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Bia Willcox

Bia Willcox

Advogada formada pela UERJ, tem bacharelado em língua inglesa. Educadora progressista, fundou sua escola de inglês para crianças em 1994 com metodologia própria. Dos livros didáticos que desenvolveu, partiu para outros tipos de livros fundando a editora Faces em 2010. Dos concursos literários que venceu quando estudante e da vocação para o jornalismo, ela escreve roteiros e assina algumas colunas Brasil afora. Produz conteúdos e eventos atuando como debatedora e mediadora. Curiosa e instigada por natureza, escreve sobre comportamento, passeando por temas como relacionamento, amor, preconceito, respeito e tantos outros valores, muitas vezes permeados por filosofia simplificada e acessível a todos.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



24/11/2014 12h12

Ser jovem mesmo
Bia Willcox

Cresci ouvindo minha avó dizer que envelhecer era tão ruim que nem os próprios velhos queriam a companhia de outros velhos. E que diversão era ter gente jovem por perto.

Como nessa época a ideia de velhice situava-se em outra galáxia pra mim, eu achava graça das declarações da minha avó sem muito me aprofundar no assunto.

Noto que velhice é o não-desejo apesar de única certeza inexorável. Ninguém quer ficar velho ou sofrer qualquer tipo de efeito colateral do tempo. Por isso dá-lhe plástica, botox, preenchimento e lipo. Por isso os excessos de dieta e de todos os tipos de massagens e recursos mefistoféricos.

É mais que só vaidade - é a tentativa um tanto tecnológica de vencer a batalha contra o relógio. Pois se há um monstro sem cabeça, fantasma ou bruxo, ele se chama tempo. Bonzinho como remédio que cura quando passa, sábio, parceiro incomparável nas grandes coisas da vida, ele é mais que tudo o vilão master da nossa existência.

Inegável. O arauto da morte.

Voltando à minha avó, o desejo de se manter jovem é legítimo. O problema é como. O grande equívoco de todos os tempos é acreditar que a aparência rejuvenecida vai nos habilitar no clube da juventude. Não vai. A carteirinha de sócio-jovem benemérito desse clube está nas ideias, no linguajar, na amplitude da mente. Está até nos gestos e no jeans.

Ser jovem é conseguir dialogar com novinhos sem se perder e fazer falta a eles. Ser jovem é , sem cair no ridiculo e artificial, ser cool. Naturalmente cool.*

(*) legal, descolado



03/11/2014 13h00

Ao som de Cássia
Bia Willcox

Mês passado assisti ao filme Cássia, lançado no Festival do Rio. Foram 2 horas de coração palpitando e olhos molhados.O impulso de cantar junto a toda a hora tinha que ser freado. E a minha emoção me pareceu customizada - os motivos pareciam só meus.

Eu acompanhei o início da carreira da Cássia enquanto construía a minha própria história numa nova fase da minha vida.

Pari, amamentei, passei noites mal dormidas, ri e sofri ao som da Cássia. E isso muito me ajudou a ser minha, só minha e não de quem quisesse.

Descobri o mundo e aprendi, ao som da Cássia.

Acompanhei as mudanças de estações e vi alguma coisa acontecer, ao som da Cássia.

Foram ondas de emoção particulares (tive a impressão de que ninguém sentiu mais do que eu!)

Ganhei alguma malandragem e fui uma mãe que usava All Star velho (mas branco e não azul), sempre ao som da Cássia.

Assistir ao documentário do Paulo Henrique Fontenelle foi quase uma vertigem musical. A onda é Perceber a sutileza da seleção das imagens, a delicadeza da edição, a riqueza das entrevistas e depoimentos e, sobretudo, sentir a bomba emocional que foram os diálogos e falas da Cássia.

Minha avó materna me ensinou que o que quer que a gente faça, que faça com elegância e classe. E de repente eu vi no filme a minha prima, que cresceu sob os mesmos preceitos éticos que eu, emocionada, eloquente e elegante, dando um depoimento sobre a Cássia e os seres humanos - foi de deixar qualquer família cheia de orgulho. Ela aprendeu a lição com a nossa avó e fez meus olhos inundarem a cada vez que falava. E o melhor: ao som da Cássia.

Um filme que nos mostra a humanidade e a essência da dona de uma voz espaçosa e invasora.

Uma Cássia que nos mostra que padrões podem ser esquecidos e rótulos também. Mostra o avesso do estereótipo e a verdade das atitudes autênticas. Como bem disse a Zélia, "Cássia veio pra perturbar".

Ali, tive a nítida impressão de que a tristeza tem sempre a esperança em seu lugar. Ri e chorei ao longo do filme, ao som da Cássia.

E assim foi Cássia, um ícone que veio pra realinhar nossas órbitas.

Ternura não-domesticada.

E falando em ternura, tive o privilégio de assistir Cássia na mesma sala que o seu diretor, que da maneira mais simples e singela, dedicou aquela sessão à sua diarista que assistia ao filme com ele. Um show raro de carinho, consideração e humanidade.

Try a little tenderness. Sempre.

Ao som de Cássia.



22/10/2014 14h26

O sol vai continuar a brilhar no dia 27
Bia Willcox

O ódio não é o sucessor da paz e da indiferença. O ódio é o raio X do amor, o seu avesso.
Então onde se vê tantos ódios e tanta raiva, possivelmente havia algum tipo de paixão.

Temos visto demosntrações explícitas de ódios nesse período de eleiçòes presidenciais. Onde deveria haver somente discordância, há ódio daquele de desejar o mal do outro de maneira cega, impensada. Por que tanto? Por que tanta gente briga e se insulta por causa de posição política? Se ódio é efeito colateral do amor, pensemos: as pessoas tem amor a que? Ideologias, partidos, orgulhos?

É incrível a banalização dos desentendimentos, especialmente os digitais, por causa de eleição.
É sempre bom lembrar que o dia 26 de outubro está chegando e quando ele passar, o sol vai continuar brilhando. Os politicos vão se eleger ou não, algumas pessoas se darão melhor do que outras, teremos vitoria e derrota.

É o jogo. E antes que ele acabe, aceitem algo: há corrupção em qualquer lado, há alianças inimagináveis sempre, há total falta de ética, há conchavo, há lobby, há vontades e há mentiras.
Há boa intenção e há maldade. Há cinza entre o branco e o preto (ou seria entre o vermelho e o azul?). Há ideologias e cada um deve seguir suas crenças, compondo seu juizo de valor e fazendo suas apostas no campo individual e coletivo.

O que não pode (não deveria) haver é a compulsão em derrubar candidatos e com eles as amizades às vezes sólidas e antigas, com intolerância e falta de respeito, usando armas infantis e preconceituosas para argumentar e justificar seu voto.

Não me importa a maconha que FHC já fumou, a chachaça que o Lula bebeu ou o pó que o Aécio cheirou. Ou mesmo o Rivotril que qualquer outro político possa tomar. Não me importa o número de dedos, quantas mulheres já pegou, os quilos a mais na balança ou o botóx que colocou. Não tem relevância se errou o plural ou se gaguejou.

Ei, acordem para os argumentos de todos os lados. É pueril - quase um "feio,bobo e chato"
Foco, por favor. E lembrem-se: vocês andam brigando mais por candidatos do que qualquer um deles jamais brigou por nós.

Dia 26 vai passar na marra e a ressaca moral vai incomodar na razão direta dos ódios irracionais.



10/10/2014 20h49

O show do segundo turno
Redação SRZD

Tempo de eleição é tempo de falar de opções pessoais e preferências. Muitas vezes nada racionais - quase um ato de fé (e por vezes até envolto numa aura de fanatismo). Declarar votos e apoiar candidatos é frequentemente (e independente de questões materiais, fatos e ideologia) uma questão de gosto.

E como todos sabem, gosto não se discute. Lamenta-se, mas não se discute. Ou não deveria se discutir.

Nessas eleições, o debate girou bastante em torno de questões ligadas ao progresso (?) social. Aborto, casamento gay e legalização da maconha ocuparam um lugar enorme na pauta de discussões dos candidatos. E nesse último grande debate não foi diferente.

A pegunta é: por quê? Porque educação, moradia, transporte público, política econômica, inflação, recessão, entre outros, foram ofuscados pelos temas polêmicos?

Na minha não muito profunda e modesta opinião, vejo a sociedade bipartida ideologicamente falando. Vejo o branco e o preto, o bem e o mal, o gosto e o desgosto.

Vejo que a internet e suas redes que tanto nos ocupam o dia, facilitam bastante o acirramento do ódio entre pessoas, grupos, ideias e posicionamentos.

Vejo questões de fé e, portanto, ilógicas por natureza, serem trazidas à tona, como se fosse indispensável arrumar as pessoas em diferentes compartimentos e de acordo com suas crenças e gostos.

E me parece que discutir essas questões num debate eleitoral é desafiar os candidatos a escolherem as suas caixas, a se posicionarem. "Ei, antes de votar em você, quero saber se você é a favor da descriminalização do aborto ou da legalização do uso da maconha. Porque sua opinião nestes casos me dirá quem você é e em que lado você está. Só voto em você se você estiver do meu lado e pra isso preciso dessas respostas já".

Essas eleições ilustram uma polarização social tão grande que me parece ultrapassar a dicotomia direita x esquerda. É careta x moderno, ateu x religioso, gay x hetero, bom x mau, e por aí vai.

Neste momento, estamos jogando fora todos os preceitos filosóficos, ensinamentos religiosos e princípios de ética para darmos um verdadeiro show de intolerância, pouco respeito e muita insensibilidade e falta de educação. Não faz mal, queremos somente defender nosso gosto, nosso lado, a qualquer preço, certo?

E não vai parar nem mudar. Se tudo der certo, teremos um show de ódios e horrores até o 2º turno, principalmente nas redes sociais.

Para os que gostam de sangue, bom espetáculo.


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19/09/2014 15h48

Aprendendo com os leões
Bia Willcox

A vida dos leões sempre me interessou. Se me perguntarem por que não cavalos, cobras ou elefantes, não sei se saberia dizer ao certo. Talvez por eles serem os reis do pedaço ou por sua beleza indiscutível. Só sei que minha curiosidade pelos gatões cabeludos me ensinou sabedorias de vida (algumas BEM politicamente INcorretas) que, quem sabe com sorte, podemos utilizar entre nós. Afinal, eles são os caras, né?

1) Os leões rugem para marcar seus territórios. O som que eles emitem é tão forte que pode ser ouvido às vezes a 8 km de distância.
Lição: Tem horas que é preciso levantar a voz pra se impor. Sem gritaria ou histeria, um tom imponente ajuda bem.

2) As leoas são melhores caçadoras que os machos. São ágeis, rápidas e sabem trabalhar (caçar) em grupo muito bem. São responsáveis por grande parte da comida do grupo.
Lição: Mulheres arrisquem-se no mercado de trabalho. Nada de ficar cuidando do território doméstico. Vocês podem se revelar proativas, versáteis, solucionando problemas e sabendo trabalhar em grupo.

3) Machos matam os filhotes dominantes do pedaço para que suas fêmeas entrem no cio mais rapidamente e copulem com eles.
Lição: Mulheres também perdem o desejo sexual quando estão com seus filhos. Pensem bem antes de procriarem, bebês atrapalham o sexo.

4) Leões tem vida curta. Um dos motivos? Batalhas constantes por território, ataques de outros bandos e lutas com outros predadores.
Lição: Como diria Lobão, Melhor viver 10 anos a mil (ação, batalhas, glórias!) do que mil anos a 10 (vide a vida morna da tartaruga!)

5) Leões tem vida curta II. Motivo? Dieta rica em gordura, sedentarismo e, consequentemente, colesterol alto.
Lição: Dieta de baixa gordura e exercício físico sempre!

5) Os leões são os únicos felinos sociáveis que vivem em bandos.
Lição: Para ser um bom líder, é bom que tenha boa inteligência interpessoal e interaja bem em diferentes grupos.

6) A juba do leão tem até 24 centímetros.
Lição: Homens, cabelos grandes e levemente desgrenhados é o que há!

7) Leões jovens sobrevivem mais porque andam em bando.
Lição: Grupos são importantes e até necessários, seja de que tribo forem.

8) Fêmeas podem ser abandonadas pelos machos mas não aceitam outro facilmente.
Mulheres, critério sempre. Antes só do que mal acompanhada!

9) Os leões são monogâmicos e capazes de fazer sexo até 50 vezes ao dia com suas fêmeas.
Lição: É possível ser feliz sexualmente com uma pessoa só. Basta que os dois queiram, ou queiram querer.

Se os leões são assim e estão no topo da cadeia, por que nós não?



27/08/2014 14h00

O diabo mora no celular
Bia Willcox

Dizem por aí que o diabo mora ao lado. Para muitos sua oficina funciona em cabeças vazias. O diaba abraça a todos que estão no Inferno, certo? Mas onde realmente mora o Diabo.
Ultimamente, tudo leva a crer que o diabo mora dentro do celular. Especificamente dos smartphones. Eu explico.
Já repararam a quantidade de confusão, desentendimento e ruptura que um aparelhinho que cabe no bolso pode causar?
Eu tenho ouvido tantas histórias de brigas, desconfianças e traições descobertas no celular, que tô começando a acreditar que o capeta fica por ali na espreita.
Presta atenção:
1- Esposa expulsa marido de casa porque descobre amante. Onde ela viu tudo? No celular.
2- Marido descobre que mulher tá falando com um amigo especial aonde? no imessage do iphone que aparece em seu ipad. Em resumo, no celular.
3- Marido larga celular em casa e mulher lê inbox de amiga alegre. Por que deu merda? O celular, oras.
4- Namorada vê namorado flertando no whatsapp com colega e resolve fazer o mesmo para empatar. Vira bagunça por que? O de sempre, o celular.
5- Possível cliente liga pra celular de prestador de serviços que não atende por ter deixado o celular no silencioso. Este perde o cliente. Culpa do smart (não tão smart) phone.
6- Namorado manda imagem errada pra namorada pelo whatsapp. Ela vê que não era pra ela e dá ruim. Confusões corriqueiras no celular.
7- Pessoas que não atendem o celular mas ficam visíveis online também se tornam vítimas de agressões verbais e ameaças de rompimento do relacionamento.
8- Marido abrir o whatsapp e não responder à mulher que enviou mensagem, pode até dar morte. Basta ela ver que você entrou lá e não lhe respondeu.
9- Mulher ou marido põem senha no celular. Mas por que? Desconfiança generalizada no ar.
Facebook, Whatsapp, imessage, e-mail, todos faces do mesmo cramulhão (dizem até que todos os diabos são mesmo parecidos). Aquele que amassa o pão que a gente come com prazer na tela do smartphone.

E mesmo com tantos dados alarmantes, ninguém pretende deixá-lo de lado. Pelo contrário, dorme-se e acorda-se com o diabinho ao lado, na mão.
Até mesmo porque dizem que o Inferno tem lá a sua graça. Quem quer parar de se divertir nas redes? Quem quer largar o vício?
Sigamos em frente e dancemos conforme a música. Afinal, nem sempre o diabo é tão feio como pintam. Mas que ele tá lá no seu celular, ah isso ele tá.



16/07/2014 10h37

O lugar comum de cada dia
Bia Willcox

Segundo o Aulete, "lugar comum é Ideia, expressão ou argumento banal, sem originalidade; BANALIDADE; CLICHÊ.

O clichê é uma frase ou expressão que, de tão utilizada, ficou previsível. É uma ideia batida, uma fórmula que se repete.

Eu sei que muitos aqui sabem disso. Não quero parecer didática.
Acho que comecei pelos dicionários porque preciso mudar em relação aos clichês.
Virei uma pessoa paranoica e quase amarga por causa deles. Passei muito tempo ouvindo pessoas interessantes e sabidas dizendo "isso é um clichê" quando queriam criticar um texto ou obra, tornando-o menor. Daí, desenvolvi essa espécie de clichefobia: ando ligada o tempo todo para que o que penso, falo ou escrevo, não caia em algum lugar comum. Para não usar clichê.

Nossa, que pretensão a minha! Óbvio que não vou conseguir. E que chata venho me tornando com isso! Quero acordar enquanto é tempo (opa, detectei um...) e seguir escrevendo com liberdade o que sinto (ai meu deus, mais um). Alguém pode me ajudar a parar de debochar de mim mesma? Tudo bem que hoje só se pode ser politicamente incorreta com a gente mesmo (o famoso se autossacanear) mas essa história de patrulhar meu próprio texto atrás de clichês tá me fazendo mal.

A verdade é que essa busca frenética pelo "lado B" ou pelo que nunca se viu nem ouviu é quase ingênua. Escrever o que ninguém espera ler é admirável, fazer o que não se costuma fazer, ou fazer de um jeito novo, também. Os textos cliche-free de Rubem Fonseca, os dramas psicológicos de Bergman ou o humor refinado de Woody Allen justificam a minha saga pelo extermínio de clichês - eles são geniais. E eu admiro feitos geniais, esse é o meu tombo.

Mas convenhamos (escrevo e falo pro espelho, pra tentar me convencer) se algo se repete porque deu certo, tem um grande mérito não? Se virou clichê é porque funcionou bem, ficou popular, fez sucesso na acepção simples e objetiva da palavra. É preciso mais respeito ao sucesso. Se é pop, se agrada a milhões, tem o seu valor, reconheçamos. De Romero Britto a Paulo Coelho, de Anitta a Marcelo Rossi, há uma legião de críticos se referindo a eles com desdém e sarcasmo. Se eles se tornaram clichês humanos, é porque agradaram a muitos fazendo o que fazem como fazem. Têm todo o meu respeito. Sempre tiveram. Principalmente hoje, quando tento humildemente entender meu erro em rejeitar tão radicalmente o lugar comum.

A partir de hoje não terei medo de ser feliz (ops, lá vem ele). Nelson Rodrigues não deixou de ser do time dos geniais porque se utilizava de clichês (e ele abusava deles!). Faço minhas as palavras da Lispector: nasci pra ser livre (até ela, viu?) e não preciso fazer o ENEM, portanto inauguro aqui uma nova fase. A fase em que amadureci e entendi que o estoque de opções de linguagem é limitado e que o que é bom vai se repetir, sim. E virar o tão mal falado lugar comum.

Afinal de contas, por que o meu lugar não pode ser comum?
Pode sim. E será.



02/07/2014 07h49

Uma chave para qualquer sucesso
Bia Willcox

Passei anos da minha vida acreditando no glamour da inteligência, do charme e da sorte para se triunfar. Achava que o sol nascia mais pra quem tinha esse bilhete premiado. 

Na escola, desdenhei, graças a Deus por pouco tempo (acordei rápido!), os caras aplicados (eram chamados de CDFs ou cedeéfes) e endeusei (e me endeusei, também por tempo curto -  (o equivalente ao anos dourados das bobagens teens) os que tinham "facilidade", os que eram considerados inteligentes. Como a gente é boba, não?

À medidaque o tempo foi passando, fui observando umas pessoas mais próximas e ouvindo histórias de outras que diziam mais ou menos assim: "tão intelgente, tão talentoso, mas não deu em nada" ou "era tão bom no que fazia, mas não deslanchou e acabou desistindo". Comecei a entender que de talentos e gênios anônimos o mundo tá cheio.

Como não sossego se não entender o funcionamento das coisas (incluindo o comportamento humano), procurei fazer o caminho inverso: buscar nas pessoas de sucesso, bem-sucedidas material e psiquicamente, o percurso delas pra chegar onde estão.

Da leitura da Forbes Brasil ou Você S/A ao passado de atletas, artistas, profissionais liberais e empresários saudáveis que fucei, localizei um ponto na maior parte deles (claro que há exceções onde uma genialidade gigante basta) - a perseverança.

Ok, eu digo algo sabido, óbvio e nada novo. Mas sempre é pertinente lembrar isso, já que, muitas vezes, nossa reação diante de uma dificuldade é acabarmos esmorecendo.

Desanimar quando não "vem tão fácil" é humano à grande maioria de nós. É difícil ver "o quadro maior" ver à frente do que todo mundo vê.

Bem, eu não tenho mais dúvida (e as notícias podem não ser boas aqui):

- Nosso corpo só começa a modificar com a continuidade dos exercícios físicos, tem que insistir!

-Não dá pra aprender língua estrangeira em poucas semanas, tem que ralar por mais tempo se quer dominar minimamente.

-Dietas milagrosas em uma semana não vingam por muito tempo, é bom que se mudem certos hábitos alimentares pra se perder peso de forma consistente. Tem que levar adiante.

-Uma ideia nova ou um produto novo podem não "estourar" logo no mercado. Tem que bolar e rebolar pra vender a sua ideia e isso leva tempo.

-Chegar com seu negócio num local que ainda não o conhece é trilha difícil. Divulgar, convencer, mostrar a que veio, insistir. Se você acredita na qualidade do que você faz ou do serviço que você presta, não desista.

-Há talentos muitas vezes ainda não revelados. Muitos "nãos" em testes e seleções diversas. Vá em frente, persevere.

O que se quer é o produto final triunfal, mas é no percurso que ganhamos sabedoria e expertise. É também no percurso que, mesmo com tropeços e tombos, reafirmamos ou descobrimos novas vocações. É na busca pelo tão esperado sucesso que desenhamos expectativas e nos sentimos felizes. Desistir pode ser aconselhável em alguns casos, mas em outros traz frustração e infelicidade.

Eu podia encerrar com Steve Jobs que dizia que o que separava empreendedores de sucesso dos outros era a perseverança pura. Mas meu universo é maior e eu vou além, fechando com um provérbio milenar chinês.

Perseverança realiza o impossível.



11/06/2014 15h49

A briga dos X-Men é nossa!
Bia Willcox

Muitas vezes quando ando pelas ruas da cidade ou mesmo qua do estou no metrô ou num evento qualquer, me pego olhando pras diferentes gentes ao meu redor e pensando: "em que cada uma dessas pessoas é especial, diferente das outras?"

Nos últimos dias prestei ainda mais atenção nisso, principalmente depois de ter assistido o novo filme dos X-Men no cinema.

Gosto de achar lógica e aplicabilidade na ficção. Acredito no fundo verídico das histórias inventadas. 

Os mutantes estão por aí em cores e formatos diferentes, misturados entre si e tentando sobreviver em meio a tantas diferenças. Todos temos algo especial que nos torna diferenciados, sejam super poderes explícitos ou implícitos. Todos somos heróis (ou anti-heróis) para um alguém ao menos. A Humanidade não se constitui de uma série incontável de tijolos iguais na parede , imagem eternizada por Pink Floyd. E justamente porque não somos tijolos idênticos, precisamos saber lidar com a aldeia de mutantes em que vivemos e convivemos.

 

Existem sim indivíduos com dons e capacidades especiais e que fazem a diferença onde chegam. Aceitá-los e tolerá-los é processo social complexo mas possível - trate-se de entendimento da nossa engrenagem biológica e social. Entendimento de que temos co stituições genéticas diferentes que nos tornam melhores em algum aspecto e piores em outros. Até o Superman tem seu ponto fraco. Todos temos. E essa é a dança da Humanidade.

 

A luta dos X-Men por inclusão é uma boa ilustração ficcional de como devemos proceder enquanto elementos sociais.

 A "briga" dos mutantes deve ser a de  todos nós.

Briga por aceitação de todos os gêneros, gostos, opções, habilidades e inteligências.

Briga por inclusão, tolerância e respeito.

Briga por felicidade e paz.

 

De certa forma, estamos em constante mutação nesse planeta. Se nos enxergarmos assim, a trama ficcional dos X-Men passa a fazer até mais sentido real. Passamos a aceitar intransitivamente, sem objeto direto.

 

Nunca fomos e nunca seremos os tijolos do muro. Somos elementos que nos completamos na diversidade sem muros.

Não tenho dùvida. A briga dos X-men é de todos nós!



30/05/2014 14h52

A ideologia Criolo no Circo Voador
Bia Willcox

Um dia eu pedi uma ideologia pra viver, e nesta quinta, 29 de maio, no espaço democrático do Circo Voador no Rio, parece-me que fui atendida.

Era Criolo no palco. E na plateia uma legião de adeptos que interagiam com suas letras e ritmos tal qual seguidores de uma crença ou fé. Sim, Criolo tem fé. Suas letras tem dor, paixão e crença. Seu show é autêntico, sem concessões à felicidade fácil. Tudo ali faz pensar, sentir e acreditar.

"A ganância vibra, a vaidade excita".
"Não precisa morrer pra ver Deus".
"Rap, que energia é essa?
Um dom, um karma, uma dívida , uma prece?"

Foto: Bia Willcox

E em certos momentos do show, eu me senti numa prece coletiva.  Amor universal pregado por eles, ele e seu fiel escudeiro - o DJ Dan Dan. A plateia lotada e sintonizada teve seu ponto alto quando foi convidada a se abraçar pelo DJ Dan Dan - "Abracem quem está a seu lado."

E assim Criolo contamina uma uninimidade ávida por suas músicas.
No setlist, Nó na Orelha e o indispensável "Não existe amor em SP" além do single "Duas de Cinco", seu mais novo trabalho.

E enquanto o grafiteiro ia delineando sua obra ao som do rapper, suas letras soavam num Circo Voador temático, lotado e energizado.
E dá-lhe ideologia. Dá-lhe questionamentos. Dá-lhe talento.

"É salto alto, MD
Absolut, suco de fruta
Mas nem todo mundo é feliz
Nessa fé absoluta"

Alguns são felizes, sim. Principalmente ao ouvirem você, Criolo, com sua música assertiva, embalada e dissonante no melhor sentido.

Foto: Bia Willcox



16/05/2014 10h18

Todos podem dizer eu te amo (no Facebook ou fora dele)
Bia Willcox

Com o surgimento das redes sociais, alguns sentimentos, desejos e sintomas ficaram em evidência também. Entre eles aquele das demonstraçòes públicas de carinho, paixão e afetos em geral.
Quem não gosta (especialmente no lado feminino) de uma homenagem em público num evento ou comemoração, de uma dedicatória em facebook ou de qualquer outra forma de se sentir valorizado ou querido?

Muitos ficam felizes quando seus namorados ou namoradas assumem um relacionamento sério no Facebook ou quando aceitam em sua timeline um post com uma linda declaração de amor. Postar fotos do casal ou simplesmente do outro ou outra, com palavras incríveis de admiração e afeto e obviamente marcando a foto, fazem a alegria da grande maioria dos que usam as redes.

E eu vou além. Estendo a minha constatação ao mundo offline, especialmente quando se trata de mulheres.
Muitos acreditam que agradá-las é mantê-las desejadas, com a vida sexual em dia. Mas elas querem muito mais. Ou bem menos, depende do ponto de vista.
Mulher quer romance, elogio e sedução. Quer posts pra ela no facebook, quer carinho em público e sedução em particular vinda de quem ela ama. Mulher quer tentativas de declarações originais, quer ser surpreendida com criatividade, quer beijo tanto quanto quer sexo (às vezes até mais).
Mulher quer namorar com seu velho companheiro de guerra. Ela quer se sentir adolescente.

Se isso é fato como parece ser, vai se refletir obviamente no mundo online das redes.
Na verdade, todos querem reconhecimento. Querem ser de alguma forma admirados, seja por familiares, amigos, colegas de trabalho ou parceiros amorosos.
E se, em você, cabem afetos pra dar e vender, não perca tempo, ligue o seu sensibilizômetro pra sacar se as pessoas que você gosta e admira se sentiriam feliz com suas demonstrações públicas de carinho e afeto, e manda bala!
Afinal, adaptando Woody Allen, todos podem dizer Eu te Amo.


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04/05/2014 14h44

O acaso que me protege
Bia Willcox

Não sei se vocês já se deram conta, mas o sentido da vida tá no acaso.
Da fecundação à morte, passando por fatos relevantes de nossas vidas, há sempre a presença de um certo acaso, mesmo que aparentemente planejado e sob controle.
Tem quem não acredite no acaso - acham que ele é uma espécie de força superior que determina as coisas mais inesperadas e inusitadas de nossas vidas. Nós só não tomamos conhecimento com uma antecedência justa. Tudo bem, consideremos o acaso então como uma espécie de pseudônimo de Deus - é quando ele faz algo sem assinar seu nome. Pura sorte ou obra divina, o acaso não deixa de ser incrível por ser surpreendente, aleatório, soco no estômago ou bilhete premiado.

O que seria de nossas vidas sem o eterno ponto de interrogação invisível e indolor que acorda com a gente todos os dias ( e dorme também!) e que está pronto pra nos lembrar que tudo pode acontecer. Ou nada.
Descer para comprar o jornal e encontrar com alguém que não se vê há muito tempo. Perder o ônibus que foi assaltado. Pegar o avião que teve problemas na decolagem. Ir a um compromisso social chato e conhecer o amor da sua vida. Conhecer pessoas durante um vôo, na fila do banco ou na sala de espera do médico. Numa simples reunião de trabalho se encantar com uma ideia ou colocação de alguém. Sempre o acaso botando as manguinhas de fora. Como prever?
O que seria do romance, do sonho e da idealização sem "serendipity" (Serendipismo)? Ele é o acaso com final feliz, é quando algo acidental traz felicidade. Imagina viver sem essa possibilidade?

Pra todo o yin tem o yung, pra todo o bem tem o mal e pra todo o lado bom, tem também o ruim. Se não houvesse o acaso a vida seria monótona e frustrante, mas sabemos o quanto o eterno fantasma do aleatório pode nos assombrar de forma constante. É o medo de sair de casa, o medo de apostar em um projeto novo, o medo de que a pessoa que você ama conheça alguém incrível por obra do acaso. Sempre o temor do que desconhecemos e que pode nos trazer dor.

Bingo! Chegamos num ponto crucial - a angústia existencial. E não há o que fazer a não ser aceitar que o acaso está em tudo e que o não-saber-o-que-vai-ser pode ser sempre uma boa aposta. E que tudo pode terminar( e geralmente termina) bem.
Eu, como vivo distraída, divagando por aí, prefiro acreditar que o acaso vai me proteger sempre.
E assim eu sigo, tentando aceitar a vida com ela é: um grande acaso de inícios, meios e finais felizes.


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10/04/2014 08h22

Presidente do fã-clube dos solucionadores de problemas
Bia Willcox

Quando alguém entra na minha fila mental de possíveis ganhadores da minha admiração, tem que me provar o quanto sabe solucionar problemas.

Admiro a boa memória, a versatilidade, a linguagem sofisticada e o humor refinado. Admiro um monte de coisas nas pessoas. Mas pra virar mesmo fã de alguém, só se for bom solucionador de problemas. Tem que saber dar errado e se reinventar. Sem mimimimi.

Eu ouso afirmar que a solução de problemas é a mais importante das habilidades nesse século que se inicia. A complexidade é muita, a quantidade de informação mais ainda, e as divergências por conta disso ocupam um lugar de destaque nos cotidianos pessoais e corporativos.

Não há mais tempo para analisar, digerir e buscar soluções sem pressa. O problema, o conflito ou o impasse estão aí, gritando no meio da multidão de dados e informes. É um labirinto de vertentes e possibilidades e a saída deve ser achada de maneira breve, a contento. 

Não defendo a dinâmica de hoje como o melhor dos mundos. 

Não, mesmo.

Só observo e relato, com toques pessoais, opinião. 

A maior parte das pessoas gerencia lindamente as crises, define padrões, acha facilmente um plano B, critica com embasamento tudo e todos ao redor, governa o Brasil e tece considerações sobre o mundo do alto de seu doutrinamento, porém dentro de suas cabeças tão-somente. No máximo, exteriorizam numa mesa de bar, num papo entre amigos ou até mesmo em seu blog ou nas redes sociais. E mesmo assim, tendem a focar no problema, nas suas causas e no que não funcionou como desejado, raramente partem pra solução.

Não, não são esses os primeiros da minha fila de semi-ídolos.

Admiro muito quem "pega e faz". Mesmo que sem o planejamento ideal. Mesmo que de uma forma imperfeita. Ele (ou ela) fez. Resolveu. Solucionou o que estava até então intrincado, sem solução. Saiu de dentro de sua cabeça e partiu para o ataque com seu cérebro, olhos, boca, mãos (e muito mais!). Os primeiros da minha fila têm aquela ansiedade necessária (e criticada por muitos, como se não ser nada ansioso fosse algo extremamente virtuoso) para mover a fila, seguir em frente, tocar o barco. Eles veem (muitas vezes anteveem) o problema e não esperam o outro, não esperam o divino, não esperam a velha e manjada solução do tempo. Eles não esperam nada. Eles correm atrás.

Intuitivos e proativos, eles saem do papel. Largam os jargões pelo caminho e acham saídas. Muitas vezes a luz no fim do túnel ou o plano B requerem criatividade e calma, o que me faz admirar em dobro esses caras. Mas, às vezes, a solução é óbvia, simples, direta. Basta levantar da cadeira, tomar um café e mandar ver na solução.

Não uso Nextel, não, mas esse é o meu clube, ou, ao menos, o clube a que eu gostaria de pertencer - o clube doPega-e-Faz.

Por um espaço com menos mimimimi.



03/04/2014 16h23

Assim caminha a humanidade
Bia Willcox

Não sou uma pessoa excessivamente otimista. Sou positiva, mas longe de ser daquelas que, diante de um problema, sorri com leveza, se empolga e diz que vai dar tudo certo, irritando os normais ao seu redor.

Mas tenho a nítida impressão de que há mais bondade que maldade no mundo.
Suponha que pudéssemos contar cada ato de bondade, cada feito, cada sorriso, cada ato de caridade, filantropia, amor ou ternura, cada atitude generosa que tenha ocorrido no planeta no ano que passou e somássemos tudo para termos uma incidência total de Bondade em 2013.

E aí, suponha que fizéssemos o oposto: contássemos cada franzida de cenho, cada momento egoísta e mesquinho, cada chute, soco, tapa, cada ato de maldade, falsidade, cada assassinato, erro ou atitude de má-fé, somássemos tudo também para termos uma incidência total de Maldade.
Teríamos duas colunas - bondade e maldade - um tipo de contagem moral para a humanidade. Qual seria a maior coluna?

Meu palpite cego, sem consultar estatísticas ou especialistas, é de que as duas colunas parecem iguais, mas a da bondade tem um pouco mais e que, ao longo dos anos, séculos e milênios, essa diferença acumulada vai ser cada vez maior.

A meu ver, há uma propensão para a bondade que desenha a humanidade aos poucos e faz com que os povos se movam a passos pequeninos da escuridão em direção à luz. Ou seja, o Homem no futuro será melhor, mais bondoso do que o do passado. Há uma direção na história da Humanidade e isso é claro pra mim.
Por isso a razão nos foi dada, segundo o filósofo iluminista Locke - para que usemos nossa inteligência e senso moral a fim de escolhermos bem e alcançarmos a felicidade.

Eu não estou sozinha na minha crença. Um dia Martin Luther King disse a uma multidão que as pessoas melhorariam. Ele não podia precisar quando, mas ele sabia que as pessoas seriam mais bondosas e justas umas com as outras. Segundo ele, o arco do Universo Moral é longo, mas se curva em direção à Justiça. Obama, 40 anos depois, disse que o arco se curva sim em direção à justiça, mas não o faz sozinho, por sua conta. Ele se curva porque cada um de nós coloca a mão nele, da nossa maneira, e o faz se curvar.
Faz sentido.

Sei que não vivi tanto assim, mas sei de guerras religiosas, saques, aniquilações, injustiças sociais, preconceitos, crueldades tanto quanto sei de atos de bondade e generosidade. Amo e sou amada. Sei do poder e mistério disso. E sei que há uma bondade furiosa no mundo. Ela está lá - teimosa, insistente, tenaz. A questão é: por quê?

Teríamos nós, humanos, recebido certa chuva de poeira angelical? Não. Meu temperamento, minhas imperfeições, defeitos e capacidade de não ser boa, às vezes, me diz que não. Não me sinto nada angelical. E imagino que, como eu, ninguém se sinta também. Nós, seres humanos, estamos melhorando, mas jamais seremos perfeitos.
Talvez o desafio da busca pela perfeição seja a resposta.

O filósofo australiano John Passmore acha que as pessoas são capazes de grandes atos de bondade sabendo que podem "derrapar" nas suas imperfeições a qualquer momento e que o progresso da Humanidade está justamente aí: é a consequência do descontentamento, paixão e ansiedade dos seres humanos na busca para serem melhores.
Portanto, tudo indica que a Bondade esteja mesmo superando a Maldade.

O mundo já foi muito pior. Já vimos mais atrocidades. É fato.
Se o movimento em direção à luz é otimismo, que me perdoem os pessimistas, mas espero mesmo que nós humanos estejamos ficando cada vez mais distantes da escuridão.
Nessa caminhada, não ser mau já é a melhor maneira de ser bom.



24/03/2014 14h37

O show de Truman revisitado ou não existe almoço grátis
Bia Willcox

O universo paralelo existe fora da fantasia ou ficção. A realidade alternativa se mistura ao nosso cotidiano desde a hora que fazemos café pra despertar pela manhã (e provavelmente checamos o celular) à hora de encerrar o dia em casa e ir dormir (não sem antes dizermos boa noite nas redes sociais). Parece-me que o show de Truman era previsão de futuro e que estamos todos interligados por aplicativos e logins na cyber-irmandade globalizada.
Loucura minha? Esquizofrenia apontando seus primeiros sintomas?

Se todos estamos no mesmo barco, a dormência digital pode ser loucura coletiva e silenciosa onde a lucidez é pré-fabricada e previsível como a minha neste momento.

Falo do futuro que vivemos agora, da tecnologia que nossos poros e sentidos absorvem diariamente. Falo das soluções quase mágicas de Silicon Valley que nos inebriam, turvam a visão e encantam nossos sentidos, nos fazendo crer que a realidade (sim, vivemos um mundo real de sentidos, sensações e acontecimentos orgânicos e materiais) hoje é muito mais palatável do que já foi um dia.

Em outras palavras, acreditamos que estamos caminhando pra o nirvana, alcançando uma espécie de cyber-paraíso, onde pra todos os males há solução, onde tudo ficou mais fácil, onde a mágica virtual acontece e com ela, nos tornamos mais corajosos, charmosos, inteligentes e bem-sucedidos.

O comércio é mais fácil na Internet. Comprar, vender, comparar e buscar melhor preço - tudo ao alcance dos dedos.

Ideologia pode ser construída nos blogs e movimentos organizados no twitter. Tópicos são debatidos no Facebook e talentos naturais descobertos lá também.
Pode-se amar mais e melhor com a ajuda das redes e aplicativos de namoro online.
Pornografia na net é a opção de sexo a custo baixo ou zero, sem ter que brigar pelo "dinheiro de volta" caso a satisfação não seja garantida.
Todos mais bonitos nas fotos, selfies ou não, sempre com a generosa ajuda de ferramentas e filtros.

Diz-se o que se pensa sem pudor ou receio de desagradar. Redes sociais são palcos livres para se atuar. Fala-se com o prefeito da sua cidade, jogando na cara o que se pensa dele, comentando num de seus posts no Facebook. A sinceridade e transparência de opiniões nunca foram lugar tão comum no nosso dia a dia como agora.
Famílias felizes, conquistas materiais, carros, viagens, amor de Hollywood. Tudo é possível e bem divulgado na internet.

Tratamentos, curas, descobertas, evolução da medicina, tudo apoiado e viabilizado pela tecnologia de ponta. Poucos problemas são considerados insolúveis.
Perfeito. Que lindo o mundo em que vivemos, não? Tudo indica que a Humanidade chegou a um ponto de sua caminhada onde a balança pende (com folga) pros prós. Os contras se tornaram invisíveis, disfarçados. O torpor cibernético de efeito prozac nos faz acordar e dormir acreditando que temos um mundo mais justo, mais democrático e de mais possibilidades para qualquer um com iniciativa, ideia, ou desejo.

E de repente acordo como num pesadelo, no susto, atordoada ainda com todo o ópio virtual, com uma frase na cabeça (como se viesse do além em alto e bom som): "Não existe almoço grátis" (tradução de um ditado inglês).

Volto ao início: será essa voz em minha cabeça um sintoma de transtorno psiquiátrico ou vivi por instantes o gosto amargo da falta da droga-passaporte para o mundo perfeito?

O almoço nunca é de graça e o que vivemos hoje na internet tem um preço a ser pago.
O melhor (?) de tudo é que a conta já chegou e estamos pagando suavemente, sem percebermos. A conta é grandiosa, mas indolor. O cheque especial da falta de privacidade tem juros embutidos. O controle cada vez maior e mais fiel de tudo o que temos, somos e pensamos, se veste de democracia. "Obrigada, Internet. Sem você não teríamos democracia de verdade." As prestações desse almoço não doem no bolso, são suavizadas pelo mundo dos memes e das aspas. Não podemos acreditar no que não vemos.

Foto: Reprodução

 

Mas podemos, ao menos, tentar identificar a quantia e o peso do que pagamos. Basta pensar um pouco. Se Internet é bom pra vender produtos diversos (a cada "like" em páginas deles no Facebook nos deixamos seduzir mais um pouco) é melhor ainda pra vender ideias e posicionamentos. E se somos controlados por tendências e tecnologias no mundo do consumo fácil (somos e não podemos negar) por que não o seríamos no campo ideológico? Falta de privacidade e democracia não combinam.

Definitivamente. Ainda consigo enxergar em meio à nossa good (?) trip.
Controle crescente é o nosso carnê de prestações. Seguimos pagando.
E voltemos ao show de Truman.