveu minha alegria e a chance de lembrar de um samba campeão mesmo daqui a dez anos. Com certeza, vou me pegar em 2023 cantarolando "a Lua se ajeita, enfeita a procissão..." Foi assim que me senti quando a Vila Isabel pisou na manhã de terça na Sapucaí. Foi assim que entendi o porque de, mesmo não tendo uma grande torcida, a avenida ter permanecido lotada para acompanhar a passagem da Vila Isabel. Todos ali tinham a mesma sensação, a ideia de que aquele samba valeria a pena... E valeu. O samba invadiu os ouvidos e inebriou, deturpou a visão, não nos deixou enxergar erros, só acertos.
O samba nos passou a sensação de que ali estava acontecendo um desfile incontestável, antológico. Nem sei se foi tudo isso mas, com certeza, foi isso tudo !!! Sua majestade, o Samba, voltou a ter honras e poder, voltou a mandar no baile e a exercer sua função primordial de transformar o desfile em história. Meus caros, a Vila fez história, a ordem dos fatos voltou ao seu devido lugar. A Rosa foi excelente, os carros estavam ótimos, as fantasias criativas, mas o samba, ahhh o samba, foi brilhante, inesquecível e o grande responsável pelo título. É tempo de comemorar a Kizomba na Roça.
Bola de Cristal versão 2013
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 08/02/2013 10h33
Mais uma vez, uma tentativa de juntar peças e tentar prever o que vai acontecer. A Bola de Cristal do ano passado deu o que falar e espero que, desta vez, vocês entendam que é uma dedução por caminhadas aos barracões, por escutar muito os sambas, as baterias e por ter ido a todos os ensaios técnicos. É CLARO QUE A AVENIDA PODE MUDAR MUITA COISA. Vamos ver se consigo o mesmo bom índice de acerto do ano passado mas, lembrando, é APENAS a minha opinião.
Vejo quatro escolas brigando pelo título no conjunto da obra: Vila Isabel, Salgueiro, Beija-Flor e Tijuca. Destas quatro, duas, Vila e Beija, eu considero favoritíssimas. Os ensaios foram muito fortes e os barracões andaram com certa tranqüilidade, o que possibilita um melhor acabamento. Além disso, vi alegorias grandiosas e muito bem elaboradas. O samba da Vila é um acontecimento, o da Beija mostrou muita força no ensaio e as duas baterias são extremamente corretas. O enredo da Vila é melhor do que o da escola de Nilópolis e isso pode até fazer a diferença no final.
A Tijuca vem forte de novo e muito criativa. Paulo Barros, mais uma vez, investe em soluções cinematográficas. É o seu estilo e, querendo ou não, é um estilo de sucesso. O Renato Lage construiu um barracão sensacional, apostando em criatividade e irreverência e prometendo transformar este desfile num marco. Mas o Salgueiro é a segunda de domingo e, por mais que se discuta, ainda é uma posição fria para desfile e PODE atrapalhar. Os dois sambas são equivalentes e medianos e as duas baterias são excelentes e mostraram isso nos ensaios.
O bloco que briga pelas outras vagas no desfile das campeãs recebe a Ilha como novidade. A escola fez um trabalho sensacional e organizado no pré carnaval. Montou um barracão muito legal, vem grande, ousada, com uma bateria sensacional, e pode ser a grande surpresa entre as seis. Além dela, vejo a Grande Rio e a Imperatriz brigando por mais uma vaga no sábado das campeãs. A Grande Rio é um incógnita, gosto muito dos projetos do polonês mas a gente nunca sabe se, o que vem na avenida, vai ser acabado a contento. Porém, a escola de Caxias fez ótimos ensaios, tem o Ciça na bateria e vem cantando forte um samba fraco mas agradável num enredo que não me agrada. A Imperatriz optou pelo batido tema do Pará, mas vem com alegorias bem bonitas. O ensaio técnico mostrou uma comunidade muito comprometida e organizada.
A Mangueira e a Portela, para mim, estão no mesmo grupo, a chamada "zona da marola". Vejo as duas com poucas chances de alcançar as campeãs. O sério atraso nos barracões sempre compromete, não a ponto de colocá-las no final da tabela, mas tira das duas a chance de brigar por uma colocação mais em cima. São duas escolas com baterias muito fortes, comunidade cantando e bons sambas , mas que precisam corrigir até o desfile alguns problemas de harmonia que mostraram no ensaio técnico.
A São Clemente faz um trabalho correto, investe em quesitos que eram fracos na escola e tenta crescer. Foi muito organizada no barracão e traz no Fabinho um dos nomes mais promissores entre os carnavalescos. Mas precisa - e deve - ganhar corpo.
A Zona do perigo, mais uma vez, traz a Mocidade, que fez algumas apostas ruins. Ao aceitar o enredo sobre o Rock in Rio deixou escapar soluções que seriam muito legais, como contar a história do Rock, por exemplo. Teve dificuldades financeiras, pois o dinheiro não chegou, e correu atrás do tempo no barracão, como disse nos exemplos de Mangueira e Portela. Assim, acaba sendo difícil completar o projeto original. Além disso, o tema é fraco e o samba, que tem melodia belíssima, acaba tendo dificuldades para brilhar, pois falar especificamente do festival não ajuda o compositor a fazer uma letra brilhante. A bateria promete vir melhor este ano e mostrou isso no ensaio. O que pode mudar este panorama negativo é a garra da comunidade de Padre Miguel, que abraçou o samba e parece crescer ainda mais nas dificuldades. Torço para que as coisas funcionem muito na hora do desfile.
A Inocentes faz um trabalho melhor do que a Renascer, só acho que pode não ser suficiente para evitar a queda. A escola da baixada apostou em nomes conhecidos e isto conta pontos na briga por quesitos. A contratação do casal e a efetivação de Mestre Celinho, junto a Washington, na bateria foram grandes acertos da diretoria. Se cair, vai vender caro o rebaixamento. O barracão da escola é muito irregular, alguns carros muito bons e alguns de gosto duvidoso.
E é isso. Faltam poucos dias para a mágica acontecer e a sorte está lançada para todas. Que 2013 seja o melhor carnaval de todos os tempos.
Ensaios cantantes na Sapucaí
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 25/01/2013 12h46
Os ensaios não tem carros, nem fantasias, mas dizem muito sobre o que esperar dos desfiles, especialmente este ano, em que foram muito mais bem explorados pelas escolas. Este texto não pretende ser uma Bola de Cristal, mas aponta algumas evoluções e falhas que precisam ser destacadas.
Os ensaios da Vila e da Beija-Flor foram estupendos, funcionaram em tudo. No caso da Vila, o samba ajuda demais e o canto saiu leve, fácil e contagia. O samba da Beija-Flor, para mim, foi uma surpresa. Não esperava que contagiasse tanto. Já estamos acostumados com a comunidade que canta muito, mas o legal, desta vez, é que o samba atravessou a fronteira das grades da pista e, mesmo debaixo de chuva, ecoou numa grande cavalgada pela Sapucaí.
Também gostei demais do ensaio da Mocidade. com muito canto e uma comunidade mostrando que abraçou o samba. Achei boas e ousadas as paradinhas da turma do Andrezinho e sua bateria.
A Imperatriz foi super correta, mostrou arrumação, entrosamento e soltou a voz com elegância mostrando o valor do belo samba sobre o Pará.
Aliás, vale uma menção especial sobre o "quesito" canto. Praticamente todas as escolas mostraram uma evolução espetacular. Cheguei a citar isso, por exemplo, no comentário sobre a Grande Rio, que, há dois anos, fez um ensaio pífio e este ano cantou como nunca ví.
A Ilha, a Portela, a São Clemente e a Mangueira também não tiveram problemas neste ponto, mas destas, duas gigantes me chamaram a atenção por um lado negativo. Talvez influenciada pela experiência das duas baterias, a Mangueira passou desorganizada, deixando a desejar na arrumação da escola. Veio com guardiões no segundo casal em vez de proteger o primeiro que passou espremido na Comissão de Frente. Um imenso buraco se abriu no setor três, na hora da saída das baterias, um buraco tão grande que chegou até a cabine dos jurados. Nada que não possa ser arrumado até o desfile mas vale o alerta. Na Portela, o excelente samba não cresceu, "não passou as grades". Foi muito bem cantado pela comunidade, mas não ecoou na avenida. A bateria do mestre Nilo, que é espetacular, de uma qualidade invejável, apresenta um problema: o desenho dos tamborins, muito quebrado e cheio de viradas, que já tinha sido responsável por perda de alguns décimos no ano passado, embolou algumas vezes durante a passagem. Mas é outra coisa que dá para acertar até o desfile, pois o time de tamborins da Águia é excelente.
O Salgueiro passou mais morno, cantou, mas foi outro samba que não ecoou. Em compensação, a bateria de mestre Marcão foi a melhor entre todas nos ensaios técnicos.
Para mim, só a Inocentes destoou da turma das cantantes. A escola da baixada veio muito grande e de boca quase fechada. É grave se imaginarmos que ainda há uma leva de "turistas" para entrar neste conjunto. Mas a bateria foi um ponto fortíssimo. Como é bom ver o mestre Celinho de volta ao Grupo Especial, ao lado de mestre Washington e muito bem acompanhado por seus diretores, especialmente o Anderson, no tamborim. A cadência da Baixada mostrou ótimo andamento e swing.
Agora é esperar a Tijuca.
Um cenário nada animador
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 15/01/2013 15h35
Fiz uma visita, na última quinta-feira, aos barracões da Cidade do Samba e cheguei a uma conclusão nada animadora: vai ser um desfile sofrível para muitas escolas. É humanamente impossível sair algo fascinante com a maioria das escolas atrasadas e correndo como estão. Não posso generalizar demais, pois algumas estão prontas ou em fase final, como União da Ilha, São Clemente, Inocentes, Salgueiro e Vila. Mas existem outras em situação preocupante, principalmente Mocidade, Portela e Mangueira.
A União da Ilha está dando um show de competência e organização, com o barracão praticamente pronto e após um desfile técnico convincente. Acredito, cada vez mais, na briga forte da escola insulana para voltar entre as seis.
Na Inocentes, deu para ver, por fora, que o trabalho também está em bom ritmo.
A São Clemente não aposta em carros grandiosos, mas no acabamento primoroso, que é a marca do Fabinho. Além disso, o enredo é de fácil leitura e isto está claro nas alegorias. É outra que promete um final de janeiro tranquilo.
O Salgueiro, um pouco mais atrasado que estas duas, mostra alegorias com a marca do Renato Lage, com fino acabamento e muita criatividade. Já dá para ver que, mais uma vez, vem forte na briga.
A Tijuca, já aprendi, só pode ser julgada na Avenida, quando os carros e suas composições derem vida às ideias de Paulo Barros. Mas, aparentemente, o trabalho também está num bom andamento.
A Beija-Flor tem carros enormes, alguns já com visual bem interessante. É outra que não deve ter muitos problemas para o desfile e promete brigar pelo título.
Na Imperatriz, ainda falta um bocado, mas fizemos um belo passeio vendo boas fantasias e carros, alguns já finalizados, outros ainda um pouco atrasados.
Na Portela, muita madeira, na Grande Rio, poucos acabamentos podem ser vistos, na Mangueira, quase nada pronto e quase tudo escondido e, na Mocidade, muito ferro. É preocupante uma escola, a esta altura do ano, ainda estar com tanta movimentação de ferreiros, carros sendo desmontados e montados. Essa correria final acaba comprometendo o acabamento e a qualidade dos carros. Nenhum carnavalesco é mágico para, em um mês, transformar quase nada em um desfile histórico.
Sabemos dos problemas que todas tiveram no processo do recebimento do dinheiro. Problemas com os quais as escolas devem se acostumar, aprendendo a resolver suas burocracias e, quem sabe, perguntar ao pessoal da União da Ilha como se organizar para não deixar o bonde passar.
Leia também:
- A importância dos ensaios técnicos
Safra 2013: não chega a ser deliciosa, mas dá para beber!
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 07/01/2013 21h34
É uma pena que a maioria das escolas tenha entrado no, processo acomodado e simplista, de permitir que os escritórios de samba dominem as escolhas. Não tenho nada contra os escritórios, que não tem nada de ilegal. Sou contra escutar um CD de sambas-enredo e achar que está tudo igual. Mesmo formato, mesma divisão, métricas parecidas e sambas feitos sem a identidade da escola. Poucas agremiações fogem deste formato e mantém características próprias, conseguindo assim sair da mesmice. Não por acaso, duas destas escolas têm seus sambas como destaques absolutos deste ano.
Vila Isabel - A super parceria funcionou sim. O samba é lindo, melodia de muito bom gosto, passagens que nos fazem entrar pelo enredo e viver a história a ser contada. O refrão do meio nos coloca numa fazenda do interior do Brasil "Ô MUIÉ O CUMPADRE CHEGOU...". Esta é uma característica dos sambas do André Diniz na Vila, um dos grandes compositores do nosso tempo. Imaginem só termos ainda, na mesma parceria, Arlindo Cruz e Martinho da Vila??? A letra é poesia pura, simples e bem escrita, com passagens de uma beleza impar, como " A LUA SE AJEITA, ENFEITA A PROCISSÃO". Parabéns Vila, é sempre um prazer ouvir sambas assim.
Portela - Mesmo sem repetir o brilhante samba de 2012, a parceria bi-campeã da Azul e Branca de Madureira mostra que encarnou o espírito dos grandes sambas antigos, sambas que ajudaram a construir a reputação e a fama desta escola gigante do nosso carnaval. E é o samba que vai liderar a Portela em mais um desfile, independente dos problemas internos. É este samba raçudo que vai fazer o portelense novamente cantar mais do que nunca, esperando que o resto da escola acompanhe a obra e que ela volte a ser gigante também na avenida. Não o considero tão bom quanto o do ano passado, pois o acho um pouco "entulhado" e, consequentemente, mais difícil de cantar. Tenho preferência por estrofes mais soltas, que sobravam em 2012. Me incomoda um pouco também o trecho "CAI NA FOLIA, SEM GRILO, MEU BEM VEM NA FÉ, NA ILUSÃO DA FANTASIA, VAI COMO PODE QUEM QUER", que é melodicamente muito parecido com o refrão do Salgueiro de 1990 - "O SALGUEIRO É PRA QUEM TEM FÉ, NO GINGADO DA BAIANA VEM MEU POVÃO DIZ NO PÉ". Mas nada disso tira da escola e dos compositores o mérito de, mais uma vez, terem ousado e apresentado mais uma grande obra.
À partir deste ponto, está tudo mais equilibrado e prefiro NÃO COLOCAR EM ORDEM DE PREFERÊNCIA. Por isso, falarei, apenas, sobre as características de cada um deles.
Mocidade - Melodicamente, o samba é um grande acerto. Infelizmente, trechos muito bonitos não tiveram a companhia de uma letra à altura. Mas não é culpa dos compositores. O tema Rock in Rio não ajuda. Quem leu a sinopse do Louzada (bem escrita, por sinal), vê que está tudo alí. Mas fica um gostinho de que poderia ser diferente. Não sei se por imposição do patrocinador ou por outros motivos, a escola perdeu a chance de contar a história do rock, que teria sido muito mais rica e interessante. Mesmo assim, o samba me agrada bastante. O refrão do meio, para mim, é o melhor do CD. E o começo da segunda parte é um primor: "MÚSICA ME LEVA..."
Mangueira - Mais um bom samba escolhido pela verde e rosa na gestão Ivo Meirelles. Melodia bacana, boa letra, samba leve que,ao mesmo tempo, nos leva com a força de um trem. O único trecho que me incomoda é o excesso de sílabas no refrão final. "É POESIA DE-DI-CA-DA A CUIABÁ" ficou parecendo um manequim 46 para uma calça 38. Em compensação, a primeira parte do samba. até o trecho "CIDADE FORMOSA, VERDE-ROSA". é linda. Samba para nota 10.
Ilha - Ainda não foi desta vez que o Poetinha conseguiu uma homenagem à altura do que Vinicius de Moraes representou, mas o samba da Ilha não deve nada aos outros. Ao contrário, passa uma leveza e uma eficiência dignas de quem veio para brigar em cima. Tem ótimos trechos de melodia e letra. Os grandes destaques, para mim, são o refrão do meio e o trecho "LEVOU A BOSSA NO TOM D´ALEGRIA SE É CANTO DE OSSANHA MENINA, ENTÃO NÃO VÁ!"
Grande Rio - Mais um exemplo de que enredo fraco dificilmente dá samba. Os compositores tentam fazer evoluir com alguns trechos de melodia mais inspirados, mas esbarram num tema sofrível e pouco carnavalizado. O refrão principal diz pouco e, no geral, os assuntos ficam repetitivos. Acho bom o trecho "EU QUERO UM LUGAR PRA VIVER, SEGURANÇA E SAÚDE PRA DAR E VENDER E, ASSIM, RECICLANDO EU VOU VER A VIDA RENASCER". Mas é muito pouco.
Inocentes - Samba correto mas nada excepcional, dentro do padrão que todas as escolas se acostumaram a fazer. E aí está o erro. Acho que para enfrentar a dura batalha de permanecer no grupo especial, a turma da Baixada deveria ter ousado mais, arriscado mesmo. O samba apresenta alguns momentos mais inspirados, como o refrão do meio que é bonito e fácil de cantar. A letra e o enredo estão bem contados, mas, como disse antes, me parece pouco para quem sonha com a permanência na elite.
Beija-Flor - Gosto deste samba. Enxergo uma mudança na escolha deste ano. Apesar de ser melódico, a obra nilopolitana tem um aspecto mais guerreiro, mais forte. A gente consegue imaginar a escola desfilando e cantando muito. Alguns trechos, para mim, têm destaque, como " SOU PURO-SANGUE AZUL E BRANCO, UM ACALANTO, A MAIS SUBLIME CRIAÇÃO" e o refrão do meio, que fugiu bem ao estilo dos últimos sambas da Beija. Em compensação, acho que poderia ser evitada a citação sobre um possível título,que acaba passando uma visão arrogante - " SE A MEMÓRIA NÃO ME FALHA, CHEGOU A HORA DE GRITAR É CAMPEÃO".
Tijuca - É mais um samba correto, bem montado, com alguns momentos bonitos de melodia, mas que deixa a impressão de pasteurizado. Vai servir bem para o desfile e aí vem a diferença para o que falei sobre a Inocentes: a Tijuca já tem uma marca entre as grandes, um excelente carnavalesco e uma equipe de carnaval reconhecida no meio. Isso faz com que um samba correto funcione bem. Gosto muito do refrão principal - "METADE DO MEU CORAÇÃO É TIJUCA, A OUTRA METADE É TIJUCA TAMBÉM" - e gosto da exaltação no final da primeira parte, "TIJUCA, QUERIDA, RAZÃO DA MINHA VIDA".
Imperatriz - Entre letra e melodia, é um dos mais belos sambas do ano. A dúvida que fica é: será que vai funcionar???? Ano passado, a aposta num samba de estilo parecido arrastou junto com a Imperatriz na avenida. Este ano, a aposta é a mesma. Falando especificamente sobre a obra, é um conjunto de trechos corretos, com passagens muito belas. Apesar de ser um enredo já batido e da saudação à Virgem não ser nenhuma novidade, o trecho é belíssimo e de se cantar a plenos pulmões. Fica a torcida para que ele aconteça no desfile.
São Clemente - Ouvir este samba a primeira vez é de uma estranheza só. À medida que fui ouvindo, as coisas foram clareando e comecei a entender a ideia. É difícil você criar um elo entre histórias e personagens tão diferentes como o das novelas. Então, os compositores resolveram apostar numa "colcha de retalhos", juntando fatos e nomes. O ponto forte do samba da São Clemente é, mais uma vez, a diversão. O refrão do meio é ótimo e faz referência a algumas frases e expressões marcantes das novelas. A impressão que fica é que será um samba funcional para o desfile. Não é o tipo de samba que me agrada, mas pode fazer ferver o desfile da escola.
Salgueiro - Deixei o Sal por último, mas o motivo é especial. Aqui está uma prova de que não podemos julgar o que vem antes da hora. Quando a alvi-rubra fechou o patrocínio com a revista CARAS, muita gente torceu o nariz. Vamos combinar que, realmente, não era um cenário animador, mas Renato Lage entrou em ação, achou uma saída interessante e o samba de Marcelo Motta e cia, se não é um dos melhores, está longe de ser um dos piores. É um samba interessantíssimo, com um refrão principal que deixou de lado a mania dos "sambas pipoca" e um começo de primeira, bem melódico - "TENHO FAMA DE FAZER HISTÓRIA POR SER DIFERENTE, QUEM ME AMA É PARTE DAS PÁGINAS QUE ESCREVÍ, QUERO SIM, ETERNIZAR A MINHA VIDA, MEU NOME OUTRA VEZ NA AVENIDA, PORQUE SEMPRE FOI ASSIM". O problema é que, daí em diante, a melodia se perde, fica um pouco confusa e se torna o ponto fraco do samba. A obra volta a ficar bem interessante no final, quando fala nas celebridades - " VIDA DE CELEBRIDADE É UM VAI E VEM". No geral, acho que vai levantar a Sapucaí mesmo sendo a segunda escola de domingo.
Enredos 2013: primeiras impressões
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 16/04/2012 12h44
As escolas do Grupo Especial se adiantaram e já começam a definir seus enredos para 2013. E o que o que vi e ouvi, até agora, me agradou bastante.
As novelas da São Clemente em "Horário Nobre" mantém a pegada sensacional que a escola imprimiu em 2012. Repete a fórmula de juntar bons espetáculos, popularizar mais a escola e conseguir um bom samba. Aliado a isso, está a mobilização que a escola da zona sul consegue para angariar recursos para o desfile e a permanência, mais do que merecida, do Fabinho como carnavalesco. Tomara que, se for repetido o sucesso do desfile de 2012, ela seja melhor julgada do que foi este ano.
Madureira vai guiar a Portela. O famoso e histórico bairro também pode ser bom combustível para, novamente, encher a alma do portelense de orgulho. Marca também a busca por passagens importantes da escola em seus 90 anos (que serão completados em 2013) e a possibilidade de homenagear sambistas que fizeram o nome do carnaval. Além de todos estes ingredientes, Madureira tem uma história rica mas que precisa ser muito bem desenhada e explorada pelo Paulo Menezes. É preciso fazer uma belíssima pesquisa para enriquecer e dar forma a todo o contingente de uma escola de grupo Especial.
Vinícius não é novidade, a novidade é a Ilha falar de Vinicius. A escola insulana vai apostando, definitivamente, numa mudança de postura. Ganha ares mais sóbrios em vez de apostar na alegria e na leveza que sempre foram a principal marca da escola. Aliás, mudança que já pode ser vista no desfile deste ano. Então o que falta à Ilha? Talvez mudar o estilo de samba para acompanhar o novo caminho. Vinicius pede um samba mais bonito, mais trabalhado e mais cadenciado do que as obras que a escola vem apresentando. Se é para mudar, então chegou a hora de mudar de vez!
Os cavalos da Beija-Flor me agradam demais. Talvez seja o animal mais presente na história da humanidade em passagens épicas de várias culturas deste mundo. Riquíssimo e cheio de variáveis possíveis para ilustrar o tema, a Beija promete vir galopando forte para recuperar o título perdido em 2012.
E o mais legal é que todos estes enredos citados acima nos permitem sonhar com bons sambas e, pelo menos, com uma repetição da boa safra deste ano. Vamos torcer!!!
Boas novas no Grupo A
A Império da Tijuca chegou com novidades e contratou Juninho Pernambucano. Fiquem tranqüilos, vascaínos, o seu time não vai ficar desfalcado por causa do carnaval. O carnavalesco, homônimo do craque, é formado em Três Rios, na escola Bom das Bocas, e é conhecido do mestre Capoeira. Quem já viu os desenhos do rapaz garante que vem coisa boa por aí. Bela aposta do Presidente Tê.
Um sopro de esperança da LESGA
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 03/04/2012 01h34
Estamos divididos. Os pessimistas consideram a aclamação do Déo Pessoa "mais do mesmo" e não enxergam um futuro limpo para a entidade. Os otimistas acham que o nome de Déo pode trazer de volta a credibilidade e a transparência que abandonaram a LESGA nos últimos anos. Eu prefiro dar um voto aos otimistas. Depois de tanta confusão, tantas acusações e julgamentos lamentáveis, não acho possível que as escolas se reúnam para manter um modelo ultrapassado. Nós, amantes do carnaval, devemos sim nos policiar para evitar pré-julgamentos. Se a Rocinha for campeã, não será por que o presidente da LESGA era presidente da escola. Se a Santa Cruz vencer, não será por "estar acertado antes", como adoram dizer os fofoqueiros de plantão. Mas é certo que o resultado da avenida será atenciosamente julgado por todos os espectadores.
Depois do showzinho particular do prefeito, que falou, falou, falou e não fez nada além de mandar tweet eleitoreiro*, espero que, em 2013, os rebaixados desçam e o vencedor seja merecedor, sem notas 10 de ponta a ponta. Que as escolas sejam julgadas pelo que apresentam na avenida e não por seus nomes, presidentes e influências e que esta lisura chegue também ao grupo B, onde muitas escolas esqueceram seus desfiles em casa para coroar de vez a brilhante performance da Caprichosos. Boa sorte, Déo. Mas saiba que estaremos de olho!!!
* Para quem não sabe, o nosso bravo prefeito tweetou que o Império Serrano deveria ser campeão. Se as escolas que estavam disputando o título eram Cubango, Viradouro, Inocentes e Império Serrano, qual delas vocês acham que seria interessante para o prefeito que fosse a vencedora: uma das duas de Niterói, a de Belford Roxo ou a do Rio de Janeiro?
Que destino, LESGA???
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 19/03/2012 15h53
Quando a LESGA começou, foi um sopro de esperança para os amantes do
samba, cansados de resultados armados e notas duvidosas no carnaval.
No primeiro ano, comandados por Maria Augusta e Haroldo Costa, fizeram um julgamento justo e, até, surpreendente, com a subida da União da Ilha. Conheço jurados que fizeram parte deste grupo e sei que são pessoas "do bem", que me confirmaram os procedimentos tomados.
Inexplicavelmente, tudo foi mudado no ano seguinte e começaram as polêmicas, com resultados previstos antes dos desfiles, presidentes indo a público falar de armação e, depois, se calando de forma igualmente inexplicável. Muito feio isso!! Só que, mais uma vez, os rumos parecem mudar. Não pela propagada "bondade" de nossos governantes. A verdade é que tudo gira em torno de interesses políticos e financeiros e é de olho em mais uma gorda fatia que o prefeito e sua turma metem a colher. O fato é que, hoje, a LESGA está órfã. Ainda não foi encontrado um nome para comandar as mudanças nesta Liga, alguém que mude este aspecto de "armação ilimitada". Criar uma nova Liga leva tempo demais e tem muita burocracia envolvida. A solução é manter a LESGA e tentar mudar sua cara atual. Por sinal, bastante feia.
Os ex-mandatários estão isolados e as outras escolas se uniram em busca de soluções que mudem o panorama. Mas é preciso que isso seja feito rapidamente. Mudar a cara atual atual leva tempo e precisa de trabalho e muito respeito. Espero que encontrem este nome e que façam um trabalho que nos dê orgulho de voltar a assistir o carnaval de sábado, que sempre foi dos mais simpáticos.
Gosto é pessoal
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 14/03/2012 12h42
Esta frase é uma das mais ouvidas em nossas vidas desde pequeno e, talvez por isso, tenha tanto respeito por ela. Como, acima de tudo, me divirto vendo os desfiles, vou listar algumas coisas que me agradaram muito no Carnaval 2012.
A Comissão de Frente da Renascer me deu a impressão de que teríamos algo grandioso vindo por alí. Mesmo que a impressão tenha se desfeito durante o desfile, ela deixou uma ótima impressão.
O samba da Portela foi de uma alegria, de um encantamento poucas vezes visto nestes últimos anos em qualquer escola. Ele impulsionou os fanáticos de Osvaldo Cruz e Madureira a conseguir um lugar nas campeãs mesmo em um desfile com alguns erros.
Os carros do Max na Imperatriz (exceto o último, que quebrou e, por isso, não cabe julgamento) eram grandes, bem acabados e bem resolvidos. Cheguei a brincar que, se a Portela viesse com as alegorias da Imperatriz, brigaria pelo título.
O bom começo de desfile da Mocidade surpreenderam. Os primeiros carros e alas deram a impressão de que a Estrela Guia viria para o título. Mais um ponto que mostra que, se tivesse dinheiro, Louzada teria feito um dos melhores carnavais de sua carreira. Pena que a sequência não manteve o mesmo nível.
A bateria de mestre Diogo merecia brigar firme pelo Estandarte e os demais prêmios. Em um desfile fraco, ela se salvou e foi o fio condutor da escola neste Carnaval. Uma pena ter que ver esta bateria no sábado, ano que vem.
Mesmo abusando de monstros e figuras pouco carnavalescas, a grandiosidade e acabamento dos carros da Beija-Flor valem destaque. É assustador (em todos os sentidos... rs) o trabalho de barracão da escola. Vale destacar também a Selminha Sorriso. Quando todos achavam que sua "época" havia passado, ela girou majestosa, deu a volta por cima e nos brindou com um belíssimo desfile.
Na Vila, fico na dúvida por onde começar. Adorei as fantasias, o samba e o desfile. Que garra, que emoção. Incorporou outra vez Kizomba e deixou saudade este ano. Vale também destacar a Comissão de Frente, um show a parte.
Na São Clemente o destaque tem nome: Fabinho. Abusou do bom gosto e do acabamento nos carros e fantasias e a escola veio junto e fez um desfile sensacional. Deveria ter voltado nas campeãs.
Os figurinos da União da Ilha também me chamaram a atenção num desfile riquissimo. Mesmo que sentindo falta da empolgação tradicional, a passagem da Ilha foi de encher os olhos.
Os carros e fantasias do Salgueiro mostram que Renato Lage é único, é especial. Se a escola tivesse feito 70% do desfile que fez nas campeãs, teria levado o título. Pena que deixou para nos emocionar somente no sábado.
A Mangueira fez um dos mais pobres desfiles dos últimos anos, mas deixou sua marca, nem tanto pela Paradona, que ainda considero um erro, mas pela bateria do mestre Aílton. O grau de dificuldade para retomar o ritmo depois da "invenção" era grande e a bateria o fez com maestria. Além disso, impôs um ritmo exuberante durante todo o desfile. Nota 10.
O que mais gostei na Tijuca é o que mais gera discussão: a capacidade do Paulo Barros de pegar um tema difícil e carnavalizar de uma maneira que divirta a todos que estão assistindo. Além disso, o setor do mestre Vitalino foi o que de melhor passou pela Sapucaí este ano.
No desfile da Grande Rio, só me chamou a atenção o abre-alas, que era de fácil execução mas deu um bom efeito na avenida, e, SEMPRE, a bateria de mestre Ciça. Mais um show.
E vale registrar o momento que mais me emocionou em todos os dias de carnaval: a passagem de Dona Ivone Lara na avenida. Lindo, lindo...
Vamos lá. Aproveitem os comentários para expor o que viram de melhor em todos os dias de desfiles, o gosto de vocês.
Bola de Cristal III
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 23/02/2012 20h01
E não é que o exercício funcionou com 90% de acerto?
Quando escrevi o primeiro Bola de Cristal tentava imaginar o que seriam os resultados da Sapucaí, através da minha avaliação dos ensaios técnicos e da visita aos barracões. Fui muito criticado por pessoas que não entenderam o objetivo do texto. Mas o resultado do grupo Especial mostrou que isso pode até fazer sentido.
Naquele texto, coloquei Salgueiro, Vila e Tijuca brigando pelo título. Foi o que aconteceu.
Coloquei Portela e Beija-Flor no sábado das campeãs. Também aconteceu.
Afirmei que Mangueira, Grande Rio e União da Ilha brigariam por uma vaga no sábado. Injustamente, a vaga ficou com a Grande Rio, assim como não seria justo que ficasse com a Mangueira, que, apesar do "sucesso" da Paradona, não fez um bom desfile.
Na parte de baixo da classificação, cravei que Renascer e Porto da Pedra teriam que lutar muito contra o rebaixamento e que, dificilmente, o evitariam. Isso também acabou acontecendo.
Sobre a Mocidade, o comentário que causou revolta em algumas pessoas, o que disse foi que havia me decepcionado com o barracão. Na avenida, vi que não estava errado, que os carros, apesar de muito bem acabados, eram realmente irregulares. O começo do desfile foi incrível, mas perdeu força mais para o final e a avaliação dos jurados de alegorias também foi esta.
O que poderia ser considerado o meu grande erro no texto, foi a avaliação da São Clemente. Mas acredito, sinceramente, que o erro não foi meu. Para mim, a escola da zona sul grande injustiçada deste carnaval. A São Clemente foi uma das que mais arrancou aplausos na Sapucaí. Fez um desfile corretíssimo, com carros e fantasias de muito bom gosto e um samba que empolgou. Uma pena que os jurados ainda discriminem certas escolas pelo nome. Absurdo também foi a Renascer sair do grupo Especial sem levar nenhum 10. Merecia cair sim, mas poderia ter sido de maneira mais digna.
Segunda de luxo
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 21/02/2012 09h42
O Domingo deixou uma boa sensação, mas a segunda foi arrebatadora com emoções de todos os tipos: boas e ruins e foi, tecnicamente melhor que o dia anterior.
São Clemente - Bum Bum de fora, pernas pro ar...que desfile!!! Já esperava bastante da São Clemente mas ela conseguiu superar as minhas expectativas. O Fabinho beirou a perfeição, quem o acompanha desde a Mangueira, passando pela Rocinha, sabe que ele vai se tornar, em breve, um dos maiores carnavalescos do Rio. Ouso dizer que foi um desfile tão bom quanto "O samba sambou". O samba funcionou muito bem e, a cada alegoria e fantasia que passavam, minha satisfação aumentava. A bateria de mestre Caliquinho cumpriu muito bem o papel com boas bossas e a paradinha do violino era sensacional. Pena que a Comissão de frente me deixou com a sensação de que faltava algo nela para um 10 e algumas alas comerciais teimaram em não cantar. Nada que possa tirar o brilho deste grande desfile. Merece sonhar com uma vaguinha no sábado afinal "O violino anuncia, vem viajar na magia"
União da Ilha - Estranho, terceiro ano da Ilha no Especial e vai se confirmando uma tendência: a escola mudou. Talvez pelo fato de ter que brigar pela permanência no grupo com outras necessidades, como um carnaval mais pesado do que a escola está acostumada(deixando claro que aqui não vai nenhuma crítica).
A abertura do desfile impressionou pelo peso e beleza das roupas e as alas e carros iam seguindo com o mesmo capricho do Alex. Mas ficou a sensação de que a escola não teve evolução, não cantou e não dançou tanto. Pontos que sempre foram a marca da União da Ilha. Mas fez um bom carnaval, digno de grupo Especial. A bateria do Riquinho, como sempre, muito bem e vale ressaltar a bela homenagem a Maria Augusta, que veio de rainha Elizabeth na ótima comissão de frente.
Salgueiro - entrou na avenida com pinta de campeã, comissão de frente bem entrosada com o enredo, um pede passagem e um belo abre-alas. Os carros foram aparecendo, um após o outro, cada vez mais bonitos, com pequenos problemas de acabamento mas nada que pudesse estragar o conjunto da obra. As Baianas mais leves chamaram a atenção e as fantasias acompanhavam a riqueza e o bom gosto de Renato Lage. O problema é que o Salgueiro teve sérios problemas com harmonia e evolução, abriu buracos em alguns setores e não conseguiu confirmar toda a expectativa mas vai brigar pelo título.
Mangueira - Algumas escolas tentam impressionar, outras emocionar. A verde e rosa optou pelo segundo caminho e fez uma manobra ousada: resolveu transformar parte do desfile numa roda de samba deixando bateria e puxadores mudos enquanto artistas e a escola cantavam. A manobra só não foi um desastre completo pois o público respondia bem a cada tentativa. O problema é que os jurados viram uma escola ficar sem harmonia em sua maior parte já que o som da "roda de samba" não chegava a maior parte dos desfilantes. Isso certamente vai prejudicar o julgamento da escola que já não veio bem de alegorias e fantasias. O desenvolvimento do enredo foi bastante confuso e prejudicou a compreensão do desfile. O destaque foi, mais uma vez, a bateria de mestre Aílton que deu um show e não foi prejudicada pela manobra da escola.
Tijuca - Entrou em cena na briga pelo título. Quem duvidou de Paulo Barros, mais uma vez, teve que se render a criatividade e soluções geniais num enredo que, diziam os críticos, "não é a cara dele". Momentos lindos e marcantes levantaram as arquibancadas. Mais uma vez, a comissão de frente levou o público ao delírio. Mas dois momentos muito emocionantes marcaram o desfile: o setor que falava do Mestre Vitalino e o último carros com Gonzagão no céu e as "Asas Brancas" batendo em volta. Destaque também para a roupa das Baianas que encantou pelo bom gosto e beleza. Mesmo com alguns problemas de acabamento no carro do mercado, veio para marcar o carnaval de 2012 e pinta como grande favorita. Bateria do Casa Grande e Bruno Ribas levaram o bom samba com muita competência.
Grande Rio - foi um desfile morno. Gostei muito do abre-alas com boas soluções. A bateria do Ciça também foi muito firme. O samba morreu na avenida, não era bem cantado nem fora e nem dentro da pista. A comissão de frente foi regular com a idéia das crianças vencendo seus medos. Não gostei da roupa das Baianas e achei as fantasias muito irregulares.
Um dia de alegria
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 20/02/2012 20h14
Boas surpresas marcaram o domingo de desfiles na Sapucaí. O furacão Portela subiu o Pelô, navegou na procissão e varreu o Bonfim e toda a Sapucaí com um samba extraordinário, o ótimo acabamento dos carros de Max Lopes e Alexandre Louzada e mais um samba que fez um dia clarear sem cansar: Angola da Vila Isabel. Mas nem tudo foram flores.
Renascer - Fez um bonito desfile, mas manteve a cara do grupo de acesso. Desde o barracão já dava para imaginar que não seria um desfile arrebatador e a escola não conseguiu mostrar força para permanecer no grupo. Os destaques foram a comissão de frente, o belo casal de mestre-sala e porta-bandeira e a bateria.
Portela - No mínimo, fez o portelense, tão sofrido nos últimos anos, voltar a sentir o orgulho de sua escola. Que desfile, que samba e que canto contagiante. A comissão de frente, mesmo simples, me emocionou. Pena que o acabamento dos carros não ajudou. Mas está com tudo para voltar no sábado.
Imperatriz - O Max foi o Max dos bons tempos. Além de bem vestida, a escola mostrou carros muito bem acabados e imponentes. Pena que a verde e branco de Ramos se complicou no que tem de melhor: a evolução. Um problema no abre-alas, no setor 11, e dificuldades com a montagem do último carro fizeram com que a escola perdesse muito tempo e tivesse que correr demais para terminar o desfile. O samba não funcionou, arrastou demais e o desfile ficou muito frio, principalmente por vir depois da Portela.
Mocidade - Os carros do Louzada estavam com um primor de acabamento que deveriam servir de curso para quem quer ser carnavalesco. Aqui, o problema foi a irregularidade. Até o quarto carro, a Mocidade fazia desfile de título, mas, no final, o dinheiro parecia ter acabado, exatamente a impressão que tive quando visitei o barracão. Achei as fantasias um pouco pesadas, a comissão de frente fraca e os desfilantes muito desanimados para um dos melhores sambas da noite. Mesmo com tudo isso, confesso que o desfile me surpreendeu positivamente e, na minha opinião, foi o melhor da escola nos últimos anos.
Porto da Pedra - Se uma comissão de frente pode ajudar a levantaruma escola, também pode ajudar a enterrá-la. Tirando os efeitos especiais da roupa, em nada me agradaram os lactobacilos vivos. Acho que o Jaime Césário tirou leite de pedra (sem nenhum trocadilho com o enredo), mas não deu para a escola de São Gonçalo. Não empolgou, não brilhou e briga para não cair. O casal de mestre-sala e porta-bandeira foi o grande destaque, com muita sintonia e apresentações emocionantes.
Beija-Flor - Escura e sombria, a azul e branco de Nilópolis abusou dos tons fechados. Mesmo assim, os carros eram imponentes. A comissão de frente criou sérios problemas para a evolução da escola, que teve que correr demais no final. Entra na briga pelo título, mas sem grandes favoritismos.
Vila Isabel - A melhor da noite. Pela falta de empolgação do começo, o desfile não chegou a ser uma "Kizomba", mas à medida que o desfile passava, as alas se empolgavam e o final foi apoteótico. A comissão de frente foi, disparada, a melhor da noite. As fantasias da Rosa estavam belíssimas, mas os carros vieram um pouco irregulares. O destaque da escola foi a brilhante parceria entre o sensacional samba e a bateria de mestre Paulinho, que voltou a ser a verdadeira Swingueira de Noel. Volta no sábado e briga pelo título.
Bola de Cristal II
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 17/02/2012 01h47
Devido à grande repercussão do primeiro texto e por perceber que muitos não entenderam a mensagem dele, me senti na obrigação de explicar melhor o sentido do "Bola de Cristal".
1- Em nenhum momento me senti dono da verdade ou ignorei o que vai acontecer no desfile. Muito pelo contrário, comecei o texto dizendo "Quer saber como vai ser o carnaval da sua escola? Consulte uma vidente". Claramente afirmei que não estou adivinhando nada e nem seria capaz disto.
2- Não seria louco de achar que os ensaios e o barracão são definitivos no resultado final. Por isso, disse: "Segue uma avaliação escola por escola levando-se em consideração que todas desfilarão corretamente. Porque é claro que erros de desfile e/ou problemas na Sapucaí acontecem e podem mudar totalmente essa avaliação".
3- Em NENHUM momento agrido ou diminuo a Mocidade, apenas digo "excelente samba, bons ensaios, mas o barracão me decepcionou demais". E a minha decepção é totalmente justificável. Quem leu meus posts anteriores, viu que a escola que mais elogiei no começo do processo do carnaval foi a Mocidade. Achei as contratações fantásticas e, por isso, esperava demais do barracão do Louzada, de quem, sempre, espero muito. Isto não quer dizer que o barracão está feio, pobre ou seja lá o que for.
4- Como acompanho o carnaval há anos, sei muito bem que a decisão virá nos desfiles e que muitas surpresas estão reservadas para quem os acompanha. Estas surpresas podem ser decisivas, como a Comissão de Frente da Tijuca em 2010, mas os dados que já temos nos ajudam a começar a ter uma noção das tendências de cada uma das escolas.
5- Por fim, como vários leitores, eu também tenho meus palpites e minhas opiniões. A opinião de todos é sempre muito saudável, a crítica gratuita e agressiva é que não combina com a nossa realidade.
Carta branca aos leitores
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 15/02/2012 13h35
Não sou e nem pretendo ser o "dono da verdade". Por isso, embora muitos possam não acreditar, sempre leio todos os comentários postados aqui - até aqueles cuja única finalidade é a agressão pura e gratuita - porque sei que qualquer possibilidade de aprender não pode e não deve ser ignorada. E em respeito a todos os que gastam seu tempo comentando meus posts, não respondo a nenhum deles. Não porque não queira, mas porque não teria tempo para responder a cada um deles individualmente.
Como tenho visto que algumas pessoas ficam muito chateadas apenas por não concordarem com minhas opiniões, estou escrevendo esse novo e inesperado post somente para dizer que o que escrevo aqui é, simplesmente, a "minha" opinião. Assim como o que é escrito em cada um dos comentários é a opinião de seus autores, ainda que eu possa não concordar com algumas delas.
Não critico ou elogio escolas para obter benefícios. Quando faço uma critica, estou emitindo a opinião de alguém que vive o carnaval há muitos anos e, modéstia à parte, entende um pouquinho desse universo. Já fui diretor de harmonia na Mangueira e na Ilha, diretor de carnaval em três escolas e compositor vencedor no grupo Especial. Sou ritmista porque gosto muito e estudo as baterias. E fui sim presidente de uma linda escola que precisava de ajuda e que, infelizmente, por problemas muito acima do meu alcance, acabou caindo de grupo no meu último ano de mandato. Mas não fui eleito e jamais me candidatei. Não tenho nem nunca tive essa pretensão.
Por tudo o que aprendi com essas escolas e que venho aprendendo com os comentários de vocês, é que gosto demais desse universo. Para mim, o momento que mais espero acontecer é o dia de ver todas elas, em cada um dos grupos, disputando o campeonato.
E falando especificamente da Mocidade, a quem elogiei em vários posts anteriores, nunca teria qualquer tipo de ódio ou raiva da escola de Padre Miguel. Não poderia. A Mocidade faz parte da minha vida. Foi vendo "Tupinicópolis", em 1987, que, pela primeira vez, me diverti de verdade em um desfile. Aliás, tenho ótimas histórias com várias escolas que hoje fazem parte dos grupos Especial e A, sou e serei um eterno fã desta festa sob qualquer ótica.
Bola de Cristal
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 13/02/2012 22h31
Quer saber como vai ser o carnaval da sua escola? Consulte uma vidente. Mas se quiser saber quais as possibilidades reais para o carnaval 2012, siga lendo.
Muitos acham que as opiniões são baseadas em chutômetro, bola de cristal ou premonição. Nada disso. A gente anda pela avenida nos ensaios, corre as escolas, escuta as pessoas envolvidas e, principalmente, vai aos barracões para ver os carros. E querem saber, pouca coisa mudou sobre o meu último texto. Algumas escolas caíram de favoritas para voltar nas campeãs e outras passam a ter que se cuidar contra o rebaixamento.
Segue uma avaliação escola por escola levando-se em consideração que todas desfilarão corretamente. Porque é claro que erros de desfile e/ou problemas na Sapucaí acontecem e podem mudar totalmente essa avaliação.
Salgueiro: bons ensaios, bom samba e excelente barracão, praticamente pronto e entregue. Favorita ao título!!
Vila Isabel: ótimos ensaios, ótimo samba e barracão muito bom, ainda faltando alguns acabamentos. Favorita ao título!!
Unidos da Tijuca: bons ensaios, bom samba, mas o barracão não me convenceu por completo. Porém, é Paulo Barros e temos que esperar. Favorita ao título!!
Beija-Flor: o último ensaio foi bom, o samba não me convence e o barracão, pelo pouco que vi, não está tão bonito. Volta nas campeãs.
Portela: excelente samba, ótimo ensaio este fim de semana e barracão um pouco atrasado. Mas o que está pronto está bem bonito. Volta nas campeãs.
Grande Rio: samba chato, ensaio ruim, barracão mais ou menos. Torce para voltar nas campeãs.
Mangueira: o samba é bom, a bateria é a melhor, mas o barracão e o ensaio não me convenceram. Briga para voltar nas campeãs.
Imperatriz: bom samba, ensaio que me impressionou (o último) e um barracão que está bem direitinho. Briga para voltar nas campeãs.
União da Ilha: Samba estilo Ilha, ensaio bom (o segundo) e um barracão que me surpreendeu demais. Briga para voltar nas campeãs.
São Clemente: bons ensaios, bom samba e barracão muito correto, ao estilo Fabinho. Acho que não cai e pode brigar para voltar.
Mocidade: excelente samba, bons ensaios, mas o barracão me decepcionou demais. Acho que não briga por nada e pode passar sufoco.
Porto da Pedra: não me convenceu nos ensaios, não me convence no samba, mas, plasticamente, não está mal. Briga contra o rebaixamento.
Renascer: Ensaios razoáveis, samba razoável, barracão que não me convence. Briga contra o rebaixamento.
Podem me cobrar!!!!!
Quem vai ganhar o Carnaval 2012?
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 11/02/2012 17h20
Falta uma semana, sete dias para os desfiles começarem e, pela primeira vez, se me perguntarem quem vai ganhar o carnaval, te dou, pelo menos, seis opções. Näo lembro de ter passado por isso antes. Quando penso nisso, as primeiras imagens que me vêm à cabeça são os ensaios da Vila, os dois na Sapucaí e os que vi na 28 de setembro. Que canto, que samba, que bateria!!! Basta? Claro que não! O barracão andou, está bonito, mas é muito cedo para considerar a Vila a única favorita . Aí penso no Salgueiro, o melhor carnavalesco da atualidade, um bom samba, boa bateria, excelentes ensaios... Não, ainda não me convenceu por inteiro.
Lembrei da Tijuca, que fez um primeiro ensaio maravilhoso, tem um ótimo samba e um carnavalesco que SEMPRE pode nos surpreender, mas não tenho cacife para cravar as minhas fichas só na Tijuca. Como também nunca vou dizer que a Beija-flor está fora. O barracão está muito bonito, mas algo me diz que este não é ano de título em Nilópolis. Meu Deus, toca, neste momento, o samba da Portela. Como pude esquecer do melhor samba do ano, um resgate às verdadeiras raízes da escola de Osvaldo Cruz e Madureira? O barracão está bonito, nada fora do normal, mas está na briga. E a Mangueira, a minha Mangueira, mesmo com notícias de atraso de barracão, tem samba, tem bateria - aliás, a melhor bateria de todos os ensaios técnicos que passaram pela Sapucaí - e tem aquele povo cantando, emocionando e emocionado quando olha para a arquibancada e vê que boa parte do sambódromo está com eles. Será que esqueci de alguém? Dizem que era o ano da Grande Rio, mas dessa aí, nada me convenceu.
Mas falta ainda uma semana e muita coisa pode mudar até a sirene tocar e, como diz o samba da São Clemente, a orquestra entoar o nosso cantar. São setecentos metros de avenida e, até o portão do final se fechar, tudo pode acontecer.
Um dia com Jamelão, o mestre que cantava e encantava
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 06/02/2012 11h21
Sempre tive aquele respeito, quase medo, ao ver o mestre Jamelão na quadra da Mangueira na minha época de compositor. Sabe aquela sensação de estar vendo alguém que antes só freqüentava o seu imaginário? Pois era assim que me sentia. E ele ficava lá no cantinho dele, com os elásticos na mão e batucando, discretamente, em sua mesa enquanto esperava a hora de soltar a voz que nem a idade, nem as seguidas doenças conseguiram alterar. Me lembro que, durante as eliminatórias para o samba de 2004, ele sumiu da quadra. Foi levado para São Paulo, onde seria mais bem tratado do grave quadro de diabetes.
Pensava que nunca iria realizar o sonho de ouvir um samba meu gravado pela voz do mestre dos mestres. Ganhamos o samba e a diretoria da Mangueira começou a montar um mega esquema para viabilizar a participação de Jamelão na gravação do CD. Foi gravada a base com o Clóvis Pê, cordas, bateria e nada de Jamelão. Os jornais chegaram a dizer que o mestre tinha uma amante em São Paulo... E o homem lá, preso a uma cama de hospital. Um dia, recebemos uma ligação do presidente Alvinho: "a voz será gravada em São Paulo". Arrepiamos. Seria o primeiro contato mais próximo com um grande ídolo. Fomos eu, Gabriel e Almyr, os parceiros do samba, Alvinho e Laíla para o estúdio.
Chegamos e o médico conseguiu uma saída rápida de Jamelão do hospital. Chegaram ao estúdio e foram recepcionados por uma equipe da Globo, o que fez crescer ainda mais o mau humor de Jamelão, que disse que só gravaria se a equipe fosse embora. Laíla conduzia os passos do Mestre. Ele sentou no estúdio, ficou escutando a gravação guia, pediu para tirar a voz do Clóvis e seguiu ouvindo a melodia. Aí começou um espetáculo inesquecível: como se a boca fosse um instrumento, ele pediu ao Gabriel que tocasse as notas no cavaco e foi afinando a voz, nota por nota. Confesso que, pode até ser normal, mas nunca tinha visto nada igual.
E aí começou a cantar, frase por frase, sem nenhuma pressa, durante horas, e comandado com grande paciência pelo Laíla. Da metade para o final da gravação, já bem mais solto e animado, ele brincava imitando o trem, brincadeira que ficou na gravação original. Pronto. Sonho realizado. Nosso samba ganhou alma na voz de Jamelão. Depois disso, o contato se estreitou e várias outras histórias nasceram. O meu respeito e carinho por Jamelão cresceram e já não enxergava mais aquele senhor carrancudo de quem muitos, inclusive eu, tinham medo. Vai chegando o carnaval e está na hora de ouvir de novo a gravação original para tentar diminuir um pouco a saudade da melhor voz que o carnaval conheceu.
Ecos de um simples ensaio, nem tão simples assim...
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 30/01/2012 17h45
Quando escrevi, semana passada, que um samba pode mudar uma escola e um bom samba pode fazer um desfile acontecer, muitos torceram o nariz. Quando avaliaram, erradamente, que estaria escolhendo a escola campeã do carnaval 2012 pelos ensaios técnicos, voltaram a se enganar. Conheço o suficiente de carnaval para não opinar desta forma. O que digo, e repito, é que um bom samba é a alavanca principal para que coisas boas aconteçam em um desfile. E este é o caso da Vila Isabel. Uma combinação de fatores, incluindo um ótimo samba e liberdade de componentes, transformou o ensaio do dia 22 de janeiro no MELHOR ENSAIO TÉCNICO QUE A AVENIDA JÁ VIU!!!
Isso quer dizer que a Vila vai ganhar o carnaval??? NÃO. Mas quer dizer que as outras precisam correr atrás, e muito, para cantar e evoluir como a Vila promete fazer no domingo de carnaval.
De fontes seguras, sei que tem muito medalhão de outras escolas já querendo proibir alas coreografadas (que lindo seria!!!) para dar liberdade aos componentes e tentar chegar ao grau de emoção e animação que a Vila chegou, no último domingo. Sinto dizer que, para a maioria das escolas, falta o essencial: um bom samba. O da Vila Isabel não é um bom samba, é um ÓTIMO samba. Ajuda a levantar a escola e impulsionar o povo de Noel que já gosta mesmo de cantar. Independente do resultado da avenida, pensem dirigentes como é importante escolher um bom samba e como é importante dar liberdade para seus componentes. Junte estes dois ingredientes e aposto que a sua escola vai sempre incomodar na Sapucaí. "Vibra, oh minha Vila...incorpora outra vez Kizomba...".
Hora da Polêmica: Será que teremos, este ano, finalmente, uma disputa?
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 21/01/2012 16h00
Eu sou daqueles que curtem o carnaval até a terça-feira gorda, mas cansei das injustiças dos envelopes e dos carnavais pré-decididos. Quando você conhece muita gente no meio, o que é o meu caso, você acaba sabendo quem vai ganhar antes mesmo do desfile começar. Isto fez com que eu criasse uma barreira de "limite de amor" pelo carnaval que morria na quarta-feira de cinzas. Este ano, apesar de não estar ainda buscando estas informações, mais uma vez, os "papos" começaram cedo e apontavam para a Grande Rio, escola que, historicamente, está por merecer um título mas, sinceramente, não em 2012. O enredo é fraco, o samba médio e o barracão não está lá muito empolgante. Sim, eu vi o barracão!! Sim, as coisas ainda podem mudar e surpreender. Mas não espero grandes evoluções.
Aparentemente, tudo começa a mudar com a possível queda dos bicheiros. Vejo a força de escolas que não dependem de mecenas crescendo assustadoramente. Isto poderia deixar o resultado do carnaval em aberto, o que, convenhamos, seria muito melhor, para nós e para o carnaval. Nesse embalo, vejo aumentarem as chances de Tijuca e Salgueiro, escolas que estão muito organizadas, com bons enredos, bons sambas (o da Tijuca é melhor) e excelentes carnavalescos (aqui, quem leva vantagem é o Salgueiro). E ainda torço para que o resgate da Portela e seu maravilhoso samba também possam brigar pelo título. Seria lindo para o nosso carnaval voltar a ver uma disputa emocionante e ganhar na emoção da avenida, com escolas igualmente grandes e com história para brigar pelo caneco.
VILA ISABEL:
Estive na 28 de setembro na última quarta para conferir o ensaio de rua da Vila. Estava curioso para ver como estava funcionando o samba que, para mim, é um dos melhores deste carnaval. Primeiro, vale destacar a forte presença da comunidade - um mar de gente, como sempre. Quando o ensaio começou, tive a impressão de que o samba está um pouco "pra frente", acelerado mais do que deveria. Senti um pouco de dificuldade do pessoal para acompanhar o canto no comecinho do ensaio. A parte da pergunta e resposta funciona muito bem, o povo responde com vontade "dança, jongo, capoeira", "ao sabor de um chorinho", "a herança verdadeira" e "agradece com carinho" mas, mesmo assim, fiquei com algumas dúvidas: como os trechos não cantados estão na letra do samba, será que os jurados não vão implicar com o fato de a escola não cantar estes trechos??? Além disso, como vem acontecendo com alguma frequência, o que será da escola se o som da avenida falhar? Sem escutar o Tinga, muito provavelmente as pessoas ficarão sem cantar os trechos dele , podendo causar uma tremenda confusão, com o risco até de atravessar o samba. É bom a harmonia da escola pensar bastante nisso. Mas tem destaque também: a bateria, ao contrário da bagunça musical do mestre Átila, está muito boa sob o comando do Paulinho. A Vila vem para fazer Kizomba. Aguardem!!
GRUPO A:
Para não dizer que não falei do Acesso, acompanhei alguns ensaios do grupo A, dois na Sapucaí e um na rua. E gostei do que vi, principalmente do Tuiutí. A escola fez um ensaio muito animado, tem uma comunidade que eu respeito e gosto demais e a bateria... Que prazer ver o Celinho de volta, categoria pura!!!
Ainda na Sapucaí, a Rocinha fez um ensaio correto, colocou mais gente do que o esperado e mostrou força.
No último domingo, acompanhei o ensaio técnico do Império da Tijuca. Apesar da enorme chuva que insistia em cair, a escola do presidente Tê colocou bastante gente para desfilar na rua. Destaque para a bateria do Capoeira que, mais uma vez, promete arrebentar no sábado de carnaval. O cara é meu amigo de muitos anos, mas sei muito bem separar bem as coisas. A competência dele vem de longe Parabéns, Capoeira! Parabéns, Imperinho!
Como é bom ter samba!!
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 17/01/2012 20h59
Tivemos três grandes exemplos de que um bom samba é o pilar de um grande desfile. Os ensaios de Mocidade, Portela e Tijuca foram sensacionais. O público que vai até a Marquês de Sapucaí é o público que gosta de carnaval, que sabe os sambas e canta com vontade. E são eles que servem de termômetro e fazem os melhores julgamentos. Isto ficou provado após o segundo fim de semana de ensaios técnicos.
A Mocidade tem um samba extremamente gostoso que fluiu perfeitamente no ensaio. A melhora da bateria é visível. Aliás, faz algum tempo que eu não falava que a bateria "não existe mais quente" era destaque de alguma coisa. Neste fim de semana ela foi o grande destaque entre as baterias.
Unidos da Tijuca e Gonzagão, outro sambaço e uma escola que já mostra como é ser grande. Fez um excelente ensaio técnico, trouxe emoção e surpresas e passou muito bem, num casamento perfeito entre bateria e samba. Principalmente agora, após seguidos ataques a cúpula do jogo do bicho, a Tijuca se torna, para mim, a grande favorita para este carnaval. E mostrou no ensaio que está quase pronta para isso.
A Portela é quem pode surpreender. Não paro de me emocionar com este samba e, no sábado, a Sapucaí também se emocionou e cantou... muito!!!
O samba está mudando a escola, está fazendo o portelense voltar a acreditar que um título é possível. Leio relatos de pessoas nos ensaios dizendo que o clima na escola, há muito tempo, não era tão bom. E aí vem a questão: o último grande desfile da Portela foi também acompanhado do último grande samba da escola no enredo sobre os carnavais em 95. Coincidência???
Salve a safra de 2012!!
Uma boa pedida
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 09/01/2012 23h58
Esta é para a turma que gosta de um bom som e uma excelente bateria. Fui ver a apresentação do conjunto Sambamix7, um novo grupo que mescla música pop com as batidas de surdos, tamborins, caixas e chocalho. O show foi no Teatro Rival no centro e superou qualquer expectativa. O cantor é muito bom, os músicos excelentes e o repertório é muito divertido, digno de uma bela noite animada e dançante. Para quem quiser se divertir, fica a dica, eles voltam a se apresentar no Rival todas as segundas à partir do dia 9 de janeiro até o carnaval.
Outra pedida muito interessante é a quadra da São Clemente, os ensaios temáticos são, literalmente, um show. Vale conferir a grande mudança por que passou a escola. Olho neles neste carnaval, vai ser um Bububu no Bóbóbó!!!
Indo a fundo nos sambas de 2012: uma análise mais detalhada
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 23/12/2011 11h48
Uma análise mais detalhada dos sambas depois de escutar bastante a safra de 2012
BEIJA-FLOR
A escola de Nilópolis parece ter pasteurizado a forma de fazer sambas. As melodias e formas são muito parecidas ano a ano e isso não é uma crítica positiva e nem negativa. Eu, particularmente, gosto deste estilo de samba. Funciona muito bem para este povo que morre cantando pela escola. Acho até que o samba de 2012 é melhor que o de 2011 mas falta emoção. Falta aquele momento em que, como diz um grande amigo meu, a gente usa para recarregar as baterias no desfile. E isso, o samba do Roberto Carlos tinha, Maranhão não tem.
O destaque, para mim, é a cabeça do samba - "Tem magia em cada palmeira que brota em seu chão..." - que é muito bonita em letra e melodia. O refrão do meio, tenho a impressão de já tê-lo ouvido 1000 vezes, mas funciona bem. Gosto também da parte final: "No rádio um reggae do bom...a arte do gênio João". Mas o que mais me incomoda é o refrão final, pobre de melodia e, principalmente, de letra, óbvia demais.
UNIDOS DA TIJUCA
Samba despretensioso, modesto, como era o Gonzagão. E é aí que ele cresce. Quanto mais o escuto, mais acho os termos nordestinos bem empregados, mais descubro passagens melódicas lindíssimas e percebo que este samba tem o mesmo estilo de melodia que o "Rei do Sertão" usava. Se foi proposital, não sei, mas é sensacional. A segunda parte então é um primor, a partir de "Simbora que a noite já vem"...até "Hoje tem coroação".
Grande expectativa para este desfile!
MANGUEIRA
Um samba de altos e baixos. Tem momentos bastante emocionantes, como a segunda parte até "...fez o meu sonho acontecer". Depois disso, se perde na melodia, deixando o final bem chato. O refrão tem o estilo dos sambas do Lequinho nestes anos de Mangueira.
Uma outra coisa que me incomoda e que, também, é característica da parceria é que, em alguns trechos, a letra não cabe na melodia "salve o novo Palácio do samba..." em outras acelera demais "...ver o bafo da onça desfilar". Mas é um samba que deve passar forte na avenida e, com certeza, ajudará muito na evolução da escola
VILA ISABEL
A Vila só cometeu um pecado: fazer um samba desses no mesmo ano em que a Portela decide lembrar dos seus melhores tempos com a obra prima sobre a Bahia. Voltando ao samba da turma de Noel, a música é sensacional, consegue casar muito bem letra e melodia e tem momentos inesquecíveis como "...tambor africano ecoando em solo feiticeiro" e "temos o sangue de Angola correndo na veia...". Para completar, uma ousadia que EQUIVOCADAMENTE, dizem que é contracanto mas não passa de um simples pergunta-resposta. Chamo de ousado porque ainda não consegui visualizar como vai funcionar no desfile este trecho que vai de "Pelos terreiros" até "agradece com carinho". Dois refrões muito fortes e outro desfile que desperta muito a minha curiosidade. Grande samba, parabéns Vila!!
SALGUEIRO
Não há dúvida de que o Salgueiro tem se empenhado em fazer sambas melhores nos últimos anos. Nós vivemos, recentemente, depois do "Explode Coração", uma era muito chata quando todos os compositores pareciam querer achar a fórmula do sucesso do Ita, em 93. Ainda bem que isso parece que está mudando e o Sal nos brindou com ótimas obras como Candances, em 2007, e o Rio no cinema, no ano passado. O samba deste ano não é ruim, é correto. Mas falta emoção, falta o algo mais, aquilo que torna uma obra inesquecível. Na verdade, é mais um samba numa boa safra. Ele peca por não emocionar quem está escutando a música. Passa batido sem chamar a atenção mas, assim como o samba da Mangueira, pode ajudar a escola a fazer um bom desfile.
IMPERATRIZ
Outro samba de uma qualidade excelente. Na minha opinião, falta um pouco de empolgação nele, mas é belíssimo. Já começa muito bem, a cabeça é sensacional: "Ave Bahia sagrada, abençoada por Oxalá" é um achado. E segue com várias partes muito bonitas, como "menino amado...destino bordado de inspiração."
O refrão do meio é bem escrito, tem boa melodia, mas é um pouco longo para um refrão. Talvez isso atrapalhe na empolgação da escola em geral. A segunda parte segue um espetáculo. A melodia dá uma guinada e fica ainda mais bonita. No final, um presente: a parte do Kaô Kabesilê é primorosa, belíssimo encerramento para um samba muito bonito. Parabéns aos compositores!
MOCIDADE
Não é apenas mais um samba. A Estrela Guia também veio para "cavar" seu espaço no topo do carnaval 2012. Um samba que fica na memória, de fácil interpretação e com passagens melódicas muito bonitas. Começa com um refrão que une beleza e força: "É por ti que a Mocidade canta..."
A primeira parte é morna mas muito agradável. E melhora muito no trecho "solto no céu feito pipa a voar...", desaguando num refrão do meio tão bom quanto o principal. Aí começa de vez o "passeio" deste samba. A segunda parte é brilhante, não consigo destacar sequer um trecho para ilustrar. A Mocidade está fazendo o dever de casa, remontando sua bateria, com um excelente carnavalesco, contratou um bom cantor e vem com um belíssimo samba.
PORTO DA PEDRA
O samba do Tigre, se tivesse sido feito no ano passado, passaria como um samba normal. Mas este ano, com tantos sambas bons e alguns excelentes, a obra destoa. Ele tem momentos bonitos, como o final da segunda "Brilhou à luz da civilização...", mas não emociona. Nenhum dos refrões empolga e, para mim, a bagunça métrica do refrão principal atrapalha demais. Uma pena. Gostava demais da Maria Clara Machado do ano passado mas, este ano, ficou devendo.
SÃO CLEMENTE
Mea culpa, comecei irado quando ouvi o BUBUBU e o BOBOBO. Aquilo me tirou do sério e me deixou "surdo", sem entender que este samba consegue reunir sensações antagônicas de rara felicidade, que começa com o enredo que é de muito fácil entendimento. O samba sabe ser leve e forte ao mesmo tempo, consegue empolgar e nos fazer prestar atenção em momentos deliciosos da melodia, como no trecho "o violino anuncia...", que, para mim, é um dos melhores momentos de todo o CD. Tem uma repetição de melodia no final da primeira parte que fica um pouco chata mas que não compromete. Gosto do refrão do meio. Chegaram a dizer que lembra o "endiablado" do Porto da Pedra. Não concordo. Mas alguns trechos da letra são pobres, além do já citado refrão principal. A segunda parte começa com "de tudo aconteceu"(dava pra melhorar!!!!) mas, no geral, é uma bela aventura musical que tem tudo para divertir e empolgar quem estiver assistindo o desfile da simpática escola da zona sul.
GRANDE RIO
Fui muito mal interpretado aqui quando falei no samba da Grande Rio. Em nenhum momento eu disse que o samba era feio. A minha opinião sobre este samba não mudou: ele não empolga, não emociona. Tem um enredo que poderia trazer várias emoções à tona, principalmente depois das dificuldades enfrentadas pela escola no ano passado. Mas o samba não traz este sentimento. Parece que estamos lendo um manual de auto ajuda. O que me incomoda é que ele não fugiu do óbvio, não encontrou soluções ricas de letra e melodia para ser um samba inesquecível. Ao contrário, virou um samba de clichês e obviedades. Mais uma vez vou dizer, NÃO É UM SAMBA RUIM, é só mais um na multidão e sem destaque.
PORTELA
10 nota 10, salve a Portela, salve a Majestade do Samba! E que bom te ver de volta depois de anos de sumiço. Que samba é este que a minha filha com 6 anos entra no carro e quer escutar antes de todos os outros. A gente "viaja na canção", sobe junto o Pelô, sente a força da batida do Olodum, mareja na procissão dos navegantes e tem a certeza de que veremos história, mais uma vez, passando na Sapucaí. O portelense deve estar orgulhoso e merece este orgulho depois de alguns anos de sufoco. Parabéns nação azul e branca. A Bahia me chamou!
UNIÃO DA ILHA
A ilha é assim, ela não quer ter o melhor samba, ela não quer ter o samba inesquecível... Ela quer pisar na avenida, contagiar o público e fazer mais um desfile com cara de Ilha e isto ela vai conseguir. Não por menos, os vencedores deste ano são compositores acostumados com a escola e com o ambiente, sabem como funciona a escola e fazem o barco "atravessar o mar" mais uma vez. Cheguei a criticar a junção, passei mal com o molho inglês na feijoada, mas tenho certeza que todo o público da Sapucaí vai se divertir. É um bom samba? Não, mas também não é ruim. Da parceria do Marquinhus do Banjo é o pior dos últimos anos, mas é um samba com cara de ilha e de empolgação. Vem quente!!
RENASCER
Na minha opinião, a escola de Jacarepaguá cometeu dois erros graves: escolheu mal o enredo e pecou ao não trazer um samba empolgante para narrar a desconhecida história de Romero Brito. O samba é bonito, tem boas passagens, mas nasce morto. Usei outro dia um exemplo. O Tuiuti, quando subiu para o especial de 2001, trouxe um samba com uma boa história e uma melodia ousada, diferente e guerreira. Não desfilou bem, é verdade, mais por culpa de sua harmonia do que do samba que se tornou inesquecível para os amantes do carnaval. A impressão que me passa é que este samba da Renascer vai tocar, vai passar e vai ser esquecido em meio a tantos outros do carnaval. Sei que a escola é alegre e pode reverter na avenida com muita raça, mas a expectativa não é animadora.
Mudanças com o vento...
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 15/12/2011 16h30
Volto para falar dos sambas porque sei que acontece com todos os que amam Carnaval. Ninguém mantém a mesma opinião sobre os sambas à medida que vai ouvindo e posso dizer que eles não saem do som do meu carro.
Na minha opinião, alguns sambas valorizaram. São os casos de Mocidade e São Clemente. O da Mocidade tem uma letra impecável e é gostoso de ouvir. Já me peguei, por duas vezes, cantando-o sem sequer me dar conta. É daí que tiro minhas conclusões.
O da São Clemente já consigo até cantar o BUBUBU no BÓBÓBÓ, ainda que com muita implicância. Mas o resto é muuuuito bom! Que samba animado, empolgado. Posso imaginar o desfile enquanto canto. E o que é a passagem do violino? Lindíssima.
Ainda não gosto tanto dos sambas do Salgueiro, Porto da Pedra e Grande Rio. Sobre o da Renascer, mantenho a opinião de que é bonito, mas sinto falta de algo mais, como a São Clemente nos apresenta. Uma escola que pisa pela primeira vez no grupo Especial tinha a obrigação de "chegar chegando", como fez o Tuiuti em 2001, com um belo samba que, infelizmente, foi comprometido pelo péssimo desfile.
Ainda são imbatíveis, para mim, Portela e Vila. Mas outros já começam a ganhar espaço...
Análise dos sambas de 2012
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 02/12/2011 18h29
Não vim escrever uma coluna para ser amigo de ninguém e muito menos para fazer média com quem quer que seja. Por acaso, algumas escolas que, para mim, tinham os melhores sambas do ano passado, não repetiram este ano e decepcionaram. Mas no geral este cd é dos melhores dos últimos anos, a média de qualidade subiu demais. Vou fazer a crítica saindo do pior para o melhor, NA MINHA OPINIÃO!!!
Grande Rio: Uma pena. Eu era fã do samba de Floripa, que até hoje toca demais no meu carro, mas não dá para ficar empolgado com a superação deste ano. Como disse um amigo meu, parece samba de auto ajuda, muitos clichês e pouca invenção.
Porto da Pedra: Acho a melodia bagunçada e a métrica meio torta, mas não dá para negar que o Wander Pires o salvou - e muito - nesta gravação oficial.
Salgueiro: Outra decepção. Em nada lembra os últimos sambas que mudaram a cara da escola, muito inferior às obras dos últimos anos. Expressões nordestinas forçadas nas frases e uma melodia que, depois da quinta passada, tem tudo para começar a cansar.
União da Ilha: Não posso negar que o samba melhorou muito na gravação. A junção tosca foi acertada e o Ito, mais uma vez, QUE SHOW!!!
Dos últimos sambas da turma do excelente compositor Marquinhus do Banjo, este é o mais fraco.
São Clemente: Sinceramente, é um samba bem legal que foi estragado no BUBUBU e BOBOBO. Boa melodia, samba com começo, meio e fim, mas que peca neste refrão oba oba sem sentido. Uma pena!
Mangueira: O que me incomoda no samba da Mangueira não é exatamente o samba, mas sim o enredo. A idéia de fazer um "pout pourri" de sambas é difícil de encaixar. Mesmo assim, acho que Lequinho e parceria foram felizes e conseguiram um bom resultado. Samba correto.
Beija-Flor: A melodia é aquela de sempre da Beija-Flor, mas o samba é muito bem encaixado, com ótimas passagens. Gosto muito da cabeça do samba e apesar da melodia batida, gosto do refrão do meio, bem valente. Tem tudo para acrescentar a um bom desfile.
Renascer: Que samba gostoso de ouvir! Correto, com belas passagens melódicas e letra agradável. Boa surpresa.
Mocidade: Outro samba gostoso de ouvir, avaliação muito parecida com a da Renascer. Gosto muito do refrão e já é possível sentir uma mudança de swing na bateria. Fiquei ainda mais ansioso para ver o desfile da Estrela Guia de Padre Miguel.
Unidos da Tijuca: Aqui se vê uma clara diferença para o samba do Salgueiro. Na obra tijucana, as expressões nordestinas e as menções a musicas do Gonzagão estão muito bem encaixadas. Ele tem trechos de melodia que empolgam e a gravação com as bossas da bateria estão sensacionais. Muito bom!!
Imperatriz: A escola de Ramos, mais uma vez, acertou em cheio. Uma combinação sensacional de letra e melodia, uma cabeça de samba emocionante, assim como o final da segunda parte do Kao Kabecilê. Forte candidato ao Estandarte de Ouro.
Vila Isabel: Kizomba 2, a revanche. E como é bom este samba!!! As soluções diferentes, o refrão que não é refrão, as perguntas e respostas da segunda parte do samba e o refrão final deixam a gente imaginar a Vila desfilando. Tipo de samba que vai fazer o povo de Noel abraçar a escola e partir pro título.
Portela: Parabéns, Águia, por ter tido a coragem de escolher este samba, de fugir do óbvio e de nos presentear com esta mistura de samba antigo, empolgante e emocionante. Muito bom ouvir um samba com a cara da Portela. Parece que recuperaram o selo de qualidade. Bom para quem gosta de carnaval, de samba e da tradição da Portela.
2012, um alento!!
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 20/10/2011 21h10
Até agora, salvo a junção na Ilha, não temos do que reclamar das escolhas de samba nas escolas. Muito pelo contrário. A safra de 2012 vai pintando como uma das melhores dos últimos anos. Ótimos sambas e mais: uma disposição para fugir dos medalhões.
Desde que escutei o samba do Vanderlei na Portela, me apaixonei. Tem gente que vai escutar e dizer: "este cara está maluco, não tem nada demais e etc..." Pois eu digo que tem sim. De cara, ele foge do padrão que se impôs aos sambas recentes. Tem força, beleza, melodia e não se prende a nada. Além disso, escutei que vários outros sambas eram os favoritos para a disputa e, no final, deu Vanderlei. Muito bom para os portelenses e melhor ainda para quem vai estar na Sapucaí.
O Salgueiro não tem um grande samba, mas nenhum dos que disputaram eram grandes sambas. Mesmo assim escolheu o melhor. Na minha opinião, o samba do Marcelo Motta é correto e deve embalar bem o desfile do Salgueiro.
O samba da Vila, não dá para dizer que fugiu dos medalhões. Pelo contrário. Mas é bom demais, um sambaço e tem tudo para acontecer no desfile.
A Mangueira também não fugiu dos medalhões, mas escolheu um ótimo samba. A composição do Lequinho figurava entre as favoritas desde o começo. Venceu apertado, mas fará com que a verde e rosa, mais uma vez, venha com um grande samba para a Sapucaí.
E prestem atenção na MOCIDADE!!! Mais uma bola dentro da diretoria. Depois de acertar nas escolhas de cantor, carnavalesco e enredo, agora escolheram um ótimo samba para o desfile. Olho vivo na verde e branco de Padre Miguel neste carnaval, porquer ela vem para incomodar!!!!
Mais sobre os sambas
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 19/09/2011 12h03
Disputa acirrada na Mangueira. Escutei dois sambas - um cantado pelo Tinga, outro pelo Igor Sorriso - que me deram esperança de que, mais uma vez, o samba possa salvar a escola na avenida. Como não podemos saber os nomes dos compositores, vou chamá-los pelos "codinomes".
O samba 107-A começou estranho na gravação. Apesar de ter momentos de grande beleza na primeira e na segunda, achei o refrão meio bobo, sem sentido, mas depois que escutei o samba inteiro, ele passou a fazer muito sentido e cresceu demais. Também torci o nariz para a semelhança com a melodia do Fundo de Quintal no refrão do meio, mas funcionou muito bem e ficou bonito. Acho que ele consegue fugir do trivial e já merece grande crédito.
O samba 65-A é outro que vem muito forte. Não gosto do refrão principal, do tipo "vários que já ouvimos alguma vez na vida", mas a primeira e a segunda partes me conquistaram. O samba é forte e com letra boa; veio para brigar mesmo. É do tipo de que responde bem na quadra. Não tem a mesma variação melódica e a mesma pintura do concorrente, mas a escola estará muito bem representada na avenida se escolher esta obra.
Na Rocinha, mais uma boa disputa, polarizada pelos mesmos compositores que brigaram pelo título no ano passado. Ouvindo os sambas, acho que o de Diego do Carmo, Ricardo Bernardes e Cia é favorito ao bicampeonato.
Na Renascer, a notícia mais legal não vem da disputa de samba e sim de uma idéia bem original e que pode fazer escola. A escola resolveu fazer um documentário sobre a preparação para a estréia da agremiação no grupo Especial, mostrando os preparativos em todos os setores. A idéia da direção da escola é mostrar o documentário pronto poucos dias antes do desfile, para empolgar ainda mais os integrantes da escola. Os responsáveis pelo documentário são Alex Santos, Gabriela Ferreira, Thiago Bouça e Vitor Coutinho, todos jovens mas com bom conhecimento no assunto. Vale a pena esperar para ver.
Habemus samba!!!
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 05/09/2011 14h38
Rodei pelos sites atrás de novidades entre os sambas concorrentes, algo que pudesse mudar o panorama entristecido de composições nada imaginativas, mas não tive êxito. Não até esta semana, quando fui alertado sobre um concorrente da Portela, logo a escola que, ultimamente, não vem animando muito nas composições. Abri o site, a letra, pus a música para tocar e me emocionei. Parecia um retorno aos sambas antigos, parecia uma composição feita dos anos vencedores da Portela. O samba de Luiz Carlos Máximo, Naldo, Toninho Nascimento e Wanderley Monteiro e muito bem interpretado pelo Pixulé tem de tudo. Boa melodia, boa letra, mudança de ritmo, belas variações e o mais importante: é a cara da Portela.
Para não dizer que é perfeito, acho que eles poderiam resolver alguns probleminhas de métrica que, de forma alguma, tiram o brilhantismo do samba. Alô direção da Portela! Vocês que precisam dar a volta por cima e que já acertaram no casamento enredo/carnavalesco, por favor, não deixem passar esta chance de ouro de transformar o desfile de 2012 numa antologia. A escola precisa e os portelenses merecem.
Já na Vila Isabel, o "dream team" das parcerias, formado pelos campeoníssimos Bocão, Leonel, André Diniz e com a valiosíssima presença de Arlindo Cruz, vai ter uma parada indigesta: o samba da Mart'nália é competentíssimo e forte candidato a hino oficial da Vila em 2012. Tudo bem que a disputa ainda está no começo, mas, finalmente, a turma encontrou um adversário de peso. Vale acompanhar essa disputa.
Ahh Salgueiro!!!
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 23/08/2011 20h26
Depois de tanto anunciar aos quatro cantos que o Salgueiro escolheu um dos melhores enredos da próxima temporada. Depois de criar a expectativa de mais um grande show do Renato Lage. Depois de guardar na memória os sambas de Candaces, Tambor e o cinema do ano passado, eis que surge a safra 2012. Na verdade, não dá para chamar de safra, a decepção foi grande. Pode até ser que a minha expectativa otimista tenha prejudicado o julgamento, mas a verdade é que só vejo um samba hoje em condições de guiar o Salgueiro a um bom desfile. É o samba assinado por Marcelo Mota, Tico do Gato, Ribeirinho, Dilson Marimba, Domingos OS e Diego Tavares. Não é uma maravilha, não chega nem perto do samba do ano passado, mas... serve.
É claro que ainda falta muito tempo de disputa, mas ouvir os outros sambas na quadra não mudará muito.
Mangueira muda.
Na Manga está difícil julgar. Os sambas tem mudado demais de uma apresentação para a outra. As mudanças são autorizadas pelo Ivo, o que pode se transformar em uma faca de dois gumes: melhorar a qualidade e piorar o que estava bom. Os sambas que estavam gravados nos CDs não servem mais como referência. Agora, só indo à quadra mesmo para conferir de perto. Pelo que deu para ouvir, os sambas 107e, cantado pelo Igor Sorriso, e 65ª, cantado pelo Tinga, tem boas chances (não consigo me acostumar com estes compositores com nomes de número e letras). O que deu para entender é que podemos achar uma fauna de estilos diferentes entre os sambas, que não existe uma linha. E isso não é uma crítica, mas sim uma constatação. Apesar disso, eles merecem ser ouvidos de perto, na quadra, para ratificar qualquer opinião.
A medida que as disputas forem avançando, vou emitindo outras opiniões. Aguardem!!



