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Bia Willcox

Bia Willcox

Advogada formada pela UERJ, tem bacharelado em língua inglesa. Educadora progressista, fundou sua escola de inglês para crianças em 1994 com metodologia própria. Dos livros didáticos que desenvolveu, partiu para outros tipos de livros fundando a editora Faces em 2010. Dos concursos literários que venceu quando estudante e da vocação para o jornalismo, ela escreve roteiros e assina algumas colunas Brasil afora. Produz conteúdos e eventos atuando como debatedora e mediadora. Curiosa e instigada por natureza, escreve sobre comportamento, passeando por temas como relacionamento, amor, preconceito, respeito e tantos outros valores, muitas vezes permeados por filosofia simplificada e acessível a todos.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



10/04/2014 08h22

Presidente do fã-clube dos solucionadores de problemas
Bia Willcox

Quando alguém entra na minha fila mental de possíveis ganhadores da minha admiração, tem que me provar o quanto sabe solucionar problemas.

Admiro a boa memória, a versatilidade, a linguagem sofisticada e o humor refinado. Admiro um monte de coisas nas pessoas. Mas pra virar mesmo fã de alguém, só se for bom solucionador de problemas. Tem que saber dar errado e se reinventar. Sem mimimimi.

Eu ouso afirmar que a solução de problemas é a mais importante das habilidades nesse século que se inicia. A complexidade é muita, a quantidade de informação mais ainda, e as divergências por conta disso ocupam um lugar de destaque nos cotidianos pessoais e corporativos.

Não há mais tempo para analisar, digerir e buscar soluções sem pressa. O problema, o conflito ou o impasse estão aí, gritando no meio da multidão de dados e informes. É um labirinto de vertentes e possibilidades e a saída deve ser achada de maneira breve, a contento. 

Não defendo a dinâmica de hoje como o melhor dos mundos. 

Não, mesmo.

Só observo e relato, com toques pessoais, opinião. 

A maior parte das pessoas gerencia lindamente as crises, define padrões, acha facilmente um plano B, critica com embasamento tudo e todos ao redor, governa o Brasil e tece considerações sobre o mundo do alto de seu doutrinamento, porém dentro de suas cabeças tão-somente. No máximo, exteriorizam numa mesa de bar, num papo entre amigos ou até mesmo em seu blog ou nas redes sociais. E mesmo assim, tendem a focar no problema, nas suas causas e no que não funcionou como desejado, raramente partem pra solução.

Não, não são esses os primeiros da minha fila de semi-ídolos.

Admiro muito quem "pega e faz". Mesmo que sem o planejamento ideal. Mesmo que de uma forma imperfeita. Ele (ou ela) fez. Resolveu. Solucionou o que estava até então intrincado, sem solução. Saiu de dentro de sua cabeça e partiu para o ataque com seu cérebro, olhos, boca, mãos (e muito mais!). Os primeiros da minha fila têm aquela ansiedade necessária (e criticada por muitos, como se não ser nada ansioso fosse algo extremamente virtuoso) para mover a fila, seguir em frente, tocar o barco. Eles veem (muitas vezes anteveem) o problema e não esperam o outro, não esperam o divino, não esperam a velha e manjada solução do tempo. Eles não esperam nada. Eles correm atrás.

Intuitivos e proativos, eles saem do papel. Largam os jargões pelo caminho e acham saídas. Muitas vezes a luz no fim do túnel ou o plano B requerem criatividade e calma, o que me faz admirar em dobro esses caras. Mas, às vezes, a solução é óbvia, simples, direta. Basta levantar da cadeira, tomar um café e mandar ver na solução.

Não uso Nextel, não, mas esse é o meu clube, ou, ao menos, o clube a que eu gostaria de pertencer - o clube doPega-e-Faz.

Por um espaço com menos mimimimi.



03/04/2014 16h23

Assim caminha a humanidade
Bia Willcox

Não sou uma pessoa excessivamente otimista. Sou positiva, mas longe de ser daquelas que, diante de um problema, sorri com leveza, se empolga e diz que vai dar tudo certo, irritando os normais ao seu redor.

Mas tenho a nítida impressão de que há mais bondade que maldade no mundo.
Suponha que pudéssemos contar cada ato de bondade, cada feito, cada sorriso, cada ato de caridade, filantropia, amor ou ternura, cada atitude generosa que tenha ocorrido no planeta no ano que passou e somássemos tudo para termos uma incidência total de Bondade em 2013.

E aí, suponha que fizéssemos o oposto: contássemos cada franzida de cenho, cada momento egoísta e mesquinho, cada chute, soco, tapa, cada ato de maldade, falsidade, cada assassinato, erro ou atitude de má-fé, somássemos tudo também para termos uma incidência total de Maldade.
Teríamos duas colunas - bondade e maldade - um tipo de contagem moral para a humanidade. Qual seria a maior coluna?

Meu palpite cego, sem consultar estatísticas ou especialistas, é de que as duas colunas parecem iguais, mas a da bondade tem um pouco mais e que, ao longo dos anos, séculos e milênios, essa diferença acumulada vai ser cada vez maior.

A meu ver, há uma propensão para a bondade que desenha a humanidade aos poucos e faz com que os povos se movam a passos pequeninos da escuridão em direção à luz. Ou seja, o Homem no futuro será melhor, mais bondoso do que o do passado. Há uma direção na história da Humanidade e isso é claro pra mim.
Por isso a razão nos foi dada, segundo o filósofo iluminista Locke - para que usemos nossa inteligência e senso moral a fim de escolhermos bem e alcançarmos a felicidade.

Eu não estou sozinha na minha crença. Um dia Martin Luther King disse a uma multidão que as pessoas melhorariam. Ele não podia precisar quando, mas ele sabia que as pessoas seriam mais bondosas e justas umas com as outras. Segundo ele, o arco do Universo Moral é longo, mas se curva em direção à Justiça. Obama, 40 anos depois, disse que o arco se curva sim em direção à justiça, mas não o faz sozinho, por sua conta. Ele se curva porque cada um de nós coloca a mão nele, da nossa maneira, e o faz se curvar.
Faz sentido.

Sei que não vivi tanto assim, mas sei de guerras religiosas, saques, aniquilações, injustiças sociais, preconceitos, crueldades tanto quanto sei de atos de bondade e generosidade. Amo e sou amada. Sei do poder e mistério disso. E sei que há uma bondade furiosa no mundo. Ela está lá - teimosa, insistente, tenaz. A questão é: por quê?

Teríamos nós, humanos, recebido certa chuva de poeira angelical? Não. Meu temperamento, minhas imperfeições, defeitos e capacidade de não ser boa, às vezes, me diz que não. Não me sinto nada angelical. E imagino que, como eu, ninguém se sinta também. Nós, seres humanos, estamos melhorando, mas jamais seremos perfeitos.
Talvez o desafio da busca pela perfeição seja a resposta.

O filósofo australiano John Passmore acha que as pessoas são capazes de grandes atos de bondade sabendo que podem "derrapar" nas suas imperfeições a qualquer momento e que o progresso da Humanidade está justamente aí: é a consequência do descontentamento, paixão e ansiedade dos seres humanos na busca para serem melhores.
Portanto, tudo indica que a Bondade esteja mesmo superando a Maldade.

O mundo já foi muito pior. Já vimos mais atrocidades. É fato.
Se o movimento em direção à luz é otimismo, que me perdoem os pessimistas, mas espero mesmo que nós humanos estejamos ficando cada vez mais distantes da escuridão.
Nessa caminhada, não ser mau já é a melhor maneira de ser bom.



24/03/2014 14h37

O show de Truman revisitado ou não existe almoço grátis
Bia Willcox

O universo paralelo existe fora da fantasia ou ficção. A realidade alternativa se mistura ao nosso cotidiano desde a hora que fazemos café pra despertar pela manhã (e provavelmente checamos o celular) à hora de encerrar o dia em casa e ir dormir (não sem antes dizermos boa noite nas redes sociais). Parece-me que o show de Truman era previsão de futuro e que estamos todos interligados por aplicativos e logins na cyber-irmandade globalizada.
Loucura minha? Esquizofrenia apontando seus primeiros sintomas?

Se todos estamos no mesmo barco, a dormência digital pode ser loucura coletiva e silenciosa onde a lucidez é pré-fabricada e previsível como a minha neste momento.

Falo do futuro que vivemos agora, da tecnologia que nossos poros e sentidos absorvem diariamente. Falo das soluções quase mágicas de Silicon Valley que nos inebriam, turvam a visão e encantam nossos sentidos, nos fazendo crer que a realidade (sim, vivemos um mundo real de sentidos, sensações e acontecimentos orgânicos e materiais) hoje é muito mais palatável do que já foi um dia.

Em outras palavras, acreditamos que estamos caminhando pra o nirvana, alcançando uma espécie de cyber-paraíso, onde pra todos os males há solução, onde tudo ficou mais fácil, onde a mágica virtual acontece e com ela, nos tornamos mais corajosos, charmosos, inteligentes e bem-sucedidos.

O comércio é mais fácil na Internet. Comprar, vender, comparar e buscar melhor preço - tudo ao alcance dos dedos.

Ideologia pode ser construída nos blogs e movimentos organizados no twitter. Tópicos são debatidos no Facebook e talentos naturais descobertos lá também.
Pode-se amar mais e melhor com a ajuda das redes e aplicativos de namoro online.
Pornografia na net é a opção de sexo a custo baixo ou zero, sem ter que brigar pelo "dinheiro de volta" caso a satisfação não seja garantida.
Todos mais bonitos nas fotos, selfies ou não, sempre com a generosa ajuda de ferramentas e filtros.

Diz-se o que se pensa sem pudor ou receio de desagradar. Redes sociais são palcos livres para se atuar. Fala-se com o prefeito da sua cidade, jogando na cara o que se pensa dele, comentando num de seus posts no Facebook. A sinceridade e transparência de opiniões nunca foram lugar tão comum no nosso dia a dia como agora.
Famílias felizes, conquistas materiais, carros, viagens, amor de Hollywood. Tudo é possível e bem divulgado na internet.

Tratamentos, curas, descobertas, evolução da medicina, tudo apoiado e viabilizado pela tecnologia de ponta. Poucos problemas são considerados insolúveis.
Perfeito. Que lindo o mundo em que vivemos, não? Tudo indica que a Humanidade chegou a um ponto de sua caminhada onde a balança pende (com folga) pros prós. Os contras se tornaram invisíveis, disfarçados. O torpor cibernético de efeito prozac nos faz acordar e dormir acreditando que temos um mundo mais justo, mais democrático e de mais possibilidades para qualquer um com iniciativa, ideia, ou desejo.

E de repente acordo como num pesadelo, no susto, atordoada ainda com todo o ópio virtual, com uma frase na cabeça (como se viesse do além em alto e bom som): "Não existe almoço grátis" (tradução de um ditado inglês).

Volto ao início: será essa voz em minha cabeça um sintoma de transtorno psiquiátrico ou vivi por instantes o gosto amargo da falta da droga-passaporte para o mundo perfeito?

O almoço nunca é de graça e o que vivemos hoje na internet tem um preço a ser pago.
O melhor (?) de tudo é que a conta já chegou e estamos pagando suavemente, sem percebermos. A conta é grandiosa, mas indolor. O cheque especial da falta de privacidade tem juros embutidos. O controle cada vez maior e mais fiel de tudo o que temos, somos e pensamos, se veste de democracia. "Obrigada, Internet. Sem você não teríamos democracia de verdade." As prestações desse almoço não doem no bolso, são suavizadas pelo mundo dos memes e das aspas. Não podemos acreditar no que não vemos.

Foto: Reprodução

 

Mas podemos, ao menos, tentar identificar a quantia e o peso do que pagamos. Basta pensar um pouco. Se Internet é bom pra vender produtos diversos (a cada "like" em páginas deles no Facebook nos deixamos seduzir mais um pouco) é melhor ainda pra vender ideias e posicionamentos. E se somos controlados por tendências e tecnologias no mundo do consumo fácil (somos e não podemos negar) por que não o seríamos no campo ideológico? Falta de privacidade e democracia não combinam.

Definitivamente. Ainda consigo enxergar em meio à nossa good (?) trip.
Controle crescente é o nosso carnê de prestações. Seguimos pagando.
E voltemos ao show de Truman.



12/03/2014 14h52

Do jeito que funcionar
Bia Willcox

Graças à insônia habitual das viagens de avião, dia desses revi o maravilhoso filme Whatever Works do diretor Woody Allen, de quem sou grande fã.
Escrevo o título original em Inglês não por metidez ou pretensão, mas porque acho que a tradução

oficial em Português deixa a desejar.
Eu diria que esse título , por mais estranho que parecesse, poderia ser "o que quer que funcione (para ser feliz)" ou algo com esse exato significado. O protagonista e narrador do filme, Boris, é um personagem neurótico, com algumas frustrações, hipocondria, e pânico, além de ter um brilhantismo ímpar na análise da condição humana. É um dos um dos mais perfeitos alteregos de Woody Allen.
No fundo, apesar de um pessimismo aparente e de um delicioso to m politicamente incorreto, o filme nos traz um sopro de liberdade, de libertação mesmo. do tipo "sempre dá pra virar seu próprio jogo e ser feliz".

Sim, ser feliz. Como diz Boris no filme, clichês como "ser feliz" explicam melhor as coisas.
Ser feliz do jeito que funciona melhor pra cada um.
Tendemos a bloquear e esconder nossos desejos.

Tendemos a estabelecer padrões internos de conduta e exigirmos de nós mesmos o fiel cumprimento deles. Achamos muitas vezes que ficou tarde pra mudar. Ou que a sociedade nos será impiedosa e não vale rá o sacrificio.
Mas sempre vale.

A sensação de dar um looping na montanha-russa é indescritível. Dar um único looping que seja ao longo de nossa existência será provavelmente inesquecível.

Não estou aqui incitando ninguém a radicalismos. Não precisamos queimar bandeiras ou sutiens, declarar guerra ou provocar rupturas ou separaç ões.
O looping às vezes é interno e por isso mesmo maior e mais intenso.
Muitas vezes, na busca pela felicidade, queremos romper com farores externos - casamento, profissão, moradia, relação de familia.

No entanto, podemos manter os laços externos e romper com hábitos e processos internos. Romper com certos jogos psicológicos, reações previsíveis, manias, padrões estabelecidos e olhar para com terceiros.

É verdade que rupturas materiais e externas muitas vezes são necessárias também.
Seja quais forem as mudanças, o filme nos mostra que o que deve pesar mais em todos os nossos movimentos é o fator felicidade e alcançá-la do jeito que funcion ar pra gente. Se deu certo de um jeito torto, tá valendo.

Ao som dos Rolling Stones, reproduzo aqui o refrão que ouço ao escrever essa reflexão: não se pode ter tudo o que se quer , então, tentemos optar pelo que nos faz melhores e mais completos.
Whatever works.
Sempre.


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27/02/2014 14h39

Os amores urbanos
Bia Willcox

E eu começo falando de amor.
Poderia ficar horas justificando esse amplo tema que vai morar agora nesse espaço do jornal.
Mas tentarei ser concisa como num quase-twitter (em se tratando da vastidào do tema, né?):

O amor é a linha que costura toda e qualquer relação humana. A falta dele também.
Ele tem diversas feições. É amplo, infinito.
Pode se desdobrar e se dividir.

Ele alerta e cega, acorda e faz dormir. É divino e diabólico. Uno e dual.
Amores em casa, no trabalho, na praia, no clube, na cama, no avião, na calçada, no trânsito, no ventre, no celular.
Amor é energético, seja pelo sexo, pelo discurso, pelo olhar, pelo pensamento afinado ou pela troca. É ele que tá ali nos grandes e pequenos acontecimentos da vida. Porque, mais do que ser um impulso voltado pra fora, pra outro, ele é combustível gerado e queimado pela gente mesmo. Ele é responsável por um dos maiores sonhos de consumo de todos os tempos - a felicidade imediata. Engana-se quem pensa em dinheiro ou poder.

Platão, filósofo grego, não me deixa mentir: ele disse que o amor é a busca do todo e que só com ele a gente se realiza plenamente.
Ele sacou isso tudo há muito tempo atrás.
E até hoje buscamos nos entender, nos relacionar, nos apaixonar e funcionar em conjunto. Mesmo sozinhos, precisamos do amor. Não existimos plenamente sem amor próprio.
Por que urbanos?
Porque vivemos essa trança de relações cruzadas, agendadas, engarrafadas, conectadas.

A urbanidade aqui representa o hoje, as angústias e aflições românticas da contemporaneidade. Representa o amor do smartphone, da rede social, do bar, do karaokê, da roda de samba e da balada.
É o que acontece nas famílias modernas ou tradicionais, nas grandes corporações ou nas startups, nos casais homo ou héteros, nas diferentes classes, cores, costumes e vizinhanças.
Parecem ser muitos, de muitos tipos. Mas no fundo, no fundo, os amores urbanos são todos meio parecidos.
Por que?

Porque, recorrendo ao meu ídolo hipster, Platão, todos querem a mesma coisa no final das contas - querem ser plenos e realizados, querem achar o todo.
E eu, como não fujo à regra, venho aqui compartilhar essa busca com vocês.

*Crônica de abertura da coluna Amores Urbanos exclusiva no jornal "O DIA" no Rio de Janeiro



21/02/2014 13h45

Amor de Carnaval para dar e receber
Bia Willcox

Em época de Carnaval, traição é assunto em alta. Lugar comum em época de festas, blocos e desfiles.
Como eu não acredito em generalizações do tipo tudo, todos, nada ou de jeito nenhum, quero falar do oposto.

Se muita gente trai, muitos não traem também.
Por que não falar do reverso dessa moeda?

Carnaval não é sentença de morte pra relacionamento nenhum. Nunca será. Muito pelo contrário, atrás de todo essa euforia escandalosa, arrisco dizer que há um certo romantismo inspirador. Pierrôs atrás de Colombinas e Colombinas atrás de Pierrôs.
Mascarados e mascaradas buscando a sua máscara-metade. Sempre as máscaras. Na procura por mácaras ideais pra nós, ironicamente visamos a ausência de disfarces, queremos algo transparente, de cara limpa.

Então, ao contrário das expectativas gerais, há muitos que buscam amor e outros tantos que querem manter o amor que tem.
Pra muita gente o Carnaval é época de namorar, sabia? E de juntos curtirem o Carnaval, a alegria da folia. Sambar e cantar. Sem estresse, sem ciume, sem pancadaria. No amor e na paz. Diversão a dois pode ser caviar e champanhe.

Foto: Reprodução de Internet

Além disso, há os casais que querem se divertir longe das festas de Carnaval. L onge de quererem pegação e álcool em excesso, querem descansar, meditar, botar o cinema em dia, esquecer da vida na praia e no sol. Juntinhos. A dois.
Erro de avaliação achar que o melhor do carnaval é a bagunça sexual e etílica que ele proporciona. Não tenho dúvidas que as loucura sde Carnaval podem ser inesquecivelmente boa sem alguns momentos da vida, mas não são obrigatórias.

Pra muita gente o melhor bloco de carnaval ainda é o que só cabem dois. Sem a zueira que fica a rua, cheiro de xixi, perigo de assalto, perda de celular. Bloco a dois com enredo convincente, boa harmonia e perfeita evolução, que tal?

Bem, carnaval dois ou a um milhão, é sempre carnaval! E o que quer que seja nesses dias deve ser bem pensado antes, porque e m uma semana tudo acaba e depois tem mais de 50 semanas pra encarar a realidade. E essa realidade pode ficar feia se você der mole de perder um amor presente ou futura pra folia do carnaval.

Carnaval é tão especial que vale diluí-lo pelas mais de 50 semanas do ano e prolongar a felicidade.



20/02/2014 13h34

2 em 1: Waldir Leite relança seu romance policial e e-book grátis na internet
Bia Willcox

No dia em que Waldir Leite, roteirista de TV e jornalista, relança o seu romance policial "A Última Canção de Bernardo Blues" pela Editora Faces, ele lança também um romance inédito, "Ipanema em Lágrimas", em versão digital, propositalmente no ano em que a ditadura militar completa 50 anos.

"A Última Canção de Bernardo Blues" é um romance policial sobre um seminarista prestes a se tornar padre, que promove uma caçada ao criminoso que matou seu irmão, um cantor de boate muito popular em Ipanema.

Foto: Acervo pessoalIpanema é o universo de onde brota toda a literatura de Waldir Leite. Em 2011 ele lançou "Amei um Pitboy", coletânea de contos eróticos,
que tinha Ipanema como seu principal cenário.

"Ipanema está para mim, assim como o Leblon está para o Manoel Carlos. Adoro Ipanema. As praia, as ruas, os lugares, as pessoas, as árvores, os bares... Tudo ali me serve de inspiração para o que escrevo", afirma Waldir.

O inédito "Ipanema em Lágrimas" se passa numa Ipanema idílica e romântica onde um garoto, filho de um militar linha dura, se envolve com um comunista procurado pelo Exército e que está escondido numa oficina mecânica perto da sua casa. O garoto, que brinca de boneca e gosta de se vestir com as roupas da mãe, se transforma num elo entre a força repressora da ditadura e o desejo por um novo mundo, representado pelo comunista.

O autor nos conta que o livro foi construído a partir das lembranças de sua infância, no auge da ditadura militar. "Nessa época eu vivia assustado porque os adultos da minha família costumavam dizer que os comunistas comiam criancinhas. Comiam no sentido alimentar, no sentido canibal. E eles acreditavam mesmo que isso seria possível. No meu livro eu faço uma alegoria sobre esse aspecto do Brasil daqueles tempos."

Roteirista de TV, Waldir Leite já trabalhou em novelas da Globo (Salsa e Merengue), da Record (Os Mutantes) e do SBT (Superpoder do Amor), esta última ainda inédita. Mas sua outra grande paixão é o jornalismo.

Foto: Acervo pessoal"A época em que eu fui mais feliz profissionalmente foi quando trabalhei no Jornal do Brasil, ainda na época do jornal impresso. Durante quatro anos fui repórter e colunista do Caderno H, suplemento publicado aos domingos. Ali fiz reportagens que me deram muito orgulho. Além disso, tive a oportunidade de trabalhar bem de perto com a Hildegard Angel, editora do Caderno H, uma pessoa maravilhosa, por quem tenho grande carinho e admiração",declara o escritor.

Waldir leite recebe amigos e colegas de trabalho para uma noite de autógrafos, na Livraria da Travessa de Ipanema nesta quinta-feira, 20 de fevereiro, quando será disponibilizado gratuitamente o e-book "Ipanema em Lágrimas" no site da Editora Faces.

"A ideia de lançar um e-book inteiramente grátis na internet é uma forma de nos mostrarmos, autor e editor, atentos às profundas mudanças pelas quais o mercado editorial vem passando", afirma Bia Willcox, publisher da Faces.



20/02/2014 11h48

Elton John, a estrela de sempre
Bia Willcox

Sabe aquelas pessoas que nunca enfraquecem com o pôr-do-sol ou com a chuva que chega? Ídolos são assim.

Ouvi essa metáfora da boca de um dos meus maiores ídolos musicais. Em sua lingua original, ao som do seu piano e carregada de emoção, essa expressão, dentre outras, da linda música Candle in the Wind (Goodbye England's Rose), me tocou na primeira vez que ouvi e me tocou igualmente ontem no HSBC Arena. Foi a segunda canção de Elton John no palco carioca.

Ele a cantou para Norma Jean, para a princesa Diana e cantará sempre para todas nós, como uma vela que não se apaga nunca.

Dia de Elton John é dia de se sentir atemporal, sem data, sem pouso, sem residência. Cidadãos do tempo e do espaço. Ontem me senti assim.

A platéia foi chegando com seus brilhos e trajes caprichados, como se a elegância e sofisticação fossem uma forma de homenageá-lo e de reafirmar a importância e grandeza daquele espetáculo.
Estão certos.

Sir Elton John é grande e sofisticado.

Os saltos, blazers e lantejoulas de muitos compuseram o cenário grandioso que um artista como Elton John impõe à noite com seu piano de cauda, terno azul brilhante e voz superheróica.

Essa turnê nos apresentou seu novo álbum, Goodbye Yellow Brick Road, que para Elton John é o seu White Album (referindo-se ao inesquecível Álbum Branco dos Beatles).

Vejo esse seu último trabalho, um álbum duplo estourado nos charts americanos, como uma maneira de conhecermos não só a sua música, mais e mais, como também a sua personalidade.

Elton John passeia pelos sons e estilos que fizeram dele a estrela que conhecemos.

Abrindo o show com rock progressivo, Funeral for a Friend, ele passa pelo popcraft, Bennie and the Jets, por baladas marcantes como Goodbye Yellow Brick Road (quando a platéia levantou "tijolos" amarelos de papel para acompanhar o refrão), pelo hard rock Saturday Night's Alright for Fighting e por tudo mais que imaginarmos ser possível a um artista como ele, incluindo a novidade de seu novo álbum Jamaica Jerk-off, que ele deixou de fora na noite de ontem.

Fotos: Reprodução

A diversidade sempre me atraiu e quando se trata de alguém como Elton John, jamais terá um saldo negativo no final.

Mas, apesar de impressionante, toda essa variedade de estilos e formas parece não ter tido o resultado final que se esperava no álbum.

Popularmente falando, não deu tanta liga, sabe?

O que não tira o glitter e o impacto do show e de seus momentos marcantes como em Rocket Man, Skyline Pigeon, Don't Let the Sun Go Down on Me, Philadelphia Freedom e I guess That's why They Call it the Blues.

Sem falar nas imortais e cinematográficas Your Song e Tiny Dancer que embalaram uma platéia de todas as idades (todas mesmo, de adolescentes a idosos) ávidas por minutos de romance no ar.

Elton John é um showman cuja performance nocauteante justifica perfeitamente o novo álbum e define o que o fez um superstar ainda no inicio dos anos 70. Ele será sempre a vela que não apaga, nem no pôr-do-sol e nem sob chuva.



18/02/2014 17h13

Solidão Premium
Bia Willcox

Foto: Acervo PessoalO convidado desse "4Mãos" é Leo Aversa, fotógrafo e blogueiro de sucesso. Leo e Bia batem uma bola sobre a solidão, que pode ser sonho de consumo nos dias de hoje, a 4 mãos.

B: Solidão é estado físico e/ou psíquico e disso todos sabem. O medo universal que povoa o imaginário coletivo é o de ser ou ficar só. Esse medo traz um peso tão grande ao conceito de solidão que o simples ato de pronunciá-lo, em geral, reveste o ambiente de melancolia e tensão.
Mas a solidão pode ser menos. E mais. E pode ser leve e divertida. Contra tudo e contra todos - ousada e original. Pode revelar beleza, assim como nos descortina o avesso e o absurdo. A solidão pode ser cômica, e não somente trágica como aparenta. Faz sentido, Leo?

L: O problema da solidão é que ela tem a imagem ruim. Precisa de um trabalho de relações públicas, um reposicionamento de mercado. No passado causou muitos problemas, mas agora está numa nova fase, cult, ainda mais que o grande problema dos dias atuais é o excesso de comunicação e não a falta.

B: A solidão sempre existiu e foi inspiradora. A dor de se sentir só sempre fez parte da engrenagem intelectual e poética. Seu filme era e é queimado por legiões de patrulhadores da solidão alheia, como se fosse um estado incompatível com a felicidade. É algo relativo. A principio podemos estar solitários num dia ensolarado de praia cheia e cheios de companhia na solidão de nossos celulares. A solidão ganhou status de cult? Me conta essa? Sei que minha solidão é meio indie. Em certas ocasiões hipster até.

L: Mais que cult, é quase uma utopia. Como conseguir ficar realmente sozinho com tantos facebooks, twitters , instagrams ? O solitário é um curto circuito nas redes sociais. Todo mundo quer dividir tudo, especialmente sentimentos e opiniões. Um horror! É muita gente querendo compartilhar. Nada mais assustador. A pessoa sente e, nem elaborou o sentimento, já está online, pronta para jogar para a tigrada. Sem filtro. É como uma imensa análise em grupo, só que todos falam e ninguém escuta. Depois de escrever isto, já penso em me tornar uma eremita.

B: Talvez eu discorde de que a imensa terapia grupal online seja a antissolidão. Pensando sob um prisma divergente, muita gente desabafa, xinga, chora, ri e se despede do resto do mundo na hora de dormir sem ter qualquer companhia. É o que chamo de solidão quase esquizofrênica.
Por outro lado, adorei a solidão utópica a que você se referiu. Aquela com uma aura de poesia, uma solidão romântica, épica, inspiradora. Uma solidão quase "emo".
Essa, só idealizada, já era.

Foto: Leo AversaL: Os meus sonhos de consumo são a solidão e o silêncio (além da Coca Cola orgânica). E quando falo disso não é em sentido figurado, não é desabafo psicanalítico ou conversa para impressionar hipster. Daqui a pouco, estar sozinho e não ouvir nada vai ser algo tão raro como o mico leão dourado ou um urso panda.

B: Sim, é a arara azul dos nossos cotidianos atormentados de companhias. Vem se tornando a montanha-russa do nosso parque - divertida e excitante. Solidão é aquele momento sem roupa, de música e risos altos, de ter o controle do controle e fazer absolutamente tudo o que se quer e não quer, incluindo passar às vezes horas sem se comunicar com ninguém, só usar a voz pra cantar. Às vezes idealizo um bunker utópico de solidão pra mim.

L: Na minha solidão ideal só cabem dois: Eu e a pessoa que me completa, aquela que é a visão do paraíso na hora em que eu mais preciso, aquela que me traz alívio e alegria: o entregador de pizza.

B: Marguerita e coca. Solitárias. Solidão de sonhos.



10/02/2014 14h51

O irrespirável tempo que passou
Bia Willcox

É tudo culpa de uma vitrola.

Mas podia ser de uma estação de rádio, um filme antigo ou até um DJ numa festa.
Fato é que a vitrola que chegou a minha casa me fez resgatar velhos vinis, vinis da minha infância.
Vinis da minha adolescência, da minha vida. Fui resgatando memórias; enquanto separava compulsivamente os de que mais gostava e os ia tocando ao longo do sábado de sol em que deveria estar na praia.

De repente cheguei no LP da trilha sonora do cult movie O Caçador de Andróides, Blade Runner, que me tocou profundamente quando o assisti pela primeira vez, do auge dos meus dias adolescentes cheios de questionamentos existenciais.

A maior de todas as angústias humanas - o medo da morte e a imprevisibilidade da vida - estavam lindamente ali sintetizadas, especialmente ao final do filme, quando Rick (Harrison Ford) diz não saber quanto tempo vai viver a Rachel, replicante por quem ele se apaixonou, e finaliza com a seguinte pergunta : "e quem sabe?"

Essa cena pautou meus próximos dias, filosoficamente falando, e a trilha de Blade Runner foi tocada no dia em que eu, ainda no fim da adolescência, resolvi me casar.
E me emocionar ao ouvi-la na minha vitrola, nada tem a ver com querer esses dias de volta.
As músicas do disco têm a ver com a lembrança de pessoas queridas daquele momento e que já não vivem mais.

Têm a ver com o cerne de toda a questão que nos assombra - temos um percurso de vida e caminhamos inexoravelmente pro fim.
Ouvir a trilha do meu casamento, longe de me fazer reviver aquela cena, me faz lembrar que o tempo é a única coisa que eu conheço do meu dicionário que não se recupera.

Teoricamente recuperamos saúde, dinheiro, autoestima e conhecimento. Recuperamos memória. Mas o tempo não. Tal qual a morte, o tempo que passa não nos deixa esquecer que existe fim e que a finitude da vida é a grande espada sobre nossas cabeças.
Viver a sensação do tempo que já vivemos e que não recuperamos é tornar o ar irrespirável.
Quando nos damos conta de que o tempo é irretornável e o passar dele nos conduz ao fim, perdemos oxigênio por alguns segundos ao menos.

Não há o que se fazer, a não ser bebê-lo até o último gole. Se é pra passar, que passe deixando a chance de realizarmos pra nós mesmos. O tempo nos conduz ao fim, mas é enquanto ele passa que temos a chance de sermos o nosso melhor e deixarmos marcas na família, entre amigos, na nossa sociedade e até para a Humanidade. Só depende de nós.



07/02/2014 13h27

O resgate do Bem x Mal
Bia Willcox

Diante de tudo que meus olhos tem visto e meus ouvidos escutado, me remeto à Filosofia para tentar resgatar um pouco de dualismo, dicotomia, maniqueismo ou seja lá o que for. Preciso de ajuda para enxergar o mundo e especialmente o Brasil de hoje.

Com a perda de sentido claro nas definições e limites do bem e do mal, a transgressão (falo sob o aspecto ético e moral) perde seu peso, passa a inexistir. E precisamos identificá-las de alguma forma.
Recorrer a referências de bem e de mal nos ajudam a encarar fatos e opiniões com mais clareza, como se vissemos o que acontece em HD e pudessemos assim colocar as coisas nas prateleiras mentais corretas.
Em outras palavras, sem os valores do Bem e do Mal, fica bem mais dificil tomar pra si modelos de conduta que valham ser replicados. Só há transgressão se há "pecado", só há mérito no bem.

Não me achem retrógrada, careta ou maniqueista. Mais do que ser de uma linha ideológica, de um partido político ou de uma crença religiosa, quero ser alguém que acredita no Bem. Sim, como nas histórias de superheróis.

Não quero julgar nem classificar pela cor, classe social nem nacionalidade.
Não quero rotular pelo temperamento explosivo e nem pela quantidade de parceiros sexuais.
Não quero separar gente em escaninhos pela marca da roupa que vestem ou o bairro onde moram.
Só tem uma classificação que quero cada vez mais lançar mão:
Gente do bem e gente do mal.
Quero separar o joio do trigo.

Identificar a bondade e a maldade. Quero contrastá-las com toda a clareza possível.
Errar é a regra. Somos humanos. Mas errar é diferente de fazer o mal. Quero quem erra, aprende, se humaniza e faz o bem.
Recorro a Platão.

Ele acreditava que o bem era como o sol. Sem o sol ninguém vê nada. Sem o sol, nem a fresta de sua caverna faz sentido.

Analogicamente, sem o bem não há justiça nem verdade.
Quero Platão - atemporal, sem prazo de validade, Platão hipster.
Fico com o bem - uma opção filosófica jamais ultrapassada.



02/02/2014 17h37

MoMa tão esperado de todos nós
Bia Willcox

O MoMa (Museu de Arte Moderna) está em nosso alvo e corações. Para muitos, como nós, o MoMa é a Estátua da Liberdade ou a Torre Eiffel.

É incrível como a cada visita que fazemos, descobrimos algo novo e simultaneamente nos sentimos cada vez mais em casa. Dessa vez não foi diferente. O MoMa está recebendo uma exposição temporária(de novembro do ano passado a março deste ano) sobre a trajetória artística de Isa Genzken, de maneira simples e bem demarcada- embora em nenhuma hipótese superficial.

Ao adentrar a exposição o espectador é surpreendido pelos trabalhos iniciais (dos anos 70), inspirados principalmente pelo fascínio da artista alemã com os movimentos e ondas de som. Para ela, sons são movimentos no espaço, ou seja, ela preocupa-se em revelar a faceta arquitetônica do som. Em 1980, ainda levada por seu entusiasmo com a audição (audição não pura e simples, há em seu trabalho uma percepção quase sinestésica do som), Isa realizou uma série fotográfica representando orelhas de pessoas aleatórias na rua (além de ter a sua própria orelha fotografada). Essas primeiras obras traduzem o interesse de Isa em engenharia e som, além da combinação de variadas formas de mídia em vez de ater-se a uma só prática ou tradição artística. Para citar algumas obras: Ellipsoids and Hyperbolos(1976/82); Ohr/Ear(1980) e Weltempfänger/World Receiver(1982), o ready made de Isa.

Foto: Giulia Willcox

Em 1984, houve uma pequena mudança na abordagem artística de Isa: em vez das suntuosas esculturas dos primeiros anos, volta-se para esculturas de pequena escala, feitos à mão, como em Mein Gehirn (Meu Cérebro), representando seu cérebro(o que revela um desejo artístico pelo autoconhecimento) feito de gesso. Isa Genzken também bebeu muito da arquitetura (principalmente arquitetura modernista, da qual é uma entusiasta) durante os anos 80, tendo feito amplo uso de concreto em suas esculturas. Exemplo mais notável dessa interseção com a arquitetura é a obra Bild (1989). Embora seja mais conhecida por seu trabalho como escultora, Isa Genzken também se dedicou a trabalhos com pintura, como em Basic Research (1989-91).

Os anos 90, a meu ver, inauguraram o período de maior expressividade artística de Isa, com X-Ray (1992) sendo possivelmente uma de suas obras mais irreverentes. Trata-se de uma série de imagens de Raio-x (da própria autora, diga-se de passagem) tendo condutas inaceitáveis em um ambiente hospitalar, como beber uma taça de vinho e fumar. Muitos podem ver nesta série um humor ácido, revelando um lado jocoso e desafiador da artista. Durante a década de 90, Isa seguiu dando asas a seu fascínio pela arquitetura, tendo produzido obras como: X; X-motif MLR (ambos de 1992) e Bismarckstrasse (1994), feitos de resina epoxi.

Foto: Bia WillcoxSeu fascínio por Nova Iorque começara desde sua primeira visita à cidade, nos anos 60. Em meados dos anos 90, Genzken estabeleceu-se em Nova Iorque por um maior período de tempo. É daí que surge I Love New York, Crazy City(1995-6), a primeira vez que a artista se utiliza da colagem. A obra é uma miscelânea das experiências vividas por Genzken na "cidade maluca" em pedaços de papel: contas de hotéis, comandas de restaurantes e bares, cupons, etc. Seu romance com a Big Apple se estendeu por toda a sua vida e refletiu em sua produção artística.

Isa Genzken estava em Nova Iorque no dia 11 de setembro de 2001 e testemunhou o ataque e o colapso das Torres Gêmeas. Os eventos deste dia a abalaram sobremaneira e seu trauma foi traduzido na produção de Empire/Vampire, Who Kills Death (2003-04). Com a justaposição de objetos que encontramos em nosso cotidiano, como um patinho de borracha ou um sapato infantil, Genzken expressa de maneira muito eloquente o terror vivenciado naquele sombrio dia, envolvendo o espectador em uma experiência cinematográfica, como se tivesse inserido em documentário de guerra. Ainda, em 2007, realizou a série Ground Zero. Trata-se, na verdade, de uma instalação, em que o espectador tem um contato direto com cada escultura, todas do tamanho aproximado de uma pessoa. Um novo marco arquitetônico era necessário para substituir o vazio deixado no Ground Zero. A série retrata o cenário que Genzken imaginava para o Ground Zero. Percorrendo de um hospital, uma igreja, a uma boate, Genzken renova o otimismo e a alegria de viver que ela sempre associou à cidade de Nova Iorque, abalados, mas de jeito nenhum apagados, pelos eventos trágicos do 11 de setembro.

É uma ode à Nova Iorque. É a visão de uma alemã apaixonada pela cidade. E apesar do tom pessoal que as obras de arte têm, Genzken é gentil e permite que todos partilhem deste sentimento.
Como brasileiras apaixonadas por Nova Iorque, vestimos a carapuça.

E deixamos o 6o. andar do MoMa, deixamos a Isa, para mais uma vez nos perdermos entre os Picassos, Wharols e Magrittes dos andares de baixo, enquanto o inverno do lado de fora gentilmente complementava o clima de charme e beleza daquele lugar.

*Com colaboração de Giulia Willcox



31/01/2014 13h15

Traição
Bia Willcox

Dizem que todo mundo trai. Que já traiu e que já foi traído. Há os que digam que nunca trairam. E os que dizem que estes ultimos mentem!

E se o assunto é esse, eu pergunto: há perdão pra traição?

Trair leva a mentir. Numa situação de traição se diz que o pior papel é o do enganado. Será? Se a traição foi fato único e sem importância e o relacionamento tá muito bem obrigado, talvez o enganado seja o cara mais feliz do triângulo, poupado de tudo e sem o peso de qualquer culpa.

Não há dúvida, mesmo que não se perdoe, que existe traiçào acidental, como aquela da pessoa que quer parar fumar e derrapa fumando um cigarro comprado ali na banca de jornal . As pessoas caem em tentaçào e na maioria das vezes se arrependem depois. É possível perdoar, dependendo do contexto e da duração da traição, porque trair em situaçoes eventuais é diferente  de ter um caso ou manter uma relação por tempo ilimitado. Acho que se trata de situações com grau de encolvimento diferente, mesmo sendo ambas "erradas", me parece que uma é mais errada que a outra.

Uma é traição do corpo e outra é traição da alma.

A traição do corpo è a mais óbvia. Trair é ter contato físico com outra pessoa, ou seja, fazer sexo nos seus mais variados contextos e intensidades. 

A traição da alma é mais subjetiva. É aquela que, com contato fisico ou nao, absorve nosso olhar, nossa atenção e nosso pensamento. Pra muitos essa é a mais perigosa. 

Pensamento - realidade dura qua do se trata de traição. As  pessoas traem em pensamento e não há nada nada que se possa fazer contra isso. Encaremos o fato. 

Homem pensa besteira e mulher também. Tem pensamentos que a gente nao admite nem pra nós mesmos. Mas eles existem. E se isso é traiçao, é a traicao perfeita. Não há o que culpar nem o que perdoar.

Mais do que simplesmente não trair, é querer estar onde estamos num relacionamento. Pensando ou não, escorregando ou não, ser fiel aos nossos mais íntimoa sentimentos em relação ao outro é o que realmente importa. Já dizia Birgitte Bardot "Pior do que ser infiel é ser fiel sem o querer".



27/01/2014 11h53

Hipocrisia é um travesseiro macio
Bia Willcox

Todo mundo precisa de uma boa noite de sono pra zerar a energia gasta, os problemas e renovar todos os tipos de emoções de seu dia. E para isso, nada mais essencial que um bom travesseiro. Dormir com um travesseiro ruim é devastador. Acorda-se de mau jeito, com torcicolo, amuado.
Um bom travesseiro resolve boa parte dos problemas de sono. Pareço estar falando algo sem nexo. Já, já vocês entenderão (ou não) a relação que fiz.

Implico com muitas coisas. Com desvios de caráter, com falsidade, com mentira e com hipocrisia. Tem gente que não liga tanto, incorpora todas essas coisas em seu dia a dia ou porque realmente acha tudo normal, ou porque tem um juízo de valor revestido de amoralidade. Ou, ainda que conscientes das implicações delas, passaram a aceitá-las por conta da tal elasticidade da moral.
Acredito que a moral se torna elástica, mas me engesso quando se trata de hipocrisia, por exemplo.
Hipocrisia me tira o sono (já que comecei assim).

Tenho tentado entender (quem sou eu!) os mecanismos do desejo humano. Somos seres cheios de instintos e impulsos e vivemos a culpa enorme de pensar no que fazemos. Fazemos porque sentimos, nos arrependemos porque pensamos. Temos desejos, fantasias e perversões. Muita coisa trancafiada, espremida num canto qualquer da gente, pronta pra saltar pra fora às vezes, antes do término do primeiro drink. Um querido amigo psicanalista um dia me convenceu de que todos os seres humanos tinham suas perversões. Podiam sufocar, não reconhecê-las, mas tinham. Ele estava certo. Feita a constatação, comecei a prestar atenção e fuçar casos e histórias. E aí vem a minha desolação com muitos. Fazem muito de tudo, "na encolha" (e não é mesmo necessário alardear a sua vida íntima aos quatro ventos) e, simultaneamente, julgam, excluem, criticam.

Quem somos nós para julgar ou criticar o gosto sexual, o desejo, o tesão do outro? Deus? Até onde eu sei, nem Deus faria isso. Mas muitos fazem. Hipocritamente.

Tem também o hipócrita que transgrediu na juventude e usa uma régua dura com seus filhos, como se nunca tivessem andado fora dos trilhos. Pais têm que educar, coibir e dar limites, mas devem ser próximos e humanos. Filhos têm o faro apurado para detectar pais hipócritas em primeira mão.
Uma das piores hipocrisias para mim é aquela da fé. Eu vejo gente ir à missa, rezar, comungar e falar em nome de Jesus. Jesus, aquele cara diferenciado e firme, que pregou ações de bondade e ética "seguidas" por tantos, sabe? Pois é, usam o nome dele e agem cinicamente com preconceito e maldade. A torto e a direito.

É como se a Igreja fosse um escudo protetor que habilitasse as pessoas a discriminar, falar mal, zoar o próximo. Sem culpa. Sem cerimônia. Depois é só confessar, pedir perdão e pronto. Se é que se tem a noção de que agem contra os preceitos que seguem.

As redes sociais são a grande vitrine dos hipócritas. Nelas, todos se sentem poderosos, superstars, capazes de, num acionar de dedos, postar o que lhes vem à cabeça, sem filtro, sem reflexão. E os absurdos e incoerências florescem como a primavera: vemos as pessoas exporem o pior de si. Segregam, xingam, radicalizam, excluem, fazem bullying e,ouso dizer, em alguns momentos chegam a ser maus. Exagero? Acho que não. É possível ver uma mesma pessoa postar sua foto numa ação beneficente e pouco tempo depois, reclamar que a classe C (como se só fosse C porque ela generosamente permitiu) lotou o aeroporto que ela possivelmente achava que era privilégio exclusivo dela.
Nesses dias de verão tenho assistido a shows inéditos de hipocrisia.

A praia, por exemplo, tem incomodado. Já vi gente postando foto de pobre-negro-feio (tem que ser a trilogia) e comentando debochadamente. E o mais assustador: muitos comentários de apoio e risadas. Essa gente bacaninha que faz graça com os menos favorecidos se considera cool, bondosa, temente a Deus e, possivelmente, generosa.

Voltando ao início, essa galera dorme bem. A hipocrisia é quase fisiológica. É escudo que protege e alivia. É travesseiro macio e confortável.
Prefiro noite sem sono.
Sigo Confúcio.

"Foge por um instante do homem irado, mas pra sempre do hipócrita."



10/01/2014 16h01

Relacionamento em tempos de compartilhamento
Bia Willcox

É possível manter relacionamento ou casamento em redes sociais? Dá pra ter marido com Facebook ou mulher com Instagram?

As redes sociais que revolucionaram as relações interpessoais estão indo além: elas estão obrigando homens e mulheres de diferentes idades e classes sociais a repensar o amor.

O que pra muitos é visto como traição ou assanhamento na vida real, pode ser só uma diversão virtual pra aqueles que passam algumas horas por dia nas redes sociais.
Passear pelo facebook dando umas curtidas aqui e umas cutucadas ali é como olhar a garota que passa na calçada como era no tempo dos meus avós. Se é traição? Aí é com vocês.

A diferença é que no tempo da vovó ela não podia (e nem queria) ver o vovô virar o pescoço para ver uma mulher passar ou elogiar a secretária. Hoje a gente pode acompanhar tudo que os parceiros e parceiras fazem no facebook, por exemplo, e tornar isso algo obsessivo e doentio até.

Tem até nome pra isso, ainda sem tradução pro Português, mas bastante usado já aqui. Você que acompanha tudo o que o outro posta e faz na rede é um STALKER.
Imagina a vovó "stalkeando" o vovô pelas ruas e escritórios da vida, se escondendo entre uma porta ou um poste? Pois é, na internet é assim.
Tudo exposto, exibido e escancarado. E parece ser essa a graça.

O problema é que sentimentos como ciúme, insegurança, possessividade não mudaram com o advento da internet. As pessoas continuam as mesmas.
Daí a confusão. Brigas,baixarias, términos e traições. Nos EUA, por exemplo, os divórcios crescem sem parar por causa do Facebook.

E ao que me parece, ninguém quer parar. Hoje, não é só o vovô que interage fora de casa. A vovó também! É como se ela resolvesse ir a luta e entrar na brincadeira do flerte do bar ou do escritório. Estão todos querendo se divertir na rede.

Ou seja, muito desentendimento, desconfiança, e pé atrás de ambos os lados. Todo mundo tem medo de se entregar e se dar mal.

As mulheres continuam sendo aquilo que sempre foram: românticas. Se elas estão namorando ou são casadas, elas ficam felizes com fotos do casal, músicas e declarações postadas na rede. Homens são mais pragmáticos em geral, mas não gostam de ver sua mulher se expondo em fotos, sorrisos e elogios masculinos por lá.

E ai vem o pior: as mensagens fechadas - o famoso inbox. O povo pira. Enlouquece. Muitos descobrem a senha do outro e fazem um estrago. Tem aqueles que não desgrudam do celular nem pra tomar banho. Afinal, a qualquer momento pode subir uma mensagem mal interpretada por quem lê.
E aí vem o maior dos equivocos: compartilhar as senhas. Não,não! Ter a senha do outro não é sinônimo de confiança, e sim de desconfiança.

Não há outra saida além da convicção de que a outra pessoa está somente respirando em outro ambiente, mas que gosta de você e jamais iria te Na dúvida, usem mas não abusem das redes sociais.