Coautor de 'O astro', Geraldo Carneiro fala do lançamento da novela em DVD pela Globo Marcas

André Bernardo | André Bernardo | 03/03/2012 20h47

A novela "O astro", escrita por Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro a partir de original de Janete Clair, já pode ser classificada como um desses indiscutíveis sucessos da teledramaturgia brasileira. Os motivos são muitos. Em primeiro lugar, a média do ibope superou as expectativas. O último capítulo, por exemplo, registrou 26 pontos de audiência e alcançou 49% de "share" - percentual de televisores ligados. Depois, reinaugurou o esquecido horário das 23 horas, ocupado, nos áureos anos 70, por obras-primas como "O rebu", de Bráulio Pedroso, "O bem-amado", de Dias Gomes, e "Gabriela", de Walter George Durst. Por último, encorajou o lançamento do DVD, apenas quatro meses depois do fim da novela. Ao todo, 12 CDs reproduzem, na íntegra, os 64 capítulos da novela. "Acho que nenhum de nós esperava tanto sucesso", confessa Geraldo. "Todo sucesso é inexplicável. O fracasso, nem tanto".

Um dos responsáveis pelo sucesso de "O astro" é o mineiro Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro, 59 anos. Poeta, ele é autor de diversos livros, como "Verão vagabundo", "Folias metafísicas" e "Balada do impostor". Letrista, já teve música gravada por Tom Jobim, Gal Costa e Ney Matogrosso. Roteirista, trabalhou ao lado de grandes nomes da TV brasileira, como Bráulio Pedroso, Walther Negrão e Lauro César Muniz. Atualmente, redige o texto narrado pelo diretor Daniel Filho na série "As brasileiras", exibida toda quinta-feira. Dos muitos especiais de dramaturgia que assinou, admite sentir um carinho para lá de especial pelos que escreveu em parceria com o escritor João Ubaldo Ribeiro, como "O santo que não acreditava em Deus", de 1993; "O poder da arte da palavra", de 1994; e "A maldita", de 1995. "João Ubaldo já foi meu irmão em outras encadernações", graceja o poeta.

André Bernardo - Você já esperava que a TV Globo fosse lançar, em tão pouco tempo, a novela "O astro" em DVD?

Geraldo Carneiro - Se já havia previsão de lançamento do DVD, nunca fiquei sabendo. Mas acredito que a decisão tenha sido tomada em função da simpatia que o público e a crítica demonstraram pela novela... 

AB - A que você atribui o sucesso de "O astro"? À ideia original da Janete? À sua releitura de um clássico da teledramaturgia brasileira? À escalação do elenco?

GC - Acho que nenhum de nós esperava tanto sucesso. E os motivos devem ser todos esses que você enumera, além dos mistérios de sempre. Todo sucesso é inexplicável. O fracasso, nem tanto.

AB - Em sua opinião, como o público reagiu ao novo assassino de Salomão Hayala (Clô, interpretada por Regina Duarte)? Em algum momento, vocês pensaram em repetir o assassino da versão original (Felipe Cerqueira, vivido por Henri Castelli)?

GC - Para o Alcides Nogueira e para mim, não haveria motivo para repetir a mesma investigação da versão de Janete Clair. Repeti-la seria uma decepção para todos.  E inscrever a Regina, a grande namorada do Brasil, no rol das vilãs da TV foi uma alegria...

AB - A novela "O astro" acabou por inaugurar um novo horário na teledramaturgia da Globo. O que achou disso? Quais são os prós e contras de escrever uma novela que vai ao ar às 23h?

GC - Só vejo os prós.

AB - Pode-se dizer que "O astro" seja a prova viva de que é possível contar uma boa história em apenas 60 capítulos?

GC - Não sou de fazer afirmações categóricas, mas tenho certeza de que se pode contar qualquer história em 60 capítulos. Ou menos. 

AB - Você foi colaborador e amigo de Bráulio Pedroso, um dos mais importantes nomes da teledramaturgia brasileira, em diversas produções, como "Parabéns pra você" e "Tudo em cima". Vinte e dois anos depois da morte de Bráulio, qual é a lembrança mais forte que você guarda dele?

GC - Fui colaborador do Bráulio em "Parabéns pra você" e parceiro dele em "Tudo em cima". Além disso, escrevemos em parceria o musical "Lola Moreno". Considero Bráulio o autor mais criativo da história da televisão brasileira. Acredito que muitos de nossos dramaturgos partilham desta avaliação. E, fora isso, era um amigo extraordinário. Dos melhores de todos os tempos.   

HBO anuncia o lançamento em DVD da série 'Mandrake', baseado na obra de Rubem Fonseca

André Bernardo | André Bernardo | 09/02/2012 14h57

O nome dele é Paulo Mendes, mas pode chamá-lo de Mandrake. Criado pelo escritor Rubem Fonseca em 1976, no conto "O caso de F.A.", publicado originalmente no livro "Lúcia McCartney", ele é advogado criminalista, mora na Prado Júnior, em Copacabana, e é apaixonado por charutos e vinhos.

Em 2005, Mandrake virou série da HBO e, em 2009, tese de doutorado da escritora Lilian Fontes, "A TV por Assinatura como Modalidade de Experimentação: A experiência do seriado Mandrake". Atualmente, Lilian desenvolve pesquisa sobre ficção televisiva brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

Ao todo, a HBO e a Conspiração Filmes produziram duas temporadas: a primeira, em 2005, com oito episódios, e a segunda, em 2007, com cinco. No início do ano, o canal por assinatura anunciou que a série chegará às lojas em junho. E mais: um telefilme já está sendo rodado para ser exibido, em duas partes, no segundo semestre.

André Bernardo - O que você achou da transposição do Mandrake das páginas da literatura para a tela da HBO? Gostou do resultado?

Lilian Fontes - Gostei porque os roteiristas Felipe Braga, José Henrique Fonseca e Tony Bellotto entenderam que estavam lidando com um novo produto diferente do que foi apresentado aos leitores de Rubem Fonseca. Na primeira temporada, onde foram gravados oito episódios, três deles foram adaptações diretas de contos do escritor. Os demais aproveitam trechos dos romances "A grande arte" e "Do mundo prostituto, só amores guardei ao meu charuto" e criam novas histórias buscando referências com a cidade e os tempos de hoje.  O que considero bom no seriado são os roteiros, que diferentemente do gênero sentimentalista das telenovelas, são baseados em diálogos irônicos com visões críticas sobre a sociedade brasileira. Outra observação: como se tratava do primeiro seriado brasileiro produzido para um canal de TV estrangeira, a HBO, a preocupação em filmar a cidade nos mais diversos pontos de vista foi uma forma de dar visibilidade aos aspectos da cidade do Rio de Janeiro desconhecidos pelo telespectador não só estrangeiro como também o brasileiro. As séries televisivas são um mercado em expansão no mundo inteiro. O seriado "Mandrake" viria apresentar um produto que exige do telespectador avançar em reflexões e observações em sobre a sociedade em que vive, dando um pontapé inicial para a produção de projetos entre nações, desbancando a linguagem hegemônica norte-americana.

AB - Uma série de TV protagonizada pelo personagem Mandrake teria espaço numa emissora de TV aberta, como a TV Globo?

LF - Atualmente, sim. Digo atualmente, porque presenciamos, nos últimos dois anos, por exemplo, um investimento maciço da Rede Globo de Televisão, a maior emissora de TV aberta do Brasil, em produzir séries numa tentativa de experimentar novas linguagens, novos formatos e novos conteúdos que se coadunem com os anseios da sociedade do Século XXI e, principalmente, para disputar a audiência que está sendo "roubada" pelos canais de TV por assinatura e pela internet. O seriado "Mandrake" viria preencher esses requisitos e apresentar um espetáculo de qualidade, em termos estéticos e bem elaborado na sua concepção. As cenas de sexo, por exemplo, são produzidas usando dispositivos fílmicos de luz/sombra, claro/escuro, som musical/ruídos sonoros/silêncio que conseguem mobilizar o telespectador no que se refere à sexualidade, ponto característico da narrativa de Rubem Fonseca. Já que a Globo vem disponibilizando o horário das 23h para a apresentação de seriados, acho que "Mandrake" seria uma boa proposta.  

AB - Qual seria o grande diferencial do Mandrake se comparado a outros tipos célebres da literatura policial?

LF - Na narrativa policial clássica, o personagem central é personificado pela figura do detetive, por vezes um delegado de polícia, em outros casos um detetive particular, que será encarregado de conduzir à solução do enigma. Desde o detetive Dupin, de Edgar Allan Poe, esse personagem é dotado de inteligência e certa ironia já que a narrativa policial, por se tratar de uma narrativa que se baseia na descoberta de um enigma ou na identificação de um crime, exige uma construção identificada como um exercício da razão. Esse detetive tem como características básicas: homem (ou mulher) de meia idade, descasado, cujo passado não é relevante. Esse modelo vem compondo a subjetividade do herói das narrativas policiais ficcionais contemporâneas e Mandrake, do seriado da HBO, é um deles.  Mas seu grande diferencial, a meu ver, é o seguinte: no Brasil, não há tradição de investigação e de policiais treinados para esse fim, enquanto na sociedade americana há uma divisão clara quanto ao papel do policial, do perito e do profissional de investigação. Daí, a necessidade de Rubem Fonseca, ao criar "um detetive", optar por um advogado criminalista, por acreditar que, assim, teria mais flexibilidade para a problematização de temas sobre o mundo do crime nas diferentes classes sociais brasileiras, explorando aspectos relacionados ao tratamento dos casos judiciais no Brasil.

AB - A exemplo do escritor Rubem Fonseca, Mandrake também é formado em Direito e apaixonado por vinhos e charutos. Pode-se concluir que o personagem seja autobiográfico?

LF - Na história da literatura universal, há diversas análises que questionam até que ponto aquele personagem tem de "autobiográfico" da vida do autor. Podemos citar a célebre frase de Flaubert quando diz: "Madame Bovary c’est moi" (Ou "Madame Bovary sou eu"), ao ser indagado sobre esse aspecto quanto ao seu romance mais famoso. Portanto, não podemos concluir que Mandrake é um personagem autobiográfico de Rubem. O que temos de pensar é que as fronteiras entre o real e o imaginário se esbarram o tempo todo, os limites são tênues, impossível saber o que faz parte da real vida do autor e o que ele cria através de sua imaginação. Ao criar uma história, o autor passeia por diversos mundos, inclusive o próprio.

AB - A obra do Rubem Fonseca já mereceu algumas (poucas) adaptações para a TV, como "Nau Catarineta", em 1978; "Mandrake", em 1983; "Agosto", em 1993; "Lúcia McCartney", em 1994; e "A coleira do cão", em 2001. Qual delas é a sua favorita?

LF - Bem, difícil escolher porque foram realizadas em diferentes épocas, o que recai em análises quanto aos critérios estéticos e narrativos. Mas, arrisco a dizer que gosto muito de "Agosto", talvez por se tratar de um tema que envolve uma situação crucial da nossa história e, a meu ver, teve um aproveitamento muito bom na ficção de Rubem Fonseca e foi importante a sua apresentação dentro do espaço televisivo.

Supervisora de textos de 'As brasileiras', Ana Maria Moretzsohn volta à Globo depois de 10 anos

André Bernardo | André Bernardo | 02/02/2012 17h20

O diretor Daniel Filho escalou um time daqueles para protagonizar os 22 episódios da série "As brasileiras", que estreia hoje na TV Globo. De Cléo Pires a Fernanda Montenegro, de Alice Braga a Xuxa, de Ivete Sangalo a Patrícia Pillar. No episódio de estreia, Juliana Paes (ao lado, com Marcos Palmeira) interpreta a protagonista do episódio "A justiceira de Olinda".

Para supervisionar os 22 roteiros, Daniel Filho recrutou a autora Ana Maria Moretzsohn, que volta à emissora depois de 10 anos. Seu último trabalho na emissora foi a novela "Sabor da paixão" em 2002. Em 2007, ela escreveu "Luz do sol", na Record.

Além de supervisionar os roteiros, Ana Maria escreveu quatro deles: "A sexóloga de Floripa", com Leandra Leal; "A de menor do Amazonas", com Maria Flor; "A reacionária do Pantanal", com Sandy, e "Maria do Brasil", que fecha a temporada, com Fernanda Montenegro. Na equipe de roteiristas, outro time de craques, como Adriana Falcão, Gregório Duvivier, Marcelo Saback e Marcius Melhem, entre outros.

André Bernardo - Como surgiu o convite para voltar à TV Globo?

Ana Maria Moretzsohn - O convite partiu do diretor Daniel Filho. Ele me pediu para escrever alguns episódios de "As brasileiras" e, em seguida, para supervisionar textos novos.

AB - Qual é o conceito da série?

AMM - O que todos os episódios de "As brasileiras" têm em comum é uma mulher como protagonista. Independentemente de idade, as histórias são sempre inusitadas e cativantes.

AB - Um dos quatro episódios que você escreveu é protagonizado pela Sandy. O que achou de voltar a escrever para a atriz de "Estrela-guia"?

AMM - Quando escrevi o episódio, não sabia que Sandy seria uma protagonista. Tenho excelente lembrança dela como profissional dedicada e talentosa. Adorei a escolha.

AB - Sua última novela na emissora foi "Sabor da paixão", em 2002. Qual é a sensação de voltar à Globo depois de 10 anos? Mudou muita coisa lá?

AMM - Ainda não tive tempo de avaliar.

AB -Já foi convidada pela direção da Globo para apresentar a sinopse de alguma novela?

AMM - É claro que eu já tenho várias sinopses para apresentar... (risos)

AB - Você pode falar um pouco sobre os seus projetos para 2012?

AMM -Um dos meus livros infanto-juvenis, "Bonita luz - O sumiço do anjo barroco", vai virar filme. A produção está a cargo da Cazé Filmes, a mesma de "Muita calma nessa hora" e "Cilada.com". Tenho uma peça que, acredito, será encenada este ano e estou escrevendo, também, o roteiro do filme "Confissões de adolescente".

Colaborador de 'O brado retumbante', Guilherme Fiuza fala de sua estreia como roteirista de TV

André Bernardo | André Bernardo | 27/01/2012 18h14

O autor Euclydes Marinho classificou a indicação de Guilherme Fiuza como um dos colaboradores da minissérie "O brado retumbante" como "um grande acerto". "Ao mesmo tempo em que é jornalista, tem um pé na ficção", elogiou o autor. Colunista da revista "Época", Guilherme Fiuza já é autor de quatro livros. O mais famoso deles, "Meu nome não é Johnny", vendeu mais de 50 mil exemplares e virou filme nas mãos de Mauro Lima. Na TV, ele ainda é pouco conhecido. Mas, a julgar pela repercussão favorável da minissérie "O brado retumbante", terá longa vida pela frente.

Sobre a possibilidade de continuar escrevendo para a TV, Guilherme demonstra cautela. "Tudo depende do tema", pondera. Mas adianta que, se pudesse, gostaria de levar a vida do comediante Cláudio Besserman Vianna, o Bussunda, para a TV. "É um incrível personagem de ficção que existiu na vida real", diz. Mas, e Paulo Ventura, o fictício protagonista de "O brado retumbante", é inspirado em algum dos muitos presidentes que já passaram pelo Palácio do Planalto? "Junte Collor, FHC, Lula, Sarney e JK e você encontrará tudo o que Paulo Ventura não é", garante Guilherme.

André Bernardo - Como surgiu o convite para integrar a equipe de roteiristas de "O brado retumbante"?

Guilherme Fiuza - Fui convidado pelo Euclydes Marinho. Ele estava procurando um autor com visão de política e o jornalismo da Globo indicou meu nome. Ele conhecia um pouco do meu trabalho de colunista e dois de meus livros, mas não conhecia o que trata de política, "3.000 dias no bunker". Dei esse livro de presente ao Euclydes em nosso primeiro encontro, agradeci o convite, mas ressalvei que eu não era autor de TV. Ele leu o livro e me disse que era o tipo de narrativa política que ele queria.

AB - Você chegou a participar de uma das oficinas de roteiro da TV Globo?

GF - Minha oficina de roteiro foi o próprio trabalho com o Euclydes, a Denise Bandeira e o Nelson Motta, três feras que me receberam maravilhosamente bem.

AB - Este é o seu primeiro trabalho como roteirista de TV, certo? Qual teria sido a maior dificuldade que encontrou?

GF - O maior desafio não foi propriamente escrever para TV, mas trabalhar em equipe. Trabalhei anos em redação de jornal, mas, como autor, só tinha trabalhado sozinho. Estava acostumado a controlar totalmente o processo de criação, inclusive sendo meu próprio crivo. Em equipe, sua ideia pode se somar a outras, ou se misturar com outras. Você pode defendê-la, mas não pode se apegar a ela, senão você trava o processo. Tive a sorte de cair numa equipe muito madura, muito fértil e muito tranquila em relação a vaidades. E que sabe tudo de estruturação dramática, o que teria sido a maior dificuldade se eu estivesse sozinho. A outra novidade para mim foi escrever ficção, porque sempre trabalhei sobre histórias reais. Mas, como eu estava num time que joga por música, acabei ficando à vontade desde a concepção até a criação das cenas.

AB - Você acredita que a exibição de uma minissérie como "O brado retumbante" ajuda a despertar a consciência eleitoral do cidadão na hora do voto?

GF - O que estamos sentindo é que o público está bastante excitado com essa representação política realista na TV. As pessoas em geral pensam que não gostam de política, mas, no fundo, gostam. A ideia do Paulo Ventura não ter carreira partidária e virar presidente da República sem querer, o aproxima muito do cidadão comum. O telespectador está gostando desse exercício de ver o poder do ponto de vista do palácio, e acredito que isso o ajude a pensar o seu país e a sua própria responsabilidade cívica.

AB - A teledramaturgia brasileira é repleta de figuras políticas, como Odorico Paraguaçu, Sassá Mutema e Senador Caxias, entre outros. Você teria algum predileto? Por quê?

GF - Gosto muito do Jean-Pierre da novela "Que rei sou eu?", do Cassiano Gabus Mendes. Era uma paródia da Revolução Francesa com temas e personagens abrasileirados. O Jean-Pierre, vivido pelo Edson Celulari, encarnava o líder com senso de justiça e coragem. Era um personagem sério cercado por vilões cômicos, o que funcionou muito bem.  Talvez o Paulo Ventura tenha um pouco desse revolucionário, embora não tenhamos pensado nele, até por ser uma trama de capa e espada, muito distante do realismo em que trabalhamos. Adoro o Odorico Paraguaçu do Dias Gomes, que é o anti-Paulo Ventura, no sentido de ser a caricatura do político sem nenhum espírito público. Acho que o Odorico está um pouco no Seu Creysson, personagem do "Casseta & Planeta" interpretado pelo Claudio Manoel, que radicaliza a crítica sobre a ignorância da sociedade como combustível político para os hipócritas.

 

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Vivian de Oliveira fala sobre a mais nova minissérie bíblica da 'Record', 'Rei Davi'

André Bernardo | André Bernardo | 24/01/2012 20h20

Vivian de Oliveira estava no segundo ano da faculdade de Comunicação Social quando pisou, pela primeira vez, na Record. Na época, ela conseguiu um estágio como redatora do programa "Sinal de vida", apresentado por Ronnie Von. Depois de formada, resolveu fazer um curso de roteiro para cinema e TV na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA). De volta ao Brasil, foi convidada a escrever a sinopse de uma minissérie para a emissora. Foi assim que nasceu "Por amor e ódio", estrelada por Gabriel Braga Nunes, há exatos 15 anos.

De lá para cá, Vivian de Oliveira (na foto, com o diretor Edson Spinello) já se aventurou pelos mais diferentes gêneros: seriado, "A turma do gueto"; humorístico, "Show do Tom", e até novela, como colaboradora de Yves Dumont em "Estrela de fogo", de Luiz Carlos Fusco em "Tiro e queda" e de Tiago Santiago em "Os Mutantes - Caminhos do coração". Sua mais recente produção foi a minissérie "A história de Ester", exibida em 2010, que inaugurou o bem-sucedido formato das minisséries inspiradas em histórias do Antigo Testamento. 

Depois de "A história de Ester" e "Sansão e Dalila", de Gustavo Reiz, a Record estreia hoje, às 23h, a minissérie "Rei Davi". Com orçamento de R$ 25 milhões e locações no Canadá, será exibida às terças e quintas, logo após a novela "Vidas em jogo". Ao longo de 29 capítulos, Vivian de Oliveira vai contar a história do pastor de ovelhas que chegou a rei de Israel. Para fazer a minissérie, o elenco de 42 atores (e cerca de 150 figurantes) teve aulas de luta, equitação, culinária, dança e até hebraico.

André Bernardo - De quem partiu a ideia de adaptar a história do Rei Davi? A ideia foi sua ou da direção da Record?

Vivian de Oliveira - A ideia partiu da direção da Record e eu concordei na mesma hora. Foi uma excelente escolha. Já conhecia a história maravilhosa de Davi e sabia do seu potencial.

AB - "Rei Davi" já é a sua segunda adaptação de um texto bíblico. Qual é a sua maior preocupação na hora de transpor para a TV uma história do Antigo Testamento?

VO - Minha maior preocupação é não deixar que as diferenças culturais de uma história vivida há mais de 1 mil anos antes de Cristo sejam um empecilho para a identificação do público. Tanto é que fiz questão de trabalhar com uma linguagem coloquial para aproximar o telespectador da história. A minissérie fala de conflitos, intrigas, amores, traição, inveja e de tantas outras questões que são inerentes ao ser humano de qualquer época. Os temas presentes em "Rei Davi" são todos muito atuais. Além disso, conto a história num ritmo bastante ágil e uso de liberdade poética sempre que preciso a favor da compreensão da história.

AB - Em "Rei Davi", você chegou a criar novos personagens e incluir tramas paralelas ou procurou ser o mais fiel possível à Bíblia?

VO - Fiz as duas coisas. Fui fiel ao relato bíblico, mas também investi em personagens e tramas que apareciam muito timidamente na história original. Tirsa, por exemplo, é citada em poucas linhas na Bíblia apenas como a "ama" de Mefibosete. Eu lhe dei um nome e criei uma personalidade e uma história de sofrimento e amor para essa mulher. Também criei personagens inteiramente novos, como foi o caso de Selima, mulher de Jonatas.

AB - Você estreou como roteirista na Record em "Por amor e ódio", certo? De lá para cá, o que mais teria mudado na estrutura da emissora na sua opinião?

VO - Sim, é verdade, como roteirista estreei com "Por amor e ódio". O que mais mudou de lá para cá foi o compromisso da Record de se firmar como uma emissora de teledramaturgia. Em poucos anos, a Record já investiu muito em autores, atores, tecnologia, estúdios e em profissionais das mais diversas áreas. A empresa não tem medido esforços para continuar produzindo bons produtos e boas histórias.

AB - Você já teve que mudar alguma cena ou alterar o perfil de personagem, por exemplo, por recomendação da direção da TV Record, que é ligada à Igreja Universal do Reino de Deus? Ou você tem plena liberdade de criação?

VO - Nunca houve uma recomendação nesse sentido. Sempre tive liberdade de criação. O que já chegou a acontecer foram algumas interferências em relação a questões de produção ou certas adequações do produto como ocorre em qualquer emissora.

AB - Na Record, você já teve a oportunidade de escrever de série a novela, de minissérie a humorístico. Tem predileção por algum gênero? Por quê?

VO - Confesso que estou apaixonada pelas minisséries. É uma linguagem mais diferenciada e que dá ao autor uma oportunidade maior para ousar. Gosto muito de escrever dramas humanos e tenho uma predileção também por histórias cheias de ação.

AB - Depois de atuar como colaboradora em diversas novelas, quando pretende estrear como autora-titular?

VO - Não penso nisso agora. Gostaria de continuar escrevendo minisséries por muito tempo, mas gosto de um bom desafio. Quando a Record achar que estou pronta, será um prazer.

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Euclydes Marinho fala da estreia de sua nova minissérie, 'O brado retumbante'

André Bernardo | André Bernardo | 17/01/2012 20h26

A teledramaturgia brasileira está cheia de políticos. Bons e maus. O mais famoso deles talvez ainda seja o verborrágico Odorico Paraguaçu, de "O bem-amado", de Dias Gomes. Inspirado na história real de um prefeito do Espírito Santo, Odorico (Paulo Gracindo) sonhava em inaugurar o cemitério municipal de Sucupira. Mas, para azar dele, ninguém morria na cidade. Para resolver tal desmando, Odorico contrata um matador de aluguel, Zeca Diabo (Lima Duarte). E adivinhem quem foi o primeiro defunto a inaugurar o cemitério?

No rastro do Odorico, vieram outros. Muitos outros. O mais recente deles teve fim trágico. Quem não se lembra de Reginaldo Ferreira da Silva, de "Senhora do destino", de Aguinaldo Silva? No último capítulo, o vereador populista (Eduardo Moscovis) acabou morto a pedradas. Como nem só de políticos corruptos vive a política brasileira, a telenovela também tem lá suas honrosas exceções. Como o Senador Roberto Caxias, de "O rei do gado", de Benedito Ruy Barbosa. Numa de suas cenas mais famosas, o Senador Caxias (Carlos Vereza) discursa a favor do MST para um plenário vazio.

A julgar pela sinopse de "O brado retumbante", Paulo Ventura (Domingos Montagner) está mais para Caxias que para Odorico. Mas nunca se sabe. Para evitar controvérsias, Euclydes Marinho (à direita da foto, com Denise Bandeira e Guilherme Fiúza) jura de pés juntos que não se inspirou em ninguém. "A gente ainda não teve um presidente como ele, sem medo de encarar a corrupção de frente", dispara Euclydes Marinho, que assina os oito capítulos da minissérie com o produtor musical Nelson Motta, a roteirista Denise Bandeira e o escritor Guilherme Fiúza, autor do livro "Meu nome não é Johnny".

André Bernardo - O que há de real e fictício na minissérie "O brado retumbante"?

Euclydes Marinho - "O brado retumbante" é uma obra totalmente fictícia, assim como seus personagens. Paulo Ventura, por exemplo, só existe neste Brasil paralelo, imaginário. Ele não tem nada a ver com ninguém que já tenha passado pela política brasileira ou, então, que ainda esteja lá. Acredito que a gente ainda não teve um presidente como ele, sem medo de encarar a corrupção de frente.

AB - O que motivou você a escrever uma minissérie de forte conotação política?

EM - O que me levou a escrever "O brado retumbante" foi um certo incômodo com a situação do país. Mas, ao contrário da política, que não é a minha praia, quis retratar o lado humano, comportamental, que é o que eu mais sei e gosto de fazer. Desde o início, quis fazer uma história adulta, sem maniqueísmo. O Paulo Ventura, ao mesmo tempo em que é boa gente, magoa a Antônia (Maria Fernanda Cândido). Ou seja, ele não é certinho o tempo todo. Há muito tempo, eu não escrevia um trabalho que me estimulasse tanto.

AB - Como você chegou ao ator Domingos Montagner, que interpreta o Paulo Ventura?

EM - O Domingos me foi apresentado pelo Ricardo (Waddington, diretor). Resolvi conhecer o trabalho dele como ator e logo descobri que ele estava "bombando" com as mulheres... (risos)

AB - Em "O brado retumbante", você trabalha com antigos e novos colaboradores. Como funciona esse trabalho a oito mãos?

EM - Por não ser a minha área, desde o começo do trabalho, precisei de alguém que entendesse de política. Até pensei numa consultoria, mas não sabia a quem recorrer. Foi quando recebi a indicação do Guilherme Fiuza, que foi um grande acerto. Ao mesmo tempo em que é jornalista, tem um pé na ficção. Por outro lado, voltei a trabalhar com Nelson Motta, um antigo "brother", e a Denise Bandeira, minha colaboradora há 30 anos. Ou seja, eu estou muito bem cercado.

AB - Este ano, você completa 30 anos de sua estreia na TV Globo, como autor principal da minissérie "Quem ama não mata". Quais são os seus trabalhos favoritos?

EM - São dois: a minissérie "Quem ama não mata", de 1982, e a série "A vida como ela é", de 1996. Destaco os dois pela qualidade dos textos e pela qualidade das realizações. Também citaria "Ciranda, cirandinha", pela liberdade criativa e pela ousadia que tivemos para enfrentar a censura que havia na época.

AB - Sua última novela foi "Desejos de mulher", há 10 anos. Quando pretende voltar ao gênero?

EM - Ainda este ano. Ou em 2013. Há um projeto meu sendo avaliado pela Direção de Entretenimento da TV Globo.

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Mulher de Silvio Santos, Íris Abravanel fala de sua terceira novela, 'Corações feridos'

André Bernardo | André Bernardo | 16/01/2012 14h42

Íris Abravanel é uma mulher de coragem. Disso, ninguém duvida. Há cinco anos, diante da dificuldade do marido de contratar bons roteiristas para o SBT, ela se ofereceu para escrever a sinopse de uma novela. Até então, o máximo que ela tinha escrito eram algumas crônicas para a revista "Contigo!". Mesmo assim, Silvio Santos aprovou a ideia. De lá para cá, Íris já assinou "Revelação", exibida entre 2008 e 2009; "Vende-se um véu de noiva", em 2009; e "Corações feridos", que estreia hoje no SBT, às 20h30.

Apesar de casada oficialmente com Silvio Santos desde 1981, Íris Abravanel ainda é pouco reconhecida nas ruas. Para dizer a verdade, no SBT também. Quando se reuniu, pela primeira vez, no núcleo de dramaturgia da emissora para apresentar a sinopse, chegou a ser barrada na portaria. Hoje, ela comanda uma equipe de sete colaboradores. "Desde a tradução dos capítulos até o desenvolvimento das cenas, faço questão de que todos estejam por dentro de tudo o que acontece na trama", afirma.

Aos 62 anos - 18 a menos que o marido -, Íris admite que não foi fácil trocar a vida de dona-de-casa pela de autora de novelas. Mas ela tenta. Ano passado, lançou seu primeiro livro de crônicas, "Recados disfarçados". Se depender dela, pretende escrever outros: o próximo, quem sabe, voltado para crianças e adolescentes. No momento, escreve os primeiros capítulos de "Carrossel", ainda sem previsão de estreia. "Tenho procurado transmitir a todos que sempre é tempo de recomeçar. Em qualquer idade, vale a pena lutar por aquilo que acreditamos", ensina.

André Bernardo - "Corações feridos" é a terceira novela que você escreve em cinco anos. O que o público pode esperar dela?

Íris Abravanel - Gosto muito das novelas escritas por Caridad Bravo Adams, uma autora à frente do seu tempo. No caso de "Corações feridos", a história é muito rica, dinâmica, intensa. Um dos personagens de que eu mais gosto é a Janaína, interpretada pela Lívia Andrade. Ela é uma caipira ingênua, virgem e fogosa. A novela tem tudo para agradar ao público do SBT.

AB - Você estreou na carreira de autora de novelas em 2007. O que mudou de lá para cá?

IA - Muita coisa. Tive que estudar, ler muito e correr atrás do tempo perdido. Adquiri mais conhecimento e experiência em uma fase em que poderia estar aposentada. Tenho procurado transmitir a todos que não devemos desistir nunca e que sempre é tempo de recomeçar. Em qualquer idade, vale a pena lutar por aquilo que acreditamos.

AB - Hoje em dia, você comanda uma equipe de sete colaboradores. Como é a divisão de trabalho?

IA - Somos uma equipe. Trabalhamos juntos desde "Revelação" e sinto que eles estão evoluindo comigo. Além disso, todo mundo participar de todas as etapas. Desde a tradução dos capítulos até o desenvolvimento das cenas, faço questão de que todos eles estejam por dentro de tudo o que acontece na trama.

AB - "Corações feridos" é baseada em "La Mentira", de Caridad Bravo Adams. Quais teriam sido as principais dificuldades que você encontrou para adaptar o original mexicano?

IA - O povo brasileiro é muito parecido com o mexicano. Os dois lidam com problemas semelhantes, como corrupção, violência e analfabetismo. No que diz respeito à teledramaturgia, as tramas mexicanas são bem mais dramáticas do que as nossas. De um modo geral, o brasileiro gosta de fazer humor das situações mais dramáticas. Isso é um grande diferencial.

AB - Mas, a exemplo da teledramaturgia brasileira, a mexicana também gosta de abordar temas sociais em suas novelas, não?

IA - Sim, é verdade. Novela é, acima de tudo, entretenimento. O público quer diversão. Mas penso que é nosso dever propor soluções para os problemas que atingem a sociedade, como drogas e alcoolismo. Por isso, em "Corações feridos", abordamos a questão dos codependentes. O sofrimento dele é igual ou ainda maior que o dos próprios dependentes.

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Maria Adelaide Amaral comenta o desfecho da minissérie 'Dercy de verdade'

André Bernardo | André Bernardo | 13/01/2012 16h27

Em 2007, Maria Adelaide Amaral tentou homenagear Dercy Gonçalves no teatro. Não conseguiu. A ideia era escrever uma peça baseada na biografia "Dercy - De cabo a rabo", escrita 13 anos antes. Se tudo desse certo, o espetáculo "Dercy por Fafy" seria estrelado por Fafy Siqueira e dirigido por Marília Pera. Infelizmente, a peça não chegou a ser montada porque Maria Adelaide não conseguiu levantar patrocínio.

"As empresas não estavam dispostas a liberar suas verbas para encenar uma peça sobre ‘aquela velha que só falava palavrões’. Era a isso que reduziam a maior comediante do teatro brasileiro", desabafa Maria Adelaide Amaral no posfácio de "Dercy - De cabo a rabo", que ganha um versão revista e ampliada pela Editora Globo. "Mesmo depois de sua morte, Dercy continuava maldita e incompreendida".

Cinco anos depois, Maria Adelaide Amaral realiza o sonho de homenagear Dercy Gonçalves com a minissérie "Dercy de verdade", que termina hoje na Globo. "Dercy se surpreendeu com a maneira digna com que a biografei. Mas eu só a apresentei com a via. Dercy Gonçalves foi uma das pessoas mais dignas que conheci", garante.

André Bernardo - Ainda hoje, muita gente associa a imagem da Dercy à de uma pessoa desbocada, que só sabia falar palavrão. A que você atribui o fato de ela ter sido sempre vítima de preconceito?

Maria Adelaide Amaral - Ela transformou o palavrão em marketing pessoal. E isso acabou gerando um preconceito muito grande. Quando assistimos a um dos filmes da Dercy, não ouvimos um palavrão sequer. E a Dercy continua engraçada como sempre.

AB - O que você diria das atuações de Heloísa Périssé e Fafy Siqueira?

MAM - Em geral, o grande comediante é também um excelente ator dramático. No entanto, nem sempre um excelente ator dramático consegue fazer comédia. As duas deitaram e rolaram.

AB - Você lembra da última vez em que se encontrou com a Dercy Gonçalves?

MAM - Sim, foi no dia 15 de julho de 2008, num evento em sua homenagem promovido por Lilian Gonçalves. Fafy e eu fomos a essa festa, que seria a última de sua vida. Quatro dias depois, ela morreu de pneumonia.

AB - Se Dercy estivesse viva, como acha que ela reagiria à homenagem que você prestou a ela na minissérie?

MAM - Ah, ela reagiria da mesma maneira como reagiu ao livro e à peça que escrevi a seu pedido: com amizade e gratidão.

AB - Depois de Juscelino Kubitschek, Dalva de Oliveira e Dercy Gonçalves, que outra personalidade você gostaria de homenagear em uma de suas minisséries?

MAM - Puxa, há inúmeros artistas sobre os quais eu gostaria de escrever. Mas, pelo menos por enquanto, não posso pensar neles. Tenho uma novela pela frente para escrever...

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Criador da Radical Chic e do Gatão de Meia Idade, Miguel Paiva fala da carreira de roteirista de TV

| André Bernardo | 12/01/2012 19h26

Miguel Paiva não é homem de uma profissão só. Embora esse carioca de 62 anos (ele completa 63 no próximo dia 19!) seja mais conhecido como cartunista, o "pai" da Radical Chic e do Gatão de Meia Idade também já trabalhou como ilustrador, jornalista, publicitário, roteirista e artista plástico. Só na Globo, inspirou o "game-show" da Radical Chic, assinou a abertura da novela "Perigosas peruas" e supervisionou os textos de "Malhação".

Hoje, Miguel Paiva dá um novo passo em sua carreira. Atua como colaborador de novelas. Ao lado de Tiago Santiago, já escreveu "Uma rosa com amor" e "Amor & revolução", ambas pelo SBT. Nesta entrevista, Miguel Paiva fala como surgiu o convite para trabalhar em novelas, sobre o processo de trabalho em "Amor e revolução", do SBT e, também, a criação de dois de seus personagens mais famosos, a Radical Chic e o Gatão de Meia Idade. 

André Bernardo - Cartunista, ilustrador, jornalista, publicitário, artista plástico, escritor e roteirista, entre outros. "Como" e "quando" surgiu o convite para trabalhar, também, como autor de novelas?

Miguel Paiva - Por um lado, foi uma coincidência. Por outro, a continuação de um trabalho começado em "Você Decide" e, depois, em "Malhação". O Marcus Montenegro (empresário) me falou que o Tiago estava precisando de um colaborador para "Uma rosa com amor". Eu respondi: "Topo" e, aí, tudo começou.

AB - O fato de ser jornalista ajuda na hora de escrever novelas?

MP - Talvez ajude porque todo bom jornalista é viciado em informação. No caso de "Amor & revolução", lidamos com fatos históricos, alguns na memória coletiva e outros na minha memória pessoal.

AB - Na hora da divisão da escaleta, você tem preferência por escrever para algum tipo de núcleo ou personagem? Os mais cômicos, talvez?

MP - Escrevemos diferente. Cada um escreve um capítulo inteiro, ou quase inteiro, a partir da escaleta do Tiago. O Tiago dá o toque final, acrescentando, cortando ou mesmo criando cenas novas quando faz a redação final. Depois, os capítulos são devolvidos para a revisão final, com sugestões e críticas. Nos reunimos a cada tanto para conversar sobre os rumos da história e para criar trilhas de situações ou personagens.

AB - Como surgiram dois de seus personagens mais famosos: a Radical Chic e o Gatão da Meia Idade?

MP - Os dois personagens surgiram em momentos distintos da minha vida. A Radical Chic nasceu da profunda admiração que eu tenho pelas mulheres. Mesmo depois de já terem passado dos 30, elas ainda preservam a irreverência e a loucura da juventude. Já o Gatão é fruto da minha crise dos 40. Não chega a ser um personagem autobiográfico, mas revela muito do que eu penso. Os dois são muito ligados à minha vida pessoal.

AB - Você acha que a telenovela brasileira tem lugar para personagens irreverentes, como Radical Chic e Gatão de Meia Idade?

MP - Talvez eles funcionassem melhor em seriados e não em novelas, como até já aconteceu com o Ed Mort e a Radical. Mas não deixa de ser uma ideia...

AB - Alguns deles já foram adaptados para o cinema. Você não cogita a hipótese de, um dia, adaptá-los também para a TV?

MP - Claro que essa ideia sempre existe. Mas não basta só eu querer. A Radical já viveu isso com a Andréia Beltrão. Naquela época, a TV nem sonhava como "games". Hoje em dia, é o que mais se vê por aí. O Gatão tem tudo para isso também. Mas não depende só de mim.

AB - O que você achou da adaptação de "O Gatão de Meia Idade" para o cinema?

MP - O resultado me deixou feliz. O filme é divertido e despretensioso. E nada mais "gatão" do que o Alexandre Borges, não é verdade?

AB - Você já pensa no dia em que vai estrear como autor-titular de uma novela? Pode-se imaginar que planeja seguir a mesma linha de Cassiano Gabus Mendes e Carlos Lombardi, por exemplo?

MP - Ou a mesma linha de Tiago Santiago. Penso, sim, é claro, mas, antes disso, quero me sentir bem mais seguro e com mais experiência. Por enquanto, sou apenas um feliz colaborador do Tiago.

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O dia em que Maria Adelaide Amaral conheceu Dercy Gonçalves

André Bernardo | André Bernardo | 04/01/2012 18h09

Ainda hoje, Maria Adelaide Amaral não se esquece do dia em que conheceu Dercy Gonçalves. Foi em 1993, em um almoço na casa do ator Homero Kossac, de quem Dercy era amiga havia mais de 40 anos. Lá pelas tantas, depois de muito conversar, Dercy confidenciou a Maria Adelaide: "Você fala palavrão direitinho. Até parece minha filha...".  O mais curioso é que Decimar, a filha única de Dercy, de desbocada, não tem nada. Quase 20 anos depois daquele encontro, Maria Adelaide (na foto, com o diretor Jorge Fernando) presta uma merecida homenagem a Dercy Gonçalves em "Dercy de verdade", minissérie de quatro capítulos que estreia na próxima terça, dia 10, logo após o "BBB 12". "Quero explorar aspectos da vida da Dercy que pouca gente conhece. Para muitos, ela não passa daquela ‘mulher que só fala palavrão’", lamenta.

Ao que tudo indica, Dercy também não se esqueceu do dia em que conheceu Maria Adelaide. Naquela mesma noite, ligou depressa para o Boni só para dizer que tinha acabado de encontrar a pessoa certa para escrever sua biografia. "Boni se ofereceu para pagar o livro do próprio bolso. A Dercy gostava dele como se fosse um filho", recorda Maria Adelaide. No recém-lançado "O livro do Boni", o ex-vice-presidente de Operações da TV Globo demonstra toda sua gratidão por Dercy. No capítulo dedicado a ela, Boni se lembra da vez em que a TV Paulista pegou fogo. Na mesma hora, Dercy tomou o primeiro avião para São Paulo. Lá, fez um programa improvisado na garagem do prédio. "Além de dar ânimo para todo o elenco que estava em São Paulo, o programa ainda registrou uma audiência sem precedentes", elogia Boni.

Para escrever a biografia de Dercy Gonçalves, Maria Adelaide passou duas semanas, hospedada na casa dela, no Rio. Munida de gravador e dezenas de fitas, sabatinou a comediante, quase oito horas por dia, sobre as mais diferentes fases de sua carreira. Dessas entrevistas, nasceu o livro "Dercy - De cabo a rabo". Lançado originalmente em 1994 e relançado este ano pela Editora Globo, o livro deu origem à minissérie da Globo. "Desde a minha adolescência, Dercy Gonçalves sempre me faz rir, não apenas pela sua irreverência, mas pela sua iconoclastia. Ela não tem nenhuma reverência, a não ser por seu ofício. Em um de seus últimos espetáculos, levava o público do Teatro João Caetano, no Rio, ao delírio. Dercy é popular e seu domínio sobre a plateia é absoluto. Essa é uma prerrogativa dos grandes comediantes", enaltece Maria Adelaide.

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Globo Marcas lança box da novela 'Dancin' Days', escrita por Gilberto Braga

André Bernardo | André Bernardo | 02/01/2012 13h52

Rio de Janeiro, 1977. Gilberto Braga recebe um telefonema de Janete Clair. Do outro lado da linha, a "maga das oito" pergunta a ele se assistiu ao "Globo Repórter" sobre a rotina dos presídios femininos. E dispara: "Quem sabe não seria bom você fazer uma história sobre uma ex-presidiária?". Gilberto Braga fica com aquilo na cabeça. Em pouco tempo, desenvolve a história de duas mulheres que brigam pela guarda da filha de uma delas. Na mesma época, Boni e Daniel Filho, recém-chegados de Nova Iorque, onde assistiram à estreia de "Os Embalos de Sábado à Noite", sugerem a Gilberto que ambiente um dos núcleos da trama em uma discoteca. Foi assim, em poucas palavras, que surgiu "Dancin’ Days", que acaba de ser lançada em DVD pela Globo Marcas.

Na trama, Júlia Matos (Sônia Braga) é uma ex-presidiária que, após cumprir uma pena de 12 anos, tenta reconquistar o amor da filha, Marisa (Glória Pires). Mas, para isso, precisa enfrentar a resistência da irmã, Yolanda Pratini (Joana Fomm), uma socialite que cria a sobrinha como se fosse filha e faz o possível para separar as duas. A edição especial de "Dancin’ Days" traz 38 horas de novela, divididas em 12 discos, e entrevistas inéditas com o autor Gilberto Braga e o diretor Daniel Filho. Além do lançamento em DVD, "Dancin’ Days" ganha também uma nova versão, produzida pela TV Globo em parceria com a emissora portuguesa SIC, com previsão de estreia em março. Para o papel de Júlia Matos, foi escolhida a atriz portuguesa Joana Santos, 25 anos.

André Bernardo - "Dancin’ Days" foi um indiscutível sucesso de público e crítica, que mereceu reportagem na revista "Newsweek", fortaleceu a onda das discotecas e popularizou o consumo de meia de lurex e sandálias de salto alto. Como você fez para administrar tanto sucesso?

Gilberto Braga - Eu não administrei nada... (risos) Acho até que demorei muito para entender que tinha feito tanto sucesso. Só descobri que a novela dava 80 pontos quando recebi flores. O Boni tinha mania de mandar flores para os autores quando as novelas ultrapassavam os 80 pontos. Quando finalmente entendi, fiquei muito angustiado porque a expectativa das pessoas cresce e a minha também.

AB - A novela "Dancin’ Days" foi marcada por alguns imprevistos na escalação do elenco. A princípio, você e Daniel Filho cogitaram Betty Faria para o papel de Júlia Matos e Norma Benguel para o de Yolanda Pratini. O que você achou da troca? Hoje em dia, você consegue imaginar Júlia e Yolanda sem Sônia Braga e Joana Fomm?

GB - Não, não imagino. Não queria a Sônia Braga como protagonista. Essa ideia foi do Daniel. Eu queria a Yoná Magalhães. Foi um caso de escalação certíssima. No fundo, achava a novela ruim e pensava que seria impossível as pessoas gostarem dela. Eu tive mesmo uma grande sorte...

AB - A Globo sempre cogitou fazer um "remake" de "Dancin’ Days". Você aprova a ideia?

GB - Eu tinha vontade de fazer o "remake". Depois, perdi por medo de comparações com o original. Hoje, acho que ninguém iria gostar muito de uma mulher que sai da prisão...

AB - Na época de "Dancin’ Days", você confessou ter enfrentado um período de "branco total" e muita dificuldade para desenvolver a trama. O que fazer quando a inspiração parece faltar?

GB - Eu escrevi "Dancin’ Days" totalmente em estado de catatonia. Não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Felizmente, agora, escrevo com parceiros. Assim mesmo, é dificílimo. Na verdade, não entendo como consegui escrever "Dancin’ Days" sozinho, aos 33 anos de idade... 

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'Coleção Aplauso' lança biografia dedicada a Walter George Durst, autor de 'Gabriela'

André Bernardo | André Bernardo | 30/12/2011 10h36

Quem viu não esquece. Sob o olhar guloso de Tonico Bastos (Fúlvio Stefanini), Gabriela (Sônia Braga) escala o telhado de uma casa na cidade de Ilhéus, no interior da Bahia, para resgatar uma pipa. A cena, uma das mais famosas da teledramaturgia brasileira, não consta no romance de Jorge Amado. Foi criada por Walter George Durst  (na foto, com Duca Rachid) especialmente para a novela, escrita em comemoração aos 10 anos da TV Globo. Essa é apenas uma das curiosidades de "Doce guerreiro", biografia de Walter George Durst assinada por Nilu Lebert para a "Coleção Aplauso", da Imprensa Oficial. "Durst deu ao grande público a oportunidade de conhecer grandes autores, como Jorge Amado, Zélia Gattai e Guimarães Rosa", elogia.

Como 2012 é o ano do centenário de Jorge Amado, a Globo decidiu revisitar o romance "Gabriela, cravo e canela". Desta vez, Walcyr Carrasco assume a responsabilidade da adaptação em lugar de Walter George Durst, que morreu em 24 de agosto de 1997, aos 75 anos. Para interpretar a personagem que imortalizou Sônia Braga, a escolhida foi Juliana Paes. No livro, Nilu recorda que, assim que Boni e Daniel Filho bateram o martelo sobre a escalação da atriz, Durst fez questão de submeter o nome dela à aprovação do escritor baiano. "Na época de 'Gabriela', Durst vivia no escritório e nem tempo para fazer a barba ele tinha. Parecia um ermitão", compara a jornalista.

Mas a obra de Durst não se resume à Gabriela de Jorge Amado. Ao longo da carreira, adaptou outros clássicos da literatura nacional, como "Anarquistas, graças a Deus", de Zélia Gattai; "Ossos do barão", de Jorge Andrade, e "Grande sertão: veredas", de Guimarães Rosa. A propósito, Walter George Durst levou três longos anos para convencer a direção da TV Globo a adaptar a história de Riobaldo e Diadorim. "A alta cúpula da emissora duvidava que o público se interessasse pela história, mas a convicção de Durst venceu todos os obstáculos", afirma Nilu, que entrevistou alguns ex-colaboradores de Durst, como Mário Teixeira, Duca Rachid e Marcos Lazirini.

André Bernardo - O que motivou você a escrever uma biografia sobre o escritor Walter George Durst?

Nilu Lebert - Sou amiga do Rubens Ewald Filho (idealizador e organizador da coleção) e já havia feito as biografias dos atores Sergio Viotti, Beatriz Segall e Jonas Bloch para a Aplauso. Conversando com o Rubens, me lembrei de sugerir o nome do Durst, que cheguei a conhecer na década de 70. Ele endossou a ideia e comecei a escrever imediatamente.  

AB - Qual teria sido a maior contribuição de Durst à teledramaturgia brasileira?

NL - Walter deu ao grande público a oportunidade de conhecer autores como Jorge Amado, Zélia Gattai e Guimarães Rosa. Ele foi o primeiro a adaptar autores desse quilate para a TV e, nos doze anos que permaneceu à frente do programa "TV de Vanguarda", mostrou também obras de Ibsen, Tolstoi, Garcia Lorca e tantos, tantos outros autores de primeira grandeza. Pioneiro, foi também o primeiro a mostrar na telinha uma cena de nudez, em "Gabriela", e um beijo inter-racial, em "A Flor da Pele".

AB - A parceria entre ele e Walter Avancini talvez seja tão importante para a TV brasileira quanto a entre Janete Clair e Daniel Filho. Como explicar a tão bem-sucedida parceria entre Durst e Avancini?

NL - Quando Avancini começou na TV, ainda menino, teve em Durst uma espécie de mentor - e nutria uma admiração muito grande por ele. A parceria profissional só se deu muitos anos mais tarde. Segundo a viúva de Walter, Bárbara Fazio, a relação entre os dois era do tipo "tapas e beijos"... Discutiam muito, se entendiam profundamente e, mais do que isso, se respeitavam e nutriam, um pelo outro, uma profunda amizade. Sem dúvida alguma, fizeram uma dupla que rendeu momentos inesquecíveis da nossa televisão.

AB - Por que Walter George Durst demorou tanto tempo para convencer a Globo a produzir a minissérie "Grande sertão: veredas"?

NL - Adaptar "Grande sertão: veredas" talvez tenha sido um dos maiores desafios enfrentados por Durst, uma responsabilidade que o fez ler e reler o romance várias vezes, anotando em cada página observações que, aos poucos, lhe davam o mosaico necessário para criar o roteiro. Foram três anos de "gestação" até que o texto fosse formatado em 25 capítulos. Porém, antes da conclusão do roteiro, Walter lutou bravamente até obter a aprovação da Rede Globo - que relutava em concordar com esse projeto em função de ele ser ambicioso e oneroso. A cúpula da emissora duvidava que o público se interessasse pela história, mas a convicção de Durst finalmente venceu todos os obstáculos. Segundo Bárbara Fazio, foi Daniel Filho quem, finalmente, liberou o projeto. As gravações, em Paredão de Minas (no distrito mineiro de Buritizeiro), duraram 90 dias. Neste período, cerca de 2 mil pessoas embrenharam-se pelo sertão sem medir esforços para transformar o livro de Rosa em linguagem televisiva.

AB - É verdade que, por ocasião de "Gabriela", Durst fez questão de submeter a indicação de Sônia Braga à aprovação do escritor Jorge Amado?

NL - O que se sabe é que Walter pediu a Jorge permissão para adaptar "Gabriela". E sabe-se, também, que Sônia Braga não era sua opção para defender o papel, uma vez que ele preferia uma atriz com características mais "caboclas". Mas acabou aceitando Sonia e ela defendeu muitíssimo bem o personagem, para satisfação de Walter.

AB - Muito antes de Manoel Carlos, Walter George Durst já tinha verdadeiro fascínio por personagens femininos - a ponto de batizar muitas de suas produções com os nomes de suas protagonistas. De onde vem essa admiração?

NL - Desde a infância, ele esteve sempre rodeado por mulheres. O pai abandonou a família quando ele tinha apenas oito anos e, a partir daí, ele viveu em companhia da mãe e da irmã. Talvez isso explique sua facilidade em captar a dinâmica das reações femininas, o que possibilitou a criação de uma galeria de personagens inesquecíveis. Só para lembrar de algumas: Nina, da novela "Nina"; Gabriela e Malvina, de "Gabriela"; Diadorim, de "Grande sertão: veredas"; Helena, de "O sorriso de Helena", entre tantas outras.

 

Colaboradora de 'Amor & revolução', Renata Dias Gomes fala de sua carreira de roteirista na TV

André Bernardo | André Bernardo | 29/12/2011 12h59

Quando tinha apenas seis anos de idade, Renata Dias Gomes (na foto, entre Tiago Santiago e Miguel Paiva) venceu um concurso de redação no colégio. Logo, os colegas mais invejosos começaram a especular que o texto de Renata só foi escolhido porque ela era neta de Dias Gomes e Janete Clair, dois dos maiores autores da teledramaturgia brasileira. Na dúvida, o pai coruja, o músico Alfredo Dias Gomes, resolveu mandar, sem que a filha soubesse, o texto para o avô de Renata dar uma lida. "Tenho plena consciência de que meu sobrenome famoso ajudou a abrir portas. Sinto que as pessoas têm um carinho grande por mim pelo simples fato de terem conhecido meus avós", avalia Renata, que nasceu apenas dois meses antes da morte da avó, em 1983.

Com o passar dos anos, Renata Dias Gomes aprendeu a conviver com os comentários maldosos. De "Os professores só escolheram a redação dela porque é neta de quem é", passou a ouvir coisas do tipo "Será que ela vai ser uma nova Janete Clair?".  "Até gostaria de, algum dia, adaptar algum texto da minha avó. Mas, hoje em dia, não", pondera Renata, no ar como colaboradora de "Amor & revolução", do SBT. Aos 28 anos, Renata Dias Gomes já contabiliza seis como roteirista de TV. Seu primeiro trabalho foi na série "Geração saúde", da TV Escola. No ano seguinte, já integrava o cast da Record, onde trabalhou nas novelas "Alta estação", como colaboradora de Margareth Boury, e "Chamas da vida", de Cristianne Fridman.

Renata Dias Gomes chegou à Record por intermédio de Tiago Santiago. Ela conheceu o então consultor de teledramaturgia da emissora durante uma maratona de roteiros, promovida em 2006 pela Associação Brasileira de Roteiristas Profissionais de TV (ARTV). Depois de entregar um de seus textos ao Tiago, recebeu um telefonema dele, falando do interesse da Record de contratá-la. Curiosamente, quem sugeriu que Renata participasse da maratona foi Glória Perez, que começou na TV como colaboradora da Janete Clair em "Eu prometo". "A Glória é a minha fada-madrinha. Sempre me deu a maior força em vários momentos da minha vida", elogia.

André Bernardo - Você já atuou como colaboradora da Margareth Boury, Cristianne Fridman e Tiago Santiago. Qual é a importância do colaborador dentro da "carpintaria" de uma novela?

Renata Dias Gomes - A principal função do colaborador é facilitar ao máximo a vida do autor. Afinal, além de escrever novela, autor tem outras atribuições, como resolver problemas de produção, por exemplo. Normalmente, o colaborador escreve diálogos, quase sempre esse é o trabalho dele. Mas isso depende muito do método de cada autor. No caso do Tiago, por exemplo, eu e o Miguel (Paiva, colaborador) escrevemos capítulos inteiros de "Amor & revolução". O Tiago fazia a escaleta e a gente desenvolvia os capítulos. Já a Margareth e a Cristianne gostam de dividir as cenas de cada capítulo entre todos os colaboradores. Varia muito.

AB - O que um autor de novela espera de um colaborador? E o que um colaborador, por melhor que seja, não deve fazer nunca?

RDG - O bom colaborador não deve nunca tentar imprimir o seu estilo na obra de outro autor. A novela não é do colaborador. É do autor. O bom colaborador é aquele que escreve como o autor escreveria. O importante é não fugir do estilo do autor. Há autores que praticamente escrevem sozinhos e só recorrem aos colaboradores quando estão no sufoco. Mas isso, novamente, varia muito de autor para autor. No SBT, a gente participava das reuniões de criação. Nelas, os colaboradores dão opinião, sugerem tramas, falam sobre o que não estão gostando, etc. Depois de escrito, o capítulo passa pela revisão. Todo mundo revisava. Nesta fase, a gente podia dar palpite, sugerir mudanças, mas a palavra final é sempre do Tiago.

AB - Você começou sua carreira na Record. Que balanço faz de sua passagem por lá?

RDG - Eu gostei muito de trabalhar com a Margareth Boury. Ela foi basicamente a minha segunda mãe porque, quando fui trabalhar lá, só tinha 23 anos. O Tiago me levou para a Record, mas fui parar na equipe da Margareth. A Margareth é muito rigorosa e exigente e logo me identifiquei com o estilo dela. A gente gosta de escrever diálogos curtos, rápidos, bem-humorados. Tem muito dela no meu jeito de escrever. Quando surgiu o convite para trabalhar com o Tiago no SBT, fui correndo. Afinal, foi ele quem me levou para a Record.

AB - O sobrenome famoso ajuda ou atrapalha?

RDG - Ajuda, é claro! As pessoas têm um carinho muito grande por mim por terem conhecido meus avós. Eu tenho plena consciência de que o Gilberto Braga só me recebeu na casa dele, quando eu tinha 17 anos, porque eu era neta de quem sou. Sei que o meu sobrenome ajudou a abrir portas. Mas, além do sobrenome, eles me deixaram outra herança valiosa: os textos da minha avó. A certa altura, os textos dela foram parar na minha casa. Cresci lendo os roteiros da Janete Clair. Do meu avô, lembro mais dele como pessoa do que como autor. Ele era uma pessoa extraordinária...

AB - Você nasceu no ano da morte de sua avó. No entanto, teve a felicidade de conviver 15 anos com seu avô. Qual é a lembrança mais forte que guarda dele?

RDG - Lembro muito dos Natais que passamos juntos, em família. Meu avô adorava passar os Natais em casa, perto dos filhos e netos. Na hora da ceia, ele gostava sempre de repetir a mesmíssima piada: "Xi, este ano, o peru do doutor Roberto diminuiu, hein?" (risos) Todo ano, ele fazia a mesma piada... (risos)

AB - Você ainda se sente na obrigação de provar que está no mercado por mérito próprio e não apenas por ser neta de quem é?

RDG - Eu exijo muito de mim. Muito mesmo. Sou do tipo que quer mostrar sempre o melhor trabalho. Mas acho que eu seria assim, exigente e perfeccionista, independentemente do meu sobrenome. 

AB - Você já se sente apta a ponto de escrever sua própria novela?

RDG - Sinceramente? Não sei... Até tenho algumas ideias guardadas que, na minha opinião, dariam uma boa novela. Quando você cria alguma coisa, tem vontade de mostrar aquilo para outras pessoas. Mas só vou saber se sou capaz ou não quando surgir o convite. Até autores mais experientes do que eu sentem esse friozinho na barriga.

AB - Em 2008, o SBT comprou o acervo radiofônico da Janete Clair. O que você achou da versão da Íris Abravanel para "Vende-se um véu de noiva"?

RDG - Acho muito difícil adaptar seja lá o que for da Janete Clair. A novela "Vende-se um véu de noiva" teve alguns problemas e, sinceramente, o texto foi o menor deles. É complicado adaptar Janete Clair para os dias de hoje porque você precisa obrigatoriamente incluir tramas paralelas. Eu fiquei emocionada quando vi algumas cenas. Até gostaria de, um dia, adaptar algum texto da minha avó, mas hoje em dia, não.

AB - Em 1983, Glória Perez foi convidada para trabalhar como colaboradora da Janete Clair em "Eu prometo". Qual é a importância da Glória Perez na sua carreira?

RDG - A Glória é a minha fada madrinha. Conheci ela em um shopping. Meu pai me apresentou e disse que eu escrevia. Ela leu os meus primeiríssimos textos, quando eu ainda estava começando, e sugeriu que eu participasse de uma maratona de roteiros que aconteceu no Rio de Janeiro, em 2006. Lá, conheci o Tiago Santiago, conversamos bastante e ele topou ler um roteiro meu. Meses depois, ele me ligou dizendo que a Record tinha interesse na minha contratação. A Glória sempre me deu força em vários momentos da minha vida. Ela está sempre disposta a me indicar para um monte de gente legal. É a minha fada madrinha mesmo!

AB - Que dicas você daria para quem sonha em trabalhar como roteirista de tevê?

RDG - Olha, a principal dica é escrever muito e escrever sempre. Sinopse não foi feita para ficar guardada na gaveta. Isso não leva ninguém a lugar nenhum. Escreveu? Então, mostra para alguém. Mas saiba que o caminho é longo. Não é porque você escreveu uma sinopse legal que você vai saber como transformá-la em novela. Sinopse é uma coisa, novela é outra, completamente diferente. Novela é um investimento muito alto. E as emissoras não podem correr riscos. Para escrever novela, você tem primeiro que aprender. É um ofício como outro qualquer.

 

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Antônia Pellegrino fala da estreia da série dramática 'Oscar Freire 279' no canal Multishow

André Bernardo | André Bernardo | 03/10/2011 13h14

A carioca Antônia Pellegrino, 30 anos, não tem tempo a perder. No início deste ano, assinou um dos quatro episódios da série "Amor em 4 atos", inspirada em canções do cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, e coroteirizou o filme "Bruna Surfistinha", baseado na história real da garota de programa Raquel Pacheco. Hoje à noite, às 23h30, estreia "Oscar Freire 279", a primeira série dramática do canal Multishow. E mais: é uma das colaboradoras de Miguel Falabella em "Aquele beijo", a próxima novela das sete. "Sim, já estamos trabalhando na novela desde novembro do ano passado. A estreia é dia 17 de outubro", adianta.

Enquanto "Aquele beijo" não estreia, Antônia aguarda, ansiosa, a exibição do primeiro dos 15 episódios de "Oscar Freire 279".  O título da série faz referência à rua mais badalada do comércio de luxo paulistano. É lá, no fictício número 279 da Oscar Freire, que Antônia Pellegrino conta a história de Isadora (Lívia de Bueno), uma jovem arquiteta curitibana que tenta ganhar a vida em São Paulo como florista, mas descobre uma nova profissão: a de garota de programa de luxo. "O modo como tratamos a prostituição na série não é preconceituoso nem glamourizante. Simplesmente humano", garante a autora.

André Bernardo - A série "Oscar Freire 279" fala sobre o cotidiano de uma arquiteta de Curitiba que vira prostituta de luxo depois de se mudar para São Paulo. É possível abordar esse tema na TV sem glamourizá-lo demais?

Antônia Pellegrino - O modo como tratamos a prostituição na série não é preconceituoso nem glamourizante. Simplesmente humano. A prostituição existe desde que o mundo é mundo. Ela não é crime. Crime é cafetinar o sexo alheio para se beneficiar com isso. 

AB - De onde surgiu a inspiração para escrever "Oscar Freire 279"? A ideia partiu do Multishow ou de você?

AP - A ideia partiu do diretor de conteúdo da Pródigo Filmes, a produtora da série, o Giuliano Cedroni. Ele tinha este conceito: uma garota de programa de luxo trabalhando em um flat (nosso único cenário). A convite dele, desenvolvi a história e escrevi os roteiros com a dramaturga Julia Spadaccini.

AB - O nº 279 não existe na Oscar Freire, certo? Esse número tem algum significado especial para você?

AP - Foi apenas um número que não existia na realidade e não nos traria problemas jurídicos. 

AB - Como você se sente ao ser ter sido convidada pelo Multishow para escrever a primeira série dramática do canal?

AP - A princípio, a série não tinha este caráter de "primeira série dramática do canal". Ela ganhou esta feição a partir dos roteiros. Achei que a história pedia um tratamento dramático, no qual eu poderia me valer de formas folhetinescas de narrativa. O canal gostou e virou a primeira série dramática deles.

AB - Qual é a maior diferença que existe entre escrever para uma TV aberta, como a Globo, e para uma TV por assinatura, como o Multishow? O que muda?

AP - A TV Globo tem uma demanda de produtos que se comuniquem com família brasileira de todas as classes sociais. Esta extrema abrangência do mercado com o qual a Globo lida, pede que os autores tenham alguns cuidados, como, por exemplo, o vocabulário das cenas e o conteúdo das histórias. Já a TV por assinatura é mais segmentada, embora a classe C esteja entrando de modo consistente neste mercado. Isto permite abordar temas mais ousados, de modo mais sutil.

AB - O que você pode adiantar sobre "Aquele beijo", a próxima novela do horário das sete?

AP - É uma novela com a marca do Miguel Falabella: humor, personagens deliciosamente diferentes e muito beijo na boca.

SRZD divulga resultado da promoção 'Grandes novelas', de Mauro Alencar

André Bernardo | André Bernardo | 14/09/2011 07h55

"Qual é o segredo de uma grande novela? E por quê?"

A resposta escolhida foi a de João Victor Teixeira.

"O segredo de uma grande novela está em fazer o telespectador sonhar de olhos abertos; tornar o telespectador, sem que ele perceba, cúmplice de seus personagens; fazer quem a assiste refletir de forma espontânea sobre a sociedade em que está inserido; alertar o público sobre o seu papel na sociedade e o incentivar a ser agente atuante de mudanças; permitir ao telespectador ser um operário em construção na sua própria vida, isto é, se reinventar ao adquirir uma nova visão de mundo; contribuir para a melhoria da sociedade com a discussão de temas e campanhas de relevância nacional (...)"

Ao vencedor, parabéns!

Aos que participaram, muito obrigado!

Abraços do André Bernardo.

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Solange Castro Neves fala da reprise de 'Mulheres de areia' no 'Vale a pena ver de novo'

André Bernardo | André Bernardo | 12/09/2011 20h04

"Semana que vem, estou em casa e conversamos melhor", prometeu Ivani Ribeiro à amiga e colaboradora Solange Castro Neves. As duas se encontraram, pela última vez, no dia 14 de julho de 1995, no Hospital Sírio e Libanês, em São Paulo, onde Ivani estava internada. Aos 79 anos, a autora de "Final feliz", "Mulheres de areia" e "A viagem", entre outros clássicos da teledramaturgia brasileira, sofria de insuficiência renal. Portadora de diabetes, morreu três dias depois, sem cumprir a promessa. "Nosso convívio foi maravilhoso, cercado de muito carinho, respeito e amor", recorda Solange.

Com Ivani, Solange atuou como pesquisadora em "Final feliz", de 1982; colaboradora em "Amor com amor se paga", de 1984, e "Mulheres de areia", de 1993, e coautora em "A viagem", de 1994. Em 1996, adaptou para a Globo a novela "Quem é você?", escrita a partir de um argumento deixado por Ivani. De lá para cá, Solange assinou mais duas novelas: "Marcas da paixão", em 2000, e "Roda da vida", em 2002, ambas na Record. "Confesso que, apesar de toda a loucura, ainda sinto saudades de escrever para a TV", afirma a autora, que completou, em junho, 60 anos.

André Bernardo - O que achou da decisão da Globo de reprisar "Mulheres de areia" no "Vale a Pena Ver de Novo"?

Solange Castro Neves - Adorei a ideia porque "Mulheres de areia" foi um grande sucesso e a considero uma obra atemporal. A trama é bem estruturada e os conflitos são atuais, ainda fazem parte do dia-a-dia de milhares de telespectadores. O enredo possui toda a gama de emoções necessárias para prender o público, como ação, alegria, expectativa e até pureza, através do personagem do Tonho da Lua (Marcos Frota). Não podemos esquecer o brilhantismo da atriz Glória Pires, que interpretou as gêmeas Ruth e Raquel, de temperamentos opostos, e, ainda, uma terceira personalidade, quando Raquel se passava por Ruth, imitando os trejeitos e a meiguice da outra.

AB - "Mulheres de areia" foi exibida em 1993. Dezoito anos depois, qual é a lembrança mais forte que vem à sua cabeça?

SCN - Em primeiro lugar, a dificuldade encontrada por Wolf Maya e Paulo Ubiratan (os diretores da novela) para reproduzir as gêmeas. Naquele tempo, não existiam as ferramentas tecnológicas de hoje. Em segundo lugar, o talento e a dedicação de Marcos Frota ao incorporar Tonho da Lua. Ele atingiu o tom perfeito da interpretação de um jovem especial.

AB - Das muitas novelas que escreveu com Ivani Ribeiro, qual delas é a sua favorita? Por quê?

SCN - Essa pergunta é difícil de responder. Ivani foi a minha grande mestra, ensinou-me a não ter medo de soltar as emoções, nem de deixar a minha mente voar. Ensinou-me a importância de cada cena e, principalmente, a ter respeito pelo talento do ator. "Mulheres de areia" deixou uma profunda marca porque Ivani passava por uma fase complicada em que estava com sério problema pessoal e tive de assumir a novela. Contudo, pude contar com a ajuda de Mário Lúcio Vaz e Paulo Ubiratan, que confiaram em mim e a novela foi um grande sucesso. De todas, no entanto, a que mais me acrescentou foi "A viagem". Através desta história, adentrei no mundo espiritual, o que me fez enriquecer muito como ser humano.

AB - Qual teria sido a maior lição que Ivani Ribeiro deixou para você como autora de novelas?

SCN - Para mim, como escritora, a maior lição deixada por Ivani é não permitir que nada, nem ninguém atrapalhe o ritmo do seu trabalho. Aprendi a deixar os problemas do lado de fora, quando entro em meu escritório para trabalhar. Outra grande lição, que ainda procuro colocar em prática, é conservar os pés no chão, mas deixar a cabeça aberta a novas ideias. A pensar, ao escrever, com a cabeça de cada personagem porque, com o passar do tempo, eles tomam vida própria e, às vezes, isso muda o percurso da trama.

AB - É verdade que, mais do que uma parceira, Ivani Ribeiro foi uma mãe para você?

SCN - Ivani era uma grande contadora de histórias, mas, por causa de suas experiências de vida, tornou-se um pouco reservada e demorava a confiar em alguém. Não foi diferente comigo, mas, com o passar do tempo, nosso convívio foi maravilhoso, cercado de muito carinho, respeito e amor. Vou contar um fato que poucas pessoas sabem: Ivani recebeu uma mensagem psicografada de Chico Xavier e, nela, relatou acontecimentos que apenas nós duas sabíamos. Para nossa surpresa, Ivani contou que fui sua filha em outra vida. Este foi um dos dias mais emocionantes da minha vida.

AB - Dos autores que escrevem novela atualmente, qual deles teria o estilo mais parecido com o de Ivani Ribeiro?

SCN - Cada um tem seu estilo próprio. Thelma Guedes e Duca Rachid lembram um pouco a Ivani pela magia, romantismo, diálogos mais trabalhados, mas, assim como cada um de nós tem a sua impressão digital, que é única, cada autor é singular em sua obra.

AB - A sua última novela na Globo foi "Quem é você?", em 1996. Na Record, você escreveu "Marcas da paixão", em 2000, e "Roda da Vida", em 2002. O que você tem feito desde então? Sente saudades de escrever novela?

SCN - Realmente, minha última novela na Globo foi "Quem é você?". Algum tempo depois, pedi demissão por causa de problemas em família. Meu marido adoeceu e, com isso, não podia viajar para o Rio. Acabei aceitando a proposta da Record, por estar localizada em São Paulo, e lá fiz "Marcas da Paixão" e "Roda da Vida". Depois disso, me desliguei de tudo pelo agravamento da doença. Comecei a dar aulas de roteiro em casa, o que me deixou bastante orgulhosa porque muitos dos meus alunos, atualmente, estão trabalhando em TV. Após ter ficado viúva, resolvi enveredar pelo cinema, onde fiz vários trabalhos que estão em fase de produção: um longa, um documentário e um curta. Mas devo confessar que, apesar de toda a loucura que é escrever uma novela, ainda sinto saudades. Quem sabe, um dia, não voltarei à TV?

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Mauro Alencar lança coleção 'Grandes novelas': versão literária de clássicos da teledramaturgia

André Bernardo | André Bernardo | 11/09/2011 09h42

Muitos homens ainda têm preconceito contra as novelas. Se veem, não admitem. Nem sob tortura. Mas, para Mauro Alencar, ver novelas é um ofício. Todos os dias, esse paulistano de 49 anos assiste a uma média de dez produções do gênero, entre nacionais e importadas. Tanto empenho resultou em um doutorado em teledramaturgia pela Universidade de São Paulo (USP) e na transformação de sua tese de mestrado em livro: "A Hollywood Brasileira - Panorama da Telenovela no Brasil", lançado em 2002. "Assistir a novelas é tão vital quanto almoçar ou dormir. Faz parte de um ritual diário", afirma.

A paixão arrebatadora pela teledramaturgia nasceu em 29 de junho de 1970. Foi neste dia que Mauro, então com oito anos, assistiu ao primeiro capítulo de "Irmãos Coragem". Da abertura aos créditos finais, se apaixonou à primeira vista pela novela de Janete Clair. Depois de "Irmãos Coragem", vieram "O cafona", "Bandeira 2" e tantas outras. Em pouco tempo, a paixão virou obsessão. Hoje, consultor e pesquisador de teledramaturgia, Mauro grava novelas de todas as emissoras, passa horas revendo tramas antigas e mantém um respeitável acervo pessoal sobre o tema.

Foi justamente a obsessão por teledramaturgia que levou Mauro Alencar a trabalhar na TV Globo. Em 1990, durante as comemorações de 25 anos da emissora, se preparou para assistir, "pela quinta vez", a reprise de "Escrava Isaura". Mas, quando pôs os olhos na abertura, feita a partir de quadros do pintor Debret, levou um choque ao constatar que era diferente da original. Na mesma hora, ligou para Deus e o mundo para saber o porquê da mudança. O diretor Cacá Silveira, responsável pela retrospectiva, quis conhecer "aquele maluco" e o convidou para vir ao Rio. Cheio de si, Mauro repetiu alguns diálogos de "Escrava Isaura" e, de quebra, ainda citou os créditos de "Carinhoso". Conclusão: acabou contratado pelo "Vídeo show".

André Bernardo - Na maioria das vezes, autores de TV transformam romances em novelas e minisséries. Desta vez, você seguiu o caminho inverso e transformou novelas em romances. Como foi a experiência de escrever a coleção "Grandes novelas"?

Mauro Alencar - Extremamente enriquecedora. Transportar os personagens e as tramas de novelas clássicas para a linguagem literária foi um trabalho intenso e fascinante. Acredito que contar a novela como um narrador, sem perder de vista os ganchos armados pelos novelistas, talvez tenha sido o maior desafio. Além, é claro, de manter o clima da obra original, já que se trata de uma adaptação.

AB - Mas, como você se preparou para escrever os livros? Chegou a rever alguns capítulos ou consultar os roteiros originais?

MA - Basicamente, utilizei minha memória afetiva e científica. Depois, li alguns capítulos para extrair diálogos originais. Fiz questão de transportar para o livro diálogos que explicassem e contextualizassem as personagens da maneira mais fidedigna possível. Em seguida, quando necessário, revia o capítulo em vídeo, para rememorar os fundamentos visuais da novela. Até porque é uma obra audiovisual adaptada para um livro.     

AB - A coleção "Grandes novelas" compreende versões literárias de cinco produções da TV Globo: "Pecado capital", "Selva de pedra", "O Bem-Amado", "Roque Santeiro" e "Vale tudo". Qual teria sido a novela mais difícil de ser adaptada?

MA - Pela estrutura narrativa, "Vale tudo". Estávamos no final da década de 80, quando a duração de cada capítulo aumentou em aproximadamente quinze minutos. Isso gerou, automaticamente, um número maior de tramas. Acrescido a isto, a própria novela apresentou inúmeras subtramas resolvidas em até uma semana. Como adaptar tudo isso em, no máximo, 225 páginas, no formato "pocket-book"? Estruturada no melhor estilo "best-seller americano", lembrando o popular Sidney Sheldon, "Vale tudo" tem diversos acontecimentos que se interligam, os personagens movimentam-se em função das tramas que ocorrem de maneira bastante veloz - como os versos de Cazuza no tema de abertura cantado por Gal Costa.         

AB - Os cinco volumes compreendem um período que vai de 1972 a 1988. Pode-se dizer que já não se fazem mais novelas como antigamente?

MA - Este é um projeto da Globo Marcas (editado pela Editora Globo) que compreende, como bem se vê, um período cronológico. Felizmente, e a julgar pelas novelas que estão no ar, como "Cordel encantado", "Morde & assopra" e "Fina estampa", o gênero segue retratando, da melhor maneira possível, os diversos estratos sociais, sob os mais variados pontos de vista. Em suma, um verdadeiro documento da vida em sociedade.     

AB - Você começou a trabalhar na TV Globo como pesquisador do "Vídeo show". Que outras atividades exerce hoje na emissora?

MA - Em fins de 2008, a convite do Luís Erlanger (diretor de Comunicação da TV Globo), passei a integrar a criativa e talentosa equipe da Central Globo de Comunicação, a CGCom. Lá, entre outras atividades, participo da análise de sinopses, apresento aulas de teledramaturgia e assino uma coluna na Globo.com. Sem dúvida alguma, este convite revolucionou minha vida não apenas em termos profissionais, mas, muito especialmente, no aspecto pessoal.         

AB - Nos últimos anos, você chegou a ser sondado pela Record e pelo SBT para trocar de editora. Como surgiram esses convites?

MA - O primeiro surgiu em 2004, por ocasião da reabertura do núcleo de teledramaturgia da Record. O segundo, mais recente, em 2008, foi praticamente pelo mesmo motivo. Silvio Santos começou a perceber que as novelas mexicanas não conquistavam mais a atenção do público como em décadas passadas. Resolveu, então, investir em texto nacional (ainda que os originais mexicanos no horário da tarde estejam com maior audiência que a novela original exibida à noite), em particular, pelo desejo de sua esposa, Íris Abravanel, em ser autora de novela. Os dois encontros (em especial, com Silvio) foram muito enriquecedores em termos de aprendizado.

AB - Em 2008, você lançou o livro "Nívea Maria - Uma atriz real" pela Coleção Aplauso. Quais são os seus próximos projetos?

MA - Em breve, termino um livro, em parceria com Eliana Pace, sobre a querida Elizabeth Savalla. Falta apenas a fase Walcyr Carrasco. Até o final do ano, lançaremos, Gracindo Júnior e eu, o livro "Um século de Paulo Gracindo, o eterno Bem-Amado", pela Editora Autêntica, de Belo Horizonte. Escrevi o livro a convite de Gracindo Júnior após a minha participação no documentário "Paulo Gracindo, o Bem-Amado". Por fim, estou a caminho de encerrar um dos livros mais trabalhosos que já escrevi: a história da TV Paulista (a Globo de São Paulo) que, ao ser comprada pelo jornalista e empresário Roberto Marinho, em 1964, uniu-se à TV Globo do Rio, em 1965, para formar a Rede Globo de Televisão. Por conta disso, podemos dizer que a TV Globo de São Paulo é a emissora brasileira mais antiga em atividade, pois completa 60 anos em 2012.  

AB - Desde 2009, você é integrante da Academia de Artes e Ciências da Televisão, de Nova Iorque, entidade responsável pela criação do prêmio Emmy. Das novelas produzidas por outros países, o que mais tem chamado a sua atenção?

MA - Se compararmos com as produções oriundas da Argentina e, em particular, do México, do início da década de 1980, como a clássica "Os Ricos Também Choram", digo que as novelas evoluíram muito e ampliaram-se mundialmente. Nesta última votação, por exemplo, gostei muito da portuguesa "Laços de Sangue" e da russa "Institute for Noble Maidens" (só tenho o título em inglês), que me lembrou muito os romances de Tolstói. O motivo de toda essa revolução no panorama da telenovela mundial tem um motivo e um nome: as produções realizadas pela Rede Globo de Televisão, a partir do início da década de 1970, que modernizou as temáticas e imprimiu uma qualidade até então nunca vista na realização do gênero. Estas produções passaram a encantar o mundo e, consequentemente, a servir de exemplo para as produções originais de todos os países.        

AB - Além de trabalhar como consultor e pesquisador, você nunca pensou em escrever novelas ou trabalhar como colaborador em uma delas?

MA - Sim, talvez participar da adaptação de alguma novela produzida no mercado latino.  

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Concorra à coleção 'Grandes novelas', adaptada por Mauro Alencar em formato de livro de bolso

André Bernardo | André Bernardo | 06/09/2011 18h20

"Qual é o segredo de uma grande novela? E por quê?". O autor da resposta mais criativa vai levar para casa a coleção "Grandes novelas", da Editora Globo.

Ao todo, são cinco volumes: "Selva de pedra", "O Bem-amado", "Pecado capital", "Roque Santeiro" e "Vale tudo".  Todos os volumes são adaptados por Mauro Alencar a partir de clássicos da teledramaturgia brasileira.

Para concorrer, você precisa apenas se cadastrar no SRZD (abaixo), responder a pergunta acima nos comentários e aguardar o resultado da promoção, que será divulgado na próxima segunda-feira, dia 12 de setembro, aqui no blog.

Enquanto espera pelo resultado, você pode conferir uma entrevista exclusiva com o pesquisador Mauro Alencar, responsável pelas adaptações literárias.

Participe!

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Mário Prata relembra os 35 anos da novela 'Estúpido cupido'

André Bernardo | André Bernardo | 27/08/2011 10h39

A estreia do escritor Mário Prata na TV foi discreta, mas promissora. Em 1974, esse mineiro de Uberaba escreveu um episódio da série "Caso Especial", "Ela Tem Uma Pinta Atrás da Orelha", que chamou tanto a atenção do diretor Ziembinsky que ele convidou o autor, então com 28 anos, para escrever sua primeira novela: "Estúpido cupido". "Até então, eu nunca tinha visto novela na vida", confessa Prata, hoje com 65. "Foi tudo meio na marra. Mas dei sorte", avalia. Na época, "Estúpido cupido" chegou a dar 75 pontos no Ibope. Na cena em que a cantora Celly Campello, responsável pelos "hits" "Estúpido cupido" e "Banho de lua", visitou a fictícia Albuquerque, a audiência pulou para 92. Mas Prata enfrentou também problemas com a censura. Palavras como "transa" e "ceroulas" foram censuradas. Por essas e outras, em seis meses, foi à Brasília 17 vezes... "Eles queriam é mostrar autoridade!", reclama.

Na Globo, Prata voltou a escrever outras novelas, como "Sem lenço, sem documento", "Um sonho a mais" e, mais recentemente, "Bang bang", mas sem nunca repetir o sucesso de "Estúpido cupido". Ao longo dos anos, aventurou-se por outras emissoras, no Brasil e no exterior. Na extinta Manchete, escreveu "Helena", dirigida por Denise Saraceni e Luiz Fernando Carvalho. Na RTP, de Portugal, onde morou de 1991 a 93, assinou de minisséries, como "Um século e sete mulheres", a novelas, como "Os treze tesouros". De volta ao Brasil, foi chamado às pressas para substituir Ricardo Linhares à frente de "O campeão", novela exibida pela Band em 1996. O desinteresse do público, porém, foi tanto que a emissora suspendeu a novela durante as Olimpíadas de Atlanta. "Nem a minha mãe assistiu àquela novela...", resmunga, com o habitual bom-humor.

André Bernardo - Qual é a lembrança mais forte que você guarda de "Estúpido cupido"?

Mário Prata - Eu não tinha a menor ideia do que eu estava fazendo... (risos) Um dia, estava deitado na cama com a minha mulher, recém-casado, quando apareceu a chamada na TV: "Estreia dia tal ‘Estúpido cupido’, de Mário Prata". Foi só aí que caiu a ficha. "Putz, onde foi que eu me meti?" (risos) Eu não tinha a menor ideia do que era escrever uma novela... Escrevi "Estúpido cupido" com 29 anos. Na época, a Globo era muito ousada. E não vejo mais essa ousadia por lá. Hoje em dia, eles jamais dariam o espaço que o Boni deu para um autor estreante. A TV Globo virou uma empresa que produz entretenimento. Perdeu a ousadia. Burocratizou.

AB - É verdade que, em seis meses, você teve que ir 17 vezes à Brasília para discutir com os responsáveis pela censura?

MP - É verdade, sim. E olha que "Estúpido cupido" era novela das sete, hein? Imagine se fosse a das oito... (risos) Eu não podia escrever "ceroula" que o pessoal em Brasília já reclamava. Em vez de "ceroula", eu tinha que escrever "roupa íntima". Era impressionante!

AB - Sua última experiência em novelas foi "Bang bang", em 2006. Sente saudades?

MP - Na época de "Bang bang", fiquei esgotado: física e mentalmente. Foi muito doloroso. Escrevi seis capítulos e pulei fora. Quando escrevi "Estúpido cupido", um capítulo da novela tinha 18 páginas. Hoje em dia, tem 40. Logo, dei conta de que não conseguiria escrever 40 páginas por dia sozinho. Para piorar a situação, nunca trabalhei em equipe. Não sei delegar tarefas, dar esporro, essas coisas. O trabalho de escritor é muito solitário. Até gostaria, um dia, de escrever uma minissérie, algo menor, mas novela, não. Mentalmente, até consigo, mas, fisicamente, não. Sem condições.

AB - Você nunca pensou em transformar um de seus livros em série de TV?

MP - Pensei, sim. Pessoalmente, acho que o "Sete de paus" daria uma boa série policial. Um dia, quem sabe, vendo os direitos para alguma emissora. Primeiro, escrevo os livros e, depois, adapto os episódios. Vamos ver o que acontece...

AB - Atualmente, a Globo exibe uma nova versão para "O astro", de Janete Clair. Você não acha que "Estúpido cupido" daria um bom "remake"?

MP - Nunca pensei nisso. Volta e meia, encontro senhoras na rua que falam para mim que assistiram a "Estúpido cupido" quando eram crianças... Adaptar uma novela que já está pronta é muito mais fácil do que escrever uma trama do nada. Quando a história é original, você não tem tempo de parar para pensar no capítulo. O tempo que você tem para pensar nele é muito pequeno. O ritmo é muito corrido. Além de escrever novela, você também tem que dormir, comer, essas coisas. São 40 páginas por dia. É muita coisa! Se a novela já está pronta, como é o caso de "Estúpido cupido", isso facilita as coisas. Mas a Globo nunca pensou nisso. E eu também não. 

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Aguinaldo Silva promete discutir temas como ética e honestidade em 'Fina estampa'

André Bernardo | André Bernardo | 22/08/2011 19h12

Aguinaldo Silva se orgulha de ser o único autor de novelas da TV Globo a só escrever para o cobiçado horário das oito. E não é só isso. Das 16 novelas exibidas no horário durante a década que passou, "Senhora do Destino" foi a que atingiu a maior média de audiência: 50,4 pontos. Em seguida, estão "América", de Glória Perez, com 49,4 pontos; "Belíssima", de Silvio de Abreu, com 48,5; e "O Clone", também de Glória Perez, com 47. Esta noite, Aguinaldo Silva volta à TV com "Fina estampa", sua 13ª novela, que discute o que vale mais: a aparência ou o caráter? "Novela tem que ser exemplar. Afinal, você é assistido todas as noites por 40 milhões de brasileiros. É preciso deixar claro para esses 40 milhões de brasileiros que a ética e a honestidade devem prevalecer sempre", afirma.

A exemplo de suas mais recentes novelas, "Senhora do Destino" e "Duas Caras", Aguinaldo Silva define "Fina estampa" como "popular, urbana e profundamente brasileira". Em entrevista ao SRZD, ele conta que a personagem Griselda da Silva Pereira (Lilia Cabral) foi inspirada numa mulher que ele conheceu no final dos anos 70, quando morava no bairro de Santa Teresa, no Rio. Viúva e mãe de três filhos, a mulher logo se especializou em fazer pequenos consertos para sustentar a família. "Todas as minhas histórias giram em torno de famílias porque tenho verdadeira obsessão pelo tema. Em tempo de crises de valores, é sempre nela, a família, que devemos buscar apoio", garante.

André Bernardo - De onde surgiu a inspiração para escrever "Fina estampa"?

Aguinaldo Silva - A inspiração surgiu de uma mulher que eu conheci na década de 70, quando ainda morava em Santa Teresa. Ela não se chamava Griselda, mas era portuguesa e ficou viúva. Como tinha três filhos para sustentar, se especializou em fazer pequenos consertos. Ela era muito talentosa e competente no que fazia. Bem, essa personagem ficou guardada na minha memória até 2009, quando fiz a minha primeira "Master Class". Sugeri aos meus alunos que usássemos a Griselda para escrever uma sinopse. Foi daí que surgiu "Fina estampa".

AB - O que você pretende com "Fina estampa"?

AS - O que vale mais: a aparência ou o caráter? É essa a pergunta que "Fina estampa" vai deixar no ar. A certa altura, Griselda ganha na loteria e percebe que, apesar de ser uma mulher de caráter, está se transformando por causa do dinheiro. A história de "Fina estampa" gira em torno de família. Todas as minhas histórias, aliás, giram em torno de família. Tenho uma verdadeira obsessão pelo tema. Para mim, família é a base de tudo. Por isso, dou muito valor a ela. Em tempo de crise de valores, é sempre nela que devemos buscar apoio.

AB - E por falar em crise de valores: de uns tempos para cá, certos vilões, como Flora, de "A favorita", Clara, de "Passione", e Léo, de "Insensato coração", têm conquistado a simpatia do público, apesar de serem vilões. O que pensa disso?

AS - Eu acho que a novela precisa ser exemplar. O que eu quero dizer com isso? A novela não pode permitir que o vilão seja o preferido do público. O autor precisa evitar que isso aconteça. Por mais interessante que seja o vilão, ele tem que ser castigado no final. Faço questão absoluta que, nas minhas novelas, os personagens trabalhem, estudem, andem de ônibus, como qualquer pessoa. As pessoas não estão acostumadas a ver a Lília Cabral andando de ônibus em novelas. Ela só faz mulheres sofisticadíssimas, não é mesmo? Faço questão que os meus personagens sejam pessoas comuns. E que a ética e a honestidade prevaleçam sempre sobre a anarquia e o caos.

AB - Mas, "Fina estampa" também vai ter uma vilã, Tereza Cristina (Christiane Torloni)...

AS - Sim, claro! Mas os meus vilões são diferentes da maioria dos vilões. Os meus vilões são muito "fake". Eles sempre falham muito, cometem as maiores burradas. Os meus vilões, para falar a verdade, lembram muito o Tom, da dupla Tom & Jerry. Há cem anos, aquele gato está tentando capturar aquele rato e nunca consegue... (risos) Meus vilões são engraçados por causa disso. As pessoas riem deles. Mas, no final das contas, quem tem que prevalecer é o protagonista e não o antagonista.

AB - Em "Fina estampa", a personagem de Griselda (Lilia Cabral) não será aceita pelo filho (Caio Castro), um estudante de Medicina que sente vergonha de sua origem humilde. Curiosamente, esse mote foi usado, recentemente, em "Morde & assopra", de Walcyr Carrasco. Isso não esvazia "Fina estampa"?

AS - Não. Até porque quem contou essa história para o Walcyr fui eu, em um jantar, em maio de 2010. Aliás, tenho testemunhas disso... (risos) Cada um conta a história de um jeito diferente. Claro que a personagem dele (que a Cássia Kiss está fazendo brilhantemente bem!) está à beira da debilidade mental. Já a Griselda é "safa" e inteligente. E tem remédio para tudo. São duas personagens completamente diferentes.

AB - "Fina estampa" vai discutir o tema da violência doméstica, certo? Por quê?

AS - Eu sempre quis falar sobre isso. Por que as mulheres se submetem à violência doméstica? Por que elas não se revoltam contra os seus companheiros? Esse problema é mais complicado do que aparenta. Quero discutir o que leva uma mulher como a Celeste (Dira Paes) a permanecer tão servil, apesar de tudo o que ela sofre nas mãos do marido (Alexandre Nero). Por que algumas mulheres revidam e outras aceitam tão passivamente? Não sei... Quero descobrir. 

Claudino Mayer analisa três dos mais famosos assassinatos em novelas no livro 'Quem matou?'

André Bernardo | André Bernardo | 15/08/2011 18h46

Claudino Mayer não é detetive particular ou investigador da polícia. Mesmo assim, não pode ver um assassinato em novelas que quer logo decifrá-lo. Tem sido assim desde os oito anos, quando ele (e o Brasil inteiro!) testemunhou o assassinato de um certo Salomão Hayala (Dionísio Azevedo) na novela "O astro", escrita por Janete Clair. Logo, Claudino reuniu as pistas, ouviu os suspeitos e analisou os álibis. E não concordou muito quando, no dia 8 de julho de 1978, descobriu que o assassino de Salomão era Felipe Cerqueira (Edwin Luisi), o jovem amante de Clô (Tereza Rachel), a mulher de Salomão. "Qualquer um pode ter matado o Salomão. Isso, para mim, não tinha lógica nem coerência numa trama que envolve o gênero policial", argumenta.

Hoje, aos 41 anos, o doutorando em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) continua a investigar homicídios nas telenovelas. Tanto que reuniu três deles - o de Salomão Hayala em "O astro", o de Odete Roitman em "Vale tudo" e do serial-killer em "A próxima vítima" - no livro "Quem matou... O romance policial na telenovela". "Nasci em uma família humilde e, na infância, o meu único meio de entretenimento era a telenovela. Na maioridade, decidi estudá-la para demonstrar a importância deste gênero que é vista, por muitos, como algo menor e desinteressante", justifica.

André Bernardo - Por que alguns assassinatos em novela conseguem mobilizar tanto a opinião pública enquanto outros, ao contrário, passam quase despercebidos?

Claudino Mayer - Os crimes da telenovela despertam atenção porque dependem da maneira como o autor está escrevendo, dos personagens que estão diretamente ligados ao crime, do elenco ou do ator, entre outros elementos. Um crime, para ter mais destaque em uma trama, precisa ter um grande ator representando o personagem. Esse ator precisa ter uma empatia e familiaridade com o público telespectador. Por exemplo, atores como Glória Pires, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Marília Pêra, Tony Ramos, Regina Duarte... Se um desses atores for "vítima", com toda certeza, o crime terá destaque e repercussão junto à mídia e ao público. Quando o ator é "desconhecido", o crime passa despercebido. Percebe-se isso na telenovela "Morde & assopra", do Walcyr Carrasco, quando o personagem do delegado, interpretado por Tarcísio Filho, foi morto com uma pedrada na cabeça.

AB - Qual teria sido a primeira novela a lançar mão do recurso do "Quem matou?": "O sheik de Agadir", de Glória Magadan, ou "Véu de noiva", de Janete Clair?

CM - Não sei afirmar qual telenovela lançou o recurso do "Quem matou?". Antes dessas, talvez alguma outra tenha utilizado o recurso, mas de maneira não tão clara para o público e imprensa. Posso afirmar que foi Janete, desde "Véu de noiva", que desenvolveu com mais veemência o recurso. Na novela "O astro", Janete trabalhou mais o recurso do "Quem matou?", transformando a narrativa num jogo enigmático para o público descobrir o possível assassino. Ela brincou muito bem com duas palavras coloquiais e, com isso, mobilizou o Brasil com a pergunta "Quem matou?". Vale ressaltar que, na telenovela "O rebu", Bráulio Pedroso também recorreu ao recurso. A novela era estritamente policial, mas não obteve a mesma repercussão de "O astro".

AB - Quando você começou a se interessar pelo tema?

CM - O interesse pelo tema surgiu há muito tempo, desde que assisti à novela "O astro" quando tinha 8 anos. Na ocasião, não concordei com o desfecho dado ao assassino. Essa indagação foi aumentando na medida em que assistia a telenovelas, como "Vale tudo", "A próxima vítima", entre outras. Ao ingressar na universidade, comecei a esboçar um projeto sobre o "Quem matou?" na teledramaturgia. No mestrado, resolvi, finalmente, desenvolver uma pesquisa sobre o assunto.

AB - Dos três casos estudados no livro, qual deles é o seu favorito?

CM - Eu escolheria os três porque eles foram o objeto do meu estudo. Cada crime teve sua importância num determinado tempo e espaço. Os crimes dessas telenovelas retrataram de alguma forma elementos de uma época da sociedade e, por isso, obtiveram repercussão na mídia e do público em geral.

AB - A que você atribui o recente sucesso de "Vale tudo" na reprise do Canal Vivo. Pode-se dizer que esse sucesso tenha a ver com o assassinato de Odete Roitman (Beatriz Segall)?

CM - De certa maneira, a morte da Odete Roitman está presente na memória da sociedade. A Odete se tornou um mito. O assassinato dela foi um dos elementos mais importantes para "legitimar" a trama de "Vale tudo". Ou seja, o crime foi significativo no conjunto da obra. Além do crime, a narrativa da telenovela trouxe uma realidade com base na sociedade que não era muito percebida pelas telenovelas da época, quase que um retrato real do país. "Vale tudo" trazia conflitos, desejos e aspirações na busca por algo melhor. Alimentava a vida de cada telespectador ao afirmar, através da narrativa da Raquel (Regina Duarte), que só se vence na vida através da força do trabalho e da honestidade.

AB - Você já tem um palpite sobre quem será o assassino de Salomão Hayala na nova versão de "O Astro"?

CM - Não, ainda não. No momento, estou aguardando mais pistas dos autores Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro. Ainda é cedo para identificar, entre os onze suspeitos, quem poderia ter matado o Salomão Hayala. Segundo a teoria e o método apresentados no meu livro, pode-se chegar ao possível assassino. Para descobrir a identidade dele, é preciso levar em consideração alguns fatores. No livro, inclusive, dou pistas para que o leitor acerte o criminoso em uma trama de telenovela. Mesmo assim, convém lembrar ao telespectador que o assassino de uma telenovela obedece à lógica da audiência. Ou seja, se a imprensa descobrir a identidade dele, o autor pode mudá-la imediatamente.

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Ricardo Linhares antecipa detalhes dos próximos capítulos de 'Insensato coração'

André Bernardo | André Bernardo | 13/07/2011 13h49

O início de "Insensato coração" não poderia ter sido mais conturbado. Primeiro, Fábio Assunção e Ana Paula Arósio, escalados para interpretar Leonardo Brandão e Marina Drumond, declinam do convite. Depois, a sinopse de 98 páginas vazou misteriosamente na internet, revelando os desfechos imaginados por Gilberto Braga e Ricardo Linhares para os personagens. A pouco mais de um mês para o final de "Insensato", que termina dia 20 de agosto, Ricardo Linhares elogia as atuações de Gabriel Braga Nunes e Paola Oliveira e minimiza o estrago causado pelo vazamento da sinopse. "Mais importante do que a maneira como uma novela começa, é a maneira como ela termina. Por isso, estamos satisfeitos com a repercussão da novela. Em relação ao Gabriel e a Paola, não consigo mais imaginar o Leo e a Marina sendo interpretados por outros atores. Quanto à sinopse, você não precisa seguir ao pé da letra tudo o que está lá. Se eu quiser mudar a história no meio do caminho, eu mudo", garante.

Por isso mesmo, Ricardo ainda não sabe se Léo (Gabriel Braga Nunes) vai realmente ser assassinado, conforme estava previsto na sinopse original. Da mesma maneira, ele e Gilberto voltaram atrás na hora de matar a dissimulada Tia Neném (Ana Lúcia Torres). "O excepcional trabalho da atriz salvou Tia Neném de morrer a facadas", brinca o autor. Com 14 novelas no currículo, entre colaborações, coautorias e dois trabalhos-solos - "Meu bem-querer" e "Agora é que são elas" -, Ricardo Linhares ri da tese que afirma que "Insensato coração" é a novela recordista em número de mortes. Mas admite que sempre que há um assassinato qualquer os picos de audiência disparam. "Se a gente parar para contar, tem mais gente viva do que morta na novela. Mas a morte sempre chama mais a atenção, não é mesmo?", graceja. Em entrevista ao SRZD, Ricardo fala dos próximos capítulos de "Insensato coração", comenta a audiência da novela e elogia a parceria com Gilberto Braga.

André Bernardo - É verdade que o Léo (Gabriel Braga Nunes) deve morrer nos próximos capítulos?

Ricardo Linhares - Isso ainda não está decidido. Segundo a sinopse original, o Léo estava marcado para morrer. Mas ainda não decidimos o que vai acontecer com ele. A sinopse vazou na internet, sim, mas acredite: ainda temos boas surpresas guardadas para o público.

AB - O fato de a sinopse ter vazado causou transtornos? Vocês tiveram que fazer alterações na história?

RL - Olha, o público não está muito aí para sinopse de novela. Se o fato de a sinopse ter vazado ou não, isso interessa mais à imprensa do que ao público em si. O público quer ver o capítulo no ar e gostar dele. É isso o que importa. Quanto à sinopse, você não precisa seguir ao pé da letra tudo o que está escrito lá. Se eu quiser mudar a história no meio do caminho, eu mudo. E algumas coisas da sinopse de "Insensato Coração" foram mudadas. Mas não porque a sinopse vazou e, sim, por causa do processo natural da história.

AB - Você pode dar um exemplo de algo que não estava previsto na sinopse?

RL - A personagem da Tia Neném é um bom exemplo disso. Segundo a sinopse, ela estava marcada para morrer a facadas. Mas, graças ao trabalho excepcional da Ana Lúcia Torres, a Tia Neném está aí até hoje. Novela também é uma "caixinha de surpresa". Você nunca sabe exatamente o que vai acontecer no capítulo de amanhã. 

AB - Até o momento, já foram contabilizadas 17 mortes na novela. Assassinato dá audiência?

RL - Isso já está virando lenda... (risos) Não é verdade que esteja todo mundo morrendo em "Insensato Coração". Se a gente for parar para contar, tem mais gente viva do que morta... (risos) Mas a morte sempre chama mais a atenção, não é mesmo? Curiosamente, os grandes picos de audiência da novela foram registrados em capítulos onde alguém morreu, acredita? Bem, o que acontece é o seguinte: sempre tive muita preocupação com o elenco das minhas novelas. Não gosto de ter um personagem na novela se ele não tiver função na trama. Prefiro escalar um ator para fazer uma participação especial e sair logo em seguida a ficar enrolando o ator por vários capítulos sem ter nada o que fazer. Por isso, há tantas mortes. Mas, as participações especiais dão uma dinâmica à novela.

AB - Curiosamente, você não esperou os capítulos finais para punir os vilões e casar os mocinhos. Por quê?

RL - Eu e Gilberto não gostamos de prender história. Se temos uma história boa para contar, gostamos de contá-la logo. Por que segurar a trama? Sim, o Léo (Gabriel Braga Nunes) e o Cortez (Herson Capri) foram desmascarados a dois meses do final da novela. O Pedro (Humberto Leão) e a Marina (Paola Oliveira) também vão casar nos próximos capítulos.

AB - A propósito, Gabriel Braga Nunes e Paola Oliveira não foram as primeiras opções para Léo e Marina. O que achou da atuação deles?

RL - Estou totalmente satisfeito. Costumo falar que não interessa como uma novela começa e, sim, como ela termina. E isso é verdade. Os dois imprimiram a marca deles no papel. O Gabriel está trabalhando tão bem que a mãe dele (a atriz Regina Braga) se recusa a ver as cenas do filho. Hoje em dia, não consigo mais imaginar o Léo e a Marina sendo interpretados por outros atores.

AB - Há poucos dias, vocês exibiram a cena em que Cortez (Herson Capri) repete a "banana" que Marco Aurélio (Reginaldo Faria) deu para o Brasil na novela "Vale Tudo"? O que mudou nestes 23 anos?

RL - O que mudou foi o Brasil. Antigamente, o corrupto dava uma banana e fugia. Hoje em dia, ele dá uma banana e é preso. Cortez está sendo devidamente preso, julgado e condenado por crimes contra o sistema financeiro. Eu e Gilberto quisemos mostrar, através de uma cena que ficou marcante no imaginário popular, que o Brasil está passando por uma transformação. Hoje em dia, há vários casos de corruptos que estão sendo punidos. É curioso notar que o público sempre torce mais pelos vilões. Mas isso ao longo da novela porque, no último capítulo, os vilões têm sempre que se dar mal. Sou totalmente a favor dos finais felizes. Para mim, os heróis têm que se casar e os vilões têm que ser punidos pelo que fizeram.

AB - Das muitas tramas de "Insensato Coração", qual mais surpreendeu você?

RL - A trajetória da Norma (Glória Pires) é um tanto surpreendente. Sempre achei que o público gostaria da Norma porque ela foi vítima de uma injustiça no início da novela. Mas chegou a um ponto em que o público perdoa a Norma mesmo depois de ela roubar, enganar, matar... Isso me surpreendeu um pouco. A ética brasileira é meio elástica. Você lembra da Bebel (Camila Pitanga), de "Paraíso tropical"? Pois é. A Bebel fazia as maiores atrocidades e o público adorava ela. Em relação a Norma, o que eu posso dizer é que ela nunca deixou de gostar do Leo. O que ela sente por ele não é desejo de vingança; é amor, é paixão. Se ela quisesse se livrar do Léo, já teria entregado ele à polícia ou encomendado a morte dele para algum matador de aluguel, não é verdade? O que ela quer é ter o Léo sob as suas garras.

AB - O que você pode adiantar sobre o namoro de Hugo (Marcos Damigo) e Eduardo (Rodrigo Andrade)? Como o público está reagindo?

RL - Personagens gays não devem nunca ser empurrados goela abaixo do público. Pelo contrário. O tema precisa sempre ser abordado de maneira lenta, gradual e delicada. Para o público aceitá-los e, principalmente, torcer por eles, é preciso que, em primeiro lugar, o público goste deles. E acho que o público está gostando do Hugo e do Eduardo. O Hugo é um professor respeitado. O Eduardo é um filho maravilhoso. Os personagens não são estereotipados. Acho que o público aprovou a proposta.

AB - A homofobia é um dos principais temas da novela. O que pretendem com essa abordagem?

RL - A novela "Insensato coração" está ajudando a divulgar uma lei que a maioria das pessoas desconhece. Não há lei que proíba a troca de afeto entre duas pessoas em público. Veja bem: não estou falando de atentado ao pudor. Novela tem que ser entretenimento (se ela for chata, ninguém assiste) e informação. É preciso que a TV divulgue temas que as pessoas desconhecem. Nos próximos capítulos, a violência contra gays vai crescer ainda mais. Esses ataques vão culminar com a morte de um deles, o Gilvan (Miguel Roncato). O preconceito é um tema importante a ser discutido em sociedade. Quero que a novela vire fórum de discussão para as famílias brasileiras.

AB - Na reta final, a audiência de "Insensato coração" chegou à casa dos 45 pontos. Como você analisa os números do ibope?

RL - Em nenhum momento, enfrentamos qualquer tipo de concorrência no ibope. Sempre tivemos mais que o dobro dos outros programas exibidos no mesmo horário. "Insensato coração" sempre teve uma audiência maravilhosa. O que caiu, de fato, foi a audiência da TV aberta no Brasil. Hoje em dia, as pessoas veem novela no celular, YouTube, internet, entre outras mídias. Pouca gente assiste no horário convencional. Conheço pessoas que veem o capítulo de madrugada ou no dia seguinte. O mundo mudou. E o comportamento do telespectador de TV aberta também. Não é o mesmo de 20 ou 30 anos.

AB - "Insensato coração" é a segunda novela escrita a quatro mãos por você e pelo Gilberto. Como vê essa parceria?

RL - Eu e o Gilberto temos uma parceria muito legal. Não sei explicar direito o que é. Química? Intuição? Não sei. Só sei que a gente se completa em muitos aspectos. Isso sem falar que o Gilberto é um ídolo para mim. Eu assisti à novela "Dancin’ Days" quando tinha 14 anos! Quando eu podia imaginar que, um dia, estaria trabalhando com ele? (risos) Entre nós, não existe briga, conflito, vaidade. Isso é muito legal.

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Maria Elisa Berredo fala da parceria com o autor Aguinaldo Silva na série 'Lara com Z'

André Bernardo | André Bernardo | 07/07/2011 21h06

Há dois anos, Aguinaldo Silva resolveu tomar uma decisão radical: reformular sua equipe de colaboradores. Para tanto, tirou dinheiro do próprio bolso para financiar uma oficina de roteiro, a Master Class, de onde selecionou 5 entre os 30 participantes para ajudá-lo a escrever sua próxima novela: "Fina estampa", que estreia no dia 22 de agosto. Na ocasião, Aguinaldo Silva ainda promoveu uma de suas fiéis colaboradoras, Maria Elisa Berredo - com quem trabalha desde "A indomada", de 1997 - a coautora de "Cinquentinha", exibida pela TV Globo em dezembro de 2009. Ao que tudo indica, a parceria deu tão certo que foi reeditada em "Lara com Z", um "spin-off" de "Cinquentinha". "Eu e Aguinaldo temos muita coisa em comum. Uma delas é o senso de humor. A outra é o hábito de ver seriado. Gostamos muito do gênero", afirma a autora, parceira de Aguinaldo em novelas como "Porto dos milagres", "Senhora do destino" e "Duas caras".

O último episódio de "Lara com Z" vai ao ar hoje. Mas Maria Elisa Berredo não vai ter tempo de sentir saudade do trabalho. Ela e Aguinaldo já estão escrevendo "Fina estampa" desde o início do ano. Além deles, a próxima novela das nove terá como equipe de colaboradores: Meg Santos, Rodrigo Ribeiro, Eduardo Nassife, Brunno Pires e Maurício Gyboski. Sobre o tão sonhado dia em que vai estrear como autora-solo, Maria Elisa acredita que este seja mesmo o caminho a seguir. "Assumir a coautoria de ‘Cinquentinha’ e ‘Lara com Z’ já foi um grande passo. Mas o próximo, com certeza, será escrever a minha própria novela", garante.

André Bernardo - O que você mais admira no estilo do Aguinaldo Silva?

Maria Elisa Berredo - O senso de humor dele. O grande barato do Aguinaldo é criar personagens que você conhece. Sabe aquela sensação: "Ei, peraí, conheço esse cara de algum lugar..."? (risos) Por mais ousado ou caricato que um personagem possa ser, eles são facilmente identificáveis. Os personagens do Aguinaldo têm vida, história e, principalmente, senso de humor. Isso é admirável!

AB - Como surgiu a ideia de passar de colaboradora para coautora?

MEB - Olha, eu e Aguinaldo gostamos muito de seriado. Muito mesmo! E ele ficou muito animado com a ideia de escrever um seriado para a Globo. Daí, ele me convidou para participar de "Cinquentinha". A coisa funcionou e escrevemos "Lara com Z" juntos.

AB - O Aguinaldo gosta muito de "Família Soprano". E você, quais os seus seriados favoritos?

MEB - Também adoro "Família Soprano". Mas gosto também de "Desperate Housewives", "House", "Brothers and Sisters"... "Brothers and Sisters", aliás, é um grande novelão. Gosto também dos seriados de lei.

AB - Você acha que, um dia, os autores brasileiros vão escrever seriado tão bem quanto os americanos? Ou será que eles já escrevem?

MEB - Não, ainda não escrevem não. O que eu acho é que o público brasileiro de TV aberta não tem cultura de seriado. E as emissoras de TV, por sua vez, ainda têm receio de investir mais em seriado. Isso atrapalha um pouco. Lá, os roteiristas americanos escrevem seriados há décadas, como nós escrevemos novelas há décadas. Eles nunca escreveriam novelas tão bem quanto a gente. E a gente, também, ainda vai ter que ralar muito para escrever seriado tão bem quanto eles.

AB - Na sua opinião, "Lara com Z" tem fôlego para mais uma temporada?

MEB - Acho que sim. Sempre tem. Se depender de nós, "Lara com Z" tem fôlego até para mais de uma temporada. (risos)

AB - Você já pensa no dia em que vai estrear como autora-solo?

MEB - Olha, acho que isso é consequência natural do meu trabalho. Daqui a pouco, penso eu, é esse mesmo o caminho. Até porque a TV Globo já investe em mim há muitos anos. Assumir a coautoria de "Cinquentinha" e "Lara com Z" já foi um grande passo. Mas o próximo, com certeza, vai ser escrever a minha própria novela.

Coordenador da oficina de roteiristas da TV Globo, Flávio de Campos fala da arte de formar novos autores

André Bernardo | André Bernardo | 29/06/2011 14h22

Entre os milhares de telespectadores que, todas as noites, assistem à novela "Cordel encantado", de Thelma Guedes e Duca Rachid, um, muito em particular, torce pelo sucesso delas: Flávio de Campos. Coordenador da Oficina de Roteiristas da TV Globo desde 1990, já perdeu a conta do número de candidatos que passaram por lá. Mas admite que, por motivos óbvios, não se esquece de alguns deles. Como Thelma Guedes, que participou da Oficina em 1997. Outros autores famosos que Flávio de Campos ajudou a formar são: Elizabeth Jhin, autora de "Escrito nas estrelas"; Tiago Santiago, de "Amor e revolução" e Vincent Villari, colaborador de "Tititi". "A sensação de ter empurrado uma pessoa a um sucesso para o qual ela já se dirigia traz muita felicidade", admite.

É por essas e outras que a Oficina da Globo é o sonho de dez entre dez aspirantes a autores de novela. Além de coordená-la, Flávio de Campos é também "script-doctor", ou seja, "consultor técnico que emite pareceres e atua junto ao roteirista, no sentido de otimizar o seu roteiro". Formado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Artes Dramáticas pela Universidade de Berkeley, na Califórnia, Flávio já aventurou-se como colaborador nas novelas "Pedra sobre pedra" e "Fera ferida", ambas escritas por Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn. "Novela me intimida, pelo tamanho do seu universo narrativo e pelo que exige do tempo e da saúde dos seus roteiristas", confessa.

André Bernardo - Desde 1984, a TV Globo promove, periodicamente, cursos para formar novos autores. Como você chegou a coordenador da Oficina de Roteiristas da emissora?

Flávio de Campos - Em 1984, a Oficina de Roteiristas era coordenada pelo Doc Comparato. Neste período, fui um de seus professores. Assumi a coordenação da Oficina em 1990, a convite de Ary Nogueira, o Diretor de Recursos Artísticos. Estas oficinas visavam a descobrir talentos pelo Brasil e oferecer à TV Globo estes talentos, treinados em roteiro para televisão.

AB - Desde 1990, você ajudou a formar dezenas de autores como Elizabeth Jhin, Tiago Santiago, Thelma Guedes, Vincent Villari, Patrícia Moretzsohn e Ricardo Hofstetter, só para citar alguns. Calcula quantos roteiristas, ao longo desses anos, já tiveram aulas com você?

FC - Xiii, perdi a conta! (risos) Se foram 21 anos até agora, e se foi uma média de duas oficinas por ano, e se foram 15 roteiristas por turma, a gente chega a um total de 630 roteiristas. Mas, atente, são raros os Vincents Villaris e as Thelmas Guedes. Desses 630, portanto, meus assessores e eu indicamos para contrato uma fração disso.

AB - Até pouco tempo atrás, a Oficina de Roteiristas da Globo era aberta ao público em geral, através da inscrição de trabalhos inspirados em poemas como "Quadrilha" e "O caso do vestido", de Carlos Drummond de Andrade. O que mudou? A Globo continua a promover tais oficinas?

FC - Não tenho ingerência sobre o processo de "garimpagem" e seleção dos alunos das oficinas mais recentes. Hoje, sou chamado para dar uma oficina e, feliz da vida, vou lá e dou.

AB - Na sua opinião, o que leva alguém a querer seguir a vida de roteirista de TV? E qual é a maior virtude que um bom roteirista precisa ter? Disciplina, Criatividade, Imaginação?

FC - Primeiro, tentemos falar sobre o que leva uma pessoa a escrever ficção. Talvez para se livrar de estórias que borbulham na sua cabeça, talvez para narrar, sem as "gorduras" da realidade, determinados eventos e situações, talvez para reunir num personagem várias pessoas representativas de um determinado comportamento, talvez... Nossos critérios para indicar um aluno para contrato - além de imaginação fértil, inteligência visual, talento para criar, desenvolver e tecer tramas e personagens dramáticos - são a capacidade de escrever especificamente para TV, ou seja, falar com um espectador afeito a narrativas específicas e que tem, em torno de si, eventos dispersivos às pencas - pessoas passando entre ele e a TV, telefone tocando, tela pequena, etc. Acrescente a isso, a capacidade de trabalhar duro e em equipe. E muita gente escreve para TV porque é bem pago.

AB - Qual é a sensação de ver alguns de seus ex-alunos, como Tiago Santiago, Elizabeth Jhin e Thelma Guedes, despontando, não só na Globo, mas em outras emissoras, como autores de sucesso?

FC - Traz muita felicidade esta sensação de ter empurrado uma pessoa a um sucesso para o qual ela já se dirigia.

AB - Você atuou como colaborador em "Pedra sobre pedra", de 1992, e "Fera ferida", de 93. Já pensou em escrever sua própria novela?

FC - Novela me intimida, pelo tamanho do seu universo narrativo e pelo que exige do tempo e da saúde dos seus roteiristas.

AB - Em 2007, você lançou "Roteiro de Cinema e Televisão" pela Editora Jorge Zahar. Manuais de roteiro, como os de Doc Comparato, Marcos Rey e Sid Field, existem muitos. Qual é o diferencial do seu?

FC - O foco do meu livro é a percepção da realidade, sua tradução para uma massa de estória ficcional e, em menor grau, a organização desta massa de estória numa forma narrativa. Creio que o foco dos autores que você citou está, principal ou exclusivamente, no terceiro momento do trabalho do escritor/roteirista. Por focar nos momentos de trabalho que antecedem à organização de uma forma narrativa específica, meu livro e os demais se complementam.

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Alcides Nogueira revela detalhes da nova versão de 'O astro'

SRZD | André Bernardo | 22/06/2011 22h45

Desde que foi convidado pelo diretor Roberto Talma para escrever uma nova versão para a novela "O astro", escrita por Janete Clair, Alcides Nogueira tem rezado, todas as noites, para a "Nossa Senhora das Oito". Entre outras coisas, pede à "padroeira dos novelistas" para abençoar a difícil tarefa que tem pela frente de revisitar a clássica história de Herculano Quintanilha, um dos mais carismáticos personagens da teledramaturgia brasileira. Na versão original, o protagonista foi interpretado por Francisco Cuoco. Na releitura de Alcides Nogueira, que estreia no próximo dia 12 de julho, às 22h30, será vivido por Rodrigo Lombardi (foto). "Há poucos dias, a (Elizabeth) Savalla me ligou e disse que tinha sonhado com a Janete Clair. No sonho, Janete teria dito a ela que nós estávamos no caminho certo. Ou seja, se algo der errado, a gente põe a culpa na Savalla", diverte-se Alcides, que está escrevendo o "remake" de "O astro" em parceria com Geraldo Carneiro.

Exibida entre 1977 e 78, a novela "O astro" foi uma das primeiras a apostar no recurso do "Quem matou?". O mistério em torno do assassinato do empresário libanês Salomão Hayala (Dionísio Azevedo) parou o país. Literalmente. Após a exibição do último capítulo, o poeta Carlos Drummond de Andrade chegou a publicar uma crônica no "Jornal do Brasil", chamando Janete Clair de "Usineira de Sonhos" e convocando o povo brasileiro a voltar para a realidade. Na ocasião, Alcides Nogueira Pinto era um jovem dramaturgo de 28 anos, que tinha acabado de montar sua primeira peça, "A farsa da noiva bombardeada". Embora não fosse um autêntico "noveleiro", logo se rendeu ao fascínio de Herculano Quintanilha, o vidente trapaceiro que fazia de tudo para subir na vida. "A Janete teve um insight maravilhoso ao criar um herói dúbio. Você nunca sabia o que esperar dele. A genialidade da Janete não envelhece jamais", elogia Alcides.

André Bernardo - Qual é a maior dificuldade de transformar uma novela de 186 capítulos em outra de apenas 60?

Alcides Nogueira - Por melhor que seja um autor, uma novela de 100 e tantos capítulos sempre tem "barriguinhas" indesejadas. A partir do momento que temos um produto menor em mãos, podemos concentrar mais a trama. Desde o começo, tivemos plena liberdade para adaptar "O astro". Logo, deixei claro que não queria fazer um remake. Aliás, detesto esse nome. Queria fazer uma nova versão. Por isso, optamos por uma linguagem moderna e contemporânea. Estamos buscando um equilíbrio entre a imagem e o texto. Eu e o Geraldinho somos amantes da palavra.

AB - Que avaliação você faz deste novo formato de teledramaturgia, entre a novela e a minissérie?

AN - Acho um formato bastante interessante. Novela mais curta, aliás, é um pedido antigo que todos os autores fazem. O público gosta de histórias mais rápidas, condensadas. Com novelas menores, conquistamos uma maior fidelização por parte do público. Ao mesmo tempo, dá para você caprichar mais. O trabalho é mais artesanal. Acho que, no final das contas, todo mundo sai ganhando. Autores, público, elenco...

AB - A novela "O astro" é considerada uma das obras-primas da TV brasileira. Não é arriscado revisitar uma obra-prima? Ou obras-primas existem para serem revisitadas?

AN - A Janete foi uma autora tão fantástica que, apesar de ter sido escrita em 1977, a novela "O astro" conserva pilares muito sólidos. Seria bobagem mexer neles. O que eu busco é encontrar uma nova fórmula para contar aquela mesma história. O que estou tentando, 30 e tantos anos depois, é adequar a trama da Janete para os dias de hoje. Por isso, criamos núcleos e personagens que não existiam na versão original. O que antes era uma barbearia, por exemplo, virou salão de beleza. Mas, basicamente, a estrutura de "O astro" é a mesma que a Janete nos deixou. Não teria sentido mudá-la.

AB - Não é a primeira vez que uma obra de Janete Clair ganha releitura na TV. Curiosamente, as novas versões de "Selva de pedra", "Irmãos Coragem" e "Pecado capital" não repetiram o sucesso das originais. Isso preocupa?

AN - Eu prefiro não pensar nisso. Hoje em dia, nada do que você faz em TV é garantia de sucesso. Absolutamente nada. O imponderável é que manda. O que eu tenho em mãos é uma história maravilhosa, mas eu não tenho a relação com o público definida. Vou ter que ganhar a confiança do público como qualquer outra novela. Isso é um desafio e tanto.

AB - O assassinato de Salomão Hayala (Dionísio Azevedo) foi um dos mais comentados da teledramaturgia brasileira. Você pretende manter o assassino original ou cogita mudar a identidade dele?

AN - Olha, isso é segredo de estado! Nem sob tortura, confesso. (risos) Pode ser que o assassino seja o Felipe Cerqueira, mas pode ser que seja qualquer outra personagem. O Salomão Hayala pode até ter se suicidado, quem sabe? (risos)

Globo Marcas lança box da novela 'Irmãos Coragem', escrita por Janete Clair

André Bernardo | André Bernardo | 15/06/2011 22h32

Foi em uma conversa com o diretor Daniel Filho que Janete Clair teve a ideia de escrever aquela que seria uma de suas obras-primas: a novela "Irmãos Coragem". O diretor discorria sobre o cineasta italiano Sergio Leone e os muitos filmes de western que celebrizou, como "Por Um Punhado de Dólares", de 1964, e "Era Uma Vez no Oeste", de 1968, quando a autora resolveu transpor o gênero para a teledramaturgia brasileira.

Em vez de uma cidadezinha qualquer no Velho Oeste, Janete Clair ambientou a história na fictícia Coroado, uma vila no interior de Goiás. No centro da trama, dois valentes garimpeiros - os irmãos João e Jerônimo Coragem (Tarcísio Meira e Cláudio Cavalcanti) - assumiram os papéis dos destemidos caubóis. Assim, na noite de 08 de junho de 1970, foi ao ar o primeiro dos 328 capítulos de "Irmãos Coragem", que a Globo Marcas acaba de lançar em DVD.

"’Irmãos Coragem’ foi a primeira novela a conquistar, definitivamente, a adesão do público masculino. Antes dela, os homens tinham vergonha de admitir que viam novelas", recorda Tarcísio Meira, figura onipresente em muitas das novelas escritas por Janete Clair, como "Sangue e Areia", "Rosa Rebelde", "O Homem que Deve Morrer", "O Semideus" e "O Coração Alado".

Mas, como 1970 era ano de Copa do Mundo, Janete Clair resolveu transformar um dos três personagens-título em jogador de futebol. Afinal, não queria que aquela novela, assumidamente rural, afugentasse o público urbano. Assim, surgiu Eduardo Coragem, o Duda (Cláudio Marzo). Enquanto João e Jerônimo lutavam para reaver o diamante roubado, Duda sonhava em virar craque no Flamengo.

"Janete Clair criou três personagens principais e praticamente três novelas diferentes. Juntas numa só, enfrentou, sem problemas, a tarefa de manter uma única novela no ar por mais de um ano", destaca o jornalista Artur Xexéo, autor do livro "Janete Clair - A Usineira de Sonhos". De fato, enquanto uma novela durava de seis a oito meses, com uma média de capítulos que variava de 120 a 200, "Irmãos Coragem" chegou a 328.

No ranking das novelas mais longas da TV Globo, "Irmãos Coragem" só perde para "A grande mentira", escrita por Hedy Maia, que alcançou inacreditáveis 341 capítulos. "Naquela época, não existiam colaboradores. Era só a Janete e a máquina de escrever dela. Janete realizou a façanha de escrever uma novela de 320 capítulos num tempo em que não havia internet, computador ou celular", enaltece Cláudio Cavalcanti. 

A exemplo de tantas outras exibidas na época da ditadura, "Irmãos Coragem" também enfrentou problemas com a censura. No Brasil do general Emílio Garrastazu Médici, o governo militar perseguia partidos de esquerda e torturava presos políticos. Na Coroado do tirânico Pedro Barros, também. Mas nem a duração excessiva da trama, nem a sempre indesejada interferência da censura, arrefeceu os ânimos do elenco.

Quem garante é o ator e diretor Milton Gonçalves, que substituiu Daniel Filho a partir do capítulo 74 de "Irmãos Coragem". "Foi muito cansativo, sim, mas muito prazeroso também. Afinal, fazíamos o que gostávamos. Às vezes, chegávamos a trabalhar até 18 horas por dia", calcula Milton, que conciliava a direção geral da novela com a interpretação do personagem Brás.

O sucesso de "Irmãos Coragem" foi tanto que, em 1995, a TV Globo convidou Dias Gomes, o viúvo de Janete Clair, para fazer um "remake" da novela. Para os papéis de João, Jerônimo e Duda, foram escalados, respectivamente, Marcos Palmeira, Ilya São Paulo e Marcos Winter. O fiasco, porém, gerou até um troca-troca de diretores: Luiz Fernando Carvalho cedeu o lugar para Reynaldo Boury.
 
"Se você fica muito preso ao original, o 'remake' não dá certo. ‘Irmãos Coragem’ só deslanchou depois que o Dias Gomes me deu plena liberdade para mudar o que fosse preciso", acredita o autor Marcílio Moraes, um dos responsáveis pela adaptação. Para homenagear a atriz Regina Duarte, o diretor Luiz Fernando Carvalho convidou sua filha, Gabriela, para interpretar o papel que foi de sua mãe na versão original, Ritinha.

"Janete Clair tinha um despudor romântico admirável. Ela dizia que, havendo convicção por parte do autor, da direção e de toda a equipe, o público adora acreditar nas propostas ficcionais mais inacreditáveis", destaca Regina Duarte. "Na teledramaturgia de hoje, existe um compromisso cada vez maior com a coerência e isso, muitas vezes, pode enfraquecer as tramas. Fica tudo meio com cara de documentário", conclui.

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Guel Arraes fala da versão televisiva do longa-metragem 'A mulher invisível'

André Bernardo | André Bernardo | 10/06/2011 20h07

Se Guel Arraes fosse jogador de futebol, seria daqueles que bate o escanteio e corre para cabecear. Além de ser um dos diretores de Núcleo da TV Globo, responsável por algumas séries como a bem-sucedida "A Grande Família" e a malograda "Batendo Ponto", também gosta de escrever. Atualmente, ele integra a equipe de roteiristas de "A mulher invisível", ao lado de Leandro Assis, Cláudio Torres e Mauro Wilson, que também assina a redação final do seriado. "O diretor de Núcleo é aquele que faz de tudo um pouco. Mesmo assim, não abro mão de escrever e dirigir. É do que eu mais gosto", afirma esse pernambucano de 58 anos.

Em outubro, Miguel Arraes de Alencar Filho completa três décadas de TV Globo. Ele começou na emissora em 1981, como assistente de direção de Roberto Talma na novela "Jogo da vida", de Silvio de Abreu. Pouco depois, despediu-se do gênero - a última que dirigiu foi "Vereda tropical", de 1984 - para dedicar-se a outros formatos. Em seu currículo, alguns dos projetos mais elogiados da emissora, como a série "Armação ilimitada", o humorístico "TV pirata" e a microssérie "O auto da compadecida". Se Guel sente saudade dos tempos em que dirigia novelas? Nem um pouco... "’A Grande Família’ não deixa de ser uma grande novela para mim. Dá para matar as minhas saudades ali", desconversa, bem-humorado.

André Bernardo - Como surgiu a ideia de transformar um longa-metragem em série de TV?

Guel Arraes - Logo de cara, ao ver "A mulher invisível", achei que aquilo ali daria uma série de TV. A história é muito interessante. Para mim, é a união perfeita entre comédia romântica e realismo fantástico, um dos meus gêneros favoritos. Tem muito a ver com "Dona Flor e seus dois maridos", do Jorge Amado, por exemplo.

AB - Por coincidência, "A mulher invisível" ocupa o horário de "O divã", outro longa-metragem que migrou das telonas do cinema para as telas da TV. É uma tendência atual?

GA - De fato, "A mulher invisível" não é o primeiro produto a migrar do cinema para a TV. Se a gente puxar pela memória, vai lembrar, por exemplo, de "Cidade dos homens", que era uma variação de "Cidade de Deus". E assim por diante. O cinema pode servir de inspiração para outros formatos. É a tendência natural. Até mais natural do que o que aconteceu em "O auto da compadecida", por exemplo, que migrou da TV para o cinema. Em alguns casos, o cinema pode funcionar como uma prévia da TV. No caso de "A mulher invisível", o filme foi assistido por 2 milhões de espectadores. Na TV, a expectativa de público é bem maior.

AB - A primeira temporada de "A mulher invisível" terá apenas 5 episódios. Não é muito pouco, não?

GA - Sim, talvez. Mas, na minha opinião, o que importa não é o tamanho e, sim, o prazer que ele proporciona... (risos)

AB - Mas, a série rende uma segunda temporada?

GA - Sim, sempre existe a possibilidade de você gravar mais episódios. Mas uma segunda temporada vai depender da disponibilidade dos atores, da equipe técnica, etc. Normalmente, o sistema de temporadas funciona assim. Você exibe a primeira temporada e, depois, avalia a repercussão dela. Dependendo do resultado, grava uma segunda temporada ou não.

AB - Você acredita que, algum dia, as séries brasileiras serão tão reconhecidas no exterior como as novelas?

GA - Pessoalmente, acho que as novelas brasileiras são mais reconhecidas aqui do que lá fora. Essa é a verdade! A língua atrapalha muito a exportação. O que tem acontecido com as novelas, e pode vir a acontecer com as séries também, é você refazer os textos no exterior. No caso de "A mulher invisível", trata-se de uma história que poderia se passar em qualquer lugar. Não é uma história especificamente brasileira. Pelo que sei, é mais fácil vender o texto do que o produto.

AB - A série "A grande família" já está no ar há 10 anos. "Batendo ponto", no entanto, não passou de 7 episódios. Com toda a sua experiência, já dá para prever quando um determinado produto vai cair nas graças do público?

GA - Não. É claro que você pensa, estuda, avalia, mas não dá para prever com exatidão. O critério principal, a meu ver, é você estar satisfeito com aquele produto. Mas nem sempre você está sintonizado com o gosto do público. É tudo muito imponderável. 

'Coleção Aplauso' lança biografia dedicada ao autor Geraldo Vietri, de 'Nino, o italianinho'

André Bernardo | André Bernardo | 04/06/2011 21h31

"Quem nunca brigou com Vietri nunca trabalhou com Vietri". A frase acima foi, seguramente, a mais ouvida pelo jornalista gaúcho Vilmar Ledesma ao longo dos mais de cinco anos que ele levou para escrever a biografia "Disciplina é liberdade", que integra a "Coleção Aplauso". Neste período, Vilmar realizou mais de 30 entrevistas, com importantes nomes da TV brasileira, como Tony Ramos, Araci Balabanian e Juca de Oliveira. Todos recordaram o jeitão "polêmico" e "exaltado" do autor de "Antonio Maria" e "Nino, o italianinho", dois de seus maiores sucessos. "O homem capaz de dizer coisas bem agressivas, também costumava se retratar logo depois e, muitas vezes, mandava flores e presentes às vítimas de suas intempéries", afirma Ledesma.

Mas Geraldo Vietri (na foto, com Juca de Oliveira), que morreu na madrugada do dia 1º de agosto de 1996, não entrou para a história da teledramaturgia brasileira por ser um sujeito impulsivo e tempestuoso. Incansável e obstinado, Vietri gostava de dirigir as novelas que ele mesmo escrevia. E mais: não satisfeito, ainda editava os capítulos que iam ao ar. Com a novela "Antonio Maria", exibida pela extinta Tupi em 1968, inaugurou as sagas de imigrantes que, anos depois, tanto sucesso fariam com Benedito Ruy Barbosa. "Ao final da novela, Vietri e Sérgio Cardoso (que interpretara o protagonista) receberam do governo português a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique. O prêmio garantia a eles que, se fossem a Portugal, seriam recebidos pelas autoridades locais", observa.

André Bernardo - No próximo dia 1º de agosto deste ano, a morte de Geraldo Vietri completa 15 anos. Qual teria sido a maior contribuição dada pelo Vietri à teledramaturgia brasileira?

Vilmar Ledesma - Vietri costumava dizer que não era pioneiro e que a TV já existia quando ele ali chegou - em 1958. E, ao contrário da maioria dos profissionais do veículo, Vietri não vinha do rádio e, sim, de rápida passagem pelo cinema. Sua formação se dá primeiro nos teleteatros do TV de Comédia e, depois, nas novelas que então eram adaptadas de textos latinos. Em 1967, ele escreveu e dirigiu, como costumava fazer, "Os rebeldes", a primeira novela com texto de autor nacional. Logo, viriam os textos originais de autores como Janete Clair, Ivani Ribeiro, Dias Gomes, Walter George Durst e, em pouco tempo, a novela viraria uma mania nacional. Foram quase 40 anos de trabalho na TV.

AB - Você assinou, entre outras, a biografia do Silvio de Abreu para a "Coleção Aplauso". Qual teria sido a maior dificuldade para escrever sobre a vida de um autor já falecido?

VL - Além de já falecido, Geraldo Vietri fugia de entrevistas, o que não facilitou em nada o meu trabalho. Fiz um "tour" por bibliotecas, encontrei roteiros do teleteatro que ele realizou por anos, o "TV de Comédia"; de novelas e de filmes. E fui atrás da turma do Vietri, aquelas pessoas que trabalharam e conviveram com ele. Foram mais de 30 entrevistas. Infelizmente, as novelas da Tupi não existem mais, apenas trechos de algumas que podem ser vistas no YouTube, inclusive. E dos 13 filmes que ele dirigiu, uns dois ou três apenas foram lançados em VHS e nenhum em DVD.

AB - Dos muitos trabalhos escritos pelo Vietri para a TV (entre novelas, minisséries e até um seriado), qual seria o mais importante, inovador ou influente? E por quê?

VL - Em dez anos, de "Antônio Maria", de 1968, a "João Brasileiro", de 1978, Vietri fez sete novelas na TV Tupi, enfrentando as várias crises da emissora. Foi o auge do criador, que incluiu os imigrantes em suas tramas humanistas e que não fugiam à discussão de temas polêmicos, como o racismo e os conflitos de classes. Dessas novelas, talvez a mais importante e inovadora seja "Nino, o italianinho". Juca de Oliveira, que protagonizou a história com Aracy Balabanian, diz que, 40 anos depois, é raro o dia em que não encontre alguém que o relacione a essa novela.

AB - Há quanto tempo, você pesquisa sobre a vida de Vietri? De tudo que ouviu, leu e pesquisou, o que mais chamou a sua atenção sobre o jeito de ser ou o método de trabalho dele?

VL - Desde a ideia de escrever o livro até a publicação foram mais de cinco anos. Houve várias paradas, mas sempre surgia algo que me levava de volta ao mundo de Geraldo Vietri. E era um outro mundo. Ele escrevia, dirigia, e até editava suas novelas, algo impensável para os padrões atuais de produção. E fazia questão de disciplina, da dedicação de sua equipe. Não é por acaso que o livro se chama "Disciplina é liberdade". Era um homem polêmico, e a frase "quem nunca brigou com Vietri nunca trabalhou com Vietri" é constante em muitos dos que trabalharam com ele. As broncas faziam parte de seu método de trabalho, ele tinha pavio curto e sabia dar respostas rápidas e certeiras.

AB - Dos autores em atividade, qual deles tem o estilo mais parecido ao do Vietri?

VL - Silvio de Abreu é um dos que reconhecem a influência de Vietri em seu trabalho de novelista. E toda vez uma novela mostrar aquela família de italianos pobres, tem algo de Geraldo Vietri por ali.  

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Coautora de 'Cordel encantado', Duca Rachid comenta o atual sucesso do horário das seis

André Bernardo | André Bernardo | 02/06/2011 19h39

Se a alta cúpula da TV Globo pudesse adivinhar o sucesso que a novela "Cordel Encantado" ia fazer, talvez não tivesse esperado cinco anos para levá-la ao ar. Foi esse o tempo que a sinopse de Thelma Guedes e Duca Rachid levou na gaveta de algum executivo da emissora carioca até ser aprovada. As duas tiveram a ideia de criar uma história mesclando conto de fadas e literatura de cordel em 2006, quando ainda estavam escrevendo a nova versão de "O profeta", escrita por Ivani Ribeiro. Atualmente, "Cordel encantado" conquista média de 28 pontos de audiência e 52% de "share". Por diversas vezes, já empatou com a novela das sete, "Morde & Assopra", de Walcyr Carrasco.

Nascida Maria do Carmo Rodrigues Rachid, Duca Rachid começou a escrever novelas em Portugal, onde morou por seis anos. Lá, escreveu, entre outras, a novela "A banqueira do povo", em parceria com Patricia Mello e Maurício Arruda. Graças a este trabalho, conheceu o diretor Walter Avancini, que a convidou, em 1995, para trabalhar em "Tocaia Grande", na extinta Manchete, sob a supervisão de Walter George Durst. "Tudo o que sei sobre ficção aprendi com ele. O Durst me ensinou a buscar sempre a originalidade. Ele tinha horror ao lugar-comum", diverte-se Duca, coautora de "O profeta", "Cama de gato" e "Cordel encantado", em parceria com Thelma Guedes.

André Bernardo - O que não pode faltar em uma novela para ela fazer sucesso junto ao público?

Duca Rachid - Os mesmos ingredientes que não podem faltar a qualquer novela: uma história forte, de fôlego, com bons personagens, muitas reviravoltas, e temperada com muito romance, ação, aventura e humor.

AB - A que você atribui a tão bem-sucedida parceria com a Thelma Guedes?

DR - A gente tem muitas afinidades: artísticas, ideológicas, existenciais... Temos histórias de vida parecidas. Ideias e pensamentos semelhantes. A Thelma é uma pessoa de quem eu ficaria amiga, mesmo se não trabalhássemos juntas.

AB - Antes de ingressar na TV, você trabalhou como jornalista. De que maneira o Jornalismo ajuda você a criar histórias, compor personagens e montar escaletas?

DR - As notícias de jornal podem ser muito inspiradoras. Tanto quanto os livros, os filmes e as artes em geral. Mas Jornalismo me ensinou também a ouvir, fazer pesquisa, levantar dados e, sobretudo, a não ter apego ao texto. O texto jornalístico é muito impessoal, ao contrário do texto de ficção que traz a marca e o estilo do autor. Por outro lado, a novela é um trabalho de equipe. O resultado no ar, às vezes, fica um pouco diferente do que você escreveu, porque tem a contribuição do elenco, da direção, da produção, da edição, da sonorização... Então, minha vivência como jornalista me ensinou a lidar com isso. No Jornalismo, seu texto também tem a intervenção de um editor e, muitas vezes, ele é "padronizado" pelo redator final para "caber" dentro do estilo da publicação.

AB - "Cordel encantado" é a terceira novela que você e a Thelma Guedes escrevem a quatro mãos. Qual é o lado bom e o ruim desta parceria?

DR - O lado ruim de escrever uma novela sozinha deve ser bem maior do que a quatro mãos (risos). Novela dá um trabalho imenso! Além do texto, você tem que dar conta de milhões de outras coisas! É bom ter alguém com quem dividir tarefas. Por sorte, eu me dou muito bem escrevendo com a Thelma. Quase não temos discordâncias artísticas. Em geral, nossas ideias são "complementares" e, às vezes, a gente chega a cúmulo de ter ideias coincidentes! Quando a gente discute, é porque uma quer trabalhar mais do que a outra (risos). Só isso!

AB - Mas você já pensa em, algum dia, escrever sozinha?

DR - Por enquanto, eu não consigo me imaginar escrevendo sem a Thelma por perto. É o que sinto no momento...

AB - Você estreou na TV Globo como colaboradora do Walcyr Carrasco. Pode-se dizer que o caminho natural do colaborador seja, um dia, tornar-se autor de novelas?

DR - Nem sempre. Há colaboradores que gostam de colaborar, que nasceram pra isso. É muito difícil ser colaborador. Você tem que ficar colado no autor, viver a novela com ele, dar ideias boas e pertinentes, e escrever do jeito que ele precisa. Um bom colaborador vale ouro! Nós valorizamos muito nossas colaboradoras. Thereza Falcão, por exemplo, está comigo desde quando assumi a cabeça de equipe do "Sítio do picapau amarelo", em 2007. Assim como o Júlio Fischer e o Alessandro Marson. Nossas novas e maravilhosas "aquisições" são a Manuela Dias e a Daisy Chaves. Autoras de grande talento! Sim, porque o colaborador é um autor também... Pode não estar à cabeça da equipe, mas é um autor. Tem um papel importante na equipe. Pelo menos na nossa. Nossos colaboradores dão ideias, criticam, intervêm bastante na novela.

AB - Em "Tocaia grande", da extinta Manchete, você teve a oportunidade de trabalhar com Walter George Durst. Qual é a lembrança mais forte que você guarda deste trabalho?

DC - Nossa, foram tantas as lições! Tudo o que sei sobre ficção aprendi com ele. O Dürst me ensinou a tentar buscar sempre a originalidade. Ele tinha horror ao lugar-comum. Era um autor muito criativo, tinha uma capacidade de trabalho admirável. Um amor profundo pelo ofício. Seu objetivo era sempre escrever uma boa história, com verdade. Talvez seja essa a grande lição que aprendi com ele: escrever com verdade. 

AB - "Cama de gato" foi eleita a melhor telenovela na categoria drama no Banff World Television, do Canadá. O que este prêmio representa na carreira de vocês?

DR - Ah! Representa muito! Mais ainda, se pensarmos que somos duas autoras "novatas". É um prêmio internacional importante. "Cama de Gato" concorreu com telenovelas no mundo todo. Então, foi uma grande vitória!

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Maria Adelaide Amaral adianta detalhes sobre microssérie baseada na vida de Dercy Gonçalves

André Bernardo | André Bernardo | 25/05/2011 20h54

Maria Adelaide Amaral nem chegou a tirar férias depois de "Tititi". Depois de passar uma semana em Nova Iorque, correu para o computador, onde terminou de escrever a sinopse de seu próximo trabalho na TV Globo: uma microssérie em quatro capítulos baseada na vida da comediante Dercy Gonçalves, que morreu em 2008, aos 101 anos. A previsão é que a microssérie seja exibida em janeiro de 2012, logo após o "Big Brother Brasil". "Quero explorar aspectos da vida da Dercy que pouca gente conhece. A Dercy era um ídolo popular. Da socialite ao gari, todo mundo gostava dela", afirma a autora que lançou, em 1994, a biografia "Dercy - De Cabo a Rabo", pela Editora Globo.

Para o papel de Dercy, Maria Adelaide Amaral já escolheu as atrizes Heloísa Périssé e Fafy Siqueira. Fafy, aliás, já interpretou a comediante em outro trabalho da autora: a microssérie "Dalva e Herivelto - Uma Canção de Amor" (foto), exibida em 2010. Na microssérie sobre Dercy, Maria Adelaide retoma, também, a parceria com o diretor Jorge Fernando, iniciada no "remake" da novela "Tititi". Maria Adelaide credita a ele boa parte do sucesso da novela. "O Jorginho me disse que, ao longo de quase oito meses, ‘Tititi’ não teve um Boletim de Ocorrência sequer...", brinca. "E sabe por quê? Porque a novela fez sucesso. Sucesso faz bem para a pele e para a alma", gaba-se.

André Bernardo - Você esperava que a nova versão de "Tititi" fizesse tanto sucesso?

Maria Adelaide Amaral - Do jeito que foi, não. A novela tinha sido um sucesso em 1985. Não por acaso, foi uma das poucas que vi do início ao fim. E, quando ela foi reprisada no "Vale a pena ver de novo", vi de novo. Sempre propus à TV Globo que fizesse um "remake" de "Tititi" e "Plumas & Paetês" para o horário das sete. Mas a audiência do horário está muito pulverizada. Hoje em dia, você não compete apenas com outras emissoras de TV, compete também com outras mídias, como internet, por exemplo. Felizmente, deu tudo certo. O sucesso de "Tititi" surpreendeu a todos nós.

AB - A que você atribui o sucesso da novela? Texto, direção, elenco?

MAA - Ao conjunto da obra. Antes de qualquer coisa, tínhamos uma grande ideia em mãos. Mesmo assim, mexemos profundamente naquilo que tínhamos que mexer. Criamos novos núcleos, atualizamos algumas tramas e assim por diante. A gente ousou e, graças a Deus, teve sorte. A impressão que tenho é que, desde o início, o Cassiano Gabus Mendes, que não acreditava em Deus, estava cuidando da gente, onde quer que ele estivesse. Foi uma novela abençoada!

AB - Pela primeira vez, você trabalhou com o diretor Jorge Fernando. O que achou desta parceria?

MAA - Felizmente, a gente concordou em quase tudo. Raramente, discordávamos de algo. Tivemos sorte com a escalação. Os atores queriam fazer a novela e a fizeram muito bem. O Jorginho disse que, ao longo de quase oito meses, "Tititi" não teve um Boletim de Ocorrência sequer... (risos) E sabe por quê? Porque a novela fez sucesso. Sucesso faz bem para a pele e para a alma. Novela é trabalho coletivo. Quando o autor quer brilhar sozinho, ou quando o diretor quer brilhar sozinho, a novela não dá certo.

AB - Você está de férias ou já começou a escrever a microssérie sobre Dercy Gonçalves?

MAA - Férias? Quase nunca tiro férias! Passei só uma semaninha em Nova Iorque. Na volta, terminei de fazer a sinopse e já a entreguei ao Manoel (Martins, diretor-geral de entretenimento da TV Globo). A ideia é escrever uma microssérie em quatro capítulos, que será exibida depois do "Big Brother" por causa dos palavrões. Antes das 23h, nem pensar! (risos)

AB - Mas quatro capítulos serão suficientes para contar a vida da Dercy Gonçalves?

MAA - Não preciso mais do que isso! A microssérie da Dercy será na linha de Dalva e Herivelto. Ou seja, será um trabalho mais intimista. Sem perder de vista a comicidade dela, quero explorar aspectos da vida da Dercy Gonçalves que pouca gente conhece. A Dercy era um ídolo popular. Da socialite ao gari, todo mundo gostava dela.

AB - Em 1994, você lançou a biografia "Dercy - De cabo a rabo". Como foi a convivência com ela?

MAA - Bem, a gente se conheceu em 1993. Nessa época, ela me disse que o Boni queria que ela escolhesse uma pessoa para escrever a biografia dela. "Até que enfim, encontrei!", ela disse, na época. Poucos dias depois, o Boni me ligou. "E aí, tudo bem?", perguntou. "Tudo bem", respondi. O Boni pagou a biografia do próprio bolso. Ele adorava a Dercy. E vice-versa. A Dercy gostava do Boni como se fosse um filho. Logo, vim ao Rio e passei um mês na casa dela, gravando, gravando, gravando. A Dercy era muito divertida porque contava várias versões de uma mesma história. Na hora de decupar o material, eu ligava para ela e perguntava: "Dercy, vem cá, foi assim ou foi assado que aconteceu tal fato?". Ela respondia: "Você escolhe, porra, não me enche o saco!" (risos)

AB - Você confirma as atrizes Heloísa Périssé e Fafy Siqueira no papel de Dercy Gonçalves?

MAA - Confirmo. A Heloísa vai fazer a Dercy mais jovem e a Fafy, a Dercy mais velha. A Fafy, inclusive, era a atriz com a qual a Dercy mais se identificava fisicamente. Cheguei a escrever uma peça, "Dercy por Fafy", que a Dercy leu e adorou. Quatro dias antes de morrer, a Dercy chegou a falar dessa peça em uma homenagem que recebeu em São Paulo. A Heloísa também queria montar uma peça sobre a Dercy. Aí, pensei: "Se as duas têm o mesmo objetivo, por que não fazemos juntos?".

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