Um Fla-Flu de lourices, dicotomias, humanidades e outros instintos

Bia Willcox | Bia Willcox | 16/05/2013 16h13

Foto: Arquivo PessoalBia Willcox: Quando ele aceitou meu convite para este bate-bola, intitulado pelo próprio de Fla-Flu (por ter eu, pretensiosamente proposto um embate esquerda x direita a la Bobbio, quando tudo começou), imediatamente me arrependi.
São muitas as nuances, os talentos e os delírios de Fausto Fawcett.
Passei exatas 48 horas digerindo seu sim e passeando entre sua eloquência futurista, seu deboche cru e sua narrativa genial de intelectualidade quase disfarçada.
Pensei em provocar sua humanidade (cairá em tentação?) como se, num grupo de ajuda mútua, estivéssemos respirando o melhor de Dostoievski.
Mas, inebriada pelo próprio Fiódor, e confundida pelos gostos múltiplos e díspares de FF, fiquei com a crença russa de que a beleza salvará o mundo e com a marca registrada de meu interlocutor que não abre mão de madeixas loiras em suas expressões e manifestos de arte. Sim, optei pela poça rasa - as loiras do Fausto.
E como pertencente à classe, eu pergunto: FF, por quê?

Fausto Fawcett: Vamos então começar do final do seu parágrafo pro começo, em duas etapas. Das louras para o embate esquerda /direita. Primeira etapa, as louras. Essas meninas, a cuja classe você pertence, realmente tem um protagonismo no meu imaginário obsessivo, acompanhadas de perto pelas asiáticas de olho puxado, numa proporção estatística de duas louras pra uma oriental. Pra dar alguma explicação em relação a essa obsessão (Hitchcock pairando sempre) gosto de contar uma historinha da minha infância que é a seguinte: carnaval de 62,63 não me lembro com certeza. Condomínio - Jornalistas perto do Jardim de Alah no Leblon onde eu morava. Baile infantil . Fantasias, obviamente coloridas, mas as pessoas devidamente pardas ou normais na sua dose de melanina tropical. De repente, no meio da multidão, pulando e cantando alguma marchinha que, tocada de forma acelerada, colocava as pessoas numa espécie de transe. Era como se estivessem numa tarantela alucinada ou num evento protoaxé onde se deve assumir uma postura de pulação aeróbica quase marcial, um quê de militarismo na alegria, já que a música era denominada... marchinha. Bem, do meio da balbúrdia, me surge uma lourinha vestida de chinesa com aquele chapeuzinho tradicional, trança dourada, vestidinho típico, sapatos idem e foi como se tivesse uma visão mística/mítica me indicando um caminho a seguir. A garota era uma delícia tecnicolor: olhos azuis, pele muito branca, lábios vermelhíssimos do batom infantil, e os cabelos dourados. Enfiada naquela roupa que eu também nunca tinha visto ou, pelo menos, nunca tinha prestado atenção nalguma imagem de tv ou história em quadrinhos ou livro. Ela era mais ou menos da mesma idade, uns cinco, seis anos, já estava de saída, pois a mãe estava puxando-a pelo braço, enquanto nossos olhares eram trocados, fixados. A mãe levou a menina, mas o recado já estava dado, a missão já estava dada e como diz o Capitão Nascimento, no Tropa de Elite, missão dada, missão cumprida. É isso aí. No próximo parágrafo esquerdofrenias , diretízicos, estados-de-bem-estar-social, Brasil combalido sempre , Estados Unidos, China etc...

Bia Willcox: Eis o próximo parágrafo aqui. E, se você insiste nas dicotomias quase maniqueístas em que escorregamos com frequência no exercício de nossa intelectualidade, começo pelo seu carnaval dos anos pré-ditatura.
Louras burras ou morenas brilhantes? Louras de reflexos reacionários e morenas com cortes progressistas ou seria o contrário? Loura inteligente existe? Usa batom vermelho e se recusa a abraçar a lagoa ou, num gesto quase angelical, apoia as diretas e venera o mítico Che, que, ouvi dizer, se tornou uma espécie de Justin Bieber da esquerda jovem. Conhecia essa máxima?
Loura de esquerda é burra? E a morena da direita, oops, de direita? O binômio loura-morena (pra não entrar no mérito da ocidental-oriental!) faz o mesmo sentido no seu imaginário transtornado pelo toque obsessivo quanto direita/esquerda. O que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Posso eu, como loura que sou, escolher um lado para acampar? No pensamento simples, quase cartesiano, seria a esquerda ou a direita uma questão de rótulos e preconceitos? Quero catalogar experiências, pessoas, fatos e datas de uma maneira simples: ou é bom ou é ruim. Ou se tem caráter, ou não. Pensamento individual ou coletivo. Egoísmo ou altruísmo. Ou fala que vai fazer, ou nem fala e faz. Devo pintar meu cabelo de preto ou você me autoriza a seguir nas minhas classificações blondies?

Fausto Fawcett: Querida, seu texto está deliciosamente provocativo e de prima. Posso dizer que a veia onde vou enfiar a agulha do meu próximo parágrafo pula nas suas perguntas sobre onde pode acampar sua lourice e sobre as dicotomias dogmáticas que tentam aplacar, ocultar, dizimar ambiguidades, paradoxos e contradições, bem como os labirintos psicológicos onde nos chafurdamos e, nesse contexto, esquerda e direita, parecem mais sentimentos de torcida do que real plataforma para alguma reflexão ou ponto de vista sobre essa tola humanidade e seus arranjos sociopolíticos.

Bia Willcox: A humanidade é tola e eu estou quase aceitando o seu convite no H.A. (Humanistas Anônimos). Preciso sair dessa, e, pra não recair fácil, só a mútua ajuda. A dicotomia existirá sempre num maniqueísmo involuntário. Não há coluna do meio. Não existe neutralidade. Haverá sempre mais de um lado. Sempre polarizaremos as questões que nos norteiam e afligem. Se nossos cérebros têm lado esquerdo e direito, como não termos louras e morenas, bem e mal, progressista e conservador? Uma amiga intelectual sempre dizia com a simplicidade mais incrível do mundo: "Bia, para mim existem no mundo dois tipos de gente - de bom e de mau caráter." Tenho dito. Permaneço escolhendo lados. Permaneço loura. Talvez um pouco mais livre de tanta tolice humanitária. Uma conformada fisiológica.

Fausto Fawcett: Dando voos rasantes sobre a dureza do nosso cotidiano (esse coliseu informal cheio de combates dos mais variados tipos) a mídia nos últimos quarenta dias nos bombardeou com imagens espetaculares das crueldades, das insanidades, das patologias explícitas, das agressividades, das boçalidades banalizadas da atualidade carioca, paulista, brasileira. Apenas mais um surto de mídia ou algo de novo, gerado, fomentado pela brutalidade fundamentalista praticada pelos indivíduos foda-se, pelos dias de fúria repentina, pelas urgências que abastecem os egoísmos mais variados e agudos, pelos desesperos tradicionais de quem se sente náufrago existencial sem perspectivas gregárias, virando zumbi vingador de nem se sabe o quê, mas tendo que afirmar alguma coisa nessa vida, nem que seja um puta não desenfreado a tudo, numa espécie de anarquia animalesca. Brutalidade essa que , cada vez mais popular e massificada, acaba por transformar cada um de nós em legítimos fuzileiros sociais, marines que saem de casa para enfrentar um campo social minado por pessoas que são autênticas bombas-relógio psíquicas, minas afetivas à espreita , à deriva nas ruas, nos escritórios, nos subúrbios, nos bairros mais caros. Temos que enfrentar avalanches de precariedades todos os dias. Precariedades jurídicas incrementando impunidades (milhares de mandatos de prisão não cumpridos, bandidagem de homicidas soltos ou com prisões relaxadas, menores fodidos ou ricos botando pra quebrar no melhor estilo laranja mecânica, protegidos pelo estatuto da criança e do adolescente, bêbados fazendo strike em pontos de ônibus, pagando fiança e saindo pra responder em liberdade. Várias situações, escancarando que não é só rico que não vai preso, o privilégio tá democratizado entre os pobres também, porcentagem mínima de crimes solucionados, quarenta mil mortes por ano no trânsito e fora dele), precariedades de cidadania (falta de senso republicano, dna escravocrata no brasileiro, corrupção em todos os níveis, não só no, digamos, alto escalão de Brasília, mas, também, na terceira, na segunda divisão da corrupção entranhada em todos os círculos sociais. Logística zero na infraestrutra falha em vários setores básicos, como transportes, saúde, etc, os preferidos da velha lenga-lenga de promessas políticas. Perigos ocultos na falta de manutenção de prédios, equipamentos, ônibus, de residências em periferias...) precariedade tecnológica e científica, o que afunda o país no atraso mais contundente, já que ciência , inovação e patentes transformadoras são a base de algum sucesso nas sociedades com certo avanço econômico. Precariedade de infraestrutura e formação escolar, apesar da recente massificação e dos problemas que enfrentam os pedagogos e educadores com a situação de confronto entre o modelo humanista de ensino, professor centro de conhecimento versus a pressão das tecnologias portáteis de smartophnes, ligando a garotada a redes sociais, a sites de busca, a games, enfim, as informações que perturbam a introspecção, a exigência de uma curiosidade intelectual que geraria um discernimento, um critério de aproveitamento do excesso de informações, auxiliando no tal adestramento moral. Kindles e livros se pegando. De qualquer forma, bandas largas também são falhas por aqui. Precariedade profissional (falta de qualificação que nos coloca na velha condição de terceiro mundo, desmentindo a euforia da adjetivação "emergente", muita bolsa pra tudo e nenhum planejamento educacional, industrial, científico, comercial para consolidar alguma estabilidade de vida capitalista. Rapina pra todo lado e, novamente, muita bolsa e pouca preparação), precariedades que só cutucam com vontade as ancestrais sensações de desamparo por estarmos jogados aqui nessa dimensão. Básicos instintos gregários e desagregadores ficam se revezando, se pegando, se misturando em todos nós e, nessa panela de pressão nacional, carioca, paulista (o tal do crescimento desordenado desordenando tudo e todos) fica tudo mais agudo, violento. E claro que esforços variados aliviam esse cenário, mas o voo rasante nos bombardeando nesses últimos quarenta dias, tocou novamente em várias feridas abertas, algumas superficiais com ligação direta a problemas sociais, outras mais antigas e que dizem respeito simplesmente à fera com consciência que somos. Indivíduos foda-se, sem nenhum pudor em relação ao outro, pululam por aí corroborando o caráter de competitividade, consumo, que está entranhado nos nossos corações e mentes. Em todos os segmentos sociais. Dentista flambada, torturados e torturadores se enfrentando na comissão da verdade, trazendo à tona violências de ambos os lados, discussões banais provocando assassinatos, psicopatias a granel , dias de fúria todo dia, cismas movendo carências...Campo minado. Fuzileiro social. Humanismo humilhado.

Bia Willcox: Toda a precariedade do nosso cotidiano reunida na arena (informal) de nosso dia a dia, falsamente humanizado. E eu, sem força, logística ou conhecimento para resolver qualquer coisa, fico aqui tentando adestrar meus instintos tecnológico-educacionais, ao ritmo frenético das informações, dispersões e correrias. Junto-me a você, querido Fausto, na fuzilaria, na humilhação e no transe das marchinhas de carnaval de antigamente.
Ah, e a sua agulhada na veia nem doeu!

O mundo encantado da instantaneidade

Bia Willcox | Bia Willcox | 13/05/2013 09h39

Foto: Divulgação"Mandei o e-mail há 3 horas e nada. O que será que houve. Claro que viu. Será que não vai rolar? Se incomodou com alguma coisa?"

Sim, aparentemente trata-se de um pensamento psicótico-paranóico, pois enviar uma mensagem a alguém e pensar que pode haver algum problema só porque não teve retorno poucas horas depois é coisa de maluco!
Hoje, estamos todos mais ou menos assim. E quem, ao ter lido isso, disser ou pensar "Eu não sou assim!" tem os meus sinceros parabéns.

Todo o aparato tecnológico é pensado para economizarmos tempo (e teoricamente nos sobrar tempo pra outras coisas), mas o que menos temos hoje é tempo. E nem paciência.
Como, segundo Tolstoi, tempo e paciência são eternos beligerantes, vivemos em guerra espiritual (o que às vezes pode mesmo detonar um aguerra material!).

Hoje, sabemos se as mensagens escritas que mandamos foram lidas ou não. Se são lidas e não respondidas, o pensamento torto começa a funcionar. "Leu e não respondeu. Babaca. Ou será que fiz alguma coisa e não sei?". Ou ainda, "podia responder qualquer coisa. Mal educado!" Sim, as pessoas hoje tem seus movimentos tão expostos, são tão cobradas que acabam sendo mesmo mal educadas. É muito canal, muita informação, muita resposta pra dar, acaba não dando! E se você quiser ser polida e instantânea o tempo todo, suas tarefas vão ficando de lado e para trás. É um beco quase sem saída. Se você recebe um texto e lê, chega a pensar: "Ferrou. Agora tá lido, vou ter que responder." Não tenho certeza se esses novos aparatos e costumes revelam caráter (ou falta dele) ou se somente expõem mais uma faceta do ser humano que sempre existiu: nem sempre somos transparentes como poderíamos ou deveríamos ser.

A falta de paciência não se revela só nas mensagens digitais. Ninguém quer mais esperar nada. Algumas instantaneidades não vem de hoje: vide os restaurantes fast food e a cãmera Polaroid. Outras são incrivelmente atuais. Foto tem que ser vista na hora. E editada com os mais diversos tipos de filtros. Fotografou, postou. Se não postar logo, como vamos marcar o lugar onde estamos no momento da foto? E quando o 3G não funciona e nem há rede wi-fi disponível? Haja paciência!

Para completar o quadro e provocar ainda mais impaciência no mundo do instantâneo, tem o trãnsito. Longos engarrafamentos, trãnsito que não anda. E a gente lá, parado, tentando ganhar tempo, possivelmente falando no celular com fone de ouvido ou bluetooth. É sempre um teste de paciência ou somos nós que não sabemos mais esperar por nada?

Fico imaginando o reflexo dessa instanteneidade compulsória em campos da vida onde não deveria haver pressa. Será que as preliminares estão com os dias contados? O Viagra vai passar a ser remédio contra perda de tempo? Terá o gozo hora marcada, com contagem regressiva?

Kant afirmou que a paciência é a fortaleza do débil e a impaciência, a debilidade do forte. Como boa seguidora da ética kantiana, proponho que, nós que nos tornamos fortes pelo que pensamos e refletimos, tentemos exercer nossa paciência , nas mais diversas áreas do cotiano, a fim de evitarmos a debilidade generalizada vislumbrada por ele.

A melhor coisa da maternidade é ser mãe

Bia Willcox | Bia Willcox | 06/05/2013 08h49

Foto: Arquivo PessoalOutro dia me perguntaram se eu achava que ficar grávida era a melhor coisa que poderia acontecer a uma mulher.
Respondi: uma das melhores. Mas fiquei com a pergunta entalada.

Fiz uma retrospectiva naquele estilo meio Calvin de refletir e cheguei à conclusão de que o melhor que pode acontecer às mulheres, mas não só a elas, é exercer a maternidade.

Sim, gravidez é uma delícia. Adorei ver meus seios e minha barriga incharem. Adorei as mexidas, os chutes e todos os 9 sábios meses de preparação interna e externa para a chegada de um bebê. Acho que, se tivesse sido uma grávida um pouco mais velha, teria entendido ainda mais a dimensão disso tudo. Mas como ainda me lembro de tudo vivamente, consigo agora ver o cenário real. Entendo melhor até como é difícil pra quem está do nosso lado participar e entrar no nosso mundo particular do HCG (hormônio da gravidez). No meu caso, então, era uma garota saindo da adolescência com um garoto também jovem sem saber muito bem o que representava aquilo tudo que estava por vir.

Mas o melhor veio depois da gravidez: cuidar, proteger, beijar, alimentar, ensinar, amar aquela coisa que entrou na sua vida e que mudou tudo - clichê assim mesmo. Delícia de clichezão.

Exercer a maternidade (espere clichês daqui por diante, porque é impossível falar de mulher, mãe e amor sem cair neles!) nos aumenta tanto de tamanho! Fortalece o caráter, nos dá fibra e autoestima. Preenche-nos e dá prazer. Não gosto de ouvir que filho tem que ser grato aos pais! Pelo contrário, os pais devem ser gratos aos filhos. Por tudo que seus filhos, sem planejarem ou quererem (afinal, sequer pediram pra nascer) descortinaram em suas vidas.

Em geral, para a mulher, por todas as suas características próprias, hormônios e heranças culturais, ser mãe e atuar como mãe não tem muito sacrifício. Mas, ser maternal e exercer o papel de mãe, depende menos de costumes e DNAs e mais do quanto desejamos e estamos abertos a essa experiência. Qualquer pessoa, de qualquer sexo, e em qualquer contexto, pode exercer lindamente a sua maternidade.

Poderia dizer que a maternidade se avalia aritmeticamente pelo grau de doação, carinho, cuidado e desprendimento da pessoa que a exerce.
O objeto desse exercício pode ser muito mais amplo do que só filhos, biológicos ou não. Pode ser sobrinhos, parentes, amigos, bichos, e tudo mais que for passível de ser amado. Eu me sinto mãe das mais diversas pessoas, das mais diferentes idades.

Portanto, o que de melhor pode acontecer à mulher, é o que de melhor pode acontecer ao ser humano - exercer e ter a maternidade na sua história.
Feliz Dia da Maternidade a todos aqueles que já tiveram a sorte de experimentar serem mães!

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Estranhos na ilha: acompanhando Tim Meyers

Bia Willcox | Bia Willcox | 30/04/2013 23h33

Você imagina alguém vindo até você no meio da rua para dar conselhos, sugestões ou mesmo para te dar parabéns por alguma coisa?
Tim Meyers, artista e escritor americano que vive em Manhattan, com frequência conversa com pessoas que ele na verdade não conhece. Nem sempre ele é bem vindo, mas o mais importante é que ele faz a diferença, mesmo que pequena, na vida daquelas pessoas.
Eu andei com o Tim pelas ruas de Manhattan. Vamos ver o que ele diz sobre conversar com estranhos.

(Can you imagine someone coming to you in the middle of the street to give advice, suggestion or even to compliment you? Tim Meyers, an American writer and artist who lives in Manhattan, usually talks to people he doesn't actually know. He is not always welcome, but the important thing is: he makes a difference, even if a small one, in those people's lives. I walked along with him in Manhattan. Let's see what he says about talking to strangers.)

"- Tim, você fala com estranhos nas ruas?
- O tempo todo, o tempo todo...
- Por que?
- Por que não? Eles estão lá, nós somos humanos e devemos conviver uns com os outros. Há milhões de pessoas vivendo numa ilha pequenininha. Olha só Manhattan, tem 12 milhas de comprimento e 3 milhas de largura. Há 7 milhões de pessoas aqui. Como podem não conversar uns com os outros?
- Eu quero vê-lo conversando com estranhos. Vambora!
- Ok, vamos."

Aguardem-nos!

Quando é bom não prestar muita atenção

Bia Willcox | Bia Willcox | 25/04/2013 23h45

Foto: Arquivo PessoalExistem mulheres admiráveis por aí. São muitas. Hoje quero falar de algumas poucas que, com certeza, levarão vocês a pensar em outras. Falo de mulheres não por ser feminista ou corporativista. Falo delas como gente que são. Existem muitos homens admiráveis também. Vou falar deles em breve. Quem sabe ainda hoje?

Uma vez li algo que uma jornalista polêmica, de personalidade forte e indiscutível competência, escreveu e ficou em mim marcado de forma indelével: "A chave para um envelhecimento de sucesso é prestar o mínimo de atenção possível nele". Sim, Judith Regan, figura marcante pra mim, tem razão. Envelhecer é inexorável. Entender o que acontece com a gente na medida em que o tempo passa, deveria ser algo natural e automático nos seres humanos, assim como aprender a andar, atravessar a puberdade e fazer sexo.

Ninguém gosta de ficar velho. Todos nós adoraríamos ficar naquela que consideramos a nossa melhor idade. Todos queremos o impossível: viver com o que nossas almas conquistaram até determinado momento sem que nossa matéria pague por isso. Queremos não ter rugas, fios de cabelos brancos, pele menos elástica ou gordurinhas indesejadas. Sim, queremos ser tão lindos como nosso pensamento na atual etapa. E não conseguimos compreender porque tamanha injustiça. Por que, no momento em que vejo, ouço, toco, compreendo e ajo melhor, eu não posso vestir-me como o meu antes?

Por isso o efeito Regan em mim: a melhor maneira de envelhecer é agir como se os sintomas da velhice não existissem. E, mesmo sabendo que eles existem, mesmo que eles marquem presença pelo espelho ou pela dor, o segredo é ignorá-los. Ignorá-los como se ignora um sujeito chato que não para de falar do seu lado ou como se ignora a chuva num tão esperado programa ao ar livre.

Se esquecermos que envelhecer está acontecendo enquanto respiramos, manteremos os planos, as ambições e as expectativas de felicidade como se vivêssemos uma vida sem fim. Quando o fim chegar, e ele é tão inexorável quanto envelhecer, teremos chegado ao nosso limite máximo. Teremos realizado o máximo que pudemos. Teremos amado e arriscado o quanto conseguimos. Teremos deixado mais marcas.

Há pouco tempo, entrevistei uma escritora americana em seu loft em Nova York. Falamos de seus livros, de sua vida de atriz e modelo, de sua relação com as celebridades que a inspiraram em biografias de sua autoria, das revistas para as quais escreve, de seus amores e de seus projetos.

Enquanto caminhava até o seu prédio em Manhattan, fui imaginando o quanto aprenderia com ela naquela entrevista. Afinal, tratava-se de uma grande escritora, jornalista, produtora e roteirista.

Mas, ao final da entrevista, entendi que o que realmente aprendi com ela foi sobre como aplicar o amor em sua trajetória. Como usá-lo como combustível para viver. O amor a si, ao outro e ao que pode vir a ser e construir. Eu explico.

Patricia tem 80 anos, ou quase. Permite-se namorar e se apaixonar. Ainda. Tem namorado. Viaja pra outros continentes. Disse a ela que Jane Fonda, sobre quem ela escreveu um livro, claramente evoluiu ao longo do tempo, bem como ela, Patricia. Perguntei então se ela ainda estava evoluindo. E ela me respondeu: "Sim, claro. Espero agora escrever roteiros para longas-metragens." Provavelmente esses "longas" a impedirão de reparar na sua velhice. Certamente os longas a farão viver mais. Vida longa a ela e a quem mais quiser viver!

Smart lives 2 - O tempo que nunca dá

Bia Willcox | Bia Willcox | 18/04/2013 09h46

Em minha última crônica, falei das mudanças cotidianas causadas pela silenciosa revolução tecnológica que vivemos diariamente. Dos controles remotos às mídias sociais, dos mapas digitais aos smartphones. E é pra eles que eu me volto hoje.

Não há quem não se irrite quando alguém, no meio de uma conversa, começa a mexer em seu celular. Esse hábito vem tirando a paz de famílias, casais e amigos.

Namorados se desentendem quando ele ou ela fica de cabeça abaixada de olho no visor em restaurantes, bares, shows e boates. É claro que, além de irritar pela falta de educação em si, leva à desconfiança - "Com quem ele/ela tá falando? Por que não desliga disso?". Em reuniões familiares, as gerações pré-mobile recriminam, reclamam e criticam os que ficam de grudados no celular. Mesmo nas reuniões de trabalho, as inconveniências dos celulares são imensas, quebrando toda a etiqueta necessária ao bom relacionamento profissional. E não adianta tirar o som do aparelho durante reuniões, se não o tirar da vista. O reflexo compulsivo de checar e-mails, responder mensagens e atualizar as mídias sociais é mais forte. E o mais sério de tudo: essa interação frenética com os smartphones se tornou imprescindível. Se não responder, encaminhar, anexar ou não contatar, a casa cai. Não dá tempo. Não dá certo. Não dá pé. Não rola.

E isso tudo não é nada se pararmos pra pensar nesses gadgets na mão de quase adultos que vão para aquele lugar obrigatório de ensinar e aprender (nem sempre nessa ordem e muito menos equilibradamente), lugar que sabidamente não consegue acompanhar as mudanças à sua volta na velocidade em que ocorrem. Sim, imaginem os celulares na mão de adolescentes na escola.

Quando paro pra pensar nisso, chego a ter dúvidas se o que tem acontecido de fato dentro das escolas pode ser chamado de educação formal. Não, não estou querendo derrubar a escola, muito pelo contrário! Mas, se entre adultos, é preciso se readaptar aos novos hábitos e achar um jeito de não perder a excelência e a produtividade, que dirá com a garotada na escola. O grau de dispersão é alto. O desejo de burlar é mais alto ainda. A tentação pelo caminho da cola, o mais fácil, é grande. Há muito mais aspectos a serem analisados, mas não damos conta por aqui.

Tudo que sei e com a maior humildade do mundo, é que será necessário um choque de valores dos jantares em família aos treinamentos corporativos e do jardim de infância às carteiras universitárias. Se não houver um mínimo de certeza e aposta na honestidade e transparência, não haverá confiança. E, se com todos esses atrativos tecnológicos, não houver confiança, viveremos um tempo cego e sem critérios. Um tempo sem força ou caráter. Um tempo cuja maior bandeira é a falta de si mesmo.

Smart lives 1

Bia Willcox | Bia Willcox | 12/04/2013 10h52

Foto: Arquivo PessoalO tsunami tecnológico em que vivemos hoje nos deixa meio cegos para analisarmos os seus efeitos nas relações em geral, sejam elas sociais, profissionais ou afetivas. A cegueira acontece porque somos o objeto dessa transformação revolucionária de hábitos - estamos no olho do furacão. Por mais que se queira, é difícil ter isenção e alcance para compreender a dimensão de todas as mudanças advindas dos aparatos e recursos tecnológicos que nos servem na bandeja todos os dias.

Se pararmos para pensar um pouco, um pouquinho só, a lista de coisas que mudaram nossos hábitos é imensa. Eis algumas, só para ilustrar:
- Não é preciso mais ficar em casa à espera do nosso programa preferido: podemos deixar gravando. Ou, muitas vezes, o achamos na internet.
- Não é necessário comprar um livro impresso para ler seu conteúdo: podemos comprá-lo na internet e o lermos num tablet, computador ou no próprio telefone celular.
- Não se revelam mais fotos ao final de uma viagem: as fotos são tiradas, vistas na hora, editadas com filtros diversos e, com frequência, colocadas nas mídias sociais.
- Não precisamos comprar mapas para nossa viagem: o google não só nos fornece qualquer mapa, como nos guia no percurso que queremos e na língua que escolhermos.
- Quem ainda usa dicionário-tijolo de papel em casa ou na mochila? O pai dos burros agora é invisível, digital e tão eficaz quanto antes!
- Exames de sangue? A gente só sai de casa para tirar o sangue. O resultado a gente pega em casa!
- Falar com quem está longe? É fácil e barato (muitas vezes de graça!), diminuindo bastante o tamanho da saudade e nos fazendo sentir parte do clássico desenho The Jetsons.
- Programa de tv bom agora não se limita aos canais da sua tv: a gente pode garimpar coisas incríveis na internet. Ou seja, as possibilidades são quase ilimitadas!
-Os telefones celulares são tão smart, que neles você conversa, troca mensagens (individuais ou em grupos), fotografa, filma, posta, fuxica, tem ideias, faz negócios, se apresenta, flerta, bate boca e muito mais, criando uma espécie de universo ego-paralelo.

Se dedicarmos um pouco de nosso tempo a pensar no assunto, acharemos muito mais exemplos das tecnomudanças de hábitos.
Eu tecerei comentários sobre os smartphones - esses pequenos adoráveis revolucionários que podem causar tanta tensão e até confusão em grupos de pessoas de todos os tamanhos, no mundo real ou virtual.

Vocês já repararam que o mundo agora vive com a cabeça abaixada? Todos com a atenção e o pescoço direcionados para seus celulares. Pode não parecer, mas há uma infinidade de coisas a serem feitas ali e se a gente não correr, não vai dar tempo!

O trabalho não espera: temos que enviar e responder e-mails. E , frequentemente, temos que checar a caixa, ver se tem mensagem nova.Não dá mais para viver sem postar fotos. Divertir-se hoje significa registrar o momento no Instagram. De arte a pratos de comida, de pontos turísticos a animais de estimação, nada escapa. O sexo ainda está fora do Instagram, o que é uma sorte, já que é algo muito, mas muito melhor de se fazer do que se postar e ver.

Temos que tuitar nossa rotina e opiniões. Temos que acompanhar o que os formadores das mesmas pensam. Temos que dar reply aos famosos e participar de correntes e campanhas. É muito trabalho!

Há muitos grupos no Whatsapp. Tem sempre alguém teclando. Tem sempre algo a se dizer, a rir, a compartilhar. Não dá pra deixar o celular pra lá! O namoro é pelo whatsapp. Tanto as gracinhas e a pimenta quantos as DRs e os bate-bocas.

Por fim, temos o nosso Facebook. Como não checar a toda a hora se alguém nos adicionou, curtiu ou comentou algo? Como não ver as notícias e as postagens alheias? Impossível!

E daí as tensões e confusões! Vejo gente jantando em restaurante, almoçando em lanchonete, atravessando a rua, na boate com o namorado, no ônibus, no metrô, na fila do banco e na praia: todos sempre muito ocupados no seu mundo ego-paralelo dos smart phones. Como não somos "o olho que tudo vê", enquanto nos voltamos para nossas telinhas mágicas, perdemos o mundo real à nossa volta, e todas as suas conexões, afetos e humanidades. Estão nossas vidas sendo smart de verdade?

Projeto '4 Mãos': prazerosamente multifacetados

Bia Willcox | Bia Willcox | 28/03/2013 09h26

Foto: Arquivo PessoalBia Willcox: Toda a vez que olho meu dia pelo retrovisor, me dou conta de que não só fiz diferentes coisas numa mesma área de atuação, como também fiz coisas parecidas, mas em campos distintos. Já me peguei me culpando por essa conduta anti-taylorista que, em certos aspectos, me aproxima, ora de Jekyll, ora de Hyde.

Será essa diversificação de trabalhos e habilidades sinal de novos tempos ou de personalidade invertida (ou subvertida?)?
Guilherme, você também passeia com maestria pela política, cinema e literatura, humanizando as mais incríveis histórias de vida, enquanto mantém pulso firme e vigor nos artigos de sua coluna.
Clark Kent, os Bruces (Wayne e Banner), Peter Park e tantos outros podem atestar tal experiência também passeando por diferentes personagens de seus cotidianos.
Seremos nós super-heróis, seres imaginários nesse mundo de tanta realidade ou uma aberração do mundo laboral-cultural?

Guilherme Fiuza: Bia, acho que a possibilidade de criar é que nem o caminho das águas: elas vão contornando os obstáculos e progredindo por onde é possível passar. Talvez por isso as nossas múltiplas encarnações em atividades variadas, com resultados variados, usando as mesmas ferramentas. Outro dia conheci um diretor da Shell que resolveu abandonar a empresa depois de quase 20 anos e virou livreiro - com o mesmo sucesso profissional. Já fui apresentado a uma pessoa que não queria acreditar que meus artigos e meus livros eram escritos pelo mesmo autor. Eu quase concordei com ela: são dois autores dentro do mesmo corpo, com sensores diferentes despertados por diferentes oportunidades de expressão. Até porque não é possível escrever uma biografia e comentar a última do Sarney com o mesmo estômago.

Bia Willcox: Múltiplas encarnações e estômagos. Múltiplos projetos e desejos. E o que nos diferencia dos espíritos de encarnação única que, ao longo de suas existências, são capazes de desenvolver, muitas vezes com maestria, um único projeto de vida?
Acredito na incapacidade (ou capacidade) saudável de não delimitar o tempo destinado ao trabalho e não rotular de lazer apenas o que nos dá prazer. O prazer pode estar no trabalho e o lazer pode nos dar trabalho também.
Somos terra sem fronteira, talvez de uma única encarnação com diversas lentes, binóculos e sensores. Buscamos preenchimento de espaços, realizações versáteis e desafios-combustíveis. Se assim não fosse, como fazer tanto ao mesmo tempo e nos sentirmos felizes no percurso? Concorda, Guilherme?

Guilherme Fiuza: Sim, Bia. A ilusão de que podemos nos esfolar todos no trabalho para fruir tudo no lazer é perigosa. Se o trabalho é só esfolamento, o lazer será um desaguadouro de stress. A cena seria a família brigando dentro do carro no engarrafamento para o feriado em Cabo Frio.
Alias, não gosto de feriado e de datas compulsórias. Na vida real tudo acontece junto, A separação entre trabalho e prazer foi uma invenção maluca de alguém muito bem-intencionado (esses sao perigosissimos).

Bia Willcox: Contra esses perigosíssimos elementos mal intencionados existe a contramão do padrão trabalho x lazer, cultuado e imposto nos programas de final de semana, nas férias de janeiro e nos engarrafamentos dos feriadões, nos relógios de ponto e afins mais tecnológicos.

Contra estes, existem os anti-super-heróis de algumas identidades produtivas nada secretas em busca de um mundo melhor.

Novo relacionamento, novo avatar

Bia Willcox | Bia Willcox | 23/03/2013 21h38

Foto: ReproduçãoComeçar um novo relacionamento, seja ele qual for e tenha ele que nome tenha, não é algo fácil. E isso não é novidade pra ninguém.

Ativamos todos os nossos chips, desativamos medos e preguiças e partimos (nem sempre cuidadosos) rumo ao ainda desconhecido.Relacionamento novo tem um monte de estímulos bacanas - o encantamento com o que não conhecemos bem, a descoberta do prazer com e do outro, as afinidades e o charme mútuo. Se relacionamentos fossem sempre esse parque de diversões, seriam intermináveis de tão incríveis. Mas ao lado desse sem número de pontos a favor do namorado novo, existem alguns pontos contra. Entre eles, o passado do affair atual que, sem querer, permeia o cotidiano do namoro, de um jeito ou de outro.Querem ver? Num novo namoro, quem nunca?1) Ouviu a ou o atual falarem o nome do ou da ex, por engano?2) Se deparou, não propositalmente, com fotos ou objetos do ou da atual com seu ex?3) Ouviu elogios de terceiros ao ex ou à ex dela ou dele (e teve vontade de esganar tais terceiros)?4) Foi comparado publicamente à ex ou ao ex e, mesmo sendo enaltecido por quem fez a comparação, se sentiu péssimo?5) Viu fotos lindas, deslumbrantes do ex-casal na internet, especificamente em mídias sociais?

Enfim, novos relacionamentos não são só flores como podem parecer. Apostar no futuro da relação é uma delícia, mas lidar com o passado de cada um é tão duro quanto encarar um novo emprego cheio de desafios e exposição.As possibilidades de constrangimentos são infindáveis. Até um inocente vídeo game pode ser uma saia justa. Alguém já se imaginou jogando um Nintendo Wii (marca de vídeo game) na casa do namorado ou namorada e ter que se deparar com o mii (avatar desta marca específica) do ex ou da ex?Se isso ainda não aconteceu com vocês, aliviem-se, mas saibam que as opções desse gênero são inúmeras! E, se acontecer um dia, mantenham literalmente a esportiva e escolham outro mii qualquer pra entrar na brincadeira.Afinal, relacionamento novo é tão estimulante e desafiador, que quem se importa com pequenos fantasmas do passado? Miis ou quaisquer outros "avatares" se editam, se apagam e se transformam. Tal qual tudo na vida. Ainda bem.

Aguce os sentidos

Bia Willcox | Bia Willcox | 15/03/2013 22h46

Foto: Arquivo PessoalExiste amor e existe desamor. Existe paixão e indiferença. Nem sempre as formas de demonstrá-los são aquelas mais óbvias e cristalizadas pelo tempo e pela sétima arte. Às vezes, é preciso ler nas entrelinhas para sacar o que certas atitudes, gestos e palavras querem lhe declarar, mesmo que de forma não declarada.

Ah, sim. Existe o ódio também. Mas acho que, desses todos, é o que tem menos entrelinhas...O ódio é escancarado, não consegue ter muita sutileza nem caminhos alternativos. Ele se traduz muitas vezes por atitudes irracionais, passionais. Sei que estar apaixonado também nos deixa óbvios e fáceis de sermos decifrados, mas a paixão é o polo positivo, o polo da felicidade (até certo limite de normalidade, depois sei que pode se transformar em algo doentio e negativo também) e pode ser nutrida e guardada em silêncio, lançando mão de desafios e detalhes não usuais para ter sucesso na conquista.

Voltando à questão da percepção, sugiro colocar óculos de sensibilidade, treinar os ouvidos a novas melodias e aguçar seu raciocínio para ser capaz de notar o que você sente em relação a outros quando age de certo modo com eles e o que outros sentem em relação a você quando têm gestos e atitudes com você que, sem um cuidado maior, podem passar batidos pela sua rotina. Aquela rotina que nos deixa meio dormentes, meio casca-grossa, saca?

Presta atenção nos movimentos e sons em sua direção. O que mães fazem pelos filhos é algo claro, óbvio: elas se preocupam, socorrem, tentam resolver. Seus gestos não precisam de qualquer leitura profunda. São escancarados. Amor escancarado como a maioria dos ódios.


Falo de sentimentos tão incríveis quanto o amor materno, mas menos grandiosos. Falo do amigo, do parceiro, do cônjuge, do amante, do colega de trabalho, do fã.

Presta atenção: se a pessoa que diz que te ama e é louca por você consegue dizer de forma mais requintada do que com palavras universais. Concentre-se nos gestos cotidianos: na mensagem, no telefonema, na dica que você recebeu, no favor, no esforço alheio pra te ajudar, na preocupação com sua saúde, no elogio tímido, no grau de deslocamento de alguém para ir ao seu encontro. Foca no acessório, no detalhe.


E volte essa percepção pra dentro de você. Por quem seus sinos dobram? O que te diz o seu inconsciente ou o subconsciente (desculpa, Freud, ainda os confundo em certas circunstâncias!) em relação a determinados caminhos diários que você segue? O que você faz por alguém é pra agradar o seu ego ou é porque aquela pessoa é especial?

Equipar-se internamente pra decifrar essas entrelinhas, muitas vezes criptografadas, exige certa sagacidade e torna o dia a dia um jogo, às vezes gostoso e às vezes doloroso.

(Doloroso porque existe o reverso da moeda. Perceber desamor, indiferença dói, mas possibilita liberar espaços e atenção para outros gestos, atitudes e sentimentos).

Não deixe de jogar. Equipe-se, aguce-se, faça descobertas. Surpreenda-se.

Depois me conta, viu?

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Diário de bordo 3: A vida não tem replay

Bia Willcox | Bia Willcox | 06/03/2013 08h51

Foto: Arquivo Pessoal

Hoje escrevo de um quarto de hotel depois de completar 30 horas sozinha na maior parte do tempo.

Sabe quando você faz um esforço sobre-humano pra achar um tesouro valioso? Ou quando nada violentamente para alcançar a praia? Ou ainda quando paga um caminhão de dinheiro por algo que, por mais que ninguém ache, você acha que vale muito a pena? Pois é. Foi assim que parei aqui.

Vim para Nova York ontem. Por 4 dias. Viajei sozinha e passei boa parte do dia sozinha, algo que nunca achei que faria. Gosto de companhia. Pra tudo. mas vim. A causa foi boa. Ao menos pra mim.

Sabe amiga de muito tempo? Daquelas que a gente fica um tempão sem ver mas quando encontra a intimidade está inabalada? Sabe aquelas pessoas a quem você dedica gratidão e tudo de melhor de você? Pois é. Vim por ela. Eu 30 horas antes.

Uma amiga que nunca viveu as coisas que vivi no mesmo tempo que o meu. Sempre tivemos timings diferentes. Eu casada, ela solteira. Eu gorda, ela magra. Eu com filhos adultos , ela com bebês. Eu amamentando, ela estudando. Ela no Direito, eu na Educação. Tão longe e tão próximas. Eu dando pulserinha de ouro pro bebê dela enquanto ela dava caneta de formatura pro meu bebê grande que se formava.

E, de repente, me dei conta de que as 2 coisas mais preciosas que tenho, meus filhos, existem por causa dela. Exclusivamente. Ela me apresentou ao pai deles. Ela acompanhou minhas barrigas durante os 9 meses. Me socorreu e estimulou. E é com ela e por ela que vim parar aqui em Nova York. Pelo simples fato de que certas loucuras valem a pena. Porque conviver e colecionar histórias com pessoas de afeto certo, é investimento de retorno garantido.

Cheguei antes dela na cidade que nunca dorme. Fui pro aeroporto, fiz conexào, embarquei, voei e cheguei. Sozinha. Para alguém como eu (quem me conhece bem sabe!) ficar sem ter com quem falar é tortura do tipo "bambu na unha". Mas não foi.
Nào sei se consigo traduzir o sentimento que me preencheu nessas 30 horas. Uma mistura doida de paz, com pitadas de melancolia, algum receio, muita coragem, muita sensação de autossuficiência e independência e bastante alegria de estar ali, comigo mesma, testemunhando somente a mim. Decidi, fiz, aconteci e evitei o que quis. Gostei.

Cheguei em Manhattan, cuidei de tudo e fui pra rua. Andei, observei, fiz o que deu na telha. Comi o que quis, levei o tempo que desejei olhando vitrines e entrando em lojas. Administrei meu tempo e meu humor. Surpreendentemente, os estrangeiros pareciam saber do meu estado de espirito: me paravam, vinham falar, mexiam comigo. E eu, surpeendentemente, sorria de volta.
Quero mais de mim. Adorei todas essas horas comigo mesma. Bom de pensar, valorar, desvalorizar, amar, não amar, criar, concluir.
E de tudo o que concluí, aî vai.

1. Amigos de verdade são pra sempre. Colecione momentos diferentes com eles. Vale à pena 28 horas totais de aeroporto por 4 dias de amigo do peito.
2. Estar sozinho não significa ser solitário. Fiquei comigo mesma por 30 horas e me senti super acompanhada.
3. Se intuir algo muito legal pra sua alma, vai fundo e faz hoje mesmo!

A vida não tem replay.

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Diário de Bordo 2

Bia Willcox | Bia Willcox | 22/02/2013 20h13

Meus dias na Itália foram de descanso mental, diversão e também reflexão - algumas profundas, existenciais e outras, ao menos curiosas.
Entre tantas igrejas, ruínas, templos, esculturas, pinturas e toda a beleza possível, ficou impossível não se abalar em meio a essa overdose estético-sensorial.

Das reflexões mais profundas, não saem de minha cabeça as inúmeras igrejas e museus que visitei, incluindo o Vaticano, onde a sensualidade das esculturas e pinturas convivem com o etéreo, o não-carnal, o celibato.
Paradoxo? Tentação proposital? Ou simplesmente História?

A minha tentação aqui é me estender e dizer tudo o que penso sobre isso que vi - o poder entranhado nas paredes desses lugares, a tensão sexual provocada pelos lindos corpos esculpidos ou pintados, o silêncio avassalador no interior de igrejas e museus, como se dissesse a todos nós "Só admire, não questione, não imagine, não se espante.˜

Mas não cairei em tentação.

Quem me lê que pense, pesquise (se desejar) e conclua o que quiser.

Houve outras reflexões também: curiosas, quase gaiatas.

O mundo não é mais fútil hoje do que já foi. A preocupação com a aparência, o pêlo, ou a ruga, sempre existiu. Hoje as pessoas usam photoshop para se tornarem "perfeitas", eternizando ensaios fotográficos com a imagem ideal. As esculturas dos grandes artistas também eram corpos idealizados e perfeitos, longe de serem o retrato fiel da realidade.

O mundo não é mais gay hoje. As paixões homossexuais da Antiguidade são claramente evidenciadas na arte de corpos nus em contato físico íntimo ou quase íntimo, espalhados por entre um mar de turistas e fiéis que se extasiam diante de tanta beleza.

Reflexão final? O ser humano é essencialmente o mesmo e sempre o será. Tudo evolui (ou pode evoluir), mas sua natureza continua intacta. Talvez o que nos impeça de ver isso com maior clareza, seja o eterno dilema que todos nós vivemos: assumirmos uma natureza que fraqueja e que tem instintos animais ou fingimos que não somos assim e, até para nos defendermos de nós mesmos, julgamos o outro hipocritamente?

Sigamos em frente. E usemos photoshop com menos culpa.

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Diário de Bordo 1

Bia Willcox | Bia Willcox | 16/02/2013 01h31

O embarque é alegre por natureza. Tickets, passaportes, formulários e trocas de olhares curiosos, vazios, panicados ou extasiados pela perspectiva do novo.

A relação tempo e espaço sempre me intrigou. Por que o tempo passa diferente quando estamos longe, se a fração de segundo é a mesma? Por que uma manhã de fechar malas e preparar a partida para o aeroporto pode passar tão cretinamente rápido? Por que a noite em que queremos dormir de vez, depois que os filhos chegam em casa, simplesmente se desenrola a passos de cágado?
Essa subjetividade da duração me intriga e me intrigará sempre; e tanto quanto os minutos de um beijo que têm o peso das horas, ou a longa gestação que parece ter sempre estado ali e não somente naqueles 9 mágicos meses.
Olho comprido de inveja para rostos serenos da 1a classe. Nessa viagem última, me deparei com uma família que parecia Qualy. Um marido arrumadinho, cheio de brands pelo corpo, com gel no cabelo, acariciando sua esposa muito alinhada, parecendo saída do filme Mulheres Perfeitas e seus dois meninos rechonchudos vestindo t-shirts AberCrombie, como se quisessem, através delas, reafirmar o status social da família. Lindos!
Chegando à alegre e conturbada classe econômica, depois de muito rebuliço e muita xepa de bolsas de mão, as pessoas começam a se ajustar aos seus nichos como sardinhas obedientemente enlatadas. A acomodação lentamente acontece.

Eu praticamente aperto o botão "ficar invisível" - coloco minha única bolsa de mão (sim, não tenho a malandragem de levar comigo pequenas malas com roupa extra e mais um montão de coisas de gente precavida; eu desafio os deuses e despacho tudo no check-in) no chão, à minha frente, não falo alto, aliás, praticamente não falo, e começo a observar o movimento em redor.

Como as pessoas se movimentam! Como falam! Como vão ao toalete! Devo ser eu o E.T. da aeronave. Saio do meu corpo e consigo enxergar a bizarrice de um amontoado de gente apertado num espaço lotado de poltronas, ansiando por se transportar pelo mundo, voar.

Decolamos. Dessa vez minha tela tinha touch screen - o suficiente pra eu esquecer do som ao meu redor e zapear com os dedos tudo o que ela tinha pra me oferecer. Por sorte, o headset já me olhava na cadeira. Pronto, fim da bizarrice. Imergi no cardápio de filmes e músicas, já que não sou boa de dormir em avião. Nem com vinho tinto italiano servido a bordo.

Vi dois meios filmes do ano de 2012, nada de encantar. Revi pedaços de Irma la Dulce e soube mais sobre a vida de Rosselini no The War of Volcanoes.
Devorei uma bela fatia do livro de um incrível escritor carioca que é paradoxalmente superjovem e superantigo. Livro inteligente, original e lindamente datado. Diversão perfeita, principalmente à página 34 quando eu finalmente o descubro.

Irrequieta como sou, parti pra Tracklist da companhia aérea. Achei Original Sountracks e meu corpo remexeu na cadeira - Era a hora "Disney Land".

Escolhi a seleção dedicada a James Bond (yeap!) e toquei Live and Let Die. Me emocionei. Talvez pelo cansaço acumulado ou por ter visto pela janela do avião que hoje consegui alcançar o status psíquico-intelectual-social que sempre quis - a liberdade. Emocionei-me com o quão livre me sinto hoje. Por coincidência, estava voando. E apesar de quase amarrada à cadeira do avião, internamente livre como um pássaro.

Passei pra Nobody does it better. Ela que foi trilha de crush adolescente, trilha de paixão de faculdade, trilha de momentos de paixão tipo nutella. Ela que tem versão original com Carly Simon e versão tão boa quanto com Radiohead. Ela que me faz respirar mais ofegante. Ela que ainda vai embalar muito futuro pra mim.

Tentei dormir. Precisava ter fôlego para o gelado carnaval de Veneza, com direito a bloco (sigh!) na rua e tudo mais.

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Os superpoderes do jovem de qualquer idade

Bia Willcox | Bia Willcox | 05/02/2013 21h26

Foto: Acervo PessoalEsses dias de verão e Carnaval tem me feito observar ainda mais a galera ao meu redor.
A euforia, o sorrisão no rosto, a pilha duracel pros blocos, festas, praias e viagens - curtas ou longas. Mais do que a programação em si, me chama à atenção o comportamento, os sintomas, os sinais.
As pessoas querem paquerar, querem seduzir e ser seduzidas. Elas querem simplesmente o flerte que as infla, o beijo completamente aleatório que as faz se sentirem quase imortais.
Todo esse movimento quase molecular de gente com pressa de se divertir e ser feliz me fez lembrar uma das crônicas de toda a minha vida, escrita por um de meus ícones da adolescência: Arthur da Távola.
Ele dizia que "ser jovem é ter abertura para o novo (...).É acreditar um pouco na imortalidade da vida, é querer a festa, o jogo, a brincadeira, a lua, o impossível, o distante. Ser jovem é ser bêbado de infinitos que terminam logo ali. É só pensar na morte de vez em quando. É não saber de nada e poder tudo."

Ele tinha toda a razão e sua definição de juventude vai ficar pra sempre gravada em mim.
A possibilidade de se sentir meio imortal e capaz de esperar por mais futuro, nos traz a euforia do verão e experiência da metáfora do Carnaval, ainda que não se curta tanto os dias de folião (como é o meu caso!).
Ser jovem é adquirir super poderes. E, com eles, adquirir doses cavalares de dopamina e serotonina, num êxtase que dispensa químicas, festas raves e laboratórios, combatendo ansiedade, depressão e angústia.
Ser jovem é não racionalizar paixão. É saber pouco do que dá errado e por isso, de um jeito naif, beijar na boca sem saber aonde aquela explosão toda pode o levar.

Entendendo a força, amplitude e significado desse estado de juventude, consigo compreender com clareza e perfeição, a busca quase frenética por situações adolescentes.
Adultos, grisalhos, pais, avós, seniors,
Todos se embebedando de possibilidades e circunstâncias que os façam acreditar na imortalidade da vida e no impossível.
Ligam, mandam flores, saem nos blocos, beijam na boca, paqueram na internet, compram roupa nova,participam de armações afetivas, inovam no sexo, fazem sexo primal meio no susto, se agarram, se pegam, e, finalmente, vivem em carne e osso o que já era lembrança de retrovisor pra eles.
Sentem-se jovens.
São jovens.
Acho que nunca deixaram de ser.
E quem os pode culpar?
Possivelmente, quem consegue manter ou ressuscitar esse estado de espírito, usando seus super poderes, terá tido mais sorte que Casmurro, de Machado de Assis, quando diz que não conseguiu restaurar a adolescência e nem recompor o que foi um dia. Manteve o rosto, mas não a fisionomia da juventude.

Sim, ser jovem é manter a fisionomia do início de tudo e smell like teen spirit.

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Projeto '4 Mãos': Nostalgia, libido e outros remédios sem prescrição

Bia Willcox | Bia Willcox | 30/01/2013 08h31

Bia Willcox escreve em parceria com o escritor e roteirista Felipe Pauluk, numa linguagem crua, ácida, direta no estômago.

old barbecue boy [felipe pauluk]: sabe, nurse, não me dê mais daqueles comprimidos, já estou abatido o suficiente e minha garganta os expele em face da rebeldia saudosista pela nicotina. troque os lençóis e traga mais revistas de celebridades que contenham horóscopo, senão de nada servem. você tinha que ter me visto anos atrás, eu era um jesus-amante, um crucificado rato das praias fuligentas que vislumbrava os biquínis estampados enquanto mastigava o fumo de minha vida classe-média-baixa. mas nada importa agora, a pele cede morada aos vermes e meus olhos procrastinam o turvar. nurse, está me ouvindo? eu tenho medo da morte, sabe? não daquela morte esquelética e corpulenta que imaginamos uma vida toda. eu tenho medo é daquela que está, como diz a música: "sentada à beira do caminho". deus sabe dos meus medos e por mais que agora minha boca emborque, como a de um senhor feudal charuteiro, meus sentimentos estão mais finos do que a linha que ziguezagueia nesta tua meia-calça branca. se a morte de tudo tivesse seus preferidos, mas que nada, ela não tem prato predileto, come de tudo. e lá veio ela, rasgando meus vícios, triturando meu amor, devorando meu sexo. não, nurse, não me venha dizer que é apenas uma passagem por lírios e lá estará um céu. abra a janela e me dê um dos seus cigarros, eu prometo que não passo mais a mão em você.

nurse [bia willcox]: sua mão não me incomoda - é sua vida que ainda sopra. suas rugas respiram e seu olhar sempre me acorda. olhar de misericórdia de uma vida de merda que não avisa quando vai desligar. sei bem o que sente, lembranças de tesão e desejo. medo dos bichos que nos comem e do paraíso que nunca existiu. mergulho nessa degradação lenta porque compartilho esse cotidiano de inferno que levamos nesse seu quarto entralhado com soros, aparelhos, seringas e cápsulas coloridas. deus não sabe disso tudo, duvido. se soubesse não seria deus. se a morte soubesse teria, sim, suas predileções. mas não sabe. a morte não sabe de nada.ela só nos fita. nos tortura, inibe, ameaça. a morte é a senha da realidade que nos mostra dentes, pele, voz, musculatura apodrecendo com o passar dos minutos, horas e dias. a morte brocha. pobre de você b.b., com esse baú de libido cheio de naftalina e viagra, precisando passar a mão em mim a cada injeção. passa, vai, sua mão é o alento do presente que me faz esquecer desse futuro nefasto e inexorável que a todos espera. passa gostoso, vai.

old barbecue boy [f.p.]: ora, ora, ora, quem é você para tentar passar minha vida a em páginas amareladas? uma ateia? uma diaba? eu nunca precisei de você, sei me virar muito bem. me passa um cigarro, vai. eu prometo, é o último. nurse, eu já te contei do tempo que eu passei na guerra? hein? contei? lá sim, lá sim você desacredita da vida. eu vi tanta carne podre, tantos estilhaços de tripas. quando eu regressei, deixava uma marca em toda puta que eu comia: um tapa na cara, uma mordida forte, uma queimada de cigarro. era a inércia. eu queria ver se elas eram feitas daquela mesma carne moída. você é feita assim também, sabia? não vou mentir, baby, eu realmente sinto ainda aquele tesão, sabe? não estou falando aqui ó, no saco. eu sinto vontade de perfurar com o estilete todos estes frascos de soro e sair por aí caçando uma briga de tacos. desafiar de vez esta morte, pseudocarrasco, que não passa de uma unha encravada. eu queria ver mesmo as mulheres que dançam na vitrine, sabe? ainda existem? aquilo, sim, são mulheres. nurse; desabotoa teu decote, só mais um pouquinho. isso, assim está melhor. fala sério, pelo o que te conto, se eu fosse mais jovem com certeza você teria tesão por mim, não é?

nurse [b.w.]: vai ficar aí olhando com esse ar de babão? se não fizer nada fecho o botão em 10, 9, 8... não pode te fazer bem, vou fechar esse decote até o pescoço. eu também já tive meus dias de glória. toma teu cigarro. traga toda essa virilidade, encarcerado no seu corpo doente, vai. sim, tive dias intensos, de diva. era desejada e cantada por todos os lados. coxas, mãos e barriga tremiam de tesão. provocava a imaginação dos homens que se sentiam aprisionados pelo meu sexo. podia ter tido o que quisesse nessa vida, mas tô aqui. sem o mesmo vigor nem crença na vida, cuidando da velocidade das gotas no teu soro, ouvindo as memórias de um garanhão combalido que um dia já fez gente feliz. sim, teria tesão por você, velho. tenho tesão pelo que diz. tesão de narrativa. só por isso, tô levantando a saia. aproveita, vai. antes que chegue a hora do antibiótico intravenoso.


old barbecue boy [f.p.]: ah, como você é ordinária. deixe-me ver o que temos aí debaixo, estou ficando excitado. puta que pariu, nurse! teu cigarro, tem sabor de fumaça de carburador. abra a janela, o odor de velho, fumo e doença vai nos matar. pois é, momentos de glória até que chegou tua vez de pagar pelos pecados, não é? cuidar de um ex-combatente raivoso, que mais parece um cão criado no fundo do quintal. mas anime-se, baby, você ainda é jovem, sexy e com o rosto abarrotado em maquiagem de cheiro adocicado. tem os seios firmes e um lábio que navalha qualquer coração. meu braço já tomou algumas agulhadas prazerosas. antes do intravenoso perfurar minha pele, quero te dizer: você provavelmente acabará assim como eu. a vida é uma carro esgotado, sabe? uma daquelas reluzentes carangas que, com o tempo, se cansa do seu dono e apenas pede reboque. e não se iluda, alguém virá cuidar de você como um demônio tentador, falando que sentiria tesão por sua carcaça se fosse mais nova, porém o que mais quer é "acidentalmente" trocar os comprimidos e te ver seco, rodeado de urubus. por fim, acaba levando seu dinheiro. abra o olho, nurse. eu não abri os meus.

nurse [b.w.]: olhos envelhecem e se fecham, babe. impossível mantê-los espertos como antes. que troquem meus comprimidos, não quero espelhos nem palavras que reafirmem minha decrepitude. quero viver de olhos selados com membrana de retrovisor pra me ver no frescor de meus dias, passando hidratante na pele e gozando de felicidade.
o que quer ver aqui por baixo? nada que não tenha visto? se é que é possível que o nem tão escondido aqui lhe traga conforto nesse mórbido ambiente home care. tesão mórbido, língua murcha. pau mole. oops, mole? o que vc andou tomando, boy? algo redondo e azul? colé? aceite sua condição, rapá. e sai pra lá. tá na hora do intravenoso, estica o braço esquerdo. ih, troquei os frascos. já era. já foi.

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Divisibilidade Humano-Matemática

Bia Willcox | Bia Willcox | 23/01/2013 20h51

Vocês podem não acreditar, mas eu adorava matemática! Colegas, professores e familiares por vezes apostaram que estudaria algo como Engenharia ou Informática. Erraram feio. Matemática é pra acalmar o espírito, equilibrar as emoções, mas nunca para me satisfazer. Seus desafios têm um limite e, no campo das palavras, os desafios são ilimitados e até mesmo imponderáveis. E eu sinceramente, adoro conviver com essa possibilidade. Por isso disse não à matemática quando passei no vestibular!

Dessa facilidade em matemática, guardei alguns conceitos aritmeticamente precisos, que, se pensarmos com jeitinho, podem ser bem aplicados às nossas pouco precisas emoções. Um deles é o da divisibilidade. Aprendi que números primos não se dividem e que há sempre um máximo divisor comum. Aprendi sobre números naturais, inteiros, racionais, decimais, reais. Quantos deles!

Lendo a vida da gente com as lentes matemáticas, vejo que somos inteiros, ou, ao menos, que tentamos ser um só, com defeitos e qualidades, pontos altos e baixos, mas uma pessoa. Uma mente única tentando arrumar os pensamentos, desejos, emoções e medos. Tentamos ser inteiros, naturais, como os números.
Mas o que mais me chama a atenção é que, ao contrário do que possa parecer, somos divisíveis, nada primos. Nossa divisibilidade é tão natural e fisiológica que não deveria causar espanto ou repulsa. Mas causa.
Somos julgados porque nos sentimos divididos na escolha da profissão, porque gostamos de 2 pratos no cardápio, porque queremos 2 candidatos, 2 vestidos ou até 2 cores de esmalte. Tudo nos divide em 2, 3, 4 ou mais!

Raramente somos números primos, solidamente indivisíveis! Essa é a verdade!

Somos divisíveis e divididos quando se trata de relacionamentos e amores. Sabemos o que queremos? Podemos saber até, mas sabemos o que desejamos?

Não há crime ou culpa (e muito menos castigo!) em se sentir dividido entre 2 ou mais pessoas. Gostar de uma pra uma coisa e de outra pra outra. Gostar de conversar com uma e beijar outra, desejar ter filhos com uma e querer fazer cafuné em outro.

Não pode haver julgamentos. Somos divididos em nosso estilo de vida. Queremos calmaria, mas temos vontade de agitação. Queremos solteirice e olhamos cumprido pra um namoro de cumplicidade. Queremos trabalhar muito e desejamos o ócio. Queremos mudar cor de cabelo e voltar à que tínhamos. Queremos beijar diferentes pessoas.

Sim. Podemos querer e amar mais de uma coisa, lugar ou pessoa. Muitos lutam contra essa natureza divisível por desejar ser inteiro de caráter e ética. Mas lembremo-nos que o número inteiro nem sempre é primo, ele pode ser divisível. Muito divisível.

E eu agradeço à minha querida aritmética por aplacar minhas culpas e me fazer, através de seus conceitos, uma pessoa mais leve e feliz!

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Projeto '4 Mãos': A D.R. da linguagem (ou da falta dela)

Bia Willcox e Deonisio da Silva | Bia Willcox | 21/01/2013 20h51

Bia Willcox: Amar. Beijar e abraçar. Namorar e casar. Tudo isso em línguas diferentes. Dá pé, Deo?
A última vez que viajei para o exterior estava desacompanhada e ouvia amigos e conhecidos brincarem e recomendarem que eu "arranjasse" alguém no país de destino. Ouço, acho graça e jamais considero o conselho viável. Como se relacionar sem a palavra? Como ser inteligente, argumentar, discutir ou mesmo, admirar o outro, numa língua que não é a mãe? Muitos dizem que basta a linguagem do amor, ou mesmo do tesão. Mas não. Atraímo-nos pelo tom do que é dito, pela sensualidade da coesão dos textos ditos, pela riqueza do vocabulário expressado. O corpo e o gesto são as ilustrações do conto que se inicia entre duas pessoas. Será que eu preciso mudar e aprender a amar os mudos e incomunicáveis, Deo?

Deonisio da Silva: Certa vez em nossa casa trabalhou uma empregada surda-muda. Ela discutia muito as ordens da patroa, argumentava com vigor nos bilhetes, todos à moda Jânio Quadros, isto é, num estilo barroco. Você sabia que o presidente Jânio Quadros morava em São Paulo na Rua Estilo Barroco? O acaso tem suas leis que, entretanto, desconhecemos. O marido dela não era surdo-mudo, apaixonara-se por aquela que nada dizia, que não podia dizer.
E para os dois bastou uma linguagem que não entendíamos, como aquela dos gatos com as mulheres; não é em vão que a mulher, entre comparações tão machistas, sempre com bichos domésticos e submissos - vaca, perua, galinha, cachorra etc. - quando se trata de semelhança positiva, é comparada à felina. Os gatos e as mulheres trocam olhares na presença masculina e parecem lamentar que nossa intuição seja tão tosca.
Isto posto, um rosto latino não é latino nem grego, como disse Santo Agostinho. Os que amam, sabem: antes das primeiras palavras, já houve outras trocas: de olhares, de cheiros, de medos, de alegrias, um pouco de tudo. Por isso, Bia, acho que o amor é cheio de complexas sutilezas. É possível vivê-lo, sim, sem palavras, ou, pelo menos, com muito menos do que aquelas que proferimos sem cessar todos os dias. De todo modo, sabemos que, conversando com a mesma pessoa, a cada cinco minutos enfrentamos um estranho, como disse T. S. Elliot. Então, o silêncio pode, sim, fazer bem ao amor. Não a mim, porém: sem palavras eu não sou ninguém, me sinto sem roupa, sem defesa, sem atrativo. E sem saber para onde ir, que mapa seguir rumo ao encontro da pessoa amada. E até o silêncio precisa de palavras, antes ou depois, senão não é silêncio!

Bia Willcox: Silêncio não é silêncio sem a palavra, ou ao menos, sem o barulho. Bem como preto sem branco não é o mesmo preto, nem férias sem trabalho.
Silêncio como trégua vale numa relação. Silêncio como regra, não.
Uma imagem vale mais que mil palavras. Fato. Um, dois, três olhares também. O problema é que se relacionar e construir amor requer pelo menos 1 milhão de palavras e isso, nem imagem, nem olhar podem suprir.
O tesão é silencioso (nem sempre, eu sei!) mas o amor, não.
Amamos o que vemos, o que sentimos. Mas também o que ouvimos, o que lemos, o que retrucamos ou debatemos. Como admirar passionalmente e profundamente a pessoa, sem a palavra? Ou com palavras mal colocadas, mal conjugadas, perdidas na falta de coesão?
A matéria é finita. O corpo envelhece e os olhos deixam de ver tão bem. Já a expressão verbal e o pensamento são infinitos e são o que de mais forte e vigoroso pode delinear uma relação.
Se assim não fosse, não haveria namoros à distância nem casamentos internáuticos.
Não haveria o conto erótico, o sexo descrito em palavras, com narrações detalhadas e provocadoras de nossa libido.
Não, querido Deo. Prefiro o sexo verbal ao amor mudo.
Como fazer com aquelas DRs que, por mais odiadas e achincalhadas que possam ser (pelos homens principalmente), fazem tão parte do dia a dia da relação amorosa? DR pode ser prenúncio de fim, ou início de algo muito melhor. Diálogo. Linguagem. Pensamento. Palavra.
E essa, só sendo fluente e proficiente, não acha?

Deonisio da Silva: Você tem toda razão, Bia, sem palavras não dá, mas temos que entender que o silêncio inclui a palavra e vice-versa. O Octávio Paz tem memorável passagem sobre a linguagem do amor. Ele diz que, na hora do gozo, ruídos, vozes, gritos, murmúrios etc., às vezes lembram relinchos, vozes de animais. Por curiosidade, certa vez relacionei num romance, acho que foi no Teresa d´Àvila, 114 vozes de animais. Então a pessoa poderia fazer um exercício íntimo, divertido, privado e gozoso: verificar com a voz de qual bicho se assemelha a sua voz à hora do amor.
Vou elencar algumas, assim de memória. Cachorros latem, gralhas apupam, gaviões atitam, cisnes arensam, porcos grunhem, ganos grasnam, pombos, juritis e rolinhas arrulham.
Tenho um conto que se chama Arrulho, me foi inspirado pela escritora Edla Van Steen, que é uma autora catarinense que admiro muito.
Serpentes, antas, bem-te-vis, cobras, estorninhos, faisões, macacos, melros e pacas assobiam, embora da cobra se diga mais que ela silva.
Burros e mulas, que são estéreis, porque híbridos, azurram ou zurram, mas o jumento é fértil e tem a mesma voz. Éguas e cavalos relincham. Mas só a égua é lavada, o cavalo, não! "Lavei a égua", diz a expressão, porque o vencedor da corrida dava um banho de champanhe na égua vitoriosa. Se cavalo, ia direto para o estábulo, sem o banho chique.
Todos esses emitem um balido: bode, borrego, cabra, cabrão, cabrito, carneiro, ovelha, chibarro. O camelo blatera. Esses bramem: búfalo, crocodilo, curica, elefante, gamo, onça, tigre, touro, urso, veado. O galo, a galinha e a seriema cacarejam. A cigarra, como o sabiá e outros pássaros, canta, mas a andorinha trina. O lagarto farfalha.
O sapo coaxa. Aquele que coaxa a noite inteira é porque não arrumou companheira. A cantoria deles é para arrumar companhia no banhado.
A cegonha glotera, o corvo crocita. O jerico e o onagro orneiam. O falcão e a gaivota pipilam. A raposa e o gambá regougam. O gato mia ou ronrona. O besouro resmunga. O papagaio fala ou taramela. O caititu tatala. O beija-flor trissa. A hiena ri. O lobo uiva. A abelha zumbe.
A palavra lupanar vem de lupa, loba em Latim: confinadas à periferia das cidades e das vilas, as prostitutas chamavam os clientes, uivando como lobas. Nascia aí a palavra lupanar como sinônimo de bordel, edifício erguido às bordas das vilas.
Bia, querida, as palavras do amor aparecem misturadas em nossa língua de uma forma estranha. Vênus é a deusa do amor, mas seu étimo está em doença venérea. Como pode o amor resultar em doença? O conceito é patológico. As doenças do amor são outras, não são físicas nem biológicas, são psíquicas, não é mesmo?
A própria palavra paixão designa sofrimento. Na civilização em que vivemos, a ocidental cristã, indicamos a Semana Santa, que sucede ao Carnaval, como a da paixão e morte de Jesus.

Mas e as paixões da efeméride anterior, as do Carnaval, resultaram em sofrimento também? Ah, palavras, "que estranha potência a vossa!", exclamará Cecília Meireles. Pois as palavras dos bichos, exceto a daqueles que imitam os homens, são outras! Semelham o silêncio da empregada muda de que te falei no início dessa prosa.

Bia Willcox: Será mesmo que o barulho dos bichos se assemelha à mudez da empregada? Não sei responder com precisão, já que sou ignorante na zoologia. Talvez os miados, grunhidos e arrulhos sejam mais do que gritos e sussurros. Talvez se trate do diálogo, da declaração de amor (ou de tesão), da dúvida, da afirmação, da DR. Deve haver sabedoria no amor dos bichos e ela provavelmente não está na falta de comunicação e na linguagem unicamente sensorial.
Minha libido vem da palavra também. Não imagino relação sem narrativa ou sexo sem adjetivo. Não considero tesão sem argumentação. A admiração que atrai e provoca vem da palavra. Sem fluência ficamos menos inteligentes. Os animais são proficientes em suas línguas: não é comum vê-los se relacionar em língua estrangeira. Ou você já viu um latido e um cacarejo juntos na "hora da cama".
Será que as palavras ligadas ao amor têm raízes no sofrimento e na doença pelo simples fato de serem palavras? Seria a linguagem o caminho do Inferno ou a porta para a infelicidade? Estaria a empregada surda-muda a caminho do Paraíso? Não sei.
Devo estar sendo radical aqui, mas, como a Zélia Duncan canta em sua "Assim que eu gosto", meu corpo só fala Português.

Deonisio da Silva: Bia, as falas e seus silêncios estarão sempre no ato amoroso, ao gosto do freguês. O essencial é garantir a liberdade de calar ou falar. E o mais importante de tudo na vida, falado ou quieto, é o amor. Afinal, Dante Alighieri, que conhecia apenas um pouquinho de astronomia, disse que "o amor move o Sol e as outras estrelas." Como é que ele sabia que o Sol era uma estrela, descoberta que só seria feita séculos depois, ignoramos. O certo é que a Literatura chegou ao inconsciente antes de Freud e pôs um confessionário, não para as falas dos confitentes, mas para os seus pensamentos, frustrações, desejos e esperanças. Tenho não dito, mas pelo dito. E fica o que dissemos um para o outro nesse nosso curto prosear. Agradeço-lhe a iniciativa e o prazer do convívio nesses curtos dias, mas o que não é curto em nossa existência? A vida é breve. E o que levamos da vida é a vida que levamos. "Há braços" pra você! E uma beijoca do amigo Deo.

Bia Willcox: Entre os muitos braços que me são possíveis, você é um dos fortes e determinantes que me abraçam, Deo querido.
Adorei a DR (ah, DR é termo jovem usado pra reclamar de quem fala demais do relacionamento, significa "discutir relação!")! Que nossa relação de amizade e afeto seja sempre permeada por palavras!

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Humanamente imperfeito

Bia Willcox | Bia Willcox | 19/01/2013 15h32

Não me canso de pensar na humanidade que tudo tem. Penso no que já foi, no que é, no que ainda vai ser e no que possivelmente deveria ter sido.
Penso nas imperfeições tipicamente humanas que nos fazem magicamente equilibrados nos círculos sociais de micro, médio e gigantesco espectro.
Você pode me achar excessivamente otimista. Alienada. Superficial. E retrucar: óbvio que não há equilíbrio algum nos ambientes humano-sociais.
Mas se não houvesse, como explicar que continuamos?
Como explicar que avançamos e regredimos, tombamos pra esquerda e pra direita, dançamos conforme a música, lutamos, perdemos, vencemos e, finalmente, continuamos?

Por mais uma de nossas imperfeições e fraquezas, temos dificuldade em aceitar o que nos é diferente. Quer ver?
"Famílias de hoje não são mais famílias. Tá tudo uma bagunça!"
Quem já não ouviu isso?
Por que são piores? Onde tá escrito que pai e mãe devem viver juntos por todo o tempo ao lado de seus filhos? Quem determinou que laço sanguíneo é o mais forte? Quem disse que os padrões que temos são os que devem ser seguidos? Quem lhe contou que a verdade é verdadeira?
Já vi avós gestando netos pras filhas impedidas, avós criando netos, crianças indo passar o dia na casa da babá, mães biológicas adotando mais filhos, pessoas adotando filhos, outras chamando cachorros e gatos de filhos, gente do mesmo sexo providenciando sua cria e homens e mulheres se unindo pra tentar procriar. Vi casamentos na praia, na igreja, no campo e até e literalmente debaixo d'água.
É tudo farinha do mesmo saco! É tudo afeto! Vai dizer que tá errado? Vai dizer que é não é família? Vai dizer que faz mal nascer e viver em determinadas configurações afetivas?
Quer saber mesmo o que faz mal? Amar de menos.
Amar na medida do crescimento, da liberdade e do respeito é o ideal. Mas, lembrando por onde comecei, somos imperfeitos. Erramos. Mas, se erramos no jeito, na forma ou na dose, que seja pra mais. Mais amor é melhor que menos. Não tenho dúvida!
Família com amor demais vai ser sempre família. Família com amor de menos é acidente biológico.
E é nesse cenário de imperfeições que continuamos e continuaremos. Sempre.

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Fator X ou tudo começa do mesmo jeito

Bia Willcox | Bia Willcox | 13/01/2013 14h41

Foto: DivulgaçãoNão adianta contestar, nem tecnologizar. Não adianta mudar o que não se muda e nem controlar com perfeição o parcialmente incontrolável.
Não adianta racionalizar sentimento nem planejar relacionamento. Não adianta nada fazer planilha de vida amorosa e nem poupança de afeto e carícia.
Ninguém pode planejar com precisão quaisquer afetos.
A gente pensa que tem as rédeas. Pensa que só faz o que se programou para fazer. E, graças a Deus, a gente fura com (quase) tudo. Uns mais outros menos.
Se não conseguimos planejar a morte e nem o acaso, como programar o sentimento?

Ok, ok. Estou sendo radical. Podemos determinar o que queremos e o que não queremos.
Não queremos mais nos casar, viver na mesma casa.
Não queremos filhos nem cachorros.
Queremos pessoas mais velhas ou mais novas.
Queremos estabilidade, queremos filhos.
Mas querer é poder? É conseguir? É levar adiante?
Dá pra esquematizar o encanto, teorizar o beijo ideal ou a companhia que te faz rir?
Dá pra escolher numa equação o cara que vai completar seu cotidiano ou a sua extravagãncia sem faltas nem sobras?
Não, dá não!
Essa história já batida de planejar por quem vai se apaixonar ou construir uma vida juntos é uma inequação, uma dízima periódica. Ou até mesmo o pi - ¶ ! E que pi!
E muitos de nós, num reino próximo daqui, conseguem fazer isso.
Não eu (ufa!).

Costumo de dizer que qualquer coisa começa do mesmo jeito, repararam?
Um flerte, o sexo de uma noite só, a paixão, o casamento, o ódio, a indiferença, o caso, a traição, o amor de toda a vida.
Todos começam pelos olhos (muitos pelos ouvidos). Todos começam pelo beijo. Pelas mãos.
Então esse começo pode ser o começo de tudo, de muito, de pouco ou mesmo nada! Como prever? Como criar tabela periódica de acontecimentos amorosos?
Nascemos e morremos com esse fator X do coração e isso é inexorável, quer se negue ou não.
Como somos seres inteligentes, tentamos nos superar. E dá-lhe matemática pra resolver tudo isso! E dá-lhe o pi!

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Projeto '4 Mãos': qual é o prato principal?

Bia Willcox e Tico Santa Cruz | Bia Willcox | 10/01/2013 09h24

Bia Willcox: Tico, dia desses, li um minimanifesto seu contra a ditadura da beleza e a superficialidade feminina reinante que fazem com que as mulheres tentem seguir um padrão de beleza pré-determinado e se tornem escravas disso, tornando-se menos "personalizadas" e mais "sonhos ou objetos de consumo" na sociedade.
Sim, há um culto às formas perfeitas, à juventude e àqueles traços fisionômicos e corporais que nos tornam mais belos segundo o "senso comum". Não há como discordar do que você disse. Estive com alguns intelectuais europeus e todos têm a mesma impressão de nosso país: mulheres preocupadas com a aparência, com as rugas e com o peso ideal. A questão que me inquieta é: nós brasileiras temos opção? Há como manter a autoestima e a autoconfiança em bons níveis sem jogar o jogo? Quem vive sem espelhos (os de fato e os metafórico sociais)?

Tico Santa Cruz: Sempre há opção, Bia. Qual é a motivação? Ser como as moças da TV?
Estar bem psicologicamente é tão importante quanto estar bem fisicamente e sem dúvida nenhuma é comum a qualquer ser humano se sentir parte de algo que os outros reconheçam. Mas deixa de ser interessante e saudável pra mente e pro corpo quando as pessoas se tornam escravas dessa imposição. É como se fosse uma obsessão e toda obsessão nos tira o que temos de mais importante, a liberdade.
Assusta-me ver mulheres bonitas, normais, naturais, com vergonha ou receio de ir à praia ou à piscina, muitas vezes até ficarem nuas diante de seus parceiros por conta de um padrão totalmente questionável.
Estamos falando de uma fase onde algumas mulheres estão se tornando apenas objetos de consumo fácil e rápido sem comprometimento. Estamos tratando de excessos. Hormônios, perda das características femininas, mudança de voz, busca por uma estética andrógina que é pautada por programas de TV e revistas de futilidade, assim como o oposto com relação à magreza excessiva das modelos de passarela.
O corpo feminino ideal é aquele que se faz atraente por suas peculiaridades estéticas de acordo com as nuances que são compatíveis com sua genética. Não estamos negando os exercícios físicos, nem ignorando a importância de estar com a saúde em dia. Mas o mercado das cirurgias plásticas e essa necessidade insana de se parecer com o que é imposto pelo padrão atual beira o ridículo.
É preciso, sim, estar bela, porém respeitando sua natureza.
E, como homem, posso dizer que os homens gostam de mulheres femininas, que desconfio da motivação desses que procuram músculos ao invés da delicadeza que sempre foi a característica mais charmosa de uma donzela. E que a competição entre mulheres é o que as torna escravas dessa postura. Aquela que se comporta como um pedaço de carne acaba se tornando um produto de açougue.

Bia Willcox: Não tenho como não concordar com você e sua visão masculina sobre o tema. Masculina não é machista. Gosto disso. Afinal sempre vai haver dois hormônios, dois lados, duas versões.
Há algum tempo desconfio que esse excesso de culto ao corpo, e uma preocupação extrema em não envelhecer, ia nos levar a uma certa androgenia. Mulheres e homens preocupados demais com sua imagem na praia, na academia ou na TV.
Mulheres musculosas, como você bem lembrou. Como se ter celulite fosse fator de exílio da sociedade feminina das bem-aventuradas, negando seus próprios hormônios (sim, o estrógeno que também nos dá as famosas curvas e que trabalha na nossa gravidez!). Negar a própria feminilidade leva a negar o próprio prazer: a libido e a entrega ao gozo passam a ser secundárias, tornando o sexo uma espécie de demonstração aeróbica, sem que se possa senti-lo e vivê-lo de verdade.
O pior: percebo um movimento estético parecido também nos homens: plásticas, excesso de exercício físico, depilação, falta de autenticidade nas atitudes e movimentos por conta da extrema preocupação com a imagem.
Será que as regras da atração física mudaram e esqueceram de nos avisar, Tico?

Tico Santa Cruz: As regras de atração física podem até mudar com o passar dos anos por conta das mudanças e dos interesses e posicionamentos da sociedade. Cada período teve seu padrão de beleza e essa é uma variável que no primeiro contato pode gerar um interesse entre duas pessoas.
Contudo a atração física leva apenas ao encontro físico; se não existir outras atrações que complementem a reunião de um casal, parou por ai. Talvez seja por esse motivo que hoje existam tantas pessoas reclamando que não conseguem arrumar um bom companheiro ou uma boa companheira. Porque estão usando apenas o conceito físico em suas escolhas e esquecendo que uma relação forte, saudável e interessante é composta de cumplicidade, conteúdo e, claro, o amor.
O amor nasce da admiração, ao contrário da paixão que pode explodir por conta de olhos, bocas, bundas e peitos e um bom sexo.
Quando alguém se junta a outra pessoa apenas por atração física e não encontra nela os elementos fundamentais para desenvolver o caminho até uma relação mais profunda, ela fatalmente desistirá de seguir adiante e, se seguir, tem muitas chances de ser infeliz.
O tempo passa para todos. Até para manter este físico que tanto busca olhares é preciso uma disciplina que pode estar vinculada apenas a uma fase da vida daquela pessoa, e depois que acabar?
E quando é preciso trabalhar para pagar as contas e não se tem mais tempo para academia? E quando vem uma criança e o corpo muda e não se pode mais manter a rotina de antes?
O silicone, os músculos, a bunda empinada, não falam, não pensam, não agem, apenas existem. O que mantém uma relação saudável é o conteúdo, os assuntos, as ideias, e a admiração normalmente brotam desse aspecto da vida.
De forma que não importa se são homens ou mulheres os adeptos da prática estética em questão. Se estão em busca de uma noite de sexo ou de uma relação mais séria..
Para se encontrar alguém que lhe vá complementar e, creio que a busca dos seres humanos em geral seja essa, é preciso ter um critério que seja menos superficial do que a mera atração física.
Quando vem a prova do tempo é o que temos dentro da cabeça e como alimentamos nossa alma que determina aqueles que estarão ao nosso lado, nossas escolhas e nosso destino amoroso.
O amor, por incrível que pareça, é parte de uma química que enxerga mais do que passagens por mesas de cirurgias ou anabolizantes.

Bia Willcox: Já disse uma vez que o amor é o clichê mais sábio de qualquer tempo. A complexidade do amor tem o tesão como a entrada, a admiração como prato principal e, ainda, as diferentes afinidades como sobremesa.
Sem falar no respeito e tolerância que são, para mim, a água que mata a sede.
A questão é que vivemos hoje um mundo plástico (e de plástico) onde se compra o que se vê. É a era da estética, do visual, das cores, movimentos e dimensões. Prefere-se um filme a um livro, o colorido ao preto e branco, a aparência ao conteúdo.
Como nós dois bem sabemos que essa opção não satisfaz a longo prazo, as pessoas buscam então paliativos, remédios contra o vazio do não-amor, da não-verdade, do não-gozo.
Remédios que vendem felicidade plástica, pré-fabricada: muitos tratamentos estéticos, pílulas da felicidade, energéticos, viagras, ansiolíticos, cartão de crédito, shopping centers, dietas mirabolantes...E grupos de amigos que pensem igual.
Assim, segue o ciclo da ditadura da pseudobeleza e da pseudofelicidade.
Deixo claro que uma coisa não exclui a outra. Não se trata de maniqueísmo ou apologia ao feio. Nada disso. Podemos e devemos amar o belo. Mas é sempre bom lembrar: "assim é se lhe parece". Ou, como canta Maria Gadú, "beleza cabe onde algo for".
Beleza existe aos olhos de quem vê. Acredite.
Em nome de quem vê, obrigada pelo seu olhar, Tico!

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Love is All we need, mesmo que só no final do ano

Bia Willcox | Bia Willcox | 03/01/2013 21h30

O mais legal de virar o ano não é a mágica dos números e nem os fogos de artifício. Tampouco o misticismo transitório de cores, signos e mandingas.

A cereja do bolo desse período de festas é, na verdade, o clima meio-família-walton que se instala nas casas e mentes das pessoas. Elas ficam naturalmente mais afetuosas e benevolentes. Elas se declaram mais, se abrem mais.

Os diferentes meios de comunicação a que temos acesso hoje permitem a todos sermos atenciosos e não descuidarmos das amizades-plantas que nossa consciência nos manda regar com regularidade.

Vi lindas declarações de amor no Facebook.

Recebi incríveis torpedos com os melhores desejos universais de fim de ano.

Fui surpreendida com grupos no whatsapp que trocavam mensagens entusiasmadas no reveillon. Gente que eu nem sei quem é me desejando um mundo ideal de paz, amor, saúde e prosperidade. Me senti acalentada num verdadeiro mundo de Alice.

Nesse clima de afetividade frenético, há quem ligue pro ex, quem perdoe o irmão, ame pra sempre o atual e diga eu te amo pra amigos do jardim de infância que não vêem desde a puberdade.

É como se todas as mazelas fossem guardadas na caixa e todos os ressentimentos apagados. Depois da champagne então, amamos o porteiro e a faxineira, aceitamos os defeitos alheios e esperamos que aceitem os nossos. Choramos, brindamos e abraçamos, provavelmente mais do que poderíamos ou deveríamos.

Ah, se a poção do final do ano se prolongasse ao menos por alguns meses... Parem e pensem: que lindo seriam as relações!

Mas, possivelmente, tiraria a graça do período mais afetivamente sedutor do ano. É como férias permanentes. Férias só têm graça porque existe o trabalho.

A graça do final de ano é ser só nos últimos dias de dezembro.

É. É melhor deixar como está.

Até 2014!

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Ao sul do fim do mundo

Bia Willcox | Bia Willcox | 23/12/2012 17h11

Foto: Acervo pessoal- Bia, o fim do mundo está chegando. Mas será, de fato, o fim? Na verdade e por puro paradoxo da era digital, creio que estamos chegando ao fim dos tempos do homem solitário, da criatividade isolada, do raciocínio uno. Talvez nem seja mais possível criar sozinho. Qualquer criação ou iniciativa, ao considerar o ambiente virtual como porta e janela, casa e oficina, imediatamente será submetida à apreciação de muitos, milhares, milhões. O brilhante escritor norte-americano John Steinbeck, em sua obra "A Leste do Éden", afirmava: "Nunca nada foi criado por dois homens. Não existem boas colocações, quer na arte, na música, na poesia, na matemática, na filosofia. De cada vez que o milagre da criação acontece, um grupo de pessoas pode construir com base nela e aumentá-la, mas o grupo em si nunca inventa nada. A preciosidade reside na mente solitária de cada homem". Ao sul do fim do mundo, ouso dizer que Steinbeck estava equivocado. O que você acha?

- Interessante essa bola que você levantou para mim, Helder. O maior de todos os paradoxos é vivermos num tempo de individualismo exacerbado (com valores ˜coletivos˜ em segundo plano), subsistindo sozinhos de frente para nossas telas tecnológicas e, ao mesmo tempo, compartilharmos freneticamente os nossos menores e mais simples pensamentos com um coletivo geralmente ilimitado.
O grupo colabora, estimula e complementa. Mas concordo com Steinbeck que o germe da ideia, o kickoff, a concepção da coisa, é naturalmente individual. Tem sempre um que pensou e repassou depois. O que eu realmente não sei é se no mundo de hoje é isso o que mais importa e interessa. Afinal, vivemos uma era digital altamente "lavoisierana" - se há criação, ela não é pura e certamente se transformará ao longo dos círculos de convivência digital. E se a ideia inicial já não tem o mesmo lugar que tinha, o que tem então?
A força do imaginário coletivo e das manipulações inconscientes da internet forma algo maior e ainda poderoso. É óbvio que Steinbeck fez essa afirmação muito antes do Twitter ou do Facebook. E você, Helder, vê possibilidade de o produto final ser fruto de uma construção 100% individual e sem influências plurais?

- É impossível acreditar, em pleno século 21, nas construções 100% individuais. Há uma espécie de "ilusão de ótica" na ideia de "solidão diante da tela". Você pode estar sozinho diante de um computador, notebook, tablet ou iPhone, mas, qualquer toque implicará fazer uso do serviço ou produto de outrem. Ou seja, querendo ou não, você sempre está em convivência. O advento das relações virtuais implicou um processo civilizatório dos mais fortes e até cruéis. Revelou uma fome extraordinária de vida social. A diferença é que, agora, temos o privilégio de escolher a que "sociedade" queremos pertencer. Não é por acaso que ascenderam de forma tão expressiva as redes sociais e os equipamentos móveis de comunicação. Nossa nova civilização quer estar "conectada" full time. Em suma: resta-nos aprender as regras (porque elas existem!) para esse novo modelo de vida em sociedade. Na verdade, cabe aqui aquela citação clichê dos melhores filmes catastróficos: "talvez seja o fim do mundo como o conhecemos".

- A metáfora do fim do mundo deveria ser vivida com frequência para que suscitássemos em nós questionamentos e reinventássemos até a roda. Possivelmente falamos da mesma coisa: compartilhamentos e agito sócio-virtual que inspiram e provocam, fazendo com que pensemos juntos, recortemos, copiemos tudo à nossa volta! Sim, o individual virou coletivo e vice-versa. A solidão física é a companheira das multidões digitais e a solidariedade invisível é aquela que dá colo aos solitários internáuticos.
E se no fim do mundo, bem lá ao sul, tudo se acabar, que estejamos todos conectados e compartilhando o que deve ser a nossa última ideia. Juntos.

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Sabe aquele cara?

Bia Willcox | Bia Willcox | 12/12/2012 22h12

Desde que ouvi pela primeira vez o último hit de Roberto Carlos fiquei num misto de carência e alívio.

Eu explico.

Ter um cara que pensa em você toda a hora e que conta os segundos quando você demora, não é pra qualquer uma. Já imaginou ter alguém que não consegue mais ficar sem você? Não seria o máximo? Pois é. Aí, a gente começa a lembrar do nosso passado, presente, e mesmo do nosso futuro possível e bate uma carência monumental...

Não, eu não tenho ninguém que sempre me espera, sorrindo.Tive lindos sorrisos me aguardando, mas sempre? Tive muito mau humor me esperando também. Geralmente porque me atrasei ou porque trabalhei demais. Acho que já tive meu pranto enxugado por alguém, mas o problema é que eu sou chorona e, aí, haja paciência, né? Em momentos de TPM ele não faria outra coisa...Mas ainda assim, ouvir essa linha da música provoca carência e, concomitantemente, sensação de fracasso: por que ele não abre a porta do carro, não enxuga meus frequentes prantos e não fala de amor enquanto acaricia meus cabelos? O que eu fiz de errado? Não mereço esse cara?

Passada a crise na autoestima e recobrada a razão percebo que:

1. Adoro que me beijem na boca, mas não que reclamem porque estive ausente. Faço muitas coisas e ia odiar me sentir cobrada assim. Mesmo que por alguém que me ame tanto.

2. Namorar um cara que é o meu melhor amigo é meu sonho de consumo. Sério. Mas se ele ficar querendo esbarrar em todos que interrompem meus passos, ele vai me irritar muito! Me deixe cair, levantar e me resolver sozinha! Pode ser?

3. Acordar feliz ao lado de um cara que me ama é tudo o que eu quero, juro. Mas fico aflita de pensar que ele conta os segundos quando eu atraso...Não sou boa com horários, confesso. Ia ficar agoniada cada vez que saísse de casa.

4. Se um cara me diz que é o cara certo pra mim, é porque não é. E ele deve saber disso, no fundo. Só nós sabemos quem é certo pra gente. Muitas vezes o certo é o errado pra nós de acordo com todos que nos cercam.

Enfim, sabe aquele cara da música do Roberto Carlos? Aquele cara deve existir, mas não é o meu dream guy.

O cara que tá o tempo todo querendo me ver, que não tem um hobby, que não joga uma bola, que não pega onda, que não curte momentos de leitura e introspecção, que não dá linha, que não tem outras paixões, que não toma um choppinho com amigos sem mim, que nada!? Ele sufoca, gruda, cansa.

Sabe aquele cara? Aquele da música? Deve ser um mala.

Um pegajoso.

Alguém precisa contar pra ele que, infelizmente, mulher não valoriza esse excesso.

Eu por exemplo: longe de querer tê-lo pra mim, fiquei até mais simpática à ideia de um namorado rústico e bad boy. 

O cara que pensa em você toda hora
Que conta os segundos se você demora
Que está todo o tempo querendo te ver
Porque já não sabe ficar sem você

E no meio da noite te chama
Pra dizer que te ama
Esse cara sou eu

O cara que sempre te espera sorrindo
Que abre a porta do carro quando você vem vindo
Te beija na boca, te abraça feliz
Apaixonado te olha e te diz
Que sentiu sua falta e reclama
Ele te ama

Esse cara sou eu

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Brincar de matar

Bia Willcox | Bia Willcox | 06/12/2012 22h39

Os sentimentos negativos acompanham o homem desde sempre - sentimento de tristeza, ressentimento, raiva, inveja, ciúme, entre outros.

Temos um código de comportamento, aprendemos o que é certo e errado segundo as normais da sociedade na qual estamos todos inseridos (ou deveríamos estar) e com isso, vamos domando nossos dragões interiores.

Às vezes o sentimento "baixo" que sentimos, é só uma reação a certas atitudes (humanas) negativas que têm conosco.
E assim caminha a humana Humanidade - reagindo, batendo boca, chorando de raiva, deixando-a subir à cabeça, se vingando e tendo desejos altamente reprimidos de querer o mal a quem, de certa forma, também lhe fez algum, mesmo que subjetivo e, nem por isso, menos doloroso.

Sim, reprimimos desejos. Ou, ao menos, devemos reprimir, se queremos andar na lei. Nada de matar, esganar, socar, trucidar, xingar, ofender ou aprontar com ninguém, certo? No mundo real, sim.

Mas a boa novidade (sim, boa!) é que podemos hoje libertar nossos furiosos dragões interiores e eliminar, como num vídeo game, as pessoas que não queremos de nosso mundo virtual.

Discutiu com alguém? Demitiu funcionário ruim? Quer esquecer o ex-namorado? Quer ser seletivo com quem faz parte de seu círculo de amigos? Quer tirar alguém do seu mapa?

DELETE-O.

Bloqueie-o em suas redes sociais, tire-o dos seus contatos. Suma com quem você quiser. Realize-se. Não aconselho a se vingar na internet. É feio, perigoso e também lhe traz problemas no mundo real.

Mas, sim, você pode "matar" quem você quiser, desreprimir-se e sair ileso. Você não fez mal a ninguém, só bem a você mesmo.

Como nos dias de hoje, mundo real e virtual vêm se misturando numa coisa única, garanto que a sensação de alívio e vitória será similar à da vida real!

Solte-se, desreprima-se, bloqueie, delete.

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Borogodó ou assim é, se lhe parece

Bia Willcox | Bia Willcox | 29/11/2012 22h47

Os ensinamentos que passamos aos nossos descendentes e amigos nem sempre são tão nobres ou profundos.
Outro dia, conversando com filhos e amigos de filhos, tentei definir "borogodó". Claro que minha definição não tem fundamento filosófico ou científico e ainda carrega em si um monte de conceitos pessoais e nada isentos.

Mas ainda assim, fiz um belo discurso em defesa da minha definição. Afinal de contas, nos tornamos seres humanos melhores, se exercitarmos a nossa habilidade de "dar o desconto" e perceber a não isenção dos conceitos e opiniões. Portanto estava ali. possibilitando esse tal exercício à garotada.

Borogodó é o que a beleza deveria ser - comecei.
Todos nós adoraríamos nos apaixonar pelo belo. Acreditamos que nos apaixonamos pela beleza. Mas não é bem assim. O borogodó é que torna a pessoa mais bonita. 

Borogodó é aquilo que nos atrai - charme, inteligência, humor, sagacidade. Uma pessoa com borogodó é sedutora. Pode não ser sedutora em geral, mas o é para quem se tornou borogodozado por ela.
Borogodó tá no corpo também, é um conjunto de coisas. Mão, costas, o andar, o cabelo e até a barriguinha saliente pode compor o borogodó da pessoa. Existem pessoas lindas (dentro do padrão estético comum) que, para alguns, não têm nenhum borogodó. São as famosas sem-sal.

Borogodó pra mim é ser decidido, ter atitude, surpreender com ímpeto e determinação. Descobri que todos os amores que tive até hoje tinham, entre outros, esse borogodó em comum. Acho que a galera entendeu o meu ponto de vista. Entre uma cerveja e outra, tentaram identificar borogodós alheios. Pedagogicamente satisfatório.
Gostei.
Afinal, a melhor descoberta eles fizeram ali.
Na vida, assim é, se lhe parece.

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Combinado, Pterodáctilo?

Bia Willcox | Bia Willcox | 23/11/2012 08h15

Acho que o meu medo de acordar um dia, me dirigir ao espelho e me deparar com um dinossauro, não é infundado não. De repente, nos damos conta de que o tempo voraz nos deixou na poeira e que hábitos e linguagens se tornaram obsoletamente estranhos para nós.

Uma das estranhezas com que venho me deparando ultimamente é o modo como as pessoas fazem planos e combinações e esquecem de descombinar.
Os pra-lá-de-famosos furos.

Venho me sentindo meio pterodáctilo. Tive essa sensação quando marquei algo com uma amiga (acertamos explicitamente uma programação juntas) e, ao nos falarmos pouco antes do dia previamente agendado, eu perguntei-lhe sobre como nos encontraríamos e tal e ela, muito naturalmente, disse que não mais iria por alguma razão de que agora não me lembro. Em outras palavras, se eu não a tivesse provocado, a combinação de outrora passaria batida, como se nunca tivesse existido.
Pensando bem, não se trata de furar. Porque furar é dizer ao outro que não vai cumprir o combinado, seja por telefone, sms ou whatsapp!

Trata-se de ignorar um acordo, falar da boca pra fora, pensar que o outro não o leva sério. Ou será que se trata de amnésia sazonal?

A história que contei não é única, nem especial. E nem tão grave. É só mais uma entre muitas que venho observando, não só comigo, mas também com pessoas à minha volta. Diziam (ou dizem) que essa mania de marcar da boca pra fora é coisa de carioca. Mas isso é injusto! Vejo outros brasileiros e até estrangeiros por aqui agirem assim. Eles não cancelam o que acertaram fazer, eles simplesmente não falam mais no assunto. E, é claro, não fazem o que combinaram.

Vejo esse sintoma coletivo como algo maior. Acho que se trata de não levar a própria palavra a sério. Estamos na era dos contratos, das adesões, das assinaturas digitais e, ao mesmo tempo, um tempo de muitas opções, muitos desejos de realizar e tempo insuficiente pra tudo. Misturemos isso tudo e entenderemos o porquê dessa nova tendência.

Não tenho nenhuma certeza de nada, é só um palpite.
Só sei que aprendi a combinar e cumprir, ou, se não cumprir, cancelar. Literalmente furar.

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Amor é sempre clichê. E daí?

Bia Willcox | Bia Willcox | 19/11/2012 19h41

Minhas reflexões acerca do amor são frequentes, para não dizer diárias (mas não quero parecer uma louca obcecada para quem está me conhecendo agora!). Penso na minha quase automática rejeição aos clichês em geral e em como caio no poço fundo da incoerência quando se trata de amor.

Amor é clichê universal, mas como não o ser? Como achar soluções para muita coisa (quase tudo) sem se recorrer ao amor? De John Lennon e Dalai Lama a Madre Teresa e Chico Xavier, de "All you need is love" a "Só love, Só love", não dá para fugir dele! Tá na música, no cinema, em todas as artes e no cotidiano, sempre presente, mesmo que com sua falta. É realmente o denominador comum - se não de ações, ao menos de desejos e pensamentos.

Portanto, escrever sobre amor será sempre um clichê. E daí?

É curioso ver como diferentes pessoas de diferentes meios sociais e culturais, no fundo, buscam essa mesma essência. Querem família que aconchegue e dê a mão, querem ambiente de trabalho positivo, querem pessoas do bem à sua volta, querem se apaixonar por pessoas bacanas, querem que suas já paixões os amem do mesmo jeito.
Sempre o amor, escancarado ou camuflado.
Não entro no mérito de sua pureza. Nem sei se precisa ser puro sob o prisma do amor desinteressado - aquele sem quaisquer acessórios de fábrica que o deixem mais brilhante, vibrante ou sofisticado, sabe?
Amor pode ser aquele que cresce com o tempo, o que protege, o que dá conforto. Pode também divertir, fazer rir, dar colo e até oferecer o nosso sustento. Por que não?
Amor é sem rótulos ou culpas. Ao menos deveria ser.
Tem que completar e fazer bem.
Simplista assim.
Minimalista mesmo.
Tenho tentado montar na minha cabeça axiomas cotidianos que me permitam encontrar luzes no fim dos túneis nossos de cada dia, sem precisar recorrer à psicanálise, centro espírita ou tarólogo.
Hoje, vejo as coisas sob um prisma mais aritmético: o amor é amor e se torna mais amor ainda quando fizer os nossos momentos bons passíveis de repetição. Muita repetição.
Sem medo das palavras, quando amamos, somos interesseiros.
Queremos algo que não conseguimos sozinhos.
Queremos ser mais e melhor.
Selecionamos o que queremos amar. Racionalizamos este acontecimento dentro de nós para que ele seja mais amplo e maior em possibilidades. O amor, então, passa a ser maior e mais complexo que a sua essência. Torna-se um conjunto de fatores agregados a ele que nos permite perceber o tempo juntos como algo que traz ganhos para nós mesmos. E que nos possibilite sentir "empatados" com o outro, já que também oferecemos ganhos nesta troca afetiva. São os famosos interesses (de naturezas diferentes) mútuos.

É sempre amor.
Nunca deixarei de pensar no amor, tema óbvio e intrigante.
Inexorável clichê.
Necessário e atemporal.
Onipresente mesmo quando não está.

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